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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP

)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

A786 SILVA, Renato Araújo da.(1973 – )
Isto Não é Magia; é Tecnologia: subsídios para o estudo da
cultura material e das transferências tecnológicas africanas
‘num’ novo mundo. São Paulo : Ferreavox, 2013.
282p..: il.(diversos);. 30 cm.
Foto de Capa: Ferreiros Bakuba. ca.1900, Col. Particular.

Inclui bibliografia: f.(275)

1. Tecnologia. 2. África-Brasil-Américas. 3. Negros. 4.
Escravos. 5. Cultura Material. . I. SILVA, Renato Araújo da.(1973
- ). II. Renatex. III. Renatinho. IV. Título.

CDU 666 (Universidade das Ruas)

Como citar este texto: SILVA, Renato Araújo da. Isto não é Magia; é Tecnologia:
subsídios para o estudo da cultura material e das transferências tecnológicas africanas
‘num’ novo mundo. São Paulo : Ferreavox, 2013. Disponível em: [citar fonte online]
Boa parte das estruturas mentais e psíquicas podem ser hoje amplamente
determinadas pelas ciências do cérebro. Até o preconceito e, no limite, aspectos do
próprio racismo, porquanto não possam ser “justificados” (simplesmente porque não é a
ignorância a criadora ou a mantenedora do racismo e do preconceito), ainda podem
cientifica e magicamente ser abrangidos, para além dos reveses históricos, a partir de
sobredeterminações cerebrais mais ou menos complexas. Antropólogos, biólogos,
psicólogos modernos e filósofos da liberdade sugerem que a maior parte das
“classificações psiquicas” podem ser sistemática, lógica e conscientemente renunciadas.
Aquelas “classificações”, em seu aspecto “inconsciente”, “instintivo” ou “biológico”,
“não-racional” nem “autocrítico” podem vir a ser positivamente descartadas pela tomada
de consciência individual e trabalhadora. Manifestos históricos dos instintos da “ojeriza
natural”, que estimularam remotamente a capacidade de escolha cerebral para criar tipos
e subtipos, comparando vidas, substituindo gêneros, magias e tecnologias; distinguindo e
elevando seres humanos que, afinal, viveriam “em relação” (ou em situação – segundo
Sartre), sugeriram a permanência humana nos estados conservativos do ciclo de natureza
primata. Intuindo a dignidade, Demócrito disse: A boa natureza dos animais é a força; a
dos homens, a excelência do caráter (Sentença de Demokrates; 20 – DK 68 B 35 —
115).
As tecnologias africanas, algumas das quais já conhecidas pelos portugueses desde
o final do século XV, foram de algum modo utilizadas em diversas áreas da cultura no
Brasil e nas Américas, podendo ser apontadas como um dos vários motivos pelos quais
houve substituição e/ou complementação de mão-de-obra escrava indígena pela a
africana. Assim, os trabalhos de extração de recursos naturais como no reconhecimento
das regiões auríferas, as técnicas para agregar valor à matéria bruta criando exemplares
de joalheria em ouro e prata, bem como o trabalho na fundição do ferro, que desdobrou-
se no trabalho da agricultura tropical com uso de implementos metálicos, entre outros – e
ainda o uso de técnicas da criação de gado e o da agricultura extensiva etc. são alguns dos
exemplos de tecnologias utilizadas na África, mas que os indígenas brasileiros não
detinham quando da chegada dos portugueses. Ao analisar e propor algumas hipóteses
quanto ao nível do aproveitamento destas e outras técnicas durante o momento de
implantação do colonialismo no país, Renato Araújo discute sobre a temática da
transmissão de tecnologias africanas nas Américas utilizando-as como pano de fundo
para a discussão filosófica a respeito dos fundamentos totalitaristas e patriarcalistas (de
heranças ontogenéticas e primitivas) dos modelos de tecnologia assumidos
historicamente pela humanidade.
Renato Araújo (araujinhor@hotmail.com) – diletante brasileiro que também atende por
renato araújo da silva, araújo, araujinho, renatinho ou renatex. Graduou-se em filosofia em 2002
pela Universidade de São Paulo (USP). Ao terminar este ensaio, ele disse prontamente: “Poucos
têm uma noção correta disso, mas a vantagem em ser um “d-escritor” é que você tem a
liberdade e responsabilidade completas para com a objetividade, para com o aprofundamento
no humanismo e para com as saborosas ligações improváveis dentro de toda subjetividade
possível, mas também é chamado a tergiversar, como se contasse estorinhas de aventuras para
os netinhos”. Ligado à tradição libertária e à “literatura de mau gosto” desde 1989, o autor possui
alguns textos disponíveis online: http://pt.scribd.com/araujinhor
Isto

não é
Magia ;

é
Tecnologia

SUMÁRIO

Tema Pág.

Introdução (Era uma Vez no Leste: o tecnológico às voltas do humanismo) .............................01

Cap. I

1.1. IMPACTOS DA TECNOLOGIA – Alguns Complicadores Políticos ..................................05

 Então, o que Vem a Ser Tecnologia ? ...............................................................................12

1.2. OS NOSSOS AFRICANOS SÃO MELHORES DO QUE O DELES .................................19

 Intermezzo I – A Diferença entre um Computador e uma Flecha ....................................38
 Intermezzo II – Os Chineses como as “Meninas Superpoderosas” ...................................43
 Intermezzo II – Os Africanos como Civilizadores ............................................................51

1.3. A ARQUITETURA AFRICANA ..........................................................................................60
1.4. COMUNICAÇÃO À DISTÂNCIA .......................................................................................84
1.5. ENGENHARIA NAVAL E CIVIL .......................................................................................89
1.6. POVOS NÃO-AGRAFOS .....................................................................................................91

***Renatex***
Isto

não é
Magia ;

é
Tecnologia

CAP. II

2.0. A CULTURA NEGRA DE EXPORTAÇÃO: da enxada à bateia, dos fornos ao pilão -
Cultura Material Africana no Brasil .............................................................................................94
2.1. MESTRES DA MEDICINA TROPICAL ...........................................................................117
2.2. MESTRES DA TÉCNICA ..................................................................................................145
2.3. MESTRES DA MINERAÇÃO ...........................................................................................163
2.4. OS MANOS DAS MINAS E DAS TECNOLOGIAS ........................................................173
2.5. MESTRES DA TECELAGEM, CESTARIA E CERÂMICA ............................................193
2.6. MESTRES DA AGRICULTURA TROPICAL ..................................................................206
2.7. MESTRES DA MADEIRA .................................................................................................220
2.8. MESTRES DA CRIAÇÃO DE GADO EXTENSIVO .......................................................221
2.9. MESTRES DAS ARTES PLÁSTICAS E DA MÚSICA ...................................................226
2.10. MESTRES DO TRABALHO E DO JOGO DE CINTURA .............................................230
2.11. OUTROS TEMAS RELACIONADOS ÀS TÉCNICAS E TECNOLOGIAS AFRICANAS
......................................................................................................................................................243
2.12. LISTA DE PLANTAS E DE ÁRVORES COM POSSÍVEIS VÍNCULOS ÁFRICA-
AMÉRICAS ...............................................................................................................................246

CAP. III

3.0. Iconclusões: O Índio Disse “Tudo Está Ligado” ...............................................................250
3.1. Anexo: Lista não Exaustiva de Plantas Medicinais e Aromáticas da África .......................261

3.2. REFERÊNCIAS .................................................................................................................277

***Renatex***
Isto não é Magia, é Tecnologia:
subsídios para o estudo da cultura material
e das transferências tecnológicas africanas ‘num’ novo mundo
Para Alessandra Mara G. de Melo

Porque a natureza é ameaçada quando não controlada, porque o presente é contingente e o futuro
incerto, mito e razão respondem a essa necessidade de vencer a angústia, protegendo a
autoconservação: ‘Do medo o homem presume estar livre’, escrevem Horkheimer e Adorno, ‘quando não
houver mais nada de desconhecido’. Para vencer a exterioridade da natureza e a alteridade do mundo, a
razão científica ‘identifica o animado ao inanimado, assim como o mito identifica o inanimado ao
animado. O esclarecimento é angústia mítica radicalizada’. Racionalização do medo e mitificação da
razão significam que a ciência não vence o medo, mas o transforma em conteúdo do pensamento
racional que, para dominar o desconhecido, mobiliza força e poder sobre todas as coisas. Assim como o
mito exigia sacrifícios de sangue para aplacar as forças naturais, a ciência moderna considera as
catástrofes produzidas pela ciência e pela técnica acidentes de percurso do progresso, e a violência
constitutiva de todas as relações: "Não existe continuidade da barbárie à civilização, mas há uma linha
reta do estilingue à bomba de megatons.

Olgária Matos, com pensamento em Theodore Adorno
(O Estado de São Paulo, em algum dia de 2008)

"Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que
a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos
complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro, na eficácia de suas técnicas; em seguida, a
crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do próprio feiticeiro; finalmente,
a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam à cada instante uma espécie de campo de
gravitação no seio do qual se definem e se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele
enfeitiça."
Claude Lévi-Strauss
(Le Sorcier et sa magie, in: Les Temps Modernes, 4o ano, n o 41, 1949, pp. 3-24.[Em português no
“Antropologia Estrutural”.
O Feiticeiro e sua Magia. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro. 1975, pp. 193-213])

Introdução - Era uma vez no leste – o tecnológico às voltas do humanismo

A tecnologia e a magia são filhas do leste, de onde nasce como um “Princípio”, e
cheio de prodígios, o Sol. E desconfiar de todas as texturas e textos pretensiosos que
tentarem começar pelo começo! Ontologia... Apesar disso, como não há história da
tecnologia (técnica ou ciência) sem história da magia (feitiço ou fé) – façamos isso
exatamente assim! Ambos (ciência e feitiço) estão ontologicamente imbricados desde a
origem da humanidade; desde um certo princípio em que o fazer se desdobrou do verbo
(a razão) em direção ao sol do meio dia. No momento mesmo em que a ferramenta e a
sua necessidade de uso convergiram nas mãos e mentes humanas, em suma, desde a
remota presença histórica do bicho homem na África. “– Voltemos, pois, ao princípio! –
Voltemos à África!”. O historiador e colono português Gabriel Soares de Sousa, que

1
viveu na Bahia entre 1565-1569, disse belamente: “Como todas as cousas têm fim,
convém que tenham [um] princípio1. Então, de um tal modo contrariado por “me
obrigar” a “começar do começo”, forçoso me será refletir sobre um certo princípio desta
seguinte maneira:
- Há cerca de dois milhões de anos atrás, algo de muito esquisito ocorreu. O
planeta terra (obviamente, bem mais antigo que os seres humanos, com cerca dos seus
4,54 bilhões de anos e já carregado de seres lutando pela vida por quase todos os lados)
viu nascer ao seu “leste” um filho pródigo. Ele era esquisito. Lentamente deslocado em
relação aos seus pares, mas possuia alguns diferenciais que o permitiriam dominar
certas técnicas que o fariam permanecer na vida, atingindo um dos mais gloriosos picos
de ascenção do ser: as raias a fantasia.2 O conhecimento arqueológico gerado na
contemporaneidade demonstrou que as primeiras ferramentas de pedra, isto é, uma das
primeiras tecnologias desenvolvidas pelo homem, foram construídas no baixo
paleolítico africano, há cerca de dois milhões e meio de anos atrás. Durante e depois do
peleolítico, outros modelos tecnológicos foram também testados e implementados. A
tecnologia das indústrias líticas, por exemplo, foram acompanhadas mais tarde pelo
desenvolvimento da tecnologia do microlíto, permitindo uma posterior variedade da
dieta humana na era da pedra, sendo este um dos primeiros grandes avanços
tecnológicos africanos de que se tem notícia.
Foi ali, na malfadada África, portanto, que apareceu o primeiro relâmpago que
necessariamente mudaria o planeta para sempre; um ser que, ao desenvolver e utilizar
sistematicamente certas ferramentas para atingir determinados fins planejados, passou a
dar mostras de subjetividade por meio da representação artística em cavernas, uso de
adornos com objetivos claramente protetivos e por meio do desenvolvimento de ritos
fúnebres, entre outras atividades que o distinguiria para sempre dos seus “irmãos” – ele
demonstrou, por fim, ter sinais de inteligência na forma de uma habilidade e de uma
tendência para simbolização, abstração e previsão3.
Isso tudo devia ser visto como algo excelente e extraordinário em relação ao
mundo natural...Admiração esta expressa na pergunta: como deverá ter sido possível
emergir das profundezas selvagens da “luta pela vida” um ser dotado da conspícua
capacidade para manifestar os “altos sentimentos morais” da empatia, do altruísmo e do
apoio mútuo? Mas, pensando bem, esse “ser” não era lá tão grande coisa assim! Ele era
um pouco menor que o renatinho (pois cercava-se no máximo de 1,5m de altura),
portanto, nada mais era do que um ser frágil que paulatinamente desenvolvera, como
tática de sobrevivência, a fantasia de se impor e de se sobrepor no reino animal por
meio de procedimentos mais ou menos complexos. Dominava-lhe a ideia de que a

1
CASCUDO, Luiz Câmara Made in Africa – pesquisas e notas. Rio de Janeiro: Ed. Civilização
Brasileira, 1965. p. 1. Gabriel Soares de souza (1540- 1591) escreveu um “Tratado descritivo do Brasil”
em 1587.
2
Ademais, ele já devia conter em si mesmo a “virtude original” (vontade de potência) e as sementes de
sua própria destruição, já que seu “vício original” ou o “rancor” que nutriu pelo surgimento de sua
“consciência infeliz”, que lhe parecia intrusa e exterior, nada mais seria que um ressentimento pela noção
de que seu poder seria para sempre limitado e de que seu conhecimento, tanto quanto seu poder estariam,
irrremediavelmente, muito aquém do absoluto.
3
Louis e Mary Leakey, mostrando resultados de seus estudos na “garganta de Olduvai” na atual Tanzânia
nos anos de 1930, demonstraram que a espécie humana e, portanto, a magia e a tecnologia se
desenvolveram a partir da África (e não da Asia, como se pensava até então) – de onde por fim se
promoveu a imigração e difusão dos seres humanos para todos os outros continentes. Ver: MORELL V.
Ancestral passions: the Leakey family and the quest for humankind's beginnings. New York: Simon &
Schuster, 1995.
2
natureza “gritava” lancinantemente contra ele e contra todos os outros seres, obrigando-
os a decifrá-la, como se esta fosse uma esfinge: vença-me, ou devoro-te! – Fantasiara.
Mas sua função bípede, sua postura semiereta o estimulou a manter suas mãos livres
para utilizar seu polegar opositor e recriar a existência. Que lindo não? Um
semimacaco, um primo de um macaco, ou mais especificamente, um mamífero qualquer
entre tantos outros, todavia, alguém que estaria destinado (graças também às inúmeras
casualidades de seu destino) a “vencer a natureza”, a dominar os outros seres (pela
agressividade natural) e a dominar os seus pares criando classes, distinções e hierarquias
graças também, supostamente, à sua mais bela criação: a tecnologia4.
Quem diria? O Homo Habilis, esse bichinho curioso com um pouco mais de 1
metro de altura que não pesava mais do que 40 kilos e tinha um crânio
comparativamente bem menor que o dito “homem moderno”5, ele determinou
invariavelmente boa parte da cultura posterior, determinou boa parte da nossa cultura.
Mas não deve ter havido, é importante ressaltar, uma sequência tão harmoniosamente
progressiva entre o Homo Habilis, Homo Rudolfensis, Homo Erectus e nós. Porque, de
fato, há evidências de coabitação e fortes hipóteses de que esses três primeiros tipos de
hominídeos tiveram mesmo contato de algum nível6. Sobre este assunto, uma colunista
da Reuters chamada Julie Steenhuysen, em artigo de 2007, nos presenteou com uma
conclusão importante: “A proximidade entre eles indica que as duas espécies tinham
fontes de alimento e comportamentos diferentes, para permitir que vivessem tão
próximas entre si sem ser extintas”(Grifos nossos) 7. É esse o tipo de dado hipotético,
ainda que observado em seu racionalismo brutal, que devemos aproveitar se quisermos
recompor os traços perdidos do desenvolvimento dos modelos tecnológicos, frutos da
luta pela vida e de acontecimentos que tornaram possível o surgimento do homem
moderno. Quiçá eles possam também lançar pequenas fagulhas de luz em direção a
alguns determinantes históricos que criaram futuros mais ou menos inóspitos ou
sombrios que se voltaram, por fim, contra nós mesmos. A parte da história da tecnologia
que redundou no aviltamento e na violência contra seres ao mesmo tempo
“semelhantes” e “diferentes” gerou a mais profunda das certezas saídas da pena de
Thomas Hobbes: Homo, homini lupus (o homem é o lobo do homem). Mas não foi
Sigmund Freud o homem que mais se esforçou para livrar os seres humanos de seus
fantasmas? No “Mal-Estar da Civilização” o fundador da psicanálise diz: Quais os
meios que a civilização utiliza para inibir a agressividade que se lhe opõe, torná-la

4
Quiçá ele também pudesse algum dia dominar a si mesmo quando houvesse a renúncia ao poder
(técnica), mas como a renúncia também lhe é um sofrimento, este seria outro assunto que, obviamente, só
poderá ficar pra um indefinido depois, no futuro do passado, em que frases como que “bíblicas”,
descrevendo a relação Criador-Criatura, fizessem ainda muito sentido: Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó
terra; porque o Senhor tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim. O
boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o
meu povo não entende. Isaías 1:2-3.
5
Ele tinha, portanto, cérebro menor e estruturalmente inadequado para elaboração racional da fala e
possivelmente lhe era ausente não o “controle” (superego), propriamente, mas a “consciência autocrítica
das emoções”, entre outras funções cerebrais, como a agressividade enquanto técnica para si e a técnica
enquanto agressividade contra si: funções cerebrais estas que os homens modernos não as usam bem, mas
parece que as possuem, já que lhes foram transmitidas por seu ancestral comum africano (Lucy ou quem
quer que seja)...
6
A pesquisa que comprova estes dados foi desenvolvida por nove cientistas e publicada na revista
“Nature: 488, 201–204”, a paleontóloga Meave Leakey e sua filha Louise Leakey - ambas da Sociedade
National Geographic -, e Fred Spoor, do University College London, estavam entre eles. Ver também:
http://humanorigins.si.edu/research/whats-hot/new-fossils-confirm-diverse-species-root-our-lineage )
7
Ver: http://cienciaesaude.uol.com.br/ultnot/reuters/2007/08/08/ult4296u316.jhtm .
3
inócua ou, talvez, livrar-se dela? Já nos familiarizamos com alguns desses métodos,
mas ainda não com aquele que parece ser o mais importante. Podemos estudá-lo na
história do desenvolvimento do indivíduo. O que acontece neste para tornar inofensivo
seu desejo de agressão? Algo notável, que jamais teríamos adivinhado e que, não
obstante, é bastante óbvio. Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na
realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de
seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do
ego, como superego, e que então, sob a forma de “consciência”, está pronta para pôr
em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer
sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que
a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma
necessidade de punição. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo
de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu
interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada8.
Temos, assim, de nos voltar a este tipo de reflexão psicanalítica, teórico-crítica,
“ingênua” e fora de moda se quisermos ainda propor hipóteses sobre a influência
tecnológica com lapsos de continuidade, como foi o caso da herança tecnológica
africana nas Américas. Esses “lapsos de continuidade” na tecnologia foram, todavia,
comuns na história: as guerras, os problemas palacianos, a ganância..., sempre foram os
principais motivos pelos quais uma determinada tecnologia fora abandonada e por vezes
esquecida. Outras reflexões levantariam hipóteses não menos “ingênuas” sobre as
influências do meio e outras influências determinantes do modo de ser do bicho homem
e chamariam a nossa atenção para algum tipo de determinismo histórico relevante no
desenvolvimento das relações humanas (sociologia) por um lado, e ainda, por outro,
para a questão do quanto a inevitabilidade do uso das tecnologias fez determinar
também as conquistas posteriores dos homens sobre si e sobre os outros9.
Em busca do seu limite histórico, essa discussão retornou agora no nosso
período pós-industrial (revolução informática) com a preeminência do uso da máquina e
a tendência, cada vez inevitável, de dependência em relação a ela – igualmente, como a
antiga e extremamente forte “ideia de deus” (ou da “segurança pelo absoluto”),
dependeu necessariamente da existência de uma mente que a sustentasse, a ideia da
dependência total dos homens à máquina ainda não conquistou a realidade senão de
umas poucas mentes citadinas, com seus machos alfas atentos para com a extenção
tecnológica de seu poder primata falocrático, ávidos por novos tipos de aventuras e
domínios alcançados também por meio da técnica.
O uso da memória humana, para citar um exemplo banal, está deslocado para a
máquina – não será mais necessário o nível de despadronização anterior em que, ao ter
de decorar o telefone dos outros, tinhamos no mínimo de tê-los guardados em agendas
de papel. A confiança total nos bites e bytes e seu mundo de padronizações previsíveis
surge como uma espécie de catarse para o pré-histórico sentimento de culpa. Mas
também isso se manteria ainda no nível de padronização mecânico e instrumental, o
8
FREUD, S. Mal-Estar da Civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund
Freud. Vol. XXI (1927-1931) Rio de Janeiro:Imago, 1974h. pp.77-78.
9
Ainda assim, o homini lupus, o “lobo do homem”, também teve no homo erectus, seu contraponto.
Sendo colonizadores dos continentes e criadores de tecnologias, os homo erectus tinham aptidões físicas e
mentais que os distinguiam. Se quebrassem uma perna na selva sozinhos, estariam mortos, no entanto,
viviam em grupo, cuidavam uns dos outros no caso de doenças e ferimentos, não por mera compaixão,
mas por solidariedade. A evolução dos modelos de tecnologia foi traçada, portanto, paralelemente à
evolução dos modelos de sociabilidade e construção comunitárias, a história da sobreposição e a
indisposição de uma sobre a outra confunde-se com a própria história da construção do humano.
4
qual se generalizou e paulatinamente tomou conta hoje da maior parte das nossas vidas.
Ainda asism, também não deixa de ser antiga a ideia de que a diminuição da dignidade
humana é inversamente proporcional ao aumento da dignificação da máquina, enquanto
substituta aparentemente inevitável daquela espécie advinda de primatas, mas de cuja
consciência e solidariedade brotaram uma ética (ainda a se redescobrir). É assim que,
neste texto, eu gostaria de dividir com vocês algumas reflexões que considero
intrigantes dentro da história do desenvolvimento tecnológico na África e nas Américas,
tentantando trazer essa discussão para alguns dos tópicos poucos estudados da história
de implementação tecnológica, dentre eles: a imposição tencológica em seu fundamento
patriarcal e a transmissão tecnológica de substrato original africano.

The west is the best, get here and we’ll do the rest. “O ocidente [o “oeste”] é
melhor, chegue aqui, que nós faremos o resto” 10. (Jim Morrison – The End).

1.1. Impactos da tecnologia - alguns complicadores políticos

Não é só para a sociologia, enquanto ciência dos fatos sociais a quem se deve
perguntar sobre quais seriam as consequências e as mudanças a que nos impelem as
tecnologias. Também a história das ideias, a história da vida privada, a psicologia (com
o tratamento das suas doenças datadas: histeria, determinadas neuroses de guerra,
colecionismo desproporcional, o acúmulo incontrolável de lixo etc.). Perguntar-se-á
também se a história da tecnologia não buscou outra coisa senão uma história da
humanidade propriamente dita (ou seja, história daqueles seres que assimilam, atuam e
respondem tecnicamente às manifestações e ações históricas que eles mesmos
mobilizam). Foi preciso buscar quais seriam as causas e os efeitos necessários das
mudanças culturais nas aplicações tecnológicas, ou seja, (1) buscar quais seriam os
indicadores de mudança de cultura quando do aparecimento da mudança de tecnologia e
(2) identificar os impactos dessas mudanças culturais, como consequências das
mudanças estruturais e contínuas das tecnologias nas sociedades, por exemplo, as
alterações alimentares, as alterações psiquicas, as alterações nas relações familiares,
relações sociais etc. Foi assim que, pensadores da filosofia, psicologia e sociologia
debruçaram-se sobre a questão da tecnologia a fundo. Mentes como Martim Heidegger,
Jacques Ellul, Horkheimer, Adorno, Oswald Spengler, Lewis Mumford, Sigfried
Giedions, Pierre Clasters, Ernst Jünger, Veblen, Aldous Huxley, Freud, Erich Fromm...
chegaram a conclusões totalmente diversas, mas que puderam ser resumidas naquela
frase monumental de que:

10
Numa interpretação livre eu associo este trecho do poema a uma propaganda de popularização da
fotografia datado de 1888, criado pelo empreendedor George Eastman (1854-1932), o criador da Kodak,
em que dizia: “Press the Button, we do the rest” (“aperte o botão, que nós fazemos o resto”); mas, como
uma das mais belas e tristes dimensões que abre o destino, Eastman suicidou-se apertando o gatilho de
uma arma apontada para seu próprio coração. Suas últimas palavras, deixadas em bilhete suicida foram:
“Para meus amigos, meu trabalho está feito. Então, por que esperar?” Já o poeta que “parecia viver no
subconsciente”, Jim Morrison (1943-1971), incluiu em seu poema a imagem associativa do “novo oeste”
(Los Angeles) como a finalidade de tudo. Aliás, quem será o desgraçado que inventou leste, oeste, abaixo
e em cima, já que, no infinito, um ponto não se bastaria a si mesmo e que não “revólveres” ou
tecnologias, mas todos os “sentidos” levariam ao “coração”?
5
“Já não tem mais jeito, estamos todos fodidos!”11.

Pensadores da antropologia, essa grande ciência humana (hoje já meio
desacreditada, subnutrida e tão injustamente subestimada) indicaram também caminhos
para as implicações evolutivas e para outras abordagens relevantes no desenvolvimento
das sociedades humanas e também no que diz respeito ao aspecto social imbuído nas
tecnologias, mas que foram de algum modo positivos para uma reelaboração de um
certo “eu”, de uma certa humanidade um tanto “iluminista” que subsistiria na era do fim
das humanidades. Gigantes como James Frazer, Frans Boas, Malinoswki, Marcel
Mauss, Levi-Strauss, etc. dão o quadro geral destes saberes... e a quem mais eu deveria
evocar modernamente, nesse sentido, Charlot Witt, Donna Haraway? E, no caso
brasileiro, não podemos deixar de lembrar dos nossos gigantes como Sérgio Buarque de
Holanda, Mário de Andrade, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Florestan
Fernandes, Darcy Ribeiro, Lilia Schwarcz, Manuela Carneiro da Cunha, Antônio
Cândido, entre tantos outros, compondo ademais o quadro fundamental da interpretação
do “Bicho Homem Brasilis”.
Algumas áreas da antropologia têm recorrido a argumentos que embora alguns
possam eventualmente carecer de comprovação empírica seriam relevantes para indicar
conceitualmente as condições humanas possíveis dentro de seus próprios limites12. As
possibilidades se apresentam aos homens, nelas eles se banham e por fim se deparam
com suas limitações estruturais. Mas, para além da reflexão antropológica, essa
dificuldade não se restringe aos seres humanos mesmos, ela vai além. Sendo um ser
limitado, suas realizações também necessariamente não atingiram e nunca atingiriam
seus desejos de posse e de controle absolutos; também a filosofia, que não deixou de ser
uma forma de literatura, se viu cercada pela falta de imaginação... Mesmo se
voltássemos à antropologia, quando pensamos na sua “filha pródiga”, a “antropologia
física”, por exemplo, vemos que ela carregou em seu cerne teórico o desejo de
entendimento biológico completo da humanidade do ponto de vista evolutivo. Porém,

11
Ou, como disse com muito mais classe o Goetheano “Fausto” em sua versão cinematográfica de
Murnau: Wir sind verloren und es hilft kein Glaube und kein Wissen, alles ist Lüge… “Estamos perdidos;
nem fé, nem ciência, tudo é mentira”. Ver quanto a isso: HEIDEGGER, M. La question de la technique;
Dépassement de la métaphysique. In: Éssais et conférences. Paris: Gallimard, 1958. (Col. Tel).; ELLUL,
J. The Technological Society. New York: Vintage Books, 1964; ADORNO. T. Educação após
Auschwitz. In: _______ Educação e emancipação. São Paulo / Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995;
SPENGLER, O. Man and Technology: A Contribution to a Philosophy of Life. University Press of the
Pacific, 2002 (publicado em 1931); [um parênteses informativo - Spengler foi quem cunhou o
apropriadíssimo termo “pensamento da mão”, característico do homem em oposição ao “pensamento dos
olhos” das aves de rapina] MUNFORD, L. Technics and Civilization. New York: Harcourt, Brace &
Company, Inc., 1934; GIEDEONS, S. Mechanization Takes Command: a contribution to anonymous
history. Oxford University Press 1948; CLASTERS, P. Chronicle of the Guayaki Indians, Zone Books,
1998 (públicado em 1972). VEBLEN, T. The Engineers and the Price System. Kitchener: Batoche
Books, 2001. Quanto aos outros três aqui indicados, torna-se obrigatória a leitura de suas obras
completas.
12
A exemplo disso, a previsibilidade, antes relegada ao ostracismo da estatística nas ciências, passou a
fazer parte integral da astrofísica de hoje. Por exemplo, fizeram-se recentemente cálculos na ciência
astronômica que definiram com pouca margem de erro que em cerca de 50 bilhões de anos teremos o fim
de todo o universo. Dada à extinção universal do hidrogênio e à aplicação inevitável da imperiosa 2ª. lei
da termodinâmica, os astrônomos discutem se o fim virá pela contração do universo (pelo fogo) ou pela
sua expansão (pelo gelo); a segunda hipótese é muito mais provável em função da descoberta da chamada
“energia escura”, que vem acelerando desgovernadamente a expansão do big bang. De qualquer maneira,
portanto, o fim do universo enquanto tal é filosófica e cientificamente indiscutível, o que nos traz
implicações evidentes para Ética e para a (Antropo) Mecânica.
6
muito embora ela tenha nascido em berço esplêndido (saída diretamente daquele
verdadeiro “forno de ideias chaves” intitulado “Origem das Espécies” de Charles
Darwin), ela caiu em descrédito depois de ser cooptada por modelos cientificamente
limitados da antropometria. Método de medição que tentou, por razões políticas
totalmente discutíveis, ultrapassar os limites de sua própria utilidade, que se restringia
desde sempre apenas à medição da capacidade endocraniana das diversas espécies de
hominídeos, na distinção óssea encontradas em sítios arqueológicos obscuros, na
medicina forense e não muito mais que isso; que Franz Boas me perdoe!).
Chegada será a hora de retomarmos aos antigos métodos que ficaram encobertos
pelo politicamente correto e pelo medo do bicho papão da genética. Não que sejamos,
em absoluto, contra a algum tipo de “acompanhamento coletivo” (Habermas, Andrew
Feenberg, etc.) em relação aos caminhos em que está se embrenhando a tecnologia (ao
contrário, a história nos indica que uma humilhante democracia e sua massificação
estúpida e sem escolha nos é menos “perpétua” isto é, a extensão de sua duração é mais
mensurável que a sobredeterminação stalinista com suas antigas “garras planificadoras
de corações”. Mas, felizmente, parece que há no Brasil, afinal, uma aceitação maior do
trabalho com as células tronco embrionárias e o avanço nesse sentido é positivamente
irreversível. Ainda assim, dado ao revival conservador (ainda em ascenção) que se
verifica em todas as áreas no momento atual, se ela chegar, deverá demorar muito o
florescimento de uma sociedade suficientemente livre e aberta, como a que
preconizamos. Enquanto isso, certos preconceitos e amarras que ora retornam com peso
crescente fazem parte do mesmo e antiquíssimo esforço político de dominação,
concentração de tecnologia e de poder, os quais já foram muitas vezes explicitados. A
sociedade alternativa preconizada terá, por exemplo, de se livrar dos tabus da ciência
genética (não apenas pela luta contra doenças e no uso de células tronco, que é por si só
um tabu pueril, mas também terá de se livrar de outros tabus como aqueles que supõem
haver bases genéticas que concorrem com aquelas ideias – “tão caras a nós” – tais como
a escolha “livre e desinteressada” dos gêneros humanos; a base neural e evolutiva das
experiências subjetivas como a espiritualidade e o pendor artístico; a superação do mal
tecnológico por vias não-primitivistas, a modificação embrionária para além da
“higienização” e dos “conceitos de pureza” etc.13).
Faço essa reflexão porque foi dito no passado, até certo ponto justificadamente
que o mundo da industrialização, ou seja, o mundo propriamente tecnológico foi a
sedimentação e impostação do mundo masculino no humano. Mas eu vou mais além, eu
digo que nunca o patriarcalismo, enquanto um modelo de poder centralizado na figura
masculina, em tudo o que ela signifique mitológica e biologicamente, esteve tão “à
vontade” para impor-se não só como um dos modelos possíveis, mas como uma verdade
imutável (certeza indecomponível) ou uma constatação de uma “realidade” e finalidade
última do mundo natural. A maior prova dessa deselegância é que hoje não só se tornou
necessário convencer às mulheres patriarcalistas de que elas sustentam um sistema de
dominação sobre elas e todas as outras, quanto se tornou útil e até mesmo necessário
controverter com as feministas yuppies e conciliadoras (se é que de fato existem como
feministas) sobre a necessidade de dar maior atenção e sobretudo confiabilidade aos
seus setores mais radicais, que são hoje patriarcalmente injustiçados e

13
Para um bom histórico das tentativas frustradas de aplicação da eugenia vejam: DIWAN, Pietra. Raça
Pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo. Ed. Contexto São Paulo, 2007.
7
descreditados14. Certos insights tecnológicos desenvolvidos em culturas e sistemas
tecnológicos tradicionais pelas mulheres foram muito bem identificados em (THRUPP,
1989, 140).
Mas aquilo que antes era “certeza absoluta”, em função do processo de
industrialização tornou-se “dúvida absoluta”. Todos os valores seriam, a partir dali,
reavaliados. A ênfase científica pelo trabalho da evidência, racionalidade,
experimentação revolucionou as crenças fundamentais de todas as tradições do chamado
“ocidente”. Resultado: as instituições foram se abalando sistematicamente e com elas o
próprio patriarcalismo. Ainda bem! A partir daí, não seria preciso muito esforço para se
fazer perceber o quanto os modelos tecnocráticos e os modos de implantação
tecnológicas foram resultantes desta mesma tentativa de manutenção do status quo
masculino ao mesmo tempo repugnante e dominador que se vem historicamente
consumindo a si mesmo, não sem alguns suspiros de agonia15.
Em verdade, esse desespero de re-ascenção masculina no séc. XX foi, ao
contrário, fruto da consciência de sua própria decadência moral e tecnológica. A
ascenção do fascismo (como modelo único pelo qual o “ser masculino” pôde
integralmente se expressar) se elucida pela chegada da era do “apelo da técnica”,
especificamente, no entre-guerras. Para uma mente nazifacista, nada pode ser
considerado mais “bicha” que a forma de governo democrática ou a filosofia política
liberal. Assim, com a exaustão da modernidade efeminada (aquela que foi influenciada
em demasia tanto pelo requinte do ancient regime, quanto pela ascenção liberal,
democrática e revolucionária), as virtudes marciais da direita máscula passaram a
clamar desde então por um espaço vital onde a tecnocracia, pela coerção e por direito
compulsório, conquistasse bens e posses que seriam por eles apropriados. A criação
deste espaço, historicamente, só podia encontrar reverberação numa psicologia de
massas em que a força coletiva, o nacionalismo e a luta contra um inimigo real ou
imaginário pudessem ativar as profundezas mais prazerosas de sua agressividade, dando
um sentido para sua existência demasiado humana, inerente e eminentemente vil.

14
O fenômeno Femmen russo ou a atual “Marcha das Vadias”, que me são, pelo menos um pouco,
particularmente interessantes, merecem uma análise à parte. Eu me refiro aqui, na verdade, aos modelos
descritos nos seguintes livros altamente indicáveis: Alice Echols & Ellen Willis, Daring to Be Bad:
Radical Feminism in America, 1967-1975, 1990 Minneapolis: University of Minnesota Press, 1989.
Shulamith Firestone, The Dialectic of Sex: The Case for Feminist Revolution, Farrar Straus Giroux, 2003.
D. Thompson, Radical Feminism Today, 2001. Acrescente-se a estes (e leia-se antes) o Scum Manifesto, o
livro mais maravilhoso da mais maravilhosa de todas as vadias: Valerie Solanas, a assassina magnífica de
Andy Warhol, disponível aqui: http://scummanifesto.wordpress.com/
15
Embora as mulheres não tenham conseguido a emancipação e, por fim, a “queima de sutiã” e a “greve
de sexo” tenham sido apenas revoluções momentâneas e localizadas, não deveriam, em termos
reivindicatórios, dar tanta importância ao esgotamento dos modelos de “ser masculino” como se não
concebêssem a existência da “fantasia de gênero” (brincadeira de determinação) como simples
entretenimentos históricos. Mas não devemos tampouco fugir do essencialismo de gênero, muito menos
ter medo do determinismo tecnológico, pelo menos enquanto a palavra de ordem supor o desequilíbrio
estrutural entre homens e mulheres. Essas teorias, vistas como puras metodologias de ação servem antes
para escancarar a evidência da formação mútua entre a tecnologia e a distinção hierárquica dos gêneros
do que para, efetivamente, lutar pelo ideal desejável de transformar o mundo inteiro numa grande “ilha de
lesbos”. Mas, como nasci, sou biologicamente um homem, talvez nada do que disse agora faça o menor
sentido; então, para que possa finalmente “consumir-se a si mesmo”, talvez a ideia de “másculo”
necessite de um “empurrãozinho” da ideia de “feminino”.
8
Moeda romana com representação de Virtus
Deus da masculinidade, bravura e proeza militar, que aqui se ampara na espada e no escudo
http://davy.potdevin.free.fr/Site/gods.html

Moeda romana com representação de Virtus com espada e globo, e Gallienus
Esta moeda (Ca. 260 d.C) circulou no período do Imperador romano
Publius Licinius Egnatius Gallienus Augustus (c.218-268)

9
É por isso que a sociedade tecnocrática (ou melhor, a “sociedade viril”16) podia,
por fim, dar sua guinada ditatorial em que a uniformidade coercitiva, a mitificação da
técnica, a auconfiança na força, na virilidade, na masculinidade colocariam à margem os
valores feminais, tornando-os socialmente obsoletos. Ernst Jünger disse (no “Der

16
A bem da verdade, os termos latinos para os anômalos “mulu” (de “mula”), “bestia” e “masculu” não
são só meros sinônimos no latin, mas são sim a designação para um mesmo ser. O mesmo ocorre no
cruzamento de Equus asinus com Equus Caballus, quando masculino se diz “burro”, geralmente estéreis,
que só fazem zurrar, zunar e respunar por aí; daí porque o “animal asno” seria um bom símbolo para o
“animal homem”. Consagrado a Príapo (deus de pinto enorme feito um obelisco, indicador de feitos
guerreiros; Príapo, o filho de Dionísio retornado da guerra) o asno lhe servia de sacrifício. Aqui vai,
portanto, uma boa dica para as libertárias e liberadas em geral: O deus do animal homem é o dinheiro,
objeto metástico cuja propriedade e objetivo intrínseco seria apenas se multiplicar, isto é, causar inflação
(ereção) por oposição à deflação (disfunção erétil, ou a chamada “brochada”). Historicamente, as
mulheres cretenses gozavam de liberdade relativa e função igualitária na cidade e na casa (como atestam
as representações femininas em relatos gregos e afrescos supérstites que mostram a presença da mulher na
rua, com seus seios (desobjetivados) à mostra, praticando os mesmos esportes e ocupando praticamente
todos os postos e sentando-se à mesa com os homens etc. – todos estes eram verdadeiros tabus entre os
gregos, enquanto “criadores do mito da sociedade ocidental”). Entre estes, os Dórios (que significam
“lanceiros”, segundo Émile Boisacq), por sua vez, eram, à época das invasões Dóricas, uma sociedade
marcial que ignorava as influências feminais na sociedade provindas das mais importantes divindades de
Creta, que eram em sua maioria femininas. Os Dórios as substituíam por divindades patriarcais,
promovendo a masculinização da religião, e no campo das artes plásticas substituíam as representações
zoomorfas e as figurações antropomorfas pelo geometrismo de figuras abstratas e retilíneas, promovendo
a substituição tecnocrática do belo artístico, natural, pelo belo técnico; as engenharias hidráulica,
mecânica, sanitária, civil, naval etc.etc.etc. numa palavra, substituíram o belo natural pela engenharia
“militar”. Ou seja, eles são os inventores no ocidente da “Sociedade Viril”; aquele tipo de sociedade
falocrática dotada da “virtus” máscula, cujo deus masculino por excelência é Ares, deus da guerra, que os
romanos chamavam Marte e que também o tinham como fonte de inspiração em sua virtude (ou virtus)
guerreira, a forma própria do ímpeto de dominação e desejo imperialista calcado na modificação,
penetração forçosa e generalizada da masculinidade aonde quer que no universo houvessem poros. Ouso
dizer, sem o risco de cometer uma generalização pouco absurda (SIC), toda engenharia, técnica ou
tecnologia são criadas para determinados objetivos e utilizadas para fins militares seja para combater
inimigos externos ou internos. Bem, afinal Ernst Jünger já o tinha dito de modo muito mais elegante do
que eu: Qualquer meio técnico possui, de forma aberta ou secreta, valor bélico. (Der Arbeiter, p. 191).
Por fimm, um dos métodos (sacação) para se deduzir o sentido único de uma guerra generalizada de todos
contra todos no mundo masculinizante é observar o modo como os políticos, jornalistas e publicitários
utilizam a frase “...por razões humanistas...” como se tentassem pelo menos em alguns momentos
específicos, salvar o que resta de humano nos “seres só falos”(serisofalos). Atestam nossas interpretações,
ainda que tomadas por canhestras, sobretudo as passagens literárias como na “Terra dos Brinquedos”
(paese dei balocchi) nas “Aventuras de Pinocchio” de Carlo Collodi, em que, na versão original,
Pinocchio aparece enforcado, como numa “moral da estória” em que diz mais ou menos que “um títere,
um marionete mentiroso jamais se transformaria num ser humano” – nas “Aventuras de Pinocchio”, os
meninos (como os “seres só desejos”, os homens em geral, que só querem se divertir) se transformam em
“burros”; e também em “Sonhos de Uma Noite de Verão” de Sheakspeare, cujo personagem Nick
Bottom, representante da classe baixa (masculina) tem sua cabeça transformada numa de “asno”. Ele fica
repugnante aos outros (exceto pela mulher que só se apaixona por aquele “asno” enfeitiçada pelo “filtro
do amor” de eros), Bottom intui que é repugnante, mas prefere achar que estão se divertindo às suas
custas: This is to make an ass of me, to fright me if they could (ou em minha tradução livre [an ass of me –
“Isto é pra fazer um asno de mim; como se pudessem me assustar”), noutro ponto, ao tentar se redimir,
diz: “I am no true Athenian” (“Não sou um Ateniense de verdade”); E ainda, não teria seria uma estranha
obra do “destino” que as “Metamorfoses” de Apuleius (que Sto. Agostinho chamava de “Asinus Aureus”
– “O Asno de Ouro”) tenha sido o único romance latino que nos tenha sobrevivido por completo?
Romance cujo protagonista, um duplo do próprio Lucius Apuleius (filósofo africano de origem romana
nascido na Argélia em c.125 – e falecido em Cartago em c. 170) só pode ser salvo de suas “pataquadas”
nos trabalhos de magia por meio da salvação da deusa egípcia Isis, mãe ideal, defensora dos escravos,
pecadores e artesãos, dos mortos e das crianças – a patrona das artes mágicas.
10
Arbeiter, p. 168): Quando um determinado poder se serve da técnica, isso quer dizer
que: ele assimila o caráter de poder intrínseco aos símbolos técnicos.
Analogamente, o “humano”, visto não muito tempo atrás como um “criador de si
próprio” (não que se opusesse à natureza, mas era ele em si mesmo uma natureza
“narcísica”, “reflexiva” e “autocriativa”), visto como um “inventor” de sua própria
história e de si mesmo é um ser que, ao seu modo, encontrou-se num estágio de sua
construção que o tornou também “fora de moda”; desde a sua perda de referências nas
ciências humanas, desde que a ascendência da técnica e a descensão ecológica se
estabeleceu como que “vinda do próprio deus” ele nunca mais “se encontrou”, no
sentido dos “trezentos, trezentos e cinquenta...” de Mário de andrade17. Discussões
sobre importância do estudo da divisão do trabalho e de como ele afetou a construção
social tecnológica face aos desenvolvimentos técnicos que dão de ombros à
humanização, demonstram que estamos tão mais longe de propor modificações nessas
“solidificações” resultantes do período industrial, quanto estamos ainda mais longe de
ver a emancipação feminina, e com esta, a distante entre as distantes: a emancipação
masculina. Não que eu leve esta última estritamente a sério! Em vez de tentarmos nos
colocar ou tentarmos encontrar “nosso lugar” enquanto “seres masculinos num mundo
masculino em desintegração” seria antes mais benéfico para toda a humanidade se nós
homens revolucionariamente nos transformássemos ou nos transgenerássemos,
renunciando também ao gênero (como, aliás, tão bem o fez Laerte, o talentoso cartunista
que é nossa avó mais generosa). Quando essa transformação se fizer valer simbólica ou
carnavalescamente, leremos Valerie Solanas sentados no “terceiro banheiro”, ambiente
budista a ser criado no para além do maniqueísta “W.C.” Masculino/Feminino com suas
opressivas manias que forçam a nos definirmos imediatamente antes de produzirmos
nossas excrescências...
Por fim, isso tudo, ademais, faz parte de um assunto que está muito diretamente
ligado ao nosso modo de produção e à cultura de nossa época. É sabido atualmente que
as revoluções culturais dos anos 60 definiram perspectivas de modificação dos modelos
antiquados que se estruturaram, se solidificaram, mas que da noite para o dia tiveram
suas bases questionadas. Resta saber quais os beneficios que esses anos contra-culturais
nos legaram e, a respeito dessas revoluções contra-tecnológicas, o quanto foram
efetivamente capazes de modificar o paradigma e o quanto não passaram de uma moda
de ajuste entre dois extremos.

17
A perda do ponto fixo e o complexo de inferioridade tecnológica imposto pelo chip em relação à célula
biológica induziu as ciências humanas a desacreditarem na sua capacidade inerente de responder ao
automatismo e aos determinismos com a neo-sagrada virtude das renúncias ao poder: renúncia à limitação
da complexidade biológica; à redução forçada do orgânico ao inorgânico; à instrumentação do corpo e ao
uso privativo da vida, etc. Ora, quando Frankenstein fora criado, Mary Shelley, filha do gigante
excepcional William Godwin, (na pele de Víctor Frankenstein) tinha apenas 19 aninhos. Mas ela tinha se
não todo, pelo menos muito controle sob esse “novo gênero” de horror. Ou seja, bastava que ela tivesse
como realmente teve, o controle absoluto sobre o presente (literatura) para que o futuro (construção
parcialmente social) estivesse em suas mãos. Lembremos, em nosso ateísmo, daquilo que disse Rudolf
Otto (SOUZA, 2007) ao interpretar Abraão (Gênesis 18:27): Pó e cinza traduz a pobreza da criatura que
diante do seu criador se recolhe no seu próprio nada. Mary Shelley, muito antes de Huxley, é a real
criadora de um “admirável futuro novo”.
11
Então, o que vem a ser tecnologia?

Augúrios da Inocência

Ver Todo um Mundo num grão
E um Céu em ramo que enflora
É ter o infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora

Um tordo rubro engaiolado
Deixa o céu inteiro irado
Um cão com dono e esfaimado
Prediz a ruína do estado

Ao grito da lebre caçada
Da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
Um querubim, seu canto silencia...

...Toda noite e toda manhã linda
Uns nascem para o doce gozo ainda
Outros nascem numa noite infinda
Passamos na mentira a acreditar.

William Blake (The Pickering Manuscript, 1803)

Não, hoje em dia nem mesmo as crianças confundem “tecnologia” com
computadores, máquinas eletrônicas superpoderosas e outros engenhos criados pelos
japoneses, imitados pelos americanos e pirateado pelos chineses. Tecnologia,
obviamente, está muito além da tecnologia elétrica, eletrônica e informática. A
infinidade do número existente de tecnologias (a considerar o apoio essencial que umas
têm sobre as outras) se conta tanto quanto se contam as estrelas do céu.
Só podemos fazer um exercício de imaginação para termos ideia de quais foram
os primeiros exemplos de tecnologia empregados pelos primeiros humanos. Certamente,
poderíamos falar como falam os arqueólogos das tecnologias africanas inventadas pelas
mulheres que precisavam carregar seus bebês pequenos e trabalhar ao mesmo tempo
formando a espécie de “tecnologia feminina” em série. Poderíamos falar como os
realistas démodé que a criação da tecnologia tenha sido fruto de uma necessidade
interna da mente, então suporíamos também que, num certo estágio, os homens ditos
primitivos caçassem e, como dizem os arqueólogos, as mulheres cuidavam dos filhos e,
por isso, possivelmente, elas teriam sido as desenvolvedoras das tecnologias ligadas à
vida doméstica e familiar, tais como a tecelagem, a cestaria, a cerâmica, a culinária, o
uso de brinquedos, entre outras diversões técnicas e passatempos divertidos para
humanos que não objetivam (isto é, pensam), como cultos religiosos, por exemplo... A
mulher é inventora de todas as possibilidades, dizia um realista “eu”, aos 19 anos de
idade18.

18
A contraposição entre o objetivismo espacialista masculino e as aptidões para fala e para a execução de
multiplas funções ao mesmo tempo, femininas nunca teve maior estabilidade que quando das invenções
femininas não tecnocráticas. Não deve ter sido difícil impor ao mundo masculino imediatista (que é
neurologicamente objetivador em seu “ciclo testosterônico” permanente e uníssono: “caça-sexo-comida-
bebida-diversão-caça-sexo...” daí também a importância da extinção do ciclo testosterônico...) a prática
do culto à grande mãe, representada exemplarmente na história pela belíssima “Vênus de Willendorf” e a
idealização da figura da divindade do feminino. Dentre os passatempos da mulher, o de criar seres à sua
imagem e semelhança é seu predileto: “Aunque nosotros cazamos, ustedes inventan dioses” – disse
aborrecidamente um certo “Cesar” (interpretado por Francisco Rabal) à sua mulher, “Pilar” (interpretada
por Concha Velasco), no belíssimo filme La Ora Bruja (1985) de Jaime de Armiñan.
12
A tecelagem e, para citar outros exemplos, a pedra lascada, a roda, a lança, a
conversão de recursos naturais, o uso da água, do fogo (roubado dos deuses no
paleolítico talvez pelo homo eretus há cerca de 800 mil anos atrás, uso de energias
renováveis, bem como a própria agricultura (e outros instrumentos “rudimentares” de
proteção e sobrevivência em locais hostis), podem ser todos considerados as tecnologias
mais elementares. A partir destas e, aliás, graças a essas tecnologias19 foi possível
construir o desenvolvimento técnico em seus altos e baixos na história humana –
lembrando sempre que “evolução” progressiva é como o “bicho papão”, só existe na
imaginação! E que: “Não existe continuidade da barbárie à civilização, mas há uma
linha reta do estilingue à bomba de megatons” (como disse minha querida profa. Olgária
Mattos, já citada na epígrafe do presente texto).
Os seres humanos sempre tiveram uma relação cultural com as ferramentas que
desenvolveram. Também no sentido de serem um “instrumento” em sentido fraco e não-
neutro (isto é, um meio e não um fim) que as ferramentas foram incluídas na
indiscutível base social humana, portanto, em toda noção de tecnologia20. A inter-
relação e interdependência das pessoas umas às outras, uma ideia que parece ter nascido
da pena de algum iluminista como Rousseau ou de um racionalista como Kant, na
verdade, deve ser vista como uma definição mesma da realidade humana, como uma
realidade cultural, ou seja, uma realidade construída socialmente desde a pré-história.
Na medida em que as ferramentas estão no seio da interdependência humana elas
atingem sua finalidade última na sociabilidade e por isso, na transferência insuspeita de
saberes desta tecnologia. “Como” se dá (ou “deveria” se dar) essa transferência de
tecnologia ainda não sabemos e temos também consciência do quanto isso não foi uma
coisa fácil de se disponibilizar, dado as circunstâncias históricas. No entanto, talvez este
seja um daqueles não raros casos emergentes em que a aplicação da prática e a “mãos-à-
obra”, valem tanto por si só que não se deve esperar sentado a chegada da tão sonhada
teoria messiânica que sirva de fundamento do agir. Então, para estimular a nossa
reflexão em torno de alguns por quês, ser-nos-á útil voltarmos ligeiramente até a
distinção grega entre a técnica e a ciência e ver se a teoria pode nos ser de algum modo
útil, ainda que guarde solitariamente em si, um oceano limitações21.
Pensando com Aristóteles e com os gregos antigos, por exemplo, que são a fonte
do nosso termo em português e da cultura inicial da “filosofia da tecnologia”, havia a
Τέχνη (technê), que se traduz superficialmente como “técnica”, mas que é, na verdade,
“a arte” do ponto de vista do “ofício” – como um instrumento da engenharia humana
(portanto um construto). Aristóteles opunha a Τέχνη (Techné) à Επιστήμη (Epistême).
Para ele, a Τέχνη, (que se traduz superficialmente como “técnica”, mas que é, na verdade
o “ofício de produzir as coisas”) claramente se opõe à Επιστήμη, (que se traduz
superficialmente como “ciência”, mas que é, na verdade, “o conhecimento dos
princípios das coisas” ou a “ciência dos princípios das coisas”. Essa oposição existe

19
Lembrem-se que a vida em sociedade é um dom social e que quaisquer fantasias de individualismo
absoluto, por excitantes que nos pareçam, não passam de “contos de fadas”. Por outro lado, o mergulho
do indivíduo na massa social com o qual se contentou o comunismo do tipo leninista-stalinista e em
outros “paraísos” utópicos como “a Ilha” de Fidel ou a “ilhota” de George Bush, tudo isso não passa de
um “conto de bruxas”: respectivamente, a Sibéria, os Gulag, Cuba e Guantánamo, que o digam!
20
É isso o que eu digo aos meus alunos: quando tiverem a vontade de ser um desses monges loucos do
Tibet ou viver numa montanha como Zaratustra, lembrem-se de pelo menos voltar de 10 em 10 anos, ok?
Não há indivíduo sem a sociedade e vice-versa. Leiam Max Stirner com atenção, mas não sejam tão
malucos!
21
“Já dizia o Eclesiastes, há dois mil anos atrás. De baixo do sol não há nada novo, não seja bobo, meu
rapaz” (Raulzito citando “Deus”, de dentro da “panela do diabo”)
13
tanto em seus intentos como em seus métodos do fazer. Isso porque, segundo o filósofo
Estagiríta, Επιστήμη “ciência” viria do conhecimento desinteressado, afastada da noção
de aplicação prática. No fundo desta questão, que a não aprofundaremos aqui, está a
noção da inter-relação entre o conhecimento prático e o teórico. E o fundamento da
questão da tecnologia, tal como viremos a discutir, diz respeito estritamente, não ao
conhecimento científico propriamente dito, mas à técnica produtora de objetos e coisas.
Indo mais além, para os gregos, a distinção era bem clara entre o que era a φύσις
(“physis” – “natureza” - um ser que se cria a si mesmo) e o que era a ποίησις22 (“poíesis”
– atividade de criação humana na perspectiva da produção de algo modificante em
relação à natureza) – para os gregos a produção de coisas envolve uma técnica, mas essa
técnica teve, desde seus príncípios, suas bases humanistas questionadas. Obviamente
essa técnica é dependente do conhecimento científico, muitas vezes fruto dele, mas o
que se estaria em discussão é justamente os impactos e limites desta “técnica”, enquanto
“arte de produzir coisas” úteis, necessárias ou autômatas, ingênuas (isto é, descoladas da
“realidade”) ou desumanas23.
Simplificando, as metas sociais da modernidade industrial se distanciaram da
techné e da epistême gregas, que tinham fins e meios definidos (embora francamente
distintos entre si), hoje apenas as arbitrariedades que nos levam à catástrofe ambiental e
a nossa auto-extinção (suicidio para, por e pela tecnologia) regem o princípio que vai do
estilingue à bomba de megatons. Assim, segundo uma certa visão naïf que temos, as
coisas são produzidas a partir da superação de um problema. A questão é dada, o
cérebro genial, criativo desenvolve soluções para essa questão que lhe foi dada e então
procura-se produzir meios de facilitar, tornar melhor (ou mais barata) ou mais segura as
coisas ou a própria produção delas. Nada além disso, como acreditávamos, vinham
fazendo todas as sociedades humanas desde os primórdios até hoje. O progresso seria,
então, a luz do mundo, pelo menos até que se pudesse, como se pôde atualmente
identificar também os danos, as ruínas causadas pelo progresso24. Mas, por outro lado,
poucas invenções desinteressadas acabariam tendo uma aplicação consolidada. Isso
mostraria que não há tecnologia desinteressada e que esta seria fundamentalmente
dependente do sistema de dominação dos homens sobre os outros.
Quando eu era criança em 1982, por exemplo, eu tinha duas ideias do que seria o
“futuro”, ou seja, do que seriam os anos de 2000 e 2001. No fundo, embora eu não
soubesse exprimir minha angústia em palavras, eu estava certo de que a tecnologia seria
apenas uma ferramenta neutra que me ajudaria a ser melhor, mais rápido e que eu faria
muito menos esforço que meu avô, por exemplo, que ajudou a minha mãe a nos criar e
nasceu em 1907, numa época em que tudo, no Brasil, era passado. Além disso, eu
achava que a tecnologia podia fazer com que minhas necessidades fossem todas

22
O conceito de poíesis é magnânimamente levantado nos diálogos platônicos do “Banquete”,
principalmente, (em que há elogio da poíesis) mas também no Íon (em que a poíesis humana é
contraposta à divina, sendo o humano mero canal do divino), no Fedro (em que a poíesis humana
resguarda sua utilidade na educação – vide Habermas e todos os cães de guarda da social-democracia), na
República (em que a poíesis é tensionada pela mímesis – imitação – conceito negativo em relação à ideia)
e, por fim, no Sofista (em que a poíesis humana é questionada em sua ambiguidade).
23
Walter Benjamin (nas Teses Sobre o Conceito de História) deixou claro, como aliás, correlatos seu
como Marcuse (Ideologia da Sociedade Industrial e Homem Unidimensional), o quanto era ingênua a
associação imediata da evolução técnica ao progresso e o quanto a tecnologia era inevitavelmente aliada
às forças repressivas dos sistemas de dominação. Poderíamos nos satisfazer com essas análises se não
coubesse ainda uma reanálise sobre os acertos contemporâneos daquelas velhas análises.
24
Eu discuto um pouco sobre isso aqui: http://pt.scribd.com/doc/98465181/A-Sao-Paulo-de-Militao-fotografias-e-ruinas-
na-capital-do-progresso
14
satisfeitas e mais, refletia como parecia bom pra mim e prá todos nós termos nascido
numa época em que o conforto tecnológico finalmente bateria à nossas portas... Na
época, eu tirei essas ideias do fundo do “poço sem fundo”, diretamente de reportagens
surpreendentes do programa “Fantástico” da Tv Globo; acompanhem comigo a minha
ingenuidade e a minha visão naïf “de que os gênios inventam coisas pra alegrar a vida
da gente” para ver se tenho alguma razão, eis um dos programas do Fantástico de 1986:
1º.) Os japoneses acabaram de inventar uma casa que acende a luz com um
simples “bater de palmas”; minha ideia seria então que, no mais tardar, no ano dois mil,
essa tecnologia INCRÍVEL já estaria disponível na minha casa, era o que diziam os
sorrisos icomensuráveis daqueles que apresentavam a matéria. 2º.) Os japoneses
inventaram métodos propulsores a jato e trens bala que flutuam nos trilhos. “- Ual,
como os japoneses são inacreditáveis! Eba!” Minha ideia seria então que, no mais tardar
no ano dois mil, dois mil e um (no máximo!) essa tecnologia já estaria disponível e o
trajeto de Itaquera até o centro duraria um piscar de olhos. (Tv booooobo!) Como pode
uma bola de cristal romper o ingênuo coração de uma criança? O que falar das outras
mil e umas maravilhas prometidas todo final de semana pelo babaca do Zeca Camargo e
a patotinha de patricinhas mal bem vestidas daquele programa cheio de prodígios e
mágicas e feitiços que não podia mesmo ter outro nome fantasmagórico senão “é
fantástico!”? Caras, eu vou lhes dizer, desliguem o aparelho tecnológico da mentira! E
desliguem o rádio de vez em quando, principalmente nos programas tecnológicos que
ficam fazendo previsão de que no ano tal e qual a tecnologia tal e qual estará disponível
a todos e que tudo será muito maravilhoso. Não! Isso não é “mais ou menos mentira”. É
só mentira, mesmo.
A chamada alta-tecnologia, ao contrário, só pode se disponibilizar de acordo
com critérios de cima pra baixo, isto é, malignamente. O tecnológico se reveste da
propriedade egoísta da capitalização e é por isso que sua disponibilidade só se faz de
modo controlado (vigiado), aos poucos e visando apenas o lucro. Assim, o que vale para
a epistême vale para a tecnica; mais ou menos aquilo que a bíblia diz: Pois a quem tem,
mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe
será tirado (Mateus 25:29) Tudo bem, se fosse simples assim, mas o único problema é
que não existirá jamais a “comunhão” na alegria tecnológica do Senhor teu Deus que
lhe quis tirar da terra do Egito (escravidão) e fazer lhe conquistar a “terra prometida”
(liberdade) – a tecnologia e a fé só renderam aos homens submissão e escravatura; a
liberdade só se encontra por meio da renúncia ao poder de produção de coisas lucrativas
mas inúteis e pela luta permantente contra todos os tipos de autoritarismos advindos das
relações de produção. A diante de todo expurgo, estaríamos por fim libertos do
imperium hominis de Francis Bacon, em que o domínio sobre as coisas implicasse não
no domínio de uns sobre os outros, mas no domínio de nós sobre nós mesmos.
O positivismo estava errado também nisto, as tecnologias (mesmo as de massa)
não podem ser totalmente difundidas, porque no limite de todo positivismo encontrar-
se-ia um nivelamento por baixo, um “comunitarismo” que, embora fictício, causaria um
grande estrago para a circulação das mercadorias e para a concentração da renda.

