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Trabalho de Antropologia Jurídica

Pedro Ruback da Silva

Resenha do artigo de Laura Nader, “A civilização e seus negociadores: a harmonia como
técnica de pacificação”.

Laura Nader é uma antropóloga americana que dá aula desde 1960 na Universidade da
Califórnia, Berkeley, sendo a primeira mulher a ocupar posto permanente no
departamento. Suas áreas de pesquisa envolvem etnografias comparadas do direito, leis,
resolução de disputas, conflitos, organização familiar comparada e etnografias da
América Latina, Oriente Médio e México. Escreveu extensamente sobre a “Ideologia da
Harmonia”, tema que será abordado nesse artigo.

Aqui ela propõe buscar um outro olhar sobre a harmonia, não apenas identificá-la no
momento em que ela não existe, como a maioria dos antropólogos fazem, mas reconhecê-
la como meio de controle e regulação da vida em sociedade, como uma forma ideológica
que atua na vida dos indivíduos por meio de diversos processos, como a legislação,
política, religião, etc.

Nader inicia seu artigo relatando uma situação em seu trabalho de campo numa aldeia em
Oaxaca, no México, onde havia um conflito entre convertidos ao protestantismo e
católicos. Nader reconhecia na tribo zapoteca uma ideologia de harmonia onde os
problemas eram resolvidos por acordos, mesmo que ruins, mas melhor que a persistência
de uma demanda. Propôs então a investigar como se deu esse tipo de resolução. Teve de
voltar à época da colonização. Na Espanha aumentava-se a competição, mas em
contrapartida, os missionários trouxeram ideias aos nativos de conciliação e harmonia,
para colocar em prática como forma de socialização, repressão.

Nader concentra algumas críticas a etnógrafos e antropólogos que foram para
determinadas regiões estudar os povos, e trataram os missionários e colonialistas

Em um salto. "anos de confronto". no Pacífico. 80 e 90. Pôde então identificar uma linha comparativa com esses grupos e casos e os zapotecas no México. Nader passa a pensar a cena política estadunidense nos anos 70. sem conseguir contrapor o antes da colonização e o depois dela e ressaltar suas diferenças e. nos anos 70. onde diversos grupos sociais sentiram-se motivados para combater em prol de suas propostas sociais. dos consumidores. os estadunidenses. Levando em conta os anos 60 como um ano turbulento. a conferência de Pound. Não apenas foi uma . Segundo Nader. A conferência teve como objetivo uma mudança tão brusca da forma como encarar as relações sociais que Nader descreve como uma "mudança cultural". para estudar o desenvolvimento das leis no decorrer do tempo e estabelecer uma linha comparativa entre o papel da colonização nas tribos desses territórios. direitos civis. como o combate ao racismo. as intenções dos colonizadores em criar determinadas ideologias. etc. Nisso. "foi o momento culminante em que modelos de harmonia e eficiência passaram oficialmente a substituir o ideal do litígio como modalidade de justiça". principalmente dos missionários que assumiram o papel de pacificadores destas. em 1976. 80 e 90. "O país passou da preocupação com a justiça para a preocupação com a harmonia e eficiência. como mudou como as relações se deram. Dessa forma. Não só foi importante nesse ponto. principalmente. deixaram de saber como e por quê determinadas ideologias estavam presentes. das cortes à resolução alternativa de disputas". Porém. principalmente nos termos econômicos. machismo. Os anos 60 marcou-se por um período em que o povo se rebelava contra as estruturas presentes na sociedade e punha em cheque muitos valores nela existentes. Os cidadãos foram encorajados por políticas públicas a não recorrerem mais às vias judiciais para resolverem suas demandas: nisso foi instaurado um raciocínio de resolução alternativa de disputas que fazia com que as pessoas resolvessem entre si suas demandas em prol da paz e da harmonia. Polinésia e Micronésia. Recorreu então a dados de outras colonizações. e ex- colônias britânicas na África.espanhóis como parte dos nativos. instalou-se novas formas de se lidar com demandas e os conflitos foram substituídos por formas de harmonia. da preocupação com a ética do bem e do mal para a ética de tratamento. se tornaram apáticos. em comparação à década anterior.

juntamente com a política. estes países tiveram acesso a tais recursos para alcançar seus novos interesses. onde não mais o empregado foi encorajado a levar seus problemas à justiça. com a emergência destas nações. a Corte Internacional foi utilizada como forma de alcançar tais interesses e esses tais interesses feriam os interesses de países de "primeiro mundo". no novo padrão do homem civilizado. para mudar a forma de pensar.que por si só já é grave. Criar uma sociedade que não busque a guerra. onde acordos sempre tem um que se beneficia e outro que perde. tem-se uma ideia de que o objetivo era reduzir os danos e processos contra empresas e mudar a forma de pensar do cidadão. os homens podem resolver entre si suas demandas e movem-se rumo às negociações internacionais. Isso permitiu que diversos acordos fossem feitos. essa lógica propôs uma solução: equilíbrio de interesses.estratégia para cortar gastos públicos com demandas da população . Dentro deste quadro. numa aliança política. permitindo sua continuidade. Dessa forma. desigualdades e perdas de direitos -. Tudo isso se deu sob o viés de pacificação e harmonia. Pela própria desproporcionalidade. "ganhador-ganhador". foi uma estratégia ideológica que trouxe resultados positivos à lógica empresarial. batistas. como Estados . Nader ressalta que a religião se aproveitou desse processo. patrão-empregado. Mas com a implementação destas cortes em países emergentes de terceiro mundo. e como se a harmonia pudesse se instaurar por meio dessas negociações que tinham a intenção de serem conciliadoras. Até os anos 60 a Corte Mundial foi um interessante recurso. religiões que pregavam a submissão e o pacifismo acima da luta se hergueram e conquistaram diversos adeptos. indígenas fossem persuadidos com um acordo de paz. ignorando condições sociais desiguais. mas como deu autonomia total às empresas resolverem seus problemas internamente. Como que para encobrir a ideia anterior de um "ganhador-perdedor". Os padrões de condutas civilizadas tomaram novos rumos. Evangélicos. pois implica na continuidade de preconceitos. mas resolvê-los com o empregador por meio de acordos e negociações. Agora não mais eram resolvidos nas cortes o problema da população: enquanto de um lado os "primitivos" possuem suas cortes. surgiu a ideia de que ambos os lados pudessem se beneficiar. mas sim a paz. Dessa nova adesão.

A harmonia como concepção geral da vida deve ser investigada em relação à construção da lei. conciliador. Esses novos profissionais de negociação foram formados com o tempo. essa ideologia da harmonia teve proporções mundiais. De acordo com Nader. desta mudança cultural. Como também ressaltado. refletem antes os processos de construção cultural que podem ser uma resposta à demanda. assim como o conflito foi investigado em relação ao desenvolvimento da lei". Jimmy Carter. mais suaves. . As disputas internacionais tomaram um viés diferente. Nader diz: "Os processos de disputa não podem ser explicados como reflexo de um conjunto pré-determinado de condições sociais. ou o resultado de um conflito de classes. ex-presidente dos Estados Unidos foi o mais famoso negociador internacional dessa forma nova de lidar. um produto dos interesses dominantes. não- competidores. Disso nasceu a necessidade de meios "mais civilizados". Sintetizando. uma vez que ela se estendia para um equilíbrio nas relações internacionais.Unidos. como a mediação ou a negociação.