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“Crise do sindicalismo” e as possibilidades de organização dos trabalhadores no local de trabalho Autora: Elaine Marlova Venzon Francisco/Faculdade de Serviço Social da UERJ Sessão Temática: 6- Sindicalismo e outras formas de organização e resistência dos trabalhadores RESUMO: O artigo trata das possibilidades e limites da organização dos trabalhadores nas fábricas contemporâneas, considerando os dilemas atuais colocados às instituições sindicais e a outras formas de organização dos trabalhadores nos locais de trabalho. A partir de uma pesquisa empírica em planta do setor automotivo, o texto traz questões afetas ao desenvolvimento de experiências de organização política dos trabalhadores numa planta cuja produção é organizada sob um conceito arrojado de produção enxuta. Relaciona as possibilidades dessa ação política ao contexto das relações entre os diferentes sujeitos envolvidos, com ênfase no sindicato local, nos diversos segmentos gerenciais e nas demais institucionalidades políticas. Considera na análise os condicionamentos político-econômicos revelados pela inserção da corporação empresarial no mercado, assim como a conjuntura regional em que a ação política se desenvolve, sem perder de vista as relações global-local que repercutem nessas práticas. Palavras-chave: comissão de fábrica; sindicalismo; consórcio modular; organização no local de trabalho. “Crise do sindicalismo” e a organização dos trabalhadores no local de trabalho O artigo trata dos limites e possibilidades para a organização dos trabalhadores na fábrica contemporânea, levando em consideração suas relações com os sindicatos e com as corporações empresariais. A análise se dá em meio ao debate acerca da chamada “crise” do sindicalismo em nosso país e busca identificar diferentes formatos de atuação sindical junto à organização dos trabalhadores em seus locais de trabalho. Pretende contribuir ao entendimento dos impasses e possibilidades dessas formas de organização, resistência e solidariedade de classe. Um dos atuais desafios dos estudos brasileiros na área do trabalho tem sido identificar e caracterizar a existência ou não de uma crise, ou de crises, do sindicalismo e/ou de suas formas de organização, a partir dos anos 901. LIMA destaca três interpretações presentes nas discussões sobre a questão: Uma que percebeu o recuo político das organizações de trabalhadores decorrente de uma nova investida planetária do capital na produção e na organização do trabalho (...) evidenciando a sua dimensão estrutural; outra que viu a transição de um sindicalismo de enfrentamento para um sindicalismo de tipo defensivo como resultado, essencialmente, da nova conjuntura político-ideológica do país, enfatizando a subordinação dos movimentos pela “ideologia neoliberal” predominante; e uma última, que procurou nos encaminhamentos dos dirigentes, a origem do vazio da luta política no centro da ação sindical. (2006:157-158). A década de 90 colocou novas questões e novas demandas ao movimento sindical devido às profundas alterações nas formas de organização da produção, na configuração do mercado de trabalho e na precarização das condições e das relações de trabalho2. Segundo BRIDI, é possível analisar as crises a partir do pressuposto de que: O estudo comparado com outras realidades revela que a fragilização e refluxo da ação sindical, não foi simultânea, nem ocorreu de forma homogênea em todos os países, assim como as respostas sindicais e as conseqüências dos novos desafios para as organizações dos trabalhadores variam de país para país e dentro deles. (2006:283). Neste processo, os sindicatos foram impelidos a alterar substancialmente as suas pautas de reivindicação, assim como as suas estratégias de enfrentamento e de resolução de embates. A década de 90 foi palco do aparecimento de tendências políticas diferenciadas no interior do sindicalismo brasileiro que se expressaram nas diferentes 1 Excelente balanço acerca da crise do sindicalismo brasileiro consta em ARAÚJO, BRIDI e FERRAZ (2006). 2 Ver Santana e Ramalho (2003). 2 bandeiras representativas das centrais sindicais. Alteraram-se as formas de fazer a política dentro dos diversos segmentos sindicais mais representativos da classe trabalhadora em nosso país.3 As diferenças programáticas expressaram-se em relação a alguns processos sociais como, por exemplo, a privatização de empresas estatais; o deslocamento e a descentralização fabril; mas também por processos mais gerais da política brasileira – como as reformas propostas pelo estado a partir do governo Fernando Henrique Cardoso e as eleições presidenciais. Tais diferenças foram se esmaecendo ao longo do tempo e seu melhor exemplo são as bandeiras ideológicas e encaminhamentos práticos levadas a termo, tanto pela CUT quanto pela Força Sindical, ao longo dos anos 90 até os dias de hoje4. As alterações sofridas pelo sindicalismo nesta década constituem uma relação de ruptura e continuidade com fases anteriores da história sindical em nosso país. O movimento sindical na atualidade brasileira vem se refazendo diante das alterações do mercado globalizado, das reestruturações empresariais e das políticas de corte neoliberal que reforçaram a dependência da reprodução dos trabalhadores às suas relações de trabalho. Por outro lado, mais um desafio, entre outros, se coloca aos estudiosos do trabalho: refere-se à análise dos impactos das plantas reestruturadas, ou de organização enxuta, sobre a organização política dos trabalhadores no chão de fábrica e em seus sindicatos. Ou, ainda, ao desvelamento dos mecanismos forjados pelas diferentes formas de organização da produção, relacionados às práticas de ação política dos trabalhadores, para melhor qualificá-las. LIMA (2006) ressalta que: (...) um conhecimento específico dessas novas condições estruturais e institucionais pode permitir a apreensão de uma teia de fios econômicos, políticos, sociais e culturais que, embora possuam traços comuns do chamado “capitalismo globalizado”, apresenta características e dinâmicas próprias. (p. 156). Portanto, pensar as mudanças que se gestam no sindicalismo brasileiro e nas práticas cotidianas dos trabalhadores implica pensar ainda sobre diferentes formas de organização e de representação política, por eles engendradas, nos diferentes espaços em que atuam. Ou melhor, analisar as “manifestações políticas e sociais não incluídas na linha oficial da evolução do movimento operário”, como sugeria Thompson (2001). 3 Ver Rodrigues e Cardoso (1993) e Rodrigues (1995) entre outros. 4 Sobre as diferentes formulações conceituais no âmbito da CUT, ver FERRAZ (2006). 3 Para tanto, nos inscrevemos numa linha de análise que ganhou força na sociologia do trabalho realizada no Brasil, a partir dos anos 80, e que, segundo Rizek, buscou superar o economicismo e o objetivismo das análises anteriores a partir da valorização de outras dimensões, tais como: (...) a questão de uma renovação tecnológica em curso, as novas dimensões da ação política dos trabalhadores (ainda que não necessariamente a partir dos lugares tradicionais), as questões relativas à construção dessa ação no bairro, na moradia, nas igrejas, a questão do cotidiano, a visão das lutas fragmentárias no interior das empresas. (1995:168 – Grifos nossos).5 As comissões de fábrica, em geral, só começaram a se tornar objeto de preocupação acadêmica a partir desse alargamento no foco de análise e que é influenciado pelo próprio movimento da realidade conjuntural do país naquele período. Até então, não constavam dos lugares tradicionais da ação política. Entendemos que é nessa esfera da política realizada no cotidiano dos trabalhadores que a comissão de fábrica (CF) se inscreve e assim nos instiga a conhecer como desenvolve sua ação política. Principalmente quando procuramos analisar a interface dessa ação política com as práticas e dilemas do movimento sindical na mesma base. Por certo, não estamos tratando aqui de algo generalizado ou recorrente, pelo contrário. Buscamos conhecer como se desenvolve a ação política de um outro sujeito na organização política dos trabalhadores no espaço da produção diante dos condicionantes externos e internos, gerais e particulares, locais e globais, que conferem determinados tons às possibilidades de organização de ação política. 1. Organização dos trabalhadores numa planta contemporânea: o caso do consórcio modular O ponto de partida de nossa análise é a ação política desenvolvida pela comissão de fábrica(CF6) da VW Caminhões e Ônibus, em Resende/RJ(Brasil), devido às peculiaridades daquela planta, tais como: o conceito de organização da produção no formato de consórcio modular, as características de greenfield e o perfil da ação sindical 5 É importante salientar o alerta de CABANES (2006:109) quando afirma que “todos os estudos da sociologia do trabalho que não saem do local de trabalho limitam-se a fazer o relato de uma dominação minuciosamente construída, mais ou menos aceitável, mais ou menos adaptável, mais ou menos combatida”. Nós ainda estamos dentro da fábrica buscando conhecer os “mais ou menos” da resistência e do consenso. 6 Nossa pesquisa acompanhou os três primeiros mandatos, até dezembro de 2008. 4 local7. Esta comissão foi criada em 1999, por ocasião da negociação de uma greve, encontra-se atualmente em seu quarto mandato e tem desempenhado um importante papel na democratização das relações de trabalho naquela planta, assim como na ampliação das pautas de negociação encaminhadas pelo sindicato local. Considerando-se que se evidencia, na última década, uma maior fragmentação dos trabalhadores e maiores dificuldades para a organização sindical em plantas reestruturadas, esse estudo investiga os processos e as possibilidades de organização política dos trabalhadores numa planta peculiar. Analisa os processos de obtenção de consentimento, mas, também, os processos cotidianos de resistência e conflito que conformam o cotidiano de qualquer fábrica. Ainda, entende a comissão de fábrica nesses processos enquanto um sujeito político que se forma no interior das relações sociais, relações estas que envolvem trabalhadores, gerências, sindicatos e a corporação empresarial. A peculiaridade do conceito de consórcio modular, adotado na organização da produção nesta fábrica, instigou a investigação8. Neste formato, os fornecedores dos subconjuntos localizam-se no interior da produção atuando ali como parceiros e como montadores e constituem uma unidade de negócio de suas matrizes. A VW planeja o produto e o vende após a fabricação realizada pelos parceiros sob a sua supervisão. A produção se realiza através de um just in time onde os subconjuntos são enviados pelas matrizes das empresas parceiras localizadas no estado de São Paulo. O consórcio é formado por sete empresas “parceiras”, também chamadas de módulos, mais a VW, que, diariamente, definem volumes de produção e padrões de qualidade. Além dos módulos, existem várias empresas terceiras que atuam em funções de logística, manutenção, recursos humanos, restaurante, limpeza, segurança, entre outros. Tal conceito de organização da produção se realiza através da convivência diária entre diversas empresas sob o mesmo teto, desenvolvendo distintas políticas e culturas gerenciais que são referenciadas em suas matrizes, mas que seguem, naquele espaço, as determinações da empresa mãe. A VW, no caso, não é apenas mais uma parceira no consórcio, mas a empresa que planeja, controla a produção, vende e distribui o produto. 7 O resultado da pesquisa realizada até 2003 foi publicado em 2005, sob o título A Comissão Enxuta: ação política na fábrica do consórcio modular em Resende, pela EDUSC/ANPOCS. 8 Sobre este conceito de organização da produção ver Francisco (2006). 5 A fábrica começou a operar em 1996, em plena guerra fiscal9 entre os estados para atrair investimentos. Instalou-se numa região característica dos chamados greenfields: infra-estrutura; incentivos fiscais; proximidade do mercado consumidor e de saídas para exportação; mão de obra jovem, com boa qualificação e pouca experiência sindical e sem tradição de produção no setor. No que tange às relações de trabalho, todos os funcionários, assim como os terceirizados são vinculados ao mesmo sindicato10. Os acordos coletivos referentes a reajustes salariais, benefícios e definição de PLR (Participação nos Lucros e Resultados) são exclusivos dos trabalhadores das empresas do consórcio modular, excluindo-se os trabalhadores terceirizados. Apesar deste contexto considerado, a princípio, desfavorável à organização dos trabalhadores11, a comissão de fábrica foi formalizada e está composta, atualmente, por dois membros. Na VW, as comissões de fábrica12 atuam desde a década de 80, sendo que a organização mundial de seus trabalhadores remonta à década de 70 e conseguiu formalizar o Comitê Mundial dos Trabalhadores da VW em 1999. Os trabalhadores contam também com o Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense - SMSF13 que atua junto a esta base desde o início da fábrica. Um Acordo Coletivo assinado entre o SMSF e as empresas do consórcio modular regula as relações entre a comissão de fábrica e as empresas do consórcio. Este acordo delimita o âmbito de atuação política da comissão de modo que esta não possa atuar sobre questões que remetam a aspectos jurídicos, nem represente os trabalhadores terceirizados. Além disso, lhe é vedada qualquer atuação política dentro da fábrica, tais como a realização de paralisações e assembléias. No entanto, tais limites legais não impedem que a comissão os realize na prática, tanto no que se refere ao atendimento aos trabalhadores das empresas terceiras, quanto à realização de pequenos atos de resistência. Nos últimos anos, ocorreram diversas alterações, tanto na fábrica, quanto na comissão de fábrica e no sindicato. Tais mudanças requerem a continuidade da análise sobre a ação política desenvolvida pela comissão, visto que os diferentes sujeitos envolvidos nesse processo vêm alterando continuamente a formatação das relações sociais entre si. 9 É chamada de guerra fiscal a disputa que se estabelece entre os diferentes estados da federação para atrair investimentos à custa de renúncia fiscal, ou de redução de impostos e taxas. 10 Os trabalhadores das empresas terceiras, não metalúrgicas, são vinculados aos sindicatos específicos. 11 Alguns estudos sobre o consórcio modular ressaltavam as dificuldades da organização sindical naquele formato de organização da produção o que foi superado pela ação do sindicato local. Ver, entre outros, Ramalho (1999). 12 Reconhecidas corporativamente como RIE – Representação Interna de Empregados. 13 Atual denominação do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda. 6 Como exemplo de tais alterações, podemos citar, de um lado, uma ampliação significativa da produção e do quadro de trabalhadores na planta e, de outro, a mudança radical da relação entre comissão e sindicato, devido a alterações políticas significativas ocorridas no âmbito do próprio sindicato. O SMSF passou por radicais mudanças políticas desde que, em 2004, devido a denúncias de desvio de verba, o então presidente foi afastado. O diretor que assumiu interinamente a presidência do sindicato, antigo aliado político do presidente deposto, destituiu a antiga diretoria. Em abril de 2005, o presidente deposto é reempossado e, nesse processo, desfiliou o sindicato da Força Sindical, central a que estava filiado desde 1992 e procedeu a filiação à Central Única dos Trabalhadores.14 Em 2006, em um processo eleitoral do SMSF bastante tumultuado, venceu um grupo até então inexpressivo dentro do sindicato, mas que colocou novidades nas formas de interação com trabalhadores e empresas. Tais alterações conferiram mudanças substanciais às relações do SMSF com a sua base no setor automotivo. Naquele momento, a diretoria buscou legitimidade junto a essa base a partir de processos de negociação que até então eram tratados de forma direta com as gerências e que, passaram a ser discutidos junto à base. Tal aproximação se deu também através da alocação de um delegado sindical, ex-membro da CF, para atuar junto à comissão de fábrica na condição de delegado sindical. Portanto, passou a existir uma relação mais estreita entre sindicato e trabalhadores do consórcio modular, assim como uma complexificação dessa relação em direção a práticas mais democráticas, tais como a negociação da PLR em assembléias15 ou a participação do sindicato em paralisações organizadas pela CF, o que antes não acontecia. O estreitamento dessas relações pode ser constatado pela participação de dois membros da CF (um, que atuou nos três primeiros mandatos, e outro que atuou nos dois primeiros) na disputa eleitoral do sindicato, na condição de diretores, na Chapa da CUT. A participação dos membros da comissão de fábrica da VW na disputa eleitoral do sindicato, naquele momento, expressa o comprometimento político que se estabeleceu entre comissão de fábrica e sindicato. Além disso, a atuação de um deles, junto à CF, na condição de delegado sindical, é ainda mais expressiva deste envolvimento, dado que este representante sempre foi o mais crítico em relação à atuação do sindicato durante os 14 Ver Diário do Vale de 03/07/05. (Economia). www.diariodovale.com.br, Sobre a trajetória política do sindicato ver, entre outros, Pessanha e Morel (1991) e Mangabeira (1993). 15 Ver Diário do Vale, de 25/08/05. (Economia). www.diariodovale.com.br 7 dois primeiros mandatos da comissão. Segundo depoimento desses trabalhadores, tal apoio deveu-se à mudança de direção política tomada pelo sindicato, durante o litígio de 2005, que resultou na desfiliação da Força Sindical e filiação à CUT16. Mudando-se o foco para a fábrica, constata-se que o consórcio modular também vem apresentando alterações significativas17, entre elas: a troca do parceiro no módulo de cabine, o aumento significativo do número de trabalhadores, tanto do consórcio, quanto das terceiras; e, também, o acréscimo de mais um turno de produção. Em 2007, para sanar problemas de custo e estoque, a fábrica construiu um centro logístico que permite um estoque maior, assim como o deslocamento de alguns processos que acontecem no interior as planta para essa área externa. Em relação ao montante de trabalhadores, até 2004 o consórcio modular contava com, aproximadamente, 2.000 trabalhadores, sendo 1.000 terceirizados, 300 da VW e 700 das parceiras. Em 2006, dá-se um aumento significativo da força de trabalho, passando para 3.000 no total e, destes, 1.500 nas terceiras; ou seja, a metade do novo contingente foi admitida pelas empresas terceiras18. A VW passou de 300 para 500 trabalhadores. Além disso, a fábrica passou a projetar e produzir uma nova cabine e adotou o motor eletrônico, por exigência legal. Atualmente, a planta conta com 3.700 trabalhadores entre empregados da VW, parceiros do consórcio modular e terceirizados19. Em vista dessas alterações, a lucratividade do consórcio modular tem chamado a atenção da imprensa especializada em relação às possibilidades do conceito organizacional20. A alta produtividade e lucratividade desta planta também são utilizadas como referência no processo de reestruturação que a empresa vem desenvolvendo desde 2003: 16 Por ocasião das entrevistas realizadas em dez/2005, foi possível visualizar a bandeira da CUT estendida na parede na sala da CF. Anteriormente, não havia qualquer referência à filiação à Força Sindical. Em visita à comissão em 13/06/07, não havia qualquer bandeira de filiação sindical. 17 Ver também os impactos da implantação do pólo automotivo no sul fluminense sobre outras empresas e instituições naquele território, em Ramalho (2005) e Ramalho e Santana (2006a). 18 Conforme box intitulado “A Volkswagen no Brasil”, a unidade de Resende aparece com 500 empregados diretos e 2.500 empregados de fornecedores. Folha de São Paulo, 02-09-2006, (Dinheiro). 19 Ver http://www.vwbr.com.br/VWBrasil/Fabrica/Resende-RJ.aspx, acessado em 21/03/2009. 20 (...) uma operação que fatura mais de 4,1 bilhões de reais e exporta quase 25% da produção. A missão (...) agora é reproduzir em outros países o modelo consagrado no Brasil. (...) o ponta-pé inicial foi dado em outubro de 2004, com a inauguração da fábrica do México. No segundo semestre de 2006, outra unidade será aberta na África do Sul. Da localização das fábricas à definição dos produtos que serão comercializados, tudo passa pela aprovação da subsidiária brasileira. (...) No futuro, a expectativa da montadora é que a unidade do México e da África do Sul também sigam esse modelo. “Resende está no centro do mundo”. Revista Exame, 18/01/2006. (Negócios). 8 A Volks quer, além disso [demissões], reduzir custos em 25%, com implantação de processos produtivos como consórcio modular, com terceirização em massa, entre outras medidas”. (SMABC, Portal Sindical dos Metalúrgicos do ABC, 04/05/06 – grifos nossos). Todas essas alterações desencadeadas no âmbito do consórcio modular demandam da comissão de fábrica uma atuação intensiva. Por exemplo, a mudança de contrato da Delga (módulo de cabines) para a AKC trouxe a necessidade de negociações e, também, de enfrentamentos com as gerências – com paralisações na produção –, de forma a garantir a permanência dos trabalhadores da Delga na nova empresa21. A adição do segundo turno de trabalho, em 2006, demandou aos membros da CF um rearranjo de seus horários de permanência na fábrica de modo a atender ao turno que entra à tarde22. O aumento significativo do número de trabalhadores terceirizados também aumentou as demandas à CF ainda que ela, por força do Acordo Coletivo, não possa atender às demandas dos trabalhadores terceirizados. Na prática, não é o que acontece, pois estes trabalhadores procuram a CF, tanto quanto os trabalhadores do consórcio modular, além do trabalho do delegado sindical que se faz também junto aos terceirizados. É importante salientar que mesmo com todas essas alterações que trazem consigo uma ampliação do número de trabalhadores, o consórcio modular não permitiu o aumento do número de membros da comissão. A eleição de dezembro de 2008 foi para apenas dois membros, como vem acontecendo desde 2002. Ou seja, a comissão permanece enxuta. 2. Ação política no chão de fábrica: As mudanças ocorridas, tanto no âmbito do consórcio modular, como no âmbito do sindicato local, repercutem diretamente na ação política desenvolvida pela comissão de fábrica, que também passou por uma modificação em seu último processo eleitoral realizado em dezembro de 2008. A CF entrou em seu quarto mandato contando com a atuação de dois membros que nunca participaram da comissão. Cabe salientar um elemento que pode potencializar o padrão de organização da CF, que é a organização de uma articulação das comissões de fábrica da corporação 21 Em 2005, a comissão de fábrica, junto com o sindicato, paralisou a Delga durante duas horas devido a ameaças de demissões e à existência de operários trabalhando fora de sua função. Conseguiram a reclassificação dos trabalhadores e a reversão das demissões. 22 Em 2008 foi implantado o terceiro turno, mantendo o mesmo número de representantes da comissão de fábrica, dois. 9 VW, em nível nacional, através da criação do Comitê Nacional. Desde 1999, todas as plantas da VW localizadas na América Latina – por força do Acordo do Mercosul, realizado em 1999, e pela pressão do Comitê Mundial – contam com a organização dos trabalhadores através de comissão de fábrica. Já existia um encontro anual dessas comissões de fábrica, coordenado pelo representante dos trabalhadores brasileiros junto ao Comitê Mundial23, e que agora avança para uma organização permanente em nível nacional. O Comitê Nacional foi criado em julho de 2005, durante o 1º Encontro Nacional de Representantes das Comissões de Fábrica e Sindicato dos Trabalhadores na Volks, realizado em Ubatuba/SP. Organiza 27.400 trabalhadores em cinco plantas e um de seus objetivos é reunir, numa mesma convenção coletiva, os direitos e benefícios dos trabalhadores da Volkswagen no Brasil. Essa organização poderá resultar em uma maior articulação entre as comissões de fábrica existentes na VW Brasil, a partir de uma troca de experiências entre comissões localizadas em regiões bastante distintas e vinculadas a sindicatos de diferentes bandeiras, de modo a aumentar o poder de barganha das CFs no âmbito corporativo24. Os membros da comissão de fábrica de Resende participam de todos os eventos representando os trabalhadores do consórcio modular. A participação de um membro novato (menos de um ano de mandato) no encontro nacional realizado em julho de 2005, demonstra a rapidez com que os trabalhadores participantes das CFs vão sendo integrados aos sistemas de representação existentes na corporação25. A criação do Comitê Nacional confere uma nova possibilidade de articulação política entre as CFs da corporação. Principalmente, se considerarmos a busca de uma maior eqüidade entre as condições de trabalho e de salário das diferentes plantas, potencializando a capacidade de luta nas unidades com menor número de trabalhadores 23 O Comitê Mundial dos Trabalhadores da Volkswagen foi instituída em 1998, mas é resultado de uma luta dos trabalhadores da VW, em nível mundial desde meados dos anos 70. Reúne cerca de 340 mil metalúrgicos em 44 plantas distribuídas por 12 países. Mais detalhes sobre o Comitê Mundial podem ser obtidos em Nascimento (2000) e Francisco (2005). 24 É significativa a atuação das comissões da VW no episodio de ameaças de demissões por parte da VW em 2001 e também em 2006, conforme noticiou a imprensa nacional. Ver Jornal O Globo e Folha de São Paulo, de 04-05-2006. Diante da ameaça de corte de milhares de postos de trabalho até 2008, anunciada pela montadora, a imprensa noticia: “Durante reunião de 21 representantes dos trabalhadores da empresa hoje, foi decidido que a empresa não será avisada sobre datas nem horários das paralisações (...)”. Folha de São Paulo, 05/05/06. (Dinheiro). 25 Em entrevista realizada em julho/07 este representante informou que representaria a comissão de fábrica de Resende no Encontro do Comitê Mundial que se realizou no México, em agosto de 2007. 10 e de representantes, como é o caso de Resende. Ainda, pode impulsionar uma atuação política da comissão para além das questões imediatas da produção, conforme o registro do boletim da comissão: (...) Nós da comissão de fábrica Resende-RJ estivemos em duas (02) reuniões que estavam presentes todas as comissões de fábrica do grupo VW. Na última reunião foi decidido que todas as comissões deveriam encaminhar um ofício a todas as diretorias de suas plantas, solicitando a ANTECIPAÇÃO de R$2.000,00 de PLR para o mês de abril. (A Voz da Comissão – Boletim 02/05). Analisar a ação política da CF requer constatar a complexidade das relações desencadeadas entre os diversos sujeitos que dão concretude ao consórcio modular, principalmente devido ao conceito utilizado na organização da produção, somado às características de um greenfield sindical. Possibilita, ainda, demonstrar como uma organização política dos trabalhadores dentro da produção, ao mesmo tempo em que é condicionada por vários fatores – seja o formato de organização dessa produção, o perfil dos sujeitos envolvidos, as relações que se estruturam nesse contexto, além da conjuntura sócio-econômica e das condições do mercado – consegue criar a sua própria história, a partir das experiências que vivencia. Em Francisco (2005), analisamos a ação política da CF em seus dois primeiros mandatos, onde foi possível demonstrar como o acúmulo de experiências na atividade de representação conferiu uma qualidade diferente à ação política desenvolvida nos dois mandatos. Por outro lado, o consórcio modular continua crescendo e aumentando a sua produtividade através de práticas de gestão que priorizam a adesão dos trabalhadores e a formação de um consenso diário entre as gerências dos diversos módulos e, também, junto às representações sindicais. A capacidade de articulação da CF com outros sujeitos, em âmbito externo, se expressa, por exemplo, na sua participação em atividades promovidas por outras comissões de fábrica, pelos Comitês Nacional e Mundial, por outros sindicatos e instituições sindicais. Se isso, por um lado possibilita uma troca de experiências e um acúmulo de conhecimentos em termos de ação política, por outro, permite à comissão de fábrica de Resende construir a sua própria identidade referenciada na diferenciação em relação aos demais sujeitos. Segundo o depoimento de um representante: “o Comitê Nacional é bom, mas cada planta tem a sua realidade, a sua história, a sua cultura. Por 11 exemplo, com o `Bem Bolado` o trabalhador pegou R$5.300,00, o que não vai acontecer em Anchieta”. (08/12/05)26. Entretanto, os encontros de comissões também são utilizados pela empresa para reforçar o comprometimento dos trabalhadores e fomentar um comportamento cooperativo, dentro dos moldes utilizados pela gerência, o que não impede que esses espaços possibilitem, também, o aparecimento do conflito e de variadas de formas de resistência27. Assim, ao fazer interagir trabalhadores com diferentes experiências sindicais e diferentes níveis de articulação política, possibilita que os menos experientes conheçam as possibilidades e limites da ação política dos trabalhadores organizados dentro da corporação. A atuação da comissão no chão de fábrica, em seu âmbito interno, não se restringe à resolução de problemas individuais, como reza o estatuto da Representação Interna de Empregados, ainda que constitua sua atividade predominante. Dado o perfil do consórcio modular que possui poucos níveis hierárquicos nos módulos, as questões individuais são levadas pelos trabalhadores aos seus supervisores imediatos (encarregados). Caso não obtenham solução, são encaminhadas ao gerente do módulo. O atendimento de questões trazidas pelos trabalhadores das empresas terceiras, o que é vedado pelo estatuto da comissão28, mas que não gera nenhuma punição gerencial sobre esta quebra de estatuto, revela-se como um avanço na ação política da CF. Chama a atenção o fato de que mesmo podendo ser caracterizada como “quebra de estatuto” – como a gerência registra em outras situações – não ocorre qualquer punição por parte da VW. Essas ações não são divulgadas, mas efetivamente acontecem no cotidiano do trabalho da comissão de fábrica, configurando um universo de demandas que vai desde trabalhadores com salários atrasados, até situações de risco ou insalubridade29. Para atendê-las, os membros da comissão de fábrica desenvolveram as suas estratégias políticas: levam-nas diretamente ao RH da Volks com o argumento de que, mesmo 26 O Bem Bolado foi uma negociação encaminhada pela comissão de fábrica e sindicato da VW Resende que consiste num “pacote” que inclui a negociação das 44 horas e PLR. 27 Do 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores na Volks, realizado em julho de 2005, resultou uma Carta de Repúdio dos Trabalhadores às “atitudes arbitrárias da empresa em relação a todos trabalhadores e representantes sindicais na planta de Anchieta e a demissões de trabalhadores em Curitiba e Resende”. Também no Encontro do Comitê Mundial realizado em Puebla, no México, em maio de 2006, “foi definida a criação de um símbolo internacional e aprovada uma declaração para demonstrar a luta de resistência dos trabalhadores e denunciar que não existe responsabilidade social por parte da Volks”. (SMABC, Portal Sindical dos Metalúrgicos do ABC, 23/05/2006). www.smabc.org.br . 28 Referência ao acordo coletivo assinado entre empresas do consórcio modular e sindicato, que regulamenta a atuação da comissão de fábrica. 29 Em novembro de 2004, a comissão de fábrica paralisou, pela primeira vez, uma empresa terceira devido a perdas de direitos dos trabalhadores numa mudança de contrato. 12 sendo problema de uma empresa terceira, os trabalhadores se identificam, em qualquer lugar fora da fábrica, como trabalhadores da Volkswagen. A partir de 2005, a atuação de um ex-membro da CF, como delegado sindical, tem formalizado essa atuação política da comissão junto aos trabalhadores terceirizados. A finalidade colocada pela empresa para a existência da comissão de fábrica está pautada, como em todas as demais existentes na corporação Volkswagen, na obtenção de uma relação cooperativa por parte dos trabalhadores, onde a empresa possa evitar situações de conflito que prejudiquem a sua produtividade e a sua posição no mercado. Dada a peculiaridade do consórcio modular em que a própria Volkswagen tem que construir diariamente um consenso entre seus fornecedores em torno de metas de produção e índices de qualidade, para a comissão de fábrica se coloca também a necessidade de uma atuação política regrada por esse consenso. Apesar da política interna da VW acerca do papel da comissão de fábrica, no caso do consórcio modular a gerência de RH/VW é pressionada pelos parceiros, no sentido de controlar a ação política da comissão. Isto porque paralisar qualquer segmento do processo produtivo significa dizer que quem paralisa são trabalhadores de empresas parceiras e não trabalhadores da Volkswagen. Sem contar que, em tal formato de just in time, bastante exacerbado, paralisações no consórcio afetam trabalhadores de outras fábricas em outras cidades ou estados. Por conta disso, a comissão de fábrica da VW/Resende, além de ter que negociar cotidianamente com diferentes gerentes de diversas empresas, quando adota uma estratégia de maior enfrentamento, tem que organizar trabalhadores de diferentes empresas. Logo, o apoio do sindicato às ações da comissão se faz tão necessário, quanto o apoio das outras comissões de fábrica da corporação Volkswagen. No contexto do consórcio modular, a possibilidade de esvaziamento da ação política, através da busca incessante de soluções de consenso, é limitada pelo próprio formato de organização, tanto pela produção extremamente enxuta, quanto pela diversidade gerencial dos parceiros. Ambos os elementos conferem um caráter conservador às relações entre gerências e trabalhadores, assim como uma precarização das relações de trabalho nas empresas terceiras. Portanto, o perfil do consórcio modular restringe e molda a ação política da CF, mas não impede que ela a desenvolva revelando o espaço da fábrica como espaço de 13 consenso e de dissenso, de cooperação e de conflito, de tolerância e de disputa. Ou seja, como espaço também da política30. 3. Possibilidades e limites da organização política: No bojo de uma propalada “crise do sindicalismo” os trabalhadores engendraram novas formas de enfrentamento em suas diferentes modalidades de organização. Partindo-se da análise do setor automotivo, a experiência que vem sendo desenvolvida na planta de Resende, assim como pelas demais comissões de fábrica da corporação VW, oferece subsídios para pensar as transformações que essa forma de organização vem vivenciando ao longo da história dos movimentos de trabalhadores em nosso país. Indica, por exemplo, as alterações de pauta e de estratégias de enfrentamento, principalmente, se focalizarmos suas experiências a partir dos anos 8031. Neste século, a ação política se desloca para a negociação das relações de trabalho, a partir de demandas remanescentes da década de 90. Ou seja, ações de resistência ao desemprego, às formas de terceirização, à perda de direitos, entre outros. As plantas já reestruturadas, e aquelas que já foram criadas a partir dos preceitos da produção enxuta, colocam novas demandas aos trabalhadores e suas formas de organização. Soma-se a isso a dilapidação dos serviços públicos, a partir da reforma do Estado, que fez aumentar a dependência dos trabalhadores às suas relações de emprego. Ainda, é preciso considerar as diversas alterações no mundo do trabalho que intensificaram o montante de trabalhadores vinculados a empregos temporários, em tempo parcial e tantas outras formas de trabalho desprotegido. É exemplar, a anunciada “crise” da Volkswagen do Brasil32 que tem demonstrado, desde 2001, a importância e a necessidade das organizações no local de trabalho, assim como de sua associação ao sindicato e a outras institucionalidades regionais33, como estratégia para o enfrentamento das questões postas aos trabalhadores, como destacam Rodrigues e Ramalho: 30 Política entendida nos termos de Rancière (1996 e 1999) enquanto expressão pública do dissenso. 31 As comissões de fábrica da VW (Anchieta e Taubaté) e Scania, na região do ABC, comemoraram seus 25 anos entre 2007 e 2008. 32 Sobre os impactos da crise da VW Brasil ver, entre outros, Rodrigues e Ramalho, “VW esqueceu o ABC”, publicado no O Estado de São Paulo, em 03/09/06. Caderno ALIÁS. 33 Ver “Prefeitos do ABC se oferecem para ajudar nas negociações com a Volks”, O Globo OnLine, 11/09/2006. 14 (...) as dificuldades de ter que negociar sob ameaça (de fechamento de fábrica, por exemplo) apontam para novas práticas sindicais que são mobilizadas em direção a preocupações sociais mais amplas e a estratégias de ação que ultrapassam as fronteiras locais, tendo em vista o deslocamento das montadoras para outras regiões brasileiras. (Rodrigues e Ramalho, 2006). Durante a greve de agosto de 2006, encaminhada pelos trabalhadores da Volkswagen no ABC para negociar as demissões anunciadas pela montadora, é significativo o registro da imprensa sindical acerca do papel da organização no local de trabalho34: No entanto, diante da ameaça de um grande número de demissões em várias plantas da empresa no Brasil e no mundo, cabe frisar o significativo isolamento da comissão de fábrica de Resende e seu sindicato, deste processo. A fábrica de Resende, além de reportar-se corporativamente à matriz, na Alemanha, e de ter como foco principal a exportação, seu formato de organização em consórcio modular confere uma relação diferenciada de seus trabalhadores com os das outras fábricas da corporação no Brasil. Ainda que a planta da Volks/Resende não esteja diretamente envolvida nesse processo de reestruturação, e que a sua CF não apresente um grande acúmulo em termos de organização política, o desenvolvimento de relações mais politizadas em relação à prática sindical expressa uma complexificação da ação política por ela desempenhada. As alterações sofridas pelo sindicato local em seu último processo eleitoral desafiam a CF no sentido de adotar estratégias políticas de participação e de intervenção que ampliam consideravelmente o âmbito de organização dos trabalhadores do consórcio modular. Por outro lado, foi exatamente este processo de disputa eleitoral do SMSF que fez com que tanto a comissão de fábrica, quanto a própria executiva sindical, direcionassem seus esforços de organização, naquele momento, para o pleito, sem privilegiar a grave crise que passou a afetar os trabalhadores da VW no Brasil. Há que ressaltar, mais uma vez, que a organização dos trabalhadores, dentro do consórcio modular, significa organizar trabalhadores de diferentes empresas da cadeia, para além dos trabalhadores Volkswagen. 34 Barbosa (2002:11) lembra que na Volkswagen “se deu grande parte dos episódios que melhor expressam os conflitos, contradições e avanços da trajetória sindical do ABC, com base nas organizações no local de trabalho”. 15 O envolvimento dos representantes da VW Resende na disputa sindical e o seu distanciamento, assim como do sindicato, em relação às lutas travadas no interior da corporação, naquele momento crítico, demonstram que há ainda um longo caminho a percorrer, do ponto de vista da organização interna dos trabalhadores naquela planta. Ao sindicato local também se apresenta este desafio, dado que um novo grupo assume o sindicato, expressando uma disputa interna ao campo da CUT, o que pode reforçar ainda mais o foco nas lutas em torno do aparelho institucional, em detrimento da organização dos trabalhadores em seus locais de trabalho. A instalação do pólo automobilístico na região sul fluminense, a partir de meados dos anos 90 e com crescimento contínuo por mais de uma década, coloca o SMSF em uma situação que não remete a uma “crise”, tal como acontece em outras regiões do país. A base deste sindicato aumentou consideravelmente, assim como a vinda das montadoras coloca este sindicato em conexão com outros sindicatos, centrais, federações, que até então não faziam parte de sua institucionalidade. Colocou-o, ainda, defronte a outras formas de organização dos trabalhadores que até então não eram praticadas na região e não faziam parte da sua cultura sindical, como é o caso da comissão de fábrica. O fato de se posicionar favoravelmente à chegada das montadoras e assumir uma postura mais conciliatória não impediu que o sindicato fosse rapidamente levado a dar conta das demandas efetivas dos trabalhadores desde o início do funcionamento das empresas e enfrentar as particularidades das culturas gerenciais. (RAMALHO e SANTANA, 2006b:125). Nesse sentido, como vimos anteriormente, o sindicato local vem passando, desde 2005, por uma “crise” que está mais afeta a determinadas posturas políticas de seus dirigentes (LIMA, 2006), do que a elementos externos, tais como: desemprego, redução do número de sindicalizados, deslocamento de plantas, mercado recessivo, ou qualquer outro fator que se quisesse elencar, pois tais elementos não comparecem à realidade sul fluminense neste período. Os contextos diferenciados de luta expressos pela atual situação dos trabalhadores da VW no Brasil, apresentam traços de convergência e colocam novas questões aos trabalhadores formais da fábrica contemporânea de forma geral35. À 35 O setor automotivo no Brasil tem anunciado reiteradas vezes processos de reestruturação baseados na demissão de trabalhadores e fechamento de plantas aqui e no exterior, apesar de registrar crescimento. 16 ameaça constante do desemprego soma-se a luta pela manutenção de direitos e por condições de trabalho, que também se expressam na realidade dos trabalhadores em Resende. Neste contexto, a organização dos trabalhadores em seus locais de trabalho revela a sua importância na medida em que publiciza questões internas à produção e as articula a lutas maiores encaminhadas pelos sindicatos e por outras institucionalidades que passam a compor o jogo político. Ainda que essa articulação política entre sindicatos e, no caso, comissões de fábrica, seja tensa e permeada de conflitos, ela detém um potencial diferenciado na defesa dos interesses dos trabalhadores. Coloca, portanto, em pauta a reformatação de estratégias e práticas sindicais que interpelam as concepções e práticas políticas existentes. Não fala apenas da “crise do sindicalismo”, mas sim de qualificar esta crise e identificar outras e/ou novas formas de solidariedade e de práticas sindicais na defesa dos interesses dos trabalhadores. BIBLIOGRAFIA BARBOSA, Mário dos S. Sindicalismo em tempos de crise: a experiência na Volkswagen do Brasil. Campinas: IE/UEC. 2002. Dissertação de Mestrado. Mimeo. BRIDI, Maria A. As várias manifestações de crise no sindicalismo e a crítica ao pensamento generalizante de crise. In: ARAÚJO, Silvia, BRIDI, Maria A. e FERRAZ, Marcos (orgs.). O Sindicalismo equilibrista: entre o continuísmo e as novas práticas. Curitiba: UFPR/SCHLA. 2006. Pp.281-312. 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O objetivo principal é demonstrar a associação entre tais fatores e insegurança social causada pelo não atendimento das necessidades humanas básicas. O trabalho é baseado nos dados da PNAD 2004-IBGE. Construímos uma metodologia para o estudo destas relações, através de cruzamentos de variáveis e indicadores tomados como proxis, seguindo-se a apresentação de resultados de análises de regressão logística, para variáveis vinculadas aos fenômenos sociais estudados. A análise isolada indica que a renda é o principal fator gerador de IA no país, mas a análise do conjunto demonstra que tais resultados estão fortemente associados a fatores geradores de insegurança social, principalmente o não atendimento das necessidades básicas dos cidadãos. Palavras-chave: renda e trabalho; características sócio-demográficas; insegurança alimentar; Necessidades Humanas Básicas. 1 Doutora em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela UFRRJ/ICHS. 2 Mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela ENCE/IBGE. (In) Segurança Alimentar, Necessidades Humanas Básicas, Trabalho, Ocupação e Renda nos domicílios brasileiros: panorama recente da desigualdade estrutural brasileira 1. Introdução A recorrente desigualdade social no Brasil, provocada por fatores de ordem estrutural, confere as análises e proposições sobre as formas de enfrentá-la um caráter de urgência do qual decorre a supressão das ações, também de ordem estrutural e que pretendam atingir as suas causas, orientadas para a sua superação. Com frequência, os programas e iniciativas sob a responsabilidade do Estado ou da sociedade civil enveredam para o ataque às consequências visíveis e imediatas dos problemas, urgentes, mas nem sempre os importantes. O debate atual é marcado por distintas compreensões do papel da política social e econômica, ainda sob os efeitos da globalização neoliberal, de tal maneira que só a crise global mais recente trouxe à tona a questão do (des)emprego como preocupação dos tomadores de decisões e difusores de informação. É perfeitamente compreensível que o entendimento da questão social brasileira assim se mostre ao senso comum, mas não é esse o caso para um tratamento mais profundo, como o requerido aos pesquisadores e gestores desse campo de políticas, tendo em vista quebra de expectativas e a fragmentação de direitos que vêm abrindo espaço para uma nova gramática social construída a partir de noções individualistas e de mérito pessoal, e o estado de insegurança (Castel: 2005) e de desproteção (Pereira: 2007) em que se encontra a população que não pode garantir individualmente o acesso aos seus direitos sociais através das trocas de mercado. O emaranhado de problemas decorrentes de situações de pobreza, miséria e fragmentação da cidadania, e o avanço das compreensões assentadas na idéia de uma gramática social de menos Estado (WACQUANT, 2001), dominada por conceitos como protagonismo e empoderamento (empowerment), contribuíram para que definições utilizadas no desenvolvimento dos planos de enfrentamento dos problemas sociais fossem empregadas a partir de significados que dão conta dos aspectos urgentes do assunto, deixando escapar o principal. Nossa perspectiva é trazer a tona uma visão menos fragmentada da questão social brasileira a partir da construção de indicadores sociais e econômicos construídos com base nos dados presentes na PNAD 2004, do IBGE, tendo em vista esta edição da pesquisa apresentar informações bastante abrangentes sobre temas relevantes à compreensão da questão em foco, que torna possível a construção de indicadores sócio-econômicos que podem ser metodologicamente tratados para demonstrar a relação entre os mesmos. Particularmente relevante para a escolha da edição 2004, foi o Suplemento de Segurança Alimentar que consta da pesquisa, e que não foi reeditado posteriormente. Nosso objetivo principal é relacionar as questões sociais prementes, mas não menos estruturais, da realidade brasileira, tais como a insegurança alimentar e a não garantia do atendimento das necessidades humanas básicas a todos os cidadãos, a indicadores econômicos relacionados a emprego, ocupação e renda, e indicadores do perfil-sócio demográfico da população, de modo a demonstrar a forte inter-relação entre eles. Isto significa 1 questionar a gestão fragmentada e focalizada das políticas voltadas para “os pobres”, e retomar o debate sobre o fortalecimento das políticas universalizantes e fortalecedoras da cidadania no seu sentido pleno, por mais “fora de moda” ou “old fashioned” que isto possa parecer. Para atingir tais objetivos, utilizamos dois procedimentos metodológicos distintos para possibilitar a visão de conjunto necessária, e demonstrar a relação entre os fenômenos e variáveis estudadas, apresentadas a seguir. 2. Procedimentos metodológicos e análise descritiva dos resultados Primeiramente, construímos uma metodologia de indicadores das relações entre necessidades humanas básicas e segurança alimentar, de modo a evidenciar a sua forte conexão, a partir da comprovação da empírica da forte relação positiva entre o não suprimento de ambos. Cabe adiantar, tomamos o Direito à Alimentação como um dos Direitos Sociais, e, portanto, como um direito coletivo, e não somente “do indivíduo”, de modo que a garantia de Segurança Alimentar e Nutricional deve estar integrada às diretrizes das Políticas Sociais (MITCHELL, 2007). Na segunda análise, utilizamos modelos de regressão logística, de modo a apresentar a relação entre as variáveis sócio-econômicas e demográficas utilizadas, cujos métodos e resultados são descritos na seção específica. É importante notar, a escolha das variáveis a serem empregadas nas regressões logísticas está relacionada, e em alguma medida complementa, às componentes da metodologia das necessidades humanas básicas, como ficará evidente ao longo do trabalho. 2.1.Indicadores para estudo das relações entre as Necessidades Humanas Básicas e Segurança Alimentar Apresentamos aqui a metodologia construída e aplicada para o estudo das relações entre as NHBs e a Segurança Alimentar - SA. Trata-se de um exercício estatístico que pretende aproximar-se da realidade, através de um sistema que permite o cruzamento de indicadores de dimensões de NHBs insatisfeitas com indicadores SA e distintos níveis de Insegurança Alimentar - IA. Proporcionamos uma descrição breve das principais características da metodologia estabelecida, e a seguir analisamos os resultados encontrados, tratando das dimensões de NHBs insatisfeitas criadas, e seus em cruzamentos com a SA e os diferentes graus de IA. Ao final, avaliamos os resultados das combinações possíveis de 1, 2 ou 3 dimensões de NHBs insatisfeitas cruzadas com IA (MITCHELL, 2007). Primeiramente elegemos o método da percepção da Segurança Alimentar, aplicado em um suplemento da PNAD 2004, como uma proxy da SAN, para nossos objetivos de análise estatística. O Suplemento de Segurança Alimentar inserido na PNAD 2004 baseou-se na Escala Brasileira de Segurança Alimentar - EBIA, desenvolvida por Segall (2007) e Universidade de Campinas Universidade de Campinas (2004). A metodologia da escala, bem como sua adaptação para a PNAD 2004, é amplamente conhecida no meio acadêmico, de modo que, por restrições de espaço disponível para o paper, recomendamos a leitura da metodologia aplicada na pesquisa [(PNAD 2004, 2006a) (MITCHELL e PESSANHA:2008)]. Para uma análise descritiva do perfil sócio-econômico e ocupacional da população em insegurança alimentar ver Mitchell e Pessanha (2008). Para maiores detalhes sobre esta metodologia e sua aplicação ver Mitchell (2007). 2 Cabe lembrar, em linhas gerais, a IA Grave se refere à restrição alimentar vivenciada pelos moradores dos domicílios, devido à falta de recursos de seus moradores, que conviveram com o sentimento da fome, com uma freqüência que podia variar entre “em um ou dois dias”, “em alguns dias” e “em quase todos os dias”, referindo-se ao período de 90 dias que antecedeu à data da entrevista da PNAD 2004. (PNAD 2004, 2006a, p.27). A situação de IA Moderada ou Grave significou limitação de acesso quantitativo aos alimentos, com ou sem o sentimento da fome (PNAD 2004, 2006a, p.27) e, a IA Leve significou o mais reduzido nível de IA observada pelos moradores. Adotamos a utilização de dados no nível domiciliar, tendo em face o usufruto comum de bens e serviços existentes e disponibilizados nos domicílios por todos os moradores em que neles habitam. Foram adotados apenas os Domicílios Particulares Permanentes (DPPs), visto que na PNAD 2004, as informações que dizem respeito às características gerais domiciliares (principalmente em termos de Habitação e Serviços Sanitários – NHBI-H) só podem ser captadas nos questionários referentes a esse tipo de domicílios3 Quanto à metodologia desenvolvida para as Necessidades Humanas Básicas Insatisfeitas (NHBIs), nosso objetivo não é dar conta de todas as dimensões que envolvem as necessidades humanas básicas, mas construir uma metodologia que traduza esses requerimentos através de proxys, a partir dos indicadores levantados na PNAD 2004, de modo a expor com clareza a relação concreta entre as NHB e a SA, tomando a segunda como uma das dimensões da primeira. Para os indicadores referentes a NHBIs, procedemos a adaptações de estudo de âmbito internacional, através do material de Expert Group on Poverty Statistics (2006, p.104-115) e da América Latina, com os trabalhos de Feres e Mancero (CEPAL:2001). Em seguida, utilizamos o trabalho de Lustosa (2000, p.7-12) para o caso brasileiro, exatamente uma adaptação de metodologia de NHBs para a PNAD. A partir daí, construímos uma metodologia adaptada aos nossos objetivos com base nos dados disponíveis na PNAD 2004, erigindo um panorama indicativo das distintas privação das NHBs, por meio de indicadores adequados à realidade brasileira. Deste modo, obtivemos uma visão da insatisfação das NHBs, através das três dimensões selecionadas, constituídas por um conjunto de indicadores, resultantes da coleta de variáveis – isoladas ou agrupadas -compiladas na PNAD 2004. Convém esclarecer que todos os indicadores e dimensões receberam peso idêntico no procedimento, uma vez que o objetivo era identificar os domicílios com insuficiência de acesso a NHBs. O quadro 1 apresenta as dimensões das NHBs, e seus indicadores. Vale salientar a importância equivalente de cada uma das três dimensões apresentadas visto que as mesmas têm o mesmo objetivo, demonstrar os vazios existentes na garantia da satisfação das NHBs .4 3 Na PNAD 2004, o total de Domicílios Particulares Permanentes expandidos foi da ordem de 51.752.528, representando 99,831% do total de unidades domiciliares do país neste ano. O total de Domicílios Particulares Improvisados expandidos encontrados pela pesquisa foi de 49.593, o que representou 0,096% do total de unidades domiciliares. O total de unidades domiciliares existentes em Domicílios Coletivos foi de 37.883 (0,073% do total de unidades domiciliares). Cabe registrar ainda, a PNAD 2004 pesquisou 399.354 pessoas moradoras em 139.157 unidades domiciliares (PNAD, 2006a, p.13-16). Após a utilização dos pesos calculados, exatamente de acordo com a metodologia recomendada pela PNAD 2004, os dados expandidos corresponderam a 182.060.108 moradores em 51.840.004 domicílios com entrevistas realizadas. 4 Os resultados apresentados se referem aos dados coletados na amostra da PNAD, ressaltando-se que os cálculos ponderados para cada domicílio fizeram pelo respectivo fator de expansão (de acordo com a metodologia da pesquisa), no programa SAS. 3 A dimensão Habitação, Serviços Sanitários e Acesso a Informação (NHBI-H) identifica os requisitos indispensáveis à moradia, fornecendo condições de vida saudáveis a seus habitantes. Esta capta ainda as condições de acesso aos serviços de saneamento da população e a precariedade no acesso à informação (através da falta de TV e rádio na unidade domiciliar), entendida como formas exclusão social. A dimensão Condições Educacionais e Não- ocupacionais de Crianças e Adolescentes (NHBI-E) captura as lacunas existentes a garantia das necessidades de formação educacional, comprometendo o processo de aprendizado infantil, interrompendo seu desenvolvimento educacional e acelerando seu ingresso no mercado de trabalho. A dimensão Capacidade de Subsistência (NHBI-C) identifica requisitos de educação, gênero e de inserção sócio-ocupacional dos membros do domicílio que podem tornar a pessoa de referência da unidade domiciliar e, por conseqüência os demais moradores, mais vulneráveis ao contexto social em que vivem. Quadro 1 - As Três Dimensões das Necessidades Humanas Básicas Insatisfeitas (NHBIs) Dimensões de Necessidades Básicas Insatisfeitas (NBIs) ligadas à: Condições Educacionais e Não- Habitação, Serviços Sanitários e Acesso à Item ocupacionais de Crianças e Capacidade de Subsistência (NBI-C) Informação (NBI-H) Adolescentes (NBI-E) . Existência no domicílio de Morador entre . Material Não Durável na Construção do 7 e 14 anos que Não Freqüenta Escola ou . Pessoa de Referência do domicílio que Nunca 1 Domicílio (taipa não revestida, madeira que tenha entre 11 e 14 anos que tenha no Tenha Freqüentado Escola ou aproveitada, palha etc.) ou Máximo Três Anos Completos de Estudo ou . Existência no domicílio de algum . Falta de Banheiro / Sanitário ou Posse de . Pessoa de Referência do domicílio que possui no 2 Adolescente / Adulto (de 10 anos ou mais) Banheiro / Sanitário Compartilhado ou Máximo Três Anos Completos de Estudo ou Analfabeto ou . Existência no domicílio de alguma . Pessoa de Referência mulher que Nunca Tenha 3 . Abastecimento de Água Impróprio ou Criança entre 7 e 14 anos que Nunca Freqüentado Escola ou que possua no máximo Tenha Freqüentado Escola ou Três Anos Completos de Estudo ou . Existência no domicílio de alguma . Pessoa de Referência do domicílio com no . Congestionamento, cuja habitação possui alta 4 Criança entre 7 e 14 anos que Esteja Máximo 3 Anos Completos de Estudo e com 4 ou densidade de moradores por domicílio ou Ocupada no Mercado de Trabalho Mais Moradores por Morador Com Trabalho . Domicílios sem Canalização de Água para 5 ___________ ___________ Pelo Menos um Cômodo ou . Domicílios com Esgotamento 6 ___________ ___________ Banheiro/Sanitário Impróprio ou 7 . Lixo Não Coletado no domicílio ou ___________ ___________ 8 . Ausência de Eletricidade no domicílio ou ___________ ___________ 9 . Ausência de Geladeira no domicílio ou ___________ ___________ . Precariedade no Acesso à Informação no 10 ___________ ___________ Domicílio (ausência de rádio e TV no domicílio) Fonte: Elaborado por Mitchell (2007) - adaptação livre com base em EXPERT GROUP ON POVERTY STATISTICS – RIO GROUP (2006) e Lustosa (2000). 2.2.1.Análise de resultados: Segurança Alimentar, Necessidades Humanas Básicas na PNAD 2004 Na seção, apresentamos a análise individual das dimensões de necessidades humanas básicas insatisfeitas construídas e suas relações com a insegurança alimentar. A tabela 1 apresenta o total de domicílios encontrados na expansão da amostra, com os respectivos 4 indicadores de segurança alimentar e tipo de insegurança alimentar. Do mesmo modo, os totais de domicílios para cada dimensão de necessidades humanas básicas insatisfeitas selecionadas. Foram totalizados 51.752.528 domicílios5, dos quais 34,8% sofriam de IA e 6,5% de IA Grave. Dos 23.761.886 domicílios identificados com insuficiência de NHBs habitacionais, 47,4% registraram IA e 10,8% IA Grave. Entre os 12.316.088 domicílios com ausência de NHB educacionais e não-ocupacionais de crianças e adolescentes, 54,8% passavam por IA e 14,0% por IA Grave. Já dos 16.451.042 domicílios que registraram de problemas relacionados à insuficiência de NHB de capacidade de subsistência da família, 50,% padeciam de IA e 12,% de IA Grave. Tabela 1 - Domicílios Particulares Permanentes, por Situação de Segurança Alimentar e Tipo de Insegurança Alimentar, Segundo Situação de Ocorrência das Dimensões de NHBIs - Brasil - 2004 Domicílios Particulares Permanentes e Insegurança Alimentar Segurança as Três Dimensões com suas Condições Total (1) Alimentar IA de NHBIs Total IA Leve Moderada IA Grave 51 752 528 33 732 277 17 996 775 8 301 171 6 352 611 3 342 993 Total de DPPs 100,0% 65,2% 34,8% 16,0% 12,3% 6,5% 23 761 886 12 480 568 11 263 323 4 495 847 4 212 766 2 554 710 Total de DPPs com NHBI-H (2) 100,0% 52,5% 47,4% 18,9% 17,7% 10,8% 12 316 088 5 553 519 6 755 197 2 375 002 2 649 816 1 730 379 Total de DPP com NHBI-E (3) 100,0% 45,1% 54,8% 19,3% 21,5% 14,0% 16 451 042 8 222 420 8 221 212 3 024 283 3 218 585 1 978 344 Total de DPP com NHBI-C (3) 100,0% 50,0% 50,0% 18,4% 19,6% 12,0% Fonte: Elaborado por Mitchell (2007) com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004. 1- Inclusive os domicílios com Situação de Segurança Alimentar ignorada. 2- Inclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. 3- Exclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. A Habitação, Serviços Sanitários e Acesso a Informação (NHBI-H) tem maior ocorrência, com as maiores estimativas de domicílios em pelo menos um indicador selecionado. A Tabela 2 apresenta o resultado das estimativas da dimensão habitacional e seus indicadores, por situação de SA e tipo de IA. Cabe destacar, os domicílios pesquisados podem apresentar, individualmente, mais de uma NHB insatisfeita, e do total de 23.761.886 domicílios que registraram pelo menos um indicador na dimensão habitacional, 11.263 323 sofriam de IA, equivalendo a 47% do total. Observa-se nos dez indicadores que compõem a dimensão proporções significativas de ocorrências de domicílios em IA, já que a menor percentagem de ocorrência encontrada de indicadores vinculando NHBI-H a IA é superior a 45%. Os indicadores mais registrados nos domicílios foram: a) problemas de inadequação de serviços sanitários; b) sem canalização de água; c) com problemas de congestionamento, ou seja, mais de três de moradores dormindo no mesmo cômodo; d) sem acesso à informação por rádio e 5 Cabe ressaltar, a análise de resultados diz respeito aos domicílios particulares permanentes, DPPs, daqui por diante, denominados tão somente como domicílios, para facilitar a compreensão do texto. 5 tv; e) sem geladeira; e f) aqueles sem eletricidade; registram proporções superiores a 60% de IA. Importante notar, significa seis em cada dez domicílios. Num segundo patamar, situado entre os valores percentuais de 50% a 45% encontramos os domicílios com NHBI-H com indicadores de: a) falta de coleta de lixo, b) esgotamento sanitário inadequado, c) construção com material não durável e d) abastecimento de água inadequado. Cabe ressaltar ainda, que dos 23.761.886 domicílios com pelo menos um indicador da dimensão habitacional, encontrou-se IA Grave em 2.554.710, ou seja, 10,8%. Destes, os domicílios com: a) falta de acesso à informação, b) inadequação de compartimento sanitário, c) falta de geladeira, d) ausência de canalização de água, e e) mais de três moradores dormindo no mesmo cômodo registraram proporções de IA Grave entre 24% e 17%. Os demais apresentaram proporções de IA Grave entre 10 e 12,5%. A tabela 3 ilustra as estimativas em valores absolutos e percentuais de domicílios, por situação de SA e tipo de IA, segundo a dimensão Educacional e Não-ocupacional de Crianças e Adolescentes (NHBI-E) e de cada um de seus indicadores. É importante ressaltar que, para os quatro indicadores que compõem a dimensão educacional, as ocorrências nos domicílios com moradores em IA estão em patamares superiores a 50%. Os domicílios pesquisados podem apresentar, individualmente, mais de uma NHB insatisfeita e, do total de 12.316.088 domicílios que registraram pelo menos um indicador educacional, 6.755.197 sofriam de IA, ou seja, 55% do total. Os domicílios com crianças entre sete e 14 anos fora da escola ou com adolescentes de 11 a 14 anos com no máximo três anos de estudos completos, bem como aqueles com crianças de 7 a 14 anos que nunca freqüentaram a escola apresentaram percentagens de IA superiores a 60%. Os domicílios que com crianças de 7 a 14 anos que trabalharam, e analfabetos com 10 anos ou mais de idade registraram proporções entre 55% e 60% de IA. Ademais, dos 23.761.886 domicílios com pelo menos um indicador da dimensão educacional, aferiu-se IA Grave em 17.30.379, correspondendo a 14,0%, uma percentagem superior àquela da dimensão habitacional. Nos domicílios com crianças de 7 a 14 anos que nunca freqüentaram a escola e também com crianças entre sete e 14 anos fora da escola e os com adolescentes de 11 a 14 anos com no máximo três anos de estudos completos, foram apuradas proporções de IA Grave entre 20 e 23%. Para os domicílios com crianças de 7 a 14 anos ocupadas e os com existência de analfabeto de 10 anos ou mais foram encontradas proporções em torno de 15%. 6 Tabela 3 - Domicílios Particulares Permanentes, por Situação de Segurança Alimentar e Tipo de Insegurança Alimentar, Segundo a Dimensão de NHBI-E e Seus Indicadores - Brasil - 2004 Domicílios Particulares Permanentes e Insegurança Alimentar Segurança as Três Dimensões com suas Condições Total (1) Alimentar IA de NHBIs Total IA Leve Moderada IA Grave 51 752 528 33 732 277 17 996 775 8 301 171 6 352 611 3 342 993 Total de DPP 100,0% 65,2% 34,8% 16,0% 12,3% 6,5% NHBI-E (2) Total de DPP com Pelo Menos um 12 316 088 5 553 519 6 755 197 2 375 002 2 649 816 1 730 379 Indicador de NHBI-E 100,0% 45,1% 54,8% 19,3% 21,5% 14,0% Criança 7-14 Anos Fora da Escola ou 683 564 227 343 453 228 147 021 159 446 146 761 1- 11-14 Anos c/Máximo de 3 Anos Completos de Estudo 100,0% 33,3% 66,3% 21,5% 23,3% 21,5% Existência de Analfabeto de 10 Anos ou 11 154 115 4 953 275 6 197 028 2 116 161 2 453 684 1 627 183 2- Mais 100,0% 44,4% 55,6% 19,0% 22,0% 14,6% Criança 7-14 Anos que Nunca 248 262 88 146 160 116 52 761 50 492 56 863 3- Freqüentou Escola 100,0% 35,5% 64,5% 21,3% 20,3% 22,9% 1 734 408 714 891 1 017 103 382 218 370 580 264 305 4- Criança 7-14 Anos que Esteve Ocupada 100,0% 41,2% 58,6% 22,0% 21,4% 15,2% Fonte: Elaborado por Mitchell (2007) com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004. 1- Inclusive os domicílios com Situação de Segurança Alimentar ignorada 2- Exclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. A tabela 4 exibe as estimativas de domicílios por situação de SA e tipo de IA, segundo a dimensão Capacidade de Subsistência (NHBI-C ) e cada um de seus indicadores. Aqui é importante destacar também, que para os quatro indicadores que integram a dimensão capacidade de subsistência, os registros de domicílios com moradores em IA estão em patamares iguais ou superiores a 50%. Como sabido, os domicílios pesquisados podem apresentar, individualmente, mais de uma NHB insatisfeita. Deste modo, do total de 16.451.042 domicílios com pelo menos um indicador de (in)capacidade (ou dificuldade) de subsistência, 8.221.212 sofriam de IA, ou seja, 50% do total. De acordo com os indicadores selecionados, os domicílios com NHBI-C com registro de IA informaram proporções no situadas no intervalo 50-54%, na seguinte escala decrescente: a) pessoa de referência com no máximo três anos de estudos completos e com mais de quatro moradores para cada morador ocupado; b) pessoa de referência que nunca freqüentou a escola ou com no máximo três anos de estudos completos; c) pessoa de referência nunca freqüentou a escola; e d) pessoa de referência com no máximo três anos de estudos completos. Os 1.978.344 domicílios com IA Grave corresponderam a 12% do total de domicílios com NHBI-C. As proporções encontradas para cada indicador situaram se entre 14% e 12%, com ligeira mudança de ordenamento, obedecendo ao critério decrescente: a) pessoa de referência com no máximo três anos de estudos completos e com mais de quatro moradores para cada morador ocupado; b) pessoa de referência nunca freqüentou a escola; c) pessoa de referência que 7 nunca freqüentou a escola ou com no máximo três anos de estudos completos; d) pessoa de referência com no máximo três anos de estudos completos. Tabela 4 - Domicílios Particulares Permanentes, por Situação de Segurança Alimentar e Tipo de Insegurança Alimentar, Segundo a Dimensão de NHBI-C e Seus Indicadores - Brasil - 2004 Domicílios Particulares Permanentes e Insegurança Alimentar Segurança as Três Dimensões com suas Condições Total (1) Alimentar IA de NHBIs Total IA Leve Moderada IA Grave 51 752 528 33 732 277 17 996 775 8 301 171 6 352 611 3 342 993 Total de DPP 100,0% 65,2% 34,8% 16,0% 12,3% 6,5% NHBI-C Total de DPP com Pelo Menos um 16 451 042 8 222 420 8 221 212 3 024 283 3 218 585 1 978 344 Indicador de NHBI-C 100,0% 50,0% 18,4% 19,6% 12,0% 50,0% 5 550 887 2 734 098 2 815 511 949 828 1 109 825 755 858 1- PRD - Nunca Freqüentou Escola 100,0% 49,3% 50,7% 17,1% 20,0% 13,6% PRD com no Máximo 3 Anos 16 451 042 8 222 420 8 221 212 3 024 283 3 218 585 1 978 344 2- Completos de Estudo 100,0% 50,0% 50,0% 18,4% 19,6% 12,0% PRD Mulher Nunca Freq. Escola ou 4 799 009 2 342 637 2 453 783 848 723 963 174 641 886 3- com no Máx. 3 Anos Comp. Estudo 100,0% 48,8% 51,1% 17,7% 20,1% 13,3% PRD - Máximo 3 Anos Comp. de 4- Estudo e c/4 ou Mais Morad. p/Morad. 5 382 085 2 501 802 2 878 362 957 343 1 156 622 764 397 Ocupado (2) 100,0% 46,5% 53,5% 17,8% 21,5% 14,2% Fonte: Elaborado por Mitchell (2007) com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004. 1- Inclusive os domicílios com Situação de Segurança Alimentar ignorada 2- Exclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. 2.1.2.Refinando a análise de indicadores: combinando as dimensões das Necessidades Humanas Básicas Insatisfeitas em suas relações com a (In)Segurança Alimentar Nesta subseção, prosseguimos com a proposta de indicadores para relacionar Necessidades Humanas Básicas Insatisfeitas com (In)segurança Alimentar. Aqui, procedemos à combinação das dimensões das NHBIs selecionadas entre si, e o seu cruzamento com a e tipos de IA, como demonstrado na tabela 5. Para isso, bastou que um dos indicadores selecionados para qualquer dimensão estudada fosse identificado como faltante ou insuficiente no domicílio, dado o caráter de unicidade das NHBs. Do mesmo modo que nos procedimentos anteriores, todas as variáveis, indicadores e dimensões estudadas, receberam peso equivalente, pois as dimensões de NHB igualmente equivalem em importância entre si, não preponderando uma sobre as demais. Como discorremos anteriormente, foram totalizados 51.752.528 domicílios6, dos quais 34,8% sofriam de IA e 6,5% de IA Grave. Dos 23.761.886 domicílios com NHBI habitacionais, 47,4% registraram IA e 10,8% IA Grave. Entre os 12.316.088 domicílios com NHBI educacionais e não-ocupacionais de crianças e adolescentes, 54,8% passavam de IA e 14,0% de IA Grave. Já dos 16.451.042 domicílios com NHBI de capacidade de subsistência da família, 50,% padeciam de IA e 12,% de IA Grave. Cabe acrescentar, contudo, que dos 21.463.558 domicílios que não registraram nenhuma dimensão de NHB insatisfeitas, 20,15 informaram a ocorrência de IA e apenas 1,9% de IA Grave. 6 Entenda-se, mais uma vez, domicílios particulares permanentes, ou DPPs. 8 No exercício estatístico, primeiramente, contabilizamos os domicílios com registro de pelo menos uma dimensão de NHB habitacional, educacional ou de capacidade de subsistência das famílias insatisfeita. Do total de 30.288.970 domicílios, em 45,2% se encontravam situação de IA e 17,4% em IA Grave, o que podemos considerar proporções significativas. Mais significativo ainda é o estado dos domicílios com as três dimensões das NHB insatisfeitas, ou seja, aqueles que sofrem concomitantemente de falta ou insuficiência de garantias habitacionais, educacionais e de capacidade de subsistência das famílias. Ainda que o total de domicílios encontrados seja reduzido em relação ao anterior - o que se esperava, pois se trata da ocorrência conjunta das três dimensões estudadas - ou seja, 7.301.207, há uma percentagem muito maior de domicílios em situação de IA: 60,7%. Ademais, nesta circunstância, a proporção de domicílios em IA Grave praticamente dobra, crescendo para 17,4%. A análise dos resultados da conjunção da ocorrência domiciliar de duas dimensões de NHBIs também indica forte relação entre os indicadores de NHBIs e IA, pois todas as combinações apresentaram proporções entre 56% e 60% de domicílios em IA. Dos 8.814.748 domicílios com insuficiências habitacionais e educacionais encontrados, 59,6% apresentaram IA e 16,6% IA Grave. Por sua vez, dos 9.735546 domicílios com registro de insatisfação de necessidades educacionais e de capacidade de subsistência da família, 57,0% perfaziam moradores sofrendo de IA e 15,1% de IA Grave. Por fim, entre os 10.990.959 domicílios com insatisfação de necessidades habitacionais e de capacidade de subsistência da família, 56, 2% apresentaram eventos de IA e 15,0% de IA Grave. Tudo isso, a nosso ver, comprova empiricamente para o caso brasileiro, a intrínseca relação entre a IA e as demais dimensões das NHBs, e a necessidade de se integrar o Direito á Alimentação como um dos Direitos Sociais, e tomar as políticas de Segurança Alimentar e Nutricional como uma das diretrizes das Políticas Sociais. 9 Tabela 5 - Domicílios Particulares Permanentes, por Situação de Segurança Alimentar e Tipo de Insegurança Alimentar, Segundo Situação de Ocorrência das Dimensões de NHBIs - Brasil - 2004 Domicílios Particulares Permanentes e Insegurança Alimentar Segurança as Três Dimensões com suas Condições Total (1) Alimentar IA de NHBIs Total IA Leve Moderada IA Grave 51 752 528 33 732 277 17 996 775 8 301 171 6 352 611 3 342 993 Total de DPPs 100,0% 65,2% 34,8% 16,0% 12,3% 6,5% Pelo Menos Uma Dimensão de NHBI Total de DPPs com Ocorrência de Pelo 30 288 970 16 576 375 13 692 860 5 615 468 5 132 865 2 944 527 Menos Uma Dimensão de NHBI (NHBI-H ou NHBI-E ou NHBI-C) 100,0% 54,7% 45,2% 18,5% 17,0% 9,7% Com Três Dimensões de NHBIs ao Mesmo Tempo Total de DPPs com Ocorrência das Três 7 301 207 2 864 091 4 434 087 1 400 608 1 766 185 1 267 294 Dimensões de NHBI (NHBI-H e NHBI-E e NHBI-C) 100,0% 39,2% 60,7% 19,1% 24,2% 17,4% Com Duas Dimensões de NHBIs ao Mesmo Tempo Total de DPPs com Ocorrência de NHBI-H e 8 814 748 3 552 576 5 255 888 1 727 717 2 063 441 1 464 730 NHBI-E 100,0% 40,3% 59,6% 19,6% 23,4% 16,6% Total de DPPs com Ocorrência de NHBI-H e 10 990 959 4 808 942 6 175 768 2 097 373 2 429 325 1 649 070 NHBI-C 100,0% 43,8% 56,2% 19,1% 22,1% 15,0% Total de DPPs com Ocorrência de NHBI-E e 9 735 546 4 182 705 5 549 303 1 855 182 2 221 721 1 472 400 NHBI-C 100,0% 43,0% 57,0% 19,1% 22,8% 15,1% Com Uma Dimensão de NHBI 23 761 886 12 480 568 11 263 323 4 495 847 4 212 766 2 554 710 Total de DPPs com NHBI-H (2) 100,0% 52,5% 47,4% 18,9% 17,7% 10,8% 12 316 088 5 553 519 6 755 197 2 375 002 2 649 816 1 730 379 Total de DPP com NHBI-E (3) 100,0% 45,1% 54,8% 19,3% 21,5% 14,0% 16 451 042 8 222 420 8 221 212 3 024 283 3 218 585 1 978 344 Total de DPP com NHBI-C (3) 100,0% 50,0% 50,0% 18,4% 19,6% 12,0% Sem Nenhuma Dimensão de NHBI Total de DPP Sem Nenhuma Dimensão de 21 463 558 17 155 902 4 303 915 2 685 703 1 219 746 398 466 NHBI 100,0% 79,9% 20,1% 12,5% 5,7% 1,9% Fonte: Elaborado por Mitchell (2007) com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004. 1- Inclusive os domicílios com Situação de Segurança Alimentar ignorada. 2- Inclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. 3- Exclusive os moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico ou parente do empregado doméstico. 10 2.2. Regressão Logística Na segunda análise, a segurança alimentar dos domicílios foi categorizada em: segurança alimentar (código 0) e insegurança alimentar (código 1), e em seguida avaliou-se a probabilidade de determinada categoria apresentar insegurança alimentar por meio da análise de regressão logística. O modelo de regressão logística é definido por:  π ( x)  ln  = β 0 + β1 x1 + β 2 x 2 + ... + β p x p  1 − π ( x)  onde xi são as variáveis de independentes e β é o vetor de parâmetros desconhecidos. A medida de associação calculada a partir do modelo logístico é o Exp(β). O fator Exp(β) nos fornece o odds ratio ou razão de chance com relação a categoria de referência. Se Exp(β), aqui denominado OR (odds ratio), for maior que 1 significa que as chances estão aumentando, se menor que 1 as chances estão diminuindo, sempre em relação a categoria de referência. No modelo de regressão logística univariado cada variável é avaliada sem controlar as demais, fornecendo o odds ratio bruto (OR bruto). Já no modelo de regressão logística multivariada todas as variáveis consideradas no modelo estão controladas entre si (OR ajustado). Assim, os odds ratio ajustados são obtidos através da comparação de elementos que diferem apenas na característica de interesse e que tenham os valores das outras variáveis constantes. 2.2.1.Análise de resultados Os resultados do modelo são apresentados como razões de chance (odds ratio – OR ajustado) e os respectivos intervalos de confiança de 95% (CI 95%). O nível de significância adotado foi de 5% (p<0,05). Dois modelos de regressão logística foram gerados. No primeiro (Tabela 6) levou-se em consideração a Situação de Ocupação. No segundo modelo (Tabela 7) utiliza-se as Dimensões das NHBIs, com odds ratio bruto. 11 Tabela 6 - Razão de chance (OR) e intervalo de confiança para um domicílio apresentar Insegurança alimentar - Brasil - 2004 Variável Wald p OR CI 95% Sexo Feminino 2004,503 0,000 1,03 1,025 1,027 Masculino 1,00 Grupos de Idade 0 a 9 anos 4960,713 0,000 1,43 1,416 1,445 10 a 17 anos 27202,89 0,000 1,41 1,404 1,415 18 a 64 anos 17581,55 0,000 1,27 1,268 1,277 65 ou mais 1,00 Anos de Estudo Menos de 1 ano 417663,7 0,000 2,03 2,021 2,030 de 1 a 3 anos 382956,9 0,000 1,84 1,838 1,845 de 4 a 7 anos 255878,9 0,000 1,49 1,483 1,488 de 8 a 10 anos 97126,87 0,000 1,30 1,300 1,304 11 ou mais 1,00 Renda Domiciliar per capita Sem Rendimento 850006,9 0,000 44,28 43,920 44,634 até ½ s.m. 3738135 0,000 34,37 34,251 34,498 mais de ½ até 1 s.m. 1894419 0,000 11,20 11,161 11,238 mais de 1 até 3 s.m. 736729,1 0,000 4,42 4,400 4,430 mais de 3 s.m. 1,00 Situação de Ocupação Não-Ocupado 78033,2 0,000 1,30 1,299 1,304 Ocupado 1,00 Situação do Domicílio Urbano 466745,6 0,000 1,66 1,654 1,659 Rural 1,00 Cor-Raça Branca 307,984 0,000 1,08 1,067 1,084 Preta e parda 11529,34 0,000 1,56 1,547 1,572 Outras 1,00 Região do País Norte 136961,1 0,000 1,57 1,564 1,571 Nordeste 376961,8 0,000 1,78 1,775 1,782 Centro-oeste 16667,4 0,000 1,18 1,173 1,179 Sudeste 26265,61 0,000 1,15 1,147 1,151 Sul 1,00 Tipo de Família Mãe com filhos menores de 14 e + 97611,68 0,000 1,71 1,701 1,713 Mãe com todos os filhos de 14 + 211360,8 0,000 1,58 1,576 1,582 Mãe com todos os filhos menores de 14 64196,43 0,000 1,45 1,444 1,452 Casal com filhos menores de 14 e + 20910,83 0,000 1,13 1,124 1,128 Casal com todos os filhos de 14 + 10639,86 0,000 1,08 1,080 1,084 Casal sem filhos 4034,363 0,000 1,07 1,063 1,067 Casal com todos os filhos menores de 14 1,00 X2 = 24305844 ; p = 0,000 ; gl = 25 No que diz respeito ao sexo, a distribuição da população é homogênea, sendo as mulheres estão ligeiramente mais expostas a IA (OR = 1,03) do que homens. O efeito da idade revelou-se significativo com as faixas etárias de 0-9 (OR = 1,43), 10-17 (OR = 1,41) e 18-64 (OR = 1,27) com mais chance de exposição a IA que o grupo de 65 anos ou 12 mais. Os indivíduos de raça/cor branca (OR = 1,08) têm a exposição a IA de uma forma semelhante ao grupo outros (referência), enquanto o grupo de cores Preto e Pardo apresenta uma maior chance de exposição a IA (OR = 1,56). No que diz respeito aos anos de estudo, nota-se que a exposição à IA diminui a medida que aumenta os anos de estudo do indivíduo, a partir de OR = 2,03 em indivíduos com menos de 1 ano de estudo a OR = 1,30 em indivíduos com 8 a 10 anos de estudo, quando comparados com os indivíduos com 11 ou mais anos de estudo. O mesmo fenômeno pode ser observado na classe de rendimento mensal per capita. Os domicílios sem renda e aqueles com renda até meia salário mínimo apresenta muito mais chance de exposição a IA, em comparação com as famílias com renda per capita superior a 3 salários mínimos. Essa situação continua, nos domicílios com renda per capita de mais de ½ até 1 salário mínimo e mais de 1 até 3 salários mínimos. Cabe lembrar, o salário mínimo no período de referência é de R $ 260,00, com o dólar em 2004, valendo US$ 2.9259, temos o salário mínimo equivalente a US$ 88,86. No que diz respeito à situação de ocupação, os indivíduos não-ocupados estão mais expostas a IA que os ocupados. Quando a situação do domicílio é rural, as famílias apresentam menos exposição a IA do que os da zona Urbana. Este fato leva-nos a considerar que, ao controlar os domicílios no mesmo estrato de renda, pessoas de áreas rurais têm um acesso mais fácil ao alimento do que nas zonas urbanas, devido à produção de subsistência. Por região do país, há uma predominância da IA no Norte e Nordeste do país, o que confirma o resultado da análise descritiva. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste têm o mais baixo nível de IA, quando comparadas com as regiões Norte e Nordeste. Precisamente as regiões Norte e Nordeste do país são aqueles com menor renda da população. O mesmo ocorre com o Tipo de Família. À medida que aumenta a razão de dependência aumenta também a IA. Assim, a família com menor exposição a IA, são aquelas formadas por casais sem filhos e Casal com todos os filhos menores de 14. A tabela 7 apresenta os resultados para a análise das NHBIs em termos de OR brutos. Tabela 7 - Razão de chance (OR) e intervalo de confiança para um domicílio apresentar Insegurança alimentar, segundo as NHBIs - Brasil – 2004 Variável Wald p OR CI 95% NHBI Isolada NHBI Habitação 3721976 0.000 3.24 3.239 3.247 NHBI Educação 162902.3 0.000 2.66 2.652 2.677 NHBI Subsistência 134570.7 0.000 2.44 2.430 2.454 NHBI Composta NHBI H & E 60097.35 0.000 3.18 3.149 3.208 NHBI H & S 38054.37 0.000 2.19 2.173 2.207 NHBI E & S 16133.01 0.000 2.61 2.571 2.648 NHBI Generalizada NHBI H & E & S 145040.3 0.000 3.08 3.062 3.097 13 No que diz respeito à NHBI, em todos os casos, o odds ratio bruto evidencia que a presença de qualquer dimensão de NHBI implica um aumento na exposição a IA. Este aumento é significativo e mais que duplica a chance do domicílio apresentar IA. Aliás, normalmente se associa a ocorrência de NHBI à pobreza e, portanto, parece mais lógica a incidência de ocorrências de NHBIs em DPPs em IA. Contudo, elas existem tanto em situação de SA como de IA, mas verifica-se que a presença de NHBIS aumenta a chance dos domicílios apresentarem moradores com IA. A ocorrência de três dimensões concomitantes de NHBI significa que o domicílio possui a ocorrência simultânea de pelo menos um item de cada uma das três dimensões de NHBI. Pode- se perceber um fato surpreendente, caso o domicílio apresente concomitantemente as 3 dimensões de NHBI a chance do mesmo estar em IA aumenta em 3 vezes. Deve-se atentar que a presença de NHBI Habitação mais que triplica a chance do domicílio apresentar IA. O mesmo ocorre se a NHBI Habitação estiver associada à NHBI Educação, onde a chance do domicílio apresentar IA praticamente triplica. A análise multivariada de algumas variáveis, além do rendimento domiciliar, tais como: cor/raça, anos de estudo, condições de ocupação, tipo de família e região do país, também estão associadas com a questão da IA. Outras variáveis relacionadas às necessidades básicas insatisfeitas (NHBIs), também apresentam grande associação com IA e, especialmente, a IA grave, quando a ocorrência de pelo menos um item de cada dimensão de NHBI. Sobretudo, configura-se que quando mais dimensões de NHBIs estão presentes no domicílio, maior será a exposição a IA, em relação ao grupo de referência. Considerações Finais É oportuno apresentar uma breve revisão dos principais resultados encontrados, no que eles fortalecem o ponto de vista aqui em defesa da necessidade de tratamento integrado das questões de desigualdade que fragmentam a sociedade brasileira. Primeiramente, cabe lembrar, foram totalizados 51.752.528 domicílios7 na PNAD 2004, dos quais 34,8% sofriam de IA e 6,5% de IA Grave. Dos 23.761.886 domicílios com NHBI habitacionais, 47,4% registraram IA e 10,8% IA Grave. Entre os 12.316.088 domicílios com NHBI educacionais e não-ocupacionais de crianças e adolescentes, 54,8% passavam de IA e 14,0% de IA Grave. Já dos 16.451.042 domicílios com NHBI de capacidade de subsistência da família, 50,% padeciam de IA e 12,% de IA Grave. Cabe acrescentar, contudo, que dos 21.463.558 domicílios que não registraram nenhuma dimensão de NHB insatisfeitas, 20,15 informaram a ocorrência de IA e apenas 1,9% de IA Grave. Ainda no primeiro exercício estatístico, contabilizamos os domicílios com registro de pelo menos uma dimensão de NHB habitacional, educacional ou de capacidade de subsistência das famílias insatisfeita. Do total de 30.288.970 domicílios, em 45,2% se encontravam situação de IA e 17,4% em IA Grave. Do ponto de vista da cidadania, esta ocorrência é significativa uma vez que da perspectiva da garantia dos direitos sociais, do o não suprimento de uma NHB implica no não atendimento pleno dos demais, haja vista a indivisibilidade e unicidade dos direitos da cidadania. Deste modo, não menos relevante é encontrar também, na tabela 5, 7 Mais uma vez, domicílios particulares permanentes, ou DPPs. 14 21.463.558 domicílios com total satisfação das NHB, dos quais 20,1% registravam algum tipo de IA, ou seja, 12,5% IA Leve, 5,75% IA Moderada e 1,9% IA Grave. Relevante ainda é o caso dos domicílios com as três dimensões das NHB insatisfeitas. Ainda que o total de domicílios encontrados seja reduzido em relação ao anterior - o que já se esperava - ou seja, 7.301.207, há uma percentagem muito maior de domicílios em situação de IA: 60,7%. Ademais, nesta circunstância, a proporção de domicílios em IA Grave praticamente dobra, crescendo para 17,4%. Os principais resultados da regressão logística evidenciam claramente uma relação inversamente proporcional entre IA e classe de rendimento mensal per capita. Os domicílios sem renda e aqueles com renda até meia salário mínimo apresentam muito mais chance de exposição a IA, em comparação com as famílias com renda per capita superior a 3 salários mínimos. Essa situação permanece nos domicílios com renda per capita de mais de ½ até 1 salário mínimo e mais de 1 até 3 salários mínimos. Na verdade, é amplamente estudado e debatido o fato de que a desigualdade de renda é fator de desigualdade estrutural dos mais persistentes na sociedade brasileira. A mesma relação inversamente proporcional IA/anos de estudo é encontrada, observa-se que a exposição a IA diminui a medida que aumenta os anos de estudo do indivíduo, a partir de OR = 2,03 em indivíduos com menos de 1 ano de estudo a OR = 1,30 em indivíduos com 8 a 10 anos de estudo, quando comparados com os indivíduos com 11 ou mais anos de estudo. Este é também um dos maiores indicadores de desigualdade estrutural no Brasil, tendo em vista constituir fortes barreiras de acesso a empregos mais qualificado e mesmo ocupações formalizadas no mercado de trabalho. É oportuno esclarecer que isso fortalece mais a quantificação de variáveis vinculadas à educação em nossa metodologia para a captação das NHBIs. Ainda no que se refere ao mercado de trabalho, indivíduos não ocupados estão mais expostos a IA, bem como as famílias com situação de domicílio rural. O mesmo podemos dizer da exposição à IA e desigualdade estrutural entre o as regiões Norte/Nordeste e Sul/Sudeste do país. As razões de chance encontradas para IA e tipo de família, cor e raça, idade e sexo refletem a nosso ver, as outras dimensões da desigualdade relativas ao perfil sócio demográfico da população brasileira, amplamente discutidas, e muitas delas divulgadas na análise de resultado do Suplemento PNAD 2004 (IBGE: 2006a). Tais resultados justificam a escolha de algumas das variáveis como integrantes das dimensões capacidade de subsistência das famílias na metodologia das NHBs. Em todos os casos, o odds ratio bruto evidencia que a presença de qualquer dimensão de NHBI implica um aumento na exposição a IA. Este aumento é significativo e mais que duplica a chance do domicílio apresentar IA. Aliás, normalmente se associa a ocorrência de NHBI à pobreza e, portanto, parece mais lógica a incidência de ocorrências de NHBIs em DPPs em IA. Contudo, elas existem tanto em situação de SA como de IA, mas verifica-se que a presença de NHBIS aumenta a chance dos domicílios apresentarem moradores com IA. A ocorrência de três dimensões concomitantes de NHBI significa que o DPP possui nos seus domicílios, a ocorrência simultânea de pelo menos um item de cada uma das três dimensões de NHBI. Pode-se perceber um fato surpreendente, caso o domicílio apresente 15 concomitantemente as 3 dimensões de NHBI a chance do mesmo estar em IA aumenta em 3 vezes. Deve-se atentar que a presença de NHBI Habitação mais que triplica a chance do domicílio apresentar IA. O mesmo ocorre se a NHBI Habitação estiver associada à NHBI Educação, onde a chance do domicílio apresentar IA praticamente triplica. A análise multivariada de algumas variáveis, além do rendimento domiciliar, tais como: cor/raça, anos de estudo, condições de ocupação, tipo de família e região do país, também estão associadas com a questão da IA. Outras variáveis relacionadas às necessidades básicas insatisfeitas (NHBIs), também apresentam grande associação com IA e, especialmente, o FI grave, quando a ocorrência de pelo menos um item de cada dimensão de NHBI. Sobretudo, configura-se que quando mais dimensões de NHBIs estão presentes no domicílio, maior será a exposição a IA, em relação ao grupo de referência. Por fim, a metodologia apresentada aborda a questão social brasileira em distintas dimensões, haja vista que na implementação das políticas públicas, há a necessidade de conhecer as diferentes dimensões da realidade, aproximando-se dela o máximo possível através de indicadores – uma vez que as estatísticas, seus métodos e resultados não se confundem com a realidade, mas nos aproximação dela. Aqui, a vantagem de abordar várias dimensões das NHBIs, bem como os distintos graus de IA, agregada a outros indicadores sócio-econômicos e demográficos, é a possibilidade de observar, de forma mais detalhada, as diferentes condições de desigualdade e exclusão por que passam as famílias e cidadãos residentes nos domicílios brasileiros. Mais uma vez, os resultados apresentados demonstram empiricamente a intrínseca relação entre IA e as demais dimensões das NHBs, pelo menos no caso brasileiro, e a necessidade de se integrar o Direito á Alimentação como um dos Direitos Sociais, e, considerá-lo como um direito coletivo, e não somente “do indivíduo”, de modo a considerar a garantia de Segurança Alimentar e Nutricional como integrante das diretrizes das Políticas Sociais. Cabe destacar ainda, um de nossos objetivos era construir uma metodologia simples e facilmente reprodutível e aplicável em distintas esferas territoriais e de governo, e que pudesse ser replicada posteriormente, pois acreditamos na necessidade de inserção regular de suplementos de Segurança Alimentar no veículo de pesquisa da solidez e importância da PNAD, de modo a acompanhar a evolução no tempo de indicadores de SA e NHBs e sua relação com outros indicadores, aqui propostos. Cumpre ressaltar que nossa iniciativa apresentada não pretende “corrigir” ou “superar” estudos estatísticos anteriormente propostos nesta linha, sendo nosso objetivo, muito ao contrario complementar e contribuir para o debate o desenvolvimento do estado das artes e o conhecimento do problema. Por fim, enfatizamos que pretendemos com este trabalho, trazer uma pequena contribuição ao conhecimento da realidade nacional, a com o objetivo de fortalecer as ações governamentais no campo das políticas sociais, de modo que possam ser traduzidas de forma mais aderente realidade que deve conduzir as diretrizes do desenvolvimento social, numa tentativa de superação das Necessidades Humanas Básicas e da Insegurança Alimentar no território nacional. 16 Referências bibliográficas CASTEL, Robert. A Insegurança Social: O que é ser protegido?. Ed. Vozes,2005. EXPERT GROUP ON POVERTY STATISTICS – RIO GROUP. Compendium of Best Practices in Poverty Measurement. Santiago. Chile. Maio de 2006. 155p. 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WACQUANT, Löic; Os Condenados da Cidade. Editora Revan, 2001. 17 SESSÃO TEMÁTICA 8- Discriminação e precariedade no trabalho, trabalho degradante e trabalho decente Título: A “empresarização” da rua: os camelôs de tecnologia, de produtos tecnológicos ou globais do centro do Rio de Janeiro Bruno José Rodrigues Durães. Doutorando em Ciências Sociais, Unicamp/SP, Brasil. Resumo O presente trabalho trata de um estudo sobre os trabalhadores de rua que ofertam produtos tecnológicos (máquinas digitais, games, etc.) nas ruas do Rio de Janeiro, partimos da questão: será uma forma diferente de trabalho informal, onde predomina a lógica do lucro (do negócio) e não a do trabalhador? O objetivo foi evidenciar a nova configuração da informalidade de rua no Brasil, que sai da sobrevivência e passa a uma relação mais rentável e globalizada. Os boxes destes camelôs parecem “lojas” de rua, com toda “lógica e estilo” formal de trabalho. Foram aplicados 42 questionários. Palavras chave: Informalidade, trabalho de rua, precariedade, camelô. 2 1- Introdução Pretende-se neste texto trazer à tona um tipo de informalidade de rua que se reconfigurou nos últimos anos, os camelôs que ofertam produtos tecnológicos/eletrônicos (equipamentos de informática, máquinas digitais, MP3, MP4, MP7, MP9, equipamentos para games, etc.), no camelódromo da Uruguaiana, centro do Rio de Janeiro, os quais denominamos de camelôs de tecnologia, de produtos tecnológicos ou globais. O objetivo central do texto é evidenciar essa nova configuração da informalidade de rua, tendo como base a idéia de que estes não representam mais um mero segmento ligado especificamente à sobrevivência imediata, composto por baixos rendimentos, baixa qualificação e reduzida escolaridade, bem como sem quase nenhum tipo de separação entre donos do negócio e trabalhadores. Mostraremos aqui, através da exposição de alguns dados em tabelas, como este novo tipo de camelô passa a representar o que denominamos de processo de empresarização da rua ou, ainda, uma espécie de formalização às avessas. São pois, como veremos a frente, formas de trabalho que passam a incorporar em seu cotidiano toda uma lógica e estilo de trabalho formal. Isso fica evidente não só na fala dos/as trabalhadores/as, como também em alguns de seus atributos, como no caso dos rendimentos obtidos na atividade. Em praticamente 100% dos funcionários pesquisados foi observado que sempre havia além do salário, outros benefícios, como auxílio alimentação/transporte, pagamento de 13º salário, comissões e também férias remuneradas (tudo isso através de contratos de boca). Eles possuíam também horário fixo de trabalho. Já para os camelôs- proprietários1, nota-se uma renda elevada, chegando, em alguns casos, a ficar acima de 10 salários mínimos. De modo geral, a renda dos camelôs, tanto os funcionários quanto dos donos, ficam acima da base da renda mínima nacional, o que em si serve para mostrar uma importante diferenciação deste trabalho informal. Logo, a informalidade de rua não é mais o lócus exclusivamente do aleatório, das vendas sem controle, sem organização, ao contrário, agora, pode-se falar em uma informalidade de moldes empresariais, como veremos mais claramente à frente com os dados que mostraremos. Por fim, parece haver um processo de formalização às avessas, onde ocorre a imitação de diversos atributos do mundo formal, exceto à carteira de trabalho assinada e dos direitos decorrentes. Veremos ao longo do texto parte das características típicas desse novo (e reconfigurado) camelô. 