15
Vocês já devem ter percebido que o “retrocesso tecnológico” controlado pelos
detentores da tecnologia (capital tecnológico) é tão mais sadio para o capitalismo que o
próprio avanço tecnológico, não25? Não é a toa que a guerra e a tecnologia da destruição
cria mais tecnologia que a tecnologia distribuída, dividida ou comungada. Não é a toa
também que os discos de vinil, os scanners e as impressoras e os maquinários de 10
anos atrás eram não só melhores, mas satisfaziam mais e eram tão “novidades” quando
comparados aos mais antigos e, ou bem nos exigiam menos ou bem necessitávamos
menos deles comparados aos maquinários de hoje. Uns tinham até mais funções ou
melhores definições ou duração que seus correlatos atuais (contrariando o que dizem,
são cada vez mais caros os de hoje e têm menor tempo de vida útil possível). Outro
exemplo são os celulares da atualidade com seus modelos tão diversos e belos quanto
confusos e desnecessários, mas que nos tornam altamente dependentes. Eles certamente
também fazem aparentemente um milhão de coisas a mais que os antigos (e muitas
vezes custam mais e aparentemente menos e também nos oferecem tecnologicamente o
mesmo ou até menos que os do passado – que em resumo é só ser capaz de nos
“divertir, falar, ouvir, ver e ser visto” por meio da máquina). Eles continuam a dar
sempre a impressão de novidade e indispensabilidade, no entanto, só não fazem a coisa
mais essencial, que será sempre, acreditem, aquilo que já foi inventado, mas que só será
lançado na sua próxima versão ou ainda na outra, mas talvez só na outra, até que outro
dia essa nova função se extinga e volte a ressurgir em uma outra ocasião tão renovada
quanto fora antigamente... Onde o poeta viu “um museu de grandes novidades” eu vi
um museu de velhas novidades. Meninos, eu vi!
Pois é! Há tecnologia? Essa é a pergunta que nos devemos sempre fazer. –
“Há!”. Eis a resposta que todos nos darão... (Hoje é possível fazer muito mais,
escalonando o quanto de tecnologia teremos nas próximas décadas, séculos, milênios...
O estimulo psicológico que isso proporciona só é comparável à expectativa que tem
algumas crianças ao imaginar qual seria o presente que o papai noel trará para elas neste
natal). A pergunta que não quer calar, portanto, é a seguinte: por que estas tecnologias
são tidas na mídia como “manchetes salvadoras da pátria” e quase nunca são aplicadas,
viabilizadas ou conquistam possibilidades reais de se difundir? Essa resposta eu vou
pedir pra vocês responderem quando estiverem entrando nos cacarecos dos transportes
públicos das grandes cidades brasileiras, com seus preços salgadinhos ou quando forem
ouvir “animadíssimos” os excitantes comentários futuristas e altamente irrelevantes de
Ethevaldo Siqueira na rádio CBN nas sextas-feiras pela amanhã.
Entendemos a tecnologia historicamente, portanto, como a busca da satisfação
da necessidade das pessoas a partir da construção de modos de “resolver problemas”,
“encontrar os meios de sobrevivência e melhorá-los”, “melhorar as técnicas” (às vezes,
não necessariamente a vida das pessoas), “facilitar ou aumentar a produtividade” –
todos estes modos são ou deveriam ser utilizados com fins planejados e definidos.
Fazemos deste modo uma confusão generalizada e proposital entre as ferramentas, as
técnicas, os materiais, o conhecimento, o método e o processo tecnológico e a própria

25
Avanço tecnológico este que, afinal, como um “autômato”, não é muito controlado por ninguém.
Ninguém sabe aonde a ciência vai dar! É este o preconceito vulgar em relação ao cientista que é
desdobrado em dois ajuizamentos: 1) O cientista é um louco, portanto, o que ele descobrir, seja o que for,
é resultado de sua loucura. 2) O cientista, essa espécie de pajé contador de lorotas, como sempre, parece
que faz questão de inundar a história da ciência com um bilhão de “acasos” singulares e gratíssimos. Mas
suas mitologias se apresentam como mais perversas que suas próprias “ciências”. É por isso que se a
maça não tivesse caído na cabeça de Newton, a gravidade, não só não teria sido descoberta, como ela não
teria jamais “existido” enquanto tal.
16
aplicação desses recursos como sendo frutos de um mesmo impulso: a tecnologia. Mas
jamais deixaremos de ressaltar que esses métodos, contrapõem-se à “fissura” e ao
“delirium tremis” da produtividade pela produtividade, da renovação tecnológica para o
consumo do próximo modelo a ser renovado e consumido o quanto antes em seu
fetichismo (com todo seu ciclo vicioso em funcionamento), do excesso de produção
com vistas à manutenção da concorrência de mercado – próximos do “amor objetal”
pelos artefatos tecnológicos do qual falou Adorno e afastados todos em absoluto das
“necessidades humanas”: seja lá o modo como iremos algum dia defini-las, sempre
lembrando de que em toda relação de amor e ódio o sentimento de culpa sempre aflora
em momentos totalmente inadequados...26
Abram os olhos! Ainda que vivessem numa aldeia indígena, pra onde quer que
olhássem vocês veriam ou bem elementos orgânicos da natureza ou bem elementos
manipulados e construtos que sofreram a intervenção tecnológica27. A questão mais
importante desta discussão toda é a cadeia e o processo tecnológico que começa com
um problema e uma hipótese de como resolvê-lo e termina no valor do trabalho ou do
trabalhador. Eis tudo. Voilá!28
26
Esse tipo de questionamento serve para nossa era da informação atual em que a informação “mais
nova” vale mais que a “informação atual” (ainda que esta seja mais relevante), causando a busca frenética
e irrefreável por novas informações e ainda mais novas..., impedindo a concentração, consistência e
consciência na informação relevante, que acaba despercebida e posteriormente amontoada e por fim
inutilizada. Contra isso leiam: ADORNO. T. Educação após Auschwitz. In: ADORNO, T. Educação e
emancipação. São Paulo / Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
27
A própria ausência de ligação com a natureza orgânica gera monstros neuróticos na produtividade e no
lucro e é simplesmente por isso que todo mundo quer ir pra praia no final de ano, mesmo que fiquem
parados 16 horas na estrada – tudo pra se libertar um pouco da tecnologia! E se pudessem, fariam isso
mais vezes ao ano, mas o patrão (geralmente o ser humano mais neurótico de todos (única condição para
ser o “patrão”, aliás), exige que seus subordinados se mantenham na cólera do mundo tecnológico por
mais tempo quanto for possível (por isso contentem-se com as fotos de “natureza” colocadas nas telas de
fundo do computador!). E se os neuróticos de hoje se lambuzam e vivem dos juros sobre juros, os do
passado viviam dos produtos do trabalho escravo nas Américas, que serviam para comprar mais escravos
na África, que serviam para gerar mais lucros nas Américas, permitindo-os viver dos produtos do trabalho
escravo... que servia para comprar mais escravos na África que gerariam lucros nas Américas...etc. Foi
preciso a intervenção dos maravilhosos ingleses (grifus satiricus) e seu liberalismo para dar a este ciclo
vicioso um certo fim. Em via de buscar outros “certos fins”, uma tal “revolução burguesa” da qual falava
Florestan Fernandes acabaria sendo muito bem vinda no país da palhaçada política e dos latifundiários
que se julgaram suseranos. Filhos deste desespero, ou bem chegaríamos ao suprassumo do não
intervencionismo estatal ou bem chegaríamos a algum futuro posterior a Kaczynski e anterior a John
Zerzan. É somente com vendas em um dos olhos que talvez devêssemos nos debruçar mais em John
Locke, Alexis de Tockqueville, Adam Smith, Ricardo e John Stuart Mill (de longe o meu preferido) para
tentar encontrar em alguma de suas linhas alguma saída mirabolante do passado. Acrescentem às suas
leituras, se possível: Thomas Jefferson, Thomas Paine, Henry Thoreau, Lysander Spooner, Hayek,
Ludwig von Mises e Murray Rothbard – mas se nada ou muito pouco sair daí, o que é bem provável,
precisaríamos retomar à infância e ler Pannekoek, Luxemburgo, Paul Mattick e outros doentes
infantis...Mas talvez algum dia necessitemos de alguma coisa um pouco mais tropical, sul-americana,
caliente... Si me entiendes...enquanto isso, basta-se: JONAS, Hans. The Imperative of Responsibility: In
Search of Ethics for the Technological Age, 1979; FEENBERG, Andrew. Marcuse or Habermas: Two
Critiques of Technology. Inquiry, n°39, 1996. FEYERABEND, Paul. Contra o Método. Trad. O.S.Mota
& L.Hegenberg. Rio deJaneiro: Francisco Alves Editora, 1977. (http://espiral.net.br/arquivos-metodo/1975-
FEYERABEND,%20Paul.%20Contra%20o%20m%C3%A9todo.pdf) [e outras tecnológicas “luzes de fim de túnel”].
28
Admirem-se quando um futurólogo achar que já vive o futuro e viver de supor o dia em que as
máquinas por fim vencerão os músculos, dia em que o chip dominará ou transforma-se-á em célula (e
vice-versa)... Mas também não! Não sejam malucos, por favor, pois estamos a centenas de anos distantes
do dia em que a inessencialidade muscular nos vencer e foi o capitalismo mesmo quem nos ensinou a não
ter nenhuma pressa ou ansiedade por este dia, pois também será preciso capitalizarmos o dia-a-dia para
chegarmos até a este longíncuo lá.
17
Toda tecnologia, como foi dito, envolve um processo. Tomando como exemplo
o que quer que esteja diante de vocês a qualquer momento [excetuando, claro, se
estiverem no mar, quando se livrarem do patrão ou estiverem contemplando as esferas
celestes quando estiverem apaixonadas (os)] tudo, provavelmente, será resultante de
tecnologias. Além disso, vocês serão capazes de pelo menos supor quais foram as suas
cadeias produtivas antes de levarem magicamente este elemento fantástico para diante
de seus olhos enfeitiçados... Tendo suposto a maior parte desta cadeia, verificar-se-á que
em cada uma delas houve a necessidade e a força de um trabalhador. Certas obviedades
são apenas estúpidas para aqueles que não tiram todo proveito do óbvio, pois o simples
é sempre o mais maravilhoso. Assim, a atividade produtiva e tecnológica é fruto do
trabalho do trabalhador; e toda genialidade implica previamente em alguma força
muscular.
Formalmente, contudo, pode-se estabelecer as estruturas das forças produtivas
que criam objetos mais ou menos úteis e que enchem nossos mundos de carcarecos mais
ou menos irrelevantes. Desse modo, falando de modo simplificado, apresento a seguir
alguns dos passos de implementação tecnológica mais universais:

1) Alguém que identifique o problema. Para ilustrar isso gostaria antes de
lembrar uma estorinha que não tem nada a ver, mas é boa. Um de meus
grandes ídolos Diógenes de Sínope (412-323 a.C.), conhecido como
“Diógenes, o Cão”29, ele dedicou sua vida a pensar modos de se livrar da
tecnologia. Para isso, dizia-se que ele vivia num barril e observara certa vez
um menino bebendo água com as mãos em concha. O filósofo jogou fora o
copo que tirara da sacola dizendo: “Um menino me deu uma lição de
simplicidade!” Diógenes também jogou fora a bacia onde comia depois de
ver um menino (que quebrara o prato sem querer) comer lentilhas com a
parte côncava de um pedaço de pão. Diógenes raciocinava da seguinte
maneira: “Tudo pertence aos deuses; os sábios são amigos dos deuses; os
bens dos amigos são comuns; logo, tudo pertence aos sábios.” (Diógenes
Laércio, Livro VI). Mas vamos supor que o problema fosse beber água:
Pode-se lindamente beber água com a mão como fez o menino grego mas,
pode-se feiamente ser acometido hoje de uma horrorosa infecção bacterial se
se evitar esta ou aquela tecnologia de purificação d’água. Escolher é humano
ser indiferente é divino. Morte ou vida estão relacionadas depois da
implantação do “mundo-como-ele-é”.
2) Depois de identificado o problema, o segundo passo seria propor hipóteses
para resolvê-lo. Assim, se o problema for beber água, pode-se inventar uma
caneca. Mas para se inventar uma caneca é necessário um material e a
técnica ou o instrumento para modifica-lo. A boa escolha do material, além
disso, seria indispensável para que a resolução do problema atinja a
necessidade a qual o criador da tecnologia queira satisfazer. Se a ideia é
fazer com que sujeiras fiquem acumuladas no fundo da caneca, bastaria criar
uma dessas com fundo cheio de ondulações e quando ficassem horríveis de
suja (em pouco tempo) seria necessário e forçoso comprar outra... Porque
será impossível limpá-las, como é impossível limpar liquidificadores e seus
copos antes lindos e transparentes e hoje totalmente riscados e com acúmulo
29
Que inveja! Já pensaram se eu fosse chamado de Renatinho, o Cão ? Isso seria muito lisonjeiro! Mas,
enfim, se todo Spinoza tivesse sua Marilena Chauí, a história da filosofia teria muito bons motivos para se
perpetuar – o que, em humildade em humildade admito: não é absolutamente o meu caso.
18
de bactérias no fundo (os fabricantes, vendedores por compulsão, adoram
fazer produtos descartáveis) Se por outro lado, escolher o melhor material, o
mais abundante (portanto de fácil distribuição), o mais duradouro,
antiaderente, fácil de lavar etc., ter-se-ia um objeto apto para o uso, mas
péssimo para o comércio de tipo chinês. (Mais uma vez, basta escolher!)
3) Deve-se, portanto, escolher o melhor material, a melhor técnica, o melhor
modo de produzir etc. (atentam-se ao rigor do termo “escolher” repetido aqui
como aquelas professorinhas do primário. Percebam o quanto ele está
intimamente ligado à liberdade, à opção – o que faz de nós seres convictos
que o atual e futuro estado de coisas dependerá em sua maior parte, apenas
de nós mesmos). Mas o ato de “escolha” também está relacionado às
problemáticas noções de “planificação”, “racionalização”, “intervenção”,
portanto, também aqui seria preciso mais cautela e sobredeterminação social
(posição “democrática”, por assim dizer, nessas “escolhas”) isto é, será
preciso o envolvimento de todos. No fim, só restará a tarefa de descobrirmos
até que ponto será mesmo possível levar a cabo uma racionalização que não
seja também uma “matematização” ou uma “massificação” da vida.
4) Testar os resultados individualmente e coletivamente.

Ps.: Tecnologia é a satisfação material de uma necessidade por meio de um
instrumento formulado socialmente, isto é, somando-se conteúdos e formas históricas
socialmente dadas, com vistas a objetivos previamente estabelecidos, e também
previamente mortificados, simples assim.

1.2. Os Nossos africanos são melhores do que o deles

“A melhor sorte é sem dúvida a daqueles escravos
que são criados ou cocheiros dos negociantes
estrangeiros, mas estes são geralmente os crioulos,
isto é, negros já nascidos no Brasil. São geralmente
preferidos para tais serviços, porque possuem mais
inteligência e destreza, assim como as suas caras não
são recortadas de todos os jeitos, como as dos africanos natos.
(Carl Seidler. Dez anos no Brasil 1830, p. 236. Apud. SIMÕES, Vol.3, p.43)

Assentam firmemente que há feitiço para fazer mal, que há outro
feitiço oposto, ou contra-feitiço, para que o mal não prevaleça, não
possa ir avante e não produza o seu natural efeito; que há feitiço para
amor e contra-feitiço para aborrecer; que água é contra-feitiço do fogo,
porque o apaga, e da sede, porque a mata e extingue; que o comer é
contra o feitiço da fome, porque a farta; e, por via de regra, sem mais
amplificações, aos efeitos de uma cousa natural dão o nome de feitiço,
e aos efeitos das causas opostas e negativas lhe dão o nome de contrafeitiço.
(Luís Antônio de Oliveira Mendes – 1806. SILVA, Afro-Ásia, 28, 2002, pp.253-294)

O mágico é o homem que, por dom, experiência ou revelação, conhece a natureza e as naturezas; sua prática é determinada por
seus conhecimentos. É aqui que a magia mais se aproxima da ciência. Neste ponto, inclusive, ela é às vezes muito instruída, quando
não verdadeiramente científica.
Marcel MAUSS, 2003, p. 112.

Piada da Toshiba à parte, até ontem e na “boca torta”, falava-se aqui no Brasil da
preguiça congênita do indígena (incapaz para escravidão; incapaz para a tecnologia) e
na força congênita do africano (capaz para o trabalho, mas incapaz para a tecnologia). É
essa mesma mania de classificação que supõe a ingenuidade indígena ou que “os índios
não gostavam de trabalhar, não gostavam de ser escravos e que, por isso, houve
19
substituição (SIC) de mão-de-obra índigena pela africana” no Brasil. Queriam com
isso dizer então, que os africanos gostavam de trabalhar e de ser escravos? Oh, como
nossos psorzinhos de história nos imbecilizaram! O capitalista sabe que numa entrevista
de emprego com dois candidatos, aquele que tiver mais experiência e for mais
“maleável” conquistará a vaga. No mercado de trabalho, enquanto um herdeiro do
mercado de escravidão, maliciosamente um pouco mais desenvolvido que este, tudo é
organizado tecnologicamente para a maximização dos lucros. Isso não era muito
diferente no período colonial. Os indígenas brasileiros, por exemplo, embora
comprovadamente tenham trabalhado como escravos em fábricas de ferro30, eles não
desenvolveram independentemente uma tradição de forja deste metal, eles não tinham a
necessidade disso. Entre outros motivos fáceis de entender, a fauna e flora brasileiras
são abundantes em fontes de alimentos, ricas em recursos hídricos e em condições de
sustentação da vida, por isso, simplesmente, os indígenas não precisavam ou não tinham
ambiente suficientemente desfavorável para desenvolver a tecnologia do ferro por
necessidade natural. O uso do ferro é uma atitude de quem “luta contra a natureza”, e
esse não era, absolutamente, o caso indígena do Brasil. Obviamente, há outras
motivações para além da necessidade, mas, por outro lado, justaposta aos regimes de
escassez e estio de boa parte do continente africano e acrescentando um certo pendor
acumulativista e desejo de potência de alguns reinos, a ideia de produzir excedentes não
era estranha a muitos impérios da África, mas era totalmente extranho aos grupos
indígenas brasileiros. O trabalho com o ferro, ouro, agricultura extensiva, entre outros
tipos de habilidades técnicas africanas (ainda que em número restrito) foram exploradas
pelos portugueses (os modrongo) e também por seus descendentes.
Estimativas otimistas dão conta de que havia cerca de 4 milhões de indígenas no
Brasil em 1500. Estimativas mais razoáveis informam que a população de índios girava
em torno de 2 milhões e meio, sendo que os cerca de 146 mil indígenas do Estado de
São Paulo, contrastavam de modo interessante aos “meros” 60 mil indígenas do
Amazonas (abaixo do rio negro). Darcy Ribeiro, em 1957, estimou que havia apenas
entre 70 a 100 mil índios vivendo em todo território nacional – alertando ainda para o
extermínio indígena do período tecnológico pós-colonial mostrando que dos 230 grupos
étnicos indígenas existentes em 1900, apenas 143 restaram pra contar a história,
cinquenta anos depois.31 Pode-se dizer, por isso, depois dos 50 anos em 5 perpetrado
por JK, chegou a vez dos menos 87 comunidades indígenas em 50 anos! E hoje? Bem,
o Estado de São Paulo perdeu 22 mil indígenas entre os censos de 2000 e 2010,
resultando em cerca de 42 mil indígenas no Estado (mas não eram 146 mil indígenas,
antes de São Paulo ser o “orgulho da nação”?). Cadê minha calculadora? Mantido esse
extermínio, daqui a 20 anos não haverá mais índios em São Paulo – os “negros da terra”
estão praticamente isolados. Não é absolutamente uma verdade que eles simplesmente
se tornaram “nós”; a mestiçagem e as “fugas da aldeia” atingem as populações
tradicionais muito mais lentamente que as balas das metralhadoras tecnológicas do
capitalismo. Pensem nisto!
Um extermínio tecnológico semelhante ocorre com a população negra jovem e
os dados não são diferentes, ao contrário, são tão alarmantes quanto. Leiam esta
reflexão da ativista Maristela Farias, nesse sentido: (...) São índices que provocam até

30
MENON, O. A Real Fabrica de Ferro de São João do Ipanema e seu Mundo 1811-1835. Dissertação
de Mestrado. São Paulo: PUCSP, 1992. pp. 84-90. Também os índios Charruas de Santa Catarina tinham
o conhecimento da prata. Ver: (ZEQUINI, 2006, p. 84)
31
Melatti, Júlio Cezar. Índios do Brasil São Paulo: EDUSP p. 47, 2007. Para atualização ,ver censo de
2010: http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=2194
20
pânico, principalmente, se comparado aos resultados que apontam estados, onde a
morte de jovens negros ultrapassa a marca de 100 homicídios para cada 100 mil
habitantes. Se calcularmos os mortos no ano, o número dos nossos mortos ultrapassa o
número de mortos de muitos conflitos pelo mundo. Veja só: Chechênia (25 mil), entre
1994 e 1996, da guerra civil de Angola (1975-2002), com 20,3 mil mortos ao ano; a
média também é superior as 13 mil mortes por ano registradas na Guerra do Iraque
desde 2003, inclusive superior ao do massacre do Carandiru “por dia”, numa
referência à morte de 111 presos no centro de detenção do Carandiru (SP), em 1992,
ou até mesmo com as recentes mortes dos 107 palestinos (...)32
Cancro mole europeu que retiram dos Tupis a tecnologia feiticeira da Nicotina
Tabacum33 e a capitalizam fazendo da vida (cura), morte (doença) – transformando a
magia do Xamã fumante num inferno científico da Malboro – Satã setentrional. Não é
absolutamente à toa que agora esses diabos do norte proíbem hoje as nossas próprias
criações, magias e tecnologias (como, aliás aqui se proibiu por razões semelhantes o
candomblé até a década de 1920, evocando o “sanitarismo”. Fazendo assim, uma
compação entre a tradição materialista do sangue, dos matos, das ervas e da terra
próprias do candomblé com a tradição espiritualista, “purificante”, da limpeza e da
“pureza”, próprias do catolicismo europeizado. Esta seria a religião, por isso mesmo,
“superior” às essas manifestações cheias de “materialismo” ou “fisicismo” – a ponto de
estranharmos a certeza de que foram os indígenas que ensinaram os europeus a tomar
banho diariamente, o que nos soa como um gingantesco contracenso).
Mas não é absolutamente à toa que o anti-tabagismo mundial atingiu seu apogeu
e a marca do afogamento – para que suas prostitutas saudáveis pudessem agora que
inundaram todo terreno, manter seu nariz ao alto, ao céu, ao norte, acima! O mesmo
pode-se dizer da canabis sativa e o montante de porcarias viciantes que se adicionam a
ela nos nossos dias34. Ó Timbiras, guerreiros valentes cujos nomes lá voam na boca do
poeta e das gentes..., ó grandes Zumbi dentro de cada um de nós, ó nossos ancestrais!
Aonde dormitam vossas práticas mágico-tecnológicas? Em que passado ignóbil
mergulhou o vosso sonho molhado com que irrigavam-nos, por meio de técnicas
complexas, o arado da vida?
32
http://cspconlutas.org.br/2012/12/e-comprovado-o-exterminio-que-sofre-a-juventude-negra-
no-brasil-as-marchas-das-periferias-ja/ O extermínio corporal é equivalente, no limite ao extermínio
espiritual e tecnológico. A busca por uma identidade brasileira raramente se orgulhou de suas tradições
como sendo negras, africanas e quando nunca estas foram maquiadas e por isso mesmo não há outra
alternativa senão essa atual mentalidade meio “espezinhante” que insiste na valorização e destaque de
uma cor da pele deixada para trás. Mesmo no Estado de Santa Catarina, por exemplo, que tem a mais
baixa proporção de negros do país, mas eu pergunto: o que é baixa proporção pra você? Os negros
constituem cerca de 11,7% da população neste estado. Essa é, em termos absolutos, a proporção
equivalente de negros nos EUA atualmente e que tende a aumentar mais que a população negra no Estado
de Santa Catarina, por razões óbvias, uma delas é o extermínio dos negros que vivem na periferias das
cidades deste Estado branqueado do Brasil. Esses dados demonstram o conflito de identidade do Brasil..
“Um estudo publicado em 2010 pelo instituto de pesquisa Sangari mostra que a chance de um jovem
negro ser morto é 130%17 maior que a de um branco. O estudo analisa índices de 1997 a 2007. Neste
último ano morria 2,6 jovens negros para cara 1 jovem branco com idade entre 15 e 24 anos. 32” Tudo
bem, podem me perguntar: e o que isso tem a ver com tecnologia? Se ainda não entenderam, leiam até
onde puderem imaginar.
33
Seu uso medicinal por indígenas norte-americanos é indicado em : COVEY, H. 2007 p. 114. Para usos
na África vejam HAMBLY, W.D.; LAUFER, B. & LINTON, R.Tobacco and Its Use in Africa Leaflet
no. 29. Chicago: Field Museum of Natural History, 1930. Disponível em:
https://ia700303.us.archive.org/7/items/tobaccoitsuseina29lauf/tobaccoitsuseina29lauf.pdf
34
Portanto, fiquem longe das drogas, meninos! Bem, exceto se tiverem no interior da Bahia ou na
Jamaica, porque, pelo que parece Jah ainda protege os de lá.
21
The Ladies Home Journal – Fev. 1920
“What Fun to watch aunt Jemina at Work”
“Como é divertido ver a ‘tia Anastácia’ no Trabalho”

22
23
Com a palavra, Câmara Cascudo: “A Nicotina tabacum divulgou-se pela África
Ocidental e Oriental nos finais do séc. XVI ou na centúria imediata mais precisamente.
Espalhou-se com tal rapidez (como o amendoim, Arachis hypogaea) que as variedades
foram julgadas produtos nativos35. Antes do tabaco americano não creio que nenhum
africano conhecesse a espécie, apesar das afirmativas de Wiener. Havia e fumava-se
Cannabis sativa, Linneu, Haxixe, cânhamo, pango, diamba, liamba, riamba, maconha,
como dizemos no Brasil onde se multiplicou em plantio e vício, vinda do uso negro. O
próprio nome “tabaco” pela África denuncia a origem ameríndia, et-tobboo, tabba,
tombaco, tambo, pela região central, em suaíle, quigala, tabaco e mesmo o português
fumo, para os luchicongos. Mas em quimbundo é dikanha, makanha, rikanha, pouco
disfarçando o macanha, maconha, o venenoso cânhamo. Era esse o tabaco de Angola
antes que chegasse o verdadeiro, levado do Brasil pelo português que dele já não se
separava. Divulgado pelo intercâmbio árabe, pelo Índico e descendo do Mediterrâneo, a
dikanha fuma-se pelo cachimbo comum angolano, libueca, e com o vaso com água,
como os narguilés orientais, e diz-se mutompa. No antigo Congo Belga, no reino baluba
de mukenge, o rei Kalamba instituiu a riamba em rito de culto social, liame político,
fundando os Bena-Riamba, “filhos da maconha”, como registrou Herman Von
Wissmann (1853-1905), com o “Velho da Montanha” fizera no séc. XI. Hassan Ibn
Sabah embriagava seus devotos com o haxixe, a mesma maconha ainda fumada no
Brasil (...)” (CASCUDO, 1965, p.179-80). Seruma é outro nome para o haxixe e
maconha, mas outras ervas como a Tatula, o Ubulawu, a kwashi (Puncratium
trianthum), Tabernanthe Iboga, Sceletium Tortuosum, Silene Capensis, Oldenlandia
affinis, Catha edulis, etc. também fazem parte do rol herbário tradicional de psicoativos
africanos36.
Certamente os cachimbos perfazem um importante aspecto da cultura material
africana nas Américas e não só por fazer parte do étimo africano no português, mas por
ser um dos elementos incluídos no contexto das sociabilidades identificadas na
etnografia africana. Este assunto tem recebido alguma atenção acadêmica e a recente
descoberta arqueológica de vestígios da cultura material da escravidão no Cais do

35
De fato, embora hoje se saiba por evidências botânicas sobre a origem da planta e pelas eviências
históricas o uso do tabaco ter se iniciado pelos indígenas nas Américas, não faltaram antropólogos no
passado que indicassem possíveis origens nativas africanas tanto à planta quanto aos costumes
relacionado ao fumo. Isso não ocorreui à toa. O alto nível de originalidade africana na produção de
cachimbos e todo um aparato antropológico por trás do fumo da nicotina, em tempos que remetem ao
início do contato africano-europeu , estimularam hipóteses bastante curiosas sobre isso. Mas as
elaborações de cachimbos como marcas étnicas também devem ser estudadas sob o ponto de vista do
fumo de outras substâncias nativas. Além do tal Wiener, indicado por Cascudo, também G. Schweinfurth
em The Heart of Africa, I, New York, 1874 p.255, chegou a afirmar que a planta nicotina rustica devia
ser nativa da África, em todo caso ele mudou de ideia, décadas depois. Acompanhe a discussão em:
HAMBLY, W.D.; LAUFER, B. & LINTON, R.Tobacco and Its Use in Africa Leaflet no. 29. Chicago:
Field Museum of Natural History, 1930. p. 3-4. Disponível em:
https://ia700303.us.archive.org/7/items/tobaccoitsuseina29lauf/tobaccoitsuseina29lauf.pdf
36
A lista é extensa, acrescentem-se as plantas: Agapanthus campanulatus F.M. Leight., Boscia albitrunca
(Burch.) Gilg & GilgBen., Helinus integrifolius (Lam.) Kuntze., Hippobromus pauciflorus (L.f.) Radlk.,
Psoralea pinnata L., Rhoicissus tridentata (L.f.) Wild & R.B.Drumm. subsp. cuneifolia (Eckl. & Zeyh.)
Urton., Rubia petiolaris DC., Silene bellidioides Sond., Silene pilosellifolia Cham. & Schltdl., Silene
undulata Aiton and Synaptolepis kirkii Oliv. Para uma descrição pormenorizada vejam: SOBIECKI, J.F.
A review of plants used in divination in southern Africa and their psychoactive effects. Southern African
Humanities 20: 333-51, 2008; MITCHELL, P. & HUDSON, A. Psychoactive plants and southern African
hunter-gatherers: A review of the evidence. South African Humanities 16: 39-57, 2004. Ver também:
http://bitnest.ca/external.php?id=%257DbxUgZ%255BCH%255E%2519vz%257F%250D%2518V%255BS%2503J%251A%252F
%257Da%251D
24
Valongo no Rio de Janeiro que inclui cachimbos, engrossa alentadamente o corpus de
trabalho e de estudo, para quem quiser lidar com estas questões de cultura material37. O
uso e fabricação de inúmero tipos de cachimbo de madeira ou cerâmica (por vezes
chamado “Mutopa”, “Géssu” em São Tomé e Príncipe ou ainda “kitimba” no Bakongo
de Cabinda) 38 se generalizou por todo território nacional e conquistou brancos, negros e
mesmo os índios, que tinham suas próprias tradições originais de uso do cachimbo39.
1,2,7,8 Cachimbos de argila; 3 Cachimbo com
bojo feito em bronze, Camarões. 4, Narguilé; 5,6,
Cachimbo de madeira. Ovimbundo, Angola.
HAMBLY, W.D.; LAUFER, B. & LINTON,
R.Tobacco and Its Use in Africa Leaflet no. 29.
Chicago: Field Museum of Natural History, 1930. p.
15[177] prancha II. Disponível em:
https://ia700303.us.archive.org/7/items/tobaccoitsus
eina29lauf/tobaccoitsuseina29lauf.pdf

Uma mameluca e uma cafuza fumando em cachimbo
São Paulo - SPIX & MARTIUS Atlas zur Reise in
Brasilien - (1823-1831) Disponível em:
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/ico
n1250074/gallery/index.htm

37
AGOSTINI, Camilla. Cachimbos de escravos e a reconstrução de identidades africanas no Rio de
Janeiro, século XIX. Monografia apresentada na obtenção do Bacharelado em Arqueologia da
Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, 1997; SYMANSKI, L.C.P. & GOMES, D.M.C Mundos
Mesclados, Espaços Segregados: cultura material, mestiçagem e segmentação no s´tio Aldeia em
Santarém (PA). In: Anais do Museu Paulista vol.20 no.2 São Paulo July/Dec. 2012. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-47142012000200003&script=sci_arttext#nt83; Outras informações sobre este
assunto também podem ser encontradas nos seguintes artigos:
http://www.mast.br/projetovalorizacao/textos/livro%20cultura%20material%20e%20patrim%C3%B4nio%20de%20C&T/5%20AR
QUEOLOGIA,%20CULTURA%20MATERIAL%20E%20PATRIM%C3%94NIO_mariadulce.pdf e em
http://www.revistatopoi.org/numero_atual/topoi18/topoi%2018%20-%20artigo%204%20-
%20cultura%20material%20e%20a%20experi%C3%AAncia%20africana%20no%20sudeste%20oitocent
ista.pdf
38
- MARTINS, P.J. Sabedoria Cabinda – Símbolos e Provérbios. Lisboa: Junta de Investigação Ultramar,
1968. p.560.
39
Ver também : PACHECO, A. S. Cosmologias Afroindígenas na Amazônia Marajoara. Projeto História,
São Paulo, n. 44, pp. 197-226, jun. 2012. Disponível em:
http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/10219
25
Cartão Postal – Abomey Cartão Postal – Senegal
Homem Fon – c.1900 Mulher Wolof – c.1900
Col. Particular Col. Particular

Para além dos percalços
do que significou a escravidão
para os afro-americanos e para as
próprias civilizações africanas,
suas tecnologias enfrentaram
grandes dificuldades para se
desenvolver, entre outros fatores,
devido ao choque cultural, ao
desnível estrutural dos modelos
tecnológicos e a distinção da
visão de mundo entre os
africanos e europeus.

Esta gravura é uma Ilustração de A.
Housselin e faz referência a uma classificação de
parte da cultura material do Reino do Daomé,
visto por Édouard Foà, em 1895. Foi publicada no
livro: Le Dahomey: Histoire - Géographie -
Moeurs - Coutumes - Commerce - Industrie.
Expéditions Françaises (1891-1894). P.128.,
1895.
Legenda: Artes industriais – 1.
Tecelão 2. Foles, tenazes, martelo, bigorna. 3.
Exemplo de fornalha. 4. Punhal. 5. Faca. 6.
Encosto de cabeça. 7. Coco (?) [bandeja e jarros]
carregado[s] com óleo e amêndoas. 8. Pente. 9.
Canoa. 10. Remos. 11. Arpões e ganchos.
Outros ilustradores incluíam P.
Merwart, Sirouy, Charpin e Lix.
(http://www.nairaland.com/1249503/interesting-
images-precolonial-early-colonial/6)

Contudo, é sabido que a
tecnologia africana teve seu
lugar na história da tecnologia
mundial, seja do ponto de vista

26
da primazia técnica, seja do ponto de vista da sua eficácia local. Resta então, no que diz
respeito ao nosso velho costume comparativo, fazer o esporte divertido de inverter os
valores que supõe um “superioridade” e uma “inferioridade”. Por outro lado, uma vez
que a questão premente da tecnologia é antes o reconhecimento da diversidade de
necessidades que os grupos humanos têm e não a substituição ou imposição de uma
necessidade de um grupo sobre os outros, não se poderá, sob quaisquer critérios,
considerar esta ou aquela tecnologia superior ou inferior, pois os critérios
condicionantes serão sempre internos aos grupos impedindo-nos de fazer análises
comparativas externamente. Os indivíduos e os grupos humanos em geral, possuem
interesses variados, assim como variados são os interesses dos avós e dos netos no que
diz respeito as suas aproximações com a tecnologia atual ou de épocas passadas.
Façamos, portanto, a suspensão de nossas toscas manias de classificação das
coisas e seres, como se estes fossem sujeitos-objetos totalmente separáveis. Nem o vovô
é um completo idiota por não saber ou “não querer saber” como se bloqueia o teclado de
um celular, nem o netinho pode se vangloriar de seu saber ultra-mega-blaster
contemporâneo, uma vez que ele também se tornará vovô daqui há não muito tempo e
ele também não saberá ou não vai considerar importante ser fluente na atualidade
desatualizante do mundo da tecnologia hierarquizada do futuro. Não que os índios ou
outros povos tradicionais sejam “crianças” perto dos que foram tragados pela revolução
industrial e tecnológica do ocidente. Muitas vezes se prova bem ao contrário! Eu adoro
aquelas estórias que mostram um velhinho fazendo piada da vaidade, da arrogância e da
presunção dos mais jovens – vejo um milhão de velhinhos indígenas rindo dos
portugueses, seja porque os portugueses não tomavam banho com muita regularidade,
seja porque lhes davam espelhos ou “porque vivemos num mundo doente”, como diria o
poeta. Mas se há uma distinção real entre as formas tecnológicas essa distinção não
interessa a todos do mesmo modo e ao mesmo tempo. Assim, superando nossas manias
de classificação e as distinções entre as “superioridades” e “inferioridades” (pois elas
revelam nossos objetivos estritamente políticos), faríamos da experiência humana o que
ela já é, variada, singular e subjetiva.
Séculos de preconceito das ciências humanas, da arqueologia e da história
atrasaram o real conhecimento histórico das tecnologias, arte e culturas da África. A
egiptologia em seu “fantástico” mundo da “fantasia” foi como que um “buraco negro”
dentro e em torno do qual alçaram mil e umas estrelas, dentre elas, a mais recente, ainda
mais intrigante e dada às luzes, câmera e a ação: o Sr. Zahi Hawass, que compõem o
círculo indefectível do monopólio televisivo de “toda” arqueologia africana como sendo
apenas e, em resumo definitivo, o “Egito”, com seu museu magnífico no Cairo. Apenas
muito recentemente (quase que no ocaso da ciência arqueológica) começaram as
escavações na África subsaariana. Os sítios mais antigos dessa região são, em especial,
de cunho pré-histórico, portanto de alto interesse europeu por causa de seus lindos
museus (as famílias de primatas, a classificação de dinossauros ou senão as bem
afamadas múmias dos faraós, a riqueza do vale dos reis etc.) Pouco se vê ou se fala das
possíveis influências Núbias no Egito, seja nas técnicas de embalsamento ou mesmo na
construção de pirâmides. Quanto ainda há, por exemplo, a se conhecer sobre o peso
histórico da 25ª. dinastia do Egito, sob influência dos Cushitas? Quem tem medo de ir
além das descobertas do arqueólogo italiano Savino Di Lernia e outras equipes de
arqueólogos saarianos, em especial com relação à “múmia negra”? Isto é, a múmia de
um menino negro “Wan Mahuggiag” (ou “Mahudjaj”) que foi descoberta pelo
arqueólogo italiano Fabrizio Mori, em 1958, numa caverna na montanha de Tadrart
Acacus, em Fezzan, na Líbia, e é datada de c.5.500 anos, ou seja, pelo menos 1000 anos
27
antes da mais antiga múmia egípcia conhecida.40 Bem, a maior parte das observações de
Savino Di Lerni trata do Período Heloceno saariano (no fim da última era glacial), que
só interessa a pouca gente e não deverá trazer muitas novidades neste quesito tão
superficial e realmente o assunto dos mais medíocres chamado “cor da pele” em que eu
me debruço só pra fazer política ou melhor por mera diversão.
Somente as escavações subsaarianas, entretanto, que despertem o estímulo
antropológico e cultural resultarão em uma compreensão mais aproximada da real
contribuição africana para a humanidade. É certo que há muitos outros sítios não
escavados e que um dia poderão vir a revelar informações mais detalhadas sobre as
tecnologias e a cultura material em geral dos antigos reinos e os demais agrupamentos
saarianos e subsaarianos. De arremate, embora estejam ainda em fase de
“desenvolvimento” ou à espera de equipes e financiamentos, esses sítios já refletem
como eu dizia, ademais, o “fim” da própria arqueologia, isto é, o momento evolutivo em
que a atenção arqueológica se voltará para outros focos e passará à periferia do sistema,
antes de extinguir-se enquanto tal ou renovar-se numa antropologia geral.
Quando se der mais valor, portanto, aos grupos humanos que formaram a África
e daí o mundo, veremos enfim menos documentários de “safári”, “mundo vegetal” e
“mundo selvagem” (como no “The History Channel”, de que afinal gosto um pouquinho
na falta de algo menos pior, e ainda os “National Geographic” ou o “Discovery
Channels” da vida, entre outros passatempos de nós, velhinhas resfriadas num dia de
domingo) e mais documentários sobre grupos que foram importantes na história da
humanidade e da tecnologia, mas que quase ninguém ouviu sequer falar deles ou de
suas conquistas tecnológicas: povos como os Aka, San, Koi, Khosa, Berber, Haussa e
Shona, Akan, Mandinka, Songhai, Fon, Iorubá e Bini, os Estados Swahili, além dos
Maconde, Luba, Herero, Bakongo, entre outros povos bantos, também os Núbios, que
nos interessam menos pela ausência de ligações com o Brasil, mas são igualmente
importantes, só para citar alguns poucos exemplos.
Indo mais além, não seremos jamais partidários da noção torta de tecnologia ou
de civilização que julgue o trabalho na pedra superior ao trabalho na árvore, no barro ou
no mato. Teríamos então de recomeçar todos os nossos estudos sobre o continente se,
sob o ponto de vista da nossa satisfação pessoal tivermos de valorizar no outro só aquilo
que etnocentricamente nos cabe os maiores trunfos (contra-transferência cultural).
Como se nós olhássemos para eles e víssemos neles o que eles engrandecem a nós, se é
que podemos falar assim “de nós” e “eles”. Mais ou menos como disse em 2008 Jari-
Ankhamun, um colega de fórum sobre o Egito, falando de algo sobre a arquitetura que
concordei piamente: “Os eurocêntricos usam formas europeias para comparar às formas
africanas e os afrocêntricos comumente encontram as formas que mais se parecem
europeias da arquitetura africana para “defender” suas posições”. É desta maneira que,
quando nos deparamos com um grupo social africano organizado, com realizações
estéticas proporcionais e “bem” acabadas ao “nosso” estilo e gosto, com uma magia e
tecnologia (“simples” ou “primitiva”, como dizem, “mas admirável que pudessem fazer
isso desta e daquela forma...”) começamos a amá-los mais, pois são assim considerados
mais próximos de nós do que, na verdade, gostaríamos que não fossem... Como aqueles
que chegaram a desconfiar de que “os africanos não deviam ser assim tão inferiores,

40
A este respeito vejam a este documentário: https://www.youtube.com/watch?v=gTRsvXXm3zo. E o
texto: ASCENZI, Antoni. The Uan Muhuggiagi Infant Mummy in: COCKBURN, A. & COCKBURN, E.
& REYMAN, T.A.(Eds.) “Mummies, Disease and Ancient Cultures”. 2o.Ed. Cambridge University
Press: Cambridge, 1998, p.281.

28
uma vez que conseguiram construir reinos de pedra”. De fato, embora fossem reduzidas
as construções que se valiam de pedras na África subsaariana, essas construções
também apareceram em variados pontos, especialmente nas regiões ao sul do Zambeze,
segundo Phillipson41. Mas não adianta muito aqui no Brasil, nesse sentido, mencionar a
Axum, a Meroé do Reino Kushita, Kerma e Napata ou o Reino Zulu, o Grande
Zimbabwe, as mesquitas de Djenné ou a Kanem-Bornu, e mesmo a arquitetura Soninke
do Império de Gana etc. Esses reinos de pedra feitos pelas gentes pretas são, de fato,
parte da história mundial tão deturpada e esquecida em nome da ganância e exploração
racista, mas que não nos dizem respeito diretamente – reinos de pedra tendem à fantasia
de perenização como as catedrais góticas tendiam à fantasia de um paraíso! E jogando
nossas vistas mais adiante, ao mesmo tempo em que esses reinos como o Egito, Grande
Zimbabwe e Axum etc. estão para África (à exlusão periférica) respectivamente o que a
Inglaterra, Itália e Alemãnha etc. estão para o que se convencionou chamar “europa”, ou
“civilização europeia” (também à exclusão dos países periféricos – mas eu sei que não
faltam empresários e cidadãos do Chipre cheios de orgulho, não de seu passado
clássico, mas do fato de pertencerem à União Europeia). Que seja evocado, portanto, em
alto e bom som: nada contra o barro e a areia! Nada contra o perecível como todas as
existências. Casas de pano é tudo o que se precisa quando se tem amor42.
O que nos cabe aqui no Brasil é, por um lado, fazer o inventário básico das
formações culturais banto em terras brasileiras e, por outro, obter a compreensão de
como as sudanesas imbricações daomeanas tipo Mina-Mahy, Adjá, Ewe, Jeje ou Fon,
Mina-Courá, Courano ou Cobu e Lanu ou ainda de outros povos como os Iorubá, os
Igbo, os Tapa, Sobo, Bornu..., mas também os Akan como os Fanti-Ashanti e os Gbe, o
Haussa, Mande, Papa,Gurunsi, Mandinga, Wolof, Fula entre outros povos da Costa
Ocidental Africana que contribuiram para que esses resquícios ou pequenas pitadas de
“africanismos” pudessem se verificar como “influências” concretas no seio da pátria
amada, para os filhos deste solo, mãe gentil.
Quem e quais são as tradições dos seres humanos de origem Banta? Quais delas
tiveram implicações no Brasil? Qual é, por sua vez, a extensão da cultura material
Mina-Jeje-Nagô? Os atuais testes genéticos não nos permitiriam, além de tudo, ao
menos revermos nossa exclusão da presença genética do centro sul africano não banto
nas Américas? Cadê as lembranças dos arabismos do norte africano e dos Malês que
foram quase todos ceifados no novo continente? Por onde andam todas aquelas malhas
de magias e de tecnologias dos Macuas ou dos Maconde-Moçambiques feito os
Baronga ou Landis, os Batonga, ou seja, todos os tipos Bacongo ou outros bantos como
os Balunda e Bakuba desde Shaba às fronteiras quilométricas da África Centro-
Ocidental que baixaram aqui e de outras bandas como os Angicas, Cafres como os
Mucuroca, Mundombes, Mutumbes, Munanos, e os Muxicongos, Manuamas,
Mazumbo, Ganguelas, Janguellas, Bengalas (Banguelas que saíram deste porto em
Angola e que em verdade vieram de outros obscuros lugares tão obscuros quanto todos
esses povos de quem nunca ouvimos falar), os Libôlos, Mbundas, os Mbundo da área de

