Samizdat 5

junho de 2008
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho
Obra Licenciada pela Atribuição-Uso NãoComercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público ou royalty free. As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira responsabilidades de seus autores ou tradutores.

Autores Alian Moroz Carlos Alberto Barros Denis da Cruz Giselle Natsu Sato Henry Alfred Bugalho José Espírito Santo Marcia Szajnbok Pedro Faria Volmar Camargo Junior

Editorial
A edição especial de Ficção Científica representou uma ruptura na estruturação da Revista SAMIZDAT. Autores e leitores legitimaram a qualidade da revista, ao autorizarem a publicação de seus textos e com a repercussão que a edição obteve. A SAMIZDAT de junho significa também uma nova etapa por três razões: - um layout reelaborado para tornar a revista mais atraente e mais organizada; - a partitipação de dois artistas, Alessandro Andreuccetti e Sven Geier, que nos permitiram publicar seus trabalhos e enriquecer ainda mais a diversidade da revista. - por fim, a presença de dois autores da mais recente safra de escritores latinoamericanos, Florencia Abatte e Slavko Zupcic, que concordaram com a tradução de seus contos. E, obviamente, o grande segredo da SAMIZDAT são os colaboradores fixos, sem os quais este projeto jamais poderia ter se concretizado.

Autores Convidados Erik Kurkowski Weber

Textos de: Florencia Abbate Olavo Bilac Simões Lopes Neto Slavko Zupic

Imagem da capa:
http://www.flickr.com/photos/mazintosh/2104768410/

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Henry Alfred Bugalho

Sumário
Por que Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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RECOMENDAÇÕES DE LEITURA O Episódio Humano na prosa em verso de Cecília Meireles
Marcia Szajnbok

8 10

Um Palhaço no palco da Alemanha devastada
Henry Alfred Bugalho

AUTORES EM LÍNGUA PORTUGUESA Os Cabelos da China
Simões Lopes Neto

12 27

Poemas - seleta
Olavo Bilac

CONTOS Obra do Diabo
Henry Alfred Bugalho

29 32 41 45

O Caso Jersey
Volmar Camargo Junior

Luz e Sombras
Denis da Cruz

Terra Estranha
José Espírito Santo

A Caminhada
Pedro Faria

47 49 51

Entrevista com o Coveiro
Alian Moroz

Herança Maldita
Giselle Natsu Sato

TRADUÇÃO Unicórnio Perdido em Janeiro
Slavko Zupcic

54 56

Pecado e Tentação
Florencia Abbate

AUTOR CONVIDADO Três Incisões no meu Dia
Erik Kurkowski Weber

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TEORIA LITERÁRIA Literatura: Arte ou Comércio?
Henry Alfred Bugalho

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MICROCONTOS
Carlos Alberto Barros Denis da Cruz José Espírito Santo Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho

64 65 65 66 66

CRÔNICAS Fábulas Brasileiras
Carlos Alberto Barros

67 68

Paradise, my ass!
Henry Alfred Bugalho

POESIA Palavras Poéticas
Carlos Alberto Barros

70 71 72 74

Cordel Póstumo dum Bulinador
Carlos Alberto Barros

Laboratório Póetico II
Volmar Camargo Junior

Anjos
Marcia Szajnbok

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT LINKS DESTA EDIÇÃO

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SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista. Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários. Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Resenha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convidado. Escreva-nos para: revistasamizdat@hotmail.com

SAMIZDAT 5 - junho 2008

Por que Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Inclusão e Exclusão

não queriam, ou não conseguiram, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a Nas relações humanas, sempre há informação, a voz do povo -, encontraram uma dinâmica de inclusão e exclusão. na autopublicação clandestina um meio de expressão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma Datilografando, mimeografando, excluir ou ignorar tudo aquilo que não ou simplesmente manuscrevendo, tais pertença a seu projeto, ou que esteja autores russos disseminavam suas contra seus princípios. idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo Em regimes autoritários, esta tais obras e também as passando exclusão é muito evidente, sob forma de adiante. Este processo foi designado perseguição, censura, exílio. Qualquer "samizdat", que nada mais significa do um que se interponha no caminho dos que "autopublicado", em oposição às dirigentes é afastado e ostracizado. publicações oficiais do regime soviético. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprirmir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livres-pensadores, que 6

E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades

www.samizdat-pt.blogspot.com modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra E a autopublicação, como em qualquer melhor, a rede de contatos que, se não é regime excludente, torna-se a via para tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor produtores culturais atingirem o público. da obra que lê. Não há sucesso, não há grandes tiragens que substitua o prazer Este é um processo solitário e de ouvir o respaldo de leitores sinceros, gradativo. O autor precisa conquistar que não estão atrás de grandes autores leitor a leitor. Não há grandes aparatos populares, que não perseguem ansiosos midiáticos - como TV, revistas, jornais os 10 mais vendidos. onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a Os autores que compõem este projeto obra causa no leitor. não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, Enquanto que este é um trabalho pós-modernistas, vanguardistas ou difícil, por outro lado, concede ao criador qualquer outra definição que vise rotular uma liberdade e uma autonomia total: ele e definir a orientação dum grupo. São é dono de sua palavra, é o responsável apenas escritores interessados em trocar pelo que diz, o culpado por seus erros, é experiências e sofisticarem suas escritas. quem recebe os louros por seus acertos. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A Enfim, “Samizdat” porque a internet repercussão do que escreve (quando há) é um meio de autopublicação, mas surge em questão de minutos. “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de Ao serem obrigados a burlarem a atingir o objetivo fundamental da escrita: indústria cultural, os autores conquistaram ser lido por alguém. algo que jamais conseguiriam de outro na hora de ser absorvido pelo mercado.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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SAMIZDAT 5 - junho 2008

Recomendações de Leitura

O Episódio Humano
na prosa em verso de Cecília Meireles
Marcia Szajnbok “Parece que estive desejando alguma coisa longamente... O quê? E estou desejando ainda... – um pouco de sol sobre a minha vida, qualquer coisa luminosa, qualquer coisa... Ai de mim. Não sei mais.” Foi pelos versos de uma edição ilustrada de Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles, que descobri o universo da poesia. Tinha, então, nove ou dez anos. Depois, ao longo da adolescência, viajei horas a fio a bordo de sua Poesia Completa, numa edição em papel bíblia da Nova Aguillar, que ficava permanentemente em minha mesinha de cabeceira. Que Cecília Meireles também escrevia prosa, só vim a descobrir já adulta, lendo algumas de suas crônicas publicadas pela Nova Fronteira. Impressionante sua capacidade de transitar entre estilos e temas os mais diversos, mantendo sempre coerente a qualidade impecável dos textos. Impressionante também o volume de sua obra que, à medida que o tempo passa, e os problemas relativos aos direitos autorais de seus herdeiros vão sendo resolvidos ou contornados, revela-se cada vez maior. Fruto desse desembaraço jurídico que pôs nas mãos de Alexandre Carlos Teixeira e Ricardo Strang, netos da autora, a decisão por maioria quanto ao destino de seu acervo, é a publicação de Episódio Humano, pela Desiderata em 2007. 8

Episódio Humano traz uma coleção de textos escritos e publicados em O Jornal, entre 1929 e 1930, no Rio de Janeiro. Esse material inédito em livro, já organizado e apresentado pela própria Cecília Meireles, estava guardado na biblioteca do casarão onde morou, no bairro do Cosme Velho. O editor nos apresenta a obra como um conjunto de crônicas. Mas, quem debruçar-se na leitura deste livro a espera de textos que tragam uma reflexão sobre aspectos do cotidiano carioca dos anos 30 vai surpreender-se radicalmente. Cecília Meireles nos traz crônicas de seu mundo interno. “Nelas está minha vida, em toda a sua pureza, numa fase amargurada de construção. (...) Hoje, eu apenas falaria, talvez, com menos

www.samizdat-pt.blogspot.com palavras. Mas é porque na verdade, já foi usada a minha voz. Naquele tempo, ela acordava com espanto: como o grito dos feridos recentes”. É assim que a autora nos convida a percorrer textos onde transbordam emoção, reflexões sobre o amor, a vida e a morte, a dor, a existência. Não é um livro para ser devorado. Antes, um desses volumes para se trazer junto de si e, de quando em quando, abrir para degustar algumas páginas. Há frases primorosas, que nos fazem orgulhosos deste nosso idioma tão cheio de potencialidades estilísticas. Há apreensões sutis e precisas de aspectos do humano, que pareceriam banais a olhos menos aguçados. Há, enfim, um retrato, ou uma radiografia, da alma de uma mulher em contato permanente com a substância viva que a constitui. Uma leitura para se fazer sozinho, no silêncio, permitindo que a alma se identifique com as palavras de cada página. Um livro para se namorar.
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade. (...) Minha infância de menina sozinha deume duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano." Cecíclia Meireles

Episódio Humano
Cecília Meireles Editora: Desiderata Ano: 2007 Edição: 1 Número de páginas: 176 ISBN 978-8599070-52-9

Fonte:
http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp

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Recomendações de Leitura

no palco da Alemanha devastada
Henry Alfred Bugalho Por causa dos delírios de grandeza dum ditador, a Alemanha nazista declarou guerra ao mundo. A maior potência bélica de sua época desafiou as duas grandes nações de outrora, a Inglaterra e França, decidida a controlar os rumos - políticos e ideológicos - do mundo Ocidental. Como bem sabemos, a Alemanha 10

Um palhaço

fracassou, e o país e seus habitantes pagaram um alto preço. Tal qual a punição ao herói trágico por sua hybris (desmedida), a Alemanha foi invadida, devastada, execrada globalmente, estigma que, de certo modo, o povo germano traz até hoje: uma imagem extremamente associada às sandices megalomaníacas de Hitler. É interessante e curioso analisarmos o clima de histeria coletiva que dominou o povo alemão, a ponto de grandes intelectuais e artistas - Heidegger e Richard Strauss são dois exemplos - fecharem os

www.samizdat-pt.blogspot.com olhos para as atrocidades e se curvarem como palhaço; e os vários desencontros ao Estado Nazista. Alguns deles logo se ideológicos e dogmáticos existente entre desvincularam, reconheceram seus erros, ele e a namorada. foram exilados ou se exilaram, outros foram consumidos pela loucura histórica. No fundo, Hans ainda anseia por reconstruir sua vida, mesmo que Marie A biografia do romancista Heinrich Böll já esteja nos braços de outro homem, do nos conta que ele havia nascido numa mesmo modo que a Alemanha também família católica e contrária à ideologia ansiava por um futuro melhor. nazista. Diferente de vários meninos e jovens de seu tempo, ele conseguiu Apesar do intervalo de 15 anos entre escapar das malhas da Juventude o fim da guerra e a redação do romance, Hitlerista, mas, quando a guerra estourou, “O Palhaço” ainda lida com as chagas não houve como fugir do alistamento. Böll abertas da devastação e dos conflitos chegou a ser prisioneiro de guerra, quando morais. A geração de Heinrich Böll era da invasão americana em Colônia, onde atormentada pelos fantasmas do passado, o autor nasceu e viveu. Por sua postura e a popularidade do autor ainda hoje na crítica, Heinrich Böll foi premiado com o Alemanha, é uma prova de que estes Nobel de Literatura em 1972. demônios não foram completamente As memórias das atrocidades de guerra, duma infância turbulenta - sem entendimento sobre as grandes mudanças sociais que a guerra traria -, e o peso dum mundo pós-guerra estão presentes na obra “O Palhaço” (Ansichten eines Clowns, 1963). O protagonista, Hans Schnier, é um artista em decadência. Antes, um grande mímico, ele teve a vida arruinada pelo rompimento com a namorada, Marie Derkum, e pela bebida. No cerne do desentendimento, há uma profunda cisão religiosa. Marie se aproxima do catolicismo e dum profundo dilema imposto pelos dogmas católicos a condenação do concubinato -, enquanto Hans, agnóstico declarado, defende a manutenção do relacionamento estável entre ele e Marie, sem a necessidade de casamento. O romance transita entre estes dois limiares: as recordações de Hans de sua infância e dos tempos de glória 11 exorcizados.

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Autores em Língua Portuguesa

OS CABELOS DA CHINA

Simões Lopes Neto — Vancê sabe que eu tive e me servi muito tempo dum buçalete e cabresto feitos de cabelo de mulher?…Verdade que fui inocente no caso. Mais tarde soube que a dona dele morreu; soube, galopeei até onde ela estava sendo velada; acompanhei o enterro... e quando botaram a defunta na cova, então atirei lá pra dentro aquelas peças, feitas do cabelo dela, cortado quando ela era moça e tafulona… Tirei um peso de cima do peito: entreguei à criatura o que Deus lhe tinha dado. Eu conto como foi. Quem me ensinou a courear uma égua, a preceito, estaquear o couro, cortar, lonquear, amaciar de mordaça, o quanto, quanto...; e depois tirar os tentos, desde os mais largos até os fininhos, como cerda de porco, e menos, quem me ensinou 12

www.samizdat-pt.blogspot.com a trançar, foi um tal Juca Picumã, um chiru já madurázio, e que tinha mãos de anjo para trabalhos de guasqueiro, desde fazer um sovéu campeiro até o mais fino preparo para um recau de luxo, mestraço, que era, em armar qualquer roseta, bombas, botões e tranças de mil feitios. Este índio Juca era homem de passar uma noite inteira comendo carne e mateando, contanto que estivesse acoc’rado em cima quase dos tições, curtindo-se na fumaça quente... Era até por causa desta catinga que chamavam-lhe — picumã. Pra mais nada prestava; andava sempre esmolambado, com uns caraminguás mui tristes; e nem se lavava, o desgraçado, pois tinha cascão grosso no cogote. Comia como um chimarrão, dormia como um lagarto; valente como quê... e ginete, então, nem se fala!... Para montar, isso sim!…, fosse potro cru ou qualquer aporreado, caborteiro ou velhaco — o diabo, que fosse! —, ele enfrenava e bancava-se em cima, quieto como vancê ou eu, sentados num toco de pau!... Podia o bagual esconder a cabeça, berrar, despedaçar-se em corcovos, que o chiru velho batia o isqueiro e acendia o pito, como qualquer dona acende a candeia em cima da mesa! Às vezes o ventana era traiçoeiro e lá se vinha de lombo, boleando-se, ou acontecia planchar-se: o coronilha escorregava como um gato e mal que o sotreta batia a alcatra na terra ingrata, já lhe chovia entre as orelhas o rabo-de-tatu, que era uma temeridade!... Voltear o caboclo, isto é que não! E bastante dinheiro ganhava; mas sempre despilchado, pobre como rato de igreja. Um dia perguntei-lhe o que é que este fazia das balastracas e bolivianos, e meiasdoblas e até onças de ouro, que ganhava?... Esteve muito tempo me olhando e depois respondeu, todo num prazer, como se tivesse um pedaço do céu encravado dentro do coração: — Mando pra Rosa… tudo! E é pouco, ainda! — Que Rosa é essa? — É a minha filha! Linda como os amores! Mas não é pra o bico de qualquer 13

SAMIZDAT 5 - junho 2008 lombo-sujo, como eu... A conversa ficou por aí. Passaram os anos. Eu já tinha o meu bigodinho. Rebentou a guerra dos Farrapos; eu me apresentei, de minha vontade; e com quem vou topar, de companheiro? Com o Juca Picumã. Duma feita andávamos tocados de perto pelos caramurus... Tínhamos saído em piquete de descoberta e aconteceu que depois de vararmos um passo, os legalistas nos cortaram a retirada e vieram nos apertando sobre outra força companheira, como para comer-nos entre duas queixadas... E não nos davam alce; mal boleávamos a perna para churrasquear um pedaço de carne e já os bichos nos caíam em cima... Na guerra a gente às vezes se vê nestas embretadas, mesmo sendo o mais forte, como éramos nós, que bem podíamos até correr a pelego aqueles camelos…, mas são cousas que os chefes é que sabem e mandam que se as agüente, porque é serviço... Ora bem; havia já dois dias e duas noites que vivíamos neste apuro; arrinconados nalgum campestre dava-se um verdeio aos cavalos; os homens cochilavam em pé; nisto um bombeiro assobiava, outro respondia e o capitão, em voz baixa e rápida, mandava: — Monta, gente! E o Juca Picumã, que era o vaqueano, tomava a ponta e metia-nos por aquela enredada de galhos e cipós e lá íamos, mato dentro, roçando nos paus, afastando os espinhos e batendo a mosquitada, que nos carneava... Ninguém falava. A rapaziada era de dar e tomar, e —sem desfazer em vancê, que está presente —, eu era do fandango… e devo dizer, que nesse tempo, fui mondongo meio duro de pelar... Dessa vereda o vaqueano foi pendendo para a esquerda; de repente batemos na barranca do arroio, e ele, sem dizer palavra meteu n’água o cavalo e, devagarzinho, fomos encordoando de trás e varando, de bolapé.

