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abertura

Síntese - Rev. de Filosofia
V. 32 N. 102 (2005): 5-24

UM DEPOIMENTO SOBRE O PADRE VAZ

Paulo Eduardo Arantes *
USP

Apresentação

N
o dia 30 de outubro de 2002 realizou-se, na cidade de São Paulo,
o colóquio intitulado “Diálogos com a cultura contemporânea. Ho
menagem a Henrique Cláudio de Lima Vaz”, organizado em par-
ceria pelo Departamento de Filosofia da PUC e a Faculdade de Filosofia de
São Bento. Durante o colóquio, o filósofo Paulo Eduardo Arantes, da Uni-
versidade de São Paulo, apresentou duas vezes, com pequenas modifica-
ções, a conferência que ele intitulou “Um depoimento”: de manhã, ele a
apresentou na Faculdade de São Bento; à noite, na PUC. Por um misto de
emoção, reconhecimento e admirável lucidez histórica, Paulo Arantes ex-
põe não apenas o seu encontro com Vaz e a maneira como este marcou a
sua formação intelectual e a sua juventude, mas também a fundação da
Ação Popular (AP) e a atuação política discreta de Lima Vaz, num volume

* Transcrição, adaptação e apresentação de Juvenal Savian Filho, doutorando do Depar-
tamento de Filosofia da USP. Vale dizer que a forma oral do depoimento foi mantida na
transcrição. A versão final foi lida e aprovada pelo Prof. Paulo Arantes.

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quase incontável de informações (narradas todas espontaneamente, sem
texto escrito) que não deixam de permitir também um desvio de atenção
do mestre para o discípulo, ou, se se quiser, não um desvio de atenção,
mas um interesse concomitante tanto pela pessoa e atuação de Padre Vaz
como pela narrativa mesma de seu antigo aluno.

Além de outros dados interessantes, a apresentação de Paulo Arantes
mostra, com perspicácia, a inserção político-intelectual de Lima Vaz num
momento bastante fértil da história do país, como foram os anos 61-64,
situando-o junto a duas outras tradições interpretativas daquele objeto que
se impunha inescapavelmente à reflexão de todos os intelectuais daquele
momento: o Brasil. Assim, podiam-se identificar, segundo Paulo Arantes,
três vertentes de interpretação crítica do Brasil: o pensamento oficial do
ISEB, representado pelo Prof. Álvaro Vieira Pinto; o marxismo em geral
(também ligado ao ISEB), composto por pessoas como Celso Furtado, por
exemplo, Roland Corbusier, além de alguns comunistas como Nelson
Werneck Sodré, entre outros; e a tradição cristã da Ação Católica, da UNE
e da AP, formadas na escola do Pe. Vaz. Essas três vertentes também
podem ser agrupadas em função de sua pertença a uma tradição mais
antiga que poderia ser chamada de “radical”, segundo a acepção dada por
Antonio Candido ao termo, e que teria tangenciado outras duas tradições,
a tradição “liberal-imperial” e a tradição “nacional-desenvolvimentista”,
que exerceram o poder brasileiro no século XX.
Por fim, Paulo Arantes, que falava em outubro de 2002, logo depois da
vitória de Lula nas eleições presidenciais, vê no resultado das urnas o
reflorescimento dessa tradição radical que nunca esteve no poder, e deduz,
a partir dos dados expostos no seu depoimento, qual seria, para um leitor
de Lima Vaz, uma possível filosofia que desse conta daquele “terremoto
social” que estava acontecendo no Brasil em outubro de 2002: ele não tem
dúvidas de que uma filosofia viável – que, aliás, seria muito bem-vinda
não apenas para a leitura do Brasil, mas também para a sua construção –
seria uma filosofia da história “completa” como a de Lima Vaz, baseada na
idéia de formação do sujeito por meio da idéia de reconhecimento, uma
filosofia, aliás, “moderníssima, porque o seu paradigma é o da comunica-
ção, não mais o da produção”, malgrado Lima Vaz não fosse um discípulo
de Habermas ou de outro que o valha. E era essa mudança de paradigma
que Paulo Arantes julgava avizinhar-se no fim de 2002. Hoje, por suas
intervenções na mídia e por sua crítica precisa ao governo Lula, não se
sabe se ele terminaria seu depoimento da mesma forma. Talvez ele disses-
se que o ideal “radical” ainda teria de esperar para renascer.

O que é certo é que o pensamento crítico do autor de “Cristianismo e
consciência histórica” e “Consciência, história e cristianismo”, de uma for-
ma ou de outra, continua vigoroso. Sua discrição manteve “anônima” grande
parte de sua influência na vida intelectual e política brasileira, mas, pelo

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Depoimento Pretendo relatar. aqui. principalmente nos anos de Belo Horizonte. a enorme fertilidade de seu “anonimato”. a partir de 64. 102. 32. foi um contato mais de cortesia. Ele sempre me mandava as coisas dele. numa intensidade que jamais se viu no nosso país. Vaz. embora ele tam- bém soubesse (mas não tocava no assunto) que já havia algumas décadas eu estava navegando outros mares. meu contato com o Vaz. nascidos do permanente “re- tiro” em que ele viveu. de acordo com o gosto dele. o Prof. que se recolhiam no deserto e con- seguiam desenvolver. que eu praticamente não li durante esses quarenta anos. outros negativos. como foi o meu ingresso na cultura uspiana. Depois. eu deixei de poder acompanhar uma série de coisas. Diretamente. Eu li apenas dois ou três textos fundamentais. pensando numa quadra histórica decisiva para o Brasil: os anos de 62. Essa fertilidade pode ainda ser vista pelos seus últimos artigos e livros. não mais do que isso. Vaz e eu uma relação afetiva muito particular. a maneira pela qual eu cruzei com o Pe. havia entre Pe. quando o Brasil arriscou ser um outro país e não foi. e também lhe enviava. nada disso impedia que a minha admira- ção por ele cessasse. com muita inteligên- cia. Vaz. Uma dessas coisas foi a obra do Pe. e eu. para bem e para mal. n. 2005 7 . Mas aceitei o convite para dar esse depoimento. da minha parte. Retiro este. de modo que meu depoimento é um pouco equívoco. Ernani Maria Fiori. de deferência. de modo que ele me tratava quase como afilhado. v. selecionava o que eu fazia. de ami- zade. O que prejudica. Belo Horizonte. a capacidade de perseverar diante de si mesmos. Além disso. quando voltei da Europa. e assim por diante. Apenas quem teve 20 anos antes de 64 Síntese. num contato que durou aproximadamente um ano e meio.presente depoimento. alguns positivos. Porém. sem se dispersar. por causa de vários preconceitos. porque ele era muito amigo de meu futuro sogro. dos outros e do Outro. em virtude deste corte ocorrido na minha vida. meu depoimento é que. Paulo Arantes soube destacar. 63 e meados de 64. Vaz. com cartas primorosas e pequenos bilhetes. exa- tamente há quarenta anos atrás. E nós estáva- mos metidos nessa aventura de transformação nacional. Ele respondia imediatamente. porém. um pouco evocativo daquilo que tinha acontecido com a minha geração antes de 64. não ao modo de um ostracismo. sobretudo porque achei que seria a única forma de manifestar publicamente minha gratidão e evocação da figura do Pe. aqui. mares um pouco mais imanentes. mas foi decisivo na minha formação. materialistas e profanos. mas da stabilitas dos grandes mestres cristãos dos primeiros séculos.