41
O autor indica ainda a presença desse tipo de construção na idade do ferro “para edificação de muros
em terraços ou em simples cercados, nos sítios de Gokomere, Ziwa, e Zhiso e com forma arquitetônica
mais elaborada no sítio de Maxton Farm, sendo que a difusão e o aperfeiçoamento da técnica também
pôde ser verificado em tempos posteriores à essa época. PHILLIPSON, Início da Idade do Ferro na
Africa Meridional In: A África Antiga p.705 Disponível em: http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-
content/uploads/2011/08/Inicio-da-Idade-do-Ferro-na-Africa-meridional.pdf
42
Disse isto o cantor John Sebastian para meio milhão de pessoas, em 16 de agosto de 1969, no festival
de Woodstock.
29
Dembo, Mobundo ou ovibundo (todos os falantes do Umbundo), bem como Hotentotes
como os Mucuissos, Mugangalas... Aonde os africanos de todos os lados como os
Agonnées, Sentys, Ambacas (ou baca), Hallos, Mandingas, Jalos ou Jalofos (Wolof),
Bambas ou Quibamba, Bimba, Maquiscas, , Manjocos, Monjolo (ou Bojolo, que são na
verdade os Bateque), Libolo, Rebolo, Mochica, Mucange, Mutumo Angola, Motemo,
Mossoço Bechuanos, Pumgo, Rundo de Lunda, Bandara, Sunde, Songa ou Songo ou
Massango (Massangano) Sosso. Quê dizer ainda dos Mifundo, Mofumbe (Mufumbe ou
Humbe), Missena, Mujaca, Muçumbi, Nhambanda, Zumba, Ambuíla (ou Bambuíla,
Babuína...), Calabar, Inhambane, Moange? Aonde os Jingas, Vatuas, Balantes, os de
Luango, os Herero todos, Cabo Verde, Mansango, Masangano, Quissanã (ou
Quissama), Quilimane, Quilungi, Pambá, Cambu, Cambuta, Caburu, Coixana, Nagôssa,
Arda, Cadana, Cabinda, Crisila, Chana, Xambás, Mugumbe ou Mogumbe, Megumes
(ou Mogume), Macumbe... Monsosso, Cabundá, Golla, Gangola, Carijó, Chiburibo,
Chumbo, Mampuia, Mapanguangue, São Tomé, São Lourenço, Camundongos (ou
Camundá), Caxéu e Cassange... daqueles que jamais foram classificados e de todos os
crioulos desta terra? Com a devida vênia em relação aos nomes diferentes de povos
idênticos a se contestar e a mesma indulgência pelo excesso de plurais desnecessários,
porque a diversidade gera a labirintite e a confusão está assim formada; mas também
não há ciência sem confusão43.
A magia e a tecnologia são dadas a estabelecer nessa confusão em definitivo
apenas numa mente cartesiana, para a qual as ideias claras e distintas são ao mesmo
tempo o princípio e o fim de todo conhecer. Mas conosco não! A própria querela
histórica eternizada pela dúvida entre a superioridade/inferioridade congo-angolana que
é contraposta por sua vez à inferioridade/superioridade sudanesa reflete bem o fato do
desequilíbrio e o estado de confusão mental expressado, como por exemplo no Deus dos
que se intitulam “sais da terra” que se arrogaram a louvar um ser superior a todos os
superiores44.
A indissociação da magia e da tecnologia pode ser experimentada por meio de
diversas maneiras. Por exemplo, me vem à mente a paradoxal existência dentro de um
único homem do esprit de geometrie (“espírito de geometria”) e o esprit de finesse
(“espírito de finesse”), encontrado em alguns dos grandes matemáticos da história tais
43
E a continuidade da profusão da confusão se veria se se desdobrasse outros centros de influência nas
Américas. Se ficarmos apenas com os EUA, teríamos de falar de suas influências Wolof, Mandingo,
Malinke, Bambara, Fulane, Papel, Limba, Bola e Balante, Os grupos da Serra Leoa como Temne e
Mende, e a Costa da Libéria, os Vai, De, Gola, Kisi, Bassa e Grebo...e outras Costas têm-se os Iorubá, os
Nupe, os Bini, os Fon, os Ewe, os Ga, os Popo, os Fanti-Ashanti. Do Delta do Niger chegou aos EUA os
povos Efik-Ibibio, Ijaw, Ibani e Igbos (Calabars). Também da África Central chegaram os Bakongo,
Malimbo, Bambo, Ndungo, Balimbe, Badongo, Luba, Loanga, Luango e Ovibundo, entre tantos outros.
De continuidade em continuidade refaz-se as malhas das magias e tecnologias afundadas no poço fundo
da história. Ver: HOLLOWAY, E. Africanism in America Culture Indiana: 2ed. Indiana University Press,
2005, p.30.
44
A mente cartesiana e perversa, em sua teologia racional e esteticamente puras é a criadora da fórmula
abstrata do único deus. Mas o monoteísmo não seria outra coisa, em si mesmo, senão uma tentativa de
controlar esse pathos humano, essa sede anímica, esse fogo primitivista que vê deuses em todas as coisas
e nunca quer se calar ou parar com essa profusão do confundir? Foi essa mesma mente pura num senso de
singularidade tal que criou excrescências como o “Rei dos Reis", tal como quis “Jeová” prevalecer acima
de seus outros concorrentes (como Shaddai, Olam, Elyon, mas também El, Ba’al e Ashera), todos
minorizados diante ‘Dele’ pelos pós-exilados patriarcas hebraicos. Ver: ALT, Albrecht. Der Gott der
Väter: ein Beitrag zur Vorgeschichte der israelitischen Religion. Sttutgart: W Lohlhammer, 1928. Ver
também: FINKELSTEIN & SILBERMAN. The Bible Unearthed : Archaeology's New Vision of Ancient
Israel and the Origin of Its Sacred Texts, Simon & Schuster, 2002, pp. 241-42; BONANNO, A.
Archaeology and fertility cult in the ancient Mediterranean. University of Malta, 1986 pp.238 e ss.
30
como: Pascal, Newton e Leibniz. O mago, o curandeiro (e em menor grau o feiticeiro),
são técnicos do mistério da vida e se certamente respondem à tradição aprendida mais
que a seus próprios instintos e crenças supersticiosas, pelo menos as defendem com fins
sociais. O médico hospitalar também, se este for bem formado e responsável, também
responderá à sua tradição quando fizer “receita” em torno da saúde e da doença e crer
que seus longos anos de estudo serão agora recompensados em seus garranchos, sua
autoridade e sua fé nos princípios ativos dos medicamentos que indica assodadamente.
Pior, ele saberá por boa-fé ainda que, estatisticamente, uma parcela significativa de seus
pacientes necessariamente não responderão bem ao tratamento e se justificará isso não
pelo mistério intrínseco que separa a doença da saúde, (mesmo que inconvenientemente,
elas vivam em universos comunicantes), nem sequer se justificará isso colocando em
cheque os seus modelos medicinais, todavia, justificar-se-á isso por meio da
“trasferência da culpa” (por seu auto-engano ou pelo “jogo de dados” que o médico-
“curandeiro” faz ao “receitar”) mesmo sem saber se tal remédio recomendado trará
algum benefício e, não raro, se ele trará apenas malefícios. A fé na ciência é tão
fundamental quanto a crença no feitiço.
De alguma forma a magia, enquanto técnica que não urge por clareza e
distinção, mantendo sempre um espaço para a icógnita e para o “milagroso”, ela possui
uma pequena vantagem quantitativa em relação à “técnica pura”, por assim dizer. Não
que a técnica não seja tão icógnita em seus fundamentos teóricos, mas que seu uso
ideológico impõe uma miserabilidade maior à tecnica ou bem uma riqueza maior à
magia. Nesse sentido, enquanto o pajé, o shaman e o nganga atiçam o fogo do saber ao
transferir aconselhamentos de como não fazer voltar aquele desequilíbrio que é,
segundo sua crença, a única fonte espiritual possível do aparecimento da doença. Por
instinto de classe, em geral, o médico hospitalar é mortalmente contrário à medicina
preventiva, pois esta é seu maior tabu: ela põem em risco a manutenção de sua
autoridade e despotismo, sua capacidade mágica de manter a doença afastada por meio
da técnica medicinal científica de tradição europeia, em sua crença, a medicina modelar,
ou melhor, a única verdadeira medicina.
Mas quem senão os europeus que mistificaram a magia da ciência com objetivos
manipuladores, assim como se jogou recentemente com a ideia de que produtos piratas
(como CDs, DVDs, programas de computadores, etc.) estragariam as máquinas e
levantou-se o mito de que “somente comprando os originais as pessoas estariam
absolutamente protegidas”. O verbete tecnológico e antropológico sobre “fotografia -
importância estética e social”, revela o uso ideológico da tecnologia com objetivos de
clara vantagem, perpretado por europeus no “continente negro”: “nos primeiros dias, as
crenças locais sobre roubar almas e sombras criou uma considerável resistência aos
fotógrafos. Fotografar era temido porque foi pensado que isso tornava as pessoas
fracas ou seu sangue se afinaria ou até mesmo poderia matá-los. Em muitas línguas
africanas, a palavra negativo é o mesmo usado para fantasmas ou espíritos, e câmeras
eram muitas vezes literalmente referidas como “máquinas de captura de sombra” .
Ainda assim, no século XIX, exploradores e missionários ocidentais empregaram
deliberadamente meios técnico – o livro, a imprensão, o filme, o gramofone e fotografia
– para demonstrar o extraordinário poder deles próprios e do Deus deles. Fizeram uso
da câmera como um instrumento mágico para cura (to heal), bem como para
prejudicar (to harm), como medicamento, como uma arma fotografica para matar, ou
como um aparelho para roubar “Almas”. Os relatos de ‘viajantes e missionários’ do
século XIX mostram um número notavelmente grande de variações dessas cenas de
superioridade mediatechnologica ; eles sugerem que os europeus possuíssem um
31
conhecimento (técnico) que lhes permitia encantar magicamente os outros. Assim, na
África, eram os europeus que inicialmente colocaram a fotografia num contexto de
poder, cura, morte, feitiçaria e bruxaria. Eles converteram a tecnologia em magia”45.
E se acham ingênuos os chamados nativos por acreditarem no feitiço do roubo da alma
pela fotografia, imaginem se não nos “roubam a alma”, enquanto nativos modernos, as
antenas de celulares e seus aparelhinhos cômicos os quais são nossos Senhores, os
alimentos trangênicos e os comprovadamente cancerígenos dos quais não temos como
fugir... Trazidos para o nosso tempo, os mitos, as mentiras certeiras, isto é as meias
verdades tornam-se a repetir como se nunca tivessem deixado de nos mostrar suas
pálidas faces dentro de uma ideologia de dominação.
Ideologia semelhante apareceu nas “diferenças de caráter” criadas pelos
colonizadores para descreverem as características sociais dentre os escravos de variadas
regiões africanas. Em 1725, na carta do Governador da Capitania do Rio de Janeiro ao
Rei, encontram-se as informações dadas sobre qual dos grupos de negros em oposição
seriam os escolhidos e o mais aptos para o trabalho nas minas, por exemplo – (esta era a
oposição mesma pela qual se pode ver todos os vestígios até hoje entre uma “Salvador
nagocrática” e as “Minas Gerais Bantocráticas” – disputas tradicionais estas, ao ponto
do preconceito mais óbvio). Nada mais bobo na historiografia afrobrasileira do que isso:
Sudaneses versos Congueses. Quem seriam os melhores? Os filhos da magia e
tecnologia foram colocados no ringue da história da tecnologia e do trabalho no Brasil
para que o juiz das plagas setentrionais, os verdadeiramente bons, belos e melhores nos
dêssem o veredito:
As Minas é certo, que se não podem cultivar senão com negros (...), os negros
Mina são os de maior reputação para aquele trabalho, dizendo os Mineiros que são
mais fortes e vigorosos, mas eu entendo que adquiriram aquela reputação por serem
tidos por feiticeiros, e têm introduzido o diabo, que só eles descobrem ouro, e pela
mesma causa não há mineiro que se possa viver sem nem uma negra Mina, dizendo que
só com elas tem fortuna.46
A resistência física Mina em relação aos Bantos centro africanos e a
despopulação banta no período foram apontadas, por exemplo (Russell-Wood 2002, p.
28), como um dos fatores pelos quais houve a “virada Mina” ou a “virada da Costa
Ocidental” desde o séc. XVIII no quesito “melhor escravo” ou “melhor escravizável”
em relação à concorrência Banta. A despeito do excesso de sua delicadeza de caráter,
atribuído aos bantos, estes já haviam “desbancados” seus concorrentes indígenas no
trabalho do ferro e na agricultura extensiva há dois séculos, e agora que conquistaram
todo um quinhão cultural português que lhes cabia, a história estaria sendo “dura” para
com eles, especialmente em Minas Gerais, pois não se haveria mais de “desbancar” os
Ocidentais africanos nem em robustez, nem geniosidade (não necessariamente
“engenhosidade”) e espírito indomável. Ainda mais no trabalho com o ouro (pela
técnica de como se o descobre e pelas técnicas múltiplas de como agregar valor a ele,
45
MIDDLETON, John & MILLER J. C. (Eds) New Encyclopedia of Africa. Farmington Hills;
New York, London…:Thompson Gale. Vol. 4, 2008. p. 137.
46
LUNA, Francisco Vidal. Minas Gerais: escravos e senhores – análise da estrutura populacionais e
econômicas de alguns centros mineratórios (1718-1804. São Paulo: IPE/USP, 1981 pp. 139-140.) Ver
também sobre esse mesmo assunto: Idem, Ibidem p. 138; Carta do Governador ao Rei, 5 de Julho de
1726. In: Documentos Interessantes, Vol. 50. Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo, 1929; VIANA
filho, Luiz. O Negro na Bahia, Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1946, p. 52 e ss. VIANNA, Oliveira,
Evolução do Povo Brasileiro São Paulo: Cia Editora Nascional, 1938 pg. 149 (uma versão de 1938 está
disponível para leitura online aqui: http://www.brasiliana.com.br/obras/evolucao-do-povo-
brasileiro/preambulo/1)
32
produzindo joias) ou ainda o trabalho no garimpo de diamantes e outras pedras
preciosas e semipreciosas.
Não pensem que esse tipo de pensamento essencialista seja tão fora de moda
assim. Haja vista que mesmo atualmente é possível encontrar ainda um sem número de
opiniões em favor da “diferença do caráter aguerrido do negro norte americano” (local
onde o número de ocidentais africanos superou prontamente o número de bantos, por
motivos distintos do que ocorreu no Brasil) comparado ao “caráter, em geral, dócil do
negro brasileiro”47. Tudo bem que “a cavalos dados não se olham os dentes”, por isso a
cavalos comprados se olham sim, os dentes e tudo mais. A compleição física da
mercadoria serve ao critério último da utilidade. Mas, estereótipos deste tipo em relação
a humanos sempre prevalecem em mentes muito pouco agudas, porque, o que vale para
a senzala e para a exploração do trabalho (exame físico que o comprador faz de sua
mercadoria) não vale para distinções quaisquer, muito menos para as de “caráter” (se é
que estas existem, já que distinções do tipo deveriam considerar apenas ações de
rebanho mecânicas que forçassem pessoas a agir segundo critérios sociais, com poucas
ou nenhuma chance de manifestação individual – o que seria bem duvidoso sob o
prisma humano, mesmo em se tratando de “escravos”, sob o prisma político). Tal como
a querela Mina-Banto se explicaria melhor pela guerra publicitária e comercial entre
traficantes de mercadorias (pessoas) de regiões distintas da Costa africana que, por um
certo essencialismo Mina-Nagô que se distinguisse de forma absoluta, o faria senão
como um preconceito, em relação aos Banto.
O freguês é quem escolhe a mercadoria e ele, sob quaisquer cisrcunstâncias, é
sempre quem dá o último lance, quem “sempre está com a razão”, como na bravata dita
pelos capitalistas da atualidade. Nos EUA, isto não foi muito diferente: um documento
da Carolina do Norte mostra a preferência por africanos do golfo da Guiné. Trata-se de
uma carta de um certo Reverendo John Urmstone, datada de 15 de Dezembro de 1716,
em que pede a seu correspondente para que compre negros da Guiné com estas
características: “Três homens de meia estatura com cerca de 20 anos e uma garota de
16 anos”. Em outra carta insiste que “não poderia permanecer na Carolina do Norte
sem dois trabalhadores de campo e uma serva doméstica”48.
Também, lá onde falávamos da briga de galos entre os Banto e os Mina-Nagô
(isto é, briga forçada entre irmãos) entre os que são “bons pra lavoura e trabalhos
domésticos” e os que o são pra mineração, nos EUA falou-se sobre a briga de galos
entre os Banto e os Mande nas plantations. Os africanos da Senegâmbia eram mais
claros – preferidos para o trabalho doméstico em Charleston e New Orleans e em outras
cidades. Enquanto que os Mande eram artesãos e domésticos, o trabalho na lavoura
ficava com os Centro-Africanos, que eram culturalmente mais homogêneos. Holloway
fala sobre a influência banto na tradição de trabalho norte-americana: “Os bantos por
vezes possuíam uma boa habilidade de trabalho na metalurgia e na madeira. Eles
tinham uma habilidade particular com o trabalho no ferro, o qual eles usavam fazendo
trabalho de ferro forjado nas varandas (balconies) de New Orleans e Charleston. Como
47
Eu já ouvi muito sobre isso e ninguém nunca se constrangeu em me falar de que “os negros brasileiros
não foram tão bem sucedidos quanto os negros norte-americanos”. Se tivessem se constrangido
minimamente, chegariam à conclusão de que tampouco os brancos brasileiros foram tão bem sucedidos
quanto os negros de lá. Desenvolve-se uma cultura, economia e política de um país como um todo; não se
pode esperar, obviamente, que os grupos minoritários possam ser comparados individualmente de país a
país, sem levar em conta o desenvolvimento, as características intrínsecas e as características mais gerais
dos países em questão.
48
HOLLOWAY, J. The origins of African-American Culture pp.13-14 Disponível parcialmente em:
http://faculty.risd.edu/bcampbel/Templates/Templates/holloway.pdf .
33
trabalhadores do campo, os bantos foram relegados da cultura branca americana
dominante. Esse isolamento permitiu à cultura banto escapar da aculturação e manter
sua homogeneidade.49”
Quando digo que não há distinção essencial de caráter e apenas um preconceito
cultural enraigado, alguém poderia tentar me refutar com argumentos lógicos do tipo:
você diz que não há distinção entre as pessoas, mas, de modo prévio, nossa mente já
distingue necessariamente tudo que vê! Este é o seu ‘estado natural’... Até o coração
distingue necessariamente! Este é também o seu ‘estado natural’: a distinção. Em
resposta, eu lhes diria que é aceitável e natural que a mente e o coração façam
“cálculos” trabalhando em conjunto e, frequentemente, em milésimos de segundos
separem certas coisas e juntem outras ao seu “bel prazer”. Mas, muitas vezes, essa
junção e separação são arbitrárias porque, no limite, somos sem perceber “vítimas”
deste “bel prazer” do subconsciente e de suas influências misteriosas, como nos
explicam os neurocientistas. Certos impulsos humanos que criam hierarquias fazem
parte de nossa evolução hominídia, mas nem por isso devemos fechar os nossos olhos e
não conceber esses impulsos como arbitrariedades mais ou menos dispensáveis. Ainda
que concebidos impulsivamente como uma força imperiosa fazemo-nos crer em “seu”
autoengano, em que nossas atitudes sob sua influência seriam as mais certas a tomar e
as escolhas as mais dignas a fazer. Sim, essa nossa capacidade de distinção é uma
função cerebral que deve também ser ancestral em nossos organismos. Mas eu fico
pensando se isso não seria algo aproximado ao que os psicólogos e os antropólogos
evolucionistas chamam de “favoritismo animal” e que se resume, biologicamente,
queiramos ou não, na escolha do “melhor parceiro sexual”. Esse preconceito útil cria
necessariamente a distinção entre a inclusão de um amor (ou empatia) mais ou menos
verdadeiro(a) e a exclusão de outros possíveis amores (ou empatias) considerados(as)
arbitrariamente não muito verdadeiros(as) pelas respostas dadas pela mesma
racionalidade tecnocientífica, mas considerados impossíveis de serem vividos, dado as
negativas “respostas” corporais que temos em relação a aqueles nossos “malditos” e
“rejeitados”). Mas, se pensarmos bem, esse favoritismo animal também não seria outra
coisa que, trocando em miúdos, a escolha materna do “filho preferido” diante de uma
prole numerosa (diga-se semrpre, este é um preconceito materno que cria gênios e/ou
publicitários autoconfiantes, mas também depressivos por todos os lados, entre os
preferidos e os não-preferidos, entre os escolhidos e os rejeitados50).
Sendo os seres que somos, mero “pó” das estrelas, comungamos num mesmo
sistema anárquico e planificado onde até mesmo as distinções evolutivas são provas de
que os seres são em suma os mesmos e que só o nível da dignidade nos desequipararia.
Nova ausência de classificação que sai da centralidade da igreja da preferência animal,
irrefletida e se volta para o nível da rua, da praça pública, onde todas as personagens
possuem o mesmo caráter, grau e status de pedestres51. É por isso que a magia e a

49
HOLLOWAY, J. Africanism in America Culture. Indiana: Indiana University Press, 2005, p. 43
50
Ver: LIBBY, E. W. The Favorite Child – how a favorite impacts every family member for life.
Washington, D.C.: Prometheus Books, 2010.
51
Nunca, em seus sentidos mais estritos, oporíamos a razão à loucura, como a filosofia opôs o
pensamento à sensação. Vagamente, contudo, não deturparíamos o pensamento antigo nos posicionando
na luta anti-manicomial ao trazer o espírito do “louco” para dentro de nossa “Hélade” anárquica: “Muitas
vezes ouvi dizer que não pode existir (afirmação atribuída a Demócrio e Platão) nenhum bom poeta sem
entusiasmo da alma e sem um sopro como que de loucura. (Arte Divinatória, I,38,80). Pois Demócrito diz
que nenhum poeta pode ser grande sem loucura, afirmação idêntica à de Platão , (HORÁCIO, Arte
Poética, 295). Demócrito acreditou que o gênio é mais fecundo que uma arte pobre e excluiu do Helicão
os poetas saudáveis...(CÍCERO, Sobre o Orador, II,46,194). Aos bons entendedores, para a valorização
34
tecnologia, irmanadas neste novo sentido da racionalidade emancipada, demostrariam
os caminhos por onde as oposições entre, “mito e ciência”, “sensível e inteligível”,
“social e individual”, “consciente e inconsciente”, “real e o imaginário”, “natureza e
cultura”, em resumo, as oposições entre “razão e emoção” não fariam e não farão mais o
menor sentido52.
O conhecimento científico moderno é centralizado e associado com o
maquinário do Estado; e aqueles que são seus apoiadores acreditam em sua
superioridade. O conhecimento tecnico indigena (indigenous technical knowledge), em
contrapartida, é disseminado e associado com o baixo prestigio da vida rural; mesmo
aqueles que são seus apoiadores por vezes creem ser inferior. (Warren, 1989, p.162)53
Acho engraçado quando vejo esses mocinhos lindos defendendo doutorado para
falar mal, por exemplo, de Gilberto Freire e repetir o óbviu ululante a respeito da
datação de certas teorias das humanidades. Excetuando pelas críticas bem pontuadas
pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, boa parte das análises de Freire sobre o
sistema patriarcal e a dialética da casa grande só podem ser refutadas se ampliadas as
noções de Brasil (ou mais especificamente de “Brasis”) coisa que ainda não se fez desde
a virada do séc. XIX para o XX. Na sombra do saber do ofício concreto da magia como
tecnologia e vice-versa, por isso vale a pena uma longa citação em que Freire diz:
(...) sitema patriarcal, inimido da rua e até da estrada, sempre que se trate do contado
da mulher com o estranho. Essa influência, exerceu-a de modo decisivo sobre a família
patriarcal no Brasil, a casa-grande de engenho ou fazenda, já considerada em estudo
anterior, corrigiu-lhe certos excessos de privatismo acentuando outros, o casarão
assobradado da cidade. Enquanto a casa de sítio – a chácara, como se diz na Bahia
para o sul – marcou a transição do tipo rural de habitação nobre, para o urbano. Três
tipos distintos de casa e um só verdadeiro: a casa patriarcal brasileira com senzala,
oratório, camarinha, cozinha que nem as de conventos como a de alcobaça, chiqueiro,
cocheira, estrebaria, horta, jardim. As casas de engenho e de sítio quando a frente para
estradas quase intransitáveis; outras para os rios; os sobrados, para ruas sujas,
ladeiras imundas, por onde quase só passavam a pé negros de ganho, moleques a
empinarem seus papagaios, mulheres públicas. Menino de sobrado que brincasse na
rua corria o risco de degradar-se em muleque; iaiá que saísse sozinha de casa, rua
afora, ficava suspeita de mulher pública. O lugar do menino brincar era o sítio ou o

da cultura ordinária, teoria das práticas e outros mecanismos de microresistências ver também:
CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: 2ª. ed.Vozes, 1996.
52
Parece que a neurociência está chegando próximo da aceitação da fórmula lógica de Edgar Morin e seu
“operador recursivo” ou “dialógico” que consiste em fazer circular o efeito sobre a causa e não dissociar a
parte do todo. Aliás, esta fórmula já havia sido também alcançada por Reich partindo de Freud na noção
da indivisibilidade entre o biológico e o psicológico (unidade psicossomática). Sonho, portanto, com o dia
em que os livres pensadores recriarão universidades livres ao estilo holístico da renascença, para os quais
a estupidez maior seria tentar dividir também os saberes como se estes fossem gomos de mexericas.
53
Métodos de incorporação e implantação de tecnologias não europeias e valores “indígenas” foram
desenvolvidos pelo Dr. Warren, que trabalhou entre outros lugares, na Nigéria, Gana, Quênia, Burkina
Faso, Brasil... Uma boa introdução ao tema e modos de desenvolver uma agenda para implementação de
modelos de incorporação de sistemas tecnológicos não-europeus podem ser encontrados aqui:
http://www.ciesin.org/docs/004-201/004-201.html. Para um exemplo de implantação desse sistema na
Nigéria: http://www.apexjournal.org/pdf/Anaeto%20et%20al.pdf Ver também : WARREN, D.M.
Indigenous knowledge and Sustainable Development: A Review of Critical Research Areas and Policy
Issues. Paper presented at the International Symposium on Indigenous knowledge and Sustainable
Development. Silang, Cavite, Philippines, September 20-26, 1992. E ainda: BRIGGS, J. The use of
indigenous knowledge in development: problems and challenges. Progress in Development Studies, 5(2):
99-114, 2005.
35
quintal; a rua do muleque. O lugar de raiá, a camarinha, quando muito a janela, a
varanda, o palanque!
A verdade, entretanto, é que a casa-grande sob a forma de ‘casa nobre’ de
cidade ou de sobrado antes senhoril que burguês, em contato com a rua, com as outras
casas, com a matriz com o mercado, foi diminuindo aos poucos de volume e de
complexidade social. As senzalas tornando-se menores que nas casas de engenho:
tornando-se ‘quartos para criados’ ou ‘dependências’’[Ver nota no o riginal]. Mas
enquanto as senzalas diminuíam de tamanho, engrossavam as aldeias de mucambos e
de palhoças, perto dos sobrados e das chácaras. Engrossavam, espalhando-se pelas
zonas mais desprezadas das cidades.
A compreensão do patriarcado rural por um conjunto poderoso de
circunstâncias desfavoráveis à
conservação do seu caráter
latifundiário e, sociologicamente
feudal, fêz que êle, contido ou
comprimido no espaço físico como
no social, se despedaçasse aos
poucos que o sistema casa-grande-
senzala se partisse quase pelo
meio, os elementos soltos
espalhando-se um pouco por toda
parte e completando-se mal nos
seus antagonismos de cultura
europeia e de cultura africana ou
cultura indígena. Antagonismos
outrora mantidas em equilíbrio à
sombra dos engenhos ou das
fazendas e estâncias latifundiárias
com a urbanização do país,
ganharam tais antagonismos uma
intensidade nova. O equilíbrio
entre brancos de sobrado e pretos,
caboclos e pardos livres dos
mocambos não seria o mesmo que
entre os brancos das velhas casas-
grandes e os negros das senzalas.
É verdade que ao mesmo tempo
que se acentuavam os
antagonismos tornavam-se
maiores as oportunidades de
ascensão social, nas cidades, para
os escravos e para os filhos de
escravos, que fossem indivíduos de
todos de aptidão artística ou
Trabalhos ligados à colheita intelectual extraordinária ou de
Wanyamwezi, Tanzânia - 1861
SPEKE, John Hanning, (1827-1864) – Journal of the qualidades especiais de atração
Discovery of the Source of the Nile. William sexual. E a miscigenação, tão
Blackwood and Sons. Edinburgh and London, 1863. grande nas cidades como nas
fazendas, amaciou, a seu modo,
36
antagonismos entre os extremos terminado o período de patriarcalismo rural, de que os
engenhos banguês, com as suas casas-grandes isoladas, procurando bastar-se a si
mesmas, foram os últimos representantes no norte e seus substitutos no sul, as fazendas
mais senhoriais de café e as estâncias mais afidalgadas no gênero de vida de seus
senhores; e iniciado o período industrial das grandes usinas e das fazendas e até
estâncias exploradas por firmas comerciaes das cidades mais do que pelas famílias,
também na zona rural os extremos – senhor e escravo – que outrora formavam uma só
estrutura econômica ou social, completando-se em algumas de suas necessidades e em
vários dos seus interesses, tornaram-se metades antagônicas ou, pelo menos
indiferentes rumo ao destino da outra. Também no interior, as senzalas foram
diminuindo; e engrossando a população das palhoças, dos cafuas ou dos mucambos:
trabalhadores livres quase sem remédio, sem assistência e sem amparo das casas-
grandes.
As relações entre os sexos sofreriam, por sua vez, uma alteração profunda, ao
se distanciarem senhores de escravos, tão íntimos dentro do patriarcalismo integral; ao
se aproximarem as casas nobres uma das outras, e todas das igrejas, dos teatros e da
rua; ao engrossarem as aldeias de mucambos, com o predomínio de estilos extra-
europeus de vida e da moral. Numa dessas aldeias é que um frade capuchinho
descobriria, espantado que os homens estavam calmamente se dando à prática de
trocar de mulheres, num verdadeiro comunismo sexual. O frade no Brasil só se
habituara a ser complacente com a poligamia das casa-grandes; com o abuso da
mulher pelo homem poderoso; com a noção rígida da mulher propriedade do homem
rico. Aquêle ostensivo comunismo sexual de plebeus deixou o capuchinho italiano sob
verdadeiro assombro [Ver no nota original]54”
Restaria outra coisa a nós, portanto, senão refrearmos a marcha do “progresso” e
remeter boa parte dos nossos esforços para tentar encontrar no passado as sementes do
futuro? Até que ponto resultados de estudos africanos subsaarianos não seriam bons
contribuintes para o planejamento da “grande transformação”. Ora, se pensarmos bem
profundamente, os mais antigos objetos manufaturados que possuíam características ou
traços de pensamento simbólico datavam de 40 mil anos e foram encontrados na Europa
e no Oriente Médio, juntamente com as contas para colares entre outros objetos líticos
encontrados na gruta de Blombos na África do Sul datados de 75 mil anos, que, desde
2007, competem com o que é hoje considerado o mais antigo adorno do mundo: contas
feitas de conchas do mar, encontradas na “gruta dos pombos”, em Taforalt, no
Marrocos, datados de 82 mil anos. Serão estes passados inóspitos as bases de um futuro
glorioso? Como se não fosse isso só suficientemente intrigante, sítios paleolíticos como
“Skhul”, em Israel e “Oued Djebbana”, na Argélia, e outros sítios anteriormente
escavados, revelaram contas que tiveram o mesmo tipo de perfuração, mostrando que
populações de locais completamente distintos desenvolviam o mesmo tipo de tradição
simbólica independentemente55. Será o simbolismo entrenhado em nossos nervos a
fonte de alguns de nossos reveses? Serão as magias e as tecnologias caudatárias de uma
ideia de progresso que nos será afinal, fatal? Quantas questões intrigantes e mesmo
surpreendentes a respeito dos povos subsaarianos ainda haverão de nos indicar o
caminho de uma ciência e uma tecnologia, afastadas do grande mal? Para além de toda
certeza, só nos restará algumas dúvidas. Passo, por isso mesmo, até o final deste texto, a
comunicar algumas delas com vocês.

54
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. Rio de Janeiro ; São Paulo: Ed. Record, 2001.
55
Ver: http://www.sciencedaily.com/releases/2007/06/070618091210.htm
37
Intermezzo I – A diferença entre um computador e uma flecha

Um antropólogo muito conhecido e que não fecha a boca, isto é, não sai da
televisão e, por isso, acaba necessariamente sendo forçado a dizer bobagens, disse: (...)
o indígena tem uma tecnologia humilde. Com isso, provavelmente, o famoso
antropólogo56 se referia à contraposição frontal entre as tecnologias das sociedades de
economia de auto-subsistência (como alguns indígenas brasileiros ou alguns dos grupos
bambuti da República Democrática do Congo) em relação às de diferenciação mais
hierárquicas, com presença Estatal mais evidente, como a dos países ditos
desenvolvidos e subdesenvolvidos57 que desenvolveram, adaptaram ou mendigaram
tecnologias de “alto-padrão”, “alto-impacto” ou “alto-alguma-coisa”. Incluamos ainda
a grande massa de desvalidos que estão incluídos do subdesenvolvimento e mal ganham
o suficiente para subsistência de sua família, isto se considerarmos ainda a noção de
“ser humano enquanto um ser cultural”, que os índios e os bambuti certamente são, e
ainda a considerarmos essa tal “economia de subsistência”, como o negativo em relação
à “economia de mercado”. A economia de mercado nos países subdesenvolvidos não
permitiu o desenvolvimento econômico da maioria da população, para quem era muito
melhor ter tido chances de desenvolver uma cultura tribal de subsistência, pois lhe seria
muito mais rica e orgulhosa do ponto de vista tecnológico e também humano.58
O arco e a flecha são instrumentos humanos, tanto quanto o computador. Há que
se saber utilizar bem a ambos. Com os primeiros, podemos nos alimentar se tivermos a
habilidade com eles e se a natureza for preservada, mas com o segundo, entre outras
coisas, podemos “curtir” a foto do cachorrinho vestido de roupinha de bebê publicado
no facebook, uma tecnologia, aliás, bastante avançada, não acham?! Essa inversão, neste
nosso esporte querido, que apresentaria algo como que “uma transferência de tecnologia
dos colonizados para os Colonizadores”, no limite, chamaria de primitiva “la
civilisation chrétienne” (“sifilização cretina”, em tradução livre) e avançadas as
civilizações humanas (que incluem desde paspalhos de terno e gravata até uma das mais
altas culturas humanas de seres seminus – hoje praticamente extintos – os chamados
caçadores-recoletores, como os Bambuti ou os Koi ou os San, entre outros grupos, por
exemplo, os filhinhos de papai neo-hippies seguidores dos neoludditas vibrantes como
John Zerzan ou Derrick Jansen, John Moore etc.). Inversão do que estava de ponta
cabeça, em resumo, foi o comentário feito em Paris a respeito dos desconhecidíssimos

56
Pensei em não cometer essa insolência, mas não, o antropólogo a quem me refiro é Roberto Da Matta,
que eu digo o nome por eu não ter rabo preso com ninguém, embora eu saiba também o quanto isso possa
ser indelicado, mas como diz o Fela Kuti na música Gentleman: I no be gentleman at all; I be africa man
original” (“Eu não ser Gentleman de modo algum, eu ser homem de África, original”).
57
Países subdesenvolvidos estes que se alvoroçam quando se demonstra, como o brilhante Celso Furtado
o fez num livrinho magnífico chamado “O Mito do Desenvolvimento Econômico” – (Rio: Paz e Terra,
1973) que não terão condições concretas de desenvolvimento (e isso é ótimo, pois tem se dito tantas vezes
e questionado: quantos EUA o meio ambiente e o planeta suportariam? Talvez isso seja uma roleta russa
ou jogo de dados suicida interessante de se jogar...but, For Heaven Sake!).
58
O pensamento subdesenvolvimentista atual, busca a desaceleração racional do desenvolvimentismo
para níveis sustentáveis. O próprio ressurgimento do desenvolvimento participatório, ou desenvolvimento
sustentável se deve também a essa nova tomada de consciência e o chamado “conhecimento indigena”
(que trato aqui como “conhecimento tradicional” para indicar aqueles grupos de pessoas que possuem
liberdade política para desenvolver suas próprias práticas de sobrevivência e organização social –
também não sem perda de seu significado que é, claro, muito mais profundo do que conseguiremos
nomear) tem um papel central nas novas teorias do conhecimento. (ver: AGRAWAL, Arun. Dismantling
the Divide Indigenous and scientific knowledge p. 416 in: Development and Change Vol. 26, Institute of
Social Studies 1995. Published by Blackwell Publishers, 108 Cowley Rd, Oxford OX4 lJF, UK.)
38
valores lógicos e matemáticos trazidos pela África; a verdade última dita
indiscretamente pelo judeu negro E. G. Nduwa de que: “A África nos deu razão, a
Europa nos deu emoção”59.
Ora, se os indígenas possuem uma “tecnologia humilde” isso implica que eles
não seriam capazes de sustentar a sua existência em seu meio de sobrevivência, porque
uma “tecnologia humilde” significa por eufemismo uma “tecnologia pobre” ou
insuficiente. Se bem que hoje, a maior parte dos “pobres” indígenas vivem cercados em
reservas como gados. E, infelizmente, precisarão forçosamente de se “integrar”, porque
sua realidade tecnológica (que existe para determinado ambiente) se tornará
explicitamente inútil em sua integração forçada, já que a maioria dos rios e das florestas
estarão todos fodidos daqui há pouco tempo mesmo... Ora, o que o antropólogo diz
sobre “humildade técnica indígena ” não faz sentido, o que importa da diferença entre
uma flecha e um computador não está no grau complexidade de tecnológica e sim no
ambiente, necessidade ou motivos pelos quais essas tecnologia é utilizada. Essa é uma
questão muito evidente: ou bem o antropólogo não quis dar atenção aos livros de Colin
Turnbull e Marshall Sahlins ou bem eu gostaria de fazê-lo tentar sobreviver na selva
amazônica apenas com seu computador; e por que não chamá-lo de sua “tecnologia
orgulhosa”, em contraposição? O computador na selva, salvo as novas práticas sádicas
da Intel em forçar os indígenas a se conectarem (em muitos casos desnecessariamente e
sem que tenha partido dos indígenas) é uma tecnologia muito mais inútil que uso de
arco e flecha nas cidades. Esse tipo de juízos de contraposição evolucionistas fazem
parte da mesma atitude mental que distingue caçadores-recoletores e nós, capitalistas,
fazendo aqueles pertencerem à pré-história datada e morta e nós ao futuro perpétuo. Em
algumas décadas todos seremos capitalistas, portanto! Não se preocupe, Sr. da Matta,
em breve, como o senhor, ninguém mais viverá “da mata”. Mas uma distinção entre o
conhecimento dito indígena e o conhecimento dito ocidental, por mais que se embarasse
em seus múltiplos domínios e tipos diferenciados de lógicas e de epistemologias,
resultantes imediatos das diferenças de visão de mundo, não pode vir a ser modificada
pelo altruísmo politico, pela libertação do “desejo de controle” numa sociedade pós-
psicanalítica, pela utilidade intrínseca dos tipos de saber e sobretudo pela imediata
tomada-controle-renúncia ao poder ? Mas a práxis se encontra indefinidamente em
sursis. E sendo, portanto, todas as ficções ideais à parte das possibilidades de ação, nos
restaria a reflexão.
Um dos aspectos filosóficos mais fundamentais da utilização tecnológica é sua
capacidade de transmissão. Em tempos remotos, a garantia de uma melhor
sobrevivência de todos em ambientes hostis dependia duplamente de aumento da
capacidade adaptativa por meio da criação de instrumentação e a certeza de que
determinadas técnicas, instrumentos, magias e tecnologias podiam ser transmitidas pelas
gerações entre os homens (...). Eu me sinto magicamente como um apóstolo a falar mil
e uma obviedades: Eis que o homem criou a ferramenta e viu que era boa. Eram boas
também a criação de outras ferramentas e ainda outras que de tanta utilidade os seres
humanos uns aos outros as difundiam em cooperação. Houve, inicialmente, aumento
expressivo da sociabilidade advinda da transferência tecnológica gratuita e cooperativa.
Mas algum espírito de porco imaginou que alguém o passaria para trás e que se ele
passasse alguém para trás antes, este não seria ele. E eis que os livros bíblicos tiveram
que se multiplicar ao infinito para reassegurar o mesmo veredito. A luz havia sido
criada e ela era boa, mas uns tinham mais luz pois a tomavam para si, justificavam isso

59
http://etopia.sintlucas.be/3.14/Ishango_meeting/Meeting_Ishango_poster.pdf
39
por meio de malabarismos cada vez mais ousados, a ponto de dizerem hoje sem corar:
Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem
fundamentar-se na utilidade comum. Etc.,etc.,etc...
Isso tem sido fonte de estudo da história e da filosofia da tecnologia e não nos
limitaremos a isso aqui, no entanto, ressaltamos que análises das transferências
tecnológicas mostram que melhor se adaptaram historicamente à condições adversas
aqueles grupos humanos e países com maior desapego, generosidade e convicção de que
a transmissão de tecnologia não significaria ampliação, mas também não siginficaria
“perda de seu poder”. Igualmente, o monopólio e a concentração de poder por meio de
“sigilos” tecnológicos não significaria certeza da manutenção perene deste mesmo
poderio e status. A riqueza da europa não se explica apenas pela força da economia
Britânica, Francesa, italiana e Alemã..., da mesma forma que a chamada “tecnologia
ocidental” não pode ser identificada, em seu centro difusor, nos países europeus
periféricos. Por seu turno, foi preciso uma centralização muito forte dos governos e da
Igreja católica para depois séculos de tentativas, fosse possível construir algo
ideologicamente mais ou menos unitário chamado “cultura ocidental”. Com isso quero
dizer apenas que se não fosse a transmissão e difusão de tecnologia e cultura dos
grandes centros sociais da “cultura ocidental” para as regiões no interior da europa que
não detinham estas tecnologias, o que não era obrigatório, mas foi necessário, não
haveria nada que se pudesse intitular “cultura ocidental”. Algum motivo determinista
concorreu para esta difusão do espírito tecnológico fosse dinâmico ao ponto do
aparecimento da ficção chamada “Europa”, cujo ponto culminante é a sua recente união
econômica. Essa mesma espiritualidade recebe a subvenção dos governos e das
corporações, no entanto, o que se difunde e se transmite fora dos circuitos fechados,
senão as migalhas dos pratos militares, sendo a internet e o google earth apenas uma
ponta de um iceberg que não podemos calcular em sua profundidade?
Há 300 anos, os textos científicos e humanisticos eram publicados em latim,
outra língua difusora do conhecimento entre os países europeus. Os métodos de difusão
e transmissão tecnológica podiam sem muitas dificuldades ou resistências, serem
difundidos em todo território europeu tornando-o paulatinamente “único”, a ponto de
colocarmos países como Islândia, Letônia, Hungria, Chipre... numa mesma categoria
classificatória que pertencem a França, Itália, Alemanha, Reino Unido, etc.. Aqui nos
trópicos, quando se fala em “europa”, sem qualquer desmerecimento, não se pensa na
Irlanda, na Dinamarca, na Escócia, na Islândia (por mais “europeicamente” digno que
possa ser viver nestes países ao experimentarem seja a cultura polida ou a inútil de
heranças europeias). Politicamente, podia-se pensar na transmissão de tecnologia em
países subdesenvolvidos contra a exploração e manutenção do controle tecnológico nos
países desenvolvidos e é o que as coorporações fazem porque ávidas pela transmissão
lucrativa de tecnologia, pois, por fim, aonde as corporações encontrarem sua razão
lucrativa, encontrarão tembém motivos para transmissão da técnica, que poderá causar
ao final sua própria modificação. Ninguém é detentor do monopólio tecnológico para
sempre. Certas mazelas mundiais como a detenção da bomba atômica pelo Irã, bem
como o Paquistão e a Índia, já era algo esperado, embora sempre fora muito indesejado.
Mas e a tecnologia da propaganda? Qual é o peso real da transmissão
tecnológica de tipo toma-lá-dá-cá”? Seria por acaso imaginável um modelo de
abundância ou estilo de vida europeus sem os modelos de escassez ou estilo de vida
dos países periféricos? Quem já visitou, por exemplo, uma plantação de cacau na suíça?
Por que não nos perguntamos de onde viria, então, o sabor daqueles chocolates
maravilhosos deles? Do mesmo lugar de onde vem o Coltan, sem o qual não há
40
computadores, ou seja, da República Democrática do Congo, eu lhes respondo! Fale-se
então, sem medo de criar neologismos “chocolate congolês”, ao peso reconfortante do
surrealismo que é a representação de umas certas verdades que nos soassem cômicas se
não fossem trágicas...Os diamantes que o digam! E se quiserem experimentar o
maravilhoso Lindt comprado no Duty Free, saibam que seu cacau veio de Gana60 , ou
vocês acham que o poder pode se vangloriar de ter se estabelecido por si só? Todas as
magias e tecnologias que enchem nossos olhos em seus prodígios, já que têm um fim,
como disse belamente o já citado Gabriel Soares de Sousa em 1584, convém que tenham
[um] princípio (CASCUDO, 1965. p. 1.). Não sejamos nós os inventores da roda, mas sejamos
nós os seus reinventores.

60
http://www.lindt.com/swf/eng/company/social-responsibility/the-lindt-promise/

41
Arqueiro – Nova Guiné Holandesa (Baía de Humboldt) - Foto Thomas Barbour
National Geographic Vol. 19 no. 8 – August. 1908, p. 541
42
Pensamentos evolucionistas semelhantes foram desenvolvidos no período
escravista e o toma-lá-dá-cá tornou-se a bola da vez da nova economia multiculturalista
do industrialismo. Os ingleses reconheceram historicamente que chegou um dado
momento em que era preciso eliminar a escravidão da face da economia. Imaginem o
quanto deve ter sido difícil aos primeiros abolicionistas tratarem do “problema negro”,
que ainda não era visto como tal, e terem de botar a baixo uma instituição que já fincara
suas raízes na alma moderna! Não entrarei no mérito em discutir sobre a real
importância econômica do escravo na economia como um todo, mas de fato, os
historiadores estão em consenso neste ponto, houve muitos momentos em que essa
importância econômica se demonstrou essencial (pelo menos no Brasil). A escravidão
determinou grande parte da perspectiva futura dessas economias, incluindo o
fortalecimento da burguesia nos países escravistas, contribuindo também para
manutenção burguesa do poder mundial, que, graças à escravidão e o novo
multiculturalismo (promessa do sonho americano) pôde dar fim definitivo aos designios
perpetualistas da antiga aristocracia. Uma das lições que pudemos tirar é que foi
possível historicamente, portanto, efetuar uma modificação estrutural dentro do sistema
econômico é certo que será novamente possível promover ainda outras mudanças
estruturais, a despeito de todo pessimismo entranhado. No Brasil, o país mais
dependente de todos da economia escravista, isso ficou muito claro com a necessidade
das paulatinas leis do ventre-livre (1871), sexagenário (1885), abolição (1888), pensava-
se na compensação para o escravo ou para o senhor, prevalecendo apenas a vontade
deste último, graças a incapacidade civil dos ex-escravos de se sublevarem. Na era de
uma suposta transição não violenta ao “subdesenvolvimentismo”, pensaria-se também
em compensações que não trariam sublevações de toda ordem? A democracia estaria
sob suspeita?
No livro sobre a “Crítica dos Preconceitos Filosóficos contra a Posse Comunal
(Obshina)” de 1858, Alexandre tchernichevski disse que “não somos seguidores de
Hegel e, muito menos, de Schelling, mas não podemos deixar de reconhecer que os dois
sistemas prestaram grandes serviços à ciência com a descoberta das formas gerais pelas
quais se move o progresso histórico. O resultado fundamental desta descoberta está no
seguinte axioma: pela sua forma, a etapa superior do desenvolvimento é similar ao
ponto de partida”61. Novas perspectivas e planos de despopulação global,
decentralização, critérios planificados de modificação paulatina em massa do pós
industrialismo ao municipalismo participatório e federalismo (não talvez por
arbitrariedade, imposição ou força, mas por mircroconscientização, fissuras no tecido do
espaço-tempo social, livre-arbítrio e incentivo para transformação das antigas
sociedades civis em grupos de afinidade, organizações não-governamentais, setores de
ativismo ecológico, entre outros, têm dado agora os seus primeiros passos tecnofóbicos.

Intermezzo II – Os Chineses como as “Meninas Superpoderosas”

Este título desrespeitoso apareceu no meu cérebro agora. Eu estava pensando
que é necessário falar da presença chinesa na África, então resolvi escrever este
“intermezzo II”. Como preâmbulo, portanto, faço como minhas as palavras do
61
Parcialmente disponível em:
http://maltez.info/respublica/Cepp/autores/russos/1829._tchernichevski.htm

43
wikipedia em relação ao desenho das “Meninas Superpoderosas” (que, aliás, eu nunca
assisti, mas minhas sobrinhas me disseram “que é mó legal, tio”): “Como a série
progride, as meninas se tornam cada vez mais fortes, sempre descobrindo os pontos
fracos de seus inimigos, ganhando inclusive poderes especiais, que antes não haviam
sido descobertos. Lindinha pode se comunicar com os animais e tem a habilidade de
falar espanhol, enquanto Florzinha pode soprar gelo e falar mandarim. No entanto,
Docinho é a única que nunca descobriu um poder especial para toda a série, a única
coisa que ela sabe fazer e que os demais habitantes da cidade não sabem é que ela pode
dobrar a língua. Durante o decorrer da série também surgem novos vilões, que não
haviam aparecido em outras temporadas mais fazem breves aparições”62.
Os Chineses, esses propagandistas, invadiram a África, como já há muito é
sabido. Só uns nhanhos (dentre os quais inclua-se alguns amigos meus petistas)
acreditaram que, tal qual o interesse do Itamarati na África, o interesse da china é o
desenvolvimento africano. A principal prova de que a China desempenha um neo-
imperialismo (digo aqui “neo” não por força de expressão, mas porque os chineses
modernos, como bons orientais não têm interesse num império que não seja o seu, isto
é, aquele que dê o maior trunfo e o menor esforço sócio-político63, portanto, retiro o
“neo” e retiro o termo “imperialismo” e deixo aos historiadores e chinófilos inventarem
os seus próprios termos quanto a isso que é a “presença chinesa-indiana-brasileira-
africana-do-sul” no contintente africano em geral.
Talvez chegue o dia em que a consciência da individualidade atinja um número
significativo de pessoas na China emergente. Neste dia e nos dias subsequentes, talvez
possamos enxergar um futuro da África sem o trampolim para o mercado Chines e a
consequente hegemonia, política, econômica e trabalhista (sendo esta última quase não
estudada, um dos modelos escravistas mais brutais de servidão “voluntária”). Indo mais
além, na verdade, nós que fazemos parte do chamado "BRIC" (Brasil, Russia, Índia e
China) fizemos aula de economia exterior com os antigos Estados Europeus na África.
A presença dos Brics na África de hoje tem a mesma importância que a antiga retirada
dos recursos naturais e o “esforço guerra”africano (representado por sua mão-de-obra
dentro e fora da África) tiveram no período colonial e exploratório na história dos
países Europeus expansionistas no continente. Essa é uma lição de economia exterior
que os BRICs parecem ter aprendido bem. A dominação territorial já não é mais
interessante que a “guerra cirúrgica” (termo cunhado em relação à primeira invasão
norte-americana no Iraque em 1991) e, finalmente, a coleção de fiascos advindo do
retrocesso inevitável das invasões territoriais nas guerras da família Bush 64 acabou por
demonstrar que certas realizações de lucros só advém depois de muitas realizações de
prejuízos aos próprios sujeitos econômicos e sobretudo aos seus predicados.

62
http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Powerpuff_Girls
63
A china e a Índia (porque não incluir o Brasil e a Rússia e a África do sul? ) batalham por influência na
África http://www.gimmiethescoop.com/china-and-india-battle-for-influence-in-africa-part-4
64
Antes de virar o 43º presidente dos EUA, em janeiro de 2001, George W. Bush foi acionista e
participou da direção de várias companhias do ramo do petróleo – Arbusto, Spectrum e Harken. Já seu
pai, George H.W. Bush, que presidiu o país entre 1989 e 1992, foi fundador e executivo da Zapata Oil e
da Pennzoil, uma das maiores empresas petrolíferas do planeta. O seu avo, Prescott Sheldon Bush (1885-
1953), foi dirigente da United Banking Corporation, banco acusado de transações ilegais com os nazistas.
E o seu bisavô, Samuel Prescott Bush (1863-1948), fez fortuna com a Buckeye Steel durante a I Guerra
Mundial. http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=540
44
Restringindo a análise somente em relação à Europa65 percebemos que a
exploração da áfrica teve um papel fundamental também no estabelecimento dos
Estados Nacionais Europeus além do crescimento econômico das Américas. Os
europeus prosperaram em seus intentos? Houve, de fato, um banho de sangue, mas, por
outro lado, houve também benefícios econômicos e sociais desta relação tumultuada e
opressiva entre a Europa e a África? Essas são perguntas cujas respostas preenchem
enciclopédias, no entanto, é certo que: seja lá o que os europeus nos tenham ensinado,
sabemos que a China e a Índia são os melhores alunos, mais rápidos, mais inteligentes,
mais focados nos estudos e em seus resultados. E parece também que a Rússia e o Brasil
são irmãos em tantas coisas e eu cito como exemplos o conservadorismo paralisador
(nesta escola fictícia estes países são comparaveis àqueles alunos que tiraram a média,
mas acham que são melhores que os melhores alunos, só que não foram reconhecidos),
são irmãos o Brasil e a Rússia também porque acham que “a vida é pra viver...a vida é
pra levar...Caipirinha aqui, Vodka lá...” e são inclusive irmãos na mediocridade dos seus
políticos (como se o ser-político não fosse o ser-medíocre por excelência, já que a sua
principal responsabilidade é “mediar” situações políticas). Sobre o exemplo europeu
comungam que o politicamente correto é a saída de todos os males que possam advir da
nova fase exploratória: “Desde que eles tenham nos ensinado bem o que fizeram
efetivamente na prática, ou seja, ‘façam o que eu mando e façam o que eu faça’ - desde
que a teoria de dominação econômica deles tenha correspondido à sua prática de
‘investimentos’ no continente, tudo bem, faremos isso igual, mas diferente.
Utilizaremos de maiores aparatos sob as fórmulas do ‘humanitário’, ‘crescimento
econômico dos países sub-desenvolvidos’, ‘manutenção da biomassa’, ‘preservação do
meio-ambiente’ e ‘preservação das culturas tradicionais’ e utilizaremos assim, toda
cartilha para manutenção do futuro inóspito que o iluminismo nos legou”.
No passado66, os chineses descobriram a pólvora, o compasso, o relógio
mecânico, a impressão (ex.: “Sutra Diamante” de 868 d.C.) o papel
moeda...etc..etc...etc.., nada disso lhes deu lucro e nem sequer status. Já que
continuamos a pensar ainda hoje que todos os avanços das ciências orientais em sua
antiguidade são na modernidade, os chineses descobriram uma mina de ouro chamada
África. Em nenhum lugar do mundo, excetuando talvez o próprio território chines,
inundado de autoritarismo por todos os lados, os modelos trabalhistas funcionariam
melhor do que em alguns países pobres da África atual, em que a ideia de viver em
sociedade está sendo reformulada a menos de 100 anos. A bem da verdade, a história

65
Restringindo não, melhor, deixando os EUA de lado mesmo, por sua estupidez estratégica durante a 2ª
Guerra - seu racismo - em deixar historicamente "de lado" a África - estupidez essa que lhe tem cobrado
um altíssimo preço hoje, porque a quantidade de petróleo na África (se alcançados a tempo, quando seus
preços fossem interessantes) teria sido suficiente para, pelo menos não termos os grupos terroristas tão
fortes como o Talibã, Al Qaeda e outros grupos que foram armados direta ou indiretamente pelos EUA ao
longo dos anos de 1980, para empreender a luta contra os soviéticos. Esses grupos não querem só
implantar a loucura da Sharia à força - acho que isso faz parte do “estilo fundamentalista”, o único capaz
de congregar forças para mudanças estruturais nos países arruinados - eles querem se vingar pela queda
do poder no Afeganistão (1996- 2001) e ainda, last but not least, eles são conhecidos por serem avessos à
tecnologia - cinema, televisão, internet que são vistos por eles como “instrumentos do mal do ocidente...”
Aliás, eu já disse, o mesmo tipo de estupidez concreta se surpreendeu com a ascenção do Paquistão como
mais um dos países a possuir a tecnologia atômica para utilizá-la nas estratégias político-militares. Com
isso quero dizer que não só o oriente é pior, o ocidente também o é...permitam-me agora perverter e
contrariar a frase do “poeta xamã”: “the west is te worst...get here and you’ll be nursed”. “O ocidente (o
“oeste”) é pior, venha para cá, que será protegido [como uma criança].
66
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Chinese_inventions
45
das ligações entre a China e a África tem tudo a ver com a história da tecnologia no
mundo, para além da inclusão da África na rota da seda.
Embora seja historicamente mais discutível se os chineses estiveram nas
Américas antes dos Vikings e outros europeus modernos na era das grandes navegações,
não é discutível o fato de que eles, por meio do intrépido explorador chines-mulçumano
Zheng He (1371-1433) realizou, muito antes dos europeus, a façanha de cruzar o índico
e chegar a Somália, a Moçambique e ao Quênia por volta de 1421, onde sua tripulação
comprovadamente deixou descendentes afro-chineses que hoje se orgulham de seu
esquisito passado remoto67.

Comparação entre os mapas mundi venesiano de Fra Mauro (1457) e o coreano/chines de Kangnido (1402)
o conhecimento geográfico oriental precedeu, portanto, o início das navegações europeias em mais de meio século.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:KangnidoVsFraMauro.jpg

A capacidade tecnológica da navegação dos chineses na virada do séx. XIV para
o séc. XV permitia-lhes com toda certeza dar início às grandes navegações, que seriam
desenvolvidas pelos portugueses com sucesso apenas às bordas do séc. XVI. Mas então,
o que se passou na cabeça desses chineses malucos que não empreenderam desde então
a inevitável “dominação do mundo por meio da tecnologia”, dito por eufemismo
“imperialismo”? Para além das explicações das motivações políticas de época, voltemos
os nossos olhos iludidos pela mágica à essa explicação pura com a sua fragrância
simples e digna dos grandes sábios da grande china do passado: eles simplesmente não
queriam dominar o mundo. Não foi absolutamente à toa que, num artigo em que
mostrava a importância de que um viajante e explorador de novos territórios tivesse as
“qualidades morais acima da média”, o General Norte Americano A.W.Greely68 tenha
apontdo que o aumento do proselitismo religioso no período de Kublai Khan (a disputa
entre cristãos, budistas, mulçumanos, pela ‘alma chinesa’) como um dos motivos para
que a China se fechasse, mantendo assim o Confucionismo como parte identitária
chinesa contra as influências ocidentais69.
Mil anos antes, Confúcio (551-479 a.C.), que fundou a ética da reciprocidade ao
dizer: “não faça aos outros aquilo que não quer que façam a ti”, talvez chegasse à
mesma conclusão que o jovem apaixonado por poesia, o intrigante imperador 宣德帝

67
http://ke.china-embassy.org/eng/sbgx/t202741.htm
68
National Geographic - EUA - Vol. XVII, no. 01 Janeiro, 1906, p.01-05.
69
Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado isso, o mesmo general, ao comentar sobre “as
qualidades morais dignas de nota” aponta David Livingstone como exemplar. Ele excerceu, diz o Gen.
Greely: "uma influência moral insuperável em centena de milhares de homens e assim produziu a
primeira abertura no barbarismo ignorante do Continente Negro". (National "socialist" Geophraphic
Vol. XVII, no.01, 1906 p.4).
46
(Xuande – 1399-1435), que permitiu a Zheng He fazer a sétima (e última) das grandes
navegações empreendidas no período expansionista do império de seu pai Yongle, a
partir de 1405. Mas, tanto seus sucessores, quanto o próprio Xuande, que significa
“Proclamação da Virtude” (em mais uma desse acasos maravilhosos) não se renderam
ao modelo expansionista de Yongle que militarizou durante 22 anos o mar do sul da
china e o oceano índico70. Bem, não sejamos tão ingênuos ao ponto de acreditar em
fórmulas mágicas! As condições políticas e econômicas sempre são prementes, pois
independem absolutamente da virtude, mas o fato é que os chineses tinham a faca e o
queijo na mão, e o que eles fizeram? Eles renunciaram ao poder71.
Leiam, agora atentamente, essa estorinha contada pelo grande historiador e
africanista inglês Basil Risbridger Davidson, que mostra a precedência chinesa nas
grandes navegações chamando atenção a alguns dos motivos de seu “fechamento sobre
si mesma” e a consequente renúncia ao domínio mundial.
“(...)Outra invenção importante fora a do anteparos transversais estanques,
notados com admiração por Marco Polo em fins do séc. XIII; mas provavelmente
introduzidos bastante mais cedo. O leme axial ou de poste da ré parece ter aparecido
durante a época T’ang, talvez ainda no séc. VIII, e os marinheiros das épocas T’ang e
Sung sabiam já como navegar contra o vento. As velas de esteiras, bem esticadas, são-
nos descritas como articulando-se aos mastros como uma porta se articula nas
dobradiças tornando assim os navios capazes de velejar contra o vento, de uma
meneira que os marinheiros do mediterrâneo só muitíssimo mais tarde seriam capazes
de conseguir (...) Em todo caso, pelo séc. XII já os navios chineses eram tecnicamente
capazes de ir onde quer que os navios à vela pudessem ir em qualquer época; mas
tínhamos de esperar até ao séc. XV antes que o famoso almirante Cheng Ho viesse a
aportar à Costa Oriental da África (...) No entanto, em 1500, todos os grandes
estaleiros tinham fechado; a construção de juncos oceânicos com mais de dois mastros,
torna-se um crime greve. Um edital de 1525 autoriza os oficiais da Costa a destruir
todo esses barcos e a prender todos os marinheiros que neles navegassem.
Porquê este virar de costas ao mar, tão súbito e decidido? Os construtores
navais chineses eram os mais avançados do mundo; durante os séculos anteriores
tinham feito, repetidas vezes, descobertas revolucionárias; a sua tradição de navegação
oceânica manteve-se durante mil e quinhentos anos sem quebras. Só em 1450 criam os
europeus construir navios de três mastros, tornando assim possíveis as longas viagens
de descobertas que os levaram à América, à África, ao extremo-oriente; enquanto que
os estaleiros chineses já há séculos lançavam ao mar tais navios. Os seus navios do séc.
XIII tinham muitas vezes uma deslocação superior a 700 toneladas, com qualidades
náuticas bem demonstradas; no entanto, comenta Needham, ‘o tamanho médio dos
navios da invencível armada (espanhola), de 1588 era só de 528 toneladas (...)
enquanto que a esquadra inglesa não ultrapassava a média de 177’. A pesar de tudo
isto – e exatamente na altura em que podiam muito bem lançar-se para o atlântico e
para o mar vermelho – os chineses retraíram-se, fecharam os estaleiros, demitiram os
capitães, destruíram os navios.