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www.samizdat-pt.blogspot.com Seguimos um pedaço, sempre sobre a esquerda, e mui adiante tornamos a varar o arroio para o lado que tínhamos deixado. Tínhamos feito uma marcha em roda, que íamos agora fechar saindo na retaguarda do acampamento dos legalistas. Num campestrezinho paramos; o capitão mandou apear rédea na mão, tudo pronto ao primeiro grito. Depois acolherou-se com o Juca Picumã e meteram-se no mato e aí boquejaram um tempão. Depois voltaram. Então o capitão correu os olhos pelos rapazes e disse: — Preciso de um, que toque viola... Mas o Picumã xeretou logo: — Tem aí esse pisa-flores, o furriel Blau... — Esse gurizote?… — Sim, senhor, esse; é cruza de calombo!... E deu de rédea, com cara de sono. O capitão acompanhou-o, mandando que eu seguisse; e eu segui-o, quente de raiva, pelo pouco caso com que ele chamou-me —gurizote —. Se não fosse pelas divisas, eu dava-lhe o —gurizote!… Fomos andando... parando... farejando... escutando... Em certa altura o Picumã, sem se voltar levantou o braço, de mão aberta e parou. O capitão parou, e eu. O chiru disse, baixo: — Está perto… ali!... E o churrasco é gordo!… E levantava e mexia o nariz, tal e qual como um cachorro, rastreando... E apeamos. — Vamos botar um torniquete nos cavalos, para não relincharem… Fizemos, com o fiel do rebenque. — Tiramos as esporas, por causa dalguma enrediça... Tiramos. 15

SAMIZDAT 5 - junho 2008 — Bom; agora o capitão diz como há de ser o serviço… O oficial encruzou os braços e assim esteve um pedaço, alinhavando a idéia; depois, como falando mais pra mim do que pra o outro, disse: — Olha, furriel Blau, tu e o velho Picumã ides jogar o pelego numa arriscada... Ele que te escolheu pra companheiro é porque sabe que és homem... Há dois dias, como sabes, andamos nestes matos..., mas não é tanto pelo serviço militar, é mais por um vareio que quero dar... por minha conta... Ouve. A minha china fugiu-me, seduzida pelo comandante desta força... Vocês vão-se apresentar a ele, como desertados e que se querem passar... Ele é um espalha-brasas; ela é dançarina..., arranja jeito de rufar numa viola e abre o peito numas cantigas... Tendo farra estão eles como querem... E enquanto estiverem descuidados, eu caio-lhes em cima com a nossa gente. Agora... quando fechar o entrevero só quero que tu te botes ao comandante… e que lhe passes os maneadores... quero-o amarrado...; entendes? És capaz?… O Picumã ajuda... O resto… depois... — Mas... não é pra defuntear o homem... amarrado?... — Não! Acoquiná-lo, só... — A tal piguancha, também… não é pra... lonquear?... — Não! Desfeiteá-la, só... — Então, vou. Mas quem fala é o Picumã...; eu, nem mentindo digo que sou desertor... — Estás te fazendo muito de manto de seda!... Cuidado!... — Seu capitão é oficial… nada pega...; eu sou um pobre soldado que qualquer pode mandar jungir nas estacas... Aí o Picumã meteu a colher. — Seu capitão, o mocito não é sonso, não! Deixe estar, patrãozinho, tudo é comigo... vancê só tem é que atar o gagino.. Depois os dois se abriram e ainda estiveram de cochicho, rematando as suas tramas. O capitão montou. — Bueno!... Vejam o que fazem; eu vou buscar a gente, e, conforme chegar, carrego. Vocês devem-se arrinconar junto da carreta, para eu saber. Blau!... não 16

www.samizdat-pt.blogspot.com cochiles: o ruivo não é trigo limpo!... E desandou por entre as árvores. Quando não se ouviu mais nada o chiru convidou. — Vamos: nos apresentamos como passados, que já andamos entocados aqui há uns quantos dias. Deixe estar, que eu falo… estes caramurus são uns bolas... Vai ver como passamos o buçal.. . logo nos aceitam! Vamos! Ah! meta dentro da camisa uma cana de rédea... é para a maneia do homem... Os companheiros depois nos levam os mancarrões, a cabresto. E metemos a cabeça no mato, ele adiante, a rumo do cheiro, dizia. Andamos mais de seis quadras; nisto, o chiru pego a cantar umas copias, devagar, meio baixo, como quem anda muito descansado, de propósito para ir chamando o ouvido de algum bombeiro, se houvesse... Ora… dito e feito! Com duas quadras mais, um vulto junto duma caneleira morruda, gritou, no sombreado das ramas: — Quem vem lá! — É de paz! — Alto! Quem é? — É gente pra força, patrício! Andamos campeando vocês desde já hoje... — Há! Pra quê? — Ora, pra quê... Pra escaramuçar os farrapos!... E queremos jurar bandeira com o ruivo... — Ah! vancês conhecem o comandante? — Ora... ora! Mangangá de ferrão brabo! Ora, se conheço... Então, seguimos?... — Passem. Vão por aqui… até topar um sangradouro...; aí tem outra sentinela; diga que falou comigo, o Marcos... — ‘Tá bom... Quando render, vá tomar um mate comigo!... 17

SAMIZDAT 5 - junho 2008 Fomos andando, até a sanga dita; aí topamos com a outra sentinela; o chiru nem esperou o grito, ele é que falou, ainda longe; — Oh... sentinela! — Quem vem lá?... — Foi o Marcos que nos mandou; andávamos extraviados... ele nos conhece... vamos levar um aviso ao comandante... É dos farrapos que andavam ontem por aqui... foram corridos... — Hã! Pois passem... — Sim... Pois é... foram-se à ramada do Guedes... Com um couro na cola, os trompetas!... Tem ai cavalhada de refresco? — Que nada! A reiunada está estransilhada... A gente a custo se mexia... E pra mal dos pecados ainda o comandante traz uma china milongueira, numa carreta toldada, que só serve pra atrapalhar a marcha... A china é lindaça... mas é o mesmo. .. sempre é um estorvo!... Aqui o Picumã se acoc’rou, tirou uma ponta de trás da orelha e pediu-me: — Dá cá os avios, parceiro... E bateu fogo. Reparei que a respiração do chiru estava a modo entupida... Mas pegou outra vez: — Ë... o Marcos disse-me que o comandante é mui rufião... — Ë mesmo; mal empregada, a cabocla; qualquer dia ele mete-lhe os pés… é o costume... Ora!... — É... assim, é pena... Vamos, parceiro. Até logo. Como é a sua graça? — João Antônio, seu criado... E a sua, inda que mal pergunte? — Juca, patrício... Juca no mais... Quando render, espero a sua pessoa para um amargo!...

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www.samizdat-pt.blogspot.com — ‘Stá feito!... Vá em paz!... E outra vez nos mexemos, agora sobre o acampamento dos legais. Começamos a ouvir o falaraz dos homens, assobios, risadas, picamento de lenha, uma rusga de cachorros. Mais umas braças. Chegamos. No meio do campestre uma fogueira grande, rodeada de espetos onde o churrasco chiava, pingando o fartum da gordura; nas brasas, umas quantas chocolateiras, fervendo; armas dependuradas, botas secando, japonas abertas, e ponchos, nos galhos. Deitados nos pelegos, nas caronas, muitos soldados ressonavam; outros, em mangas de camisa, pitavam, mateavam. Do lado da sombra uma carreta toldada. Num fueiro, pendurado, um porongo morrudo, tapado com um sabugo; vestidos de mulher, arejando, diziam logo o que aquilo era. Pertinho, outro fogão, também com churrasco, uma chaleira aquentando e uma panela cozinhando algum fervido... Uma fumaça mui azul, cerrava tudo, alastrando-se na calmaria da ressolana. Dois cavalos à soga, e um outro, bem aperado, maneado, pastando. Mal que desembocamos do mato vimos tudo… e tudo com jeito de acampamento relaxado. O chiru foi andando como cancheiro, e eu, na cola dele. Nisto um sujeito, deitado nos arreios, gritou-nos: — Che! Aspa-torta! Então isto aqui é quartel de farrapos?… não se dá satisfações a ninguém?... — Foi o Marcos, que nos mandou... — Que Marcos? — O Marcos, que está de sentinela… e o João Antônio... sim, senhor, para falar com o comandante... : — Isso é outro caso… O comandante está sesteando... Se quiserem, esperem 19

SAMIZDAT 5 - junho 2008 ali, junto da caneta. Já comeram? — Já, sim senhor. — Pois então!... Vão! E apontou. Arrolhamo-nos na sombra da carreta, junto da roda, encostando a cabeça na maça. Eu estava como em cima de brasas… não era pra menos... Cuna!... Se descobrissem, nos carneavam, vivos!... O Picumã cochi1ava... mas estava alerta, porque às vezes eu bem via fuzilar o branco dos olhos, na racha das pálpebras, entre o sombreado das pestanas... A milicada começou a retirar os churrascos, já prontos e foi-se arranchando em grupos, para comer. Nisto, por cima de nós, dentro da carreta, ouvimos falar, e depois uma risada moça, e logo uma mulher desceu, barulhando anáguas. O chiru, que estava com os braços encruzados por cima dos joelhos, quando sentiu a mulher, afundou a cabeça pra diante, escondendo a cara… e o chapéu ainda ficou imprensado entre a testa e a curva do braço... Então passou pela nossa frente a cabocla... viu um como dormindo e o outro, que era eu, mui derreado e bocó... E foi-se à panela, mirou-a, apertando os olhos pro via da fumaça e do mormaço do brasido, Por Deus e um patacão!... Era um chinocão de agalhas!... Seiúda, enquartada, de boas cores, olhos terneiros... e com uma trança macota, ondeada, negra, lustrosa, que caía meio desfeita, pelas costas, até o garrão!... — Por que seria que este diabo largou o meu capitão, para se acolherar com este tal ruivo?... Isto de chinas e gatos... quem amimar sai arranhado... Talvez por este ser ruivo… talvez por farromeiro... por causa dalgum cavalo que ela gabou e ele regalou-lhe… e até… até por enfarada do outro... Ora vão lá saber!... Nisto a piguancha alçou a panela e voltou pra carreta. O chiru então, com a cara de lado, soprou-me de leve: — Ela não se arpistou quando me viu?... — Não... nem nos benzeu com um olhado... É uma cabocla enfestada!... 20

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— Cale a boca... Apronte-se que o fandango não tarda. — Eu preferia bailar com a morena... — Aqueles dois do mate convidado não vêm mais.... — Os sentinelas? — Sim; com certeza o capitão enxugou-os... Está me palpitando que a gente está desabando aí... Palavras não eram ditas, que saiu do mato um milico, pondo a alma pela boca, e balançando, de cansaço e medo, mascou a nova: — Os farrapos! Os farrapos! Mataram o João Antô!… Estrondeou um tiro… zuniu uma bala... um legal virou, pataleando. E pipoqueou a fuzilaria em cima da camelada! Eu, pulei logo para o recavém da carreta, para me botar ao ruivo; mas antes de 21

SAMIZDAT 5 - junho 2008 chegar já ele tinha descido... e se foi ao cavalo, que montou de pulo e mesmo sem freio e maneado, tapeando-o no mais, tocou picada fora. E berrou à gente: — Pra o rincão! Pra o rincão! E com a folha da espada tocou o flete, que pelo visto era mestre naquelas arrancadas. Mesmo assim eu ia ver se segurava o homem, mas o chiru gritou-me: — Deixe! Deixe! Agora é tarde!… Naturalmente de dentro da carreta a china viu o entrevero, e que o negócio estava malparado; e pulou pra fora, pra disparar e ganhar o mato. Mas quando pisou o pé em terra, a mão do Juca Picumã fechou-me o braço, como uma garra de tamanduá... A cabocla não estava tão perdida de susto, porque ainda deu um safanão forte e gritou, braba: — Larga, desgraçado!... E olhou, entonada... mas conheceu o chiru e ficou abichornada, pateta... — O tata! O tata!... — Cachorra!... Laço, é o que tu mereces!... — Me largue, tata!... — Primeiro hei de cair-te de relho... pra não seres a vergonha da minha cara... Neste instante, fulo de raiva, o nosso capitão manoteou-a pelo outro braço. — Ah! mencê... perdão!... Nunca mais!... Eu... Eu... — Eu é que vou dar-te sesteadas com o ruivo, guincha desgraçada! E furioso, piscando os olhos, com as veias da testa inchadas, largou o braço da morena mas agarrou-lhe os cabelos, a trança quase desmanchada, fechando na mão duas voltas, agarrou curto, entre os ombros, pertinho da nuca.., e puxou pra trás a 22

www.samizdat-pt.blogspot.com cabeça da cabocla..., com a outra mão pelou a faca, afiada, faiscando e procurou o pescoço da falsa... Chegou a riscar… riscar, só, porque o chiru velho, o Juca Picumã, foi mais ligeiro: mandou-lhe o facão, de ponta, bandeando-o de lado a lado, pela altura do coracão!… — Isso não!... é minha filha! disse. O capitão revirou os olhos e deu um suspiro rouco… depois respirou forte, espirrou uma espumarada de sangue e afrouxou os joelhos... e logo caiu, pesado, com uma mão apertada, sem largar a faca, com a outra mão apertada, sem largar a trança... E a china, assim presa; rodou por cima dele, lambuzando-se na sangueira que golfava pelo rasgão do talho, que bufava na respiração do morrente… Vendo isso, o Picumã quis soltar a piguancha e forçou abrir a mão do capitão: qual! era um torniquete de ferro; tironeou... nada! Então, sem perder tempo, com o mesmo facão matador cortou a trança, rente, entre a mão do morto e a cabeça da viva... Foi — ra… raaac! — e a china viu-se solta, mas sura da trança, tosada, tosquiada, como égua xucra que se cerdeia a talhos brutos, ponta abaixo, ponta acima... E mal que sentiu-se livre sacudiu a cabeça azonzada, relanceou os olhos assombrados, arrepanhou as anáguas e disparou mato dentro, como uma anta... — Cachorra!... vai-te!... rugiu o chiru, limpando o ferro na manga da japona. E olhando o corpo do capitão, cuspiu-lhe em cima, resmungando: — Pois é... seduziu... e agora queria degolar... E mui triste, pra mim: — Vancê vai dar parte de mim? — Esta é a Rosa, a tua filha? — Sim, senhor, que eu criei com tanto zelo!... E mais não pudemos dizer, porque o entrevero rondou para o nosso lado.. . e tivemos que fazer pela vida!... No meio do berzabum o Picumã ainda achou jeito de atirar uns quantos tições pra dentro da carreta... e daí a pouco o fogo lavorava forte naquele ninho de amores A la fresca!... que ninho!... Alguém gritou: o capitão ‘stá morto!... Vamos embora!... Um de a cavalo atravessou-o no lombilho e fomos retirando, tiroteando sempre. 23

SAMIZDAT 5 - junho 2008 Mas a trança não ia mais na mão do morto. Passaram-se uns três meses largos; em muita correria andamos, surpresas, tiroteios, combates sérios. Um dia um estancieiro regalou-me um pingo tordilho, pequenitate, mas mui mimoso. Quando eu ia sentar-lhe as garras, apareceu-me o Picumã, sempre esfrangalhado e com cara de sono e disseme, desembrulhando um pano sujo: — Vim trazer-lhe um presente; é um trançado feito por mim; e há de ficar mui bem no tordilho, porque é preto... E ajeitou na cabeça do cavalo um buçalete e cabresto preto, de cabelo, trançado na perfeição. Nunca passou-me pela idéia cousa nenhuma a respeito... O meu esquadrão marchou para a fronteira; depois andamos de Herodes para Pilatos, até que no combate das Tunas... fomos topar com os antigos companheiros de divisão. Brigamos muito, nesse dia. Aí ganhei as minhas batatas de sargento. Não sei como ele soube, mas de noute um fulano procurou-me dizendo que o soldado Juca Picumã, um chiru velho, que estava muito ferido, pedia para eu não deixá-lo morrer sem vê-lo. Lá fui. Estava o chiru deitado nas caronas e todo reatado de panos, pela cabeça, nas costelas, nas pernas. O coitado gemia surdo, de boca fechada; e às vezes cuspia preto... Quando me viu, à luz de uma candeia de barro fresco, quis mexer os ossos e não pôde... — Então, Picumã... homem afloxa o garrão?... E ele falou tremendo na voz: — Estou… como um crivo... Eram oito... em cima... de mim... só pude... estrompar... cinco!... Vancê... ainda… tem... aquele buçalete?... — Tenho sim; meio estragado, mas tu ainda hás de compô-lo, não é?...