porque gostei da idéia. Belo Horizonte. eles tinham uma espécie de trajetória heróica. estava condenada à inanição. isso estava praticamente fora de cogi- tação. 2005 . com ódio de Juscelino. a resistência ao Estado Novo. udenista e reacionária. Mas minha sorte foi uma pequena crise na juventude. morando em Santos (quando estava terminando o período Juscelino e começando o Jânio). a vitória na Segunda Guerra Mundial etc. Era impensável. uma pessoa com certa curiosidade intelectual. que era anti-Vargas. E era forte porque Santos era uma cidade importante. em Itanhaém. mas eu resisti. por outro lado.. Por outro lado. v. cultu- ral e mesmo política. dava medo. ele era muito forte. Não havia alternativa. afinal. E foi nesse momento que eu cruzei com o Vaz. lacerdista. portuária. e que compunha o que se chamava a polícia marítima. e até certo ponto rígi- dos. heróis. portanto. Eu inclusive tinha amigos no cole- gial. e. divertido. que também nos protegia. 62. Mas era um desses famosos encon- tros da Juventude Universitária Católica de São Paulo. assustava as pessoas. Como parte da terapia. de certa maneira. a primeira coisa nova que apareceu naquele momen- to em Santos – aliás. dizen- do que era “muito forte”. Ele era guardado por um esquadrão de soldados enormes. E as razões eram muito simples: o Partido Comunista Brasileiro. ou energúmenos. meio anárquica. por mais taca- nhos que eles pudessem parecer. n. que teve um enca- minhamento típico: fui fazer terapia e o terapeuta era católico militante da Ação Católica. em Santos. sendo eu jovem e terminando o colegial em Santos. naquela época.pode saber como esse país foi inteligente. porque quem a imantava. porque eu era de tradicional família golpista. fi- cava excluído de uma parte da vida cultural. eles eram. em Santos. e como é que ele começou a se pôr em movimento. mas não sabia o que era. em 61. Vocês imagi- nem: fui educado lendo O Estado de São Paulo. os comunistas exerciam um poder de atração muito grande. porque. de certa maneira. embora a tentação fosse grande. era o Partido Comunista. Para mim foi uma revelação. foi a dramaturgia do Plínio Marcos. Mas naquele momento. pensava que fosse um passeio na praia. com uma estiva muito poderosa e enquadrada em parte pelo Partido Comunis- ta. 32. contagiavam a vida cultural. 102. que tentaram me levar para ver. ele me convidou para um encontro de jovens. porque eu era um 8 Síntese. Havia uma forte dose de ilusão a respeito disso. mas na órbita do Partido Comunista –. tinham uma ascendência moral in- crível. Mas só pude me encontrar com ele porque. uma das maneiras de se politizar – em se tratando de um jovem de classe média – era se aproximar do Partido Comunista Brasileiro. No meu caso. Eu aceitei. Ora. um jovem de 18/19 anos como eu. mas era essa ilusão que alimentava esse movimento e que podia provocar um desbloqueio na estagnação colonial brasileira. e. solidário. próximos dele. até que chegou o redentor Jânio (que deu um “passa moleque” na classe média e a enganou). por causa do preconceito corriqueiro e o medo típico da classe média. Para se ter uma idéia. afinal. du- rante quatro ou cinco dias. e. com a Coluna Prestes.

com o tema “Consciên- cia. me aconselhar com o Vaz. na Revista Síntese. militante da Ação Cató- lica no meio estudantil. Eu fazia Física naquele momento. os militantes da Ação Católica que estavam na USP. Mas eu não participei dessa fundação. mas na Faculdade de Filosofia havia alguns deles. Voltei. realizou-se um congresso nacional de fundação. esse despertar conjunto para a cultura elevada. Aconteceu. e não poderia ostensivamente participar de um grupo político. v. e o Grupão passou a atender pelo nome de Ação Popular. em 1962. Juntei-me a ele. em fevereiro. 2005 9 . e voltei. especificada. todo mundo era católico por definição. então. embora a Ação Popular fosse criatura da Ação Católica. que passou a ser para mim uma referência intelectual e também política. de um ensaio longo que ele havia publicado em duas partes. em 60 ou 61. falava-se do Grupão. e se resumiu a alguns contatos. Eu o conheci pessoalmente num encontro nacional. se não me engano. em certo sentido. no início de 1963. porque eu tinha fumaças filosóficas: eu fazia Física porque queria fazer Filosofia da Ciência. A minha relativa proximidade com o Vaz. Eu resolvi. durante uma semana. fervorosamente convertido de Itanhaém. onde ele dava aula. Belo Horizonte. tinha curiosidade cultural. que passou a ser uma espécie de documento. chamado “Cristianismo e consciência histórica”. que já era uma espécie de “lenda” nesse meio em que eu passei a viver. No início de 1963. história e cristianismo”. tive acesso à vida intelectual por meio dessa deriva à esquerda de uma parte da Igreja Ca- tólica (aliás. ocorreu durante o ano de 1963. que se chamava “o Grupão”. à leitura desse texto que eu mencionei e a algumas conversas mais filosóficas que tivemos. naquele momento. enquanto eu morava no Rio de Síntese. na USP mesmo. então. e fiz várias vezes a viagem a Nova Friburgo. que simplesmente começou a se reu- nir. Vaz. moldado por um cristianismo historicamente datado. em que a argamassa era uma certa compreensão espiritual cristã católica inteiramente fora de esquadro naquele momento. para a militância católica de esquerda que se considerava socialista naquele momento. Eu me tornei. 32. e. “convertido”. então. como era o cristianismo da Ação Católica de São Paulo daquela virada de década e início dos anos sessenta. porque. para Santos.jovem que gostava de ler. ser católico era hábito doméstico. lendo as coisas dele. em Salvador. Epistemologia. Na verdade. eu vim a saber que era uma espécie de retomada didática. todas as manhãs. não havia nome definido ainda. Ora. em Aracaju.. Depois. texto-base. assim que eu entrei na Universidade de São Paulo. e começou-se um movimento de formação de uma nova tendência política. eu já era dirigente nacional da JUC (Juventude Universitária Católica). quando ele ministrou um curso. sobretudo da JUC. mas eu nunca tinha dado bola para a religião. em 1959. Portanto. portanto. a política etc. 2/3 dela continuava daquele outro jeito. que todos nós conhe- cemos). mas nem ia à igreja. entretanto. 102. em 1962. fui pro- curar a minha tribo. isto é. n. eu fui para a direção nacional da JUC e foi nesse mo- mento que eu conheci pessoalmente o Pe.