70
Talvez essa parte da história da China não seja tão heroica e se resuma numa única certeza: Xuande já
tinha à sua disposição um reino, boa poesia e, o principal, virgens coreanas, por que diabos ele iria querer
o mundo?
71
Quem quiser saber um pouco mais sobre o tema leia o livro 1421: The Year China Discovered the
World de Gavin Menzies Ed. Bantam, 2002. Eu não sei se tem ainda uma versão em português, mas seria
muito merecida.
47
As razões pertencem à história chinesa e não à historia africana. Parecem ter a
sua origem nas rivalidades palacianas, que contrapunham a classe dos eunucos, que se
tornava poderosa pelas descobertas marítimas, à classe dos funcionários, que temia o
poderio crescente dos eunucos e desprezava o tráfego marítimo como atividade
extravagante e luxuosa, que obrigava os contatos desagradáveis com povos bárbaros.
Fosse como fosse, os funcionários levaram a melhor; mas o seu triunfo teve
consequências mais vastas do que as que poderiam ter previsto, pois nesses mesmos
anos em que faziam publicar os editais e queimavam os navios, as primeiras
tripulações europeias dobravam o Cabo da Boa Esperança e penetravam no Oceano
Índico72.”
Bom, essa foi a China “fechada sobre si mesma” dos tempos idos. Hoje, isso
tudo mudou:

Poster da era Mao com africanos sorridentes lendo o “livrinho vermelho”:
http://en.wikipedia.org/wiki/File:World_revolution1.jpg

Neste pôster lê-se: “O presidente Mao é o grande salvador dos povos
revolucionários do mundo”. Esqueceram-se de questionar sobre essa propaganda
comunista: Presidente de quem, caras pálidas?
Eu lhes sugiro uma resposta no seguinte gráfico que mostra a escalada de
negócios entre os países africanos e a China de acordo com fontes como o The Wall
Street Journal, embaixada chinesa no Zimbabue, entre outras73. Com alguma paciência
talvez intuirão que não sou tão louco ou inocente e intuirão ainda do por quê que essa
questão estranha a este texto tem a ver com o assunto tecnologia na África, nas
Américas, na Ásia, ou seja, no mundo:

72
DAVIDSON, Basil Revelando a Velha África. Cadernos de Hoje no. 5. Lisboa: Ed. Prelo, 1968 p.181-
191) [2ª.ed.1977].
73
http://en.wikipedia.org/wiki/Africa%E2%80%93China_relations
48
Subtotal do Volume de Negócios Sino-Africano

1980 – US$ 1 bilhão
1999 – US$ 6,5 bilhões
2000 – US$ 10 bilhões
2005 – US$ 39,7 bilhões
2006 – US$ 55 bilhões
2010 – US$ 114 bilhões
2011 – US$ 166,3 bilhões
2012 – US$ 163,9 bilhões (até outubro)74

A maioria das empresas chinesas operando nos países africanos (e parece que há
800 delas atualmente) fazem investimentos em campos altamente lucrativos como
infraestrutura e no setor bancário75. Esse apoio incondicional da China a regimes
autoritários e ditatoriais é nada mais nada menos que o “neo-mesmo”. Um pouco do que
o Caetano Veloso disse “Narciso acha feio o que não é espelho...” Os EUA apoiaram
regimes ditatoriais na América latina, no oriente médio e em alguns rincões da Ásia no
período da guerra fria....Caetano outra vez... Excetuando se nos livrasse de males do
tipo Chaves, Nicolás Maduro etc, se pensarmos em termos práticos (pragmatismo) a
China tem feito tão menos mal do que bem fez a imposição democrática dos EUA a
ferro e a fogo desde o final da 2ª. Grande Guerra até hoje. Basta que assistamos alguns
poucos das dezenas de documentários de John Pilger para nos convencermos muito
disso. Quer isso dizer que devemos nos conformar e assegurar que tudo se mantenha
assim? O apoio instrumental do Estado nacional no uso da tecnologia nunca se
demonstrou com sua face mais estriada e nua. A escalonada rumo à tirania, ademais,
está nos jornais de hoje, por exemplo, com o caso de Edward Snowden, ex-funcionário
74
Meninas e meninos, não se enganem! Negócios significam sempre “toma-lá-dá-cá”. Se os chineses
inundam com armas países africanos com regimes ditatoriais como é o caso do Zimbabue do Sr. Mugabe
não é por causa dos lindos olhos dele. E eu me lembro também de discutir com um amigo meu Petista
quando ele tentava dizer que a presença do Brasil na África finalmente iria livrar o continente da
miséria... De fato houve um aumento de 416% neste intercâmbio entre 2002 e 2012, mas o quê há
concreto socialmente nestes percentuais? A relação Brasil-África tem razões políticas, militares e
sobretudo econômicas e o índice de crescimento populacional na África aliado ao crescimento da
população jovem e a diminuição do conflitos e das guerras civis, fazem da África não só um mercado
promissor, mas o mais promissor, já que não há mais onde o capitalismo se expandir, senão acabaria por
se extinguir ou subdesenvolver. O Ministro da Defesa, o diplomata Celso Amorim, que não deixa de ser
extremamente habilidoso e carismático também é o atual cabeça de todas proposições brasileiras. Embora
tenha o perfil mais técnico, o presidencialismo brasileiro e o petismo o obrigarão nunca abandonar a nova
“política da boa vizinhança”, argumentando sempre em razão da “cooperação humanitária”, em
detrimento de um discurso de uma gradual militarização do atlântico, que me parece, infelizmente, ser
hoje inevitável. Enfim, com a política da boa vizinhança, da mesma forma que houve na era Roosevelt o
alinhamento da América latina face ao Tio San que contornou bem a bilateralidade criando o exotismo
latino, o neo-colonialismo na África têm recriado à sua maneira o exotismo africano, em vez de sustentar
os valores democráticos, alguns dos quais inclusos nas antigas tradições africanas. E, para falar uma
besteira qualquer: o crescimento de atores e atrizes negras nas novelas e seriados da globo exportados
para países africanos lusófonos, incluindo a apresentação de raros e espantosos protagonistas negros com
vidas não-caricaturais, isto é, como seres humanos reais (como foi o caso histórico inaugural do programa
“Subúrbia”) também explicam em parte a extensão desta “política de concessão” – países africanos talvez
um dia possam ser “a bola da vez” dos paraísos emergentes de exploração.
75
http://en.wikipedia.org/wiki/Africa%E2%80%93China_relations . Com linhas de créditos a 1,5% com
vencimento de 15 a 20 anos me parece uma panaceia muito linda pra ser verdade, digna de um episódio
como o do Banco Itaú, do lindo “Canal do Otário”, pra quem não conhece, esqueça todos os links
apresentados aqui até agora e siga apenas este: https://www.youtube.com/watch?v=wFRNo4chEPY
49
da Agência de Segurança Norte-Americana que vazou ao “Washington Post” e outros
sobre o programa de espionagem de e-mail e de telefone realizado pela agência com o
argumento ao estilo “George Bush” da “guerra preventiva contra o terrorismo”. Não se
deixou claro a possibilidade concreta que hoje nos tornou evidente do uso político-
econômico dessas “escutas”. Mais uma vez cai a máscara da guerra contra o terror no
que ela tem de “instrumento” para conquista de terreno político-econômico. Outrora
aquilo que era utilizada apenas no campo doméstico nos EUA, com facilidade, aliás,
pelo alto índice de boçalidade por metro quadrado naquele país, hoje é política exterior
habitual. Lá, falava-se com apoio popular que por “patriotismo”, outra idiotia
reinventada pelos políticos Norte-Americanos, seria até bom que o governo limitasse ou
mesmo acabasse com as liberdades individuais (ou com a isonomia e a isegoria). A
ideologia é armada pela tecnologia para extinguir o mágico. É os EUA seguindo o rumo
da China, que seguiu o rumo dos EUA que fez a África seguir seu rumo que agora está
também seguindo o rumo da China, fazendo com que o “neo-mesmo” se propague
como fogo em palha velha. Walter Benjamin disse: “A função do tirano é restauração da
ordem durante o estado de exceção: uma ditadura cuja vocação utópica será sempre a de
substituir as incertezas da História pelas leis de ferro da Natureza” (BENJAMIN, 1984,
p. 97). E com falas “impossíveis” como esta, não há comentários possíveis. Seria
correto dizer que a transmissão da tecnologia, se ela não fizer um país crescer, ela faria
pelo menos limitar seu subdesenvolvimento?
Voltando à mudança de assunto: o único satélite africano de telecomunicações
lançado para orbitar o planeta é nigeriano, mas foi lançado pelos chineses, que fizeram o
mesmo acordo para lançar em 2015 um outro satélite pelo Congo, com a expectativa de
cobrir todo centro sul africano76. O Satélite Nigeriano, utilizado especialmente para
telefones celulares e TV a cabo teve um custo de 622 milhões de reais para os cofres
públicos da Nigéria, foi lançado no final de 2007 e terá uma vida útil até daqui a 10
anos.Os Nigerianos, assim como os Congoleses compraram ambos o satelite e o serviço
de lançamento, que ocorre diretamente da China77.
Os chineses montam suas fábricas com seus próprios funcionários em território
estrangeiro, utilizam sua própria tecnologia, utilizam tecnologia a eles transmitidas,
compradas ou imitadas, produzem, produzem, produzem – como se diz mesmo “carga
horária ou hora/trabalho” em chinês? – desmontam a fábrica, não transmitem
tecnologia, não geram empregos, mas geram lucro de elite, poderio governamental,
centralismo, corrupção e, como os europeus no passado, dizem adeus e vão se embora.
Mas, enfim, toda essa digressão sobre os chineses para dizer que vende-se e compra-se
de tudo na África, mas o comprometimento com o desenvolvimento econômico real de
longo prazo, investimento real em educação e saúde e principalmente a venda ou
transferência de tecnologia é algo, a bem da verdade, relegado para uma política futura
totalmente indefinida. E política indefinida não é magia e nem tecnologia, é somente
mais do grande mesmo.

76
http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-20398914
77
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6653067.stm
50
Intermezzo III – Os Africanos como Civilizadores

Embora isso ultrapasse nosso interesse que seria dar umas pequenas pinceladas
no tema da tecnologia do período colonial de recursos ou de inspiração africanas, a
história da tecnologia desenvolvida na África bem nos traz interessantes
desdobramentos indiretos ou manifestações isoladas de tecnologia, algumas das quais
relatadas aqui com objetivo de convergir e, algumas vezes divergir do paralelismo
existente entre as “afro-tecnologias” separadas pelo atlântico. Ainda que haja mais
desconhecimento ou mesmo uma certeza da impossibilidade de se fazer uma associação
tecnológica profunda e justificável entre a África e o Brasil, deve haver e há, como
tenho suposto neste texto, muito mais pontos em comum a levantar entre lá e cá que
supõe nossa vã historiografia – como também não sou historiador, como indica o título
deste texto, deixo entrever apenas as contribuições a estudos que ainda deverão ser
realizados, este seria meu único objetivo aqui.
Ora, pode parecer até redundante tentar investigar os primórdios da história da
tecnologia porque o termo que mais aparece nesta investigação em seus primórdios,
necessariamente é o termo “África”. Assim, eu lhes pergunto, por que os estudos afro-
americanos ainda estão engatinhando em relação aos estudos africanistas? Não sei bem
a resposta, mas sei que se algum antropólogo hoje escrever um texto de 600 páginas
(como era comum entre os africanistas da virada do séc. XIX e XX), eles simplesmente
não serão publicados. Mas mesmo se ficarmos restritos apenas aos estudos africanistas,
até que Louis e Mary Leakey mostrassem os resultados de seus estudos efetuados na
atual Tanzânia nos anos de 1930, não foi possível reconhecer cientificamente a África
como o berço tecnológico da humanidade78 e, portanto, a noção da África como berço
do safári exótico, se difundiu mais que os trabalhos dos grandes africanistas do passado.
Mesmo que antes se demonstrasse isso teoricamente, intuísse ou mesmo que se
encontrassem alguns vestígios de que essa fosse a “verdade que ninguém quis ver”, não
tinham politicamente como fazê-lo e os africanistas foram silenciados. Porque, se se
desse à África aquilo que ela em verdade tinha de muito melhor que o exotismo, de uma
maneira ou de outra isso teria implicações na justificação do colonialismo e nas
abordagens exploratórias que adviriam a seguir. Nenhum intelectual que tivesse por
obrigação ideológica demonstrar a superioridade da civilização colonial europeia face às
civilizações por ela colonizadas no mundo todo, tinha a obrigação moral de reconhecer
a origem e o fundamento de muitas de suas próprias técnicas, ciências e artes em plagas
que não lhes fossem justificadamente as suas próprias.
Não que isso fosse realmente importante, mas até mesmo um racista carismático
como Gardiner Greene Hubbard (1822-1897) reconheceu também que a África é o
berço da civilização europeia. Este que foi o primeiro presidente da National

78
Vou falar uma bobagem não histórica, simplesmente porque veio na minha cabeça: uma das mais
admiráveis criações humanas, só pra dar um exemplo ridículo é a roda d’água. Sua tecnologia, em sua
antiguidade mais extrema deve ter tido um desenvolvimento isolado no norte da África. Mas e daí?
alguns autores apontam que essa tecnologia possa ter sido trazida da Pérsia por viajantes árabes. Embora
seja um fato que a mesma tecnologia pôde ser identificada nos “redutos” mulçumanos do mediterrâneo,
via África. Ver: Wilson, A. Water-Power in North Africa and the Development of the Horizontal Water-
Wheel, Journal of Roman Archaeology, Vol. 8, 1995. pp. 499–510 (507 e ss.). Ver também:
http://www.desware.net/Sample-Chapters/D01/E2-07-06.pdf. Isso, pelo menos, nos ajuda a perceber que
os velhos continentes montaram todas as estruturas por sob as quais nos sustentamos e, ao se excluir a
África deste desenvolvimento, não me parece ser senão um capricho inconsequente e empobrecedor de
uma certa agulha de verdade que deverá ser buscada, independentemente da quilometragem do palheiro.
51
Geographic e disse tontices incríveis nos primeiros volumes da revista, publicada desde
o fim do séc. XIX79 misturou paradoxalmente seu racismo com um verdadeiro desejo de
conhecimento a respeito da África. Num texto intitulado “África – seu Passado e
Futuro” Hubbard o inicia dizendo que a África “o mais velho continente, os mais
antigos vestígios do homem e berço da civilização europeia, é o último a ser explorado.
Muito antes dos templos da Índia ou os palácios de Nineveh serem construídos, antes
dos jardins suspensos da Babilônia serem plantados, as pirâmides de Queóps e
Cephren foram construídas, os templos de Palmyra e Thebas [estavam] cheios de fiéis.”
Seguindo o padrão de desconhecimento da áfrica subsaariana, a qual gostaria de
comparar ao Egito em proporções e em cultura, Hubbard demonstra desconhecimento
da grandeza dos reinos do Congo, os Estados Luba e Lunda, os Reinos do Daomé ou do
Benin, os impérios de Gana, Mali, Songai ou Kushita...etc. Afinal diz que: “O negro
jamais desenvolveu um alto padrão de civilização”80.

Mas, aonde há ferro, há fogo – As habilidades técnicas necessárias para cavar
fornos em poço e cercá-los com fileiras de fole se espalhou entre os povos de língua
Banto em sua expansão até o extremo sul africano, partindo originalmente da floresta
ocidental, aproximadamente onde fica hoje os Camarões. A história do
desenvolvimento desta tecnologia é um dos primeiros desmentidos à tradição intelectual
racista que trocou a interpretação coerente sobre os fundamentos civilizatorios africanos
pelo discurso de justificação exploratória em primeiro lugar da escravidão e em
segundo, com os resquícios que podem ser ainda hoje distinguidos, a justificação do
colonialismo. Lentamente, as ferramentas de pedra polida que já tinham sido
aperfeiçoadas, foram substituídas por ferramentas similares mais produtivas fabricadas
em ferro. O Arqueólogo Revil Mason, que fez sucessivos trabalhos de escavação e
pesquisa em sítios no Sul Africano estava seguro quanto à ligação intrínseca entre a
tecnologia tradicional da África e a tecnologia contemporânea no que diz respeito, por
exemplo, ao trabalho no ferro na África do Sul. A idade do ferro no Sul Africano
representa uma fase tecnológica crucial para o sucesso da atual tecnologia do sul da
África. Atualmente a África do Sul não funcionaria sem a habilidade tecnológica de sua
população de fala Banta, habilidades que não é devida inteiramente à tecnologia

79
Eu estou preparando um texto sobre os abusos da revista em torno da África que intitulei “National
Geographic 1888-2013, 125 anos de Racismo e Exotismo sobre a África”. Separei centenas de artigos
desta revista que tanto orgulhariam a Hitler e discuto ainda sobre a questão de como a derrota do racismo
científico e vitória do multiculturalismo contribuiram para modificar filosoficamente os rumos da
primeira e segunda guerra mundias e o futuro de nossas próprias vidas.
80
(National Geographic Magazine. Vol. II, 1889 p. 99). Ao menos os que me conhecem sabem que eu
não atribuo necessariamente a esses reinos e impérios (como a nenhum outro aliás) um “alto padrão
civilizatório”. Eu certamente encontrei mais Civilização (com “C” maiúsculo) entre os pigmeus do gabão
que entre os autoritários e assassinos monarcas do Daomé. O mesmo posso falar em todo canto do
mundo! Pelo menos do ponto de vista do velho e bom estilo francês (em que a civilização nada mais seja
que o usufruto cultural da “liberdade, igualdade e fraternidade”): eu encontrei mais civilização em
Toussaint Louverture, ou mesmo no revolucionário que se tornou tirano e assassino J.J. Dessalines que
em outros assassinos como Napoleão, De Gaulle, Vichy, Chirac ou Sarkozy juntos! Essa lição pelo menos
os donos do mundo já tiveram: Jamais dar nossa cultura ou “ensinar nossa forma de civilização” aos
“seres inferiores”, pois eles podem, sendo bons alunos, acabar concluindo que são “superiores” a nós; a
mesma lição, espero, foi aprendida pelas revoluções dentro das revoluções e à todas as temporadas de
“caças às bruxas” possíveis: Meus filhos, não se enganem: “um dia é da caça o outro é do caçador”.
http://www.nationalarchives.gov.uk/dol/images/examples/haiti/0001.pdf (O belo texto da “Declaração da
Independência do Haiti” – que eu traduzi male male para o português, disponibilizei em 2010 aqui:
http://pt.scribd.com/doc/66714372/Declaracao-de-Independencia-do-Haiti-1804).
52
ocidental importada, mas é parcialmente a herança comportamental adquirida de seus
ancestrais da idade do ferro81.
Phillipson nos informa que foi na região do vale do Zambeze, próxima à cidade
de Livingstone que os arqueólogos encontraram variados vestígios de trabalho com
ferro bem antigos. “Em Kamudzulo foram encontrados vestígios de casas de pau-a-
pique semi-retangulares datados dos séculos V a VIII (...)” E acrescenta que depósitos
funerários escavados em Chundu “incluíam invariavalmente uma enxada de ferro quase
sempre acompanhada de outros objetos, como braceletes de ferro ou de cobre, cauris
ou contas de concha em forma de disco. (...) Os povoamentos dos grupos Dambwa,
como os do grupo Kalundu ao norte, proporcionaram vestígios osteológicos da criação
de animais domésticos bem como de carneiros e/ou cabras, mas a preponderância de
ossos de espécies selvagens corrobora para a importância da caça. Os objetos de ferro
confeccionados localmente incluíam estiletes, facas, enxadas, machados, braceletes,
pontas de flechas e lanças82.
É certo que nunca houve um tal desenvolvimento da técnica e do feitiço que se
fizesse influir no mundo de modo lógico, de implicação em implicação, de
desdobramentos em desdobramentos, de vínculo a vínculo. Mesmo assim, não seria
também necessário o nascimento de uma “filosofia da criação e elaboração tecnológicas
independentes”, uma vez que o homo-sapiens sapiens já se definira no interior da África
antes de se difundir pelos continentes, estaríamos desobrigados de refazer seus
caminhos um a um e conseguiríamos nos recriar a partir dos vínculos que nos forem
suficientes. Mas, entres nossas maiores dificuldades na recriação da humanidade está no
histórico de seu desenvolvimento hierárquico e sedentário. Nenhuma criação
tecnológica, por exemplo, causou impacto social tão profundo quanto o surgimento da
agricultura. E esta se desenvolveu a tal ponto com a chegada dos implementos de metal
que proporcionou uma verdadeira guinada tecnológica em algumas regiões. A chamada
revolução neolítica deixou pra trás toda possibilidade da noção de bens culturais
instaveis e satisfatórios. Com a agricultura, a demarcação e medida do tempo, o cálculo
e a provisão, etc., aparecem como modelar de uma nova humanidade agora marcada
pela temporalidade. Instaura-se o reino da necessidade de estabilidade e satisfação no
tempo que passa a ser cada vez mais medido e assegurado.
Todavia, outro lado dessa moeda ainda deve ser distinguido. A julgar pelos
conhecimentos que temos sobre a divisão de trabalho no setor da agricultura,
certamente, num período de transição entre o modo de subistência da caça e coleta com
nomadismo para modelos de cultivo e assentamentos por mais tempo, o papel da mulher
nesta revolução não deve ser desprezado. Mas foi algum machista que disse que a
agricultura em si mesma seria “uma coisa de mulher porque a tecnologia da agricultura
teria sido uma criação com vistas a segurança alimentar e é a mulher que necessita de
segurança”. Só faltaram dizer que “entre outros lugares onde ela busca essa segurança
seria nos homens”. Foi tentador a alguns dizer isso, já que estiveram desde sempre
rodeados por mulheres patriarcalistas tão acostumadas ao pensamento masculinista
como se fossem delas próprias. Ainda que os modelos tecnocráticos utilizem o método
propagandístico em relação ao aumento da segurança. Nunca há um aumento concreto
da segurança na profusão do mundo natural. Nunca na natureza, desde Adão e Eva (para
falar uma frase engraçadinha) houve aumento qualitativo ou quantitativo na segurança,

81
MASON, 1967a: 8-9 Apud, Robert SHAW, 2006: p. 67.
82
PHILLIPSON, Início da Idade do Ferro na Africa Meridional In: A África Antiga P.694
http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/Inicio-da-Idade-do-Ferro-na-Africa-
meridional.pdf
53
o que houve apenas foi um aumento na sensação de segurança. Pensa-se por exemplo na
erradicação da varíola, onde podem supostamente pensar ter havido um grande aumento
na segurança e controle da doença. Mas não houve. Podia-se simplesmnete exterminar o
vírus, poém, razoavelmente, ninguém quis fazer isso. Houve sempre a necessidade de
manter em laboratório algumas amostras para que “caso algum dia seja necessário
reutilizá-lo, poder-se-á fazê-lo”; o veneno, assim, poderá tornar a ser remédio. Mas o
medo de que essas e outras armas químicas sejam usadas ou que uma mutação reapareça
será eterno; a magia e a tecnologia tenderam a não se apartar senão ideologicamente,
portanto, quantitativamente ou qualitativamente, o que restou foi a importante e
hiperestimada “sensação de segurança”, mas nunca a segurança mesma.
Mas não falemos disso aqui, limitemo-nos a perceber que as mudanças
estruturais nos modelos de cultura ocorreram antes de mais nada na África, muito antes
de quaisquer outros continentes. E que isto sirva não a pan-africanismos tolos que nos
force a usar quaisquer frases dizendo “blá, blá, blá...muito antes dos europeus”,
simplesmente porque se isso foi assim, não foi por algum valor intrínseco ao africano,
mas porque foi no início da humanidade em seu berço casual que essas mudanças
ocorreram e se fizeram valer. Desde as tradições mais antigas como o domínio do fogo e
suas consequências, a vida de caçadores-recoletores até as outras fases revolucionárias
que determinaram a humanidade enquanto tal, por exemplo, a domesticação e o controle
genético de animais, a agricultura com o cultivo de plantas e manipulação de alimentos,
o pastorialismo, etc. – todas revoluções produtoras de mudanças no estilo de vida e na
organização social, a África viu passar diante de si mil e uma formas de implantação de
domínios. Mesmo do ponto de vista estrutural da psicologia evolutiva, poucos povos
antigos passaram por tantas modificações filogenéticas. Assim, a ideia fundamental de
que os humanos, representados pelos africanos, em determinada etapa da humanidade
sofreram as mais profundas mudanças de seus modelos tecnológicos jamais produzidos
até o aparecimento da revolução industrial é uma ideia que também nos conduz à África
com um olhar diferenciado em relação aos outros continentes. Porém, como não se
considera, com razão, o positivismo como um modelo de ciência válido, resta-nos tentar
recobrar as bases ontogenéticas e culturais da África e voltarmos muito dignos aos
nossos fundamentos e aos nossos desdobramentos mágico-tecnológicos, refeitos de
nossas fantasias de originalidade e primazia, tornando a questionar as bases
ontogenéticas dos períodos de dependência, falta de autonomia e imaturidade ao longo
da evolução animal83.

83
Bjorklund, D. F., & Pellegrini, A. D. Child Development and Evolutionary Psychology. Child
Development, 71(6), 1687-1708, 2000.
54
Implementos agrícolas do Museu Nacional de Gana
http://dowellbaumsinzambia.blogspot.com.br/2010/10/ghana-ii-accra.html

Uma vez que os europeus de “primeiro contato” (criadores de novos postos de
feitorias e comércio) não tinham poderio militar suficiente para adentrar os interiores
africanos, não tinham esperiência biológica para ultrapassar a barreira mortal das
doenças que os dizimavam no interior (convencionado como “túmulo do homem
branco”), permaneceram e desenvolveram suas relações comerciais no início, apenas na
Costa, estimulando assim, para além do comércio de bens exterior, as relações de
conluio, de dominação, de desconfiança e de distinção de poder, em que ambos os lados
(europeus e chefias africanas) deveriam afinal, “sair ganhando” nessa negociação de
tipo clássico: “eu faço o que você quer e em troca você faz o que eu quero”. Do ponto
de vista político, o massacre tecnológico africano na atualidade se deve principalmente
à histórica colonial de conversão e proselitismo das chefias africanas aos modelos
tecnológicos europeus de grande escala, instrumental e contabilista, que em última
instância sempre teve como base a dominação, a hierarquia, o lucro e a ganância – para
ficarmos apenas em seus aspectos mais superficiais.
Mas a cultura do ferro também teve uma importãncia especial nas relações
comerciais entre europeus e chefes africanos. Historicamente, os machados de pedra dos
caçadores-recoletores e dos proto-bantos foram os antepassados da machadinha, do
enxó e da enxada de ferro dos povos africanos antigos e modernos, que estabeleceram,
afinal, certos desdobramentos tecnológicos nas Américas por meio da escravidão: Os
assim chamados machadinhos de mão, por outro lado, eram bifaciais, isto é, afiados
lascando toda borda. O desenvolvimento deste tipo de ferramenta também é atribuído
aos povos da África Central, provavelmente datam de cerca de meio milhão de anos
atrás. Esta era uma ferramenta de uso geral, servindo não apenas como um machado,
mas também para a perfuração e raspagem das peles dos animais. Não apenas pedras
foram usadas em sua fabricação: alguns mostram sinais de terem sido extraídos da
rocha natural84.

84
McNEIL, I. (Ed.). An Encyclopaedia of the History of Technology. London; New York: Routledge Feb,
1990, p. 10.
55
Machadinha de dança iniciática feminina Katemokavamwali
Noroeste de Kabompo, Zâmbia. c. 1900.
http://www.ezakwantu.com/Gallery%20Mwali%20Ceremony.htm

A cultura material africana é a base para muitas culturas mundiais. Dentro da
série de implementos de atividade doméstica, caça, colheita, coleta, ou seja, os
exemplos de peças utilizadas no tempo que compreende períodos mais remotos até o
tempo moderno escravista são modelos de exportação que tiveram uso e aceitação
significativas.
Quando buscamos indicações antropológicas, fazemos pesquisas e cotejamos
dados da arqueologia da África, seguimos linhas historiográficas, estudamos o corpo
mitológico ou ao estudarmos a terminologia local para os implementos, como por
exemplo, quando reconhecemos que o termo “Machado” se diz “Kiáli” (pl. Bitáli) em
Cabinda85, “Enxada” se diz “nsengo” (MARTINS, 1968. p.451) ou “Sengo” (Idem,
Ibidem p.565), em resumo, quando estudamos a cultura material africana em sentido
amplo, passamos também a ampliar nossa compreensão da África sem nos limitarmos
nas especialidades cada um dos aspectos destas culturas muito diversificadas. Assim,
dado que a soma de vestígios não nos levaram a um corpus integrado, todo estudo que
quiser recuperar os vínculos perseverantes entre Brasil e África terá como fonte útil e
até certo ponto necessaária, a multidisciplinaridade. Muito da tradição africana mais
antiga só foi possível ser conhecida graças ao trabalho conjunto de filólogos,
antropólogos, arqueólogos e profissionais das mais variadas áreas do saber. Parece que
hoje, infelizmente, poucos são os intelectuais dessas áreas que se unem em uma
comunidade científica livre dos encontros pagos, seminários e palestras cheias de blá
blá blá ou que resultem em artigos mais ou menos verdadeiros ou mais ou menos
independentes. Contudo, é certo que este egoísmo acabou nos legando resultados de
pesquisas isoladas para que seres estranhos como nós tenham alguma preocupação ou
um interesse didático e possam reagrupá-las em nome de alguma “inventada” busca pela
“unidade de leitura cultural dessas tradições”. Essa unidade, ainda que refeita pela
analise cultural recuperaria a função feminina nas revoluções tecnológicas.

85
MARTINS, P.J. Sabedoria Cabinda – Símbolos e Provérbios. Lisboa: Junta de Investigação Ultramar,
1968, p.80.
56
Implementos agrícolas tradicionais utilizados por mulheres africanas da atualidade (Burkina Faso)
Agricultural Implements Used By Women Africa – IFAD Burkina Faso foto: Jeremy Hartley, pp.15, 116,
122.

Segundo Serpa Pinto, em “Como eu Atravessei a África” p. 81. “Os costumes
entre os pôvos do Nano e do Huambo são os mesmos que entre os Quillengues, assim
como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de que fazem setas, azagaias e
machadinhas. Mas não enxadas, que vêm do norte do norte.” A atividade agrícola,
tradicionalmente é uma atividade feminina na África. Ao descrever o trabalho com esse
tipo de ferramenta de tecnologia africana e nas Américas, Antonil também apresenta
semelhante divisão de trabalho: “As mulheres usam de foice, e de enxada, como os
homens; porém nos matos, só os escravos usam de machado.86”
A agricultura familiar africana é essencialmente feminina ou pelo menos sabe-se
que a mulher teve um papel fundamental nela, do qual voltaremos a tratar. Mas,
independentemente disto, é certo que a tecnologia agrícola responde a um sem fim de
critérios para sua subsistência fora da África. É de se supor que o design da produção de
implementos agrícolas específicos como a enxada, no início do período colonial, só
teria supervisão técnica em casos de ignorância do construtor ou a não aceitação dos
modelos de construção propostos pelos trabalhadores do eito. É certo também que o
material e técnica e também o design da enxada africana devem ter satisfeito a
necessidade de produção inicial das plantations nas Américas, já que sua forma geral
pôde ser verificada em locais distintos em que houve escravidão no novo mundo. Seu
uso foi generalizado, embora certas características locais na forma da ferramenta foram
incluídas na medida em que foi necessário a utilização de técnicas diferentes (e
consequentemente, a diversificação de implementos) para diferentes tipos de culturas
agrárias.
Não é possível falar dos africanos como civilizadores sem falar num dos grupos
mais importantes dentro das tradições afro-brasileiras – os iorubanos. Tampouco é
possível falar do ferro na civilização iorubana sem falar em seu deus civilizador que é
Ogum. Na Nigéria, berço da civilização iorubana e em imediações circuito cultural
aproximado, o uso do ferro teve um determinante papel no surgimento e ampliação de
vários reinos. O reino do Benin, os diversos reinados iorubas, principalmente, o reino de
Ifé e de Oyo e mesmo o reino do Daomé, por vezes tributários dos iorubanos tiveram

86
ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil (1711). Salvador, Livraria Progresso Editora,
1950. p. 52. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/bitstream/handle/1918/00087300/000873_COMPLETO.pdf
57
relações históricas e convergências culturais nas metodologias de extração de minério e
também no trabalho de manipulação do ferro e de outros metais. Ogum é o deus do
ferro dos Iorubá, o ferreiro é quem faz as armas e, por desdobramento, portanto, Ogum
é também o deus da guerra. Uma divindade que ganhou bastante notoriedade no Brasil
e em Cuba graças também o seu sincretismo, no caso Brasileiro, com São Jorge,. Herói
civilizador, a ele é creditado a introdução do ferro, a criação de estradas e a fundação de
uma dinastia entre os Iorubá. A espada de ferro é seu símbolo principal, signo da
“dubiedade” de suas ações civilizadoras e agressivas. Da mesma forma como na África
Central, a cultura do ferro é uma tradição ritualizada que pode ser identificada e
classificada nos diversos povos ferreiros da África Ocidental. Fala-se por exemplo, da
utilização etnológica da bigorna como instrumento de juramento ou como altar
sacrificial87 e das oposições de poderes entre masculino e feminino no estabelecimento
demais esta tecnologia.

Implementos da Região de Wanyamwezy (Nyam-Nyam, Zande – Uganda) -1863
SPEKE, John Hanning, (1827-1864) – Journal of the Discovery of the Source of the Nile. William
Blackwood and Sons. Edinburgh and London, 1863.
1. Copo de capim tipo feno – cesta de vime. 2. Carregamento de enxadas de ferro local. 3. Estoques de
madeira para pernas criminosos. 4. Sino de dois tons de ferro. 6. Enxadas de ferro, o único instrumento
usado no cultivo da terra. 7. Ferreiro em sua bigorna de pedra 8. Menino trabalhando em um fole de
madeira 9. Martelo de madeira para martelar panos de tapas. 10. Morsa manual do ferreiro para
desenhar fio; facas, goivas, martelos, machados, facas de sultão, tenazes, cinzel e banquinho de três
pernas88.

87
ROSS, Emma George. The Age of Iron in West Africa". In Heilbrunn Timeline of Art History. New
York: The Metropolitan Museum of Art, 2000–. http://www.metmuseum.org/toah/hd/iron/hd_iron.htm
(October 2002).
88
Versão digital disponível em inglês em:
http://burtoniana.org/speke/books/Journal%20of%20the%20Discovery%20of%20the%20Nile%20Sources/speke-1863-journal.html
58
Um estudo comparativo do design das ferramentas e culturas materiais
contribuiria para a proposição de hipóteses quanto ao nível de influência formal africana
nas elaborações de implementos no novo mundo das indústrias do ferro, do couro, da
mineração, tecelagem, joalheria, agricultura, construção, etc89. Voltarei a comentar um
pouco mais detidamente a respeito de algumas destas tradições mecânicas africanas
mais adiante. Mas, como eu já disse outras vezes, desenvolvimentos nas áreas das
ciências exatas e técnicas não são modelos civilizatórios para mim. Se assim o fosse eu
não colocaria em questão o próprio termo “civilização”. No entanto, como as técnicas e
engenhos, as magias e as tecnologias (com seus prodígios encantadores) são valorizados
por quase todo mundo que eu conheço, gostaria de fazer a seguir, para o entretenimento
de vocês, uma pequena introdução ao levantamento de modelos tecnológicos africanos
com ou sem desdobramento nas Américas:

Ossos de Ishango
Musée des sciences naturelles de Belgique
(PICKHOVER, 2009 , p. 27)

Ao pensarmos inicialmente nas áreas ditas técnicas, lógicas e exatas, o primeiro
achado arqueológico matemático mundial foi encontrado num território que hoje é a
fronteira entre a República Democrática do Congo e a Unganda. Trata-se do chamado
“Osso de Ishango” (c. 18.000 a.C.) que, de acordo com vários autores, era utilizado para
cálculos matemáticos.90 O termo utilizado é “etno-matemática”. Fazendo trabalhos
bastante pertinentes, por trás deste termo horroroso há, entre outros tipos obscuros, uma
personagem de ciência bem interessante chamado Ron Eglash. Ele era um engenheiro
de computação do “vale do silicone” quando, em 1988, fez uma descoberta numa vila
tradicional da Tanzânia que o deixou embasbacado. Ao estudar algumas fotos aéreas da
vila reconheceu intuitivamente que o telhado de palha das cabanas africanas formavam

89
Ao confrontarmos, por exemplo, os implementos de ferreiro como as “tenazes”, “os foles”. dos Niam-
Niam.., na imagem de Speke, imediatamente acima, com as “tenazes”, “foles” e outros implementos Fon
de ferreiros da Ilustração de A. Housselin pg. 26, limitando-nos aos exemplos aqui disponibilizados,
fazemos comparações com modelos banto e não banto da cultura dos ferreiros da África. Uma vez que as
tradições bantas são modelares neste quesito, a análise descritiva destes implementos bantos compõem
um arcabouço próprio face aos demais, sejam estes os de influência nortista e árabe direta sejam
desdobramentos da cultura de ferreiros da antiguidade egípcia.
90
VER: PICKHOVER, 2009, P. 27); (ZASLAVSKY, 1990, p. 17-20) e ver também:
http://www.math.buffalo.edu/mad/Ancient-Africa/ishango.html . Um instrumento ósseo utilizado para
fins matemáticos mais antigo (c. 35.000 anos) chamado “Osso de Lebombo” foi encontrado nas
montanhas homônimas localizadas entre as atuais África do Sul e a Suazilândia.
(http://en.wikipedia.org/wiki/Lebombo_bone).
59
um padrão que lhe era estranhamente familiar. Intrigado, ele digitalizou as imagens e
submeteu as informações a um computador. O resultado o surpreendeu: as cabanas de
palha foram construídas segundo as leis da geometria fractal. Ou seja, ele percebeu que,
naquela “simples” vilinha africana, havia uma disposição arquitetônica que revelava
algum tipo de conhecimento de uma matemática que era pós-euclidiana. Ao generalizar
sua “descoberta”, identificou esses mesmos padrões em outros aspectos da cultura
africana para além da arquitetura, desde penteados, objetos de arte, jogos, até em
práticas religiosas como sistemas de adivinhação, etc.91 Certamente este é um
importante aspecto do conhecimento tecnológico africano e por si só merece atenção, no
entanto, como de costume, o espanto só é digno de si mesmo entre nós, apenas quando
se refere a um novo mundo absolutamente “indizível” ou um imenso mar “jamais
d’antes navegado”: Quando os europeus estiveram pela primeira vez na África, diz o
etno-matemático, eles consideraram a arquitetura muito desorganizada e, portanto,
primitiva. Nunca lhes ocorreu que os africanos poderiam estar utilizando uma forma de
matemática que eles sequer tinham ainda descobertos.92
Parece certo, portanto, que a forma comum de construção arquitetônica
tradicional em regiões ocidentais africanas, mas não só ali, tomou como ponto de
partida escalas fractais segundo as quais a pequenas partes das estruturas tendiam a
parecer similares às partes maiores, ou seja, tomando as proporções fractais construísse
as casas individuais relacionando-as
ao corpo social da vila, o
microcosmo (individual) está nesse
sentido subsumido no macrocosmo
(social) – as casas circulares
subsumidas no vilarejo circular.
Vejam alguns exemplos:
Os assentamentos dos Ba-ila,
que vivem à sudeste da República da
Zâmbia e no Zimbabue são um dos
impressionantes exemplos
Assentamento dos Ba-ila, sudeste da República da Zâmbia levantados no livro de Ron Eglash
http://www.ccd.rpi.edu/eglash/csdt/african/fractal/baila.html
sobre as fractais africanos. Os
assentamentos são constituídos por enormes círculos contendo em si anéis de menor
escala, que são currais. Os círculos menores são casas cilíndricas e salas de
armazenamento. A ideia de composição arquitetônica semelhante à teoria dos conjuntos
formando uma espécie de “anel de anéis de anéis”. Na parte detrás da aldeia vê-se a
construção de uma aldeia diminuta, que na verdade é a da família estendida do chefe da
aldeia. Na parte de trás de cada casa concentra-se o altar sagrado. A associação que se
faz é que o anel ou o círculo da família do chefe (que também fica na parte de trás do
vilarejo) está para o povoado assim como o altar está para a casa.
A despeito de seu funcionalismo relativamente imediatista essa teoria não deixa
de ser intrigante. Parece haver realmente aí, como afirma Eglash 93, um papel funcional

91
Ver: EGLASH, Ron. African fractals: modern computing and indigenous design Piscataway, N.J.:
Rutgers University Press, 2002. Ver também: http://www.sfgate.com/default/article/Sophisticated-
Mathematics-Behind-African-Village-2774181.php
92
Não deixem de assistir a este vídeo em dá uma palestra sobre este assunto bastante intrigante:
http://www.ted.com/talks/ron_eglash_on_african_fractals.html e ver também:
http://homepages.rpi.edu/~eglash/eglash.dir/afractal/Eglash_Odumosu.pdf
93
http://csdt.rpi.edu/african/african_fractals/homepage.html
60
recorrente entre diferentes escalas fractais dentro do assentamento. A relação do chefe
com seu povo é descrito pela palavra kulela, uma palavra que geralmente se traduz
como “governar”. No entanto, isso traduz apenas um significado secundário. kulela
significa principalmente “cuidar” (to nurse) e “valorizar” (to cherish). A mesma palavra
é aplicada a uma mãe que cuida de seu filho, fazendo com que o chefe seja visto como
“o pai” da comunidade. Esta relação, continua Eglash, ecoa por toda a família e por
todos os laços espirituais em todas as demais escalas e são estruturalmente mapeados
através da arquitetura “autossimilar”, ou que se “auto-reproduz” de escalas fractais
maiores a menores e vice-versa.
Esta presença de modelos civilizatórios surpeendentes foi buscada no passado
com vistas a um destaque de estilo nacionalista ou pan-africanista que redundou no
isolamento e na manutenção do grande desconhecimento das tradições técnicas
africanas. Ao retomar as escalas fractais em aldeamentos africanos submetidos à uma
cultura dita superior, Ron Eglash chama atenção a uma rica fonte de magias e
tecnologias provindas do “continente negro”. Uma análise semelhante foi feita pelo
engenheiro a respeito dos assentamentos em vilarejos Makoulek (Kirdi) dos Camarões,
como se demonstra pelas imagens a seguir:

Foto em detalhe de casas Makoulek Plano do vilarejo Makoulek, Camarões.
Vilarejos construídos sob os
conceitos matemático das fractais

O estudo dos modelos de conhecimento africanos nas áreas de exatas é bastante
promissor, haja vista que é o que mais ficou relegado e desconhecido, no entanto, é o
que mais têm intrigado os pesquisadores em função de sua surpreendente profundidade.
A aplicação de conceitos matemáticos para soluções práticas seja da engenharia ou em
outras áreas como a destacada aqui, a arquitetura, são os exemplos mais ricos onde se
poderá buscar ligações ou exemplos de vínculos entre a África e as Américas.

Quem quiser saber mais:
(essa vai para meus antigos alunos da Escola Estadual Dep. Augusto do Amaral)

A lista de saberes afro-americanos implicados nas tecnologias das Américas não pode
ser totalmente identificada. A que pudermos reestabelecer constituirá apenas de uma pálida
sombra do que deve ou poderia ter sido em desenvolvimentos africanos isolados (não houvesse
o colonialismo e a invasão europeia), ou em função também do hiato violento da escravidão, por
um lado, e pelo autoritarismo europeu e de chefias africanas de outro. Essa lista de saberes a
África e suas tecnologia tradicionais, ainda assim, não é tão escassa. Aos interessados nessa
pesquisa específica sobre a tecnologia da África e alguns textos também que refazem os laços
61
perdidos com o continente africano no que se convencionou chamar estranhamente de
“Diáspora negra”, gostaria de listar alguns caminhos de pesquisa possíveis indicando uma
bilbiografia básica no final de cada sub-item.

Quem tiver interesse específico, portanto, no campo da matemática africana
este interesse pode ser dividido com o grupo ainda ativo e aberto à novas contribuições,
“African Matehematical Union”, baseados nos EUA e em Moçambique:
http://www.math.buffalo.edu/mad/AMU/AMU-index.html, entre outros, trabalhos de
etnólogos como: Cheik Anta Diop; DELAFOSSE, Maurice, La Numération chez les
Nègres, Africa: Journal of the International African Institute (in French) 1 (3): 387–390,
JSTOR 1155640, 1928; ARMSTRONG,R.G., Glottochronology and African linguistics.
Journal of African History,3(2), 283-290, 1962; GERDES, Paulus, Sona Geometry from
Angola -- Mathematics of an African Tradition – Monza, Italy: Poliometrica Scientific
Publisher, 2006; IDEM. On Mathematics in the History of Sub-Saharan Africa. Historia
Mathematica, 21: 345-76, 1994.

1.3. A arquitetura africana segue a determinações históricas, culturais e
regionais quanto ao estilo, às tecnologias utilizadas, às elaborações estéticas e às
convenções sociais que variam segundo as comunidades e povos e as condições
geográficas locais. O conhecimento das diversas técnicas arquitetônicas da África só
está limitado pela modificação constante de métodos, técnicas e materiais utilizados,
tanto quanto pelo problema da falta de sistematização e integração de dados da história
oral africana, relatos de viajantes europeus e documentação árabe para, a exemplo de
Ron Eglash, começarmos a enchergar para além do limite atual de onde a estamos
vendo. A bem da verdade, considerando que muitos dos métodos históricos de
construção resistem aos modelos europeus em quase toda extenção do continente
africano, um estudo cuidadoso de algumas destas tecnologias ancestrais, por
incompletos, ainda pode ser feito com algum grau de sistematização. A especialista em
arquitetura Dr. Labelle Prussin94, por exemplo, indica genericamente as caracteristicas
determinantes para as diversas técnicas arquitetônicas da África: Em regiões com
chuvas fortes, telhados inclinados facilitam o escoamento da água, e múltipla
aberturas estimulam o resfriamento evaporativo. Nas regiões quentes e secas, com
mudança diurna de temperatura marcada e precipitação mínima, paredes de barro
grosso com poucas aberturas moderam o calor do sol do meio-dia. Os ventos alísios e
de alternadas monções ditam uma orientação na construção e o reforço da parede. Em
regiões com crescimento de vegetação tropical pesada, a cobertura florestal natural
proporciona proteção do calor e radiação solar, enquanto em regiões desérticas e de
savanas sombra e penumbra definem a atividade humana diária e a movimentação no
espaço95.

94
Labelle Prussin já deu aulas na Universidade de Michigan e Washington, além de trabalhar na
Universidade de Ciência e Tecnologia de Gana. Ela escreveu o artigo “Uma Introdução à Arquitetura
Tradicional Africana” (Disponível aqui:
http://davidrifkind.org/fiu/library_files/prussin%20intro%20to%20african-architecture.pdf
95
PRUSSIN, L. “Architecture” In: MIDDLETON, John & MILLER J. C. (eds) New Encyclopedia of
Africa. Farmington Hills; New York, London…:Thompson Gale. vol. 1, 2008. p. 113.
62
Outros exemplos da arquitetura africana tradicional ser-nos-ão úteis para
tecermos, em seguida, alguns comentários a respeito da dúvida de se existiu ou não
algum “africanismo” dentro da arquitetura brasileira96:

Casa dos Lundas – Rep.Dem.Congo Casa Ashanti tradicional, típica dos sécs. XVIII e XIX
Diario Expedição
Major Monteiro, 1854

Construção iorubana de origem desconhecida Casa do povo Bambala – R. D. Congo
http://www.nairaland.com/864525/yoruba-kiriji-wars-1877-1893/2 National Geographic 36-4 – Oct., 1919, p.364

96
Para exemplos dentro da iconografia supérstite ver: MOURA, C.E.(Org.) Travessia da Calunga
Grande: três séculos de imagens sobre o negro no Brasil 91637-1899). São Paulo, EDUSP. 2000. pp.
323; 348;459; 541. E aos que ainda não estão nem um pouco familiarizados nas discussões sobre a
arquitetura africana, uma boa introdução poderá ser a wikipedia mesmo, portanto, não hesitem:
http://en.wikipedia.org/wiki/Architecture_of_Africa#cite_note-1;
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Lunda_houses-1854.jpg
https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Huts_in_Africa
63
Palafitas Banto Palafitas da Cidade do Benin
Bacia do Rio Ruvuma,Tanganyika.c.1917 travelbbb.com (séc. xx)

Recorte de uma casa Fula - Halwar
Note-se o “puxadinho” avarandado e suas viga de sustentação internas,
A pequena janela, bem como o telhado em colmo e as divisões internas dos cômodos97

Os avarandados também apareceram mesmo em construções de grande escala,
geralmente associada à realeza. O velho palácio do rei (Aláàfin Aganju) da cidade de
Oyo, por exemplo, mantinha em sua estrutura arquitetônica gigantescos frontões
piramidais em colmo. Os alpendres são chamados de Kobi. Somente o rei Aganju foi
responsável por erigir mais de 120 destes alpendres98.
O viajante Alemão Paul Reichard (1854-1938)99, em artigo publicado em 1891,
num trecho em que tece comentários sobre as “técnicas do corpo” africanas, diz que:
“Em minhas observações entre os negros bantos, que se estende dos Bagamoyo [atual
Tanzânia] pelo território do Congo, tenho encontrado, com exceção da diversidades
nas formas de saudação, uma grande uniformidade nas atitudes das pessoas. Meu
relato presente será restringido a tribos que têm-se mantido livre da influência
estrangeira. As características mais marcantes dos movimentos dos negros são uma
animação geral (general liveliness) e, uma execução [de movimentos] irregular

97
http://preservation.myfloridahistory.org/american-vernacular-architecture-the-shotgun-style-in-florida/
98
PEEL, J.D. Yeadon. Religious Encounter and the Making of the Yoruba Indiana: Indiana University
Press, 2003, p.192.
99
Engenheiro cujas explorações na África abririam espaço para a implantação do protetorado alemão no
Burundi, Ruanda e Tanzânia [num território 3 vezes maior que a alemanha – cerca de 995 mil km2]
64
precipitada (hasty, jerky execution). Sua fala é alta e é continuamente enfatizada por
gestos, que são um constituinte real do discurso, e são feitos igualmente quando a
conversa é desenvolvida no escuro; e eles [os gestos] são tão expressivos que é possível
entender muito do que é dito, sem ouvir uma só palavra. Se nos propusermos visitar o
chefe de uma aldeia negra [banta], vamos encontrá-lo sentado na varanda de sua casa
com seus nobre, e os corajosos que vieram lhe prestar reverências, em torno dele100”.

Antigo palácio de Oyo – riqueza em avarandados

Essa realidade dos avarandados em sua associação com o estilo arquitetônico das
residências maiores e sobretudo palácios reais, também pode ser verificada em outros
povos de tradição africana ocidental. Não se de falar exatamente de um cruzamento
entre o público e o privado ou uma intersecção entre o social e o familiar, pois
justamente estas seriam apenas reformulações modernas do espírito destas formas
arquitetônicas africanas com uso de avarandados. Mas as características sociais
proporcionadas pela ocupação generalizada da varanda, filosoficamente, formariam a
base do sentido de “espaço comunitário” ou de “convivência” em torno do qual as
relações sociais propriamente ditas se desenvolvem. Os autores Gugler e Flanagan101
identificaram que os ‘compounds’ foram os elementos mais importantes na cidade
iorubana tradicional. Estes edifícios residenciais tradicionais têm paredes de barro
grosso (estruturas de espigagões com cerca de 15-30cm), vigas de bambu ou outra
madeira resistente a cupim com construção de telhado de palha, e tamanhos de quarto
com base em um módulo padrão de 3 metros (ese bata Mewa) (Osasona, 2007)102. (...)
Ile-Ifé está numa região florestal quente e húmida, e o efeito do tempo é que os espaços

100
REICHARD, Paul. Deportment of Savage Negroes. In: Popular Science Monthly. Vol. 39. July, 1891.
p. 330-31. [trad. Das Ausland] Disponível em:
http://en.wikisource.org/wiki/Popular_Science_Monthly/Volume_39/July_1891/Deportment_of_Savage_Negroes
101
GUGLER, J. & FLANAGAN, W. G., Three Types of Change. Urbanization and Social Change in
West Africa, 1978, pp. 97-117.
102
OSASONA, C. From Traditional Residential Architecture to the Vernacular: The Nigerian
Experience, 2007. Disponível em: http://www.mudonline.org/aat/2007_documents/AAT_Osasona_web-
based%20publication_060928.pdf
65
abertos sombreadas são mais confortáveis, particularmente à luz do dia. Tal como,
grossas paredes de adobe, juntamente com pequenas janelas, os telhados inclinados
com as beiradas saliêntes, são comumente encontrados em resposta ao clima. Esta
forma arquitetônica de pequenas salas em torno de um espaço comunitário é frequente
na África Ocidental, como pode ser visto na arquitetura Bini (do sudoeste da Nigéria) e
ainda mais longe, na arquitetura Ashante (Gana)103.

Família “quilombola” do Suriname - cultura material de raízes africanas
Reparem também no que parece ser um “pistilo” ou “pau-de-pilão” entre a mulher e o menino.
National Geographic no. 18 vol 06 – Junho de 1907, p. 369. (Foto: H.C.Adams)

Abstratamente, para um negro africano outrora retirado por violência de seu
enraigamento, e agora completamente descontextualizado, mas resistente, quilombola e
em busca de uma vida livre, não há “África” ou “América”, há frutos, peixes e terras
cultiváveis que poderão lhe permitir sobreviver. Aliás, esta palavra não apresenta toda
reivindicação suspirada por trás dela. Sobrevivência é um termo indigno do humano em
sua sempre presente impetuosidade na permanência do viver o seu para além, sua
superação de si. Quando se diz quase pejorativamente que “vive-se de sobrevivência”,
de modo semelhante como a linguagem da antropologia indica os seres que “vivem pelo
dia” com uma economia de “subsistência” (como se não ansiassem por toda excelência
e excesso do mundo metafísico), redunda-se no mundo do controle hierárquico e da
distância. Quando um negro africano fugitivo da escravidão luta por sua
“sobrevivência” num quilombo, ele não só “subsiste”, todas as suas funções cerebrais se
voltam para suas raízes ontogenéticas mais elementais e pensa-se construir daí toda
chama de possibilidade criadoras de culturas, de feitiços e ciências, novas ondas de
relações societárias que, uma vez testadas no “laboratório da vida”, podem de algum
modo ser retestadas, recriadas ,e reestabelecidas outra vez.

103
ADEOKUN, C. O., The Orowa House: a typology of traditional Yoruba architecture in Ile-Ife Nigeria.
WABER, 2013 (conference) p.2. Disponível em:
http://covenantuniversity.edu.ng/content/download/18792/121416/file/The+Orowa+House+WABER+2013+conference+220713.pdf
66
Sendo assim, são nas regiões das américas com menor influências ou onde tiveram
menor impacto europeu na busca incontrolável por riquezas é que devemos procurar por
maior “africanismo”. Ao mesmo tempo em que não se pode e não se deve falar em
“puros africanismos” em sentido de Herkovits104 não se pode e não se deve falar em
“puros europeísmos”, no sentido de quem quer que seja. A cultura europeia no Brasil é
tupiniquim, isto já é consenso desde Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, respectivamente
carros chefes da primeira e segunda geração de “interpretes do Brasil”. Pensa-se no
período culturalmente mais europeu do País, início e meados do Séc. XIX: quando D.
João VI reinstala o reino Português com sua corte e máquina de Estado aqui. Tratava-se
de uma célula que irradiasse europeísmo a partir dos trópicos, como se quis fazer crer
considerando a implantação da missão artística francesa? É certo que nunca até então o
europeísmo tivera se instalado de modo tão contundente e fincado raízes tão sólidas no
país embora, obviamente, jamais se poderia desenvolver o nível cultural europeizado
(do ponto de vista artístico) que o séc. XIX desenvolveu em todas as áreas das ciências
e das artes. Ora, tendo sido uma colônia de exploração até ali (1808), o que seria das
artes plásticas e das ciências brasileiras não fossem a classe intelectual inconfidente por
um lado e as missões artísticas e científicas por outro lançarem as bases mais sólidas
europeias, por indisciplinadas e incapazes que fossem de penetrar os rincões do país?

104
Como muito bem disse meu amigo Alexandre Marcussi a quem deixo meu recadinho no fim desta
nota: Hoje em dia, os termos nos quais Herskovits elaborou suas reflexões – aculturação, assimilação,
sobrevivências, africanismos – podem parecer datados. Contudo, sua obra continua sendo uma
importante influência para os estudos sobre as culturas afro-americanas e continua inspirando
perspectivas de análise. Não quero com isso sugerir que se deva retornar a Herskovits em busca de
modelos teóricos e metodológicos para serem aplicados nos estudos contemporâneos. Pelo contrário, é
preciso retornar a ela justamente para reconhecer com mais clareza os problemas lógicos presentes em
seu modelo, bem como sua sofisticação conceitual, que pode ficar obscurecida pelo emprego de uma
terminologia que nos soa arcaica. Pois negar a importância dos problemas herskovitsianos e considerar
sua obra como superada só traz o risco de que se chegue, mais uma vez e inadvertidamente, aos mesmos
impasses. (MARCUSSI, Alexandre. Implicações Atuais do Debate entre Herskovits e Frazier sobre
Africanismos, Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 p.10).
Sem dúvida, meu caro amigo Marcussi, esses impasses são riscos calculados pelos melhores analistas
dessas querelas sem fim (dentre os quais nos incluímos, porém bem “advertidamente”). O problema
maior é que apenas a minoria da minoria dos atuais atores do debate não mais se importa com as divisões
ou revisões de modelos teóricos que forçaram perspectivas de análise, dentre as quais, a do portentoso
Herkovits. Ao contrário, não podemos mais nos alimentar de arcaísmos, mas somos alérgicos a
modernismos. Digamos apenas que o engodo da metodologia hoje, com suas teias e armadilhas é menos
sentido como crime que como o próprio criminoso. É claro que se livrar da metodologia também é um
problema metodológico. Ainda assim, atentos à suas preocupações (ainda que restrita, pois válida
somente para nós, a minoria da minoria) em deixar essa querela Herkovits-Frazier “em aberto”, teremos
mais uma vez, advertidamente, de voltar sim a Herskovits, não em busca de “modelos teóricos ou
metodológicos” (concordei contigo), mas como não se trata aqui também de separar o joio do trigo,
voltemos a ele, pois, para saber como melhor abandoná-lo. A própria revisão de Frazier quanto ao
sobrevivencialismo africano nas américas (porque não dizer moribundismo?) e o titubeamento de
Herskovits nos indicam isso. Em busca, por fim, de justamente nos desfazermos do engodo de toda a
metodologia possível que queira distinguir e cindir a humanidade (ou o também arcaico “ser
informação”), dito de outra forma, que queira distinguir a asssimilação da similação, temos de afirmar
que as identidades estão todas condenadas ao irracionalismo, ao conflito e à fluidez, assim como os
homens, enquantos seres socio-culturais, estão condenados à experiência continua da liberdade. Mas nada
mais empolgante que viajar para as Comunicações da ANPUH, ver umas lindas e perdidas estudantes de
História e de Ciências Sociais e jogar na cara de todos a identificação desta “inconsciência” conceitual.
Então aqui vão meus parabéns a você! Mas, você também está me devendo uma cerveja, não é? Qual vai
ser? A Wäls Bohemian Pilsner de Minas, Hoegaarden ou Leffe Blond da Bélgica ou as Eisenbahn de
Blumenau? Você que me conhece, se tiver só uma Bavária mesmo, já tá valendo!
67
Mas a velha máxima antropológica de imposição por meio da aculturação não
encontrou nas classes médias quase inexistentes no séc. xix o impacto que faltava para
seu soerguimento enquanto classe? Em face ao surgimento real da classe média a partir
da exclusão do elemento negro da renda e do trabalho, e da exclusão de outros
elementos sociais proletários com a massificação das artes trabalhistas eu prefiro, neste
caso, evocar a velha máxima filológica de que a “coloração regional” (como no Brasil
colonial e pós-colonial cheio de seus multiculturalismos todos) pode e deve-se tanto ao
superstrato, ao adstrato e ao substrato, como se deu nas diversas regiões da românia do
ponto de vista da fonética histórica105.
Tudo, portanto, se dá de maneira muito simples, segura e impetuosa deste “professor
de todos nós”: “A base comum latina foi perdendo, num período de alguns séculos, a
antiga característica vocálica da quantidade, herdada do indo-europeu, substituindo-a
pelo sistema da intensidade, em que se diferenciam claramente vogais tônicas e átonas,
aberta e fechadas, freqüentemente fator importante de distinção fonológica, portanto,
significativa. Por influência do substrato, do superstrato e até dos adstratos das
diversas regiões da România, o sistema vocálico tônico do latim vulgar foi adquirindo
coloração local; deu-se tratamento diferenciado às vogais médias de timbre aberto ou
fechado, cuja diferenciação remonta às variações latinas de breve ou longa. Desse
modo, para sabermos se a tônica de determinada palavra deve ser pronunciada aberta
ou fechada, ou a razão de existirem pares cuja distinção única se faz pelo timbre da
tônica, basta recorrer ao étimo latino e verificar se a correspondente era breve ou
longa: se breve, a correspondente é aberta; se longa, fechada.106”
A ausência de possibilidades de lucro não limita a manutenção de uma cultura
humana, independente. Tradições ancestrais puderam ser amplamente redimensionadas
nas Américas graças a força do ser ordinário, as raízes integrais de sua relação com a
natureza, a profunda vontade de viver dos povos submetidos aos tipos variados de
domínio e escravidão. A tradição heróica da resistência à escravidão pode também ser
um dos pontos nevrálgicos da insistência nas práticas cotidianas “afros”, vamos assim
dizer. Seja na realidade fugitiva dos “maroons” do Suriname, o ímpeto dos fugitivos da
escravidão, com seus códigos juridicos de rigor e os escravos revoltosos das Guianas, os
cimarrones do Caribe, Panamá, Colômbia e Peru, os jíbaros de Cuba, criadores da
cultura palenque e rancheador e por todas as soltas américas umas e outras mambices,
ladeiras, rochelas, cumbes... Dado o alcance de suas fissuras no espaço-tempo, dignas
de quaisquer ludditas ou filhos de John Zerzan que aliás, não tiveram coragem até hoje
de estudar as formas de vidas quilombolas cheias de moralidade, onde, pode-se,
ademais, encontrar uma das raízes da revolução Americana.