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www.samizdat-pt.blogspot.com Não... eu queria… eu queria… lhe... lhe pedir... ele, outra vez... pra... pra mim... — Pois sim, dou-te! Amanhã trago-te. — E do... do cabelo da Rosa... a trança... lembra-se?... Levantei-me, como se levasse um pregaço no costilhar... O buçalete era feito do cabelo da china?!... E aquele chiru de alma crua... E quando firmei a vista no índio, ele arregalou os olhos, teve uma ronqueira gargalejada e finou-se, nuns esticões... Nessa mesma madrugada fui mandado num piquete de reconhecimento, de forma que não soube onde nem como foi enterrado o Picumã, porque o meu desejo era atirar-lhe pra cova aquele presente agourento... Agourento… agourento não digo, porque afinal enquanto usei aquele buçalete nunca fui ferido.., e ganhei de uma a quatro divisas... Tem é que dobrei a prenda, reatei-a com um tento e soquei-a pro fundo da maleta, até ver... Até que um dia, como lhe disse, soube que a Rosa morreu e então... ah!... já lhe disse também: atirei para a cova da china os cabelos daquela trança... doutro jeito, é verdade… mas sempre os mesmos!...

Fonte: LOPES NETO, Simão. Contos Gauchescos. Porto Alegre: Editora Globo, 1976. Disponível em: Domínio Público.
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1829

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Simões Lopes Neto
Apesar de reduzida produção literária no que diz respeito à publicação, João Simões Lopes Neto teve uma expressiva contribuição intelectual ao regionalismo sul-riograndense. É intensa a valorização histórica do gaúcho, apresentando fidelidade aos costumes crioulos e à linguagem.

Biografia
Simões Lopes Neto (Pelotas — RS, 1865 — Pelotas, 1916). Enquanto vivo, o escritor não teve sua obra reconhecia. Consideravam-no por outros motivos, não pelos seus livros. A modificação a seu respeito aconteceria a partir de 1924, através de estudos críticos de João Pinto da Silva, Augusto Meyer e Darcy Azambuja. Desde então, seu nome começou a tomar vulto na posteridade, para afinal impor-se como nosso maior escritor regionalista. A copiosa bibliografia hoje existente sobre a sua obra, em que avultam os trabalhos de Flávio Loureiro Chaves e Lígia C. Moraes Leite, não deixa dúvidas a esse respeito. Com ele o regionalismo ultrapassou as aparências nativistas e as limitações localistas, para tornar-se francamente universal, como sempre acontece com os criadores verdadeiramente representativos da sua terra e da sua gente. Dos três livros por ele publicados em vida, dois se encarregariam, postumamente de fazer-lhe a “carreira literária”: “Contos Gauchescos” (1912) e “Lendas do Sul” (1913), ambos editados pela Livraria Universal, de Pelotas — RS. Fonte: http://www.releituras.com/jslopesneto_menu.asp Seleção: Henry Alfred Bugalho 26

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Olavo Bilac

Muitos dos que, como eu, cresceram no Brasil durante o período da ditadura militar, associaram Olavo Bilac apenas à autoria da letra do Hino à Bandeira, compulsoriamente cantado repetidas vezes nos páteos escolares. Ou a versos de exaltação nacional, espuriamente declamados em meio ao típico “Brasil: ame-o ou deixe-o”, no pior cenário possível dos ideais ufanistas. Além disso, os parnasianos foram um dos alvos preferidos do movimento modernista no Brasil. E, em tempos de censura radical, tudo o que soa libertário tornase rapidamente bandeira. Assim, declaramo-nos, muitos da nossa geração, com cinquenta anos de atraso, também anti-parnasianos. Há nisso alguma injustiça: primeiro porque o nacionalismo republicano de Bilac não tinha, de fato, nenhuma relação com os generais da ditadura; segundo, porque há uma vasta parcela de sua obra poética dedicada aos temas líricos, e é uma pena que esse aspecto tenha ficado um tanto eclipsado pelo uso político que se fez, em Autores em Língua Portuguesa pleno século XX, de seu patriotismo abolicionista próprio do final do século XIX. Segue aqui uma pequena amostra desse lirismo. Que ele sirva de estímulo para que se busque mais!

Seleção: Marcia Szajnbok

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1865. Após os estudos primários e secundários, matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro e, posterirormente, no curso de Direito em São Paulo, não concluindo nenhum deles. Voltou ao Rio e passou a dedicarse ao jornalismo e à literatura. Foi um dos mais ardorosos propagandistas da abolição, estreitamente ligado a José do Patrocínio. Escreveu em vários jornais, , substituiu Machado de Assis na seção “Semana” da Gazeta de Notícias, exerceu vários cargos públicos no Rio de Janeiro.

militar obrigatório, que considerava uma forma de combate ao analfabetismo. Foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros pela revista Fon-Fon em 1913. Fundindo o Parnasianismo francês e a tradição lusitana, Olavo Bilac deu preferência às formas fixas do lirismo, especialmente ao soneto. Foi um dos mais notáveis poetas brasileiros, prosador exímio e orador primoroso, participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, na cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Olavo Bilac morreu no Rio de Janeiro em 28 de dezembro de 1918. Fonte:

Foi um dos fundadores da Liga da http://www.academia.org.br/abl Defesa Nacional, tendo lutado pelo serviço 27

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Ouvir Estrelas

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Ciclo Tem o que dizem, quando estão contigo?” Manhã. Sangue em delírio, verde gomo, E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Promessa ardente, berço e liminar: A árvore pulsa, no primeiro assomo Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar! Dia. A flor - o noivado e o beijo, como Em perfumes um tálamo e um altar: A árvore abre-se em riso, espera o pomo, E canta à voz dos pássaros... Amar! Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo; A árvore maternal levanta o fruto, A hóstia da idéia em perfeição... Pensar! Noite. Oh! Saudade!... A dolorosa rama Da árvore aflita pelo chão derrama As folhas, como lágrimas... Lembrar!

lavo O ilac B

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo Na minha a sua boca eu comprimia. E, em frêmitos carnais, ela dizia: – Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo! Na inconsciência bruta do meu desejo Fremente, a minha boca obedecia, E os seus seios, tão rígidos mordia, Fazendo-a arrepiar em doce arpejo. Em suspiros de gozos infinitos Disse-me ela, ainda quase em grito: – Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca, – Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca, Moralistas, perdoai! Obedeci... 28
Ilustração: Alessandro Andreuccetti http://aandreuccetti.altervista.org

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OBRA DO DIABO
Henry Alfred Bugalho As manchas de sangue na cueca de Marquinhos causaram estranhamento. A mãe, ingênua, primeiro pensou que pudesse ser alguma infecção. Há anos que Joana não dava banho do filho, mas insistiu; porém, constrangido, Marquinhos, com treze anos, discordou. — Que isto, mãe! Já sou quase um homem. Que negócio é este de querer dar banho em mim. Joana conversou com amigas e nenhum delas sabia o que dizer, até que Flávia comentou, embaraçada: — Uma vez, eu e meu marido fizemos por trás... Depois, por alguns dias, saiu sangue de lá. As mulheres riram, descartaram esta hipótese, pois Marquinhos era homem e homem não dá o rabo. E, além disto, quem estaria enrabando Marquinhos? No entanto, tal conjetura não abandonou Joana. Passou a bisbilhotar Marquinhos, quando ele estava com amigos, com quem andava no colégio. Nada que pudesse indicar um comportamento estranho. Foi por isto que Joana me procurou, para descobri quem estava comendo Marquinhos. Obtive as mesmas conclusões dela, não eram os amigos, nem colegas de escola, Marquinhos tinha, inclusive, uma namoradinha no colégio, e dava belos amassos na garota durante o intervalo do recreio, mãos no peitinho e dentro da calcinha. Santo o rapaz não era, e isto já era um bom começo.

Contos

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SAMIZDAT 5 - junho 2008 Marquinhos tinha a rotina comum dum menino da idade dele: ia à escola durante o dia, jogava futebol no cair da tarde, flertava com a namoradinha à noite, jantava com a família, era coroinha nas missas de domingo. “Tente enxergar o óbvio, Vico!”, eu dizia a mim mesmo. Depois da missa, Marquinhos acompanhava o padre até a sacristia e desaparecia por quase duas horas. Estaria acontecendo algo inusitado neste tempo? Além disto, caso minhas suspeitas se confirmassem, não seria nada fácil incriminar um bispo influente como Dom Francesco. Fui à missa no domingo, e, se minha carreira de detetive não houvesse me preparado para a espera e a monotonia, certamente teria dormido com a ladainha em latim de Dom Francesco. O culto foi encerrado e bispo e coroinha se retiraram para a sacristia. Os fiéis deixavam a igreja, enquanto eu me esgueirava por entre eles para alcançar o altar e descobrir o que se sucederia. Na sacristia, havia uma porta que conduzia a um prédio anexo, onde se localizava a residência do bispo. Cheguei a tempo para vê-los entrar por esta porta e trancá-la. Na semana seguinte, fui mais esperto. Dom Francesco rezava a missa, aproveitei para me infiltrar na sacristia e ingressar no alojamento do bispo, uma cela decorada com suntuosidade, ao invés do esperado ascetismo. Escondi-me no guarda-roupa, cuidando para deixar aberta uma fresta por onde assistir ao que estava por vir. Após um quarto de hora, Dom Francesco e Marquinhos entraram na cela. Este ajudou o bispo a retirar a batina, logo percebi que o santo homem estava com o pau ereto. Fez um sinal para Marquinhos, que se ajoelhou e passou a chupar o padre. Aquilo me fez ter engulhos, se eu não estivesse escondido, teria vomitado ali mesmo. Mas esta cena seria apenas a primeira dos absurdos que presenciei. Depois, dum baú, o bispo retirou um açoite e o entregou a Marquinhos: — Você sabe o que fazer — Dom Francesco disse, então, virou-se para o rapaz e se preparou para ser flagelado. Marquinhos fazia o chicote estalar nas costas e nádegas do padre, que gritava, descontrolado — Mais, mais, mais! Em seguida, Marquinhos enfiou o cabo do chicote do cu do padre, para grande deleite deste (e desespero meu). Por fim, o bispo se voltou e foi a vez dele sodomizar o garoto. As manchas de sangue na cueca estavam explicadas.

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www.samizdat-pt.blogspot.com Marquinhos recebeu uma bela quantia de dinheiro do bispo e partiu. Dom Francesco adormeceu, em êxtase. Pude, enfim, deixar aquele antro.

— Dom Francesco? Não é possível! — Joana se descabelava, roendo as unhas — Você tem de estar errado... Por favor. — Entendo que você não queira acreditar. Por isto, eu lhe direi como proceder. Somente assim você livrará seu filho deste pervertido.

No domingo, na hora do almoço, a polícia e jornalistas cercaram a residência do bispo. A polícia invadiu a cela e apanhou Dom Francesco e Marquinhos em flagrante. Sob o flash das câmeras da imprensa, o bispo berrava, justificando-se: — Isto foi obra do diabo! Obra do diabo!

Recordei-me de meu avô, com sua simplória sabedoria, que sempre repetia: “O diabo está em nós”.

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Contos

O CASO JERSEY

Volmar Camargo Junior

foto: http://www.flickr.com/photos/curiosita/1178581614/

Meu nome é Rafaela M. Sou médica veterinária, sócia-proprietária de uma petshop e clínica de pequenos animais, junto com meu marido Breno S, jornalista e fotógrafo. A história de como nasceu essa empresa é bastante curiosa, e pode parecer até um pouco absurda. Para quem quiser conferir, temos ainda todas as provas de que tudo o que vou contar é a mais absoluta verdade. Foi em 1995, no mês de outubro. 32

Lembro que o assunto do dia era aquele pastor que chutou uma imagem de Nossa Senhora em um programa de TV. Eu estava no terceiro semestre da faculdade. Breno, a esta época, estava quase no final do curso de Jornalismo. Fazia um estágio no Diário Pereiropolitano para o qual escrevia como “freela” desde o segundo grau – essas coisas de padrinhos. Em todo caso, ele já era bastante conhecido por parecer mais um detetive que um repórter. Nós ainda não namorávamos;

www.samizdat-pt.blogspot.com eu, tremenda CDF, bolsista, certinha. Ele, popular na universidade, na redação, na rua, no diretório acadêmico. Mas morávamos no mesmo prédio, e éramos muito amigos. Aconteceu por aqueles dias um evento curioso, um crime insolúvel para o qual a polícia não apresentava conclusões – o tipo de caso preferido do Breno. O agricultor Ari F. era um funcionário público aposentado (ou um político, não lembro bem) que tinha uma propriedade na zona rural de Pereirópolis. Era uma fazendinha tão bonita e bem cuidada que parecia de brinquedo. Sua generosa aposentadoria era toda investida naquele lugar. O que mais lhe dava prazer adquirir eram os animais. Não eram bichos quaisquer, mas verdadeiros campeões de suas raças. Eram ovelhas, galinhas, cavalos, canários, cães e gatos, uma verdadeira Arca de Noé. De todos estes, seu xodó era Princesa, uma vaquinha Jersey que – segundo os relatos dos concursos que ela venceu – chegou a dar cinqüenta litros de leite em um único dia. Um luxo de vaca. Naquela sexta-feira treze, o seu Ari registrou a ocorrência logo de manhã na D.P. de Pereirópolis: Princesa fora encontrada morta com um tiro na cabeça. O Inspetor Silva acompanharia o inconsolável proprietário da vítima até sua idílica fazenda. O fotógrafo que prestava serviço para a Delegacia – para o total desgosto do policial – era o Breno. Foi difícil chegar até a fazenda por causa da estrada, que virou um barro só com a chuva da véspera. A cena do crime era a seguinte: a vaquinha estava caída de lado dentro do curral, com as pernas estendidas. Havia um buraco escuro na testa e uma poça de sangue no chão, ao seu redor. Fora isso, não havia nenhum outro indício da autoria, nenhuma marca de pneu, nenhuma pegada. Nada. Breno começou a reportagem ali mesmo. Seu Ari não se importou, mostrando-se muito solícito às suas perguntas – diferente de Inspetor Silva, que o achava um estorvo. Segundo o dono da propriedade, não aconteceu nada extraordinário, além da forte chuva de granizo e a tempestade de raios, entre as onze a meia-noite. O disparo só pode ter acontecido nesse horário, porque o barulho das trovoadas certamente abafaram o estouro da arma. A primeira coisa que o jovem jornalista lembrou foi o fato de, na área rural, os moradores terem armas de fogo e cães de guarda. As armas de seu Ari, um revólver .38 e uma espingarda calibre .12, não eram usadas havia muito tempo. Mostrouas: estavam empoeiradas, guardadas na parte mais alta de um armário. Quanto aos cachorros, estes deviam ter contraído alguma virose, pois desde o começo da semana passavam a maior parte do tempo dormindo. Seria tristeza demais para ele se seus cães também morressem. Inspetor Silva pediu para falar com as outras pessoas da casa, em caráter informal, uma vez que aquilo não constituía um depoimento. Na Granja Itália viviam Seu Ari, sua esposa Teresinha, o filho mais velho Tomás, e a caçula Tatiana. A esposa não pareceu nada abalada com a morte da vaca Princesa. Respondeu às perguntas sem titubear, mas acrescentou pouco ao que já havia sido dito pelo marido. Disse apenas que só conseguiu dormir depois que a chuva terminou. Era uma mulher bonitona, muito bem tratada, com as unhas e os cabelos arrumados. Pelo que aparentava, Dona Teresinha não passava nem perto de uma estrebaria. E, provavelmente, seria ainda menos provável que empunhasse uma arma para matar uma vaca a sangue 33

SAMIZDAT 5 - junho 2008 frio. O rapaz, por outro lado, era bem mais rude. Suas respostas eram monossilábicas e algumas questões sequer dignou-se a responder. Por fim, já irritado, saiu da sala batendo a porta, falando em alto e em bom som “Quem se importa com essa vaca de merda?”. A moça estava em estado de choque. A despeito dos cuidados que a mãe teve para tentar acalma-la, e talvez silenciá-la, Tatiana tinha certeza de que o assassinato de Princesa só poderia ser um aviso de seu ex-namorado. O tal era o estereótipo do rapaz rico e mimado, herdeiro de uma fazenda gigantesca (que, muito apropriadamente, os jovens menos abastados chamam agro-boy). Aquilo seria um aviso, ou uma ameaça a ela e à família. Esta foi a declaração que pareceu a mais plausível ao policial. Breno preferiu não apressar seu julgamento. Assim que chegaram de volta na cidade, Breno correu para seu laboratório fotográfico. Silva dispensou-o (proibiu-o) de averiguar o suspeito. Na verdade, Breno estava com uma outra idéia, que não o abandonou desde a hora que tirou as fotografias. Seu laboratório era o mais artesanal possível – que ainda hoje ele conserva com muito carinho, apesar de já ter equipamento bem mais sofisticado. O fato é que as fotos só estariam prontas em algumas horas. Neste intervalo, o fotógrafo deu lugar ao detetive-amador.