Tudo vinha de lá: da prefeitura Arraes. Vaz depois que eu falei que o que eu queria fazer era Filosofia. e ele me fez freqüentar um discípulo dele. fui lendo outras coisas. é muito importante. mas isso despertou um enorme entusiasmo porque dava uma fortíssima fundamentação filosófica àquele trabalho terra a terra de formiga que eles faziam e que irradiava do Recife. [risos]. em alta linguagem filosófica.. subia a Friburgo. Mas. sema- nalmente. Li as Meditações cartesianas do Husserl por conta própria. E o interessante neste período é que pessoas como o Raul Landim estavam metidas não apenas na “mística especulativa”. por fim. prestava contas. Foi curioso. Você está lendo Husserl. sob direção de Dom Hélder Câmara. era uma edição francesa. de 1844 (foi uma curiosidade. os quais ele tirou da biblioteca e que eu só devolvi muitos anos depois. num certo momento. Belo Horizonte.. trancado.. curiosamente. porque eu não o pude reler antes desse de- poimento. Aliás. porque ele estava lá. Esses livros eram As Idéias I. conversava. para mim. Um outro texto do Vaz que nessa época eu li. E. ideológica.. três livros. e. mas isso aqui é mais interessan- te”). na primeira vez em que o encontrei em Belo Horizonte. Ninguém entendeu um gato. que era a sede da Ação Católica.. que. que consistia em ir prestar. não por negligência. e do Paulo Freire. naquele momento. mas é por- que houve. e. então. Era disso que se tratava. v. ele estava fichando a Suma.. 102. Precisaria voltar a esse texto. a partir dos textos do Vaz. sem 10 Síntese. mas também na “mística profética” [risos]. que eu conheci no Rio de Janeiro e que estava mergulhado na Suma teológica. eu só reli o “Cristianismo e consciência histórica” e uma resenha pouco conhecida do Vaz. era fenomenologia mesmo.. no início dos anos 70. pro- fissional. chamado Raul Landim. mas a partir daí comecei a ler outras coisas. mas retendo. os Manuscritos Econômico- filosóficos do jovem Marx. durante um bom tempo. nesse tempo. 32. no caso. e ele disse: “Leia isso. o MEB. sob confiança. fichar a Suma teológica [risos].. circulou um texto de fundamentação da educação de base escrito pelo Landim. o que eu não imaginava era que ele também acompanhasse isso. esse sim um discípulo filósofo. sem dar tam- bém muita atenção. essas coisas. fichando a Suma teológica. cuja sede era no palácio São Joaquim. claro. mas o homem acompanhava! Eu li tudo aquilo e não entendi quase nada. foi um longo ensaio intitulado “Marxismo e filosofia”. Epistemologia. em 62. Ele me empres- tou. e quando eu ia visitá-lo. porque eu não entendi muito bem. uma espécie de consultoria filosófica. Imagi- nem. que é mais complicado. dileto dele. ao pessoal que estava envolvido com o Movimento de Educação de Base. porque. a conselho do Vaz. era a mulher dele que me recebia aflita e ia chamá-lo no quarto. mas não dei maior atenção. eu devolvi [risos]. Ele programava ir a Louvain. um golpe de Estado. publicado em 1959. um livro de lógica matemática – eu já tinha formação nessa área e. 2005 . que eu li naquela época. depois governo Arraes. eu só vim a me dar conta do saber enciclopédico e da vastidão do campo de interesses do Pe. era natural estudar algo parecido. a Édition Sociale. n.Janeiro. do Husserl. Ele me tratava como um aluno.

em 1978. diz um seu antigo assistente. E convidaram o Álvaro Vieira Pinto. On- tem. especialista em filosofia antiga. Eles monta- ram. Instituto Superior de Estudos Brasileiros. v. Aliás. chamado Consciência e realidade nacional. depois de procurar várias horas na minha casa. eu descobri o quarto número. Álvaro Vieira Pinto sabiamente havia encampado a teoria do reflexo da consciência. um apêndice do Ministério da Educação. Falava de pé. do governo Juscelino. 32. embora com restrições. marxista ocidental franco-uspiano. essa resenha do Vaz. 2005 11 . Curiosamente. que o Ênio Silveira relançou como. já como adulto. então. como diziam. sem tropeçar numa palavra. “a filosofia de que nós carecemos para que haja desenvolvimento”. E o texto do Vaz não era um artigo novo sobre o problema da filosofia no Brasil. essa formulação era dele também. que era um pacato professor. Para vocês terem uma idéia. E ele contém dois artigos sobre filosofia no Brasil: um é o do Gerd Bornheim e o outro é o do Pe. Vaz. Ora. encomendam para esse homem um livro sobre a filosofia do desenvolvimento nacional. por assim dizer. que ele era um professor extraordinário. o Instituto. cujo ministro era o Clóvis Salgado. Belo Horizonte. que era considerado um monumento pela esquerda nacionalista. mas não dava uma referência bibliográfica. n. que ficava no Rio de Janeiro. cristalização da resistência intelectual e política à ditadura. Nin- guém lia mais esse livro. uma Bíblia do início dos anos 60 até o golpe de 64. naciona- listas desenvolvimentistas (Hélio Jaguaribe) e alguns avulsos. então. dava cada aula com todas as citações necessárias. porque ele deu uma aula inaugural para Síntese. E o Pe. esse instituto aglutinou um zoológico inacreditável: ele era constituído por ex-integralistas (Roland Corbusier). o Prof. e o segundo com 600. de maneira profis- sional. algumas coisas. mas ele era uma referência. digamos. eu já era um uspiano de carteirinha. com atenção. com vários departamentos. que era um órgão oficial e ao mesmo tempo inteiramente heterodoxo. em 1978 (quando. o reflexo e assim por diante. para se fomentar os estudos para o desenvolvimento brasileiro. mas era a republicação da resenha que ele havia feito para a Revista Síntese do livro de Álvaro Vieira Pinto. o José Américo Mota Pessanha. 102. e precisava haver uma seção de filosofia. o primeiro com 400 páginas. alguns comunistas (Nelson Werneck Sodré). e cuja existência eu redescobri quando ela foi republicada. Vaz faz uma resenha desse livro. um professor como manda o figurino. intragável e pernóstico). Aliás. que eu reli ontem. Eu reli.dúvida. além de ser também acatado pela esquerda comunista. que foi publicada no quarto número da revista Encontros com a civilização brasileira. O livro foi publicado em 60 e em 62 o Pe. Era pro- fessor de Filosofia Antiga e Epistemologia. como se fizesse um dis- curso. que seria encarregada de fazer uma filosofia do desen- volvimento nacional à altura dos novos tempos do Juscelino. então. uma nota crítica notável abso- lutamente notável. Tinha dois tomos. Vaz publica uma resenha notável. Fundou-se então o ISEB. que eu li novamente. Álvaro Vieira Pinto era professor de Filosofia na Universidade Nacional. E a esquerda comunista fazia restrições mas acatava o livro porque o Prof.

Os Sertões é um livro genial. algo genial. temos de sair nos puxando pelos próprios cabelos. de fato. até anunciar uma teoria daquilo que interessava a todo mundo e que es- tava acontecendo naquele momento. ele provocava um efeito filosófico na gente (e olha que eu não li tudo. Citação é mania de colonizado. não há nenhuma referência bibliográfica. misturando geografias – pensando bem. em quase 1000 páginas. 102. digamos. ao mesmo tempo. E. a superação do subdesenvolvimento e a destruição daquela anti- nação que parasitava a nação. da tradição leninista: “não há revolução sem teoria revolucionária”. Ele chega a justificar. como ele dizia. Mas o livro está encharcado de Hegel. Sartre a mais não poder. e. que era um acontecimento histórico mundial. aliás. mas era legível). e o livro do Álvaro Vieira Pinto era. Ele era uma espécie de Policarpo Quaresma. e. o Álvaro Vieira Pinto produzia um efeito semelhante. “filosofia”. “doutrina”. A questão é que 12 Síntese. na Introdução. que tinha acabado de sair. mania metafísica de países decadentes do norte. isso parece ridículo. É evidente que ideologia. pensando bem. aí. fazendo a passagem do existencialismo para uma teoria da revolução. 2005 . racistas. mas ao mesmo tempo com conceitos cientificistas. seu português era um bom português. Heidegger de Ser e tempo. porque aquilo já era uma lenda: aqueles que se aventu- ravam a ler o comparavam com a Crítica da razão dialética. “conceito”. E se pensava que o Brasil precisava de uma filosofia que precipitasse a tomada de consciên- cia das massas colonizadas pelo subdesenvolvimento. porque o Brasil aparece ali. Marx. E. de modo que se produzisse uma ruptura instantânea com a condição subdesenvolvida. e a guerra de libertação da Argélia. E nada disso é mencionado. a queda da Bastilha. um monumento à insensatez filosófica. v. Mas. O problema é que as pessoas não liam. Dito dessa forma. com a diferença que ele não defende o tupi guarani – aliás. e assim por diante. Sartre ia da Revolução Francesa. n. mas uma boa parte. como era o caso da Revolução Cuba- na. era uma espé- cie de versão nacional de um teorema. se nós queremos sair do pân- tano. passando pela Revolução Russa. e por aí afora. por outro lado. quarenta anos depois. portanto. é uma maluquice.estrear essa cadeira de filosofia e a intitulou “A ideologia do desenvolvi- mento nacional”. 32. mas era algo muito mais sofisticado do que isso. quando ele formulou o clássico teorema daqueles tem- pos: “não haverá desenvolvimento nacional sem uma ideologia do desen- volvimento”. em 1960. significava simplesmente “teo- ria”. por que não há citações no livro. o Álvaro não escrevia mal – o livro era indigesto. Mutatis mutandis. o Álvaro Vieira Pinto comete vários disparates. embora não se trate de plágio (“plágio” seria uma noção mesquinha). do Sartre. Também é preciso dizer que “de- senvolvimento” aí não significava simplesmente desenvolvimento econô- mico. mas também é bestialógico: não dá pra entender como alguém consegue escrever o que está lá. Belo Horizonte. igualmente com 800 páginas. um efeito praticamen- te semelhante aos Sertões. No seu livro.