Quem tiver interesse nas análises das influência “quilombolas” no Caribe e
América Latina (excetuando Brasil), vejam: DEBIEN, Gabriel. Un Nantais à la chasse
aux marrons en Guyane, octobre-décembre 1808, Extrait de Enquêtes et documents.
Vol. 1., Nantes, Publications du Centre de recherches sur l'histoire de la France
atlantique, 1971; PRICE, Richard & PRICE, Sally. Les Marrons, Chateauneuf-le-Rouge
Vents d’ailleurs, 2003. PRICE, Richard Les premiers temps, la conception de l’histoire
de Marrons Saramaka, Paris, Seuil, 1994; GABRIEL, John, PRICE, Richard & Sally
PRICE. Stedman's Surinam: Life in an Eighteenth-Century Slave Society. The Hispanic
American Historical Review, Vol. 73, No. 3 (Aug., 1993), pp. 511-513; STEDMAN,
105
Tal como eu a subtraí das magníficas aulas de filologia que tive com o impetuoso prof. Bruno Fregni
Basseto na Faculdade de Letras da USP, lá pelos idos de 1998-99.
106
http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ08_1.htm
68
John Gabriel. Voyage à Surinam et dans l'intérieur de la Guyane... par le capitaine J. G.
Stedman. Trad. P.-F. Henry. Suivi du tableau de la colonie française de Cayenne [par
Daniel Lescallier, Paris, F. Buisson, an VII /1798-1799. (3 vol. in-8 ° + 2 Atlas. In-4°).
Guide des sources de la traite négrière, de l'esclavage et de leurs abolitions, Direction
des Archives de France, La documentation française, Paris, 2007. Vejam também:
http://www.histoire-image.org/site/etude_comp/etude_comp_detail.php?i=781#sthash.xnJeKH5y.dpuf; e ainda: ZEUSKE
Michael, The Cimarrón in the Archives: A Re-Reading of Miguel Barnet's Biography of
Esteban Montejo, In: New West Indian Guide/Nieuwe West-Indische Gids, vol. 71, no.
3 & 4 (1997), pp. 265-279; ZEUSKE. El “Cimarrón” y las consecuencias de la guerra
del 95. Un repaso de la biografía de Esteban Montejo, In: Revista de Indias vol. LVIII,
enero-abril de 1998, núm. 212, pp. 65-84; ZEUSKE, Novedades de Esteban Montejo,
In: Revista de Indias, vol. LIX, mayo-agosto de 1999, núm. 216, pp. 521-525; MANN,
Charles C. HECHT, Susanna. Donde los esclavos reinaban. Nathional Geographic. En
español. 3012, abril. Pag. 70 -77; PLÁ, María del Carmen Borrego P.alenques de
negros en Cartagena a fines del siglo XVII, Sevilla, Escuela de Estudios Hispano-
Americanos, 1973; NAVARRETE, María Cristina. Cimarrones y Palenques en el siglo
XVII, Cali, Universida del Valle, 2003; Regards sur les Antilles : Collection Marcel
Chatillon, Catalogue du musée d’Aquitaine, Bordeaux, 23 septembre 1999 – 16 janvier
2000, Paris, RMN- Bordeaux, Musée d’Aquitaine, 1999; Serge MAM LAM FOUCK,
La Guyane française au temps de l’esclavage, de l’or et de la francisation (1802-1946),
Petit Bourg (Guadeloupe), Ibis rouge, 1999; Jean MOOMOU, Le monde des Marrons
du Maroni en Guyane (1772-1860). La naissance d’un peuple, les Boni, Petit Bourg
(Guadeloupe), Ibis rouge, 2004. WILKIE, Laurie A. Culture Bought: evidence of
creolization in the consumer goods of an enslaved Bahamian family. Historical
Archaeology, Rockville, v. 34, n. 3, p.10-26, 2000.

Negros “cimarrones” da Guiana Holandesa
National Geographic no.18 vol 06 - Junho 1907. p.367

Por fim, um dos pontos de divergência na África entre a arquitetura colonial e a
arquitetura vernacular mais antiga ou tradicional está na determinação dos postos de
poder. A construção de instituições de controle como escolas, bancos, hospitais,
entrepostos, fortes e fortalezas, cortes e tribunais, palácios de governo etc, se opõem

69
fortemente à manutenção de um domínio que não seja o dos “eleitos”. Ao comentar
sobre a arquitetura africana no período colonial Peter Mark afirma que “a arquitetura
colonial africana era primariamente uma expressão do poder e da autoridade política
europeia. Alguns edifícios, entretanto, tais como as casas dos mercadores afro-
brasileiros (ele se refere aqui aos retornados à África depois da escravidão), não
estavam diretamente associados com a afirmação ou apresentação simbólica de uma
autoridade estrangeira imposta. Seja construída por Europeus ou por membros locais
das enormes populações africanas, a arquitetura colonial compartilha elementos de
forma, estilo e escala”. O historiador diz ainda que “Um precursor histórico da
arquitetura colonial pode ser encontrado nas residências de estilo português
construídas ao longo da Costa da Guiné superior antes do século XVI por ambos,
comerciantes europeus e ricos governantes africanos e comerciantes. O estilo da
arquitetura portuguesa reflete mútua interação, nos dois sentidos, entre a sociedade
Europeia e Africana; no entanto, todos os elementos constitutivos já existiam na
arquitetura nativa do Oeste Africano. Em fontes do século XVI e XVII , o termo à la
portugaise geralmente implicava em casas retangulares que eram construídas de terra
seca ou tijolos desidratados (ao sol), caiados de branco no exterior e possuíam uma
varanda ou um vestíbulo (verandah or vestibule) para receber visitas de comerciantes.
Em particular a varanda, quase onipresente nas casas tropicais e subtropicais, foi um
elemento arquitectonico nativo da África Ocidental que foi bem adaptado ao clima
local. É provável que as varandas se desenvolveram de forma independente em várias
culturas, na África, Ásia e Europa107.

BRASIL – Alguns primeiros escravos de origem banta aqui chegados não
deviam em absoluto se sentir muito deslocados seja do ponto de vista da existência de
florestas tropicais, “savanas” (cerrado) e pradarias seja do ponto de vista das
construções disponíveis para residências (no meio físico e uso no seu restrito ambiente
privado, quando houve). As técnicas de construção iniciais de todos os envolvidos no
processo colonial continham diversos elementos em comum. Por exemplo, no que diz
respeito ao teto (todos eram produzidos com palhas, ao estilo indígeno-africano e não
com telhas, ao estilo citadino europeu – lembrando que em Açores e em outras partes de
Portugal, algumas das quais nos deram inúmeros imigrantes, a cultura geral, bem como
a arquitetônica também comungava casualmente com vários traços das culturas
indígeno-africanas108.
O engenheiro João Baptista Pianca, foi professor dos primeiros quadros de
Arquitetura da Universidade do Federal do Rio Grande do Sul. Em seu livro sobre
arquitetura brasileira, Pianca aponta algumas das influências africanas indiretas em
relação à portuguesa no Brasil. Por exemplo, por causa de um certo “amolecimento”
(ou “ternura”)109 que a arquitetura portuguesa nos trópicos adquiriu com os africanos
distanciando-se de alguma forma da “dureza” da arquitetura de herança Europeia.

107
MARK, P. “Colonial” In: MIDDLETON, John & MILLER J. C. (eds), 2008. p. 118.
108
Para ficar num exemplo de arquitetura, vide os palheiro de agricultores pobres daquele país, por
exemplo, em Açores: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Palheiro_acores.JPG
109
A este respeito, vale um parenteses, com a palavra o Santo Hilário: “Todo o mundo, antes de se deitar
lava os pés com água quente. Nas casas ricas, um negro, com sua toalha ao ombro, leva a água ao
estrangeiro em uma grande bacia de cobre; os pobres, porém, se contentam com uma gamela de
madeira. Muitas vezes, em casa de gente de cor, o próprio dono da casa vem, como nos tempos antigos,
lavar os pés do viajante que acolheu com a mais amável hospitalidade.” (SAINT-HILAIRE, Auguste de.,
Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (1816-1817). São Paulo; BH, EDUSP;
Itatiaia, 1975. p. 97)
70
Embora o autor não faça referência ou dê exemplos técnicos de como essa influência se
deu, podemos intuir sem medo que se na estrutura básica da peça arquitetônica o
escravo não devia influir, a estética geral que dissesse respeito ao acabamento da
construção não tinha como não ser influenciado pelas mãos africanas, uma vez que a
noção de “acabamento” do estilo colonial foi sendo estruturado de modo independente
dos modelos de acabamento da arquitetura de herança Europeia, já que aqueles deviam
por vezes vencer, pela lei do menor esforço.
Foi essa mesma percepção de aparente “descuido” da mão afro-brasileira que
trouxe melancolia a um Saint-Hilaire ao visitar Ouro Preto e reconhecer que aqueles
casebres cujos habitantes tinham pouco recurso ressendiam uma “melancolia da
paisagem” no falar do viajante. Ele diz que a “A cor parda dos tetos cujas abas
avançam bastante além das paredes pardacentas das casas, e as gelosias de um
vermelho carregado, contribuem para a maior melancolia da paisagem; e algumas
construções, caiadas a fresco, fazem ressaltar mais ainda as cores sombrias das casas
próximas110”. A bem da verdade, se o viajante europeu estranha o avanço das abas dos
tetos, recurso tropical tão afeito às tradições arquitetônicas africanas, é porque a certas
“chuvas” ainda não foram lavados seu etnocentrismo e hilariedade. Em resumo, não é
difícil observar as fachadas coloniais com torneios não tão regulares e até mesmo com
algumas interpolações ou varianças estéticas em relação às congêneres europeias.
Igualmente, o viajante e mineralogista inglês John Mawe (1764-1829), levando
o escrutínio purificador europeu à risca, também fala da irregularidade das construções
habitacionais que, segundo ele, “mal merecem o nome de casa” e ao “bom estilo
eugenista” compara os habitantes das palhoças a porcos. Foi ele mesmo que também
disse: “ao fim do dia, alcancei uma eminência, da qual avistei um grupo romântico de
casas, semelhantes a um labirinto ou a uma cidade negra da Africa.” 111 Não precisaria
irmos tão longe ao criarmos uma filosofia urbanista que salvasse o estilo “labiríntico”
das inúmeras construções irregulares e selvagens. Bastaria evocarmos a distinção de
sentido (enquanto uma espécie de “X implica em Y”) que leva ao urbanismo se
identificar com a régua e o esquadro ao encontrar modelos da perpetuação do domínio,
da organização como imposição social e do controle das vidas individuais como alma da
autoridade política; em oposição ao amplo e efusivo brotar de ervas do campo. Não sei
por meio de qual tolice fez dos citadinos quererem que sua “rua de mão única” fosse tão
modelar e exclusiva que se trata-se de uma imposição dominante e universal, seja na
ética, seja na estética. Mas foi a colônia de exploração mesma que possibilitou a
recriação daquele “brotar natural de casas”, os mineiros, assim como os piões de obras
de hoje, vivem próximos aos locais de trabalho, mas suas residências (como foi que o
gringo disse, mesmo? Não podem ser chamadas de “casas”...) são só abrigos para o
sono – casas dormitório, como dizemos hoje. Ora, toda a regularidade possível na
arquitetura se calca na estabilidade da vida, que não se confunda com acordar-trabalhar-
dormir-acordar...As residências, assim como todos os outros domínios da vida estão
cercados por estas determinações, portanto, a distinção entre os padrões de regularidade
e irregularidade é medida mais pelo balanço entre a suficiência e insuficiência ou ainda
pelos padrões de regularidade e irregularidade da vida que pelas manias de bom gosto e
desgosto estéticos.

110
SAINT-HILAIRE, A. de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo:
EDUSP, 1975. p.71.
111
MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil. São Paulo: EDUSP; BH: Ed. Itatiaia, 1978. p.151.
71
Indo mais além, e seguindo o mesmo caminho de João Pianca112, Günter
Weimer, (da UFRGS) que pesquisou a arquitetura popular brasileira apontou as casas de
taipa como congêneres das africanas no Brasil. O arquiteto diz que: As influências das
culturas africanas para a arquitetura popular no Brasil foram muito diversificadas
devido às diferentes origens dos grupos de escravos que chegaram ao país. Os grupos
que apresentavam uma arquitetura mais complexa deixaram raízes mais profundas. As
presenças arquitetônicas mais marcantes em função da quantidade de imigrantes são
as dos quimbundos e da cultura eve proveniente Golfo da Guiné. Grande parte destas
edificações eram construídas em pau a pique e vedadas com taipa de sopapo com
planta retangular e cobertura vegetal de duas águas.113 Além disso, em suas pesquisas
o arquiteto lança outros indícios de influência africana na arquitetura colonial brasileira
como por exemplo o telhado em “v” (ou de “duas águas”), comuns no noroeste de onde
é hoje a Angola e também na Costa de onde atualmente fica a Guiné-Bissau114. E isso
me parece certo, pois, seria ridículo se se tivesse de encontrar influências que viessem
apenas de um só local a cultura fosse um bloco monolítico e sua interpretação só
possível graças à esse contraste do preto no branco. As soluções tecnológicas
geralmente são dadas em conjunto, e quando se pensa em artes construtivas como a
arquitetura, em que se depende enormemente do trabalho em conjunto, o bloco
monolítico de influência se torna ainda mais impossível. O fato da existência de
varandas ou telhados em “v” em civilizações europeias não implica que estas não
pudessem ter um desenvolvimento independente na África e que esta influência não se
tenha de algum modo sobreposta ou interposta à outras possíveis e muito prováveis.
Isso não é uma corrida e nem tampouco um concurso do qual se derivará o melhor, o
mais importante ou o mais influente. Mas, ao pensarmos rigorosamente sobre os
casebres de implantação da colônia (ainda que restritos aos poucos relatos que temos),
encontramos referências arquitetônicas nas plagas portuguesas (no Brasil colônia
tardio), mas sobretudo as indígenas (em casos de casebres e cabanas de todos os
tempos, incluindo num Brasil interiorano e nordestino ainda resistente) em primeiro
lugar e, em seguida, as africanas (senzalas, quilombolas e residências de negros livres,
ou os casos hipotéticos todos, mas certamente existentes de construções executadas por
africanos e descendentes utilizando parte de seu imaginário e técnica desdobrados da
África.
Nos arredores de Santa Bárbara, Minas Gerais, ao se referir às casas de
mineração, Saint-Hilaire lança um de seus hilários comentários de estrangeiro “penetra”
da cultura brasileira:
“Nas casas dos pobres, assim como nas dos ricos, existe sempre uma peça
denominada sala, que dá para o exterior. É aí que se recebe os estranhos, e se fazem as
refeições, sentados em bancos de madeira em torno de uma mesa comprida. A gente
abastada tem o cuidado de reservar na frente de sua casa uma galeria ou varanda,
formada pelo teto que se prolonga além das paredes, e é sustentado por colunas de
madeira. Fica-se geralmente nessas galerias e, em todas as estações aí se respira um ar

112
PIANCA, João Baptista. Compilações de Arquitetura no Brasil. [s.l]: CEUA, vol. 1, 1956.
113
http://www.archdaily.com.br/br/01-60177/a-casa-invisivel-fragmentos-sobre-a-arquitetura-popular-no-
brasil-joao-diniz Ver também: WEIMER, G. Arquitetura Popular Brasileira. São Paulo: Martins Fontes,
2005.
114
Vautier informa também que essa era uma técnica muito utilizada em construções urbanas
principalmente em casas geminadas e sobrados. Ver: VAUTIER, L. L. Casas de residência no Brasil. In:
Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.
P. 41 ss.
72
fresco, igualmente ao abrigo da chuva e do ardor solar. O interior das casas, reservado
às mulheres, é um santuário em que o estranho nunca penetra, e pessoas que me
demonstravam a maior confiança jamais permitiram que meu criado entrasse na
cozinha para secar o papel necessário à conservação de minhas plantas; era obrigado
a acender o fogo fora, nas senzalas ou em algum alpendre. Os jardins, sempre situados
por trás das casas, são para as mulheres uma fraca compensação de seu cativeiro, e,
com as cozinhas, são escrupulosamente interditados aos estrangeiros.” (SAINT-
HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais
(1816-1817). São Paulo; Belo Horizonte, EDUSP; Itatiaia, 1975. p. 96)
Ao pensarmos nas suas congêneres africanas, a arquitetura colonial dos casebres
pobres do nordeste como bem alertado em momentos distintos de nossa etnografia
desde Gilberto Freire, Câmara Cascudo até Darcy Ribeiro resguardam, afinal, tanto nas
técnicas de construção, quanto na sua forma final, alguns elementos em comum. As
técnicas de construção arquitetônica da África Ocidental, como afirmado no artigo de
Labelle Prussin115 são muitas vezes “utilizadas de modo intercambiante como
sinônimos”: “Banco, toub, pisé”, respectivamente “banco = argila fresca e úmida”;
“toub = tijolos secos ao sol, modelados manualmente” (chamados “tubali” entre os
Haussa, e “tapia” nas Antilhas e em outras partes das Américas); e “pisé = terra batida”.
Ao analisar o padrão iorubano de algumas moradias do caribe, Marquese diz que
“Laborie propunha a construção das senzalas em linha, divididas em cubículos com 10
x 20 pés, cada qual reservado para três escravos; os cubículos, por sua vez, seriam
subdivididos ‘em dois quartos, um, A, onde se faz o fogo, outro, B, para dormir. Pode-
se acrescentar por detrás uma galeria, C, da largura de seis pés, para suas aves’” 116.

Senzala - Planta baixa e corte vertical
P.J. Laborie – 1798
Acervo: Guita e josé Mindlin
Reprodução de Hélio Nobre
(Marquese, 2005, p. 170 –
http://www.scielo.br/pdf/anaismp/v13n2/a06v13n2.pdf )

Acrescento que o estudo da arquitetura do “compound” (ou “vila unificada”)
iorubana traz destaques muito úteis para compreensão dos modelos e soluções
arquitetônicas usadas em algumas regiões do nordeste brasileiro. O uso de tijolos feitos
a base de lama e óleo de palma, telhado de folha de palmeira, residência de dois quartos,
sendo a cozinha e a sala integradas num mesmo ambiente, a existência de pátio central e
115
PRUSSIN, Labelle Contribution à l'étude du cadre historique de la technologie de la construction
dans l'ouest africain In: Journal de la Société des Africanistes. 1970, tome 40 fascicule 2. p. 175 -
disponível em http://www.persee.fr/
116
MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e
em Cuba, c. 1830-1860. In: Anais do Museu Paulista vol.13 no.2 São Paulo July/Dec. 2005. pp. 165-188.
73
varanda ao redor do pátio etc117 são formações arquitetônicas que podem ser de alguma
forma vinculadas no contexto Africa-Brasil. Serpa Pinto não deixou de observar com
alguma perplexidade que uma das mais importantes tradições com implicações desde a
arquitetura até no desenvolvimento de bebidas alcoólicas era a tecnologia da
conversação. Ele diz: Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas
as povoações uma especie de kiosques para conversação118.
Fica patente que, com alguma frequência durante o período colonial, os
europeus fizeram uso da tecnologia tradicional dos índios e de africanos. No caso
português, a falta de recursos também pode ser um importante motivo para necessidade
de utilização de modelos tecnológicos alheios, mas que resolvam problemas mais
prementes e imediatos. Isto não se restringe a apenas à esta esfera do conhecimento
enquanto tal (por exemplo, conhecimento de identificação de jazida e extração de
minérios), mas quando pensamos na arquitetura da África e das Américas coloniais, por
amostra, ainda que alguns edifícios tenham sido planejados e desenvolvidos a partir de
modelos europeus, certos aspectos como a forma, o estilo ou ainda a escala, são
reavaliados no momento da construção de edifícios nas regiões subtropical e tropical.
Excetuando nos casos em que houvera a necessidade e a possibilidade de importação de
materiais de construção, a disponibilidade local de materiais para se construir,
pavimentar ou reformar, determinou-se enormemente a técnica de construção e o grau
de investimento (material e humano) para a realização do projeto construtivo colonial e
pós-colonial. O material de construção exportado é caríssimo, só as grandes empresas e
governos podem dispor de capital para desenvolver esse tipo de ação, sem precisar
“imitar” ao aproveitamento da tecnologia local. Enfim, conjecturas semelhantes seriam
capazes talvez de nos ajudar a lançar nossas certezas para o mundo da dúvida e fazer
recuperar aquilo que possa de alguma maneira ser recuperado, seja lá o que for.
Desse modo, ainda que seja dentro de um discurso mais genérico no que diga
respeito aos africanismos no Brasil, Arthur Ramos também nos presenteia com algumas
certezas e também com algumas dúvidas nesta citação que nos ajuda a perceber a gama
da extensão da cultura material africana e que termina com colocações sobre a
arquitetura de um Brasil africanizado:
“A cultura material trazida ao Brasil pelos bantus, e especialmente angola-
congueses, ainda sobrevive. Já nos referimos à fabricação dos instrumentos de música,
esculturas de madeira, trabalhos de ferro, cerâmica, fabricação de cestas e outros
utensílios domésticos... Tudo isso foi introduzido pelos Negros angola-congueses. As
esculturas de madeira ainda sobreviventes na feitura de iteques de culto [que os
“quimbandas trazem dependurados no pescoço e nada fazem sem eles”]119 figas e outros
objetos são inferiores às dos yorubas e gêges. Os trabalhos de ferro foram
principalmente introduzidos pelos Negros moçambiques, especialmente os ladins,
hábeis ferreiros.
Pouco poderíamos acrescentar, com relação à arquitetura. Transportada para o
Brasil, o regime da escravidão não permitiu a construção das suas casas, que foram
padronizadas nas senzalas das fazendas. Mas nas poucas oportunidades que os Negros

117
Algumas indicações: https://sites.google.com/site/afropedia/yoruba-architecture
118
PINTO, S. Como Eu Atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico, Viagem de Benguella á Contra-
Costa... admiráva (Cap. V – Vinte dias de Agonia) Londres:SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e
RIVINGTON (Edit.s). Crown Buldings, 188 FLEET STREET.
1881. Disponível aqui: http://www.gutenberg.org/files/20508/20508-h/20508-h.htm
119
Idem, ibidem,p.338. Para uma definição de Iteque ver: LODY, R. Dicionário de Artes Sacra &
Técnicas Afro-Brasileiras. Rio de Janeiro: Palas Athena, 2003 p. 184-5.
74
tiveram de liberdade, eles constituíram os seus mocambos, em tudo semelhantes às
construções nas terras de origem. A república dos Palmares teria sido um
documentário precioso neste particular. Infelizmente, só o aspecto militar interessou
aos nossos dirigentes naquela ocasião. E por isso, apenas informações e dados falhos
puderam ser tomados para estudo da cultura material dos negros em regime de
liberdade. Da arquitetura dos quilombos sobreviveram os mocambos, primitiva
habitação dos Negros e hoje termo genérico que passou a designar as habitações
pobres do nordeste. E por este motivo o estudo que Gilberto Freyre [Sobrados e
mocambos, São paulo, 1936] realizou sobre os mocambos, em contraste com os
sobrados, como antes fizera das senzalas, em contraste com a Casa Grande, foi feito
apenas do ponto de vista sociológico, do negro em regime de escravidão, com o exame
das relações e distâncias sociais entre o senhor e o escravo. Não é um estudo das
formas materiais de cultura trazidas pelo negro africano. Não é um estudo
antropológico-cultural mocambo, neste sentido sociológico reflete um sistema da
opressão de classe na cidade, como, anteriormente a senzala era o resultado do
patriarcalismo rural. Até que ponto, porém, o mocambo, como sinônimo de palhoça,
exprime uma sobrevivência de cultura material do Negro Banto? Isso é o que resta
averiguar, com o paralelo a fazer-se de um lado entre as habitações do Negro na área
do Congo, e os mocambos, das repúblicas negras, por exemplo, Palmares, do outro,
entre estes e os atuais mocambos do nordeste. E parece haver de fato, esta correlação,
entre as casas retangulares120 e os mocambos de barro batido e palhas, do nordeste.121”
Urgem os levantamentos dos detalhes de uma certa arquitetura vernacular seja
ela representada por meros casebres populares, assentamentos quilombolas ou ainda de
remanescentes de senzalas (do tipo avaliado por Slenes, 1999, p. 149-180),
especialmente aquelas cuja “liberdade” aquitetônica fosse minimamente identificada,
por exemplo, como as que Slenes caracteriza como moradia de escravos casados
(p.159); ou ainda as “cabanas” do centro-sul cafeeiro e suas recriações de técnicas
arquitetônicas congo-angolanas, seja o formato retangular, a presença de vigas e
forquilhas de sustentação do teto e dimensão restrita dos cômodos (típicas também do
sudoeste nigeriano), ausências de janelas e sobretudo a bem avaliada por Slenes,
filosofia do “habitar exterior” ou “habitar do entorno” (em oposição ao “habitar
interior”) da cabana, que foi estendido para casebres de várias regiões do interior e
nordeste brasileiro e que recria, à sua maneira, a varanda como a sintese dialética entre
o trabalhador e seu habitat-dormitório. Essa filosofia do “habitar do entorno” de Slenes
me parece bastante profícua a considerar a varanda como o palco das diversas
sociabilidades que constituem a humanidade do trabalhador, momento em que ele ao
mesmo tempo comunga com seus pares de outras residências-resistências e perpetua a
série de magias e tecnologias.

120
Raul Lody fala também numa “habitação cônica com planta circular utilizada preferencialmente nos
pejis de Omolu e sua família mítica nanã e Oxumaré” de nome Adodo. (Bahia, Rio de Janeiro e Ceará)
ver: LODY, 2003 p. 121.
121
RAMOS, ARTHUR As Culturas Negras no Novo Mundo – o negro brasileiro III. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1946 p. 346-48.
75
Casa e mulher ceramista – África Central – 1929-1937
Coleção: Troppenmuseum
Elementos em destaque: ausência de janelas, teto composto com fibra vegetal, abas do teto (ou parapeitos)
muito maiores que a moradia, técnicas construtivas de armação.
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:COLLECTIE_TROPENMUSEUM_Vrouw_maakt_potten_te_Centraal-Afrika_TMnr_60033963.jpg

Casa de um médico curandeiro – Daomé, 1891
CHAUCOIN, E. “Trois Mois de Captivité au Dahomey” Paris: Hachette, 1891.p.237
Elementos em destaque: ausência de janelas, teto composto com fibra vegetal, presença de varanda (vide
filosofia do “habitar de entorno” proposta por SLENES, 1999, p.149-180).
https://ia600406.us.archive.org/11/items/troismoisdecapt00chaugoog/troismoisdecapt00chaugoog.pdf

Casa de Sertanejo do Piauí
BARRETO. Paulo Thedim. O Piauí e a sua arquitetura. In: Arquitetura Civil I. Textos
Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.
Elementos em destaque: teto composto com fibra vegetal, abas do teto (ou parapeitos)
muito maiores que a moradia, varanda mais importante que a pequena janela.

76
Dado a força exploratória da colonização portuguesa, a arquitetura no início do
Brasil não se estabeleceu como “residência” permanente onde o cuidado e a
ornamentação prevalecessem. Não se estabeleceu igualmente como aldeamentos
contínuos ou como assentamentos propriamente ditos, muito menos como arte. Do
ponto de vista estritamente tecnológico, foram as arquiteturas de taipa-de-pilão,
juntamente com a pau-a-pique122 as principais técnicas utilizadas no país no início da
colonização. A própria técnica do pau-a-pique teve desenvolvimento com a expansão
banta na África, como aponta o artigo de D.W. Phillipson “Início da Idade do Ferro na
África Meridional” pg.689: “É no quadro do complexo industrial da Idade do Ferro
Antiga que um grande número de traços culturais de primordial importância faz sua
primeira aparição na África meridional [e além] São eles, essencialmente, a
agricultura, a metalurgia, a cerâmica e as aldeias semipermanentes constituídas por
casas feitas de barro (daga) aplicado a arcabouços de varas ou estacas (pau-a-pique).
Essas quatro características – condicionadas pela adequação do terreno e pela
distribuição das jazidas de minérios – estão presentes em todos os sítios da região
pertencentes ao início da Idade do Ferro123.
Foi só posteriormente que se incluiu técnicas de alvenaria ou a técnica de
construção por meio do uso de tijolos de Adobe. Com relação à esta última técnica é
fato que no norte da África, mesmo em regiões que exportaram escravos para as
Américas, como Mali, Costa do Marfim, Nigéria etc, a técnica era utilizada por séculos
antes do primeiro contato com o Europeu – vide as belíssimas construções, por exemplo
a grande mesquita de Djenné no Mali, construída por volta no ano de 1200 pelo 26º. Rei
Koy Konboro. A mesquita é o maior edifício construído com esta técnica no mundo
inteiro. Esta é uma técnica bastante antiga e embora não tenha sido incomum no sul do
mediterrâneo, a origem do termo Adobe é árabe e se for possível fazer algum tipo de
“ponte” tecnológica entre África e Brasil, esta deverá ser mais bem sucedida se buscada
a partir da presença de povos islamizados no país, como os mande124, gurunsi,
mandinga, wolof, fula, entre outras etnias do Senegal, Mali, Camarões, Guiné, Costa do
Marfim e do norte e nordeste da Nigéria.
De qualquer forma, acredito que afirmar a existência de uma suposta influência
africana na produção de tijolos de Adobe no Brasil, como ocorre com boa parte a das
influências na arquitetura como um todo, se limita a um campo estritamente conjectural
e, embora a pesquisa esteja “em aberto”, pessoalmente não encontrei dados na
bibliografia consultada que pudesse comprovar isso. O presente texto é por natureza,
bastante superficial, assim, que se faça futuros estudos comparativos das técnicas mistas
utilizadas, bem como de contraposição entre a arte tradicional portuguesa e também a
arte colonial portuguesa que possam indicar mais caminhos indiretos pelos quais os
africanos e seus descendentes deixaram as “marcas” de suas mãos, onde tocaram.

122
Vauthier indica que muitas senzalas eram feitas por esta técnica (VAUTHIER, 1975).
123
http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/Inicio-da-Idade-do-Ferro-na-Africa-
meridional.pdf
124
Que têm sua própria mesquita datada do séc. XIII, no norte de Gana:
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ghana_mosque.jpg
77
Construção de uma cabana de bambu – Serra Leoa, 1856
The Illustrated London News, 25 de Outubro de 1856.

As palhoças antigas, por exemplo, embora parte do seu recorte refletia os
mesmos tipos de características das casinhas de abrigo portuguesas, tinham estrutura
geral, por vezes, que compunham elementos comuns na arquitetura de algumas cubatas
angolanas ou casebres congoleses e centro africanos, por exemplo, ausência de janelas,
teto de palha, e algumas com estruturas feitas de bambu (ou colmo), em vez dos tijolos
de alvernaria, mais recentes. Mas outros elementos ainda podem ser identificados como
a comum ausência de banheiro ou mesmo uma latrina interna como pode ser verificada
atualmente nas palhoças contemporâneas nos interiores do país, especialmente no
nordeste. Pesquisadores identificam que nas palhoças o alpendre ou a varanda de tipo
frontal que nada mais é que um dos espaços indispensáveis de sociabilidade é
interceptada como forma de abrigo contra a entrada indesejada de animais. (BARRETO,
1975, P. 213)

Estrutura de fundação da palhoça
BARDOU, Patrick & ARZOUMANIAN, Varoujan. Arquitecturas de Adode. Barcelona: Gustavo Gili,
1983. Forma e técnica: armação (bambu ou madeira); viga ou forquilha central de sustentação do teto
(ver Slenes, 1999, p.149-180), preenchimento de Adobe, teto com caimento em V (duas águas) composto
por fibras vegetais, ausência de janelas, avarandados que influem na filosofia do “habitar de entorno”
(Slenes, 1999, p.149-189)

78
Mais uma observação deve-se fazer a respeito da presença das varandas e
cumeeiras na arquitetura brasileira. A influência dos avarandados, segundo Weimer125,
deve ser atribuída não ao extremo oriente, como se convencionou no passado, mas sim
do norte do Moçambique e à Costa central de angola, ao mesmo tempo é de se levar em
conta a ausência nos relatos de viajantes coloniais da existência de moradas de plantas
circulares tão típicos de várias regiões africanas, não só da Costa Ocidental 126. E
acrescenta, como já dito, a Cumeeira (duas águas) são típicas do nordeste de Angola.
Mas, na verdade, acredito que os bakongo em geral sejam os realizadores deste tipo de
arquitetura. A origem da Cumeeira poderia, então, ser reavaliada, já que se pode
encontrar a mesma forma e técnica arquitetônica na construção de casas de outros
grupos banto fora do nordeste de Angola, por exemplo na atual República Democrática
do Congo, Uganda e República Centro Africana, etc.
Sabemos que, em quase todas as áreas, não podemos fazer análise das
influências diretas dos africanos nas Américas. No entanto, a considerar as influências
indiretas, por mais que às vezes as conjecturas não ajudem a satisfazer alguma ânsia na
busca desenfreada por “africanismos”, temos de ter em mente que, do ponto de vista,
estrito da arquitetura, a construção em si mesma possui alguns indícios que vem sendo
levantados, mas temos ainda de incluir noções indiretas como a organização das casas
de candomblé e a localização dos cômodos nela, bem como os modos específicos de
formação e disposição interna das edificações coloniais e assim por diante.
Gilberto Freire, em Sobrados e Mocambos, por exemplo, dá boas dicas disso ao
falar do sistema do patriarcado brasileiro e a disposição dos Sobrados e Mocambos. As
relações familiares, as construções de áreas internas, as casas populares sem janela, as
chossas construídas em Adobe, o sentido comunitário dos bairros (ou quilombos), a
insistência nas construções de vilas comunitárias onde os bens são comuns e a vida é
mais simples e ao mesmo tempo sem a necessidade de governo externo, demonstram
essa influência latente. (Pode-se citar os exemplos históricos não só dos milhares de
Quilombos, sendo que resistem ainda hoje mais de 1400 remanescentes, ou a Revolta
dos Malês, Revolta dos alfaiates, mas também pode se citar Canudos, o “Caldeirão” da
Serra de Santa Cruz – do Padre Cícero e do beato negro José Lourenço; e mesmo a
resistência não-negra como a comunidade Mucker no Sul e a Colônia Cecília, são todos
estes os exemplos mais célebres de resistência comunal dentro da história do Brasil,
embora o caráter religioso se imponha mais que o étnico ou o político, muitas vezes). O
sul dos Estados Unidos foi amplamente africanizado no período colonial daquele país.
A influência africana se fez mais presente em aspectos em que os colonos brancos
tinham menor sobredeterminação ou domínio, como a culinária (não só nas comidas
típicas, mas também nos molhos, como por exemplo o Barbecue127), o jargão falado

125
WEIMER, Günter. O Significado da Arquitetura Popular. Palestra de abertura do IX EHTA, 2005,
URCAMP, Bagé, RS. Apud: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.145/4372
126
Dentre estes os já citados vilarejos Makoulek dos Camarões, as casas Malinque, Haussa, Fula,
Gurunsi, Senufo, Mossi... e, em outras regiões africanas como os também já referidos Ba-ila da Zâmbia,
os Magbetu da República Democrática do Congo, etc.
127
BIAL, Raymond. The Strength of These Arms: Life in the slave quarters. Boston: Houghton Mifflin
Company, 1997. pp. 19-20.
79
pelos escravos128, algumas danças,festejos e serões musicais coletivos, etc. Parte
da arquitetura vernacular (pós-tradicional) do sul dos EUA, especialmente a de estilo
shotgun, tem sido apontada como um dos modelos com alguma influência africana
possíveis – casas típicas de regiões com forte contingente negro como a Florida,
Louisiana, Missisipi, Texas, Georgia e Alabama desde o fim do séc. XIX e início do
séc. XX. New Orleans, que tem sido apontada como a porta de entrada do estilo shotgun
no sul daquele país, tinha 2/3 de sua população constituída de africanos, escravos e
livres (meio a meio) contra 1/3 de brancos.
“A casa tipo shotgun129 acredita-se, é uma arquitetura híbrida que se
desenvolveu nas Índias Ocidentais e entrou nos Estados Unidos através de New
Orleans no início do século XIX130. Através de pesquisa eu descobri que o povo iorubá
da África Ocidental têm uma palavra “shogon”, que significa “Casa de Deus”. É
possível que os escravos africanos ocidentais tenham trazido este termo, (que poderia
ter se transformado mais tarde em “shotgun”), o seu senso de união comunitária e
estilo intimista de habitação feitos para plantações nas Índias Ocidentais e
eventualmente para a América131.

Casa em estilo Shotgun-Shack (Estados Unidos da América)
215 Fifth Street Southwest, Fort-Meade (Fla) - 1994
Arquivo do Estado da Flórida
http://floridamemory.com/items/show/3116

128
Dezenas de palavras na língua inglesa dos Estados Unidos tem origem africana. Palavras como “Ok”
(“Tudo bem”, “tudo certo”) proveria da língua Wolof do Senegal “Waw Kay”; “Banjo” (instrumento
musical) proveria de “Mbanza” da língua quimbundo; entre outras como “Bozo” (“estúpido”);
hullabaloo, hully-gully, juke (box), moola (dinheiro), pamper, Polly Wolly-Doodle,….., uh-huh, unh-
unh, daddy, buddy,….., kola (como em Coca-Cola) ver:
http://www.tip.sas.upenn.edu/curriculum/units/2008/02/08.02.04.pdf pg.15. Um outro artigo indica ainda o termo
Boogie, ou boogie woogie, que se refere a um estilo musical semelhante a um blues instrumental para
piano – que pode significar do hausa ou mandinga “buga” (“batida”) ou ainda um termo banto “mbuki
mvuki” “tirar para dançar”.
http://sundaytrust.com.ng/index.php/politics-of-grammar/13807-the-african-origin-of-common-english-words-ii) Ver também:
HOLLOWAY, 2005, p. 59.
129
Literalmente, “shotgun” significa “espingarda” ou “rifle de caça”, mas sua designação me é
desconhecida. A hipótese do termo derivar de uma palavra africana é tentadora, mas não tem base.
Tampouco me parece fazer muito sentido a explicação deste nome dada pela história oral sulista, segundo
a qual: “bullet fired through the front door would go right out the backdoor without hitting a wall” –
“Uma bala disparada pela porta dianteira iria direito pra porta dos fundos, sem atingir nenhuma parede”.
http://www.gnocdc.org/tertiary/shotgun.html
130
Em nota, o autor indica o livro de John Michael Vlach. “Afro-Americans”: America’s architectural
roots, ethnic groups that built America. Washington, D.C.: The Preservation Press: National Trust for
Historic Preservation, 1986. p43.
131
http://preservation.myfloridahistory.org/american-vernacular-architecture-the-shotgun-style-in-florida/
80
Algumas pesquisas indicam que o estilo arquitetônico shotgun veio de New
Orleans apartir do Haiti. No Haiti, africanos escravizados tomaram a forma
arquitetônica comum à sua terra natal e usaram materiais de construção locais para
construir edifícios estreitos com entradas com espigão, paredes com estuques, tetos de
palha e janelas cerradas, assim eles podiam da única privacidade permitida a eles. Eles
também escreviam motivos africanos na estrutura exterior de suas casas132.
Outros tipos de construções arquitetônicas também podem ser objetos de
pesquisa bastante inclusivos neste verdadeiro quebra-cabeça apelidado somente para
fins práticos de “arquitetura afro-brasileira”. Para que essa pesquisa tenha alguns frutos
teríamos de retomar os estudos da arquitetura colonial brasileira e portuguesa, fazer uma
investigação em torno das construções populares do nordeste, considerar as fontes das
construções das taipas, das palafitas, dos mocambos, das palhotas, da choupana e
tejupar, cubata, do quimbo – estudo das técnicas não só de construção, mas também das
técnicas de arejamento e climatização de ambiente por meio da ventilação de teto, em
vez de uso de janelas, por exemplo; estudo da geometria das plantas, volumetria e
dimensões dos edifícios133, organização de cômodos ou posição relativa das construções
vizinhas, controle e conservação de umidade pelo barreamento, etc. Mas não se deve
estudar só as técnicas construtivas, até onde for possível, é necessário estudar também
as formas estéticas (ainda que a imposição de parâmetros como os da “regularidade”
contra a “irregularidade” possam por vezes confundir nossas mentes tão poluídas pela
uniformização industrial134).
Em 1891, Paul Reichard, ao falar de povos bantos, resumiu tudo assim: O negro
é capaz de grande resistência no trabalho quando ele se concentra nele (makes up his
mind to it). O trabalho no campo, derrubada de árvores, e a pilagem da refeição das
mulheres (women’s stamping of meal) são realizada em pé; outros tipos de trabalho
são realizados agachados ou em postura sentada. Ao fazer seus implementos o negro
tem um olhar adequado (correct eye) para itens que ele tenha aprendido a construir.
Suas lanças, pontas de flechas, bancos, e mortares são moldados muito exatamente.
Mas ele tem pouco senso para as linhas retas135.

132
http://www.gnocdc.org/tertiary/shotgun.html
133
Phillipson, por exemplo, nos informa que trabalhos arqueológicos na cidade de Kumadzulo, no vale do
Zambeze “forneceu o plano de onze casas de pau-a-pique semi-retangulares sutentadas por grossos
esteios colocados nos cantos; a extensão máxima das paredes era de apenas 2-3 metros. Não se
encontraram testemunhos comparáveis em outros sítios da Idade do Ferro Antiga, na África meridional;
no entanto, vestígios fragmentários provenientes de sítios, como Dambwa e Chitope sugerem que o
método geral de construção ilustrado em Kumadzulo era freqüentemente empregado, embora a forma
semi-retangular e suas casas não encontre equivalentes em outros locais.” PHILLIPSON, Início da
Idade do Ferro na Africa Meridional In: A África Antiga p.705 http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-
content/uploads/2011/08/Inicio-da-Idade-do-Ferro-na-Africa-meridional.pdf )
134
Ainda que de modo latente, a estética pós-iluminista, assim como a Ética religiosa, se fundou em
conceitos de purificação paralelos aos antigos modelos do Barroco, que ela quis tanto superar. Antigas
tendências em considerar “sujos” os materiais e atividades que remetessem ao mundo natural fez da
religiosidade europeia de contaminação medieval considerar a oposição entre o mundo material e natural
como feio, sujo e mau e, em contraposição a este, haveria de existir um mundo espiritual, divino, belo,
limpo e bom (das fórmulas aristocráticas clássicas). Sua conduta de vida (assim como a maior parte de
suas manifestações estéticas) tinha de refletir esse ideal. O pecado moraria na natureza, assim como em
tudo que refleteria esse “mundanismo” (danças, música, arquitetura e religião etc. – a destacar que os
“africanismos” contido nessas áreas só podiam evocar uma única figura tipicamente medieval: o diabo!).
135
REICHARD, Paul. Deportment of Savage Negroes. In: Popular Science Monthly. Vol. 39. July, 1891.
p. 335. [trad. Das Ausland] Disponível em:
http://en.wikisource.org/wiki/Popular_Science_Monthly/Volume_39/July_1891/Deportment_of_Savage_Negroes

81
Casa de Escravos, Brasil – Rugendas, 1835
Viagem Pitoresca Através do Brasil (EDUSP; Ed. Itatiaia, 1989)

E talvez possam algum dia incluir em suas pesquisas alguns estudos dos tipos de
materiais de construção como o uso da tacula, a árvore de madeira vermelha usada na
construção e tinturaria; o uso da pozolana que é uma espécie de cimento produzido a
partir da terra também utilizado na construção também de diversas origens, não só
africanas. Mas o estudo dos frontões, espigões e cumeeiras, além dos estudos já em
andamento sobre a arquitetura dos quilombos e remanescentes comporiam um quadro
significativo de contribuições para a análise da arquitetura de influências africanas nas
Américas. Mas não consintam ou aguardem que eu, um mero diletante, faça um estudo
neste nível de especialidade.

Quem tiver interesse no campo das técnicas de construção e arquitetura
poderão ler: Graham CONNAH, African Civilisations (Cambridge: Cambridge
University Press, 2001). Webber NDORO, The Great Zimbabwe, Scientific American,
277 (Nov., 1997): 94-99. Peter GARLAKE, Early Art and Architecture of Africa
(Clarendon: Oxford University Press, 2002). Bassey ANDAH, Nigeria's Indigenous
Technology (Ibadan, Nigeria: Ibadan University Press, 1992). P.J DARLING,
Archaeology and History in Southern Nigeria: The Ancient Linear Earthworks of Benin
and Ishan (Cambridge Monographs, 1990). Africa Update. Vol. XV. Issue 2 (Spring
2008) -- African Engineering: Terraces and Earthworks
(http://www.ccsu.edu/afstudy/archive.html) ANDERSEN, Kaj Blegvad. African
Traditional Architecture. Nairobi: Oxford University Press, 1978. DENYER, Susan.
African Traditional Architecture. New York: Africana Publishing Company, 1978.
FRESCURA, Franco. Rural Shelter in Southern Africa. Johannesburg: Ravan Press,
1981. OLIVER, Paul, ed. Shelter in Africa. New York: Praeger, 1971. PRUSSIN,
Labelle. African Nomadic Architecture: Space, Place, and Gender. Washington, DC:
Smithsonian Institution Press, 1995. ANDERSEN, Kaj Blegvad. African Traditional
Architecture. Nairobi: Oxford University Press, 1978. DENYER, Susan. African
Traditional Architecture. New York: Africana Publishing Company, 1978. OLIVER,
Paul, ed. Shelter in Africa. New York: Praeger, 1971. PRUSSIN, Labelle. African
Nomadic Architecture: Space, Place, and Gender. Washington, DC: Smithsonian

82
Institution Press, 1995. DEBIEN, G. Les esclaves aux Antilles Françaises (XVIIe au
XVIIIe siècles). Basse Terre: Société d'Histoire de la Guadeloupe, 1974 p. 222-225;
HIGMAN, B. W. Slave Populations of the British Caribbean, 1807-1834. Barbados:
The Press University of West Indies, 1995. p. 255-257 CRATON, M. Searching for
the invisible man. Slaves and plantation life in Jamaica. Cambridge-Mass: Harvard
University Press, 1978. MORGAN, P. Slave Counterpoint. Black Culture in the
Eighteenth-Century Chesapeake & Lowcountry. Chapel Hill: University of North
Carolina Press, 1998. p. 104-124. GENOVESE, E. Roll, Jordan, Roll. The World the
Slaves Made. New York: Vintage, 1974. p. 524-535. GENOVESE, E. Back of the Big
House: the architecture of plantation slavery. Chapel Hill: The University of North
Carolina Press, 1993. RIVA, J. P. de la. El barracón: esclavitud y capitalismo en Cuba.
Barcelona: Editoral Crítica, 1983. FRAGINALS, M. M. O engenho: complexo sócio-
econômico açucareiro cubano. São Paulo: Hucitec-Unesp, 1987, 2v. p. 87-97;
THOMPSON, Robert Farris. Flash of the Spirit: African and Afro-American Art and
Philosophy. Random House: New York. 1983; ARRIGO, Joseph. Louisiana's
Plantation Homes: The Grace and Grandeur. Stillwater, Mn.: Voyageur Press, 1991.
DBAE Curriculum Resources. The Shotgun Houses of John Biggers: African American
Vernacular Architecture; JONES, Steven L. Afro-American Architecture and the Spirit
of Thomas Day. Berkeley, Calif: University of California, Library Photographic
Service, 1985; PETTAWAY, Addie E. Africatown, USA: Some Aspects of Folklife and
Material Culture of an Historic Landscape. Madison, Wisconsin: Wisconsin Dept. of
Public Instruction, 1985. STAVISKY, Leonard Price. Negro Craftsmanship in Early
America. American Historical Review. Vol. 54 (2). Pages 351-375; Louisiana's Oldest
City: Historic and Private Homes of Natchitoches, Melrose Plantation. Classic
American Homes Incorporating Colonial Homes. Vol. 26 (1), p.66-68. HARWOOD,
Buie. The Aubin Roque House Natchitoches, Louisiana. North Louisiana Historic
Association 4:4 (1973) 131-133; GRITZNER, Janet Bigbee Hazen. Tabby in the
Coastal Southeast: the Culture History of an American Building Material. Ann Arbor,
Mich.: University Microfilms International, 1981.

Para questões brasileiras neste campo vejam sobretudo os seguintes textos:
WEIMER, Günter. A Arquitetura africana e sua influencia no Brasil. São Paulo:
Martins Fontes, 2005. WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Sonhos africanos,
vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1880). São Paulo, SP:
HUCITEC, 1998; FREYRE, Gilberto. Interpretação do Brasil: aspectos da formação
social brasileira como processo de amalgamento de raças e culturas. Rio de Janeiro, RJ:
José Olympio, 1947. 323 p. (Documentos brasileios; 56); LEMOS, Carlos Alberto
Cerqueira. Arquitetura brasileira. São Paulo, SP: Melhoramentos, c1979. 158 p. (Arte e
cultura); PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica doBrasil. São Paulo, SP:
Brasiliense, 1945. VAUTIER, L. L. Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura
Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN,
1975. BARRETO. Paulo Thedim. O Piauí e a sua arquitetura. In: Arquitetura Civil I.
Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.
P. 213. SMITH, Robert C. A arquitetura civil do período colonial. In: Arquitetura Civil
I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.
LIRA, J. T. C. De & SAMPAIO, M.R.A. de., Mocambo e Cidade: regionalismo na
arquitetura e ordenação do espaço habitado. São Paulo: FAU-USP, 1996.
SILVA, G. G. da. Engenho e arquitetura. Morfologia dos edifícios dos antigos engenhos
de açúcar pernambucanos 1990. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e
83
Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1990, 2v. FARIA, S. S. de C. Fontes
textuais e vida material: observações preliminares sobre casas de moradias nos campos
dos Goitacazes, sécs.XVIII e XIX. Anais do Museu Paulista. História e cultura material,
São Paulo, Nova Série, n. 1, p.107-129, 1993. AZEVEDO, E. B. de. Açúcar amargo. A
construção de engenhos na Bahia oitocentista. 1994. 272f. Tese (Doutorado) –
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
CARRILHO, M. J. As fazendas de café no Caminho Novo da Piedade. 1994. 166f.
Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 1994. MELLO, E. C. de. Um enigma iconográfico. In: MELLO, E. C.
de. Um imenso Portugal. História e historiografia. São Paulo: Editora 34, 2002. SILVA,
A. da C. e. A casa do escravo e do ex-escravo. In: SILVA, A. da C. e. Um rio chamado
Atlântico. A África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira /
Ed.UFRJ, 2003. MARQUESE, R.B.. Revisitando casas-grandes e senzalas: a
arquitetura das plantations escravistas americanas no século XIX. Anais do Museu
Paulista. São Paulo.N. Sér. v.14. n.1.p. 11-57. jan.- jun. 2006.__________. Moradia
escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba no século XIX.
Anais do Museu Paulista: história e cultura material, São Paulo, Museu Paulista,Nova
Série v. 13, n. 2, jul.-dez. 2005. FERREIRA, Lúcio Menezes. Arqueologia da
Escravidão e Arqueologia Pública: Algumas Interfaces. VESTÍGIOS - Revista Latino-
Americana de Arqueologia Histórica, Volume 3, Nº 1, Janeiro - Junho de 2009.