2- A situação do trabalho no Brasil A sociedade brasileira ainda presencia as conseqüências dos processos de redefinição do mercado de trabalho, decorrente da globalização, da reestruturação produtiva e das políticas neoliberais. Os principais resultados deste processo são as altas taxas de desemprego, o aumento da concentração de riqueza, da desigualdade social, da precarização do trabalho, do crescimento de atividades não regulamentadas, do trabalho informal, além da ocorrência de um fenômeno novo: a desestabilização dos trabalhadores tidos como estáveis (Hirata, 2002, p.69). No presente muita das conseqüências vivenciadas no âmbito do trabalho assalariado se tornam cada vez mais visíveis, principalmente, pela própria necessidade de manutenção dos níveis de ganhos e lucros, o que conduz a processos de flexibilizações, precariedade e 1 Neste texto utilizamos os termos “dono do negócio”, “proprietário do negócio” ou “camelô-proprietário” ou ainda “camelô-patrão” para designar os donos ou donas da atividade que se realiza e não, necessariamente, donos do boxe. Muitas vezes, como soube na pesquisa, os boxes são alugados, emprestados ou até compartilhados, numa espécie de negócio partilhado/dividido/sociedade. Em contrapartida, para os empregados/funcionários, denominaremos de “camelô-funcionário”. Foi aplicado o mesmo questionário para os dois grupos, com algumas questões específicas para cada segmento. 3 subcontratações constantes. Algo que se acentua quando em contextos de crise econômica, como a atual, iniciada em 2008. Esta crise econômica financeira (e produtiva) teve como epicentro o país de maior expressividade econômica do mundo, os Estados Unidos. Ou seja, as grandes economias mundiais, pilares das políticas neoliberais, modelos de crescimento autorregulado, terminam, pois, mostrando limites, crises de crescimento e de sustentabilidade. Assim, o que era uma certeza no plano econômico (uma cartilha inevitável e infalível), no viés neoliberal de ter por base um Estado mínimo, o controle dos gastos, a redução dos gastos sociais, a intervenção reduzida nas dinâmicas econômicas, terminou por ser uma receita falha de modelo econômico. Nesse contexto, as economias menos desenvolvidas, como é o caso da brasileira, precisam, no ditado popular, “apertar ainda mais os cintos” para conseguir manter suas taxas de emprego e os vínculos e garantias das relações internacionais (como a confiança externa no país, o famoso risco Brasil). Trata-se de uma crise de difícil prognóstico. Contudo, uma certeza permanece: a globalização dos mercados, a reestruturação econômica, a flexibilização do trabalho, o aumento do desemprego estrutural e novas formas de precariedade e informalidade, tudo combinado com o intuito de manter os ganhos do capital e o suposto desenvolvimento econômico. Todos esses elementos conformam um processo de fragilização da própria sociabilidade do trabalho (Alves, 2000), constituindo indivíduos menos ligados à família, a uma classe, etc. Essa nova reconfiguração do mundo do trabalho exige cada vez mais trabalhos flexíveis e vida flexível, mudando a noção de tempo e de espaço das pessoas, conduzindo a uma racionalização do tempo e da vida (Sennett, 2000, p.25), implicando em mecanismos de gestão de incertezas constantes e uma situação de “vulnerabilidade de massa”, caracterizando uma “nova questão social” (Castel, 2003). Quer dizer, todos empregados podem perder seus postos a qualquer momento, ninguém tem garantia absoluta de continuidade no emprego. Além disso, a intensificação do trabalho está aberta para todos os setores e profissões. Na década de 90, o mercado de trabalho brasileiro sofreu conseqüências da reestruturação produtiva e, principalmente, das políticas neoliberais que inseriram o Brasil na dependência direta com o FMI e o Banco Mundial. Este processo teve sua maior expressão com o governo de Fernando Collor (abertura da economia) que, conforme Druck (1999), representou uma vitória de implementação das políticas neoliberais no Brasil. Dessa maneira, ainda temos que permanecer no círculo vicioso do neoliberalismo, na economia mundializada, que terminou por gerar no Brasil um processo estrutural de desemprego e de desigualdade social. Isso, na verdade, não é uma questão exclusiva do Brasil, mas sim, apresenta-se como uma situação global. Assim, constata-se que o Brasil dos anos 90 do século passado (e também início do século XX) assumiu a feição de um país marcado pela precariedade dos vínculos empregatícios, pela insegurança instaurada até nos postos de trabalho mais avançados. Nessa década, por um lado, observou-se o crescimento do desemprego estrutural; por outro, o aumento da informalidade como prática atenuante da falta de emprego, atendendo, dessa forma, ao excedente de força de trabalho que aqui é fruto da própria modernização do sistema capitalista. Portanto, vive-se na atualidade um processo global de retração dos empregos, principalmente o fabril, exemplificando nitidamente a fragmentação do padrão fordista/taylorista de produção em série, com todo seu aparato de proteção social e trabalhista, permanecendo a expansão do consumo. Em contrapartida, tem-se uma redução expansiva do trabalho vivo, dos postos de trabalho (do capital variável), da produção em massa, sem reduzir o grau de exploração do trabalho. Este aumentou consideravelmente, principalmente com a introdução do padrão toyotista de produção, que entre outras coisas ataca em duas vias centrais: por um lado, flexibilização das relações trabalhistas nos termos 4 contratuais/trabalhistas, quer dizer, via redução de direitos adquiridos; por outro, é intensivo em extração de maisvalia, via utilização do trabalho intelectual como meio de captação do saber operário, transformação de trabalho vivo em trabalho morto, do saber humano objetivado em máquinas inteligentes, entre outras formas contemporâneas de captação de maisvalor. Essa nova configuração do mundo do trabalho comporta, segundo Antunes (2005), uma classe trabalhadora mais ampliada: a “(...) classe trabalhadora hoje deve ser (...) mais abrangente do que o restringe exclusivamente ao trabalho industrial (...), ou ainda à versão que restringe o trabalho produtivo ao universo fabril” (p. 51 e 52). Para o referido autor, estão incluídos trabalhadores assalariados fabril e extrafabril, produtivos ou improdutivos, (...) hoje a classe-que-vive-do-trabalho, deve incorporar também aqueles que vendem sua força de trabalho, em troca de salário, como o enorme leque de trabalhadores precarizados, terceirizados, fabris e de serviços, part- time, que se caracterizam pelo vínculo de trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, em expansão na totalidade do mundo produtivo (2005, p.52). Nesse início de século XXI, o mercado de trabalho incorpora diversos segmentos dos trabalhadores, mesmo sem serem necessariamente produtivos2, como no caso dos serviços e de trabalhadores informais, ou seja, mesmo sem gerar valor diretamente para o processo produtivo. Contudo, a marca do assalariamento (separação capital e trabalho) apresenta-se como fio condutor dessa nova morfologia do trabalho, isto é, é através de formas de trabalhos assalariados/precários que se amplia o contingente de trabalhadores na atualidade. É por meio dessas formas que o capitalismo inventa e reinventa formas de expansão do lucro, via extração de maisvalor e da formação de uma massa excedente de trabalhadores, aptos a buscar a sobrevivência, sujeitando-se as mais perversas formas de trabalho. Expandindo um pouco mais essa caracterização acima, podemos incluir os trabalhadores de rua nessa nova morfologia do trabalho. Essa inclusão se dá não como produtivos, e nem como inclusão de seres historicamente excluídos do mercado de trabalho. Os trabalhadores de rua, fazendo uma rápida referência ao século XIX, sempre estiveram presentes como elementos participantes do trabalho urbano, peça chave em determinados momentos de fluxos comerciais da cidade, no período de predominância do capitalismo comercial. Outrossim, só no momento atual, desde o último quartel do século XX, que o trabalho de rua passa a ter um peso mais significativo nas relações propriamente produtivas do sistema capitalista industrial, mesmo sem serem um componente imprescindível. Só a partir das décadas de 70, 80 e 90 que as atividades de rua passam a servir como elementos de expansão do valor. De fato, não o produzem diretamente, mas contribuem para sua realização enquanto “trabalhadores gratuitos” (Durães, 2005) para o capital, isto é, agentes gratuitos/não-pagos a serviço do processo de realização (de parte) do valor no modo de produção capitalista, na esfera da circulação de mercadorias, de transformação do capital-mercadoria em capital- dinheiro3. Existe uma forte imbricação entre produtivos e improdutivos, no caso, entre os trabalhadores de rua e o processo de valorização do capital. 2 Ser produtivo aqui é ser parte constitutiva do processo de formação do Valor; parte do quantum de trabalho abstrato social médio necessário para produzir uma mercadoria: Sobre isso, ver Marx, Karl. Capital, Livro 1, volume 1, cap.1, 2002. 3 O “trabalhador gratuito”, conforme consta em Durães (2005), transforma o “capital-mercadoria” em dinheiro através da venda de produtos originais nas ruas. Este volta à mão do produtor para se tornar “capital-dinheiro” e reiniciar o ciclo da produção (Marx, 1991). Esse mecanismo da produção necessita da esfera da circulação, que envolve custos (transporte dos produtos, armazenamento e distribuição das mercadorias) (Marx, 1991). Tudo 5 Conforme Antunes (2005, p.60), (...) há uma crescente imbricação entre trabalho produtivo e improdutivo no capitalismo contemporâneo, e como a classe trabalhadora incorpora essas duas dimensões básicas do trabalho sob o capitalismo, a noção ampliada nos parece fundamental para a compreensão do que é a classe trabalhadora hoje. (grifo nosso) O autor ainda incorpora como componente dessa nova concepção de classe trabalhadora o proletariado rural que vende sua força de trabalho para o capital (2005, p.60). Por fim, Antunes (2005, p. 60) incorpora também: (...) o proletariado precarizado, o sub-proletariado moderno, part-time, o novo proletariado dos McDonald´s, os trabalhadores terceirizados e precarizados, os trabalhadores desempregados, expulsos do processo produtivo e do mercado de trabalho pela reestruturação do capital e que hipertrofiam o exército industrial de reserva na fase de expansão do desemprego estrutural. Portanto, a composição dessa nova morfologia do trabalho é bastante ampla e diversificada. Dessa forma, iremos agora adentrar no que estamos denominando aqui de camelô de tecnologia ou das novas formas de informalidade de rua, os quais estão incluídos nessa nova morfologia da classe trabalhadora, sendo também um grupo constituído e reconstituído na/pela modernidade. 3- O perfil dos Camelôs de Tecnologia: a elite das ruas Os camelôs que iremos tratar aqui neste texto representam um conjunto de trabalhadores/as situados/as no camelódromo da rua Uruguaiana, no centro do Rio de Janeiro. Este camelódromo é composto por quatro quadras (setores ou blocos), A, B, C e D, todos na mesma área, em um terreno acima do metrô da Uruguaiana, porém, são separados por ruas. No geral, as quadras são especializadas em determinados produtos, apesar de estar ocorrendo uma mudança muito significativa, vários camelôs estão mudando seus produtos de venda e passando a trabalhar com eletrônicos4. Na verdade, existe um total de 1600 boxes cadastrados isso é feito gratuitamente pelo trabalhador de rua, sem custos para o capital industrial, que ainda se beneficia de um poderoso marketing personalizado (boca-a-boca). O grande beneficiado com esse trabalho de rua é o capital, que se utiliza de um trabalhador vivaz para manter parte do fluxo de seu sistema. Quanto maior a circulação das mercadorias, ou seja, quanto mais (eles) comercializam, mais propiciam o lucro do capital (produtivo/industrial) (Marx, 1991). 4 Mudar de produtos comercializados é, desde muito tempo, uma característica forte dessas atividades, faz parte de suas dinâmicas internas de funcionamento e organização (sua transitoriedade inerente). Em muitos casos, as mudanças estão atreladas à venda, logo, ao que está tendo maior saída em determinada época (maior venda). Claro que isto tem uma relação direta com os consumidores, são estes que acabam influenciando nos tipos de produtos comercializados. Esta realidade é a expressão da clássica lei da economia da oferta e procura. Se há demanda para tal produto, logo, tende a aumentar a quantidade deste produto comercializado. Ou seja, o aumento da demanda ocasiona um aumento da oferta, são variáveis diretamente relacionadas. No nosso caso, em específico, parece estar havendo um aumento considerável da procura por bens/produtos eletrônicos, e, isto termina por conduzir a um aumento da quantidade de camelôs que querem ofertar tais tipos de produtos. Esse tipo de movimento parece ser uma constante no universo da informalidade de rua. Apesar de não ser algo absoluto, existem espaços de inovações e transformações que advém do lado da oferta, dos próprios camelôs, que através de inovação e readequação de determinados produtos, terminam concebendo novos significados para as coisas e, assim, conseguindo fazer suas próprias demandas. Essa é mais uma face de suas complexidades. 6 (no caso, 1600 camelôs5), conforme dado obtido junto à Associação de Comerciantes Informais do Mercado Popular da rua Uruguaiana. Cerca de 250 “lojas” lidam diretamente com eletrônicos, conforme visitas exploratórias que realizamos no local6. Nestas, estimamos que existem cerca de 450 camelôs envolvidos. Nossa pesquisa entrevistou 42 “lojas” (42 pessoas) de um total aproximado de 250, via questionário, que, apesar de ser de cunho eminentemente qualitativo, abarcou cerca de 17% do total de “lojas” de camelôs de tecnologia. Todavia, como dissemos, é um dado estimado, pois sempre ocorrem mudanças na composição geral dos camelôs. Ainda sobre o camelódromo, a quadra A é especializada em celular, desde venda até conserto. São mais de 60 “lojas” especializadas apenas nisso. Outro caso de especialização é o da quadra D, mais direcionada à venda de roupas, artigos esportivos, etc. As maiores concentrações de camelôs de tecnologia se dão nas quadras B e C. Todavia, isso não quer dizer que não existam outros tipos de vendas nestas quadras. Na verdade, existe um pouco de tudo em todas as quadras. Uma verdadeira mistura de produtos. Porém, existem certas concentrações de determinados produtos em determinadas quadras. Mas, como já dissemos antes, é algo bastante volátil. Além disso, conforme uma representante da Associação informou em entrevista realizada em 2008, não existem regras para alocação de produtos nas quadras. Isto fica sob o encargo dos/as próprios/as trabalhadores/as, exceto à proibição da venda de produtos falsificados/piratas e contrabandeados. Ou seja, são eles/as que definem o que vão vender, o que irão comercializar, cabe apenas à Associação fazer a fiscalização geral (sem poder coercitivo) e dar suporte para a venda. Para evidenciar o que denominamos metaforicamente de elite das ruas, vamos, inicialmente, partir de um breve perfil destes camelôs para em seguida trazermos dados mais relacionados com a própria reconfiguração deste tipo de atividade. Este novo informal não comporta mais características típicas dos camelôs ditos tradicionais, como baixa escolaridade, parcos rendimentos, baixo ou nenhum nível de qualificação formal, reduto de pessoas mais velhas, excluídas de trabalhos formais, quase inexistência de relações de trabalho “assalariadas” (donos-funcionários, capital-trabalho). Contudo, eles ainda exercem seus trabalhos na rua, com registro municipal, mesmo diante de tamanha sofisticação dos produtos tecnológicos. Pode-se notar na tabela 01 abaixo uma expressiva participação feminina, chegando a quase 60% do total de pesquisados. É um dado relevante. A participação feminina sempre foi expressiva em atividades informais, logo, é uma questão similar ao informal tradicional em geral. Ademais, como pode ser observado na tabela 02, na sequência, na distribuição que fizemos dos/as proprietários/as por sexo, essa participação feminina ocorre, sobretudo, como funcionárias/empregadas e não como donas/proprietárias do negócio. Do total de mulheres pesquisadas, 24 trabalhadoras, cerca de 21% (apenas 5 delas) são donas do negócio. Já com relação aos homens, proporcionalmente, esse dado é muito mais expressivo. Do total de 5 Mas não 1600 “negócios”. Digo isso, pois muito dos “negócios” possuem mais de um boxe conjugado, por vezes, existem 2 ou 3 boxes, mas que representam apenas um negócio, onde pode ter mais de um camelô- proprietário associado. Assim, não é um boxe igual a um negócio, podem ter mais de um em um único negócio. No nosso caso, entrevistamos 42 pessoas em quarenta e duas “lojas” diferentes, sendo que, várias delas eram compostas por mais de um boxe, logo, por mais de um camelô registrado na associação. 6 Esse dado referente à quantidade dos camelôs de tecnologia foi obtido através de contagem direta realizada no local. Todavia, é um dado estimado, mesmo porque é muito comum e constante as mudanças de boxes, desde seu fechamento ou a mudança direta do tipo de produto comercializado. Assim, é muito provável que este dado se altere em questão de meses. Além disso, foi uma contagem muito difícil de ser feita, pois os camelôs sempre ficam observando as pessoas que circulam pelo camelódromo e como se trata de um emaranhado de becos, sempre abarrotados de transeuntes, no geral, consumidores, percebe-se facilmente quem apenas olha, pára, observa e quem de fato é um consumidor em potencial. Portanto, a contagem foi feita diante desta pressão dos olhares dos camelôs, olhares desconfiados, haja vista, que é muito comum a apreensão de mercadorias no próprio camelódromo ou a extorsão feita por policiais que sempre estão vigiando as imediações do lugar. 7 pesquisados, 18, cerca de 55,5% (10) são donos. Aqui, aparece a inserção feminina predominante em situações de trabalho mais precárias, haja vista, que irão possuir menores rendimentos e não terão tanta autonomia, pois não são donas do negócio e sim subordinadas aos patrões informais, que podem ser homens ou mulheres. Vejamos abaixo as tabelas 01 e 02 sobre a divisão por sexo. Tabela 01 - Distribuição dos Entrevistados por Sexo Sexo Frequência % Masculino 18 42,9 Feminino 24 57,1 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Tabela 02 - Dist. dos Entrev. cruzando dados: Sexo e Donos/as do negócio É proprietário/a do/a negócio? Sim Não Total Sexo Masculino 10 8 18 Feminino 5 19 24 Total 15 27 42 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Ainda sobre a inserção dos camelôs por divisão sexual, pomos em evidência um cruzamento de dados relativo à escolaridade distribuída por sexo. As mulheres perdem para os homens, proporcionalmente, sob o ponto de vista da escolaridade, apesar de serem responsáveis por um dado significativo, fazendo, pois, parte do aumento do nível de escolaridade dos pesquisados em geral. Como fica evidente na tabela 03 abaixo, a partir do segundo grau completo, existem 17 mulheres para 14 homens, de um total de 24 mulheres pesquisadas e de 18 homens, ou seja, significa que cerca de 71% das mulheres possuem pelo menos o segundo grau completo, enquanto representa aproximadamente 78% dos homens com este mesmo nível de escolaridade. Tabela 03 - Dist. dos Entrev. cruzando dados:Sexo e Escolaridade Escolaridade até o 1º 2º grau superior grau incomple 2º grau incomple completo to completo to sup. completo Total Sexo 4 0 11 0 3 18 Masculino Feminino 5 2 12 4 1 24 Total 9 2 23 4 4 42 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. 8 Do ponto de vista da escolaridade em geral, percebe-se, um aumento geral do nível de formação escolar, vejamos a tabela 04: Tabela 04 – Distribuição dos Entrev. por Escolaridade Escolaridade: Frequência % até o 1º grau completo 9 21,4 2º grau incompleto 2 4,8 2º grau completo 23 54,8 superior incompleto 4 9,5 sup. completo 4 9,5 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Nota-se que cerca de 74% (somados os pesquisados com nível superior completo e incompleto) do total de trabalhadores/as possuem, pelo menos, o segundo grau completo. Se observarmos apenas os de nível superior (completo e incompleto), temos um percentual aproximado de 19%. Este dado representa, pois, um nível relevante de escolaridade, possivelmente grupos melhores inseridos socialmente, mais capacitados, estão agora migrando para atividades informais. Sem dúvida, esse quantitativo decorre do processo mais geral de crise do trabalho, do desemprego, dos processos de globalização e reestruturação econômica, que não cabe aqui serem explicitados como mostraremos na duas tabelas a seguir. Do total de entrevistados que tiveram experiência anterior de trabalho, 32 trabalhadores/as, cerca de 71% vieram de empregos formais (incluídos os trabalhadores com carteira assinada)7, conforme tabela 05 abaixo. Tabela 05 – Distribuição dos Entrev. sobre O último trabalho antes do atual Último Trabalho: Frequência % vendedor c/ carteira* 7 21,9 operário/c cart 1 3,1 feirante 1 3,1 empregado com carteira 11 34,4 vigilante/porteiro/c.cart 2 6,3 empregado s/ carteira 6 18,8 loja de informática c/ carteira 1 3,1 comerciante 1 3,1 telemarketing/atend. ao cliente c/ cart. 1 3,1 empregada doméstica s/ cart. 1 3,1 Total** 32 100,0 *Dois destes vendedores não possuíam carteira assinada, mas trabalharam em lojas formais. ** O total reduziu para 32, pois existem dez trabalhadores que estão no primeiro trabalho. As categorias “c/ carteira” significam com registro em carteira de trabalho. Os “s/ cart.” significam os sem registro em carteira. Fonte: Pesquisa Direta, 2008. 7 Esse dado vem reforçar uma ideia comumente aceita no campo da informalidade no Brasil, o fato de que esta terminou por aumentar seu contingente, devido a inserções de pessoas que vieram do emprego formal, compondo, assim, a denominada “nova informalidade”. Sobre esta questão, ver: (Cacciamali, 2000, Filgueiras, et al., 2000; Lima e Soares, 2002; e Machado da Silva, 2002), 9 E, do total de camelôs de tecnologia, cerca de 76% iniciaram nesta atividade nos últimos 3 anos. Destes, aproximadamente 35% iniciaram nos últimos 6 meses, conforme tabela 06 abaixo. Isto sugere que muitos perderam o emprego ou saíram recentemente e terminaram se inserido na atividade de rua. Sobre a inserção em atividades de rua, temos a tabela 07 abaixo, que traz dados similares. Cerca de 64% dos pesquisados afirmaram que entraram na informalidade nos últimos 2 anos. É mais um dado que vem a corroborar com nossa ideia de uma inserção recente em trabalhos informais. Tabela 06 – Distribuição dos Entrev. pela Entrada na venda de eletrônicos Tempo que entrou: Frequência % até 1 mês 3 7,1 mais de 1 até 3 meses 6 14,3 mais de 3 a 6 meses 6 14,3 mais de 6 meses até 1 ano 11 26,2 mais de 1 a 3 anos 6 14,3 mais de 3 até 7 anos 5 11,9 mais de 7 anos 5 11,9 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Tabela 07 – Distribuição dos Entrev. pela Entrada em atividades informais de rua Tempo que entrou: Frequência % até 1 mês 1 2,4 mais de 1 até 6 meses 10 23,8 mais de 6 meses até 1 ano 9 21,4 mais de 1 até 2 anos 7 16,7 mais de 2 até 5 anos 3 7,1 mais de 5 anos a 10 anos 7 16,7 mais de 10 anos 5 11,9 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Relativo à idade, tem-se outra surpresa, conforme dados da tabela 08 abaixo. Tabela 08 - Dist. dos Entrevistados por Idade Frequência % Jovens (15 a 24 anos) 22 52,4 Adultos (25 a 40 anos) 15 35,7 acima de 40 até 55 anos 5 11,9 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. 10 Cerca de 88% possuem até 40 anos, somados os jovens (de 15 a 24 anos) e os adultos (de 25 a 40 anos). Trata-se, dessa forma, de um universo de pesquisa marcado por pessoas jovens, como pode ser visto no percentual desta faixa, temos cerca de 52% de jovens. Parece haver, neste tipo de atividade, grande participação de jovens, notadamente, pessoas mais ligadas, de algum modo, aos recursos e atributos tecnológicos, às inovações recentes ocorridas no mundo. Também, pode-se notar que foi entre os jovens que ocorreu uma maior quantidade de cursos realizados antes de estarem neste trabalho atual, como pode ser observado na tabela 09 abaixo, no cruzamento entre curso profissional e idade do pesquisado. Os jovens possuem um nível de qualificação formal e atuam no universo informal. Esta, sem dúvida, é uma mudança expressiva. São, justamente, os jovens, um dos segmentos que, de um modo geral, mais sofrem para encontrar trabalho formal, notadamente, quando se refere ao primeiro emprego. Tabela 09 - Dist. dos Entrev. cruzando dados: Idade e Curso p/ alguma profissão Curso-profissão? sim não Total Idade Jovens (15 a 24 anos) 17 5 22 Adultos (25 a 40 anos) 11 4 15 acima de 40 até 55 anos 4 1 5 Total 32 10 42 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Do total de jovens pesquisados, 22, cerca de 77% fizeram algum curso profissional, dentre estes, 59% (10 pessoas) fizeram curso direcionado para área de tecnologia como informática/eletrônica ou manutenção de celular, como pode ser visto na tabela 10 abaixo. Tabela 10 - Dist. dos Entrev. cruzando dados: Idade e Curso Curso Total telemarketi serviço informática/el torneiro gestão de ng/atendim geral/peder etrônica/manu mec/operário/ negócios/marketi ento/secreta iro/garçon tenção de motorista ng/vendas//técnic riado/aux celular o em de publicidade, adm escritório/a empresas de ux. adm nível médio Idade Jovens (15 a 4 0 10 0 3 17 24 anos) Adultos (25 a 1 1 7 2 0 11 40 anos) acima de 40 0 0 2 2 0 4 até 55 anos Total 5 1 19 4 3 32 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. 11 No caso dos adultos (15 ao todo), houve também uma participação expressiva relativa a cursos profissionais. Cerca de 73% fizeram algum curso. Destes, 64% fizeram em áreas afins à tecnologia, conforme tabela 10 acima. Agregando-se o percentual de jovens e de adultos que fizeram cursos, temos aproximadamente 87,5%. Já os ligados à informática e eletrônica, nessa mesma faixa etária, totalizam 17 pessoas, um percentual expressivo de 53% em relação ao total de trabalhadores/as que fizeram algum tipo de curso, que são 32 pessoas. Estes representam cerca de 76% do total de pesquisados. Com relação a cor, ocorreu uma outra novidade, mas não tão representativa. Nota-se, conforme tabela 11 abaixo, uma quantidade relevante de pesquisados que se autodeclararam brancas, cerca de 48%. Isso demonstra uma participação expressiva de brancos em atividades relacionadas à tecnologia, em atividades que lidam com maiores possibilidades de renda. A participação de negros (considerando os que se autodenominaram pretos e pardos) ainda é bastante representativa, chegando a cerca de 45% do total de pesquisados. Quer dizer, os camelôs de tecnologia (de nossa pesquisa) são compostos quase que igualmente por brancos e negros. Tabela 11 – Dist. dos Entrev. por cor Cor: Frequência % preto 5 11,9 branco 20 47,6 Amarelo 3 7,1 Pardo 14 33,3 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Vejamos agora os dados relativos à questão da migração. Este tipo de camelô é predominantemente composto por populações do próprio município do Rio e grande Rio, região metropolitana (baixada fluminense), como pode ser visto na tabela 12 abaixo. Do total de entrevistados, cerca de 64% são oriundos da própria cidade (mais região metropolitana). Não se trata, portanto, majoritariamente de populações que vieram de fora para viver deste tipo de atividade. Não obstante, existem cerca de 36% que vieram de fora, conforme tabela 12 abaixo. Tabela 12 – Dist. dos Entrev. por local de nascimento Local de nascimento Frequência % Rio de Janeiro e Região 27 64,3 Metropolitana Rio de Janeiro e Região Metropolitana (+ Baixada, Niterói e São Gonçalo) Outro Estado 12 28,6 (Nordeste/Norte) Outro Estado (Sudeste/Sul) 3 7,1 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. O curioso neste dado é que, dos migrantes que exercem a atividade, 29% são compostos por pessoas oriundas de estados do Nordeste/Norte, conforme tabela 12 acima. Todavia, não se tratam essencialmente de migrações recentes, no caso de tomarmos como 12 migração recente aquela ocorrida nos últimos 5 anos. Cerca de 47% ocorreu nos últimos 5 anos, ver tabela 13 abaixo. Este dado nos reporta as seguintes indagações: a atividade informal atrai os migrantes ou é onde muitos migrantes encontram formas de inserções, de trabalho. Caberia ainda indagar qual o fascínio que este tipo de atividade (de tecnologia) exerce nestas populações para estimularem sua vinda, ou, o que permite que estes migrantes se insiram nestes trabalhos? São questões para se pensar, não necessariamente para serem resolvidas aqui, servem como reflexões sociológicas mais amplas. Tabela 13 - Dist. dos Entrev. cruzando dados: Local de Nascimento e Tempo que mora no Rio Tempo que mora no Rio de 5 anos e um mais de 10 anos até 5 anos dia a 10 anos (+ sempre/nativo) Total Local de Rio de Janeiro e Região 0 0 27 27 Nascimento Metropolitana Rio de Janeiro e Região Metropolitana (+ Baixada, Niterói e São Gonçalo) Outro Estado 6 1 5 12 (Nordeste/Norte) Outro Estado (Sudeste/Sul) 1 0 2 3 Total 7 1 34 42 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Ainda no contexto da composição do perfil, evidenciaremos também a questão dos rendimentos na atividade. Por sinal, esta pergunta despontou muita dificuldade de captação de sua veracidade, principalmente, quando se trata de pesquisa sobre informalidade de rua, ambulantes e camelôs. Era e é bastante comum neste tipo de pesquisa o pesquisado não saber ao certo quais são seus rendimentos, notadamente, quando se trata de atividades informais mais tradicionais, mesmo porque, não se fazia praticamente nenhum cálculo de entrada e saída de mercadorias, de estoques8. Praticamente, ia se vendendo e comprando mais e vendendo novamente, sem um cálculo/controle por trás. Era tudo feito basicamente no costume/tradição9. No nosso caso, dos camelôs de produtos tecnológicos, nota-se uma mudança neste perfil. Agora, aparece muito bem definido a noção do cálculo e do controle das vendas. Como exemplo disso, vejamos a tabela 14 abaixo. 8 A atividade do camelô tradicional corresponde àquela na qual o trabalhador vive literalmente no limite da sobrevivência, conquistando dia-a-dia suas necessidades imediatas, sua alimentação, vestimenta, moradia. É composta pelos trabalhadores mais tradicionais – menos reconfigurados por elementos inovadores internos à atividade e externos da sociedade em geral. Vivem vendendo hoje para comer amanhã ou até ficando sem comer porque o dia de vendagem foi fraco. São os mais vulneráveis às ações de controle e repressão do poder público municipal e praticamente desprovidos do acesso à seguridade social e à saúde. Sendo economicamente mais fracos, qualquer perda ou apreensão de mercadorias ou instrumentos de trabalho é bastante sentida. Sobre este tipo de caracterização, ver Durães, 2006. 9 Sobre camelô tradicional, ver: Oliveira (1998), Jakobsen, Martins e Dombrowski (2000), Conserva (2003), Durães (2006) e Lopes (2008), entre outros/as. 13 Tabela 14 - Dist. dos Entrev. pelo tempo que faz o balanço das mercadorias Fazem Frequência % controle de vendas e compras? sim 40 95,2 não 2 4,8 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Percebe-se um percentual alto de controle de vendas, cerca de 95% fazem controle de saída e entrada de mercadorias. Destes que fazem controle, 40 camelôs, cerca de 97,5% fazem, pelo menos, uma vez por mês, como pode ser visto na tabela 15 abaixo, bem como, cerca de 40% fazem, pelo menos, uma vez por semana. Assim, a informalidade de rua não é mais o universo do aleatório, sem controle, ao contrário, pode-se falar em uma informalidade de moldes empresariais, como veremos mais claramente à frente com outros dados que mostraremos. Tabela 15 – Dist. dos Entrev. sobre o Controle de vendas Controle: Frequência % uma vez por semana 11 27,5 a cada quinze dias 7 17,5 uma vez por mês 16 40,0 todo dia 5 12,5 uma vez por ano 1 2,5 Total* 40 100,0 *Houve dois pesquisados que afirmaram não fazer controle de vendas. Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Neste tipo de pesquisa, é comum os/as pesquisados/as ocultarem seus rendimentos ou informarem um valor estimado ou abaixo do real. Isto serve como uma forma de proteção ou defesa usada para tentar permanecer invisível diante da fiscalização, principalmente, quando se realiza atividades marcadas, de alguma forma, por ilicitudes, como é o caso de nossa pesquisa, dos camelôs que ofertam produtos, geralmente, contrabandeados, pirateados, de origem duvidosa, fruto de roubos, apreensões de cargas, etc. Quando se trata das rendas mais elevadas, no caso dos proprietários dos negócios, do camelô-proprietário10, a dificuldade aumenta. Muitos destes falavam um valor muito abaixo do que se esperava. Em alguns casos, não queriam revelar na frente de outras pessoas qual era sua renda, nem em nossa frente, já que fizemos a pergunta direta, de modo oral. Todavia, conseguimos obter informações mais fidedignas com alguns informantes devido a boa qualidade da relação estabelecida no momento da aplicação do questionário. Assim, de certa forma, tivemos algumas respostas mais apuradas sobre esta questão da renda, o que terminou servindo como base (até como um dado controle). Na verdade, como valores limites. Por isso, pôde-se comparar algumas respostas e perceber que haviam discrepâncias muito grandes. Como solução, resolvemos colocar faixas de rendimentos, o que não necessariamente resolveu por completo o problema, 10 A título de nossa investigação, como falamos antes, tratamos como camelôs tantos os proprietários do negócio quanto os funcionários contratados para trabalharem nos boxes. Ademais, faremos as devidas diferenciações quando necessário. 14 mas, serviu como base, como fronteiras salariais. Nesta questão da renda, faremos, num primeiro momento, a análise dos funcionários, na tabela 16 abaixo, que apresentaram uma renda menor, e, depois, apresentaremos a tabela 18, com a análise sobre o rendimento dos donos. Com isso, será possível fazer uma diferenciação dos rendimentos por ser ou não dono do negócio, por ter ou não uma renda maior. No geral, os funcionários possuem benefícios (como transporte, alimentação e comissões), que terminam servindo como complemento da renda, como veremos mais a frente. Conforme a tabela 16 abaixo, existe uma grande variação de renda entre os camelôs, que vai de aproximadamente 1 salário mínimo até mais de 10 salários mínimos. Este último é de um proprietário do negócio. Mas, a maioria dos camelôs pesquisados possuem uma renda superior a 1 até 3 salários mínimos. Estes representam cerca de 62% do total de camelôs, quase totalmente compostos por funcionários (cerca de 93%), conforme dados contidos na tabela 18 mais a frente. Tabela 16 – Distrib. dos Entrev. conforme a Renda na atividade de camelô de tecnologia RENDA Frequência % até 1 S.M* 1 2,4 mais de 1 a 2 S.M 15 35,7 mais de 2 a 3 S.M 11 26,2 mais de 3 até 4 S.M 5 11,9 mais de 4 até 5 S.M 2 4,8 mais de 5 até 7 S.M 3 7,1 mais de 7 até 10 S.M 3 7,1 acima de 10 S.M 2 4,8 Total 42 100,0 *Equivale ao valor do salário mínimo em abril de 2009, no Brasil, R$ 465,00 reais. Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Essa predominância de camelôs com rendimento superior ao salário mínimo nacional representa um traço de grande importância, haja vista que estão dentro de uma renda superior a milhares de outros trabalhadores formais no país. Este fato aparece como uma das justificativas para muitos permanecerem na informalidade. Costumam dizer que ganham mais onde estão, mesmo sem ter carteira assinada, principalmente, para os jovens. Tal afirmação foi dita diversas vezes no período de trabalho de campo, em conversas com os trabalhadores. Como vimos, pelo fato de haverem muitos jovens presentes neste tipo de atividade de tecnologia, muitos terminam deixando de pensar no futuro, ficando mais preocupados com os ganhos presentes. Essa foi uma questão muito afirmada nas entrelinhas do questionário. Se observarmos o cruzamento de dados feito na tabela 17, na sequência, entre o desejo de mudar ou não para um emprego formal e a idade dos entrevistados, observa-se que entre o total de jovens que responderam a essa questão (22), seis deles não desejam mudar para um emprego com carteira, o que representa quase 30% dos jovens entrevistados. Ou seja, um percentual relevante de jovens prefere permanecer na informalidade, mesmo sem garantias, nem direitos. 15 Tabela 17- Distruib. dos Entrev. cruzando dados: Idade e Gostaria de mudar p/ empreg c/ carteira Gostaria de mudar para emprego Total c/_carteira? sim não não respondeu Idade Jovens (15 a 24 anos) 15 6 1 22 Adultos (25 a 40 anos) 8 6 0 14 acima de 40 até 55 anos 3 1 0 4 Total 26 13 1 40 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Já na tabela 18 abaixo, retomando a questão da renda, apresenta-se a distribuição dos rendimentos conforme ser ou não ser proprietário do negócio. Fizeram parte da pesquisa 15 proprietários, como pode ser visto na tabela, e 27 camelôs que se declararam funcionários/as. Conforme vai aumentando a renda, ocorre uma diminuição e mesmo extinção da participação de funcionários, o que em si serve para caracterizar que os maiores rendimentos são direcionados para os donos do negócio, os patrões11. Percebe-se também alguns funcionários com renda um pouco maior do que a maioria, no caso, 2 deles, duas mulheres. Estas chegam a ganhar entre 3 e 4 salários mínimos, claro, são minorias entre os funcionários/as, apenas 7% do total. Nestes dois casos são pessoas que possuem uma função importante no negócio, uma espécie de supervisores ou gerentes, como declararam ser. No caso específico de uma delas, é uma pessoa de confiança no negócio, sendo, inclusive, prima do dono. Este possui outros negócios de vendas de tecnologia, um localizado no próprio camelódromo, em um ponto em frente e, o outro, localizado nas imediações da rua do Ouvidor, também no centro do Rio, em uma galeria, funcionando também como informal, sem nota fiscal. Por sinal, o boxe em que essa funcionária trabalha é superequipado, com seis grandes vitrines de vidro, idêntico a uma loja. É, na verdade, um dos maiores boxes do camelódromo e um dos mais estruturados. Dentro existe ar-condicionado, muita iluminação e sistema de segurança com câmara. Os funcionários que trabalham lá, com exceção dessa funcionária, usam fardamento e, como ela disse, ganham menos. Este é um dos raros boxes no camelódromo que se utiliza de fardamento, mesmo porque tal artifício é proibido, conforme nos falou uma das representantes da Associação dos Informais do camelódromo12. A funcionária-gerente deste boxe possui nível superior, recém concluído, e já está em vista de outras atividades, mas disse: “(...) por ora, a renda que ganho aqui na rua é o suficiente para ir sobrevivendo bem”13, e, acrescentou, referindo-se ao dono dos três negócios, seu primo, “meu primo não fica mais aqui no camelódromo, ele agora é empresário”. Ou seja, é justamente essa reconfiguração, esse processo de mudanças que procuramos evidenciar neste texto, o próprio processo de empresarização da rua. 11 Esta é a forma como os/as funcionários/as se referem aos donos do negócio. Em conversas que tive com estes e nas diversas entrevistas e visitas que fiz ao local, em 2008 e 2009, ficou claro como eles lidam com a atividade como se fosse uma outra forma de trabalho qualquer. 12 Em entrevista realizada em outubro de 2008, na sede da associação, no próprio camelódromo da Uruguaiana. 13 Conforme anotações que fiz no próprio questionário aplicado a esta funcionária, em 12 de novembro de 2008, no camelódromo da Uruguaiana, Rio de Janeiro. 16 Tabela 18 - Dist. dos Entrev. cruzando dados: Ser roprietário do negócio/ Renda na atividade Renda nesta atividade: mais de mais de mais de mais de 7 acima até 1 1 a 2 2 a 3 3 até 4 mais de 4 mais de 5 até 10 de 10 S.M S.M S.M S.M até 5 S.M até 7 S.M S.M S.M Total É sim 0 0 2 3 2 3 3 2 15 proprietár Não 1 15 9 2 0 0 0 0 27 io do negócio? Total 1 15 11 5 2 3 3 2 42 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. 4- Formalização às avessas: uma possível separação capital-trabalho na rua Como transpareceu ao longo da exposição do perfil e será também mostrado aqui através de outros dados, passa a ficar delineado um novo tipo de camelô, cujo lastro central se dá pela existência de um conjunto de práticas inovadoras, baseadas não apenas em caracteres internos à própria atividade, mas, sobretudo, marcadas por elementos externos, oriundos de outras formas de trabalho, as formais, que, efetivamente, passam a servir como modelos para as práticas da rua. A informalidade de rua vivencia, assim, transformações substanciais, remodelamentos e reconfigurações, mudando fortemente sua lógica de funcionamento, adquirindo novos atributos, novas ferramentas para o negócio, bem como incorporam um estilo diferenciado no processo e nas relações de trabalho, cujo epicentro é a própria ideia capitalista de ter naquela atividade um meio de obtenção de maior renda, de lucratividade. Não se pode mais falar em indivíduos que vivem apenas ligados à sobrevivência imediata, com baixa escolaridade, baixa ou nenhuma qualificação, com pouca ou nenhuma experiência em trabalhos formais, sem adoção de técnicas de negócio, sem funcionários que não sejam os tradicionais parentes/familiares. Pode-se falar agora de uma atividade, de um camelô, eminentemente modernizado, que possui um “negócio” na rua, não apenas um ponto ou um boxe, mas uma estrutura sofisticada de venda, com telefone próprio, internet, vitrine, ar-condicionado, aceitando cartões de débito e crédito, dando garantia dos produtos vendidos. Aliás, sobre a garantia, temos um dado unânime, todos os/as entrevistados/as afirmaram que dão garantia para os produtos comercializados. O que varia é a quantidade de dias dessa garantia. Demonstra, no mínimo, um nível de confiabilidade entre o consumidor e o vendedor/camelô. Serve, inclusive, para combater um forte estigma que existe sobre as atividades de rua de que só lidam com produtos de baixa qualidade, sem garantia alguma de funcionamento. Alguns dos novos atributos destes camelôs podem ser conferidos na tabela 19 abaixo, onde aparece, por exemplo, que cerca de 93% dos entrevistados possuem em seu boxe, pelo menos, telefone e máquina para cartões de crédito, além de cartões de visita/de divulgação. Algo que em si já implica numa mudança do estilo informal de trabalhar. 17 Tabela 19 – Distribuição dos Entrev. pelo que possuem no boxe Possuem no boxe: Frequência % Equipamentos de “loja” (telefone, cartões de visita, cartões de crédito) 9 21,4 fardamento, crachás + equip. de “loja” + auxílio por telefone 1 2,4 Equip. de “loja” + internet 1 2,4 Equip. de “loja” + auxílio por telefone de como usar os produtos 13 31,0 Equip. de “loja” + auxílio por telefone + ligam p/ clientes p/ ofertar 3 7,1 produtos apenas cartões de visita 2 4,8 Equip. de “loja” + auxílio por telefone + internet 13 31,0 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Estes camelôs terminam sendo uma espécie de “loja” nas ruas, ou ainda, a própria formalização às avessas, pois assumem toda feição formal, mas não possuem qualquer aparato legal/jurídico de empresa ou microempresa, apenas o registro (a licença) de funcionamento municipal e o cadastro na associação dos informais, ambos como camelô. Trata-se, pois, de se valer da rua como negócio, é a própria empresarização dos camelôs, não são meros camelôs, são camelôs-empresários, que fazem “negócios”. Sempre ou quase sempre estão antenados com as mudanças do mercado, o que vende mais em determinado período, melhores técnicas de venda, modificando suas estratégias de acordo com as alterações mais gerais da própria sociedade. É um camelô de estrutura formal e relações globais, já que lidam com produtos de alta tecnologia e que advém dos lugares mais remotos do planeta como da China. Vejamos agora a tabela 20 abaixo, que traz a resposta dos pesquisados sobre ser ou não uma loja. Cerca de 83% disseram que a atividade que realizam é como se fosse uma empresa. Tabela 20- Distrib. dos Entrev. em resposta a pergunta: O senhor acha que essa atividade é como uma empresa? É como se fosse Frequência % uma empresa? sim 35 83,3 não 7 16,7 Total 42 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Na tabela 21 abaixo, vemos os principais argumentos dos trabalhadores para justificar a similitude com o universo formal. Pode-se ver que aproximadamente 94% (somados todos os itens, exceto o item “damos garantia, o cliente confia”) dos entrevistados que afirmam que suas atividades se parecem com uma loja, justificam tal semelhança, por possuir características similares, seja na estrutura do negócio (como vitrine, cartões de crédito/débito, func.,etc.), ou, porque fazem tudo que uma loja faz no ato da venda, vendem da mesma maneira ou, ainda, porque possuem regras e horários também fixos, bem como, salários e benefícios. 18 Tabela 21 – Distribuição dos Entrev. em resposta a pergunta: Se parece com uma empresa, porque? Se sim, porque? Frequência % temos uma estrutura parecida (vitrine, 14 40,0 cartões de crédito/débito, func.,etc.), temos autorização municipal fazemos tudo que uma loja faz na 7 20,0 venda, só não se paga impostos trabalhamos com produtos de 1 2,9 primeira, sofisticados damos garantia, o cliente confia 2 5,7 temos regras, horários a cumprir, 6 17,1 benefícios, tudo parecido com o trab. formal fazemos tudo que uma loja faz, só não 5 14,3 temos carteira assinada Total* 35 100,0 Fonte: Pesquisa Direta, 2008. * O total caiu para 35, pois 7 camelôs responderam negativamente a esta questão. Além de algumas características que apresentamos ao longo da exposição do perfil que já evidenciavam a existência de uma relação capital-trabalho, como a questão da renda (mais elevada) e da realização de balanço de vendas, agora, traremos outros dados que reforçam tal conjectura. Esta relação capital-trabalho na rua é lastreada, tal qual no universo formal, na relação de “assalariamento” entre dois entes, de um lado, o camelô-proprietário (que paga o salário) e, de outro, em situações de maiores precariedades, com menores rendas e, certamente, maior intensidade de trabalho, os camelôs-funcionários, majoritariamente, compostos por jovens. Um dado efetivo que evidenciaremos sobre tal questão trata da existência de funcionários. Em cerca de 93% dos boxes de camelôs pesquisados existe, pelo menos, um funcionário trabalhando, ou seja, em 39 deles, ver tabela 22 abaixo, que traz a renda apenas dos funcionários. Este dado, em si, já permite confirmar a existência da diferenciação entre donos e funcionários, algo que transpareceu também nas falas dos próprios/as trabalhadores/as. O fato da grande maioria ter, ao menos, um funcionário trabalhando em conjunto corrobora com a idéia de empresarização da rua, haja vista, que um dos princípios da empresa, mesmo pequena, é possuir uma equipe de trabalhadores. Tabela 22 - Distribuição da Renda dos funcionários por mês* Renda Frequência % até 1 S.M 1 2,6 mais de 1 a 2 S.M 23 59,0 mais de 2 a 3 S.M 11 28,2 mais de 3 até 4 S.M 3 7,7 mais de 4 a 5 S.M 1 2,6 Total** 39 100,0 * Esta tabela é sobre renda dos funcionários, mas permite saber o total de boxes que possui funcionários, já que tal questão foi aplicada a todos/as os/as entrevistados/as, sejam donos ou funcionários. 19 **Este total caiu para 39 camelôs, pois três são donos do negócio e trabalham sozinhos (duas mulheres e um homem). Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Do total de boxes com funcionários, como descrito na tabela 22 acima, os quais totalizam 39 boxes, cerca de 57%14 possuem funcionários relacionados na condição de “funcionários” mesmos, empregados e não como parentes, conforme tabela 23 abaixo. Não se trata majoritariamente de uma atividade marcada por relações familiares. Tabela 23- Distrib. pelo parentesco entre as pessoas que trabalham e dono do negócio Essas pessoas que trabalham com o/a senhor/a são: Frequência % parente (filhos, irmãos/as, pai/mãe, marido/mulher) 7 17,9 amigos 1 2,6 sócio 1 2,6 funcionário 14 35,9 patrão/dono do negócio 7 17,9 patrão + funcionário* 4 10,3 parentes+funcionário* 3 7,7 patrão/parente 1 2,6 patrão/parente + funcionário* 1 2,6 Total 39 100,0 * Essa codificação diz que existem, entre as pessoas que trabalham no boxe, pelo menos, uma pessoa de cada. Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Ainda sobre a tabela 22, agora falando dos rendimentos dos funcionários, pode-se perceber que a renda majoritária fica na faixa acima de 1 a 2 salários mínimos, representando cerca de 59% do total. Portanto, acima do mínimo nacional. Isto, também demonstra que se trata de uma atividade que possibilita maiores rendimentos até para os funcionários, como dissemos. No caso destes, existe um outro fator que, de certa maneira, aumenta o valor total dos rendimentos recebidos, pois se agrega ao salário fixo. Quase todos os pesquisados possuem benefícios, além do salário. Vejamos na tabela 24 abaixo. Tabela 24 - Distribuição dos benefícios dos funcionários por mês Frequência % salário + benefícios (aliment. e transporte) 5 12,8 salário + benefícios (aliment. e transporte) + 2 5,1 comissão por vendas salário + benefícios (aliment. e transp.) + 18 46,2 férias e 13º Salário+ comissão por vendas 1 2,6 salário + benefícios + comissão + 13º e férias 12 30,8 14 Agrega-se a este percentual as categorias funcionário (36%), patrão + funcionário (10%), parentes + funcionário (8%) e patrão/parente + funcionários (3%), sabendo que, neste somatório, incluiu-se categorias que sempre tinham funcionários relacionados, pelo menos um. 20 comissão + benefícios + 13º e férias 1 2,6 Total* 39 100,0 * O total aqui reduziu, pois três pesquisados são donos e trabalham sozinhos. Fonte: Pesquisa Direta, 2008. Do total de funcionários, cerca de 46% recebem além do salário, auxílio alimentação/transporte, férias remuneradas e 13º salário. Se observarmos o percentual dos funcionários que recebem além do salário, alimentação e transporte, temos um percentual expressivo de aproximadamente 95%. A maioria, portanto, dos funcionários que trabalham como camelôs de tecnologia recebe além do salário outros benefícios típicos do universo formal. O curioso é que se agregarmos os que recebem além do salário, comissão por vendas, temos um percentual de aproximadamente 37% dos pesquisados. Quer dizer, um dado relevante, funcionários pagos também por comissões. Uma outra forma típica do universo formal. Temos, assim, quase a totalidade dos funcionários recebendo além do salário algum outro benefício, cerca de 97%. Há um caso de um funcionário que recebe apenas comissão mais benefícios em geral, não recebendo salário prédefinido. Quer dizer, um funcionário típico de um processo de precariedade, cuja renda fica praticamente atrelada a sua capacidade de vender. Quanto mais ele conseguir vender, maior será seu salário. Essa pode ser, inclusive, a mais nova faceta encontrada pelos donos dos boxes para contratar funcionários a custos mais baixos. No geral, encontrei dois tipos básicos de comissão por vendas. Um que estipula um percentual sobre tudo que é vendido, tipo 3% ou até 5% de tudo vendido. Este último percentual é, sobretudo, para os casos onde não existe salário fixo. O outro ocorre na definição de uma espécie de meta de venda, atingindo essa meta, obtém-se uma comissão. Logo, também funciona como estímulo para venda, como no caso de um boxe de games (que vende aparelhos, jogos e acessórios), em que havia uma quantidade fixa de aparelhos para ser vendida por dia, uma meta, eram dez aparelhos por funcionária, eram três funcionárias. Além de colocar, por vezes, o funcionário num contexto de precariedade, longas jornadas, trabalho intenso, muitas horas em pé, exposto às vicissitudes da rua, além disso, ainda obriga-o a concorrer com o colega de trabalho, em busca de uma certa “produtividade” na venda, no caso, “eficiência”. Portanto, tudo o que foi evidenciado aqui configura formas de trabalho que se espelham no universo formal. Claro que não são da mesma forma, mas conseguem também instituir situações de precariedade e insalubridade (como no caso do barulho que é intenso, da escassez de sanitários ou da falta de espaço no local de trabalho, já que os boxes são pequenos e quase sempre abarrotados de produtos e clientes do lado de fora, é um verdadeiro formigueiro humano, um formigueiro de consumidores e trabalhadores/as, um formigueiro de consumo). 5- Para uma guisa de conclusão As formas de trabalhos de rua representam certamente uma grande questão da sociedade brasileira da atualidade, existente provavelmente desde os tempos mais remotos de formação das cidades brasileiras, mas que hoje não funciona mais como um espaço de trabalho aberto, apto para equilibrar o desemprego no país. Na verdade, a informalidade de rua começa a exibir barreiras de acesso e, em certos casos, alguns níveis para ingresso, como é o caso dos camelôs de tecnologia, que são compostos por uma população mais instruída (maiores níveis educacionais e capacitação profissional), além de todo um cabedal de conhecimentos sobre tecnologia que se tem que ter para comercializar este tipo de produto. Nem todos/as informais de rua possuem conhecimentos para lidar com os produtos sofisticados, que a cada dia se diferenciam. A cada mês surgem novos produtos, que 21 rapidamente são vendidos nas ruas, o que exige do/a trabalhador/a um aprimoramento constante. Claro que muito desse aprimoramento parece ser adquirido no dia-a-dia, na prática, mas exige um conhecimento prévio do trabalhador. Após uma breve exposição dos dados, nota-se quão reconfigurados estão os camelôs. Quão multifacetado se tornaram suas relações de trabalho e seus métodos de comercialização, de venda. Mas, de fato, certas coisas permanecem, como o fato de continuarem trabalhando na rua, sem pagamento de impostos diretos, sem garantias legais e jurídicas do trabalho e de seguridade social. Permanecem também outros elementos que não abordamos aqui, mas que são visíveis nestas formas de trabalho, como a questão das relações de solidariedade e de amizade, que, sem dúvida, ainda são mais fortes neste universo do que no universo formal/regular. A idéia da formalização às avessas, que nos referimos acima, está atrelada à lógica e estilo de trabalho da rua, ligada ao seu modos operandi de funcionamento. Constitui-se, de relações de trabalho similares as do assalariamento formal, bem como, adota-se toda uma estrutura e aparato de uma loja, com traços sofisticados de venda (cartões, slogan...) e de estrutura física, além do fato de comercializarem produtos de alto valor agregado e alta tecnologia. Todavia, essa formalização é avessa, como dissemos, por não incorporar os direitos e aparatos legais intrínsecos à formalidade. Além disso, caracteriza-se por ser “perversa”, pois incorpora em seu fazer diário a ode do lucro empresarial, vivenciado tanto pelo camelô-funcionário quanto, sobretudo, pelo camelô-proprietário. Este, incorporado nesse ideário empresarial, termina por “viver” (guiado) pelos ganhos obtidos na comercialização, vigiando, explorando e buscando novas formas para melhor se utilizar dos camelôs- funcionários, muito similar ao que faz o patrão-formal. A lógica de trabalho entre os funcionários passa, por exemplo, a estimular a concorrência e disputa entre eles, para ver quem consegue mais comissões ou metas de venda. Estas comissões e metas assumem inicialmente um víeis de melhorar a própria renda dos envolvidos, dos funcionários, mas, na verdade, terminam estimulando lógicas de trabalho competitivas, individualistas e precárias, tal qual àquelas vivenciadas no mundo formal. Vale frisar que a informalidade no caso em específico liga-se ao capitalismo não apenas pelo meio da circulação de mercadorias, via “trabalhadores gratuitos” (Durães, 2005), comercializando produtos eletrônicos também originais, muitas vezes, de empresas famosas, mas também via um outro nível, menos palpável na imediaticidade, mas com uma força de influência sem medida, pela via simbólica da “formalização às avessas”. Dessa maneira, a informalidade se apresenta ligada diretamente às influências e relações da sociedade em geral. Referências Bibliográficas ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2 Ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000. _________________. 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O trabalho no contexto neoliberal O mundo do trabalho viveu transformações marcantes no fim do século XX, dentre as quais citamos a reestruturação produtiva, as diversas estratégias de flexibilização, desregulamentação do mercado de trabalho, terceirização e fragmentação do operariado. São mudanças que sinalizam para uma nova configuração do regime de acumulação do capital, mais flexível, com novas formas de desvalorização da força de trabalho e precarização generalizada, conformando a hegemonia da lógica financeira flexível que influencia a vida humana como um todo (HARVEY, 1998). Com efeito, observa-se que a contemporaneidade é marcada pela rapidez do tempo social, expressão da qual se valeu Hobsbawn (1995) em sua análise sobre o “breve século XX”, para caracterizar uma sociedade que se transforma profundamente em curto espaço de tempo. Esse novo modo de acumulação do capital manifesta-se na fluidez dos capitais fictícios, atrelados à força do mercado que é então personificado na informatização acelerada com redes de comunicação globais, na introdução de tecnologias avançadas, imprimindo a noção de flexibilidade às relações econômicas e sociais, como se necessária e positiva fosse, influenciando a vida humana como um todo. A lógica do capital flexível espalha-se na vida cotidiana, disseminando valores trazidos pelo capital financeiro: a idéia de descartabilidade do trabalhador, volatilidade e urgência, individualização e “capacidade de ter sucesso”, bem como a idéia de que vivemos num presente contínuo, sem conexão com o passado público que construímos. A sociedade apresenta-se com alto grau de fragmentação e de individualismo, em que cabe ao indivíduo inserir-se na dinâmica do mercado para participar enquanto agente econômico, não mais enquanto parte da sociedade. Esse é o entendimento de Leda Paulani (2005), que aborda o indivíduo econômico enquanto ser fragmentado, imiscuído pela necessidade do mercado para a satisfação de seus interesses, travando com ele uma relação de dependência que existe contraditoriamente ao auto-centramento do indivíduo em si mesmo. Com efeito, trata-se de uma pulverização do ser humano e de uma propagação da idéia de que ele só é livre na medida em que se apresenta como indivíduo inserido no mercado, ensejando, destarte, uma liberdade relativa e aparente. A crítica de Paulani vai de encontro ao pensamento de Hayek, idealizador do neoliberalismo e pregador de uma lógica que coloca o mercado enquanto elemento espontâneo e externo aos indivíduos, os quais têm autonomia suficiente para agir conforme seus próprios interesses (WAINWRIGHT, 1998). No dizer de Luis Filgueiras (1997, p. 9), “assiste-se a um complexo processo de deterioração das relações sociais, que está colocando em questão as formas de organização das sociedades contemporâneas”. Portanto, não se trata apenas de uma crise econômica e da ascensão de uma nova forma de acumulação do capital: há, segundo Antunes (2000, p. 38), uma crise estrutural que assola a (des)socialização contemporânea: destrói-se força humana que trabalha; destroçam-se os direitos sociais; brutalizam-se enormes contingentes de homens e mulheres que vivem do trabalho; torna-se predatória a relação produção/natureza, criando-se uma monumental “sociedade do descartável” [...]. Intrinsecamente ligada à flexibilização, a precarização evidencia a implementação de instrumentos que flexibilizam contratações e demissões, jornadas de trabalho, salários, regras do mercado de trabalho e a própria legislação trabalhista. Sob o manto do discurso da instabilidade dos mercados, da concorrência capitalista, da nova era tecnológica e de um novo regime de acumulação do capital, o patronato segue ampliando as formas de aumento de produtividade e intensificando a exploração da força humana de trabalho. Com efeito, a precarização se apresenta, segundo muitos autores, como uma “dupla transformação do trabalho”1, onde se exclui o trabalhador do mundo do trabalho através de um afastamento das relações formais de emprego (leia-se desemprego prolongado e novas formas de trabalho precário) e da deterioração das condições de trabalho (com riscos à saúde do trabalhador e perda de direitos sociais). Conforme Thebaud-Mony e Druck (2007, p. 31), o processo de precarização do trabalho ainda está em curso, uma vez que há uma reconfiguração da dinâmica econômica e novas estratégias de exploração das relações laborais. Em diferentes graus, ela manifesta-se não só em países subordinados, como em países que viveram o Estado de bem estar social, que têm o status de desenvolvidos. Manifesta-se também enquanto um processo que afeta toda a classe-que-vive-do-trabalho2, não poupando nem mesmo os empregados formais. Constata-se claramente que a precariedade está por toda a parte. No setor privado, mas também no setor público, onde se multiplicaram as posições temporárias e interinas, nas empresas industriais e também nas instituições de produção e difusão cultural, [...]. A precariedade afeta profundamente qualquer homem ou mulher exposto a seus efeitos; tornando o futuro incerto, ela impede qualquer antecipação racional e, especialmente, esse mínimo de crença e de esperança n]o futuro que é preciso ter para se revoltar, sobretudo coletivamente, contra o presente, mesmo o mais intolerável (BOURDIEUb, 1998, p. 120). A capacidade de expansão desse processo é grande e há uma tendência à naturalização, tratando-o como um fenômeno inexorável, do qual não podemos fugir. Alerta Bourdieu (1998) para a necessidade de análise política dos fenômenos em detrimento do economicismo determinista que assola as análises acerca do mundo do trabalho, já que a precarização não é uma mera “fatalidade econômica”, mas uma opção política. Diante do fatalismo flexibilizador que rege a vida cotidiana, instaura-se o “reino absoluto da flexibilidade” (BOURDIEUa, 1998, p. 139), onde tudo deve ser flexível, o tempo, o trabalho, a maneira de viver, os conceitos... Por que, então, a rigidez é tão nefasta? Trata-se de qual rigidez? Nesse sentido, Appay critica o “paradigma da flexibilidade positiva”, o qual prega a flexibilização como caminho necessário para se sair da crise e melhorar o futuro (APPAY apud THEBAUD; DRUCK, 2007, p. 36). Tais idéias hoje ocupam lugar principal na sociedade, que acaba por legitimar a inexorabilidade da flexibilidade e o “processo de submissão a uma ordem econômica dominante e suas conseqüências desastrosas em termos de desemprego e de precarização do trabalho e da vida” (THÉBAUD; DRUCK, 2007, p. 37). Como bem analisa Menezes (2003, p. 272-273) há uma [...] propaganda em favor da flexibilização [que] dissimula sua verdadeira essência, disfarçada numa palavra simpática e atraente, como observa Plá Rodrigues. De fato, estamos diante de uma expressão que evoca compreensão e adequação às circunstâncias de uma realidade em constante mutação. A flexibilização, assim, explora o seu pretenso contraste com uma idéia de resistência intransigente3. Tudo 1 Tratam dessa questão: FRANCO; DRUCK; BORGES, 1994; HIRATA, 1998 apud DRUCK, 2007; BRITO, 2000 apud DRUCK, 2007. 2 Conceito desenvolvido por Antunes (1999). 3 RODRIGUES, Américo Plá. La Actual Conyuntura Del Derecho Laboral. In: Evolución del Pensamiento Juslaboralista. Estudios en Homenaje al Prof. Héctor-Hugo Barbagetala. Motevideo: FCU, 1997, p. 388 quanto a ela se oponha logo ganha a pecha de anacronismo. Seu avanço, não obstante, importa a mutilação do direito do trabalho [...]. No âmbito jurídico prevalece também a idéia de que a flexibilização é imprescindível para a nova realidade econômica, a qual exige o fim da rigidez. A flexibilização é tida como algo inevitável, uma vez que a Revolução Tecnológica exigiu uma “revisão de fundamentos”, necessária à sobrevivência do Direito do Trabalho enquanto regulador das relações de trabalho (PINTO, J., 2007, p. 599). Com efeito, entendemos que a precarização do trabalho apresenta-se enquanto um processo central à análise da dinâmica do mundo do trabalho contemporâneo, na medida em que é elemento configurador e estruturante das relações sociais atuais. As principais características das relações capital/trabalho consistem na existência de uma sociedade sem coesão, marcada pela vulnerabilidade de indivíduos que vivem a fragilidade dos suportes, num nítido processo de desfiliação. Afirma Castel (1998, p. 526) que assim como o pauperismo do século XIX estava inserido no coração da dinâmica da primeira industrialização, também a precarização do trabalho é um processo central, comandado pelas novas exigências tecnológico-econômicas da evolução do capitalismo moderno (grifos nossos). Segundo Castel essa situação está cristalizada na “desestabilização dos estáveis”, na “instalação na precariedade” e na existência de “supranumerários”. Há uma gama de indivíduos que não possuem nenhuma participação social, totalmente desfiliados, entregues à instabilidade reinante na atual estrutura social que não mais possui espaço para eles. A crise dos anos 70 interferiu diretamente nas relações de emprego fordistas, ensejando conseqüências danosas ao trabalhador assalariado e o abalo da sociedade salarial. Contudo, o desenvolvimento das novas estratégias capitalistas desembocou numa nova conjuntura do emprego, ou melhor, do desemprego, o qual é visto como símbolo do atual estágio do capitalismo. Atrelado ao fenômeno do desemprego em massa, de longo prazo e discriminatório no que tange aos idosos e jovens, a precarização do trabalho consubstanciou- se num processo ainda mais importante. É o entendimento de Castel (1998, p. 514), que ressalta que “a precarização do trabalho constitui-lhe uma outra característica, menos espetacular porém ainda mais importante, sem dúvida” (grifos nossos). Nas suas análises, Castel aborda a questão da precarização como essencial para a compreensão dos processos “que alimentam a vulnerabilidade social e produzem, no final do percurso, o desemprego e a desfiliação” (1998, p. 516). Assim, não poderíamos nos valer de expressões como “trabalho atípico” ou formas particulares de contratação. Não se trata de um grupo de trabalhadores que não conseguem emprego, ou que, sem qualificação, submetem-se a contratos precários. Trata-se, em verdade, na real e evidente dinâmica social que marca a contemporaneidade: uma estrutura social abalada, sem condições mínimas de integração, metamorfoseada por uma vulnerabilidade de massa, marcada pelo individualismo, desagregada e sem noção de coletivo. Antunes (2000, p. 42) informa o “incremento do novo proletariado, do subproletariado fabril e de serviços, o que tem sido denominado mundialmente de trabalho precarizado”. Trata-se de um fenômeno de subproletarização do trabalho, onde um contingente enorme de trabalhadores expõe-se a condições precárias de trabalho, em formas de trabalho parcial, por tempo determinado, terceirizado, informal, sem qualquer respeito à saúde do ser humano e aos ditames legais mínimos, configurando uma “significativa heterogeneização, complexificação e fragmentação do trabalho” (ANTUNES, 1999, p. 209). Nesse sentido, atrelada à crise estrutural do capital, manifesta-se um processo de precarização estrutural do trabalho (ANTUNES, 2007, p. 17). Importante, por fim, salientar que não se trata de substituir a centralidade ontológica do trabalho enquanto categoria cerne da sociedade, postulada e defendida por diversos autores, nem se trata logicamente de defender a existência de uma sociedade pós-trabalho. A centralidade a qual abordamos coloca em cheque a estabilidade dos empregos fordistas e revela uma nova configuração, profunda e marcante das relações de trabalho contemporâneas. Direito do trabalho: mudanças ou crise? O Direito do Trabalho tem na proteção ao trabalhador sua histórica razão de ser. Nascido para equilibrar relações marcadamente desiguais entre duas forças incomparáveis, trabalho e capital, o Direito do Trabalho traz a relação de trabalho para o campo protetor da intervenção estatal, buscando minimizar a hipossuficiência do trabalhador por meio de normas limitadoras à liberdade de contratar. Ocorre que esse status do Direito do Trabalho não foi pacificamente aceito pelo capitalista. Pelo contrário, já são inúmeros os bombardeios a sua estrutura. A globalização e a nova fase do capitalismo flexível trataram de pôr em cheque o protecionismo laboral, ressaltando a importância de um direito organizador da produção e regulador do mercado de trabalho, não mais como antigamente. A idéia de um novo Direito do Trabalho, próximo ao Direito Civil, reavivador da liberdade individualista, desconhece o social e o político das relações de trabalho e envida-se em valorizar as negociações entre trabalhadores e patrões. O velho Direito do Trabalho socializava o salário; o novo Direito do Trabalho quer abrir-se e já se abre para a elitização do salário, como objeto da contraprestação ao trabalho. O velho Direito do Trabalho organizava limites humanizadores para a exploração desenfreada; o novo Direito do Trabalho orienta a informalização, a precarização, o trabalho intermitente e a exclusão social. O novo Direito do Trabalho dilui o potencial originário do Direito do Trabalho da sociedade industrial e somente é reformado para dar livre curso ao movimento do capital (GENRO, 1999, p. 18-19). Eis que no contexto em que se encontram as atuais relações de trabalho, o Direito do Trabalho sofre com as significativas transformações empregadas pelo neoliberalismo e pela reestruturação produtiva, e apresenta um quadro clínico preocupante: flexibilização da legislação trabalhista, com inserção de contrários precários e condições flexíveis de trabalho, e inefetividade de suas normas reguladoras4. É inegável que o Direito do Trabalho vem passando por sucessivas modificações através da efetivação de medidas flexibilizadoras. Desde a década de 605, medidas isoladas, mas nem por isso menos significativas, começaram a ser propostas pelo Legislativo brasileiro evidenciando o início do percurso rumo à flexibilização da regulação capital x trabalho. A Constituição Federal de 1988 elevou os direitos trabalhistas ao topo da hierarquia constitucional, tratando-os enquanto direitos fundamentais, essenciais à efetivação da 4 No contexto de crise em que vivemos - crise do Estado, da economia, do direito, do Direito do Trabalho, do princípio da proteção ao trabalhador - necessário revelar e reafirmar a centralidade do trabalho e a importância do princípio da proteção para um Direito do Trabalho cuja razão de ser é a sua função civilizatória e o seu poder integrador numa sociedade dividida. 5 Numa clara alusão à flexibilização, explica OLIVEIRA (2006, p. 51-52) que “A Lei 4923/65 permitia a redução geral e transitória dos salários por meio de negociação coletiva. A Lei 5107 de 1966 criou o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, como sistema alternativo à estabilidade decenal, regra geral à época”. dignidade do ser humano, princípio cerne do Estado Democrático de Direito. Contudo, a mesma constituição que protegeu os direitos sociais, permitiu a flexibilização de alguns direitos trabalhistas ímpares para a vida do trabalhador, possibilitando a redução salarial mediante negociação coletiva (art. 7°, VI) e o aumento da jornada de trabalho, facultada a compensação de horários, mediante acordo ou convenção coletiva (art. 7° XIII e XIV). E ainda, no inciso I do art. 7°, legitimou a despedida imotivada, pondo fim à estabilidade decenal e prevendo indenização compensatória para aqueles despedidos sem justa causa. Ao longo da década de 90, um conjunto de medidas legislativas foi sendo adotado pelos governos dos presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. O projeto de reforma trabalhista elaborado ao longo deste período privilegiou a flexibilização das normas vigentes, especialmente no tocante às formas de alocação do trabalho, à regulação do tempo de trabalho e à remuneração. A reforma foi realizada de forma parcelada e pontual, mediante aprovação de leis esparsas, mas inseridas num projeto maior que visava redefinir o papel do Estado, alterando sua relação com a sociedade civil e o mercado. Como vimos, os efeitos das medidas flexibilizadoras são evidentes e ensejam o atual contexto de precarização generalizada das relações de trabalho. Para além da sua centralidade, propomos tratar a precarização segundo duas vertentes de análise: primeiro, enquanto fruto das mudanças legislativas vividas pelo Direito do Trabalho no fim do século passado; segundo, enquanto produto da inefetividade das normas trabalhistas. Significa dizer que a precarização manifesta-se não apenas na contratação flexível, na utilização de formas precárias de emprego, mas também no cotidiano descumprimento da legislação trabalhista. O Brasil adotou o modelo legislado, na medida em que a lei é o elemento central da regulação capital e trabalho, motivo pelo qual a efetivação das normas é fundamental para a validade no mundo real. Como a realidade aponta para um reiterado descumprimento da legislação e para uma insuficiente fiscalização6 por parte dos órgãos competente, devido a problemas estruturais, observamos, assim como Cardoso (2001, p. 19), que “há razões para crer que, mais do que pela norma, a flexibilização opera intensamente por medidas administrativas e judiciárias” (grifos nossos), numa alusão às instituições estatais de regulação do trabalho: MTE, MPT e a própria Justiça do Trabalho. Nesse sentido, a Justiça do Trabalho apresenta-se como instância de poder apta a oferecer alguma forma de garantia concreta dos direitos fundamentais, reinstituindo, nos limites institucionais, o equilíbrio de relações profundamente marcadas pela exploração do capital sobre o trabalhador. TST: principais mudanças no fim do século Como visto, a flexibilização e precarização não se apresentam apenas sobre as normas trabalhistas, na sua produção e modificação legislativa. Tais processos são também fruto das interpretações do Judiciário, da atuação desta instituição na sociedade. É o que afirma Murilo Oliveira (2006, p.54): “Além do plano legislativo, pode-se constatar interpretações judiciais flexíveis, que têm minorado o caráter protecionista do Direito do Trabalho”. Nesse contexto nos perguntamos: na época em que hegemonizava no Brasil a agenda neoliberal em matéria de reforma trabalhista, quais foram os principais posicionamentos desta corte superior, os que tiveram impactos e repercussão social? A atividade jurisdicional concretizou a proteção a que 6 A fiscalização das empresas no Brasil é escassa e tímida, além do que, desde a década de 90, há uma política de valorização da negociação coletiva em detrimento das sanções por não cumprimento da legislação. se propõe historicamente o Direito do Trabalho? Como as medidas de flexibilização e a reforma trabalhista repercutiram no TST? O Tribunal Superior do Trabalho é o mais alto órgão da Justiça Trabalhista. É composto por vinte e sete ministros escolhidos entre brasileiros com mais de trinta e cinco anos nomeados pelo Presidente da República após aprovação pela maioria do Senado Federal, sendo um quinto dentre advogados e membros do Ministério Público do Trabalho e os demais dentre juízes de carreira. Sua função é precipuamente de uniformização de jurisprudência, o que significa que as decisões vindas de instâncias inferiores ao serem julgadas pelos ministros do TST são uniformizadas de acordo com o entendimento majoritário deste tribunal superior, que produz súmulas e orientações jurisprudenciais, bem como prolata sentenças normativas e precedentes normativos. São órgãos do TST: o Tribunal Pleno, a Seção Administrativa, a Seção Especializada em Dissídios Coletivos, a Seção Especializada em Dissídios Individuais, o Órgão Especial e as oito Turmas. A Seção Especializada em Dissídios Coletivos (SDC), por sua vez, fica encarregada de julgar originariamente os dissídios coletivos de natureza econômica e jurídica e tudo mais que diga respeito a eles. Eis o TST exercendo o poder normativo. Trata-se de uma peculiar e atípica função da Justiça do Trabalho brasileira, instituída no período varguista e em vigor até os dias de hoje, que influencia por demais a atuação dos atores sociais envolvidos nas negociações coletivas. O Judiciário quando interpelado mediante dissídio coletivo decide sobre determinado conflito e cria norma a ser cumprida pelas partes nas condições e no prazo determinados na sentença normativa. Desse modo, o TST ao atuar reiteradas vezes do mesmo modo, ao julgar dissídios coletivos, cria um padrão de referência para as negociações coletivas que geralmente agem pautadas nos precedentes normativos (como é chamada a jurisprudência uniformizada em dissídios coletivos). A atividade jurisdicional do TST passa pelo desempenho de cada ministro, e segundo revelam pesquisas mais atuais, da primeira década do século XXI, a carga de trabalho é alta, muitos são os processos recebidos por ministro a cada ano e não há o desafogamento do tribunal, o que acaba por gerar uma taxa significativa de congestionamento. Essa realidade também se delineava na década de 90, quando o número de processos recebidos pela corte superior do trabalho era maior que o número de processos julgados, gerando um resíduo que foi se acumulando até culminar nas taxas do século XXI. Pesquisas dmeonstram que a diferença entre o número de processos recebidos pelo TST e o número de julgados foi aumentando a cada ano a partir de 1991 até o seu ápice em 1996. A partir de então o TST aumentou significativamente sua capacidade de julgamento, sem conseguir, contudo, alcançar índices capazes de viabilizar a dinâmica do tribunal e dar respostas mais céleres à sociedade. Analisar a atuação do TST significa debruçar-se sobre a sua produção jurisprudencial mais representativa: as súmulas e precedentes normativos. Destarte, selecionamos entre as súmulas7 editadas durante a década de 90 aquelas que diziam (ou ainda dizem) respeito às mudanças flexibilizadoras e traziam (e trazem) em seu bojo aspectos relevantes da precarização das relações de trabalho. A opção pela análise dos precedentes normativos se deu em decorrência da sua influência sobre as negociações coletivas e consequentemente sobre a coletividade de trabalhadores e do turbulento contexto que os envolveu no fim do século passado. 7 À época as súmulas do TST tinham o nome de Enunciados, mas em 2005, com a Res. n. 129 de 05.04.05, o TST substituiu a denominação “enunciado” por “súmula”. Enunciado 310 O enunciado n° 310 foi editado pelo TST no ano de 1993, uniformizando o entendimento de que os sindicatos não poderiam atuar como substitutos processuais em qualquer hipótese, mas apenas naquelas expressamente autorizadas por lei, como era o caso da Lei n° 8.037/90, que previa a substituição processual para o específico caso da postulação por questões de reajustes salariais. Destarte, entendia o TST que o art. 8°, III, da Constituição Federal que institui como atribuição das entidades sindicais “a defesa dos direitos e interesses coletivo ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas” não era auto aplicável e necessitava de uma legislação específica que delimitasse e regulasse os casos de substituição processual. Eis a parte mais polêmica do enunciado: TST Enunciado nº 310 - Substituição processual. Sindicato (Res. 1/1993, DJ 06.05.1993. Cancelada - Res. 119/2003, DJ 01.10.2003). I - O art. 8º, inciso III, da Constituição da República não assegura a substituição processual pelo sindicato. II - A substituição processual autorizada ao sindicato pelas Leis nºs 6.708, de 30.10.1979, e 7.238, de 29.10.1984, limitada aos associados, restringe-se às demandas que visem aos reajustes salariais previstos em lei, ajuizadas até 03.07.1989, data em que entrou em vigor a Lei nº 7.788. III - A Lei nº 7.788/1989, em seu art. 8º, assegurou, durante sua vigência, a legitimidade do sindicato como substituto processual da categoria. IV - A substituição processual autorizada pela Lei nº 8.073, de 30.07.1990, ao sindicato alcança todos os integrantes da categoria e é restrita às demandas que visem à satisfação de reajustes salariais específicos resultantes de disposição prevista em lei de política salarial [...] (grifos nossos). Segundo Guilherme Basso (1994, p. 137), à época Subprocurador-Geral do Trabalho, o enunciado foi resultado de várias ações que se acumulavam no TST e versavam sobre diferenças salariais de planos econômicos. A corte superior, então, para solucionar a situação e uniformizar as muitas decisões acerca do assunto, entendeu por bem declarar a inaplicabilidade imediata do art. 8°, III, da CF e exigir a regulamentação legal do dispositivo. A repercussão deste enunciado foi avassaladora e os sindicatos viram sua atribuição constitucional ser usurpada, diminuindo sua efetiva participação na defesa dos direitos sociais de suas categorias. Ademais, sofreram o abalo da deslegitimação pela corte trabalhista após anos de lutas e no novo (à época) contexto de transformações flexibilizadoras. O enunciado 310 teve vida no mundo jurídico durante 15 anos e apenas em 2003 o TST o revogou por maioria absoluta. O cancelamento representou uma grande conquista para o movimento sindical, além de ter gerado repercussões positivas para as diversas instituições estatais, como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho), CUT (Central Única de Trabalhadores), ABRAT(Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas), MTE e MPT. Em notícia veiculada no sítio eletrônico do TST em 26/09/03, o tribunal destacou a ampliação do papel dos sindicatos em juízo e ressaltou os benefícios aos trabalhadores, que poderão durante o vínculo empregatício ter seus direitos defendidos sem correrem o risco de serem por isso despedidos. Apresenta, ainda, a opinião dessas entidades, que são unânimes em destacar ao lado positivo da revogação. Ressalte-se que desde 1994, Guilherme Basso (1994), já alertava para a necessidade de cancelamento deste enunciado sob o argumento de que a substituição processual do inciso III do art. 8° da CF é sim auto-aplicável, sendo o sindicato representante dos trabalhadores e não titular do direito. Opinava ainda que o STF seria a corte competente para sumular a questão por tratar-se de matéria constitucional e o entendimento do supremo já havia sido exposto em sessão plenária no dia 07/05/1999, quando, apreciando o Mandando de Injunção n° 347-5, rejeitou uma preliminar de ilegitimidade ativa do sindicato que havia proposto o referido remédio constitucional, entendendo ser auto-aplicável a substituição processual prevista no dispositivo em questão. Tratava-se de uma interpretação que limitava diretamente a atuação das entidades sindicais, numa forte alusão ao enfraquecimento da coesão da classe trabalhadora, que tem em seus sindicatos um instrumento histórico de pressão social. Desse modo, observamos que o enunciado 310 editado no início da década de 90 representava a desvalorização das entidades sindicais, postura que pode, à primeira vista, parecer contraditória à ideologia neoliberal de sobrepor o negociado ao legislado. Contudo, se analisarmos mais a fundo, perceberemos que no contexto pós década de 80, quando a força da luta sindical representou muita pressão e de fato obteve conquistas para a classe trabalhadora, tirar dos sindicatos essa atribuição tão importante representa contribuir para um mundo do trabalho ainda mais precário. Enunciado 331 O enunciado 331, editado e publicado pelo TST em 21/12/1993, representou uma revisão do enunciado 256, datado do ano de 1986. Este prescrevia que, à exceção dos casos de trabalho temporário e de serviço de vigilância, previstos nas Leis 6.019/74 e 7.102/83, a contratação de trabalhador por empresa interposta era ilegal, e previa a formação do vínculo empregatício direto com dita empresa. Tratava-se, pois, de um entendimento contrário à intermediação de mão-de-obra e à terceirização. Segundo Raymundo Pinto (2008, p. 282), “justificava-se a posição, uma vez que eram comuns os abusos por parte de certas empresas que contratavam os serviços de outras a fim de não pagar salários maiores a trabalhadores que executavam idênticas tarefas”. Ocorre que o empresariado não coadunava com esse entendimento: a terceirização era realidade no mundo e no Brasil não podia ser diferente. As Leis 6.019/74 e 7.102/83 representam a iniciativa de normatizar a terceirização, a primeira regulando o trabalho temporário e a segunda o trabalho de vigilância no setor bancário. A lei do trabalho temporário criou uma relação justrabalhista trilateral entre empresa terceirizante, trabalhador temporário e empresa tomadora do serviço, permitida na hipótese de necessidade transitória de substituição de pessoal regular e permanente da empresa tomadora e no caso de necessidade resultante de acréscimo extraordinário de serviços também na empresa tomadora (DELGADO, M., 2006). Critica Carelli (2007) a aludida lei, por entender que a contratação temporária no Brasil não teria razão de ser uma vez que há uma permissividade grande para a contratação a qualquer tempo, sem que implique em estabilidade para o trabalhador. Vivemos num sistema que permite contratar e despedir a qualquer tempo, sem maiores dificuldades. Eis porque a lei, importada da legislação européia, em nada tem a acrescentar e é injustificável perante a legislação brasileira. A justificativa dessa lei na Europa ocidental é que lá, como vige, em regra, a garantia em face da dispensa arbitrária ou desmotivada, a empresa em hipóteses transitórias não tinha como contratar e depois dispensar o trabalhador (CARELLI, 2007, p. 61). A Lei 7.102/83, ao contrário da primeira, que instituía hipótese de terceirização temporária, veio concretizar a terceirização permanente para a contratação de vigilantes patrimoniais no setor bancário. Ao longo das décadas de 80 e 90 a terceirização expandiu-se no seio da atividade privada sem necessariamente seguir a normatividade existente. As práticas de contratação de mão-de-obra interposta se difundiram no país, numa clara alusão ao aumento da lucratividade, sob justificativas de melhor qualidade da produção e maior competitividade dentro do sistema capitalista. Empresas grandes utilizam-se de outras menores que são ironicamente chamadas de parceiras, mas que em verdade são o melhor meio de economia. O TST, diante do aumento da prática terceirizante como realidade incontestável, das intensas pressões do empresariado, da doutrina e jurisprudência vacilantes e da ausência expressa no enunciado 256 de regulação da contratação de terceiros pela administração pública, aprovou em 1993 o enunciado 331, ampliando o enunciado 256, em verdade, modificando sua concepção acerca do assunto8. Enunciado 331 - Contrato de prestação de serviços. Legalidade (Revisão da Súmula nº 256 - Res. 23/1993, DJ 21.12.1993. Inciso IV alterado pela Res. 96/2000, DJ 18.09.2000) I - A contratação de trabalhadores por empresa interposta é ilegal, formando-se o vínculo diretamente com o tomador dos serviços, salvo no caso de trabalho temporário (Lei nº 6.019, de 03.01.1974). II - A contratação irregular de trabalhador, mediante empresa interposta, não gera vínculo de emprego com os órgãos da administração pública direta, indireta ou fundacional (art. 37, II, da CF/1988). III - Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102, de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta. IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços, quanto àquelas obrigações, inclusive quanto aos órgãos da administração direta, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista, desde que hajam participado da relação processual e constem também do título executivo judicial (art. 71 da Lei nº 8.666, de 21.06.1993). A orientação anterior incisiva na limitação da terceirização foi transformada e as hipóteses de terceirização ampliadas, abarcando a partir de então os serviços de conservação e limpeza, e de serviços especializados ligados à atividade meio do tomador. Inseriram-se os conceitos de atividade meio e atividade fim, como forma de diferenciar a terceirização lícita e a ilícita. Passou-se a admitir, portanto, a contratação de serviços de terceiros em qualquer atividade que não dissesse respeito à finalidade principal da empresa9, difundindo a terceirização como instrumento essencial à competitividade no mercado. As empresas ficaram, pois, livres do registro e das obrigações decorrentes da contratação de empregados. Além da insatisfação dos empresários, a repercussão maior entre doutrinadores ficou a cargo do item II, vez que a aplicação do enunciado 256 à administração pública era matéria 8 Há opiniões contrárias defendendo que as mudanças foram mínimas, como é o caso do magistrado do TRT da 9ª Região, Euclides Rocha (1994, p. 119-120), que afirma: “O novo verbete desmembrou o anterior e a novidade, substancialmente, situa-se apenas no item II, em que firmou-se o entendimento de que ‘a contratação irregular de trabalhador, através de empresa interposta, não gera vínculo de emprego com os órgãos da Administração Pública direta, indireta e fundacional”. 9 Registramos nossa crítica a esse posicionamento, vez que uma empresa não tem como viver sem a articulação de todas as atividades que envolvem a sua produção, é dizer, todas as fases da produção são essenciais. Na indústria automobilística, por exemplo, os bancos e assessórios internos do veículo são fundamentais para a finalidade a que se propõe aquele produto. Não há como vender um automóvel sem, bancos ou volante, ou há? Nesse sentido, salienta MAIOR (2004) a dificuldade em definir o que é atividade meio e o que vem a ser atividade fim, questionando: “o serviço de limpeza, por exemplo, normalmente apontado como atividade-meio, em se tratando de um hospital, seria realmente uma atividade-meio?” controvertida até então. Como o antigo enunciado ressalvava apenas os casos de trabalho temporário e de serviço de vigilância, sem tratar das atividades exercidas pela administração pública, a contratação por empresa interposta era considerada ilegal para os demais casos. A contratação de serviços de agentes terceiros pela administração pública era adotada com freqüência por agentes públicos na intenção de suprir a falta de servidores em determinados ramos. Como, então, lidar com a proibição de contratação de terceiros? Como punir a ilegalidade cometida pela administração pública? Como exigir a responsabilização do poder público pelas verbas trabalhistas não pagas ao trabalhador que não foi admitido por concurso público e não seguiu, portanto, os ditames legais e princípios constitucionais? Eis que o enunciado 331 optou por proteger a moralidade, impessoalidade e o patrimônio público dos administradores incautos e dos administradores privados que ardilosamente contratam com o poder público na intenção de ver-se eximido de suas obrigações, preservando as formas legais de ingresso no serviço público. Segundo Carelli (2007, p. 65), o TST acertou, pois “o fornecimento de mão-de-obra atualmente é o maior meio de apadrinhamento dentro da máquina pública, sendo utilizada a terceirização como instrumento de colocação de aquinhoados dentro da administração”. Muitas foram as consequências da admissão da terceirização nas relações trabalhistas, que vão desde a redução salarial dos empregados da terceirizada, passando pelo tratamento diferenciado, pela inexistência de proteção à saúde e higiene dos trabalhadores terceirizados e até mesmo quarteirizados. Trabalhadores de segundo plano, portanto, muitas vezes sem representação sindical e sem identidade. Os prejuízos ao trabalhador refletem relações ainda mais precárias de trabalho, sobre o que opinam Druck e Thébaud-Mony (2007, p. 28): Sua caracterização como novo fenômeno é dada pela amplitude, pela natureza e pela centralidade que assume no contexto de flexibilização e precarização do trabalho, neste novo momento do capitalismo mundializado ou da ‘acumulação flexível’. Trata-se de um processo de metamorfose, já que a terceirização deixa de ser utilizada de forma marginal ou periférica e se torna prática-chave para a flexibilização produtiva nas empresas, transformando-se na principal via de flexibilização dos contratos e do emprego. Conforme Maior (2004) há ainda algumas dificuldades. Primeiro desafio: identificar o real empregador; segundo: trazer a empresa prestadora a juízo (é uma prática corriqueira o desaparecimento das empresas, as mudanças de razão social, a fraude, enfim); terceiro: ultrapassar as alegações infundadas das empresas; quarto: executar a sentença condenatória, o que se faz primeiro sobre os bens da prestadora e só na hipótese de insuficiência, sobre os bens da tomadora (eis a responsabilidade subsidiária prevista no enunciado). Os prejuízos ao trabalhador são inúmeros, o que nos permite opinar que a legitimação da terceirização lícita pela jurisprudência da mais alta corte trabalhista atentou contra o princípio basilar do Direito do Trabalho: a proteção do trabalhador. Salientamos que até hoje não há no Brasil legislação específica acerca do tema, o que reflete a importância do enunciado 331. A terceirização é difundida prática mundial e já se confundiu com a intermediação de mão-de-obra, motivo pelo qual há necessidade de uma legislação proativa, capaz de minimizar os danos da precarização causada pela terceirização (CARELLI, 2007, p. 66)10. 