é uma substân- cia.ele tinha lido tudo. Em outras palavras. sem nenhuma nota dizendo que ele fora traduzido de uma língua estrangeira. e a relação entre sujeito e objeto faz com que ele não perceba a originalidade daquele seu mesmo objeto que era a idéia de nação. Não há nenhuma referência histórica. no livro. até chegar ao Absoluto que é a nação. eu não saberia que ele trata do Brasil. 32. logo se via que ele não tinha encontrado por conta própria a categoria de “estar-no-mundo” com hífen e tudo. Álvaro começa na consciência ingênua. E o Álvaro passa sutilmente. Por exem- plo. Mas era o Brasil com uma outra particula- ridade (e isso quem observa é o Vaz. enfim. de maneira muito respeitosa. 102. Essa consciência crítica provoca. ideologizada. chegando até a consciência crítica. aparece aqui como uma espécie de horizonte da “mundanidade” e era o Brasil. que é uma noção primitiva. entre outras coisas. reificada. aliás. 2005 13 . do “estar-no-mundo” para o “estar-na-nação”. embora numa crítica muito dura): não há a menor referência histórica no livro que permita saber tratar-se do Brasil. Ele vai ponto por ponto e mostra claramente como a relação entre consciência e realidade nacional não se enquadra na idéia de reflexo. que é a consciência colonizada. e ele faz uma resenha séria. E então o Padre Vaz começa a montar um outro paradigma para explicar essa confusão toda e relativizar a idéia de nação. que era uma categoria fenomenológica que tinha sido trabalhada pelo Heidegger a partir do Husserl. Aí o mundo. e ao mesmo tempo louco. com muito savoir faire. Isso tinha marca registrada em alemão. já era um lugar comum para qualquer profis- sional do ramo. portanto. Álvaro Vieira Pinto para pensar a nação era um paradigma inadequado porque ele tomava um paradigma das filosofias da consciência. em francês. Síntese. o Prof. A “rea- lidade nacional”. um absoluto. Imaginem o que é fazer uma resenha dessa salada de frutas filosófica. a nação. econômica. que permita dizer estar-se falando do Brasil e do subdesenvolvimento brasileiro. v. ele dizia que o paradigma usado pelo Prof. mas sem nenhuma ironia.. sem sentido: é como se ele fizesse uma fenomenologia à maneira hegeliana – uma fenomenologia do Espírito funcionando num país. dizendo que é um livro de envergadura. E. não era tão óbvio. é uma categoria. aliás com muita inteligência. sociológica. na resenha. n. a manifestação de uma verdade. Belo Horizonte. e isso ficava óbvio para quem era do métier. que é a consciência crítica da massa nacional. E é justamente desse livro que o Vaz faz uma resenha. cultural. que toma consciência revolucionária por meio do trabalho. É genial esse projeto. o Brasil. e se eu não soubesse que o livro foi escrito em português. idem. É um projeto completamente desatinado. Mas no Brasil não era bem assim. uma explosão.. e da condição de subdesenvolvimento. Se eu não soubesse que esse livro saiu do mesmo professor que lecionava no Largo da Carioca e pertencia ao ISEB. assim como a Fenomenologia do Espírito começa na consciência natural. e passa por uma seqüência de trans- formações. que é a nação. se eu não o conhecesse da Facul- dade Nacional do Rio de Janeiro.

anticapitalista. já naquele momento. que se pretendia não comunista. dois atores. mostrando como não há subjetividade em si mesma. Pelo contrário. ao contrário do projeto do Prof. portanto. com dois sujeitos. e nos textos do “Cristianismo e consciência histórica” ou “Consciência e história” volta e meia reaparece esse paradigma que hoje nós chamaríamos de “paradigma da comunicação”: é claro que o Vaz não fala de Habermas. basta a gente pensar que. A nação é uma formação histórica con- tingente. tem um antes e um depois. 2005 . Álvaro Vieira Pinto é a prova da sua autoria. Ele não cita o Kojève. de autêntica ou inautêntica. Esse era o núcleo do documento da Ação Popular e era óbvio que isso saía da mão do Vaz. quarenta ou cinqüenta anos depois. princi- palmente para os que simpatizavam com o marxismo. Essa militância se opunha abertamente ao antagonismo social brasilei- ro. Ele sempre negou. E ao falar disso. e assim por diante. e do Hegel lido pelo Kojève). e a relação entre os dois pólos só poderia ser subvertida se fosse alterada a mediação que os unia. pode- se relativizar o nacional se ele for entendido de outra maneira. quando eu li tudo isso no texto do Padre Vaz. sem ser marxistas. E ele cita perfeitamente a dialética do senhor e do escravo. democráti- co. era a mediação da socialização dos meios de produção. nos textos. e a mediação autêntica. A resenha do livro do Prof. v. ou seja. que foi também ao Kojève procurar inspiração. Ora. que eliminaria a relação de dominação entre os dois pólos (que eram pólos subjetivos. o Vaz expõe claramente sua teoria (e esse me parece o único momen- to do texto em que ele permite ver sua filiação. o nacional pode ser explicado historicamente. 102. e. na sua teoria. mas que a subjetividade é produzida pela relação intersubjetiva. mas a gente percebe que ele usa o mesmo esquema para desmontar o livro do Prof.que nunca pode ser absolutizada. Álvaro. Esses textos do Vaz foram realmente seminais naquele momento. mas socialista. não tem nada de estrambótico. Era um movimento. e na época nem se pensava nisso. não restava dúvida: a maioria dos militantes se mostrava de 14 Síntese. Os textos falavam de dois pólos: um dominante e um dominado. Belo Horizonte. comecei a localizar as fontes do documento-base da Ação Popular de fevereiro de 1963. e procuravam justificações teóricas contundentes para sua militância polí- tica. por isso. se nós quisermos). A inautêntica passava pela propriedade privada dos meios de produção. porque ele estava encharcado de Hegel. é esse tipo de filosofia que está na base da filosofia da globalização do Fukuyama. mas vocês vejam a perspicácia desse homem e o modo como ele ousava. Álvaro Vieira Pinto. 32. e tendo como foco a situação de subdesenvolvimento do Brasil. porque desde os primeiros documentos que começaram a circular em 62 havia uma espécie de filosofia básica desse novo movimento político chamado Ação Popular. Ora. E o Vaz dá lá o gérmen de uma filosofia da história que. que era uma teoria da luta das consciências pelo reconhecimento. mas era uma autoria inequívoca. que regulava o reco- nhecimento ou não entre eles. e essa mediação era material – chamada. n. pode ser explicada historicamente.