Vejam também esses links de arquitetura:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/MMMD-8T7TBZ
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_World_Heritage_Sites_in_Africa;
http://apollo5.bournemouth.ac.uk/africanlegacy/index.htm
http://covenantuniversity.edu.ng/content/download/18792/121416/file/The+Orowa+Ho
use+WABER+2013+conference+220713.pdf
http://issuu.com/instituto-socioambiental/docs/pdf-publicacao-final_inventario/19

1.4. Comunicação à distância - Outra joias da tecnologia africana é o
“tambor falante” (“talking drum”). Desenvolvido e difundido por amplas áreas da
África Ocidental, também pode ser encontrado, por exemplo, em regiões da África
Central, notadamente entre alguns povos banto da atual República Democrática do
Congo. De acordo com meu amigo congolês-brasileiro Makaya Bedel – nossos irmãos
Bakongo chamam este tambor de “Mongo” ou “Mundo”. Um tipo de tambor de
comunicação em que se pode transmitir mensagens a grandes distâncias. A ordem da
comunicação desenvolvida por meio de células rítmicas pré-determinadas (como no
código Morse) dispõe inicialmente o nome do destinatário, em seguida o nome do
remetente e por fim a mensagem. Tal como me relatou Makaya, utiliza-se o tambor
falante para comunicação entre distâncias, por exemplo, quando se quer manter um
contato ou fazer um aviso específico a partir de um região em que estão assentadas as
moradias e uma área de lavoura e vice-versa.
Roger T. Clarke136, na verdade, distingue dois tipos principais de tambores
falantes sem membranas (ou peles) ou “tambor de sinalização” e os “tambores falantes”

136
CLARKE, R.T. The drum language of the Tumba people. AJS, vol. 40, 1934, p. 34. (Apud.
HAMBLY, 1937. p.321). Disponível em:
http://www.jstor.org/discover/10.2307/2768451?uid=3737664&uid=4582502017&uid=2129&uid=2&uid
=70&uid=3&uid=60&sid=21103123716847 .
84
propriamente ditos, que seriam tambores “masculino e feminino” com membranas (ou
peles), segundo este autor: “o tambor cilindrico, escavado a partir de um único tronco
com uma ou mais fendas retangulares no topo é usada por negros Bantos ou Sudaneses.
Este tambor não tem membrana e é melhor descrito como um tambor de sinalização.
Clarke diz ainda que os tambores falantes são menos frequentes e seus melhores
exemplos podem ser encontrados entre os ashanti de Gana137. Afeitos a integridade
entre a magia e a tecnologia, os ashanti, semelhantemente aos nossos pai-de-santo mais
aplicados, observam preliminarmente um complexo ritual com relação à obtenção da
madeira e da pele com que se produzirá os tambores. É a força invisível da árvore, a
força invisível do elefante de cuja orelha se fará a membrana que são evocados. A
linguagem veiculada por esses tambores, segundo o brilhante antropólogo Wilfrid D.
Hambly é da família Sudanesa, em que diferentes tons alteram o significado do
dicionário de palavras que são de outra maneira semelhantes. Os registros fonográficos
tomadas por R. S. Rattray138 indicam que os sons transmitidos são divididos em grupos
de tons com pausas claramente definidas em intervalos de comprimento variável139.
Um dos mais impressionantes episódios envolvendo os tambores falantes
ocorreu em dezembro de 1891, durante a expedição de William Stairs em Katanga (na
atual República Democrática do Congo), um território sabidamente rico em recursos
minerais. Stairs foi enviado à Katanga (Garanganze) pelo sanguinário Rei Léopoldo II
da Bélgica com a recomendação de Henry Morton Stanley (1841-1904) com quem
Stairs já havia dividido outra “aventura de morticínio” (como 2o. em comando)
conhecida como “Expedição de Socorro à Emin Pacha”. O objetivo da missão de
Katanga era claro, tomar a região com ou sem o consentimento do não menos
sanguinolento rei Mwenda Msri. Stairs tinha 400 homens armados com 200 rifles
modernos140, enquanto a guarda pessoal de Msri contava com 100 homens a menos e
tinham apenas mosquetes como armas de fogo à disposição. Sabendo-se em
desvantagem militar, o rei africano procurou adiar o conflito ganhando o máximo de
tempo. Ele enviou então espiões ao campo fortificado de Stairs, em Bunkeya. Estes
homens estavam disfarçados de interpretes mensageiros e de percurcionistas (que
tocavam seus tambores sem parar). Foi somente depois que Stairs e seus homens se
deram conta de que aqueles “tambores falavam”, ou seja, que não faziam parte do
entretenimento habitual dado aos visitantes estrangeiros (ou como o “circo” que
atualmente entretém os turistas duplamente equivocados). Eles estavam, na verdade,
enviando secretamente informações estratégicas para Msri sobre o número de homens
armados, as defesas do campo fortificado do Capitão Stairs etc., e faziam isso por meio
daqueles códigos ritmados dos tambores com sua técnica linguística admirável. O rei

137
RATTRAY, R.S. Ashanti. Oxford, 1923, Figs. 101-102 e no Togo vejam: WITTE, P.A., Zur
Trommelsprache bei den Ewe-Leuten. Anthropos. vol 5, 1910, pp. 50-53). Tucker, que também escreveu
um interessante livro sobre sistemas de comunicação da África, comparou o sistema de alfabetos
africanos ao sistema de telégrafos, muito em voga ainda em sua época. Ver: TUCKER, A.N., African
alphabets and the telegraph system. BS, vol. 10, 1936, pp. 67-73.
138
RATTRAY, R. S. Ashanti. Oxford, 1923, pp 242-286. Apud. HAMBLY, 1937. p.321
139
Uma descrição mais simples do tambor falante está contido em um breve artigo de Rattray
Drum Language of West Africa. JAS, vol. 22, pp. 226-236, 302-316. 1922-1923. N. A. Tucker
também fez descrições em African Alphabets and the Telegraph System. BS – Bantu Studies.
University of Witwatersrand, Johannesburg, South Africa. vol. 10, pp. 67-73, 1936.
140
PONT-JEST, René de [pseudônimo de Christian de Bonchamps]: L'Expédition du Katanga, d'après
les notes de voyage du marquis Christian de Bonchamps, in: Edouard Charton (editor): Le Tour du
Monde magazine, que ainda foi publicada em dois volumes pela Hachette, Paris (1893). Disponível
também em: http://collin.francois.free.fr/Le_tour_du_monde/Frame7_textes/TdM_frame7.htm
85
africano não se intimidou e depois de três dias de negociação eles chegaram a um
impasse. Assim, o terceiro oficial da missão, o francês Christian de Bonchamps (1860-
1919) percebendo-se que o rei africano saia regularmente à noite com apenas alguns
poucos guardas para visitar os aposentos de sua esposa predileta, segundo se dizia, uma
linda mulata de nome Maria da Fonseca, ele teve a ideia de captura-lo e assim foi feito.
Logo que o rei Msri foi preso, o oficial belga Omer Bodson (1856-1891) foi enviado
para dar a ele um ultimato para que aceitasse o tratado que dava soberania de seu
território a Leopold II da Bélgica, mesmo assim ele se recusou. Bodson o atingiu então
com um tiro matando o rei Msri assim que viu os homens dele armando seus mosquetes
e que viu o rei africano iniciar a ação de desembainhar sua espada. Ironicamente, esta
espada que seria o estopim das hostilidades tinha sido um presente dado pelo próprio
Capitão Stairs dias antes. Ao atirar mortalmente em Msri, Bodson foi atingido
mortalmente por Masuka, um dos filhos do rei Africano e por sua vez foi morto por
homens de Bodson, desenrolando o caos generalizado de morticínios. Diz-se que
Bodson teve a chance de dizer suas últimas palavras que repito aqui para ilustrar o
quanto a história está recheada de ironias indefectíveis: “Pobre do rei Msri, que acabou
tendo o mesmo destino bárbaro e atroz que impingiu aos seus inimigos, pois quando um
bárbaro encontra outros não há diplomacia possível – ele teve a cabeça degolada e
pendurada para o deleite dos seus inimigos locais, de Stairs e do Rei Leopold II, que
viria a obter para si todo o território do atual país República Democrática Congo, não
como uma província Belga, mas como uma possessão privada. “O meio milhão de km²
de Katanga entrou nas posses de Leopoldo II e formou parte do reino africano de mais
de 2.300.000 km² [ou seja] em torno de 75 vezes o tamanho da Bélgica”, seu
lindinhozinho paisinho imperialistão141.
Mas o que estaria por trás da tecnologia dos tambores falantes? Ainda no séc.
XIX o missionário Roger Clarke, percebeu que “os signos [dos tambores]
representavam os tons das sílabas de frases convencionais de um caráter tradicional e
altamente poético”.142 Os tambores apreendem a tessitura, o volume, o ritmo da fala
humana e os transforma em signos padronizados e reconhecíveis por todos que foram
treinados em sua decodificação. Diz o missionário que, ao baterem nos tambores
falantes, os povos bantos da floresta equatorial metrificavam sua linguagem em duas
notas que corresponderiam aos dois tons das vogais de sua língua. Frases convencionais
reconhecíveis, mas que tinham variedade numérica suficiente grande que “o código
possa ser usado por uma grande variedade de mensagens, fornecendo um meio de
comunicação instantânea através de um raio de muitos quilômetros143”. Mensagens
podiam ser transmitidas de posto a posto também para longas distâncias e mais
rapidamente do que se fosse enviado por um mensageiro a cavalo. Há relatos também
de que essa tecnologia fora trazida para as Américas durante o período da escravidão,
notadamente na região do caribe, mas sua utilização foi logo suprimida, pois parece que
os escravos estavam usando esse modo de comunicação desconhecido por seus senhores

141
http://claudio-zeiger.blogspot.com.br/2012/05/colonizacao-do-congo.html Vejam também o relato dramático
em primeira pessoa no livro de um racista excepcional, o médico Joseph Augustus Moloney: With
Captain Stairs to Katanga: Slavery and Subjugation in the Congo 1891-1892. London: Jappestown Press,
10A Scawfell St., 2007.
142
Ver: GLEICK, J. The Information: a history, a theory, a flood. London: Fourth Estate, p15, 2011.
143
CLARKE, R.T. The drum language of the Tumba people. AJS, vol. 40, 1934, p. 34. (Apud.
HAMBLY, 1937. p.321). Disponível em:
http://www.jstor.org/discover/10.2307/2768451?uid=3737664&uid=4582502017&uid=2129&uid=2&uid
=70&uid=3&uid=60&sid=21103123716847
86
para se rebelar contra eles144. Uma forma interessante de comunicação, mas
aparentemente com menor grau de articulação que os tambores falantes ocorreu no
Suriname, onde os “quilombolas”, chamados ali de “Marroons” (ou “bush negroes”),
enviavam “espiões” e raptores para sequestrar escravos e levarem-nos aos “quilombos”.
Vários destes em diferentes distâncias utilizavam-se de um instrumento parecido com
uma flatua, mas com apenas um orifício no centro. Ao tocarem sequencialmente uns aos
outros, podia-se cobrir quilômetros e as mensagens podiam ser transmitidas a longa
distância145.
Outro tema que gostaria apenas de fazer uma referência em vez de analisá-lo, já
que se trata de um assunto que, juntamente com a joalheria africana, tenho feito
pesquisas a parte, é o tema da astronomia. A etnoastronomia ou mais apropriadamente a
arqueoastronomia é uma parte da arqueologia que estuda a cultura oral e material de
povos antigos relacionados à astronomia. Os dogons, do Mali, por exemplo, são
conhecidos mundialmente por suas elaboradas noções de astronomia e pelo fato de
terem historicamente um conhecimento astronômico tradicional que foi posteriormente
comprovado pela astronomia moderna. Mas é preciso reforçar sempre que a valorização
da magia e tecnologia “não Europeia”, assim como a arte, política e antropologia etc,
não deve se basear no grau de semelhança ou “comparatividade” com as magias e
tecnologias da Europa. Se esta última for sempre e inevitavelmente o modelo para tudo
o que se faz no mundo, então, seria preciso, a bem da justiça, modificar o modelo de ser
dela para que ela não perturbe tão mais os modelos de ser dos outros. Num sítio do lado
leste do Rio Turkana, no Quênia, chamado Namoratunga (que significa “Povo da
Pedra”, na língua Turkana) foi descoberto, em 1978, um desses sítios
arqueoastronômicos que continha dezenove pilares de pedra basáltica, alinhadas a sete
sistemas estrelares, incluindo a Sírius dos Dogon; este achado arqueológico levou Mark
Lynch afirmar que os pilares estão ligados ao calendário lunar Kushita que
corresponderia a 12 meses de 354 dias146.
Quem tiver interesse em se introduzir neste campo da Astronomia ver:
GRIAULE, Marcel. and DIETERLEN G. (1950). Un systeme soudanais de Sirius,
Journal de la Societe des Africanistes 20: 273-294; ADAMS, H. H. (1983a). African
Observers of the Universe: The Sirius Question." In I. Van Sertima, ed. Blacks in
Science. Ancient and Modern. 27-46. New Brunswick: Transaction Books. VAN
SERTIMA, I. (1983). The Lost Sciences of Africa: An Overview. In I. Van Sertima, ed.
Blacks in Science. Ancient and Modern. 7-26. New Brunswick: Transaction Books.
CAMPBELL, Keith. Archaeo-astronomy of Southern Africa. Engineering News 22.15
(2002): 19. Cosmic Africa. Dir. Craig Foster and Damon Foster. Perf.Thebe Medupe.
Aland Pictures, 2003. DOYLE, Laurence R. and Thomas J. Wilcox. Statistical Analysis

144
EPSTEIN, D. J. Slave Music in the United States before 1860: A Survey of Sources (Part II). Music
Library Association Notes (Second Series) 20 (3): 377–390, 1963.
145
BENOIT, Pierre Jacques. Voyage a Surinam description des possessions néerlandaises dans la
Guyane cent dessins pris sur nature par l'auteur, Bruxelles: Société des Beaux-Arts, 1839. plate xlv,fig.
91. O livro completo está disponível aqui: http://issuu.com/scduag/docs/gad11061?e=1147227/3062542 )
146
Sobre este assunto ver: KRUPP, E. C. Echoes of the Ancient Skies: The Astronomy of Lost
Civilizations (Dover), 2003. pp. 170-172. Ver também: HELAINE, S. Encyclopaedia of the History of
Science, Technology, and Medicine in Non-Western Cultures (Springer), 1997. p. 755. Há uma
variedade indefinida de calendários ex: Akan, Berber, Igbo, Iorubá, Shona, xhosa, Luba, Ovimbundo, etc.
Sem falar no Egípcio e Swahili. Ver ainda: PEEK, Philip M., & YANKAH, Kwesi. African Folklore: an
encyclopedia. Taylor & Francis, 2004. Esse tema da observação cosmológica só poderia ser analisado
aqui sob o ponto de vista de seu uso na agricultura das Américas Coloniais, no entanto, trata-se de um
estudo ainda não desenvolvido.
87
of Namoratunga: An Archaeoastronomical Site in sub-Saharan Africa? Azania 21
(1986): 125–8. DRUCKER-BROWN, Susan. Calendar and Ritual: The Mamprusi
Case. Systèmes de Pensée en Afrique Noire 7 (1984): 57–84. GALAAL, Muusa H. I.
Stars, Seasons, Weather in Somali Pastoral Tradition. Niamey: CELHTO, 1992. Gray,
John. Nairuzi or Siku ya Mwaka. Tanganyika Notes and Records 38 (1955): 1–22.
GRIAULE, M. and G. Dieterlen. UnSystème Soudanais de Sirius. Journal de la Société
des Africanistes 20 (1950): 273. GRIAULE, M. and G. DIETERLEN. Le Renard Pale.
Paris: Institut d’Ethnologie, 1965. HISKETT, Mervyn. The Arab Star-Calendar and
Planetary System in Hausa Verse. Bulletin of the School of Oriental and African
Studies 30 (1967): 158–76. ---. A History of Hausa Islamic Verse. London: School of
Oriental and African Studies, 1975. HOLBROOK, Jarita C. Astronomy. African
Folklore: An Encyclopedia. PEEK, Philip M. & YANKAH, Kwesi. (Eds).New York:
Routledge, 2004. 11–14. ---. Astronomy, African. Africana: The Encyclopedia of the
African and African American Experience. Ed. Henry Louis GATES, Jr., and Kwame
ANTHONY Appiah. 2nd ed. Oxford: Oxford University Press, 2005. HUNWICK, John
O. Towards a History of the Islamic Intellectual Tradition in West Africa down to the
Nineteenth Century. Journal for Islamic Studies 17 (1997): 4–27. In Search of … The
Dark Star. Perf. Leonard Nimoy. Alan Lansburg Productions, 1979. JUNOD, H. A. The
Life of an African Tribe. London: Macmillan, 1927. KANI, Ahmad. Mathematics in the
Central Bilad Al-Sudan.The Historical Development of Science and Technology in
Nigeria. Ed. Gloria THOMAS-EMEAGWALI. Lewiston, ME: Edwin Mellen Press,
1992. 33–9. LYNCH, B. M. and L. H. ROBBINS. Namoratunga: The First
Archaeoastronomical Evidence in sub-Saharan Africa. Science 200 (1978): 766.
Neugebauer, Otto. Ethiopic Astronomy and Computus. Vienna: Verlag der
Oesterreichischen Akademie der Wissenschaften, 1979. ---. The ‘Astronomical’
Chapters of the Ethiopic Book of Enoch (72 to 82). Copenhagen: Det Kongelige Danske
Videnskabernes Selskab, 1981. OGUNBIYI, I. A. A Record of a Cometary Sighting in
a 19th CenturyWest African ArabicWork by Muh.ammad Bello b. ‘Uthman b. Fudi
(1779–1837). Journal of Oriental and African Studies [Athens] 3–4 (1991–1992): 94–
110. SOPER, Robert. Archaeo-astronomical Cushites: Some Comments with Further
Comment by Mark Lynch. Azania 17 (1982): 145–62. TEMPLE, Robert G. The Sirius
Mystery. London: Sidgwick and Jackson, 1975. Thackeray, J. F. Comets, Meteors and
Trance: Were These Conceptually Associated in Southern African Pre-History?
Monthly Notes of the Astronomical Society of Southern Africa 47 (1988): 49–52.
TIBBETTS, G. R. Arab Navigation in the Indian Ocean Before the Coming of the
Portuguese. London: Royal Asiatic Society, 1981. TRAILL, Anthony. A !Xoo
Dictionary. Koln: Ruediger Koeppe Verlag, 1994. TURNER, Victor. The Forest of
Symbols: Aspects of Ndembu Ritual. Ithaca: Cornell University Press, 1967. TURTON,
David and Clive Ruggles. Agreeing to Disagree: The Measurement of Duration in a
Southwestern Ethiopian Community. Current Anthropology. 19.3 (1978): 585–93. Van
BEEK,Walter E. A. Dogon Restudied: A Field Evaluation of the Work of Marcel
Griaule. Current Anthropology 32.2 (1991): 139–67. Verin, Pierre and Narivelo
Rajaonarimanana. Divination in Madagascar: The Antemoro Case and the Diffusion of
Divination. African Divination Systems: Ways of Knowing. Ed. Philip M. PEEK.
Bloomington: Indiana University Press, 1991. 53–68. WARNER, B. Traditional
Astronomical Knowledge in Africa. Astronomy Before the Telescope. Ed. C. Walker.
London: British Museum, 1996. 304–17. WENDORF, Fred & ROMAULD, Schild.
Holocene Settlement of the Egyptian Sahara. Volume 1: The Archaeology of Nabta
Playa. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2001.
88
1.5. Engenharia Naval e Civil – os estudos africanistas sobre a produção de
navios, barcos, jangadas, caiaques, gôndolas, boias etc. também tem deixado a desejar.
Pode-se dizer um pouco mais sobre este assunto, no entanto, faço aqui apenas uma
referência, deixando o restante para um trabalho à parte. Sabe-se, por exemplo que,
como afirma o embaixador Alberto da Costa e Silva, Duarte Pacheco Pereira viu as
grandes almadias ijós, escavadas num só tronco e carregando até 80 homens, virem de
cima do rio de 100 léguas e mais até a boca do Níger 147. E temos mesmo uma
verdadeira coleção de imagens e até algumas descrições das construções navais
africanas. Apresento algumas aqui a título de exemplo:

Barco pesqueiro – nordeste da Nigéria - 1820
Dixon Denham, Narrative of Travels and Discoveries in Northern and Central Africa.1822.p229

“(...) Dispunham até o extremo de suas possibilidades. Tanto para esculpir
delicadamente o marfim, como demonstraram os sapés, quanto para povoar uma
coluna de varanda iorubana ou abrir num grande tronco o bojo de um barco. Este tipo
de embarcação muito simples, feito de uma madeira inteiriça a que se dava forma, era
o mais comum em toda África. Na contra-Costa, por influência indonésia, ele podia ter
um balancim, ou contrapeso lateral. No atlântico e nos rios, era simples piroga ou
comprida almadia, impulsionada por muitos remos, ou pelo vento. Em algumas partes,
conhecia-se a balsa, feita com a junção de vários troncos. E o barco-casa, com teto e
paredes de palha. As velas empurravam zambucos, pangaios e outros tipos de
embarcações feitas, no Índico, com pranchas de madeira amarradas com corda ou
tamica de côco e calefadas com massa de algodão e gordura. E por aqui parava a
tecnologia náutica africana. Não se estranhará por isso, que os Congos, e talvez outros

147
SILVA, A. da C. e. a Enxada e a Lança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: EDUSP, 1992 p.
460.
89
povos antes deles, embora acostumados a grandes almadias, confundissem com baleias
as formas bojudas que se aproximavam de suas Costas e traziam os portugueses148.
Em Cabinda “canoa” se diz “Buatu (pl. Miatu) e se utiliza para suas construções
as seguintes madeiras: “Tola Branca” Gosseweilerodendron Balsamiferum, Harms, a
“Mafumeira” Ceiba pentandra, Gaertn, a Kambala-Moreira Chlorophora excelsa,
(Welw.) Benth & Hoc.149

Canoa de Guerra (uma das mais de 2 centenas de canoas da Tropa Naval do Rei
M’tesa da Uganda)
BUEL, James William. Heroes of the Dark Continent. How Stanley Found Emin.Pasha,
1890, p. 255.

148
COSTA E SILVA, A., Enxada e a Lança – a África antes dos Portugueses, Rio de Janeiro; São Paulo:
Nova Fronteira/Edusp, 1992, p.631.
149
Ver: MARTINS, P.J. Sabedoria Cabinda – Símbolos e Provérbios. Lisboa: Junta de Investigação
Ultramar, 1968. p. 36.
90
Ponte – Costa do Marfim – Muitos povos africanos se engajaram na construção de pontes bastante
impressionantes a considerar o material e a técnica disponíveis.150

Construção de ponte entre os Bambuti – Rep. Democrárica do Congo
Imagem de Documentário: “African Pygmy Thrills”.
Eugene W. Castle (Ed.) – década de 1930.

1.6. Povos não agrafos – e, para terminar esta primeira parte que trouxe
algumas indicações superficiais dos “africanos como civilizadores”, gostaria de fazer
uma rápida abordagem sobre o tema “escrita” na África. É imprudente dizer que os
africanos subsaarianos não desenvolveram sistemas de escrita. As questões históricas e
os modelos específicos de civilizações subsaarianas são importantes. Assim, embora
alguns povos africanos tenham uma datação antiga, apenas mais recentemente (por volta
do séc. V da nossa era em diante) que se iniciaram os processos de desenvolvimento de
escrita, frutos antes da necessidade contábil, entre outras práticas socio-econômicas que
fruto de mero arquivismo ou registro de ocorrências históricas.
150
www.africa-onweb.com. Aos que tiverem intersssados numa das técnicas de construção de um tipo
semelhante de ponte gigantesca construída com fibras vegetais, não deixem de assistir a um vídeo
documentário “African Pygmy Thrills” sobre os bambuti da República Democrática do Congo, mostrando
o passo-a-passo de sua construção: https://www.youtube.com/watch?v=Y_4RqBreNoU
91
Oito exemplos de escritas africanas:

I.Hieróglifos Egípcios (A) pennu, “rato”; (B) sma, “abater”(um animal, ou “matar”). II. Grafia do Líbio.
III. Grafia T'ifinagh dos Tuareg: (A) “sem valor, mas bom” naught but good. IV. Grafia Amharic da
Etiópia: (A) “rio”; (B) “Ilha”. V. Árabe: (A) “um jogo”; (B) “quinze”. VI. Língua do Povo Vai da Libéria,
cada caracter é um sígno silábico. VII. Grafia da Língua Nsibidi da Nigéria: (A) “um grande amor entre
marido e esposa”. A estrela central denota um caloroso e amável coração; (B) “Um escravo com suas
mãos atadas”; (C) O sol. VIII. Sete símbolos que foram acrescentados aos caracteres gregos para a escrita
Cóptica. (HAMBLY, 1937. p.303.)

As tentativas inventivas dos povos Vai e dos Bassa da Libéria e de grupos da
Serra Leoa, o sistema A-ka-u-ku dos Bamum dos Camarões, além da tentativa dos Efik
próximos a Calabar leste da Nigéria, com a sua associação Nsibidi151. Além de sistemas
mais recentes como os Bangam da Nigéria e Camarões, o Mwangwego do Malawi ou o
N’ko mandinga, neste sentido, não deixam de ser exemplos que contradizem as
afirmações genéricas sobre os africanos serem ágrafos. Este termo, aliás, é muito injusto
e inadequado se aplicados a seres humanos, pois, significa literalmente “sem-grafia”,
denotando seres que não se expressariam por sinais gráficos. Ora, a depender do que se
convenciona por “grafia”, temos de reconsiderar essas afirmações, pois, os sinais
gráficos, enquanto códigos de comunicação pictorial existiu tradicionalmente entre os
povos subsaarianos e são notáveis em sua quantidade e variedade. Não são ainda
inconscientes os modelos pictoriais de comunicação simbólica nas artes visuais
africanas, ao contrário, são comunicações visuais identificáveis e transmitidas de
geração em geração pelos grupos em questão. Pensa-se, por exemplo, nos ditados
implícitos nas formas figurativas e geométricas dos pesos de ouro ashanti, nas
elaboradas mensagens dispostas em tecidos como os dos reis do Daomé, ou nas
bandeiras Asafo de Gana ou nas complexas “grafias sonoras” existente nos tambores
falantes da África Central entre outros sistemas comunicativos. Os Hausa e os Swahili,
por dificuldades silábicas, por exemplo, desenvolveram um sistema de escrita baseados

151
Tal como indicados por SUMMER, A. T. Mendi writing. SLS, No. 17, 1932. Vejam do mesmo autor
Africa, 1934, vol. 7, pp. 97-99. Apud HAMBLY, 1937. p.304.
92
no Árabe, que não permitia a grafia de caracteres Swahili para consoantes ch, g, p, v152,
mostrando que por vezes, as adaptações são fontes de originalidades neste e em outros
campos da tecnologia. E para aqueles que disseram preconceituosamente que adaptar
grafias de outras línguas não seria válido como sistema de escrita incorreram num erro
grosseiro de como é desenvolvida a transmissão tecnológica. Seria como supor que
somente os sistemas de grafias autóctones pudessem ser chamados de “língua escrita”.
Assim como ocorre com a maior parte das tecnologias, a derivação e a trasmissão
tecnológica da escrita de um povo a outro é a norma da maior parte dos sistemas de
grafias de línguas. Darei dois exemplos de línguas que eu estudei e conheço
relativamente bem. A língua japonesas, por exemplo, é derivada da Chinesa. Podemos
ler boa parte dos caracteres chineses dentro da nossa própria compreensão da língua
japonesa. Boa parte dos caracteres chineses são idênticos aos ideogramas japoneses
mais tradicionais chamados kanji, mudam-se apenas a pronúncia. Um chinês e um
japones culto podem basicamente ler o mesmo jornal chinês em silêncio e
compreenderem perfeitamente. Pelo fato de eu ter estudado filosofia antiga também, fui
aluno de grego por 5 anos (1998-2002) com o maravilhoso prof. Henrique Murachco no
departamento de letras da Universidade de São Paulo153. Foi lá que aprendi que os
gregos por exemplo, desenvolveram seu sistema de escrita por volta do século VIII ou
IX a.C, e que, antes disso, já possuiam seus próprios modelos visuais de comunicação,
além da forma oral da língua. O sistema silábico foi se desenvolvendo lentamente, a
partir dos antigos sistemas micênicos e a partir de adaptações gregas de símbolos
fenícios154.
Então, me parece óbvio que foi somente por preconceito que os historiadores se
ressentiram pelo fato da maioria dos povos africanos subsaarianos não desenvolverem
sistemas de grafia cursiva silábica ou não pictórica. Isso me parece que está associado
ao problema já tocado aqui sobre certas dificuldades históricas e geográficas impostas à
África subsaarianas quanto à transmissão de tecnologia e relação com outros povos155.
O conceito de vitimização, certamente afogado no negativismo que lhe é próprio, pode
também se fazer legítimo quando se pensa nas relações tecnocráticas que envolvem os
fatores de superstrato, colonialismo exploratório e de domínio absolutos que impedem
ou limitam o desenvolvimento das liberdades e das autodeterminações dos povos,
consequentemente, limitam ou anulam a transmissão tecnológica e a perpetuação do
isolamento cultural. Mas a cultura proletária deu indicativos da comicidade que envolve
a tentativa de imposição de uma suposta superioridade cultural, algo parecido com o que

152
HAMBLY, Wilfrid D., Souce Book for African Anthropology. Chicago: Field Museum of Natural
History – Anthropological Series. Vol. XXVI, 1937. p.306.
153
Por ele eu desenvolvi o mesmo amor que desenvolveu por seu professor Robert H. Aubreton. Foi com
Murachco que aprendi a crítica aos modelos gramaticais por seu excesso descritivo, historicista e
formalista. Desde então, não só na língua, mas na vida, a influência filosófica de Henrique Murachco em
minha vida se deu a partir de sua visão semântica, orgânica, lógica e funcional, tal como as aplicava no
estudo da língua grega.
154
Ver: COULMAS, Florian. The Blackwell Encyclopedia of Writing Systems. Oxford: Blackwell
Publishers Ltd., 1996 e SWIGGERS, P. "Transmission of the Phoenician Script to the West". In Daniels;
Bright. The World's Writing Systems, 1996. Outra língua Africana desenvolvida pelos Líbios pelo menos
até o século IV a.C. (também é derivada do feníncio de acordo com BATES, O.. The eastern Libyans.
London, 1914. Vejam do mesmo autor: Excavations at Gammai and at Marsa Matruh. HAS, Varia
Africana, vol. 8, pp. 1-199, 1927. Apud. HAMBLY, 1937. p.305 ). Ver: Chicago: Field Museum of
Natural History – Anthropological Series. Vol. XXVI, 1937. p.305.
155
O embaixador Alberto da Costa e Silva ensaiou sobre algumas destas dificuldades em
“SILVA, A. C. e., A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1996. p. 630.
93
diziam os velhos do povo Ekoi (Ejagham) da Nigéria ao contarem o mito de origem da
grafia Nsibidi: “a escrita foi inventada por macacos que sentaram-se em volta de nossos
acampamentos.156”
Quem tiver interesse no estudo das tecnologias gráficas africanas pode se
iniciar com os seguintes livros desta lista mais antiga, isto é, não atualizada, portanto,
certamente não exaustiva:
TUCHSHERER, Konrad Africa, Cradle of Writing In: Africana Bulletin, African
Studies Center, No.42. December 1998/January 1999. HOFFMAN, W. J. The
beginnings of writing. New York, 1895; MASON W. A. A history of the art of writing.
New York, 1920; SUMMER, A. T. Mendi writing. SLS, No. 17, 1932; BATES, O..
The eastern Libyans. London, 1914; BERTHOLON, L. & CHANTRE, E. Recherches
anthropologiques dans la Berbérie Orientale (Tripolitaine, Tunisie, Algérie) Bulletins
et Mémoires de la Société d'anthropologie de Paris. Vol. 5 Num. 5-2,1914 pp. 150-
159 (Disponível em: http://www.persee.fr/articleAsPDF/bmsap_0037-8984_1914_num_5_2_9011/article_bmsap_0037-
8984_1914_num_5_2_9011.pdf ; RODD, F.R., RODD, F. R. People of the Veil. London,1926 p.
267; PALMER, H.R., (em edições de 1932 e 1934. The Tuareg of the Sahara. JAS, vol.
31, pp. 153-166 e 293-308; vol. 33, pp. 276-291.); BRAUNER-PLAZIKOWSKI, H.,
Ein athiopisch-amharisches glossar. MSFOS, vol. 17, pp. 1-96. 1914, COHEN, M.,
Traite de langue amharique (Abyssinie). TMIE, vol. 24. Paris, 1936; STEERE, E., A
handbook of the Swahili language. London, 1908. Ver também o editorial do periódico
“HAS”- Harvard African Studies. Peabody Museum, Harvard University, Cambridge,
Mass., vol. 1, 1917, p. 292, no qual um facsímile do primeiro escrito em língua Vai é
reproduzido; MIGEOD, F.W.H., The syllabic writing of the Vai people. JAS, vol. 9, pp.
46-58,1909; MASSAQUOI, M., The Vai people and their syllabic writing. JAS, vol. 10,
pp. 459-466, 1911; KLINGENHEBEN, A., The Vai script. Africa, vol. 6, pp. 158-170,
1933; JONHSTON, Sir H.H., Liberia. 2 vols. London. Bibliog., vol. 1, pp. xiii-xvii; vol.
2, pp. 1116-35,1906; MALCOLM , W.L.G., Syllabic writing of the Eyap of Cameroon.
JAS, vol. 20, pp. 127-129, 1920, Malcom também nos informa neste livro que, (na
década de 1920), cerca de 600 pessoas dos Camarões ainda liam e escreviam nesta
língua. Ver também: http://en.wikipedia.org/wiki/Bamum_script; CRAWFORD, G.S. The
writing of Njoya, Sultan of Bamoun. Antiquity, vol. 9, pp. 435-442, 1935; LABOURET,
H. Etudes et observations, Cameroun. Paris, 1934; TALBOT, P. A., In the shadow of
the bush. London, 1912, p. 320; MACGREGOR, J.K., Some notes on Nsibidi. JRAI,
vol. 39, pp. 209-219, 1909 e DAYRELL, E., Further notes on Nsibidi signs. JRAI, vol.
41, pp. 521-540., 1911.

2.0 - Cultura negra de exportação: da enxada à bateia, dos fornos ao do
pilão - cultura material africana no Brasil

A noção de “exportar” atualmente tem dois grandes aspectos dentre aqueles que
a caracteriza: a possibilidade de difusão de produtos, culturas e técnicas e a

156
HAMBLY, 1937. p.309.
94
possibilidade de fazer um negócio lucrativo. Pode-se dizer genericamente que esses
aspectos da noção de “exportar” ocorreram na história do Brasil, mas a exploração deste
tipo de capitalismo impediu que houvesse uma maior aproveitamento da técnica,
embora ele não impediu totalmente o aproveitamento dos elementos culturais africanos
que não “concorriam” com os elementos culturais europeus. Traçando um paralelo entre
a noção de exportação de produtos com a de “exportação de modelos da técnica e da
cultura produtora por meio da imigração” (translado de pessoas com saberes técnicos
específicos e aplicáveis além), vemos que, do ponto de vista da história e da
antropologia econômicas, muitos dos grandes movimentos migratórios tinham como
sonho e perspectiva e, ao mesmo tempo, “resultado”, a elevação na capacidade de
subsistência.
Sabemos que não se migra por acaso e também não se difunde comércio sem
estímulos e motivadores. Por outro lado, por motivos estritamente ideológicos
escondem-se justamente quais são os verdadeiros estímulos e motivos que estão por traz
da valorização desta ou daquela cultura de exportação. A cultura negra de exportação
foi de longe a mais vilipendiada cultura de exportação da história do Brasil. Quando os
Portugueses observaram que o Brasil não era uma ilhota sem graça e que havia aqui
possibilidades continentais de exploração econômica, aumentou-se exponencialmente a
necessidade de “mão-de-obra qualificada” para o desenvolvimento dos ciclos
necessários (até certo ponto essenciais) à economia Portuguesa do séc. XVI, XVII e
XVIII.
Ainda está para ser destrinchado todos os leques da colaboração indígena no
desbravamento do colonialismo brasileiro. Não é nem mesmo certo de que essa
colaboração em nível local tenha sido maior que no plano da Metrópole, como afirmam
apressadamente nossos manuais escolares. Sabemos que o conhecimento local indígena
(sobretudo do território, fauna, flora...) foi a uma fonte sine-qua-non da ação europeia,
principalmente nos primeiros séculos do desenvolvimento colonial e sabemos também
que a Metrópole se beneficiou diretamente deste conhecimento indígena. O
obscurecimento deste conhecimento não-europeu está intimamente ligado à ideologia
eurocêntrica e ao processo de subjugo colonial. A própria razão pela qual houve
“substituição” (complementação) da mão-de-obra indígena pela africana é vinculada,
entre outros fatores levantados pelos professores de história, em primeiro lugar aos
ciclos de produção da economia brasileira e em segundo lugar à questão tecnológica e
em terceiro à questão ideológica. [indian way of life vs. British way of life].
Ao se discutir a história da escravidão atlântica é um fato dado a ideia de que
certas habilidades africanas foram absorvidas e utilizadas conscientemente pelos
portugueses. Também por causa da falha da escravidão indígena generalizada tudo leva
a crer que a escolha do escravo era fundamental não só na compra final nas Américas,
mas também, de algum modo, a escolha do escravo era fundamental no momento da
“caça”, “captura” ou na “compra”, iniciadas na África. Ou seja, para os portugueses,
esses tentadores, só lhes era possível escravizar uma parte da população indígena que se
mostrou, aliás insuficiente para satisfazer os interesses Europeus. Contudo, atenção à
frase inóspita: “ninguém poderá dizer que eles tentaram!” Não porque o indígena seja
classificado negativamente em relação ao africano, mas sim, porque as oposições entre
uma superioridade homogênea europeia e uma inferioridade de vários níveis dos povos
não europeus são também frutos diretos da necessidade de subjulgar a mão-de-obra
servil. Eles nascem como criações secundárias da cultura europeia iluminista, sendo esta
filha antes da necessidade e escassez que da abundância e do luxo; apropriadamente os

95
que tornaram possível o iluminismo e os que, ouso dizer, tornariam possível parte do
desdobrar que levou a Europa à grande Revolução Francesa.
A diferença de produtividade está no centro das discussões sobre os modelos
tecnológicos europeus e indígeno-africanos. O que vale para as técnicas de extração de
ouro, vale para as técnicas de extração de ferro, para a diferença entre a agricultura de
subsistência e a agricultura extensiva, para o extrativismo vegetal como um todo e
aquele com vistas ao lucro e à excedência de capital em contraposição ao extrativismo
coletivo com vistas à sobrevivência etc.. São formas distintas de cosmovisão que estão
em jogo. De um lado, o capitalismo já estabelecido durante a idade moderna europeia,
de outro, os modelos pré-capitalistas vigentes nas sociedades indígenas e africanas, cuja
noção de tecnologia, enquanto uma modificação humana no mundo natural, podia
significar a morte certa. Foram milênios a criar fórmulas e tabus relacionados à
preservação ambiental e a relação do grupo com a natureza. Criraram todo um modo
ritualístico de fazer colheitas como uma sensação de interferência num mundo o qual
não se tem tanto controle senão por modos e práticas culturais específicas que devem
ser respeitadas por todos para que continuem a fazer sentido. Normas da caça, normas
da pesca, bem como normas da colheita se não respeitados podem interferir na bela
totalidade do cosmo e os tabus têm enorme função na manutenão desta estrutura. Não
importa o quanto a força da necessidade possa empurrar os limites destes tabus. Isso foi
transposto para sociedades ribeirinhas descendentes de indígenas. Digamos que em
casos extremos de fome que impliquem em alargamento da piracema, por exemplo, a
noção da necessidade de amargar momentos de escassez por mais tempo faz mais
sentido pra eles que faria sentido a um citadino ligado a uma atividade capitalista que
tenha a chance de obtenção de lucro fácil possa renunciar à essa possibilidade em nome
de uma tal “ética da escassez”.
Ares infectados pelos pendores do diabo setentrional e sua prole que herdou a
ânsia pela exploração e pelo lucro distribuindo a morte para todos os lados (incluindo
seu próprio lado) estão tão introjetados em nossas narinas quanto estão a combustão e o
CO2 dos carros nas áreas urbanas. Se lembrarmos da admoestação marxiana sobre os
burgueses terem construído um tal Leviatã que eles próprios não teriam controle e em
seguida também os devoraria, lembraríamos no passado como era bom nosso futuro...
No nosso caso, negros, índios e pobres brancos socados no redemoinho de uma história
cujas “glórias” só se contam ao desviar o olhar. Tanizaki, no seu elogio das sombras é o
nosso porta-voz:

Nós orientais buscamos a beleza não somente na coisa em si mesma, mas no padrão
das sombras, na luz e na escuridão que esta coisa nos traz.
(谷崎 潤一郎,Tanizaki Jun’ichiro - 陰翳礼讃 , In'ei Raisan – “Em louvor das das Sombras”)

Mas foi o ensaísta de São José dos Campos, Cassiano Ricardo, quem nos
lembrou belamente em seu texto que retomava a participação negra nas Entradas e
Bandeiras em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Matogrosso, no Planalto e nos Sertões, o
quanto essa infecção generalizada da exploração e da ganância levou seres humanos à
carnificina. Aliás, a participação negra nas Entradas e Bandeiras é uma temática de
estudo bastante apreciável, mas foi ainda pouco desenvolvida até onde eu conheça. Diz
Ricardo: “nas últimas bandeiras, porém, o concurso do negro foi ainda maior. Pascoal
Moreira não só levou consigo uma boa coleção de Tapanhumas (SIC) como também
recebeu, depois de instalado na região de Caxipó-mirim, novos contingentes de
elemento africano. Um pormenor apenas bastará para ilustrar o ocorrido: é o de
96
Fernando Dias Falcão que, depois de 1719, partia de Sorocaba com 40 negros, entre
os quais ferreiros, carpinteiros e alfaiates para juntar essa gente toda ao reduto do
famoso descobridor das minas de Cuiabá. [o autor cita Washington Luis “Capitania de
São Vicente”, p. 50] Pascoal Moreira já havia entrado em luta com os aripoconés,
perdendo muita gente, inclusive vários negros da sua bandeira [o autor cita Idem,
Ibidem, p. 114] quando lhe chegou reforço de Fernando Dias Falcão (1718). Nota
escura e melancólica: no requerimento de D. Jõao V alegava ele os ‘inumeraveis riscos
de vida, perda de um filho, de 15 brancos e...alguns negros mortos e comidos pelo
gentio’ (...) Em 1722 partia a segunda viagem de Anhanguera pro sertão de Goiás, e na
sua bandeira seguia uma grande quantidade de negros. Na manhã de sua partida todos
– brancos, índios e negros – foram confessados por Frei Jorge (Idem, Ibidem., p. 114)
Pleno mataréu rumo à serra dos martírios, quando fogem alguns índios, são negros que
vão recaptura-los. [ver nota 60 que trata da deserção dos negros de Anhanguera]
Quando é preciso semear roças, são negros que trabalham nas plantações: nada menos
de vinte e cinco batatais cujo produto merece os mais gostosos adjetivos do cronista
que acompanhou a expedição. Na condução dos mantimentos confiada aos negros da
bandeira, são estes perseguidos pelos índios que os esperam a todo momento, nas
emboscadas sinistras. Se alguém morre, esse alguém não é somente o branco, condutor
da tropa ou o mameluco, é também o negro que cái estrebuchando varado por uma
flexa (SIC) que lhe atravessou o peito com a rapidez de um relâmpago engatilhado157”
Volto portanto a insistir: as tecnologias africanas estão (ou deviam estar) mais ao
centro dos estudos feministas na África e nas Américas. Boa parte da influência
tecnológica africana adveio por meio da divisão de gênero pré-colonial e os conteúdos
político-sociais, bem como os de ordem filosófica e cultural respondem à esses critérios
nos quais a posição da mulher tem reflexos para a política (no caso integral em que as
mulheres empreendem ações locais significativas e nos casos, ainda que raros, de
matriarcado) e para a cultura (no caso das noções da relevância da mulher dispostas
abstratamente nas atividades da cerâmica, ferreiros, estatuetas de fertilidade, ou seja, na
chamada “Arte Africana” em geral, que nada mais é que a expressão visual da
sociabilidade, isto é, da “feminilidade social”, falando estritamente. Considerando, pois,
válidas as seguintes afirmações (Middleton & Miller, vol.4,p. 229) de que “Na África
rural, as forças produtivas foram limitadas ao uso generalizado da enxada”, toda
discussão a respeito da importância feminina na África rural e portanto, nas Américas
coloniais, passa necessariamente pela discussão da cultura material e da tecnologia
africanas.
Mas é a maravilhosa Cecília Meireles, aqui recortada pelo filtro mágico do
industrialismo que ela mesma ironiza, quem me tira do meu sono dogmático:

Ora, o mercado certo é um dos obstáculos ao estímulo da cerâmica
popular dos nossos dias. Mesmo as peças utilitárias estão sendo todas pouco
a pouco abandonadas. As moringas que refrescam a água são substituídas
por geladeiras; o vasilhame de barro, com todas as virtudes que possa ter,
encontra inimigos invencíveis em louças mais duráveis, ou em caixas e latas
que oferecem outras vantagens; a não ser por moda, ou um outro caso,
ninguém quer saber de comida em caçoletas nem em pratos de barro; os
alguidares arranham os mármores das cozinhas, e as salgadeiras e travessas
de barro tornaram-se incômodas. O mundo é feito à máquina não
compreende os bordos irregulares do barro. Não gosta dos vidrados
escorridos desigualmente, não aprecia a boniteza torta das canecas, das

157
RICARDO, C. O Negro no Bandeirismo Paulista. RAM,LVII, 1938. P. 21-22.
97
jarrinhas sem equilíbrio total. (MEIRELLES, Cecília. As Artes Plásticas no
Brasil Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1968 pp. 53-54)

Parece-me, portanto, que toda e qualquer pesquisa mais aprofundada sobre as
possibilidades tecnológicas africanas nas Américas, em sua sinuosidade popular, deverá
passar por pesquisas sobre a história das tecnologias no continente africano e não
necessariamente por uma ponte atlântica essencial. Não é possível refazer o percurso
inteiro sem dificuldades intransponíveis, muito pelo contrário, esse “conhecimento”
levantado necessariamente de modo truncado, não passará de ecos longíncuos de
pessoas cujas vozes se extinguiram há muito tempo. Saibamos e aceitemos com
resignação honrada que uma quantidade enorme de informações imprescindíveis para
que tivéssemos resultados minimamente satisfatórios nesta pesquisa estão
completamente perdidas.
Ao contrário do que se poderia esperar há duas décadas,
o ser humano tornou-se excessivamente abundante e barato.
Uma reindustrialização com base no trabalho humano voltou em
larga escala, embora deslocada para nações emergentes ou
periféricas. O trabalho artesanal foi condenado à condição de
folclore de regiões turísticas mais pobres. Ele se tornou tão
paradoxal quanto a proposta de comida orgânica, que só poderia
trazer um benefício real se produzida em escala industrial, para
que todos possamos ser igualmente saudáveis. O paradoxo do
artesanato está na tentativa de padronizá-lo, como acontece
nessas regiões turísticas. A imitação da indústria tem
transformado o artesanato em uma fábrica de souvenires
idênticos, como se fossem produzidos em série.
A oposição romântica à tecnologia tem sido visivelmente
ineficaz. É ela que impede uma discussão mais ampla da
aceitação das novas tecnologias que nos são cada vez mais
impostas. É parte da superação dessa atitude romântica romper
com a expectativa de que um dia possa existir uma tecnologia
que nos traga unicamente benefícios. Nem toda Ciência e nem
todas as tecnologias estão voltadas para o bem, mas nem por
isso elas estão fadadas a serem intrinsecamente nocivas158.

Quando trazemos a discussão da ausência de dados consistentes sobre a
influência ou contribuição tecnológica dos africanos para a história do Brasil, o
problema se amplia e torna-se ainda mais complexo. O próprio grau da real influência
tecnológica dos africanos nas Américas é algo quase que totalmente desconhecido e
ouso dizer, jamais foi sistematicamente estudado até agora. Seja por causa da violência
da escravidão, seja, infelizmente, por esta nova onda de “negro é lindo” (apoiado por
algumas editoras do tipo “Ô lelê, Ô lala, esperem um pouquinho, vamos faturar!”), tem-
se publicado uma infinidade textos ideológicos, ligeiros ou ainda vazios,
superestimando a contribuição ou a influência africana seja do ponto de vista
tecnológico, seja do ponto de vista cultural também. Mas eu digo isso um pouco por

158
João de Fernandes Teixeira – Universidade Federal de São Carlos.
Devia até mesmo eu seguir a este tipo
http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/edicoes/59/artigo219072-1.asp
pessimismo realista?
98
dizer, pois todos nós somos mesmo muito passíveis dos ímpetos e dos arroubos
sentimentais e ideológicos e contra isso não há muito a fazer159.
Outro dado importante a ser indicado é a noção de resistência à própria
escravidão. O colaboracionismo escravagista sintetizado na figura do “capataz” e/ou do
“bom escravo” (tão difundido no senso comum e com certa realidade histórica) também
teve seu contraponto nas figuras históricas dos resistentes, rebeldes e heróis – por isso
eu sempre digo que “os anônimos são os melhores!” (que as “Cartas Chilenas” mo
digam) A historiografia contemporânea tem lutado para se desfazer dos seus equívocos
do passado dando uma maior atenção às participações ativas dos negros na luta pela sua
própria libertação do regime escravista. Temos então de meditar sobre os casos
extremos. Saber, por exemplo, que houve algum nível de dificuldade de transmissão de
tecnologia africana no Brasil também a considerar os episódios de sabotagem, os
assassinatos dos senhores160 etc., empreendidos seja por resistentes ou por desesperados
(não importa muito, neste caso), pessoas que não queriam colaborar tecnologicamente
com seus opressores. A maior prova disso é que se reconstitui quase que completamente
uma veriedade incrível de instrumentos musicais mais ou menos complexos, mas a
cultura material do trabalho se restringe a alguns poucos implementos.
Não é difícil imaginarmos, por isso, a existência de outro tipo de resistência
vinda daqueles que se recusaram a transmitir conhecimentos ou resolver problemas
tecnológico dos Senhores. Como diz Motoyama com quem no todo eu concordo “(...)
Para os escravos não havia atrativo algum em melhorar as técnicas que só iriam
enriquecer seus algozes...”161. É incrível perceber o quanto a resistência à escravidão
inventou formas criativas de fazer elevar o humano por sobre o autoritarismo. Mas a
história está repleta de tentantativas de superação do caminho, que sempre será mais
fácil pra quem detém a máquina. O tópico frasal sempre foi o mesmo: “Abuso da
força”.
Como disse um francês em 1864, muito antes de acabar a escravidão brasileira:
“foram os Portugueses que, em primeiro lugar, são os culpados por este abuso de
poder. (grifo nosso) A escravidão tinha sido mal abolida na Europa depois de dois
séculos, quando foi restaurada sob esta nova forma. O Inglês, o Espanhol e o Francês
imitaram o Português. Armaram os povos africanos uns contra os outros, porque a
guerra lhes dava os meios para fazer prisioneiros, que eram vendidos como
escravos.”162
Excetuando por alguns poucos elementos de uso ritualístico no contexto das
religiões afro-brasileiras, todos sabemos que o número de objetos da cultura material

159
Aqueles dentre vocês que me leram nos últimos dois anos viram muito disso e viram coisas ainda
muito piores escritas por mim dentro deste meu estilo ligeiro, grosseiro e desgraçado (motivos os tive
para fazê-los dessa maneira mesmo e, como disse o poeta, “todos têm suas próprias razões”).
160
ALVES, M. C. Quando falha o controle: escravos que matam senhores. Campinas, 1840-1870.
UNICAMP, 2010.[DISSERTAÇÃO] Ver também:
http://www.acervos.ufsj.edu.br/site/fontes_civeis/revolta_carrancas.pdf
161
MOTOYAMA, Shozo. Prelúdio para uma História: ciência e tecnologia no Brasil. São Paulo:
EDUSP p. 92, 2004.
162
“Ce sont lès Portugais qui, les premiers, se sont rendus coupables de cet abus de la force. L’esclavage
était à peine abloli en Europe depois deux siècles, quand îl fut rétabli sous cette nouvelle forme. Les
Anglais, les Espagnols et les Français imiterent les Portugais. On arma les peuples africains les uns
contre les autres pour que la guerre leur donnât les moyen de faire des prisonniers qui étaient revendus
comme esclaves.” (ALONNIER, D. (1828-1871) Dictionnaire Populaire illustré d’Histoire, de
Géographie, de Biographie, de Technologie, de Mythologie, d’antiquités , de Droit Usuel, D’art
militaire, Des Beaux-Arts et de Literature Paris: Imprimerie Parisienne. 2ª. Ed. Tome II, 1870. p. 966).
http://fr.wikisource.org/wiki/Dictionnaire_populaire_illustr%C3%A9
99
africana que tenha de fato resistido à travessia do atlântico não foi impressionante. Mas
os elementos que temos são, ainda assim significativos, já que são elementos
constitutivos da realidade material brasileira e das Américas e sobretudo porque é o que
temos em mão163. Quando o objeto de pesquisa se trata das técnicas tradicionais de
mineração, instrumentos como pás, picaretas, martelos e cinzéis são as principais
ferramentas para a extração de riquezas (como o ouro ou as gemas). Mas, acredito que
dentre esses objetos não religosos, nenhum tenha a força simbólica tão digna de nota
quanto o instrumento de mineração que se estabeleceu nas Américas pelo nome de
“Bateia”.
As variadas definições do termo “bateia” encontradas na bibliografia a respeito
fazem referência à sua forma e função. No livro VI do texto inaugural sobre o tema na
modernidade De Re Metallica de Giorgius Agrícola (Georg Bauer), publicado
postumamente no ano de 1556, Agricola menciona o uso da Batea, já com sua
designação que é mantida atualmente. 164

Ilustração do século XVI com instrumentos de mineração de técnica africana no Brasil
A – “Bateia pequena”
B – “Corda”
C – “Bateia grande”
(AGRICOLA, G. 1912. [1ª.edição de 1556] p.137).

Agrícola menciona seu uso: “as bateas” {N. do A. = Alveus [em itálico no
original] – “Bandeja”. O temo espanhol batea [em itálico no original] tem sido adotado
geralmente no vocabulário de mineração para uma tigela de madeira usada para estes
propósitos [de mineração], que nós apresentamos aqui são escavadas num único bloco
de madeira; o tipo menor, geralmente, tem 60 cm de comprimento e 30 cm de largura
Quando elas estão cheias de minério, especialmente quando se cava poucos dos poços e
túneis, os homens os carregam em seus ombros, ou as transportam para longe
pendurados nos seus pescoços (...). O comprimento da batea maior é de até 91 cm, a
largura tem até 37,5cm (the width up to a foot and a palm). Nestas bateas a terra
metálica é lavada com a finalidade de fazer essa verificação [do ouro]”165.

163
Não a resignação, mas a humildade é a essência da boa aventurança; foi minha mãe quem me ensinou
isto quando na infância eu enjoava ao comer todos os dias arroz, feijão e ovo...e ela me dizia: come o que
tem, espere o que vem.
164
AGRICOLA, G. De Re Metallica. London: The Mining Magazine, 1912. p.137 [1ª.edição - 1556].A
edição inglesa de 1912 pode ser lida aqui: http://www.farlang.com/gemstones/agricola-
metallica/page_001
165
AGRICOLA, G. De Re Metallica. London: The Mining Magazine, 1912. p.137 [1ª.edição - 1556].
100
Francisco Davi Lopes dos Santos – morador de Telemaco Borba Rio Tibagi –
A imagem acima mostra um minerador e a su uma bateia, hoje em desuso, por causa da implantação da
Hidreletrica de Maua que, ao retirar 130 garimpeiros dos Municípios de Telemaco Borba e Ortigueira,
não indenizou, como prometido, aos trabalhadores e às famílias que deram espaço para o
desenvolvimento de suas atividades166.

Tradicionalmente utilizada como materia-prima na produção da cultura material
africana, descrições modernas incluem bateias produzidas por outros materiais que não
a madeira,: “A bateia é um prato cônico aberto, na maioria das vezes com uma pequena
depressão central. A bateia foi amplamente utilizada no centro-sul da América por
séculos, antes que das corridas do ouro da América do Norte ocorrer e a bateia deveria
ter se precipitado imediatamente para o norte, mas isto não ocorreu. O batea foi feita,
originalmente, transformando e esculpindo a madeira para produzir um prato grande,
ligeiramente cônico de paredes de madeira espessas, capaz de flutuar ou de pelo menos
possuir flutuabilidade neutra. Mais tarde, um aperfeiçoamento parcial (partial shift)
para uma bateia de parede fina feita de metal ocorreu, permitindo que a bateia de liga
metálica fosse aquecida para cozer e expulsar o mercúrio da mistura (amalgam) para
deixar ouro167.
Um importante livro com estudos sobre técnicas de mineração desenvolvido por
uma companhia de engenharia chamada Colliery (Placer mining: A hand-book for
Klondike and other miners and prospectors) apresenta a Bateia erroneamente como um
“desenvolvimento” ou uma “modificação” da vasilha (ou tacho) de mineração
conhecida na Europa. Mas fora isto, este livro traz importantes informações sobre, por
exemplo, o diâmetro das bateias e afirma que sua qualidade em relação à congênere já
conhecida é o fato de ser de madeira. O batea é uma modificação do tacho (pan), é
utilizada principalmente em partes do México e da América do Sul, onde a água é
escassa. Trata-se de uma tigela rasa cônica, produzida a partir de uma única peça de
madeira dura, e tem cerca 50c de diâmetro por 5cm de profundidade no centro. Trata-
se, em geral, de um instrumento melhor do que o tacho (pan) para lavar o ouro, a
superfície de madeira facilita a concentração do ouro168.
Eu reforço sempre que as tecnologias estão desde sempre muito embrenhadas. O
uso do couro na mineração, por exemplo, duas técnicas que os africanos detinham
conhecimento e convergiram para dar maior eficácia nas técnicas de mineração das
quais já estavam habituados. O próprio Eschwege faz uma referência ao uso do couro

166
Leiam materia sobre o caso no jornal de Londrina “Gazeta do Povo”:
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1362906
167
GRAYSON, R. Gold Recovery in Gold Pans – the term ‘panning’. In: World Placer Journal – 2006,
Vol. 6. pp. 2.)
168
COLLIERY – Enginner Company. Placer mining: A hand-book for Klondike and other miners and
prospectors. Scranton, Pa., 1897, p. 97 Disponível em: https://archive.org/details/placermininghand00coll.
Ver também: https://archive.org/details/placermining00wilsrich
https://archive.org/details/glossaryofmining00raymuoft
101
por mineradores negros em Minas Gerais e que pode ser constatada por meio da pintura
de Rugendas logo a seguir: A eles [os negros] se devem, também, as chamadas canoas,
nas quais se estende um couro peludo de boi, ou uma flanela, cuja função é reter o
ouro, que se apura depois em bateias169.

Garimpeira da região de Chocó, Colombia, trabalhando a “batea”
(82% da população de Chocó descendem de escravos africanos) 170
Foto: http://fashion.telegraph.co.uk/news-features/TMG5487536/Ethical-jewels.html
Por meio de movimentos circulares o garimpeiro faz um contrabalanceamento entre a água,
barro/areia/pedras (que são “lavados” e descartados fora da bateia) e o isolamento do ouro ou outros
minérios metálicos que, por sua densidade se depositam no fundo do instrumento de mineração.

O Embaixador Alberto da Costa e Silva nos fala sobre a téncia d emineração em
Gana: “(...) o ouro em pó era de quem o achava. As pepitas, porém, pertenciam ao rei,
talvez por já terem, então, um caráter maléfico, que só ao Gana não atingia171. As
minas ficavam entre os rios Falemé e Senegal. Passadas as cheias, cavam-se poços
quadrados, de uns 75cm de lado que raramente iam abaixo dos 20m, sendo frequentes
as perfurações de apenas 2 m de profundidade. À medida que os poços desciam, suas
paredes iam sendo reforçadas por vigas de madeira e, pelo menos num dos lados por
uma grade de varas, que servia também de escada por onde baixavam os mineiros.
Estes cavavam túneis horizontais em várias direções e uniam assim os poços entre si.
Mandavam em cabaças o minério para a superfície e este era catado pelas mulheres ao

169
ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. (trad.) Belo Horizonte/São Paulo:
Itatiaia/EDUSP, 1979, p. 167-168, vol. 1.
170
http://www.dane.gov.co/files/censo2005/etnia/sys/visibilidad_estadistica_etnicos.pdf (p.30). . Na
região de Chocó a técnica do “batear” se diz “Mazamorreo” ou “Mazamorrero”. Eu fiquei pensando se
este termo não tem ligações (por semelhança) com a “Mazzamorra” um prato típico de regiões andinas,
antigamente servido em gamelas, semelhantes à nossa canjica: http://www.greengold-
oroverde.org/loved_gold/
171
Jean Suret-Canale. Afrique noire occidentale et centrale: géographie, civilizations, histoire, Paris,
Editions Sociales, 1961, p. 148. N. do A.
102
entardecer. É desse modo que se extrai o ouro de Bambuk atualmente 172. E desse modo
devia fazer-se no passado, como se deduz dos relatos árabes. Nem de todos, porém.
Pois alguns registraram a crença de que o ouro sudanês era um produto vegetal. Uma
raiz, como a cenoura. Que se colhia ao pôr do sol173.

Lavagem do Minério de Ouro no Morro de Itacolomi – 1820-25
Johan Moritz Rugendas Viagem Pitoresca Através do Brasil. São Paulo: Ed. Itatiaia Ltda; EDUSP, 1989.
Técnicas africanas de mineração– Uso do Couro, Bateia, Corumbé, Almofariz...