É nesse ponto que eu entro na história. Eu costumava ser, de certa forma, a mãe dele. Ou, no mínimo, a pessoa que o alimentava. Breno é o tipo de pessoa totalmente inepta na cozinha, capaz de cortar a própria jugular com uma faca sem ponta tentando fazer um sanduíche. Sendo sua vizinha de porta, seu apartamento era, o mais das vezes, um dormitório. Isso quando ele não se passava na hora – ou no álcool – e dormia no meu sofá. Estava “vesgo” de fome, e Seu Ari estava bastante emocionado. só então deu-se conta que eram quase Já se aproximava do meio-dia, quando cinco da tarde e ele não havia comido recebeu uma ligação que estava nada. No tempo em que preparei o lanche esperando: um comerciante local aceitou e enquanto o mesmo era devorado, Breno pagar pela carne da premiada vaca uma contou-me tudo o que já contei a vocês. cifra nada desanimadora. Seu Ari queria E, em seguida, quis saber algumas coisas mesmo era enterrar a pobrezinha à beira sobre minha área. do açude de que ela tanto gostava. Por fim, Silva questionou se a família tinha algum outro suspeito além do ex-namorado da caçula. O homem afirmou que não cultivava inimizade com ninguém. Todos na cidade sabiam disso: Seu Ari era (e ainda é) uma doce criatura. Breno, enquanto o policial fazia as últimas perguntas, observou discretamente os outros familiares. Quando o dono da casa asseverou não possuir nenhum inimigo, notou que sua esposa ficou com o olhar distante, voltado para o chão, dando um longo suspiro. 34 “Dá para matar uma vaca de quase uma tonelada só com um tiro”, ele perguntou. “Sim. Há alguns abatedouros que preferem dar um tiro com uma arma de alta-pressão para que o animal não fique estressado”, respondi, quase entendendo onde ele queria chegar. “Pois, eu tenho uma suspeita de quem seja o autor”

www.samizdat-pt.blogspot.com “Quem?” Breno me olhou bem nos olhos, e assim ficou por alguns segundos intermináveis, com uma expressão enigmática, indecifrável. Ele riu com o canto da boca. Da cadeira onde estava, pulou na direção do telefone. Discou consultando uma agendinha minúscula. “Alô, Seu Ari. Ah... Tomas. Desculpe, as vozes são parecidas. Aqui é o Breno, o fotógrafo da pol... sim, isso. Era eu mesmo. Não... não..., não é isso. Olhe, eu tenho uma amiga que é veterinária. Ela disse que não se importaria de dar uma olhada nos cachorros de vocês. Quando? Domingo, pela manhã? Claro, sem problemas. Ah... não, não. Ela não vai cobrar nada, não. Até domingo, então. Um abraço.” Era óbvio que eu já havia sido envolvida nos planos dele. Isso não era raro. Teve uma vez que ele pediu para eu fazer um corte com um bisturi em sua perna só para ele ser atendido no prontosocorro, e fotografar os pacientes sendo atendidos no corredor. O sábado passou muito rapidamente, e eu não o vi o dia inteiro. No domingo, saímos cedo de casa. Fomos no seu Fusca 76 até a sede da Granja Itália. Dentro do porta-luvas encontrei um pacotinho da farmácia, contendo seringas, luvas descartáveis, tubos plásticos para coleta de sangue, daqueles de laboratório de análises clínicas. Ele me olhou e riu “Ué, temos que prestar um serviço de qualidade, doutora Rafa!” Fomos conversando amenidades. O pastor que chutava santas fora totalmente esquecido; pelas esquinas, só se falava na morte da Princesa. “Você lembra de uma notícia, há uns cinco anos atrás, mais ou menos depois do impeachment do Collor, que o governador do estado viria para um almoço com os criadores daqui da cidade?” ele perguntou enquanto sintonizava uma estação de rádio. “Não muito bem. Por quê?” “Lembra hospedou?” onde foi que ele se

“Ah, sim. Lembro sim. Ele ficou justamente na Granja Itália, porque o Seu Ari era seu amigo.” “Exato. E lembra também o que aconteceu depois dessa visita?” “Cara, não recordo. Eu sempre fui desligada das notícias...” “Pois começaram a construir o Frigorífico Pereirópolis S.A. pouco tempo depois. Um monte de gente conseguiu emprego, e os granjeiros da região só tiveram lucro com isso. Muitos pequenos empresários e comerciantes começaram a depender do Frigorífico.” “Sim, e daí? Não to conseguindo entender.” “Calma... já chego lá. Teve bastante gente que prosperou com a vinda dessa empresa. Mas teve gente que não gostou nem um pouco disso.” “Quem?” Não deu tempo de ele terminar. Havíamos chegado à entrada da granja. Nosso anfitrião foi Tomas, que ficou em casa. Os pais e a irmã foram à missa. 35

SAMIZDAT 5 - junho 2008 Diferente dos modos que teve quando “E quem trata os cachorros?” recebeu Breno e o Inspetor Silva na sexta, perguntou outra vez o jornalista-detetive. o rapaz tratou-me com muita distinção e cordialidade. Muito educado, conduziu“Só eu.” devolveu seco. Deu para nos até o canil. perceber que os dois exemplares machos da nossa espécie não se davam bem O canil era espetacular, um primor de desde que se conheceram. A minha ficha organização do espaço e limpeza. Nem demorou a cair que, na presença de um parecia que cães moravam ali – talvez exemplar fêmea, eles tendem a competir uma limpeza recente feita por Tomas, por atenção. Nesse caso, a fêmea era eu. mas, mesmo assim, o espaço era um Que burra! Nem notei. luxo. Coisa de revista. Havia ali sete cães, enormes. Seu ari, pelo visto, apreciava Fiz a coleta de sangue, de fezes, até os molossos: um casal de Rottweillers, da ração dos cães, exatamente como um Dogue Alemão, um Mastiff e uma Breno queria. Voltamos para a cidade. cadela Boxer com dois filhotes. Fiquei No caminho, notei que ele estava mais consternada com aqueles cachorrões, calado que o costumeiro, com a cara dormindo pelos cantos. Bem, eu sabia fechada, cenho cerrado. Tentei puxar que sonolência nos cães é, de fato, conversa. Estava emburrado. Deixei-o sintoma de uma virose até bem comum, a quieto, porque era provável que ficasse parvovirose – um tipo de gastro-enterite. ainda mais aborrecido. Comecei a especular Perto de casa, já estava mais calmo. Acho que ele tinha a cabeça tão ocupada pensando nas mil e uma possibilidades de aplicação de suas teorias que acabou “Ah, essa ração aqui”, respondeu esquecendo que estava bravo comigo. ele, pegando o saco quase vazio em Quando paramos, ele foi diretamente para uma guarita de tijolos, onde ficavam os o orelhão defronte ao edifício. Não pude apetrechos do canil (que capricho!). Era ouvir a conversa, mas pela expressão uma ração tradicional, até um pouco cara que ele fez, parece que sua conversa por causa da marca. Olhei a data de mole teve efeito. Voltou rapidamente para validade, os componentes... tudo normal. o carro, perguntando “O que Tomas?” eles costumam comer, “E é você mesmo que compra a comida deles?” “Vai fazer o que hoje, doutora?”

“Se você deixar, vou continuar “Normalmente o pai ou a mãe, não sei. escrevendo meu artigo.” Esse mês foi a mãe, porque o pai estava em Esteio com a Princesa, numa mostra “Então, você vai fazer uma extrainternacional de gado leiteiro.” curricular hoje. Vamos pro laboratório da Élida.” “Outro prêmio?” interveio o Breno, que eu já havia até esquecido. “O quê? Hoje é domingo, esqueceu?” “Ah, sim.” Respondeu o rapaz, sem entusiasmo. 36 “Pois domingo é o dia perfeito para

www.samizdat-pt.blogspot.com cobrar uns favores”, disse ele, arrancando o Volkswagen rumo ao centro. Sim, a Élida, dona do laboratório, devia um favor para Breno, sobre o que preferi nem questionar. Entregamos o material, sem dizer que era de cachorro. Ruim foi explicar a ração. A moça deu a previsão de que o resultado só sairia na manhã seguinte. O trabalho de conter a ansiedade evidente de meu amigo, agora, seria meu. Em casa, começamos a divagar sobre os suspeitos. A partir do que ele havia me contado, Breno quis que eu fizesse uma análise de quem eu achava ser o culpado. Enquanto eu falava, fiz algumas anotações em um caderno. Ele não interferiu em nada. era apaixonado pela mimosa. Duvido que ele tenha cometido o bovicídio. Por último eu coloco a Tatiana. Ela era a que, a meu ver, tinha menos motivos para atirar na Jersey. Breno ouviu-me pacientemente, silenciosamente. E assim ficou por mais alguns minutos, como se estivesse ruminando o que eu havia dito. “Bem...” disse ele, me deixando apreensiva. “Há algumas coisas que eu descobri, e outras que eu fiz algumas ligações que você não poderia ter levado em conta porque não tinha conhecimento”.

O ex-namorado de Tatiana era minha “É mesmo? E sobre quem recai sua principal suspeita. Ameaçar a família suspeita?” eu perguntei, fingindo estar tirando a vida do bicho mais querido ofendida por não ter minha excelente do Seu Ari pode ser uma boa forma de capacidade dedutiva valorizada. intimidação. Eu concordo com o Silva nesse aspecto: acho que ele, o agro-boy, “Quer saber mesmo? Acho que é o número um. nenhuma dessas pessoas que você citou matou a Princesa.” Tomas tinha ciúme da vaca. Ele teria ciúme dos outros bichos também, e pelo “Ué? Há mais alguém envolvido?” que parece, ele gosta apenas dos cães. Teria sido um crime passional? Será que os outros bichos não estavam sob uma “Vamos esperar o resultado dos ameaça, com o assassino dentro de exames. Amanhã eu conto quem é o casa? culpado.” Dona Teresinha pode tê-lo feito – ou mandado fazer, o que é mais provável. Ela parece ser bem materialista. Afinal, uma vaca que devia custar algumas dezenas de milhares de reais – ou dólares, não entendia bem a cotação das vacas – certamente renderia, com sua morte, uma boa grana do seguro. Fiquei morrendo de curiosidade. Pra falar a verdade, fiquei até furiosa porque, no fim das contas, Breno conseguiu conquistar meu interesse para esse caso. Já estava ficando tarde, eu tinha sono, os trabalhos da faculdade ainda me esperavam. Mandei-o pra casa. Mesmo que ficasse a uma parede de distância, eu precisava ficar um pouco sozinha. Seu Ari também teria motivos para Quando fui fechar a porta, como se fosse atirar em Princesa. Talvez os mesmos de a coisa mais natural do mundo, Breno me Dona Teresinha. Entretanto, acho que ele beijou. Assim, sem mais nem menos. Foi 37

SAMIZDAT 5 - junho 2008 nesse exato instante que começamos a namorar. Acabei não retomando meu artigo, e o Breno também não foi pro apartamento dele. ração para bovinos que só a empresa dele tinha a fórmula. Quando veio a empresa grande, e que começaram a fazer uma inspeção pra valer no rebanho bovino local, acabou-se descobrindo que a ração que o tal Doutor Orlando produzia tinha uns metais pesados que podiam causar câncer em quem consumia a carne proveniente Era cedinho da manhã de segunda. dos bois que se alimentavam dela. Não Nas segundas eu costumava dormir um precisa nem dizer que a fabriqueta do pouco mais, já que minhas aulas eram Doutor faliu. Com isso, ele tinha mais de somente à tarde. Nem percebi que ele um motivo para detestar o Seu Ari, já que havia saído e já estava de volta. Estava todo mundo diz que o Frigorífico só veio com as mãos para trás. para cá porque o governador, amigo dele, facilitou as coisas. Hoje em dia, o homem “Nós temos o nosso culpado”, disse, tem um mini-mercado, perto da praça do entregando-me dois envelopes, um hospital.” branco e um pardo. No primeiro estava o resultado dos exames de sangue, de fezes, e o da ração (!) do cachorro. Havia uma substância química incomum. Ou melhor, comum apenas em pessoas que estão sob efeito de sedativos. “Isso quer dizer que...” “... quer dizer que os cachorros não estão doentes, Rafa. Estão dopados!” “E então? Alguém misturou anestésico na comida deles. Mas só pode ter sido alguém da família, certo?” “Que história mais maluca, Breno. Mas e aí? Você está achando que esse Doutor Orlando foi quem matou a vaquinha.” “Quer mais algumas evidências? Os cachorros da fazenda não estavam contaminados por virose nenhuma, mas dopados, anestesiados por causa de uma substância tranqüilizante que estava onde? Na ração que eles comiam. E o tal Seu Orlando pode, perfeitamente, ter fabricado a tal ração.” “Certo, mas... e como é que ela chegou lá?”

“Como? Quem foi que comprou a “Não necessariamente. Você se lembra ração para os cachorros da Granja Itália que eu comentei sobre um cara que não nesse último mês?” gostou nada da vinda do frigorífico aqui pra Pereirópolis? Esse cara é um certo “Segundo o Tomas, foi a mãe dele, Doutor Orlando.” Dona Teresinha. E o que isso tem demais?” “Doutor Orlando... nunca ouvi falar” “Deve ter ouvido sim. Pois esse Seu Orlando era podre de rico antes do Frigorífico instalar-se aqui. Dizem que ele ganhava rios de dinheiro vendendo uma 38 “Aí está o coice da vaca! Você lembra que eu achei muito estranha a reação da Dona Teresinha quando o Seu Ari falou para o Inspetor Silva que não tinha inimigos?”

www.samizdat-pt.blogspot.com “Lembro, sim. Você disse que ela a vaca.” estava com o olhar perdido, deu um suspiro profundo e tudo mais.” “Hein? Agora é que eu não entendi mais nada!” “Pois você não sabe o que eu descobri. Sábado eu fui visitar a minha mãe, que “Olha isso” tem uma memória de elefante...” “Foi por isso que eu não te vi o dia inteiro.”