depois professor de filosofia tam- bém na USP. profissional. e não há dúvida de que isso era importante. só poderemos falar desses assuntos de maneira fundamentada se estivermos com as unhas afiadas pela crítica da razão. a existência de uma espiritualidade de alta intensidade. a no- vidade que seduzia nos textos do Vaz eram exatamente as relações que se estabeleciam entre filosofia. antes que ela funcione. pela cultura filosófica fran- cesa que estava implantada lá. Foi Hegel quem viu a revolução feita por Kant e percebeu que Kant. essa incursão do Padre Vaz na história brasileira dos anos 60. seria a filosofia que interessa às pessoas: a Ética. sobre as suas próprias condições de possibilidade e as condições de possibilidade do conhecimento verdadeiro: eu posso ou não enunciar juízos sintéticos a priori sobre coisas objetivas? Então. A filosofia cosmológica. inclusive de extrema-esquerda. mas nós ficávamos de costas para o Brasil. experimentada na pele. eu faço uma espécie de avaliação prévia da capacidade cognitiva do meu discurso sobre o mundo. no sentido estrito do termo. v. para a fase sentimental-reflexiva. política e aquilo que nós poderíamos chamar de transcendência ou mística. A grande novidade era essa. o seu assunto passava a ser ela mesma. a poesia passa da fase ingênua. Pois bem: em 65 voltei para a USP. Tomando a divisão do Schiller entre poesia sentimental e ingênua. hoje. dogmática. a Filosofia do Direito. portanto. mas não comunistas. a alma. 102. algum discurso sobre o mundo. principalmente para os membros da Ação Católica. Mas. era necessário tomar a partição kantiana clássica entre uma filosofia acadêmica e uma filosofia cosmológica ou uma filosofia que fala daquilo que interessa a todas as pessoas. a liberdade. E a filosofia refletiria. ou o que resta da filosofia para além da filosofia acadêmica. e fui colonizado. farei uma pequena digressão que irá me permitir justificar. Belo Horizonte. sem o que não se podia fazer filosofia universitária ou acadêmica competente. tornei-me aprendiz de filosofia. portanto. a maneira como eu compreendo. como era a dramática situ- ação de subdesenvolvimento brasileiro (a título de curiosidade. no final. o que representavam essas idéias do Vaz? Se vocês não se incomodam. Ora. o absoluto etc.esquerda. Analisadas a partir de hoje. a filosofia acadêmica (e esse nome não tem nada de pejorativo) era justamente a filosofia inaugurada pelo Kant. Deus. filosofia européia no Brasil. com a Crítica da razão pura: era uma filosofia que ia se profissionalizar porque ela se voltaria sobre si mesma. de certo modo. diz o Kant. no bom sentido. uma outra referência que começava a surgir naquele momento eram os primeiros escritos do Celso Furtado). havia ensimesmado a Síntese. antes de produzir algum conhecimento. O problema é que Kant só ficou nisso. isto é. Ora. por “missões” francesas. metafísica. isto é. que pensava filosófica e politicamente uma situação precisa. 2005 15 . E para que isso fosse possível. 32. Nós fazíamos. discurso esse que ainda não aconteceu. n. a Metafísica.

Mas basta de falar dele. sobre a realidade em geral. e relacionado com filosofia da ciência. e por aí afora. falando-se ainda da história. e disseram que. primeiro ale- mã. e nós estaríamos vivendo a era revolucionária. Tratava-se de sínteses. membros da famosa esquerda hegeliana. é a realidade que toma consciência de si mesma. então. 102. de “visões de 16 Síntese. se a gente pensa bem. do evolucionismo. sobretudo Comte. epistemologia. na segunda metade do século XIX. então. então. reflexão sobre a possibilidade da reflexão sobre a moral e os outros assuntos. depois francesa e assim por diante. quando Hegel fez isso. 32. um novo gênero que é o gênero da História da Filosofia. O resto que o Hegel havia juntado teve um outro destino: uma série de pequenos filósofos desse tempo hegeliano se havia extraviado para fora da universidade e deu origem ao que se chamava não pejorativamente. a partir de uma espécie de bricolage do material vindo da tradição filosófica moderna. O que interessa notar aqui é que foi a primeira metade da laranja kantiana que prosperou: tornou-se a filosofia universitária européia. foi isso que o Prof. então. o mundo tem que mudar. mas também discurso sobre o mundo – ao mesmo tempo em que se faz crítica. no Romantismo com a idéia de literatura absoluta: uma espécie de discurso intransitivo sobre ele mesmo. do inconsciente. e criou. 2005 . Hegel pretendeu. Spencer passa a ser uma Bíblia. as filosofias da vida. Darwin etc. isto é. juntar novamente as partes: ele julgava necessário haver crítica. porque no momento em que ela toma consciência de si mesma. do amor. de “filosofia popular”. da música. apareceram alguns outros “desmancha-prazeres”. negativa. uma pressuposição metafísica muito forte. para os acadêmicos. Ainda houve Comte. dizia a esquerda hegeliana. Não foi por acaso que ela se tornou Teoria do Conhecimento. muda-se. portanto. chegamos ao fim da filosofia. Acabou. embora ele seja um caso mais complicado. porque no Hegel se encontra uma lógica do mundo. Começam a aparecer. porque são fi- losofias lidas pela maioria das pessoas e porque falam de tudo. n. é o que passa a se entender por Filosofia. Esse conjunto. da existência. Também filosofias do tipo do positivismo. sobretudo. ao menos a partir de Descartes. uma parte crítica. Mas. dando. se Hegel tinha razão. da sociedade etc. Lógica. e. Semântica. mas essas filosofias macaqueavam aquele discurso absoluto num certo sentido. v. inclusive. ao mesmo tempo em que eu faço um discurso sobre o mundo e se esse discurso é o mundo. se eu junto novamente as duas partes. então. um Spencer etc. Abrindo um parêntese. Então. tem de adequar- se à sua verdade que eu enuncio filosoficamente. se apresenta também filosoficamente o mundo. se se toma cons- ciência. Eram filosofias que davam conta de tudo. Mas o que eram essas filosofias populares? Eram filosofias que macaque- avam a síntese hegeliana sem a tradição lógica do Hegel. Schopenhauer também.filosofia no estudo da sua movimentação prévia.. ao mesmo tempo em que tinha reminiscências críticas. a filosofia. Álvaro Vieira Pinto quis fazer. que se tornam pejorativamente populares. Belo Horizonte..