10 Registramos a discordância de parte do movimento sindical na promulgação de lei regulando a terceirização, face ao risco de total legitimação de relações prejudiciais e precarizadoras. Reconhecer a sua legalidade, mesmo que em situações específicas, representaria a dura concessão dos sindicatos a mais uma estratégia capitalista. Enunciado 349 O enunciado 349 foi editado em 1996 e vige até hoje sem modificações: Enunciado 349 - Acordo de compensação de horário em atividade insalubre, celebrado por acordo coletivo. Validade (Res. 60/1996, DJ 08.07.1996) A validade de acordo coletivo ou convenção coletiva de compensação de jornada de trabalho em atividade insalubre prescinde da inspeção prévia da autoridade competente em matéria de higiene do trabalho (art. 7º, XIII, da CF/1988; art. 60 da CLT). O entendimento que vai de encontro ao art. 60 da CLT, que condiciona as prorrogações de jornada de trabalho nas atividades insalubres feitas por negociação coletiva à licença prévia das autoridades competentes em matéria de higiene do trabalho. O enunciado 349 flexibilizou esse dispositivo, em verdade, retirou sua força coercitiva e sua efetividade, ao preceituar que a inspeção prévia é requisito desnecessário para a validade dos acordos e convenções coletivas que versem sobre compensação de jornada em atividades insalubres. A justificativa é a de que a presença do sindicato da categoria quando do acordo ou convenção coletiva por si só garantiria os direitos trabalhistas, não sendo necessária a inspeção por autoridade competente. Ademais, a inspeção pelo Ministério do Trabalho é demorada e burocrática e faltam fiscais, fatores que inviabilizariam a prática da compensação da jornada nas atividades insalubres. Acreditamos que tais alegações não são suficientes para tirar a eficácia de uma norma protetiva à saúde do trabalhador que labora em ambiente com riscos. O sindicato apesar de representante dos trabalhadores não tem condições para avaliar com presteza o ambiente de trabalho, nem de proceder “aos necessários exames locais e a verificação dos métodos e processos de trabalho” (art. 60, CLT). O cuidado reservado pela CLT aos dispositivos que regulam questões de higiene e segurança do trabalho é plenamente válido diante dos malefícios que determinados agentes podem causar à saúde humana. Os estudos ligados à saúde do trabalhador têm avançado muito no Brasil e demonstram a necessidade de o Poder Estatal interferir instituindo normas protetivas e fiscalizando o seu cumprimento, impedindo que trabalhadores fiquem à deriva e normas de ordem pública sejam derrogadas. Desse modo, o enunciado em questão está em consonância com o contexto neoliberal que hegemoniza a necessidade de flexibilização da norma protetiva, incentivando as negociações e sua prevalência sobre o legislado. As medidas flexibilizadoras acima estudadas têm esse condão e mostram claramente o quão valioso para o sistema capitalista é a não intervenção estatal. No contexto de fragilização das entidades sindicais e dispersão da classe trabalhadora pelo desemprego prolongado em massa, deixar nas mãos dos sindicatos a adoção de medidas que vão além de suas capacidades e atingem diretamente à saúde de um coletivo de trabalhadores é simplesmente coadunar com a derrogação dos direitos sociais e fundamentais, essenciais à dignidade humana. Não significa que os sindicatos devem ser postos de lado ou mesmo excluídos da dinâmica das relações de trabalho. Pelo contrário: a valorização sindical passa pela sua capacidade de atuar enquanto agente regulador social, capaz de interferir nas decisões estatais, pressionar o patronato e lutar para a ampliação dos direitos trabalhistas. Precedentes normativos e suas repercussões nas negociações coletivas Os precedentes normativos (PN) representam a jurisprudência uniformizada do TST no julgamento dos dissídios coletivos. O TST editou 126 precedentes normativos e mais 15 ementas (141, portanto) durante a década de 80 os quais tratavam de temas como relação de emprego, relações entre sindicatos e empresas e requisitos formais sobre os dissídios. O conteúdo dos precedentes eram substantivos em sua maioria e viraram referência para os sindicatos e empresas nas negociações coletivas (HORN, 2006). Na década seguinte, a atuação do TST mudou. Em 1992, a corte reavaliou os precedentes normativos já editados e revisou-os, aprovando desta vez 118 precedentes com basicamente o mesmo conteúdo dos revisados, cancelando 26 deles e criando mais 3 com nova abordagem. Como a temática dos precedentes quase não se alterou, a revisão de 1992 significou em verdade a busca pela diminuição da sua quantidade. Em 1998, porém, as mudanças foram relevantes, sendo realizadas duas revisões. Na primeira foram cancelados11 muitos precedentes editados em 1992 e um deles foi reformulado (HORN, 2006). A revisão de 1998 refletiu-se no conteúdo dos precedentes que ganharam um perfil mais procedimental, relativo às regras formais de admissão dos dissídios pelo TST, do que substancial, ligado às temáticas trabalhistas. Segundo dados de Horn (2006) “o número de regras sobre a relação de emprego reduziu-se de 97 para 81 PN/TST, ao passo que o número de regras de procedimento aumentou de 22 para 42 PN/TST”, o que demonstra a mudança de pensamento dos ministros. Considera o autor que a diminuição de precedentes reguladores do cotidiano das relações de trabalho mostrou um recuo do TST no julgamento dos dissídios, apresentando certa distância dos entes coletivos. Ademais, o aumento de precedentes procedimentais, sinaliza a adoção de obstáculos para o ingresso dos dissídios no TST. Foram cancelados em 1998 precedentes positivos12, dentre os quais destacamos: PN/TST n° 43, que previa o adicional de 10% por horas extras; PN/TST n° 90, que previa o adicional de 60% para o trabalho noturno; PN/TST n° 30, que assegurava ao empregado acidentado garantia no emprego por 180 dias; PN n° 51/TST, que garantia o emprego aos suplentes da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) contra despedida arbitrária; PN/TST n° 46, que impunha multas pelo não pagamento das verbas rescisórias até o 10° dia útil subseqüente ao afastamento do empregado; PN/TST n° 49, que previa a garantia de emprego à gestante; PN/TST n° 76 que instituía aviso prévio de 60 dias; PN/TST n° 101, que concedia adicional de transferência no percentual de 50%. Observamos, pois, o impacto negativo do cancelamento dos precedentes positivos no seio do sindicalismo, já que o caminho da solução dos conflitos coletivos mediante o Judiciário era amplamente cogitado pelos dirigentes à época. A queda do número de precedentes positivos foi, segundo a investigação realizada por Horn, maior do que a queda dos negativos, o que “pode sugerir um viés contrário aos interesses daqueles sindicatos que buscam resolver os conflitos coletivos através da arbitragem judicial” (HORN, 2006, 429)13. 11 O cancelamento de precedentes não gera efeitos sobre acordos e convenções já em vigor ou mesmo sobre sentenças normativas que já tenham transitado em julgado (GARBIN, 1998). 12 “Um precedente é dito positivo quando uma maioria de ministros do TST concorda que seu conteúdo normativo deve ser deferido nos julgamentos dos dissídios coletivos, ao passo que os precedentes negativos compreendem os conteúdos que a maioria do tribunal está propensa a indeferir. A importância dessa dicotomia reside na sinalização dada pelo TST aos agentes da negociação coletiva. Nos processos de negociação que não chegam a bom termo, [...] sabe-se de antemão que as demandas por regras iguais às dos precedentes positivos provavelmente serão acatadas pelo TST, ao passo que o contrário é mais provável de ocorrer quanto às demandas por regras iguais às dos precedentes negativos” (HORN, 2006, p. 427). 13 Impende salientar, contudo, que a ausência de precedente normativo acerca de determinado assunto não implica na impossibilidade de negociação sobre ele ou mesmo de normatização pelo Judiciário mediante sentença normativa. As partes continuam podendo ajuizar dissídios, mas não têm como referência os precedentes, o que pode sinalizar para uma interpretação negativa acerca de determinado assunto. Ainda em 1998, o TST revisou novamente os precedentes, ratificando sua intenção em formalizar os requisitos necessários para a admissão do dissídio a ser apreciado pelo tribunal, consolidando a diretriz que dificultava o acesso ao Judiciário e levava à seguinte conseqüência: muitos dissídios ajuizados ficaram sem julgamento e os agentes coletivos envolvidos nas relações de trabalho ficaram sem resposta do Judiciário, Nesse sentido, citamos a conclusão da pesquisa realizada por HORN acerca dos “requerimentos processuais para a solução judicial dos conflitos coletivos”. O pesquisador afirma que até os anos 90 havia menos formalidade para a admissão dos dissídios, e o TST muitas vezes era permissivo com relação ao cumprimento de determinados requisitos legais trazidos pela CLT. Sua investigação demonstra que, já em 1993, o tribunal publicou a instrução normativa n° 04, a qual abrigava uma maior formalidade procedimental. Foi, portanto, a partir de meados de 90 que o tribunal adotou o caminho da formalidade procedimental no que tange aos dissídios coletivos. A mudança de posicionamento do tribunal refletia a realidade conjuntural de então. A onda neoliberal valorizadora das negociações entre as partes da relação laboral não repercutia apenas nas relações individuais, do contrário: apresentava reflexos na seara coletiva. Com o novo posicionamento do TST, a regulação das relações coletivas de trabalho fica a cargo da literalidade da lei e dos consensos entre patrões e empregados. Sayonara Silva (2008) apresenta em sua tese de doutorado a seguinte hipótese acerca da atividade jurisdicional do TST nas relações coletivas de trabalho: “nos anos 1990, sob o argumento de valorização da negociação coletiva, se desenvolveu no país um processo de fracionamento no conceito de autonomia coletiva”. Tese que coaduna com as conseqüências das mudanças legislativas de flexibilização e precarização em curso na década de 90. Opina Garbin (1998) que: O comportamento do TST faz parte da estratégia de flexibilização da solução judicial e de incentivo da negociação direta como forma de resolução dos conflitos intersindicais. A providência, ao final, reforça a posição pedagógica adotada pelo TST e divulgada abertamente pelo Ministro-Presidente, Ermes Pedro Pedrassani, de inviabilizar os processos de dissídios coletivos e estimular as negociações coletivas. Desse modo, entendemos que as conquistas sindicais da década de 80, através da força política dos trabalhadores que haviam desembocado na edição de precedentes a eles favorável e com conteúdo ampliador, sofreram forte abalo com a mudança de posicionamento do TST, repercutindo na postura dos sindicatos nas mesas de negociações coletivas, bem como na crença no poder normativo da Justiça do Trabalho. Tudo isto posto, entendemos que houve uma nítida influência das modificações legislativas em curso, bem como da ideologia neoliberal dos governos Collor de Mello e FHC sobre a dinâmica judiciária. Revista do TST: o pensamento do ministros revelado A partir da pesquisa bibliográfica analisamos nas revistas do TST as publicações de autoria de alguns dos ministros do TST para entendermos suas opiniões e posicionamentos com relação à flexibilização (suas características e conseqüências), às mudanças no Direito do Trabalho e à dinâmica, funcionamento e peculiaridades da Justiça do Trabalho. No que tange à flexibilização, tema palpitante no início da década de 90 em face da adoção de medidas por países centrais, os ministros possuíam entendimento diverso, alguns contrários a qualquer norma ou medida que prejudique direitos trabalhistas, outros favoráveis, outros adeptos à idéia de ressalvas que garantam um mínimo aos trabalhadores. Em 1990, Orlando Teixeira da Costa, então ministro Corregedor-Geral, escreveu sobre a rigidez e flexibilidade do Direito do Trabalho no Brasil para expressar sua preocupação com o contexto das relações trabalhistas. Como no Brasil o Direito do Trabalho é codificado e a nossa sociedade apresenta uma desigualdade muito grande com diversificado sistema sindical, não se pode promover uma reforma trabalhista visando flexibilizar as relações laborais simplesmente porque nos países de economia de mercado há tendências e experiências nesse sentido. Há nessa atitude alto risco de agravamento da condição de hipossuficiência dos trabalhadores. Defendia o ministro uma flexibilização diferenciada, com tratamento regulatório específico para pequenas, médias e grandes empresas, não apenas em matéria fiscal, mas também trabalhista (COSTA, 1990, p. 122-123). Conforme o ministro, desde o Regime Militar havia começado a mitigação do valioso princípio da proteção através da introdução do FGTS, da Lei 4.923/65 que permitiu a redução salarial por acordo coletivo em face da conjuntura econômica, da Lei 6.019/74 que instituiu o trabalho temporário, da Lei 7.102/83 que permitiu a contratação triangular, e da Constituição Federal de 88 que flexibilizou o salário e a jornada de trabalho. A despeito dos fatos, afirmava que não havia em 1990 pesquisas avaliando com profundidade e precisão o fenômeno que despontava (COSTA, 1990). Em 1991, o aludido ministro ocupava a Vice-Presidência do TST e novamente opinou acerca do processo de flexibilização. Tratava-se de um processo visto pelos economistas como essencial, uma vez que as relações laborais possuem íntima ligação com os níveis de produtividade, objetivo das relações econômicas. Porém, pugnava Costa pela limitação da ânsia lucrativa e busca da promoção da dignidade do homem, que não é célula nem peça de um mecanismo econômico. Desse modo, como o momento exigia “um pouco mais de maleabilidade”, era importante entender que as concessões por parte dos trabalhadores não poderiam ser muitas, nem significativas, ainda mais em países onde o sindicalismo não tem força política para garantir a ampliação de direitos. Eis porque não se deve incentivar por demais esse processo de valorização dos sindicatos, sob o risco de “recuarmos ao tempo do ‘laissez-faire, laissez-passer’, de regredirmos à época anterior ao Tratado de Versalhes, convertendo novamente o trabalho em mercadoria” (COSTA, 1991, p. 152). Adotar a flexibilização simplesmente porque já fora adotada pelos países centrais não lhe parecia cabível, ainda mais que esta atitude significaria a substituição de postulados fundamentais ao Direito do Trabalho, como o princípio da proteção, cada vez mais mitigado, “quando não eliminado para dar lugar a uma diminuição dos custos da mão-de-obra e a uma conseqüente diminuição dos riscos empresariais, mediante o incremento da rentabilidade” (COSTA, 1992, p. 17). Com a justificativa de que o desemprego é fruto da regulamentação trabalhista em excesso, o patronato buscava “ressuscitar o ‘marchandage’, a liberação do tempo de trabalho, a eliminação da permanência no emprego, a fixação do salário mediante a recuperação da regra da oferta da procura” (COSTA, 1992, p. 17). Não se podia, portanto, permitir a derrogação sob tutela sindical pela via da negociação coletiva dos direitos trabalhistas inderrogáveis. A tutela estatal é essencial para o equilíbrio do sistema econômico. Em que pese a discordância do ministro Orlando Costa em relação à flexibilização, impende salientar que sua opinião ressalvava os casos em que a flexibilização se mostrasse “indispensável”, quando a dignidade da pessoa humana do trabalhador deve ser preservada. Já o ministro Manoel Mendes de Freitas (1993) entendia que a Constituição Federal consagrara o protagonismo das entidades sindicais no Direito do Trabalho, ao abrir as portas para o entendimento entre empregadores e empregados com maior liberdade e em situações diversas. A severa vigilância e a ilimitada intervenção do Estado haviam sido sobrepostas pela garantia de autonomia aos sindicatos, os quais haviam passado a decidir como agir nas diversas conjunturas que regem as relações de trabalho, sendo a proteção estatal aos trabalhadores substituída pela proteção sindical (FREITAS, 1993). Pregava o ministro a admissão da flexibilização no Brasil nas hipóteses em que o trabalhador não fizesse “um sacrifício inútil, a uma concessão graciosa, destituída de comutatividade” (FREITAS, 1993, p. 133). Acreditava, ainda, que o juiz deve estar conectado ao novo contexto, às transformações e evoluções mundiais, sob pena de “destoar”, de “comprometer o avanço inexorável do tempo”. Aberto ao novo momento de flexibilização, o juiz trabalhista não deveria andar na contramão, nem pode deixar de preocupar-se com o trabalhador, que numa economia difícil como a brasileira deve ter seu emprego conservado. A análise judicial deveria resguardar os interesses maiores da coletividade e avaliar os limites do poder de renúncia que poderia ser reconhecida aos empregados. Daí a importância de se atentar para a realidade dos sindicatos envolvidos na questão, uma vez que o sindicato é o porta-voz do trabalhador. Logo, “se a renúncia tem por objetivo contribuir para que a empresa supere fase de dificuldades, ela é plenamente justificável, pois visa a preservar a fonte de emprego em época adversa” (1993, p. 137) (grifos nossos). Concluiu o ministro: não sou, portanto, contrário à ‘flexibilização’. E não poderia ser jamais, já que entendo que tudo é relativo na vida, ainda no campo do Direito. O importante, repito, é que o juiz do Trabalho brasileiro, quando levado a decidir concessão dos trabalhadores enquadrada no campo da ‘flexibilização’, que ele o faça de forma especialmente cuidadosa, com os olhos voltados para a real situação atual do trabalhador brasileiro [...] (FREITAS, 1993, p. 137-138). Já o ministro Vantuil Abdala (1994) demonstrava sua preocupação pelo tema, principalmente pela adoção das horas extraordinárias como permanentes, cotidianas, descaracterizando, assim, a permissão dada pelo legislador. Informava o ministro que o acordo ou convenção coletiva que estabelecesse a prestação de serviços além das oito horas diárias em caráter permanente seria ilegítimo. Entendia, ainda, que a flexibilidade do horário de trabalho deveria ser bem vista quando atendesse “aos interesses da produção e à conveniência e necessidade do trabalhador” (1994, p. 49). Nos países industrializados tendia-se à redução das jornadas e à administração do horário de trabalho pelo empregador, que poderia dispor dele da melhor maneira possível. No Brasil, segundo o ministro, “os mesmo motivos de ordem técnica, econômica e social que alhures ensejam o esforço para a flexibilização do horário de trabalho, de uma certa maneira, estão presentes” (1994, p. 50). Eis que poderíamos adotar o sistema de compensação anual de horas, o qual propicia certa liberdade para o trabalho e “há quase sempre uma redução das horas de trabalho ao longo do ano”, sem contudo haver horas extras (ABDALA, 1994). A Justiça do Trabalho, tida como obstáculo ao desenvolvimento estritamente econômico, apartado dos aspectos sociais, e como meio para a efetivação da isonomia nas relações de trabalho (MACEDO, 1990, p. 117), foi também abordada pelos ministros. No que tange à estrutura e funcionamento da Justiça do Trabalho observamos a preocupação do ministro Marco Aurélio Prates de Macedo em garantir um Judiciário capaz de responder à sociedade de forma célere, vez que “justiça tardia é justiça falha” (MACEDO, 1990, p. 118). Daí a necessidade de ampliação das instâncias trabalhistas, com a criação de novas Juntas de Conciliação e Julgamento -JCJ (hoje denominadas varas do Trabalho, como vimos) e de novos TRTs, na busca pela implantação do mínimo preceituado pela Constituição Federal, ou seja, um TRT em cada Estado, pelo menos (art. 112, CF). Com posicionamento diametralmente oposto, o ministro José Ajuricaba da Costa e Silva (1994) criticou veementemente a histórica ampliação da competência da Justiça do Trabalho, fato que havia gerado seu “emperramento”, pois havia acarretado um aumento considerável de reclamações trabalhistas. Além disso, houve outros fatores. A multiplicação de demandas trabalhistas estava ainda ligada ao aumento acentuado das JCJs, dos TRTs e das turmas dos TRTs. Ao ampliar o número de juízes dos Tribunais Regionais permitiu-se a ampliação de divergência entre os posicionamentos judiciais, gerando maior litigância, com correntes doutrinárias opostas e jurisprudências díspares dentro de um mesmo tribunal. Ademais, os sindicatos (em verdade “algumas de suas diretorias que não se preocupam efetivamente com o bem estar das categorias que representam, mas as usam como trampolim de pretensões e projetos pessoais” (SILVA, 1994, p. 22)) agiam inconsequentemente, iludindo trabalhadores com promessas de ganhos incertos e muitas vezes impossíveis, em face da existência de jurisprudência já sumulada. Por fim, o último fator elencado pelo ministro era a existência de uma “constitucionalização excessiva das normas de proteção ao trabalho”, o que também provocava o aumento de processos no STF, pois muitos direitos trabalhistas tinham status de norma constitucional desde a última Constituição Federal de 1988 (SILVA, 1994). Com base nesses argumentos o aludido ministro propunha medidas para agilizar a Justiça do Trabalho que vão na contramão dos posicionamentos jurídicos de um país que se diz um Estado Democrático de Direito. À época as proposições foram muitas e algumas delas estiveram conectadas com o processo de flexibilização em voga, com soluções capazes de dar ao Direito do Trabalho e aos atores coletivos a maleabilidade e a autonomia imprescindíveis à “negociação igualitária”, transigindo e ajustando as condições de trabalho às necessidades do capital. Pelo que se encontra registrado nas revistas analisadas, observamos que há uma tendência a considerar trabalhadores e empresa como partes iguais nas relações de trabalho, protegendo tanto o trabalhador como a sobrevivência da empresa. É como se o Direito do Trabalho atuasse agora como mediador de uma relação equilibrada, tendo apenas que manter a harmonia entre as decisões tomadas pelos próprios agentes. A flexibilização funcionaria, então, como melhor instrumento nessa tarefa, ajustando as reivindicações dos empregados às circunstâncias da empresa, permitindo o aumento da sua produtividade e a sua continuidade. Eis que a empresa é hoje tão hipossuficiente quanto o trabalhador. Observamos ainda que no início da década de 90 a inexorabilidade e inevitabilidade da flexibilização ainda não vigoravam, existindo posicionamentos contrários a qualquer mudança que gerasse prejuízos aos direitos sociais. As medidas legislativas de flexibilização e precarização ainda não apresentavam reflexos visíveis e a Justiça do Trabalho ganhava cada vez mais notoriedade com a explosão de demandas trabalhistas. Rumo às conclusões Eis que ao final da análise proposta nos perguntamos: modernização das relações de trabalho ou princípio da proteção? Observamos que o alto grau de congestionamento e a incapacidade operativa do tribunal constatada por alguns ministros demonstram como o acesso ao Judiciário trabalhista se torna penoso para os trabalhadores. Na prática, isto significa o afastamento de franjas mais vulneráveis da classe trabalhadora, submetidas a relações mais precárias e mal remuneradas. Paradoxalmente, a resposta do TST ao problema estrutural do sistema judiciário trabalhista brasileiro apontou para a formalização do acesso ao próprio sistema, especialmente pela via coletiva, por meio da edição na década de 90 de precedentes normativos procedimentais. Uma opção desarrazoada, na medida em que arrefece a participação do tribunal na vida social, retroagindo à máxima de um Judiciário fechado em si mesmo, distante da sociedade. Dificultar o acesso dos atores sociais coletivos ao Judiciário significa deixá-los sem resposta estatal, “livres” para pactuarem como se iguais fossem. Ademais, sabemos que o trabalho continua sendo a porta de entrada principal para todo o sistema de proteção e integração social no Brasil e a relação capital/trabalho é o conflito central na dinâmica de funcionamento da sociedade capitalista. A postura de desresponsabilização do Judiciário ante o conflito capital/trabalho nas demandas coletivas não poderia ter outro fim senão o fracasso. Na ausência de instituições públicas de regulação e aplicação da legislação trabalhista numa sociedade marcada por desequilibradas relações de poder, a tendência é de recrudescimento das infrações e potencialização de conflitos. Constatamos, ainda, a partir do entendimento jurisprudencial sumulado no enunciado 310, que o TST, sem argumentos ou fundamentos convincentes, acabou por tornar inaplicável na década de 90 um dispositivo constitucional com a escorregadia justificativa de que a norma que garantia a legitimidade da substituição processual sindical necessitava ser regulamentada pelo Legislativo. Tirar a concretude de um dispositivo que coaduna com os princípios informadores do Direito do Trabalho, bem como com o espírito constitucional de valorização das entidades sindicais, significa retroceder, agir conservando o status quo, olvidando da interpretação integradora que garanta a afirmação dos princípios constitucionais. A ausência de motivos que sustentassem o enunciado 310 foi tão evidente que o TST modificou sua posição em 2003 e continuamos até os dias de hoje sem norma regulamentadora. Entendemos que a composição da corte superior trabalhista é diversificada e abarca ministros com pensamentos díspares, o que é típico das instituições públicas estatais. Há uma clara tendência ao ecletismo assumida pelos ministros, característica muito comum no meio jurídico, oriunda das próprias escolas de formação. Muitas opiniões são fundamentadas em meras percepções de um senso comum teórico que acabam por concretizar posturas e interpretações contraditórias. No que tange à flexibilização da legislação trabalhista, por exemplo, observamos que há ministros que criticam o fenômeno, mas que concluem achando melhor admitir sua possibilidade em casos especiais com a adoção de ressalvas. Do mesmo modo ocorre com as opiniões acerca do Direito do Trabalho: os tempos prenunciam a necessidade de mudanças, não podemos descuidar da proteção do trabalhador, mas o protagonismo das partes nas negociações coletivas e a valorização dessa autonomia refletem posicionamentos como o sumulado no enunciado 349. O quanto exposto fala por si: as concepções norteadoras da atuação do TST firmam-se na valorização da Justiça do Trabalho enquanto instituição fundamental ao Estado Democrático de Direito e do Direito do Trabalho enquanto pacificador do embate capital x trabalho e responsável pelo padrão civilizador. Tais concepções, contudo, passam por mitigações que podem muitas vezes levar à efetivação de práticas flexibilizadoras, precarizantes, maléficas aos trabalhadores. O TST tutela, mas vacila, protege, mas flexibiliza. Não poderíamos deixar de ressaltar a amplitude e gravidade do fenômeno flexibilização/precarização, cerne do presente estudo. Salientamos, pois, o caráter social deste processo que, a princípio, manifesta-se no âmbito da organização do trabalho, das relações capital/trabalho. Diretamente relacionada à questão social, a precarização do trabalho revela conseqüências em diversos campos, que podem ser visualizadas na atuação do Estado, mediante uma redefinição do seu papel na regulação capital/trabalho, na projeção de um movimento de legalização da precariedade através de reformas legislativas flexibilizadoras, na propagação do ideário de um mercado “nervoso” e contrário à manutenção dos gastos com a proteção social, etc. São reflexos provocados na estrutura social em geral. As sociedades capitalistas contemporâneas vivem hoje a legalização da precarização/flexibilização, onde o Direito do Trabalho metamorfoseado está em crise. E no Brasil não poderia ser diferente. Aqui a flexibilização da legislação trabalhista a partir de medidas pontuais é utilizada como uma estratégia rumo a um objetivo maior, a desregulamentação do Direito do Trabalho, quiçá a sua substituição por regras civis regulamentadoras de relações privadas. Porém, existem autores que se posicionam opostamente, acreditando na possibilidade de um projeto humanista capaz de restaurar o papel socializante e civilizatório do Direito do Trabalho, bem como seu caráter de limitador do selvagem sistema que se hegemoniza nos dias de hoje. A liberalização pregada provocará o fim do Direito do Trabalho em sua essência e objetivos, já que ao aplicar-se a igualdade civilista a sua função primordial de protetor e regular público do capital desapareceria (OLIVEIRA, 2006). Segundo BAYLOS (1999, p. 48) há uma crise de desagregação do Direito do Trabalho, que o faz questionar-se sobre suas bases, seu sentido, seus princípios. Entendemos que as estratégias de deslegitimação do princípio protetivo do trabalhador juntamente com a tendência à individualização das relações de trabalho e a exaltação de uma nova cultura da empresa (BAYLOS, 1999) são também responsáveis pela crise do Direito do Trabalho. Porém, como o Direito do Trabalho não é dogmático, não se situa apenas na normatividade estatal, permitindo várias abordagens, o TST apresenta-se como espaço de criação, interpretação, aplicação e efetivação de uma tutela trabalhista humanista, fundada na dura realidade das relações de trabalho, na luta contra a exploração humana que o desfaz, na significação da dignidade do trabalhador. A participação dos ministros na consolidação de entendimentos favoráveis à transformação social é maior do que se pensa. Não se trata de meramente solucionar conflitos. Trata-se de contribuir para a integração social e destruição da desigualdade que explora. Cumpre salientar, por fim, a necessidade de lidar com o trabalhador cidadão envolvendo-o na reconstrução da luta política e fortalecendo a esfera coletiva. No contexto de fragilização dos sindicatos, fragmentação da classe trabalhadora e existência de um exército de desfiliados, fortalecer o coletivo representa fortalecer dos direitos sociais e reafirmar a proteção ao trabalhador é afirmar a dignidade da pessoa humana. Referências ABDALA, V. Jornada de Trabalho: flexibilização. Rev.. TST, Brasília, 64, 1995, p. 46-52. ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, E.; GENTILI, P. Pós- Neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 09-23. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999. __________. Construção e desconstrução da legislação social no Brasil. In: ANTUNES, R. (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 500-509. ______________. 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Nossa hipótese central é que, apesar de nesse caso não ter se configurado um “sindicato colaboracionista”, as condições para uma postura combativa foram drasticamente reduzidas, o que levou a uma alteração das estratégias de ação do sindicato, mesmo com a manutenção da linha política do período anterior. Palavras-chaves: trabalhadores; sindicalismo; reestruturação produtiva; neoliberalismo. 1. Introdução Em função da profunda crise do capitalismo nos anos 70, a década de 1980 foi marcada por intensas transformações – ocorridas primeiramente nos países de capitalismo avançado – que configuraram um processo complexo cujas conseqüências abarcam aspectos sociais, econômicos, político-ideológicos e culturais. No que se refere ao campo da produção, essas metamorfoses representam a expansão do toyotismo2 para a produção industrial mundial, caracterizando um importante processo de reestruturação produtiva. Esse modelo, inicialmente desenvolvido em função de particularidades do contexto japonês, ganha uma nova significação ao se tornar “o ‘momento dominante’ do complexo de reestruturação produtiva sob a mundialização do capital” (ALVES, 2000, p. 30). O processo de expansão do padrão toyotista representa a ruptura com alguns elementos do taylorismo e do fordismo, mas, principalmente, a radicalização de alguns dos seus fundamentos, orientados pela racionalização do processo produtivo e, conseqüentemente, pelo aumento da produtividade. Tal modelo – que, no Brasil, ganha força a partir da década de 1990 – se caracteriza pela orientação da produção pela demanda (just in time), a intensificação do ritmo trabalho, a eliminação dos tempos “ociosos”, as terceirizações, os programas de “gerência autônoma” e os Círculos de Controle de Qualidade (CCQs). Em termos gerais, este trabalho constitui um esforço no sentido de analisar esse conjunto de transformações, enfocando um caso específico: a reestruturação produtiva realizada na Votorantim Metais – unidade Três Marias-MG (VMTM) a partir da década de 1990. Porém, o nosso foco principal é a experiência dos trabalhadores e a ação sindical neste contexto de reestruturação. Em outros termos, buscar-se-á mostrar que a reestruturação ocorrida na VMTM representa um conjunto de iniciativas empresariais, no sentido de reorganizar a sujeição do trabalho ao capital (através de mudanças técnicas, reduções no quadro de funcionários, programas organizacionais e mecanismos ideológicos), que é vivenciado de forma contraditória pelos trabalhadores, o que influencia substancialmente a prática sindical, tanto durante a implementação da reestruturação quanto no momento posterior. Nesse sentido, a proposta de análise de um caso particular tem um significado metodológico importante. Isso porque a expansão dos princípios e tendências que caracterizam a reestruturação produtiva toyotista não se dá de forma uniforme e homogênea, mas de acordo com contextos sócio-históricos particulares e concretos. Por esse motivo, um 1 Mestrando em Sociologia – Unicamp. E-mail: marciliorlucas@yahoo.com.br. 2 Essa designação deriva do fato de que a Toyota foi a empresa pioneira no desenvolvimento dos princípios mais importantes deste modelo, principalmente pelo trabalho do engenheiro Taiichi Ohno. 2 estudo de caso, ao trazer simultaneamente as especificidades e as determinações mais amplas do objeto estudado, pode ser de grande valia no sentido de fornecer subsídios empíricos para debates mais profundos. Além disso, é importante destacar que a escolha de uma empresa do grupo Votorantim não é, de forma alguma, arbitrária. O Grupo Votorantim é um dos maiores grupos empresariais de controle familiar do mundo, atuando nos mais diversos ramos da economia. Trata-se de um conglomerado que conta com mais de 50 mil funcionários e, no ano de 2006, registrou uma receita líquida em torno de 29 bilhões de reais. A Votorantim está espalhada por 20 estados brasileiros e opera diretamente em outros 11 países. Em 2005, foi eleita a melhor empresa familiar do mundo pela IMD Business School e Lombard Odier Darier Hentsch Bank. Além disso, o grupo Votorantim tem se destacado também no que se refere à temática da responsabilidade social empresarial, aparecendo, por exemplo, na nona posição do ranking nacional de RSE divulgado pela revista Carta Capital (2004). A fábrica analisada nesta pesquisa é uma das oito unidades da Votorantim Metais, holding integrante do Grupo Votorantim voltada para a mineração e a metalurgia de zinco, níquel, alumínio e aço, contando com cerca de 7 mil funcionários diretos e 1,5 mil terceirizados permanentes. A unidade de Três Marias, criada em 1956 com o nome de Companhia Mineira de Metais (CMM), foi a primeira empresa da Votorantim no ramo de zinco, possuindo atualmente um quadro de 650 funcionários diretos e capacidade produtiva de 180 toneladas/ano. O processo de reestruturação operado nessa unidade é bastante profundo e representativo da nova postura empresarial nas últimas décadas, orientada por princípios toyotistas e caracterizada pela racionalização máxima do processo produtivo e pela exigência de maior envolvimento dos trabalhadores com os interesses empresariais. Além disso, o caso da VMTM interessa também por suas especificidades, que permitem trazer novos aspectos ao debate acerca das estratégias do capital para gerir e controlar a força de trabalho e das tentativas de construção de resistências por parte dos trabalhadores. Com relação a esse aspecto é importante destacar que em uma cidade pequena como Três Marias, a reestruturação numa empresa como a Votorantim Metais tem impactos ainda mais visíveis e profundos, com conseqüências importantes no desenvolvimento econômico, político e cultural da cidade. Além disso, o caso da VMTM oferece um quadro diferenciado para se refletir sobre a relação entre a introdução dos princípios toyotistas e a organização sindical dos trabalhadores. Isso porque, ao contrário da tendência geral, a reestruturação ocorrida na empresa nas últimas décadas não foi acompanhada da ascensão do “sindicalismo de parceria”, comprometido com o ideário empresarial, típico do toyotismo. O sindicato local (Sindimet) manteve uma linha política marcada pela afirmação do conflito de interesses entre trabalho e capital, porém, nem por isso deixou de ser profundamente afetado pela reestruturação, com um processo de esvaziamento de suas instâncias deliberativas, cada vez mais subordinadas às demandas da empresa. A complexidade dessa situação faz da VMTM um objeto empírico que permite ir além da análise dos elementos mais convencionais do toyotismo, trazendo reflexões sobre as possibilidades e os limites das resistências construídas pelos trabalhadores nesse contexto. 2. Material e método As análises apresentadas neste trabalho são resultantes de pesquisa bibliográfica, documental e de campo. A pesquisa documental constituiu a parte mais extensa de todo o processo. As fontes foram diversas, incluindo jornais, revistas, boletins, informativos e cartilhas tanto da empresa quanto do Sindimet, publicados a partir de 1990. Os documentos publicados pela empresa foram de importância crucial para a compreensão das mudanças implementadas a partir do ano de 1993 e do discurso apresentado para justificá-las. Além de publicações periódicas, cabe destacar materiais distribuídos pela empresa aos trabalhadores, 3 em especial a cartilhas “Cresce (Crescimento em equipe)”, “5S” e “Qualidade Total/Just in time”. Por outro lado, as publicações do sindicato permitem um importante contraponto, ao trazer outras experiências a partir do mesmo processo expresso nos materiais divulgados pela empresa. Entre as publicações do sindicato, o maior destaque é o boletim “Folha do Zinco”, que era publicado mensalmente, mas nos últimos anos, devido a problemas financeiros, teve sua publicação restrita a edições especiais. Além do boletim, pode-se destacar panfletos de chapas para eleições da diretoria do sindicato e cartilhas, como a de explicações a respeito do programa de participação nos lucros e resultados (PLR) implantado pela empresa a partir de 1996. É importante destacar que cada documento é produto de necessidades ligadas ao contexto em que foi produzido e, por isso, deve ser encarado como “objeto e sujeito de sua própria versão interpretativa” (MARSON, 1984, p. 53). Assim, o documento é vestígio de um acontecimento histórico e, ao mesmo tempo, fator ativo deste. Isso significa que os documentos devem representar elemento ativo do procedimento de pesquisa, porém, sendo tratados criticamente e não meramente reproduzidos nos resultados do estudo. Além da utilização de documentos, deve-se destacar também a importância do trabalho de campo e das entrevistas como meio de entender a dinâmica viva do processo histórico, às vezes “apagada” em outros tipos de fonte. O trabalho de campo desta pesquisa envolveu três visitas ao sindicato e uma visita à parte externa da fábrica. Foram realizadas entrevistas com a diretoria do sindicato (Sindimet), com sete trabalhadores (de diferentes funções) da empresa e com um ex-funcionário da VMTM. As entrevistas tiveram um papel fundamental para os resultados desta pesquisa. Isso porque a evidência oral constitui um elemento “crucial para a compreensão do pano de fundo” do processo histórico analisado, tornando possível que se escape de falhas existentes nos demais documentos, permitindo que a experiência real das pessoas seja a “pedra de toque” da pesquisa (SAMUEL, 1989/1990, p. 231). Porém, e não poderia ser diferente, a fonte oral tem limitações. Se por um lado ela expõe as distorções e deficiências da documentação escrita, por outro, tem seus próprios vieses, seletividade e silêncios. Assim, a evidência oral também deve ser tratada com prudência e postura crítica, sendo articulada com as demais fontes, visando um melhor direcionamento das questões a serem colocadas. Nesse sentido, os relatos da diretoria do sindicato e dos trabalhadores não foram tomados como verdades absolutas. Passaram por um exame crítico e foram articulados com o conjunto dos documentos escritos e demais referências empíricas trabalhadas no processo de investigação. Diante disso, deve ficar claro que as fontes, independentemente de sua configuração, não produzem o conhecimento por si mesmas. É fundamental o papel ativo do pesquisador, através de uma postura crítica, levantando problematizações e percebendo a realidade para além do plano meramente factual. Isto porque o objeto de pesquisa é uma construção ativa do pesquisador a partir do momento em que ele o transforma em “problema”. Por isso, a discussão bibliográfica realizada é fundamental para se pensar o direcionamento da pesquisa. Logicamente, tal bibliografia não se relaciona com o caso específico da VMTM. Por esse motivo, ao se optar pela análise de um estudo de caso específico, torna-se necessário esclarecer a perspectiva analítica que informa a pesquisa e os caminhos que serão trilhados na problematização do tema. O “recorte” do objeto não constitui um isolamento deste em relação ao contexto social mais amplo. Pelo contrário: entendendo que todo concreto carrega múltiplas determinações3, buscar-se-á demonstrar as imbricações entre o objeto empírico analisado e as tendências mais gerais do processo sócio-histórico no qual ele está inserido, sem, contudo, desconsiderar suas especificidades. Assim, de acordo com essa perspectiva, a 3 “O concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações, logo, unidade da diversidade” (MARX, 1983, p. 218). 4 investigação científica deve ir além do que se manifesta no plano imediato e buscar, analiticamente, as múltiplas determinações do objeto analisado. Tomando-se a totalidade social como referencial, a reestruturação operada na VMTM será vista como “parte (movente e movida) de um complexo concreto” (LUKÁCS, 1978, p. 2). Tal esforço constitui, portanto, uma iniciativa relevante e justificável – em termos teóricos e metodológicos – já que, como já foi dito, as tendências mais gerais só ganham existência real quando concretizadas em contextos específicos. 3. Reestruturação produtiva e ação sindical na VMTM A reestruturação produtiva ocorrida no capitalismo mundial nas últimas décadas, marcada pela expansão do toyotismo, transformou bastante as condições e as possibilidades abertas para a ação sindical. Em termos gerais, percebeu-se a ascensão de um “sindicalismo de parceria”, que se afastou de linhas políticas combativas e classistas para se aproximar de perspectivas de colaboração com a empresa e prestação de serviços assistenciais aos trabalhadores. Entretanto, no caso aqui estudado, essa tendência não se concretizou. O Sindimet manteve uma linha política marcadamente combativa, porém foi profundamente afetado pela reestruturação ocorrida na VMTM e, por isso, teve que rever sua forma de atuação e suas estratégias políticas. No final dos anos 80, os trabalhadores da VMTM tiveram um período de intensas lutas, se constituindo como uma importante força política na cidade de Três Marias, inclusive com a eleição de dois vereadores metalúrgicos em 1987 e do prefeito – do PT – apoiado pelo sindicato (Sindimet) em 1991. No que diz respeito a embates com a empresa, destacam-se as lutas contra as condições de trabalho insalubres em 1986, pela a implementação da jornada de 44 horas semanais em 1988 e, principalmente, a participação na greve nacional de 1989 em defesa de uma política salarial. Porém, esse momento de efervescência teve um grande refluxo a partir da demissão de cerca de 100 trabalhadores no mesmo ano da greve e da implementação dos novos mecanismos de gestão do trabalho, que configuraram o processo de reestruturação produtiva, principalmente a partir de 1993. O elemento mais emblemático desse refluxo foi a aprovação, em assembléia dos trabalhadores, da elevação da jornada de trabalho do turno de revezamento, de seis para oito horas, no ano de 1998. Como explicar o consentimento dos trabalhadores em relação a uma medida que prolonga a jornada e permite a demissão imediata de 70 funcionários? Nos parece que a resposta para essa questão pode ser encontrada se analisarmos a experiência dos trabalhadores e os novos desafios enfrentados pelo sindicato a partir do processo de reestruturação produtiva. Portanto, antes de nos debruçarmos sobre os dilemas enfrentados pelo sindicalismo, é necessário fazer um balanço das mudanças implementadas na VMTM, buscando captar e enfatizar o significado fundamental da reestruturação operada. Somente a partir de um balanço aprofundado desse complexo de transformações ocorridas é que se pode analisar, de forma sólida, as contradições, ambigüidades e paradoxos enfrentados pelos trabalhadores da empresa. O processo de mudanças ocorrido na VMTM, apesar de todas as particularidades que serão tratadas na pesquisa, não pode ser compreendido se não levarmos em conta um conjunto global de metamorfoses que marcaram o capitalismo a partir da década de 1970. Um texto – intitulado O impacto das mudanças – publicado em um informativo da Votorantim no ano de 1995, caracteriza bem a situação, ao retratar o ambiente de mudanças e incertezas que teve reflexos profundos no interior da empresa: A reestruturação iniciada na CMM em meados de 1993 provocou mudanças profundas, tanto na forma como a empresa realiza seus negócios, quanto na atitude e no comportamento de seus colaboradores. A mudança comportamental foi, está sendo e será a parte mais difícil e lenta do Processo de Aprimoramento Contínuo – PAC e, 5 de longe, é a mais importante desse processo. Há um ditado que diz que “em time que está ganhando não se mexe”, mas acredito que isso representa uma meia-verdade (...). Na CMM, com o PAC, não será necessário mudar os componentes (colaboradores), mas já houve e haverá mudanças na maneira de enfrentar os adversários (concorrentes), além do que há novas regras no jogo (situações políticas e econômicas totalmente diferentes). A forma como a CMM vinha atuando (jogando) até 1990 estava dando certo e era motivo de orgulho. Mas as regras mudaram e os adversários ficaram muito agressivos (no sentido econômico da palavra). (CMM Notícias, mai./jun.1995, p. 2). As “novas regras” mencionadas relacionam-se com o novo contexto mundial – crise, hipertrofia do capital financeiro, concorrência e abertura ao capital internacional – que impõe um conjunto de transformações e tem como resultado uma “nova configuração do capitalismo mundial”, que altera os “mecanismos que comandam seu desempenho e sua regulação” (CHESNAIS, 1996, p. 13). Tal contexto exige, segundo o argumento apresentado pela VMTM, uma nova postura da empresa e de seus empregados. Nesse sentido, a reestruturação do trabalho e da produção na VMTM deve compreendida como um processo de adequação a uma nova fase do movimento de acumulação capitalista. Isso porque, a partir de 1970, o sistema capitalista passa por uma grave crise, à qual precisa dar respostas, que levam a transformações profundas nos mais diversos níveis. Nesse período, o padrão fordista- keynesiano de acumulação começa a dar mostras de esgotamento. Os choques do petróleo, a crise de superprodução e a decadência – política e fiscal – dos Estados de “bem-estar social” indicam que o padrão de acumulação, que obteve grande êxito em décadas anteriores, não tem mais condições de contornar as contradições fundamentais do desenvolvimento capitalista – nesse sentido, a crise do padrão taylorista-fordista é a expressão mais imediata da uma crise estrutural do próprio modo de produção capitalista. A produção em massa, geradora de grandes estoques, típica do modelo de Taylor e Ford, torna-se incompatível com o momento de crescimento lento – ou mesmo de estagnação – que se inicia. Além disso, o “Estado-providência” keynesiano – que nos países periféricos, como o Brasil, se manifestou de forma bastante parcial e restrita através do “projeto nacional- desenvolvimentista” – entra numa grande crise fiscal, trazendo pressões gigantescas em defesa de sua desoneração, que significa corte de gastos com políticas sociais. De outro lado, nesse contexto, eclode uma série de revoltas que impõem ao sistema capitalista a necessidade de reajustamentos no modelo de acumulação, com destaque para as rebeliões estudantis, a ascensão de movimentos ecológicos e as lutas operárias que constituem o que Bihr (1998, p. 59) define como “revolta do operário-massa”. Esse quadro de instabilidade gera a necessidade, por parte do capital, de buscar estabelecer um novo compromisso social capaz de superar os limites do compromisso – então fragilizado – entre trabalho, capital e Estado, oferecido pelo modelo fordista-keynesiano. De acordo com Harvey, a grave crise tornou “evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo de conter as contradições inerentes ao capitalismo” (HARVEY, 1992, p. 135). Por esse motivo, ainda segundo esse autor, as décadas de 70 e 80 foram um conturbado período de reestruturação econômica e de reajustamento social e político. No espaço social criado por todas essas oscilações e incertezas, uma série de novas experiências nos domínios da organização industrial e da vida social e política começou a tomar forma. Essas experiências podem representar os primeiros ímpetos da passagem para um regime de acumulação inteiramente novo, associado com um sistema de regulamentação política e social bem distinta. (idem, ibdem, p. 140). Nesse reajustamento social e político, perde força o “consenso keynesiano” (MORAES, 2001, p. 30) e configura-se a “hegemonia neoliberal” (ANDERSON, 1995; BOITO JR., 1996), com as privatizações, a desregulamentação de direitos e garantias trabalhistas e a desresponsabilização do Estado em relação à “questão social”. No plano da 6 produção, a reestruturação se dá na direção de adaptação do processo produtivo a um contexto de instabilidade e diversificação das demandas, buscando-se ganhos renovados de produtividade, o que obriga as empresas a buscar novos patamares de racionalização e intensificação do trabalho. Por se tratar de um processo de “reajustamento”, Braga (1996) afirma que a categoria “revolução passiva” – desenvolvida por Gramsci4 – constitui o “principal instrumento analítico-estratégico mediante o qual se faz possível entender o momento presente a partir do ponto-de-vista das classes subalternas” (BRAGA, 1996, p. 84). Isso porque a revolução passiva se caracteriza por rearranjos na sociedade – realizados “de cima para baixo” – que representam o estabelecimento de novas formas de controle e regulação da vida social. Trata- se, portanto, de alterações moleculares que, em essência, têm um caráter de manutenção e reforço, através de uma nova composição das forças, dos aspectos fundamentais da dominação vigente, em um contexto de crise capitalista. É nessa linha que Braga identifica dois movimentos de passivização: “por um lado, a passivização do Estado, e, por outro lado, passivização das forças produtivas” (BRAGA, 1996, p. 213). A ascensão do neoliberalismo corresponderia ao primeiro movimento e a reestruturação produtiva toyotista ao segundo. O autor assinala que são “duas faces da mesma moeda” (idem, ibidem), ou seja, dois movimentos integrados e complementares, pois o suporte estrutural da ampla vigência da “hegemonia do mercado” constitui-se, sem dúvida, na ofensiva do capital no âmbito da produção imediata. Por sua vez, sem as condições criadas pela estratégia universalizante das classes dominantes, dificilmente a reestruturação produtiva seria viável, se pensarmos, sobretudo, na desregulamentação de direitos trabalhistas, privatização de empresas estatais, sucateamento da previdência pública e desmonte generalizado dos sindicatos. (idem, ibidem). Porém, apesar de se tratar de dois processos altamente integrados, são movimentos singularizáveis, no sentido de que possibilitam uma análise de sua lógica interna, desde que sempre se leve em consideração sua condição de elemento constituinte de um complexo mais amplo. Assim, a reestruturação produtiva em curso – tema específico desta pesquisa – “encerra, evidentemente, uma eficácia própria, envolvendo diferentes dimensões do universo produtivo” (idem, p. 228), que se diferencia do padrão taylorista/fordista predominante durante várias décadas do século XX. Como afirma Eurenice de Oliveira, nesse mesmo movimento, o fordismo foi classificado como rígido, como a camisa de força do capitalismo, dando lugar à discussão sobre a flexibilidade da produção enxuta, a acumulação flexível, peças conceituais que preencheram a narrativa teórica da década de 1990. A palavra de ordem é modernização tecnológica, com produção em pequenos lotes, polivalência e trabalho em equipe. Enfim, é a era das novas formas de gestão de inspiração japonesa, da qualidade total, (...) do operador multifuncional – cooperador e participativo com o projeto da empresa, competitivo com os colegas. (OLIVEIRA, 2004, p. 14). Nesse sentido, “ao se configurar como um padrão de subordinação do trabalho ao capital”, o toyotismo “assume a feição de uma resposta aos desafios propostos pela crise do capitalismo” (OLIVEIRA, 2004, p. 9-10). Isso porque, por se adaptar melhor às mudanças tecnológicas, o toyotismo permite uma maior integração e flexibilidade dos sistemas de produção necessárias a um contexto de incertezas e demanda restrita e diversificada5. Além 4 “Pode-se aplicar ao conceito de revolução passiva (e tal se pode documentar no “Risorgimento” italiano) o critério interpretativo das modificações moleculares que na realidade modificam progressivamente a composição precedente das forças e que se tornam portanto matriz de novas modificações.” (GRAMSCI, 1974, p. 371). 5 É nesse sentido que o idealizador do toyotismo, T. Ohno, afirma: “eu não teria a petulância de dizer qual é o melhor, se o sistema Ford ou o Toyota. Penso contudo poder afirmar, com base na experiência, que o sistema Toyota adapta-se melhor a uma economia em crescimento lento” (OHNO apud GOUNET, 1999, p. 32). Coriat 7 disso, o “modelo japonês” supera outro limite do fordismo, ao promover a participação – mesmo que limitada e subordinada aos imperativos da produtividade – dos operários na gestão da produção6. No Brasil, este processo se realiza num momento posterior em relação aos países de capitalismo avançado. A eclosão das lutas do “operário-massa” se dá principalmente na década de 1980 – com a realização de grandes greves, a formação da CUT e do PT – e a inserção orgânica do país neste novo patamar de acumulação se dá somente a partir da década de 1990, período em que a orientação neoliberal ganha concretude na política nacional. A reestruturação produtiva tem seus primeiros momentos a partir de 1985/86 (RUAS et al., 1993, p. 107), mas é também a década de 1990 a grande referência em termos de introdução dos princípios de flexibilização dos processos e reorganização do controle sobre o trabalho no Brasil (OLIVEIRA, 2004, p. 73). Exatamente nesse período, a VMTM passa por profundas transformações, que compõem um processo que Antunes (2003, p. 52) denomina “liofilização organizativa”, com a racionalização intensiva dos processos produtivos, a partir do ideal de “empresa enxuta”. O conjunto de mudanças se inicia com as demissões em massa anunciadas a partir de 1989 e, principalmente, com a introdução, no ano de 1993, do Processo de Aprimoramento Contínuo (PAC), que trouxe consigo um bombardeio de novos termos para o interior da fábrica, especialmente “5S”, “qualidade total” e “just in time”. Nessa reestruturação podemos destacar três elementos constitutivos, fortemente integrados e simultâneos: 1) automatização dos processos, com inserção de novas tecnologias que possibilitam maior controle e integração das cadeias produtivas; 2) redução, em torno de 60%, do efetivo direto de funcionários, através de demissões e terceirizações; 3) introdução de uma série de programas de gestão e controle da força de trabalho, orientados pela exigência de maior envolvimento dos trabalhadores com os interesses empresariais. Pode-se dizer que a introdução de novas tecnologias, as demissões7 e as terceirizações são os elementos mais palpáveis desse processo de transformações. Porém, não seriam possíveis sem uma mudança mais profunda nas concepções e práticas organizacionais dentro da empresa. Como aponta Antunes (2003, p. 53), no processo de enxugamento das unidades produtivas, as atividades externas à produção propriamente dita precisam ser eliminadas, terceirizadas ou assumidas pelo “trabalhador produtivo”8. É nesse sentido que é introduzida uma série de princípios e ferramentas de gestão da produção na VMTM, a partir de 1993, com o PAC. Um elemento revelador desse processo é a difusão dos 5S’s (cinco “sensos” de utilização, organização, limpeza, saúde e autodisciplina), que buscam eliminar perdas na analisa na mesma direção: “pode-se sustentar que, se coube a Taylor e Ford forjar os conceitos da organização do trabalho da época de impulso da produção de massa de produtos estandardizados, é a Ohno que se devem atribuir os da fase atual da produção de massa marcada pelo selo triplo da diferenciação, da flexibilidade e da incerteza” (CORIAT, 1993, p. 89). 6 Analisando as novas condições dos trabalhadores, João Bernardo aponta que “o capitalismo (...) começou a explorar, além da actividade muscular e cerebral dos trabalhadores, a sua capacidade de gestão e até de solidariedade” (BERNARDO, 1997). Nesse sentido, a ascensão dos CCQs – ligados à gestão da produção – e da responsabilidade social empresarial – mais ligada ao aspecto da solidariedade – são bastante representativos do atual momento. 7 A tentativa incessante de redução de pessoal é um traço característico desse modelo de reestruturação produtiva. Nesse sentido é que T. Ohno afirma: “na Toyota, o conceito de economia é indissociável da busca da redução de pessoal e da redução dos custos. A redução de pessoal é, com efeito, considerada um meio de realizar a redução de custos – a qual é nitidamente a condição essencial para o crescimento de um negócio. (Ohno apud Gounet, p. 82). 8 Não é por outro motivo que, na VMTM, entre os setores mais afetados pelas demissões e terceirizações estão limpeza industrial, transportes, ambulatório médico, segurança patrimonial, manutenção e informática. 8 produção e transferir tarefas de limpeza9, manutenção, acompanhamento e controle da qualidade para o trabalhador diretamente ligado à atividade produtiva. Um exemplo bastante representativo é o programa Manutenção Autônoma, cujo lema é emblemático: “Da minha máquina cuido eu!”. Tal programa, segundo a própria empresa, “atribui à Produção a [responsabilidade de] conservação de seus equipamentos, cabendo à Manutenção atuar apenas quando houver necessidade”, fazendo com que “os funcionários de todos os níveis estejam engajados no ato de conservar, por iniciativa própria, tudo o que se usa dentro da empresa” (CMM NOTÍCIAS, 1995, p. 2). Além de ser responsável pela limpeza e manutenção do local e dos equipamentos, o trabalhador passa a ser elemento ativo da garantia da disciplina, do controle da qualidade dos produtos e, conseqüentemente, da satisfação dos clientes. É esse o objetivo do programa CRESCE (Crescimento em equipe), criado em 1999 na Votorantim Metais e que recentemente recebeu um novo nome: EMC (Equipe de Melhoria Contínua). Configurando-se como uma versão local dos CCQs, esse programa é composto por grupos de trabalhadores, organizados em equipes de fiscalização e controle dos processos produtivos em que estão inseridos. A missão é identificar problemas, implementar melhorias e reduzir custos, em busca da “Qualidade Total”. Como aponta Alves, ao analisar as novas configurações do trabalho, trata-se da tentativa de “inserção engajada dos trabalhadores no processo produtivo”, através da “auto-racionalização operária” (ALVES, 2000, p. 38). Nessa perspectiva, Antunes analisa que, através desse tipo de ferramenta, grupos de trabalhadores são instigados pelo capital a discutir seu trabalho e desempenho, com vistas a melhorar a produtividade das empresas, convertendo-se num importante instrumento para o capital apropriar do savoir faire intelectual e cognitivo do trabalho, que o fordismo desprezava. (ANTUNES, 2003, p. 55). Em sua análise do processo de transformações na indústria automobilística, Gounet aponta que, com o toyotismo, busca-se a “adesão dos trabalhadores, de tal maneira que, longe de ser o grão de areia que faz a máquina descarrilhar, ele acrescente um plus à busca de ganhos de produtividade” (GOUNET, 1999, p. 68). Dessa forma, os trabalhadores são mobilizados “para a defesa da competitividade da companhia” (idem, ibdem, p. 47). Por esse motivo, pode-se dizer que a “gestão participativa” trazida pelo toyotismo representa, em última instância, uma tentativa de captura da subjetividade dos trabalhadores no sentido de colocá-la a serviço do processo de acumulação de capital. Além disso, o discurso propalado da “polivalência” e “multifuncionalidade” do trabalhador nos tempos do toyotismo mascara, na realidade, um maior acúmulo de tarefas, num processo de desespecialização do trabalho (ALVES, 2000), a partir do qual o trabalhador passa a contribuir de formas mais diversificadas no processo produtivo10. Nesse quadro, enquanto vários postos de trabalho são terceirizados ou simplesmente eliminados, o contingente restante – marcado pela fragmentação – é coagido a se responsabilizar por uma multiplicidade de tarefas e a se envolver ativamente na luta em defesa da “competitividade” empresa. Os impactos sobre o coletivo operário e sua consciência de classe são profundos11, num momento em que se ergue, de forma mais elaborada e sutil, a 9 Numa cartilha da VMTM, encontra-se a seguinte lição: “a limpeza da empresa é, freqüentemente, responsabilidade dos faxineiros. Sob tal situação, as pessoas tendem a não dar atenção à limpeza. Contudo, numa típica empresa 5S, cada colaborador é responsável pela limpeza. (HOUSEKEEPING/5S, p. 11). 10 É importante destacar que a desconstrução crítica do toyotismo não implica uma defesa “nostálgica” do padrão taylorista/fordista, predominante no período anterior, pois, demonstrar o significado fundamental dos mecanismos de dominação vigentes não significa, de maneira alguma, defender suas formas anteriores. 11 Em sua análise sobre a crise do Estado de bem-estar social, Habermas chega a apontar um suposto “esgotamento das energias utópicas” do trabalho, no sentido de que este perdeu, em grande medida, a centralidade e seu “poder persuasivo” na contemporaneidade (HABERMAS, 1987, passim). Nos parece uma posição um tanto exagerada, porém expressa a profundidade das transformações operadas nas últimas décadas. 9 bandeira dos “interesses comuns” entre trabalhadores e capitalistas. Segundo Dias (2006, p. 40), “o capitalismo tem que negar o direito de existência a qualquer forma antagônica” e, nesse sentido, o momento atual caracteriza-se pela “combinação da contra-revolução política (neoliberalismo) com a reforma da gestão e da produção, maximizadas uma e outra, pela aparente desaparição do antagonismo”. Nessa perspectiva, no âmbito da produção, o Programa de Participação nos Resultados (PPR) – que na VMTM foi implementado no ano de 1996 – é bastante expressivo, pois o recebimento, por parte dos trabalhadores, de uma remuneração adicional anual é vinculado ao cumprimento de metas de produção da empresa. Assim os interesses parecem estar definitivamente entrelaçados: maior remuneração aos trabalhadores e maior produção e lucros ao empresariado – mesmo que na realidade a parcela destinada aos trabalhadores seja ínfima se comparada às metas colocadas12. Como elemento complementar dessa estratégia de negar os antagonismos, merece destaque a ascensão da responsabilidade social empresarial (RSE), que em essência busca ampliar o poder social das empresas – e do capital – colocado-as como agentes ativos no atendimento de demandas da comunidade13. Em Três Marias, a VMTM destaca-se com o projeto Comunidade Criativa em 10 escolas públicas, além de outras ações “socialmente responsáveis”. Assim, a hegemonia vinda da fábrica se consolida na sociedade civil. Nesse sentido é que Braga aponta a emergência, com a reestruturação produtiva, de uma “‘nova empresa’ caracterizada, sobretudo, por seus supostos valores coletivos remetidos aos apelos pela consolidação de uma verdadeira ‘comunidade’, onde não existam interesses antagônicos, mas sim solidários” (BRAGA, 1996, p. 253). Todo esse quadro é completamente desfavorável à organização sindical – pelo menos no sentido de um sindicalismo de orientação classista e combativa. Porém, nos parece que, ao contrário da tendência mais comum do toyotismo, na VMTM não se consolidou um “sindicato parceiro”, apesar de grandes investidas da empresa nesse sentido. O Sindimet manteve, apesar dos limites colocados, a linha combativa existente no período anterior, inclusive desqualificando as novas práticas e discursos toyotistas14 e impedindo medidas de interesse da empresa – como, por exemplo, a implementação do banco de horas. Entretanto, apesar da manutenção dessa linha política, as condições de articulação mudaram 12 Para explicar este aspecto, Gounet (1999, p. 104) dá o exemplo de uma empresa que coloca como meta um aumento de produtividade na ordem de 25% e retribui 3% aos seus funcionários, sob a forma de bônus (PPR). Assim, apesar da “participação nos resultados”, a empresa obtém um aumento de 22% da produtividade, o que significa incremento da exploração sobre os trabalhadores. Trata-se do mesmo mecanismo que explica o fato de que a Ford, nas primeiras décadas do século XX, incrementou a exploração ao aplicar os seus métodos de produção, apesar de ceder inicialmente um salário – de cinco dólares diários – que representava o dobro da média da época. Neste ponto, é importante não cair na armadilha de se relacionar exploração somente a baixos salários, já que um salário acima da média pode ocultar uma exploração também acima da média. 13 Como aponta Maria Célia Paoli, “em um duplo movimento para fora de si mesma, a ‘empresa-cidadã’ realiza eficientemente sua beneficência localizada e produz, para o espaço público da opinião e para o espaço privado de seus pares, a perspectiva de uma presença ampliada, legítima, do próprio poder social do capital. (PAOLI, 2005, p. 407). Nesse sentido, as palavras do Diretor da Votorantim, ao justificar um projeto empresarial nas escolas públicas, são emblemáticas: “Quem já visitou escola pública sabe, é um negócio que deixa a gente até meio chocado” (PRAZER EM AJUDAR, 2004, p. 19). Nessa lógica de afirmação do mercado, cria-se uma polarização bastante pedagógica em favor do capital: diante do abandono do ensino público brasileiro (mais dramático ainda na escola básica) pelo Estado, a empresa privada se apresenta, através dos projetos de RSE, como elemento dinâmico e eficiente, que traz melhorias – mesmo que focalizadas – e altera o cotidiano de sucateamento da escola pública. Dessa forma, a RSE constitui um elemento complementar na tentativa de estabelecer o novo compromisso social, fundado na produção flexibilizada e na orientação política neoliberal. 14 Apenas como exemplo, podemos citar um panfleto em que se diz: “política de qualidade no preço do zinco, na produção, nos lucros dos patrões. E a qualidade de vida dos trabalhadores? (...) O certificado da ISO 9002 representará milhões de dólares nos bolsos dos patrões. Para o trabalhador, uma festa de prêmios, Zero Salário, Zero PLR. Isto é uma vergonha.” (BILISCÃO, s/d). 10 completamente: pressionados pela empresa, os trabalhadores se afastaram de sua entidade representativa e passaram a demonstrar apoio aos direcionamentos tomados pela direção sindical apenas através do voto secreto nas eleições sindicais, quando rejeitam a “chapa empresarial” apoiada e patrocinada pela VMTM15, construindo uma “resistência velada” em relação às estratégias empresariais. Por outro lado, em instâncias abertas, os trabalhadores não ousam manifestar divergências com os interesses da empresa, sempre referendando propostas colocadas pela VMTM. Configura-se, assim, a transformação das instâncias decisórias abertas dos trabalhadores em espaços de legitimação de interesses empresariais, cujo exemplo foi o aumento da jornada de trabalho nos turnos de revezamento – que, segundo a legislação, deve ser de seis horas, salvo negociação coletiva. No ano de 1998, em uma assembléia dos trabalhadores, a VMTM conseguiu a negociação para elevação para oito horas de trabalho, eliminando a necessidade de uma das cinco turmas de revezamento existentes e gerando, imediatamente, cerca de 70 demissões. Para alcançar tal feito, a empresa utilizou a pressão sobre os trabalhadores e a oferta de um “prêmio” em dinheiro pela a assinatura do acordo, válido pelos dois anos seguintes. A cada dois anos o acordo precisa ser renovado e se inicia um novo embate: a direção sindical se recusa a assinar e os trabalhadores ficam divididos entre os que querem o retorno do turno de seis horas – mas não se pronunciam – e aqueles que defendem a manutenção das oito horas, devido à pressão e ao “prêmio” pelo acordo. Esse episódio do acordo para o aumento da jornada retrata um quadro em que os trabalhadores da VMTM, acuados pela condição desfavorável e instigados a pensar em nome do capital, começaram a referendar interesses da empresa, sem expressar tensões, mesmo em relação a medidas claramente desfavoráveis16. É o que analisa o dirigente do Sindimet: O que ocorria? (...) Marcávamos a assembléia. A empresa mandava grupo administrativo, chefia, passava em setor por setor e mandava os trabalhadores virem pra assembléia. (...) A proposta [da empresa] era quase que unânime. Às vezes muita gente falava assim: “eu queria votar contra, mas meu chefe estava do meu lado”. Entendeu? [A assembléia do sindicato] era muito mais interesse da empresa do que dos trabalhadores (diretor do Sindimet). Assim, parece evidente que a reestruturação produtiva operada na Votorantim Metais conseguiu desarticular o coletivo de trabalhadores e, nesse sentido, é emblemático o fato de que, para manter uma linha combativa, o Sindimet teve que se afastar de sua base e deixar de apostar nas instâncias de decisão coletiva. Inclusive, nos impasses a respeito da questão do turno de oito horas, a cada dois anos, a luta da empresa é pela realização da assembléia dos trabalhadores, que o sindicato se nega a realizar, até ser coagido juridicamente. O apontamento do diretor do sindicato é revelador: “você sabe qual é o maior discurso que a empresa faz hoje? Que o sindicato não é democrático porque não leva a proposta da empresa pra assembléia” (diretor do Sindimet). Talvez esse aspecto – a defesa, por parte da empresa, da realização de assembléias dos trabalhadores e a recusa do sindicato em fazê-las – seja a expressão máxima do caráter paradoxal da condição dos trabalhadores na VMTM. Para não se adequar à imposição de uma linha de conciliação, o Sindimet tem que se afastar – pelo menos no plano mais imediato – do conjunto que ele representa, sendo legitimado por sua base apenas através das eleições sindicais. 15 Em praticamente todas as eleições sindicais, a empresa ajudou na construção de chapas claramente próximas do ideal de “sindicalismo de empresa”, inclusive dando suporte técnico e financeiro para grupos de oposição. Essa estratégia, porém, nunca obteve êxito: a “chapa combativa” venceu todas as eleições desde a fundação do sindicato. 16 Como foi dito, a mudança gerou imediatamente 70 demissões. Além disso, segundo informação do sindicato, o aumento de jornada trouxe consigo um acréscimo do número de acidentes e, principalmente, de doenças causadas pelo trabalho na VMTM (NÚCLEO DOS TRABALHADORES AFASTADOS E LESIONADOS, 2004). 11 Essa contradição profunda parece resultar do fato de que, devido à necessidade de sobrevivência e permanência no emprego, os trabalhadores se enquadram e, em alguma medida, assimilam o processo de transformações colocadas pelo capital, sem, porém, que isso anule a consciência da exploração e repressão vivida por eles, mesmo quando a resistência a essas práticas de dominação não se expressa de forma articulada e coerente. Nesse ponto, tornam-se essenciais as reflexões de Gramsci e Thompson, os quais, em suas análises, ressaltam o caráter contraditório da realidade das classes trabalhadoras no capitalismo, que percebem, em algum nível, sua situação de exploração, e, ao mesmo tempo, precisam se submeter a ela, como condição de sobrevivência. Desse quadro resulta o que Gramsci (2004, p. 103) identificou como “duas consciências teóricas”, uma relativa à apreensão crítica e radical da realidade vivida e outra mais ligada à reprodução imediata do existente. Como afirma Thompson, esta consciência contraditória deriva de dois aspectos da mesma realidade: de um lado, a conformidade com o status quo, necessária para a sobrevivência, a necessidade de seguir a ordenação do mundo e jogar de acordo com as regras impostas pelos empregadores (...). De outro lado, o “senso comum”, derivado da experiência de exploração, dificuldades e repressão compartilhada com os companheiros de trabalho e os vizinhos, que expõe continuamente o texto do teatro paternalista à crítica irônica e, com menos freqüência, à revolta. (THOMPSON, 1998, p. 20-21). Com o toyotismo, essa contradição parece se reforçar ao passo em que se torna mais sutil. Ao analisar a expansão do fordismo, Gramsci afirma que a implantação de um novo tipo de trabalho, visando maior racionalização e intensificação, exige um processo intenso de “adaptação psico-física do trabalhador”, no qual “a coerção deve ser sabiamente combinada com a persuasão e o consentimento” (GRAMSCI, 1984, p. 405). Entretanto, no caso do padrão toyotista, essa imbricação entre coerção e convencimento é ainda mais orgânica e fundamental, já que os mecanismos desse padrão, por um lado, coagem os trabalhadores, reforçam a dominação e incrementam o nível de exploração, ao mesmo tempo em que, por outro lado, exigem sistematicamente a colaboração e o envolvimento com os objetivos da empresa, buscando anular quaisquer formas de resistência e estabelecendo um horizonte com supostos “objetivos comuns” 17. Assim, se no fordismo – através da simplificação das tarefas e do isolamento do conteúdo intelectual do trabalho – “a memória do ofício, reduzido a gestos simples repetidos em ritmo intenso, ‘aninhou-se’ nos feixes musculares e nervosos e deixou o cérebro livre para outras ocupações” (idem, ibdem, p. 404), no toyotismo faz-se necessário um engajamento subjetivo dos trabalhadores em busca de maior produtividade e lucros para a empresa. Como afirma Alves (2000, p. 55), cria-se “um ambiente de desafio contínuo, em que o capital não dispensa, como fez o fordismo, o ‘espírito’ operário”. Esse aspecto torna a experiência dos trabalhadores, em termos de assimilação e resistência, ainda mais complexa para o enfrentamento analítico. Por esse motivo, torna-se fundamental, na análise de tal reestruturação, refletir sobre a experiência dos trabalhadores, enfocando as contradições, ambigüidades e paradoxos de um processo de ampliação do patamar de exploração do trabalho que conta, ao mesmo tempo, com adesão e resistência dos trabalhadores. É a partir desses elementos e hipóteses preliminares que a pesquisa proposta será desenvolvida. Procurar-se-á captar o processo de tentativa de estabelecimento desse novo compromisso social – a partir de um modelo diferenciado de gestão da força de trabalho – no caso particular da VMTM, enfocando-se as 17 Isso fica bastante evidente em um boletim da Votorantim Metais, no qual um dos gestores da empresa afirma que “quando, com a introdução do PAC, os empregados da Cia. Mineira de Metais passaram a ser chamados ‘colaboradores’, isso tinha um sentido muito especial: todos são hoje considerados membros de uma comunidade solidária, com uma missão, metas e objetivos comuns.” (CMM NOTÍCIAS, 1995, p. 3). 12 estratégias adotadas, a experiência contraditória dos trabalhadores e a sua organização sindical nesse contexto. 4. Considerações finais Os elementos analisados neste trabalho devem levar ao entendimento de que as transformações operadas na VMTM são parte integrante de um movimento de resposta do capital à sua crise de acumulação nas últimas décadas do século XX. Nesse sentido, fica evidente que todas as alterações e todos os programas implementados o são em nome do maior controle da força de trabalho e do aumento da produtividade. Isto quer dizer que, apesar dos traços marcantes de descontinuidade, as novas práticas são, em essência, formas de reorganização e reforço da acumulação e da dominação capitalista, que representam um rearranjo da hegemonia burguesa, fragilizada pelas crises sucessivas e pelas revoltas dos trabalhadores a partir da década de 1970. Por se tratar de uma “saída capitalista” para a crise, a reestruturação produtiva operada representa, na ótica do investimento empresarial, um aprimoramento em relação ao padrão taylorista e fordista de organização do trabalho e da produção, ou seja, trata-se, fundamentalmente, de uma continuidade e um reforço dos pilares do modo de produção capitalista. Isto significa que qualquer “avanço” ou contrapartida para os trabalhadores – ilusórios ou efetivos – são aspectos meramente pontuais, constituindo, na verdade, epifenômenos subordinados ao imperativo de ampliação dos patamares de acumulação capitalista, que se funda na intensificação do trabalho e no aumento da exploração da força de trabalho. Por isso é que o balanço da reestruturação ocorrida na VMTM é diferenciado para a empresa e para seus trabalhadores. Enquanto a produtividade e, conseqüentemente, os lucros elevaram-se substancialmente, parte dos trabalhadores foi demitida, outra parte foi terceirizada em condições bastante precárias e o restante foi levado a se envolver de forma mais profunda com os objetivos empresariais, assumindo novas tarefas e aumentando a quantidade de trabalho despendida em benefício da empresa, o que é garantido através dos programas de gestão e da imposição de metas de produtividade. Estes novos mecanismos de subordinação do trabalho ao capital proporcionam um contexto de correlação de forças extremamente desfavorável aos trabalhadores, do que resulta seu enfraquecimento como força social organizada. A partir desse contexto, a estratégia burguesa se direciona no sentido de afirmar o encerramento – ou no mínimo a suavização – das tensões e das lutas de classes, construindo a ilusão de ambiente essencialmente harmônico como resultante dos princípios organizacionais toyotistas, no qual a idéia de conflito permanece apenas na lembrança de um contexto já superado ou nas práticas de pessoas “obsoletas”, ainda referenciadas pela rigidez dos tempos do fordismo. Em síntese, busca-se obscurecer, aproveitando-se da fragmentação e da desarticulação dos trabalhadores, o caráter essencialmente contraditório da ordem capitalista, marcante independentemente do padrão de acumulação em questão. Em contraposição a essa tendência hegemônica, procurou-se mostrar neste trabalho que o enfraquecimento das iniciativas de resistência dos trabalhadores não significa a superação das contradições e nem mesmo seu arrefecimento. Pelo contrário, esse enfraquecimento deve ser visto como resultante do reforço de um projeto global de dominação, que, ainda mais perverso, busca para si o envolvimento subjetivo dos trabalhadores. Em outras palavras, pode-se dizer que a inexistência de possibilidades mais efetivas de resistência, longe de representar uma suavização das tensões, demonstra a brutalidade e a força do projeto dominante, para o qual a reestruturação da produção ocorrida nas últimas décadas é elemento essencial. É neste sentido que Braga afirma que “a reestruturação produtiva contemporânea encarna um importante instrumento através do qual 13 as classes dominantes objetivam recompor a subalternidade política das classes trabalhadoras” (BRAGA, 1996, p. 227). Por último, cabe destacar que não existe dominação absoluta. Como foi demonstrado neste trabalho, mesmo num contexto amplamente desfavorável, os trabalhadores não assimilam de forma plena o projeto burguês e constroem, em meio a uma realidade extremamente contraditória, formas de resistência que, mesmo não tendo resultados efetivos mais amplos, refletem a tensão e o conflito latentes. Expressão deste aspecto é a forma extremamente particular de comportamento dos trabalhadores em relação a sua entidade representativa, que contraria a tendência geral do toyotismo de constituição de sindicatos “de colaboração”, envolvidos com as metas empresariais. 5. Referências bibliográficas Livros, teses, artigos e capítulos de livros ALVES, Giovanni. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 7 ed. São Paulo: Boitempo, 2003. BOITO JR., Armando. 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FOLHA DO ZINCO: construindo um sindicato democrático e de luta. ago. 1997 – set. 2004. HOUSEKEEPING/5S. CMM. s/d. NOSSO GRUPO É VOCÊ, n.º 1-15, São Paulo: Diretoria de Desenvolvimento Humano e Organizacional da Votorantim Metais, set./out. de 2003 -. Bimestral. XI Encontro Nacional da ABET 28 de setembro a 01 de outubro de 2009, Campinas (SP) A campanha para sindicalizar o setor de fast-food na Nova Zelândia ST6: Sindicalismo e outras formas de organização e resistência dos trabalhadores Benjamin Parton Mestre em Ciência Política Unicamp benparton@paradise.net.nz Resumo O trabalho no setor de fast-food é caracterizado por: seus baixos salários; alta- rotatividade e intensidade de trabalho; a juventude da sua mão-de-obra; e a ausência de organização sindical. As más condições de trabalho podem criar o ambiente que facilita uma mobilização sindical, mas globalmente temos poucos exemplos disso. O fast-food na Nova Zelândia era sindicalizado até 1991 durante um regime de filiação sindical obrigatória. Depois de uma reforma trabalhista em 1991, o setor tornou-ser dês-sindicalizado. O sindicato neozelandês, Unite, foi fundado na contra-mão destas reformas para organizar a parte da população que não beneficiou da abertura econômica. Aproveitando cláusulas na lei trabalhista neozelandesa, o sindicato conseguiu uma base entre trabalhadores de fast-food e fez uma campanha pública que buscou apoio entre os consumidores de fast-food. O sindicato usou as marcas como uma ferramenta para chamar atenção contra as práticas trabalhistas das empresas, e pressionar o governo para aumentar as condições mínimas da lei que definam as condições de trabalho do setor. Este artigo terá foco na empresa neozelandesa Restaurant Brands que é o dono das lojas de Starbucks, Pizza Hut e KFC no país. Palavras-chaves: fast-food; trabalho; sindicalismo; mobilização 2 Introdução Em novembro de 2005, o sindicato neozelandês Unite lançou publicamente sua campanha para sindicalizar o segmento de fast-food. O trabalho neste setor é caracterizado por baixos salários e más condições de trabalho, atividades desgastantes, funcionários jovens e alta rotatividade de mão-de-obra. As maiores empresas são multinacionais com lojas espalhadas pelo mundo que produzem refeições padronizadas. Tais alimentos normalmente são produzidos numa linha de montagem onde o trabalhador é facilmente substituível. O fast-food inclui aspectos de auto-serviço que minimizam tempo e custos de trabalho. Os baixos salários poderiam motivar a organização coletiva desses trabalhadores, mas mundialmente há poucos exemplos de mobilização de pessoas desta categoria. Pretendo esboçar a campanha do sindicato Unite em 2005/2006, com foco na empresa neozelandesa Restaurant Brands. Restaurant Brands é uma companhia de capital aberto que possui os direitos para usar as marcas KFC (95 lojas), Pizza Hut (97) e Starbucks (42) no país1. A própria Restaurant Brands contrata os trabalhadores para atuarem nas três marcas. As contribuições sindicais na Nova Zelândia são voluntárias e os sindicatos apenas representam seus membros em negociações coletivas2. Para filiar os empregados da Restaurant Brands, o sindicato utilizou cláusulas da lei trabalhista neozelandesa para mandar representantes às lojas para interagirem com os trabalhadores individualmente. O sindicato mobilizou esta categoria em mobilizações, caracterizadas por paralisações e manifestações de curta duração, as quais procuravam danificar a imagem pública da marca; obter apoio entre a população; e pressionar o governo a aumentar as condições mínimas da lei aplicada às empresas de fast-food. Desta forma, o Unite usou o conhecimento das marcas de fast-food para chamar atenção e facilitar uma campanha política. O contexto A Nova Zelândia é um país de 4,3 milhões de habitantes situada no hemisfério sul, aproximadamente 1.600 quilômetros a leste da Austrália. Em 2007, a dimensão da economia neozelandesa, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), era de US$129,37 bilhões, com uma renda nacional bruta per capita de US$28.780, segundo o Banco Mundial. Em comparação, o Brasil tem 191,6 milhões de habitantes, uma renda nacional bruta por pessoa de US$5.910, e PIB de US$1.314,17 bilhões3. O índice de Gini mede a desigualdade de renda numa escala na qual zero corresponde à igualdade perfeita, e 100 à desigualdade perfeita4. Sendo assim, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) conferiu à Nova Zelândia a nota 36,2, e ao Brasil 57,05. A maior cidade neozelandesa é Auckland, com 1,3 milhões de habitantes6. 1 A campanha do Unite também incluiu, e fechou acordos coletivos com, McDonald’s e Burger King. 2 Diferentemente do Brasil, onde as Convenções Coletivas de Trabalho, negociadas pelos sindicatos, definem os salários e condições de trabalho dos sindicalizados e não-sindicalizados. Sendo assim, todos os trabalhadores são obrigados a pagar contribuições ao sindicato. 3 Dados disponíveis no www.worldbank.org 4 Sendo assim, números maiores significam desigualdade de renda elevada, e menores, mais igualdade. 5 O PNUD avaliou estes países da seguinte forma: Argentina 51,3; Austrália 35,2; Chile 54,9; Dinamarca 24,7; EUA 40,8; França 32,7; Itália 36,0; Japão 24,9; Reino Unido 36,0; Suécia 25,0. 3 Em 1984, a Nova Zelândia iniciou um programa de reformas neoliberais com o objetivo de desregulamentar a economia do país. Em 1991, o governo desmontou o sistema de relações de trabalho, com a aprovação da Employment Contracts Act (ECA), proposta pelo partido direitista National Party. O sistema anterior à ECA garantia a renda dos sindicatos através da filiação sindical compulsória; obrigava a negociação coletiva entre empregadores e sindicatos; e protegia as entidades sindicais de concorrência. Já a ECA promovia contratos individuais de emprego, freqüentemente padronizados para todos os empregados, eliminando assim as negociações do patrão com seu corpo de funcionários; permitia que os contratos coletivos remanescentes se dirigissem a apenas um empregador, e não ao setor inteiro; estabelecia que a filiação e as contribuições sindicais fossem voluntárias, o que comprometia a renda dos sindicatos; possibilitava a concorrência sindical entre os vários sindicatos e os “agentes de negociação”, que podiam ser empresas, para representarem os trabalhadores e negociarem seus contratos de trabalho. O empregador podia escolher com qual “agente” ou sindicato pretendia negociar. A taxa de sindicalização na Nova Zelândia já estava em queda antes da aprovação da ECA, em 1991, devido à abertura econômica e à recessão no início dos anos 1990. Em 1989, 44,7% dos trabalhadores neozelandeses estavam sindicalizados, taxa que caiu para 41,5% na véspera da nova lei, em maio de 1991. Até o fim daquele ano, a densidade sindical caiu para 35,4%, tendência que permaneceu no decorrer da década de 1990. A Nova Zelândia encerrou a década com 16,7% de seus trabalhadores sindicalizados7. Além da queda na filiação sindical, a ECA deu aos patrões o poder de desvalorizar a mão-de-obra de seus funcionários. O acordo que definia os salários e as condições de trabalho em todas as empresas de fast-food era o Tearooms and Resteraunt Employees Award. A ECA viabilizou o desmembramento do acordo setorial, e o sindicato dos trabalhadores da área, chamado Service and Food Workers Union (SFWU), passou a negociar contratos coletivos com as empresas do segmento. As seguintes condições de trabalho tornaram-se ultrapassadas: hora extra; adicional de 50% e 100% para trabalho nos sábados e domingos; hora adicional noturna; vale refeição; táxi para casa após as 22 horas. Além disso, as empresas introduziram salários inferiores para os menores de 20 anos (“salários jovens”)8. O SFWU é um sindicato que representa vários setores diferentes e, apesar de continuar a negociar contratos coletivos com as maiores empresas de fast-food, priorizou a organização de outros setores, como os serviços de limpeza, o apoio residencial aos idosos, etc. Desta forma, junto com a rotatividade de mão-de-obra, o fast-food tornou-ser cada vez mais dessindicalizado. Antes do começo da campanha do Unite para sindicalizar o ramo de “Human Development Report 2007/2008 Gini Index”, http://hdrstats.undp.org/indicators/147.html, acesso em 28 de março de 2009. 6 Disponível no www.stats.govt.nz 7 Veja, Raymond Harbridge e David Wilkinson, “Free Riding: Trends in Collective Bargaining Coverage and Union Membership Levels in New Zealand”, Labor Studies Journal; vol. 26; nº3 (Fall 2001), p.57 e Goldie Feinberg-Danieli e George Lafferty, “Unions and Union Membership in New Zealand: Annual Review for 2006”, New Zealand Journal of Employment Relations,vol. 32, nº3 (2007), p.32. 8 Os menores de 20 anos não tinha um salário mínimo em 1991. Depois de casos de exploração desses trabalhadores na imprensa, o governo determinou que os trabalhadores com idade entre 16 e 20 anos teriam direito a um salário mínimo correspondente a 60% do salário mínimo dos trabalhadores acima de 20 anos. Todas as empresas de fast-food usavam esses chamados “salários jovens”, exceto o McDonald’s. O McDonald’s apenas começou a usá-los em 2005. 4 fast-food, o SFWU tinha apenas quatro membros em toda a rede McDonald’s9 e, portanto, praticamente não recebia mais contribuições sindicais dos funcionários desta empresa, que refletiam sua atuação na área. O SFWU aprovou a campanha do Unite no segmento de fast-food. O Labour Party formou um novo governo depois das eleições do fim de 1999. Em 2000, a Employment Relations Act (ERA) foi aprovada para regular as relações de trabalho no lugar da ECA. Apesar da nova lei e a mudança do governo, a estrutura da ECA permaneceu, com a maioria dos trabalhadores neozelandeses contratados com acordos individuais de emprego10; negociações coletivas principalmente entre sindicatos e empregadores individuais; filiação sindical voluntária. Porém, a ERA propiciou alguns direitos sindicais que ajudam no processo de sindicalização, por exemplo, o direito dos representantes sindicais a entrar em locais de trabalho para filiar novos membros ao sindicato11; licença paga para funcionários participarem de educação sindical12; duas assembléias sindicais por ano, de até duas horas de duração cada, durante a jornada de trabalho13; exclusividade dos sindicatos cadastrados para negociar acordos coletivos com empregadores, eliminando os “agentes de negociação” dos anos 199014; obrigação dos patrões de concederem um acordo coletivo com os sindicatos que iniciam negociações coletivas15. O sindicato Unite Union foi estabelecido em 1993, na contramão da desregulamentação do mercado de trabalho de dois anos antes. A motivação para a fundação da entidade era organizar trabalhadores não representados pelos sindicatos existentes16. Mas, quase dez anos depois, o sindicato possuía apenas cerca de 200 membros, com sua maioria próxima da capital neozelandesa, Wellington. Na eleição do fim de 2002, o partido político The Alliance não obteve votos suficientes para retornar ao parlamento. The Alliance, com uma política keynesiana, se posicionou à esquerda do Labour Party e fez parte do governo entre 1999 e 2002. O ex-presidente do partido, Matt McCarten, e um militante de base, Mike Treen, decidiram formar um novo sindicato para aproximar a parcela da população que The Alliance pretendia representar. Ao invés de criarem uma nova pessoa jurídica, os dois usavam a estrutura do Unite com o objetivo de organizar o segmento da população que não se beneficiou da abertura econômica e não era representado pelo movimento sindical17. Esses trabalhadores são contratados principalmente no setor de serviços. A tentativa de McCarten e Treen se focou em volta da maior cidade neozelandesa, Auckland. No período do começo de 2002 a março de 2005, o crescimento econômico ficou entre 3,7% a 5,1% ao ano, o que causou uma queda do desemprego de 5,2% para 3,8%. De 9 “Trade unionism goes punk”, The National Business Review, 17 de fevereiro de 2006, p.10. 10 Na Nova Zelândia, apenas os sindicalizados podem ter um acordo coletivo. Quem não é sindicalizado sempre possui um acordo individual, pois o sindicato não possui autorização do trabalhador para se representar em negociações. 