Detalhe, com o uso de bateia e do couro (1º.plano) e almofariz (2º. plano)

172
Phillip D. Curtin. The Lure of Bambuk Gold, The Journal of African History, Londres. V. XVI ( 1973)
no. 4 p. 628; e E. W. Bovil. The Golden Trade of the Moors, 2a. ed. Rev. e ampliada por Robin Hallet,
Londres, Oxford University Press, 1968, p.130-31.
173
M. Cuoq: Recueil des Sources Arabes Concernant L’Afrique Ocidentale des VIIIe. auXVIe.
Siècle. Paris. Édition du Centre National de la Recherche Scientifique, 1975. p. 54. N. do A.
SILVA, A. C. e., A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1996. p. 255.
103
“Nos locais onde a água era escassa, a lavagem a seco era anteriormente
utilizada. O rico solo selecionado era pulverizado e trabalhado em uma batea, ou prato
de madeira, porções de terra eram separadas por um movimento circular dado no
prato. O ouro também era extraído por joeira (winnowing)174”.
Em um artigo sobre a economia desta região mineradora colombiana o boletim
do Museu do Ouro faz indicações sobre algumas das técnicas tradicionais de extração
de aluvião: La minería es una actividad variada. Entre sus múltiples modalidades las
siguientes son importantes. En su forma más sencilla, un mazamorrero, a menudo una
mujer, trabaja independientemente en las playas de los ríos con una batea. A veces un
grupo, o "compañía", trabaja en conjunto en una mina de hoyo, excavando un gran
hueco y sacando las arenas auríferas para después lavarlas para extraer el oro. Minas
de agua corrida también necesitan trabajo colectivo, para tumbar grandes cantidades
de tierra en la mina para que el agua, represada en una "pila" artificial o desviada de
un río, la lleve por un canal artificial, al fondo del cual, después de haber sacado las
piedras, se depositan las arenas más pesadas que luego se lavan con batea para sacar
el oro en polvo. En décadas recientes, la motobomba ha tenido mucho auge,
tecnificando y transformando al antiguo sistema de "canalón". Hoy en día, el chorro de
la bomba reemplaza mucha mano de obra que antes se empleaba para tumbar la
tierra175.
A seguir, apresento algumas imagens de bateias pertencentes a acervos
museológicos e duas imagens que são fruto de estudo classificatório delas pelo geólogo
Robin Grayson:

Bateia Bateia
Col. Museu do Ouro de Sabará Col. Museu de Artes e Ofícios,
Sabará - Minas Gerais Belo Horizonte - Minas Gerais

174
COLLIERY – Enginner Company. Placer mining: A hand-book for Klondike and other miners and
prospectors. Scranton, Pa., 1897. p. 62. Disponível em:
https://archive.org/details/placermininghand00coll . “Joeira” é uma peneira geralmente feita em vime
utilizada para separar o “joio do trigo” (tal como na parábola bíblica).
175
BANCO DE LA REPUBLICA, El Chocó: uma región negra. Boletín Muse del Oro. Nº 29, 1990.
Disponível em: http://www.banrepcultural.org/blaavirtual/publicacionesbanrep/bolmuseo/1990/ocdi29/indice.htm
104
Dois recortes da “Batea” Recorte de alguns tipos de “Bateias”
patenteada por Josef Johansen (GRAYSON, R. 2006, p. 5)
Suriname, em 1905
(GRAYSON, R. 2006, p. 3)

Não é de nosso interesse aqui fazer uma taxonomia ou uma tipologia das bateias
existentes. O Geólogo Robin Grayson faz análise de dezenas de tipos delas usadas no
mundo todo exprimindo algumas de suas diferenças formais e funtionais, especialmente
em relação a outros tachos de mineração (gold pan). Ele traz ainda um exemplo de
“bateia” que foi patenteada em 1905, por um inventor que viveu no Suriname e criou
uma técnica de incluir uma folha de cobre no interior cônico da bateia (vide imagem
acima). Esse modelo teve uma difusão razoável também entre os garimpeiros
tradicionais daquele país. A maior parte dos mineradores de pequena escala no
Suriname provém de “marroons”, isto é, são comunidades “quilombolas”, que
constituem atualmente de cerca de 50.000 pessoas176, equivalente a 10% da população
total do Suriname.
Embora a forma “cônica abaulada” seja o formato mais definido da “bateia”, a
sua forma genérica de um recipiente leve ou fortemente côncavo parece ser universal177.
Seu uso e técnica teve certamente um desenvolvimento independente em diferentes
partes do mundo antigo. O termo “batea” é utilizado nos países de língua castelhana do
centro sul americano e parece ter origem espanhola178
Parece certo também que igualmente os espanhóis, os indígenas e os africanos
foram os co-introdutores da batea nas Américas. Os espanhóis herdaram técnicas da
cultura de mineração romana e já utilizavam instrumentos semelhantes aos que os
indígenas de regiões andinas utilizavam na estração do ouro, mas as bateas espanholas
não eram feitas em madeira (como no caso indígeno-africano) eles, geralmente,

176
COLCHESTER, M. Forest Politics in Suriname. the Hague, Netherlands: International Books in
collaboration with the World Rainforest Movement, 1995. Os “quilombolas”, descendentes de ex-
escravos fugidos do Sistema escravista dominam o a prática da mineração no Suriname. Dentre estes 90%
utilizam a técnica da bateia, aprendida com seus ancestrais africanos, ou caixas de comportas, tais como
eram usadas durante o colonialismo holandês. HILSON, G.M.(Ed.) The Socio-Economic Impacts of
Artisanal and Small-Scale Mining in Developing Countries. Taylor & Francis e-Library, 2005, p. 562.
177
Batea é chamada “lotok” na Rússia, “dulang” no sudeste da Ásia (ex. em Laos), “bucket” (“balde”) no
Quirguistão; mas sua tipologia varia localmente. GRAYSON, R. Gold Recovery in Gold Pans – the term
‘panning’. In: World Placer Journal – 2006, Vol. 6. p. 2. (Disponível em:
http://www.mine.mn/WPJ6_1_gold_pan.pdf ).
178
https://www.banrepcultural.org/museo-del-oro/sociedades/metalurgia-prehispanica/herramientas-e-
instrumentos-de-trabajo
105
utilizavam bateas produzidas de materiais metálicos como o estanho179. Isso pode ser
melhor avaliado pelos mestres do garimpo, mas eu acredito que a bateia de madeira
teria uma funcionalidade especial dado a existência dos veios que ajudam na resistência,
fazendo com que haja menor escape dos minérios no manejo da bateia.
O visitante alemão barão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855) relata
sobre algumas das contribuições negras na mineração do ouro: Somente mais tarde,
aprendendo com a prática, principalmente depois da introdução dos primeiros escravos
africanos, que já na sua pátria se tinha ocupado com lavagem do ouro, e de cuja
experiência o natural espírito inventivo e esclarecido dos portugueses e brasileiros logo
tirou proveito, foi que os mineiros aperfeiçoaram esses processos de extração. Deve-se
principalmente ao negros a adoção das bateias de madeira, redondas e de pouco fundo,
de dois a três palmos de diâmetro, que permitem a separação rápida do ouro da terra,
quando o cascalho é bastante rico. A eles se devem, também, as chamadas canoas, nas
quais se estende um couro peludo de boi, ou uma flanela, cuja função é reter o ouro,
que se apura depois em bateias180.

(...)

- Então, Simão? Nada ainda? - disse ele a um velho camarada, que acabava de deitar
fora o cascalho de uma bateada.
- Nada por ora, meu patrão- respondeu o camarada- isto aqui não pinta; amanhã
havemos de abrir outra grupiara ali mais embaixo. . .
- Entretanto, tu bem vês: há aqui as melhores formações: ferragem, olho- de- pomba,
palha- de- arroz, cativo, nada falta; e entretanto há mais de dois meses que aqui
estamos trabalhando e nos devemos dar por felizes se o serviço tem dado para salvar a
metade das despesas. O diabo que as leve as tais formações ou informações; não as
entendo; isto é uma burla. Acho que se fossemos plantar batatas faríamos melhor
negócio. Anda, Simão; quebra essas bateias, atira ao rio esses almocafres, e vamo- nos
embora para nosso país. É escusado andar procurando no seio da terra o que lá não
guardamos.
-tenha paciência, meu patrão- respondeu o camarada. - Dê- nos ainda um pequeno
serviço amanhã. . . ali, ali mais embaixo, patrão, e eu que não me chame Simão, se a
coisa ali não pintar. Tenha fé e reza a Nossa Senhora, e verá se amanhã ou depois o
diamante graúdo não vem aluminar no fundo da bateia181.

Excercendo um pouco algum otimismo que é sempre bem vindo, não nos
deveria parecer tão poucas assim as contribuições da cultura material africana no Brasil
e nas Américas. Ainda assim, essas verificações jamais poderão ser subutilizadas ao se
fazer uma superestimativa, como se tem teimado em fazer ainda. E o principal de tudo:
essa pesquisa ainda está para ser feita. Portanto, não bastaria que nos debruçássemos
nos dados bibliográficos de segunda mão, que é o que temos feito no mais das vezes
também (incluo-me aqui, certamente). É preciso ir a fundo com essas pesquisas, ainda
que ao refazermos esses laços desfeitos e recortados pelo hiato violento da escravidão

179
Os métodos romanos de mineração foram descritos por Plínio, o velho, no seu Naruralis Historia de
77 d.C. Para fins comparativos, técnicas contemporâneas espanholas do uso da bateia podem ser
encontradas aqui: http://www.uv.es/~rgasco/nueva/bateo.htm
180
ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. (trad.) Belo Horizonte/São Paulo:
Itatiaia/EDUSP, 1979, p. 167-168, vol. 1.
181
GUIMARÃES, Bernardo. O garimpeiro. São Paulo : Ática, 1980. 118 p. [escrito em 1872].
106
ou pela perda da memória técnológica ou ainda pela substituição iconoclasta dos velhos
estilos de vida por uma modernidade mais sedentária, porém mais ignorante –
supostamente bem nutrida, mas amplamente vazia – que acabe por nos fazer retocar
nosso otimismo transformando-o, por fim, numa forma de “realismo”. É neste contexto
que são úteis as rememorações. Por exemplo, no meu trabalho de educador em museus
que executei por 10 anos a fio (4 dos quais no Museu Afro Brasil, não era incomum me
deparar com crianças que chamavam uma “gamela” de “tapeware”). As memórias
falham, mesmo que de vez em quando. Mas nunca uma falha se mostra tão grave do que
quando os benefícios de sua memória não superam suficientemente os malefícios de seu
esquecimento.
Enfim, ao bom entendedor uma frase basta: “dentro de uma pesquisa séria sobre
a tecnologia tendo os ‘noves fora’ vejam o que se salva”. Assim, propondo também
alguns “noves fora”, destaco a vocês alguns dos elementos que nos chamam a atenção
sobre a força tecnológica e a contribuição na ligação da cultura africana à afro-
brasileira:

Pau-de-escavar – “pau” ou “vara” de escavar é um tipo de instrumento de
agricultura que já existia desde pelo menos no mesolítico africano182. Sua aparente
simplicidade na forma (vareta ponteaguda) e função (escavação, exploração, coleta, etc)
não esgotam suas possibilidades e força de presença em diversos sistemas culturais, tão
dignos da revolução da agricultura. Pinturas rupestres mostram que há tempos a
agricultura, também colocada no uso de ferramentas como o “pau-de-escavar” é
atividade mormente feminina. Enquanto um dos aspectos183 da atividade de coleta de
alimentos pelas mulheres foi levando assim à descoberta da domesticação animal, foi
outro aspecto que levou à descoberta da agricultura. Este foi o trabalho das mulheres
em aplicar o seu pau de escavar – uma das primeiras ferramentas da humanidade –
para buscar alimentos da terra. Até hoje, em algumas áreas subdesenvolvidas do
mundo, o pau de escavar permanece como uma parte inseparável da mulher com seu
bebê184.

“Pau de escavar” com peso feito de pedra arredondada
(The Last Journal of Livingstone in Central Africa from 1865 to his Death: continued by a
narrative of his last moments and sufferings, obtained from his faithful servents Chuma and Susi,
By Horace Waller Vol. 1 John Murray, Albemarle Street: London, 1874).

182
www2.iict.pt/
183
A autora faz referência ao livro de Otis Tufton Mason “Woman’s Share in Primitive Culture”, em que
este indica o aspecto da ligação de trabalho da mulher pré-histórica africana com animais leiteiros, o
cultivo de legumes e tubérculos que fazem parte da dieta dos seus “maridos” caçadores, ligando assim, a
técnica da domesticação animal ao gênero feminino.
184
REED, E. The Myth of Women’s Inferiority. In: Fourth International – A Marxist Quaterly. Vol. XV,
no. 2 (Whole no. 127), Spring, 1954. p. 58-66.
107
Para detalhes da produção da pedra e do “pau-de-
escavar” vejam: DEACON, H. J., & DEACON, Janette.
Human Beginnings in South Africa: uncovering the secrets
of the stone age. 2ed. New Delhi, 2003. p. 146. Vejam
também: Bleek, W. and Lloyd, L. Specimens of Bushmen
Folklore. London: G. Allen, 1911.; MOKHTAR, G.
General Hisory of Africa II : ancient civilizations of Africa.
Abridged Edition. James Currey, California: UNESCO,
1990. p.353.
Aceitando-se ou não as teorias de Reed e Mason,
considerem e mantenham sempre em mente, por exemplo,
que o declínio de um certo “matriarcalismo” agricultural na
África teve relação direta que a ascenção do islamismo,
ativo, especialmente, em toda região norte e oriental do
continente desde o séc. VII, incluindo o norte dos países da
Costa Ocidental. Para conhecimento, os países mais
islamizados desta região Ocidental são Senegal, Mali,
Guiné (com mais de 90% de sua população constituída de
mulçumanos) e
também países como
Guiné-Bissau, Serra
Leoa, Burkina Faso,
Nigéria, etc... possuem
mais de 50%.
Tenhamos em mente,
contudo, que não
perdem muito
numericamente os países como Costa do Marfim,
Benim, Camarões, Togo, República Centro
Africana, e ainda há 35% de mulçumanos na
Tanzânia, 20% no Togo, Malawi e Moçambique.
Cerca de 15% em Gana, Uganda... e mesmo os que
tem menos mulçumanos, como Gabão, Ruanda,
Quênia e República Democrática do Congo, todos “Pau-de-Escavar”
estes países possuem mais de 10% de mulçumanos Fonte: RAYNAUT, C.Outils agricoles
em sua população (para se ter uma ideia esse de la région de Maradi (Niger).
Cahiers ORSTOM, séries Sciences
número é equivalente ao total de negros dos EUA). Humaines, XX (3-4): 1984 pp. 505-536.
Como se pode ver, a influência islâmica na África
é bem grande.
Se interessar saber, os países com menor influência islâmica também podem, por
hipótese, possuir um histórico matrilinear e, às vezes, um histórico matriarcal185.
Lembrando também que a definição de “matriarcal” terá de ser estabelecida segundo

185
As referências matriarcais na África não são tão poucas, mas esparsas. Sabemos pela história oral ou
por relatos de viajantes que tiveram exemplos de governantes femininos ou de mulheres ocupando postos
de chefia e postos militares entre os Bakuba (com a chefe de nome Lobamba), os Luba (com a chefe de
nome Ruweji), os bakongo, os Bijagó, no Daomé (com as Amazonas, ver: DINER, Helen, (ed.) trans.
John Philip Lundin, Mothers and Amazons: The First Feminine History of Culture. N.Y.: Julian Press,
1965), Igala (ver: Boston, J. Igala Political Organisation African Notes 4.2, 1967), entre outros
exemplos.
108
critérios mais universais, onde o “poder feminino” (ainda que tenha seu período muito
datado, como ocorreu em quase toda história do mundo) pode e deve ser destacada
como: 1) uma possibilidade de existência desta cultura em questão (isto é, a cultura não
limita o poder ao homem e eventualmente as mulheres ascendem ao poder - como é o
caso de algumas realezas europeias e africanas). 2) uma impossibilidade da existência
da cultura em questão, por exemplo na realeza japonesa ou árabe (as exceções
históricas, neste caso, são dignas de nota). Nesse sentido, pensem, por exemplo, no
avanço patriarcal em relação à tradicional divisão de trabalho em que as mulheres eram
responsáveis pela agricultura, uso de implementos específicos, esse e outros domínios
foram sendo paulatinamente perdidos dado o avanço patriarcal. Um número razoável de
novas teorias indicam que com a intensificação da agricultura na modernidade, a
pressão pelo aumento populacional e a consequente modificações nas práticas
tradicionais de cultivo, que eram sobretudo baseadas em ferramentas manuais ou menos
mecanizadas, implicaram no declínio no papel da mulher na agricultura.

Kit de ferramentas básico dos Caçadores-Recoletores Dobe !kung (povo San)
(RICHERSON, Peter J. Principles.of.Human.Ecology.2001.p.49)
Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/100211008/Principles-of-Human-Ecology#download

Livingstone em seu diário no dia 4 de agosto de 1866 diz que: “Os Maconde
(Makondé), como vimos, usam lanças de madeira onde o ferro é escasso. Vi enxadas de
madeira usadas para cultivar o solo nos países dos Bechuana e dos Bataka, mas nunca
os de pedra. Em 1841 eu vi uma mulher Bosquimano186 na Colônia do Cabo com uma
pedra redonda e um buraco através dela; ao ser questionada ela me mostrou como a
pedra era usada, inserindo-a no topo de um pau de escavar (digging-stick), e cavava-se
uma raiz (digging a root). A pedra servia para dar peso ao pau de escavar. As pedras
ainda usadas como bigornas e marretas (sledge-hammers) por muitos dos ferreiros

186
Bushwoman – no original, provavelmente, Livingstone se refere aqui ao povo Khoi ou San.
109
africanos, quando considerada a partir de seu ponto de vista, mostram um sentido mais
sólido do que se fossem sobrecarregados com os grandes pesos que usamos187. Eles não
estão familiarizados com o processo de cementação (case-hardening) que, aplicada a
determinadas partes das nossas bigornas, dá a elas uma utilidade, e uma bigorna de
seu ferro mais maleável (soft iron) não seria tão boa quanto uma pedra dura. É
verdade que uma pequena fagulha pode ocorrer, mas deixe qualquer um ver como os
martelos do bisel de ferro (hammers of their iron bevel) deles passa por sobre e em
volta de suas faces com mínimo de esforço, e ele vai perceber que só um louco
selvagem (wild freak) induziria qualquer ferreiro nativo sensato a fazer uma massa [de
ferro] igual numa marreta, e onerar a si próprio com um peso, pelo que pode ser
melhor executado por uma pedra. Se as pessoas estão assentadas, como que na Costa,
então eles, de bom grado, usam qualquer massa de ferro fundido que eles possam
encontrar, mas nunca onde, como quando no interior, eles não têm certeza de que vão
permanecer neste ponto por algum tempo.”188

Ancinho - Mardi, Níger
(RAYNAUT, 1985, p. 529)

Ancinho típico da África Ocidental
Foto tirada no Sul dos Estados Unidos
Caroline Atwater (fotografada) – 1939
Farms Security Administration photographs coll. Library of Congress
(http://www.cr.nps.gov/crdi/publications/Africanisms-Chapter1.pdf)

187
Boa parte dos povos não bantos, por exemplo, os Khoi e os San do sudoeste africano viviam no modo
de subsistência como caçadores-recoletores. Portanto, a vida parcialmente nômade dessas povoações
implicava numa diminuição do peso de carga ao se transferirem para um novo ambiente. Bigornas e
outros implementos feitos de ferro eram mais comuns entre diferentes povos Bantos e fizeram parte da
difusão da tecnologia do ferro na história de sua expansão migratória pelo Centro-Sul africano. Já dizia o
grande poeta "navegar é preciso, viver não é preciso", isso mais ou menos já estava incutida na alma
banta cuja experiência migratória e a sua gradual dominação das populações não bantas demarcaram para
sempre as terras subsaarianas com sua marca altamente indentificavel, mesmo no milênio seguinte à sua
expansão "Por mais distantes que fossem as terras atingidas, conservava-se o sentimento de
“bantuidade”: ser bantu significava emigrar sempre, levando consigo um saco de sementes e algumas
ferramentas para preparar o terreno e cultivar; fixar-se temporariamente em vez de se estabelecer
definitivamente em povoados estáveis."(História Geral da África UNESCO Vol. II p.644)
188
The Last Journal of Livingstone in Central Africa from 1865 to his Death: continued by a narrative of
his last moments and sufferings, obtained from his faithful servents Chuma and Susi, By Horace Waller
Vol. 1 John Murray, Albemarle Street: London, 1874.
http://catalog.lambertvillelibrary.org/texts/English/livingstone/last/vol1.htm
110
Essa técnica foi utilizada também por alguns Iorubanos de áreas remotas, que a
cerca de cem anos utilizavam principalmente o pau-de-escavar e ferramentas de pedra
no cultivo intensivo de nhame. Também o povo Hadza ou Hadzabe da Tanzânia fazem
uso desta ferramenta na colheita de tubérculos.189 Mas o padrão de uso da terra varia
não só de um grupo para outro, mas também dentro de um único grupo. Deste modo, as
diversas influências externas e internas, as guerras locais, etc são elementos que
induzem a modificações estruturais nas técnias de plantio. Ferramentas como o pau-de-
escavar, assim como o ancinho, o alfanje (ou foices africanas semelhantes às facas de
arremesso), tiveram desenvolvimento independente e apareceram como substitutos de
instrumentos similares feitos somente de madeira (lei do menor esforço), mas tiveram
uma função significativa e de forma alguma arbitrária nas plantations das américas
colonais.

O Pilão – Assim como boa parte da cultura material da África fora do
continente, o Pilão brasileiro, embora tenha uma origem incontestavelmente africana190,
comunga com instrumentos indígenas tanto formalmente quanto tecnicamente na sua
função. É por isso que a memória indígeno-africana, vistas agora como uma só maneira
de ser brasileira, pode nos ajudar a ressalvar uma memória ancestral de tradição e de
caráter, singularidades humanas fundamentais. A cultura proletária brasileira abocanha
as etnicidades e encontra seu fundamento material e social na comunhão indígeno-
africana. A própria designação governamental dos “seres livres”, autosuficientes e
autônomos no período escravista, que eram as comunidades quilombolas, tiveram no
ano de 1740 sua definição associada ao uso do pilão, como significante de sua
autonomia alimentar. O conselho ultramarinho, ao reportar ao rei português sobre
aqueles pretos que ousaram resistir à escravidão os definiam da seguinte maneira.
Quilombo seria: “toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte
despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele191.
Naturalmente, a noção de autonomia dos quilombos foi sendo estabelecido pela
historiografia apenas mais recentemente192, no entanto esses relatos mais antigos trazem

189
VICENT, A. S. Plant Foods in Savanna Environments: a preliminary report of tubers eaten by the
Hadza in Northern Tanzania. World Archaeology, 17, 2: 131-148, 1985. Para um rápido olhar em relação
a alguns sistemas agrícolas africanos vejam:
http://www.anistor.gr/english/enback/2011_2v_Anistoriton.pdf
190
Assim como muitas tradições saarianas e subsaarianas informaram a cultura egípcia de algum modo, a
influência de superstrato egípcio também deve ter causado grande impacto na cultura material dos povos
mais ao sul do continente. Esses vínculos materiais e espirituais pode-se dizer são comparáveis aos
perseverantes vínculos atlânticos, mas não é meu interesse aqui fazer estas indicações. Recolho à
insignificância das minhas pesquisas nessa área a alguns poucos textos sobre o Egito antigo que fazem
referência ao uso do pilão. No caso, para pilão utilizado na técnica de tinturaria para papiros ver:
MASPERO, G. C. Manual of Egyptian Archaeology and Guide to the Study of Antiquities in Egypt. For
the use of students and travelers. Translated by Amelia B. Edwards, 1895. p.170
http://www.gutenberg.org/files/14400/14400-h/14400-h.htm#page_170 e, para pintura egípcia tumular
com imagem de dois indivíduos pilando, entre outros exemplos mundiais do uso do pilão:
http://bigai.world.coocan.jp/msand/miwa/e_implement.html e, por fim, para uma variedade de imagens
sobre a cultura material, vejam este livro sobre história da arte egípcia:
http://www.gutenberg.org/files/40144/40144-h/40144-h.htm
191
TELLES, Norma A. Cartografia Brasilis, ou, Esta História está Mal Contada p. 83
192
Não posso deixar de destacar o pioneirismo de Clóvis Moura em livros como Rebeliões da Senzala
(1959), que se apoiava em trabalhos mais antigos de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edison Carneiro e
Donald Pierson. Atualmente nomes como João José Reis e Flávio dos Santos Gomes, entre outros
também devem ser lembrados no estudo desta temática que é até bastante estudada. Ver:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n10/16889
111
indicações da cultura material africana no Brasil e podem servir de base comprobatória
da antiguidade do uso deste utensílio doméstico: “ ‘o aspecto material da República [de
palmares] era mais ou menos idêntico ao de muitas aldeias de tribos africanas. As
casas espalhadas, sem obedecerem a nenhuma simetria, cobertas de palha ou outras
matérias da região. Praticavam, além de agricultura, cerâmica: panelas e vasos de
barro, cuias de coco, faziam cestos, trabalhavam a cabaça e fabricavam esteiras,
abanos etc. Eram polígamos… tinham muitos escravos que trabalhavam na
agricultura”193.

Em Cabinda, uma das regiões de
nossos ancestrais comuns, “Pilão” se diz
“Kivo” (pl. Bivu), caracterizado
(MARTINS, 1968 p. 94) como “‘Almofariz’
de pisar o dendém”, ou ainda “Nsuá-Ngázi”
(Idem,Ibidem, p. 564). A “M’benga” é o
almofariz banto de Moçambique para moer
milho, mapira e amendoim...a tradição de
produzir alguidar, gamela e outros utensílios
culinários foram amplamente difundidos no
Brasil colônia e constituem a simbiose mais
perfeita entre as tradições indígenas e
africanas. Também porque, tal como mostra
a cena egípcia abaixo, certos tipos de pilões
certamente tiveram desenvolvimento
independente em diversos locais do globo.
Porém, seja no uso de almofarizes de pedra,
machados, mós, trituradores (Costa e Silva,
1992, p.343 e ss.) ou mesmo no nosso
afetuoso pilão, a cultura material africana se
fez valer no novo mundo no momento
adequado á sua utilização tecnológica,
anterior às grandes transformações
industriais da era moderna. Até por isso, o
grau de influência africana no Brasil do
passado tendeu a ser expansiva e não
localizada, positivamente precisaríamos apenas conhecê-la melhor, mas, por sua vez, o
grau de influência presente e futura, tende a ser reduzida, graças também ao rolo
compressor da modernidade.
A Pilagem do café (e do arroz) foi inicalmente feita com o “pilão”, de onde,
inclusive, adveio o termo “pilagem”. Esse importante instrumento africano foi
amplamente utilizado no início da colonização e, juntamente com a “enxada” e a
“bateia” é outro exemplo de objeto da cultura material africana que fincou raízes
permanentes no Brasil. Vale destacar que ambos os objetos fizeram parte ainda da
cultura material de outras regiões escravistas das Américas.

193
MOURA, C. Rebeliões na Senzala p. 87. Apud. TELLES, Norma A. Cartografia Brasilis, ou, Esta
História está Mal Contada São Paulo: 3ª.Ed. Loyola, 1996, p. 83
112
Difusão do Pilão

PERROT, G. & CHIPIEZ, C. A history of art in ancient Egypt, Vol. I (of 2). Trans. Sir Walter
Armstrong. London:Chapman and Hall ltd., 1883. Fig. 24. Este quadro do cotidiano egípcio não
traz propriamente o pilão, enquanto um instrumento pilagem de grãos, mas padeiros no trabalho.

A origem concreta do pilão é pré-histórica. Embora seja possível supor que ele
faça parte do rol de instrumentação e implementos que surgiram a partir da revolução
neolítica, somente o trabalho arqueológico será capaz de definir algumas hipóteses
sobre sua difusão no território africano194. A relativa facilidade técnica que se tem de
produzir o instrumento tornou acesível sua difusão por grande parte do território do
continente graças ao comércio, migrações, transmissão tecnológica e o advento
independente de tipos específicos de pilões que, ademais, podem ser encontrados em
todos os continentes195. Posteriormente, com o advento da escravidão, a técnica de
produção de tipos específicos de pilões se difundiu também por grande parte das
Américas. A seguir apresentamos algumas fotografias, desenhos e gravuras que
mostram o uso do pilão em seu contexto africano e afro-americano. O estudo da cultura

194
Teoristas da conspiração o fazem recobrar até 55 milhões de anos, mas isto se trata mais de um
despropósito teórico do que um mistério da ciência arqueológica, como querem afirmar alguns textos sem
credibilidade teórica (não que isto seja um problema para mim, bem entendido) :
(http://www.talkorigins.org/faqs/mom/mortar.html e
http://www.treasurenet.com/forums/california/118754-mortar-pestle-table-mountain-dating-33-55-million-years-old.html ).
195
Minha companheira, por exemplo, usa na cozinha a tigela “suribachi”, pilãozinho japones, sem o qual,
segundo ela, certos alimentos não podem ser preparados. Seria como se tentássemos fazer caipirinha sem
um socador e copo (ou pilãozinho) de madeira, atestando em todos esses casos mudanças significativas
no bom gosto culinário. Culturas pré-hispânica da mesoamérica, como os Incas e os Astecas utilizavam o
“molcajete e o tejolote”, esculpidos tradicionalmente a partir de um bloco de basalto (ADAMS, Richard
E.W. Prehistoric Mesoamerica Norman: 3rd ed. University of Oklahoma Press, 2005). Afrescos italianos
datados dos séc. XV e XVI descrevem o uso de almofariz nas lojas de apotecários e farmácias medievais.
(ver: LEGGE, M. Apothecary's Shelf: Drug Jars and Mortars 15th to 18th Century . National Melbourne:
Gallery of Victoria, 1986). Acrescentem-se a estes os almofarizes romanos, indianos, indígneas e
tailandeses. Por fim, a diversidade mundial do instrumento nos induz a distinguir o almofariz (mais
universal, por assim dizer, relativamente pequeno porque restrito ao uso na prensagem de ervas,
temperos, sementes e outros alimentos de pequena tamanho e escala) do pilão propriamente (de histórico
restrito, embora com desenvolvimento independnete em algumas partes, mas uma peça relativamente
maior porque restrita ao uso na prensagem de grande quantidade de cereais e de outros alimentos de
maior escala, e ainda usado na prensagem de barro – para tecnologia cerâmica ou na construção
arquitetônica) – Sendo este último utensílio propriamente o africano que acabou por receber afluxo nas
Américas durante a época colonial.
113
material do pilão (em ambas as suas principais partes: a base, o almofariz e o pau-de-
pilar, o pistilo) poderá descrever e analisar comparativamente suas formas, tamanho,
estrutura geral, as modificações de uso em diferentes cereais, folhas e outros alimentos,
tipos de madeiras usadas, reformulações e novas adaptações no novo mundo.

Afresco Italiano figurando o uso de um almofariz, (à direita) – Séc. XV-XVI
http://viticodevagamundo.blogspot.com.br/2013/09/medieval-and-renaissance-pharmacy.html

Cartão postal Costa do Marfim
Laguna – Preparação do fufu (às margens da Laguna)
Co. L. Météyer, Grand-Bassam (sem data)
114
O pilão foi relativamente bem utilizado nas Américas em geral. Por exemplo, na
Colômbia, Cuba e República Dominicana, sendo neste último caso relacionado à
preparação do típico fufu, mas aparece também em outros países da América do Sul
como a Venezuela, por exemplo.196 Ele foi um instrumento muito comum nas ilhas do
caribe, mas também ocorreu no sul dos Estados Unidos197, local onde o pilão foi
bastante utilizado, especialmente para descascar arroz ou ainda na debulha do trigo:

Cena de colheita – Africa Oriental Mulheres Swahili Pilando milho - Zanzibar
KINGSTON, W.H.G. & LOW, C.H. Great African Travellers:
From Mungo Park To Livingstone And Stanley Cap. XIV. 1890.
http://www.gutenberg.org/files/21391/21391-h/21391-h.htm

196
Os termos utilizados no contexto castelhano são “Mortero; Pila; Pilón, Pilau, Pelao, etc.” OSSA, G.P.
Fogón de Negros: Cocina Y Cultura en Una Región Latinoamericana Bogotá: Convenio Andrés Bello,
2007, p. 97-98. Ver também para Honduras:
http://www.letrasdehonduras.com/templates/paginas/ficha.php?obra=trafico-de-esclavos-negros-a-
honduras ; (para o Peru) http://webyapatera.galeon.com/instrucultural.html ; (para Porto Rico)
http://www.terra.com/mujer/articulo/html/hof2347.htm; (para Cuba) LARA, O.H. De Esclavos e
Inmigrantes – Arqueología Histórica en una Plantación Cafetalera Cubana. Buenos Aires: 1ed. Centro de
Investigaciones Precolombinas, 2010. p. 131. Ver ainda: VILLAPOL, Nitza. Hábitos Alimenticios
Africanos en América Latina, en MORENO FRAGINALS, Manuel (comp.) África en América Latina,
Paris-México, UNESCO-Siglo XXI, Editores. p. 332.
197
Outros exemplos e relatos interessantes da cultura afro-americana podem ser encontrados na
bibliografia quilombola daquele país: MULROY, Kevin. Freedom on the Border: The Seminole Maroons
in Florida, the Indian Territory, Coahuila, and Texas. Lubbock: Texas Tech University Press, 1993;
PORTER, Kenneth Wiggins. The Black Seminoles: History of a Freedom-Seeking People. Eds Thomas
Senter and Alcione Amos. Gainesville: University of Florida Press, 1996; FOSTER, Laurence. Negro-
Indian Relations in the Southeast. PhD. Dissertation, University of Pennsylvania, 1935; SIMMONS,
William. Notices of East Florida. 1822. Intro. George E. Buker. Gainesville: University Press of Florida,
1973; HANCOCK, Ian F. The Texas Seminoles and Their Language. Austin: University of Texas Press,
1980. CRISTIANI, B. C.; LÓPEZ, A.L.; LASTRA, R.P. (Eds.) Migración, Poder y Procesos Rurales.
PIV – Editores; Casa Abierta al Tiempo, p. 257.
115
Pilando o arroz - Carolina do Sul
Georgia Department of Archives and History198

Muito ainda pode ser dito desta cultura material a partir de implementos
agrícolas, já que o trabalho braçal foi, sem dúvida nenhuma, o foco principal do
trabalho africano nas Américas. Nesse sentido, essa investigação está apenas em seu
começo. Mas, enfim, por vezes somos limitados não só por uma bibliografia ou pela
ausência de fontes primárias ou pesquisas de campo mais bem documentadas. Ocorre
também que não termos condição de abraçar um mundo que é maior que nossos
próprios braços. Sendo assim, já que considerava desde o início de minha pesquisa para
a formulação deste texto, que ele serveria apenas como um subsídio introdutório para os
estudos sobre as tecnologias coloniais de influência africana, eu me apoio, então, num
ditado Cabinda que cita uma ferramenta chamada Lukondo, que é uma espécie de
gancho com o qual se pode apanhar frutas que não estão ao alcance da mão. Vana ka va
baki koko: tula lukondo “Onde a mão não chega, use um gancho”; significando “quem
quer obter determinados fins, tem de usar meios proporcionados. E se, por si mesmo,
não pode dispor desses meios, peça a quem lhe possa valer”. (MARTINS, 1968 p. 167)
Se a alguém este chamado valer, listo a seguir alguns objetos da cultura material
africana dignos de se identificar dentro da historiografia, relatos de viajantes,
inventários, testamentos, cartas, literatura de época e em remanescentes de quilombos,
informações sobre a forma, o material, o uso, a técnica de produção entre outras
informações que puderem coletar a respeito dos construtos e equipamentos da cultura
material africana e afro-brasileira. Dentre os artigos não religiosos que mal foram
tratados aqui destaco:

Estilingue (O Museu de Arqueologia e Etnologia MAE/USP, possui alguns exemplares
africanos)
Fabricação e uso de corda/tecidos/vestimentas/teares/agulhas/
Travesseiro/esteiras/cama
Mochila (Maxila no quimbundo, ou “Mutete” aos Balundos)199
Cadeira/banco/liteiras e cadeirinhas de arruar/
Joias e adornos/ Chapeus e bonés/ pentes/
Enxós/foices/limas/facas de serra/ martelos/ bigorna/goiva /alavancas /machados/pás/
Redes de pesca/arcos e flechas /escudos/

198
http://www.unf.edu/floridahistoryonline/Plantations/plantations/Rice_Cultivation.htm
199
CASCUDO, Luiz Câmara Made in Africa – pesquisas e notas. Rio de Janeiro: Ed. Civilização
Brasileira, 1965. p. 70.
116
Jarros/potes/ moringas/
Pratos/garfos/facas/colheres/panelas/ cutelos de madeira/ potes/ cestos/cuias/
balaios/peneiras/ alfaias/gamelas/ etc.
Moendas/
Tipitis /
Cuscuzeiros/
Coxos/
Covos/
Jiquis/
Instrumentos Musicais
Monjolos do norte africano e egito (compara-se aos monjolos Quilombolas como em:
http://issuu.com/instituto-socioambiental/docs/pdf-publicacao-final_inventario
Alfaias de madeira/moais (manguais) / crivos para debulhar o trigo (Portugal)
Almocafres/bateias/corumbés/
Pinças (tweezers) / cinzel/ alicates/plainaderas/
Breu/combustiveis/óleos/unguentos harbários/ tecnologia lítica moderna – ex. uso de
pederneira de sílex200 etc.
Estandartes e outros objetos associados à festividades populares
Outros elementos da cultura material relacionadas à religiosidade; práticas funerárias e
superstições que envolveriam uso de objetos.

2.1 Mestres da Medicina Tropical

Naturalmente, a área da medicina tropical é uma das principais forças da
tecnologia não-europeia nos trópicos. A falta de conhecimento europeu das doenças
tropicais durante o colonialismo na América Latina só foi paulatinamente dirimida por
meio da transmissão de tecnologia promovida por técnicos africanos e sobretudo pelos
maiores técnicos herbais da história dos trópicos, os curandeiros e pajés indígenas. O
modelo de transmissão tecnológica indígena segue até hoje a padrões milenares: o
momento da cura é o momento da transmissão deste saber. Mas como é possível a cura?
Que espécie de magia é esta cujo fundamento tecnológico distingue sob o signo natural
os sãos dos doentes? Determinadas ervas têm determinadas funções e ainda que sejam
inclusas nas estatísticas dos placebos, certas ervas continuam tendo seu poder
tecnológico, isto é, mágico. Nos séculos coloniais o combate às doenças tropicais exigia
uma ciência tropical. O conhecimento indígena nessa área sempre foi notado pelos
ibéricos, ainda mais quando este saber foi complementado com as práticas curativas
africanas (muitas das quais viraram religião na porção norte do país) parte desta
metodologia empregada no uso de certas ervas e plantas medicinais por indígenas e
africanos foi incorporada com bastante frequência no Brasil e em outras regiões das
américas. Para dar início com apenas um exemplo, o uso da planta Maxixe na cura de
doenças estomacais tem amplo e semelhante uso tanto na África tradicional subsaariana

200
Tratei disso em texto apenas en passant ao descrever do emblema do rei daomeano Dakodonou:
pg. 07. Cf. KI-ZERBO, J. História Geral da
http://pt.scribd.com/doc/95189925/Parasol-Do-Benin-e-Seus-Emblemas
África – Metolodologia e pré-História da África vol I Brasília: 2a. Ed. UNESCO, 2010. pp. 270; 580;
706; 720 etc.; Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU
117
de cultura banto (desenvolvida em regiões de procedência original da planta) quanto no
nordeste do Brasil201.
Entre outros males físicos e mentais que lhes acometeram, a doença tropical é o
verdadeiro sarcófago do homem branco na África. Foi só depois do desenvolvimento de
técnicas medicinais específicas que o desbravamento da África se tornou possível. No
início do contato europeu na África, ou melhor, no início, no meio e quase no fim, a
penetração político-militar-cultural so encontrou espaço tardiamente. Uma das razões
disso eram as doenças tropicais, para os quais os europeus não tinham defesa,
praticamente. A medicina europeia às voltas das teorias dos humores e da visão da cura
Galeano-hipocráticas, contrapunham os vapores da bilis através do reequilíbrio
proporcionado pela dieta, pela purgação, pelo vômigo e/ou pelo sangramento. Do lado
de cá do atlântico, parte desta magia fora tecnologicamente transmitida para os
curandeiros negros, por vezes chamados “Barbeiros”, mas que tinham por ocupação
fazer os doentes sangrarem a fim de se obter a cura. Uma magia portuguesa esta que
parecia não ser alheia aos africanos202, mas estes preferiam praticar largamente suas
próprias magias a revelia de serem obrigados a praticar a magia dos brancos que eles
chamavam pelo nome estranho e obscuro de “ciência médica”.
Não sabemos muito, por outro, sobre os conteúdos, significados e usos da
tecnologia africana de cura usada nas Américas. Um dos motivos levantados, um que
certamente parece ser decisivo é que certas práticas de cura representavam “medicinas
secretas”. Além disso, a proibição ao “curandeirismo” foi prática legal autoritária
comum à maioria dos países americanos em que houve escravidão. Alguns dos
principais elementos que levaram à estas proibições podem ser indicados. De um lado,
têm-se a argumentação higienista de que as metodologias de cura e espiritualidade
africanas remetiam a problemas relativos à higiene e saúde pública, e de outro, tanto o
medo do envenenamento quanto o aumento do poder do escravo em si mesmo em
função do aumento do nível de autonomia dos negros, com o uso de sua tecnologia de
cura (enquanto resistência escrava) puderiam de algum modo por em cheque a
autoridade e a tradição medicinal dos senhores.
Mas podemos dizer de maneira geral que a medicina tradicional africana
desenvolveu também, ao longo dos séculos ações terapêuticas eficazes registradas que
incluem o uso de antídotos, cataplasmas, cauterizações, dietas alimentares, emplastos ,
fricções, fumigações, inalações, infusões, loções, sangria203. No verbete “Medicina
Popular” do seu importante “Dicionário do Folclore Brasileiro” Luis da Câmara
Cascudo afirma que os africanos “trouxeram banhos, gorduras animais para fricções,
jejum dietético, reminiscências do ramadã, unguentos aquecidos, maior volume de
remédios ingeríveis, cataplasmas, vomitórios, purgativos, defumação médica, banhos
quentes, outrora herança moura, vulnerários, ataduras com ervas esmagadas para
úlceras, tônicos, suadouros, sarjadoras e emolientes prévios, afrodisíacos, vermífugos.

201
http://database.prota.org/PROTAhtml/Cucumis%20anguria_En.htm Ver também: GREIME, William Ed, Ethno-
Botany of the Black Americans Algoniac, Mich.: publications, 1970 Apud: Joseph E. Holloway African
Contributions to American Culture. P. 10 (disponível em
http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture
202
Tentarei mostrar alguns exemplos mais adiante, por isso considero discutível o que atesta Fontenot de
que as noções de sangria, sangramento e corte cirúrgico, salvo raras excessões, eram em geral estranhas
para as tradições africanas ocidentais de cura. Ver: FONTENOT, W Secret Doctors: Ethnomedicine of
African Americans. Westport, CT: Bergin & Garvey, 1994. Cf. COVEY, Herbert C. African-American
Slave Medicine Herbal and non-Herbal Treatments. Plymoutn: Lexignton Books, 2007 p.48-49.
203
LOPES, N.Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro Editora, 2004. p.
432.
118
Na África a fauna comporta grandes mamíferos, elefantes, hipopótamos, rinocerontes,
búfalos, macacões possantes. Nos rios bóiam crocodilos imensos e nas fozes dormem
os nédios dikunges, peixe-boi, tendo todos funções terapêuticas, mágicas, opoterápicas.
Leões, girafas, zebras, leopardos, são farmácias vivas. Para a ameraba, os animais de
vulto avantajado, peixe-boi, anta, pirarucu, praticamente são inúteis para combater
doenças. Todas as aplicações são recentes e de sugestão branca e mestiça de branca. (...)
os amuletos medicamentosos serão africanos, réplica de relíquias cristãs dos santos-
terapeutas, Cosme, Damião, São Bento, São Bráz, Sta. Apolônia, Sta. Luzia, São
Roque, São Sebastião etc. Assunto excelentemente estudado pelo doutor A. Castillo de
Lucas204. (...) quem vulgariza as plantas populares, arruda, alecrim, manjericão é o
escravo negro. O indígena não conseguiu impor a jurema, viva apenas nos catimbós e
nos candomblés-de-caboclo, sem a expansão das demais, fixados por Debret. Entre um
indígena-ancião e o negro-velho, o interesse do povo ambienta o segundo, numa
irresistível atração misteriosa, julgando-o guardião de fórmulas miríficas e fiel
intérprete da sabedoria africana, oculta e defendida da curiosidade dos brancos205. Mas
o próprio Luiz da Câmara Cascudo demonstra em outro lugar que o Catimbó teve seu
segredo mesclado em simbiose com o segredo africano ao fazer a pequena lista da
farmacopeia dos Catimbós. A Arruda, Ruta graveolens – é um abortivo (mau-olhado); a
Alfazema, lavandula vera - chá para cólicas intestinais; o menstruz, chenopodium
anbrosioides é um vomitivo206 e também um Vermífugo. O Malungú207 Erytrina
carallodendron utilizada como erva peitoral, calmate, emoliente. Usa-se o chá para
fazer o controle de excitações nervosas agudas. A Jurubeba Solanum parriculatum
utilizada contra doenças no fígado e baço como desobstruinte208. Erva Cidreira Melissa
officinalis na verdade é um sedativo, usado como calmante e também para o desarranjo
intestinal. O Agrião Nastrutium officinalis, planta utilizada contra tosses é um
fortificante dos bronquios e pulmões - carminativo. Por fim, o Dendê é usado em
fricções contra ataques reumáticos. (CASCUDO, L. da C. In: FREYRE, G. Et. Al.
Novos Estudos Afro-Brasileiros - Biblioteca de Divulgação Científica Vol. IX –
Trabalhos apresentados ao 1º. Congresso Afro-Brasileiro do Recife. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1937 p.91-92). No final deste texto faço uma lista não exaustiva
plantas medicinais utilizadas na tecnologia herbal africana mais comuns, que incluem
ainda anti-espasmódicos, anti-inflamatórios, anti-infecciosos, mais diversos, mas

204
Folklore Medico-Religioso, Madrid, 1943.
205
CASCUDO, L. da Câmara. (1898-1986) Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Edusp, 1988.
p. 487-88.
206
Entenda-se, tanto na cultura indigenas diversas quanto nas culturas africanas em geral é subentendido
que as doenças são causadas por forças externas (que, em nossa ingenuidade e por falta de vergonha na
cara antropológica, chamamos apenas de “espíritos” ou “forças” negativas”) que causam desequilíbrio
corporal e consequentemente doenças. Os vomitivos, remédios que aparecem em abundância em todas as
culturas (incluíndo a europeia tradicional) funcionam como purificadores).
207
Por favor, não confundir com “Malungo”, se vocês forem inexperientes na cultura afro-brasileira
(naturalmente, que eu escrevo principalmente a vocês ) saibam que “malungo” significa “companheiro”
ou “conterrâneo” ou ainda, “companheiro de travessia atlântica” (como quis, mais ou menos
apropriadamente, Robert Slenes com seus textos de títulos maravilhosos). Erytrina carallodendron (cujo
sinônimo heterótipo é a Erythrina abyssinica Lam. ex DC. – encontrada não só na Etiópia, mas também
no Zimbabue e em Moçambique.)
208
Cf. COVEY, H. 2007 p. 82, que indica o uso da planta Solanum dulcamara contra reumatismo e outras
doenças. Solanum Panduriforme que ocorrem na Namíbia, África do Sul, Suazilândia e Botsuana, tem
uso veterinário e como pesticida natural.
http://www.prolinnova.net/~prolin/sites/default/files/documents/S_Africa/2010/the20use20of20solanum20to20control20nasal20wor
m.pdf (pp.13-14)
119
também tônicos, anti-diabéticos, anti-adico, anti-concepcional, purificador sanguíneo,
antídoto, abortivo, vermífugo, carminativo, cicatrizantes, incenso, cosméticos etc.

Mãe Bakuba aplicando medicamentos por
meio de enema, no ânus do filho
Kuba klistier – DELACHAUX, T. & Thiebaud.
Land Und Volker von Angola Neuenburg: Viktor
Attinger, 1934. Platte 30

As formas de uso herbal no
contexto da medicina colonial se
distinguia em suas fontes. O uso das
tradições indígenas sempre esteve
numericamente em vantagem em relação
a todos os outros métodos. Em seguida,
dada a ausência de médicos que pode ser
verificada ainda hoje, as adaptações
populares de tradições portuguesas,
indígenas e africanas compõe
numericamente o quadro do uso
medicinal de plantas, não só do ponto de
vista do de uma planta específica, mas as
técnicas do preparo e dosagem também se
confundiram. No que diz respeito à
cultura herbária africana, três aspectos
devem ser destacados. A) o uso de
plantas importadas da África (incluíndo
aquelas de origem asiática que milenarmente fora levada à África antes da chegada dos
europeus). B) o uso de plantas tropicais do Brasil de famílias semelhantes às africanas
ou de novas descobertas medicinais no novo mundo. C) Adaptações das tradições
herbárias indígenas. Judith Carney, do departamento de Geografia da Universidade da
Califórnia, ao analisar em artigo o conhecimento herbal africano tradicional no Caribe,
indica que “plantas africanas entraram nas Américas repetidamente ao longo do
período de 350 anos do comércio de escravos no Atlântico, que lançou pelo menos dez
milhões de pessoas em cativeiro. Chegando a bordo de navios negreiros como
alimentos e medicamentos, as plantas foram cultivadas por africanos no novo mundo
em campos de provisão em plantations, terrenos de jardins e em lotes de subsistência.
Desta forma, mais de cinquenta espécies nativas da África, se tornaram parte dos
recursos botânicos circum-Caribenhos (circum-Caribbean)209”

209
CARNEY, J. A. African Traditional Palnt Knowlege in the Circum-Caribbean Region. Journal of
Ethnobiology 23 (2): 167-185, 2003, pp.169-70. Consulte também Idem, Ibidem, pág. 179 a respeito de
plantas erroneamente identificadas como asiáticas, mas que são africanas.
120
Clister (Enema) Bakuba
Museu do Brooklyn, Séc.XIX

Já é antiga a confirmação científica das tecnologias africanas no campo da
medicina, no entanto, essas especificações não são devidamente referenciadas, agora
não mais em função do colonialismo de fato, mas um colonialismo mental que induziu
historicamente os pesquisadores no campo fármaco a utilizar o conhecimento e
tecnologia indígena e produzir o seu próprio como se este fosse autoreferente e
conquistado por si só. Por outro lado, historiadores da tecnologia farmacêutica,
“ethnomédicos”, por assim mal dizer, cientistas ligados ao estudo das propriedades
medicinais e herbalistas em geral têm identificado, por meio da exclusão do placebo e
da confirmação científica, que a cultura tradicional africana e indígena contribuiu
decisivamente na luta contra determinadas doenças tropicais e tem muito a contribuir
com experiência empírica independente, isto é, que não precisou passar por órgãos de
recomendação ou de controle experimental; enfim, contribuindo para com o
desenvolvimento da tecnologia universal.
Além disso, o estudo sincero sobre a influência do conhecimento farmacológico
tradicional na produção de remédios receitados por médicos no ocidente (medicina
“alopatética”) revelaria possivelmente um mundo por detrás de um mundo. No limite,
todo mistério se funda e se finda no princípio ativo. Na medida em que a solução do mal
é o objetivo último, tanto a magia quanto a tecnologia serão não só parceiras
fundamentais, mas se mostrarão ambas para si, como imagens refletidas num espelho.
Eu evitarei tratar deste tema aqui, simplesmente para evitar que este texto
contenha mil páginas. Mas, a propósito, o termo φαρμακός (pharmakós)210 provém da
antiga religiosidade (superstição) grega e se referia a um sacrifício ritualístico ou a um
exílio. Os feiticeiros exerciam sacrifícios purgativos de bodes expiatórios ou de seres
humanos eram chamados de pharmakon e suas vítimas eram chamadas de pharmakoi.
{De modo semelhante se convoca o feiticeiro (médico) em relação à sua vítima
(paciente), não há pharmakon possível que não seja, como dizíamos no budismo da
Soka Gakai, “a transformação do veneno em remédio”, no caso a “purgação dos
males”}. A concordância do Dr. James Strong (1822-1894) em relação à tradução
exaustiva de todo léxico da Bíblia “do Rei Jaime I”, palavra por palavra, dá conta das
seguintes interpretações amplamente aceitas:

210
http://en.wikipedia.org/wiki/Pharmakos#cite_note-1
121
5331 φαρμακεια pharmakeia, far-mak-i'-ah; do léxico bíblico 5332; medicação
(“medicamento” – “pharmacy”) [farmacêutico - pharmaceutical]) i.e. (por extensão.)
mágica (literal ou figurado):- feitiçaria, bruxaria.
5332 φαρμακενς pharmakeus, far-mak-yoos'; do léxico bíblico φαρμακον pharmakon
(uma droga [ou remédio] i.e. conjurar um feitiço ao dar uma “poção” ou “filtro”); um
boticário - a druggist (“Farmacêutico” – “pharmacist”) ou envenenador, i.e. (por
extensão) um mago - a magician:- feiticeiro.
5333 φαρμακος pharmakos, far-mak-os'; o mesmo que em 5332:- feiticeiro. (Pharmakos
prática ritualística do feiticeiro na Grécia antiga sobre a vitimização do chamado “bode
expiatório”211. Analogamente, o que viria a ser, a decisão política do “ostracismo”
(banimento social) senão o repúdio do contexto civilizatório daqueles tiranos e
aristocratas que não compreenderam o significado do termo “democracia” e “vida em
sociedade”? Isso vale para a África, mas vale, como vimos desenvolvendo, para o
mundo inteiro, porque, no limite, os feiticeiros não fazem parte da religião, não fazem
parte da sociedade – porquanto privatizam os bens naturais para seu uso particular. O
uso coletivo da “cultura coletiva” (pleonasmo) medicinal reside na única estrutura
possível da política que é a democracia.
Dezenas de exemplos de plantas utilizadas por africanos com função
científicamente comprovada podem ser identificados dentro da literatura médica e nos
compêndios herbais. Por exemplo, por volta de 1730, um medicamento para atenuação
da febre resultante da malária foi desenvolvido por um africano ocidental nascido em
cerca de 1690 cujo nome era “Quassi” (“Quacy” ou “kwasi”) e que viveu no Suriname
como escravo . O maravilhoso poeta e pintor William Blake (1757-1827) o retratou
tardiamente num livro que dividiu com o Capitão de uma brigada da Holanda John
Gabriel Stedman (1744-1797), quem escreveu “‘Narrative, of a five-years' expedition
against the revolted Negroes of Surinam”, publicado em francês pouco antes de sua
morte. Conta-se que ele utilizou seu conhecimento herbal retirando a casca da planta
para produção de um remédio contra a malária. Um suísso chamado Carl Linaeus,
classificou a planta batizando-a parcialmente com o nome do africano "Quassia Amara",
tornando a primeira planta (e única planta, até onde eu sei!) cujo nome foi batizado "em
honra" a um ex-escravo...(eu me restringirei a este nome, para não incorrer na ingratidão
de supor que tenha sido a única planta a ser batizada em honra de um "africano", já que
o preconceito histórico se encarregou de nivelar como sinônimos os termos "escravo" e
“africano”)212.
Quassi trabalhou para a colônia holandesa por cerca de 60 anos como médico,
conquistando a admiração de brancos, negros, escravos e livres, servindo muitas vezes
como negociador entre a colônia e os quilombos.
Foram os Indios Quechua peru-bolivianos que descobriram os valor medicinal
contra a malária na a casca de uma planta de nome “Cinchona” ou "Chinchona", fonte
do princípio ativo conhecido por nós como “quinino”. Sim, o mesmo componente da
“Schweppes” e da maravilhosa “água tônica”, também invenção dos Quechua. O

211
Platão também, enquanto um aristocrata alucinante, não foi muito além quando expulsou os poetas de
sua República ideal (Livro X). Por vingança, Jacques Derrida desconstrói o “Fedro” e expulsa da vida
Platão, em sua violência filosófica das oposições conceituais entre veneno/remédio; bom/mal;
verdadeiro/falso; positivo/negativo; interior/exterior etc. cer
http://thowe.pbworks.com/f/derrida.platos.pharmacy0001.pdf Ver também: DERRIDA, Jacques,
Dissemination, translated by Barbara Johnson, Chicago, University of Chicago Press, 1981.
212
Ver: CARNEY, Judith & Richard Rosomoff. In the Shadow of Slavery: Africa’s Botanical Legacy in
the Atlantic World. Berkeley: University of California Press, 2009, p. 90.
122
conhecimento tecnológico dos índios peruanos foi exportado de Lima para Espanha e
posteriormente para a Itália e outras partes da Europa, por volta de 1630 ou 1640, onde
virou secredo de estado entre os Britânicos (que viriam posteriormente a criar enormes
Plantations de quinino na Índia, sobretudo para defender seus soldados coloniais da
mortal doença).
Alguns botânicos
reconheceram a eficácia da
casca de cinchona na
diminuição dos sintomas de
febre intermitente produzida
pela malária. Missionários
jejuítas no Peru próximos à
região de Loxa, identificaram
a cura desta doença nas
práticas médicas dos
curandeiros indígenas que
prescreviam a casca de
cinchona. Já em 1677 a
“London Pharmacopeia”
registrava o uso desta casca no
tratamento contra malária. O

“O Celebrado Graman Quacy”(ca.1690 – ca. 1780) primeiro episódio intrigante de
cura entre a elite britânica
https://en.wikipedia.org/wiki/File:Celebrated_Graman_Quacy.JPG
ocorreu com Charles II da
Inglaterra (1630-1685), que se curou milagrosamente por meio de Robert Talbor (a
quem foi oferecido depois uma cadeira na prestigiosa universidade médica “Royal
College of Physicians”. Também Louis XIV da França foi acometido pela febre em
1679 e o tratamento bem sucedido de Talbor lhe rendeu 3.000 coroas de ouro e uma
pensão vitalícia por ter prescrito o quinino da “planta dos índios peruanos”, pedindo,
entretanto, segredo absoluto (para manter o mistério da magia e da tecnologia sob
controle. De modo semelhante os mistérios de eleusis eram restritos à elite de iniciados,
mas ali o uso financeiro da “tecnologia primitiva” ainda tinha um aspecto comunitário.)
Os Ingleses, prevendo levantar importantes lucros, patentearam a solução de
quinino e a transformaram em remédio contra a malária (Cosme, Francisco Damião,
“Tractado das queixas endemicas, e mais fataes nesta conquista.” Studia, 20-22, 1967,
pp. 192-198.) Chamavam a este remédio que os portugueses importavam do reino
Britânico de “Águas da Inglaterra”. O médico Fernando Mendes na década de 1680
desenvolveu uma solução de quinino para o tratamento da malária que por vezes não era
considerada tão efetiva213.
Atualmente, o mesmo princípio ativo "quinina" é ainda conhecido como um dos
melhores métodos de tratamento contra a malária, entre outros usos na indústria
Quimica. E, indo mais além, graças aos trablhos dos quimicos Norte Americanos
R.B.Woodward e W.E. Doering, esse princípio ativo pôde ser finalmente sintetizado em
1944, criando uma "síntese total do quinino" mais eficiente do que o uso natural. Mas,

213
KANANOJA, KALLE. Central African Identities and Religiosity in Colonial Minas Gerais. Turku:
Abo Akademi University, 2012. p. 213 ver também a este respeito: WALKER, Timothy.Doctors, Folk
Medicine and the Inquisition: The Repression of Magical Healing in Portugal during the Enlightenment.
Leiden and Boston: Brill. 2005, pp. 114, 120.
123
não foi a toa que o próprio processo de sintetizar "organic dye" foi descoberto por
William Henry Perkin em 1856, pois ele o descobriu isso ao tentar sintetizar o quinino -
num daqueles casuais e maravilhosos momentos da ciência em seu mundo de acasos,
feitiços e magias. Portanto, para encerrar aqui o assunto "cura da malária" eu digo
simplesmente que o estudo histórico do uso clínico do remédio indígena peruano contra
a malária demonstra que se o uso de patentes, o direito intelectual ou a transmissão
tecnológica dos índios do Peru fosse a mesma dos remédios "criados", "inventados" pela
indústria de remédios ocidentais, os índios do Peru seriam hoje os homens mais ricos do
planeta! O uso da planta dos índios Quechua também possui outra coincidência
interessante, pois está diretamente ligada ao início dos estudos do fundador da
Homeopatia, o Dr. Samuel Hahneman que, enquanto traduzia o “Materia Medica” de
William Cullen, leu que “a casca peruana era conhecida por curar a febre intermitente”.
Hahneman, então, tomou diariamente uma grande dose de Cinchona, em vez de uma
porção homeopatica. Ao final de duas semanas ele começou a ter sintomas semelhantes
à malária. Essa ideia de que “o igual cura o igual” foi o ponto de partida de seus escritos
sobre Homeopatia214.
“Parece provável, diz o prof. Richard W. Franke, que os Haussa também
descobriram um conjunto de medicamentos antimaláricos que evitam a anemia
falciforme e também poderia ultrapassar a resistência de alguns dos parasitas da malária
recém mutados por meio da quinina e fármacos relacionados (...) o combata contra a
malária pode, portanto, ser vencido ao aprendermos com o conhecimento do povo
Haussa da Nigéria e áreas da Costa Ocidental Africana215.