mundo”. o evolucionismo etc. e sobretudo dogmática e doutrinária. às várias versões do marxismo que tentavam dar conta de compreender aquele momento histórico.. o que interessava era uma explicação da sociedade. a filosofia universitária européia. populista. porque. um marxismo universitário. embora altamente qualificada. evolucionista. ou seja. Álvaro Vieira Pinto. v. o positivismo. Quando o althusserismo chegou aqui. pertinente que as pessoas que. para essa filosofia profissional em formação. era de mau gosto fazer filosofia da história: o que se podia fazer era identificar como nasceu esse gênero.) era positivista. filosofava sobre as coi- sas. ao passo que o que a filosofia universitária defendia é que se devia explicar os textos que permitiriam depois montar o jogo categorial que tornaria talvez possível um discurso sobre as coisas. Os comunistas. que fazia concessões. então. como se tornou impos- sível e como passou a ser criticado na França. portanto. ou então fanatismo doutrinário. 32. num certo sentido. as coisas continuavam acontecendo. Desse ponto de vista. estavam implicadas na enorme luta de transforma- ção social que estava se dando no Brasil se dirigissem. muito promíscua com o poder. n. era uma filosofia universitária. 2005 17 . Havia. os advogados etc. da luta de classes. O importante é Síntese. portanto. marxista. Essas filosofias populares eram. a história não parou. era uma vida de mau gosto. 102. afinal. simples- mente davam as costas para a filosofia profissional porque. Era. outra o marxismo soviético do Partido Comunista. a “filosofia da história”. Pretender elaborar uma filosofia da história. que. cujo modelo depois se espalhou pelo país inteiro. a reconciliação. e foram essas as filosofias que chegaram ao Brasil. ou o marxismo em geral. a revolução. com bolsas de estudo na Europa e assim por diante. os livros do Nelson Werneck Sodré. como se começou a dizer na Alemanha do século XIX. como evoluiu no século XIX. mas com- pletamente à margem do processo histórico que estava se dando no Brasil daquele momento. Entretanto. era nada. Belo Horizonte. entre os anos 60 e 64. o marxismo. naquele momento. portanto. a alienação e assim por diante. pouco rigorosa. esta era uma espécie de planta exótica trazida por uma missão de colonizadores espirituais france- ses. era ingenuidade aos olhos da filosofia profissional. Quanto à nossa filosofia “profissional”. quase por gravitação. na Inglaterra e assim por diante. A filosofia que a classe média lia (os médicos. feito no PCF (Partido Comunista Francês) por concessão da direção. esta mesma filosofia (que depois se tornou predominante no Brasil e que é a filosofia universitária européia) estava sendo feita no Departamento da Universidade de São Paulo de maneira muito provinciana em certo sentido. E a filosofia profissional não falava mais disso. no fim do século XVIII. para eles. e havia duas filosofias da história funcionando naquele período da vida brasileira: uma era o pensamento do Prof. por tropismo natural. na Alemanha. Ora. um pouco do Caio Prado etc. aqui- lo era uma brincadeira de mau gosto. por exemplo. à margem da vida nacional. por exemplo. o fim da história.

era populista. com rigor e tudo mais. v. embora fosse um partido leigo. mas isolados da vida nacional. com coisas vin- das da economia. mas não se podia ser “muito” de esquerda. o parêntese da vida política e se mantinha a vida mental de catador de formiga em texto. É evidente que o que sustentava tudo isso era uma longa tradição que remontava à Revolução de 17.que havia um arcabouço teórico que permitia compreender aquilo e con- tinuar a agir: havia uma regra de vida. escrito em gre- go e alemão etc. as referências estavam ali. como por exemplo. mag- nânima e democrática. E não se tratava de pouca coisa: um Jaguaribe não era de se desprezar. embora nós. principalmente no movimento estudantil. e era por pura concessão que ela não fazia frente ao PC. mas por tudo aquilo que o ISEB estava pro- duzindo naquele momento. E quem estava na militância. ligada ao Partido Comunista. de inspiração cristã. a decisão. Apesar disso. de nascença. porque se era de esquerda. a filosofia popular do ISEB continuava correndo mun- do. em 65. os livros do Celso Furtado. E o mundo? O mundo não interessava. Mas não é à toa que faltava esse terceiro elemen- to. precisávamos fazer “filosofia”. Vivia-se uma espécie de esquizofrenia. porque isso seria considerado populismo e por- que as posições do Partido Comunista e adjacências estavam comprome- tidas com esse populismo. um Werneck Sodré tampouco. que foi. as peças do Brecht. Dizia-se na USP que nós éramos os rigorosos. E de fato ganhou todos os que 18 Síntese. 32. e comprometidas promiscuamente com o poder janguista. que nós precisávamos civi- lizar o Brasil. desde os anos 50. n. isso tudo era rigoroso. e que o bom era ficar estudando os textos de Aristóteles. mas ganhava todas. como se dizia. ele provocou um pequeno terremoto intelectual e político. fora da filosofia do ISEB e fora do marxismo em geral. 102. tinha tudo isso como referência. Era a Ação Popular (AP). Essa filosofia popular filosofava sobre aquilo que interessava às pessoas. Era também a filosofia nacional do ISEB. 2005 . eram elas que imantavam a ação das pessoas. de Wittgenstein ou do Marx transcendental e desdentado que era o Marx epistemológico. Ele inchou em um ano. e. até que aparece essa grande novidade que foi o Vaz. mas ao mesmo tempo havia uma explicação geral do Brasil enxertada ali. para depois discutir o que é o sacrifício. na USP. fechava-se. a própria historiografia econômica do Caio Prado etc. nem um Roland Corbusier. os considerás- semos uns idiotas. composta não apenas pelo dispa- rate do Álvaro Vieira Pinto. ela ganha a UNE de braçadas. Quando entrei na USP. Um dos bastiões da luta política daquela época era a União Nacional dos Estudantes. a escolha. que era muito importante na- quela época. por mais equivocadas que essas coisas nos pareçam hoje (e já pareciam mesmo naquela época). ouvi dizer que eles eram idiotas natos. Mas. Não deixa de ser verdade que todos nós éramos de esquerda. Quando aparece a AP. Belo Horizonte. Quando ele aparece. E ele aparece como um terceiro elemento nessa história. e assim por diante. ela era generosa. uma ética – liam-se. então. Dito isso. por exemplo.

mas que estavam ligadas à reforma universitária. Isso era fantástico! Ele era. Ernani Maria Fiori. A essas três tradições que vigoravam no Brasil nos primeiros anos da década de 60 eu poderia acrescentar uma variante. Era o meu sogro. dos fundadores enfim. cristãs. Prof. Não posso falar aqui do Luís Alberto. mas talvez não o faça como se deve. mas estava por trás de um movimento social da maior importância. Isso durou um ano. No Padre Vaz. que vivia em Porto Alegre. Ele representava um grupo de pessoas que tinham mais ou mesmo a mesma formação escolar. era algo bem diferente dos nossos seminá- rios de Lógica. porque ninguém sabia dele: ele não falava em público. como fica claro no movimento estudantil. Era uma filoso- fia da história.. Mas nada disso importava. é uma comparação despropositada: o marxismo tinha dois séculos de história. Vaz estava lá. muito amigo do Vaz. Vaz foi um caso absolutamente sui generis de intelectual público mas absolutamente clandestino. Vocês imaginem uma pessoa enciclopédica como ele.. 2005 19 . tornou-se marxista e terminou num delírio maoísta selvagem (sel- vagem porque foi reprimida de maneira selvagem). sendo modesto (por razões pessoais. Epistemologia e História da Filosofia. v. O caso do Pe. mas não era isso que importava. E a discrição dele não se devia apenas à situação religiosa. É claro que não dá pra compará-lo com a tradição marxista. Ele aparece como uma terceira força. ou ainda outras que a gente não sabe) num país de megalômanos. funci- onando direitinho com as duas metades hegelianas e assim por diante. sozinho. mas absolutamente privado. portanto. acadêmica. um ano e meio. como o Vaz. Bem ao lado daquela do Prof. Belo Horizonte. aliás poderosíssima e persuasiva. não escrevia em jornal. Diziam que parecia uma adaptação de existencialismo misturado com marxismo. à greve de 1/3 de Síntese. E onde estava a inspiração? No Vaz. num trabalho completamente anônimo. enquanto o Pe. Outra coisa interessante de notar é que o Vaz pensava sozinho. à filiação à Companhia de Jesus. uma força política. e que estava na mesma direção dele. mas principalmente ao seu perfil psicológi- co. podia-se dizer que estava na antípoda daquela filosofia que estava sendo criada em estufa na USP (aliás. ou de marxismo es- trutural explicado mot à mot). porque sou suspeito para falar. e ao mesmo tempo dotada de uma doutrina que quase ninguém entendia direito. O que mais importava é que era algo diferente dos outros movimentos então em ação e era algo novo. um intelectual público. Aí ela mudou completa- mente. um filósofo público. O interessante é que esse ter- ceiro movimento aparece não repudiando os outros.esperavam uma coisa nova. E a filosofia da história do Vaz era feita como um gênero clássico. A idade de ouro foi de 1963 a março de 64.. 102. 32. dizendo que era fanatismo doutrinário ou não. Essa é uma coisa interessante de ser pensada. porque iria muito longe. Álvaro Vieira Pinto e daquela dos marxistas. Depois veio o golpe e ela passou para a clandestinidade. do Betinho. n. com referências nacionais etc. Podia-se gostar ou não.