E deu-me o segundo envelope. Dentro dele, havia as fotos que ele tirou “Pois então. A mãe lembra direitinho da cena do crime. Princesa, de língua de um “bafafá” que aconteceu aqui em de fora, com a cabeça ensangüentada e Pereirópolis, quando ainda se chamava um buraco no meio da testa. Uma poça Vila da Pereira, distrito de Araucária. Pois o vermelha ao redor da pobre vaquinha Seu Ari veio trabalhar aqui, representando Jersey. Outras fotos mostravam o lombo algum órgão do governo – ela acha que da vaca, o curral e os arredores. E duas ele era militar. E ele já estava ficando rico, ampliações enormes. A primeira era da e comprou as terras onde hoje é a Granja bunda da vaca. A segunda, do furo feito Itália. E foi nessa época que ele conheceu pela bala. a Teresinha, que veio a se casar com ele e dar-lhe um casal de filhos.” “Que bonitinho... ta. E daí?” “E daí que a Dona Teresinha, na época, era noiva de outro cara. Chuta quem era o cara?” “Não! O Doutor Orlando?” “Sim. O Doutor Orlando! A mãe diz que eles nunca deixaram de se ver, e que, volta e meia, quando o Seu Ari viajava pras exposições de sua bicharada, ela ia até o mercadinho do Orlando para vêlo. É provável que a ração que deixou os cachorros meio grogues foi comprada lá.” “Qual é, Breno” eu reclamei “precisava ampliar essa? Que foto mais feia...” “Rafa. Você conhece isso muito melhor do que eu. É um animal morto” “Mas isso é o tiro na cabeça da pobrezinha.” “Olha melhor.” disse, confiante. E eu olhei. Prestando atenção, dava para perceber que aquele buraco de bala era, de fato, muito esquisito. Então eu percebi o quanto aquilo era absurdamente ridículo. E gritei, com o dedo em riste para a foto “Rá! É maquiagem! Isso aqui é maquiagem”

“Mas é claro! Ele tinha todos os motivos pra se vingar do Seu Ari! Foi lá e matou “Agora olha a foto da bunda da Princesa” a Princesa, a vaca premiada do Seu Ari! ele falou, pondo a outra fotografia diante Breno, meu Deus, você é um gênio!” de mim. Perto das ancas, no lugar bem escolhido, havia dois pequenos pontos “Ei. Eu nunca disse que o cara matou vermelhos sob o pelo.

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SAMIZDAT 5 - junho 2008 “Então isso quer dizer que...” “Quer dizer que a Princesa não foi morta. Isso foi um golpe. Ela recebeu duas injeções, de algum anestésico muito potente, ou uma dose muito alta. A vaquinha estava tão dopada que pareceu morta. Ela não foi assassinada, Rafa. Foi roubada debaixo dos bigodes do Seu Ari.” Eu fiquei estática. Abismada. Boquiaberta. Afônica. Tudo fazia sentido. Breno desvendou o quebra-cabeças em três dias, coisa que poderia levar anos sem nunca ter uma solução pela polícia. Levamos essas conclusões para a polícia, ou melhor, para o Inspetor Silva, além dos resultados dos exames, as fotos – que ele mesmo não havia olhado com a atenção devida. Depois disso, bastou uma das “conversas informais” do Silva para fazer o Seu Orlando cair na armadilha. Quando o processo contra ele foi aberto, e suas contas bancárias investigadas, descobriu-se que Princesa havia sido vendida por ele para um fazendeiro uruguaio, tão dado a falcatruas quanto Doutor Orlando, por aproximadamente quinze mil reais. Seu Ari não teve dúvidas. Mandou buscar sua Jersey campeã de volta. O caso teve alguma notoriedade no estado, e acabou, depois, virando piada em Pereirópolis. Doutor Orlando acabou condenado por quase uma dezena de crimes contra o patrimônio e a saúde pública, sendo obrigado a pagar uma indenização por danos materiais e morais ao proprietário da vaca. A propósito, foi com essa indenização que o Seu Ari montou a clínica e deu-a de presente para mim e o Breno. O nome, obviamente, foi ele quem escolheu: Clínica Veterinária Princesa.

foto: http://www.flickr.com/photos/jdickert/539731437/

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LUZ E SOMBRAS

Contos

Denis da Cruz

- Kir, vá até Mauhaz e pegue a jóia! – grita papai da sala - E não perca tempo no caminho, pois temos poucas horas de Luz. - Hat, você vem? – pergunto para meu djin. - Clac, brat. Bram – é a resposta. Pobre Hat. Ficou sem a Luz e se transformou num espírito inferior. Sua sorte foi que um marquiteto* fez este pequeno construto esferóide para transmutar o que restou de sua essência em um djin. Coloco-o em meu ombro, ao lado dos meus cabelos ruivos. Ele se agarra e corro para fora. De fato, a Luz está indo embora e o céu já é tomado por um azul mais 41
imagem: http://www.sgeier.net/fractals/fractals/06/Fireball.jpg

SAMIZDAT 5 - junho 2008 escuro. Em pouco tempo, as Sombras estarão por todos os lugares. Nas ruas, as pessoas se retiram para seus huszes*. Eu continuo correndo; Hat cada vez mais firme. Finalmente chego diante do husze de Mauhaz e sinto um arrepio em minha orelha. - Quieto, Hat! – digo para o djin que solta faíscas e estala suas engrenagens. - Brat, brack – responde-me. Ele está certo em ter medo, pois a moradia de Mauhaz é realmente de dar calafrios. Giro a maçaneta que tem a forma da cabeça de um corvo. - Missur* Mauhaz!? – chamo colocando a cabeça para dentro. - Entre, menina Kir – diz o homem ao fundo da sala. Ouço o “clac, brak” de vários djins espalhados pelo chão. Há de todas as formas, quadrados, esferóides, cônicos e alguns lembram insetos. Ando de forma desajeitada entre os pequenos construtos, tentando não demonstrar meu medo. A verdade é que a Luz esverdeada deste husze me incomoda. - Seu pai mandou o pagamento pela jóia? – pergunta o marquiteto com um sorriso desenhado por seu farto bigode. O cabelo espetado parece ter sido sugado pela tromba de um Julufan*. - Sim – coloco um frasco de luz prateada na mesa. Ele o puxa para si, com um pequeno riso mórbido. Avalia-me com seus olhos fundos e nariz pontudo, balançando quase até o queixo. - Poderia ser você aqui, menina Kir. Poderia ser a sua essência aqui dentro. - Mas não é! – digo de forma enfática, mas o medo escorre na forma de uma gota de suor em minha têmpora. – Esta essência paga a jóia? - Ah, claro que paga, menina Kir. Sim, paga sim – ele sorri como um Iadbo* da Sombra – Vocês terão Luz por mais alguns meses. Nada mais justo; sacrificar uma essência para que vocês tenham a proteção contra a Noite. Mauhaz alisa o frasco com suas mãos de dedos ossudos e olha dentro dele. Então, me diz em quase um sussurro:

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www.samizdat-pt.blogspot.com - Quer saber se você teria um irmão ou uma irmãzinha? - Não, eu só quero a jóia! – não consigo conter o grito. Maldito seja este mundo atacado pelas Sombras. Dependemos da Luz para viver, ou a Escuridão nos leva. E esta Luz só os marquitetos nos fornecem, mediante a paga de essências vitais. Pais e mães, às vezes, se sacrificam para que a família possa continuar tendo as Jóias de Proteção. Hoje eu entreguei nas mãos de Mauhaz a Essência do que seria um dos meus irmãos, gerado apenas para que pudéssemos comprar uma Jóia e termos mais alguns meses de Luz em nosso husze. Muitos usam esta estratégia para comprarem a proteção e, por isto, crianças como eu são muito raras em nosso mundo. Mauhaz me entrega a jóia. Agradeço com uma rápida mesura e corro para a porta, tropeçando em dois ou mais djins. Ao girar a maçaneta do corvo viro-me para traz e cuspo a Profecia para o maldito marquiteto: - Um dia a Grande Jóia virá e entregará sua Essência por todos nós. Teremos Luz para sempre e não mais precisaremos de suas jóias. - Sim, um dia Ela virá – diz o mago lá do fundo, com uma voz sarcástica. – Mas ainda não veio e você terá que correr bastante, menina Kir, pois as Sombras já estão caindo. Olho assustada para fora. O céu está em um roxo quase negro. A Escuridão está descendo. Corro pelas ruas vazias. Hat se segura o mais firme que pode. Um grito agudo rasga os céus. As Sombras estão caindo. Fortes, densas. Tomam conta de tudo. Aperto a jóia contra meu peito e ela emite uma tímida Luz azulada. Não será suficiente para me proteger até meu husze. A Escuridão está por todos os lados e os Iadbos das Sombras chiam e gritam. Continuo correndo; Hat mantém um silêncio tumular em meus ombros. Sem aviso, uma Sombra cai à minha frente. Salto para lado, mas outra criatura me cerca. Mais um e outros vários o seguem. São escuros, parecendo mantos mais negros que a própria Noite. Estou cercada. Hat solta pequenas faíscas e a Luz da Jóia começa a ser ofuscada. Um dos iadbos me puxa pelas pernas e caio. Aponto-lhe a pedra, mas sem muita 43

SAMIZDAT 5 - junho 2008 utilidade, pois ela precisa estar no Altar ou em um Cetro para emitir sua Luz. Vou sendo sufocada pelas Sombras que me cobrem. Vejo a energia prateada saindo de meu corpo, sendo engolida pelo iadbo. Não sei se quero ser um djin. E também não sei se quero ter minha essência totalmente absorvida pela Escuridão. Mas algo surpreendente acontece. O iadbo que sugou minha essência solta um chiado ainda mais terrível que os anteriores. As outras criaturas se afastam dele, quando feixes de Luz saem de sua boca, irrompendo numa claridade prateada, cada vez mais forte. Olho para minhas mãos e corpo. Estou irradiando. - Sou Luz!? As Sombras fogem de mim, chiando, gritando. Meu brilho estilhaça a escuridão. Reabsorvo minha essência e corro abrindo caminho na Noite; os iadbos se afastam e não ousam se aproximar. Quando finalmente chego a meu husze e fecho a porta atrás de mim, meu pai e mãe olham atônitos. Minha Luz invade o pequeno brilho da morada. Ofuscados, meus pais caem de joelhos: - Kir! – diz papai com a voz trêmula – Você é a Grande Jóia da profecia. Depois disto, ele me contaria sobre como lhes fui entregue pelos Gons*, a fim de cuidassem de mim até revelar minha Luz. Agora, uma única parte da Profecia me inundava a mente e eu me perguntava se estaria pronta para entregar minha Essência Vital para libertar nosso mundo das Sombras. Isto, só o futuro poderá dizer.

Glossário
*Marquiteto = mago arquiteto e necromancer *Huszes = casas *Missur = forma de tratamento para os marquitetos *Julufan = espécie que lembra um elefante ou mastodonte *Iadbo = Criatura de sombra. *Gons = Antigos seres da Luz 44

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HERANÇA MALDITA
Contos
Dona Amélia estava nas últimas. Suspirava e torcia o rosário nas mãos ossudas e deformadas. cozinha. A cozinheira mexia a canja no caldeirão:-Dona Isaurinha, sua madrinha de hoje não passa, está por um fio, melhor chamar o padre. Giselle Natsu Sato

Há oito semanas repousava na cama cheirando a lavanda. As empregadas lavavam várias mudas de roupa por dia, - Tanto sofrimento, coitada da dinda, lençóis brancos, camisolas de cambraia de linho bordada em ponto cruz, enxoval tão boa e caridosa, mal cheguei ela caiu vindo de Lisboa nos tempos áureos da doente. fazenda Oliveira. -Uma pena a senhora ter vindo de tão longe, mal colocou os pés na fazenda e A pretinha espiava da porta, queria ser a primeira a dar a notícia. A velha não sinhá ficou deste jeito. morria e a menina voltava triste para a 45

foto: http://www.flickr.com/photos/beija-flor/47276855/sizes/o/

SAMIZDAT 5 - junho 2008 - Ela mandou me buscar só para me dar esta herança. Vês este anel? É uma jóia de família, minha boa madrinha quis me entregar em vida, estava tão feliz e animada. - Já te disse para ir procurar o velho Bento, ele cura toda gente, quem sabe cura sua madrinha? -Não gosto destas mandingas, sou muito católica, prefiro meus jejuns e novenas. -E ela vai ficar boa? -Vai sim senhora. -Estás a brincar ? Não vês que estou desesperada? Ai que má idéia. Mando te surrar até arrancar teu couro. -Bem vejo que puxou sua madrinha. -És muito atrevido velho vou me queixar da tua audácia.

-Não carece, vou ensinar o que a senhora precisa. Mas vai depender da -Então não venha se queixar que não sinhazinha ter coragem de fazer o que fez tudo que podia para salvar a pobre deve ser feito. sinhá. - E o que é? Diga que eu faço, anda logo que não tenho o dia inteiro. Isaura queria ter coragem para ajudar a pobre moribunda. Sentia-se culpada por não fazer esta última tentativa. O velho Bento ensinou um feitiço muito simples. Colocar uma raiz forte em uma gamela virgem, cobrir com leite quente Angustiada, decidiu ia ver o tal e um pouco do sangue da donzela e a preto velho que sabia todo tipo reza e doente será curada: garrafada. -Que beleza de anel a senhorinha está Andou ligeiro no passinho apertado, usando! meio corrido, o sol a pino queimando - Esta jóia? Tire este olho grande que sem dó. Na pressa havia esquecido a vale uma fortuna. sombrinha. -Estou só admirando a beleza da pedra, Bateu palmas na frente do barraco e muito bonita, vá depressa sinhorinha. ouviu a voz do velho mandando entrar: - Entre Dona Isaurinha, estava a sua A mocinha nem se deu ao trabalho espera. de agradecer o velho. Não notou que ele tinha uma expressão maliciosa e os olhos Isaura sentia-se enojada .Um cômodo brilhantes. acanhado e humilde, o chão de terra batida limpo e o velho muito idoso sentado Voltou para a casa grande gritando em um banco baixo. com a cozinheira e providenciando todo o material. A imagem de São Benedito e Santo Antônio na mesa tosca cercada de velas Sabia que quando a velha senhora conferiam um aspecto mais fúnebre ao ficasse sabendo quem a havia curado lugar: - Vim saber se o senhor pode ajudar cairia de amores pela afilhada e a cobriria a madrinha que está nas últimas de ouro e prendas. -Posso sim senhora... Meia noite em ponto foi para o quarto da madrinha.

46

www.samizdat-pt.blogspot.com A raiz de gengibre tinha as formas quase humanas, exatamente como havia sido instruído pelo velho. -Com esta são quatro inocentes, dizem que ela tem mais de cem anos.

-Quatro vezes ela barganhou com No último momento obrigou a a morte. Pensar que até as filhas ela cozinheira a servir de companhia:- Dona enterrou para ficar aqui tomando conta Isaurinha, a senhorinha tem certeza? destas terras. Cruz credo. Não se deve mexer com estas coisas, eu A casa grande já estava toda iluminada, tenho medo... as mulheres afobadas tratando da -Larga de ser besta que é para a arrumação do velório no salão principal. saúde da madrinha. Vamos começar Dona Amélia escolheu o melhor vestido rápido, abra a janela para a lua clarear para a afilhada. Tirou o anel da mocinha bem o quarto. e colocou no próprio dedo, admirando o A moribunda gemia baixinho Isaura enorme rubi vermelho sangue. ajoelhada ao lado da cama, fez um Tocou com doçura o rosto da morta. talho fundo na palma da mão esquerda Isaura aos trinta e cinco anos, virgem e deixando o sangue escorrer na cabaça. pobre não tinha família para reclamar a Sentiu uma dor aguda no peito e ausência. imaginou que fosse nervoso. Na alcova Ajeitou os cabelos e pensou nos cinco a velha se mexeu e resmungou o nome anos que ainda tinha pela frente. da afilhada. Foi a última coisa que Isaura ouviu antes de cair morta aos pés da O dia estava clareando quando o madrinha. padre chegou do vilarejo acompanhado Dona Amélia deu um longo suspiro e por várias famílias para rezar as novenas e velar a defunta. ajeitou o corpo cansado. A cozinheira correu para amparar a patroa:- Esta deu trabalho sinhá, custou convencer a danada a procurar o velho Bento Mais uma desgraça na Fazenda Oliveira. No povoado diziam que era uma Maldição de Sinhá Amélia.