11 Section 20, Employment Relations Act 2000. 12 Section 73, Employment Relations Act 2000. 13 Section 26, Employment Relations Act 2000. 14 Section 40, Employment Relations Act 2000. 15 Os empregadores podem se recusar a negociar um acordo coletivo se tiverem uma “razão genuína”, o que, no entanto, não pode incluir uma objeção em principio aos acordos coletivos. Apenas as negociações feitas com um só empregador obrigatoriamente terminam em acordo coletivo. Veja, Section 33, Employment Relations Act 2000. 16 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 17 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 5 acordo com Treen, o bom desempenho econômico fez que os dois acreditassem que o momento era propício para organizar esses trabalhadores18. O orçamento para estabelecer o Unite em Auckland partiu de empréstimos e doações de pessoas que queriam apoiar o projeto. O Unite começou em 2003 com uma campanha para sindicalizar os restaurantes e cafeterias em Ponsonby, bairro cosmopolitano de Auckland. Inicialmente, o Unite procurou organizar trabalhadores bairro a bairro, com uma baixa contribuição sindical, descontada da conta bancária por meio de débito automático. Apesar de ter filiado 1.000 pessoas em três meses19, este modelo encontrou dificuldades. Primeiro, mesmo com uma contribuição sindical muito baixa, que inicialmente era de NZ$1 (R$1,24) por semana, pessoas de baixa renda freqüentemente não tinham dinheiro em suas contas bancárias para pagar o sindicato20. Além disso, esta estratégia atendia trabalhadores de lojas pequenas e independentes que possuem pouca margem de lucro. Tais empresas competem com as grandes cadeias multinacionais que contratam milhares de trabalhadores e definem os salários do setor. As empresas multinacionais de fast-food utilizam o modelo empresarial de franchising, no qual o “franqueado” compra os direitos para usar a marca e o padrão de restaurante do “franqueador” (o dono da marca e sistema padrão de restaurante), e investe seu próprio capital no estabelecimento da nova loja. Assim, o franqueador se livra da produção física para focar na fabricação da marca, que promove um estilo de vida, valores e idéias que transcendem o produto bruto. Segundo Fontenelle, a marca representa um capitalismo de imagens e o desafio dos marqueteiros é construir uma imagem que gere a percepção de valor para os consumidores21. Portanto, quanto mais uma empresa gasta em propaganda, mais ela vale. A Burger King avalia que sua marca representa 35% do valor de todos os ativos da empresa22. No setor de fast-food, as marcas promovem uma “experiência” subjetiva num segmento onde há poucas diferenças entre as opções de um sanduíche com batata frita e refrigerante. No modelo clássico do fast-food, o franqueado é frequentemente um pequeno empresário, com uma a quatro lojas. Porém, no caso das marcas KFC, Pizza Hut e Starbucks, na Nova Zelândia, o franqueado é a empresa de capital aberto Restaurant Brands. O valor das vendas das três marcas no ano fiscal concluído em 29 de fevereiro de 2008 foi de NZ$303,5 milhões (R$377,4 milhões)23. Para este período, a empresa declarou um lucro de NZ$11 milhões (R$13,68 milhões)24, uma margem de lucro de apenas 3,5%. No mesmo período, a taxa de rotatividade entre os trabalhadores da KFC foi de 85%, de 93% na Pizza Hut e, na Starbucks, de 82%25. Segundo a Restaurant Brands, a empresa tem cerca de 7.000 funcionários, dos quais mais da metade tem menos de 20 anos26, o que revela uma taxa de lucratividade anual por trabalhador de NZ$1.571 (R$1.954), ou NZ$30 (R$37) semanais por funcionário. 18 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 19 “Matt McCarten”, New Zealand Listener, vol.189, n.º3298, 26 de julho a 1 de agosto de 2003. 20 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feito pelo autor. 21 Isleide Arruda Fontenelle, O nome da marca: McDonald’s, fetichismo e cultura descartável, Boitempo Editorial, São Paulo, 2002, p.145 e 162. 22 Form 10K, Burger King Holdings Inc. 2008, p.27. 23 Restaurant Brands New Zealand Limited Annual Report 2008, p.4. 24 Restaurant Brands New Zealand Limited Annual Report 2008, p.4. 25 Restaurant Brands New Zealand Limited Annual Report 2008, p.21, 23, 25. 26 “Union Membership Soars”, New Zealand Herald, 12 de abril 2008, p.F8 6 Na Nova Zelândia, em 2008, NZ$30 equivalia a duas horas e meia de trabalho pago pelo salário mínimo. Ou seja, a empresa não pode aumentar muito os custos de trabalho com seu quadro atual de custos e preços. Dos NZ$303,5 milhões em vendas, a Restaurant Brands pagou NZ$18,401 milhões (R$22,884 milhões) em royalties27 ao Yum! Brands (o dono das marcas do KFC e Pizza Hut) e Starbucks28. Sendo assim, a empresa pagou mais aos franqueadores que lucrou. “Super Size My Pay” O primeiro passo na campanha para sindicalizar o ramo de fast-food era identificar uma pauta de reivindicações. O sindicato inicialmente utilizou voluntários para conversar com os trabalhadores nas lojas, filiar novos membros, e entender o trabalho do setor. Estes voluntários tipicamente vieram de outros grupos da esquerda, especialmente ex-ativistas do The Alliance, e grupos marxistas e anarquistas29. Algumas pessoas eram semi-contratadas, recebendo pagamentos modestos pelo trabalho. Os representantes conversaram com os trabalhadores individualmente nas lojas, utilizando os direitos sindicais previstos na ERA. Para evitar representantes do Unite nas cozinhas e filas dos restaurantes, as cadeias negociaram protocolos com o sindicato, pelos quais a empresa liberaria os trabalhadores para conversar por cinco minutos. Depois das conversas preliminares, o sindicato identificou os baixos salários; os salários jovens30; e as jornadas precárias como as maiores preocupações dos trabalhadores, incluindo esses elementos na construção da campanha. O Unite permaneceu com uma baixa contribuição sindical, mas começou a deduzir as contribuições sindicais na folha de pagamento31. Para fazer a filiação dos trabalhadores durante as conversas, o sindicato fez um formulário com aparência parecida com a de um abaixo assinado, que pedia apenas o preenchimento do nome, assinatura, número de celular e email do empregado. Assim, o documento parecia familiar, como se os empregados estivessem requerendo algo, e mostrava que outras pessoas estavam se filiando. De acordo com Treen, às vezes o sindicato levava cédulas já preenchidas aos locais de trabalho para dar a impressão de que outras pessoas estavam se associando ao sindicato32. A contribuição cobrada pelo Unite era baixa, de NZ$2 (R$2,48) por semana. O setor de fast-food utiliza as condições mínimas, ou próximas às mínimas previstas na lei. Portanto, as reclamações da base quanto aos baixos salários e aos salários jovens eram ligadas à política do salário mínimo do governo. Na Nova Zelândia, o salário mínimo é medido por hora e as mudanças constantes de jornada 27 Royalties são as taxas pagas ao franqueador pelo direito de usar a marca e seu sistema padrão de empresa. As taxas normalmente são cobradas como uma percentagem das vendas. Desta forma, o risco empresarial fica com o franqueado, pois se a unidade não tiver lucro, as taxas ainda precisam ser pagas ao franqueador. 28 O dono das marcas da KFC e Pizza Hut. 29 “Interview with Mike Treen from his 2008 British Tour”, 23 de abril de 2008, http://unite.org.nz/?q=node/348, acesso em 4 de janeiro de 2008. 30 O salário mínimo jovem, que era para trabalhadores entre 16 e 20 anos e era indexado em 60% do valor do salário mínimo adulto até 2000. A partir do governo do Labour Party, o mínimo jovem tornou ser aplicável para trabalhadores apenas entre 16 e 18 anos e aumentou para 80% do valor do mínimo adulto. Sendo assim, trabalhadores menores de 18 anos geralmente ganhavam menos que os maiores da idade. 31 Até uma emenda da ERA no fim de 2004, os trabalhadores sindicalizados, mas sem acordo coletivo, não possuíam o direito formal de pagar suas contribuições sindicais através da folha de pagamento. 32 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 7 causam uma renda variável. Em 2005, o salário mínimo era NZ$9,50 (R$11,81) por hora para os trabalhadores maiores de 18 anos e NZ$7,60 (R$9.45) para aqueles entre 16 e 18 anos, e não havia salário mínimo para os trabalhadores abaixo de 16 anos. Segundo Treen, o objetivo da campanha era obter apoio público contra os baixos salários e más condições de trabalho; chamar a atenção do público das marcas multinacionais responsáveis por isso; e destacar o papel do governo, que legitimou estas práticas em lei33. Depois da eleição de 2005, o Labour Party comprometeu-se a aumentar o salário mínimo para NZ$12 (R$15) por hora até 2008 “se as condições econômicas permitissem”. Tal salário mínimo era uma política do partido nacionalista, New Zealand First, que deu seu apoio ao governo no parlamento sob a condição de que certos programas de ação fossem cumpridos34. O Unite formulou as seguintes demandas: um salário mínimo de NZ$12 por hora já em 2005; a abolição de salários jovens, por serem discriminatórios; e a segurança de jornada e, portanto, de renda. O sindicato usou as marcas conhecidas de fast-food que não cumpriam estas demandas para chamar atenção para uma campanha que tinha uma dimensão política. O lado político foi fortalecido pelo projeto de lei da deputada do Partido Verde Sue Bradford para que o salário mínimo “adulto” se aplicasse aos trabalhadores menores de 18 anos. Como Bradford e o Partido Verde não faziam parte do executivo em 2005, seus projetos de lei foram escolhidos por sorteio junto aos outros deputados que não eram ministros35. Por acaso, o projeto de lei de Bradford foi escolhido em dezembro de 2005, ao mesmo tempo em que se desenvolvia a campanha do Unite, focando a campanha política e ajudando a criar um debate público sobre os salários jovens. O nome da campanha do Unite para sindicalizar o setor de fast-food e destacar sua pauta de reivindicações era “Super Size My Pay”. A expressão é um trocadilho com uma frase do marketing do McDonald’s, que oferece ao consumidor a opção de “Super Size” sua refeição, aumentando o tamanho do refrigerante e da batata frita, pagando um valor a mais. Morgan Spurlock chamou de “Super Size Me” seu filme de 2004, no qual ele destaca o papel dos produtos do McDonald’s e do fast-food no problema da obesidade36. Ao utilizar o tema Super Size My Pay (ou seja, “aumente meu salário”), o sindicato afetou o marketing do McDonald’s com um novo significado cômico. O nome da campanha é importante porque permite identificar e sintetizar a luta, e ataca o empregador ao mesmo tempo. As primeiras ações coletivas 33 “Megaphone man”, Metro, outubro de 2006, p.75. 34 “170,000 to benefit from wage rise”, The Dominion Post, 19 de outubro de 2005, 2° edição, p.4 35 Na Nova Zelândia, para poder fazer parte do executivo, o ministro precisa ser deputado do parlamento (o legislativo). A grande maioria dos projetos de lei são propostos pelos ministros representando o governo que comanda a maioria dos deputados no parlamento. Os projetos de lei de deputados que não são ministros são escolhidos por sorteio pois sempre tem mais propostas do que tempo para debater-las. Geralmente, os projetos de lei sorteados são derrotados pela falta de apoio do governo. O parlamento neozelandês funciona toda terça a quinta-feira com uma quarta-feira a tarde em duas sendo reservada para debater os projetos de lei de deputados que não são ministros. 36 O McDonald’s anunciou que ia parar de “Super Size” as refeições em 2004, um pouco antes do lançamento do filme Super Size Me. Veja, “McDonald’s to scrap supersizing”, BBC News, 4 de março 2004, http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/3532025.stm, acesso 10 de março 2009. O nome do filme é “A dieta de um palhaço” em português. 8 Em novembro de 2005, membros do Unite lançaram Super Size My Pay como “a primeira greve da Starbucks do mundo” numa loja da rede de cafeterias no centro de Auckland. Ao caracterizar a paralisação como a primeira greve da marca no mundo, o sindicato conseguiu divulgar o acontecimento, que envolveu poucos trabalhadores. A manifestação, organizada na frente da loja, tinha 200 trabalhadores de fast-food e simpatizantes. O primeiro grevista saiu do local de trabalho, com registro da mídia, e entrou no “ônibus da liberdade” (o ônibus do sindicato), estacionado em frente à cafeteria, numa espécie de representação teatral. O foco deste primeiro protesto, segundo as placas e o discurso do sindicato na imprensa37, foi demandar o aumento do salário mínimo para NZ$12 por hora já38, ou seja, uma mensagem para o governo e para a empresa, usando a marca global da Starbucks para atrair atenção. Durante a paralisação, os grevistas serviram café grátis para as pessoas na rua. Além de ter um objetivo sério, a paralisação era cômica, com frases como o “ônibus da liberdade” e “Super Size My Pay”, o que encoraja a participação de outros trabalhadores e, de certa forma, dificulta as críticas à ação. Seguindo a greve na Starbucks, o Unite organizou uma segunda paralisação, por apenas duas horas, na “million dollar KFC store” (a KFC de um milhão de dólares), uma loja cuja reforma custou mais de um milhão de dólares (R$1,24 milhões), fato bastante divulgado pela Resteraunt Brands. O foco do protesto foi o salário mínimo de NZ$12 por hora e o fim dos salários jovens pagos pela cadeia. Como na primeira paralisação, as mensagens eram para a empresa e para o governo. Houve humor com uma pessoa vestida como o “Coronel”, a personagem do marketing da KFC, dando entrevistas e dizendo que a cadeia, que vende frango frito, estava pagando a seus funcionários apenas chicken feed39. O sindicato publicou duas notas na imprensa neozelandesa. Na primeira, o Unite destacou os trabalhadores jovens ganhando apenas NZ$7,13 por hora (R$8.86) fazendo uma paralisação em uma “marca multinacional” que gastou mais de um milhão de dólares neozelandeses para reformar a loja na qual eles trabalhavam40. Na segunda nota, citou a preocupação do sindicato dos professores de ensino médio com a necessidade dos alunos trabalharem muitas horas, devido aos baixos salários, para suplementar a renda familiar, o que prejudicava seus estudos41. O protesto do Unite em frente à loja da KFC mostrou o apoio de outras organizações aos grevistas, incluindo outros sindicatos e organizações operárias; grupos indígenas; o Partido Maori42; e o Partido Verde. Numa outra nota destinada à mídia no exterior, o sindicato anotou que os trabalhadores de um país pequeno enfrentaram grandes marcas e citou o jornalista e diretor australiano John Pilger declarando seu apoio à campanha43. 37 Veja, “Café staff stir for wage lift”, New Zealand Herald, 24 de novembro de 2005 e “Starbucks workers strike”, The Dominion Post, 24 de novembro de 2005, 2º edição, p.6. 38 A Starbucks nunca pagava os salários jovens. Em 2006 trabalhadores no Starbucks recebiam entre NZ$10 e NZ$11 por hora e supervisores entre NZ$13 e NZ$14. NZ$10 era um valo maior que o salário mínimo de NZ$9,50 por hora no fim de 2005, mas menor que os NZ$12 que o sindicato demandava. 39 “Comida de galinha” é uma expressão em inglês para dizer que a empresa estava pagando migalhas. Veja, “Balmoral KFC votes 100% for strike!”, Restaurant Worker, n.°5, dezembro de 2005. 40 “Workers on $7.13 vote to strike at Million Dollar KFC Store”, 25 de novembro de 2005, “Minimum wage KFC workers vote to strike”, 28 de novembro 2005; “KFC Workers Strike Against Youth Rates”, 5 de dezembro de 2005. 41 “KFC Workers Strike Against Youth Rates”, 5 de dezembro de 2005. 42 Maori é o nome do povo indígena na Nova Zelândia. 43 “Small Country’s Workers Take On Big Name Brands”, 5 de dezembro de 2005. 9 As paralisações geralmente eram pequenas, localizadas em uma única loja, e duravam entre 10 minutos e duas horas, dependendo da vontade dos trabalhadores. O sindicato não tinha organização suficiente para paralisar a produção física de uma cadeia inteira, contando com apenas 1.000 membros dentre os 7.000 empregados da Restaurant Brands e mais 1.000 dentre os 6.000 funcionários do McDonald’s. O objetivo principal das paralisações era chamar atenção e ganhar apoio público. Segundo McCarten, “tradicionalmente os sindicatos atacam a produção. Isso não é o que o Unite faz. Não temos interesse em prejudicar os salários de nossos membros e causar inconvenientes ao público. Atacamos a marca, a imagem pública da empresa”44. Ao atacar a marca, o sindicato literalmente procura diminuir o valor da empresa de fast-food. Mesmo assim, as paralisações organizadas pelo Unite afetaram o nível de serviço das cadeias com várias paradas de curta duração em locais diferentes. As paralisações de apenas 10 minutos, coordenadas por telefone celular durante horários de alto consumo, procuravam parar a linha de montagem dentro do restaurante e provocar o aumento das filas. Tal tática resultava em poucas perdas salariais para os grevistas e problemas administrativos para a empresa, que tinha de descobrir quem estava parado, por quanto tempo, e depois fazer um reajuste do salário e o imposto de renda de pessoa física para uma ausência de apenas 10 minutos. A mesma estratégia foi aplicada na central de atendimento do Restaurant Brands que recebe encomendas para entregas de pizzas da Pizza Hut. Numa sexta-feira, o Unite organizou equipes para parar por uma hora cada uma, desta forma aumentando o tempo de espera do consumidor e restringindo as perdas salariais. Em geral, estes tipos de paralisação são difíceis de organizar devido à pressão patronal para que o trabalhador não participe, e o isolamento em relação aos outros sindicalizados que não participam da ação no mesmo momento. Porém, de acordo com Treen, não houve muita resistência dos gerentes da Restaurant Brands. Segundo ele, diferentemente do McDonald’s, onde os franqueados pequenos têm um interesse direto em impedir a ação do sindicato, os supervisores do Restaurant Brands também não eram bem-pagos, trabalhavam como funcionários regulares e freqüentemente foram compreensivos com a causa do Unite45. A comunidade Um dos objetivos desses primeiros atos era ganhar apoio e reconhecimento público. Segundo o presidente do sindicato, Matt McCarten, lutas trabalhistas apenas entre o patrão e os trabalhadores não funcionam nos setores de emprego precário, como os setores representados pelo Unite. “Não são só empregadores e empregados, mas também consumidores e comunidade, aspectos dos quais os sindicatos não tratavam no passado”46. Além de chamar a atenção do público neozelandês usando o nome das marcas na mídia, o Unite procurou se envolver em outros eventos na comunidade. 44 “Upsize me: A new style of solidarity”, The Dominion Post, 6 de maio 2006, 2° edição, p.E2. 45 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 46 “Same Game, New Rules: The new rules of engagement for business versus unions”, Management, agosto de 2007, p.26-33. 10 Depois das primeiras paralisações na KFC e Starbucks, o Unite organizou a distribuição de folhetos e adesivos no percurso da parada de Natal em Auckland, em 200547, e montou estandes em vários festivais de música durante o verão 2005-200648. Os públicos destes dois eventos reconhecem as marcas e formam parte da base de consumo do setor. As pessoas que freqüentam os festivais de música são as mesmas que compõem a força de trabalho das cadeias. Nos festivais, o Unite promoveu um abaixo-assinado para aumentar o salário mínimo para NZ$12 por hora e abolir os salários jovens. O sindicato distribuiu adesivos, o que faz parte de uma ação coletiva com o público e mostra visualmente que a campanha tem apoio na comunidade. No festival de música de Grey Lynn49, o sindicato organizou um concurso de skate patrocinado por empresas pequenas que distribuíram pranchas e camisetas. Segundo Daniel Hounsell, da loja Ground Floor, sua pequena empresa queria se envolver porque ela também sofre os efeitos prejudiciais de empresas multinacionais. “Somos uma empresa pequena e é sempre mais difícil competir com as grandes – simplesmente não temos condições financeiras”50. O prêmio para o primeiro lugar era NZ$12 (R$15), o mesmo valor que o novo salário mínimo demandado pelo sindicato. Em fevereiro de 2006, o Unite marcou uma assembléia e um comício público no palácio municipal de Auckland. Depois da aprovação da ERA, em 2000, membros sindicais ganharam o direito a duas assembléias sindicais por ano, de até duas horas cada. A lei não especifica o objetivo dessas assembléias, mas exige que o empregador tenha à disposição um número de funcionários suficiente para manter as operações da empresa, durante a reunião do sindicato51. Antes do evento, o Unite fez uma coletiva de imprensa em que representantes de outras organizações comunitárias manifestaram seu apoio à campanha. O grupo reunido pelo sindicato incluía pessoas da igreja52; o movimento sindical53; pesquisadores na área de pobreza; representantes de ONGs contra pobreza; representantes das comunidades polinésia e maori; e Sue Bradford, do Partido Verde. O folheto promovendo a coletiva de imprensa dizia: “Todos os membros do painel da comunidade apóiam as demandas da campanha por um salário mínimo de NZ$12; o fim de salários jovens; e jornadas seguras..... Este evento [o comício] é para mostrar o amplo apoio aos trabalhadores de fast-food e às suas paralisações contra as marcas multinacionais que lhes pagam o salário mínimo, salários jovens, e utilizam jornadas de trabalho precárias”54. 47 A parada de natal é um evento tradicional nas cidades neozelandesas. O desfile é organizado pela prefeitura e consiste em vários carrinhos de empresas e grupos da sociedade civil que passam pela rua principal da cidade. O destaque da parada para as famílias e as crianças que a assistem é o carrinho do Papai Noel. 48 Como a Nova Zelândia fica no hemisfério sul, o período de verão é entre dezembro e fevereiro. 49 Bairro perto do centro de Auckland. 50 “Skateboarders lend a hand at Grey Lynn Festival”, Nota à Imprensa de Unite Union, 25 de novembro de 2005. 51 Veja o Employment Relations Act 2000 Section 26 52 No contexto de fast-food em Auckland, o apoio da igreja é útil devido à alta participação de pessoas de origem polinésica na força de trabalho. A igreja ocupa um espaço central na comunidade polinésica na Nova Zelândia. 53 Incluindo o presidente da NZCTU – a central única neozelandesa; representante do sindicato de professores de ensino médio; presidente do NDU – o sindicato que representa trabalhadores de supermercados e comércio que são geralmente de baixa renda com emprego precário. 54 Folheto, “Community Groups Support Unite Campaign: Call on public to join stopwork to stop low pay”, sem data. 11 O objetivo do painel era ajudar a construir um apoio público amplo e promover o comício sobre as demandas por mudança para os trabalhadores neozelandeses de baixa renda. Nesse contexto, a pauta dos funcionários de fast-food era o foco para estas demandas. O comício apresentava vídeos de ações coletivas da campanha Super Size My Pay, discursos curtos de convidados, bandas de punk e hip-hop, comediantes, e foi apresentado pelo cantor Imon Star, da banda popular Rhombus. O jornal empresarial The National Business Review descreveu o evento como um truque efetivo para a mídia e diversão para a multidão multi-étnica de 400 pessoas55. A fórmula foi repetida em março quando o sindicato organizou uma marcha pela rua principal de Auckland, terminando com um show no parque. Tais ações coletivas são divertidas e interessantes para a base do sindicato, o que ajuda a aumentar a participação. O acordo coletivo com a Restaurant Brands O primeiro acordo coletivo com a Restaurant Brands foi fechado no fim de março de 2006. A empresa fez uma nova oferta depois de uma “greve estudantil” e um protesto organizado pela Radical Youth56 para apoiar o projeto de lei de Sue Bradford, do Partido Verde, e a campanha do Unite nas empresas de fast-food. O Unite pagou os ônibus que transportaram os alunos para o centro da cidade e emprestou placas e megafones aos jovens57. A marcha, segundo o New Zealand Herald, reuniu 1.000 adolescentes que mostraram apoio ao projeto de lei para abolir os salários jovens58. A manifestação chamou a atenção pela idade dos seus organizadores, alunos de ensino médio; pelo fato de que o protesto ocorreu durante o horário de aula, e por isso foi chamado de paralisação; e pela tentativa de ocupar um restaurante de fast-food, o que resultou em dois estudantes presos. Segundo Treen, naquele momento, a campanha parecia estar crescendo cada vez mais e a empresa temia o que podia acontecer59. A oferta que a empresa fez na semana posterior à greve estudantil foi aceita. O novo acordo coletivo aumentou o salário jovem de 80% para 90% do salário padrão; aboliu os pisos salariais mais baixos para os menores de 16 anos60; equiparou os salários dos supervisores jovens aos dos adultos; e sinalizou o fim dos salários jovens no futuro, dependendo das mudanças assumidas pelas empresas concorrentes. No fim de março de 2006, o salário mínimo elevou-se de NZ$9,50 (R$11,81) para NZ$10,25 (R$12,75) por hora, um aumento de 7,9%. A Restaurant Brands fez um reajuste de 7,9% dos pisos salariais dos trabalhadores maiores de 18 anos da KFC e Pizza Hut, com o piso inicial permanecendo igual ao salário mínimo61. Em março de 2006, a taxa de inflação anual na Nova Zelândia era de 4,0%62. Além de mudanças salariais, o 55 “Trade Unionism Goes Punk”, The National Business Review, 17 de fevereiro 2006, p.10. 56 Radical Youth é uma organização anti-capitalista e antiautoritária fundada no começo de 2005 e composta por alunos de ensino médio. 57 “Upsize me: A new style of solidarity”, The Dominion Post, 6 de maio de 2006, 2° edição, p.E1-E2. 58 “1000 march on ‘school strike’”, New Zealand Herald, 21 de março de 2006. 59 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 60 Pessoas abaixo de 16 anos ainda não têm um salário mínimo. 61 Menos os supervisores maiores de 18 anos que receberam um aumento de 9,9% no KFC e 10,2% na Pizza Hut. 62 A taxa de inflação é disponível no site www.stats.govt.nz. 12 acordo incluiu as seguintes mudanças: o aumento das pausas de trabalho de 10 para 15 minutos; uma jornada mínima de três horas diárias; o compromisso da empresa oferecer aos funcionários já existentes as novas jornadas de trabalho a serem contratadas; horas extras aumentadas em 50%, após uma jornada diária de 8 horas ou 40 horas semanais63; pagamento de um “auxílio acordo coletivo” no valor de 1% do salário para todos os trabalhadores já filiados ou que se filiassem até um mês após a aprovação do acordo, ou no primeiro mês de emprego do funcionário, o que compensava o pagamento das contribuições sindicais. O período de um mês depois da aprovação do acordo coletivo para realizar a filiação sindical “grátis” possibilitou o recrutamento de novos membros. Restringir um pagamento (do auxílio acordo coletivo) aos sindicalizados é uma prática comum no setor público, mas que é extremamente difícil de se conseguir no setor privado, pois ela elimina o desincentivo à filiação gerado pelas contribuições sindicais64. O fato de o sindicato ter conseguido negociar uma cláusula desse tipo mostra a pressão aplicada à empresa. Na Nova Zelândia, os acordos coletivos celebrados pelos sindicatos podem ser vantajosos em relação aos acordos individuais negociados particularmente pelos não-sindicalizados. O prazo do novo acordo coletivo do Unite era de dois anos. Segundo o sindicato, nos 12 meses anteriores a abril de 2006, sua filiação aumentou de 3.500 para 6.000 membros. Além dessas, outras 500 pessoas que haviam se filiado ainda não haviam começado a pagar a mensalidade65. O movimento para sindicalizar os trabalhadores de fast-food foi uma iniciativa do Unite, e não um movimento espontâneo da base com a intenção de se organizar. A sindicalização e a atividade coletiva dependeram de um número restrito de funcionários e voluntários que formavam o centro de decisões do sindicato, iam aos restaurantes para filiar novos trabalhadores e coordenavam as ações coletivas entre os empregados de fast-food. Para Treen, falta democracia no sentido formal, que é difícil de construir e sustentar devido à alta rotatividade dos trabalhadores. Os representantes ou “contatos” do sindicato normalmente são nomeados pelos funcionários do Unite devido à dificuldade em fazer um processo de escolha formal. Os empregados mais antigos recrutam novos membros para o sindicato, mas a filiação depende, em grande parte, de visitas de pessoas do sindicato aos restaurantes. Segundo Treen, nesses encontros não é difícil filiar os trabalhadores ao sindicato usando a fórmula de uma contribuição baixa, uma série de demandas com as quais o trabalhador consegue se identificar, e um formulário que facilita a filiação sindical66. Conclusão 63 Diferentemente do Brasil, a lei neozelandesa não exige pagamentos além do salário normal para hora extra. 64 Na Nova Zelândia, apenas os membros sindicais são contratados com acordos coletivos. Os não- sindicalizados sempre têm um acordo individual. Tipicamente, o patrão passa um acordo individual, igual o coletivo, ao não-sindicalizado. Desta forma, o não-sindicalizado recebe um acordo de trabalho negociado pelo sindicato, sem pagar as contribuições sindicais o que enfraquece o sindicato. Os acordos coletivos sempre possuem uma data de vencimento depois de qual fazer greve ou lockout é permitido. Em casos que o patrão e o sindicato não alcançam um novo acordo antes da data de vencimento, o acordo coletivo anterior continua em vigor. Os acordos individuais geralmente não possuem uma data de vencimento. 65 Changing of the Guard”, New Zealand Herald, 29 de abril 2006 e “A new style of solidarity”, The Dominion Post, 6 de maio de 2006, 2° edição, p.1. 66 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 13 O projeto de lei de Sue Bradford e o Partido Verde foi aprovado em agosto de 2007. Sua forma final foi enfraquecida pelo Labour Party e o New Zealand First, que propuseram que o salário mínimo adulto fosse compulsório para os trabalhadores de 16 a 18 anos apenas após as primeiras 200 horas de emprego ou três meses de serviço com qualquer empregador. Mas essas duas exigências são difíceis de administrar para os empregadores, pois o trabalhador neozelandês não carrega uma carteira de trabalho com sua história trabalhista, como no Brasil, o que dificulta a verificação do serviço com outros empregadores. Portanto, desde abril de 2008, as cadeias de fast-food não utilizam mais os salários jovens. Em 19 de dezembro de 2007, o governo anunciou o novo salário mínimo para abril de 2008 de NZ$12 por hora. Havia se passado dois anos e meio desde o início da campanha do Unite por um mínimo de “NZ$12 por hora já”. Ao prometer aumentar o salário mínimo “se a situação econômica permitisse”, o governo deixou espaço para manobrar se não tivesse condições políticas de implementar o novo valor. A pressão do movimento sindical, especialmente dos sindicatos que representam os trabalhadores de baixa renda, como o Unite, foi importante para garantir que este novo mínimo fosse implementado. Para McCarten, se não fossem por campanhas como Super Size My Pay e o apoio público que elas criaram, empresas e o governo não seriam obrigados a mudar sua política salarial. McCarten disse que o próximo objetivo do sindicato será fixar o valor do salário mínimo em dois terços do salário médio quando o governo introduziu o mínimo pela primeira vez, em 1945. Tal medida aumentaria o salário mínimo para NZ$15 (R$18,65) por hora em 200867. De acordo com Treen, o Unite pretende lançar um abaixo-assinado que precisa das assinaturas de 10% dos eleitores (298 mil pessoas) para causar um referendo nacional sobre o valor do salário mínimo. O referendo não pode obrigar o governo a aumentar o salário mínimo, mas pode criar um debate nacional sobre o assunto e sobre quem deve pagar pela crise econômica pela qual a Nova Zelândia está passando – o capital ou o trabalho68. Devido às baixas margens de lucro no setor de fast-food, o único jeito de realmente aumentar salários e melhorar as condições de trabalho é acrescentar as condições mínimas à lei. Desta forma, todas as cadeias são atendidas pelo aumento em custos e precisam incluir estes nos preços. Uma negociação coletiva que envolva todas as empresas do setor num país com leis trabalhistas como as da Nova Zelândia é praticamente impossível. A campanha do Unite atacou as marcas de fast-food, que são a propriedade dos franqueadores. Tais táticas conseguem chamar a atenção das grandes empresas de fast-food pois a marca é o seu produto principal e determina o valor da empresa. Na sua campanha para renovar seu acordo coletivo com McDonald’s, em 2008, o Unite ameaçou queimar uma efígie do palhaço da empresa - Ronald McDonald – levando empregados da cadeia para a rua principal de Auckland. Tal imagem forte, contra uma marca global, teria o potencial de se espalhar pela mídia fora da Nova Zelândia. De acordo com o Unite, o McDonald’s da Nova Zelândia informou o sindicato que um avião particular estava pronto para partir dos EUA, levando executivos da empresa ao 67 “Minimum wage increase sign of effective pressure”, Nota à Imprensa do Unite Union, 1 de abril de 2008. 68 Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 14 país, caso que o sindicato queimasse a efígie do palhaço69. Para Vicki Salmon, diretora-executiva da Restaurant Brands em 2005 e 2006, o Unite escolhe cadeias mais renomadas e as usa para atrair publicidade e fazer alguma forma de lobby político70. As marcas ajudam a chamar atenção para a pauta da campanha, possibilitando-lhe angariar apoio e obter conhecimento público, juntamente com a mobilização, fazendo pressão política. A estratégia do Unite não é completamente nova e possui semelhanças com o Industrial Workers of the World (IWW), nos EUA, no começo do século 20, quando o sindicato procurou organizar trabalhadores precários enquanto o resto do movimento sindical estava organizando mão-de-obra qualificada com trabalho estável. A abordagem do IWW, como a campanha do Unite, foi diferente do padrão pelos seguintes fatores: cobrou baixas contribuições sindicais; promoveu ondas de organização sindical de alta-intensidade e concentração; integrou novos trabalhadores ao movimento com uma lista de demandas que foi desenvolvida depois de discussões com os operários de base; as agitações ocorreram em público e eram criativas, vibrantes e conhecidas entre a população; e a tendência de promover paralisações de curta duração e máximo impacto. Por princípio ideológico, o IWW nunca fechou acordos ou contratos com empregadores, diferentemente do Unite. Este procurou garantir os ganhos da campanha em acordos coletivos e, deste modo, usou o poder do Estado para reforçar as conquistas obtidas no auge das campanhas71. Um movimento que procura fazer exatamente o que o Unite fez num contexto brasileiro claramente teria algumas dificuldades. Por exemplo, o poder do patrão para demitir os participantes de ações coletivas é amplo. Porém, os fundamentos da campanha (a criação de apoio público contra uma injustiça usando a fama das marcas multinacionais para chamar a atenção, e ao mesmo tempo atacar a empresa e o governo, que aprova as leis que legitimam tais práticas), são aspectos possíveis de serem reproduzidos no Brasil. Movimentos para a mudança social em qualquer país devem procurar ampliar suas lutas e buscar apoio e envolvimento público, e não apenas se limitar aos trabalhadores imediatos. O que o Unite fez foi usar o conhecimento e o nome da marca para facilitar este processo. Bibliografia BRAMBLE, Thomas, e HEAL, S, “Trade Unions” in ROPER, B e RUDD, C (orgs.), Political Economy of New Zealand since 1945, Oxford University Press, Auckland, 1997, pp.119-140. FONTENELLE, Isleide Arruda, O nome da marca: McDonald’s, fetichismo e cultura descartável, Boitempo Editorial, São Paulo, 2002. 69 O sindicato não queimou “Ronald” e McDonald’s fechou o acordo coletivo que Unite estava procurando. Entrevista com Mike Treen em 12 de março de 2009, feita pelo autor. 70 “Supersize my pay”, The Dominion Post, 18 de fevereiro de 2006, 2° edição, p.1. 71 “Interview with Mike Treen from his 2008 British Tour”, 23 de abril de 2008, http://unite.org.nz/?q=node/348, acesso em 4 de janeiro de 2008. Acordos coletivos e individuais são documentos que definam as obrigações legais das partes. Se o sindicato, o empregado, ou o empregador acreditam que o acordo está sendo descumprido, a parte pode recorrer a justiça, que é um órgão do Estado, para forçar o cumprimento do acordo. Sendo assim, o Estado legalmente assegura as condições dos acordos. 15 FREINBERG-DANIELI, Goldie, e LAFFERTY, George, “Unions and Union Membership in New Zealand: Annual Review for 2006”, New Zealand Journal of Employment Relations,vol. 32, nº3 (2007), pp.31-39. FRYER, Glenda e HAYNES, Peter, “Standard recipes? Labour Relations in the New Zealand fast-food industry” in ROYLE, Tony e TOWERS, Brian (orgs.), Labour Relations in the Global Fast-Food Industry, Routledge, London, 2002, pp.172-191. HARBRIDGE, Raymond, e WILKINSON, David, “ Free Riding: Trends in Collective Bargaining Coverage and Union Membership Levels in New Zealand”, Labor Studies Journal, vol. 26; n.º3 (outono de 2001), pp.51-72. KELSEY, Jane, The New Zealand Experiment: A World Model for Structural Adjustment?, Auckland University Press, Auckland, 1997. KLEIN, Naomi, No Logo: Taking aim at the brand bullies, Picador, New York, 2000. 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FOLHA DE ROSTO TÍTULO DO TRABALHO: A CONTRIBUIÇÃO DAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS NA FORMALIZAÇÃO DOS CONTRATOS DE TRABALHO AUTORES: José Dari Krein: Doutor em Economia Social e do Trabalho pelo Instituto de Economia da UNICAMP [IE/UNICAMP], professor do IE/UNICAMP, Pesquisador e Vice-Diretor do CESIT/IE Magda Barros Biavaschi: Desembargadora aposentada do TRT4, Doutora em Economia Social e do Trabalho pelo IE/UNICAMP, Pesquisadora voluntária e pós-doutoranda no CESIT/IE/UNICAMP Hildeberto B. Nobre Júnior: Auditor Fiscal do Trabalho [DRT/SP], especialista em Economia Social do Trabalho pelo CESIT/IE. COMISSÃO TEMÁTICA: RESUMO: O presente artigo discute o papel das instituições públicas - Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e do Sistema de Fiscalização do Ministério do Trabalho [DRT] - no processo de formalização dos contratos e na estruturação do mercado de trabalho, a partir da hipótese de que as tensões sociais refletem-se nas ações que têm desempenhado, reproduzindo a condensação material de forças presentes na sociedade. Partindo-se do pressuposto de que o tema da formalização não está descolado da dinâmica econômica e política do País, analisam- se as tendências mais recentes da regulação e do mercado de trabalho brasileiro, destacando-se as contribuições que tais instituições públicas têm dado para o incremento da formalidade. PALAVRAS CHAVE: FORMALIZAÇÃO DOS CONTRATOS DE TRABALHO JUSTIÇA DO TRABALHO MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO SISTEMA DE FISCALIZAÇÃO – DRT 1 A CONTRIBUIÇÃO DAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS NA FORMALIZAÇÃO DOS CONTRATOS 1. Introdução Diversos estudos1 mostram que houve crescimento do emprego formal nos primeiros anos do século XXI até a eclosão da crise, vis a vis a outras formas de ocupação. O presente artigo discute a contribuição das instituições públicas - Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e do Sistema de Fiscalização do Ministério do Trabalho [DRT] – nesse processo de formalização e na estruturação do mercado de trabalho. Nos anos 90, em um cenário de profundas alterações na estruturação do mercado de trabalho brasileiro, três grandes teses, grosso modo, ganharam expressão no debate acadêmico, ainda que questionadas: 1] a idéia do desemprego tecnológico, ou seja, de que o país mesmo crescendo não voltaria a gerar postos de trabalho de forma substantiva [Mattoso, 1996]; 2] A rigidez da legislação do trabalho seria empecilho para a geração de postos de trabalho e para o combate da informalidade [Pastore, 1994 e 1995]; 3] Três instituições com presença no mercado de trabalho brasileiro [FGTS, Seguro Desemprego e Justiça do Trabalho] criam dificuldadse para os ganhos de produtividades pois induzem a prevalência de contratos de curto prazo [Amadeo e Camargo, 1996]. No entando, o desempenho do mercado de trabalho no período recente acaba por colocar em xeque essas visões, na medida em que: a formalização se dá sem eliminação da legislação do trabalho, apesar do avanço da flexibilização; as instituições públicas tiveram contribuição positiva no recente aumento da formalização; e o desemprego, conquanto continue bastante elevado, em quadro econômico mais favorável, diminuiu. 2 Essa inversão da tendência de desestruturação do mercado de trabalho, que começou a acontecer em 1999, acentuou-se entre 2004 e 2008, quando da eclosão da crise. Ainda que o marco se dê a partir de 1999, quando o País enfrentou uma forte desvalorização de sua moeda [Real], o incremento mais acentuado da formalização irá ocorrer a partir de 2004, coincidindo com um crescimento econômico mais substantivo. Portanto, desde logo, deixa-se claro, e os dados evidenciam, que o avanço da formalização tem como suposto o crescimento econômico, na medida em que oportuniza a alocação dos que se encontram fora do mercado de trabalho, desempregados ou inseridos em ocupações precárias. Essa compreensão, porém, não elimina outra: a de que o arcabouço jurídico institucional trabalhista, que inclui tanto as regras de proteção social ao trabalho como as instituições públicas com incumbência de fiscalizar e garantir seu cumprimento, pode contribuir na estruturação do mercado de trabalho e na definição de certos parâmetros fundamentais que concretizem a dignidade humana, um dos principais preceitos constitucionais brasileiros3. 1 Baltar et AL, 2006; Baltar, 2008, Cardoso Jr, 2007, Chahad, 2006. 2 “O que mais uma vez se comprovou, porém, é que a teoria econômica não nos oferece nenhuma certeza, a não ser a de que, além de arrogantes, esses modelos matemáticos que partem da suposição de racionalidade -em vez de partir dos fatos- são mistificadores e perigosos” – Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista – Folha de S. Paulo, 22-06-2009 3 Cf. NOBRE JUNIOR, Hildeberto; KREIN, José Dari; BIAVASCHI, Magda Barros. A formalização dos contratos e as instituições públicas. In: FAGNANI, Eduardo; HENRIQUE, Wilnês; GANZ LÚCIO, Clemente [Org.]. Previdência Social: Como Incluir os Excluídos? São Paulo: LTR, 2008, p. 119-135. . 2 Apesar avanço da formalização permanece um mercado de trabalho com excedente estrutural de força de trabalho, alta informalidade, alta rotatividade, baixos salários, ampliação da flexibilização nos elementos centrais da relação de emprego e aumento das inseguranças dos cidadãos ante a ausência de mecanismos que garantam o emprego. É num cenário dessa ordem de dificuldades, partindo-se do pressuposto de que há uma relação entre o incremento da formalidade e as ações de três instituições públicas que atuam na área do trabalho4 - Justiça do Trabalho, Sistema de Fiscalização e Ministério Público do Trabalho -, que se pretende analisar suas contribuições na formalização dos contratos, a partir da hipótese de que as tensões sociais se refletem em suas atuações, reproduzindo a condensação material de forças presentes na sociedade.5 O artigo está estruturado em três partes. A primeira será contextualizada o incremento da formalização nos anos recentes. A segunda análise as três instituições públicas antes referidas, destacando suas contribuições para o incremento da formalidade. Por fim, enunciam- se as considerações finais. 2. O avanço da formalização dos contratos de trabalho no período recente No Brasil, a crise instalada a partir da década de 80, com baixo e instável crescimento, agravada pela inserção na lógica da globalização financeira nos anos 90, provocou desestruturação do mercado de trabalho. Por um lado, ocorreu explosão do desemprego, crescimento do trabalho por conta própria e sem registro em carteira, deixando um contingente expressivo de cidadãos à margem da proteção da seguridade social. Por outro, em um contexto econômico adverso, em que prevaleceram políticas de cunho liberalizantes, a tendência foi da flexibilização das relações de trabalho6, proliferando-se formas de contratação precárias que, igualmente, fragilizaram as fontes de financiamento da seguridade e das políticas públicas. Nesse cenário, criou-se um ambiente facilitador da fraude e do desrespeito aos direitos sociais fundamentais. Como é amplamente conhecido, o Brasil conta com contingente expressivo de ocupados sem qualquer proteção social e sem que lhes sejam alcançados os direitos garantidos na Constituição Federal e na CLT. Apesar do dinamismo da economia entre 1930 e 1980, que ajudou na estruturação do mercado de trabalho brasileiro, algumas características permanecem, tais como: excedente estrutural de força de trabalho; informalidade; alta taxa de rotatividade; baixos salários; e desigual distribuição de renda gerada na sociedade7. Essas características acentuaram-se nos anos 1990, escancarando o caráter assimétrico da relação capital e trabalho. O que se percebe a partir dos anos 1990 é o avanço dos contratos a prazo determinado e das formas de contratações atípicas, com ênfase na terceirização, na subcontratação via agência de emprego e no crescimento das relações de emprego disfarçadas [cooperativas, pessoas jurídicas, estagiários, “autônomos” proletarizados], ampliando-se a contratação sem registro 4 Considerações que estão presentes em KREIN,2007. 5 Adota-se o referencial teórico de Poulantzas, visualizando-se o Estado não como entidade intrínseca, mas com relação. Não pura e simplesmente uma relação, ou a condensação de uma relação, mas uma condensação material de forças, isto é, a condensação material e específica de uma relação de forças entre classes e frações de classe [POULANTZAS, 1990]. 6 Aliás, a tese da alternativa da flexibilização sob o argumento de que a rigidez da regulação é responsável pelo desemprego e pela informalidade não foi comprovada empiricamente por quem a defende. 7 Cf. Baltar [Baltar, 2003:199], o desenvolvimento da economia no Brasil redefiniu, mas não solucionou as três grandes questões que caracterizam o mercado de trabalho neste país: a redundância de uma parcela expressiva da população ativa; a baixa participação da massa de salários no custo da produção e na apropriação da renda total; e a enorme assimetria, dispersão e desigualdade, tanto da distribuição dos salários quanto na distribuição de outras rendas do trabalho. 3 formal8. Nos anos primeiros anos do século XXI, apesar da tendência de flexibilização nos elementos centrais da relação de emprego continuar avançando [Krein, 2009], há um forte processo de formalização dos contratos de trabalho como diversos estudos já o demonstram [Cardoso Jr, 2007; Baltar, Moretto, Santos e Krein, 2006; Chahad, 2006]. O crescimento do emprego formal foi expressivo entre 1999 e 2007, com incremento de 49,2% no período contra uma elevação de 26,6% na PEA. Ou seja, foram 12 milhões de novos empregos formais, partir dos dados da PNAD9. Depois de 2004, o crescimento da ocupação foi de 2,64% ao ano, com um PIB de 4,19%, e do emprego formal de 4,97% ao ano. Segundo Baltar: A aceleração do crescimento do PIB, desde 2004, deu continuidade ao aumento da participação do emprego formal na ocupação total, mas reduções nos números de empregados sem carteira e de trabalhadores não assalariados ocorreram somente em 2007, com o PIB crescendo 5,4%, a ocupação total ampliando-se 1,9% e o emprego formal 5,6% [Baltar et al: pp. 6, 2009]. O desempenho do mercado de trabalho foi favorecido pelo crescimento econômico, que foi viabilizado no primeiro momento pelo incremento do comércio internacional, via a expansão do setor exportador. Assim, [...] a retomada do crescimento do PIB começou com as exportações e depois se consolidou com a ampliação do consumo e do investimento, num contexto que ocorreu também um intenso aumento das importações. O crescimento do PIB foi reforçado pelo consumo e investimento, favorecidos pelo crescimento do emprego e da renda e pela ampliação das possibilidades de compra a prazo. O contraste de desempenho da economia brasileira entre 2004-2007 e 1999-2004 permite concluir que desde 2004 o país voltou a percorrer uma trajetória de crescimento, cuja consistência manifestava-se na baixa inflação e na tendência ao equilíbrio das contas públicas e do balanço de pagamentos [Baltar et al: 07, 2009].. Na crise, está mostrando que a continuidade do crescimento econômico dependia da manutenção das condições favoráveis do quadro mundial, apesar das particularidades nacionais, que não cabe analisar no presente texto. Os dados mostram que, em um cenário econômico mais favorável, houve crescimento das ocupações e especialmente de empregados contratados respeitando a Consolidação das Leis do Trabalho [CLT] ou o Estatuto do Servidor Público [emprego formal]. Quadro muito diferente do que ocorre entre 1993-1997, quando o crescimento econômico não teve uma correspondência em melhoras substantivas no mercado de trabalho [Baltar, Krein e Moretto, 2006]. A formalização dos contratos de trabalho tem relação com diversos fatores, especialmente o indicado acima: a forma de operacionalização da economia no período. Ela possibilitou a criação de postos de trabalho em setores mais estruturados da economia e a formalização de setores que apresentaram melhores resultados. Ou seja, sem o crescimento econômico, os outros fatores apontados abaixo e especialmente o papel das instituições 8 Dos anos 90 em diante, como chama a atenção Santos [2006:204], “um dos fenômenos mais notáveis no mercado de trabalho urbano brasileiro tem sido a elevação do número de pessoas ocupadas em atividades não assalariadas”, destacando-se o crescimento, especialmente nos anos 90, do assalariado sem registro em carteira e o por conta própria. 9 No dado de 2007 está incluída o setor rural da região norte do país, mas não altera substantivamente o dado apresentado. 4 públicas teriam dificuldade de serem viabilizados. Por isso, o crescimento econômico é considerado como um pressuposto para explicar o desempenho do mercado de trabalho e particularmente a formalização dos contratos de emprego. Na forma de operacionalização da economia ainda existem outros dois fatores que são fundamentais para os números acima indicados. Em primeiro lugar, a tendência ao avanço da formalização está relacionada com a desvalorização do Real e a conseqüente explosão da dívida pública brasileira, que naquele momento boa parte dela encontrava-se indexada ao câmbio. Para fazer frente ao crescimento da dívida pública, o Governo Federal, a partir de então, adota uma política de superávit primário, o que exigiu também uma mudança na perspectiva de melhorar a máquina arrecadatória. Por exemplo, a relação entre tributação e PIB aumenta de 29% em 1999 para 35% em 2007. É um aumento substantivo da carga tributária. Neste contexto, explica-se a política de aumento da fiscalização, que está expressa no papel desempenho, entre outros órgãos, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, como será analisado adiante. Ainda há outros fatores apontados por Cardoso Jr [2007], entre os quais se destacam: o acesso ao crédito tanto das pessoas físicas como das empresas e o acesso a incentivos fiscais, especialmente das micros e pequenas empresas por meio do Simples/Super Simples 10. Além disso, em um ambiente econômico mais favorável, aumenta o poder de barganha dos sindicatos e dos trabalhadores para exigir a formalização, o que é algo muito importante no cenário brasileiro, pois é uma forma de ter proteção no sistema da seguridade social brasileiro. Essa circunstância confirma a tese de que o crescimento econômico, ainda que não suficiente para superar as notórias desigualdades na distribuição do emprego e da renda, é condição necessária a tanto, cabendo à política e à dinâmica econômica definir, em última instância, o número e o tipo de postos de trabalho que são ou serão criados. Conquanto assim se compreenda, a história demonstra que as regras de proteção ao trabalho e as instituições públicas aptas a fiscalizar seu cumprimento e garantir sua eficácia têm papel relevante na estruturação de um mercado de trabalho menos assimétrico e na constituição de condições que garantam a prevalência dos preceitos definidos social ou legalmente, como se verá a seguir. Isso porque se, por um lado, a informalidade é uma das dimensões do desenvolvimento econômico, por outro é decorrência de reiterada fraude à legislação, com desrespeito a direitos conquistados. Descumprimento que, em boa parte, pode ser tributado à fragilidade das instituições responsáveis por assegurá-los e à ausência de uma legislação mais rigorosa no combate ao delito trabalhista. Se por um lado as instituições em estudo expressam, por vezes, os movimentos contraditórios presentes na sociedade e, em suas ações e decisões, desconsideram a função protetora do Direito do Trabalho, dando espaço aos ventos liberais, por outro, em determinados períodos da história, contribuem tanto na resistência à destruição da tela de direitos quanto no incremento da formalização. E isso acontece inobstante carecerem de estrutura e material humano que lhes permitam dar conta, com mais eficácia, da imensa demanda que lhes é destinada, como se verá a seguir. 3. Justiça do Trabalho, Sistema de Fiscalização e Ministério Público do Trabalho. 3.1 A Justiça do Trabalho. 10 Baltar [2007] mostra, utilizando dados das RAIS que o índice de formalização das empresas foi muito elevado entre 2004 e 2006. 5 O Estado reproduz a condensação material de forças presentes na sociedade.11 Daí a constatação de que nas decisões da Justiça do Trabalho, no contexto dos anos 1980, não prevaleceu a tendência flexibilizadora de direitos. Nesse período, o movimento mais geral da sociedade foi de fortalecê-la como instituição, ampliar a regulação pública do trabalho e sua função de vigilância dos direitos assegurados. Essa, aliás, a lógica que se fez presente em grande parte de suas decisões12. No entanto, a partir dos anos 1990, em meio a um cenário liberalizante, o quadro é 13 outro . É desse período, por exemplo, a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho [TST] que revisou o entendimento expresso no antigo Enunciado 256. de 1986. Este, na prática, coibia a terceirização ao adotar, salvo exceção nele expressa,14 o entendimento de que empregador é o tomador da força de trabalho. Já a Súmula 331, de 1993, ao contrário, ao possibilitar a terceirização nas atividades-meio, acabou por legitimá-la, definindo, ainda, apenas como subsidiária a responsabilidade do tomador. Mas em 2000, o TST revisitou-a, modificando seu inciso IV para estender a responsabilidade subsidiária aos entes públicos que contratam terceiras, buscando, assim, ajustá-la a um contexto de significativo aumento do uso da terceirização na Administração Direta e Indireta. Outra iniciativa que demonstra o ajustamento das decisões do TST ao contexto dos anos 1990 foi o cancelamento ou a modificação de diversos Precedentes Normativos15 orientadores de julgamentos em processos de dissídios coletivos, como o que tratava da estabilidade no emprego por 180 dias à vítima de acidente de trabalho, o que assegurava horas extras com adicional de 100%, o que dispunha sobre aviso prévio proporcional, etc.16 Grosso modo, o TST, pari passu a uma tendência inibidora da luta sindical, como ocorreu na célebre greve dos petroleiros, colocou entraves ao ajuizamento do dissídio coletivo. A Instrução Normativa 04/93, de duvidosa constitucionalidade, cancelada em 2004, era regramento processual rígido que levou à extinção número expressivo de dissídios coletivos pelo não cumprimento das formalidades por ela exigidas, o que contribuiu para o esvaziamento do Poder Normativo da Justiça do Trabalho17. Mas se no campo do direito coletivo e da organização dos trabalhadores a Justiça do 11 POULANTZAS, 1990. 12 Os Enunciados das Súmulas do TST desse período reforçam tal compreensão. 13 Ver KREIN, 2007. Krein exemplifica essa mudança de compreensão invocando a seguintes decisões, dentre outras: as que limitaram o número dos dirigentes sindicais com estabilidade sindical [na Seção Especializada em Dissídios Coletivos, de 01/07/98, registra, o TST contribuiu para colocar limitações à autonomia sindical e enfraquecer o seu poder de pressão, ao entender que continuam em vigor os artigos 522 e 543, onde a estabilidade é limitada a 7 dirigentes efetivos]; o Precedente Normativo nº 119, estabeleceu que os descontos para o sindicato não são matéria objeto de acordo e convenção coletiva, não podendo, assim, ser arrecadados de toda a categoria. Por outro lado, o STF acabou por não reconhecer a negociação coletiva aos servidores públicos. Além disso, aponta para uma jurisprudência sobre greve abusiva, com multas pesadíssimas às entidades de trabalhadores. Assim, sublinha a tendência no sentido de fragilizar a organização e a mobilização dos trabalhadores, algo coadunado com a lógica política predominante nos anos 90. 14 Salvo nas contratações subordinadas à lei 6.019/74. Essa lei regulamentou o trabalho temporário, definindo as condições para a existência válida e eficaz do trabalho temporário. 15 Por meio do Processo TST-MA- 455.213/1998, o Tribunal Superior do Trabalho cancelou 28 dos 119 precedentes normativos. 16 Cf. Loguércio, 1998. 17 Na Reforma do Judiciário introduzida pela Emenda 45, o tema do Poder Normativo foi retomado, sendo colocado em xeque o instituto. A Emenda por fim aprovada manteve a possibilidade da intervenção da Justiça do Trabalho nos conflitos coletivos quando malograda a negociação entre as partes, desde que essa iniciativa se dê “de comum acordo”. Essa exigência tem sido objeto de grandes controvérsias. Chegou-se a cogitar que o fim do Poder Normativo estava dado. No entanto, recentes interpretações dos Tribunais do Trabalho não parecem conduzir a essa conclusão. 6 Trabalho impediu avanços, situação que, aliás, passa por um processo de mudança, no dos direitos individuais e, sobretudo, no reconhecimento das fraudes e simulações encobridoras da real existência da relação de emprego, essa instituição prestou relevante contribuição. O artigo As cooperativas de mão–de–obra e os Tribunais Regionais do Trabalho,18 demonstra que as decisões dos Tribunais pesquisados adotaram, em síntese, os mesmos argumentos e, apesar das especificidades de cada um deles, a tendência foi de coibir a fraude, reconhecendo a relação de emprego e repondo os direitos trabalhistas lesados. Exemplo relevante encontra-se no tema da terceirização, paradigmático para se analisar a mudança da fisionomia da Justiça do Trabalho entre os anos 1980, 1990 e 2000. Até 1993, o entendimento prevalente era o do Enunciado 256/1986 do TST, antes referido. Em 1993, esse entendimento foi revisado pela Súmula 331 e, em 2000, o inciso IV dessa Súmula teve sua redação alterada para estender a responsabilidade subsidiária aos entes públicos19. Essa Súmula, que, de resto, não exclui a possibilidade da fraude, conquanto tenha importado retrocesso em relação a uma jurisprudência que afirmava ser solidária a responsabilidade da contratante ou sua condição de real empregadora, acabou por contribuir na formalização dos contratos exatamente ao definir a responsabilidade, ainda que subsidiária. É que, ao fazê-lo, induziu os agentes econômicos ou os órgãos públicos que se valem da terceirização a adotarem medidas de controle em relação às terceiras, exigindo prova do cumprimento dos direitos sociais e previdenciários de seus trabalhadores como forma de se protegerem contra eventuais responsabilizações quanto a passivos futuros. Inclusive, em alguns setores marcadamente terceirizáveis - como nas áreas de segurança, asseio e conservação -, o índice de formalização é alto. Como ressaltam Chahad e Zockun [2002, p.19]: [...] o pagamento das faturas apresentadas pelas empresas prestadoras de serviço é sempre condicionado à apresentação de cópias das guias que comprovem o recolhimento dos encargos sociais [IAPAS, FGTS] dos funcionários terceirizados. Outra conseqüência foi o surgimento da Associação Brasileira das Empresas de Serviços Terceirizáveis e Trabalho Temporário,20 que se propõe acompanhar e expedir certificado às terceirizadas sobre sua regulamentação legal, como garantia de segurança ao tomador do serviço. Esse certificado refere-se, basicamente, ao cumprimento da legislação trabalhista, previdenciária e fiscal21. Não tem sido incomum a ocorrência de casos de ‘desterceirização’ em função de revés na Justiça do Trabalho.22 Assim, a pequena elevação da formalidade que os dados atuais demonstram pode, entre outros fatores, ser também explicada pelo papel do Estado, tanto em termos de regulação, como no ato de dizer o direito e de fiscalizar seu cumprimento23. Mais recentemente, no dia 28 de maio de 2009, a Seção de Dissídios Individuais 01 do TST, SDI -1, em relevante e histórica decisão, por escassa maioria – a votação foi de 8 votos a 6 –, julgou 18 GIMENEZ, D. M.; KREIN, J.D; BIAVASCHI, M., 2002. A partir de dados coletados para o período 1997- 2001, analisaram-se decisões das Turmas dos Tribunais da 4ª, 6ª, 9ª e 15ª Regiões em ações ajuizadas por trabalhadores que buscavam o reconhecimento da relação de emprego com as tomadoras ou com as cooperativas que contratam seus serviços. 19 Resolução n. 96, DJU 18.09.2000. 20 Ver www. asserttem.com.br 21 Cf. KREIN, 2007. 22 Por exemplo, em matéria da Folha de São Paulo, de 19/03/96, a consultora de RH da Riocell admitia que, após o Enunciado 331 do TST, algumas atividades tiveram que ser revistas [[telefonia, mensageiros, recepção, manutenção, folha de pagamento]]. O título da matéria era “Empresas lançam a ‘desterceirização’” [[CONCEIÇÃO: 2002, p. 27]]. 23 Conferir uma discussão sobre o tema em Baltar, Moretto e Krein, 2006. 7 irregular terceirização nas Centrais Elétricas de Goiás. A Seção, por maioria de votos, acolhendo os embargos em Recurso de Revista interpostos pelo Ministério Público do Trabalho, considerou irregular a contratação de trabalhadores terceirizados para desempenhar atividades-fim na empresa. Com a decisão, a empresa terá seis meses para substituir os trabalhadores terceirizados. Trata-se de uma Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho [daqui para frente apenas MPT] com o objetivo obrigar a CELG a observar as normas de segurança e medicina do trabalho e proibir a prática de terceirização. O MPT relatou a ocorrência de acidentes fatais envolvendo operários do setor de energia elétrica da CELG e da empreiteira por ela contratada, a COMAR. O sindicato profissional apresentara denúncia ao ao MPT, impulsionando o ajuizamento da Ação. De acordo com o MPT, o número de acidentes de trabalho aumentou significativamente a partir de 1993, quando começaram as terceirizações na CELG. Naquela época, ocorreram 87 acidentes em 816 dias; em 1996, foram 132 acidentes em apenas 270 dias. Em sua defesa, a CELG afirmou que, desde sua criação, a construção e a manutenção de subestações e redes de alta e baixa tensão são terceirizadas – afirmando que essa terceirização é necessária ao seu próprio funcionamento. Tanto a Vara do Trabalho quanto o Regional [TRT18, Goiás] deixaram de acolher a pretensão do Ministério Público por entenderem que a contratação tinha respaldo legal e que a substituição dos terceirizados afetaria os serviços da CELG. A Ação chegou ao TST pela via do Recurso de Revista. Distribuído para a Quarta Turma, esta rejeitou o recurso, levando o MPT a interpor embargos à SDI-1, sustentando que a decisão da Turma contrariava entendimento expresso na Súmula 331 do TST, que restringe a terceirização às atividades-meio, como de vigilância, higiene e limpeza e segurança, negando, ainda, sua possibilidade àqueles casos em que, pela via da simulação, caracteriza-se a relação de emprego direta com a tomadora. Em junho de 2008, quando iniciado o julgamento dos Embargos , o Relator, Ministro Aloysio Corrêa da Veiga, votou pela rejeição por entender que a Lei 8987/1995, que rege as concessionárias e as permissionárias de serviços públicos, autoriza a terceirização na atividade- fim nas empresas de energia elétrica, argumentando que não é possível entender que a empresa se deva abster de proceder à contratação de trabalhadores por existir regramento vigente que valida a subcontratação no setor de energia elétrica. Assinalando haver distinção entre terceirização de atividade e terceirização de trabalho, argumentou como segue: Entendo que a Súmula 331 do TST, quando trata da ilicitude da terceirização na atividade-fim, está a proibir a terceirização da prestação de trabalho, concorrente com a empresa tomadora, e não o fracionamento da atividade empresarial ao atribuir para outras empresas determinada linha de produção ou serviços24. No entanto, já no momento em que iniciara o julgamento, em 2008, o Ministro Lélio Bentes Corrêa abrira divergência, defendendo que a Súmula 331 do TST deve ser compreendida com base no princípio protetivo, ponderando: [...] se a terceirização é um fenômeno do mundo globalizado, a precarização que vem com a terceirização também o é, e cabe ao Judiciário estabelecer oposição a esse fenômeno, especialmente em atividades que envolvem altíssimo grau de especialização e de perigo. Em seguida, ainda naquela ocasião, o ministro Vieira de Mello Filho pedira vista regimental. Ao trazer novamente a matéria a julgamento na sessão de 25 de maio de 2009, 24 Fonte, site do TST. Disponível em: WWW.tst.jus.br. Acessado em 25 de maio de 2009. 8 quando o Relator reafirmou seu voto, o Ministro Vieira de Mello Filho assinalou que a controvérsia é extremamente complexa na seara trabalhista, por conta da delimitação do que vem a ser atividade-fim e atividade-meio. Em longo voto, acompanhou a divergência aberta pelo Ministro Lélio Bentes, sustentando que a permissão contida na Lei 8987/1995, relativa à terceirização, tem caráter administrativo e não trabalhista. A legislação trabalhista, diz ele, protege substancialmente o trabalho humano, prestado a outrem, de forma não eventual, oneroso e sob subordinação jurídica, e o faz sob o influxo do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Para ele, a terceirização de atividades-fim, além de contrariar o fundamento da legislação trabalhista, traz conseqüências imensuráveis no campo da organização sindical e da negociação coletiva. Uma delas, o enfraquecimento da categoria profissional dos eletricitários, diante da pulverização das atividades ligadas ao setor elétrico e da multiplicação do número de empregadores. Quanto à palavra “inerente” que a lei contém, cerne da controvérsia e que, segundo o Ministro Relator, autorizaria a terceirização de atividade-fim, defendeu que o termo não conceitua, delimita apenas. Para o Relator, no entanto, o que dever ser repelido é a precarização, ponderando que a Súmula 331 do TST obriga àquele que contrata a fiscalizar o contratado, responsabilizando subsidiariamente a tomadora dos serviços e impedindo o descumprimento da legislação trabalhista e a fraude. Com essa raciocínio afirmou que: Impedir a terceirização estaria na contra-mão da história. Acompanharam a divergência do Ministro Lélio Bentes, seguida pelo Ministro Vieira de Mello Filho, os Ministros João Oreste Dalazen, Carlos Alberto, Horácio de Senna Pires, Rosa Maria Weber, Maria de Assis Calsing e o Juiz convocado Douglas Alencar Rodrigues. Seguiram o Relator os Ministros: Vantuil Abdala, Brito Pereira, Cristina Peduzzi, Guilherme Caputo Bastos e o Presidente do TST, Ministro Milton de Moura França que, ao proferir seu voto, posicionou-se favoravelmente à terceirização no caso da CELG, afirmando que o termo ‘inerente’, incluído no texto da Lei 8987/1995, [...] significa peculiar, que lhe é próprio. A lei fala, ainda, em atividades acessórias e complementares. Não há, a meu ver, nenhuma dúvida quanto ao sentido e ao alcance da norma. Para o presidente do TST, a terceirização, desde que observada a legislação e as normas de proteção ao trabalhador, não resultam em precarização e tampouco ofende o princípio da dignidade humana, indagando ao final: A Constituição brasileira estabelece os direitos do trabalhador. Se eles estão sendo cumpridos, isso é precarizar? Em votação apertada, a SDI-125 rejeitou a interpretação da Lei 8987/1995 que atribuía à expressão “atividades inerentes” o sentido de “atividade-fim”, tal como fora adotado pelo TRT18,26considerando irregular a terceirização na CELG. Para além da responsabilização da tomadora e do reconhecimento da ilegalidade de certas relações trilaterais, a Justiça do Trabalho, considerados seus limites e suas marcadas contradições, tem cumprido papel relevante no processo de formalização ao reconhecer a condição de empregados a trabalhadores “informais”, “estagiários”, “cooperativados”, “pessoas jurídicas”, “autônomos proletarizados”, afastando a validade dessas contratações por simuladas e em fraude a direitos27. 25 Além das oito Turmas julgadores, o TST contempla, em sua estrutura judicante, os seguintes órgãos: o Tribunal Pleno, o Órgão Especial, duas Seções de Dissídios Individuais [SDI 1 e SDI 2] e uma especializada em Dissídios Coletivos [SDC]. 26 Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, Estado de Goiás. 27 Os requisitos da relação de emprego são a existência de trabalho humano, pessoal, por conta alheia, não eventual, subordinado e remunerado. 9 A lesão aos direitos dos trabalhadores brasileiros - cujas despedidas se podem dar imotivadamente, com reflexos na rotatividade de mão de obra - e a ampliação da informalidade - compreendida como fator de recrudescimento das inseguranças do mundo do trabalho- dificultam, sobremaneira, o acesso aos benefícios da seguridade social. Essa realidade tem sido uma das responsáveis pelo boom das demandas trabalhistas, sobretudo no período 1995-2000, como se poderá ver no gráfico a seguir. Aliás, recentemente, o Presidente da Central Única dos Trabalhadores [CUT], manifestando-se sobre propostas de mudança nas relações de trabalho no Brasil – no caso, especificamente, envolvendo a retificação das Convenções 151 e 158 da OIT– tendo presente que dez milhões de trabalhadores foram admitidos pelas empresas no ano passado [2007], enquanto oito milhões perderam seus empregos no mesmo período, afirmou28: [...] Isso se explica porque há milhões de ações em curso na Justiça do Trabalho. É o único caminho que resta para boa parte dos demitidos. Os dados revelam, de um lado, o crescimento das demandas de trabalhadores que buscam judicialmente a reparação a direitos lesados; de outro, a insuficiência estrutural desse ramo do Judiciário relativamente ao seu corpo de servidores e magistrados, incompatível com o recrudescimento das demandas29, remetendo ao tema da recuperação do papel do Estado como relevante tarefa política dos tempos de hoje. O Gráfico a seguir mostra o crescimento do número dos processos ajuizados e solucionados pela Justiça do Trabalho a partir da década de 1990. Gráfico 2 - M ovimentação Processual e População Economicamente Ativa Urbana 12.000.000 80.000.000 70.000.000 10.000.000 Número de Processos na Primeira 60.000.000 Média da PEA Urbana 8.000.000 50.000.000 Instância 6.000.000 40.000.000 30.000.000 4.000.000 20.000.000 2.000.000 10.000.000 0 0 1941-1945 1946-1950 1951-1955 1956-1960 1961-1965 1966-1970 1971-1975 1976-1980 1981-1985 1986-1990 1991-1995 1996-2000 2001-2005 Anos Recebidos Solucionados Média da PEA Urbana Fonte: Tribunal Superior do Trabalho Elaboração: Memorial da Justiça do Trabalho no RS 28 A afirmação é de Arthur Henrique em matéria da Revista Carta Capital: SIQUEIRA, André. Reforma no varejo, Carta Capital, 12 de março de 2008, p. 25. 29 Além dessas questões estruturais, dados orçamentários demonstram que a parcela destinada ao Judiciário Federal tem se mantido mais ou menos igual. De 1995 a 2002, segundo dados do Ministério do Planejamento, a parcela mantém a média de 1,5 % do PIB ano, com variação de 1,5% nos anos 1995 a 1998, caindo para 1,3% em 1999 e estabilizando-se em 1,7% do PIB ao ano de 2000 a 2002, incluídos nesse percentual os valores destinados aos precatórios. 10 Em contrapartida, segundo dados do TST, o número de servidores e magistrados no período variou pouco proporcionalmente ao crescimento das demandas. Esses dados permitem, por um lado, que se lance a hipótese de que essa Justiça, uma vez melhor aparelhada, poderá ter mais condições de avançar no sentido da concretização de sua função social, cumprindo papel relevante não apenas na coibição da fraude trabalhista, mas, também, no avanço da formalidade e na afirmação dos direitos sociais fundamentais que a Constituição de 1988 inscreve. Por outro, remetem ao tema a ser tratado a seguir: o fortalecimento do sistema público de inspeção e vigilância dos direitos trabalhistas, a dotá-lo de mecanismos que lhe permita cumprir com mais eficácia seu papel, possibilitando a constituição de uma cultura de efetividade da legislação, com multas e penalizações que desestimulem a lesão aos direitos sociais, tornando menos necessário o recurso à via judicial 3.2 O sistema de fiscalização30 e vigilância do trabalho O sistema público de inspeção e vigilância dos direitos de proteção ao trabalho inclui, além da Justiça do Trabalho e dos sindicatos, o Ministério do Trabalho e Emprego, no exercício de seu poder fiscalizador, assim como o Ministério Público do Trabalho, no manejo das ações civis públicas para defesa de interesses coletivos31. A Inspeção do Trabalho tem como papel zelar pelo cumprimento das disposições legais relativas às condições de trabalho e à proteção dos trabalhadores no exercício de suas atividades32. A Constituição de 1988 estabelece competir à União organizar, manter e executar a inspeção do trabalho. Essa inspeção é realizada pelo Ministério do Trabalho em Emprego por meio dos Auditores Fiscais.33 Entre as atribuições do Auditor-Fiscal do Trabalho está a de verificar os registros nas Carteiras de Trabalho e Previdência Social - CTPS, visando, também, à redução dos índices de informalidade. Assim, por disposição legal, os auditores fiscais têm compromisso de contribuir na redução da informalidade no País. Nos anos 1990 houve dois movimentos simultâneos, coadunados com contexto econômico e político do período. Por um lado, a lógica de viabilizar mecanismos de fortalecimento da negociação direta e da solução privada dos conflitos trabalhistas. Nesse sentido, foi editada Portaria34que desestimulava a fiscalização dos convênios coletivos sob a justificativa de valorização da negociação direta. Ao invés da multa ao empregador, por exemplo, dispunha que as cláusulas conflitivas com a lei deveriam ser comunicadas ao Ministério Público do Trabalho. Na mesma perspectiva, inclusive com relativa autonomia de ação do auditor fiscal, a partir de 1999 foi instituída a possibilidade de “Mesa de 30 Decreto 21.690, de 1º de agosto de 1932, criou as Inspetorias Regionais do Ministério do Trabalho. Decreto 22.244, de 22 de dezembro de 1932, aprovou o regulamento para sua execução. O Decreto 23.288, de 26 de outubro de 1933, criou Inspetorias nos Estados e no Acre. 31 Além de instituições aptas a dizer o Direito, eram necessárias outras para fiscalizar a aplicação das regras de proteção ao trabalho. Daí as Inspetorias Regionais, embrião das Delegacias Regionais do Trabalho, cridas em 1º de agosto de 1932. Órgãos executores e fiscalizadores sob a orientação o Ministério do Trabalho, tinham por atribuição a superintendência dos serviços cometidos aos Departamentos e a fiscalização das leis e regulamentos do Ministério. Em novembro de 1932, decreto sobre multas e processos por infração às regras postas buscaria dar mais agilidade às cobranças judiciais. 32 A Convenção nº 81 da OIT, de 1947 [art. 1º, item 1] define que o sistema de inspeção do trabalho deve zelar pelo cumprimento das disposições legais relativas às condições de trabalho e à proteção dos trabalhadores no exercício de sua profissão. 33 As atribuições estão definidas na Lei 10593/02. Em 2002, o Decreto nº. 4552, que aprovou o Regulamento de Inspeção do Trabalho 34 Portaria 865/1995. Essa Portaria foi revogada pela Portaria 143/2004. 11 Entendimento”, que, sob a direção do auditor, abre a possibilidade de prorrogação de prazo para cumprimento de itens que foram constatados em fiscalização, mediante concordância do sindicato dos empregados da categoria. Essas mesas podem, inclusive, exercer papel preventivo, visando a coibir, por exemplo, assédio moral e discriminação no ambiente de trabalho. Além disso, há programas desenvolvidos nos diversos Estados de prevenção das doenças e acidentes de modo coletivo, como forma de otimizar a ação de fiscalização, estabelecendo negociações entre as entidades sindicais para medidas preventivas e prazos de implementação.35 Ao mesmo tempo, com mais intensidade nos primeiros anos da década de 1990, a estrutura da fiscalização, historicamente insuficiente, passou por um processo de sucateamento. Este está evidenciado, entre outros aspectos, na questão orçamentária. Especificamente com a fiscalização, houve queda, em termos percentuais, do valor executado no orçamento para a fiscalização até 1999. Apesar de o valor disponibilizado ter aumentado um pouco nos primeiros anos do século XXI, persistem as dificuldades materiais [equipamentos e diárias] para o exercício da fiscalização. Iniciativas, ainda que tímidas, no sentido de recuperar o sistema de fiscalização ocorreram especialmente a partir de 1999, inseridas no esforço de melhoria da máquina arrecadatória, buscando viabilizar o incremento das finanças públicas, em contexto de elevação brutal do endividamento do Estado. Nesse sentido, após anos de redução no número de auditores fiscais do trabalho [inspetores], houve novos concursos. Mesmo assim, o número continua muito baixo até os dias atuais.36 A partir de 1999, foi estabelecida a carreira para o auditor, unificada à da Previdência e Receita, com introdução do sistema de gratificação37 vinculada ao resultado, que privilegia: o volume de arrecadação ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço [FGTS], o número de formalizações via ação fiscal e a quantidade de empregados fiscalizados, tendência que se exacerbou depois de 2003. Ou seja, os incentivos são para aumentar a arrecadação do Estado, por meio de depósitos ao FGTS ou pela elevação da formalização, que incrementa as contribuições sociais, especialmente à previdência social. O incremento da fiscalização contribui para a elevação da formalidade, o que não deixa de jogar contra a lógica da flexibilização, garantindo, teoricamente, maior proteção social ao trabalhador. Segundo dados disponíveis no site do MTE, o número de trabalhadores formalizados por ação fiscal praticamente triplicou entre 1996 e 2007 [foi de 268.558 para 746.245]. Considerando o tamanho do mercado de trabalho e, particularmente, o número dos desligados e admitidos, segundo o CAGED/MTE, a quantidade não é tão grande, mas o crescimento é bem superior ao proporcionado pela dinâmica do mercado de trabalho. Além disso, há outra dimensão que, atendendo às pressões externas, especialmente da OIT, dá ênfase ao papel de resistência à lógica da flexibilização. Nessa dimensão, as principais iniciativas são: a reafirmação dos preceitos da OIT sobre fiscalização, inclusive aumentando a autonomia do auditor fiscal no exercício da função pública;38 e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e do Trabalho Escravo,39 em convênio com a OIT. O combate ao trabalho 35 Por exemplo, no Estado de São Paulo, foram assinadas convenções sobre saúde e segurança do trabalho no setor químico, metalúrgico e construção civil. 36 O número de auditores chegou a 2 mil, em 1995. Em 2006, está próximo de 3 mil, menos do que os 5 mil existentes nos anos 70. 37 Assim, duas gratificações incidem sobre o salário básico: a Gratificação de Atividade Tributária – GAT, correspondente a 30% do salário [[ou 25% do maior salário básico]]; e a ratificação de Incremento da Fiscalização e da Arrecadação – GIFA, correspondente a 45% do maior salário básico de cada cargo [CARDOSO e LAGE, 2005]. 38 Regulamento da Inspeção do Trabalho – RIT, que está na Lei 10.593, de dezembro de 2002. 39 Introduzidos respectivamente em 1992 e 2003. 12 infantil, análogo ao do trabalho escravo,40 é parte do projeto da OIT de trabalho decente.41 São programas que visam a eliminar as lenientes heranças escravocratas, patriarcais e monocultoras, ainda presentes na profundidade das relações sociais e no mundo do trabalho brasileiro. Esses programas são também resposta às denúncias e pressões da comunidade internacional sobre o País. Ou seja, quer por pressão externa, quer por necessidade de ajustes, depois de 1999 houve avanço, ainda que insuficiente, na estruturação do sistema de fiscalização, com alguns resultados nos indicadores sobre formalização, combate ao trabalho infantil e escravo e aumento no valor dos depósitos ao FGTS. A elevação da formalização dos contratos revelada por dados atuais pode encontrar relação com mudanças no sistema de fiscalização. No entanto, problemas estruturais persistem, como a insuficiência do número de auditores, fazendo com que o maior volume de trabalho ocorra no atendimento a denúncias. Diferentemente de outras áreas de fiscalização, o auditor fiscal do trabalho lida com situações sociais complicadas, em que o trabalhador pode estar em situação de desespero para resolver seu problema, elevando o número de denúncias e exigindo atendimento imediato. Certas situações não têm como ser deixadas para depois. Nesse cenário, o baixo número de auditores e as condições em que trabalha dificultam ações melhor planejadas e mais eficazes.42 Em síntese, a flexibilidade agrava-se também, no caso brasileiro, devido ao alto índice de descumprimento da legislação do trabalho. Considerando as autuações, a ordem de incidência em termos de direitos mais infringidos é: falta de depósito ou depósito incorreto ao FGTS; falta de registro; salário; descumprimentos relativos ao descanso; e descumprimentos relativos à jornada, especialmente horas-extras [CESIT/MTE, 2006]. Ao mesmo tempo, é possível perceber a importância da existência de um sistema de fiscalização capaz de garantir a vigilância da legislação. Em 2007, Mais de 746 mil trabalhadores foram registrados em Carteiras de Trabalho e Previdência Social [CTPS] e saíram da informalidade em 2007, em virtude da regularização de registros nas Auditorias Fiscais do Ministério43. O Gráfico 3, a seguir, mostra o número dos trabalhadores registrados em ação fiscal entre os anos de 2001 a 2007 e demonstra o incremento importante no número de empregados registrados que passou de 516.548 em 2001 para 746.245 empregados registrados em 2007, apesar do pequeno número de auditores e das precárias condições de trabalho. Os dados de 2001 já expressaram salto muito grande, pois em 1999 o número de registrados por fiscal foi de 249.795. A partir de 1999, houve um processo de estímulo á fiscalização de trabalhadores irregulares, especialmente para o registro e a arrecadação ao FGTS, por meio da introdução de uma gratificação a ser incorporada nos vencimentos dos auditores fiscais do trabalho. A Gratificação de Incremento da Fiscalização e da Arrecadação44 [GIFA], devida aos ocupantes de cargos efetivos das carreiras da Auditoria-Fiscal do Trabalho, é composta de duas partes relacionadas [1] com os resultados da avaliação de desempenho e da contribuição individual para o cumprimento das metas de arrecadação, fiscalização do trabalho e verificação do recolhimento do FGTS, assim como, [2] dos resultados no âmbito nacional. A formalização dos 40 O combate ao trabalho escravo é feito por grupo móvel, equipe formada por auditores de várias localidades que vai para áreas diferentes das de sua lotação; fator importante, principalmente devido ao problema de retaliação, como ocorreu no caso da morte dos auditores em Unaí/MG, em 2003. 41 Conceito discutido na introdução. 42 Há programas com planejamento que conseguem desenvolver as ações traçadas, tais como o destinado à melhoria das condições de segurança no trabalho e aos deficientes físicos. 43 Disponível em: http://www.mte.gov.br/sgcnoticia.asp?IdConteudoNoticia=2267&PalavraChave=ctps 44 Lei n.º 10.910, aprovada em 2004 13 contratos de emprego representou um percentual dessa gratificação. Por exemplo, em 2004, o Ministério do Trabalho estipulou a meta de 499.639 formalizações, entre janeiro e setembro. No período, foram registrados 523.679 trabalhadores45, com repercussão positiva nos ganhos dos auditores, tornando-se estimulo à formalização por ação fiscal, como pode ser observado no gráfico abaixo: Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego. GRÁFICO 3 – EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE TRABALHADORES REGISTRADOS POR AÇÃO DA AUDITORIA FISCAL DO TRABALHO46.Brasil[ 2001 a 2007] 800.000 746.272 746.245 708.957 670.035 555.454 534.125 600.000 516.548 400.000 200.000 0 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Empregados Registrados O gráfico 4 mostra que, preferencialmente, é adotada a estratégia da fiscalização pedagógica, pois o número de atuações pela manutenção de trabalhadores sem registro é muito baixo, correspondendo somente a 2,6% das formalizações por ação fiscal. A prioridade é regularizar a situação do trabalhador ao invés de simplesmente autuar a empresa. O dado também dá base a que se levante a hipótese de que a busca das metas pode privilegiar a não atuação da empresa, estimulando certas empresas a persistirem na fraude, pois o risco monetário é pequeno. GRÁFICO 4 –NÚMERO DE AUTUAÇÕES POR MANUTENÇÃO DE TRABALHADORES SEM REGISTRO EM CTPS. BRASIL. 2005 e 2006 18.000 17.727 17.669 17.500 REGISTRO 17.000 2005 2006 Ao mesmo tempo, é importante registrar que o recurso à fiscalização regularizadora 45 Disponível em: http://www.sinpait.com.br/site/gifa.asp 46 Disponível em: http://www.mte.gov.br/geral/estatisticas.asp#fisca_trab 14 pode apresentar certa distorção no resultado da formalização por ação fiscal. Isso porque, em algumas situações, pode propiciar uma espécie de pacto de cumplicidade [informal] pelo qual o empregador formaliza apenas quanto há presença do auditor fiscal. É que se, por um lado, o sistema de metas estimula o auditor à fiscalização, com remuneração variável na medida dos resultados que apresenta, por outro o empregador, ciente de que tais “resultados” precisam ser apresentados pelo auditor e sabedor, ao mesmo tempo, de que o risco de ser multado é pequeno, poderá estar sendo estimulado a manter trabalhadores sem registro, ficando à espera da ação fiscal regularizadora. Assim, instala-se um círculo vicioso que desvirtua a própria natureza da fiscalização. Visando a superar esse problema, a multa progressiva pela reincidência poderá tornar mais eficaz a ação do auditor fiscal, importando pressão mais efetiva sobre o empregador no sentido de coibir a fraude como estratégia de competitividade e/ou aumento de sua lucratividade. Também é importante considerar que a mensuração da contribuição da ação fiscal para a formalização não é muito simples. Por um lado, tem-se o efeito demonstração, ou seja, a visita dos auditores fiscais em um município ou segmento econômico pode levar muitos empresários a registrarem os empregados para escaparem da multa. Por outro lado, nada garante a permanência no emprego do formalizado pela ação do auditor fiscal. A tabela 2, a seguir, mostra que a fiscalização ainda está concentrada no meio urbano, apesar de um incremento no campo, nos últimos anos. Em números absolutos, há uma queda 60 mil estabelecimentos fiscalizados na área urbana, com crescimento de quase nove mil no setor agrícola. Já na tabela 3, que também segue, observa-se que o número de trabalhadores formalizados por ação fiscal foi expressivo na área agrícola, crescendo 656,66%. Esses números refletem incentivos à fiscalização rural, sendo o programa rural meta institucional obrigatória do MTE. TABELA 2 – BRASIL: NÚMERO DE FISCALIZAÇÕES COM ATRIBUTO DE LEGISLAÇÃO TRABALHISTA DE ACORDO COM A MODALIDADE. 1996 % 1997 % 2005 % 2006 % 400.19 98,87 361.70 97,94 357.94 95,43 339.47 95,01 URBANA 7 % 8 % 0 % 9 % RURAL 4.515 1,12% 7.437 2,01% 12.192 3,25% 13.326 3,73% MARITI MA 43 0,01% 170 0,05% 4.965 1,32% 4.514 1,26% 404.75 369.31 375.09 357.31 TOTAL 5 5 7 9 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego 15 TABELA 3 – NÚMERO DE TRABALHADORES REGISTRADO PELO MINISTÉRIO DO TRABALHO. [Brasil] 1996 2006 TOTA Cresciment ATIVIDADE L % TOTAL % o AGRICULTURA 16.782 6,25% 110.164 16,44% 656,44% INDÚSTRIA 65.468 24,38% 143.960 21,49% 219,89% COMÉRCIO 87.994 32,77% 128.375 19,16% 145,89% CONSTRUCÃO 27.593 10,27% 88.410 13,19% 320,41% HOTEIS/RESTAURANTE S 22.455 8,36% 29.556 4,41% 131,62% TRANSPORTES 6.262 2,33% 26.920 4,02% 429,89% FINANCEIRAS 916 0,34% 7.475 1,12% 816,05% SERVICOS 27.988 10,42% 104.754 15,63% 374,28% EDUCACÃO 6.949 2,59% 14.177 2,12% 204,01% SAÚDE 5.867 2,18% 14.446 2,16% 246,22% OUTROS 284 0,11% 1.798 0,27% 633,10% 268.55 TOTAL 8 100,00% 670.035 100,00% 249,49% Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Quando analisadas as multas feitas pela Auditoria Fiscal do Trabalho em 2006, vê-se que o comércio representou 29% das autuações pela manutenção de trabalhadores sem registro, seguido da indústria [17%] e da construção civil [12%]. No meio urbano, as atividades de construção civil, comércio e serviços que, juntas, representam 39% das autuações da fiscalização, confirmam os altos índices de informalidade que historicamente marcam estes setores, apontando o direcionamento correto da fiscalização do trabalho nos últimos anos. Veja-se o Gráfico 06, a seguir: GRAFICO 6 – AUTUAÇÕES NAS FISCALIZAÇÕES: REGISTRO [2006]. 16 4% 3% 0% 9% A GRICULTURA 12% INDUSTRIA 3% 17% COM ERCIO 4% CONSTRUCA O HOTEIS/REST. TRA NSP ORTES FINA NCEIRA SERVICOS 9% EDUCA CA O SA UDE 10% 29% OUTROS Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Entre 1996 e 2006, os dados demonstram crescimento de trabalhadores com vínculos regularizados a partir da fiscalização do trabalho em todos os segmentos econômicos, reforçando a tese de que as mudanças no sistema de fiscalização possam ter contribuído para os dados mais gerais de crescimento da formalização dos contratos de trabalho. Ressalta-se que esse incremento pela ação da Auditoria Fiscal se dá a despeito da precariedade de sua estrutura operacional, das dificuldades orçamentárias das seções de fiscalização e da deficiência do número de Auditores Fiscais do Trabalho em diversas regiões. Conforme Gráfico 7, houve redução de 33% entre 1990 e 2003. A deficiência no quadro de auditores fiscais leva muitos empregadores a apostar na ausência da ação fiscal, já que o risco de ser flagrado no ato ilícito é pequeno, especialmente em atividades sazonais. GRÁFICO 7 – EVOLUÇÃO DE NÚMERO DE AUDITORES FISCAIS NO BRASIL. 3.500 3.285 2.948 3.000 2.774 2.531 2.589 2.470 2.406 2.356 2.398 2.420 2.371 2.500 2.194 2.139 1.960 2.000 1.500 1.000 500 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 Fonte: CARDOSO [2007] Além dos fatores acima apontados [condições de trabalho e número limitado de auditores fiscais], há problema do valor reduzido das multas. Por exemplo, a autuação por falta 17 de registro do empregado é de R$ 402,5347 [quatrocentos e dois reais e cinqüenta e três centavos] por trabalhador, dobrada na reincidência. Em muitos casos, esse valor baixo incentiva que empregadores mantenham trabalhadores sem registro, arcando, em último caso, com o pagamento de multa quando ocorre a fiscalização. Entretanto, apesar das dificuldades encontradas pela Auditoria Fiscal do Trabalho, os dados mostram algum avanço no combate à informalidade e às relações de emprego disfarçadas. Assim, a regularização dos contratos por meio da ação fiscal tem reflexos positivos nos recolhimentos ao FGTS, nas fontes de financiamento das políticas sociais e nas contribuições previdenciárias. Nas considerações finais serão enunciadas algumas propostas que, se implementadas, poderão contribuir para que a ação fiscalizadora se amplie e se torne mais eficaz. 3.3. Ministério Público do Trabalho Uma das principais novidades no sistema de vigilância e proteção dos direitos trabalhistas foi a redefinição do papel do Ministério Público do Trabalho [MPT], edificada na Constituição de 1988 e consagrada com o Estatuto e a Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, ao torná-lo instituição essencial à função jurisdicional do Estado, com caráter permanente, autônomo e independente. Essa instituição aparece como ator fundamental na defesa dos interesses sociais, tendo como finalidade defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis. Não subordinado a qualquer outro poder ou instituição da República, é um “extra-poder” com incumbência de fiscalizar o cumprimento das leis. Nesse processo, a instituição viu, também, ampliada sua competência, passando a ser, ao mesmo tempo, um órgão interveniente48 e agente, imbuído do papel de defensor da sociedade na proteção dos interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos. Além disso, pode atuar como árbitro ou mediador na solução dos conflitos coletivos de trabalho. A atuação do MPT concentra-se basicamente nas questões que envolvem coletivos de trabalhadores com reflexos nas relações sociais. Seus membros [procuradores] têm a liberdade de tomar iniciativas de investigação – para apurar denúncias – e de encaminhamento judicial49 de qualquer questão que importe descumprimento da legislação social e que afete um coletivo de trabalhadores ou a sociedade. O desencadeamento de ações pode ocorrer a partir de uma notícia nos meios de comunicação, de uma denúncia [individual ou coletiva], por solicitação de uma diligência da Justiça do Trabalho, ou, ainda, por acompanhamento de processo individual que tem um problema afetando um coletivo maior de pessoas. Ou seja, o espaço de iniciativa de intervenção sobre as lesões ao direito é muito grande. Assim, o ponto fundamental é que o membro do MPT tem autonomia administrativa e funcional para desenvolver o seu trabalho. A autonomia e a independência fazem com que cada procuradoria seja um órgão público próprio, com poderes para desencadear um número considerável de ações. Por um lado, é possível perceber que alguns dos temas, considerados prioritários e colocados como metas institucionais, oferecem certa perspectiva mais nacional para a instituição, tais como: 47 Valor correspondente ao ano de 2007. 