So- cialismo é outra coisa. mas isso ninguém podia ser porque nós éramos os famosos filósofos profissionais. mas eu não vou me deter nisso. Na USP só restava a escolha pessoal. mas não tem nenhuma relação conosco. em sentido elementar. eram filósofos públicos. Aliás. Marx é uma filosofia da imanência. Mas havia um sistema de referências recíprocas entre essas vertentes. Enfim. diria o Vaz. 102. havia o acréscimo da inspiração do cristianismo que os outros movimentos não tinham. e. falta-lhe alguma coisa que eu considero essencial e posso exprimir filoso- ficamente. foram prolongamentos filosófi- cos de uma outra tradição que corria o Brasil naquele momento e que vinha de longe. assen- tados na melhor tradição acadêmica. do Mounier. e. percebia-se claramente nas alu- sões do Vaz uma perfeita compreensão do significado da União Soviética. O que estava se formando com todas essas tradições era uma grande tradição brasileira do intelectual público. Nós poderíamos chamar essa tradição de radical. 32. Se nós quisermos. sem a menor convicção. na AP. podemos dizer que essas duas tradições. Ora. portanto. um projeto de redenção da sociedade brasileira. n. por prudência filológica. Não havia antimarxismo. Nesse caso. e os nacionalistas mais exaltados até pareciam ter algo comum quando eles santificavam a nação. Ele deixava claro que aquilo não tinha nada que ver conosco. porque exigiria tempo demais. no caso das coisas que eu estou atribuindo de maneira um pouco extemporânea ao Vaz. derrapou num determinado momento. na acepção que foi dada pelo Antonio Candido a esse termo. não era de maneira nenhuma antimarxista.62. todos eram de esquerda. Belo Horizonte. por escolha pessoal. mas que deram um passo a mais do que a nossa timidez metodológica uspiana. Os comunistas se aparentavam um pouco. 2005 . de uma espécie de subversão da ordem mundial. E o Marx tampouco não tem nada que ver com a União Soviética. de vários autores – até os marxistas começaram a usá-la). evidentemente. no Vaz e assim por diante. todos iam pra cadeia. mas isso já era paródia. ao método Paulo Freire e ao movimento de educação de base. Porém. quer dizer. O resto não tinha nada em comum. nos impedia de dar. Tratava-se de uma tradição que tinha uma espécie de projeto (e “projeto” era uma outra palavra que aparecia muito naquela época e que de certa maneira vinha do existencialismo fran- cês. como é o caso da transcendência com as suas implicações (a noção de pessoa. consciência e assim por diante). A filosofia da história do Vaz. mas sem saber por quê. enfim. Essa contribuição periférica corria de certa maneira à margem de uma outra tradição de interpretação e de prática brasileira que era a tradição nacional-desenvolvimentista. Essa era outra novidade. a tradição 20 Síntese. a do marxismo em geral e a do socialismo cristão de Vaz. v. relacionando consciência histórica e cristianis- mo (algo que ele encontrava no âmago da percepção moderna da historicidade da consciência). com o fim do subdesenvolvimento e da condição colonial. a não ser que se fosse marxista de carteirinha. e não se podia ser filósofo de carteirinha em doutri- na nenhuma. aquelas três apresentações do mundo e da história tinham implicações práticas e políticas imediatas.

Foi. v. na verdade. Vaz naquele momento histórico. anos 90. então veio o Jânio. José Luís Fiori. digamos. projetos de reformas de base – reforma agrária. intelectual do Brasil e que foi estancado em 64. 32. 102. 2005 21 . nesse momento. o poder no Brasil. pois nesse artigo se fala justamente dessas três tradições: durante o século XX. A tradição nacional-desenvolvimentista estava desde 30. e finalmente incluir nesse desenvolvimento aqueles que eram seus protagonistas principais.radical nunca esteve no poder. a crise e assim por diante. que se fundou. de um lado. abrir radicalmente o caráter conservador do desenvolvimentismo brasileiro. sendo que um deles nunca esteve no poder. ninguém perderia nada nesse projeto desenvolvimentista. remuneraria os setores mais atrasados. três projetos nacionais disputaram a hegemonia. de outro. a rumi- nar isso. Para terminar. embora viesse desde muito antes. só se excluía a participação popular. Ora. urbana. e cheguei à conclusão de que era evidente esse enfrentamento democrático com o projeto desenvolvimentista. isto é. perfeitamente. se estava industrializando o país. nela cabiam. Foi então que o enfrentamento democrático ao qual estou me referindo começou a bater na porta para abrir. alavancado pelo Estado. novamente como doutrina de Estado. Foi o mesmo momento em que eu entrei na vida nacional. na década de 60. de certa maneira. fordismos periféricos e assim por diante. polí- tica. dizendo que eles eram o liberal-imperialismo). E ainda fui auxiliado pela leitura do artigo de um cunhado meu. Mas o que era de fato aquela tradição radical? Ela não se pautava de modo algum pelo modelo soviético. que acompanhou toda a República Velha e que voltou no fim dos anos 80. mas faz apenas uns dois ou três dias que eu comecei a pensar no assunto. planejadores de Estado (embora não tivesse um modelo de Estado como Celso Furtado). e. que o enfrentamento democrático com a tradição de desenvolvimento conservador e ao mesmo tempo modernizante do Brasil começou a aflorar novamente. sobre o pilar da impossibilidade de se mexer na propriedade fundiária (exigia que não se fizesse a reforma agrária). democratizar. Visava- se simplesmente. num tipo de industrialização que. afinal. cultural. enfrentava as cláusulas pétreas do projeto de desenvolvi- mento e industrialização nacional que vinha do primeiro e do segundo Vargas (que eram. afirmava-se que desenvolvi- mento não tinha nada que ver com democracia. liberal-imperialista (era assim que a gente se referia aos editoriais do jornal “O Estado de São Paulo”. é nessa tradição de enfrentamento democrático que eu vejo a atuação seminal do Pe. eu queria dizer o seguinte: é claro que o convite para esse depoimento foi marcado algum tempo atrás (há uns dois meses). como se dizia naquela época. Era o momento em que o projeto desenvolvimentista da era Juscelino estava subsidiando as importações e entrou no sufoco. mas na base de baixos salários. universitária e assim por diante). digamos. Síntese. que está publicado na Carta Capital e se chama “Adeus aos moedeiros falsos” (cuja leitura eu recomendo vivamente). Belo Horizonte. então. Ora. E havia ainda uma outra. n.