- Deixe a defunta aí e vá enterrar o Ainda que não acreditasse em tais feitiço antes que o leite esfrie, você já boatos,o bom cristão benzeu-se e rezou sabe o que fazer. uma Salve Rainha antes de apear da carroça. A cozinheira correu para o antigo cemitério de escravos. No canto afastado o preto velho havia cavado um buraco fundo e esperava a gamela:- Desta vez quase não deu tempo. Tive dó da menina. Isaurinha parecia uma noiva, toda de branco, um buquê de rosas brancas entre as mãos entrelaçadas. A madrinha em luto pesado ocultava com o véu o frescor e as faces coradas. refeita e bem

Completamente -Enquanto a malvada tiver parenta disposta. para vir fazer troca ela não morre tão cedo.

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SAMIZDAT 5 - junho 2008

TERRA ESTRANHA
Contos
José Espírito Santo
“Se não te vi e não reparei, foi apenas por não permaneceres comigo o tempo suficiente.”

I

A nave prosseguia veloz, rodopiando sobre o eixo, cortando espaços, preenchendo com o corpo metálico em forma de disco um trajecto previamente programado. Na altura certa, sem mais nem menos um milésimo de tempo, “Ide em paz, que o Deus Bola vos chegaria ao solo e estabeleceriam proteja” Disse a voz do velho, erguendo contacto com toda a suavidade que a bem alto o apêndice - espécie de mão (alta) tecnologia tornava possível. direito. Chegaram sem grande surpresa. A convocatória chamou toda a equipa para a reunião na sala oval. Dispensados grandes formalismos, reuniram-se os escolhidos e, em silêncio, juntaram-se 48

corpos, colocando-se as mentes em sintonia. Um único objectivo, que era claro: efectuar as derradeiras verificações de modo a prevenir falhas. A incumbência do pequeno grupo era vital, da maior importância para a comunidade.

O tempo observou-os com dolência enquanto seis corpos verdes saíam, protegidos por fatos especiais, iniciando incursão num meio desconhecido e potencialmente adverso. A equipa, sendo

foto: http://www.flickr.com/photos/snarl/42744921/

www.samizdat-pt.blogspot.com pequena mas bem qualificada, possuía Arriscaram arriscar para, ao subir, tudo o que era necessário: Dois soldados, deparar com um cenário ainda mais quatro chefes, um navegador, um médico, estranho: a superfície lisa e transparente. um cientista e um linguista. Ao fundo, muito ao fundo, imagens enormes alternavam e espalhavam O silêncio era interrompido apenas recortes de cor. Lentamente, muito pelo diálogo mental contínuo, interior lentamente - permanecendo cada por e omnipresente “Que iriam encontrar? umas boas cem unidades de tempo. Seriam os indígenas hostis ou amigáveis? Poderiam fixar ali nova colónia?”. De II repente vieram à memória do primeiro Tinham passado três gerações chefe algumas experiências passadas, naquela terra que era estranha, sem falhanços passados. Destes, o pior fora dúvida, mas farta e generosa, por certo. O o desembarque na segunda lua de Tritan. novo lar fornecia sem qualquer renitência Se nada permitiria prever os problemas ou hesitação o ar, a água e os alimentos. também é certo que não tinham tomado Sem encontrar quaisquer outros viventes todas as precauções. Resultado: um e não conhecendo diferente vida animal terço dos efectivos mortos, milhares com (hostil ou amigável), a fixação da colónia invalidez permanente. Após o descalabro fora fácil e bem sucedida. das batalhas tiveram de assumir a derrota e bater rapidamente em retirada. III Decorridas quinze mil unidades de tempo, após muito calcorrear chão igual, sempre branco e duro e liso, encontraram o primeiro obstáculo. Era um objecto grande e alto, de cor castanha e com um formato rectangular. “Um momento. Como deparamos com um artefacto alienígena e potencialmente perigoso, vamos parar e conferenciar. Comunicarei com a base e então decidirei o que fazer em seguida” Disse o primeiro chefe ao segundo, o qual disse “Alto. Devido a um perigo potencial, vamos parar aqui” ao terceiro, que por sua vez disse “Atenção. Ninguém avance, pois parece haver perigo eminente” ao quarto, o qual se limitou a dizer “Atenção soldados. Vamos parar um pouco. Depois, quando retomarmos a marcha, serão pedidos dois voluntários.” Era necessário tomar uma decisão. As escolhas não eram muitas. Poderiam ignorar a coisa, limitando-se a contornar o enorme artefacto ou, em alternativa, optar por escalar, subir ao cimo e obter mais informações. Como quase sempre acontece, o dilema que se colocava era entre arriscar ou ficar… Inês tinha chegado da escola, estava ainda de uniforme e com a sacola no ombro. Afundou-se na superfície do sofá de pele e estendeu as pernas. Á sua frente, a mesa de centro e a televisão. Na mão, o comando comprido e negro, cheio de botões pequenos. Sobre os azulejos brancos, no lugar onde deveria estar o tapete de arraiolos, arfando, o monte de pelo - pequeno Yorkshire. Premiu. “Você e Hiper-Centro, uma vida bem por dentro”. Premiu. “Agora, com Viagens-Fernandes, tudo o que sempre sonhou”. Premiu. Jardim dos amigos. Premiu. Genérico de série. Deixou ali, no canal com a série sobre o pobre diabo Paraguaio. Deu um salto ao ouvir o barulho da chave na fechadura, sinal de pai que entraria, voltando do trabalho. Derrubou a garrafa de Coca-cola, inundando em fracções de segundo o pequeno cinzeiro de vidro e destruindo toda uma civilização que nunca teria a oportunidade de conhecer. Desde o momento inicial da descida tinham passado exactamente três minutos e vinte segundos. 49

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A CAMINHADA
foto: http://www.flickr.com/photos/binux/532976077/sizes/o/

Contos

Pedro Faria

A Avenida se estendia à minha frente. Continuei olhando. Queria ir embora, Eu não tinha opção a não ser caminhar. continuar andando e acabar logo com aquilo. Mas não podia. Comecei a andar, e logo na esquina à minha esquerda, vi um garoto. Deveria ter As formigas continuaram escalando o uns dez anos. Estava sentado no chão, braço do garoto. “Não são bonitas?”, ele encostado num poste, e observava duas continuava repetindo enquanto seu corpo formigas caminhando por seu braço. era invadido por milhares de formigas, até que ele se tornou apenas uma silhueta negra, e sua voz ficou abafada pelos - Não são bonitas? -, ele perguntou. insetos. Eu não disse nada. Não podia dizer nada. Apenas o olhei, melancólico. - Não são bonitas? -, perguntou ele de novo. Mais formigas subiram em seu braço. 50 Passaram alguns segundos, e o corpo dele explodiu, as formigas haviam entrado por seus orifícios e o entupido. Os insetos se dispersaram rapidamente, e apenas uma mancha vermelha ficou na calçada próxima do poste. Continuei

www.samizdat-pt.blogspot.com caminhando. certo momento, sua cabeça foi lançada repetidamente contra a vitrine, até que Andei, e logo vi a mulher. Ela estava seu pescoço quebrou. Eu vi então, num nua, acorrentada a um carro. Estava relance, alguns dos homens invisíveis, encolhida, e gesticulava como se alguém mas não reconheci nenhum deles. Não me importei muito com essa cena. a ferisse. - Não, por favor, pare. Eu não agüento mais. Finalmente avistei o cruzamento, e fui em direção à ele.

Na esquina eu vi a mim mesmo, Suas costas estavam marcadas por arranhões. Cada vez que ela gritava de sentado encostado em um poste, com uma seringa enfiada no braço. dor, novos ferimentos apareciam. Ela me viu. - Por favor, senhor, faça-o parar, por favor. Balancei a cabeça. Não pude dizer nada. A seringa estava cheia de insetos. - É assim que você acaba. É assim que você acaba. É assim que você acaba.

Tentei tapar os ouvidos, mas não pude. Vi o meu fim e então lembrei de minha - Pelo amor de Deus! -, ela gritou. vida. Lembrei de meu irmão, morto ao cair em um poço ao seguir uma trilha de Então o golpe final veio, e seu crânio formigas. Lembrei de minha mãe, morta abriu-se em dois. Seus olhos estavam por meu pai bêbado. Lembrei de meu pai fixos em mim quando aconteceu. Queria também, morto numa briga na prisão. desviar o olhar, mas novamente não pude. Principalmente, lembrei de mim, de minha última dose, que me trouxe para Apenas continuei andando. cá. Não queria mais andar, queria parar, sentar no chão e ficar ali mesmo. Mas não podia, tinha que acabar aquela Avenida e chegar à próxima. Andei até chegar à uma vitrine, do meu lado direito. Nela, estavam pintadas barras negras. Lá dentro, um homem estava sendo espancado por homens invisíveis, como a mulher acorrentada. O homem não dizia nada, apenas aceitava a surra. Cortes apareciam em seu rosto, assim como hematomas. Num 51 - É assim que você acaba. Sim, é assim que eu acabei. Passei pelo meu corpo, a agulha ainda enfiada no braço, e virei à esquerda, sabendo o que me esperava. A Avenida se estendia à minha frente. Eu não tinha opção a não ser caminhar.

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ENTREVISTA
COM
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O COVEIRO

Contos

Alian Moroz

Vi uma aglomeração logo abaixo na Entrei silenciosamente pelo portão principal do cemitério da Água Verde sem quadra 45 e percebi que estavam retirando ser notado por ninguém; vivo ou morto! um caixão de seu “lugar”. Aproximei-me. Estava ali para fazer mais uma reportagem para o jornal do bairro. Durante esse Sombra: Bom dia! tempo, eu usei o codinome Sombra. Dava um charme, sei lá. Bem, ao entrar, Coveiro: Bom dia! percebi várias flores e vasos espalhados pelos túmulos e capelas de famílias Sombra: O que estão fazendo? abastadas; visto ser o tal cemitério lugar para mortos ilustres da cidade de Curitiba. As flores eram agonizantes em sua morte Coveiro: Exumação! prematura, pois foram cultivadas para esse tento. 52

www.samizdat-pt.blogspot.com Olhei para dentro da cova, foi quando mesmo... recebi um ar quente com um cheiro ao qual jamais pude presenciar. Notei o Sombra: Ok Obrigado então pela esquife praticamente podre e dentro do conversa... Qual sua graça? que restava dele jazia um corpo vestido com o que parecia um terno. Os olhos do Coveiro: Como? morto estavam arregalados e carcomidos por baratas saindo às pressas ante à luz Sombra : Seu nome! que penetrava na tumba. Sombra :É comum isso? Coveiro: Nada. Mas pra mim é bom... Tem uns trocados a mais. Sombra : O impressionado? senhor não fica Coveiro: Natal... Sombra: (risos) Natal? Bem apropriado não? Temam pobres mortais, pois “Natal” está chegando...

Coveiro: Impressionado como? Ah com medo? Não (risos) já cansei de trabalhar à noite, sozinho. Sombra: O Senhor não tem receio dos fantasmas (risos)? Coveiro: ( risos) que nada... Tudo besteira do povo; é o melhor lugar para se trabalhar..calmo e tranqüilo (pleonasmo?). Sombra: Mas já aconteceu de o senhor se assustar? Coveiro: (risos novamente) Ah, teve uma vez que um cachorro vira-latas entrou aqui e de noite ele pulou de cima de uma das capelas... Ele era branco... (risos) fiquei esperto “né”! Sombra: Ok...posso levar alguns desses vasos de plástico aí? Minha esposa está com mania de plantação agora... Coveiro: Ah pode levar sim... tem problema não...vai tudo para o lixo

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TRADUÇÃO

UNICÓRNIO PERD
Slavko Zupcic Slavko Zupcic
Trad.: Henry Alfred Bugalho Trad.: Henry Alfred Bugalho Para Ana Bella Guillén Nunca pude observar como havia chegado seu estojo envolto em papel de presente ou num pano de fina seda. Certamente, sempre esteve ali, sua caixa negra revestida internamente de seda vermelha, perto da biblioteca de casa, na mesa posta ali apenas para sustentá-lo. Algo natural e certo como as poltronas da sala de estar, ou como o retábulo russo da Virgem no quarto de minha irmã, mas maravilhoso e imponente ao mesmo tempo. incomparável fabricante de violinos, n. em Cremona (1644?—1737)”. Dois ou três anos mais tarde, começaram os estudos de violino no Conservatório. Recebia aulas dum ancião polaco de sobrenome Sienkewicks com outro violino, bonito também, mas nunca como o magnífico Stradivarius de casa. Era uma pena não poder levar nosso tesouro ao Conservatório e ter de fazer os exercícios de precisão com o pequeno Guarneri de minha tia. De qualquer modo, o professor Sienkewicks pôde conhecê-lo assim que concluídas as aulas do curso Deve ter sido depois, após três ou primeiro. quatro ano de estadia vigiada por mim na biblioteca de casa, que me foi concedido Ainda me lembro seus braços o privilégio de desvelar o conteúdo do erguendo-o, segurando-o. Sua barbicha misterioso estojo e segurar em minhas afixada na madeira de cedro. E me lembro mãos o violino Antonius Stradivarius, de sua voz. Cremona, feccit anno 1731. Se alguma vez havia sido apenas um móvel de — É tão suave. Não faz falta uma respeito, dez vezes maior do que um livro, espaleira para tocá-lo. mas muito menor que um piano, agora de tratava dum Stradivarius guardado Entretanto, suas mãos acariciavam as religiosamente no estojo de couro cordas lentamente, um pouco antes de negro que eu limpava todas as tardes procurar o arco na parte superior do estojo com pano azeitado, não importando e começar a tocar, repentinamente, os que eu não soubesse, na verdade, o mais belos compassos de Mendelssohn significado de seu nome. Logo, uma de seu Concerto em Mi menor. enciclopédia esclareceria tudo para mim repentinamente: “Antonius Stradivarius, 54

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DIDO EM JANEIRO
Sua visita marcou o início de minhas apresentações. Cada vez que, depois desta noite, chegava alguma visita em casa, minha irmã me convidava a tocar violino no meio da sala. Eu caminhava lentamente pelo corredor rumo à biblioteca, abria a porta do cômodo, acendia a luz sempre à esquerda, alcançava a mesa de mogno e me detinha por cinco ou dez segundos contemplando o estojo. Retirava cuidadosamente o pano que o cobria, dobrava-o com calma, abria a fechadura com a chave que me havia sido entregue previamente e alçava o violino. Uma voz soava no cômodo ao lado, eu saía cerimoniosamente da sala e a visita respondia, surpreendida: — Um Stradivarius, um Stradivarius. Era como se nenhuma outra coisa no mundo importasse além do maravilhoso troço de madeira que minhas mãos carregavam. Logo se aproximavam lentamente, sem se atreverem a tocá-lo. Para mim, bastava tocar duas ou três peças e pronunciar logo algumas palavras. — Antonius Stradivarius nasceu em Cremona... Foi num momento como este, cinco anos depois da primeira apresentação, que um dos visitantes, por acaso engenheiro musical, levantou-se de seu assento e se atreveu a tocar com suas mãos o violino, antes de pronunciar a terrível sentença. — Não é um Stradivarius. É uma imitação. Isto antes de explicar que a madeira do tampo não era de faia, nem de bordo, e outras coisas que preferi me esquecer, simplesmente porque a partir deste dia, apesar de o violino, seu estojo e a delicada chave dourada me terem sido entregues definitivamente, nunca voltei a ser chamado para tocá-lo na sala, nas horas de visita. Fonte: Ficción Breve Venezolana Sobre o Autor Slavko Zupcic (Valencia, 1970) é um psiquiatra e escritor venezuelano. Praticou vários gêneros literários. Entre suas obras, destacam-se a dramática evocação da figura paterna em Dragi Sol, o tom escatológico da noveleta Barbie e as peripécias duma peculiar detetive em Giuliana Labolita: El caso de Pepe Toledo. Seus contos constam em diversas antologias de contos venezuelanos e latino-americanos. Fonte: Wikipédia 55