48 O Ministério Público do Trabalho tem assento nas sessões de julgamento dos Tribunais do Trabalho, em certos casos tem a incumbência de emitir pareceres em causas em andamento, com destaque à atuação que desempenham no âmbito do exercício do Poder Normativo. 49 O MPT tem legitimidade de ajuizar processos visando, por exemplo, à declaração de nulidade de cláusulas abusivas ou ilegais em acordos ou convenções coletivas de trabalho, pode propor ações civis públicas na defesa de interesses difusos e individuais homogêneos, interpor recursos, firmar ermos de compromisso de ajustamento de conduta, realizar inspeções e promover conciliações. . 18 erradicação do trabalho infantil; combate ao trabalho forçado, às formas de discriminação, às cooperativas fraudulentas e à terceirização; garantia dos direitos fundamentais do trabalho, especialmente a formalização; inserção de pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho; e observância das normas de segurança e medicina do trabalho. Essas são tendências que buscam dar certa identidade, mas as ações concretas dependem de um engajamento individual dos procuradores. Apesar de ser um órgão estatal com imensa liberdade de ação, ressaltando-se o respeito ao arcabouço jurídico-institucional brasileiro, está sujeito às influências políticas e ao contexto, pois as leis estão condicionadas a interpretações e as prioridades são objeto de definição considerando as relações sociais. Nesse sentido, há muitas experiências distintas, permeadas pelas concepções do procurador e da sua interação com os agentes sociais. Trata-se de instituição que conquista espaços na sociedade brasileira, apesar de, em relação a outros órgãos na área da proteção e vigilância dos direitos trabalhistas, ainda ser incipiente do ponto de vista material [orçamento e pessoal]. O trabalho de muitos procuradores, articulado, muitas vezes, com o Judiciário e com agentes sociais [sindicatos, ONGs etc], tem apresentado resultados positivos na inibição de práticas fraudulentas. Por exemplo, a Procuradoria da 15ª Região teve um papel de destaque, junto com os sindicatos de assalariados rurais, pesquisadores e membros do judiciário trabalhista, no combate às cooperativas fraudulentas, as “coopergatos”, e no avanço da formalização do emprego no segmento da cana e da laranja, no interior do estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, por exemplo, nos anos 1990, por meio de sua Procuradoria Regional, o Ministério Público do Trabalho ajuizou Ação Civil Pública buscando impedir as terceirizações que estavam sendo introduzidas pela empresa Riocell/SA [hoje Aracruz], com êxito nos primeiro e segundo graus de jurisdição. Como é uma instituição com alto grau de autonomia na atuação de seus membros, outros procuradores concentram seus esforços em encontrar maneiras de fragilizar os sindicatos, especialmente por meio da construção de uma leitura de que o financiamento sindical poderia advir somente dos sócios. Por ter sido criado recentemente, dentro da lógica de fortalecer a regulação pública do trabalho, o MPT enfrenta a reação concentrada no excessivo poder dos procuradores, aos quais é facultado investigar, analisar e julgar ao mesmo tempo. São reações isoladas, que não têm se traduzido, na área do trabalho, em reformas substantivas.50 Ao mesmo tempo, na perspectiva de inibir o trabalho dos procuradores, auditores fiscais e juizes, outras reações se impõem como intimidação pela ameaça, agressão e até assassinato. Em síntese, o MPT é uma instituição pública que teve ampliada a sua competência na Constituição de 1988 e exerce um importante papel na vigilância do cumprimento da legislação social, sendo uma força, na maioria dos casos, de resistência ao processo de flexibilização do direito do trabalho. 4. Considerações finais Ainda que se tenha como suposto para a estruturação do mercado de trabalho o crescimento econômico, demonstra-se que o arcabouço jurídico-institucional brasileiro tem contribuído no combate às formas mais destrutivas de exploração da força de trabalho e no incremento da formalidade. Assim, sem deixar de reconhecer a relevância de outras políticas públicas que favoreçam a inclusão de todos à proteção social, no plano da institucionalidade na área do 50 A discussão sobre o poder dos procuradores é mais forte na área política, que não é objeto de nossa investigação. 19 trabalho, conclui-se que, uma vez aprimorados os mecanismos de fiscalização e mais bem estruturadas as instituições públicas com incumbência de dizer o direito e/ou fiscalizar sua aplicação, o próprio perfil do mercado de trabalho tenderá a apresentar resultados mais positivos, no caminho de uma sociedade mais homogênea.51 Numa sociedade de notória heterogeneidade estrutural do mercado de trabalho, dar ênfase ao papel do Estado é fundamental. Essa constatação, por evidente, não afasta a defesa da importância de uma sociedade em que os “de baixo” tenham vez e voz e de um sindicalismo efetivamente representativo, com força para conquistar patamares mais elevados de regulação social do trabalho. Trata-se, por certo, uma das grandes tarefas política do nosso tempo, que contempla a constituição de um modelo de desenvolvimento que distribua renda e dignifique os cidadãos brasileiros. Referências Bibliográficas ANTUNES, R. [org.]. Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006. BALTAR, P. Texto OIT, 2007 BALTAR, et alli, 2009 BALTAR, P., MORETTO, A, KREIN, J D. O emprego formal no Brasil: início do século XXI. In: KREIN, José Dari et alli. Transformações no mundo do trabalho e o direito dos trabalhadores. São Paulo: LTr, 2006; BIAVASCHI, M. O Direito do Trabalho no Brasil -1930-1942: a construção dos sujeitos de direitos trabalhistas. São Paulo: LTr, 2007 BRAGA, José Carlos. Financeirização global. In: TAVARES, Maria Conceição & FIORI, José Luís. Poder e dinheiro, Luís. Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1997. CARDOSO, A. M. ; LAGE, Telma . A Inspeção do Trabalho no Brasil. 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Palavras-chave: cooperação, capital, trabalho, modelos de produção. Seção Temática: 5- Reconfiguração do trabalho e realocação espacial Montes Claros/MG Junho de 2007 2 A cooperação na produção capitalista: da cooperação simples aos novos modelos de gestão da força de trabalho Introdução A cooperação dos trabalhadores no processo de trabalho é imprescindível. Segundo uma série de pesquisadores em processo e organização do trabalho, tais como Hirata (1994) e Leite (1994), a denominada acumulação flexível demanda, dentre inúmeras outras exigências, um trabalhador participativo, que coopera com seus colegas no processo produtivo, “que veste a camisa da empresa”. Segundo eles, a necessidade de cooperação dos trabalhadores no processo produtivo, é uma característica inovadora do novo modelo denominado acumulação flexível. Essas exigências de cooperação estão reduzindo a capacidade de mobilização dos trabalhadores na luta pela garantia de seus interesses, argumentam alguns cientistas sociais. Portanto, a produção flexível exige um trabalhador mais comprometido com a produção, portanto, menos mobilizado. Esse argumento que em princípio parece não merecer contestação, contém uma lacuna fundamental. Ou seja, fala-se tanto em necessidade de cooperação nos novos modelos de gestão que passamos a indagar se seria possível conceber um processo de produção de mercadorias sem a cooperação dos trabalhadores. A cooperação na relação entre capital e trabalho não é necessariamente espontânea, ela pode ser conseguida até mesmo através do despotismo, como veremos. Entendemos, de acordo com Marx em O Capital, que a cooperação é um dos pressupostos para a produção capitalista. São as formas de cooperação e os meios utilizados pelo capital para conseguí-la que variam de acordo com a história. Tentaremos aqui apresentar sinteticamente como as formas de cooperação ao longo do capitalismo, foram se transformado e como elas são imprescindíveis para a existência do mesmo. A cooperação na produção de mercadorias O conceito de cooperação é de fundamental importância no processo de produção, segundo Marx. Ele tem suas raízes na concepção do homem enquanto um ser social, retomada de Aristóteles. A forma genuína de relação social acontece na busca da própria sobrevivência humana, em primeira instância, essa relação acontece mediada pelo trabalho. O trabalho tem, portanto, um caráter eminentemente social. Para a efetivação do próprio trabalho, que é um meio de autoconstrução humana, faz- se necessária a existência da cooperação, pois os homens não agem isoladamente na transformação da natureza. Desde a obra A Ideologia Alemã (MARX, 1989), o autor já havia formulado o conceito de cooperação em sentido amplo. Até aquele momento, a cooperação era entendida como uma força humana emanada da associação de várias pessoas, uma força coletiva surgida da associação de esforços individuais. A cooperação seria uma alternativa usada pela humanidade na tentativa de melhor conseguir a realização de seus objetivos. Esta marcaria o desenvolvimento da espécie humana. Segundo o autor: Em todos os casos, a produtividade específica da jornada de trabalho coletiva é a força produtiva social do trabalho ou a força produtiva do trabalho social. Ela tem sua origem na própria cooperação. Ao cooperar com outros de acordo com um plano, desfaz-se o trabalhador dos limites de sua 3 individualidade e desenvolve a capacidade de sua espécie (MARX, 1883, p.378). A cooperação não seria específica de um modo de produção ou mesmo de um momento histórico determinado da humanidade. De forma simplificada sua função seria possibilitar a criação de uma capacidade coletiva, a qual seria maior que a soma das capacidades individuais. A cooperação é o meio para se garantir a realização de objetivos propostos como resultado do trabalho coletivo. Ao se sair do âmbito individual para o coletivo, coloca-se a necessidade de uma função diretiva, que garanta a cooperação. A cooperação constrói uma relação de dependência entre os indivíduos cooperantes. Essa dependência varia de acordo com os objetivos propostos e os meios para consegui-la. Em O Capital, MARX (1983), restringe o conceito de cooperação ao local de trabalho no sistema capitalista. Faz uso de duas condições para dar sustentação à defesa da cooperação no espaço da produção: a presença simultânea dos cooperantes no mesmo espaço e a realização conjunta, integrada e recíproca de operações na produção (PALMA, 1972). A cooperação, no capitalismo, adquire características específicas devido a dupla natureza do processo de trabalho neste modo de produção. Ele é, ao mesmo tempo, processo de trabalho social para produzir valores de uso e valores de troca. Esta situação introduz um conflito inerente à relação entre capital/trabalho e a conseqüente necessidade da direção da cooperação para se alcançar o objetivo principal dos capitalistas, que é a produção de mais- valia. Segundo o próprio Marx: A transformação que torna cooperativo o processo de trabalho é a primeira que esse processo experimenta realmente ao subordinar-se ao capital. Essa transformação se opera naturalmente. Seu pressuposto, emprego simultâneo de numerosos assalariados no mesmo processo de trabalho, constitui o ponto de partida da produção capitalista (MARX, 1983, p.384). O conceito em pauta não se restringe ao momento inaugural do capitalismo, onde prevalece a cooperação simples. Ele, às vezes, é entendido por Marx como sinônimo de divisão social do trabalho, ou seja, está presente em todas as formas de organização do processo do trabalho. Os períodos da Manufatura e da Maquinofatura apresentam situações complexas, em que a cooperação também se coloca como essencial: A cooperação é a forma fundamental do modo de produção capitalista. Na sua feição simples constitui o germe de espécies mais desenvolvidas de cooperação, e continua a existir ao lado delas (MARX, 1983, p.385). Mesmo as espécies mais desenvolvidas não podem abrir mão da relação social inerente ao trabalho. Trabalho cooperativo significa, então, trabalho realizado por mais de uma pessoa onde estas cooperam entre si na busca de objetivos previamente planejados. Em vista do exposto, o conceito de cooperação é um instrumento valioso para o estudo do desenvolvimento das relações entre capital e trabalho no chão da fábrica. Formas diferentes de se garantir a cooperação necessária para a produção de mercadorias no processo de trabalho, podem resultar em conseqüências importantes nas relações de produção. Entendemos a cooperação do trabalhador como componente fundamental para a produção de mercadorias. Cooperar no processo de trabalho é, além de aceitar, seguir os objetivos propostos pelo capital sem resistências que inviabilizem a produção de mercadorias. Não é possível eliminar totalmente as resistências dos trabalhadores no processo produtivo, 4 no entanto, sem uma certa cooperação dos mesmos a produção torna-se praticamente impossível. A forma para se conseguir a cooperação pode se diferenciar dada a ocorrência de muitas variáveis. Por exemplo, no início do Capitalismo o proprietário de oficina necessitava da cooperação dos trabalhadores, os quais não tinham suas funções divididas. Com a separação entre concepção e execução, o problema da cooperação torna-se complexo, pois ela tem que ser conseguida, agora, tanto no segmento dos administradores como no dos operadores. Este último é o maior foco de resistência às propostas de reestruturação produtiva. Historicamente, o processo de produção de mercadorias foi dividido por Marx em Cooperação Simples, Manufatura e Maquinaria ou Indústria. O processo de produção industrial sofreu transformações tecnológicas importantes como o advento da energia elétrica, mas, ele passou pela primeira transformação fundamental com o advento do Taylorismo na passagem do século XIX para o século XX. Hoje especula-se sobre uma recente transformação também fundamental, que seria o surgimento da Produção Flexível. Quais seriam então as formas de cooperação predominantes em cada uma dessas etapas? A cooperação é inerente a produção de mercadorias? A necessidade da cooperação consiste em uma nova variável que compõe um conjunto de características do novo modelo, ou seja, a produção flexível? A cooperação simples e o domínio do trabalhador sobre seu trabalho A forma capitalista de produção inicia-se, de forma em nada inovadora, com a cooperação no processo de trabalho. As diferenças básicas em relação ao trabalho artesanal eram: o aumento numérico de pessoas em um mesmo espaço físico e a coordenação do patrão. Isso na perspectiva do processo de trabalho em si. A presença da coordenação do patrão já traz consigo uma perda de autonomia do trabalhador com relação à sua situação de artesão ou mesmo camponês. A jornada de trabalho dos dois últimos era regulada pelas suas necessidades, perpassadas por todo um aparato cultural. Na forma capitalista de produção, o trabalhador passa a ter sua jornada imposta pelos proprietários de oficinas. Dizimadas as necessidades balizadas pela cultura, surge a necessidade de uma cooperação dirigida pelos objetivos propostos. Como eles são elaborados pelo capitalista, sem a participação dos trabalhadores, esses últimos se vêem alienados do processo. Vários trabalhadores em um mesmo espaço, sob a coordenação de um mesmo capitalista e realizando operações integradas na produção de mercadorias, são essas as condições que ilustram a condição social do trabalho no capitalismo nascente. Essas condições estão presentes em toda a produção capitalista, independentemente do nível de tecnologia empregado, o que caracteriza também a persistência da cooperação. A cooperação no trabalho garante a integração e a estabilidade em busca dos objetivos propostos. Tais objetivos, que são os do capital, definem a condição de subordinação dos trabalhadores aos interesses do capital. A direção e controle do processo de produção são uma necessidade intrínseca para a produção de mais-valia. A mesma cooperação, que é imprescindível para a produção de mais-valia para o capital, é condição de subordinação dos trabalhadores. Na cooperação simples, os instrumentos para garantir que a força de trabalho contratada produzisse mais-valia eram bastante rudimentares em comparação com a fábrica. As primeiras oficinas eram apenas um local de trabalho pouco diferente do espaço doméstico. As técnicas de produção e o processo em si tinham sofrido poucas mudanças. Aumentar a taxa de mais-valia significava levar os trabalhadores a produzirem em maior proporção. O capital viu-se, naquele momento, impossibilitado de expandir a produção 5 por meios que não o aumento numérico de trabalhadores. O domínio completo da produção em si, em mãos do trabalhador, não possibilitava outra alternativa. A manufatura surgiu, então, como uma solução para esse problema. A manufatura e a perda do monopólio do "saber fazer" do trabalhador A manufatura, para Marx, corresponde a um tipo de cooperação baseada na divisão do trabalho. Foi a forma predominante da produção capitalista de meados do século XVI até aproximadamente finais do século XVIII. Ela tanto pode surgir da divisão do trabalho com vistas a aperfeiçoar um processo anterior, ou do agrupamento de funções separadas para também aperfeiçoar o processo. A divisão do trabalho na manufatura levou o trabalhador a realizar uma única operação, automatizando seus movimentos como forma de garantir maior dispêndio de força de trabalho em um determinado espaço de tempo. Ou seja, a divisão do trabalho intensificou, sobremaneira, o trabalho para aumentar a expropriação de mais-valia e a conseqüente valorização do capital. Foi um recurso para a intensificação do trabalho. A divisão do trabalho significou, ainda, uma relativa perda de controle do trabalhador sobre o “como fazer”. Embora precária, a imposição de novos ritmos de trabalho foi um recurso muito utilizado naquele momento. Além disso, a divisão do trabalho levou ao aperfeiçoamento das ferramentas em função das necessidades dos trabalhadores parciais. Esse fato significou, segundo Marx, o germe da maquinaria. Foi do aperfeiçoamento dessas ferramentas que brotaram as primeiras máquinas, denominadas, então, máquinas ferramentas. O princípio básico da manufatura assenta, por conseguinte, na divisão do trabalho. Ela decompõe e recompõe o processo de trabalho, criando uma lógica própria que busca a uniformização, regularidade e continuidade de funções. Isso significa uma intensidade de trabalho que supera a cooperação simples. Os ritmos da produção já não dependiam exclusivamente da vontade individual do operário. Ao fracionar o trabalho, a manufatura passou a se basear essencialmente no trabalho coletivo, o qual era constituído de muitos trabalhadores parciais. Esse trabalho coletivo necessitou de uma hierarquia, disciplina e uma nova forma de se garantir a cooperação no trabalho. Em conseqüência, ocorreu uma especialização dos trabalhadores em funções limitadas, as quais só adquirem sentido no trabalho coletivo. Assim, os trabalhadores tornaram-se completamente dependentes do trabalho coletivo, o que significa sua condição de alienação. O trabalho cooperativo tornou-se uma condição necessária para o capital, mas acentuou a alienação dos trabalhadores. A seguinte passagem de Marx ilustra essa situação: Originariamente, o trabalhador vendia sua força de trabalho ao capital por lhe faltarem os meios materiais para produzir uma mercadoria. Agora, sua força individual de trabalho não funciona se não estiver vendida ao capital (MARX, 1983, p.413). A manufatura produz uma força produtiva social do trabalho inédita na História. Ela fraciona o trabalho artesanal, adapta as ferramentas às novas funções, destrói os artesãos ao construir o trabalhador parcial, e os agrupam em um mecanismo unificado e direcionado pelo capital. O trabalhador se transforma em uma peça que terá sua razão de ser apenas em função da organização produtiva denominada manufatura. Nesse período, a indisciplina foi a mais importante forma de resistência dos trabalhadores, pois a dimensão da função manual, como reguladora da produção, mesmo com o aparato técnico/organizacional da manufatura, era ainda um empecilho para o domínio completo do capital sobre o processo de trabalho. 6 E, o despotismo era a garantia última de manutenção da cooperação nessas novas bases. A manufatura foi a forma de intensificação do trabalho que atuou, fundamentalmente, na variável força de trabalho. Foi uma reestruturação produtiva que objetivava, principalmente, quebrar o monopólio do saber operário, remanescente direto do artesão. Dessa forma, suprimindo o saber do trabalhador e rompendo de forma despótica com as resistências operárias, garantia-se a cooperação imprescindível para a produção. A indústria moderna e a cooperação Enquanto se revolucionou a produção através da força de trabalho na manufatura, na indústria essa revolução aconteceu via instrumentos de trabalho. Passou-se da ferramenta manual para a máquina. Para Marx, a diferença crucial entre as ferramentas e as máquinas está no rompimento da barreira orgânica que o corpo humano oferecia para a expansão da intensidade e da força humana, na produção. A máquina substituiu o trabalhador manejando muitas ferramentas ao mesmo tempo, e com muito mais rapidez e eficiência. Ela possibilitou ao capitalista libertar-se dos limites de capacidade orgânica do corpo humano. O "saber fazer" adquirido pela rotina do trabalho foi substituído pela aplicação da ciência no processo de produção. Não é mais o ofício que se adequa ao trabalhador e sim o trabalhador que é obrigado a se adequar ao ofício. Essa tentativa de objetivar completamente o processo de produção é uma constante na história do processo de trabalho desde então, seja com Taylor ou mesmo com a normatização da ISO1. Dessa forma, o trabalhador individualizado foi aos poucos cedendo espaço para o trabalhador coletivizado. Tanto na Cooperação Simples como na Manufatura, o trabalhador coletivizado não representava ainda uma necessidade técnica. O trabalho coletivo passou a ser uma exigência insubstituível com o advento da indústria. Para Marx, “O caráter cooperativo do processo de trabalho torna-se uma necessidade técnica imposta pela natureza do próprio instrumental de trabalho” (MARX , 1983, p.440). Diante da presença da máquina, na perspectiva assinalada, a fábrica torna o trabalhador totalmente dependente do capital. Trabalhar passa a significar submeter-se, nos mínimos detalhes, aos desígnios das decisões, também técnicas, da ciência incorporada às máquinas. Os últimos trunfos do "saber fazer" são retirados dos trabalhadores, pela indústria. A dependência econômica se aprofunda com a dependência técnica. O operário se vê destituído do seu conhecimento, da sua habilidade, garantidora de seu status no trabalho cooperativo. A negligência dos administradores em relação à subjetividade operária tem, aqui, o seu embrião. Imaginavam que seria possível destituir o operário de toda a sua subjetividade e usá- lo apenas como força física, no espaço fabril. Mas a Escola de Relações Humanas irá demonstrar, um século depois, que a condição subjetiva não poderá ser suprimida, completamente, do processo de trabalho. Até a prevalência do trabalho manufaturado, o domínio da técnica era uma reserva de poder dos trabalhadores diante de seus patrões. Com a máquina, a ciência rompe com essa barreira e os coloca indefesos diante da voracidade do capital. Enquanto as ferramentas serviram ao trabalhador na Cooperação Simples e na Manufatura, na indústria o trabalhador passa a servir a máquina. A cooperação passa a ser monitorada prática e completamente pelos proprietários de indústrias. Além de traçar as metas e usufruir do resultado, os patrões começaram a controlar todo o processo de produção das mercadorias. 1 A ISO (International standard Organization) é uma norma internacional que objetiva garantir a qualidade de produtos e serviços, servindo como pré-requisito para aceitação das empresas no mercado. 7 Ao destituir o saber dos trabalhadores, o capital teve que buscar pessoas para planejar, supervisionar, ensinar, enfim, controlar todo o processo de produção, a nova forma de trabalho cooperativo. Nascia, aqui, a categoria dos gestores, atualmente defendida até mesmo como uma classe social (BRUNO, 1986). A cooperação no trabalho fabril teve, a partir de então, que levar em consideração os gestores, ou administradores do processo de trabalho. A cooperação no trabalho industrial se complexificou intensamente. A cooperação ultrapassou as relações de espacialidade e contemporaneidade entre os trabalhadores, as quais vigoravam na cooperação simples. As máquinas são trabalho morto, portanto, os trabalhadores que as produziram e os que as utilizam como instrumentos trabalham em cooperação. Mas essa, assim como outras características do trabalho capitalista, as quais ultrapassam a dimensão da organização do processo de trabalho em si, não são pertinentes para o nosso trabalho no momento. A cooperação simples sofreu enormes modificações com o desenvolvimento das forças produtivas que culminaram com o advento da indústria. Romperam-se os laços de espacialidade e temporalidade como pressupostos para a cooperação. Mulheres e crianças foram arrastadas para dentro da fábrica. Aumentou-se a jornada de trabalho, reduziram-se os salários e intensificou-se o trabalho. Apesar disso, os trabalhadores foram aos poucos se organizando até a exacerbação de suas resistências atrapalhar o andamento da produção. A intervenção do Estado não foi suficiente para garantir as condições anteriores de produção. Fizeram-se necessárias mudanças nas formas de se garantir a cooperação necessária para a produção de mercadorias tendo em vista as mudanças no processo de trabalho. Como resposta, os patrões aumentaram o controle através de seus capatazes. O despotismo deixou de ser uma eventualidade para ser uma regra no trabalho fabril. A punição, como forma de garantir as condições de cooperação, em outras palavras, a disciplina, não raramente se transformava em violência física contra as crianças (HUBERMAN, 1986). Nos primórdios da industrialização, os trabalhadores eram levados a produzir através do despotismo, respaldado muitas vezes pelas legislações das nações em processo de industrialização. O taylorismo e a cooperação O taylorismo é entendido como uma forma de organização da produção, também denominada, administração científica. Ele possuiu praticamente um século de presença hegemônica, no setor produtivo ocidental e tem como marca fundamental a tentativa de controle dos trabalhadores através da objetivação de tempos e movimentos. Apesar do discurso de neutralidade, de cientificidade, o método de Taylor (1980) proporcionou uma enorme intensificação do trabalho nas indústrias da época, chegando ao ponto de governos de alguns países terem de intervir para controlar minimamente o grau de sofrimento ao qual foram submetidos os trabalhadores. Mesmo sendo considerado o modelo essencialmente objetivo de organização do trabalho, o taylorismo tinha como um de seus princípios a cooperação dos trabalhadores, a qual segundo Taylor, deveria ser conseguida, a princípio, mediante relativos incentivos salariais. Mas o autor também afirma ser necessário usar outras fórmulas como a manipulação da subjetividade do trabalhador, a ameaça ou mesmo o despotismo, mas somente em situações especiais. Para efeito de explicação de seu método, Taylor elaborou quatro princípios da administração científica, os quais perpassaram todo o corpo de sua proposta. São eles: Primeiro – Desenvolver para cada elemento do trabalho individual uma ciência que substitua os métodos empíricos. 8 Segundo – Selecionar cientificamente, depois treinar, ensinar e aperfeiçoar o trabalhador. No passado ele escolhia seu próprio trabalho e treinava a si mesmo como podia. Terceiro – Cooperar cordialmente com os trabalhadores para articular todo trabalho com os princípios da ciência que foi desenvolvida. Quarto – Manter divisão eqüitativa de trabalho e de responsabilidades entre a direção e o operário. A direção incumbe-se de todas as atribuições, para as quais esteja mais bem aparelhada do que o trabalhador, ao passo que no passado quase todo o trabalho e a maior parte das responsabilidades pesavam sobre o operário (TAYLOR,1979, p.49-50). O Terceiro princípio, a cooperação mútua entre direção e trabalhadores, é considerado pelo autor como imprescindível para implantação do seu método. Sem a cooperação seria impossível a implantação do mesmo. Cooperar para Taylor significava seguir detalhadamente todas as ordens da direção no processo de trabalho. A especialização flexível e a cooperação Ao final dos anos 60, evidenciaram-se os limites sociais e técnicos do fordismo, esboçando-se seu gradual declínio. Corrêa (1997) observa que diversos fatores, inerentes ao próprio fordismo e aos limites técnicos da denominada Organização Científica do Trabalho, afetaram duramente a lucratividade das empresas. Esses fatores impediram a maior valorização do capital baseado no aumento da produtividade. Outros fatores como o choque do petróleo e o aumento das taxas de juros em meados dos anos 70 provocaram novas quedas no índice de produtividade, o que gerou, também, decréscimo nos investimentos e aumento dos índices de desemprego. Na tentativa de manter ou elevar as taxas de lucratividade, foram forjadas alternativas como mudanças na organização do processo de trabalho e introdução de tecnologia microeletrônica, visando atender às exigências de um mercado cada vez mais instável e competitivo. Faz parte dessa gama de iniciativas a tentativa de ampliar e aprofundar o controle dos trabalhadores no que diz respeito à organização do processo de trabalho e a flexibilização da produção, através da tecnologia microeletrônica. As novas tecnologias informatizadas se mostraram eficientes, pois possibilitam às estruturas de produção uma capacidade adaptativa que se tornou fundamental em um contexto de mercado altamente competitivo. As máquinas com base microeletrônica são programáveis, podem ser utilizadas na produção em serie ou na produção de pequenos e médios lotes, permitindo adaptações rápidas às flutuações do mercado. Além disso, esses equipamentos permitem a redução dos tempos de produção – ritmo maior do que as máquinas eletromecânicas – e uma maior integração do processo produtivo, o que permite uma redução do tempo total de produção das mercadorias, aumentando os ganhos de produtividade. Segundo a autora, a “inovação tecnológica está relacionada a novas tendências de organização do processo de trabalho e a um conjunto de modificações sociais e econômicas” (CORRÊA,1997,p.204). Essas inovações se traduzem em modificações não só nas empresas, mas na economia como um todo: no mercado, nas formas de intervenção do Estado, modificações nas regras de negociação coletiva e nas políticas econômicas. Apontam para um novo modelo de desenvolvimento, sustentado por um novo regime de acumulação. A partir dos anos 80, uma nova lógica de utilização da força de trabalho ganhou destaque devido ao desenvolvimento de novas formas de organização do trabalho. Segundo Hirata (1994), foram conceptualizadas, por economistas e por sociólogos, novas formas de organização e desenvolvimento industrial, como o modelo de especialização flexível. 9 De acordo com a autora, o incremento das inovações tecnológicas e organizacionais, a descentralização e a abertura ao mercado internacional, são marcas da especialização flexível. Neste modelo a produção é marcada pela fábrica flexível. A flexibilidade tem como conseqüência o retorno a um trabalho de tipo artesanal, mais qualificado e uma relação cooperativa entre a management (gerência) e os operários, agora multifuncionais 2. Um novo paradigma da produção industrial alternativo ao taylorismo/fordismo é representado pelo modelo empresarial japonês. Hirata observa as características da empresa japonesa. Segundo a autora o trabalho cooperativo, a não demarcação das tarefas a partir dos postos de trabalho, com a valorização da polivalência3 e rotação das tarefas de fabricação, manutenção, controle de qualidade e de gestão da produção, marcam um novo paradigma e sua ruptura com o precedente. O trabalhador japonês, além de ser polivalente e multifucional, necessita de uma visão de conjunto do processo de trabalho do qual faz parte, para ter capacidade/competência de resolver problemas concretos que surgem cotidianamente no processo de trabalho. De acordo com Leite (1994), o modelo japonês utiliza técnicas e métodos como o just-in-time, Kanbam, sistemas participativos, Círculos de Controle de Qualidade (CCQ) e outros. Sobre os programas participativos, ou de envolvimento dos trabalhadores, a autora destaca o CCQ. Este é apontado como parte integrante do just-in-time, pois, no Japão, eles nasceram no mesmo contexto. Além dos objetivos técnicos relacionados à melhoria da qualidade dos produtos e à redução dos custos, o objetivo ideológico de envolvimento dos trabalhadores com as metas da empresa e a criação de uma identidade entre a direção e os operários, são componentes essenciais do CCQ. Nesse sentido, os círculos podem se entendidos como complementos importantes do sistema just-in-time, na medida em que este último torna as empresas mais vulneráveis face à organização e mobilização dos trabalhadores, ao reduzir significativamente seus estoques; tornando-as, assim, mais dependentes da colaboração/cooperação do coletivo de trabalhadores. Vale ressaltar que o modelo japonês, assim como o taylorismo/fordismo, são processos complexos e, portanto, suscetíveis a modificações significativas, de acordo com as condições objetivas no contexto de implantação. Atualmente, no Brasil, coexistem o taylorismo/fordismo, e uma variada gama de inovações presentes na acumulação flexível, ou seja, modelos íbridos. Segundo Leite, técnicas e métodos japoneses são utilizados de maneira diferente no Brasil devido ao caráter autoritário das relações de trabalho e a resistência do patronato brasileiro em conviver com uma maior participação dos trabalhadores nas decisões relativas ao processo de produção. A emergência desse novo conceito de produção exige conhecimentos e atitudes bem diferentes das qualificações formais demandadas pela organização do trabalho do tipo taylorista. Os conhecimentos e atitudes agora demandados são mais próximos daqueles 2 Lojkine (1999) apresenta uma visão crítica quanto ao novo paradigma. Para o autor, o sistema japonês não afeta a divisão social do trabalho, pois, observando o sistema com maior atenção, nota-se que se trata sobretudo mais de procedimentos de ampliação do trabalho do que de um verdadeiro enriquecimento que afete a divisão vertical do trabalho e as funções nitidamente situadas antes da fabricação, como a gestão de produção assegurada pelo controle e não pelos operadores na cadeia do Kan-ban. 3 Vale citar a observação de Oliveira (2003). Segundo o autor, a utilização do conceito de polivalência nos documentos empresariais é uma forma de conseguir, também no plano da produção, a hegemonia. O conceito de polivalência cria a falsa impressão de que as tarefas realizadas pelos trabalhadores requerem maior qualificação. Na prática, o que estabelece é que os trabalhadores sejam multifuncionais. O autor descarta a possibilidade de uma formação mais integral. O que ocorre é a tentativa de fazer do processo educativo um espaço de formação de indivíduos que se identifiquem diretamente com os interesses da produção como se estes também fossem os seus. 10 exigidos pelas empresas japonesas – acima descritos. A qualificação tácita agora se destaca devido ao contexto de inovações tecnológicas. Dubar (1998) analisa esse novo contexto a partir do modelo das competências. Existe uma diferença no modelo das competências em relação ao da qualificação quanto à construção de identidades. O modelo de competência visa uma mobilização psíquica e reconhecimento social em prol da empresa através da construção, valorização e o reconhecimento de uma identidade de empresa. Isso implica na neutralização de outras formas identitárias salariais, verificáveis nas identidades de categorias ou construídas fora da empresa com bases individuais, como identidades de afinidades ou de rede, típicas do período precedente – da qualificação. A noção de competência serve, nessa perspectiva, para significar o caráter fortemente personalizado dos critérios de reconhecimento que devem permitir recompensar cada um em função de intensidade de seu empenho subjetivo e de suas capacidades „cognitivas‟ em compreender, antecipar e resolver problemas de sua função que são também os de sua empresa. (DUBAR,1998,p.98) Frigotto (1995) percebe a ideologia que envolve o discurso de valorização humana do trabalhador e que a valorização da educação básica que possibilita a formação do cidadão e de um trabalhador polivalente, participativo, flexível e com elevada capacidade de abstração e decisão se relaciona à vulnerabilidade do novo paradigma produtivo que demanda essa nova qualidade dos trabalhadores. Isso se torna evidente quando se leva em consideração que os imprevistos produtivos demandam a intervenção direta de um trabalhador com capacidade de análise e não basta que esse trabalhador resolva os problemas e os imprevistos, mas também que trabalhe em equipe. O capital forçado pela vulnerabilidade e complexidade de sua base técnico- organizacional, passou a se interessar mais pela apropriação de qualidade sócio-psicológicas do trabalhador coletivo através dos chamados sistemas sócio-técnicos de trabalho em equipes, dos círculos de qualidade, etc. Trata- se de novas formas de gestão da força de trabalho que visam garantir a integração do trabalhador aos objetivos da empresa (CASTRO4 apud FRIGOTTO, 1995, p.100, grifo nosso). Frigotto sustenta que os mecanismos de exclusão social, ou seja, desemprego estrutural e o emprego precário, contratação de serviços terceirizados e debilidade do poder sindical, servem de estratégias para subordinação do trabalhador. Para Navarro e Padilha (2006), o desemprego é a marca maior das transformações no mundo do trabalho na passagem do século XX para o século XXI. Segundo estas autoras: (...) apesar de todo o desenvolvimento científico e tecnológico, de todas as importantes inovações operadas na base técnica dos processos produtivos, houve pouco alívio da labuta humana. Em realidade, tais mudanças no conjunto da economia e da sociedade resultantes da reestruturação produtiva 4 CASTRO, R. P. As questões da qualificação e da educação e a nova base técnica do capitalismo. São Carlos, UFSCAR, 1992. 11 (...) acabaram por intensificar a exploração da força de trabalho e precarizar o emprego (Navarro e Padilha, 2006, p. 14). Assim, com a reestruturação produtiva e a emergência do modelo japonês, acumulação flexível ou especialização flexível, dentre outras denominações, novas formas de buscar a cooperação dos trabalhadores foram introduzidas. O modelo implantado no final do século passado expressa a necessidade de cooperação dos trabalhadores para que os objetivos do capital sejam atingidos. O modelo demanda programas participativos, ou de envolvimento dos trabalhadores. A cooperação dos trabalhadores no processo produtivo nestes novos tempos é conseguida através de uma pressão velada, talvez a mais eficaz de todas as formas de se conseguir a cooperação dos trabalhadores ao longo da história. Ou seja, a ameaça do desemprego. Na história da pesquisa sobre processo e organização do trabalho já se falou sobre docilidade dos trabalhadores Weil (2001); docilização da mão-de-obra (Decca, 1988); disciplinarização, dentre outras formas de se apresentar a cooperação dos trabalhadores no processo de trabalho. No entanto, a pressão externa do desemprego é hoje o meio mais utilizado para se conseguir a cooperação dos trabalhadores na produção. Considerações finais A cooperação no processo de produção capitalista é imprescindível para se produzir de acordo com as necessidades do capital. A forma de se conseguir a cooperação varia de acordo com as transformações do processo produtivo, seja através de inovações tecnológicas ou mesmo através de mudanças na organização do processo de trabalho. O despotismo dos patrões era a forma predominante para se conseguir a cooperação no processo produtivo desde o surgimento do capitalismo, com a Cooperação Simples, até a Industrialização, passando pela Manufatura. Fatores internos ao processo, assim como a conjuntura da época possibilitavam aos capitalistas usarem de expedientes muitas vezes cruéis, até mesmo com crianças, para garantir a produção de mercadorias. Na quase totalidade do século vinte o taylorismo pregou a objetivação dos tempos e movimentos dos trabalhadores como forma de conseguir maior produtividade. Mas como argumentava Taylor, a cooperação dos trabalhadores e da direção do processo produtivo era essencial para implantação deste método. Quanto a forma de se conseguir a cooperação, Taylor deixava em aberto, mas dizia ser importante a cooperação. A necessidade de cooperação dos trabalhadores no processo de trabalho, portanto, não é uma variável que pode compor o conjunto de inovações introduzida reestruturação produtiva. De forma geral, não podemos negar o enorme apelo do capital no sentido de buscar maior cooperação dos trabalhadores, mas, entendemos que este é fruto de situações que fogem completamente do âmbito da reestruturação em si. A tentativa de tentar construir uma coesão interna entre os trabalhadores de uma determinada indústria a partir da construção de inimigos externos é atualmente uma forma de se conseguir a cooperação dos trabalhadores. Esse inimigo pode ser uma empresa concorrente, o Estado ou mesmo o sindicato da categoria. Dado o caráter histórico autoritário das relações de trabalho no Brasil, determinados patrões têm utilizado o discurso do sindicato de trabalhadores como inimigo para garantir a cooperação dos trabalhadores em bases mais satisfatórias para os primeiros. Também o discurso da competição globalizada, das inovações tecnológicas e da formação profissional contínua tem possibilitado uma enorme pressão sobre os trabalhadores, mesmo em setores que não passam por esses problemas. Estas, assim como inúmeras outras formas de pressão, somadas a maior de todas que é o medo do desemprego, têm caracterizado esta passagem de 12 século no Brasil como o momento histórico onde a forma de se conseguir a cooperação imprescindível dos trabalhadores na produção capitalista seja a pressão patronal. Desde meados de 2008, a crise econômica, juntamente com seus avassaladores desdobramentos sociais, está figurando também como pano de fundo para se conseguir a cooperação dos trabalhadores de acordo com os interesses do capital. Marx denunciou a conivência do Estado com o despotismo dos proprietários de indústrias para com os operários, na Inglaterra do século XIX, forma principal utilizada para se conseguir a cooperação dos operários naquele momento. Despotismo, conivência, submissão, docilidade, opressão, são formas diferenciadas para se garantir a cooperação dos trabalhadores no processo produtivo. A partir das necessidades do capital e de possibilidades externas, o capital utiliza cada uma destas possibilidades para levar os trabalhadores a cooperarem no processo produtivo. Referências BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. CORRÊA, Maria B. Reestruturação produtiva e industrial. In: CATTANI, Antônio David (org.). 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Nosso estudo aponta para o fato de que a empresa já nasce num contexto de crise de superprodução, a crise da década de 1970. As inúmeras respostas dadas pelo capital à crise, tais como mudanças organizacionais e introdução de novas tecnologias, cortes no número de trabalhadores, intensificação do trabalho e investimento em capital fictício, reverberaram de forma intensa na empresa em questão, junto a uma política nacional de cariz neoliberal, principalmente após sua privatização, em 1994. A crise que se aprofunda no final dos anos 2000 tem ecoado fortemente sobre a indústria aeronáutica brasileira que, para se manter competitiva e responder aos interesses de seus acionários, tem feito novas reestruturações que impactam incisivamente seus trabalhadores. Uma análise histórico-crítica deste contexto é que nos permite nos aprofundar em torno das contradições inerentes do sistema capitalista e entender a participação e as respostas do setor aeronáutico brasileiro para a recente crise mundial, que a nosso ver, é uma crise estrutural do capitalismo. Palavras-chave: indústria aeronáutica, crise mundial, reestruturação produtiva, capital fictício. A CRISE MUNDIAL E A INDÚSTRIA AERONÁUTICA BRASILEIRA Nosso objetivo é traçar algumas linhas sobre as implicações da recente crise mundial sobre a indústria aeronáutica brasileira. A cadeia aeronáutica nacional gira em torno de sua empresa líder, a Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. A Embraer foi criada por iniciativa do Governo Federal no dia 19 de agosto de 1969 e fundada em 02 de janeiro de 1970, como Sociedade de Economia Mista de capital aberto, controlada pela União e vinculada ao MAer (Ministério da Aeronáutica Brasileira). Desde seu início a Embraer contou com o permanente apoio do Estado, fato sem precedentes na história do desenvolvimento tecnológico e industrial do país. Isso se deu através de incentivos fiscais e políticas governamentais de compra, estimulando a formação de força de trabalho de alto nível e fomentando a execução de pesquisa básica e aplicada. Hoje, a Embraer é uma das empresas aeroespaciais economicamente mais representativas do mundo (mundialmente destacam-se Airbus, Boeing e, sua maior concorrente, Bombardier, sediada no Canadá), posição alcançada por conta da reestruturação produtiva ocorrida em 1994, cuja principal meta era o ganho de mais-valia ou, como denominam administradores e economistas, torná-la uma empresa voltada para resultados. Com mais de 40 anos de experiência em projeto, fabricação, comercialização e pós-venda, a empresa já produziu cerca de 4.995 aviões, que hoje operam em 78 países, nos cinco continentes. A Embraer tem uma base global de clientes e importantes parceiros de renome mundial, o que resulta em uma significativa participação no mercado1. Atualmente sua força de trabalho totaliza mais de 17.300 empregados2, 87,7 % baseados no Brasil, e gera mais de 5.000 empregos indiretos3. Portanto, trata-se hoje de uma sociedade anônima de capital aberto, cuja sede está situada no km 134 da Via Dutra, na região de São José dos Campos, estado de São Paulo. Diferentemente do que ocorria com as indústrias automobilísticas que aqui se instalaram, nas quais corporações transnacionais ocuparam o nível mais elevado da atividade industrial, a Embraer foi concebida como estatal e como montadora final, dedicada exclusivamente à montagem de aviões através da materialização de um projeto aeronáutico endogenamente concebido. A principal transformação, portanto, que corresponde à empresa estudada foi a sua privatização em 1994, quando elevados e contínuos prejuízos sofridos pela empresa num contexto de transformações econômicas (dentre elas, a implantação do Plano Real), e a configuração de uma política neoliberal efetiva, inviabilizaram qualquer tentativa para a resolução do impasse financeiro. Juntamente com a sua privatização, uma série de mudanças de caráter organizacional e tecnológico vinha acompanhando a vontade dos grupos que a dirigiam. Para melhor situarmos o contexto de privatização da empresa, apontaremos o que mundialmente estava em jogo nas últimas três décadas do século XX em âmbito mundial. Ou seja, passávamos para a terceira fase do imperialismo monopolista, o capitalismo contemporâneo, nas palavras de Netto e Braz (2007). As décadas que se seguiram ao ano de 1973 foram décadas que já apontavam para a crise, em especial as duas primeiras. Entretanto, os países capitalistas ocidentais só admitiram 1 A EMBRAER foi a maior exportadora brasileira entre os anos de 1999 e 2001, e foi a segunda maior empresa exportadora nos anos 2002, 2003 e 2004. 2 Este número não inclui os empregados de suas subsidiárias não integrais OGMA (Portugal) e HEAI (China). 3 Informações retiradas do sítio da empresa (www.embraer.com.br) em junho de 2009. os motivos da crise depois da derrocada da URSS e do socialismo do Leste Europeu, marcado simbolicamente pela queda do Muro de Berlim em 1989. Anos 1970: os alardes de uma crise mundial. Para Marx (2009), o capitalismo traz em si o germe de sua própria destruição, algo que aparece claramente em suas crises periódicas, inerentes ao sistema. Segundo Grespan (2008), o capital realiza uma autocrítica ao desnudar sua dimensão negativa. “Se o capital é valor que se valoriza, os momentos em que ele desvaloriza o valor existente de maneira inevitável, comprometendo assim a base de seu crescimento, são momentos em que ele mesmo se contradiz, negando as condições de sua existência” (p. 57). Vejamos melhor a concepção marxiana de crise. Romero (2009, p. 9) afirma que “a teoria das crises de Marx é, antes de tudo, uma teoria da história das crises”, ou seja, aponta para o fato de que a noção de crise marxiana não parte de um abstrato, mas de crises reais, e de como as classes e o Estado atuaram em seus respectivos contextos. Em suas análises de crises, Marx (2009) toma como pressuposto o fato de que o real sentido da produção capitalista não é o consumo, muito menos a supressão necessidades, mas a acumulação capitalista. Para que haja a valorização do valor é preciso que o capitalista se aproprie do maior tempo de trabalho excedente possível, seja pela extração da mais-valia absoluta, com a extensão da jornada de trabalho, seja pela extração da mais-valia relativa, pela intensificação do trabalho através do desenvolvimento da força produtiva (a tentativa é de conseguir ambas). Neste sentido, produz sem considerar os limites do mercado. Um dos elementos que podem se traduzir em crise está no âmbito da circulação, relacionado com as contradições em torno da mercadoria e sua relação com o dinheiro. A crise pode aparecer quando compra e venda se separam (Marx, 2009, p. 49). Entretanto, esta separação não é senão expressão generalizada de uma crise, não sua causa. A possibilidade geral da crise é dada no processo de metamorfose do próprio capital, e de dois modos: na medida em que o dinheiro funciona como meio de circulação, [a possibilidade da crise reside na] a separação entre compra e venda; e na medida em que o dinheiro funciona como meio de pagamento, ele possui dois diferentes aspectos, ele age como medida de valor e como realização do valor. Esses dois aspectos podem se separar. Se no intervalo entre eles o valor muda, se a mercadoria no momento de sua venda não vale o que valia no momento em que o dinheiro agia como uma medida de valor e, portanto, como uma medida das obrigações recíprocas, então a obrigação não pode ser honrada com os rendimentos da venda da mercadoria, e assim toda uma série de transações que retrospectivamente dependiam dessa transação não podem ser liquidadas. (MARX, 2009, p.49). Como dito, inclusive com grifo do autor, trata-se de uma possibilidade. É preciso apontar os elementos que transformam a possibilidade em realidade. Dentro do processo produtivo pode haver certas perturbações no que se refere à reconversão de dinheiro em capital. Um exemplo oferecido por Marx (2009, p. 51) se refere ao capital constante, do qual fazem parte o capital fixo (maquinaria, estrutura física, etc) e o capital circulante (matéria- prima). Pode ocorrer um problema que independa da ação humana, como, por exemplo, uma questão climática (enchente ou seca) que vá influenciar na quantidade e valor da matéria- prima, ou seja, o valor da matéria-prima pode subir e sua quantidade diminuir. Deste modo, as proporções em que o dinheiro será reconvertido nas partes componentes do capital serão alteradas. Como mais será gasto em matéria-prima, é preciso economizar na força de trabalho, capital variável. Há, por conseqüência, queda na taxa de lucro e pessoas que perdem seus empregos. Isto desencadeia uma incapacidade de pagar seus compromissos tanto por parte dos trabalhadores quanto por parte dos capitalistas, que sofreram queda na taxa de lucro. Todos estes elementos podem gerar uma crise. Todo este processo ainda desmascara a falácia dos economistas liberais de que há uma identidade entre produtores e compradores, porque apesar de os trabalhadores serem aqueles que consomem (gastam) máquinas e matérias-primas no processo produtivo, eles não são seus compradores. A divulgação da idéia de identidade e unidade aparece para negar a contradição. Porém, quando surgem as crises, fica difícil continuar mascarando os conflitos. Na razão mesma em que o capital compra e incorpora a força de trabalho, também se apropria da capacidade de medir a valorização do valor a partir do trabalho abstrato. Mas esta relação com a mensuração é conflitante (Grespan, 2008, p. 58), já que se baseia na relação contraditória entre capital e trabalho. Ao mesmo tempo em que se apropria da força de trabalho, precisa negá-la, substituindo-a por máquinas para aumentar a produtividade, processo reiterado pela concorrência que impele o capitalista a reduzir custos. Dado este panorama é preciso diferenciar taxa de mais-valia de taxa de lucro. Lucro e mais-valia, de certa forma, se equivalem, entretanto, taxa de lucro e taxa de mais-valia são diversas. O lucro capitalista provém de ter para vender algo que não pagou. A mais-valia ou o lucro consiste justamente no excedente do valor-mercadoria sobre o preço de custo, isto é, no excedente da totalidade de trabalho contida na mercadoria sobre a soma do trabalho pago, nela contida. A mais-valia, qualquer que seja a sua origem é, por conseguinte, um excedente sobre todo o capital adiantado. (MARX, s/d, p. 46). Entretanto, a taxa de lucro corresponde a m , ou seja, mais-valia sobre capital c+v constante mais capital variável; enquanto taxa de mais-valia é mais-valia sobre capital variável apenas, ou seja, m . “A razão que existe entre a mais-valia e o capital variável é a taxa v de mais-valia, e a que existe entre a mais-valia e a totalidade do capital [capital variável mais capital constante] é a taxa de lucro”. (Marx, s/d, p. 46). Por isso podemos dizer que a elevação da composição orgânica do capital, ou seja, do capital constante, relativamente ao capital variável (força-de-trabalho) leva, tendencialmente, à queda da taxa de lucro. Já que [...]a grandeza crescente dos meios de produção, em relação à força de trabalho neles incorporada, expressa produtividade crescente do trabalho. O aumento desta se patenteia, portanto, no decréscimo da quantidade de trabalho em relação à massa dos meios de produção que põe em movimento, ou na diminuição do fator subjetivo do processo de trabalho em relação aos seus fatores objetivos. (MARX, 2002, p. 725- 6). São, portanto, duas formas de medir a valorização. A substituição de trabalho por meios de produção pode ser somente relativa, isto é, o número de trabalhadores pode continuar a crescer, porém em quantidade menor que o crescimento de meios de produção, de forma que o gasto com meios materiais continue a ser mais expressivo, e que a taxa de lucro continua a cair. Haverá tendência em reforçar o grau de exploração da força de trabalho na tentativa de aumentar a taxa de mais-valia, mas que não alterará o processo de queda da taxa de lucro, caso os gastos com os meios de produção continuarem a serem maiores. Desta forma pode ocorrer o Grespan (2008, p. 62) denomina desmedida, no sentido de que as duas medidas (taxa de mais-valia e taxa de lucro) seguem direções opostas. Um dos elementos mais centrais para a neutralização da tendência decrescente da taxa de lucro é a concorrência, que pode, por exemplo, fazer com que se reduza o salário do trabalhador abaixo do valor da força de trabalho, diminuindo o tempo de trabalho necessário e aumentando o tempo de trabalho excedente. Também a concorrência pode levar ao barateamento dos elementos que formam o capital constante, dando menos peso ao seu valor no cálculo da taxa de lucro. O desenvolvimento do capitalismo também traz consigo o fenômeno da crescente superpopulação relativa, e a abundância leva ao barateamento dos salários, elevando a massa de mais-valia do capital total. Nos tempos de Marx, o comércio exterior era uma alternativa, através até mesmo do colonialismo, como um processo de internacionalização. Hoje ocorre, utilizando o termo de Chesnais (1996), a mundialização do capital, que barateia enormemente os elementos do capital constante e também do capital variável (dado o baixo valor dos meios de subsistência em países periféricos), elevando assim a taxa de lucro. “A taxa de lucro não diminui porque o trabalho se torna mais improdutivo, mas porque se faz mais produtivo. Ambas, a alta da taxa de mais-valia e a queda da taxa de lucro, são simplesmente formas especiais em que a crescente produtividade do trabalho se manifesta sob o capitalismo” (Marx, 2009, p. 98). Há ainda, como recurso na tentativa de neutralizar a queda da taxa de lucro, o investimento em capital acionário no lugar do processo produtivo, como tentativa de um novo tipo de valorização, cujas taxas de juros parecem (temporariamente) ser mais compensadoras que os investimentos na produção. Os anos de 1973/74 foram anos marcados por uma crise de superprodução, a primeira recessão generalizada depois da Segunda Guerra Mundial (Mandel, 1990), ou seja, houve a impossibilidade de venda das mercadorias produzidas a preços que garantam o lucro médio. A mais-valia não se realizava como esperado. Não se tratava neste momento de uma crise de conjuntura, mas de uma crise estrutural (Antunes, 2001). No plano político, na tentativa de responder à crise do capital, prevalecia a ideologia neoliberal, implementada primeiramente por Margareth Thatcher na Inglaterra (1979) e Ronald Reagan nos EUA (1980), que, apesar do discurso de Estado mínimo, tornavam-se cada vez mais nacionalistas e o Estado era obrigado a administrar e organizar suas economias, desconfiando das economias dos demais países. O tripé básico das políticas neoliberais, segundo Fiori (1998, p. 217), é “desregulação”, “privatização” e “abertura comercial”. Essas políticas foram experimentadas primeiramente nos EUA e na Inglaterra, porém, essas mesmas idéias foram tomadas por organizações multilaterais (FMI, BIRD, etc), que se transformaram no núcleo duro de formulação do pensamento e políticas neoliberais voltadas para o “ajustamento econômico” da periferia capitalista, em especial a América Latina. O Estado adquire uma função muito mais problemática que no período anterior. Ele deve regular as atividades do capital corporativo e, ao mesmo tempo, responder aos interesses nacionais, de forma a atrair o capital financeiro transnacional e conter a fuga de capital para regiões mais lucrativas. Para tanto, vale fazer reformas que condicionem à atração do capital financeiro em detrimento das demandas da classe trabalhadora, como é o caso das reformas previdenciária e trabalhista. Assim como o Estado, a relação entre finança e indústria também é reconfigurada, ocorre uma pressão dos mercados financeiros sobre os grupos industriais pelas taxas de juros sobre títulos da dívida e sobre o nível de lucros industriais. Bem como, a entrada de fundos de pensão e investimentos financeiros no capital de grupos industriais que levaram à aproximação de dirigentes industriais aos gestores financeiros, chegando até mesmo a remunerar dirigentes de modo a permitir que eles adquiram ações por preço pré-fixado e as revendam pra a Bolsa de Valores de forma a realizar “lucros” (Chesnais, 1999). Como solução para a questão do trabalho, houve uma acelerada reestruturação produtiva, com uma “produção enxuta e flexível”, através do toyotismo. Os anos 80 podem ser considerados a “década das inovações capitalistas”, da flexibilização da produção, da “especialização flexível”, da desconcentração industrial, dos novos padrões de gestão da força de trabalho, tais como just-in- time/kanban, CCQ’s e Programas de Qualidade Total, da racionalização da produção, de uma nova divisão internacional do trabalho e de uma nova etapa da internacionalização do capital, ou seja, de um novo patamar de concentração e centralização do capital em escala planetária. Foi a década do impulso da acumulação flexível, do novo complexo de reestruturação produtiva, cujo “momento predominante” é o toyotismo. (ALVES, 2000, p.18). O novo modelo organizacional ganha importância no mundo a partir da década de 1980 e no Brasil a partir de 1990. No momento da crise de superprodução dos anos 1970, é questionado o fato de o binômio taylorismo-fordismo não dar conta do aumento da taxa de lucro, como vinha ocorrendo nos chamados Trinta Gloriosos. A partir da crise de 1973, as corporações se propuseram a procurar soluções para a sua capacidade excedente inutilizável para terem condições de competitividade. Isso as obrigou a intensificar o processo de racionalização e controle do trabalho, com inovações tecnológicas e organizacionais, ou seja, organizar uma reestruturação produtiva nas empresas. Neste momento é que, segundo Harvey (2006), surge o modelo de acumulação flexível. Harvey justifica a utilização do termo acumulação flexível para se contrapor à rigidez do fordismo, afirmando que esse novo período se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo. É possível perceber que ao mesmo tempo em que as crises trazem à luz as contradições do modo de produção capitalista, criam as condições para sua reanimação e um novo ciclo, ou seja, o próprio sistema reage à queda tendencial da taxa de lucro, e a lei do valor se impõe novamente contra essa queda. Aqui, podemos destacar como uma das respostas a reestruturação produtiva. [...] o sucesso de tal modelo [toyotista] – que se pretende inovador em relação ao taylorismo-fordismo – deve-se, principalmente, ao fato de ter adotado a base tecnológica em combinação com a organização do trabalho em equipe, com a produção integrada (identidade de interesses entre as montadoras e os fornecedores de peças e componentes) e com o aprendizado. Trata-se aqui do aprendizado obtido pela generalização das experiências acumuladas na produção (saber tácito), pela rotação de postos, pelo alargamento das tarefas, pela constituição de equipes semi- autônomas, pela redução dos níveis hierárquicos. É um modelo adequado ao atual estágio de desenvolvimento do capitalismo. (HELOANI, 2003, p. 120). Este novo modelo implementado no Japão pareceu ser uma alternativa clara à crise do fordismo (e à crise estrutural do capital), no sentido de que temos como características deste novo modelo: 1) a produção é comandada pela demanda. Diferente do modelo fordista, em que a meta era produzir o máximo, o que poderia resultar em superprodução. É a idéia do estoque mínimo, que evita desperdícios, uma produção just-in-time; 2) Como apenas a produção agrega valor, os outros setores da indústria representam custos, portanto a idéia é reduzir custos no transporte, na estocagem e no controle de qualidade, por isso a máxima fluidez é uma meta essencial; 3) O parcelamento de tarefas do fordismo já não era suficiente para reduzir o tempo de produção ao seu máximo, era necessário flexibilizar a produção, rompendo com a relação um homem/uma máquina, exigindo um trabalhador polivalente, e tornando a relação homem-máquina em equipe-sistema automatizado; 4) Um outro recurso, inspirado na experiência de supermercados é o kanban, que é uma espécie de senha de comando para reposição de estoques; 5) Ao contrário do fordismo em que se produzia um único modelo em grande escala, a idéia do Toyotismo é produzir modelos diversificados em séries reduzidas, uma mesma linha de montagem deve produzir produtos diferenciados. Para tanto, o tempo de adaptação de uma nova máquina para produzir um novo produto deve ser mínimo; 6) Por fim, a organização da empresa deve ser horizontalizada, terceirizando e subcontratando fornecedores, que devem seguir exigências da empresa líder, prestarem serviços sob determinadas condições de espaço, tempo e valores (Gounet, 2002; Antunes, 2001; Ohno, 2004). Contudo, este novo modelo organizacional não exclui o modelo taylorista-fordista, é uma nova forma de aprofundamento do sistema anterior, que projeta uma maior absorção da subjetividade do trabalhador: além de agir, o trabalhador deve pensar para o capital. Não é mais somente a rapidez do movimento que é valorizada, mas, principalmente, a qualidade das informações que o trabalhador pode oferecer para o capital. Privatização e reestruturação produtiva – respostas à crise. Todo esse contexto teve implicações intensas sobre a história da Embraer e principalmente sobre suas transformações pós-privatização. Foi arquitetada uma nova estratégia para a empresa: mudança de enfoque de mercado e execução de um plano de reestruturação profunda. Essa nova direção divergia da cultura tradicional da empresa, historicamente marcada pela excelência tecnológica do produto e dirigida pela engenharia, ou seja, passa a ter um enfoque maior nos resultados que no produto em si. Para a nova direção, essa abordagem deveria ser radicalmente transformada, no sentido de que o principal foco de atenção deveria ser os resultados financeiros. Essa reestruturação produtiva foi efetivada num contexto de privatização de empresas estatais, desregulamentação de direitos de trabalho e desmontagem do setor produtivo estatal, acarretando em subcontratações, terceirizações e precarização. Enquanto as coisas vão bem, a concorrência atua, como vimos ao estudar o nivelamento da taxa geral de lucro, como uma irmandade efetiva da classe capitalista, entre a qual o botim comum é distribuído coletivamente, em proporção com a quantia empregada por cada um no negócio. Mas quando precisamente já não se trata da repartição dos lucros, mas das perdas, cada um procura reduzir na medida do possível a parte da alíquota que lhe corresponde, para lançá-la aos demais. As perdas são inevitáveis para a classe em seu conjunto. Mas que parte cada capitalista deve suportar? Isso é decidido pela força e pela astúcia; aqui a concorrência se reverte em uma luta entre irmãos inimigos. A partir deste momento se impõe o antagonismo entre o interesse de cada capitalista individual e o da classe capitalista em seu conjunto, do mesmo modo que antes a identidade destes interesses abria caminho efetivamente através da concorrência. (MARX, 2009, p. 114-5). No Brasil, a configuração ideopolítica neoliberal se inicia no governo de Fernando Collor de Mello em 1989. Entretanto, a exacerbação desse projeto ocorreu com Fernando Henrique Cardoso, ainda quando ministro da Fazenda em 1994, e posteriormente eleito presidente do Brasil, pela elaboração do Plano Real, que levou a inflação a zero. Entretanto, intensificou enormemente o processo de privatização das empresas nacionais estatais, seguidas de profunda reestruturação produtiva. O argumento principal para adquirir consenso quanto à “necessidade” de privatizações está no fato de que a “eficiência privada é muito maior do que a estatal”. Todavia, a maioria das estatais foi obrigada a se endividar no exterior desde meados da década de XX e, muitas vezes, proibida de gastar com o necessário, que era o desenvolvimento de pesquisas e tecnologia, tornando-se desatualizadas. As empresas privatizadas, entretanto, puderam se reestruturar sem qualquer impedimento político quanto a preços e cortes de linhas de produção e trabalhadores. É quase desnecessário afirmar o quanto todo esse processo afetou as relações de trabalho, alicerçadas em reformas do governo FHC: houve flexibilização do contrato de trabalho, redução do custo da força de trabalho, diminuição da abrangência da legislação trabalhista e do poder sindical, quase todas através de Medidas Provisórias. A sociedade brasileira conserva desigualdades históricas [...]. As mudanças apresentadas pelo neoliberalismo, entretanto, e apresentadas como sendo progressistas, propiciadoras do desenvolvimento, contribuem, na verdade, para reforçar a paisagem histórica das desigualdades, o quadro de uma sociedade injusta. Elas não visam de forma alguma alterar as estruturas arcaicas que herdamos. Pelo contrário, com alterações formais, contribuem de maneira acentuada para reforçar a referida estrutura. (SODRÉ, 1996, p. 24). A eleição de Lula em 2002 apontava para muitos eleitores para desmontagem da fase neoliberal, entretanto, um ano e meio depois o PT mostrava sua verdadeira face, a da política de continuidade. Ao contrário do esperado, não houve uma profunda mudança política econômica, que fosse de encontro aos interesses do FMI, não houve contenção do fluxo de capitais para o sistema financeiro internacional, não houve um combate acertado contra os transgênicos, nem um programa efetivo para desmontar a miséria brasileira. Com sua política econômica de cariz neoliberal, entre os anos de 2003 e 2004, ocorreu um aumento de dois milhões de desempregados e ampliou em quase 60% o contingente de trabalhadores na informalidade (Antunes, 2006, p. 67). Postos estes alicerces políticos e econômicos de cariz neoliberal, podemos, então reconhecer as particularidades que cercam esta nossa análise: a privatização da Embraer, dominada pelo capital financeiro, em especial pelos fundos de pensão, cujos acionistas demandam uma intensa reestruturação produtiva, tal qual o objetivo é a produção intensa de mais-valia, reverberando sobre o capital financeiro, através da valorização das ações da empresa, assentada na precarização e na intensificação da exploração do trabalho. A Embraer já nasce no capitalismo contemporâneo, nasce num contexto de crise estrutural do capital. Entretanto, o Estado fora um grande alicerce para seus primeiros anos de produção. A década de oitenta já sinalizava a crise, que não se dava apenas no âmbito nacional. Principalmente com o fim da Guerra Fria, houve uma queda brusca na demanda por aviões. Segundo estimativas, pelo menos nos três primeiros anos da década de 1990, as 10 maiores empresas de aviação mundial tiveram prejuízos superiores ao total dos lucros obtidos nos 40 anos anteriores. Por exemplo, nos Estados Unidos, chegou-se a entregar cerca de treze mil aviões em 1977, contra apenas 298 em 1991. (Sbragia; Terra, 1993, p. 7). Entre as causas da crise estão a Guerra do Golfo, as altas tarifas no Atlântico Norte, limitando a compra de aeronaves, e o fim da Guerra Fria, que diminuiu os orçamentos militares de vários países. Internamente, a crise se volta à constituição de um novo modelo político econômico, com transição para eleições diretas e implementação de uma política de cariz neoliberal, que propugnavam a abertura econômica e a desregulamentação, além de um programa de privatização de empresas públicas. A empresa não conseguia mais ter acesso a financiamentos de longo prazo, que é fundamental para a indústria aeronáutica, dado o seu tempo de produção. E, para se ter uma idéia, a carga tributária que era de 7% a 8% passou para mais de 30% na década de 1990 (Silva, 2002). A década iniciada com Collor, em 1990, legou-nos um brutal processo de privatização, um amplo leque de desregulamentações, um intenso processo de reestruturação, um vasto movimento de financeirização e um enorme e desmesurado ritmo de precarização social. Se ela iniciou de modo aventureiro, foi, entretanto, com FHC que a década do social liberalismo deslanchou, ao comandar o país por oito anos sob a batuta do tucanato. Tratava-se de outra racionalidade, porém, dentro do mesmo ideário, desenhado pelo Consenso de Washington. (ANTUNES, 2006, p. 12). A empresa chegou a ter no final da década de 1980 cerca de 12.607 funcionários, em 1993 já contava com 5.500. Tal redução foi iniciada em 30 de outubro de 1990, quando a empresa anunciou a demissão de 3994 funcionários, com o objetivo de economizar cerca de US$ 109 milhões para “salvar” a empresa. Esta decisão acarretou no afastamento até mesmo de Ozílio Silva, presidente da empresa naquele momento e um dos fundadores da Embraer. O pior neste processo de redução foi a perda de quadros de funcionários de alta qualificação. Após três anos de um processo desgastante de cortes, foi realizada, em 07 de dezembro de 1994, em leilão na Bovespa (Bolsa de valores de São Paulo), a transferência da empresa para a iniciativa privada. Logrou-se um processo de privatização, depois de adiado seis vezes antes desta data. A empresa foi vendida pelo valor de R$ 154,1 milhões, apenas 0,3% acima do preço mínimo fixado pelo leilão, e foi adquirida, entre os principais acionistas, por um consórcio de empresas formado pelo grupo Bozano Simonsen4 (40%), pelo banco de investimentos norte-americano Wasserstein Perella (19,9%) e pela Ciemb – Clube de Investimento dos Empregados da Embraer (10%). Foi criada uma classe especial de ações, a Golden Share, que conferia à União o direito de veto quanto à atuação da Embraer em programas militares, mudança do objeto social e transferência do controle acionário (Bernardes, 2000). Incluía-se na venda da Embraer a EAC5 (Embraer Aircraft Corporation), a EAI6 (Embraer Aviation Internacional) e a Neiva, fabricante de aviões leves. Em documento, apresentado à direção da empresa, os que manifestavam contra a privatização da Embraer, trabalhadores, sindicatos e outras entidades, argumentavam: “1) a privatização representaria um risco de perda de investimentos em tecnologia e treinamento de mão-de-obra especializada, obtidos ao longo de 24 anos com sacrifício de outros programas prioritários para o país; 2) a privatização poderia levar a Embraer à condição de mera montadora de aeronaves, com a desativação da área de projetos, com transferência de tecnologia nacional à concorrência internacional e com geração de demissões em massa de pessoal altamente qualificado” (Khair et ali, 1993, p. 57 apud Bernardes, 2000, p. 248). [...] o programa de privatização a partir do governo Collor não contemplou, desde a sua concepção e execução, a construção estratégica de mecanismos ou estruturas de gestão institucionais que previssem e viabilizassem investimentos para a reestruturação e a ampliação da competitividade das empresas privatizadas. No caso da Embraer, esse fato é crucial, pois repercutiu negativamente nas negociações de privatização e venda da empresa. A indefinição quanto aos objetivos e metas destinados para a Embraer, qual o lugar que ela ocuparia em uma perspectiva de estratégia de desenvolvimento industrial e tecnológico, produziu incertezas quanto ao futuro da empresa e à capacidade ela responder aos desafios, que lhe eram reservados, abalando o prestígio e os negócios da empresa. Nesse quadro, muitos não acreditavam na recuperação da Embraer e a consideravam praticamente falida. (BERNARDES, 2000, p. 250). Sob liderança do grupo Bozano Simonsen, os novos controladores elegeram para o cargo de diretor-presidente Maurício Botelho, que já havia sido diretor executivo da Cia. Bozano. Botelho nasceu no Rio de Janeiro, no ano de 1942 e formou-se em Engenharia Mecânica, em 1965, na Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil do Rio de Janeiro. Também, durante sua carreira, foi diretor da OTL - Odebrecht Automação e 4 Faziam parte do consórcio Bozano Simonsen: o Bozano, Simonsen Limited, o Sistel (Fundação Telebrás de Seguridade Social), a Previ (Caixa de Previdência Privada do Banco do Brasil), o Bozano Leasing e a Fundação Cesp. 5 A EMBRAER Aircraft Corporation fica localizada na Flórida, EUA, proporciona apoio técnico e operacional aos operados das aeronaves EMBRAER, além de intermediar vendas de produtos. 6 A EMBRAER Aviation Internacional localiza-se no Aeroporto de Le Bourget, em Paris, França, desempenham atividades de apoio permanente, assistência técnica e fornecimento de peças de reposição aos diversos operadores da EMBRAER na Europa. Telecomunicações Ltda e suas subsidiárias. Botelho teve como missão recuperar a empresa, tornando-a mais pragmática e competitiva. [...] Se tentássemos compilar a expressão que traduzisse mais fielmente o perfil desse novo corpo administrativo, composto por executivos e profissionais do mercado e antigos funcionários de carreira da Embraer, sem dúvida, seria o estabelecimento de um novo ciclo de negócios expresso no compromisso de uma administração empresarial voltada para os resultados econômicos e a satisfação dos clientes. (BERNARDES, 2000, p. 260). A nova estrutura financeira da empresa também significou, portanto, reconfiguração na organização da empresa, a começar por seu foco estratégico. Durante o período estatal o foco era o produto, a excelência tecnológica do produto dirigida pela engenharia (engineering driven). Para a nova direção e controladores, o foco deveria ser na satisfação dos clientes e o respectivo resultado financeiro. Para chegar a esta meta, era necessária uma profunda reestruturação produtiva: reestruturação financeira7, tecnológica e organizacional. Foi o projeto do avião ERJ-145 que renovou o fôlego da empresa e a restabeleceu como empresa confiável (na perspectiva do mercado) e competitiva. A princípio o projeto se chamou EMB-145 e foi anunciado no ano de 1989, como sendo a versão a jato do EMB-120 Brasília, com a fuselagem alongada para 40 passageiros, já que empresas aéreas que já operavam o EMB-100 Bandeirante e o EMB-120 Brasília demonstravam interesse em que a empresa desenvolvesse um transporte regional com performance superior às já existentes. O primeiro ERJ-145 foi apresentado no Salon Aéronautique de Le Bourget ainda no ano de 1989, com cinqüenta assentos, mas com fuselagem praticamente idêntica ao do Brasília. Porém este modelo foi reconfigurado após testes realizados no túnel aerodinâmico da Boeing Technologies, nos EUA. (Bernardes, 2000, p. 320). Dada a crise financeira do início dos anos noventa, o programa foi interrompido. Sem pressão de prazos, o projeto foi alterado novamente, tendo finalizado a versão final no ano de 1992. A inovação na filosofia operacional estava no fato de ter sido utilizado o conceito de comunalidade máxima (back to basics), ou seja, tendo utilizado peças já em produção do Brasília e aproveitando a tecnologia acumulada pelo desenvolvimento do CBA-123 Vector. Segundo dados de Muniz Júnior (1995, p. 59) houve comunalidade de 35% nos desenhos e 15% em termos de componentes. Diferentemente do enfoque da engenharia tradicional, utilizou-se o conceito de engenharia simultânea. No enfoque tradicional, as tarefas eram transferidas de área funcional a área funcional, conforme competência e requisitos de cada uma. Na engenharia simultânea há ligação em tempo real por CAD/CAM8 de todas as áreas e times durante todo o processo de desenvolvimento, envolvendo os diversos setores do projeto, manufatura e assistência técnica da Embraer, bem como das engenharias de seus principais fornecedores. Coordenação dos conceitos do produto e do processo, metas de prazo e custo passam a ser claramente definidos e conhecidos, e os problemas que são levantados resolvem-se rapidamente, pois todos têm uma compreensão clara dos fatores 7 Em 31 de março de 2006, a Assembléia Geral Extraordinária de acionistas aprovou a proposta de reestruturação societária da Embraer, pulverizando o capital da empresa. Aumentam, portanto, as práticas de governança corporativa, já que todas as ações tornam-se ordinárias, ou seja, todos os acionistas têm direito a voto, permitindo a sua adesão ao Novo Mercado da Bovespa. Para manter o caráter de empresa nacional, manteve-se o poder de veto da União, detentora da Golden Share, e o total de votos em qualquer assembléia geral, com relação a acionistas estrangeiros, está limitado a 40%. 8 CAD (Computer Aided Design – Desenho com Auxílio de Computadores) e CAM (Computer Aided Manufacturing – Manufatura Auxiliada por Computadores). Os primeiros aviões fabricados pela Embraer empregavam modelos para cálculos estruturais realizados à mão, levava-se muito tempo e estava sujeito a erros. envolvidos; o papel dos times interdepartamentais é significativo para se alcançar tais objetivos. (MUNIZ JÚNIOR, 1995, p. 23). Entretanto, para que o projeto se realizasse foi necessário desenvolver um relacionamento de parcerias, em que predominaria a forma de risk sharing, ou seja, haveria compartilhamento de riscos com outras empresas. Todos os custos associados às atividades de desenvolvimento de cada segmento, englobando, conforme o caso, concepção, engenharia, projeto, ferramental e fabricação de protótipos e os corpos de prova, são de responsabilidade total doa parceiros que recuperarão o investimento feito na fase de seriação do programa, através da venda de seus segmentos para a EMBRAER. (MUNIZ JÚNIOR, 1995, p. 61). Mas foi somente em 1995, depois de privatizada e sob o controle de nova administração que o programa foi retomado e priorizado. O custo estimado do programa era de US$300 milhões, não havia como a Embraer desenvolvê-lo quando estava atolada em dívidas e desorganizada internamente. “A estratégia adotada no Programa ERJ-145 é paradigmática, exigindo mudanças profundas nas formas de gestão dos programas quanto a qualidade, integração, flexibilidade, prazo de entrega e produtividade”. (Bernardes, 2000, p. 317). Essa exigência imposta pelo Programa ERJ-145 coincide com os objetivos dos controladores da Embraer privatizada. O ERJ-145 não era uma inovação tecnológica em termos universais, outras indústrias aeronáuticas já produziam aeronaves regionais com propulsão a jato, como era o caso da Canadair Regional Jet. Mas, pelo menos em se tratando da Embraer, o ERJ-145 era uma grande inovação. Para poder tornar efetivo o processo de engenharia simultânea, utilizou-se de uma Estrutura de Produto Única, também conhecida como Product Structure Assurance (PSA), que é um sistema informatizado que tem itens interligados em uma seqüência lógica de formação, constituído de topo e ramos, onde cada item possui quantidade e está ligado a cada versão diferente de aeronave. Essa ferramenta é manipulada desde a fase de concepção do produto, do planejamento e do anteprojeto e acaba sendo um poderoso recurso de planejamento e controle, pois fornece informação instantânea, mesmo antes da elaboração do desenho. Ela é uma base de dados única para todas as áreas, promovendo a integração entre Engenharia, produção, Peças de Reposição e Manuais, diminuindo a realimentação dos desenhos, ou seja, diminui o tempo de trabalho e custos. Até então, a Embraer utilizava a maquetagem física (mock-up convencional) da aeronave como ferramenta de auxílio à concepção, tratava-se de um modelo em tamanho natural para estudo, fabricado em madeira. Uma das grandes inovações do ERJ-145 foi a tecnologia de design. Através do CAD, que já era uma ferramenta utilizada no Brasília, foi feito o projeto de cada peça e componente, no total, cerca de 19.518 itens diferentes. (Bernardes, 2000, p. 322). A partir desses dados, foi possível fazer uma maquete eletrônica, ou mock-up eletrônico, inteiramente desenvolvido na Embraer e denominado E/MKP. O E/MKP conecta em tempo real todas as informações envolvidas no projeto, elimina as redundâncias, repassando as informações primordiais. O ERJ-145 utilizou o sistema CAD/CAM, porém as novas versões da aeronave, o ERJ-170 e o ERJ -190, aos quais nos ateremos mais adiante, se utilizaram de um novo software, o CATIA (Computer Aided Tridimentional Interactive Aplication). A grande conquista no desenvolvimento tecnológico da Embraer foi a implementação do software CATIA, da empresa francesa Dassault Systemes. Trata-se de um software muito mais poderoso e com mais recursos que o sistema CAD, permitindo a realização do projeto em 3D (terceira dimensão) e eliminando a necessidade da construção do protótipo de madeira, uma vez que ele reproduz virtualmente, no computador, as condições necessárias para a realização de quase todos os testes e ajustes para a finalização do produto. A economia de tempo e custo é muito significativa, e é isso que os acionistas têm como meta. Esse sistema foi atualizado no ano de 2000, já com o desenvolvimento das novas aeronaves, ERJ-170 e ERJ-190, com o Centro de Realidade Virtual (CRV), uma moderníssima ferramenta de trabalho que permite reduzir ainda mais o tempo de desenvolvimento de novas aeronaves9. A visualização é feita com óculos especiais e uma grande tela de projeção de imersão total. Com o CATIA e o CRV é possível detectar eventuais falhas e montagens incorretas, podendo ser corrigidas ou eliminadas antes da produção. Houve uma maior inovação tecnológica, portanto, com o avião ERJ-170 (2003), que faz parte de uma nova família10 de jatos, com uma configuração que oferece vantagens de redução de peso e melhor balanceamento. As mudanças recorrentes no chão-de-fábrica são inúmeras: mudanças de layout, fluxo de materiais, novos programas, projetos de transformação organizacional, treinamento diferenciado, etc. Além do Centro de Realidade Virtual, no projeto ERJ-170, utilizou-se um novo sistema de computador, denominado Knowledge Based Engineering (KBE), ou seja, engenharia baseada no conhecimento. Trata-se de um sistema integrado, que incorpora sofisticado software, contendo banco de dados com informações, regulamentações, normas e restrições relativas a todo o conhecimento até então adquirido pela Engenharia da empresa. Wolff (2005, p. 172) explica-nos que este maquinário impõe um novo perfil de trabalhador – leia-se uma nova reificação – que atenda às exigências colocadas na atual fase do capitalismo. Foi Ohno quem encontrou as bases organizacionais mais adequadas para garantir o novo patamar de racionalização da força de trabalho. “Ora, os novos meios informáticos de trabalho abrem uma nova era na história da humanidade: a da objetivação, pela máquina, de funções abstratas, reflexivas, do cérebro – não mais funções cerebrais ligadas à atividade da mão” (Lojkine, 1999, p. 63-4). Os trabalhadores são impelidos a se “requalificarem” para dar conta das novas tarefas, mais complexas, que “parecem” permitir maior participação da inteligência humana no trabalho. Para responder ao aumento da demanda de aeronaves, foram realizados substanciais investimentos em instalações, equipamentos e pessoal. Atualmente, a pintura das aeronaves tem uma economia de 33% no tempo e de 40% de tinta com relação ao processo de pintura convencional, em razão da aquisição de uma cabine de pintura semi-automatizada, de tecnologia alemã, que controla com exatidão o fluxo de ar, a temperatura e a umidade. Isso possibilitou uma elevação da capacidade operacional de 14 para 25 aviões por mês (Yokota, 2004). Foi possível observar importantes avanços na inspeção de ferramental. De um sistema de inspeção por teodolito convencional, em que se necessitava de quatro operadores, 1989, hoje, a inspeção é feita por um sistema a laser, e operado por uma única pessoa, com redução de 20% no ciclo de fabricação de ferramentais (Yokota, 2004). Até 1998, o recorte de tecido pré-impregnado era feito manualmente, enquanto, a partir de 1999, houve implantação de recorte automático de tecido pré-impregnado, o que resultou na redução de mais de três mil horas/homem por mês (Yokota, 2004). 9 Um exemplo da eficiência dessa tecnologia: com o CRV, o avião ERJ 170 completará seu desenvolvimento em 38 meses, enquanto foram necessários 60 meses para desenvolver o ERJ 145. 10 O conceito “família” é usado quando oferece a vantagem de comunalidade (na ordem de 90%) entre aviões, o que significa menor custo de infra-estrutura de manutenção, menores custos de treinamento de pilotos e pessoal técnico e a possibilidade de up-grade nos tripulantes. Reduz também o time-to-market, ou seja, as decisões de marketing são agilizadas, o produto chega ao mercado em menos tempo, cerca de dois ou três anos, metade do tempo que normalmente levaria um projeto novo. Com relação à organização interna da empresa, há que se destacar toda uma reformulação organizacional da empresa, marcada pelo novo grupo administrativo e de Recursos Humanos da empresa, focada na administração por resultados, muito mais próxima ao modelo toyotista. A ideologia que predominava na Embraer estatal era de uma “cultura organizacional” marcada por sentimentos nacionalistas e hierarquia rígida, proveniente dos militares e jovens engenheiros formados pelo ITA ou vindos do CTA. A idéia principal era a excelência tecnológica, procurando acompanhar o “estado das artes” no setor. Assegurados de que tinham uma fonte segura de investimentos até então, o Governo. Na nova administração foram diversas as ações no sentido de cumprir com seus compromissos perante clientes e acionistas. Tentaremos pontuá-las a seguir. Uma modificação de grande monta foi um Plano de Ação que englobava toda a empresa. Em 1996, pela primeira vez em sua história, a Embraer desenvolveu um sistema de planejamento com projeções e metas de curto e longo prazo para todas as áreas da empresa. O chamado PA – Plano de Ação –, que existe até hoje na empresa, era um instrumento que visava o planejamento, a implantação, a avaliação e julgamento de todos os compromissos da empresa perante seus clientes, empregados e acionistas. (OLIVEIRA, 2002, p. 31). Ainda nesse mesmo ano, a diretoria traçou um Redesenho de Processos de Negócio, procurando obter uma operação de melhorias através da Gestão de Qualidade Total. Posteriormente à privatização, houve um grande processo de terceirização. Foram terceirizados os serviços de limpeza, segurança, uma parte da informática, alimentação, centro de treinamento de pilotos, treinamento de funcionários, transportes e parte da área de design. Com as terceirizações houve uma economia de custos de US$ 80 milhões para a Embraer. Além das terceirizações, a Embraer também criou uma cadeia de fornecimento baseada em três grupos: “parceiros (que assumiriam os riscos financeiros), fornecedores (responsáveis pela entrega de peças e serviços) e subcontratados (empresa ou pessoa que prestaria serviços à empresa para um determinado projeto)”. (Oliveira, 2002, p. 33). Essas três dimensões seriam dispostas da seguinte forma, segundo relatório do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (2002):  no primeiro nível posicionam-se os parceiros de risco, que são as empresas que assumem riscos financeiros nos projetos. Esses parceiros, na grande maioria internacionais, desenvolvem e produzem os produtos ou sistemas principais de um avião, como os hidráulicos, aviônicos, propulsivo, asas, trem de pouso, empenagem, interior, fuselagem ou partes da, etc. Como exemplo podemos citar os motores ou turbinas, que representam entre 25% a 40% do custo de produção de um avião, envolvem um alto grau de complexidade tecnológica, possuem uma escala de produção limitada e seus custos de desenvolvimentos são da mesma ordem de grandeza do avião que o utilizará;  no segundo nível encontram-se os fornecedores estrangeiros que produzem os sistemas ou produtos especificados pela EMBRAER; e  no terceiro nível estão as empresas fornecedoras nacionais que são as empresas que recebem a matéria-prima e o desenho da EMBRAER, vendendo a esta apenas serviços de mão-de-obra. Druck (2007) explica que sempre houve terceirização, mas que ela toma um novo caráter a partir da década de 1990, porque atinge não somente as áreas periféricas, mas também as “nucleares” ou centrais (produção/operação, manutenção, usinagem etc.), passando a ocupar um lugar central nas mudanças da organização do trabalho. Foram criados projetos de “valorização humana” dentro da empresa. A nova direção atentou para o fato de que o trabalho vivo era essencial para a empresa e a participação dos empregados, enquanto “colaboradores da empresa”. Isso era de fundamental importância no que diz respeito ao retorno financeiro. O plano, intitulado “Projeto Transformação” (TOR), tinha como base a transformação de gestores que seriam os encarregados de melhorar o relacionamento entre funcionários, a comunicação e a imagem interna da empresa, garantindo assim que as metas e objetivos da empresa fossem atingidos. (OLIVEIRA, 2002, p. 35). O Projeto Transformação já fazia parte da reestruturação organizacional da empresa e se iniciou no ano de 1996. O projeto tinha dois pontos principais: a formação de gestores e a formação de times de trabalho. Os gestores estariam encarregados de transmitir os novos conceitos da empresa aos empregados. A idéia de consolidar times de trabalho é consonante com os modelos modernos de organização do trabalho, mais próximos ao denominado modelo toyotista. A idéia de executar o Projeto Transformação, segundo Oliveira (2002), era “trazer mais flexibilidade, interação e autonomia das ações da empresa”, tendo a “cooperação entre as pessoas” como “eixo estratégico do projeto”. Mas que, acima de tudo, proporcionou uma redução significativa do tempo de trabalho para alcançar os resultados estabelecidos. Dentro do programa de reestruturação organizacional estava o emprego do modelo de liderança matricial, [...] na qual o ocupante não possui uma denominação de cargo atrelada à estrutura organizacional e nem mesmo tem posição identificada na estrutura, pois normalmente lidera a execução de um trabalho, com prazo previsto para seu resultado, contando com funcionários das diversas áreas formalmente constituídas. Sua atuação é como consultor e facilitador em todo o processo. (BERNARDES, 2000, p. 282). Também houve a formação de times de trabalho e, para cada missão, seja o desenvolvimento de um novo produto ou melhoria de processos e sistemas, os times são compostos por profissionais de todas as áreas envolvidas: técnica, produção, suporte ao cliente, suprimento, etc. Até a privatização, a área de Recursos Humanos da empresa se preocupava com a profunda especialização do funcionário. A estratégia de buscar profissionais polivalentes era mais interessante, por facilitar a mobilidade das funções e o trabalho em equipes. Assim, foi elaborado um novo plano de cargos, remuneração e carreira, bem como um novo perfil de recrutamento dos novos funcionários. O sistema do novo plano, denominado avaliação e capacitação graduada é baseado nas habilidades do empregado, ou seja, gestão por competência. Portanto, a remuneração a empresa passou a ter o caráter de remuneração global, ou seja, uma remuneração fixa (de acordo com a realidade do mercado) assomada a uma remuneração variável (remuneração em função dos resultados, “alinhando” os objetivos individuais com os empresariais). Outra transformação substancial foi na linha de produção. As aeronaves até então fabricadas pela Embraer (ERJ-135, ERJ-140, ERJ-145, entre outras), seguiam o sistema de montagem em linha, muito conhecido na indústria automobilística. O novo modelo, o ERJ- 170, porém, se ajusta a um novo tipo de montagem, chamado montagem em doca. A Montagem em Linha é o sistema de produção que se caracteriza pela movimentação do produto enquanto que a mão-de-obra permanece fixa durante as etapas do processo produtivo. Já na Montagem em Doca, o sistema de produção se caracteriza por posição fixa do produto, enquanto que os vários grupos de trabalho que montam o avião se aproximam do processo produtivo quando necessário, o chamado trabalho volante11. Também ocorreu um desenvolvimento no processo de parcerias com o intuito de otimizar a produção. Durante a produção do ERJ-145, foram feitos acordos com 4 parceiros e 350 fornecedores. Já para a produção do ERJ-170, foram feitos acordos com 16 parceiros e apenas 22 fornecedores. Os novos padrões de redução de custos e de produção customizada, com maior de flexibilidade, integração e rapidez na produção e entrega de aeronaves impõem a difusão de técnica de lean production, a globalização de fases do processo produtivo, a seleção criteriosa de um número menor de fornecedores, e a especialização em atividades de design, desenvolvimento do produto e gestão estratégica da cadeia de suprimentos. [...] A redução de fornecedores externos e locais cria novas relações e parâmetros para a composição e integração da cadeia de suprimento global e local, implicando o encaminhamento dos fluxos de fornecimento de sistemas, partes, componentes, estruturas e serviços tecnológicos, em direção a “pacotes tecnológicos”. (BERNARDES; PINHO, 2002). Como pudemos constatar, a intensa reestruturação produtiva da empresa teve como objetivo a intensificação no processo de trabalho, a partir da maior extração de mais-valia pela flexibilização da produção, informatização, terceirizações, enfim, pelo maior esforço em integrar trabalhadores, equipamentos e informações, cujos impactos objetivos foram desemprego, precarização de parcela dos trabalhadores, maior extração de mais-valia absoluta e relativa através da conformação de times de trabalho e nova configuração do perfil de trabalhadores (chamados polivalentes), as quais caracterizam um modelo muito arraigado no paradigma toyotista, que, entretanto, não rompe com o modelo taylorista-fordista. Estoura a bolha – fim dos anos 2000 e o aprofundamento da crise No segundo semestre de 2008, jornais do mundo todo anunciavam que estávamos numa crise sem precedentes na história. Fica patente que esta crise não é tão recente, ela corresponde às tentativas capitalistas de solucionar a crise dos anos 1970. Muitos insistem em chamá-la somente de crise financeira, o “estouro da bolha”, desconectando-a da sua vinculação mais real, a atividade produtiva capitalista, o processo de produção cuja meta principal é valorizar valor. Como vimos, muitas foram as respostas dadas à decrescente taxa de lucro: intensificação da exploração do trabalho, seja pela implementação de tecnologia de informação, novos softwares e hardwares, etc., seja pelo novo modelo de organização científica do trabalho, o toyotismo. Houve também um reforço da divisão internacional do trabalho, com as aberturas comerciais e privatizações implementadas por governos neoliberais, o que permitiu uma redução dos valores dos componentes do capital total, permitindo aumento da taxa de mais-valia. Além destes, o elemento de maior relevância, que ganhou maior proporção nas últimas décadas, foi o investimento em capital fictício. A princípio, a crise surge como se fosse apenas uma crise de crédito e de dinheiro. Mas é preciso olhar o que ocorreu antes da crise de crédito: houve uma expansão do crédito. “As crises de superprodução no capitalismo são a combinação da superacumulação de capitais (queda da taxa de lucro) com a superprodução de mercadorias (desvalorização do capital)” (Romero, 2009, p. 22). É portanto uma crise que atinge o âmbito da produção e da circulação. 