abertura. sob o guarda-chuva da primeira hegemonia americana do pós-guerra. se nós quisermos. n. e foi o que se poderia chamar de nacional-desenvolvimentismo e era essencialmente conservador. segundo o artigo do José Luís. sempre pressionou. na divisão internacional do trabalho estabelecida pelo centro cíclico hegemônico daquele momento (pax brithannica. depois pax americana). reformista. em parte por grandes funcionários públicos e grandes agentes estatais reformadores (como Celso Furtado no plano trienal do Jango e outros). mas vamos abrir as portas e entrar na sala de jantar”. 22 Síntese. e em parte por movimentos populares. v. foi um poder de Estado e exerceu o poder político efetivo no Brasil. as duas do ISEB e a da AP. e que consistia num ideal de integração harmoniosa da elite brasileira na divisão social. em parte pela concepção que tinham os comunistas (é preciso tirar o chapéu para alguns comunistas. 102. modernização – mas num outro sentido. porque o mercado interna- cional se fechou e a integração britânica ruiu. o Brasil se industrializou de maneira fechada tanto pelo Estado como pelas multinacionais que come- çaram a chegar aqui porque tinham mercado protegido. Isso quem diz sou eu. não é o José Luís. mas nunca esteve no poder. Esse. depois a partir do Juscelino. Era como se as classes subalternas dissessem: “Estamos aqui. por isso é que perdeu as últimas eleições1. e fora inclusive da propriedade. industrialização. monetarista. portanto. principalmente da propriedade fundiária. e sendo. e devastou o país em dez anos. O que o José Luís diz é que aquela tradição liberal imperial voltou num momento de crise do desenvolvimentismo conservador nos anos 90. que aparecem já na República Velha. Esse projeto esteve no poder durante toda a República Velha e foi apeado involuntariamente nos anos 30 pela crise e a guerra. Belo Horizonte. de internacionalização. o discurso que acompanha esse empuxe reformista radical é o discurso que eu enumerei aqui nas três vertentes. Depois. Isso se chama democracia. implicando protecionismo e assim por diante. que era fundamental. que fizeram começar espontaneamente uma indus- trialização incipiente. começan- do no Império. movimentos sindicais. e. numa espécie de desenvolvimentismo. quando Lula foi eleito presidente do Brasil. Ora.Um outro desses três esteve no poder durante um longo período. portanto. Mas também se esgotou. falando. podiam pagar salá- rios baixos etc. e era alimentada em parte pelo pensamento estrutural histórico. eles fizeram muito pelo Brasil). Até agora está- vamos na cozinha. Isso se deu a partir do se- gundo Getúlio. principalmente em momentos de crise. fim da era imperial. Essa tradição. 2005 . enfim. está aí. além de encontrarem os cidadãos assalariados fora do poder político. enfim.. portanto. fiscalista. Foi um atalho que as elites se viram obrigadas a fazer. A outra tradição que de vez em quando tangenciava a tradição desenvolvimentista conservadora era a tradição que eu agora estou cha- mando de radical. e assim por diante. 32. globalização. O que se vê agora é que está de volta aquela tradição radical 1 Paulo Arantes se refere às eleições de 2002.

de presidente do Banco Central e coisas assim. pelo que ele foi e pelo que fez na minha juventude. eu possa testemunhar e ajudar o triunfo daquela tradição radical no Brasil. se nós quisermos. justiça. ele deslocou o debate essa semana. isto é. A questão é: como uma filosofia da história poderia se formular agora no Brasil? Se ela for bem formulada e vier. a maioria com inspiração místico-profética. fim da humilhação. alguma coisa nova está acontecendo. E se a gente pensar. A gente pode ver que o presidente eleito não fala de economia. É um mo- mento em que a tradição derrotada de 64 novamente entra em cena. não mais o da produção. E ela será moderníssima. o que seria esse novo discurso filosófico completo que pudesse apresentar categorialmente (fazer aquilo que os ale- mães chamam de Darstellung. Queiramos ou não isso é um fato. de certa maneira no Brasil. entrando na terceira idade. que. Pode ser que agora. Dito de outro modo. v. Vaz poderia pensar e fazer agora? Eu falo como marxista. Então. n. E eu me pergunto.reformista. politicamente. igualdade. em tudo o que está acontecendo no terremoto social das últimas eleições. então. Belo Horizonte. Vaz para pensar e construir o momento atual do Brasil (e que seria muitíssimo bem-vindo) seria uma teoria da luta pelo reconhecimento. embora eu não esteja aqui para falar do meu clube. evidentemente. é algo muito especial fazer a evocação do Vaz nesse momento. já está aí. E é claro que eu olho tudo isso como marxista. 102. em certo sentido. como ela será? E enquanto mar- xista não é isso que eu penso. E essa teoria vai renascer também dos movimentos sociais – os movimentos sociais estão encharcados de filosofias da história implícitas. mas eu acho que a contribuição que um discurso inspirado na obra do Pe. porque o seu paradigma é o da comunicação. Eu estou aqui para falar do meu primeiro clube. E essa terceira abordagem. O problema agora é a fome. mas é uma incorporação em que se muda o condutor do processo. 32. como marxista. como pessoa. Mudou. Não sabemos no que vai dar. “apresentação”) o processo cujas comportas estão sendo abertas. e tenho uma dívida de gratidão eterna com o Padre Vaz. implicitamente. A mesma tradição está de volta. mas não se trata simplesmente de um predomínio das classes subalternas. que eu recordo com emoção. foi o momento mais feliz da minha vida. agora. embora metade dos marxistas esteja cega. da regulação moral dos conflitos sociais. Deslocou-se o foco. 2005 23 . Isso é democracia. Ele não fica falando de mercado. o que uma pessoa que se inspira no pensamento do Pe. Não é igual. mas não é desse clube que eu vim falar aqui. O que é isso senão a idéia de formação do sujeito por meio da idéia de reconhecimento? Eu acho que esse é um enorme terreno a ser elaborado. digamos assim. que foi decapitada em 64. Isso é uma analogia histórica. portanto. não é isso mesmo que está ocorrendo? O que as pessoas esperam do líder popular que foi eleito? Solidariedade. com todos os ingredientes que eu enumerei. Para mim. fim do desprezo. E Síntese.

Mas por quê? Porque. mas passar adiante. a reconstrução nacional que se avizinha vai suscitar um novo tipo de referência. é um outro país agora. 2005 . v. Mas também voltam aquelas três vertentes radicais de que nós falamos. com o fiasco e a tragédia social que foi a hegemonia daquela tendência liberal-imperial. Isso vai suscitar. Belo Horizonte. n. Obrigado. e precisa ser reconstruído. É. nessas circunstâncias. novamente. de pensamento sobre o Brasil como nós nunca vimos. A primeira tarefa será reverenciar os clássicos da tradição crítica brasileira. Endereço do Autor: Departamento de Filosofia da USP Av. de década perdida em década perdida. Prof. portanto. 102. 32. Luciano Gualberto. que eu evoco com enorme prazer e muita saudade o Padre Vaz. 315 . nessa convergência histórica sobre a qual eu nunca pensei antes (foi nesses últimos três dias que eu me pus a pensar sobre o Vaz e vi a relação que ele tem com o que se passou no Brasil nos últimos meses). um ciclo de interpretações sobre o Brasil. de tra- gédia em tragédia. porque o Brasil.Sala 1005 05508-900 São Paulo — SP 24 Síntese.a referência nacional do tipo de uma filosofia nacionalista pode voltar também.