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TRADUÇÃO

TENTAÇÃO TENTAÇÃO
Florencia Abbate Florencia Abbate
Trad.: Henry Alfred Bugalho Trad.: Henry Alfred Bugalho

E E

Quando tocar-se está proibido
A vulnerabilidade da pele gerou, ao longo da história, um volumoso caudal de conselhos para se evitar problemas. Assim, por exemplo, o bispo Francisco de Sales – tencionando resguardar os divinos preceitos do dogma de excessos epidérmicos - sustentou que os corpos humanos se parecem com cristais: “Não podem ser transportados juntos porque, ao se tocarem um com o outro, correm o perigo de se quebrarem". Durante a Antigüidade, Aristóteles havia se ocupado de recomendar temperança e respeito: “O exato ponto médio em relação a todos os prazeres do corpo". No entanto, esclarecia que, dos cinco sentidos, o
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PECADO PECADO

www.samizdat-pt.blogspot.com único realmente preocupante é o tato. Não acreditou exagerado afirmar que o homem se rebaixa a animal se se abandona sem reflexão aos gozos da pele. O cauteloso Sócrates falava do risco de se fazer acompanhar por um belo jovem, “aranha venenosa, cujos beijos reduzem a escravo quem os recebe”; o poder da pele é tal, ele acreditava, que pode chegar a nos transformar em seres “sem vontade, nem senso crítico". Piscadelas sobre a bochecha, um roçar de lábios gelados, mordiscadas ou a inquietante sutileza de dois esquimós que friccionam, rapidamente, os narizes; como controlar todos estes atos, gestos, contatos que integram o infindo catálogo de experiências táteis? Opulento cenário, a pele se apresenta como uma incontestável evidência da força e da fragilidade de milhões de corpos lançados ao caos: Chocar-se, afetar-se... outra parte fora – lhes responde que não, a não ser que incorra no erro de falar com um vizinho. Afastadas da agitação urbana, cercadas por véus e vestidos ásperos, as esposas de Cristo eram condenadas a aplacar a sensibilidade da pele como se se tratasse dum estigma. Em 1670, havia 87 monjas gerônimas com um exército de mais de 200 serviçais e escravas. Não por acaso, as lacaias, índias ou mulatas, se chamavam “mães de amor”. Entre outras coisas, essas mulheres – que entravam e saiam do convento e para quem pele com pele não era acompanhada por remorsos lutuosos – costumavam ser as encarregadas de dar banho nas irmãs. Suavemente, elas as introduziam na mornidão da água perfumada com ervas e ensaboavam seus corpos, não sem se deterem a acariciar com pérfida ternura zonas muito suscetíveis. Durante estes banhos, as monjas deixavam de ser monjas e se metamorfoseavam em damas de belos seios, desejáveis coxas e guaridas cheias de surpresas. Fontes da época relatam que, numa ocasião, a madre superiora, para fechar o rito com chave de ouro, ousou solicitar a uma criada que a golpeasse até que um líquido opaco escorresse por entre suas pernas. De todo modo, o caso de maior repercussão não foi este, e sim o da irmã Tomasina, que, desde menina, havia sofrido todo tipo de padecimentos devido a sua incrível beleza. Sua mãe sentiu inveja ao descobrir, precocemente, os sedutores dotes de sua filha e optou por encerrá-la num obscuro monastério. Ela conseguiu fugir e se casou com um senhor cuja riqueza merecia ser equiparada, em magnitude, a seu ciúmes: ao morrer, dom Franciso Pimentel deixou à viúva uma grande herança, mas estipulou que ela só poderia recebê-la com a condição de se tornar monja. Quando a abastada 57

Marcas sagradas
Agora, imaginemos um lugar rigorosamente projetado para que a pele não experimente intensidade alguma. Estamos no século XVII, e o convento de São Gerônimo ocupa uma mansão inteira. Trata-se duma imponente fortaleza murada, no meio da cidade. Fora, respirase o ar; dentro, estrita clausura. Nenhum homem tem acesso ao interior — nem bispos, nem jardineiros, nem nobres, nem inquisidores. O acesso havia sido vedado até aos costureiros das monjas, que se vêem obrigados a lhes tomar as medidas para os hábitos olhando-as desde a portaria. O sacerdote lhes dá a comunhão através duma pequena janela, donde só aparecem suas bocas abertas. Quando uma delas pergunta se é pecado subir ao telhado e vislumbrar a rua – deixando assim parte do corpo dentro e

SAMIZDAT 5 - junho 2008 Tomasina chegou ao convento, soube que, desde algum tempo, as esposas de Cristo se diziam consternadas com a visita do fantasma dum clérigo ao lugar: Parece que ele surgia diante das mais bonitas e lhes pedia que orassem para que ele pudesse escapar do purgatório. Certa noite, Tomasina dormia em sua cela e, subitamente, o cavaleiro espectral se materializou diante de seus olhos. Sussurrou-lhe ao ouvido seu pedido e, por ela ter se recusado, impelido pelo desespero, ele a tomou bruscamente nos braços. Tomasina lançou um agudo grito de dor e êxtase, uma obscura e imediata resposta de exasperada violência, o som duma ensurdecedora defloração erótica, ou da queda num profundo abismo místico. Ocupemo-nos, por um momento, em apresentar o que as demais monjas, que vieram apressadas e, sem dúvida, aterrorizadas, descobriram ao ver a até então imaculada pele do braço de sua companheira: a impressão dos dedos do clérigo havia ficado marcada a fogo em sua epiderme. E por esta inapelável prova de gozo absoluto e abjeto, Tomasina considerou que devia pagar com sofrimento: seus autoflagelos foram desde deitar-se vestida sobre tábuas até cobrir seu corpo com cilício, ou pôr nos sapatos pedras e cravos. Como desconheciam a sensação duma pele masculina fundida na própria, suas companheiras nunca conseguiram explicar o porquê de, a partir daquele dia, o braço de Tomasina ficou paralisado.

Êxtase de Santa Theresa Mesmo que concordemos que isto não foi um milagre, e sim o resultado duma vívida fantasia onírica, podemos comprender que, impactada, ela não tenha desejado contar o segredo em confessionário algum. Há um ponto no orgasmo que seguramente pertence à dor e à morte que engendra a vida. Quem tem o contato proibido adentra o prazer por caminhos alternativos. E isto porque o desejo da pele, impetuoso, astuto, sábio, aprende, se preciso for, a escrever certo por linhas tortas. Publicado originalmente em Latido

SOBRE A AUTORA
Florencia Abbate nasceu em Buenos Aires em 1976. Licenciada em Letras pela Universidad de Buenos Aires - UBA, periodista cultural e autora dos romances "El Grito" e "Magic Resort". Fonte: Wikipédia 58

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Autor Convidado
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TRÊS INCISÕES NO MEU DIA

Erik Kurkowski Weber
Ele veio até mim, e disse: "Amigo, você não tem cabelos"; eu respondi, "Como você sabe, você é cego". E ele, colocando a mão na minha cabeça, "Sim, mas eu estou com a mão na sua cabeça". E eu, "Isso não é uma mão de verdade, é uma prótese". Ele foi embora resmungando, "Perdão, perdão, eu só quis iniciar uma conversa".

Eu disse à ela, "Se você fosse noventa anos mais nova, não precisasse de um enfermeiro carregando um tanque de oxigênio ao seu lado, não andasse nessa cadeira de rodas motorizada, acho que teríamos sido um bom casal". E também, "Ah, e claro, se sua irmã siamesa não fosse canibal. Claro". Ela riu enquanto a irmã mordiscava uma de suas orelhas.
Peguei o controle remoto e mudei de canal, erroneamente: nada aconteceu. Verifiquei as pilhas, mas elas estavam funcionando. Apertei os botões mais algumas vezes e nada. Fui até meu carro e peguei outro controle e tentei abrir a porta da garagem, mas ela também não abriu. Entrei em depressão e fui até meu quarto. Duas horas depois ouvi a notícia, que um ônibus espacial da NASA estava sendo afetado por ondas de rádios vindas de meu bairro. Ri muito, até saber que a trajetória tinha sido deslocada e que a espaçonave agora se dirigia ao sol. Peguei os dois controles, na esperança de reverter isso. Apertei os botões e nada. Entrei em depressão e fui dormir. Na manhã seguinte ouvi no rádio a notícia que duas bombas nucleares haviam devastado um país de terceiro mundo.

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Teoria Literária

ARTE OU COMÉRCIO?
Henry Alfred Bugalho
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LITERATURA:

Esta questão, nem de longe incomum nos meios literários, é por si só enganosa, uma pergunta viciada, isto por duas razões principais: a) não devemos, necessariamente, considerar Arte e Comércio como pólos excludentes; b) não possuímos definições apodícticas sobre o que é Arte, por isto, é complicado saber se determinada produção é ou não Arte se nem ao menos sabemos o que isto significa. Fomos condicionados a dividirmos e organizarmos o mundo em categorias e sob determinados rótulos. Como se fosse simples realizar esta tarefa, como se não existissem, geralmente, limites não muito definidos, zonas acinzentadas entre o preto e o branco, territórios difusos. A pergunta proposta exemplifica a complicação que é patinar entre dois conceitos que, por vezes, se mesclam.

O que é Arte?
O que entendemos por Arte já passou por tantas transformações e renovações — conjunto de técnicas, entre os gregos; o que expressa o Belo, para Hegel; um juízo sem conceito, para Kant; o que causa determinadas sensações estéticas nos receptores, e assim por diante — que mal teríamos condições para definir quais delas melhor se aplica ao objeto dito artístico. Podemos dizer que esta incapacidade é o legado, e a maldição, das vanguardas modernistas do século XX. Ao tentar ampliar os limites da Arte, os modernistas eliminaram qualquer possibilidade de se falar sobre Arte. Por isto, tentaram transferir do observado, i.e. obra de Arte, para o observador a responsabilidade sobre a existência da Arte. Obviamente que isto cria uma série de outros problemas, pois, supondo que jamais existe unanimidade de juízos estéticos, uma obra seria Arte para uns, mas não para outros, ou seja, não resolvemos nada.

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O que é Comércio?
Enquanto precisamos recuar diante do conceito de Arte, ou fingirmos que o entendemos sem a necessidade de explicações, definir comércio já é bem mais fácil e inquestionável: o ato de troca de determinado produto, mercadoria, serviço ou valor por outro produto, mercadoria, serviço ou valor, com a finalidade de obter lucro. O comércio não surge com o capitalismo, mas é radicalizado por ele e pela sociedade industrial. Seria muita ingenuidade nossa pressupor que todos os artistas da Antigüidade criavam altruisticamente, sem a necessidade de sustentar suas famílias, seus lares, pagar suas contas ou dívidas. Aliás, esta é uma tendência generalizada, de idealizar o artista como uma criatura supraterrena, que não come pão, não dorme, e que convive com os demais seres humanos apenas incidentalmente. Este mito foi criado, em parte, pelos próprios artistas, e perpetuado como uma verdade. O que ocorreu de fato foi apenas uma mudança na conjuntura história. Anteriormente, o artista não precisava vender o resultado de seu trabalho, pelo menos não como o artista de hoje, mas atuava como um vassalo da Igreja ou da aristocracia. Eram remunerados e sustentados por seu senhor e, deste modo, terminavam por vender, mesmo que dissimuladamente, seus serviços a certa classe social.

O Advento do Romance Moderno
No entanto, se acompanharmos o percurso da Literatura Ocidental, constataremos que o surgimento do romance (novel) na Inglaterra anda de braços dados com a dominação mercantilista e com o comércio. Por exemplo, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe: o protagonista é um rapaz que abomina o simples pensamento de se tornar um indivíduo de classe média, por isto, decide viajar o mundo como mercador, acumular riquezas, e voltar para sua terra numa nova posição social. O naufrágio e os anos de isolamento numa ilha são apenas um revés para o Robinson Crusoé. Ele é resgatado, mas nem assim desiste de seu intento, retorna ao mar para cumprir sua meta. O romance é a própria expressão da nova 61

SAMIZDAT 5 - junho 2008 relação entre o homem e o capital, a busca frenética pela aquisição de bens. E Robinson Crusoé foi, por sua vez, um livro boas vendas em seu tempo. Este novo tipo de romance, que se afastou dos princípios e da temática do romance de cavalaria, era uma literatura voltada para a classe burguesa ascendente. É a este leitor ávido por capital, mas também sequioso por adquirir bens culturais, de modo a se assemelhar à decadente aristocracia, que obras como as de autores ingleses — Defoe, Henry Fielding, Walter Scott, Dickens — , ou na França, de Alexandre Dumas, Balzac, Flaubert, Vitor Hugo, se destinam. Não nos iludamos, tais autores, não mais sob proteção dum senhor feudal, ou de algum outro tipo de soberano aristocrata, tinham de ganhar seu sustento à base da venda de seu trabalho, literário ou não. A proliferação dos folhetins foi a oportunidade, para muitos, de adquirir fama e fortuna, ou seja, na gênese do romance moderno está vinculada a capitalização e a compreensão do livro enquanto produto.

A Intersecção
Agora, suponhamos que entendamos o que seja Arte e tentemos relacioná-la com o comércio. Muitos escritores tendem a pensar estes dois conceitos em oposição, ou melhor dizendo, qualitativamente. O que vende é popular; o popular é simplório; portanto, o que vende é simplório. Temos um juízo de valor que atribuir qualidade ao produto (cultural) destinado às elites, aos poucos capazes de compreendê-lo. A questão nem chega a ser se um é mercadoria e outro não; ambos, tanto a obra de arte do populacho, quando a da elite são, sem dúvida, mercadorias, posto que são produzidas por instâncias que visam lucro e que possuem um valor de mercado. Para ser mais claro, o livro possui um preço e uma valoração qualitativa. O preço é constante, mas a qualidade varia de acordo com os exemplares vendidos, quanto maior a vendagem, mais simplória, mais adequada à mente do leitor do populacho é a obra, isto se radicalizássemos esta perspectiva. Mas logo surgem as inúmeras, incontáveis, exceções, de autores canônicos que, mesmo após séculos, continuam vendendo bem — o Google realizou uma pesquisa recentemente sobre quais eram as obras mais procuradas na internet, a listagem obtida nem de longe coincidia com as listagens de best-sellers veiculadas pela mídia, porém este resultado foi abafado pelas grandes editoras; outro caso é das editoras especializadas em publicação de obras canônicas, como a Penguin Books, que em suas estatísticas apresentam dados assombrosos de autores clássicos que possuem vendagem constante na casa das centenas de milhares de exemplares, muito mais, 62

www.samizdat-pt.blogspot.com às vezes, do que autores da moda —, ou de autores contemporâneos reconhecidos pela crítica, como ganhadores de Nobel, ou outros prêmios importantes. Quer dizer então que as obras de tais autores teriam seu valor qualitativo diminuído por causa das estatísticas de vendas? Talvez fosse muito mais fácil pensarmos numa dualidade, em dois conjuntos — Literatura e Comércio. No conjunto Literatura incluiríamos tudo aquilo que pertence ao domínio das Letras, obras canônicas e atuais, boas ou ruins, ficção e não-ficção; no conjunto Comércio teríamos tudo aquilo que pode ser comercializado, desde TVs, geladeiras, canetas e passando por livros. Nem tudo o que há no conjunto Literatura é comercializável, nem tudo que há no conjunto Comércio é Literatura, porém há uma intersecção nestes conjuntos, uma área onde encontramos obras literárias que possuem potencial mercadológico — canônicas ou não, ficcionais ou não, bem escritas ou não.

Considerações Finais
Parece ser da natureza humana mistificar a realidade, querer pintá-la com cores que não lhe dizem respeito. É esta a impressão que tenho quando se fala em Arte, na sublimidade de Belo, na intocabilidade do artista. Escrever é um ofício como outro qualquer e o escritor é um profissional como outro qualquer. É óbvio que, como em toda atividade criativa, paira um aura de fascínio sobre a gênese da criação, a inspiração inicial, mas, no fim das contas, o resultado esta em igual relação com o resultado de várias outras ocupações. Então, tentando responder à mal concebida pergunta inicial: “Literatura: Arte ou Comércio?” Os dois, ou nenhum, ou apenas um dos dois; no fundo, isto nem faz muita diferença mesmo.