11 Este processo é reconvertido no ano de 2008 por aconselhamento da Consultoria da Toyota, que acredita que o processo em linha acelera a intensidade e o tempo de produção, há menos tempo morto. Como já apresentado, o investimento em tecnologia para incrementar a produtividade, reduz o número de trabalhadores, gerando queda da taxa de lucro. Porém em setores altamente concentrados, cujos investimentos estão na casa dos bilhões, a massa de mais- valia12 ainda é alta. Buscando maior rentabilidade, os capitais são migrados para outros setores, tais como ações e especulações financeiras. Ou seja, é por conta de um crescimento econômico (e pela tentativa de fuga à taxa tendencialmente decrescente de lucro) que surgem fenômenos tais como o aumento de inflação (especulação para aproveitar o boom econômico), expansão de crédito e crescimento do mercado de ações (refúgios dos capitais ociosos do setor produtivo). “A crise se revela justamente no momento em que esta quantidade excedente de mercadorias, empréstimos e ações supervalorizadas precisam ser convertidas em dinheiro e, na dificuldade da conversão, começam a implicar desvalorização abrupta destes capitais” (Romero, 2009, p. 23-4). A Embraer sofreu impactos desta crise. Com um pouco de atraso em relação a empresas automobilísticas tais como General Motors, Chrysler e Ford, por conta da sua cadência produtiva ser bem mais lenta, mas sofreu. Vejamos as raízes das implicações e como a empresa lidou com os reveses. A reestruturação acionária de 2006 foi um salto na financeirização da empresa. Os motivos expostos pela empresa foram: A proposta de reestruturação societária tem como objetivo estratégico a criação de bases para a sustentação, o crescimento e a perpetuidade dos negócios e atividades da Embraer, uma vez que sua implantação assegurará à Embraer o acesso adequado ao mercado de capitais, com a conseqüente ampliação de sua capacidade de financiamento e desenvolvimento de programa de expansão.13 Esta mudança tornou o controle acionário da empresa estrangeiro. 49,4 % das ações ordinárias, ou seja, com direito a votos, estão na bolsa de Nova York, sendo uma grande porcentagem nas mãos de bancos e agências financeiras norte-americanas (Janus Capital Group, Oppenheimer Funds, Thornburg Investment, Barclays PLC etc). Godeiro (2009) nos alerta para o fato de que grande parte dos detentores das ações da Embraer na Bolsa de Valores de São Paulo também é de estrangeiros, maioria de bancos e investidores dos EUA. Fonte: Site da Embraer. 12 Massa de mais-valia corresponde à soma da mais-valia extraída. 13 Press release da Embraer apud GODEIRO, 2009, p. 56. Dotados destas informações, fica claro como a crise atinge diretamente a empresa. Chesnais (2009) afirma que os Estados Unidos já foram a sede do crash da bolsa em 2001 e desde julho-agosto de 2007 são eles de novo o epicentro da crise, cujo elemento central é seu sistema bancário. “A brutalidade da propagação mundial da crise em sua dupla dimensão financeira e de superprodução resulta precisamente do fato de que sua sede são os Estados Unidos”. Segundo Mészáros (2009, p. 27), o conjunto da dívida latino-americana, em torno de US$ 350 bilhões, é insignificante se confrontado com o endividamento dos Estados Unidos, tanto interno quanto externo. O mundo tem dificuldades cada vez maiores de preencher este “buraco negro” em escala crescente, dado o apetite insaciável dos EUA pelo financiamento da dívida (mesmo com a maciça contribuição chinesa). Mészáros alerta para o possível calote dos EUA, que pode ser mais, ou menos, brutal. Enquanto o calote não vem, a solução tem sido que “cada grande empresa se lembra imediatamente que tem uma ‘nacionalidade’. Ela clama seu governo[...]” (Chesnais, 2009, p. 24), clama pelo interesse nacional para socorrê-la. Deste modo, os Estados-nação se reafirmam frente à bancarrota financeira. Tendo em vista a socialização dos prejuízos, o Estado assume as perdas do grande capital. Tais medidas são anunciadas pelos governos como únicas alternativas em momentos de crise para salvar os empregos e evitar a recessão econômica. No entanto, elas vão em sentido oposto, pois aumentam ainda mais a concentração de renda, retirando recursos públicos de áreas sociais e da previdência, de investimentos em obras de infra-estrutura, de reajuste de salário do funcionalismo público e do salário mínimo. Ao passo que concentram ainda mais a renda nacional na mão de poucas empresas [...]. (ROMERO, 2009, p. 21). O que fazer quando o orgulho nacional do “mais pesado que o ar” tem 70% de suas ações nas mãos dos estrangeiros e potencializa cada vez mais a possibilidade de se tornar uma subsidiária de uma grande indústria aeronáutica estrangeira? A EADS, grupo do qual a Airbus faz parte explicitou seu interesse em transformar a Embraer em uma fornecedora de peças para completar a produção da Airbus, especialmente a família de jatos A-318, de 107 assentos, na mesma época em que a Embraer começava a produção dos ERJ- 170 e ERJ-190, jatos de 98 a 122 assentos (Godeiro, 2009, p. 55). A crise chegou fortemente à Embraer em 2009 e, segundo dados da própria empresa, esta apurou uma despesa com variações monetárias e cambiais de R$ 188,8 milhões em 2008, por conta da contabilização de provisões relativas a operações de hedge14 operacional15. Quem paga esta conta? Os trabalhadores. Em 19 de fevereiro de 2009, 4.273 trabalhadores foram demitidos, a maioria de sua sede, em São José dos Campos-SP. Como já expusemos, o fenômeno da superpopulação relativa é inerente ao desenvolvimento do capitalismo, a concorrência entre os trabalhadores possibilita a intensificação do trabalho pelo aumento do grau de exploração e pressiona os salários para baixo. Godeiro (2009, p. 21) indaga: A empresa demitiu mais da metade do setor produtivo da planta, apesar de alegar que a queda da produção será de 30%. Se para produzir 204 aeronaves em 2008 ela gastou 322 mil horas, e agora dispondo de apenas 159 mil horas semanais com os horistas que permanecem na empresa, como ela produzirá 242 aeronaves em 2009? 14 Operações hedge tentam proteger os negócios de alterações na taxa de câmbio. Se uma empresa tiver dívidas em dólar, e queira se prevenir de eventual alta desta moeda, ele recorre à Bolsa e compra um contrato de dólar futuro. Se o dólar ultrapassar a cotação fixada, a empresa estará protegida. Mesmo assim, a empresa em questão obteve uma enorme perda financeira. 15 Balanço da Embraer – 2008 apud GODEIRO, 2009, p. 16. A resposta é a intensificação da produção. Porém, como foi dito, haverá um aumento na composição orgânica do capital, o que se reverterá em nova queda da taxa de lucro, potencializando a explosão de nova crise. Porém, a contradição inerente ao capitalismo traz à tona novas questões. Aliás, Lukács (2003) teoriza a respeito das potencialidades da consciência proletária mediante as crises, de percepção da totalidade e da unidade de classe e de que “somente a consciência do proletariado pode mostrar a saída para a crise do capitalismo” (Lukács, 2003, p. 183). Mészáros (2009, p. 55) aponta para o fato de que a crise econômica traz consigo também uma crise em torno do controle social. Segundo ele, “a função do controle social foi alienada do corpo social e transferida para o capital, que adquiriu assim o poder de aglutinar os indivíduos num padrão hierárquico estrutural e funcional, segundo critério de maior ou menor participação no controle da produção e distribuição”. Esta visão de totalidade proporcionada pela crise, que é cada vez mais profunda, vem acarretando em percepção do capital dos seus limites e, mais ainda, percepção dos trabalhadores dos limites do capital. Não é à toa que a idéia de controle dos trabalhadores ganha cada vez mais importância no mundo, cujo exemplos mais claros são as mais de 200 fábricas ocupadas por trabalhadores na Argentina. Os trabalhadores da Embraer também lançam nova campanha neste sentido: “reestatização da Embraer, sob controle dos trabalhadores!” A história das crises nos deu lições suficientes para termos claro que a crise só tem fim com a derrubada do sistema capitalista, com o fim das classes sociais e a “instituição de uma ordem social alternativa da qual as antinomias e contradições práticas do modo de sociorreprodução do capital sejam efetivamente removidas” (Mészáros, 2009, p. 128). Referência bibliográfica ALVES, G. O novo (e precário) mundo do trabalho. Reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: Boitempo, 2000. ANTUNES, R. A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula). Campinas: Autores Associados, 2004. ________. Os Sentidos do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2001. ________. Uma esquerda fora do lugar. O governo Lula e os descaminhos do PT. Campinas: Autores Associados, 2006. BERNARDES, R. EMBRAER. Elos entre Estado e Mercado. São Paulo: Hucitec, 2000. 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Título: A Economia Solidária diante do desfio da igualdade de gênero Autora: Ioli Gewehr Wirth1 Sessão Temática: Discriminação e precariedade no trabalho, trabalho degradante e trabalho decente Resumo: Em um contexto de profundas mudanças no mundo do trabalho, a Economia Solídária se coloca como uma alternativa de geração de trabalho e renda que tem potencial para inaugurar outras relações sociais. Em que medida essa proposta responde ao desafio da igualdade de gênero? Este trabalho persegue essa questão a partir de um olhar sobre os antecedentes históricos da Economia Solidária, a partir dos estudos sobre gênero e mercado de trabalho realizados pela sociologia do trabalho e pela economia; e, a partir da análise das únicas duas obras disponíveis sobre o assunto, uma espanhola e outra francesa. Constatamos dois cenários distintos para se pensar a construção da igualdade de gênero: os empreendimentos constituídos por homens e mulheres e os empreendimentos exclusivamente femininos. No interior dos empreendimentos mistos observa-se a tendência a reproduzir a divisão sexual do trabalho ao mesmo tempo em que existe espaço e potencial para inaugurar formas de organização que a superem. Os empreendimentos compostos exclusivamente por mulheres são reflexo da segmentação social das atividades femininas, ao mesmo tempo em que podem encontrar na Economia Solidária formas de valorização que rompam com essa condição. Confrontamos esses cenários com um sintético quadro dos dados quantitativos disponíveis sobre Economia Solidária e gênero no Brasil. Ao final, debatemos a pontencialidade da superação da desigualdade de gênero de forma articulada à superação da desigualdade de classes como duas dimensões do processo autogestionário. Palavras-chave: Economia Solidária, relações de gênero, cooperativismo, autogestão. 1 mestranda na área de Educação e Sociologia , da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, orientada pela Profa. Dra. Márcia de Paula Leite, bolsista FAPESP. 1 A Economia Solidária diante do desfio da igualdade de gênero Resumo Em um contexto de profundas mudanças no mundo do trabalho, a Economia Solídária se coloca como uma alternativa de geração de trabalho e renda que tem potencial para inaugurar outras relações sociais. Em que medida essa proposta responde ao desafio da igualdade de gênero? Este trabalho persegue essa questão a partir de um olhar sobre os antecedentes históricos da Economia Solidária, a partir dos estudos sobre gênero e mercado de trabalho realizados pela sociologia do trabalho e pela economia; e, a partir da análise das únicas duas obras disponíveis sobre o assunto, uma espanhola e outra francesa. Em seguida, apresentamos um sintético quadro com os dados estatísticos disponíveis sobre Economia Solidária e gênero no Brasil e realizamos algumas comparações com as tendências confirmadas para o caso espanhol. Ao final, indicamos algumas potencialidades que precisam continuar sendo exploradas. A articulação entre economia solidária e gênero, um olhar histórico A articulação entre economia solidária e gênero ou a necessidade dela remete ao início do cooperativismo proposto e praticado pelo socialismo utópico. A partir das experiências pioneiras de Owen, Fourier e a cooperativa de Rochdale, na Europa do século XVIII construíram-se as bases para uma organização do trabalho alternativa ao capitalismo. A propriedade coletiva dos meios de produção, a decisão coletiva e a igualdade econômica dos sócios são princípios que norteiam também os empreendimentos solidários atuais. As experiências pioneiras como a primeira cooperativa de consumo inglesa (1827), a criação da primeira cooperativa de produção francesa (1832), as experiências de intercâmbio de produtos entre cooperativas por meio de uma bolsa de trabalho, criada por Robert Owen, além da historicamente conhecida cooperativa de consumo dos tecelões de Rochdale, de 1848 (Buber, 1971) parecem ser organizações exclusivamente masculinas. A alternativa às duras condições de trabalho impostas pela 1ª. Revolução Industrial deveria ser uma alternativa somente ao trabalho masculino? Nobre (2003) pergunta: onde estavam as mulheres nesse período? O trabalho feminino, amplamente utilizado nas tecelagens da 1ª. Revolução Industrial é pouco abordado nos documentos históricos da época ou até mesmo enxergado como problema pelo sindicalismo nascente, que considerava que este desestruturava o trabalho masculino e a vida familiar. Sindicalismo e cooperativismo nascem como propostas de enfrentamento ao capitalismo, mas que não tocam na questão da desigualdade de gênero. (Nobre, 2003) É importante notar que a categoria gênero, bem como as reivindicações feministas, enquanto movimento, datam de período histórico posterior, conforme será abordado no tópico seguinte; no entanto, a categoria gênero é também uma categoria de análise histórica, que cumpre o papel de recuperar aquilo que uma história orientada por um olhar androcêntrico foi incapaz de registrar. Nesse sentido, a historiografia atual se empenha em comprovar que “As mulheres sempre trabalharam!” (Gardey, 2003, pp.44). Estudos recentes demonstram que o trabalho das mulheres sempre coexistiu com a atividade masculina, mas que possivelmente se configura por ofícios mais difusos ou específicos e sempre atrelados ou interrompidos quando aumentam as responsabilidades domésticas, como durante a maternidade (Gardey, 2 2003). Além disso, o não registro da atividade doméstica das mulheres como trabalho faz parte desse mesmo olhar androcêntrico. Nobre (2003) destaca que a economia política, ao considerar o trabalho doméstico como improdutivo, cumpriu um importante papel para a invisibilização do trabalho feminino. Nessa mesma direção Carrasco (2006) analisa como essa teoria econômica, que se estabelece no princípio do capitalismo, preocupada em compreender a criação da riqueza através do trabalho assalariado e a distribuição da renda entre as classes sociais contribuiu para separar definitivamente o trabalho da vida e para transformá-lo em sinônimo de emprego. “Não é estranho então que esse contexto produza uma definição dos espaços público e privado e comece uma tradição que ignora a divisão de trabalho por sexo e oculta o trabalho familiar e doméstico e sua articulação com a reprodução do sistema capitalista.” (Carrasco, 2006, pp. 5 – tradução livre do espanhol) As evidências de desigualdade salarial, de segmentação da mão de obra feminina, bem como a violência contra a mulher no local de trabalho permeavam o cenário das primeiras fábricas. As práticas desiguais passavam a ser amparadas por uma teoria econômica. Nesse processo se configurou o que Joan Scott denomina a construção discursiva de uma divisão sexual do trabalho. (Scott, 1991 apud Nobre, 2003) Essa divisão sexual, aparentemente, foi transladada às cooperativas da época. Nobre (2003) levanta dados sobre a existência de cooperativas de consumo, exclusivamente femininas, que permaneceram quando o modelo de trabalho fabril já havia se tornado hegemônico. Ou seja, uma hipótese levantada é que as mulheres passam a assumir essa prática quando ela já não é mais fundamental para os homens. Eram cooperativas por meio das quais as mulheres se organizavam para baratear principalmente a aquisição de alimentos. Uma prática social fundamental, que se revela uma tradição do trabalho feminino, mas que não representava ameaça ao modelo econômico vigente, conforme foi o cooperativismo pioneiro. “Aos poucos foi se organizando a família operária: marido-provedor, esposa - dona de casa. Mas os salários dos trabalhadores eram baixos e grande parte era utilizada na compra de alimentos. No final do século XIX cresceram as cooperativas de consumo de alimentos organizadas por mulheres, como a Women’s Cooperative Guild criada em 1883 e que chegou a ter 67 mil membros em 1930.” (Tilly e Scott, 1989, apud Nobre, 2003). Assim como indagar sobre a atuação das mulheres durante o surgimento das primeiras cooperativas, caberia perguntar por sua presença nas experiências de autogestão que acompanharam as mais importantes lutas operárias. A autogestão, assim como o cooperativismo, é um elemento caro ao atual movimento de Economia Solidária e poderia ser considerada uma de suas raízes. Durante a Comuna de Paris (1871), a Guerra Civil Espanhola (1936-39), a autogestão obreira na Yugoslavia (a partir de 1950), a revolução dos cravos (Portugal, 1974) processaram-se experiências de luta social, de reorganização da vida da cidade, de autogestão das fábricas, de produção de outros meios de comunicação e de reorganização de diferentes serviços coletivos. Qual foi o papel das mulheres nesses períodos curtos, porém de intensa transformação das relações sociais? Há alguns indícios de que essas situações transformaram também, em alguma medida, as relações de gênero. 3 Nesse momento nos deteremos apenas a apontar esse questionamento, pois ainda não temos informações suficientes para traçar um quadro mais geral. Para além de preencher uma lacuna histórica, a articulação entre Economia Solidária e gênero é um tema que tem enorme pertinência para compreender o contexto atual de (re)emergência do trabalho associativo. Ainda mais quando esse está articulado à crise do trabalho e à precarização das condições de sua realização, que afeta de forma mais intensa as mulheres. Ainda ausente nas principais referências teóricas sobre a Economia Solidária no Brasil (Santos, 2002, Gaiger, 2002, Singer 2002 e Laville, 2004) a perspectiva de gênero se apresenta como uma possível convergência entre o movimento de Economia Solidária e o movimento feminista. Os principais estudos sobre Economia Solidária recuperam a origem do cooperativismo e entendem que o desafio do atual movimento está na superação da desigualdade de classes. Nesse sentido, o empreendimento autogestionário é a concretização da igualdade e democracia no local de trabalho, tal como propunha o socialismo utópico. A desigualdade de gênero era uma questão teórica ausente no contexto histórico do séc XVIII, quando surgiu o cooperativismo, mas passa a ser uma questão fundamental para compreender as lógicas de opressão a partir da década de 1970, quando iniciam as pesquisas sobre gênero. A lacuna teórica sobre a desigualdade de gênero no cooperativismo pioneiro é, portanto, justificável, mas é premente que esta seja preenchida no presente. A categoria gênero A bibliografia sobre a divisão sexual do trabalho, sobre os trabalhos femininos ou sobre a história das mulheres é extensa e elaborada a partir de diferentes áreas do conhecimento. A sociologia, a história, antropologia e a economia, para citar somente algumas, trazem contribuições e reivindicações em relação à dinâmica dos papéis sociais de gênero. Daí é possível constatar a transversalidade da categoria gênero bem como identificar a sua relação com o movimento feminista das décadas de 60 e 70. As militantes feministas provinham de diferentes áreas e tradições acadêmicas para onde levaram e aprofundaram as questões do movimento; identifica-se assim uma via de mão dupla entre a produção acadêmica sobre gênero e o movimento feminista. Nesse contexto é cunhada a categoria de análise gênero, uma categoria que dá sentido às reivindicações feministas ao mesmo tempo em que lhes confere legitimidade acadêmica. (Scott, 1990) A partir dessa categoria supera-se a visão biológica que diferenciava homens e mulheres, à qual estava atrelada uma explicação “natural”, e passa- se a considerar a construção social que se sobrepõe às diferenças biológicas. Segundo Scott (1990) “Gênero é a organização social da diferença sexual. O que não significa que gênero reflita ou implemente diferenças físicas fixas e naturais entre homens e mulheres mas sim que gênero é o saber que estabelece significados para as diferenças corporais.” Essa categoria se concentra sobre a construção social de homens e mulheres e sobre o desvelamento das desigualdades que se estabelecem durante o processo de diferenciação. Ao abordar o gênero dessa forma admiti-se a possibilidade de transformação dessas relações. Nesse sentido fica evidente a articulação dos estudos acadêmicos com o movimento feminista, pois o gênero é uma categoria de análise que nasce comprometida com a mudança. Configura uma maneira de interpretar cientificamente o mundo em seu processo 4 de constante transformação em detrimento da visão biológica, preponderante anteriormente, que conferia às funções maculinas e femininas o caráter estático e imutável. Enquanto processo de desnaturalização em direção ao desvelamento de desigualdades sociais a origem da categoria gênero se assemelha a categoria de raça. Ambas são categorias estruturantes, que dizem respeito a construções sociais sobre características genótipas e precisam ser articuldas entre elas e com a categoria de classe social. Após logrado o reconhecimento do gênero enquanto categoria de análise diversos estudos se empenharam em demonstrar que não se tratava de uma desigualdade secundária, mas de um dos pilares sobre o qual se sustenta a desigualdade social. Na perspectiva de reivindicar um status de igualdade para as diferentes desigualdades, destaca-se a contribuição da pesquisadora Daniélle Kergoat: “Relações de classe ou relações de sexo, antagonismos de classe ou antagonismos de sexo, tudo se passava como se a importância dada a uma das relações implicasse deixar a outra no plano secundário. Foi Daniele Kergoat que conceitualizou essas duas relações sociais em termos de “coextensividade”, ou seja, em termos de uma sobreposição parcial de uma pela outra. De fato, nesse caso, há uma recusa a pensar em termos de articulação produção/reprodução e, ao mesmo tempo, uma “recusa a hierarquizar” relações sociais.” (Kergoat apud Hirata, 2002, pp.277) À medida que se relega à desigualdade de gênero um lugar coadjuvante em relação à desigualdade de classes se subestima o potencial de articulação que possuem essas duas opressões. Nesse sentido a categoria gênero se articula com as categorias de raça e classe, sem que essas relações sociais precisem ser hierarquizadas. Trabalho e gênero A categoria gênero complexifica e desestrutura certezas anteriores e abre um novo campo de investigação. Esse campo estremece alguns universos sociais separados e pré- fixados por diversas áreas do conhecimento, como os universos mercantil e não-mercantil, o trabalho produtivo e o reprodutivo, o público e o doméstico. Os primeiros estudos sobre o mundo do trabalho na ótica do gênero datam de 1950- 1960. Neste momento, entretanto, as análises sobre as mulheres no mercado de trabalho eram tratadas à parte das discussões do mundo do trabalho como um todo (Maruani e Hirata, 2003, pp.15). A pesquisa sobre as mulheres no mercado de trabalho adquire um sentido politicamente mais importante quando passa a adotar um olhar mais amplo, analisando não só a condição de trabalho da mulher comparativamente à dos homens, mas também considerando a divisão sexual do trabalho, que responsabiliza a mulher quase que exclusivamente por todos os afazeres domésticos, como decisiva para esta análise. (Maruani e Hirata, 2003) Mas o que é a divisão sexual do trabalho? Há dois princípios praticados socialmente que organizam a divisão sexual do trabalho. O primeiro é a existência de dois tipos de trabalho: um para homens e outro para mulheres. O segundo é relativo à hierarquização desses tipos de trabalho: o trabalho masculino é considerado mais importante e pos isso vale mais do que o trabalho feminino (Kergoat, 2002). 5 “A divisão do trabalho entre os homens e as mulheres é em primeiro lugar a imputação aos homens do trabalho produtivo – e a dispensa do trabalho doméstico – e a atribuição do trabalho doméstico às mulheres (...) o “valor” distingue o trabalho masculino do trabalho feminino: produção “vale” mais que reprodução, produção masculina “vale” mais que produção feminina (mesmo quando uma e outra são idênticas). Esse problema do “valor” do trabalho – termo empregado aqui no sentido antropológico e ético, não no sentido econômico – atravessa toda a nossa reflexão: ele induz a uma hierarquia social. (Hirata e Kergoat, 2003, pp.113) Essa divisão, mais do que uma simples repartição de tarefas como defendem as teorias econômicas neoclássicas fortemente contestadas pelas economistas feministas (Carrasco, 2006), estabelece a dependência feminina. As mulheres são historicamente privadas de maior participação social, já que dependem financeiramente de seus maridos, pelos quais são representadas na esfera pública. A partir dessa perspectiva, a economia feminista concentra suas análises sobre a crítica à visão dicotômica dos universos mercantil e não-mercantil. Constatam que a economia é a área mais resistente às contribuições feministas, fato que atribuem ao poder político e social do qual goza essa disciplina e ao predomínio da teoria neoclássica. Essa abordagem teórica é especialmente problemática para compreender o trabalho feminino. A teoria neoclássica enfoca exclusivamente o universo mercantil e entende as mulheres de forma estereotipada como mães e donas de casa. Dessa maneira, o enfoque recai sobre o ator masculino e surge a idéia do homo economicus, um ser ambicioso, que persegue seus objetivos profissionais e age livremente no mercado. (Carrasco, 2008, pp.92). As economistas feministas combatem tal visão e apontam os limites teóricos dessa abordagem. Afirmam que o sistema econômico está amparado sobre o trabalho historicamente realizado pelas mulheres, pois o trabalho doméstico e de cuidados dá sustentação ao trabalho mercantil, mas não é contabilizado pela economia. “Como justificar que os trabalhos ditos “domésticos” não sejam nem contabilizados, nem remunerados, e portanto excluídos da esfera mercantil? Como explicar, por exemplo, que o trabalho realizado pelas esposas de agricultores ou de comerciantes na França até um período muito recente não tenha sido objeto de nenhum reconhecimento oficial? Para o feminismo de inspiração marxista, a explicação não contém nenhuma dúvida. A natureza dos serviços não é um argumento válido, pois esses mesmos serviços podem ser encontrados na esfera mercantil.(...) Alguns grupos sociais são excluídos da troca mercantil ou de certos tipos de troca, e essa restrição se refere freqüentemente às mulheres. Sabe-se até que ponto os papéis atribuídos aos homens e às mulheres variam segundo os contextos culturais e históricos” (Guerin, 2005, pp.49) Com base nesses exemplos Guérin (2005) afirma que a delimitação entre a esfera mercantil e a não mercantil acontece de forma totalmente arbitrária. Mais complexo do que reivindicar a remuneração e o reconhecimento desses trabalhos, as economistas feministas reivindicam uma outra forma de compreensão do sistema econômico, o que inclui a construção de indicadores estatísticos e conceitos a partir de uma lógica que negue o objetivo de acumulação de capital (CARRASCO, 2006 e 2008). 6 Para chegar a tal proposição, que significa um rompimento teórico radical com as idéias que sustentam o sistema econômico vigente, as economistas feministas defendem uma outra definição de trabalho e de economia. Gênero e Economia Solidária, primeiras aproximações A ampliação da noção de trabalho é uma questão chave para possibilitar a articulação entre trabalho e gênero, para tanto, as economistas feminstas recuperam a definição de Marx como a atuação humana sobre a natureza: “De fato, entendemos o trabalho com a prática de criação e recriação da vida e da convivência humana. Na experiência das mulheres, trabalho e vida são uma coisa só. O trabalho nos permite criar as condições adequadas para que a vida humana se desenvolva partindo das condições do meio natural. É atividade necessária para que a espécie humana – que não se adapta ao meio natural harmoniosamente – possa sobreviver nesse meio. Assim, também podemos entender o trabalho – da mesma forma que parte da tradição marxista – como a atividade que realiza o metabolismo necessário entre a espécie humana e a natureza. Dessa maneira, o trabalho se materializa como traço de união entre e humanidade e a natureza. Mas esse traço de união tem características diferentes quando o trabalho se destina a cuidar da vida ou quando sua finalidade é a produção capitalista de mercadorias. No primeiro caso, a partir da tarefa feminina de civilização e a partir da consciência ecológica, o trabalho se apresenta como colaboração com a natureza, modificando-a somente no imprescindível. No segundo caso, o que há é uma depredação sem limite”. (Bosch et al., 2005, pp. 331-332 apud Carrasco, 2008, pp.97) Aí reside uma possibilidade de articulação entre economia solidária e a proposta da economia feminista. Embora não exista consenso sobre o atual significado das experiências de Economia Solidária, se estariam mais para uma perspectiva de reforma ou transformação do sistema econômico, a economia feminista tal como a Economia Solidária aposta nessas experiências enquanto reais possibilidades de transformação social. Nessa medida, as duas perspectivas sinalizam para uma compreensão mais ampla de trabalho, que rompe com o objetivo de acumulação de capital. Dessa maneira, essa proposta de organização solidária abriria caminho para o questionamento da naturalização das formas de exploração, inclusive daquela organizada pela desigualdade entre os sexos: “A economia solidária aparece assim como uma proposta convergente com a luta feminista, na medida em que visibiliza e questiona a naturalização da divisão sexual do trabalho. Para isso é preciso garantir a distribuição igualitária dos trabalhos na família e na sociedade, desde uma nova matriz econômica que integre e valorize o trabalho reprodutivo como parte medular e inseparável da esfera produtiva.” (Dantas, 2008, pp.15 – tradução livre do espanhol) Sinalizar essa possibilidade não significa que os empreendimentos prontamente se tornarão sexualmente igualitários, muito pelo contrário, significa apontar mais um desafio que deverá ser assumido por empreendimentos, agências de fomento e governo. Esse desafio poderá se subdividir em duas frentes de ação simultâneas: uma, de longo prazo, que tem como horizonte a construção de um outro modo de compreender e 7 organizar a economia e o trabalho, que se paute por outros fundamentos, inclusive por uma relação mais igualitária entre os sexos, conforme aponta a economia feminista; outra, cotidiana, que diz respeito ao combate e à criação de alternativas à divisão sexual do trabalho em cada um dos empreendimentos, redes, fóruns e outros espaços da Economia Solidária. A seguir realizamos uma revisão bibliográfica das duas obras encontradas até o presente momento, que analisam especificamente a articulação entre Economia Solidária e Gênero. Cada uma das obras nos auxilia a compreender uma dimensão do desafio apontado. O início de um debate específico sobre economia solidária e gênero Encontramos duas obras que abordam diretamente o assunto, As mulheres e a economia solidária de Isabelle Guérin, editada em 2003 na França e traduzida para o português em 2005 e Mujer y trabajo em la Economí Social de Maria Antonia Ribas Bonet, 2005. As duas autoras são economistas, mas adotam enfoques distintos sobre a temática economia solidária e gênero. Guérin (2005) realiza um estudo de caso comparativo entre uma região da França e uma região do Senegal. A partir dessas realidades de diferentes hemisférios reflete sobre os sentidos e as possibilidades da Economia Solidária para o conjunto das mulheres em situação de pobreza. Ribas Bonet (2005) concentra-se sobre as possibilidades de transformação das relações de gênero no interior das cooperativas e sociedades laborais2 que compõem a Economia Social espanhola. Enquanto a primeira concentra-se nos sujeitos que praticam outras formas de organização social, a segunda pergunta sobre a transformação das relações sociais no interior das unidades produtivas. Os dois enfoques são importantes e complementares para se pensar a articulação entre Economia Solidária e gênero. A seguir cada um deles será apresentado de forma separada e ao final as convergências, divergências e complementaridades serão abordadas. Guérin e as mulheres na Economia Solidária O livro de Guérin (2005) baseia-se em uma pesquisa realizado com 150 mulheres, parte delas residente na região de Lyon na França, e outra no Senegal, na África. A partir destas realidades a autora trabalha com as categorias países do norte e países do sul, que não pretende abranger a totalidade dos hemisférios, mas confrontar representações sociais a respeito do sexo construídas nessas culturas tão diferentes. A hipótese subjacente a esta escolha é que o esgotamento de um modelo de desenvolvimento e o conseqüente empobrecimento da população se manifesta, mesmo que de forma diferente, nos dois hemisférios, tendo conseqüências específicas para as vidas das mulheres. O método escolhido é o de narrativas de vida, que permite identificar o trânsito das mulheres pelas diferentes dimensões: doméstico e público, monetário e não-monetário, profissional e familiar. É possível afirmar que essa é uma metodologia coerente com o novo enfoque proposto pela economia feminista, que deve romper com as separações fictícias desses universos e apontar para suas complementaridades. Conforme indicado no tópico anterior, para a economia feminista a própria lógica de compreensão da economia precisa ser distinta. 2 Sociedade laboral é uma forma jurídica espanhola, onde trabalhadores possuem a maior parte do capital social. Para constituir uma sociedade laboral são necessários no mínimo 3 sócios. 8 “Cada tomada de decisão, longe de se limitar a uma racionalidade instrumental, obedece a um julgamento de sentido e a um julgamento moral (...) Por isso, cada ação não se reduz à sua singularidade. (...) Apreender os julgamento de cada um é pois compreender sua própria lógica de ação, mas também é apreender uma parte do universal: a da norma, da regra. Ao esmiuçar a vivência de cada mulher, ao buscar as lógicas de produção de sentido de seus discursos, acaba transparecendo muito mais que a sua trajetória pessoal. Apreende-se a persistência e a reprodução dos mecanismos de divisão sexual dos papéis, os modos de construção identitária, e mais geralmente ainda, os sistemas de valores e de representações sociais.” (Guerín, 2008 pp.91) Dessa maneira, a autora demonstra que a metodologia de pesquisa utilizada permite a observação de uma dialética da transformação social dos papéis de gênero e contribui para responder a seguinte pergunta: Em que medida a interação das mulheres com uma outra economia possibilita a transformação das relações de gênero na sociedade? “Estamos diante de uma dialética permanente entre um “todo social” e as partes desse todo: cada trajetória e cada vivência existem apenas por meio de um todo, que elas contribuem para atualizar mas também para fazer evoluir. É essa dialética permanente que dá todo seu significado às experiências pessoais.” (Guérin, 2005, pp.91) O ponto de partida da autora é a compreensão do significado das tarefas historicamente desempenhadas por mulheres. Ela identifica a construção social do altruísmo feminino, ou seja, a capacidade atribuídas às mulheres de cuidar dos outros. Esse altruísmo se manifesta por meio da realização de “atividades de proximidade”, que vão desde as tarefas domésticas familiares, ações de educação, de assistência, ajuda mútua, cuidados de saúde até as ações de caridade realizadas por mulheres pertencentes a classes sociais mais altas. Por meio dessas ações elas estriam praticando uma “justiça de proximidade” e respondendo a um dever social. Tais ações de proximidade estariam em um limiar entre formalidade e informalidade, cumpririam em certa medida um papel de mediação de acesso a serviços públicos, o que daria às mulheres um importante papel na conversão de direitos formais em reais. A partir dessa compreensão, a autora identifica uma possibilidade de articulação entre Economia Solidária e gênero. Compartilha com Laville (Laville, 1994 apud Guérin, 2005) uma definição ampla de economia solidária “um meio para reformular a articulação entre mercado, autoridades públicas e sociedade civil” e aposta nela como possível solução não só para os diferentes tipos de pobreza, mas também para avanços na superação das desigualdades de gênero. No estudo de caso africano, são enfocadas participantes de organizações femininas informais do Senegal; no francês, a autora analisa mulheres integrantes de grupos nas periferias de Lyon. Face a essas realidades distintas, a autora enxerga na economia solidária um grande potencial de solução. Sua principal questão é em relação ao acesso aos direitos e a conversão destes em direitos reais. “Devido a essa heterogeneidade, como fazer com que as pessoas – homens ou mulheres – sejam capazes de converter seus direitos, para retomar a expressão de 9 Sen, e como compensar o caráter desigual de uma justiça universalista e, portanto, cega às dificuldades experimentadas por certas pessoas, em razão de particularidades individuais ou sociais, para transformar seus recursos e seus direitos em reais potencialidades?” ( Guérin, 2005, pp.213) Por meio dos estudos de caso, a autora mostra alguns exemplos em que as organizações de mulheres, seja no Senegal, seja na periferia da França, estabelecem relações de reciprocidade, ajuda mútua que de fato facilitam o acesso aos direitos sociais, quando esses existem, como no caso Francês, ou criam alternativas sociais quando o Estado de direitos não se concretizou, como no Senegal. No caso africano, o acesso ao microcrédito, por meio de associações femininas, teve bastante destaque e no caso francês, as associações de apoio a imigrantes são as experiências relatadas mais marcantes. A autora não se furtou a discutir o caráter contraditório dessas experiências. A horizontalização dos processos de decisão ou a transformação das relações de gênero não são aspectos automaticamente presentes nessas realidades. Nas associações de mulheres senegalesas, a pesquisadora identificou um forte centralismo de lideranças femininas, geralmente pertencentes a classes mais abastadas, que muitas vezes exerciam seu poder com autoritarismo e em benefício próprio. (Guèrin, 2005, pp.197). O que não significa que a implantação do microcrédito naquelas regiões pobres tenha deixado de ter sucesso, mas que o microcrédito é apropriado pelas mulheres africanas sem alterar estruturas sociais já existentes. Dessa forma, Guérin conclui para o caso Africano que, em grande medida, as organizações femininas se contentam em responder às necessidades concretas e práticas das mulheres, sem questionar a divisão dos papéis e dos poderes. (Guèrin, 2005, pp.208) No caso francês, a autora destaca que as associações de apoio a imigrantes são de extrema importância para facilitar o acesso aos direitos garantidos pelo Estado Francês. Há relatos positivos, nos quais as associações conseguem promover processos educativos que permitem aos beneficiários compreender melhor as estruturas burocráticas e as possibilidades de ação cidadã. Dessa maneira, a autora identifica uma atuação mais consciente por parte dos beneficiários, o que facilita o acesso aos direitos. A autora relata também que algumas dessas iniciativas já foram reconhecidas pelo Estado Francês, que aposta nelas como espaços de mediação entre a política pública universal e as necessidades locais. Dessa maneira, esse tipo de ação começa a se institucionalizar na forma de um novo serviço público. Enquanto tal, essa “atividade de proximidade” passa a ser reconhecida e valorizada socialmente, o que possibilita inclusive que homens também sejam contratados. Assim, a autora demonstra um resultado concreto da articulação gênero e Economia Solidária: uma nova valorização social atribuída a uma atividade de proximidade alterou também seu caráter exclusivamente feminino. Para além da transformação das relações sociais que essas experiências podem significar para os atores nela envolvidos, a autora discute também o significado destas para a relação entre Estado e Sociedade. Em que medida elas podem significar a transformação do Estado em direção a uma sociedade com justiça social? Essa mesma questão é colocada para as duas realidades analisadas: para a França, que teve o Estado do Bem-Estar-Social firmemente instituído e agora experiencia o desmonte de alguns serviços sociais e para o Senegal que nunca teve um Estado capaz de suprir suficientemente as necessidades sociais mais básicas. Como a Economia Solidária se insere nesses contextos e qual sua capacidade de resposta tendo em conta também o 10 significado específico dessas realidades para a vida das mulheres, visto que são elas as mais fortemente afetadas pela precarização do trabalho e das condições de vida? Como compreender as experiências de organização feminina que historicamente atuam para amenizar os problemas sociais e como aproveitá-las para uma possível nova institucionalidade? Sobre essa questão, a autora destaca o caráter dual que a Economia Solidária pode ter, tanto para justificar um maior abandono público sob o pretexto de que a sociedade civil é capaz de se organizar autonomamente, quanto para contribuir para mudanças institucionais que superam a desigualdade social e a de gênero. “O risco permanente, que abordamos várias vezes, é o de que a economia solidária se torne tão-somente um subterfúgio neoliberal que se traduza em um abandono público ainda mais pronunciado. Nos países que conseguiram se dotar de um Estado de direito esse risco é preocupante, mas naqueles que estão penando para construir um, esse risco é assustador. No que diz respeito às mulheres, esse perigo é ainda mais pronunciado. Muitas experiências de economia solidária visam assumir atividades de proximidade que tradicionalmente estão a cargo das mulheres; essas experiências são animadas em grande parte, por enquanto, por mulheres e para mulheres. Limitar-se a ações localizadas e pulverizadas sem se perguntar pelos fundamentos estruturais da desigualdade teria como efeito um reforço ainda maior do caráter feminino dessas atividades de proximidade. Ora, se a economia solidária deve ter um sentido e merecer que nos interessemos por ela, não é apenas pelas ações que ela realiza no cotidiano; é também, e talvez sobretudo, por sua capacidade de contribuir para mudanças institucionais favoráveis às mulheres, contribuição que passa tanto por sua participação na elaboração das políticas públicas como por sua aptidão para fazer evoluir os sistema de representação.” (Guérin, 2005, pp.217) Ribas Bonet e a divisão sexual do trabalho nas cooperativas Ribas Bonet (2005) faz uma análise comparativa entre o mercado de trabalho espanhol e os dados estatísticos sobre a economia social, principalmente no que tange às condições de trabalho das mulheres. Para tanto, a autora busca as explicações sobre as desigualdades de gênero no mercado de trabalho em teorias neoclássicas, como a teoria das diferenças compensatórias, a teoria do capital humano, a nova economia da família, e em teorias alternativas como as teorias feministas e sócio-sexuais. Ela faz uma extensa revisão bibliográfica sobre o assunto e levanta alguns argumentos sobre as possibilidades de rompimento do cenário de desigualdade sexual por parte da economia social. O principal deles é a participação democrática garantida na economia social e enfoque nos interesses dos(as) trabalhadores(as) em detrimento dos interesses de acumulação de capital. Economia Social e Economia Solidária comumente são utilizadas como sinônimos, no entanto é preciso fazer alguns esclarecimentos em relação à concepção adotada por essa autora. Na Espanha a economia social congrega organizações de caráter representativo e de produção, o que inclui praticamente todas as organizações que não são empresas 11 capitalistas. Além das cooperativas, associações, instituições de créditos, os sindicatos, partidos, clubes esportivos.3 Segundo essa definição, a Economia Social congrega a esfera econômica (da produção e distribuição de bens), a política (da representação) e do entretenimento (lazer) enquanto aquilo que compreendemos como Economia Solidária no Brasil se restringe ao universo econômico: “compreende-se por economia solidária o conjunto de atividades econômicas de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito, organizadas sob a forma de autogestão” (Ministério do Trabalho e Emprego, 2009) Portanto, Economia Solidária no Brasil é apenas uma parcela daquilo que na Espanha se denomina de Economia Social. A definição de Economia Social ganha mais sentido quando compreendemos o contexto histórico de seu surgimento na Espanha. A Economia Social surge nesse país por iniciativa governamental após a ditadura franquista que durou até 1976 e deixou um índice de 40% de trabalho informal. Nesse alto percentual estavam contidas atividades não-mercantis, sistemas de ajuda mútua, trabalho autônomo, bem como atividades ilícitas. Assim, a definição de economia social surge com a abrangência suficiente para regulamentar e atribuir um status de trabalho a todas as atividades não-criminosas. Dessa maneira, a Espanha cria um sistema de fomento, incentivando o trabalho autônomo e associativo por meio da redução de encargos tributários. Cria também uma gama de instrumentos estatísticos para acompanhar o que essas mudanças representam para o mercado de trabalho nacional. Desta maneira, a questão da autogestão, a busca por um trabalho autêntico, que não está a serviço do acúmulo de capital não parece ser a principal característica que congrega o setor espanhol. Uma caracterização tão ampla para a economia social parece contribuir pouco para a conceituação de um setor que estaria em busca de uma alternativa crítica ao capitalismo. Esse é um tema que não aparece na revisão bibliográfica que Ribas Bonet faz da discussão espanhola; ao contrário, a economia social se conforma mais como um setor bastante integrado à economia capitalista e com algumas vantagens de flexibilidade em relação ao mercado de trabalho tradicional. “As empresas ou entidades de Economia Social são organizações ótimas para atingir uma situação de estabilidade econômica, ou seja, um desenvolvimento sustentado e equilibrado, ao mesmo tempo em que possuem mecanismos que permitem preservar a segurança econômica das empresas e dos empregos. Por sua condição de empresas participativas, as situações de crise ou ciclos recessivos são enfrentadas por seus sócios ou trabalhadores, para os quais os incentivos para fechar a empresa ou despedir trabalhadores não são os mesmos do que aqueles pelos quais se pautam as empresas capitalistas. Nesse sentido, as entidades de Economia Social são capazes de realizar ajustes (especialmente nas retiradas) que 3 Para Ribas Bonet, Economia Social compreende dois setores: setor empresarial ou de mercado e setor de não-mercado ou instituições sem fins lucrativos a serviço dos lares. O primeiro setor compreende cooperativas de trabalho e de crédito, companhias de seguro. O segundo setor compreende associações, fundações, agrupações, instituições religiosas, sociedades de ajuda mútua, sindicatos partidos políticos, clubes esportivos, entidades auxiliares dos poderes públicos como a cruz vermelha e a cáritas, entre outras. (Ribas Bonet, 2005, pp.77). 12 permitem superar a situação de crise em vez de reduzir a capacidade empresarial e o número de empregos.” (Ribas Bonet, 2005, pp.91) Assim, mesmo não tendo a autogestão ou uma transformação social mais ampla como tema de articulação central, as práticas mais democráticas internas às organizações aproximam Economia Solidária e Economia Social. Apesar de considerar que a economia social se compõe por uma diversidade de organizações que extrapolam os objetivos do trabalho associado, os dados empíricos analisados por Ribas Bonet (2005) são referentes às cooperativas de trabalho e às sociedades laborais. É possível, portanto, a comparação com os dados sobre Economia solidária e gênero no Brasil. A metodologia de pesquisa parte de uma base empírica quantitativa para uma análise qualitativa. A autora busca responder se as cooperativas da Economia social, em seu conjunto, protagonizam uma mudança em relação à divisão sexual do trabalho no interior das cooperativas. Para tanto, constrói um completo quadro de análise do mercado de trabalho espanhol do ano de 2003, sob a perspectiva de gênero. Comprova a desigualdade entre homens e mulheres no que tange à taxa de ocupação, à remuneração e a demonstra também por meio da distribuição dos sexos nos diferentes setores de trabalho. Em seguida aplica os mesmos critérios de análise às cooperativas e sociedades laborais. Observa que a tendência predominante se mantém, as mulheres representam ampla maioria naquelas atividades socialmente relacionadas às atividades femininas (como saúde, ensino e educação e cuidados) ou nas cooperativas de consumo (Ribas Bonet, 2005, pp.141). Analisa também as atividades que as mulheres desempenham no interior das cooperativas ou sociedades laborais e constata que, assim como no mercado tradicional, os dados demonstram uma segregação ocupacional, sendo as mulheres maioria nos cargos auxiliares e minoria nos postos de chefia e de maior responsabilidade técnica (Ribas Bonet, 2005, pp. 150). Análise comparativa Guérin e Ribas Bonet Ambas economistas, Ribas Bonet (2005) e Guérin (2005) relacionam a sua análise com o quadro mais geral das teorias econômicas que buscaram explicar ou se posicionar frente à desigualdade de gênero. Enquanto a autora espanhola perpassa um quadro geral de teorias econômicas neoclássicas e das teorias feministas e sócio-sexuais, não se filiando a nenhuma delas, a francesa assume uma análise mais posicionada, enfatizando o viés androcêntrico presente no pensamento econômico desde sua origem e situando-se mais próxima ao tipo de análise realizado pela Economia Feminista. Diferentemente de Guerín (2005), que tem os sujeitos femininos em seu centro de análise, Ribas Bonet (2005) enfoca as cooperativas da Economia Social. Assim, a primeira autora se ocupa de organizações exclusivamente femininas, procurando compreender a construção social dessas atividades enquanto atividades das mulheres e identificando as implicações disso na relação com o mercado e o Estado, buscando, portanto, estabelecer uma dimensão relacional ampla: atividades de proximidade femininas e Estado. Já a segunda autora está preocupada em captar a dimensão relacional em âmbito mais restrito, ou seja, como se manifestam os trabalhos femininos e masculinos no interior das cooperativas. 13 Esses dois enfoques são complementares e necessários para pensar a possibilidade de transformação das relações de gênero por meio da Economia Solidária de forma ampla. Tanto o reconhecimento e uma diferente valoração das atividades tradicionalmente femininas, quanto a eqüidade nas atividades produtivas mistas são faces da desigualdade de gênero. Em relação à concepção de economia social e economia solidária, as autoras também apresentam abordagens diferentes. Ribas Bonet (2005) faz referências a uma ampla bibliografia que remete ao início do cooperativismo. Quando o analisa no contexto atual o situa em um quadro pouco transformador, chegando mesmo a se referir a ele como uma estratégia para corrigir as imperfeições do mercado por possuir uma maior flexibilidade de adequação da produção às necessidades externas. Guérin (2005) não se propõe a fazer uma revisão bibliográfica sobre o assunto, mas entende a economia solidária como uma proposta de superar a lógica de mercado ampla o suficiente para incorporar também uma outra visão sobre o trabalho das mulheres. Os dados disponíveis sobre Gênero e Economia Solidária no Brasil No Brasil, não há ainda um instrumento estatístico capaz de captar um número suficiente de questões em relação aos trabalhos femininos na economia solidária a ponto de permitir uma comparação com o mercado de trabalho como um todo, tal como foi possível fazer na Espanha (Ribas Bonet, 2005). Já existe, porém, uma ferramenta para mapear as características gerais dos empreendimentos da Economia Solidária no país, o Sistema de Informação da Economia Solidária, SIES, a partir do qual é possível levantar algumas questões sobre a participação das mulheres. Em 2007 o SIES mapeou 21.859 empreendimentos, o que inclui cooperativas, associações e grupos informais. Esses empreendimentos reúnem 1.687.496 trabalhadores(as), dos quais 1.057.114 (63%) são homens e 630.382 (37%) são mulheres. (SIES, 2007). Participante da Economia Solidária por sexo 37% Homens Mulheres 63% Fonte: SIES 2007, elaboração própria 14 Em relação à distribuição de homens e mulheres nos empreendimentos verifica-se a seguinte situação: Composição dos EES segundo sexo (% ) 9% EES somente homens 18% EES somente mulheres EES com homens e 73% mulheres Fonte: SIES 2007, elaboração SENAES Há cerca de 3.900 empreendimentos constituídos exclusivamente por mulheres (18%), cerca de 2.100 empreendimentos cujos sócios são exclusivamente homens (9%) e os demais (73%) são empreendimentos mistos, formados por mulheres e homens. Dentre os 18% de empreendimentos exclusivamente femininos situam-se as cooperativas de costura, de preparação de alimentos, de artesanato e de limpeza. A partir desse dado, é possível levantar a hipótese de que a segregação da mão de obra feminina em alguns segmentos identificados com as tradicionais funções domésticas da mulher (cuidar, costurar, cozinhar...), amplamente discutida por diversas autoras (Hirata e Kergoat, 2003), é observada também na Economia Solidária. Essa tendência também é observada em âmbito internacional, conforme Ribas Bonet (2005), que analisa a economia social na Espanha: “La diferencia de gênero se constata también en el sector econômico donde impera, por principio, el espíritu eqüitativo, solidario y democrático como es la Economia Social. (...) demuestra que lãs mujeres ocupan menos puestos de trabajo que los hombres en las empresas de la Economia Social, excepto em actividades relacionadas com la educación, la asistencia a la tercer edad y servicios de limpieza.” (Ribas Bonet, 2005, pp. 15) Observa-se ainda que as mulheres estão proporcionalmente mais presentes em grupos de menor porte produtivo. Nos EES mais estruturados a participação de mulheres é comparativamente menor. Quanto menor o tamanho do empreendimento, maior é a participação relativa das mulheres. As mulheres predominam largamente nos empreendimentos com menos de 10 sócios (66%) e os homens nos EES que possuem mais de 20 sócios (58% nos EES de 21 a 50 sócios e 65% nos EES com mais de 50 sócios). 15 Participação de mulheres e homens segundo porte do empreendimento (% ) 66% 65% 58% 53% 47% 42% 34% 35% Mulheres Homens até 10 11 a 20 21 a 50 acima de 50 Fonte: SIES 2007, elaboração SENAES Essa relação entre participação de mulheres e porte do empreendimento foi detectada já no primeiro mapeamento, realizado em 2005 e manteve-se praticamente inalterada segundo o mapeamento de 2007. Em relação ao dado mapeado em 2005, Dantas (2008) comenta: “Esta información permitió ver que las mujeres están proporcionalmente más presentes en pequeños grupos productivos. En aquellos grupos con más integrantes la participación de las mujeres es comparativamente menor. Esos números demuestran las contradicciones vividas por la economia solidária frente a la división sexual del trabajo, que limita las mujeres al trabajo del cuidado, de forma invisible y desvalorizada.” (Dantas, 2008, pp. 15) Apesar do SIES não permitir ainda a discriminação de todos os dados pela variável sexo, conforme já fazem outras bases de dados, levantamos a hipótese de que além da segregação da mão de obra feminina por nichos de trabalho possa ser possível constatar desigualdade de remuneração em empreendimentos mistos. Levantamos essa hipótese a partir de estudos realizados em empreendimentos de triagem de resíduos sólidos localizados no município de Campinas, em São Paulo. Nesses casos constatou-se uma diferença de remuneração entre homens e mulheres que se aproxima dos 30%, ou seja, com tendência a reproduzir também desigualdade salarial praticada em empreendimentos capitalistas brasileiros, conforme Pochmann (2005, pp.84). O próximo mapeamento a ser apresentado pelo SIES será referente ao ano de 2009. Para este, está prevista a incorporação de algumas outras questões sobre a situação das mulheres em cada empreendimento. Espera-se mapear a quantidade de mulheres em cargos de gestão, a participação de sua renda na renda familiar e a repartição das responsabilidades domésticas entre os gêneros. Perspectivas Conforme demonstrado pelos dados acima, diferentes questões pesquisadas pela sociologia do trabalho em relação à divisão sexual do trabalho são observadas também 16 entre os empreendimentos da economia solidária. As cooperativas de costura, de preparação de alimentos, artesanato, de limpeza são majoritariamente femininas, o que revela a segregação da mão de obra feminina em alguns segmentos identificados com as tradicionais funções domésticas da mulher (cuidar, costurar, cozinhar...). Em cooperativas mistas, onde trabalham homens e mulheres chegamos a observar, em cooperativas da região de Campinas, uma maior valorização do trabalho masculino em detrimento do feminino, que em alguns casos até reflete uma maior retirada. Dessa forma, a hipótese de que a Economia Solidária reproduz a divisão sexual do trabalho existente no mercado de trabalho comprovada para o caso espanhol (Ribas Bonet, 2005) parece ser bastante pertinente para o caso brasileiro. Mesmo não podendo ainda ser comprovada estatisticamente, nos parece válido colocar essa questão em evidência. A segunda hipótese, relacionada à primeira, é que a hierarquia entre os sexos se coloca como uma relação congelada nos empreendimentos, assim como a relação mando- obediência na qual muitos trabalhadores(as) se colocam no início do empreendimento em relação a uma diretoria ou até mesmo em relação à entidade de fomento. A perspectiva de transformação da desigualdade de gênero no interior do empreendimento pode ser comparada a perspectiva da igualdade de classes, bastante enfocada nas pesquisas sobre trabalho associativo. O processo de autogestão em uma cooperativa objetiva a eliminação das posições antagônica de patrões e empregados. Tal objetivo não acontece de forma imediata com a instituição da igualdade de todos perante a assembléia ou pela posse coletiva dos meios de produção. É claro que esses dois elementos são fundamentais para o processo da autogestão, no entanto, não garantem automaticamente a desalienação do trabalhador. Por isso, o exercício da autogestão é por si só um processo educativo, durante o qual as novas bases para as novas relações sociais terão que ser inventadas. Assim, da mesma forma como o fomento às relações mais igualitárias entre o corpo produtivo e o corpo administrativo de um empreendimento é um dos objetivos da Economia Solidária, o fomento às relações mais igualitárias entre os sexos também deve ser. Assim, podemos atribuir a Economia Solidária o desafio de superar a organização de trabalho consagrada pelo capitalismo, tanto aquela pautada pela desigualdade de classes, quanto à pautada pela desigualdade de sexo. Da mesma forma que dentro da cooperativa a tomada de decisão, o processo produtivo e a retribuição econômica (que se faz em forma de retirada ao invés de salário) precisam se diferenciar da empresa capitalista, possibilitando a construção de uma autogestão, as relações de gênero, que refletem uma divisão de trabalho entre os sexos, precisam também ser necessariamente re-significadas. Nessa perspectiva, a desigualdade de gênero pode ser entendida como uma dimensão da autogestão, que está imbricada nos processos de tomada de decisão coletiva, na divisão da sobra, na delegação de tarefas, na organização produtiva do empreendimento, nas instâncias de representação etc. Se pensamos esses processos como embriões de novas relações sociais em direção a igualdade, liberdade e emancipação humana, a desigualdade de gênero se coloca como um dos obstáculos a ser superado pela Economia Solidária. Para anunciar a possibilidade de uma sociedade igualitária hoje, tal como faz o movimento de Economia Solidária, é fundamental aprimorar a denúncia da desigualdade. Conforme abordado ao longo do texto, existem duas perspectivas de ação a partir da articulação entre economia solidária e gênero. A primeira, bastante abordada por Guerin 17 (2005) diz respeito à compreensão das atividades de proximidade, tradicionalmente realizadas por mulheres, como trabalhos fundamentais para a reprodução da vida e que podem atingir, por meio da Economia Solidária, um reconhecimento social compatível com a sua importância. A feminilização e a desvalorização são ao mesmo tempo causa e conseqüência do pouco prestígio social que gozam essas atividades. Na Economia Solidária reside a possibilidade concreta de valorizar socialmente essas atividades sem mercantilizá- las. Mais do que a resolução de uma desigualdade específica, o enfrentamento à desigualdade de gênero e a valoração das atividades femininas se apresentam como um dos pilares possíveis sob o qual se pode processar uma transformação ampla do sistema econômico vigente. A segunda perspectiva diz respeito ao combate da divisão sexual do trabalho no interior dos empreendimentos mistos. Para tanto, é preciso que a discussão de gênero se torne uma pauta cada vez mais importante para o movimento de Economia Solidária, assim como para a elaboração de políticas públicas. É preciso enfrentar abertamente esse tipo de desigualdade, sob o risco de ela ser reproduzida acriticamente durante a expansão da Economia Solidária, tal como hoje ocorre no consagrado sistema de economia social espanhol (Ribas Bonet, 2005). A criação de um Grupo de trabalho de gênero no interior do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES, 2008) pode ser lida como um primeiro indício em direção a essa transformação. 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Considerando os dados da PNAD de 2007 e um modelo de múltipla escolha ocupacional, foi possível verificar que a probabilidade de emprego do idoso é principalmente determinada pela idade e nível de instrução. Nesse aspecto, o maior grau de educação favorece o emprego do idoso nas ocupações assalariadas com carteira de trabalho assinada e no setor público. Ainda foi constatado que o efeito da condição de aposentadoria aumenta a probabilidade de o idoso obter emprego assalariado sem carteira assinada, ocupação cujas condições de trabalho são relativamente precárias. Destarte, as evidências encontradas corroboram a decisão de permanência do idoso aposentado no mercado de trabalho como uma necessidade de complementação da renda domiciliar. Palavras-Chave: Idoso; Escolha Ocupacional; Brasil. Abstract: This paper analyzes the occupational choice of older people on segmented labor market in Brazil. Using data from PNAD 2007 and a model of occupational choice, it was finds that probability of find job on occupational groups is correlated with age and educational level. In turn, the major human capital levels increase the chance of older people work as wage-earner within the formal sector or in public sector. The retirement condition increase the propensity of older people is working as wage-earner within the informal sector, where job conditions are worse. In addition, these finds suggest that the decision of retirement people working in old age is explained by importance of household income supplement. Key-words: Older People; Occupational Choice; Brazil. 1 Economista pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB Mestranda em Economia do Trabalho – PME/UFPB Email: viviansq13@hotmail.com 2 Doutor em Economia pela Universidade Federal da Pernambuco - UFPE Professor Adjunto do Departamento de Economia - UFPB/Campus I Email: hiltonmbr@hotmail.com 1 1. Introdução No Brasil, a dinâmica demográfica tem se caracterizado por uma rápida queda da fecundidade, aliada a crescentes valores de expectativas de vida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na década de 90, o número de idosos aumentou em 4 milhões, cerca de 8,6 % da população tinha pelo menos 60 anos no final da década passada, contra 7,3% em 1991. Além disso, o país possui um grande contingente de beneficiários da previdência social, pois de acordo com Oliveira et. al (1997) o número de beneficiários, que era muito baixo até meados dos anos 70, elevou-se vertiginosamente nas duas últimas décadas, chegando a cerca de 15 milhões em 1994. Ainda segundo os autores, a relação contribuinte/beneficiário se situava em 1997 em dois contribuintes ativos por beneficiário, o qual apresenta relação semelhante a países como França e Alemanha, porém com estrutura etária mais velha que a nossa. Alterações na dinâmica demográfica, mudanças na estrutura familiar e institucional podem condicionar a participação do idoso na população economicamente ativa (PEA), contudo, as evidências encontradas na literatura são diversificadas. O estudo de Guillermard e Rein (1993) para França, Holanda e Alemanha, por exemplo, revelou que a inatividade após os 55 anos chegou mesmo a tornar-se uma nova norma. Os autores mostraram que, entre os anos de 1970 e 1990, houve uma queda na taxa de atividade dos homens na faixa dos 55 aos 64 anos nos países citados. No caso brasileiro, ao contrário, Camarano (2001) observou que em 1977, 4,5% da PEA era formada por idosos, indicador que em 1998 passou para 9%, ou seja, o dobro de participação. Ainda segundo a autora, a taxa de atividade dos idosos aposentados entre o período de 1978-1998 cresceu de 51,2% para 77,6%, entre os homens, e no grupo das mulheres a variação foi 31,1% para 53,1%. As elevadas taxas de participação dos idosos no mercado de trabalho, inclusive dos aposentados, pode está indicando a necessidade de manutenção do padrão de vida, a complementação da renda domiciliar, condições mínimas de sobrevivência e/ou melhora na saúde do idoso. Segundo Mckee (2006), parte relevante da riqueza dos trabalhadores mais velhos nos Estados Unidos é garantida por um fluxo de pensões esperado do sistema de seguridade social. Este fluxo representava mais de 60% do rendimento de tais trabalhadores em 1992. No Brasil, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD de 2005 indicam que os rendimentos da aposentaria, pensão e outras fontes correspondem a 70% da renda dos idosos entre 60 e 64 anos de idade do meio urbano. Com efeito, a forte dependência de rendas não-oriundas do trabalho aliada à ausência de impedimentos legais às atividades laborais dos aposentados, assim como, às crescentes demandas sociais e custo de vida podem acirrar a competição entre idosos e jovens no mercado de trabalho. Na literatura nacional existem poucos estudos que tratam da empregabilidade do idoso nos setores do mercado de trabalho. Camarano (2001) analisou a inserção do idoso no mercado de trabalho brasileiro entre o período de 1978-1998. Os resultados desse estudo apontaram para o papel positivo da educação na oferta de trabalho, destacando-se a importância da renda do aposentado na renda domiciliar. Liberato (2003), por sua vez, investigou o emprego dos homens idosos no meio urbano na fase pós-aposentadoria e mostrou que aqueles detentores dos menores benefícios são os mais propensos a trabalhar. Já no âmbito internacional, Mckee (2006) realizou um estudo sobre a oferta de trabalho do idoso na Indonésia e observou que o mercado de trabalho segmentado tem regras distintas de escolha do homem idoso. O autor encontrou dois resultados importantes: (i) que os salários, as chances de emprego e as horas trabalhadas diferem entre os empregos por setor e; (ii) que as características específicas de cada setor afetam a decisão de oferta de trabalho e a mobilidade inter-setorial dos idosos. A investigação sobre quais variáveis são determinantes na absorção do idoso no mercado de trabalho segmentado pode fornecer insumos para o norteamento de políticas 2 públicas. Esse aspecto permanece inexplorado no Brasil, não obstante o aumento da informalidade no mercado de trabalho durante as últimas décadas e seus rebatimentos em termos de estrutura salarial, condições de trabalho e benefícios legais (BRAGA, 2006; SOUZA et. al, 2006). Diante de tal contexto, a partir dos dados mais recentes da PNAD de 2007, o presente artigo faz uma analise empírica acerca da inserção produtiva dos idosos nos diferentes segmentos do mercado de trabalho brasileiro, considerando dois enfoques a partir da estimativa de um modelo de escolha ocupacional: (i) a averiguação do efeito dos atributos sócio-econômicos (sexo, idade, educação, posição na família etc) nas chances relativas de emprego dos idosos entre as diferentes categorias ocupacionais e; (ii) ao estimar o impacto da condição de aposentado nas probabilidades de emprego por categorias de trabalho. Incluindo a introdução, este trabalho está dividido em cinco partes. A segunda parte apresenta evidências sobre a dinâmica da população idosa no Brasil e sua inserção no mercado de trabalho. A terceira parte é reservada para a exposição dos aspectos teóricos e procedimentos metodológicos. A quarta parte analisa os resultados empíricos. Por fim, a última parte é reservada a conclusão. 2. A inserção do Idoso no Mercado de Trabalho Brasileiro 2.1. População Idosa no Brasil O Brasil vem presenciando um processo de envelhecimento da população em decorrência da elevação da esperança de vida e da queda da taxa de fecundidade. No entanto, esse processo não é exclusivo desse país, pois de acordo com o IBGE (2002), o número de pessoas com 60 anos de idade ou mais em todo o mundo passou de 204 milhões, em 1950, para cerca de 579 milhões em 1998. Estima-se ainda que em 2050 o mundo terá cerca de 1,9 bilhões de idosos e, nos países desenvolvidos, a população idosa representará nesse mesmo ano, um terço da população total. Segundo Oliveira et. al (1997), a mortalidade no Brasil experimentou um declínio rápido e sustentável a partir da década de 40, o que acarretou um aumento na esperança de vida ao nascer, de 41 para 65 anos no final da década de 80. Furtado (2005) observou que na década de 90 houve um incremento populacional de 26,5% no intervalo de idade de 60 a 64 anos, enquanto o grupo de idade de 75 anos de idade ou mais se elevou em 49,3%. Figura 1: Brasil – Evolução da participação dos idosos e idosos aposentados na população total (1995-2007) Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNADs de 1995 a 2007 e do Censo de 2000. Nota: Resultados expandidos para a população. A Figura 1 mostra a evolução do percentual de idosos (pessoas com 60 ou mais anos de idade) e de idosos aposentados na população total entre 1995-2007. A taxa de participação dos idosos apresenta uma tendência de crescimento ao longo dos anos. Em 1995, o total de idosos representava próximo de 8% da população, em 2007, essa participação ultrapassa os 3 10%, segundo os dados das PNADs. Nesse intervalo de anos houve significativa melhora nas condições de saúde dos idosos e diminuição da mortalidade o que, possivelmente, contribuiu pra esse avanço. Ainda na mesma figura, é possível observar que o percentual de aposentados se elevou. Em 1995, o total de aposentados representava algo próximo a 5%, enquanto no fim do intervalo de anos ficou em torno dos 7%. Oliveira et. al (1997) observaram que em 1994, cerca de 15 milhões já eram beneficiários do sistema de previdência social. Ainda segundo esses autores, a relação contribuinte/beneficiário é de dois contribuintes ativos por beneficiário, revelando que o Brasil possui uma relação próxima de países Alemanha e França, que registram populações mais relativamente mais velhas. Assim, é provável que o crescente número de beneficiários no Brasil não seja conseqüência apenas da dinâmica demográfica, mas também de um conjugado de fatores econômicos e institucionais. Com o intuito de observar melhor essa evolução da estrutura demográfica no Brasil foi feita uma distribuição da população por faixa de idade e por sexo entre 1997-2007, conforme Figura 2 a seguir. Os dados mostram que houve um estreitamento da base da pirâmide etária ao longo dos anos em foco. Essa queda reflete a diminuição na taxa de fecundidade verificada no país nos últimos anos. Por outro lado, ao se comparar os dois períodos, ainda é possível verificar um aumento da população nos grupos de idade que se estendem de 20 a 85 anos, destacando o crescimento do numero de mulheres a mais que os homens. Especificamente em relação às pessoas com 60 ou mais anos de idade (idosos), os dados das PNADs permitem anotar que em 1997, 8,6% da população brasileira era idosa, enquanto em 2007 essa taxa passou para 10,5%. Logo, a partir das evidências reportadas, percebe-se um relativo envelhecimento da população brasileira. Figura 2: Distribuição da população brasileira segundo faixa etária e por sexo - pirâmides etárias (1997 e 2007) Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNADs de 1997 e 2007. Nota: Resultados expandidos para a população. As diferenças na composição etária da população brasileira por localização setorial podem ser constadas pela comparação das pirâmides etárias por zonas rural e urbana. A Figura 3, a seguir, apresenta a distribuição da população segundo faixas etária/sexo e por área rural/urbana. Os dados revelam que, em 2007, a população do meio rural registrou em sua composição forte presença de pessoas de 5 a 24 anos, caso distinto da distribuição observada para as cidades brasileiras, onde a pirâmide etária apresenta uma base mais estreita. Não obstante, a população de idosos, entre os anos 1997-2007, se elevou tanto na área urbana quanto rural, 55% e 22%, respectivamente. Destaca-se o crescimento da população idosa no 4 meio urbano pode estar relacionado com os movimentos migratórios, dadas as melhores oportunidades de emprego e salários oferecidas pelas cidades. Nesse sentido, cabe ressaltar que, de acordo com as PNADs, o total de pessoas que viviam na zona urbana aumentou em 27% no período em foco. Figura 3: Distribuição da população brasileira segundo faixa etária e por sexo - pirâmides etárias – zonas rural e urbana - 2007 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNAD de 2007. Nota: Resultados expandidos para a população. 2.2. Inserção dos Idosos no Mercado de Trabalho As evidências reportadas anteriormente chamam atenção para o processo de envelhecimento da população brasileira durante os últimos dez anos e seus possíveis rebatimentos no mercado de trabalho e na qualidade de vida dos idosos. Todavia, quando se trata da inserção de parte da população idosa nas atividades econômicas, estudos mostram que a taxa de participação do idoso no Brasil está alta quando comparada aquelas verificadas em outros países. O trabalho de Furtado (2005), por exemplo, revela que em 2003, o percentual de homens idosos na força de trabalho brasileira (46%) superava aqueles observados em vários países desenvolvidos como: Estados Unidos, França, Alemanha, Canadá e Japão. À exceção do Japão, os referidos países apresentaram taxas inferiores a 30%. Guillemard e Rein (1993), por sua vez, observaram queda nas taxas de atividade de homens de 60 a 64 anos entre os anos de 1970 e 1990 na França, Holanda e Alemanha. Já no Brasil, entre 1997-2007, o total de idosos economicamente ativos cresceu 42,7% e 42,5%, respectivamente, conforme dados das PNADs. Com o intuito de explorar o perfil dos trabalhadores idosos (pessoas com 60 anos ou mais) na conjuntura mais recente do mercado de trabalho brasileiro, a Tabela 1 mostra características de sexo, raça, idade, escolaridade, horas de trabalho e rendimentos desse grupo populacional, separado por aposentados e não-aposentados. A despeito da condição de aposentadoria, a maior parte dos trabalhadores idosos é do sexo masculino, de cor branca e reside em zonas urbanas. Todavia, algumas diferenças podem ser encontradas ao se comparar os dois grupos: (i) dentre os homens idosos, aqueles já aposentados têm maior taxa de participação no mercado de trabalho (70,2%) e; (ii) a mulher idosa, ao contrario, tem maior participação entre as não-aposentadas, ou seja, 37,4% contra 29,8% das aposentadas. Tal fato pode estar relacionado, por um lado, as maiores oportunidades de trabalho criadas para as mulheres (SCORZAFAVE e MENEZES-FILHO, 2001), e por outro, a possíveis atributos produtivos não-observados ou fatores familiares/institucionais que influenciariam diretamente o adiamento da aposentadoria (QUEIROZ et. al, 2008). 5 Tabela 1: Brasil - Perfil dos trabalhadores idosos no ano de 2007 Não-Aposentados % Aposentados % Sexo Feminino 37,4 29,8 Masculino 62,6 70,2 Raça Não-branco 48,5 44,6 Branco 51,5 55,4 Residência setorial Rural 15,5 38,5 Urbano 84,5 61,5 Não-Aposentados (média) Aposentados (média) Anos de estudo 4,8 4,1 Idade 64,1 68,0 Rendimento do trabalho principal (R$) 1.018,75 809,89 Horas de trabalho 38,1 34,1 Renda domiciliar per capita (R$) 809,89 982,46 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNAD de 2007. Nota: Resultados expandidos para a população. Apenas indivíduos empregados na semana de referência. A respeito da residência setorial, a maciça participação dos idosos no mercado de trabalho urbano é consistente com as diferença de oportunidades de emprego, rendimentos e oferta de serviços entre os meios rural e urbano. Esses dados podem refletir um histórico de migração setorial na busca por melhores condições de sobrevivência na zona urbana, principalmente, por aqueles que não possuem renda oriunda da aposentadoria. Já quando se compara os idosos aposentados e não-aposentados da zona rural, percebe-se que os aposentados têm participação de 38,5% contra 15,5% dos não-aposentados. Com efeito, esses percentuais possivelmente se relacionam com as diferenças institucionais nos regimes de aposentadoria para o trabalhador rural e urbano no Brasil. No caso do trabalhador rural, por exemplo, a concessão do beneficio previdenciário não requer comprovação de tempo de serviço, o que, geralmente, inibe a postergação da aposentadoria rural. Por outro lado, as evidências sobre a importância da renda da aposentadoria no rendimento dos domicílios rurais, favorecem o engajamento dos aposentados rurais em atividades informais, desestimulando a migração dos mesmos para o meio urbano (CAMARANO, 2001; RAMALHO, 2008). Em relação ao nível de instrução dos idosos trabalhadores em 2007, é possível observar que os não-aposentados têm em média mais anos de estudo (4,8 anos) que os aposentados (4,1 anos). Uma vez que a permanência/re-inserção dos aposentados no mercado de trabalho pode ser motivada pela necessidade de complementar o rendimento domiciliar, estes tendem a aceitar salários relativamente mais baixos, aspecto que pode requerer do idoso não-aposentado maior nível de instrução no âmbito da concorrência por melhores salários. O trabalhador idoso-aposentado tem, em média, 68 anos de idade contra 64 anos do não- aposentado. Visto que a idade é um dos fatores determinantes da inserção do idoso, essa diferença pode estar relacionada ao: (i) regime de aposentadoria por tempo de serviço, que em muitos casos, devido às perdas salariais resultantes, estimulam a postergação da procura pelo benefício previdenciário e; (ii) a melhoria da expectativa de vida da população idosa e ausência de impedimentos legais ao emprego, fatores que podem permitir maior disposição/viabilidade para o trabalho mesmo na condição de aposentado. O salário médio recebido pelo idoso não-aposentado (R$ 1.018,75) é maior que o recebido pelo aposentado (R$ 809,89). Esses dados são consistentes com a hipótese de retorno do aposentado ao mercado de trabalho em função da necessidade de complementar a renda domiciliar. Nesse sentido, ainda é possível observar que a renda domiciliar do idoso 6 aposentado é, em media, maior que a do não aposentado, ou seja, R$ 982,46 contra R$ 809,89. Ainda na Tabela 1, a média das horas trabalhadas na semana pelos idosos não- aposentados é superior (38,1 horas) a dos aposentados (34,1 horas). A concorrência com aposentado na disputa por vaga de trabalho e/ou rendimentos maiores, pode exigir mais horas de trabalho para o não-aposentado. Não obstante, é possível que os idosos não-aposentados sejam relativamente mais esforçados e destemidos, características que devem influenciar o adiamento da aposentadoria por idade e a permanência no mercado de trabalho. Afora as evidências já levantadas, caberia investigar as características de ocupação dos idosos no mercado de trabalho. Destarte, a Tabela 2, abaixo, apresenta a distribuição dos idosos aposentados e não-aposentados segundo a categoria de ocupação e por sexo. Tabela 2: Brasil – Características de emprego e ocupação do idoso aposentado e não-aposentado por sexo – 2007- % Condição Não-aposentado Aposentado Atividade\Sexo feminino masculino feminino masculino Economicamente não-ativo 81,5 27,6 79,0 64,8 Economicamente ativo 18,5 72,4 21,0 35,2 Emprego\Sexo Desempregado 2,2 3,1 1,3 1,6 Empregado 97,8 96,9 98,7 98,4 Ocupação\Sexo Empregado com carteira 7,9 18,8 3,4 5,9 Funcionário público 11,1 7,5 2,7 1,4 Empregado sem carteira 6,9 15,9 3,8 10,8 Doméstico com carteira 2,9 0,5 0,6 0,1 Doméstico sem carteira 12,4 1,4 6,4 0,7 Conta-própria 33,2 42,8 27,0 49,8 Empregador 2,7 7,9 2,9 8,8 Produção/Próprio consumo 14,4 3,9 39,0 19,1 Construção/Próprio uso 0,1 0,3 0,0 0,9 Não-remunerado 8,4 1,1 14,3 2,6 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNAD de 2007. Nota: Resultados expandidos para a população. Os idosos empregados e desempregados referem-se apenas aos trabalhadores economicamente ativos. Observa-se que entre os idosos aposentados por condição de atividade a grande maioria está em inatividade econômica, entretanto as mulheres registram as maiores taxas comparadas aos homens, possivelmente por que nessa fase da vida caberia dedicar-se mais à família e/ou aos afazeres domésticos. Em relação aos não-aposentados, as mulheres também apresentam maior inatividade. Porém, 72,4% dos homens não-aposentados se encontravam em atividade econômica, taxa superior a verificada para os homens aposentados (35,2%). Quanto à condição de emprego, destacam-se as pequenas taxas de desemprego dentre os aposentados, 1,6% e 1,3%, para homens e mulheres, respectivamente. Já entre os não- aposentados, o desemprego é maior para os homens em relação às mulheres. Isso pode ser condicionado pela maior participação dos homens idosos na PEA. Com respeito à ocupação dos idosos não-aposentados, se destaca a elevada presença dos homens e das mulheres em empregos por conta-própria, 42,8% e 33,2%, respectivamente. Já no grupo dos aposentados, as mulheres destacam-se pela ocupação voltada para o próprio consumo (39%), enquanto os homens, em empregos autônomos (49,8%). Todavia, ao se comparar aposentados e não-aposentados percebem-se algumas diferenças importantes: (i) os não-aposentados, sobretudo, os homens, possuem maior acesso ao trabalho assalariado com e sem carteira assinada; (ii) também é relativamente maior a presença dos não-aposentados no setor público, principalmente das mulheres; (iii) a verificada presença de mulheres e homens 7 aposentados em empregos de produção para o próprio consumo deve estar condicionada pelas atividades rurais e; (iv) a ocupação enquanto empregador é maior para os aposentados e, entre os sexos, bastante favorável aos homens. Em geral é possível anotar que os idosos estão alocados em ocupações características do setor informal, especialmente no trabalho autônomo. Mesmo desconsiderando a possibilidade de contribuição para a previdência social, o emprego por conta-própria geralmente requer habilidades especificas e permite maior flexibilidade na alocação das horas trabalhadas. Nessas circunstâncias, a permanência/re-inserção do idoso no mercado de trabalho pode ocorrer em condições melhores que as observadas nos empregos assalariados sem carteira, em que as relações de trabalho geralmente são precárias e os rendimentos baixos. Com vistas a analisar o papel da educação na distribuição ocupacional dos idosos, a Tabela 3, a seguir, apresenta essa alocação por faixas de instrução de acordo com os dados da PNAD de 2007. Tabela 3: Brasil – Posição na ocupação do idoso por faixa de instrução (anos de estudo) – 2007- % Ocupação\Estudo menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 10 anos 11 a 14 anos 15 ou mais Total Empregado com carteira 4,1 8,6 12,2 17,3 14,6 8,9 Funcionário público 1,0 2,8 4,7 14,4 20,0 4,7 Empregado sem carteira 9,5 9,6 10,8 11,3 10,7 10,0 Doméstico com carteira 0,8 0,9 1,0 0,2 0,0 0,7 Doméstico sem carteira 4,2 4,8 4,2 1,4 0,2 3,9 Conta-própria 40,8 42,9 44,3 33,7 30,9 40,8 Empregador 2,5 5,5 8,1 13,0 17,0 6,4 Produção/Próprio consumo 31,3 18,2 9,4 3,5 3,0 18,7 Produção/Próprio uso 0,3 0,7 0,3 0,5 0,0 0,5 Não-remunerado 5,6 6,0 5,1 4,8 3,8 5,5 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados das PNAD de 2007. Nota: Resultados expandidos para a população. Observando as linhas da tabela em destaque, verifica-se que o nível de instrução aumenta a probabilidade (freqüência) de o idoso ingressar em ocupações com carteira de trabalho, no serviço público ou como empregador. Destaca-se ainda, que há uma queda da ocupação do idoso como doméstico sem carteira de trabalho assinada e para próprio consumo quando se eleva os anos de estudo. Além do que, cai a ocupação do empregado sem carteira de trabalho assinada com 11 anos de estudo ou mais. Com efeito, as evidências anteriores sugerem um papel importante da educação na propensão do idoso obter emprego formal ou com melhor remuneração. Tal característica aliada à observação de que os não-aposentados têm maior acesso aos empregos formais (emprego com carteira assinada ou funcionário público), podem indicar que a condição de aposentadoria para os menos instruídos aumenta a chance de os mesmos atuarem em empregos informais, questão que será alvo de investigação nas próximas seções. 