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Microcontos

Carlos Alberto Barros
O SACI
Um pesadelo terrível: sonhou que tinha duas pernas.

REIS MAGOS Os quatro reis magos seguiam jornada pelo deserto em busca do messias. Exaustos, próximos a morrerem de sede, tiraram a sorte. Gaspar, Baltazar e Melquior beberam, comeram e seguiram caminho. Para trás, apenas os restos sem nome do primeiro mártir.

O MORIBUNDO
Quando a morte recostou-se no leito, encontrou o homem de braços abertos. A receptividade foi uma surpresa, não esperava tamanha acolhida. O moribundo não a queria, fingiu-se conformado. Quando teve a oportunidade, apunhalou-a pelas costas. Dia seguinte, notícia aos parentes: saíra da UTI, estava fora de perigo.

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Denis da Cruz
VIAGEM
Pedro nao gostava de viajar, pois achava que o banheiro de sua casa ficava muito longe.

José Espírito Santo
Telegrama
Pequim, 2008. Equipa chinesa campeã. Modalidade de tiro. Impossível reutilizar alvos femininos em muito mau estado.

PONTUAÇÃO

Entre as palavras de um texto corrido, perfilavam-se vírgulas sós e nuas esperando pelos derradeiros três pontos...

, , , ...
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Microcontos HÁ VAGAS

Volmar Camargo Junior

Leu nos classificados “Precisa-se de homem disposto a matar um desafeto. Pagase bem. Ligar para.......” — Agência de empregos, bom dia. — Estou ligando pela vaga. — Certo, senhor. Qual é o seu nome? — Fulano da Silva. — Temos um problema, senhor. — Qual? — A vaga é para matar o senhor.

SUBMISSÃO
— Depois de ti, quero tua mulher e tuas filhas. – disse, ofegante.

Henry Alfred Bugalho
ENGANO
Os bandidos ligavam desde o presídio. - Estamos com sua mãe! - Meus Deus! Vocês profanaram o túmulo dela?

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FÁBULAS BRASILEIRAS
Carlos Alberto Barros Quebra-barraco, Lacraia, Bola-defogo, Tigrão, Moleque-piranha, Créu, Mulher-melancia, Éguinha Pocotó... O que seria isso? Elementos de uma clássica fábula infantil? Personagens de algum romance de realismo fantástico? Seres mitológicos de uma civilização perdida? Creio que a última opção parece a mais próxima da verdade. Todas essas alcunhas, por sinal, de uma criatividade exuberante, são apenas parte da cultura funk brasileira. Mas, que dariam ótimos personagens, dariam! Não se pode negar. Imagine: Papai Bola-de-fogo sempre amou Mamãe-melancia, desde quando ela era só uma sementinha. O amor do Papai Bola-de-fogo era uma chama linda e eterna, Mamãemelancia era muito feliz ao seu lado. Dessa bela união, nasceram o Moleque-piranha, que adorava brincar na água da fonte e comer minhoquinhas, e a Menina Quebra-barraco, que era a mais bagunceira e deixava a casa de pernas para o ar.

Crônicas

O amor e a paz reinavam na bela família.Viviam felizes e em harmonia, até ninguém mais lembrar que existiam. Apesar da engenhosidade dessas personagens, acredito que não chegarão ao imaginário popular tal como Chapeuzinho Vermelho ou Os Três Porquinhos. Porém, não se pode ter certeza.

Lacraia, Tigrão e Éguinha Pocotó Pergunto-me: Quantas mais eram os bichinhos de estimação. Sempre personagens fantásticas surgirão nas muito alegres e saltitantes. fábulas brasileiras? Quais “estórias” esta e as próximas gerações ouvirão? O Bebê Créu foi encontrado perdido na floresta. Ele era bem espertinho: para Penso nas respostas e chego a me comer, velocidade cinco; no dever de arrepiar. Lembro do Lobo Mau... Que casa, velocidade um. medo! 67

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PARADISE,

Crônicas

MY ASS!

Henry Alfred Bugalho

O brasileiro parece possuir uma atração mórbida pela violência, ou melhor, esta é uma peculiaridade do ser humano — este fascínio pela desgraça —, mas em rodinhas de brasileiros isto se torna ainda mais manifesto. É quase impossível o assunto não surgir quando um ou mais brasileiros se reúnem.

Recife, e em até cidades que já foram consideradas como exemplos — Curitiba é uma delas —, a violência faz suas vítimas.

Quem ainda não foi assaltado, ou foi pego em meio a tiroteios, ou conheceu alguém que foi baleado, ou vítima de seqüestro-relâmpago, ou de qualquer Não podemos negar que isto se deve outro tipo de ato criminoso, atire a primeira ao estado calamitoso de segurança pedra. pública do país. Qualquer pessoa que habite grandes centros urbanos, seja São E isto se projeta na mídia, no cinema, Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, na literatura, na música. 68

www.samizdat-pt.blogspot.com A violência se tornou parte da vida cotidiana do brasileiro, assim como o desemprego, ou a dividazinha teimosa que consome as economias no fim do mês, ou como as epidemias de dengue no verão, ou a corrupção dos políticos. Talvez, para muitos, um Brasil sem violência é quase inconcebível, inimaginável. Fiz uma busca na internet, e a minha conclusão foi assustadora. Para não ficar enchendo-o com índices de mortes violentas e números de assassinatos, basta saber que, ao compararmos a maior cidade dos EUA — Nova York —, com a maior cidade brasileira — São Paulo —, o número de assassinatos chega a ser 20 vezes maior na “Terra Por ser um brasileiro no exterior, da Garoa” do que na “Big Apple”, ou comumente acabo me deparando com seja, estamos falando duma proporção perguntas curiosas sobre o Brasil. Sem de oitocentos para dezesseis mil dúvida, a grande imagem que estrangeiros assassinatos ao ano. Se extrapolarmos possuem do país é a do carnaval, das estes índices nacionalmente, podemos, praias, do futebol e da bossa-nova, com tranqüilidade, considerar o caso esta última ignorada pela maioria dos brasileiro como de calamidade pública. brasileiros, mas idolatrada pelos gringos. Foram justamente estes dados que apresentei ao tal dramaturgo numa Não há como escapar destas perguntas, deste mito carnavalesco criado conversa posterior. em torno do Brasil e, como brasileiro que se preza, minha resposta acaba sendo: — Engraçado, uma amiga minha ficou uma semana no Rio de Janeiro e “É, o Brasil é bonito mesmo, mas me disse que não é nada disto! — foi a resposta dele. muito violento”. E esta é uma constatação assombrosa para os estrangeiros, pois violência para eles é algo comparável à guerra de Iraque. Quando eles descobrem que, no Brasil, morrem mais pessoas ao ano do que em guerras, ninguém acredita. Pensam que é alguma ojeriza pessoal minha, que eu é que sou um indivíduo antipatriota. Há algumas semanas, numa conversa com um dramaturgo americano, surgiu esta discussão e ele retrucou, espantado: De fato, acho que ele tinha razão, uma semana é bastante tempo para se conhecer todas as mazelas e problemas dum país com vários milhões de habitantes, com a maior extensão territorial da América Latina. Se o meu interlocutor não fosse um senhor de quase oitenta anos, acho que eu incorporaria o bordão da juventude americana e encerraria o diálogo com: — Paradise, my ass!

— Nossa, sempre imaginei que o Brasil fosse um paraíso! Você não está Que, em bom e politicamente correto exagerando? português, seria: “paraíso, uma ova!” Isto me fez ponderar. Estaria eu Pelo menos, esta afirmação minha exagerando? se fundaria numa experiência um pouco mais longa de que uma semana... 69

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Poesia

PALAVRAS POÉTICAS
Carlos Alberto Barros

SONO Vem, sono. Vem E tira-me deste pesadelo real, Faz-me desfalecer em teus braços, Leva-me contigo para o teu mundo. Vem Com tuas vestes escuras, desnuda-me a visão, Sacia-me a fome com teu surreal alimento. Vem Para anestesiar-me do cotidiano doído, Para que eu diga que tive ao menos um sonho realizado. Vem E permita-me esquecer o frio. Molha-me a mente daquilo que falta em meus lábios. Vem, sono. Vem dar-me tudo isso E quantas mais inconstantes loucuras quiseres oferecer. Só não te esqueças, ao final, de conceder-me o mais importante: A tua ausência.

foto: http://emma.museum/info/images/i0154.jpg

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Poesia

CORDEL PÓSTUMO DE UM BULINADOR
Carlos Alberto Barros
Em tua via, Uma placa havia. Contramão, dizia, E eu não quis parar. Nesse dia, Com pavor, fugia Naquela bacia De tu te banhar. Nostalgia Era o que eu vivia. Tua pele macia Queria apalpar. Heresia Pensei que tu via, Mas, já lá na pia Estava a chamar. Todavia, Minha mente fazia Eu ter precavia E não descuidar. Porcaria! Como é que podia? De medo, em folia Tu te transformar? Só devia De ser fantasia: Tudo que eu queria, Era só pegar. Na alegria, De mansinho, eu ia, E tu só sorria, Já toda a pulsar. Putaria Da boca saía. Aquilo eu ouvia Sem nem me tocar. Que vadia! Com a navalha fria, Que nem cirurgia, Um golpe foi dar. Valentia E muita ousadia! Como te atrevia A vir me cortar? Percebia Que o sangue fluía, Meu membro pendia E eu a gritar. Já caía, E bem triste eu ria Daquela ironia Que fui me enfiar. Covardia! Minha mãe já dizia: “Filho, não confia... Tu vai te estrepar”. Insistia E bem já sabia Que burro eu nascia, Ia vacilar. Parecia Que era profecia. Tudo acontecia, E eu a lembrar. Fantasia, Que a vida fazia? E a hemorragia Sem nunca estancar? Só sentia Que, aos poucos, morria. E ali eu jazia, Sem mais bulinar.

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LABORATÓRIO POÉTICO II
Volmar Camargo Junior

Preciosa prece
Se todo meu pesar pelo passado Passasse para sempre para longe Parasse para ser o que foi hoje No ontem que ficou desmantelado. Desvios no caminho são sinceros Cincerros que secretam confidências. Confesso que carregam minhas ânsias Anseiam meus encargos mais secretos. Seria mais um dia sem surpresas Surpresos estariam os meus dias Se fossem pois passados sem sossego. Cansaço que se cesse esse serviço Fracasso esse só me esvazia O apreço dessa preciosa prece.

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Conseqüências
O homem, frustrado, Bateu na mulher, nas crianças e no cachorro. A mulher, revoltada, Bateu nas crianças e no cachorro. As crianças, impotentes, Bateram no cachorro. O carteiro, com a calça rasgada, Teve de ser vacinado contra a raiva.

O ser
Ser não é mais o que era. É parecer o que não será. Ser é mais que ser. Ser é mais que o ser. É sempre um não a si, E sempre um sim ao não. É um eu que não sabe ser-se. Tudo o que se pode ser, Talvez, de uma só vez. É o ser que é. Esse eu não quero ser. Quero, não sendo, ser. Enternecer-me pelos seres. Ser eu, não eles.

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Poesia

Marcia Szajnbok Marcia Szajnbok

Sussurra o anjo: - Olha! Ouve! E o olhar pousa obediente e a escuta de uma voz se faz... A vida passa, estranha e imprevista Destino e desejo se compõem Tecem juntos ímpares figuras Tingem os dias, fabricam o tempo... O encontro mais improvável Na mais banal das esquinas do espaço O instante fortuito que produz revolução E no mesmo gesto instaura a paz... Sussurra o anjo: - Ama! E o coração bate tão forte que acorda o mundo... A realidade é conforme os olhos Corpo e alma, sensação e pensamento Vagando, qual fantasmas, existentes e etéreos... Um sorriso, um beijo, o gesto simples Que faz receber a mão, outra mão... Numa faísca se produz um ser: O que era puro ideal, suposição Faz-se matéria num segundo. Sussurra o anjo: - Vem comigo! E o coração pára, o olhar se apaga, cessa todo o movimento... No instante último há de aparecer o sentido O divisor de águas entre o mero passar e o real existir... Recebe a morte em paz Aquele que soube viver e dar-se... Desfaz-se o corpo, viaja a alma Mantêm-se eternas as sementes De amor salpicadas no infinito. 74

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ANJOS

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Formado em Matemática pela UFPR,lecionou durante 20 anos. Formado ainda pela Faculdade de Belas Artes do Paraná em Licenciatura em Desenho,trabalhou junto a Estúdios de propaganda e no setor editorial. Historiador e Filósofo amador, venceu em 2006 o Prèmio ‘Destaque cultural’ promovido pela secretaria de Cultura de Curitiba com o livro ‘ Desvendando a História e os mitos Bíblicos’. Lançou em 2007 a primeira edição de ‘ O Manuscrito XXXII’,seu primeiro romance , pela Editora Corifeu. Poeta e músico nas horas vagas, têm como principais influências,Um berto Eco e Luis Fernando Veríssimo. alian.moroz@hotmail.com
s erto Barro nhista Carlos alb tinos, dese o de nordes rmado, , filh ástico fo Paulistano rtista pl como pre, a rofissional desde sem sua vida p astro Começou eixou seu r escritor. então, já d lturais, , desde entros Cu educador e olas e C gógicos , Esc icos e peda por ONG’s hos artíst ia sobre trabal te influênc através de ue têm for oficinas cias q , organiza – experiên Atualmente uda póstos. nças, est seus escri para cria reve para ação Arte e esc de ilustr stória da em Hi graduação ternet. ções na in publica il.com ador@hotma carloseduc ot.com ome.blogsp ttp://desn h

Alian Moroz

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Denis da Cruz Advogado, Servidor Público, marido de Elisa e pai dos pequenos Lívia e Kalel. Escritor amador, faz da literatura um agradável e despretencioso passatempo. Mais detalhes, o leitor poderá flagrar nos textos que serão apresentados na Samizdat, afinal, já escreveu certa vez: “não sou nenhuma de minhas personagens, mas sou todas elas vivendo ao mesmo tempo”.

deniscdacruz@hotmail.com http://www.recantodasletras.com.br/autores/kzar

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Giselle Sato Giselle se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes e foi comissária de bordo — cargo em que não fez muita arte, esperamos. Adora viajar (felizmente!) e fala alguns idiomas. Atualmente se diverte com a literatura, participando de concursos e escrevendo para diversos sites pela net. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos, principalmente daquilo que é comumente jogado para baixo do tapete pelos veículos de comunicação. gisellesato@superig.com.br http://www.trilhasdaimensidao.prosaeverso.net/

www.samizdat-pt.blogspot.com

o Henry Alfred Bugalh fase a pela UFPR, com ên É formado em Filosofi História. lista em Literatura e em Estética. Especia âneas de nces e de duas colet Autor de quatro roma contos. a Nova York, com su Mora, atualmente, em sua cachorrinha. esposa Denise e Bia,
henrybugalho@gmail.co m

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José Espírito Santo Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Siste mas de Gestão Transaccional e Middlew are de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (con tos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Portugal em Alve rca, uma pequena cidade um pouco a norte de Lisboa. jjsanto@gmail.com http://www.riodeescrita.blogspot.com /

Marcia Szajnbok Médica formada pela Faculdade de de Medicina da Universidade o psiquiatra São Paulo, trabalha com e psicanalista. Apaixonada por , literatura e línguas estrangeiras ca lê sempre que pode e brin em quando. de escrever de vez de Paulistana convicta, vive des sempre em São Paulo. marciasz@hotmail.com

Pedro Faria na Matemática Estuda Universidade Estadual do Rio de Janeiro, músico amador e escritor quando dá na telha. Nascido e criado no Rio. punksterbass@hotmail.com
http://civilizadoselvagem.blogspot.com/

Volmar Camargo Juni or é gaúcho. Formado em Letras pela Universida de de Cruz Alta, não leciona por sua própria vontade . Entrou na ECT em 20 04, e desde então já morou em meia dúzia de “Pereiróp olis” pelo Rio Grande. Atua lmente vive com a es posa Natascha em Canela, na Serra Gaúcha. Divid em o apartamento com Ma rie, uma gata voluntar iosa e cínica.

v.camargo.junior@gm ail.com http://recantodasletras.u ol.com.br/autores/vcj

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