3. Considerações Teóricas e Evidências Empíricas sobre a Inserção do Idoso no Mercado de Trabalho As mudanças demográficas ocorridas nas últimas décadas no país têm refletido em elevação da expectativa de vida da população e diminuição da taxa de fecundidade. As conseqüências do envelhecimento têm causado aumento da participação dos idosos na força de trabalho. Além do mais, o total de idosos aposentados que participam da população em idade ativa (PIA) vem se elevando no país (CAMARANO, 2001). De acordo com Oliveira et. al (1997), a promulgação da Constituição em 1988 trouxe importantes inovações para a Seguridade Social, dentre elas, as principais foram a 8 equiparação dos benefícios urbanos e rurais e piso unificado igual a um salário mínimo para todos os benefícios previdenciários e assistenciais. Por outro lado, o sistema institucional derivado da Constituição não comportava as novas responsabilidades, foi então que surgiu uma crise que culminou em reforma da Previdência nos anos posteriores. Segundo Pinheiro e Giambiagi (2005), as principais reformas implementadas para os servidores do setor público foram: idade mínima de 55 anos se mulher com contribuição de 30 anos, e 60 anos de idade se homem com contribuição de 35 anos; 10 anos no setor público e 5 anos no cargo. Os professores do ensino pré-universitário tiveram a idade mínima reduzida em 5 anos. Um tratamento diferenciado foi dado para os contribuintes da iniciativa privada (INSS), exigindo apenas tempo de contribuição. Com isso, o número de benefícios concedidos se elevou, possibilitando ao aposentado permanecer/retornar ao mercado de trabalho, visto que, no Brasil, não há qualquer impedimento legal para que o idoso tome tal decisão. Silva Leme e Málaga (2001) discutem que a reforma da previdência, por garantir uma renda vitalícia para os que trabalham por certo período de tempo, afeta a decisão das famílias sobre a participação no mercado de trabalho. Tal implicação estaria atrelada a seguinte lógica: quanto mais cedo se começa a trabalhar, mais cedo se aposenta e maior é o tempo usufruto da renda adicional. No entanto, uma vez garantida à renda da aposentadoria, maior o salário de reserva exigido pelo idoso frente à oferta de trabalho; características que podem tornar os empregos disponíveis menos atraentes para alguns aposentados. De acordo com Baker et. al (2003) e Liberato (2003), o rendimento do sistema de previdência pode incentivar a decisão de aposentadoria. A última autora, por exemplo, observou que o Brasil registrou um crescimento das taxas de atividade coincidente com as variações na composição de benefícios de aposentadoria durante os anos noventa, pois o achatamento do teto previdenciário a partir de 1989 teria implicado aumento da oferta de trabalho dos aposentados. Ainda segundo a autora, o trabalho de mercado seria uma forma de compensação da perda do poder de compra desses idosos que tiveram seus benefícios rebaixados, sobretudo, para aqueles trabalhadores com maior escolaridade. Segundo Wanjman et. al (2004), o crescimento estrondoso da cobertura previdenciária no Brasil, sobretudo rural, não teve o impacto que se poderia esperar sobre a atividade econômica, ou seja, o benefício da aposentadoria, enquanto se reverteu em um importante instrumento de geração de renda familiar e combate à pobreza, aparentemente não gerou nenhum incentivo ao afastamento do trabalho. Uma justificativa seria a importância da renda do idoso na renda familiar, tanto de aposentadoria quanto do trabalho. Em seu estudo, Camarano (2001) também enfatiza essa questão. Além disso, destaca o papel da idade e da educação, os quais refletem as condições de saúde do idoso, fator determinante de oferta de trabalho. A referida autora também observa que o aumento da participação dos aposentados na PEA pode refletir, por um lado, a maior cobertura do benefício previdenciário, e por outro, o aumento da longevidade conjugado com melhores condições de saúde. Enfatiza ainda, que a aposentadoria por tempo de serviço permite procura precoce pelo beneficio previdenciário e que, para o empregador, a contratação de um idoso representa algumas vantagens em termos de custos relativamente à contratação de um não idoso. Quanto às características dos idosos que decidem ofertar trabalho, Wanjman et. al (2004) verificaram que os trabalhadores detentores das maiores taxas de atividade são aqueles mais dependentes do rendimento da atividade econômica, a saber: homens, negros, chefes de família com baixa renda familiar e os não-aposentados. Em relação à estrutura ocupacional do mercado de trabalho dos idosos, Wanjman et al. (2004) também mostram que os idosos estão presentes nas atividades agrícolas e de serviços. As ocupações predominantes são as posições de conta-própria e sem-remuneração. Os autores classificam as ocupações segundo uma tipologia que depende da intensidade que se dedica de 9 força física, assim os idosos predominam nas ocupações manuais. Mas à medida que envelhecem, as ocupações manuais tendem a ceder espaço para as superiores. Mckee (2006) destaca que a saúde precária reduz significativamente a produtividade, principalmente no setor privado. Ainda destaca que a família é importante na decisão de oferta de trabalho do idoso. Segundo o autor, as características específicas de cada setor afetam a decisão de trabalhar e a mobilidade do idoso entre os setores. Camarano (2001) também mostra que o idoso está mais presente em ocupações por conta-própria e, as ocupações sem carteira predominam perante as com carteira. As evidências empíricas na literatura nacional também mostram que a educação é um dos fatores determinantes de inserção do idoso, principalmente para os aposentados. Wajnman et. al (2004) observam que por mais que os idosos estejam mal posicionados na escala socioeconômica, à medida que eles envelhecem as melhores chances de permanecer ativos pertencem aos mais bem qualificados, e, aos que não estão envolvidos em atividades manuais. Liberato (2003) destaca que à medida que aumenta a idade, a escolaridade torna-se crucial para a continuidade do aposentado no mercado de trabalho, uma vez que as atividades mais especializadas não demandam tanto vigor físico. Silva Leme e Málaga (2001), por seu turno, destacam que a saída precoce da força de trabalho é custosa, pois ao saírem do mercado de trabalho em idade ainda produtiva, os trabalhadores não aproveitam todo seu potencial de capital humano, e para a sociedade, aposentar esse capital humano antes do tempo seria empobrecedor. 4. Estratégia Empírica O modelo empírico a seguir procura identificar os determinantes da escolha ocupacional dos idosos no mercado de trabalho. Especificamente, trata-se de uma aplicação do instrumental e da estratégia de estimação desenvolvidos por Lee (1983), também utilizados em diversos estudos empíricos sobre oferta de trabalho. Considerando um mercado de trabalho segmentado em setores, a decisão de ofertar trabalho será condicionada pelo confronto multilateral das potenciais utilidades obtidas pelo idoso no conjunto de oportunidades disponíveis. Logo, o idoso ofertará trabalho no setor se, e somente se, este oferecer o maior benefício líquido em relação aos demais, ou seja, , com a variável binária assumindo o valor: se escolhe a alternativa j e caso contrário. Assumindo que o termo de erro da função de utilidade anterior segue uma distribuição de valor extremo, Maddala (1983) mostra que a probabilidade de o idoso ser absorvido pelo setor pode ser estimada a partir de um logit multinomial: (1) Onde: é um vetor de parâmetros; é um vetor de características pessoais que influenciam a procura por trabalho. O logit multinomial requer uma normalização arbitrária para uma categoria de referência, pois precisa fornecer parâmetros com apenas equações. Nesse sentido, a interpretação deve ser feita tomando-se uma das categorias de escolha como referência (GREENE, 2002, p.721). Um problema bastante comum ao se utilizar amostras de trabalhadores separadas por grupos refere-se ao viés de seleção da amostra. A dificuldade pode ocorrer se alguma categoria de indivíduos é distribuída de forma não-aleatória, isto é, devido à presença de características produtivas não-observadas, a saber: maior motivação, agressividade etc, (HECKMAN, 1979; LEE, 1978). 10 Seguindo a intuição de Piracha e Vadean (2009), que aplicaram esse instrumental empírico ao caso da migração de retorno na Albânia, sob a presença de viés de seleção, a equação (1) precisaria ser estimada separadamente para cada categoria de trabalhadores, pois os efeitos dos atributos individuais sobre as probabilidades de emprego seriam diferentes para aposentados e não-aposentados, caso contrário, os estimadores seriam tendenciosos. Para testar a hipótese de seletividade entre os trabalhadores idosos, segue-se a estratégia proposta por Gourieroux et al. (1987). O método consiste em duas etapas. Primeiro, estima-se a equação de seleção (decisão de aposentadoria) por um probit univariado: (2) Onde: é uma variável binária que assume o valor 1 se o trabalhador é não-aposentado e 0 caso seja aposentado; é um vetor de variáveis exógenas que influenciam a decisão de aposentadoria; é um vetor de parâmetros e um termo estocástico. A partir da estimativa da equação (2) é possível computar os chamados resíduos generalizados ou conhecidas taxas inversas de Mill: (3) Onde: é a predição linear da equação (2); é a função de densidade normal padrão e a função normal de densidade acumulada. Na segunda etapa, e a variável binária são introduzidas como regressores adicionais na equação (1), que, por sua vez, deve ser estimada para toda amostra de trabalhadores. Caso o coeficiente associado à variável seja estatisticamente significativo, fica constatada a presença de viés de seleção na amostra (PIRACHA e VADEAN, 2009). Em caso de estimativas separadas para cada categoria, o efeito da condição de aposentadoria sobre as probabilidade de ocupação pode ser calculado a partir de um exercício contrafactual. No caso dos não-aposentados, esse efeito é dado pela diferença entre a probabilidade de escolha da ocupação e a mesma probabilidade caso o trabalhador tivesse optado pela aposentadoria. Formalmente: (4) Onde, o primeiro termo da equação (4) fornece a probabilidade factual e o segundo a probabilidade contrafactual. Esta última probabilidade pode ser obtida imputando os coeficientes obtidos com a estimação da equação (1) para uma amostra de idosos aposentados sobre as características observadas para os idosos não-aposentados . Por fim, no caso dos aposentados o efeito da decisão de aposentadoria sobre as probabilidades de ocupação é dado por: (5) Onde, a primeira parcela da equação (5) estima a probabilidade factual (probabilidade de ocupação dado que o trabalhador aposentou-se) e a segunda a probabilidade contrafactual, ou seja, a probabilidade de ocupação no setor caso o trabalhador não tivesse se aposentado. Assim, a probabilidade contrafactual é obtida imputando o vetor de coeficientes obtidos com a regressão da equação (1) na amostra de não-aposentados ( sobre as características observadas dos aposentados . 4.1. Base de Dados e Tratamentos 11 Os dados utilizados nas estimativas das regressões são oriundos da PNAD de 2007, a mais recente disponível. Entretanto, alguns critérios e controles de amostras tornaram-se necessários. Na amostra principal apenas foram consideradas as pessoas com idade maior ou igual a 60 anos. No entanto, cabe ressaltar que na literatura existe uma dificuldade em conceituar precisamente o que é população idosa. Camarano e Medeiros (1999), por exemplo, escolheram a referida faixa de idade por manter consistência com aquele empregado na Política Nacional do Idoso3. Outras dificuldades devem ser consideradas devido às diferenças existentes entre regimes de aposentadoria nos setores rural e urbano e por gênero. No Brasil, a decisão de aposentadoria no meio rural, por exemplo, está atrelada à idade e não ao tempo de serviço, caso distinto do meio urbano, onde se considera as duas variáveis no cômputo do fator previdenciário. Após as mudanças institucionais mais recentes, ficou estabelecido que a idade mínima à aposentadoria para homens e mulheres no serviço público seria distinta, permitindo que as mulheres possam se aposentar cinco anos mais cedo que os homens, isto é, a partir dos 55 anos. Já no setor privado, o tempo de contribuição é fundamental, fato que abriu margem para aposentadorias em idade precoce. Portanto, a decisão de aposentadoria pode afetar de forma heterogênea a oferta de trabalho dos idosos moradores do meio rural e urbano, assim como, a decisão de homens e mulheres. Na tentativa de contornar os problemas anteriores, optou-se por uma amostra que contempla apenas os idosos ocupados na semana de referência e no meio urbano. A exclusão dos trabalhadores rurais visa captar melhor o efeito da decisão de aposentadoria na probabilidade de emprego do idoso (LIBERATO, 2003). Após fazer o referido recorte, a amostra final computou 8.426 trabalhadores idosos, sendo 4.177 aposentados e 4.249 não- aposentados. Todas as regressões foram feitas em amostras separadas por sexo, dadas as diferenças no regime de aposentadoria já mencionadas (CAMARANO, 2001). Para a construção da variável de resposta do modelo de escolha ocupacional (1), foram consideradas quatros categorias de ocupação: (i) trabalhadores assalariados com carteira assinada (TC); (ii) trabalhadores empregados sem carteira assinada (assalariados ou não) (TSC); (iii) empregados por conta-própria ou empregadores (AE) e; (iv) funcionários públicos (FP)4. Vale ressaltar que essa classificação não permite a diferenciação precisa entre os empregos formais e informais, contudo, indica funções ocupacionais que exigem diferentes níveis de habilidade e instrução5. Por exemplo, o trabalho por conta-própria ou como empregador pode requerer habilidades e conhecimentos diferenciados daqueles adquiridos no sistema de educação formal. Nas ocupações com ou sem carteira de trabalho assinada, os certificados (instrução formal) e comprovantes de experiência devem afetar consideravelmente a alocação dos idosos. Por sua vez, o emprego no setor público, por permitir garantias legais e estabilidade, possivelmente está correlacionado com elevada dotação de instrução formal comparado as outras ocupações. Quanto à identificação do modelo procedeu-se o método de restrições por exclusão de variáveis (MADDALA, 1983). Algumas variáveis explicativas que entraram na equação de escolha ocupacional (1) não aparecem na equação de seleção entre não-aposentados e aposentados (2). Este é o caso das variáveis: (a) número de pensionistas no domicílio e (b) número de trabalhadores no domicílio, usadas aqui como instrumentos para separar os 3 Ver Camarano e Medeiros (1999, p. 4-8) 4 Os idosos que se encontravam trabalhando para o próprio consumo, construção para próprio uso ou não- remunerados, foram agrupados na categoria trabalhadores sem carteira assinada. 5 Uma possível classificação das ocupações segundo características de formalidade/informalidade poderia considerar a contribuição para a previdência. Contudo, a dificuldade surge para o caso dos trabalhadores idosos aposentados, os quais já deixaram de contribuir para previdência social. Para maiores detalhes de classificações alternativas vide Saboia e Saboia (2004). 12 determinantes da aposentadoria dos custos relacionados à procura por emprego no mercado segmentado. As demais variáveis tratam de atributos pessoais, especificamente, sexo, raça, idade, anos de estudo, filiação sindical, tamanho da família, chefia familiar, presença de filho menor de 14 anos, estado conjugal e variáveis binárias de localização regional. As Tabelas A.1 e A.2, em apêndice, fornecem maiores informações sobre as variáveis utilizadas nos modelos. Na primeira tabela, encontram-se as descrições e definições de cada variável, enquanto na segunda tabela, as estatísticas descritivas da amostra. 5. Resultados Empíricos Na Tabela 4, abaixo, são apresentados os resultados para o teste de viés de seleção na amostra. Mais especificamente, foram elaborados testes de Wald para os parâmetros associados às taxas inversas de Mill (resíduos generalizados) no modelo multinomial (1), variáveis de controle que foram obtidas a partir da estimação da equação de seleção (2) em primeiro estágio6. A estatística Qui-Quadrado revelou-se significativa a 5% na maioria das equações estimadas para homens e mulheres idosos. Tais resultados indicam presença de auto-seleção envolvida na condição de aposentado/não-aposentado. Destarte, o modelo de escolha ocupacional (1) deve ser estimado em amostras separadas por aposentados e não-aposentados, uma vez que os coeficientes obtidos seriam diferentes para os referidos grupos (PIRACHA e VADEAN, 2009). Tabela 4: Teste para viés de seleção na amostra por condição de aposentadoria Mulheres Homens Equação TSC x TC AE x TC FP x TC Todas TSC x TC AE x TC FP x TC Todas Estatística 16,05*** 26,36*** 3,05* 29,62*** 5,31** 4,69** 0,35 6,41* P-valor 0,0001 0,0000 0,0808 0,0000 0,0212 0,0304 0,5556 0,0934 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. Nota: *** Estatisticamente significativo a 1%.** Estatisticamente significativo a 5%.* Estatisticamente significativo a 10%. A Tabela 5, a seguir, mostra os efeitos marginais sobre a chance relativa de ocupação dos idosos não-aposentados – taxas relativas de risco (TRR), estimativas produzidas a partir de regressões do modelo (1) separadas por gênero. Em cada coluna da tabela em foco, são feitas comparações das categorias de ocupação: trabalhadores sem carteira de trabalho assinada (TSC), trabalhadores por conta-própria e empregador (AE) e funcionário público (FP), com a ocupação de referência - trabalhador com carteira de trabalho assinada (TC). Os resultados mostram que a idade, a educação e a participação em sindicatos são variáveis importantes na alocação ocupacional dos idosos não-aposentados. Um ano a mais de idade aumenta em 8% a chance de uma mulher idosa empregar-se como assalariada sem carteira, e em 7% de atuar como autônoma comparada ao emprego assalariado com carteira assinada. Camarano (2001), por exemplo, observou que a contratação de um idoso representa algumas vantagens em termos de custos relativamente à contratação de um não idoso, pois um idoso tem uma probabilidade maior de aceitar um emprego com menos garantias trabalhistas. O idoso de cor branca tem maior propensão de trabalhar como autônomo relativamente ao emprego assalariado formal, sobretudo, se for do sexo feminino. O nível de instrução, por sua vez, aumenta as chances de emprego do idoso não- aposentado nos setores formais, isto é, em ocupações assalariados com carteira assinada ou como servidor público. Nesse aspecto, as diferenças por gênero mostraram-se relevantes. Por exemplo, uma mulher idosa com 15 ou mais anos de escolaridade tem chance relativa de trabalhar como assalariada sem carteira ou como autônoma, reduzida em 75% e 84%, respectivamente. Já um homem idoso nessa mesma faixa de instrução eleva em 12 vezes sua 6 A Tabela A.3 em apêndice apresenta os resultados completos das estimações utilizadas no teste. 13 chance de emprego no setor público, comparado ao emprego assalariado formal. Para Wajnman et al. (2004), são os trabalhadores de maior nível de qualificação que apresentam maior probabilidade de se manter ocupados nas idades avançadas. Não obstante o gênero considerado, a filiação sindical atua no mesmo sentido da instrução, isto é, diminui a probabilidade de emprego do idoso não-aposentado nas ocupações assalariadas sem carteira assinada e autônomas, relativamente ao emprego assalariado com carteira assinada. Uma vez que o idoso não-aposentado não tem acesso à renda da aposentadoria, a filiação a um sindicato poderia favorecer a alocação ocupacional desse trabalhador em empregos formais. Tabela 5: Efeito marginal nas chances relativas de ocupação - idosos não- aposentados Mulheres Homens Variáveis TSC x TC AE x TC FP x TC TSC x TC AE x TC FP x TC Raça 1,0454 1,5078* 1,4418 0,8172 1,3039* 0,8777 (0,1922) (0,2754) (0,3308) (0,1178) (0,1530) (0,1609) Idade 1,0797** 1,0680** 0,9477 1,0198 1,0204 0,9951 (0,0265) (0,0265) (0,0288) (0,0166) (0,0145) (0,0183) Estudo1a4 0,7862 0,9630 2,6619* 0,5627** 0,7364* 1,5569 (0,1824) (0,2274) (1,1360) (0,0985) (0,1141) (0,4611) Estudo5a10 0,5613* 1,1497 4,0589** 0,4161*** 0,7070* 1,5769 (0,1571) (0,3179) (1,8528) (0,0839) (0,1200) (0,5024) Estudo11a14 0,3285*** 0,7185 8,6462*** 0,3611*** 0,5690** 3,8538*** (0,1022) (0,2154) (3,8827) (0,0873) (0,1119) (1,2306) Estudo15+ 0,2456*** 0,3471** 8,3028*** 0,8263 1,3006 11,9222*** (0,0972) (0,1362) (4,1119) (0,2657) (0,3452) (4,3181) Sindicato 0,2465*** 0,1599*** 1,8690** 0,3200*** 0,4323*** 2,4306*** (0,0617) (0,0431) (0,4466) (0,0613) (0,0592) (0,4315) Família.tamanho 1,1014 1,1067 1,1984* 0,9395 0,8807** 0,8676* (0,0794) (0,0781) (0,1010) (0,0427) (0,0344) (0,0551) Casado 1,4416 1,6710 1,1168 0,8780 1,2352 1,1955 (0,3865) (0,4446) (0,3469) (0,1445) (0,1741) (0,2646) Chefe 1,1897 1,6331 1,6625 0,7917 0,9361 1,1810 (0,3249) (0,4400) (0,5202) (0,1400) (0,1408) (0,2916) Filho14 0,9307 0,4725* 0,8185 1,1403 0,9435 1,1320 (0,3197) (0,1779) (0,3738) (0,2482) (0,1721) (0,3220) NO 1,3212 1,9421* 2,7621** 1,6848* 2,6634*** 4,0698*** (0,4230) (0,6219) (1,0108) (0,4089) (0,5373) (1,2010) NE 1,2595 1,9135** 1,8078* 1,7224** 1,8034*** 2,5998*** (0,2975) (0,4425) (0,5028) (0,3122) (0,2724) (0,5857) SUL 1,0876 0,7944 0,4050** 0,9723 0,9111 1,0421 (0,2503) (0,1857) (0,1407) (0,1952) (0,1425) (0,2767) CO 1,5218 2,0437* 1,5142 1,0207 1,1356 1,5072 (0,4800) (0,6379) (0,5811) (0,2067) (0,1878) (0,4166) Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. Notas: Desvios-padrão robustos à heterocedasticidade entre parênteses. *** Estatisticamente significativo a 0,1%. ** Estatisticamente significativo a 1%. * Estatisticamente significativo a 5%. O maior número de membros no domicílio favorece o emprego da mulher idosa no setor público, enquanto para o homem idoso e não-aposentado, aumenta a propensão ao trabalho assalariado com carteira assinada. Já a residência dos idosos nas cidades das regiões Norte e Nordeste, eleva a chance relativa de emprego como assalariado sem carteira ou como autônomo/empregador. Esse mesmo efeito também é observado para o emprego como funcionário público, porém, possivelmente relacionado à escolaridade avançada. Dadas as evidências já reportadas sobre viés de seleção envolvido na condição de aposentado/não-aposentado, a Tabela 6, a seguir, registra as taxas de relativas de risco – 14 efeitos marginais sobre as chances relativas de ocupação dos idosos aposentados. Tais resultados foram gerados com a regressão do modelo de escolha ocupacional (1) em amostras separadas de aposentados homens e mulheres. Da mesma forma que nas estimativas da tabela anterior, adotou-se como categoria de referência o emprego assalariado com carteira assinada. Os resultados, em geral, guardam regularidade com os expostos anteriormente, contudo, algumas diferenças na magnitude os parâmetros merecem destaque. Tabela 6: Efeito marginal nas chances relativas de ocupação - idosos aposentados Mulheres Homens Variáveis TSC x TC AE x TC FP x TC TSC x TC AE x TC FP x TC Raça 1,2460 1,3054 0,8109 0,9103 1,1163 1,0725 (0,3590) (0,3757) (0,3495) (0,1603) (0,1880) (0,3844) Idade 1,0853** 1,1028*** 1,0132 1,0957*** 1,0926*** 1,0337 (0,0299) (0,0305) (0,0440) (0,0182) (0,0176) (0,0317) 7 Estudo1a4 0,4875 0,9397 2,81x10 *** 0,4012*** 0,6613 2,0909 7 (0,2101) (0,4106) (9,08 x10 ) (0,1067) (0,1729) (1,4416) 8 Estudo5a10 0,2275** 0,6430 1,02 x10 *** 0,3284*** 0,6291 2,3920 8 (0,1039) (0,2962) (3,08e x10 ) (0,0967) (0,1802) (1,7722) 8 Estudo11a14 0,1515*** 0,4641 7,79 x10 *** 0,2619*** 0,5708 3,3440 9 (0,0722) (0,2237) (2,29 x10 ) (0,0838) (0,1757) (2,4732) 9 Estudo15+ 0,1119*** 0,4180 1,04 x10 *** 0,1874*** 0,5265* 7,8434** 9 (0,0530) (0,1985) (3,08x10 ) (0,0596) (0,1575) (5,2681) Sindicato 0,4038** 0,2764*** 2,0665 0,4255*** 0,4446*** 0,8540 (0,1131) (0,0807) (0,8064) (0,0699) (0,0684) (0,2817) Família.tamanho 0,9060 0,9249 1,1635 1,0279 0,9583 1,2375 (0,1016) (0,1013) (0,2059) (0,0665) (0,0601) (0,1404) Casado 2,2594* 2,9136** 1,6697 1,0890 1,1825 0,6759 (0,7852) (1,0262) (0,8142) (0,2358) (0,2449) (0,2692) Chefe 1,2355 1,9891 1,4492 1,4020 1,7024** 0,9624 (0,4356) (0,7028) (0,7097) (0,3047) (0,3489) (0,3946) Filho14 1,8651 1,9102 3,1788 0,8947 0,6989 1,0095 (1,5200) (1,5526) (3,4631) (0,2608) (0,1995) (0,5356) NO 11,5388* 12,1983* 11,8345* 2,0132 3,2644** 1,2850 (12,1944) (12,9812) (13,4732) (0,8319) (1,3006) (1,0308) NE 3,2139** 4,2309*** 1,3990 2,5015*** 3,5081*** 2,4615* (1,2011) (1,5860) (0,7311) (0,6021) (0,8026) (1,0029) SUL 2,0080* 0,8700 0,4939 1,2667 0,8447 0,2424* (0,6064) (0,2721) (0,2579) (0,2280) (0,1434) (0,1372) CO 1,3153 1,3896 1,5046 1,2167 1,1666 1,4646 (0,6035) (0,6167) (0,9801) (0,3255) (0,2932) (0,6518) Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. Notas: Desvios-padrão robustos à heterocedasticidade entre parênteses. *** Estatisticamente significativo a 0,1%. ** Estatisticamente significativo a 1%. * Estatisticamente significativo a 5%. A idade aumenta a propensão de emprego dos idosos aposentados enquanto assalariados sem carteira assinada ou como autônomos/empregadores. Tal efeito é observado para homens e mulheres e são mais acentuados quando comparados aos idosos não- aposentados (vide Tabela 5). Esse resultado é importante, pois como observado na literatura, os idosos aposentados, em geral, se inserem em ocupações sem carteira, tendo em vista os benefícios para o empregador. Não obstante, estes idosos, por se beneficiarem do rendimento da aposentadoria, geralmente aceitariam benefícios mais baixos e condições de trabalho inferiores (CAMARANO, 2001). Quanto à instrução, verificam-se fortes diferenças em favor das mulheres aposentadas. O elevado grau de escolaridade reduz a chance relativa de emprego do idoso aposentado nos trabalhos assalariados sem carteira assinada, todavia, para as idosas esse efeito ainda é maior. No caso dessas trabalhadoras, a educação tem efeito direto e extremamente elevado na chance 15 relativa de emprego no setor público. Esses efeitos marginais são bem maiores que os observados para os não-aposentados, sejam homens ou mulheres. Esses resultados são consoantes com os encontrados na literatura nacional, os quais destacam a importância da educação para a permanência do idoso no mercado de trabalho à medida que a idade avança. A educação determina as melhores chances de ocupações que não exijam tanto vigor físico, sobretudo, para os trabalhadores mais qualificados (WAJNMAN et. al 2004; LIBERATO, 2003). A filiação sindical desfavorece o emprego dos idosos aposentados nas ocupações sem carteira de trabalhado assinada ou como autônomo/empregador frente ao emprego assalariado com carteira assinada, principalmente, no tocante as mulheres idosas. Contudo, esse efeito é ainda maior para as mulheres não-aposentadas, as quais enfrentam a concorrência dos aposentados no mercado de trabalho. Já a condição de chefia da família aumenta em 70% a propensão do homem idoso e aposentado de atuar como autônomo/empregador, relativamente ao emprego com carteira de trabalho assinada. Diferentemente do observado para os idosos não-aposentados, a mulher que vive com cônjuge (casada) tem chance relativa de emprego como assalariada informal e autônoma mais que dobrada. O efeito da localização regional, particularmente, nas regiões Norte e Nordeste, aumenta de forma acentuada a chance relativa de emprego para mulheres e homens nas últimas ocupações citadas. De fato, esses impactos são mais elevados que os já reportados para os não-aposentados na Tabela 5. Em geral, os resultados encontrados para os aposentados foram mais relevantes do que os não-aposentados. A questão institucional é fator importante para a determinação da oferta de trabalho pelos aposentados, pois a aposentadoria por tempo de contribuição e/ou por idade pode favorecer a permanência/re-inserção dos aposentados. De fato, a possibilidade da mulher empregada no setor público se aposentar cinco anos mais cedo que os homens, aliada a uma maior educação, pode permitir sua inserção no mercado de trabalho em melhores ocupações que os homens (CAMARANO, 2001; WAJNMAN et. al 2004). Considerando os resultados estimados no modelo anterior, foram utilizadas as equações (4) e (5) para computar por diferença factual e contrafactual os potenciais efeitos da aposentadoria nas probabilidades de ocupação dos homens e mulheres por setores. Esses resultados são registrados na Tabela 7, a seguir. Na primeira coluna encontram-se as médias das probabilidades de emprego preditas para não-aposentados e aposentados (factual). Já na segunda coluna são apresentados os valores médios das probabilidades de emprego contrafactuais, isto é, para os aposentados a probabilidade média de emprego por setor caso não tivessem se aposentado, e para os não-aposentados, probabilidade média de emprego por setor caso decidissem pela aposentadoria. Por fim, a terceira coluna mostra a variação na probabilidade de emprego decorrente da condição de aposentadoria7. Após considerar o efeito de todas as variáveis explicativas no modelo de escolha ocupacional (1), os resultados acima mostram que decisão de aposentadoria reduz a probabilidade de o idoso encontrar-se empregado como assalariado com carteira assinada, assim como, empregado no setor público, independente da sexualidade observada. Por exemplo, observando a terceira coluna da tabela em foco, para mulheres aposentadas, constate-se que a decisão de aposentadoria diminui as probabilidades de emprego como assalariado com carteira assinada e funcionário público em 0,06 e 0,07, respectivamente. De forma semelhante, para os homens aposentados, a condição de aposentadoria retrai as referidas probabilidades em 0,09 e 0,06. Tais evidências também são consistentes para os não- aposentados. Enquanto a situação de não-aposentadoria eleva a probabilidade de emprego com carteira assinada para mulheres em 0,05 e para os homens em 0,08, por outro lado, 7 Também foi efetuado um teste de diferença entre as médias amostrais das probabilidades factuais e contrafactuais. 16 também aumenta a chance de ocupação com no setor público em 0,06 e 0,09, para homens e mulheres, seqüencialmente. Outra constatação importante proveniente da Tabela 7 é que a condição de aposentado aumenta as probabilidades de trabalho sem carteira assinada ou como autônomo/empregador, sobretudo, o emprego na primeira função. Observe-se que para a mulher aposentada, esse efeito incrementa a propensão ao trabalho assalariado sem carteira assinada 0,09, ao passo que para os homens, o aumento estimado é de 0,12. Tabela 7: Efeito da aposentadoria na probabilidade de ocupação por categorias Não-aposentados mulheres homens (1) Probabilidade (2) Probabilidade Diferença: (1)Probabilidade (2) Probabilidade Diferença: predita contrafactual (1)-(2) predita contrafactual (1)-(2) TC 0,1129 0,0619 0,0509*** 0,2043 0,1230 0,0813*** TSC 0,3442 0,4520 -0,1078*** 0,2055 0,3145 -0,1089*** AE 0,3989 0,4367 -0,0377*** 0,5043 0,5354 -0,0311*** FP 0,1439 0,0493 0,0946*** 0,0857 0,0269 0,0589*** Aposentados mulheres homens (1) Probabilidade (2) Probabilidade Diferença: (1)Probabilidade (2) Probabilidade Diferença: predita contrafactual (1)-(2) predita contrafactual (1)-(2) TC 0,0493 0,1073 -0,0580*** 0,0988 0,1947 -0,0959*** TSC 0,4542 0,3651 0,0891*** 0,3219 0,1981 0,1238*** AE 0,4530 0,4063 0,0467*** 0,5558 0,5181 0,0376*** FP 0,0434 0,1212 -0,0777*** 0,0234 0,0889 -0,0655*** Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. Nota: *** Estatisticamente significativo a 1%. Em geral, essas evidências sugerem que, ao se aposentar, o idoso tende a ocupar-se em funções cujas condições de atividade são precárias (trabalho assalariado informal) e os rendimentos são mais baixos que aqueles oferecidos em outras ocupações, a exemplo do trabalho com carteira assinada ou autônomo. Portanto, essa implicação respalda fortemente a decisão de permanência ou re-inserção do idoso aposentado no mercado de trabalho como necessidade de complementação do rendimento familiar. 5. Considerações Finais Esse artigo teve por objetivo analisar a inserção dos idosos nos diferentes segmentos do mercado de trabalho brasileiro a partir de dois enfoques: (i) a averiguação do efeito dos atributos sócio-econômicos (sexo, idade, educação, posição na família etc) nas chances relativas de emprego dos idosos entre as diferentes categorias ocupacionais e; (ii) ao estimar o impacto da condição de aposentado nas probabilidades de emprego por categorias de trabalho. Para tanto, utilizaram-se os dados mais recentes da PNAD de 2007 e um modelo empírico de escolha ocupacional. As evidências iniciais, a partir da análise estatística dos dados, apontaram para a elevação da participação dos idosos na população total durante os últimos dez anos, inclusive aposentados. Há um relativo envelhecimento da população brasileira e uma presença marcante de idosos no meio urbano. No que se refere à inserção do idoso no mercado de trabalho, verificou-se que os não-aposentados são mais instruídos, trabalham mais horas e recebem salário médio superior aos aposentados. A maior parte dos aposentados se encontrava em inatividade, entretanto, as idosas não-aposentadas foram as que apresentaram maiores percentuais na referida condição. A taxa de desemprego mostrou-se maior entre os aposentados. Os idosos não-aposentados, tanto homens quanto mulheres, encontravam-se ocupados por conta-própria em sua maioria. Os aposentados homens estavam inseridos em empregos autônomos e as idosas aposentadas, na produção para o próprio consumo. Em geral 17 foi possível verificar que os idosos estavam alocados em ocupações características do setor informal. Os resultados empíricos revelaram presença de auto-seleção envolvida na condição de aposentado/não-aposentado. Após considerar estimativas corrigidas para o viés de seleção na amostra, foi possível observar que a alocação dos idosos entre as diferentes ocupações, é afetada, principalmente, por variáveis como idade e educação. A filiação sindical do idoso também se revelou importante para a redução das probabilidades de emprego em ocupações sem carteira assinada e autônomo/empregador frente ao emprego assalariado com carteira. Por seu turno, as diferenças de localização regional, sobretudo, para os residentes do meio urbano nas regiões Norte e Nordeste, favorecem as chances de emprego nas ocupações já citadas. Todavia, diferenças importantes foram observadas entre os aposentados e não- aposentados e entre homens e mulheres. Primeiro, o aumento da idade eleva a chance de emprego dos idosos nas ocupações sem carteira assinada ou autônomo/empregador, relativamente ao emprego com carteira assinada. Esse efeito, contudo, apresentou-se mais forte para os aposentados. Segundo, quando o nível de estudo aumenta, eleva-se a chance de empregos com carteira assinada e/ou como funcionário público, para ambos os sexos. Entretanto, foi apurado que, para as mulheres aposentadas, a educação tem efeito mais elevado na chance de emprego formal, principalmente, no setor público. O exercício contrafactual, a partir das probabilidades estimadas pelo modelo de escolha ocupacional, permitiu observar que a condição de aposentado aumenta a probabilidade de o idoso ocupar funções cujas condições de atividade são precárias (trabalho assalariado informal) e os rendimentos são mais baixos que aqueles oferecidos pelas ocupações formais. Portanto, as evidências sugerem que a decisão de permanência ou re- inserção do idoso aposentado no mercado de trabalho é resultado da necessidade de complementação da renda familiar, dado que não existem impedimentos legais ao trabalho do aposentado no Brasil. 6. Referências BAKER, Michael; GRUBER, Jonathan; MILLIGAN, Kevin. The Retirement Incentive Effects of Canada’s Income Security Programs. Canadian Journal of Economics, v.36, p.261-290, 2003. BRAGA, T.S. O setor informal e as formas de participação na produção: os casos das Regiões Metropolitanas de Salvador e Recife. 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Apêndice Tabela A.1: Descrição das variáveis utilizadas nas regressões Atributos Pessoais Definição sexo Variável binária: 1- masculino; 0-feminino* raça Variável binária: 1- branco; 0-não-branco * idade Idade em anos idade.quadrado Idade ao quadrado estudo1a4 Variável binária: 1- possui de 1 a 4 anos de estudo; 0-caso contrário * estudo5a10 Variável binária: 1- possui de 5 a 10 anos de estudo; 0-caso contrário * 19 estuto11a14 Variável binária: 1- possui de 11 a 14 anos de estudo; 0-caso contrário * estudo15+ Variável binária: 1- possui 15 ou mais anos de estudo; 0-caso contrário * sindicato Variável binária: 1- filiado a sindicato; 0-caso contrário * Família chefe Variável binária: 1- responsável pela família; 0-caso contrário * casado Variável binária: 1- vive com cônjuge; 0-caso contrário * família.tamanho Tamanho da família (número de pessoas ) filho14 Variável binária: 1- possui filho menor de 14 anos; 0-caso contrário * trabalhadores.família Número de trabalhadores no domicílio pensionistas.família Número de pensionistas no domicílio Não-Aposentado Variável binária: 1- se é não-aposentado; 0 - se aposentado * Residência NO Variável binária: 1- reside na região Norte; 0 – caso contrário NE Variável binária: 1- reside na região Nordeste; 0 – caso contrário SUL Variável binária: 1- reside na região Sul; 0 – caso contrário CO Variável binária: 1- reside na região Centro-Oeste; 0 – caso contrário SE* Variável binária: 1- reside na região Sudeste; 0 – caso contrário Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da PNAD de 2007. Nota: * Categoria de referência/controle. Tabela A.3: Teste para viés de seleção na amostra – regressões – apenas mulheres Probit Logit Multinomial Não-aposentado Empregado sem carteira Autônomo/Empregador versus Funcionário Público versus versus aposentado versus empregado com carteira empregado com carteira empregado com carteira Raça -0,1062* 0,2686 0.5283*** 0.3275 (0,0515) (0,1599) (0.1595) (0.2115) Idade -0,0467*** 0,1473*** 0.1678*** 0.0039 (0,0049) (0,0214) (0.0213) (0.0298) Estudo1a4 0,1178 -0,5835** -0.2293 0.9491* (0,0627) (0,2078) (0.2121) (0.4191) Estudo5a10 0,1016 -1,0420*** -0.2249 1.3031** (0,0747) (0,2391) (0.2400) (0.4390) Estudo11a14 0,0855 -1,5823*** -0.6866** 2.2706*** (0,0856) (0,2546) (0.2539) (0.4251) Estudo15+ -0,2913** -1,3027*** -0.2287 2.7828*** (0,0980) (0,2945) (0.2926) (0.4728) Sindicato -0,3479*** -0,6143** -0.8838*** 1.0399*** (0,0681) (0,2152) (0.2238) (0.2688) Família.tamanho 0,0309 -0,0508 -0.0579 0.1249 (0,0226) (0,0663) (0.0646) (0.0802) Casado 0,1289 0,4587* 0.6474** 0.1865 (0,0692) (0,2182) (0.2176) (0.2649) Chefe -0,0262 0,1725 0.5611* 0.4878 (0,0675) (0,2207) (0.2185) (0.2618) Filho14 0,1112 -0,1259 -0.5505 -0.0679 (0,1165) (0,3171) (0.3240) (0.4225) Trabalhadores.família 0,0391 - - - (0,0265) Pensionistas.família 0,4638*** - - - (0,0576) Não-Aposentado (d) - 3,2753** 4.7165*** 3.0940* (1,0733) (1.0679) (1.4068) - -2,7177*** -3.4627*** -1.5126 (0,6784) (0.6745) (0.8664) NO 0,0477 0,6665* 0.9070** 1.2034*** (0,0853) (0,2866) (0.2871) (0.3368) NE -0,2192*** 0,9482*** 1.4254*** 0.7817** (0,0627) (0,2143) (0.2129) (0.2765) SUL -0,2659*** 0,7506*** 0.3046 -0.6186* (0,0679) (0,2129) (0.2185) (0.3110) CO 0,2700** 0,0640 0.1671 0.1780 (0,0899) (0,2782) (0.2721) (0.3423) Constante 3,0540*** -9,8194*** -12.9314*** -5.2599* (0,3498) (1,8527) (1.8425) (2.5737) Observações 3,109 3,109 P-valor( ) 0,0000 0,0000 Pseudo-R2 0,0774 0,1388 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. 20 Notas: Desvios-padrão robustos à heterocedasticidade entre parênteses. *** Estatisticamente significativo a 1%. ** Estatisticamente significativo a 5%. * Estatisticamente significativo a 10%. Tabela A.4: Teste para viés de seleção na amostra – regressões – apenas homens Probit Logit Multinomial Não-aposentado Empregado sem carteira Autônomo/Empregador versus Funcionário Público versus versus aposentado versus empregado com carteira empregado com carteira empregado com carteira Raça -0,1427*** 0,0420 0.3370** -0.0407 (0,0411) (0,1296) (0.1187) (0.1882) Idade -0,0918*** 0,1673*** 0.1542** 0.0467 (0,0063) (0,0502) (0.0482) (0.0697) Estudo1a4 -0,0075 -0,7184*** -0.3274* 0.4929 (0,0500) (0,1372) (0.1297) (0.2709) Estudo5a10 0,0758 -1,0565*** -0.4670** 0.5013 (0,0592) (0,1596) (0.1467) (0.2946) Estudo11a14 0,0952 -1,2889*** -0.6401*** 1.2887*** (0,0714) (0,1841) (0.1647) (0.2925) Estudo15+ -0,2094** -0,8406*** -0.0173 2.2179*** (0,0754) (0,2411) (0.2178) (0.3408) Sindicato -0,1838*** -0,6785*** -0.5907*** 0.7690*** (0,0461) (0,1449) (0.1317) (0.1840) Família.tamanho 0,0179 -0,0717 -0.1343*** -0.0764 (0,0180) (0,0383) (0.0353) (0.0587) Casado -0,2857*** 0,3272 0.4777** 0.1674 (0,0516) (0,1890) (0.1746) (0.2608) Chefe -0,1515** 0,1425 0.3008* 0.1995 (0,0556) (0,1606) (0.1468) (0.2314) Filho14 0,2053** -0,1564 -0.3424 -0.0007 (0,0782) (0,1918) (0.1770) (0.2693) Trabalhadores.família 0,0230 - - - (0,0200) Pensionistas.família 0,1903** - - - (0,0592) Não-Aposentado (d) - 2,1140 2.2010 1.9147 (1,4429) (1.3712) (1.8789) - -2,0245* -1.8059* -0.6660 (0,8787) (0.8340) (1.1302) NO 0,3655*** 0,1780 0.6926** 1.0990** (0,0679) (0,2622) (0.2401) (0.3417) NE -0,0504 0,6761*** 0.8885*** 0.9596*** (0,0506) (0,1419) (0.1273) (0.1977) SUL -0,1279* 0,3020* -0.0171 -0.2550 (0,0545) (0,1462) (0.1336) (0.2368) CO 0,3174*** -0,2714 -0.1946 0.2508 (0,0629) (0,2161) (0.1984) (0.3039) Constante 6,2813*** -10,9283** -10.0094* -6.7169 (0,4336) (4,1582) (3.9899) (5.6980) Observações 5,317 5,317 P-valor( ) 0,0000 0,0000 Pseudo-R2 0,1467 0,0858 Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da PNAD de 2007. Notas: Desvios-padrão robustos à heterocedasticidade entre parênteses. *** Estatisticamente significativo a 1%. ** Estatisticamente significativo a 5%. * Estatisticamente significativo a 10%. 21 1 TEXTO PARA DISCUSSÃO No 1406 A EVOLUÇÃO DA SEGREGAÇÃO POR QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL AO NÍVEL DAS FIRMAS Luiz Dias Bahia Danilo Coelho Alexandre Messa Silva Sergei Soares TEXTO PARA DISCUSSÃO No 1406 A EVOLUÇÃO DA SEGREGAÇÃO POR QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL AO NÍVEL DAS FIRMAS* Luiz Dias Bahia** Danilo Coelho** Alexandre Messa Silva** Sergei Soares*** Produzido no programa de trabalho de 2008 Rio de Janeiro, junho de 2009 * Os autores agradecem a assistência de pesquisa de Nayara Gomes e Leandro Correia. E-mail para correspondência: danilo.coelho@ipea.gov.br * * Técnicos de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos Setoriais – Diset/Ipea. * ** Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos Sociais – Disoc/Ipea. Governo Federal TEXTO PARA DISCUSSÃO Ministro de Estado Extraordinário de Assuntos Estratégicos – Roberto Publicação cujo objetivo é divulgar resultados de Mangabeira Unger estudos direta ou indiretamente desenvolvidos pelo Ipea, os quais, por sua relevância, levam informações para profissionais especializados e Secretaria de Assuntos Estratégicos estabelecem um espaço para sugestões. As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e de inteira responsabilidade do(s) autor(es), não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Fundação pública vinculada à Secretaria É permitida a reprodução deste texto e dos dados de Assuntos Estratégicos, o Ipea fornece nele contidos, desde que citada a fonte. suporte técnico e institucional às ações Reproduções para fins comerciais são proibidas. governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiro – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidente Marcio Pochmann Diretor de Administração e Finanças Fernando Ferreira Diretor de Estudos Macroeconômicos João Sicsú Diretor de Estudos Sociais Jorge Abrahão de Castro Diretora de Estudos Regionais e Urbanos Liana Maria da Frota Carleial Diretor de Estudos Setoriais Márcio Wohlers de Almeida Diretor de Cooperação e Desenvolvimento Mário Lisboa Theodoro Chefe de Gabinete Persio Marco Antonio Davison Assessor-Chefe de Comunicação Estanislau Maria de Freitas Júnior Assessor-Chefe da Comunicação Institucional Daniel Castro URL: http://www.ipea.gov.br Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria ISSN 1415-4765 JEL J21, J24 SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO 7 2 LITERATURA TEÓRICA 8 3 LITERATURA EMPÍRICA 12 4 METODOLOGIA 13 5 EVOLUÇÃO DA SEGREGAÇÃO EDUCACIONAL NO BRASIL DE 1996-2005 16 6 CONCLUSÕES 19 REFERÊNCIAS 20 SINOPSE Este artigo mede a evolução, entre 1996 e 2005, da segregação por qualificação profissional no que se refere a firmas no mercado de trabalho formal brasileiro. O objetivo é verificar em que medida as firmas possuem uma composição de qualificação laboral diferente daquela dos trabalhadores como um todo. A segregação é medida para quatro diferentes atributos de qualificação laboral: anos de estudo, salário, tempo de emprego e idade. O resultado principal é que, contrastando com o que está ocorrendo nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França, há uma diminuição da segregação quando o atributo é educação. Trata-se de um fenômeno claro, que ocorre em todas as regiões do país. ABSTRACT This article measures the evolution of segregation by skill level among firms in the Brazilian formal labor market from 1996 to 2005. We define segregation as firms having a labor force composition by skill different from the labor market as a whole. We measure segregation using four different indicators for skill level: educational attainment, wages, job tenure, and age. Our main result is that, in contrasts to what has been observed in the United States, the United Kingdom and France, there is a reduction of educational segregation. This is a widespread phenomenon that can be observed in all five of Brazil’s regions. 1 INTRODUÇÃO Parte da desigualdade salarial pode ser explicada como resultado das forças de mercado que associam firmas e trabalhadores. Se trabalhadores com baixa escolaridade trabalham ao lado de outros com escolaridade alta, é possível que o capital humano destes aumente o rendimento daqueles. Ou então, ao contrário, pode ser que aqueles com alta escolaridade se apropriem de uma parte maior do excedente, deixando os outros com menos do que ganhariam em uma firma com trabalhadores de baixa escolaridade. Em qualquer caso, a escolaridade de colegas de trabalho influi nos salários dos trabalhadores, o que, por sua vez, influi na desigualdade salarial. Conceitualmente, segregação refere-se a uma assimetria no emprego de trabalhadores pelas firmas, segundo certas características destes, como qualificação profissional, raça, sexo, nacionalidade etc. Ou seja, se em um mercado de trabalho os profissionais com maior qualificação se concentram em algumas firmas e os menos qualificados em outras, podemos dizer que há segregação por qualificação profissional nesse mercado de trabalho. Analogamente, pode-se falar em segregação por cor de pele, gênero ou outros atributos. Em geral, os índices de segregação atingem seu valor máximo quando cada firma possui somente trabalhadores com o mesmo nível de qualificação (se este for o atributo de interesse). Por outro lado, a segregação é mínima quando a composição de qualificação dos trabalhadores de cada firma for a mesma da economia. O objetivo deste trabalho é medir a segregação por nível de qualificação profissional para verificar em que medida as firmas possuem uma composição de qualificação laboral diferente daquela dos trabalhadores como um todo. Analisaremos a segregação para quatro diferentes atributos de qualificação laboral: anos de estudo, salário, tempo de emprego e idade. Antes de calcular as medidas de segregação, vale um breve resumo de por que esta mesma pode vir a ocorrer. A segregação por qualificação profissional é um tema relativamente pouco abordado na literatura econômica, motivo pelo qual os esforços teóricos de explicação do fenômeno ainda são escassos. A seguir, apresentaremos quatro modelos teóricos sobre segregação, que podem servir de base para posterior (em outro artigo) explicação do fenômeno no mercado de trabalho brasileiro. O primeiro modelo (KREMER, 1993) supõe trabalhadores totalmente complementares no processo produtivo, o que necessariamente leva à segregação por habilidade produtiva. O modelo seguinte (KREMER; MASKIN, 1996) postula a dualidade gerente/gerenciado, que não necessariamente leva à segregação, apesar da complementaridade clara na relação produtiva. Um resultado interessante deste último modelo é que quanto maior for a variância da distribuição do atributo de ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 7 qualificação na força de trabalho maior será o nível de segregação. Gavilán (2006) altera este último modelo, incorporando o papel do capital físico na produção e fazendo considerações sobre a influência de seu preço na segregação por habilidade produtiva. Esse modelo prediz que a redução do preço de capital ou avanço tecnológico leva ao aumento da segregação. Os três modelos utilizam a lógica de associação endógena (endogenous matching) entre firmas e trabalhadores, o que não ocorre com o último modelo (CABRALES; CALVÓ-ARMENGOL, 2008), o qual tem base na preferência dos trabalhadores e em sua interação sociológica no ambiente de trabalho. A hipótese principal é que os trabalhadores, além de salário e esforço, escolhem ambientes de trabalho onde seus colegas são remunerados de forma semelhante a eles, pois de tal modo têm uma utilidade maior, determinada pela externalidade do convívio. Como a remuneração é determinada pela produtividade, o modelo leva a escolhas resultantes em segregação por habilidade do trabalhador. Além de desenvolver um modelo teórico, Kremer e Maskin (1996) estudam empiricamente o tema e demonstram que a segregação por qualificação nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França está aumentando. Este resultado é robusto para diferentes medidas de qualificação, tais como salário, tempo de serviço, status ocupacional e experiência profissional. Por sua vez, Hellerstein e Neumark (2004) demonstram que existe uma substancial segregação por educação e idioma nos Estados Unidos e que a segregação étnica pode ser em grande parte atribuída à segregação por proficiência no inglês. Uma vez claras as contribuições de escassa literatura sobre o tema, passamos a documentar a evolução da segregação por qualificação profissional no que se refere a firmas no mercado de trabalho brasileiro ao longo da última década. Não pretendemos aqui fazer qualquer inferência causal entre segregação e outros aspectos do mercado de trabalho, notadamente o grau de formalização, a desigualdade salarial e o nível de rendimentos. Essas perguntas serão deixadas para esforços posteriores. Neste trabalho, procuraremos nos restringir a mensurar a segregação no mercado de trabalho formal brasileiro entre 1996 e 2005, utilizando como base os microdados da Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (Rais/MTE). 2 LITERATURA TEÓRICA Nesta seção, descreveremos os quatro modelos teóricos citados na introdução. a) O modelo de Kremer (1993) Kremer (1993) considera um processo produtivo aquele que consiste de n tarefas. Essas tarefas seriam complementares entre si, ou seja, se uma não é bem executada, ela compromete a qualidade do produto 8 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea final. Em outras palavras, as tarefas estão organizadas em uma espécie de cadeia, na qual cada uma, do início para o fim do processo produtivo, se organiza em uma transformação gradual até o produto final.1 Cada tarefa é imaginada como sendo executada por um único trabalhador, o que não o impede de executar mais de uma tarefa. Além disso, o número n de tarefas é assumido como dependente da tecnologia e é fixo. Cada trabalhador apresenta uma habilidade própria para executar sua(s) tarefa(s). Para cada tarefa, assume-se haver um trabalhador específico para executá-la. Essa habilidade é expressa na probabilidade qi do trabalhador para executar a tarefa i. Essa probabilidade qi é independente (além de específica) entre os trabalhadores. A hipótese fundamental é a impossibilidade, para a firma, de substituir trabalhadores de habilidades diferentes entre si. Isto quer dizer que não é possível substituir um trabalhador habilidoso por dois com a metade da habilidade, cada um, do primeiro. Trata-se de uma hipótese a favor da existência de vantagens comparativas de habilidade produtiva de cada trabalhador, como em Sattinger (1975). Em outras palavras, cada match entre trabalhadores e firmas é específico de um ponto na curva de transformação de produção da economia, não é possível estar no mesmo ponto produzindo com outro conjunto de trabalhadores por firma. Essas hipóteses são organizadas em uma proposta de função de produção, que tem a propriedade de satisfazer um equilíbrio competitivo, definido como uma atribuição de trabalhadores a cada firma, sob um conjunto de salários definidos a partir da habilidade de cada trabalhador. A função de produção é a seguinte:  n  E ( Y )= k∏ α i q nB  i=1  em que: E (Y ) = produção esperada. kα = capital empregado. n ∏ i=1 q i = probabilidades de execução perfeita de cada tarefa por trabalhador. nB = contribuição total da produção dos trabalhadores, se as tarefas fossem executadas com perfeição. 1 . Conhecida como o-ring theory of production, em referência ao acidente com o ônibus espacial Challenger, cuja trágica destruição resultou de uma falha em uma minúscula peça chamada de o-ring, que congelou e permitiu que o combustível do foguete direito vazasse até a chama do mesmo. A ideia é que uma cadeia é tão forte quanto o seu elo mais fraco. ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 9 Trata-se de uma função de produção não determinística (ou seja, uma equação apenas entre uma variável explicada e outras explicativas), mas probabilística (a esperança estatística de produção a partir das probabilidades de boa execução das tarefas por trabalhador). Outra hipótese importante é que há uma oferta constante de bens de capital. Isso significa que a variação das habilidades dos trabalhadores (o grau de perfeição na produção), ao afetar a quantidade produzida, não altera os preços dos bens de capital, por meio de sua oferta e demanda no mercado. Ou seja, a intensidade de capital na produção não muda em razão da alteração nas habilidades dos trabalhadores. Assim, faz-se um ceteris paribus das mudanças nas habilidades dos trabalhadores. Este modelo implica necessariamente em segregação no mercado de trabalho. O motivo disso é o fato de as tarefas serem organizadas numa cadeia, ou seja, serem complementares. A segregação ocorre porque apenas um trabalhador menos qualificado em um elo da cadeia compromete todos os demais. Assim, é natural que os mais qualificados se agrupem em algumas firmas, cujo processo produtivo contenha tarefas mais exigentes de habilidade, e os menos qualificados naquelas em que as tarefas são menos exigentes. 10 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea b) O modelo de Kremer e Maskin (1996) Este modelo teórico assume três hipóteses como necessárias. Primeiro, a hipótese de que trabalhadores de diferentes habilidades são substitutos imperfeitos entre si. A justificativa é que se os trabalhadores fossem substitutos perfeitos, qualquer firma, mantendo constante a massa salarial paga, poderia, por exemplo, contratar 10 trabalhadores de habilidade h = 2h´ cada um, ou 20 trabalhadores de habilidade h´ cada um. Torna-se claro que tal substituibilidade entre trabalhadores de diferentes habilidades não levaria a uma segregação por habilidade, pois toda firma poderia contratar trabalhadores de qualquer habilidade, variando apenas sua quantidade para atender à complexidade de seu processo produtivo. Segundo, a hipótese de que as diferentes tarefas no processo produtivo de cada firma são complementares. Para entender esse ponto, podemos imaginar um processo produtivo no qual haja duas tarefas: t e t ´. Se as duas tarefas não forem complementares, a firma pode contratar trabalhadores de diferentes habilidades para cada tarefa. Torna-se claro que, neste caso, não haveria uma tendência à segregação por habilidade entre diferentes firmas. Logo, a existência de segregação exige a complementaridade (pelo menos, parcial) entre tarefas no processo produtivo. Terceiro, assume-se que diferentes tarefas no processo produtivo de cada firma são sensíveis diferentemente à habilidade dos trabalhadores. A negação desta hipótese (igual sensibilidade à habilidade de todas as tarefas), mantendo a hipótese de complementaridade anterior, leva ao modelo de Kremer (1993), em que, como vimos, a segregação por habilidade é uma consequência inevitável. Consideradas tais hipóteses, os autores assumem a seguinte função de produção: Y = s q 2 gq em que: Y = produção. qs = habilidade do trabalhador subordinado. q g2 = habilidade do trabalhador gerente (elevada ao quadrado). Nessa função de produção não há substituibilidade de habilidade no nível gerencial, mas vários trabalhadores de baixa habilidade podem ser substituídos por um de alta habilidade. Ou ainda, trabalhadores de baixa habilidade se transformam em subordinados e os de alta habilidade se transformam em gerentes. Quanto mais habilidoso o gerente, mais trabalhadores subordinados ele comanda. ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 11 Suponha-se que a economia seja competitiva e com retornos constantes de escala. A primeira característica garante que a concorrência entre firmas não influencie a designação de trabalhadores para as firmas. A segunda característica garante que a produção de cada firma varie proporcionalmente à quantidade de trabalhadores contratados, deixando apenas as características de habilidade dos trabalhadores como determinantes da produção, segundo o fato de serem gerentes e/ou subordinados. Um resultado interessante do modelo é que quanto maior for a variância da distribuição do atributo de qualificação na força de trabalho maior será o nível de segregação. Por quê? Deve-se notar duas forças de tendência oposta. Por um lado, a assimetria de tarefas no processo produtivo tende a fazer com que trabalhadores de menor qualificação (subordinados) sejam empregados com outros de alta qualificação (gerentes). Por outro lado, a complementaridade entre tarefas tende a fazer com que trabalhadores mais qualificados sejam empregados com outros de qualificação semelhante, enfatizando a segregação. Quanto mais dispersa a distribuição citada, o efeito da assimetria se enfraquece (os trabalhadores subordinados são tão menos habilidosos que o empregador tende a escolher apenas trabalhadores mais qualificados), levando à segregação. Se a dispersão fosse muito reduzida (a maioria dos trabalhadores apresenta qualificações muito semelhantes), tenderia a haver menos segregação, pois o efeito da assimetria seria mais forte que o da complementaridade. Este último aspecto é interessante, pois se imaginarmos uma convergência de habilidades por meio de educação mais acessível e de boa qualidade, a distribuição de habilidades tenderia a ser menos dispersa e a segregação tenderia a diminuir. c) O modelo de segregação de Gavilán (2006) Este autor faz uma extensão do modelo de Kremer (1993), modificando a função de produção, que passa a ter a seguinte formulação: 1− µ f ( x, ,z )=k µ  x θ β k(1+ ) β − θ zβ  Na função de produção acima, x é a contribuição do trabalhador gerente, z, a do trabalhador subordinado ao gerente e k, a do capital empregado. Nota-se que os papéis do gerente e do trabalhador subordinado são complementares, pois entram na função de produção por meio de uma multiplicação, ou seja, a habilidade dos dois juntos ou isolados influencia na produção final. Essa função de produção também implica que há imperfeita substituibilidade entre habilidades dos trabalhadores, ou seja, uma e somente uma pessoa pode ter uma ocupação na planta, não se pode substituir qualidade do trabalhador por quantidade de trabalhadores e 12 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea vice-versa. Outra consequência é que as habilidades do gerente e do subordinado são complementares, como já foi dito, o que influenciará a composição de trabalhadores na planta. E uma consequência final é que há assimetria no emprego dos trabalhadores, ou seja, o trabalhador mais hábil no posto de gerente e o menos hábil na posição subordinada produzem mais do que se o menos hábil fosse o gerente e o mais hábil o subordinado. Outra novidade em relação a Kremer (1993) é que há a contribuição do capital (k). O capital é complementar ao papel do gerente, mas substituto ao papel do trabalhador subordinado. Se não houvesse o papel da assimetria e apenas da complementaridade entre trabalhadores de diferentes habilidades, o modelo levaria à segregação, pois os mais hábeis seriam alocados com os mais hábeis e vice-versa. Se houvesse apenas assimetria, mas não complementaridade, todos acima da mediana de habilidades seriam gerentes e todos abaixo seriam subordinados, não havendo segregação. Assim, como há complementaridade entre capital e habilidade, a queda no preço do capital reforça o papel da complementaridade entre habilidades, levando, portanto, à segregação de indivíduos por habilidade. d) O modelo de Cabrales e Calvó-Armengol (2008) Nesse modelo, não se supõe nenhum tipo de complementaridade entre trabalhadores, ou qualquer tipo de assimetria ou substituibilidade produtiva. A proposta aqui é uma forma de externalidade pecuniária, em que retornos originados do mercado favorecem trabalhadores mais produtivos, e os trabalhadores não gostam de desigualdades em sua própria vizinhança. Os trabalhadores aqui, além da utilidade que obtêm de seu próprio salário e esforço, também experimentam utilidade de sua vizinhança em seu ambiente de trabalho. Ou seja, o trabalhador não gosta de trabalhar em um ambiente onde recebe um salário desigual em relação a seus colegas. Os trabalhadores escolhem ambientes de trabalho onde seus colegas de trabalho são remunerados de forma semelhante à deles, pois de tal forma têm uma utilidade maior, determinada pela externalidade do convívio. Como a remuneração é determinada pela produtividade, o modelo leva a escolhas resultantes em segregação por habilidade do trabalhador. 3 LITERATURA EMPÍRICA Kremer e Maskin (1996) propõem um índice de segregação para ser aplicado quando o atributo de interesse é contínuo. O índice é a razão entre as variâncias deste atributo das firmas e a da economia. Os autores demonstram que a segregação por qualificação nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França está aumentando. Esse resultado é ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 13 robusto para diferentes medidas de qualificação como salário, tempo de serviço, status ocupacional e experiência profissional. Por exemplo, quando o logaritmo do salário-hora é utilizado como medida de qualificação, a segregação por qualificação nos Estados Unidos no setor manufatureiro apresenta o seguinte comportamento: 0,76 (1975), 0,76 (1977), 0,80 (1979), 0,85 (1982), 0,92 (1984), 0,80 (1986). Esse padrão se repete quando os trabalhadores são divididos pelo critério de exercício de atividades diretamente ligadas à produção ou não. Neste caso, a segregação se comporta da seguinte forma: 0,195 (1976), 0,192 (1977), 0,196 (1980), 0,199 (1981), 0,215 (1983), 0,218 (1984), 0,225 (1986), 0,228 (1987). Hellerstein e Neumark (2004) analisam empiricamente a segregação da força de trabalho ao nível da planta por educação, raça, etnia e proficiência no idioma inglês. A base de dados, construída pelos autores, combina informações sobre trabalhadores provenientes do 1990 Decennial Census of Population, e acerca das firmas do Census Bureau List. Para cada atributo estudado, os trabalhadores são divididos em dois grupos. No cálculo da segregação educacional, por exemplo, os trabalhadores são divididos em baixa e alta educação. Os trabalhadores com segundo grau completo ou menos (high school or less) formam o grupo de baixa educação, e os demais trabalhadores, isto é, aqueles com superior completo ou incompleto (at least some college), formam o grupo de alta educação. O grau de segregação é calculado da seguinte forma: para cada trabalhador calcula-se a participação de trabalhadores de baixa educação na firma em que ele trabalha (a presença do trabalhador na firma não é considerada neste cálculo). As médias desta participação entre os trabalhadores de baixa e alta educação são denominadas, respectivamente, índices de isolamento e de exposição. A diferença entre esses índices resulta, então, no índice de segregação. Este, por sua vez, é normalizado dividindo-o pela diferença entre os índices de isolamento e de exposição para o caso de os trabalhadores serem alocados aleatoriamente entre as firmas (calculada pela simulação de Monte Carlo). Os autores apresentam evidências de que a segregação por educação e idioma nos Estados Unidos é muito alta e que a segregação étnica pode ser em grande parte atribuída à segregação por proficiência no inglês. Entretanto, apenas uma pequena parcela da segregação racial pode ser atribuída a diferenças educacionais entre brancos e negros. 4 METODOLOGIA Neste artigo, analisaremos a segregação para quatro diferentes atributos de qualificação laboral: anos de estudo, tempo de emprego, idade e salário. Utilizaremos o índice de informação mútua para medir a segregação quando o atributo de qualificação for o nível de estudo, agrupando os 14 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea diferentes níveis educacionais em três grupos: baixa qualificação (até a 4a série completa), semiqualificação (da 5a série incompleta até o 2o grau completo) e alta qualificação (superior incompleto e completo). Uma vez que os outros três atributos de qualificação são contínuos, utilizaremos, nestes casos, o índice proposto por Kremer e Maskin (1996), isto é, a razão entre a variância da qualificação média entre as firmas e a variância total deste atributo. 4.1 ÍNDICE DE INFORMAÇÃO MÚTUA2 Antes de apresentar o índice de informação mútua, precisamos das seguintes notações: seja I um conjunto finito de trabalhadores, suponhamos que cada trabalhador possua um determinado nível educacional g ∈ { 1,2 ,3} e trabalhe em uma determinada firma { 1,2 ..., } , J em que g = 1 significa j∈ baixa qualificação, g=2 semiqualificação e g = 3 alta qualificação. A entropia ou diversidade da distribuição educacional é definida 3 1 como H ( I) = ∑g = 1 g log P 2 ( em Pg ) que Pg é a proporção de trabalhadores com nível educacional g. Quando nos restringimos a conjuntos de trabalhadores de uma determinada firma, a entropia educacional da 3 1 firma j é dada por H j ( I ) = ∑g = 1 j Plog g2 ( em Pgj ) que P g j é a proporção de trabalhadores do grupo educacional g na firma j. Este índice de diversidade ou entropia varia entre zero e lo g2 3≅ 0,5 0.5 O seu valor máximo, log2 3, é atingido quando a 1 participação de cada grupo educacional é a mesma, isto é, P g = 3 qualquer g ∈ { 1,2 ,3} . O valor zero é o menor valor que este índice pode atingir e isto acontece somente quando todos os trabalhadores possuem o mesmo nível educacional. O índice de informação mútua é definido como J S ( I )= H( ) I∑ − j j P ( em H) que I P j é a proporção de trabalhadores na j=1 firma j, ou seja, S(I) é a diferença entre a diversidade educacional e a média da diversidade educacional das firmas. Esse índice capta a redução de incerteza sobre o nível educacional de um trabalhador escolhido aleatoriamente ao se revelar a identidade da firma em que ele trabalha. 2 . Mora e Ruiz-Castillo (2007) apresentam uma análise axiomática do índice de informação mútua. ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 15 O índice de informação mútua atinge o seu máximo, lo g2 3≅ 0,5 0,5 quando a diversidade educacional da economia é máxima, isto é, J H ( I) = log2 3, e a diversidade média das firmas é mínima ∑ j=1 P j H j ( ) =I 0 . 4.2 ÍNDICE DE KREMER E MASKIN (1996) O índice de Kramer e Maskin (1996) é a razão entre a variância da qualificação média das firmas e a variância deste atributo na economia. Na apresentação da fórmula deste índice, seguiremos com a mesma notação da subseção anterior e adicionaremos as seguintes notações: seja qi,j um atributo contínuo de qualificação (como salário, idade ou tempo de emprego) de um trabalhador i da firma j e zj o conjunto de empregados de uma firma j. O nível médio, q , e a variância, VT, do atributo de qualificação na economia podem ser expressos pelas seguintes fórmulas: J q= ∑ ∑ j=1 i ∈j z i, j qe J I ∑ ∑(q j=1 i ∈j z i, j − q2) VT = I A variância da qualificação entre firmas VBF será dada por: J ∑j=1 z j ( qj − )q 2 VBF = I 16 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea O índice de segregação de Kremer e Maskin (1996) pode ser expresso pela seguinte fórmula: VBF SKM = VT Esse índice pode ser facilmente calculado já que é equivalente ao R2 da regressão da variável “qualificação” em respeito a uma série de dummies de firma. Os autores recomendam a utilização do R2 ajustado para comparar o comportamento da segregação entre economias com diferentes tamanhos de firmas. 4.3 DADOS E APLICAÇÃO DO ÍNDICE DE SEGREGAÇÃO Os dados utilizados para o cálculo da segregação são provenientes da Rais. A Rais é um registro administrativo gerenciado pelo MTE que fornece informações socioeconômicas sobre todas as empresas do setor formal brasileiro e seus respectivos empregados. A partir da Rais, de 1996 a 2005, foram retiradas informações anuais sobre a composição por escolaridade, salário, idade, tempo de emprego e número de empregados de todas as firmas com quatro ou mais empregados por região geográfica. As estatísticas descritivas sobre a composição educacional dos trabalhadores do setor formal são apresentadas na tabela 1. Os diferentes níveis educacionais foram agrupados em três grupos: baixa qualificação (até a 4a série completa), semiqualificação (da 5a série incompleta até o 2o grau completo) e alta qualificação (superior incompleto e completo). TABELA 1 Composição educacional dos trabalhadores do setor formal (Em %) Nordeste Sudeste Sul Norte Centro-Oeste Baixa Semi Alta Baix Semi Alta Baix Semi Alta Baix Semi Alta Baix Semi Alta a a a a 1996 33 55 13 30 55 14 28 59 13 25 63 12 26 59 15 1997 29 57 13 27 57 16 24 61 16 22 63 15 22 63 15 1998 28 59 14 25 58 17 22 62 16 22 63 15 21 63 16 1999 25 60 15 23 60 18 20 63 17 21 66 14 20 64 17 2000 24 61 15 21 61 18 18 66 16 19 68 13 18 65 17 2001 23 62 15 19 62 19 16 67 17 18 69 13 18 65 17 2002 21 63 16 18 64 19 15 67 18 16 70 14 17 65 18 2003 19 63 18 16 64 21 14 68 19 15 70 15 15 64 21 2004 18 64 19 14 65 21 12 69 19 13 72 15 14 66 20 ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 17 2005 16 65 19 13 66 21 11 69 19 12 72 16 13 67 21 Fonte: Rais/MTE. Essas estatísticas não são novas e já foram analisadas em outros trabalhos (ver SOARES, 2006); há uma queda relativamente rápida da população com nível educacional baixo. Esse fato se deve basicamente a três fatores. O primeiro é a melhoria do sistema educacional, com o aumento da cobertura e a redução das taxas de repetência. Os anos 1990 apresentaram números particularmente bons, que se refletem, com certa defasagem, no mercado de trabalho do início daquela década. O segundo fator é que os últimos 20 anos perfazem o pico da janela de oportunidade demográfica educacional. A população em idade escolar como porcentagem da população total passou a declinar já entre os Censos Demográficos de 1991 e 2000. Finalmente, o próprio mercado de trabalho está cada vez mais exigente em termos de qualificação formal. Trabalhadores com pouca qualificação têm tanta dificuldade de inserir-se neste novo mercado de trabalho, que se tornam trabalhadores desalentados e saem da População Economicamente Ativa (PEA) ou vão para o setor informal. 5 EVOLUÇÃO DA SEGREGAÇÃO EDUCACIONAL NO BRASIL DE 1996-2005 As tabelas 2 e 3 apresentam a evolução da diversidade educacional média das empresas e da força de trabalho do setor formal. A diferença entre as duas tabelas é que a tabela 2 mostra a diversidade total da força de trabalho por região, ou seja, se não houvesse firmas, e a tabela 3 mostra a média ponderada da diversidade de cada firma. Se não houver segregação, as duas estatísticas serão idênticas. Como há segregação, as estatísticas na tabela 2 são sempre maiores que as suas correspondentes na tabela 3. TABELA 2 Diversidade do atributo educação na força de trabalho 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Norte 1,2776 1,3050 1,3054 1,2624 1,2178 1,1954 1,1796 1,1734 1,1227 1,1289 Nordeste 1,3778 1,3687 1,3567 1,3533 1,3453 1,3294 1,3123 1,3276 1,3081 1,2847 Sudeste 1,3993 1,3913 1,3852 1,3729 1,3527 1,3319 1,3102 1,3046 1,2816 1,2571 Sul 1,3420 1,3448 1,3318 1,3107 1,2730 1,2532 1,2363 1,2257 1,2019 1,1776 Centro- Oeste 1,3619 1,3132 1,3088 1,3033 1,2743 1,2883 1,2841 1,2883 1,2562 1,2331 Fonte: Rais/MTE. 18 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea É difícil avaliar a magnitude das diversidades já que quase não há trabalhos sobre este tema, mas algo se pode dizer do comportamento comparado. A diversidade na força de trabalho e a média ponderada da diversidade nas empresas têm comportamentos semelhantes em alguns aspectos e diferentes em outros. Tanto uma como a outra mostram uma tendência de queda contínua ou quase-contínua para todas as regiões. Ambas as medidas mostram quedas mais fortes no Norte, Sudeste e Sul do que no Nordeste e Centro-Oeste. A diversidade educacional da força de trabalho, no entanto, se mostra mais estável que a média da diversidade das firmas. Há apenas duas trocas de posição – Nordeste com Sudeste e Sul com Centro-Oeste. Já no caso da média da diversidade por firma, há nove trocas de posição e a ordenação final é totalmente diferente da inicial. Isso é de se esperar, uma vez que a diversidade da força de trabalho (sem firmas) depende principalmente da composição da PEA e da taxa de formalização do emprego, que são variáveis estáveis de mudança lenta. Já a diversidade média das firmas depende também das estratégias de diferentes tipos de firmas, o que a faz uma variável que pode mudar rapidamente. TABELA 3 Média ponderada da diversidade do atributo educação nas firmas 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Norte 0,8579 0,8527 0,8668 0,8697 0,8112 0,7929 0,7615 0,7545 0,7219 0,7234 Nordeste 0,8278 0,8223 0,8293 0,8384 0,8354 0,8090 0,7966 0,7739 0,7591 0,7621 Sudeste 0,8583 0,8694 0,8698 0,8632 0,8468 0,8261 0,8142 0,7955 0,7726 0,7532 Sul 0,8450 0,8647 0,8521 0,8412 0,8309 0,8112 0,7995 0,7808 0,7671 0,7539 Centro- Oeste 0,8381 0,8149 0,8226 0,8288 0,8156 0,8087 0,8155 0,7962 0,7912 0,7797 Fonte: Rais/MTE. A evolução da diversidade das firmas nas regiões Norte e Centro- Oeste é especialmente interessante. No início do período, o Centro- Oeste tem a segunda menor diversidade e no final tem a maior. A região Norte vai de maior para menor diversidade. A tabela 4 apresenta o nível de segregação educacional calculado a partir do índice de informação mútua (diferença entre os indicadores de diversidade das tabelas 2 e 3) para as cinco regiões do Brasil de 1996 a 2005. As médias desse período variam de 0,42, na região Norte, a 0,53, na região Nordeste, passando por 0,51 no Sudeste e 0,46 no Sul. Mais uma vez, a escassez de estudos sobre segregação educacional impossibilita a apropriada qualificação desses valores. TABELA 4 Segregação por educação (baixa, alta e média) – índice de informação mútua ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 19 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Norte 0,4198 0,4523 0,4386 0,3927 0,4066 0,4025 0,4181 0,4189 0,4009 0,4056 Nordeste 0,5500 0,5465 0,5274 0,5149 0,5099 0,5204 0,5157 0,5537 0,5490 0,5226 Sudeste 0,5410 0,5219 0,5153 0,5097 0,5059 0,5057 0,4961 0,5090 0,5091 0,5039 Sul 0,4970 0,4802 0,4797 0,4696 0,4421 0,4421 0,4368 0,4449 0,4348 0,4237 Centro- Oeste 0,5238 0,4983 0,4862 0,4746 0,4586 0,4797 0,4686 0,4920 0,4650 0,4534 Fonte: Rais/MTE. Tal como no caso da diversidade educacional, há queda na segregação educacional em todas as regiões brasileiras, mais significativamente nas regiões Centro-Oeste e Sul. Ao contrário do caso da diversidade, não houve nenhuma mudança de ordenamento no período. Tanto em 1996 como em 2005, a região Nordeste era a que tinha maior segregação educacional, seguida pelas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Sul e Norte. O fato de a segregação educacional estar caindo pode ser consequência da menor diversidade educacional (leia-se melhoria educacional geral), como também por responder a mudanças no mercado de trabalho. Apesar de o foco deste texto ser a instrução formal e não haver dúvida de que este é o melhor indicador de qualificação no Brasil, é possível também analisar a segregação usando outras medidas de qualificação: tempo na firma e idade. Esses dois atributos estão associados ao capital humano específico do trabalhador, que é acumulado ao longo da vida laboral ativa. A tabela 5 mostra a segregação por tempo de emprego e a tabela 6, por idade. TABELA 5 Segregação por tempo de emprego – índice de Kremer e Maskin (1996) 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Centro- Oeste 0,425 0,443 0,466 0,469 0,465 0,460 0,450 0,444 0,445 0,428 Nordeste 0,548 0,563 0,575 0,547 0,559 0,555 0,537 0,526 0,514 0,498 Norte 0,468 0,498 0,499 0,536 0,551 0,558 0,533 0,524 0,510 0,496 Sudeste 0,429 0,430 0,438 0,439 0,446 0,451 0,448 0,448 0,449 0,443 Sul 0,407 0,423 0,435 0,442 0,455 0,456 0,447 0,446 0,433 0,431 Fonte: Rais/TEM. A segregação por tempo de emprego divide as regiões nas mesmas categorias que a segregação educacional: Norte e Nordeste convergem para 0,49 em 2006 e as outras regiões para 0,43. Há, para todas as regiões, duas tendências claras: a segregação por tempo de emprego aumenta durante a década de 1990 e cai a partir de 2001. Não se pode afirmar se isto se deve mais a mudanças demográficas, no que se refere 20 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea à entrada e saída de trabalhadores do mercado de trabalho, ou se houve mudanças no padrão de rotatividade de trabalhadores, que levaram à redução da segregação. TABELA 6 Segregação por idade – índice de Kremer e Maskin (1996) 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Centro- Oeste 0,249 0,278 0,281 0,282 0,285 0,273 0,270 0,271 0,269 0,265 Nordeste 0,260 0,277 0,288 0,297 0,318 0,303 0,294 0,294 0,300 0,295 Norte 0,224 0,243 0,239 0,259 0,269 0,277 0,266 0,266 0,265 0,263 Sudeste 0,216 0,226 0,231 0,240 0,245 0,251 0,253 0,256 0,259 0,262 Sul 0,206 0,215 0,223 0,235 0,242 0,245 0,241 0,242 0,241 0,246 Fonte: Rais/MTE. A segregação por idade mostra um padrão um pouco diferente do caso de segregação por educação. Primeiro, não há grandes diferenças regionais e o índice de todas as regiões situa-se próximo a 0,26. Segundo, as variações são pequenas e mostram apenas uma leve tendência de aumento ao longo dos nove anos analisados. Finalmente, pode-se estudar a própria segregação salarial entre firmas. É o que se faz na tabela 7. Conceitualmente, segregação salarial difere de segregação educacional, por tempo de emprego ou por idade, uma vez que estas são variáveis que representam insumos, enquanto salário é a principal variável de resultado. No entanto, vale a pena ver se a evolução de segregação por salário coincide com a evolução da segregação das outras variáveis. TABELA 7 Segregação por salário – índice de Kremer e Maskin (1996) 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Centro- Oeste 0,523 0,531 0,549 0,540 0,545 0,494 0,490 0,534 0,560 0,554 Nordeste 0,505 0,506 0,516 0,501 0,510 0,462 0,465 0,453 0,474 0,471 Norte 0,430 0,435 0,444 0,427 0,424 0,410 0,406 0,406 0,401 0,395 Sudeste 0,436 0,441 0,444 0,439 0,444 0,415 0,417 0,423 0,428 0,431 Sul 0,398 0,423 0,416 0,406 0,409 0,393 0,381 0,389 0,400 0,402 Fonte: Rais/MTE. Há, novamente, uma divisão regional, mas desta vez o Centro-Oeste e o Nordeste sofrem com índices próximos a 0,5, e o Norte, o Sul e o Sudeste ficam todos um pouco acima de 0,4, em média. Diferentemente de todos os outros tipos de segregação, não há tendência temporal clara na segregação salarial. ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 21 6 CONCLUSÕES Este é um estudo exploratório sobre um tema ainda muito pouco analisado, tanto no Brasil quanto em outros países. Portanto, conclusões muito fortes não devem ser tiradas dos dados aqui apresentados. Nosso resultado mais importante é que, contrastando com o que está ocorrendo nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França, há uma diminuição da segregação educacional. Trata-se de um fenômeno claro que ocorre em todas as regiões do país. Dada a relevância da distribuição educacional em explicar estatisticamente a distribuição salarial, pode-se questionar se esta queda tem relação com a redução da desigualdade salarial, que ocorreu ao longo do mesmo período. Uma questão adicional igualmente relevante é se a redução observada nos índices de segregação reflete apenas movimentos demográficos na oferta de trabalhadores qualificados ou se há mudanças de fato ocorrendo no comportamento das firmas, ainda que como resultado de mudanças demográficas. Pretende-se aprofundar este estudo no futuro próximo, buscando determinantes do comportamento da segregação no Brasil. Por um lado, pode-se explorar como determinante o preço de máquinas e equipamentos, que decresceu desde 1990 como sugerido por Gavilán (2006); ou alterações na dispersão da distribuição de atributos produtivos da força de trabalho, como sugerido por Kremer e Maskin (1996). E, finalmente, dados da firma, como rotatividade do trabalho, ou características do processo produtivo (linha de montagem ou não, por exemplo). REFERÊNCIAS CABRALES, A.; CALVÓ-ARMENGOL, A. Social preferences and skill segregation. Journal of Economic Theory, n. 139, p. 99-113, 2008. GAVILÁN, A. Wage inequality, segregation by skill and the price of capital in an assignment model. Banco de España, 2006 (Research Paper, n. WP-0613). Disponível em: . HELLERSTEIN, J.; NEUMARK, D. Ethnicity, language, and workplace segregation: evidence from a new matched employer-employee data set. Annales d ´Economie et de Statistique, p. 19-78, 2004. KREMER, M. The o-ring theory of economic development. Quarterly Journal of Economics, n. 108, p. 551-575, 1993. KREMER, M.; MASKIN, E. Wage inequality and segregation by skill. NBER, 1996 (Working Paper, n. W5718). MORA, R.; RUIZ-CASTILLO, J. The invariance properties of the mutual information index of multigroup segregation. Universidad Carlos III, 2007 (Economics Working Papers, we077544). Disponível em: 22 texto para discussão | 1406 | jun. 2009 ipea . SATTINGER, M. Comparative advantage and the distributions of earnings and abilities. Econometrica, v. 43, n. 3, p. 455-468, 1975. SOARES, S. Aprendizado e seleção: uma análise da evolução educacional brasileira de acordo com uma perspectiva de ciclo de vida. Brasília: Ipea, 2006 (Texto para Discussão, n. 1.185). Disponível em: . ipea texto para discussão | 1406 | jun. 2009 23 © Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea 2009 EDITORIAL Coordenação Iranilde Rego Supervisão Andrea Bossle de Abreu Revisão Lucia Duarte Moreira Alejandro Sainz de Vicuña Eliezer Moreira Elisabete de Carvalho Soares Fabiana da Silva Matos Miriam Nunes da Fonseca Roberta da Costa de Sousa Editoração Roberto das Chagas Campos Aeromilson Mesquita Camila Guimarães Simas Carlos Henrique Santos Vianna Livraria SBS – Quadra 1 – Bloco J – Ed. BNDES, Térreo 70076-900 – Brasília – DF Fone: (61) 3315-5336 Correio eletrônico: livraria@ipea.gov.br Tiragem: 130 exemplares A experiência do Programa Primeiro Emprego para os jovens na Região Metropolitana de Porto Alegre Resumo Este artigo tem o propósito de abordar a experiência do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro para os Jovens (PNPE) na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). O PNPE constituiu-se em uma intervenção ativa no mercado de trabalho do Governo Federal, cujo propósito, em sua linha de subvenção econômica, era o de proporcionar emprego para jovens. De acordo com os dados disponíveis, o PNPE teve resultados quantitativos modestos em termos de empregos proporcionados aos jovens. No artigo, elaboram-se argumentos sobre as razões desde desempenho do PNPE, bem como sobre porque o Rio Grande do Sul e a RMPA tiveram uma performance relativamente mais favorável na sua execução, defendendo-se a compreensão de que esta foi influenciada pelo fato de o Estado ter implementado um programa semelhante entre 1999-2002, cujos resultados, de acordo com indicações existentes, foram positivos. Palavras-chave: políticas ativas de emprego; primeiro emprego; desemprego juvenil; mercado de trabalho metropolitano. 1. Introdução Os jovens constituem-se em um dos grupos populacionais cuja incidência do desemprego está entre as mais elevadas. Para tanto concorrem diversos fatores, dentre os quais pode-se mencionar a ausência de experiência anterior de trabalho, o ritmo de crescimento da população juvenil e a maior fragilidade em sua situação ocupacional nas fases de redução do nível de atividade durante o ciclo econômico. Isto os têm tornado objeto de atenção tanto de instituições no âmbito internacional quanto de governos nas diferentes regiões do mundo, no que se refere à formulação e adoção de políticas de inserção no mercado de trabalho, cujo propósito é o de enfrentar o desemprego juvenil. Por estarem passando por uma fase particular do ciclo de vida, aquela em que se dá a transição da escola para o trabalho, os jovens possuem características que lhes são próprias e que precisam ser levadas em consideração no desenho das políticas públicas. A este respeito, as suas primeiras experiências laborais ocorrem em ampla medida na condição de trabalhadores assalariados, pois o emprego é a sua forma majoritária de ingresso no mundo do trabalho. Todavia, essas experiências são muitas vezes caracterizadas pela elevada instabilidade e precariedade, em face da ausência de acúmulo de habilidades que permitam acessar postos de trabalho de melhor qualidade, com recorrência reforçadas pelo baixo dinamismo econômico em termos de geração de oportunidades de trabalho. Destes aspectos se derivam diversas implicações para a formulação das políticas públicas direcionadas à população jovem. A primeira delas é a de que tais políticas devem ser fundamentalmente ativas, pois se trata da necessidade de contribuir para a geração de oportunidades de trabalho para esse segmento populacional. A segunda delas é a de que as políticas precisam estar voltadas ao aumento da demanda de trabalho assalariado, pois o emprego é a categoria ocupacional essencial para as perspectivas laborais dos jovens. Por último, as políticas precisam contribuir para a melhora do nível de escolaridade e de formação profissional dos jovens, para que eles possam aumentar as suas chances de êxito na obtenção de emprego no processo de transição da escola para o trabalho. Quando abordam-se as políticas de inserção dos jovens no mercado de trabalho, é importante ter presente que no próprio interior desse segmento populacional há uma heterogeneidade acentuada de características. Tal heterogeneidade pode assumir diversas formas, 1 dentre as quais se assinalam a idade, o sexo, a escolaridade, o nível de renda familiar, etc. Assim, a concepção da política de inserção no mercado de trabalho necessita levar em conta em sua formulação se se trata majoritariamente de jovens adolescentes ou de jovens adultos, se existem diferenças relevantes de incidência do desemprego entre homens jovens e mulheres jovens, se há um contingente expressivo de jovens com baixo nível de educação formal e se muitos deles são provenientes de famílias de baixa renda. Assim, a heterogeneidade nos termos aqui aludidos remete a segmentos em desvantagem no interior da população jovem, que estariam a merecer atenção específica das políticas de inserção no mercado de trabalho. A concepção das políticas de inserção dos jovens no mercado de trabalho se dá, habitualmente, no plano nacional. Com recorrência, é neste âmbito decisório que se definem os objetivos, as prioridades e os meios de implementação destas políticas. Não obstante, uma questão que se coloca a este respeito está relacionada à possibilidade de existência de uma diversidade de situações em que os jovens se encontram nos diferentes contextos regionais de um país. No caso de uma nação de grande extensão territorial, como o Brasil, existem disparidades regionais no que se refere ao nível de desenvolvimento socioeconômico, bem como à estruturação dos mercados de trabalho, que necessitam ser identificadas no desenho e na implementação das políticas, para que elas possam proporcionar resultados mais satisfatórios. Com base nas preocupações acima esboçadas, este estudo tem por objetivo geral analisar os resultados do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego para os Jovens (PNPE), implementado pelo Governo Federal de 2003 a 2007, no âmbito do mercado de trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). Para tanto, pretende-se: (i) fazer uma análise das informações coletadas junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre a execução do Programa, com o objetivo de contribuir para o conhecimento dos seus resultados; (ii) abordar, de forma sucinta, o desemprego juvenil no mercado de trabalho da RMPA durante o período de vigência do PNPE, por meio da base de dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA), assim como estimar o contingente de jovens que preenchiam os critérios de habilitação do programa e como este evoluiu no período em foco e (iii) elaborar uma interpretação sobre o desempenho do PNPE nos planos nacional e local, com o propósito de contribuir para o aprimoramento e a efetividade das políticas ativas direcionadas à inserção dos jovens no mercado de trabalho. 2. Uma experiência de política pública no Brasil para inserção dos jovens no mercado de trabalho: o Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego (2003-2007) A situação dos jovens no mercado de trabalho brasileiro evidencia elevada incidência do desemprego, reproduzindo, em alguma medida, uma característica do seu padrão de inserção no mercado de trabalho, observada no plano internacional (O’Higgins, 1997; Tokman, 2003; Quintini et al., 2007; Pochmann, 2000; Ramos, 2003; Ribeiro e Juliano, 2005; Corrochano et al., 2008). De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, a taxa de desemprego dos jovens de 15 a 24 anos era de 19,0% em 2003, enquanto a taxa de desemprego média do mercado de trabalho brasileiro era de 9,7% naquele mesmo ano. Em 2003, havia aproximadamente 4,04 milhões de jovens desempregados no Brasil, o que correspondia a 47,3% do contingente total de desempregados do país. Dado que os jovens representavam 24,2% da população economicamente ativa total do Brasil em 2003, fica reforçada a compreensão de que o desemprego lhes atinge com muito mais intensidade. Diante desta realidade, o Governo Federal tomou a iniciativa de formular, em 2003, um programa para inserção dos jovens no mercado de trabalho do país, denominado de Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego para os Jovens (PNPE), o qual passou a vigorar 2 sob a forma de lei em outubro daquele ano.1 Os dois principais objetivos do programa eram os de criar postos de trabalho para os jovens de 16 a 24 anos e o de qualificá-los para inserção no mercado de trabalho.2 Não obstante o programa tenha se desdobrado em diferentes ações3, o foco central deste estudo será o da sua linha de subvenção econômica para geração de emprego para os jovens. O PNPE estabeleceu diversos requisitos para que os jovens pudessem ser habilitados para dele participarem, sendo que os mesmos tinham caráter cumulativo. São os seguintes os requisitos de habilitação do programa: (i) o jovem deve encontrar-se em situação de desemprego involuntário; (ii) ele não pode ter tido vínculo de emprego anterior; (iii) ele tem de ser membro de família com renda mensal per capita de até ½ salário mínimo4; (iv) e ele deve estar matriculado e freqüentando estabelecimento de ensino fundamental ou médio, ou ter concluído o ensino médio. Conforme se constata, os requisitos de habilitação do PNPE delineiam um perfil de jovem que exerce procura por trabalho, mas não possui experiência de trabalho formal, que é oriundo de famílias de baixa renda e, ainda, que esteja estudando5. Esses requisitos de habilitação mostram que se trata de um programa direcionado para jovens em desvantagem, particularmente no que se refere à renda familiar. Tal orientação do programa, dentro de certos limites, é reforçada pelo fato de nele estar incluída a determinação de que 70,0% dos empregos criados fossem alocados para jovens que não tivessem concluído o ensino fundamental ou médio. Nesta perspectiva, pode-se afirmar que o programa acompanha uma das características encontradas com recorrência na experiência internacional de políticas ativas para inserção dos jovens no mercado de trabalho, ao se direcionar para segmentos da população jovem em situação de maior dificuldade socioeconômica (Betcherman et al., 2007; Puerto, 2007). Essa orientação talvez fosse ainda mais incisiva se o programa priorizasse, em suas ações, os jovens com escolaridade fundamental incompleta. Considera-se relevante, também, o PNPE conter como requisito de habilitação que o jovem estivesse estudando, como forma de estimular a continuidade do seu processo de avanço em termos de escolarização. Quanto ao mecanismo de criação de empregos no PNPE, este tomou a forma de uma subvenção econômica paga ao empregador, de seis parcelas bimestrais de R$ 250,00, para cada emprego gerado. Portanto, a principal medida ativa do programa assentava-se no esquema de subsídios salariais enquanto instrumento indutor da criação de empregos para os jovens. Cabe assinalar que o PNPE também continha um requisito de habilitação das empresas que favorecia a formalização das relações de trabalho, na medida em que a participação dos empregadores só poderia se dar mediante a comprovação das contribuições devidas ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). A contratação de jovens através do PNPE estabeleceu critério relacionado com o porte das empresas, qual seja: em firmas com até quatro empregados, é facultada a contratação de um jovem; de 5 a 10 empregados, dois jovens; e acima de 10 empregados, pode-se contratar jovens em uma proporção de até 20,0% do quadro de pessoal da empresa por meio do programa. Os 1 Lei Federal n° 10.748, de 22 de outubro de 2003. Essa Lei teve alterações no ano de 2004, passando a ser designada pelo nº 10.940. As referências expostas sobre o PNPE terão como base a Lei nº 10.940. 2 No país, a idade mínima de ingresso legal no mercado de trabalho é a de 16 anos. 3 Dentre estas ações, assinalem-se os Consórcios Sociais da Juventude, o Jovem Empreendedor, o Selo de Responsabilidade Social e o Juventude Cidadã. 4 Nesta média de renda familiar per capita estão incluídas eventuais subvenções econômicas de programas congêneres e similares (ver artigo 2º da Lei 10.940, que introduziu ajustes à Lei 10.748). 5 Como foi visto acima, o jovem que concluiu o ensino médio também pode se inscrever no programa. 3 contratos de trabalho, por sua vez, poderiam ser tanto por prazo indeterminado quanto determinado, sendo que estes últimos deveriam ter duração de no mínimo doze meses. Nesta intervenção ativa para inserção dos jovens no mercado de trabalho que está sendo delineada, um risco que se coloca é o da ocorrência do efeito-substituição6, ou seja, os jovens que obtêm um posto de trabalho o fazem em detrimento do emprego de trabalhadores outrora ocupados. A este respeito, o PNPE incluiu alguns mecanismos, cujo propósito era o de tentar evitar esse tipo de efeito, tendo o MTE sido designado como responsável pelo monitoramento do quadro de pessoal das empresas que viessem a participar do programa. Tal monitoramento deveria se dar por meio de uma base de dados do MTE, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), sendo feito o acompanhamento da taxa de rotatividade do setor em que a empresa participante do programa estava inserida, bem como da região em que ela se localizava. De acordo com o que estipula o programa, caso a empresa evidenciasse uma taxa de rotatividade da sua força de trabalho acima daquela observada no setor em que estivesse inserida e na região em que estava localizada, isto traria como decorrência o cancelamento da sua adesão ao PNPE. Tomando os critérios de habilitação do PNPE, Ribeiro e Juliano (2005) procuraram estimar o contingente de jovens que poderia ser contemplado por esse programa no país. Conforme esse estudo, utilizando a PNAD do IBGE de 2003 como fonte de dados, 1,271 milhões de jovens das áreas urbanas preencheriam os critérios de habilitação do Programa. Na medida em que o Governo Federal havia estabelecido a meta de contemplar 80 mil jovens com o PNPE em 2004, para um contingente total de desempregados desse grupo populacional de 3,647 milhões de pessoas nas áreas urbanas do país em 2003, Ribeiro e Juliano (2005, p. 65 e 66) estimaram que a taxa de desemprego dos jovens se reduziria de 21,5% para 21,0%, concluindo que o PNPE teria um impacto de pequeno alcance, em termos quantitativos, sobre a incidência do desemprego entre os jovens. O MTE disponibilizou dados relativos ao PNPE que permitem que se tenha uma dimensão aproximada dos seus resultados.7 De acordo com tais dados, no período de outubro de 2003 a abril de 2007, 918,4 mil jovens se inscreveram no programa no país, o que mostra que ele teve um apelo razoavelmente grande junto a esse segmento populacional (Gráfico 1). Pode-se constatar que foi bastante desigual o número de inscritos no programa em nível estadual, com algumas Unidades da Federação tendo um expressivo contingente de inscritos (São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, Bahia e Rio de Janeiro, mais de 50 mil por estado) e outras em que o contingente foi de pequeno tamanho (Alagoas, Paraná, Amapá e Acre, menos de 5 mil por estado). Essa compreensão é reforçada quando se examinam as parcelas relativas de cada um dos estados no total de inscritos no programa em nível nacional (Gráfico 2). Nesse sentido, os estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, Bahia e Rio de Janeiro concentraram cerca de 65,0% do total de inscritos no PNPE, enquanto Roraima, Rondônia, Piauí, Alagoas, Paraná, Amapá e Acre, em posição antagônica, representavam somente 4,0% do total de inscritos. 6 A respeito do efeito-substituição, ver Pierre (1999) e Betcherman et. al. (2004). 7 Os dados foram obtidos junto à Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil do Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude do MTE, e correspondem ao período de outubro de 2003 a abril de 2007. 4 Gráfico 1 Gráfico 2 Número de inscritos no PNPE, Brasil e Unidades da Federação Distribuição percentual dos inscritos no PNPE, por Unidades da out./2003-abr./2007 Federação - out./2003-abr./2007 Brasil 918408 SP 19,5 SP 178862 MG 10,5 MG 96076 RS 9,9 RS 90897 CE 9,5 CE 86798 BA 8,3 BA 75921 RJ 6,7 RJ 61312 GO 4,5 GO 41335 RN 4,3 RN 39098 DF 3,0 DF 27740 PE 2,8 Brasil e Unidades da Federação Unidades da Federação PE 25867 SE 2,3 SE 21409 SC 2,2 SC 20387 PB 1,9 PB 17497 AM 1,9 AM 17178 ES 1,8 ES 16767 MA 1,7 MA 15427 PA 1,6 PA 14709 MS 1,4 MS 12876 TO 1,2 TO 10723 MT 1,2 MT 10563 RR 1,0 RR 8859 RO 0,9 RO 8418 PI 0,7 PI 6291 AL 0,4 AL 4064 PR 0,4 PR 3661 AP 0,3 AC 0,3 AP 2964 AC 2709 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0 0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 700000 800000 900000 1000000 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil Quanto ao número de empresas que participaram do PNPE, no acumulado de outubro de 2003 a abril de 2007, este totalizou somente 2.801, o que indica uma possível falta de apelo do programa junto ao meio empresarial (Gráfico 3). Também nesse caso, constatam-se diferenças acentuadas entre os estados em termos de adesão das empresas ao programa: ela se deu em maior grau no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Bahia, mas foi baixa em outros, como Amazonas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Alagoas, Acre e Amapá. Observando-se as parcelas relativas dos estados no total de empresas que participaram do programa no país, sobressaem-se o Rio Grande do Sul (30,4%), Minas Gerais (14,2%), São Paulo (8,3%), Goiás (6,5%) e Paraná (5,2%) (Gráfico 4). Em sentido distinto, Sergipe, Roraima, Amazonas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Alagoas, Acre e Amapá detinham, individualmente, menos de 1,0% do total de empresas que participaram do programa. Ao se examinar os dados relativos aos empregos gerados pelo PNPE no acumulado de outubro de 2003 a abril de 2007, fica-se com a compreensão de que o programa teve um desempenho modesto (Gráfico 5).8 Assim, de acordo com o levantamento do MTE, o programa teria criado aproximadamente 10,2 mil empregos para os jovens, um contingente muito abaixo daquele que correspondia às expectativas originais do Governo Federal, conforme assinalado por Ribeiro e Juliano (2005). Neste sentido, do ponto de vista de seus resultados estritamente quantitativos, o PNPE deve ter sofrido de algum tipo de falha em sua concepção, o que fez com que ele não conseguisse ter impacto de maior expressão sobre o segmento juvenil do mercado de trabalho brasileiro. 8 Os dados obtidos junto ao MTE não discriminam os empregos gerados pela subvenção econômica daqueles proporcionados pela ação de Responsabilidade Social, da qual participaram 305 empresas no período acumulado de outubro de 2003 a abril de 2007. Portanto, o número de empregos acima identificado (10,2 mil) está superestimando os resultados da linha de subvenção econômica, todavia não sendo possível precisar o tamanho desta superestimativa. Aventa-se a possibilidade de que esta não seja de grande magnitude, pois a linha de Responsabilidade Social do PNPE não requeria, necessariamente, a contratação de jovens, podendo contemplar outras iniciativas, como a de atividades de formação e qualificação. 5 Gráfico 3 Gráfico 4 Empresas participantes do PNPE, Brasil e Unidades da Federação Distribuição percentual das empresas participantes do PNPE, por out./2003-abr./2007 Unidades da Federação - out./2003-abr./07 Brasil 2.801 RS 30,4 RS 852 MG 14,2 MG 399 SP 8,3 SP 232 GO 6,5 GO 182 PR 5,2 PR 146 SC 4,2 SC 118 BA 4,1 BA 114 DF 3,1 DF 86 TO 3,0 TO 83 Brasil e Unidades da Federação RN 2,9 RN 82 Unidades da Federação RJ 2,9 RJ 82 ES 2,5 ES 70 CE 2,0 CE 56 MS 1,5 MS 42 PA 1,4 PA 38 PB 1,2 PB 34 MT 1,0 MT 29 RO 1,0 RO 28 SE 0,9 SE 26 RR 0,7 RR 21 AM 0,7 AM 20 PE 0,6 PE 17 PI 0,5 PI 13 MA 0,4 MA 10 AL 0,4 AL 10 AC 0,2 AC 6 AP 0,2 AP 5 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil No que diz respeito à distribuição regional dos empregos gerados pelo PNPE, as evidências confirmam a grande concentração geográfica dos seus resultados (Gráfico 6). Conforme se pode constatar, a maior parte dos empregos proporcionados pelo PNPE pertence aos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina, os quais detinham parcelas relativas de 31,4%, 17,8%, 10,1% e 7,7% do emprego total do programa, respectivamente. Portanto, os quatro estados reunidos proporcionaram cerca de 67,0% dos empregos do PNPE. De forma distinta, 12 estados detinham, cada um, participações relativas ínfimas, inferiores a 1,0%, no emprego total proporcionado pelo programa. Outro indicador que permite mensurar o desempenho do PNPE é o da relação entre o número de empregos e o de inscritos no programa (Gráfico 7). Neste sentido, para o país como um todo, a relação emprego/inscritos foi de apenas 1,1%, ou seja, a cada 100 inscritos no PNPE, somente um obteve emprego, reforçando a compreensão de que o programa teve algum tipo de problema de concepção, que implicou uma baixa capacidade de geração de oportunidades de trabalho para os jovens. No âmbito dos estados, as evidências mostram que em seis deles a relação emprego/inscritos situou-se acima da média nacional: Paraná (7,1%), Santa Catarina (3,9%), Rio Grande do Sul (3,5%), Paraíba (2,9%), Espírito Santo (1,2%) e Tocantins (1,2%). Por sua vez, em 17 estados e no Distrito Federal a relação emprego/inscritos do PNPE ficou abaixo de 1,0%, indicando um desempenho ainda mais modesto do programa. 6 Gráfico 5 Gráfico 6 Empregos gerados pelo PNPE, Brasil e Unidades da Federação Distribuição percentual dos empregos gerados pelo PNPE, por Out./2003-Abr./2007 Unidades da Federação - out./2003-abr./2007 Brasil 10250 RS 31,4 RS 3220 SP 17,8 SP 1823 MG 10,1 MG 1036 SC 7,7 SC 791 PB 4,9 PB 502 GO 4,2 GO 432 BA 3,4 BA 351 2,5 Brasil e Unidades da Federação PR PR 261 RJ 2,2 Unidades da Federação RJ 229 DF 2,2 DF 223 ES 2,0 ES 203 RN 1,7 RN 178 PE 1,3 PE 130 TO 1,3 TO 129 CE 1,1 CE 113 PA 0,9 PA 97 AM 0,9 AM 97 MA 0,9 MA 93 SE 0,7 SE 75 MT 0,7 MT 73 RO 0,5 RO 54 MS 0,5 MS 53 RR 0,3 RR 33 PI 0,2 PI 23 AL 0,2 AL 16 AP 0,1 AP 8 AC 0,1 AC 7 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Departamento de Políticas de Trabalho e Emprego para Juventude Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-obra Juvenil Já o número médio de empregos proporcionados pelo PNPE, por empresa, no acumulado de outubro de 2003 a abril de 2007, foi de 3,2 (Gráfico 8). Este dado mostra que, caso tivesse havido a adesão de um número maior de empresas ao programa, existiria a possibilidade de que os seus resultados fossem quantitativamente mais satisfatórios. No âmbito dos estados, a relação emprego/empresas se encontrava acima da média nacional na Maranhão (9,3), Pernambuco (7,3), Santa Catarina (6,7), Paraíba (6,0), Amazonas (4,9), São Paulo (4,2) e Rio Grande do Sul (3,8). Deve-se, todavia, ponderar que o desempenho do programa, medido por esse indicador, nos estados do Maranhão, Pernambuco e Amazonas está associado a números absolutos de empregos e empresas bastante baixos, conforme mostrado anteriormente. Essa primeira visão geral sobre os resultados do PNPE permite afirmar que o programa teve resultados quantitativos modestos no período focalizado, em termos de geração de empregos para os jovens através do esquema de subvenção econômica. Outro aspecto que se sobressaiu nessa primeira apreciação geral do programa foi o de que os seus resultados foram concentrados geograficamente, na medida em que cerca de 67,0% dos empregos gerados estavam em quatro estados (Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina). A relação empregos/inscritos no programa revelou-se igualmente baixa, sendo de cerca de um emprego para cada cem jovens inscritos. No âmbito dos estados pode-se ressaltar a posição do Rio Grande do Sul, no qual se verificou o maior número de empresas participantes do programa (mais do que o dobro de São Paulo) e o maior número de empregos proporcionados (aproximadamente 30,0% do total). As razões desse desempenho diferenciado do Rio Grande do Sul serão objeto de discussão na seção 4 deste estudo, na qual se avança uma proposta de interpretação da performance do programa no estado. 7 Gráfico 7 Gráfico 8 Relação percentual empregos/inscritos no PNPE, Brasil e Unidades da Número médio de empregos por empresa do PNPE, Brasil e Unidades Federação - out./2003-abr./2007 da Federação - out./2003-abr./07 PR 7,1 PB 14,8 SC 3,9 MA 9,3 RS 3,5 SP 7,9 PB 2,9 PE 7,6 ES 1,2 SC 6,7 TO 1,2 AM 4,9 Brasil 1,1 RS 3,8 MG 1,1 Brasil 3,7 GO 1,0 BA 3,1 Brasil e Unidades da Federação Brasil e Unidades da Federação SP 1,0 ES 2,9 DF 0,8 SE 2,9 MT 0,7 RJ 2,8 PA 0,7 MG 2,6 RO 0,6 DF 2,6 MA 0,6 PA 2,6 AM 0,6 MT 2,5 PE 0,5 GO 2,4 BA 0,5 RN 2,2 RN 0,5 CE 2,0 MS 0,4 RO 1,9 AL 0,4 PR 1,8 RJ 0,4 PI 1,8 RR 0,4 AP 1,6 PI 0,4 AL 1,6 SE 0,4 RR 1,6 AP 0,3 TO 1,6 AC 0,3 MS 1,3 CE 0,1 AC 1,2 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 6,0 7,0 8,0 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Secretaria de Políticas Públicas de Emprego Departamento de Política de Trabalho e Emprego para Juventude Departamento de Política de Trabalho e Emprego para Juventude Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil Coordenação Geral de Preparação e Intermediação de Mão-de-Obra Juvenil 3. Desemprego juvenil no mercado de trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre durante a vigência do PNPE (2003-2007) Esta seção do estudo se propõe a fazer uma análise sucinta do desemprego juvenil no mercado de trabalho da RMPA no período de vigência do PNPE. Conforme foi mostrado na seção anterior deste trabalho, o programa teve início em outubro de 2003, tendo a sua duração se estendido até dezembro de 2007, quando o mesmo foi extinto. Nesses termos, o período que será aqui objeto de análise é o de 2003 a 2007, sendo o primeiro desses anos assumido como exibindo resultados de pequena magnitude do programa, em face do seu início ter ocorrido no último trimestre de 2003. Ao longo desta seção, a população jovem será delimitada como correspondendo aos indivíduos de 16 a 24 anos, em concordância com a definição feita pelo PNPE.9 Todavia, com base no entendimento de que existe heterogeneidade no interior deste grupo populacional, nesta seção este será desagregado entre os jovens adolescentes de 16 e 17 anos e os jovens adultos de 18 a 24 anos. A par desse recorte, os jovens também serão segmentados por sexo, com o propósito de evidenciar as diferenças existentes entre homens jovens e mulheres jovens em sua situação do mercado de trabalho da RMPA. Conforme muitos estudos, a elevada incidência do desemprego é uma característica marcante da situação dos jovens no mercado de trabalho (CEPAL, 2004; OIT, 2006 e 2007; O’Higgins, 1997; Tokman, 2003). Na RMPA, a taxa de desemprego dos jovens situava-se em 9 De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a população jovem é delimitada como correspondendo à faixa etária de 15 a 24 anos (UN, 2003; OIT, 2006). No caso do estudo que está sendo desenvolvido, adota-se a faixa etária 16 a 24 anos como definidora da população juvenil, pelo fato de que 16 anos é a idade mínima de ingresso legal no mercado de trabalho no Brasil, bem como por ser aquela que também é utilizada pelo PNPE. 8 29,5% em 2003, muito acima da taxa de desemprego dos adultos, de 11,9%, naquele mesmo ano (Tabela 1). Ao final do período ora analisado, a taxa de desemprego dos jovens havia declinado para 24,8%, e a dos adultos, para 9,3%. Se por um lado esses dados revelam uma melhora do desemprego entre os jovens, por outro mostram que a experiência da RMPA reproduz o padrão de inserção dos jovens no mercado de trabalho de diferentes experiências nacionais, no que tange ao maior tamanho da sua taxa de desemprego em comparação à dos adultos. Tabela 1 Contingente de desempregados e taxa de desemprego , por faixas etárias e sexo Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003-2007 Desempregados 16 e 17 anos 18 a 24 anos (Em 1.000 pessoas) Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total 2003 12 13 25 44 58 102 2004 12 15 27 47 56 103 2005 10 12 22 42 51 93 2006 10 10 20 42 53 95 2007 8 10 18 35 51 86 ∆ 2007/03 (%) -33,3 -23,1 -28,0 -20,5 -12,1 -15,7 Taxa de 16 e 17 anos 18 a 24 anos desemprego (%) Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total 2003 40,0 52,0 45,5 21,9 33,3 27,2 2004 41,4 57,7 49,1 22,4 31,5 26,5 2005 38,5 50,0 44,0 20,0 28,8 24,0 2006 38,5 47,6 42,6 20,6 30,1 25,0 2007 36,4 50,0 42,9 17,6 28,5 22,8 ∆ 2007/03 (%) -9,1 -3,8 -5,7 -19,7 -14,5 -16,4 Desempregados 16 a 24 anos 25 anos e mais (Em 1.000 pessoas) Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total 2003 56 71 127 74 84 158 2004 59 71 130 68 82 150 2005 52 63 115 65 82 147 2006 52 63 115 67 79 146 2007 43 61 104 59 78 137 ∆ 2007/03 (%) -23,2 -14,1 -18,1 -20,3 -7,1 -13,3 Taxa de 16 a 24 anos 25 anos e mais desemprego (%) Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total 2003 24,2 35,7 29,5 10,1 14,2 11,9 2004 24,7 34,8 29,3 9,2 13,5 11,1 2005 22,0 31,3 26,3 8,5 13,1 10,6 2006 22,6 32,0 26,9 8,7 12,2 10,3 2007 19,5 30,7 24,8 7,4 11,7 9,3 ∆ 2007/03 (%) -19,7 -14,1 -16,2 -27,1 -17,8 -21,9 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. É importante assinalar que a razão entre a taxa de desemprego dos jovens e a taxa de desemprego dos adultos na RMPA não permaneceu constante ao longo do período 2003-2007 (Gráfico 9). Nesse sentido, esta razão se situou em 2,47 em 2003, elevou-se para 2,64 em 2004, declinou para 2,49 em 2005 e voltou a elevar-se em 2006 e 2007, atingindo 2,66 naquele último 9 ano. Dessa forma, não obstante a taxa de desemprego dos jovens tenha apresentado redução, a sua situação no mercado de trabalho, em comparação aos adultos, registrou uma deterioração relativa em praticamente todo o período, à exceção do ano de 2005. Em alguma medida, esta evidência vai ao encontro de estudos que apontam que o nível de ocupação e a taxa de desemprego dos jovens respondem menos intensamente do que o dos adultos em fases de melhora dos indicadores do mercado de trabalho, como a que ocorreu entre 2004 e 2007 (Blanchflower e Freeman, 2000; Tokman, 2003; OIT, 2007). Gráfico 9 Razão entre a taxa de desemprego dos jovens e a taxa de desemprego dos adultos, na Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003-2007 2,70 2,65 2,66 2,64 2,62 2,60 2,55 2,50 2,49 2,47 2,45 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. Quanto ao contingente de jovens desempregados na RMPA, esse apresentou uma redução de 18,1% no período 2003-2007, tendo passado de 127 mil para 104 mil desempregados (Tabela 1). Já o estoque de adultos desempregados evidenciou uma menor retração, de 13,3%, declinando de 158 mil para 137 mil indivíduos, na mesma base comparativa. Dados esses movimentos, a parcela relativa de jovens no contingente de desempregados de 16 anos e mais na RMPA apresentou pequena queda, de 44,6% em 2003 para 43,2% em 2007. Essas evidências permitem dimensionar o quanto os jovens estão sobre-representados no desemprego, na medida em que, em 2007, eles correspondiam a 22,2% da PEA metropolitana, ou seja, cerca de metade da sua parcela relativa no desemprego. Existem diferenças relevantes de incidência do desemprego entre homens e mulheres jovens na RMPA, as quais mostram uma condição relativamente desfavorável para as jovens (Tabela 1). Ao início do período que está sendo ora analisado, a taxa de desemprego dos homens jovens era de 24,2%, enquanto a das mulheres jovens encontrava-se em 35,7%. Ambas as taxas de desemprego haviam apresentado redução em 2007, mas esta foi mais intensa para os homens jovens (-19,7%) em comparação às mulheres jovens (-14,1%). A maior incidência do desemprego sobre as mulheres jovens, à semelhança do que ocorre entre os adultos, é mais uma indicação de existência de discriminação no mercado de trabalho local, pois as jovens possuem melhor nível de educação formal comparativamente aos homens jovens (Bastos, 2007). 10 Comparando-se os adolescentes com os adultos jovens na RMPA, se percebe que o desemprego é muito mais elevado entre os primeiros. Nesse sentido, a taxa de desemprego dos adolescentes encontrava-se em 45,5% em 2003, e a dos adultos jovens, em 27,2% (Tabela 1). A par desse aspecto, a taxa de desemprego dos adultos jovens evidenciou maior redução do que a dos adolescentes na comparação com o ano de 2007. Dessa forma, a diferença de incidência de desemprego entre os dois grupos populacionais, que era de 18,3 pontos percentuais no início do período, havia atingido 20,1 pontos percentuais ao seu final. Quanto aos contingentes de desempregados, o de adolescentes é de tamanho bem menor do que o de adultos (25 mil e 102 mil indivíduos em 2003, respectivamente), bem como apresentou maior redução na comparação com 2007. Segmentando-se os adolescentes e os adultos jovens por sexo, constata-se que o desemprego se mostra mais elevado entre as mulheres nos dois grupos populacionais, bem como que ele se reduziu mais entre os indivíduos de sexo masculino no período em análise. Nesta combinação dos recortes etários e gênero, o destaque negativo é o das adolescentes, cuja taxa de desemprego era de 52,0% em 2003 e de 50,0% em 2007, sendo, desse ponto de vista, o grupo populacional mais vulnerável no mercado de trabalho. Outro aspecto que caracteriza o contingente de jovens desempregados na RMPA é o de que grande parte dele não possui experiência anterior de trabalho (Gráfico 10). Ao início do período analisado por esse estudo, 33,1% dos jovens desempregados não tinham experiência anterior de trabalho, proporção que chegou a atingir 34,1% em 2004, para após declinar um pouco, até se situar em 30,8% em 2007. Apesar desse recuo, esta é uma clara desvantagem que os jovens trazem consigo em seu processo de inserção no mercado de trabalho, que prejudica, durante certo tempo, as suas chances de obtenção de um posto de trabalho. No que diz respeito a este handicap, ele incide de forma mais acentuada sobre as mulheres jovens desempregadas, entre as quais 35,2% não possuíam experiência anterior de trabalho em 2003, contra 30,4% entre os homens jovens desempregados. Ao final do período tinha havido mudança nesta situação, dado que a proporção de mulheres jovens desempregadas que não possuía experiência anterior de trabalho tinha declinado para 31,1%, enquanto entre os homens jovens esta proporção se manteve relativamente estável, em 30,2%. Esta questão da ausência de experiência anterior de trabalho entre os jovens desempregados na RMPA, segundo os recortes etários10, coloca-se de forma muito mais intensa para os adolescentes em comparação aos adultos jovens: em 2003, 68,0% dos adolescentes desempregados estavam nesta condição, contra 24,5% dos jovens adultos (Gráfico 11). Se por um lado é intuitivo que esta desvantagem no processo de inserção no mercado de trabalho seja mais marcante no caso dos adolescentes, ela reforça a compreensão de que estes se encontram em uma situação relativa das mais adversas no mercado de trabalho metropolitano. Conforme se pode constatar, em 2007 houve uma redução da proporção de adolescentes desempregados que não tinha experiência anterior de trabalho, para 61,1%, mas entre os adultos jovens esta proporção ficou praticamente inalterada, em 24,4%. Ainda assim, as diferenças entre ambos, no que se refere à experiência anterior de trabalho, se mantiveram muito pronunciadas. 10 Em face de limitações amostrais, não é possível combinar, na abordagem deste tema, os recortes etário e por sexo dos jovens. 11 Gráfico 10 Proporção de jovens desempregados sem experiência anterior de trabalho, por sexo, na Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003-2007 Homens Mulheres Total 35,7 36,0 35,2 34,9 34,9 34,1 34,0 33,1 33,0 33,0 32,2 32,0 30,8 30,8 31,130,8 30,4 30,2 (%) 30,0 28,0 26,0 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. Gráfico 11 Proporção de jovens desempregados sem experiência anterior de trabalho, por faixas etárias selecionadas, na Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003-2007 16 e 17 anos 18 a 24 anos 16 a 24 anos 80,0 68,0 70,0 63,0 63,6 65,0 61,1 60,0 50,0 (%) 40,0 33,1 34,1 33,0 33,0 30,8 24,5 26,5 25,8 26,3 24,4 30,0 20,0 10,0 0,0 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: PED-RMPA - Conv ênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. De acordo com os diferentes níveis de educação formal, a incidência do desemprego entre os jovens da RMPA se mostra menor entre os indivíduos mais escolarizados (Tabela 2). A esse respeito, a taxa de desemprego dos jovens com escolaridade média completa a superior incompleta era de 24,0% em 2003, situando-se cerca de 10,0 pontos percentuais abaixo daquela observada entre os jovens das duas faixas de escolaridade anteriores. As evidências estão a indicar que ocorreu, na comparação de 2003 com 2007, uma deterioração da situação dos jovens com menor nível de educação formal no mercado de trabalho local: a taxa de desemprego dos indivíduos com escolaridade fundamental incompleta, diferentemente das demais, elevou-se, passando de 34,8% para 37,1%. Em alguma medida, isto mostra que esse segmento populacional deve se constituir em um objeto prioritário de ações de políticas públicas, pois o desemprego tem nele se agravado. 12 Examinando-se o desemprego por níveis de educação formal e sexo, novamente se constata a maior adversidade com que convivem as jovens no mercado de trabalho da RMPA (Tabela 2)11. As jovens com escolaridade fundamental incompleta registravam uma taxa de desemprego de 46,7% em 2003, a qual era 17,7 pontos percentuais superior à dos homens jovens. A par desse aspecto, se destaca também que enquanto a taxa de desemprego dos homens jovens com escolaridade fundamental incompleta se encontrava praticamente estável em 2007, a das jovens havia se elevado em 5,7 pontos percentuais, deteriorando ainda mais a sua situação no mercado de trabalho no período enfocado. Nesse sentido, o que foi acima afirmado sobre os jovens menos escolarizados se constituírem em objeto prioritário das políticas públicas, necessita colocar-se de uma forma ainda mais incisiva no que diz respeito às mulheres jovens. Tabela 2 Taxa de desemprego dos jovens, por faixas de escolaridade e sexo, Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003 e 2007 (%) Ano 2003 16 a 24 anos Faixas de escolaridade Homens Mulheres Total Analfabeto (1) (1) (1) Fundamental incompleto 29,0 46,7 34,8 Fundamental completo a médio incompleto 27,0 43,3 34,3 Médio completo a superior incompleto 18,5 28,8 24,0 Superior completo (1) (1) (1) Total 24,2 35,7 29,5 Ano 2007 16 a 24 anos Faixas de escolaridade Homens Mulheres Total Analfabeto (1) (1) (1) Fundamental incompleto 29,3 52,4 37,1 Fundamental completo a médio incompleto 24,0 41,0 31,6 Médio completo a superior incompleto 13,9 21,6 17,9 Superior completo (1) (1) (1) Total 19,5 30,5 24,8 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. (1) A amostra não comporta esta desagregação. 4. Uma reflexão crítica sobre a experiência do PNPE na Região Metropolitana de Porto Alegre Conforme foi mostrado na seção 2 deste trabalho, os resultados do PNPE no âmbito nacional foram bastante modestos em termos do número de empregos proporcionados aos jovens. A par deste aspecto, foi mostrado também que o Rio Grande do Sul teve um desempenho relativamente superior ao das demais Unidades da Federação na execução do programa. Esta seção se propõe a fazer uma reflexão crítica sobre o PNPE, procurando contribuir para o entendimento das razões que fizeram com que o programa não fosse bem sucedido no plano nacional, ainda que com um comportamento diferenciado no âmbito do Estado. Uma outra preocupação que também norteará o esforço de crítica ora empreendido é o de procurar averiguar 11 Novamente, não é possível fazer, por limitações amostrais, análise semelhante para os adolescentes e os adultos jovens. 13 se, e em que medida, a execução e a performance do programa apresentaram particularidades na RMPA. Esta reflexão crítica se inicia problematizando se os critérios de habilitação que constavam no PNPE para a participação dos jovens não foram demasiadamente restritivos. Para se trabalhar essa questão, se procurou estimar o contingente de jovens que preenchiam os critérios de habilitação na RMPA, no período de vigência do programa (Gráfico 12). Conforme se pode constatar, tal contingente de jovens é de pequeno tamanho, situando-se em 6 mil indivíduos em 2003 e em 4 mil indivíduos em 2007.12 Quando se comparam esses contingentes com o número total de jovens desempregados na RMPA em 2003 e 2007 – 127 mil e 104 mil, respectivamente –, se percebe que ele representava somente 4,7% daquele total em 2003 e 3,8% em 2007. Nesta perspectiva, caso o programa tivesse tido êxito pleno, no sentido da erradicação do desemprego entre os jovens que preenchiam os seus critérios de habilitação, se pode estimar que ele teria reduzido a taxa de desemprego desse grupo populacional de 29,5% para 28,6% em 2003, e de 24,8% para 23,8% em 2007. Dessa forma, o impacto potencial do PNPE, mesmo que ele fosse extremamente bem sucedido, não seria de grande tamanho sobre a situação do desemprego juvenil na RMPA. Dentro de certos limites, esta evidencia corrobora o estudo de Ribeiro e Juliano (2005), anteriormente referido, o qual, com base na PNAD de 2003, também havia estimado um impacto potencial de pequeno tamanho do programa sobre a taxa de desemprego juvenil nas áreas urbanas do país. Há indicações de que as condições para o repasse da subvenção econômica às empresas foram um elemento que se constituiu em um entrave ao desempenho mais satisfatório do PNPE. Neste sentido, para ter acesso a cada uma das seis parcelas bimestrais da subvenção econômica, as empresas precisavam apresentar quatro certidões negativas que comprovassem uma situação de regularidade com o pagamento de contribuições e tributos devidos ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), à Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda e com a Dívida Ativa da União. A hipótese que aqui se avança é a de que esta exigência de caráter legal se revelou um obstáculo burocrático e de custos administrativos que inibiu um envolvimento de maior expressão das empresas com o programa, com ênfase particular para aquelas de pequeno porte, que se viram desestimuladas a nele se integrarem. Isto porque é para as pequenas empresas, principalmente, em face de suas limitações financeiras, que faria mais sentido a adesão ao programa em busca da subvenção econômica, mas para as quais é também mais difícil cumprir a exigência legal colocada pelo PNPE e acima mencionada. Quanto às razões de o Rio Grande do Sul ter tido um desempenho relativamente melhor do que o das demais Unidades da Federação em termos de geração de empregos no PNPE, um aspecto se destaca claramente. Em realidade, o Estado, durante a gestão do Governador Olívio Dutra, no período 1999-2002, tinha implementado um programa semelhante, o Programa Primeiro Emprego (PPE).13 Assim como o PNPE, o PPE se constituiu em uma política pública ativa, cujos objetivos eram os de inserir os jovens no mercado de trabalho e a sua escolarização. No que se refere à geração de empregos, o PPE também adotava como principal mecanismo os 12 É necessário cautela ao se analisar estas estimativas, porque as mesmas são baseadas em um número de ocorrências relativamente pequeno na base de dados da PED-RMPA. Nesse sentido, se deve ter cuidado em interpretar as estimativas que constam do Gráfico 12 como correspondendo, rigorosamente, à evolução quantitativa do contingente de jovens que preenchiam os critérios de habilitação do PNPE na RMPA no período 2003-2007, mas antes como uma aproximação ao tamanho do mesmo. 13 Lei Estadual n° 11.363, de 30 de julho de 1999, regulamentada em 31 de agosto de 1999. Esta Lei passou por algumas mudanças em 2001 e 2002, através da Lei nº 11.629 e da Lei nº 11.801. 14 subsídios salariais. Dessa forma, a interpretação proposta para explicar o melhor desempenho do PNPE no Rio Grande do Sul está relacionada ao fato de o Estado ter vivenciado uma experiência anterior com um programa ativo dessa natureza, o qual foi bem recebido pelos principais atores envolvidos (gestores na área de políticas públicas, empresários e a população alvo) quando do seu lançamento em 2003. Gráfico 12 Contingente de jovens que preenchem os critérios de habilitação do PNPE, na Região Metropolitana de Porto Alegre - 2003-2007 9 8 8 8 (Em 1.000 pessoas) 7 6 6 5 5 4 4 3 2 1 0 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. A este respeito, avança-se também o entendimento de que a receptividade ao PNPE no Rio Grande do Sul se deveu ao fato de que o PPE, de acordo com indicações existentes, ter sido bem sucedido tanto em termos de adesão das empresas quanto em empregos proporcionados aos jovens. Neste sentido, conforme um estudo que procurou avaliá-lo, o PPE contou com a participação de 10.270 empresas no Rio Grande do Sul, no período de setembro de 1999 até junho de 2002, tendo viabilizado a contratação de 18.802 jovens no Estado (Observatório do Trabalho/RS e DIEESE, 2002, p. 24). Para se ter uma referência comparativa, o PNPE do Governo Federal contou com a participação, no plano nacional, de 2.801 empresas, no período outubro de 2003 até abril de 2007, e proporcionou a contratação de 10.250 jovens. Ou seja, em um período de 34 meses de execução do PPE no Rio Grande do Sul, ele teve resultados muito mais expressivos do que o do PNPE, em 43 meses, no âmbito nacional. A comparação entre as principais características do PNPE do Governo Federal e do PPE do Governo do Estado do Rio Grande do Sul permite que se elabore um pouco mais as razões de os programas terem tido desempenhos tão distintos (ver Quadro 1). No que diz respeito aos critérios de habilitação para os jovens participarem dos programas, a constatação geral é a de que o PPE era menos restritivo do que o PNPE. Assim, o PPE não exigia que o jovem, para nele se inscrever, estivesse desempregado, bem como também, que ele não houvesse tido vínculo formal de emprego anterior; no que se refere a esse aspecto, o PPE colocava o requisito de que o jovem não tivesse tido uma relação formal de emprego superior a seis meses. No que diz respeito à freqüência escolar, o PPE exigia, no prazo de até seis meses após a inscrição no programa, que o jovem comprovasse a matrícula e a freqüência escolar; o PNPE, de forma distinta, já colocava, no momento da inscrição, a necessidade de ambas. Quanto ao nível de educação formal, o PPE abria a possibilidade de que nele se inscrevessem jovens com escolaridade superior incompleta, o que 15 não acontecia com o PNPE, que era limitado a jovens que tivessem, no máximo, educação média completa. Fica claro, portanto, neste contraste entre os critérios de habilitação dos jovens nos dois programas, que o PPE era menos restritivo. Nas outras características que constam do Quadro 1, se percebe que os critérios de habilitação das empresas, para participação nos dois programas, eram praticamente idênticos. No que diz respeito à priorização de determinados segmentos da população jovem, também existe semelhança entre o PNPE e o PPE; o PNPE definia que pelo menos 70,0% dos empregos criados deveriam ser direcionados a jovens que não haviam concluído o ensino fundamental ou médio, enquanto o PPE havia se proposto a alocar 70,0% de seus recursos para jovens com escolaridade até o fundamental completo. Em termos da relação entre o porte das empresas e as contratações de jovens, o PPE se mostra menos restritivo do que o PNPE, viabilizando, em tese, maior número de contratações, conforme se pode perceber através dos critérios descritos no Quadro 1. Quanto à subvenção econômica, de acordo com o descrito na seção dois deste trabalho, o PNPE repassava às empresas seis parcelas bimestrais de R$ 250; o PPE, por sua vez, repassava o piso salarial da categoria em que o jovem estava ingressando, até o limite máximo de dois salários mínimos por jovem contratado, por um período mínimo de três meses e máximo de seis.14 No que diz respeito à subvenção econômica, mas na dimensão de execução operacional dos programas, reside uma diferença significativa entre ambos. No caso do PNPE, como foi anteriormente mencionado, as empresas que houvessem contratado jovens tinham que, para ter acesso a cada uma das seis parcelas bimestrais da subvenção econômica, comprovar, por meio das certidões negativas, a regularidade com o recolhimento de tributos e de contribuições federais. No caso do PPE, esta exigência, que envolvia também os tributos estaduais, era colocada no momento da adesão da empresa ao programa e, posteriormente, somente na sua etapa final, quando da prestação de contas aos gestores públicos dos repasses financeiros recebidos. Essa diferença na execução operacional, de acordo com a interpretação proposta, é um dos elementos a explicar as diferenças de desempenho entre os programas, no sentido de resultados mais satisfatórios do PPE comparativamente ao PNPE, seja em termos do número de empresas envolvidas, seja no de empregos proporcionados aos jovens. Corrobora este entendimento sobre a diferença de padrão de execução operacional entre os dois programas o fato de que as empresas que participaram do PPE eram, em ampla medida, de pequeno porte: 80,1% eram empreendimentos com até cinco empregados e 12,9% possuíam de seis a quinze empregados (Observatório do Trabalho/RS e DIEESE, 2002, p. 19). Ou seja, aproximadamente 8.500 empresas que participaram do PPE no Rio Grande do Sul eram de pequeno tamanho, praticamente três vezes o número total de empresas que participaram do PNPE em âmbito nacional. Portanto, a receptividade ao PPE no meio empresarial se manifestou intensamente entre as pequenas empresas, para as quais as condições de acesso à subvenção econômica se mostraram não só factíveis como de fato atrativas. 14 Quando da instituição do PPE no Rio Grande do Sul, em setembro de 1999, o salário mínimo nominal no país era de R$ 136,00. Por sua vez, quando o PNPE foi instituído, em outubro de 2003, o salário mínimo nominal era de R$ 250,00 (DIEESE, 2006, p. 55). 16 Quadro 1 Comparação entre as características do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego para os Jovens (PNPE) do Governo Federal (2003-2007) e do Programa Primeiro Emprego (PPE) do Governo do Estado do Rio Grande do Sul (1999-2002) Critérios de habilitação dos PNPE PPE Jovens Faixa etária 16 a 24 anos 16 a 24 anos Status no mercado de trabalho Desempregado Não está definido. Experiência de trabalho Sem vínculo anterior de emprego Ausência de relação formal de formal. emprego superior a seis meses. Renda Renda familiar per capita de até ½ Prioridade aos jovens oriundos de salário-mínimo. famílias em situação de pobreza. Freqüência à escola Estar matriculado e freqüentando Comprovação, em prazo de seis estabelecimento de ensino, ou ter meses após inscrição no programa, concluído o ensino médio. de matrícula e freqüência escolar. Escolaridade Escolaridade Fundamental ou Escolaridade Fundamental ou Média, incompleta ou completa. Média, incompleta ou completa, ou Superior incompleta. Outras características PNPE PPE Critérios de habilitação das Comprovação da regularidade do Certidões negativas relativas a empresas recolhimento de tributos e de débitos com a Fazenda Federal, contribuições devidas ao FGTS, ao Fazenda Estadual, FGTS e INSS. INSS, à Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda e à Dívida Ativa da União. Subvenção econômica Seis parcelas bimestrais de R$ 250. Piso salarial da categoria em que o jovem está ingressando, até o limite máximo de dois salários mínimos por jovem contratado, pelo período mínimo de três meses e máximo de seis meses do contrato de trabalho. Priorização na contratação No mínimo 70,0% dos empregos Direcionamento de 70,0% dos criados no âmbito do programa recursos do programa para devem ser direcionados a jovens contratação de jovens com que não concluíram o ensino escolaridade até o fundamental fundamental ou médio. completo. Porte da empresa e nº de jovens I. Um jovem, no caso da empresa I. Até três jovens, em empresas contratados contar com até quatro empregados com até dez empregados. no seu quadro de pessoal. II. Até 30,0% da sua força de II. Dois jovens, no caso de trabalho, em empresas com mais contarem com cinco a dez de dez empregados. empregados. III. Até 20,0% do respectivo quadro de pessoal, nos demais casos. Fonte: Elaboração própria do autor, com base nas leis relativas ao PNPE e ao PPE. Um aspecto merece ser ainda questionado sobre o desempenho do PNPE no Rio Grande do Sul, em particular na RMPA, e se refere ao efeito no número total de jovens contratados por uma grande empresa do ramo de supermercados do comércio varejista. Esta empresa, localizada no Município de Porto Alegre, foi a que mais contratou jovens através do PNPE no país, tendo 17 sido responsável por cerca de metade das contratações ocorridas no Rio Grande do Sul durante a vigência do programa.15 Neste caso, o questionamento que se coloca está relacionado com o perfil de mão-de-obra que esta empresa emprega habitualmente, que já era, grosso modo, de jovens cujas características correspondem às requeridas pelo PNPE. Neste sentido, se pode discutir se, de fato, esse grande número de contratações por esta empresa correspondeu à criação de empregos para os jovens que participaram do PNPE no Município de Porto Alegre. Esta é uma situação em que pode se manifestar um efeito reconhecido em estudos sobre políticas ativas para o mercado de trabalho (Betcherman et al., 2004; Pierre, 1999), denominado de perda pelo peso-morto (deadweight loss): em certa medida, os empregos proporcionados pelo programa seriam gerados independentemente da sua existência, o que permite, em parte, questionar a sua performance no Rio Grande do Sul e, em particular, na RMPA, no sentido de que o ganho líquido por ele proporcionado possa ter sido menor do que o revelado pelos resultados brutos da sua execução. 5. Considerações finais Este trabalho teve como propósito fazer um estudo sobre o PNPE, com ênfase em seus resultados no âmbito do mercado de trabalho da RMPA. O programa foi criado pelo Governo Federal em outubro de 2003, tendo sido implementado até dezembro de 2007, quando foi extinto em seu formato original. Na RMPA identificou-se que se reproduz, dentro de certos limites, o padrão de inserção dos jovens no mercado de trabalho, no que se refere à incidência do desemprego em níveis muito superiores aos verificados entre a população adulta. Ainda assim, no período de execução do PNPE a taxa de desemprego dos jovens apresentou uma redução importante, de 29,5% em 2003 para 24,8% em 2007. Todavia, como em idêntico período a queda da taxa de desemprego dos adultos foi ainda mais acentuada, a relação entre as taxas de desemprego dos jovens e dos adultos elevou-se de 2,47 em 2003 para 2,66 em 2007, com que se afirmou que houve uma deterioração relativa do desemprego entre os jovens. No que se refere ao desemprego entre os jovens na RMPA, assinale-se que os indivíduos de sexo masculino evidenciaram menores taxas do que aquelas dos de sexo feminino, bem como entre os primeiros o desemprego apresentou maior recuo no período em análise, o que indica uma situação de maior vulnerabilidade das jovens no mercado de trabalho local. Quanto à incidência do desemprego por níveis de educação formal, foi mostrado que as taxas de desemprego dos jovens mais escolarizados eram bastante inferiores à dos indivíduos menos escolarizados, assim como que o comportamento de ambas foi claramente antagônico: entre os jovens com escolaridade fundamental incompleta, ocorreu elevação da taxa de desemprego no cotejo de 2003 com 2007, enquanto, entre os indivíduos mais escolarizados, registrou-se redução, corroborando a compreensão de que o mercado de trabalho metropolitano tem-se tornado mais seletivo. Conforme foi mostrado no estudo, os resultados do PNPE foram, de modo geral, modestos em termos quantitativos. O número de empresas que participaram do programa e o de empregos proporcionados no âmbito nacional foram de somente 2.801 e 10.250, respectivamente, no acumulado de outubro de 2003 a abril de 2007. Isto não quer dizer que o PNPE não tenha tido apelo junto à juventude, pois nele se inscreveram cerca de 918,4 mil jovens, em idêntico período, em todo o país. Esses dados evidenciam que a relação entre o número de empregos 15 Esta informação foi obtida junto à Superintendência Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, em maio de 2008. 18 proporcionados pelo programa e o de jovens que nele se inscreveram foi de apenas 1,1%, o que reforça a compreensão de que o PNPE teve um desempenho muito frágil em termos de capacidade de geração de emprego. A par desses aspectos, os resultados do programa foram muito concentrados geograficamente, pois quatro Unidades da Federação (Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina) foram responsáveis por 67,0% dos empregos proporcionados pelo programa em nível nacional. Os dados do PNPE colocaram em destaque relativo a situação do Rio Grande do Sul. Esse Estado foi responsável pela parcela relativa de 30,4% das empresas que participaram do programa, bem como de 31,4% dos empregos por ele proporcionados, no período de outubro de 2003 a abril de 2007. De acordo com a interpretação proposta no estudo, as razões desse desempenho diferenciado do PNPE no âmbito do Estado se devem ao fato de que nele havia sido implementada uma política semelhante, o Programa Primeiro Emprego (PPE), no período 1999- 2002. As evidências existentes são de que o PPE no Rio Grande do Sul foi bem sucedido, seja em termos do número de empresas que dele participaram, seja no que diz respeito ao número de empregos proporcionados aos jovens. Como decorrência, tal desempenho positivo foi um estímulo à adesão das empresas ao PNPE no Estado, com reflexos na abertura de oportunidades de trabalho aos jovens pelo programa. Quanto às razões que fizeram com que o PNPE tivesse um desempenho muito modesto no plano nacional, a comparação entre as suas principais características e as do PPE permitiu que se elaborasse a seguinte interpretação. O PNPE continha critérios de habilitação cumulativos para os jovens dele participarem que podem ter tido um caráter muito restritivo. Conforme foi mostrado no estudo, no âmbito da RMPA, estimou-se que o programa poderia contemplar cerca de 6 mil jovens em 2003 e 4 mil em 2007, contingentes relativamente pequenos em relação ao estoque total de jovens desempregados na região nesses dois anos, de 127 mil e 104 mil indivíduos, respectivamente. Caso o programa tivesse êxito pleno na erradicação do desemprego entre o seu público alvo, a taxa de desemprego dos jovens apresentaria redução de 29,5% para 28,6% em 2003 e de 24,8% para 23,8% em 2007, impactos que não podem ser reconhecidos como sendo de grande tamanho. A par desse aspecto, o PNPE e o PPE tiveram padrões de gestão bastante distintos, no que se refere ao repasse da subvenção econômica às empresas. No caso do PPE, as empresas, uma vez habilitadas para participarem do programa, tinham acesso à subvenção econômica, tendo que ao final do período de permanência do jovem no emprego fazer a prestação de contas, assim como a apresentação dos comprovantes de pagamentos de tributos e contribuições. No PNPE, de forma distinta, as empresas, para acessarem cada uma das seis parcelas bimestrais da subvenção econômica, tinham que apresentar aos gestores do programa as certidões negativas relativas ao pagamento de contribuições, tributos e com a Dívida Ativa da União, o que acabou se revelando um obstáculo burocrático e de custos administrativos, inibindo maior adesão ao programa, particularmente entre as pequenas empresas. Por último, um aspecto que chamou atenção foi o de que a empresa que mais contratou jovens no país no âmbito do PNPE estava localizada no Município de Porto Alegre. Esta empresa, um supermercado do comércio varejista, foi responsável por cerca de metade das contratações de jovens pelo PNPE no Rio Grande do Sul. Nesse caso, de acordo com a interpretação proposta, colocou-se a possibilidade de que tenha ocorrido o que a literatura de políticas públicas para o mercado de trabalho denomina de efeito de perda pelo peso-morto, ou seja, dado o perfil de mão-de-obra com que essa empresa habitualmente trabalha, é provável que essas contratações tivessem ocorrido independentemente da existência do PNPE, o que torna questionável se tal resultado bruto correspondeu, de fato, à geração de empregos para os jovens. 19 Referências bibliográficas BASTOS, R. A inserção dos jovens no mercado de trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre: uma experiência marcada pela elevada incidência do desemprego. In: BASTOS, R. (Coord.). Dimensões da precarização do mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre. 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Sessão Temática 1: Trabalho, desenvolvimento, tecnologia e meio ambiente A Formação Profissional no quadro das mudanças paradigmáticas no mundo do trabalho: o caso do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba Diogo Fernandes da Silva1 Eugenio Vital Pereira Neto2 Resumo Este trabalho tem com objetivo analisar, sob uma perspectiva sociológica, as formas através das quais o IFPB vem reagindo diante das novas situações e referências postas pelas mudanças no mundo do trabalho à formação profissional no Brasil e no mundo. Para isso, se propõe a reconstituir a trajetória social e institucional do IFET na Paraíba, situar as principais mudanças verificadas ultimamente quanto ao papel que vem desempenhando localmente no campo da formação profissional e identificar, entre os atores diretamente envolvidos no IFPB, as abordagens referentes a trabalho, emprego e formação profissional na sua prática. A metodologia adotada é de caráter qualitativo e utiliza os seguintes procedimentos: análise bibliográfica, particularmente focada sobre o debate atual a respeito dos temas do Trabalho, Emprego e Formação Profissional; análise documental abrangendo documentos nacionais e locais, técnicos, institucionais e pedagógicos; procedimento de observação direta (espaços, ambientes, equipamentos, atividades) e entrevistas semi- dirigidas com gestores, professores, alunos e egressos no IFPB de João Pessoa. Palavras – chave Mudanças no Mundo do Trabalho, Política Pública, Formação Profissional, IFPB. 1 Graduado e Mestrando em Ciências Sociais (PPGCS/UFCG). Membro do Grupo de Pesquisa “Trabalho, Desenvolvimento e Políticas Públicas” UFCG/CNPq. Bolsista da CAPES. E-mail: diogofernan@yahoo.com.br. 2 Graduado e Mestrando em Ciências Sociais (PPGCS/UFCG). Membro do Grupo de Pesquisa “Trabalho, Desenvolvimento e Políticas Públicas” UFCG/CNPq. Bolsista da CAPES. E-mail: eugeniovital@yahoo.com.br. 2 A Formação Profissional no quadro das mudanças paradigmáticas no mundo do trabalho: o caso do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba INTRODUÇÃO O presente artigo expõe e sistematiza os primeiros resultados da pesquisa de mestrado no qual se se busca apreender, a partir de uma perspectiva da Sociologia do Trabalho, o atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – IFPB (antigo Centro Federal de Ensino Tecnológico da Paraíba – CEFET-PB), aqui entendido como importante agente de formação profissional face suas relações com os diversos agentes3 da Qualificação Profissional, em atuação no estado da Paraíba. Atuação essa que se dá sob referências das novas situações trazidas com as profundas mudanças no mundo do trabalho atualmente em curso em dimensão local-global. Neste caso, mais precisamente, o IFPB vem vêm modificando as suas diretrizes educacionais (grades curriculares, conteúdos, cursos, etc.) no sentido de adaptarem-se às novas exigências, implicações e desafios trazidos com as atuais mudanças no mundo do trabalho no âmbito global, assim como, os marcos de mudança institucional em curso. Nesse sentido, se faz necessário um amplo levantamento das reações dos diversos atores envolvidos ante as novas condições e referências. Nesse sentido se quer detectar de que modo, em uma região periférica da economia capitalista, como a Paraíba, a sociedade reage a essas mudanças, mais particularmente no que tange à questão da formação profissional. Os CEFET’s constituem a espinha dorsal do sistema público de formação profissional no país. A reforma do ensino técnico, empreendida em 1997, através do Decreto 2.208/97, repercutiu de forma acentuada neste, aderindo à concepção claramente orientada pelos organismos multilaterais, de constituição de um sistema de formação profissional diferenciado do ensino propedêutico, adequando-se às novas demandas econômicas da sociedade competitiva (CNM, UNITRABALHO, 1999). No caso específico do IFPB, a problemática centra-se em entender como uma instituição pública de ensino técnico, tecnológico e de qualificação enfrenta as novas demandas, debates e reorientações que o discurso oficial do governo vem assumindo diante das mudanças no mundo do trabalho? No que se refere a abordagem metodológica para a apreensão das estruturas, processos e práticas relacionadas à formação profissional procura-se abordar as dimensões objetivas e subjetivas do Trabalho, Emprego e Formação Profissional. O foco são os sujeitos e as experiências nas quais se inserem e atuam, suas referências histórico-sociais, suas potencialidades, possibilidades e conflitos. Orienta-se na perspectiva de um estudo, sobretudo de caráter qualitativo, sem que com isso prescinda do uso de procedimentos e instrumentos próprios dos métodos quantitativos. Envolve, portanto: análise bibliográfica particularmente focada sobre o debate atual a respeito dos temas do Trabalho, Emprego e Formação/Qualificação Profissional; análise documental abrangendo documentos nacionais e locais, técnicos, institucionais e pedagógicos; procedimento de observação 3 Refere-se a uma diversidade de iniciativas, um quadro complexo de ações e agentes sociais que envolve o setor público, privado e atores híbridos, atuando numa articulação local-global, numa articulação, sobretudo contraditória, são eles: ONG, políticas públicas de qualificação, escolas técnicas federais, escolas profissionalizantes públicas e privadas, o Sistema S. 3 direta (espaços, ambientes, equipamentos, atividades) e entrevistas semi-dirigidas com gestores, professores, alunos e egressos no CEFET de João Pessoa (atual IFPB). Do ponto de vista da fundamentação teórica do presente estudo, cabe situar, em primeiro lugar, os termos do debate atual sobre a formação profissional para, em seguida, contextualizar o debate nacional e indicar questões a partir de então suscitadas. DISCUSSÃO DOS PRIMEIROS RESULTADOS De modo mais amplo o período pós-fordista repercutiu de forma contundente no mundo do trabalho e, conseqüentemente, na qualificação profissional. A própria noção de qualificação foi “ressignificada”, pois o antigo posto de trabalho fixo deu lugar à noção de competência, uma qualificação mais flexível em que o trabalhador passa a assumir uma posição polivalente. Esse novo paradigma é o modelo flexível. Este novo paradigma permite concentrar a atenção muito mais sobre a pessoa do que sobre o posto de trabalho, possibilitando, em conseqüência, associar as qualidades requeridas dos indivíduos a diferentes formas de cooperação e de trabalho em equipe, para atender com eficiência e eficácia, os novos requerimentos da vida profissional (BRASIL. MEC/SETEC). Essas transformações vêm repercutindo de forma acentuada na reforma educacional e nos agentes envolvidos (professores, gestores, alunos), bem como nos conteúdos (grade curricular, orientações pedagógicas, diretrizes educacionais, etc.) do Centro Federal de Ensino Tecnológico da Paraíba. Daí a necessidade de verificar de que modo esses diversos movimentos em escala global e nacional repercutem no âmbito da instituição em nível local. O IFPB, frente às modificações no mundo do trabalho e na qualificação, vem se ajustando para oferecer uma educação voltada para o trabalho e para uma adaptação flexível às futuras condições profissionais e à formação para a cidadania (CNM/UNITRABALHO, 1999). Tal mudança requer a “expansão e reestruturação da atual rede de ensino técnico federal” para superar as “deficiências da escolarização anterior” (BRASIL. MEC/MTb, 1996: 8). Analisar tais movimentos de ajustes, suas principais tendências, suas realizações e impasses, no caso particular do IFPB, é o que propomos para o presente estudo. Mudanças Recentes no Mundo do Trabalho A Sociologia do Trabalho constitui-se nas décadas de 1940 a 1950 a partir de autores clássicos, como Georges Fridmann e Pierre Naville, com os primeiros estudos sobre os efeitos da fragmentação das tarefas e a degradação da aprendizagem, trazidos com o taylorismo-fordismo, e como tais repercussões incidiam na questão da qualificação do trabalho. Georges Fridmann, nos seus estudos, procura criticar as conseqüências do taylorismo para os trabalhadores, a exemplo do o tunover e do absenteísmo. O processo de racionalização, empreendido, pelo taylorismo, trazia no seu centro o declínio do conhecimento do trabalhador: Ao estilhaçar os ofícios herdados do artesanato, onde a experiência 4 operária era, em grande parte, constituída pela lenta aquisição do conhecimento da matéria trabalhada (...), a racionalização, por vezes lentamente, por vezes a um ritmo veloz, despojou os trabalhadores daquilo quer era um dos conteúdos mais preciosos de sua atividade profissional: o contato com o material e seu conhecimento (FRIDMANN, 1972, p. 36). Fridmann (1972, p. 40) ainda observa vários efeitos de cunho psicológico com “graves empobrecimentos ou alterações da personalidade”, além dos efeitos da própria alienação (trabalho fragmentado e estranho) e a separação entre trabalho manual e intelectual. A partir de estudos empíricos, ele enriquece suas análises sob tais efeitos, elaborando uma reflexão sobre a situação do trabalho. No livro Trabalho em Migalhas (1956), o autor analisa as diferenças entre as formações dos trabalhadores. De um lado, há o trabalhador de formação polivalente ou artesanal, um profissional completo, que possui por inteiro o conhecimento do trabalho realizado. De outro, o operário especializado existente no âmbito específico da realização da tarefa. Pierre Naville referia suas preocupações também em parte da situação de trabalho, visto que o trabalho é atividade central humana e da dinâmica social e o princípio explicativo do desenvolvimento das estruturas sociais e a partir desta situação seria possível compreender a sociedade. O progresso técnico poderia até trazer elementos de liberação, mas até o presente, foram negados pela divisão do trabalho tradicional, que os transformava em seu contrário (TARTUCE, 2002, p. 143). Assim, as transformações econômicas e tecnológicas poderiam ou não elevar o nível de qualificação, mas a tendência apontava que a especialização gerava a desqualificação profissional, aproximando, nesses termos, o seu ponto de vista ao de Georges Fridmann. No Brasil o estado assumiu a posição de fomentador do desenvolvimento econômico. Era o período de substituição do modelo agroexportador pelo modelo de industrialização, com a criação de grandes estatais e a infra-estrutura necessária para a formação do parque industrial. Entretanto, a redefinição das políticas estatais não se configurou sob a égide de “um Estado Social e um pacto fordista do modo como ocorrem nos países capitalistas centrais, senão aproximações na forma de um Estado Desenvolvimentista” (VÉRAS DE OLIVEIRA, 2006, p. 16). O fordismo foi instituído de modo incompleto, parcial. Apesar de trazer a dimensão técnica (esteira rolante, etc.), não traz consigo as características relacionadas à proteção social. Seria uma caricatura do Estado de Bem Estar. É o fordismo periférico (LIPIETZ, 1989), apesar de pressupor um regime estandardizado de produção. Notadamente, era necessária a formação de mão-de-obra, e a política de Educação Profissional do Estado Novo buscou legitimar a divisão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, reformulando o ensino regular como preparatório para o ensino superior, separando o ensino profissionalizante, como modalidade à parte (MANFREDI, 2002). As orientações do governo vieram a satisfazer e favorecer os interesses empresariais. Segundo Manfredi (2002), a iniciativa marcante que veio a atender aos anseios da classe patronal foi a criação do Sistema S (SENAI e, posteriormente, o SENAC), na década de 1940, de modo paralelo ao sistema público, custeado com recursos públicos. Nas décadas seguintes, entre o fim do Estado Novo e o término do regime militar brasileiro, as concepções que marcaram as reformas e práticas escolares orientaram as ações na concepção dualista. De um lado, a educação acadêmico-generalista, no qual os alunos tinham uma formação ampla para prosseguirem os estudos; e, na outra ponta, a 5 Educação Profissional, na qual o aluno recebia um conjunto de informações para o domínio de um ofício, sem qualquer tipo de aprofundamento, não oferecendo a oportunidade de prosseguimento dos estudos (MANFREDI, 2002). Com o Fim da Idade do Ouro do capitalismo, surgem mudanças de ordem técnica e econômica, oriundas principalmente da introdução da microeletrônica e da crise de acumulação do modelo fordista. Segundo Harvey (1992), nas últimas décadas, vem ocorrendo uma passagem do modelo de produção rígido taylorista-fordista para um novo modelo de produção flexível, modificando, assim, o papel do trabalhador na linha de produção. O sistema capitalista vem operando de uma maneira nova, sob um novo modelo de acumulação, associado a um modelo de regulação social, econômico e político: a acumulação flexível. A flexibilização se confronta com a rigidez da acumulação fordista, envolvendo os mercados de trabalho e de produtos, repercutindo de forma contundente nas relações de trabalho, com contratos mais flexíveis e precários. O sistema capitalista vem operando de uma maneira nova, sob um novo modelo de acumulação associado a um modelo de regulação social, econômico e político: a acumulação flexível, repercutindo de forma contundente nas relações de trabalho, com contratos mais flexíveis e precários. A acumulação flexível (...) é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimentos de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional (HARVEY, 1992, p. 140). A rígida separação entre a execução e o planejamento (que caracterizava o modelo taylorista-fordista) dá lugar a uma organização menos vertical e mais horizontal. O espaço entre a concepção e a execução diminui, cabendo uma maior participação do trabalhador no processo produtivo. Ao trabalhador é demandada cada vez mais uma maior identificação com a empresa e seus objetivos. Nesse contexto, é necessário um perfil de trabalhador capaz de lidar com as novas exigências e desafios do mercado. De acordo com Tartuce (2002), além dos conhecimentos objetivos e formais, se fazem necessárias habilidades cognitivas e comportamentais, tais como iniciativa, criatividade, cooperação, liderança, etc., para enfrentar os imprevistos da produção. Desta forma, as mudanças na esfera produtiva advindas do que se convencionou chamar de toyotismo (“modelo japonês”) foram no sentido de: a) permitir maior autonomia ao trabalhador, reunindo concepção e execução em um único processo; b) recompor as diferentes tarefas, diminuindo níveis hierárquicos; c) possibilitar a produção flexível de artigos diferenciados e de qualidade, com aplicação da microeletrônica e maior qualificação dos trabalhadores (LIMA, 2005). Em torno do novo método, suas bases constitutivas podem ser sintetizadas da seguinte forma: Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), just-in-time, kanbam, ilhas de produção (baseadas no trabalho cooperativo em oposição às linhas de montagem fordista) e os grupos semi-autônomos, com capacidade relativa de autogerenciamento. A Reforma do Ensino Profissional no Brasil É nesse contexto que se inserem a reforma da educação básica e do ensino técnico e profissional no Brasil em meados dos anos 1990. A reforma do ensino básico e profissional 6 se propõe a modificar o sistema educacional brasileiro adaptando-o às novas exigências que o modelo de acumulação flexível impõe. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.343/96) e o Decreto Federal 2.208/97 instituíram as novas bases em que o ensino profissionalizante deveria se assentar (dividindo a Educação Profissional em três níveis: o Básico, o Técnico e o Tecnológico). Na reforma da educação profissional prevaleceu o ideário da flexibilidade curricular, o ensino para a vida e para a “empregabilidade”4. Ainda sob esses dispositivos legais, acrescentam-se os pareceres 17/97 e 1699 – CNE/CEB, que regulamentam as Diretrizes Operacionais para a Educação Profissional em Nível Nacional, e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação em Nível Técnico, assim como a Resolução 04/99 - CNE/CEB, que estabelece áreas profissionais, objetivos de Habilitações Profissionais e cargas horárias mínimas. A educação seria “voltada para a vida, para tomar decisões, integrar conhecimentos. Preparar para agir e não só reagir, planejar e não apenas executar. Para ter competência não só no trabalho, mas na vida como um todo” (MELLO, 2001, p. 02). A educação profissional se desvincula da idéia originalmente concebida, ou seja, visando a formação profissional do indivíduo sob a égide do modelo taylorista-fordista na organização do trabalho na produção industrial. A educação profissional (representada pelas várias escolas profissionais de nível básico, técnico e tecnológico, entre elas os Cefet’s e o Sistema “S”) situa-se num campo de disputa onde diversos agentes estão envolvidos, no qual se inserem vários projetos e concepções sobre que papel a educação profissional deveria cumprir. Houve, na ocasião da reforma do ensino profissionalizante, grandes divergências entre as organizações da sociedade civil e o Estado (MANFREDI, 2002). Mas a Reforma consolidada pelo “governo brasileiro, visivelmente orientado por organismos multilaterais, como o Banco Mundial, o BID, a UNESCO, a OIT, entre outros, trouxe para si a responsabilidade de empreender um conjunto articulado e sistemático de iniciativas, visando colocar novas referências à questão da qualificação profissional” (VERAS DE OLIVEIRA, 2005, p. 17). Com a referida reforma, a dualidade entre o ensino médio e o ensino profissionalizante ficou ainda mais claramente estabelecida (CNM//UNITRABAHO, 1999). Foram configuradas novas bases institucionais para a educação profissional no país, que além de levar a uma desarticulação do ensino profissional de qualidade (até então, expresso, sobretudo, na rede federal de escolas técnicas), gerou uma política de formação profissional básica de baixa qualidade e totalmente desvinculada das escolas de educação profissional, particularmente através da realização de cursos de curta duração no âmbito do Plano Nacional de Formação – PLANFOR, de responsabilidade do Ministério do Trabalho a partir de 1995. O Governo Federal editou a Medida Provisória nº 1641-42, em 1998, determinando que a expansão da rede de educação profissional deveria ocorrer somente em parceria com os Estados ou com a comunidade: “Assim, o Estado se desobrigaria de ampliar a rede” (CASTIONI, 2002, p. 224). Ou seja, tais ações governamentais supostamente estiveram orientadas no sentido da modernização do ensino profissional, possibilitando que o mesmo pudesse atender às novas demandas e exigências do mercado de trabalho, referenciado na flexibilidade, na qualidade e na produtividade. Para tanto, o Programa de Reforma da Educação Técnica propôs as seguintes mudanças principais: I. Reestruturação da rede federal de Escolas Técnicas, transformadas em centros 4 “Por empregabilidade o Ministério do Trabalho entende um “conjunto de conhecimentos, habilidades, comportamentos e relações que tornam o profissional necessário não apenas para uma, mas para toda e qualquer organização. Hoje, mais importante do que apenas obter um emprego é torna-se empregável, manter-se competitivo em um mercado em mutação. Preparar-se, inclusive para várias carreiras e diferentes tipos de trabalhos - às vezes até simultâneos” (MTE/Sefor, p. 12, 1995). 7 federais de ensino tecnológico, os cefet’s; II. Recuperação das escolas profissionalizantes, através da reorganização dos Sistemas Estaduais de Educação Profissional; III. Expansão da oferta de matrículas no ensino profissionalizante, com maior participação de associações comunitárias e sindicatos, na implementação de programas de educação profissional (MEC – SEMETC/MTb – SEFOR. Protocolo de Educação Profissional, 1997). Segundo o parecer do CNE/CEB nº 16/99, o ensino técnico e profissionalizante precisa atender às demandas do mercado. A educação cidadã seria aquela voltada à formação continuada, verticalizada, com a aquisição de complexas competências, sendo fundamental para o desenvolvimento do país. É interessante notar que a dissimulação dos novos discursos e conceitos apropriados ao meio produtivo está atrelada e são transportadas para a política pública da educação (CASTIONI, 2002). Outro parecer do CNE/CES no 776/97 afirma que a LDB “cria condições para quebrar as amarras que os burocratizavam, flexibilizando-os e possibilitando a sua contínua adequação às tendências contemporâneas de construção de itinerários de profissionalização e de trajetórias formativas e de atualização permanente, em consonância com a realidade laboral dos novos tempos”. Através dessa dissimulação de novos conceitos, o MEC, por meio das políticas educacionais, incorpora questões carregadas de significados, e em pouco tempo faz chegar às salas de aula os novos comportamentos exigidos pelas empresas (CASTIONI, 2002). O discurso oficial, através de seus documentos, ainda aponta a necessidade da formação de todos, e para todos os tipos de trabalho (CNE/CEB, 1998, n°15/98). São então definidos os objetivos que reorientam a legislação para a reforma da educação profissional e, conseqüentemente, uma série de definições em que a mesma deveria se reportar. É dando início a mudanças de cunho organizacional, tais como: • Educação profissional desenvolvida de forma articulada com o ensino regular, sendo complementar a este; • Dentro do novo contexto, a educação profissional diferencia-se em três níveis: o básico, destinado a trabalhadores independentemente da sua escolaridade e que tem por objetivo qualificar ou requalificar este trabalhador, constituindo uma educação não-formal, de duração variável, e oferecendo certificado de qualificação profissional aos concluintes; o técnico, destinado a formar profissionais que se encontram no ensino médio ou que já o tenham concluído, podendo ser oferecido de forma concomitante ou seqüencial a este, em instituições públicas ou privadas, com organização curricular própria, e proporcionando aos concluintes diplomas de técnico de nível médio; o tecnológico, correspondente ao nível de ensino superior, destinado principalmente a egressos do ensino médio e técnico, tendo por finalidade atender diversos setores econômicos, e proporcionando o diploma de tecnólogo; • Responsabilidade do MEC em estabelecer as diretrizes curriculares nacionais (carga horária, conteúdos, habilitação profissional, etc.), a partir da demanda de estudos do setor produtivo; • Estruturação do currículo do ensino técnico a partir da definição por áreas e setores da economia, sendo agrupadas em diferentes módulos e podendo, estes, serem cursados em diferentes instituições, com direito a certificados de competência. 8 As modificações trazidas pela nova legislação com relação ao ensino técnico podem ser sintetizadas conforme o Relatório sobre as Políticas Públicas referentes à educação e à formação profissional no Brasil da seguinte forma: Uma nova vinculação entre ensino básico e educação profissional desvinculada entre educação geral e profissional, certificação de competência, organização preferencial do ensino técnico em módulos do currículo e ampliação do atendimento da rede tecnológica federal e estadual para além dos níveis médio e pós-médio (CNM/UNITRABALHO, 1999, p. 59). A reforma do ensino técnico, implementada no Brasil a partir de 1997, buscou construir uma nova institucionalidade, para que o Brasil pudesse viabilizar a sua inserção competitiva na globalização, com um trabalhador polivalente, possuindo múltiplas competências, transitando em áreas afins e correlatas, apoiados na criatividade e na autonomia intelectual, tal como capacidade para monitorar desempenhos (Brasil. MEC/SETEC, 1999). O atual governo revogou, em 2004, o Decreto 2.208/97, estabelecendo a possibilidade de integração dos currículos do ensino médio e técnico (FRIGOTTO et. al., 2005). A nova concepção da educação profissional é a de reafirmar a mesma como política pública e “corrigir distorções de conceitos e práticas decorrentes de medidas adotadas pelo governo anterior, que de maneira explícita dissociaram a educação profissional da educação básica, aligeiraram a formação técnica em módulos dissociados e estanques, dando cunho de treinamento superficial à formação profissional e tecnológica de jovens e adultos trabalhadores” (BRASIL/ MEC, 2005). O fez ao lado de outras iniciativas que tiveram na integração uma referência central, tais como a crítica ao discurso da empregabilidade, compreendendo a Qualificação Profissional como direito social, e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens – PROJOVEM, visando uma formação integral dos mesmos. A qualificação passa a ser defendida como um direito social, constituindo um dos elementos do sistema público de trabalho, emprego e renda, sendo estratégico para um desenvolvimento sustentável (VÉRAS DE OLIVEIRA, 2006). As novas iniciativas e o movimento de adequação às novas exigências, o modo e as condições em que estas se articulam, constituem o objetivo desse estudo. As implicações no âmbito Local: Breve reconstituição histórica institucional Para compreendermos a trajetória do CEFET-PB e as inflexões conceituais e organizacionais, pelas quais vem passando nas últimas duas décadas, é preciso abordá-los como um processo social que se desdobra historicamente marcado por contradições e disputas de sentidos e por uma perspectiva de inserção social que não poderia deixar de dialogar com as especificidades sócio-históricas que marcam a formação do espaço local. A partir da pesquisa bibliográfica e documental em curso, é possível visualizar uma caracterização da trajetória histórica do CEFET-PB. Como foi apontado anteriormente, pode-se considerar que o contexto sócio-econômico do início do século XX justificava a criação de escolas voltadas à preparação de mão-de-obra voltadas para o setor produtivo nacional, uma vez que, iniciava-se o processo de industrialização no Brasil. Outro fator a ser destacado foi o processo desencadeado pela urbanização em que pese o aumento populacional nas cidades, provocada pela expulsão dos escravos das fazendas após a 9 abolição da escravatura, gerando com isso os problemas de segmentação do mercado de trabalho (CEFET-PB, 2006). Essas escolas em 1909 totalizavam 19 unidades de artes e ofícios espalhadas nos diferentes estados da Federação, entre eles a Paraíba. Foi instituído sob o governo do então Presidente da República Nilo Peçanha que sancionou o decreto nº 7.566/09, de 23 de setembro de 1909, a criação de instituições voltadas para a Educação Profissional. Inicialmente com a denominação de Escolas de Aprendizes Artífices. Assim, o atual Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba tem quase cem anos de existência. Ao longo de todo esse período, recebeu diferentes denominações conforme podemos notar na Tab.1. Tab.1. Periodização da evolução da denominação institucional do Atual CEFET-PB, localizado na cidade de João Pessoa Período Denominação De 1909 a 1937 Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba De 1937 a 1961 Liceu Industrial de João Pessoa De 1961 a 1967 Escola Industrial “Corioloano de Medeiros” ou Escola Industrial Federal da Paraíba De 1967 a 1999 ETF (Escola Técnica Federal da Paraíba) 1999 aos dias CEFET-PB (Centro Federal de Educação atuais Tecnológica da Paraíba) Fonte: Elaboração própria a partir do documento CEFET-PB (2006). O início da trajetória do CEFET-PB foi à cidade de João Pessoa, que como vimos, a princípio era denominada Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba. Inicialmente sua sede localizava-se no prédio do Quartel da Polícia Militar (ver fig.1) posteriormente transferido para o edifício situado na Av. João da Mata. Nesse período oferecia os cursos de Alfaiataria, Marcenaria, Serralheria, Encadernação e Sapataria, destinadas às classes populares. Configurava-se assim, o objetivo de habilitar técnica e intelectualmente os filhos das classes de trabalhadores - "desvalidos da sorte" – por um lado, mas por outro, conforme documentos, a Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba, no início de sua história, assemelhava-se a um centro correcional, pelo rigor de sua ordem e disciplina. Cumpriu assim, a intencionalidade do Estado brasileiro em conter os problemas sociais. Só posteriormente assumiu definitivamente o papel de qualificar mão-de-obra para atender ao desenvolvimento industrial, intensificado na década de 1930 (CEFET-PB, 2008). Com isso a Escola voltou-se a formação de mestres e contramestres (jovens e trabalhadores aprendizes que concluíssem curso após quatro anos de estudos). 10 Figura 1. Foto da Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba que funcionou no Quartel da Força Policial. Disponível em www.cefetpb.br. Em 1937 aquelas Escolas foram denominadas Liceus Industriais, ministrando os cursos de Serralheria, Artes de Couro (ou Sapataria), Tipografia e Encadernação, Alfaiataria e Marcenaria, mantendo-se assim, o mesmo núcleo de oferta de cursos das décadas precedentes. Na década de 1940, foi editada a Lei Orgânica do Ensino Industrial, estabelecendo dois ciclos para o ensino industrial. O primeiro ciclo englobaria 04 ordens de ensino: Industrial Básico, Maestria, Artesanal e Aprendizagem. O segundo ciclo, duas vertentes, uma técnica e outra pedagógica. Em conseqüência da evolução industrial do país e da preocupação do governo com a qualificação da força de trabalho, foram criadas as bases para a organização de um sistema de ensino profissionalizante. Nesse contexto, surgiram o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI – e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC. Em 1942, os Liceus Industriais foram transformados em Escolas Industriais, desenvolvendo inicialmente o curso Industrial Básico, nas especialidades já oferecidas. A escola industrial funcionava no edifício construído na Avenida João da Mata, onde permaneceu até a década de 1960. No ano de 1961, foram criados os primeiros cursos em nível de 2º grau (atual Ensino Médio): o Técnico em Construção de Máquinas e Motores (denominado atualmente de Mecânica) e o de Tecnólogo de Pontes e Estradas. Em agosto de 1965, por meio de ato ministerial, a Instituição passou a denominar-se de Escola Industrial Federal da Paraíba, sendo finalmente instalada no atual prédio localizado na Avenida Primeiro de Maio, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa (QUEIROGA,2006). Os documentos indicam ainda que com o passar do tempo a clientela e os cursos foram adaptando-se ao contexto sócio-político-econômico-cultural do país e da região, alterando a estrutura institucional do atual CEFET-PB. Ainda em 1966, foi criado o curso Técnico em Eletrotécnica. No ano seguinte, em razão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 4.024/61, essas instituições foram transformadas em Escolas Técnicas Federais, passando a ministrar cursos técnicos industriais de nível médio, num período de acelerado desenvolvimento industrial. Em 1971, foi criado o curso Técnico em Edificações; em 1972, o de Técnico em Saneamento, hoje denominado de Recursos Naturais; em 1975, deu-se a criação do Pró-Técnico (curso preparatório para ingressar nos Cursos Técnicos), e em 1981, a implantação do curso Técnico em Eletrônica. Com a promulgação da Lei da Educação Nacional nº 4.024/61 é reconhecido pela primeira vez, pela legislação educacional, a articulação do ensino profissional ao sistema regular de ensino, determinando a equivalência entre os cursos profissionalizantes e os 11 propedêuticos para fins de prosseguimento de estudos, representando uma tentativa de avanço em termos de dualidade estrutural entre formação humanística e formação tecnicista para a atuação no mundo do trabalho. As atuais mudanças no CEFET-PB É só na década de 1990 que a realidade sócio-econômica local começa a sentir os impactos das profundas transformações que vinham atingindo o mundo do trabalho em escala mundial. O contexto global de internacionalização dos mercados, ocorrido de forma mais intensa a partir do início da década de 1990, impôs especificamente para o Brasil um quadro de abertura econômica aos capitais estrangeiros não só produtivos, mas também especulativos. Com isso, ao contexto nacional também é colocada a necessidade de adequação de seu parque industrial às novas tecnologias (de informação, automação e gestão de negócios), assim como, a revisão de seus processos produtivos e técnicos de gestão do trabalho. As chamadas “Reformas” (do Estado e no sistema de ensino básico e técnico, com a LDB de 1996) desempenharam papel central, por parte do Estado, como vimos anteriormente, no redesenho de estratégias de ação afinadas ao contexto que vinha assimilando de maneira tensa e contraditória o Paradigma Flexível. Com tudo isso está sendo demandado pelo mercado outro perfil de trabalhador, a ser capacitado por uma noção de Qualificação Profissional bem diferente daquela das quatro décadas precedentes, um perfil agora esperado, antes de tudo, flexível, perfis adaptáveis as constantes mudanças globalizadas. Assim, a força de trabalho deve ser qualificada sob novas referencias históricas, sociais e econômicas e com base em novas referências discursivas. Objetivamente, vem se dando a partir de 1995 o aumento do desemprego, a intensificação da concorrência no mercado, um redimensionamento da intervenção social do Estado, um encolhimento do quantitativo de mão-de-obra empregada no setor industrial e um aumento do setor de serviços, especialmente informal, além, como já se caracterizou anteriormente, do aprofundamento da heterogeneidade dos tipos de trabalhadores. Subjetivamente, ao nível do discurso, vêm sendo construídos e disseminados novos referenciais e noções, como “qualidade total”, “empregabilidade”, “educação e aprendizagem flexíveis”, assim como, relações de trabalho também flexíveis. Destaca-se, ainda, a preocupação com a competitividade, a produtividade e a multi-funcionalidade ou polivalência do trabalhador pautada na noção de Competência. No que se refere especificamente ao CEFET-PB no ano de 1995, ainda como Escola Técnica Federal da Paraíba, teve ampliada a sua capacidade de atendimento, através da instalação da Unidade de Ensino Descentralizada de Cajazeiras – UNED. Em 1999, foi transformada em Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba. Atualmente, a sede do CEFET-PB está situado a Av. 1º de Maio, 720, bairro de Jaguaribe, João Pessoa/PB, (Veja fig.2). Além de sua Unidade Sede, conta também na cidade de João Pessoa com o Núcleo de Extensão e Educação Profissional - NEEP, que funciona na Rua das Trincheiras, e com o Núcleo de Arte, Cultura e Eventos - NACE, localizado no antigo prédio da Escola de Aprendizes Artífices. A estrutura física da cede do CEFET-PB notabiliza uma área total construída de 34.356,45 m2, contando com 32 salas de aula, 09 salas de desenho, 65 laboratórios, auditório, Biblioteca Nilo Peçanha, reformada e ampliada em 2005 que possui acervo de 7.061 títulos e 16.133 exemplares. Além disso destacam-se as salas de apoio psico-pedagógico, médico-odontológico, quadra poliesportiva, campo de futebol, piscina semi-olímpica e quadra coberta (CEFET-PB, 12 2005). Figura 2. Foto do Prédio cede do CEFET-PB, na cidade de João Pessoa. Conta com uma área construída de 34.356,45 m2. Disponível em www.cefetpb.br. O CEFET-PB constitui autarquia federal, vinculada ao Ministério da Educação, sendo detentor de autonomia administrativa, patrimonial, financeira, didático-pedagógica e disciplinar. É Instituição especializada na oferta de educação tecnológica, nos diferentes níveis e modalidades de ensino, com atuação prioritária na área tecnológica. Atualmente, equivale a Instituições de Ensino Superior – IFEs, através do Decreto – Lei nº 5.225/04, de 1º de outubro de 2004. Seus documentos definem os termos de sua missão: “formar profissionais competentes, polivalentes e capacitados para o exercício pleno da cidadania, em sintonia com o mundo do trabalho, atuando como um Centro de Referência em ensino, pesquisa e extensão na área tecnológica” (CEFET-PB, 2006, p. 13). Suas linhas de ações estratégicas seguem orientação federal de atuação no ensino, pesquisa e extensão. Conforme o documento consultado, o CEFET-PB conta atualmente no seu quadro de profissionais com 274 (duzentos e setenta e quatro) docentes em exercício efetivo. De acordo com dados da Diretoria de Ensino, no semestre 2005.1, o número total de alunos regularmente matriculados na Unidade Sede de João Pessoa era de 4.053 (quatro mil e cinqüenta e três) alunos (CEFET-PB, 2005). Segundo a legislação, Lei nº 9.394/96, Decreto nº 2.208/97, Parecer nº 16/99, Resolução nº 04/99, Portaria nº 30/00 e Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico, a estrutura curricular foi alterada, conformando um novo conteúdo à formação profissional em consonância com as diretrizes sociais mais amplas conforme anteriormente contextualizados. Nessa perspectiva, o currículo encontra-se organizado em competências e habilidades, apresentando estrutura modular com possibilidades de certificações profissionais intermediárias. Os módulos são definidos com terminalidade, em que os alunos são preparados para exercer uma atividade profissional. Ou sem terminalidade, nos quais os alunos desenvolvem competências de caráter geral, visando à preparação para o ingresso em módulos subseqüentes. Esses módulos iniciais geralmente são obrigatórios e englobam competências específicas da habilitação profissional (QUEIROGA,2006). Quanto a isso se destaca as seguintes áreas técnico-profissionais: construção civil, de gestão, da indústria, da informática e do meio ambiente. Todas elas distribuídas pela oferta dos seguintes cursos regulares na Unidade sede de João Pessoa: 13  Curso Técnico Integrado refere-se aos cursos educação profissional técnica integrada ao ensino médio, cuja organização do curso conduz o aluno a uma habilitação profissional técnica de nível médio que também lhe dará o direito à continuidade de estudos na educação superior, será oferecida para estudantes que tenham concluído o ensino fundamental. Regime anual com duração de quatro anos, com carga horária mínima de 3.800 horas incluído o estágio curricular. (CEFET-PB, 2007). São eles: Edificações, Eletrotécnica, Mecânica & Tecnologia Ambiental.  Curso Técnico Subseqüente destinado aos ingressos com escolaridade de nível médio concluído equivale ao nível médio de escolaridade e forma profissionais técnicos conforme o curso específico. Os currículos dos cursos técnicos estão definidos por competências e habilidades, apresentando estrutura modular, com oportunidades de certificações profissionais intermediárias. Carga horária variável conforme determina legislação para cada curso. São eles: Edificações; Eletrotécnica; Instalação e Manutenção de Equipamentos Médico Hospitalares; Instalação e Manutenção de Equipamentos de Informática e Redes; Manutenção de Equipamentos Mecânicos; Recursos Naturais; Gestão de Micro e Pequenas Empresas & Curso Técnico de Música (CEFET-PB, 2007). Ambas formações Técnicas conforme o CEFET-PB tem como objetivo a formação de profissionais habilitados com bases científicas, tecnológicas e humanísticas para o exercício da profissão, numa perspectiva crítica, proativa, ética e global, considerando o mundo do trabalho, a contextualização sócio-político-econômica e o desenvolvimento sustentável, agregando valores artístico-culturais. Também é oferecido no CEFET-PB cursos superiores tanto nas habilitações já consagradas pelas faculdades e universidades, tais como, licenciatura e bacharelado, como a modalidade de Tecnológico de nível superior.  Curso Tecnológico (Superior): Automação Industrial, Negócios Imobiliário, Construção de Edifícios, Design de Interiores, Geoprocessamento, Sistemas de Telecomunicações, Rede de Computadores, Sistemas para Internet.  Curso de Graduação (Bacharelado): Engenharia Elétrica & Administração  Curso de Graduação Licenciatura (Superior): Química. Além desses cursos regulares, o CEFET-PB, através da Fundação de Educação Tecnológica – FUNETEC, um órgão do CEFET-PB, oferece cursos técnicos especiais como Higiene e Segurança no Trabalho, Turismo, e cursos de qualificação de nível básico como inglês instrumental. Esses cursos são realizados na FUNETEC, cursos não- públicos, ou seja, privatizados. Em 2005, o CEFET-PB, por intermédio da FUNETEC, passou a oferecer o curso de pós-graduação lato sensu: Especialização em Educação Profissional. Além dos cursos, usualmente chamados de “regulares”, a Instituição também desenvolve um amplo trabalho de oferta de cursos extraordinários (educação profissional inicial e continuada e cursos superiores de extensão), de curta e média duração, atendendo a uma expressiva parcela da população, a quem são destinados também cursos técnicos básicos, programas e treinamentos de qualificação, profissionalização e reprofissionalização, para melhoria das habilidades de competência técnica no exercício da profissão. 14 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS Tendo em vista seu caráter de continuidade, a pesquisa documental, até agora empreendida, possibilitou a breve caracterização histórica supracitada, base sob a qual se lançará os elementos que caracterizam as mudanças institucionais perseguidas nos objetivos da pesquisa. Cabe ressaltar que atualmente, a Instituição vem passando por profundas transformações institucionais. Além da expansão empreendida pelo atual governo que verteu para a Paraíba, além da histórica Unidade de João Pessoa, a instalação da Unidade nas cidades de Cajazeiras e Campina Grande, a Lei nº 11.892, de 29 de dezembro 2008, Instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, criando 38 IFETs, passando assim o CEFET-PB a ser denominado de IFPB (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba). Conforme informações do MEC, na Paraíba, o instituto terá nove campi que oferecerão 10,8 mil vagas. A reitoria será instalada em João Pessoa. As unidades serão criadas em Cabedelo, Cajazeiras, Campina Grande, João Pessoa, Monteiro, Patos, Picuí, Princesa Isabel e Sousa (SETEC/MEC, 2008). Os institutos deverão oferecer metade das vagas ao ensino médio integrado ao profissional, para dar ao jovem uma possibilidade de formação já nessa etapa do ensino. Na educação superior, haverá destaque para os cursos de engenharias e bacharelados tecnológicos (30% das vagas). Outros 20% serão reservados a licenciaturas em ciências da natureza — o Brasil apresenta grande déficit de professores em física, química, matemática e biologia. Ainda serão incentivadas as licenciaturas de conteúdos específicos da educação profissional e tecnológica, como a formação de professores de mecânica, eletricidade e informática. Na seqüência se tentará melhor investigar as atuais mudanças, os desafios e o papel desempenhado pelo IFET, além de melhor caracterizar as referências sobre Trabalho e Formação Profissional empreendidos por esta experiência. Agradecimento a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) pelo apoio institucional recebidos para a pesquisa na forma de bolsa de estudo em nível de mestrado REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, Ricardo Antunes. Adeus ao Trabalho? 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Campina Grande A importância da política de valorização do salário mínimo para a região nordeste Adriana Jungbluth1 Jacqueline Aslan Souen2 Sessão Temática: Rendas do trabalho, distribuição de renda, desigualdade e pobreza Resumo Desde 1995, o governo federal passou a dar maior atenção a uma política de valorização do salário mínimo que havia sido deixada de lado durante vários anos. Desde então, o valor real do salário mínimo passou a desempenhar uma trajetória crescente de valorização. Com o governo Lula essa valorização passou a ser mais intensa o que resultou, de 1995 a 2007, em uma valorização real expressiva de 75%, segundo o INPC. Milhões de brasileiros foram beneficiados por essa política, não apenas aqueles inseridos no mercado de trabalho, mas também aqueles dependentes dos benefícios previdenciários cujo valor é atrelado ao salário mínimo. O presente artigo analisa o impacto dessa política de valorização recente do salário mínimo para a região Nordeste. São feitas considerações acerca do mercado de trabalho da região, e em especial, das regiões metropolitanas de Recife e Salvador, além de considerações acerca dos benefícios previdenciários. Para tanto, utilizaram-se duas bases de dados distintas: Pesquisa por Amostra de Domicílios (PNAD) e Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Palavras-chave: região Nordeste, salário mínimo, desigualdade, mercado de trabalho. Abstract Since 1995, the federal government has given greater attention to a policy of recovery of the minimum wage that had been left aside for several years. Since then, the real value of the minimum wage rose to play a growing path of recovery. With the Lula government that valuation has become more intense which resulted from 1995 to 2007 in a real expressive recovery of 75%, according to the INPC. Millions of Brazilians have benefited from that policy, not only those included in the labour market, but also those dependent on benefits whose value is tied to the minimum wage. This article analyses the impact of this policy of recent recovery of the minimum wage for the Northeast region. Considerations are made about the labour market in the region, and in particular metropolitan areas of Recife and Salvador. For both, were used two different databases: Research by Household Sample (PNAD) and Search for Employment and Unemployment (PED). Keywords: Northeast region, minimum wage, inequality, labour market. 1 Mestranda em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Contato: adriana.jungbluth@gmail.com 2 Mestranda em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Contato: jacsouen@uol.com.br Introdução Durante muitos anos a política de salário mínimo foi deixada completamente de lado pelos governos federais, fazendo com que seu valor real tivesse uma enorme perda de poder aquisitivo e distanciando-o cada vez mais do que a Constituição de 1988 estabelecia3. Entretanto, a partir de 1995, passou-se a dar uma maior atenção a esse valor de referência e desde então se iniciou uma trajetória de valorização, intensificada no ano de 2004, com a criação da comissão quadripartite. De 1995 até 2007, a valorização real do salário mínimo foi de 75%, segundo o INPC. Tamanha valorização teve um impacto bastante positivo não apenas no mercado de trabalho, como referência às remunerações de base, como também para os rendimentos de benefícios previdenciários cujo benefício é vinculado ao valor do salário mínimo. Tal impacto pôde ser percebido em todas as regiões brasileiras, mas uma delas chama atenção especial: a região Nordeste. A importância de uma efetiva política de recuperação permanente do s