“Peru oferece um ramo de Cinchona para a Ciência" - Gravura do século XVII
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Peru_offers_a_branch_of_cinchona_to_Science_(17th_century_engraving).jpg

214
Ver: THOMAS, William E., The basis of Homeopathy. Chapter 2: Homeopathy; Historical Origins
and the End. Apud: http://en.wikipedia.org/wiki/Cinchona; Por fim, para introudução à história da
tecnologia contra a malária aproveitem para ler a bibliografia indicada em:
http://en.wikipedia.org/wiki/Jesuit's_bark; http://en.wikipedia.org/wiki/Quinine#cite_ref-clifford_9-0
215
Dr. Richard W. Franke: Montclair State University Department of Anthropology Anth 140: Non
Western Contributions to the Western World. Nov., 2006. Slides 69,70.
http://msuweb.montclair.edu/~franker/Anth140/PowerpointFiles/Week09Africa2Medicine.pptx
124
O “quinino” e a cura da malária foram alguns dos grandes responsáveis para que
a europa pudesse “vencer” o interior africano e assim, abandonar seu apelido carinhoso
de “tumba do homem branco”. Como disse o historiador Clifford Conner: “foi a
eficácia do quinino que deu aos colonialistas novas oportunidades de pulular na Costa
do Ouro, Nigéria e outras partes da África Ocidental216. Como já era esperado, e eis
que novamente explico porque insisto em ligar assuntos aparentemente isolados:
advinhem quais fontes que tratam da influência do domínio da tecnologia do quinino
contra a malária indicam a fonte peruana desta tecnologia? Não é preciso muito esforço
para reconhecer que nenhuma a faz, ao contrário, o próprio texto da História da África –
(UNESCO vol. 7 p.44), reconhecidamente a mais completa fonte sobre a África em
língua portuguesa, ao tratar do assunto “como a Europa conquistou a África” dá a
entender que o uso profilático do quinino contra a malária é conquista unicamente
europeia. E por que acredito que essa informação é importante? Por que quero fazer
como os meninos do movimento negro que parecem viver numa corrida de cavalos
negros e brancos? Claro que não! Todos estes exemplos aparecem apenas para dizer:
“juntos podemos mais e melhor”. A representação acima da “grande” “ciência europeia”
e do país “nanico” “Peru” na gravura Peru oferece um ramo de Cinchona para a
Ciência é indicativo de tudo o que eu quero dizer e desdizer.
Indo mais além, para falarmos de um efeito recente, durante a Segunda Grande
Guerra, Hitler quis minar o acesso dos americanos à “tecnologia dos índios do Peru”.
Quando os Alemães conquistaram a Holanda e os Japoneses controlaram as Filipinas e
a Indonésia (com suas plantações de quinino), os Estados Unidos conseguiram obter
quatro milhões sementes de sementes de cinchona provenientes das Filipinas e
iniciaram o cultivo de cinchona na Costa Rica. Entretanto, tais suprimentos chegaram
muito tarde; dez mil homens das tropas Norte-Americanas na Africa e no Sul do
Pacífico morreram devido a falta de quinino. A despeito de controlarem o suprimento,
os japoneses não fizeram o uso efetivo do quinino e, por consequência, milhares de
homens das tropas japonesas no Sudeste do Pacífico também morreram217. Segundo o
testemunho do médico Japones, o coronel Shusuke Horiguchi, "dos 30.600 pacientes
dos hospitais japoneses no mês de Abril, 28.000 eram vítimas de malária". Ainda assim,
após receberem 300.000 tabletes de quinino por via aérea, os japoneses conseguiram
controlar o rápido avanço da doença218. COVEY, H. 2007 p. 91 indica a utilização da
cinchona por ex-escravos nos EUA, mas este uso já estava generalizado desde o final do
séc. XVII, quando médicos britânicos começaram a indicar a cinchona no tratamento da
malária219.
A “fórmula do remédio”, até bem pouco tempo atrás tão comum nas
“pharmacias” do início do séc. xx ou nas farmácias de manipulação ainda hoje

216
Ver: CONNER, Clifford D.. A People's History of Science: Miners, Midwives, and 'Low Mechanicks'.
ew York: Nation Books, 2005, pp. 95–96. O mesmo é afirmado em CURTIN, P. D.; FEIERMAN, S.;
THOMPSON, L.; VANSINA, J.. African History. Londres, Longman, 1978, p. 445; Ver também: ROSE,
J. H. The Development of European Nations, 1870-1900. Londres,Constable.ROSE, 1905, p. 508-72.
217
Ver: MORTON, Louis. The Fall of the Philippines. Washington, D.C.: United States Army, 1953, p.
524.
218
Idem, Ibidem. pp. 2845-47, testimony of Col Shusuke Horiguchi, Med Officer, 14th Army. Disponível
em: http://www.history.army.mil/books/wwii/5-2/5-2_29.htm#p521
219
Ver também: KIPLE, K. F., and V. H. KING, Another Dimension to the Black Diaspora: Diet,
Disease, and Racism. Cambridge, MA: Cambridge University Press. 1981; WICHTL, M., ed. Herbal
Drugs and Phytopharmaceuticals: A Handbook for Practice on a Scientific Basis. Boca Raton, FL: CRC
Press, 2004. E ainda: MOSS, K. K. Southern Folk Medicine: 1750–1820. Columbia: University of South
Carolina Press, 1999.
125
existentes, são semelhantes à “fórmula” alquimista sob o ponto de vista do “preparado”
técnico que visa a obtenção de resultados na natureza, propriamente, no mundo
bioquímico. Os métodos de obtenção da”fórmula” não só variaram antes do surgimento
do método científico, variaram na maior parte da história da humanidade. Pode-se
comparar a tentativa de instituição da ciência como modelo único à tentativa
desesperada dos patriarcas da igreja forçarem os israelitas a acreditarem num único
Deus. Todas as histórias concretas e mitos do antigo testamento se resumem nisto, aliás
– sendo o novo testamento a prova convicta de que as antigas tentativas foram
absolutamente frustradas. Eu não digo que a fórmula da ciência e a fórmula da mágica
se distinguem apenas por pontos de vista. Tenhamos consciência do valor da contenção
da superstição; mas tenhamos igualmente a consciência do valor e alcance da ciência
em sua tendência ao autoritarismo.
O reconhecimento do saber tradicional talvez seria uma das maneiras de
lidarmos com a tendência autoritária da ciência e deixar nela algum espaço de
divergência, ademais, extremamente útil para seus próprios intentos metodológicos. A
análise farmacológica da medicina herbal tradicional segue compondo o quadro destes
interesses difusos em relação à cultura tradicional, sobretudo nas doenças tropicais. Por
exemplo,“A Guiana Francesa (Nordeste da Amazônia) registra altas taxas de
incidência de malária. O remédio contra a malária tradicional mais difundido é um
simples chá feito das folhas de Quassia amara L. (Simaroubaceae). Este chá exibe uma
excelente atividade antimalária in vitro e in vivo. Um quassinoid conhecido,
simalikalactone D (SKD), foi identificado como o composto ativo, com um valor de
IC50 de 10 nM contra FcB1 Plasmodium falciparum , espécie resistente à cloroquina,
in vitro. Por último, ela inibe 50% de Plasmodium yoelii parasita da malária de
roedores em 3,7 mg / kg / dia in vivo por via oral. Estes resultados confirmam o uso
tradicional deste chá de ervas220.
O estudo da religiosidade de influência africana no Caribe, que também foram
esmagadas pelo colonialismo e suas proibições, mas que, dado a seu peso populacional
e sua resistência histórica também traria novos frutos à estas discussões quanto à magia
e à tecnologia. Indo mais além, aqui mesmo na América do Sul há tecnologias e culturas
de origem africanas que dormitam no campo de visão dos pesquisadores. Por exemplo,
quem sabe me dizer o nome de 2 países com fronteira com o Brasil que praticam as
religiões de origem africana chamadas Quibayo221 ou mesmo se pensarmos em apenas
algumas partes do Caribe, que sabemos sobre as tecnologias da Obi (Obia), de origem
Igbo222 ou da “Kumina”, seja ela de origem Akan, Daomeana ou Centro Africana?223
Não, não sabemos nada disso. Eu cito esses exemplos obscuros sem muita
demora simplesmente para declarar o óbvio: não temos condições concretas de
determinar quais são tecnologias africanas nas Américas porque não temos a mínima

220
Journal of Ethnopharmacology Volume 108, Issue 1, 3 November 2006, Pages 155–157 (artigo
disponível para compra em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378874106002224
221
http://www.youtube.com/watch?v=zK2eqL3YE4Y) e Winti? Eu lhes dou uma dica dizendo que esta
última é uma religião cultuada no mesmo país de um negro que inventou uma máquina de fazer sapatos
no final do séc. XIX - http://www.blackinventor.com/pages/jan-matzeliger.html). Vocês Já rezaram o
Kondre Banya http://www.youtube.com/watch?v=zUfE3ZnGzRE&list=PL710930B29524872F Que tal
Palo, Mayombe, Kimbisa?
222
ELTIS, David & RICHARDSON, David. Routes to slavery: direction, ethnicity, and mortality in the
transatlantic slave trade. Routledge. 1997, p. 88.
223
Ver: Three Eyes for the Journey : African Dimensions of the Jamaican Religious ...
Por Dianne M. Stewart Assistant Professor of Religion Emory University. New York: Oxford University
Press, 2005. p. 153 e ss.
126
ideia de que "Isto não é Magia, é tecnologia". Em resumo, portanto devemos nos calar e
apenas reconhecer que não sabemos nada da magia e da tecnologia africana nas
américas. Achados arqueológicos bem como a identificação antropológica de
“africanismo” e das culturas quilombolas do Suriname e do Caribe (especialmente Haiti,
São Domingo, Jamaica, Cuba e Trinidad Tobago , porque, juntamente com o Brasil, são
estes os focos principais da cultura africana nas Américas) , os meandros da presença
negra no norte, da América do Sul, na Costa do Pacífico Colombiano e na América
Central em geral serão determinantes para saber se continuaremos ou não
perpetuamente sem saber todo avesso de que isto não é tecnologia e sim magia.
Excetuando nas variadas pesquisas sobre o uso de plantas no contexto da
religiosidade afro-brasileira, especialmente no Candomblé, a notícias de uso de plantas
nativas da África ou de adaptações de culturas herbais africanas na flora Brasileira e das
Américas são ricas, mas ainda muito dispersas. Com relação ao caribe, por exemplo,
Arthur Ramos, relata sobre alguns usos medicinais de plantas da tradição afro-haitiana
(além da assafaetida, que tem reconhecidamente também tem seu uso medicinal entre
os africanos) diz o etnólogo: “O bocor [também chamado bocó] é o mago, o bruxo, o
medicine-man das massas populares negro-haitianas e por esse motivo teria sobre elas
uma incontestável influência (...) As substâncias de que lança mão o bocor para as suas
práticas têm as mais bizarras denominações. Dorsainvil lembra algumas como digo
d’Asie (Azul da Prússia). Cacadiable (Assafaetida) dlo répgnance pour ptit moune
(tintura alcoólica de assafaetida), dlo répugnance pour rangé jadin (Sulfato de potássio)
poude coulêve... e ainda chifre de veado, incenso, enxofre, bálsamo tranquilo,
mandrágora, etc.”224
Já no Brasil, por exemplo, há relatos de que houve um cirurgião Mor em Vila
Rica chamado Caetano José Cardoso que mencionou em seu relatório sobre plantas
medicinais em 1813 que os escravos utilizavam uma planta que chamavam “calumba”.
Eles utilizavam a raíz para produzir remédios contra problemas intestinais,
flatulências,desenteria e febre225. A simaba ferruginea, usada também contra febre e
problemas digestivos, conhecida por “calunga”" é uma planta que pode ser encontrada
em Minas Gerais e que possivelmente foi utilizada por curandeiros bantos226.
Sendo possível refazer essa “ponte” África-Brasil Brasil-África no quesito
“tradições herbais” pode-se certamente estabelecer com segurança vínculos bastantes
profundos. Para se ter uma ideia estrita de alguns dos gêneros possíveis, os autores
DISTASI, L.C. & HIRUMA-LIMA, 2002, p.248 falam, por exemplo da família
“Alismataceae” - sendo que os principais gêneros dessa família encontrados no Brasil

224
DORNSANVIL Vodou et Névroses, Bibliothèque Haitienne, 1931. P. 79. Apud. RAMOS, Arthur As
Culturas Negras no Novo Mundo – o negro brasileiro – III 2ed. Ampliada Rio de Janeiro: Editora
Nacional 1946. p.192-193). Ver também BECKWITH, Martha Black Roadways – a study of jamaican
folk-life. Chapel Hill, 1929. p.88 e ss. Cf. COVEY, Herbert C. African-American Slave Medicine Herbal
and non-Herbal Treatments. Plymoutn: Lexignton Books, 2007 p.74 que indica também usos da
assafaetida pelos escravos norte-americanos como medicina preventiva e no tratamento de doenças como
coqueluche e outros problemas do peito. p.80.
225
Cardoso Cardoso, Maria Tereza Pereira, Lei Brance e justiça negra: crimes de escravos na Comarca
do Rio das Mortes (Vilas Del-Rei, 1814-1852). Tese de Doutorado, Universidade Estadual de
Campinas,2002, p. 747. Apud c KANANOJA, KALLE. Central African Identities and Religiosity in
Colonial Minas Gerais. Turku: Abo Akademi University, 2012. p. 227.
226
NOGUEIRA, A. E se diz do dito negro que é feiticeiro e curador: a união entre sobrenatural
na saúde e na doença das Gerais do século XVIII. Outros Tempos, 3. 2006. pp. 69. Ver:
OLIVEIRA, M. F. S. De. Bebendo na Raíz:um estudo de caso sobre saberes e técnicas medicinais do
povo brasileiro. Brasília: Universidade de Brasília (UNB), 2008 (Tese de Doutorado). p. 239-40.
127
são Echinodorus, espécie do conhecido Chapéu-de-couroda, na mata atlântica, e ainda
Sagittaria. As espécies medicinais conhecidas são Echinodorus grandiflorus Michelli.
Outros nomes pelos quais a planta é conhecida no Brasil: Chá-de-campanha, Aguapé,
Congonha-do-brejo e Erva-do-brejo. Dentre seus dados botânicos distingue-se que a
espécie é uma erva de área alagada ou brejo, com caule triangular eglabro; rizoma
grosso e carnoso; folhas pecioladas, ovadas, coriáceas, grandes e eretas; flores
brancas, numerosas, vistosas e dispostas em panículas. A espécie possui as variedades
floribundus, frequentemente consideradas outra espécie. O gênero Echinodorus
descrito por Louis Claude Marie Richars e Georg Engelmann inclui 48 espécies
tropicais com distribuição restrita às Américas e à África, muitas delas usadas como
medicinais, e outras, como ornamentais. Dados da medicina tradicional indicam que os
habitantes do Vale do Ribeira referem-se ao uso da infusão das folhas para o
tratamento de problemas renais e hepáticos, como sedativo, além deusarem esse
preparado para combater dores de cabeça, de barriga, nas costas, bem como gripes e
resfriados, e como anti-helmíntico, especialmente contra lombrigas (Ascaris
lumbricoides)227. O gênero Annona descrito por Carl Linnaeus inclui aproximadamente
140 espécies tropicais encontradas nas Américas e cerca de 130 distribuídas no
continente africano. O nome do gênero Annona descrito por Carl Linnaeus deriva de
Anon, nome popular da planta no Haiti e que significa “colheita do ano”. Espécies
medicinais Annona muricata L. Essa espécie é conhecida especialmente pelo nome de
Graviola; no entanto vários sinônimos são usados, tais como Araticum, Iriticum,
Araticum-punhê, Araticum-ponhê, Araticum-de-paca, Coração-de-rainha e Nona.(...) A
espécie possui ainda diversos usos populares disseminados em todo o país, tais como o
uso do suco da fruta contra lombrigas e parasitas, para baixar febres, aumentar o leite de
mãe depois de parto (lactagoga) e comoadstringente. As sementes esmagadas são usadas
como vermífugo e anti-helmíntico contra parasitas internos e externos, especialmente
lombrigas.As folhas e raízes são consideradas sedativas, antiespasmódicas
ehipotensivas. Na Amazônia, o chá das folhas é ainda usado contra problemas do
fígado, enquanto o óleo das folhas, misturado com a fruta verde eóleo de azeitona, é
usado externamente para neuralgia, reumatismo e dores em casos de artrites228. Embora
essa espécie seja usada tipicamente por indígenas da Américado Sul, ela tem sido
cultivada e estabelecida em vários países tropicais,especialmente na África, onde é
usada contra tosses, espasmos e febres; A casca e as raízes são usadas para combater
disenterias e parasitas intestinais229.
De acordo com os mesmos autores, as raízes e as folhas são consideradas
antiparasitárias, e as sementes, inseticidas, que também são consideradas eméticas e
usadas popularmente em envenenamentos de peixes. Esse uso, no processo de pesca,
também tem sido referido para as raízes e casca da planta.(DISTASI, L.C. & HIRUMA-
LIMA, C.A., 2002, p.83-85). Como espécies medicinais os autores destacam a Vismia
japurensis Reich. A espécie é conhecida na região amazônica como “Lacre”. Em
outras regiões, como “Picharrinha”, “Pau-de-lacre” e “Purga-de-vento”. Trata-se de

227
DISTASI, L.C. & HIRUMA-LIMA, C.A. Plantas Medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. São
Paulo: 2a. Ed. Unesp, 2002, p.75-76: (Disponível em:
http://www.slideshare.net/Love_Pharmacy/plantas-medicinais-da-amaznia-e-mata-atlntica; para outras
técnicas banto de pescaria ver: (HAMBLY, 1937, p. 602 e ss.)
228
ALMEIDA, E. R. Plantas Medicinais Brasileiras, Conhecimentos Populares e Científicos. São Paulo:
Hemus Editora Ltda., 1993.
229
WATT, J. M., BREYER-BRANDWIJK, M. G. The medicinal and poisonous plants of southern and
Eastern Africa., 2.ed. Edinburgh/London: E. S.Livingstone LTd., 1962.
128
uma espécie semidecídua, com ocorrência em secundárias, sendo facilmente cultivada.
O gênero inclui aproximadamente 35 espécies, com distribuição restrita à América
tropical, e algumas na África; a maioria é fornecedora de resinas, e várias têm valor
medicinal. No Brasil, a espécie mais conhecida é a Vismia brasiliensis, também
chamada de Lacre230. Gostaria ainda, neste ponto de fazer um parêmteses e trazer uma
referência a um relato de Antonil sobre o uso medicinal de mariscos pelos africanos no
Brasil. Diz ele: “Ter olaria no engenho . huns dizem , que escusa maiores gastos,
porque sempre no engenho, há necessidade de fôrmas, tijolo, e telha. Porém outros
entendem o contrário: porque a fornalha da olaria gasta muita lenha de armar-se, e
muita de caldear : a de caldear hade ser de mangues : os quaes tirados, são a
destruição do marisco, que he o remédio dos negros231”. Embora Antonil não descreva
aplicação medicinal do marisco, há quem o associa ao tratamento de doenças venereas,
apoiando-se em trechos anteriores em que Antonil faz referência a “escravos boubentos,
e os que tem corrimentos.” 232 Diagnósticos de campo foram realizados no período de
2002-2004, junto à população local de São Francisco do Conde, na Bahia com o
objetivo de “ampliar benefícios sociais e econômicos de ações de recuperação de áreas
impactadas pela exploração de petróleo naquele município”. Nesta pesquisa foi também
feita a etnografia do uso de moluscos pelos pescadores locais nos quais se identificou o
uso medicinal do marisco associado diretamente ao comentário de Antonil supracitado.
Trata-se do uso medicinal tanto de bivalves como de gastrópodos, efeitos cicatrizantes,
fortificantes, afrodisíacos e coagulantes233.
Retomando as descrições de espécies de plantas brasileiras com possivel
vinculação africana, temos exemplares como a Bidens bipinnatus L. (Bidens pilosa L.)
A espécie é conhecida na região amazônica e na Mata Atlântica, bem como em vários
Estados brasileiros, como “Picão-preto”. Inúmeros nomes têm sido registrados para essa
espécie, tais como “Cuambu”, “Carrapicho-de-duas-pontas”, “Picão-do-campo”,
“Goambu”, “Erva-picão”, “Macela-do-campo”, “Pio-lho-de-padre”, “Carrapicho-de-
agulha”, “Espinho-de-agulha”, “Carrapicho-de-ca-valo”, “Amor-seco”, “Aceitilla”,
“Pirco”, “Carrapicho”e “ Pau-pau”. (...) O nome, Bidens, signi-fica “dois dentes”,
referindo-se às aristas do papilho.Dados da medicina tradicional demonstram que na
região amazônica, a infusão preparada com as partes aéreas da planta que é usada no
tratamento da hepatite. Essa espécie é de uso disseminado por toda a Amazônia e por
todos os Estados brasileiros (...) No Brasil, aespécie também é referida como emoliente,
diurética, antiblenorrágica,adstringente e considerada útil contra icterícia, leucorréia,
desordens hepá-ticas, infecções urinárias e vaginais234. Na medicina tradicional peruana,
a espécie é usada como antiinflamatório, diurético e contra hepatite, conjuntivite,

230
DISTASI, L.C. & HIRUMA-LIMA, C.A. Plantas Medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. São
Paulo: 2a. Ed. Unesp, 2002,p.248- Disponível em:
http://www.slideshare.net/Love_Pharmacy/plantas-medicinais-da-amaznia-e-mata-atlntica)
231
ANTONIL, André J. Cultura e Opulência no Brasil por suas Drogas e Minas . Rio de Janeiro:
Conselho Nacional de Geografia, 1963. Disponível em:
http://www.brasiliana.usp.br/bbd/bitstream/handle/1918/00087300/000873_COMPLETO.pdf pg.92.
232
HERSON, Bella. Cristãos-novos e seus descendentes na medicina brasileira, 1500-1850. São Paulo:
2ª.ed. EDUSP, 2003, p. 125
233
http://www.geocities.ws/pescabahia/pescasfco.htm O autor indica ainda que resultados semelhantes
de uso medicinal de mariscos foram encontrados também entre os nativos de Itapissuma – Pernambuco.
Estudos técnicos sobre molusculos africanos indicam a presença de bivalves nas Costas de Gana e
Nigéria: http://www.ajol.info/index.php/ajb/article/viewFile/14837/58587
234
ALMEIDA, E. R. Plantas Medicinais Brasileiras, Conhecimentos Populares e Científicos. São Paulo:
Hemus Editora Ltda., 1993; COIMBRA, R. Manual de fitoterapia. 2.ed. Belém: Editora Cejup, 1994.
129
micoses, infecções urinárias235. No Leste da África, o suco da planta fresca é usado
contradores de ouvido e conjuntivite (Watt & Breyer-Brandwijk, 1962), bem como no
combate a dores em geral (Jager et al., 1996)236.
Até menos de 20 anos atrás, mesmo em uma metrópole como São Paulo, Brasil,
todo mundo estava mais ou menos a par do uso associativo de ervas ao corpo, mais ou
menos como no uso das joias protetivas237. Assim, tal como a conhecida arruda, a
assafaetida também incorporava o mesmo sentido de “inclusão categorial do corpo
protegido” (no sentido aristotélico de “categoria”, enquanto um predicado que é
associado ao ser, segundo determinados critérios.). A assafaetida, como a arruda, é
incorporada a corporalidade humana e (tal como afirmou Rawick, G. P., ed. The
American Slave: A Composite Autobiography. Westport, CT: Greenwood Publishing.
Rawick vol. 2: 1967, p.242) é simplesmente “usada” (como se fosse joia protetiva) para
afastar difteria.238 Outras doenças também podem ser “afastadas” ou evitadas pela
assafaetida, que é utilizada também na prevenção de doenças como asma, cólicas, dores
de cabeça, sarampo, coqueluche e caxumba, febre, varíola e varicela. Por vezes era
combinada com cânfora ou água alcatrão ou mergulhada em terebintina e usada como
medida preventiva geral239.

235
MEJIA, K. & RENG, E., Plantas medicinales de uso popular en la Amazonia Peruana. AECI and
IIAP, Lima, Peru, 1995.
236
DISTASI, L.C. & HIRUMA-LIMA, C.A. Plantas Medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. São
Paulo: 2a. Ed. Unesp, 2002, p.454-455 - Disponível em:
http://www.slideshare.net/Love_Pharmacy/plantas-medicinais-da-amaznia-e-mata-atlntica; BASSET
M.N., “La Sucrerie Indigène, Étrangère et Exotique - A L'Exposition Universelle de 1867” in:
LACROIX, E. Nouvelle Description générale, encyclopédique, méthodique et raisonnée de l'état actuel
....” Paris: Librairie Scientifique , Industrielle et Agricole. (Ed.) Eugene Lacroix. VOL. 1, 1872. Ver
também: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6527843n.r=technologie+afrique.langFR
237
A noção das joias protetivas africanas, os adornos e enfeites utilizados no amplo contexto das "artes
corporais", como asseverou Marianno Carneiro da Cunha (ZANINI, Walter. (Org.) História Geral da
Arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles Fundação Djalma Guimaraes, 1983. vol.2. p.
1027) corroborava com o sistema classificatório corporal de Marcel Mauss onde elementos eram
“associados” ou “incorporados” ao corpo, dando a este uma elevação de nível categórico. Eu cheguei a
falar disto en passant num congresso em Salvador em 2011:
http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308349962_ARQUIVO_JoiasAfricanaseAl
gunsExemplosdesuaMemorianasAmericas.pdf
238
RAWICK, G. P., ed. The American Slave: A Composite Autobiography, Vols. 1–19.
Westport, CT: Greenwood Publishing, 1972. (Ver também RAWICK vol. 2., 1967, p. 242)
239
COVEY, HERBERT. African-American Slave Medicine Herbal and non-Herbal Treatments.
Maryland: Lexington Books, 2007. p. 74.
130
Diferente de muito de nós, a noção do uso do princípio ativo entre os africanos e
descendentes imediatos, como se sabe, está além da ingestão deste princípio ativo. Uma
vez que o princípio tem valor por si mesmo, (porque disposto da carga espiritual
naturalmente oferecida) a ingestão deste passa a ser mero detalhe metodológico. Dito de
outro modo, a sorte ou o afastamento do “mau-olhado” se faz presente mesmo que a
arruda não seja ingerida mas apenas colocada atrás da orelha. Toda uma sorte de
acompanhamentos se faz necessário diante desta noção de cura como algo que está
associado ao desequilíbrio com relação às forças naturais. Não é a toa que o xamã, o
pajé, o nganga e o curandeiro em geral, vem todo paramentado do espetáculo mágico-
tecnológico que se alia ao princípio ativo para que se recobre a harmonia perdida. Isso
ocorreu e ocorre entre nós brasileiros, mas também pode-se encontrar em todos os
países da América onde negros africanos e indígenas se refugiam.
A influência do saber medicinal africano pôde encontrar refúgio entre os negros
nort-americanos, por exemplo, como atestou Arthur Ramos: “numa recente viagem à
Louisiana, a convite da Louisiana State University, tive a ocasião de conviver durante
cinco meses entre várias comunidades negras de Louisiana e Estados Vizinhos.
Infelizmente, minhas tarefas de ensino não me deram tempo para pesquisas demoradas.
Mas sugeri o assunto aos meus estudantes e alguns deles apresentaram dados
interessantes. Uma de minhas alunas. Mrs Sue Lyles Eakin está agora realizando
pesquisas nesse sentido e aproximei-a do prof. Herskovits. As notas que ela já colheu
em algumas fazendas da Louisiana revelam a existência de práticas mágicas e religiosas
ligadas a sobrivencia voduicas, como os tobies tão disseminado entre os Negros. Os
voodoo doctors vendem esses tobies de que há larga circulação. A comercialização
dessas práticas já atingiu algum drug stores que vendem esses tobies através de agentes

131
locais. Há pois, perfumes, raízes, dentes de jacaré, óleos e certas plantas... para
problema de amor ou de dinheiro240.
Alguns excertos de livros antigos dão o quadro geral da mentalidade da época
sobre esta temática: “No dizer deste inteligente tropicalista portuguez, referindo-se ás
colônias africanas, sujeitas ao seu paiz, ‘ao preto cabe e caberá sempre toda casta de
trabalhos que reclamem grande casta de trabalhos que reclamem grande desperdício de
energias e tenham de se effectuar ao sol e no conflito com os múltiplos agentes physicos
e animados que pululam por toda parte; e isto porque ele possue imunidade orgânica
que o preserva e o defende, emquanto o branco se acha indefeso e exposto á agressão
febril desses inimigos múltiplos que não cansam de fustigal-o e acabam, quase sempre
por vence-o”241. “Bastante influíram os pretos em nossa medicina popular e
principalmente, segundo Ademar Vital, no costume largamente espalhado, pelo interior,
de empregar excrementos, sob formas as mais variadas, para a cura de diversas
enfermidades... O principal motivo em que se fundamenta a perseguição às mucambas,
hoje em dia, é o de constituirem verdadeiros centros para a prática em grande escala da
medicina [i]legal. Quase todas as nossas autoridades policiais chegam a não considerar
essas manifestações religiosas senão sob tal ponto de vista, o mesmo aonctecendo aos
redatores e repórteres de polícia em geral242”
“Nesse mundo de precariedade e natureza, desassistida pela medicina, vigorava
a presença de práticos [isto é, “médicos”] e calundeiros, detentores de um saber
mágico que auxiliava na expulsão da doença e preservação da vida, a partir do uso de
uma ‘medicina dos excretos’, onde o cuspe, a bosta do cachorro, do boi, do burro, da
galinha e do morcego e urina do ‘menino macho’, da ‘mulher feita’ e da ‘mulher
grávida’, eram produtos excelentes para a elaboração de unguentos, infusões e
emplastros [ver nota no original]. A extensa popularidade dessa medicina baseada em
práticas muito antigas, levava com que os senhores chamassem tais curandeiros para
tratarem das próprias doenças e daquelas de seus escravos, fato esse que irritava as
autoridades eclesiásticas contrárias a essas crendices pagãs243”
E em outro relato:
“o negro nem sempre tinha a saúde cuidada pelo senhor. Dahi lançar mão de
tudo que se dizia então favorável aos males do corpo. A medicina dos excretos
dominava as senzalas, principalmente os escravos que trabalhavam no campo – na
planta, limpa e corte da canna. Dominasse entre aquelles que trabalhavam nos banguês
e na agricultura em geral. A falta de médico e pharmácia era absoluta. Aliás, não se
deve extranhar isso não, porque ainda hoje, mormente na várzea onde as uzinas
enriquecem os seus donos e tornam cada vez mais miserável o operário rural, as novas
fabricas não se importam com a saúde dos p arias que morrem e que fazem o poder dos
industriaes. De modo que então mais do que agora o escravo tinha de voltar-se para os
remédios que a própria experiência aconselhava como optimos. Assim é que os doentes
de olhos quando não se serviam de cuspo se utilizavam da própria urina para lava-los
de manhãsinha. As inchações eram curadas com emplastro de fezes de vacca, enquanto

240
RAMOS, A. As Culturas Negras no Novo Mundo. 1946. P. 111. Disponível em:
http://www.brasiliana.com.br/obras/as-culturas-negras-no-novo-mundo/pagina/111/texto
241
MARTINS, J.A. Rev. San. Das ProvínciasUltramarinas; anno de 1909 – Apud. FREITAS, O.
Doenças Africanas no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935. pp.17-18.
242
LOBO, H. & ALOISI, I. O Negro na Vida Social Brasileira. São Paulo: Panorama, 1941. p. 66.
243
CAMPOS, Adalgisa Arantes. Notas sobre os rituais de Morte na Sociedade Escavista. In: MELO, C.
B. (ED.) Escraavismo no. 6 especial. Rev. Do Departamento de Historia FAFICH/UFNG/CNPq. Junho
de 1988. p. 114.
132
a sezão desaparecia com purgante de batata, cabeça de negro e urina de menino
macho. Se eram as dôres de estomago e fígado tinham lá a sua receita: urina de dois
dias, fermentada, além de um pouco de água morna para temperar.244”
Essa tecnologia em particular tem um nome que deve prevalecer nos estudos das
tradições medicinais. É a chamada “medicina não-herbal”, atividade médica que visa a
saúde por meios não farmacológicos. A fonte africana da medicina não herbal foi muitas
vezes verificada. Cito como exemplo o uso iorubano de açúcar e mel para prevenção
contra infecções245. A não utilização de ervas e essa “medicina de excretos” não era
exclusividade dos escravos brasileiros. Pelo que tem sido relatado também teve
desenvolvimento entre os escravos norte-americanos no contexto não herbal de
tratamento médico. Desse modo, o uso de “argila, larvas, mel, sanguessugas, pus, urina
e outras substâncias têm valor medicinal” 246
Seguindo em frente, a professora Gloria Thomas-Emeagwali em seu importante
livro sobre os sistemas de ciência, tecnologia e arte africanas nos dá um resumo geral
sobre a gama de influência da medicina africana: “as plantas, seja na forma de legumes,
grãos, vegetais, tubérculos ou frutas selvagens ou cultivadas também tinham
implicações medicinais para os africanos e foram usadas como anestésicos ou
analgésicos, como os controladores da febre, antídotos, anti-helmínticos que são
destinados a desparasitação. As plantas foram usadas também no contexto de
problemas cardiovasculares, gastro-intestinais e dermatológicos. Algumas delas, tais
como as hoodia gordonii247 e a compbrettum caffrum248tem sido integradas nos
sistemas farmacêuticos contemporâneos.”249

244
VIDAL,Ademar in: Varios Autores; RAMOS, A. (org.) “O Negro no Brasil” Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1940 [2º. Congresso Afro-Brasileiro].
245
ADEKSON, M. O. Yoruba Traditional Healers of Nigeria Taylor & Francis Books, Inc: New York,
2003. p. 31
246
Como o indica COVEY, H. 2007 p. 127, baseado em Root-Bernstein, R., and M. Root-Bernstein.
(1997). Honey, Mud, Maggots, and Medical Marvels: The Science Behind Folk Remedies and Old
Wives’ Tales. Boston: Houghton Mifflin. O mesmo vale para o uso de cinza para estancar ferimentos,
(Idem, Ibidem, p. 129-30), portar moedas para previnir doenças entre outros usos (COVEY, H. 2007, p.
133), gordura, banha e sebo contra queimaduras, colocadas na vagina para facilitar o parto, entre outros
usos (Idem, Ibidem, p. 135), pata de porco e de vaca contra cólica infantil, febre etc. (Idem, Ibidem, p.
137), fita de couro usada como colar no pescoço utilizada contra coqueluche (Idem, Ibidem, p. 138),
esfregar carne na verruga e furúnculo e depois enterrá-la até que se decomponha, a crença é que ela levará
com a decomposição, também a verruga. ( Idem, Ibidem, p. 138). A variedade da medicina não-herbal
africana e das afro-americas é indefinida e dado seu nível de curiosidade e sua ligação à noção mágica da
cura, mereceria inúmeros estudos à parte.
247
Tipos de plantas protegidas por espinhos típicas da Namíbia, sul da Angola e África do Sul que foram
muito usadas no Brasil como moderadoras de apetite, a despeito da suspenção atual pela Anvisa da
manipulação de seu extrato vegetal. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hoodia)
248
Planta utilizada como veneno pelos guerreiros Zulus. Aliás, certamente merece uma
investigação à parte que indique o nível do conhecimento da tecnologia da fabricação de venenos e de
antídotos que certamente tinham os africanos, especialmente aqueles resistentes e rebeldes “assassinos de
senhores escravocratas” (em parte, esse tipo de conhecimento deve ter sido adquirido a partir da tradições
medicinais indígenas, mas esta origem por si só não abrangeria toda a gama de sortilégios lançados contra
os opressores). Dentre alguns venenos africanos identificados encontram-se: Physostigma Venenosum
(África Ocidental); Strophanthus Hispidus (África Ocidental) – Gabão, veneno de flecha -“Kombé”;
Richardia Africana; Chailettia Toxicaria – African rat’s – BANE; Gonioma Kamassi; Hydnora Africana
(Ver: SMITH-BERNHARD, A. Poisonous Planto of All Countries London: 2o.Ed. Baillère, Tindall &
Cox, 1923. Respectivamente, pp.17; 25; 56; 88 e 90).
Ver também BASTIDE, R. The African Religions of Brazil: Toward a Sociology of the Interpenetration
of Civilizations. Baltimore: Johns Hopkins University Press.1978, pp. 128-132. Para alguns relatos de uso
133
Dados da Organização Mundial de Saúde estimam que em alguns países
asiáticos e africanos 80% da população depende diretamente da medicina tradicional
como fonte primária de saúde250. Não há necessidade de muita imaginação para supor
que na ausência quase completa da medicina alopática ou acadêmica (dita ocidental) em
muitos rincões do país durante o período colonial, a medicina “não-acadêmica” ou
popular, africana e indígena formaram o fundamento da medicina tropical do país por
séculos até hoje. Até que a própria medicina enquanto ciência encontrasse seus próprios
caminhos no leque gigantesco de novas possibilidades, que certamente incluíam o
conhecimento não-europeu, a chamada “medicina alternativa” não passaria, até segunda
ordem, de uma “medicina oficial”251.
É curioso de qualquer maneira que desde os anos 60 (isso não poderia ser
diferente dado a sedimentação e aceitação oficial da contra-cultura) as medicinas
chamadas “alternativas” passaram a compor significativo aspecto da vida de algumas
pessoas no ocidente e cada vez mais a noção de medicina holística (em sua acepção
mais digna) é encarada como algo complementar (senão central) aos modelos
alopáticos, especializados e parciais. A questão não está mais em saber qual a
premência entre ambas ou ainda a ideia de buscar a saúde alternativa somente depois de
ter frequentado a medicina oficial. O ponto crucial é a interpretação da noção de saúde e
doença a ponto de uma emergência tal que noções da espiritualidade (ou psiquismo,
somatismo...etc.) aparecem num pano de fundo que inclui a prevenção, a expectativa, a
qualidade e a mudança de vidas. É nesse sentido que é possível falar em doença de
escravos (trabalhadores), doença de senhores (sedentários), doença de atletas
(hiperativos) e todos os grupos e subgrupos possíveis dentro de uma classificação quase
infinita de seres humanos de costas um para os outros. Eu acho o termo esdruxulo, mas
é nesse sentido que é possível falar também, portanto, em etnomedicina – uma das
inúmeras tentativas de ressociabilidade.
Falando um pouco ainda sobre esse campo da tecnologia medicinal africana e as
suas dificuldades de adaptação nas Américas; a repressão colonial foi um dos itens que
impediram a maior difusão deste conhecimento e sua eventual sistematização.
Associado erroneamente à práticas de feitiçaria, tanto o herbalismo quanto a prática da
divinação e a performance do nganga (ou do benzedeiro), foram, no mais, injustamente
relegados ao campo da superstição inócua ou do mero placebo. Apesar de que, será
preciso dizer e sempre: a performance do nganga, com seus cantos mágicos, sua

de veneno entre os afro-Caribenhos, vejam: CARNEY, J. A. African Traditional Palnt Knowlege in the
Circum-Caribbean Region . Journal of Ethnobiology 23 (2): 167-185, 2003, pp.171.
249
Ver: http://www.hssonline.org/publications/NonWesternPub/Africa.html e aprofunde aqui: Gloria
Thomas-Emeagwali, (ed.), African Systems of Science, Technology and Art (London: Karnak, 1993).
Uma “Associação para Nomatização de Plantas Medicinais Africanas” (AAMPS na sigla em inglês para
“Association of African Medicinal Plants Standards” http://www.aamps.org) foi fundada por grupos
empresariais belgas e tem fornecido informações técnicas das mais importantes plantas medicinais da
África. Muito destaque tem sido dado à Periwinkle (Catharanthus Roseus) cultivada em Madagascar, a
Buchu (Agathosma betulina), a Pelargonium (Pelargonium sidoides) e a Harpagophytum procumbens
cultivadas na África do Sul e a Hoodia Cactus (Hoodia gordonii) cultivada na Namíbia, entre outras 50
amplamente utilizadas como componentes medicamentosos manipulados cientificamente em labolatório.
250
(Fact sheet N°134 – Dez. de 2008): http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs134/en/index.html
251
O recente caso ridículo do programa “Mais Médicos” da Presidenta Dilma Roussef, ou melhor, o
programa da “imprensa contra os médicos cubanos” ressaltou não só os motivos políticos tolos pelos
quais é preferível à pequena burguesia das metrópoles a manutenção do status quo medicinal e o
isolamento e inacessibilidade de populações inteiras que a difusão de certo tipo de saberes medicinais que
não dependam de centros tecnológicos avançados (habilidade cubana certamente muito útil nos rincões do
Brasil onde não só não há médicos, mas também não há medicina alopática ou convencional nenhuma).
134
apresentação apavorante e sua corporalidade ritualística corresponde, do ponto de vista
da crença na ciência, ao avental branco do médico, o garrancho de sua letra, sua
linguagem incompreensível, seus exames constrangedores, em suma, tudo que
interpreta com performance, ritual a partir da qual a “crença” também se faz “cura”.
A cultura sudanesa naturalmente produziu seus “ngangas”. O mais conhecido
por nós no Brasil e na América Latina é o Babalawo, da cultura iorubana, o Uzenakpo,
entre os Ibibio é responsável em ajudar as pessoas a ficarem longe de problemas em
geral, não só de ordem médico-espiritual. Dibia, Bokaye, Ogbafa, entre os Igbo,
Omufunmu, entre os Bugisu da Uganda, Obozy, entre os Iguala e os Tiv e, Ocimbanda
dos Ovimbundo. Na África anglófona e/ou na bibliografia em inglês é chamado
“medicine men”, “juju men”, “traditional healer”, “witch doctor”. Na África francófona
e/ou na bibliografia de língua francesa é chamado também de “guerriseur”,
“herboriste”252. O nganga buka (ou mbuki), nas regiões bantos centro africanas, na
verdade é qualquer pessoa que possua os conhecimentos das plantas medicinais, a
instituição do “cargo” de nganga é bem menos definido do que o cargo de “médico” das
civilizações do ocidente. Diferentemente, o Nganga bakulu é o ancião responsável pelo
culto ancestral (bakulu)253.
Um relatório da Organização Mundial de Saúde “Promovendo as Plantas
Medicinais Africanas através de uma Farmacopéia Herbal da África”, tratando aponta
que até 2005, em torno de 25% de todos os medicamentos modernos são “derivados de
plantas que os médicos tradicionais utilizam. Dentre os indicados no relatório estão:
Taxol [remédio anticâncer derivado da Yew Tree [Taxus sp.] e dois remédios contra
leucemia extraídos da Madagascan Periwinkle [Catharanthus roseus]. Mas essa lista é
tão extensa quanto desconhecida. Também segundo este relatório, essa área ainda em
exploração, possui um espaço imenso a se investigar e se ampliar. “São poucas ainda as
espécies de plantas que fornecem ervas que tenham sido avaliadas cientificamente nas
suas possíveis aplicações médicas. (...) A África Tropical e Subtropical contem entre 40
a 45 mil espécies de plantas com esse potencial e mais de 5 mil destas já são usadas na
medicina. O texto do relatório acrescenta, o que hoje nos parece óbvio, que os sistemas
de medicina tradicionais tem se tornado comum e que mesmo em locais com
disponibilidade de medicina moderna, a busca pela medicina alternativa ou terapias
complementares frequentemente incluem aplicação das ervas e por extensão, de parte do
conhecimento tradicional em sua adaptação às necessidades modernas.254
“Na indústria farmacêutica a diferenciação de produtos termina por gerar
estruturas monopolistas e oligopolistas, em nível de produto ou classe terapêutica,
principalmente, o que significa afirmar que se torna comum a obtenção de ganhos
extras com taxas de capital superiores à média dos demais setores da economia. Tal
fato termina por suscitar na tentativa de realocação de capital em direção ao setor
farmacêutico, com a criação ou reforço de dificuldades, barreiras à entrada destas
novas empresas por parte daquelas já estabelecidas”255

252
ADEKSON, Mary, O. Yoruba Traditional Healers of Nigeria. New York: Routledge, 2003, p. 27.
253
Ver: JANZEN, M. & ARKINSTALL, W. The Quest for Therapy in Lower Zaire. Berkeley: University
of California Press, 1978. p. 45.
254
O relatório original em inglês “Promoting African Medicinal Plants through an African Herbal
Pharmacopoeia” in: African Health Monitor Issue #13, August 2010, p.65-66, está disponível em:
http://www.aho.afro.who.int/sites/default/files/ahm/reports/41/ahm-13-special-issue-pages-64to67.pdf )
Para esta porcentagem de 25%, o relatório se baseia no trabalho de Cragg G, Newmann DJ. Biodiversity:
A continuing source of novel drug leads. Pure and Appl. Chem., 2005, 77, 7-24.
255
FREITAS, A. Estrutura de mercado do segmento de fitoterápicos no contexto atual da indústria
farmacêutica brasileira. Ministério da Saúde, Secretaria Executiva – SE, Área de Economia da Saúde e
135
Não podemos nos opor acriticamente aos estudos que pretendem reconhecer os
princípios fitoquímicos e a bioatividade de determinadas plantas e raízes utilizadas no
contexto do saber tradicional. Gostaria de trazer aqui apenas alguns exemplos de plantas
cujos princípios ativos são aproveitados no mercado mundial de medicamentos. O uso
da Hoodia gordonii, Hypoxis hemerocallidea (também conhecida como Batata
Africana) usada para fins medicinais no centro sul africano e em outras regiões. A
Prunus africana e a Pyrethrum, bem como a Cryptolepis sanguinolenta256 são utilizadas
igualmente no mercado mundial de medicamentos. Tal como nos informa, num artigo
sobre plantas medicinais africana, o professor do Departamento de Zoologia da
Universidade da África do Sul (Stellenbosch University) que o “ Pelargonium sidoides é
usado para produzir diversos produtos que são comercialmente significativos,
comércios como Linctagon (África do Sul)257, Umckaloabo® (Europa), Kaloba®
(Reino Unido) ou Umckan® (no Brasil), sendo que este medicamento, um extrato
líquido das raízes de Pelargonium sidoides de nome popular Umkalaobo é utilizado no
tratamento médico moderno contra infecções na nariz, ouvido e garganta.258 Segundo a
professora Maria Lis-Balchin, da Escola de Ciências Aplicadas da South Bank
University, em Londres, embora essa planta tenha sido levada para Europa (no jardim
Botânico de Leiden, por exemplo) já desde 1600, seu uso medicinal era conhecido
apenas pelos africanos até o ano de 1900, quando suas propriedades medicinais foram
mencionadas na literatura médica259.
A história da utilização do conhecimento tradicional africano pela medicina
ocidental se confunde com a própria história da exploração europeia do continente. “As
with the majority of plants, the discovery and introduction of the first Pelargonium
species into the great gardens of Europe is closely connected with the history of
exploration and the opening up of trade routes. Once the route around the southern tip
of Africa to the East had been discovered and the spice trade was established, the East
India Companies of Britain and Holland were set up to create permanent trading posts
in southern Africa. Naturalists on board collected plants for possible food or medicine

Desenvolvimento – AESD, Núcleo Nacional de Economia da Saúde – Nunes, Brasília, DF, out, 2007. p.
5. Ver: YANAGA, R.K. P. Padrões de Concorrência no Complexo Agrícola e Industrial de Plantas
Medicinais, Aromáticas e Condimentares (PMACs) e Derivados: O Caso do Brasil. Universidade Federal
de Santa Catarina – UFSC Centro Sócio Econômico Departamento de Ciências Econômicas, 2009.
[MONOGRAFIA DE BACHARELADO]
256
TEMPESTA, M. S. The clinical efficacy of cryptolepis sanguinolenta in the treatment of malaria,
Ghana Medical Journal, March 2010, 44(1); ANSAH, C. & Gooderham, N. J. The Popular Herbal
Antimalarial, Extract of Cryptolepis sanguinolenta, Is Potently Cytotoxic", Toxicological Sciences 70(2):
245-251.; LUO, J., et al Cryptolepis sanguinolenta: an ethnobotanical approach to drug discovery and
the isolation of a potentially useful new antihyperglycaemic agent Diabetes Medicine. May 1998,
15(5):367-74; BUHNER, S. H. Herbal Antibiotics: Natural Alternatives for Treating Drug-Resistant
Bacteria. Storey Publishing. January 8, 1999. Apud:
http://en.wikipedia.org/wiki/Cryptolepis_sanguinolenta
257
Pelargonium é uma espécie originária da África do Sul e a produção de óleo de Geranium se localiza
na região da Cidade do Cabo. LIS-BALCHIN, Maria (Ed.). Geranium and Pelargonium - the genera
Geranium and Pelargonium London & New York: Taylor & Francis, 2002. p. 5 e ss. O mesmo pode ser
ditto da Pelargonium grossularioides, que além disso, é usada na medicina popular sul-africana como
abortiva (LIS-BALCHIN, 2002, p.7).
258
http://www.sajs.co.za/sites/default/files/publications/pdf/890-6410-4-PB.pdf Ver também:
http://i9projetos.com.br/infectologiaemfoco_blogp=136
259
LIS-BALCHIN, Maria (Ed.). Geranium and Pelargonium - the genera Geranium and Pelargonium
London & New York: Taylor & Francis [1. General Introduction], 2002. p. 2.
136
for the sailors and plants were brought back to Europe to botanic gardens such as the
one at Leiden, established in 1577260”.
Não sei se o velho estilo do “conhecer para dominar” se faz mais presente na
África do que nunca. Mas é certo que antropólogos, biólogos, botânicos, herbalistas e
profissionais das mais variadas áreas e mais variados países tem se assoberbado, como
no passado, na disputa pelo trabalho, pelos dons e técnicas africanas no conhecimento
da flora medicinal. (...)
Os japoneses tem enviado seus pesquisadores à África já há pelo menos 40 anos
com objetivo de sistematizar a botânica, por exemplo, dos chamados Pigmeus
(Bambuti, na verdade, caçadores-recoletores que vivem sobretudo na floresta de Ituri e
em outros pontos da floresta tropical centro africana). Segundo pesquisadores da
Universidade de Kyoto que passaram em revista a pesquisa japonesa na África Central,
“um dos principais interesses dos estudos japoneses nos caçadores-coletores da floresta
de Ituri é a etno-ciência, o conhecimento “tradicional” sobre animais e plantas da
floresta”. Uma pesquisa dos anos de 1980, parte de um projeto chamado “Aflora” tinha
por objetivo ser “um projeto de banco de dados das plantas tradicionais usadas na África
tropical para preservar a herança intelectual dos povos africanos.261 Nem os governos,
nem os povos tem condições reais de identificar com precisão em que momentos as
pesquisas têm uma finalidade estritamente científica. Esse tipo de situação só é
contornável pelos interesses humanistas e vontade de saber dos verdadeiros cientistas e
intelectuais. Estes mesmos, sempre foram pagos por seus governos para que o
conhecimento gerado (ou “usurpado”, em sentido fraco) fosse conveniente aos
interesses político-econômicos do financiador. Não é absolutamente à toa que o uso da
malícia, da sedução, ..., são frequentemente ingredientes sine qua non de toda atividade
científica e matérias obrigatórias dentro de toda academia.
A professora Maria Wissenbach, por exemplo, chamou a nossa atenção no texto
de sua tese de doutoramento “Matéria Médica, Escravidão e Tráfico no Brasil” quanto
à essa malícia (que ela chamou polidamente de “experimentalismo científico”) dos
poucos cirurgiões que havia nas grandes cidades brasileiras do período colonial. Ao
analisar os “manuais de medicina prática” a professora constatou que os escravos foram
muitas vezes utilizados como cobaias para a aplicação da medicina tropical na
população livre – os corpos negros como objeto da ciência comporia, nesse sentido, o
quadro das mórbidas contribuições negras ao desenvolvimento disso que chamamos por
eufemismo de “país”.
O mesmo ocorreu nos EUA, por exemplo, quando um certo "Dr. Cartwright
publicou inúmeros artigos sobre a inferioridade dos africanos, afirmando que algumas
doenças e desconfortos eram peculiares aos escravos. Doenças "negras", escreveu ele,
incluem “vômito negro” (“black vomit”) “malandrice” (“rascality”), “ingestão de
sugeiras” (“dirt eating”) “sindrome da fadiga” (“Cachexia Africana”), uma epidemia de
“febre amarela” em Menphis na década de 1870 foi chamada de “saffron scourge”, uma
deficiência vitamínica chamada “língua negra” (pellagra - “Black tongue”) “fuga da
escravidão” “Drapetomania” (literalmente, do grego “inventado” “loucura do escravo
fujão” há há há há! Isso, riam comigo!) Trata-se de um diagnótico de uma doença
proposta por um médico ativo na Louisiana em 1851, o Dr. Samuel A. Cartwright quem
disse: “Com aconselhamento médico apropriado, estritamente seguido, esta prática

260
MILLER, Diana. The taxonomy of Pelargonium species and cultivars, their origins and growth in the
wild. in: LIS-BALCHIN, Maria (Ed.). Geranium and Pelargonium – the genera Geranium and
Pelargonium London & New York: Taylor & Francis [1. General Introduction], 2002. P. 49-50.
261
http://www.africa.kyoto-u.ac.jp/kiroku/asm_suppl/abstracts/pdf/ASM_s28/1_intro.pdf
137
problemática que muitos negros têm de fugir pode ser quase que inteiramente
prevenida.”262 O Dr. Cartwright, aliás, concluiu que os africanos tinham “peculiaridades
não-humanas” e eles deveriam ter um gerenciamento médico diferente. Ironicamente,
essa conclusão não impediu que os próprios Doutores Cartwright, Marion Sims e outros
médicos brancos do pré-guerra civil usassem afro-americanos como cobaias em
experimentos médicos para então generalizar seus “achados” às populações brancas263.
Do lado de cá do hemisfério, já o trabalho da parteira, do curandeiro de vila, até
mesmo os agentes do programa de saúde da família estão fundamentados estritamente
na concepção da tecnologia medicinal ao estilo não-europeu, por assim dizer. A própria
carga negativa que carrega o termo “curandeirismo”, demonstra seu uso ideológico
adquirido no período de dominação colonial europeia, a mesma carga de malícia que
embutiu as determinações dos termos moleque (menino), bunda (nádegas), cochichar
(susurrar), como ações e terminologias em si negativas, porque escravas. O trabalho da
parteira-curandeira é ao contrário, o rico fruto da herança cultural imediata indígena e
africana, tradições estas que supõem a transmissão de tecnologia e de saber de modo
mais imediato, sem a intermediação obrigatória da monetarização do saber;
resguardando os casos em que o mistério está além da compreensão ou faz parte da
prática que protege em segredo da difusão indiscriminada e de mau uso deste saber.
Com exceção ainda ao charlatanismo, que aliás, pode ser encontrado nos “dois lados da
balança”, a cura é, portanto, função do médico, do nganga, do pajé, do passe espírita,
da benção católica, da purificação do babalorixá, da tomada de consciência da
psicanálise, do Heiki, da ioga, da manipulação dos chakras,da acupuntura, etc. e eles são
ou deveriam ser igualmente intermediários para-monetários (ou pré-monetários) do
processo de cura, seguindo determinados padrões de crença e efecácia.
Aproveitando isso para abrir um parênteses, eu chego a uma das questões que
também gostaria de tocar com vocês um pouco. Há uma infinidade de elementos
digamos “subliminares” e “indiretos”, ou até mesmo “inconscientes”, por assim dizer,
que nos mostram que o “progresso” das ciências e das artes humanas vai muito além
dos resultados finais destes empreendimentos. O que quero dizer é que qualquer
conhecimento assim dito “científico”, bem como o artístico, também são resultados de
uma longa investigação, apoios indiretos, acidentes, tentativas e erros, cooperação e
principalmente trabalho em conjunto, isto é, eles são frutos de um conhecimento
acumulado por anos. Nenhum conhecimento nasceu na cabeça de um indivíduo isolado,

262
“With proper medical advice, strictly followed, this troublesome practice that many Negroes have of
running away can be almost entirely prevented” http://pt.wikipedia.org/wiki/Drapetomania Não faltou no
Brasil classificações sobre os tipos de doenças que afetavam os escravos. O “Maculo, boubas, gandu,
frieldade, bicho da costa, ainhum, bicho de pés, desenteria, alastrim, flilarias, febre amarela, paludismo”
(ver: BOTELHO, A.V. & REIS, L.M. Dicionário Histórico do Brasil Colônia e Império. Belo Horizonte:
6ed. Autêntica, 2001. p. 250. Numa dissertação de mestrado sobre o tema que eu encontrei a autora
classifica as doenças dos escravos da fazenda Santo Antônio do Paiol em grupos como: doenças
infecciosas e parasíticas, como coqueluche, lepra e Icterícia; do sistema nervoso e órgãos dos sentidos,
como delírio nervoso, insônia e paralisia; do aparelho circulatório ; respiratório, como catarros
pulmonares e tosses convulsivas; digestivo, como hidropsia, diarréia e verminose; e ainda outros 5 grupos
em que, boa parte dessas doenças estão relacionadas aos maus tratos, o baixo nível de higiene e ao
excesso de trabalho. Ver: MARIOSA, Rosilene.M. Tratamento e Doenças de Escravos da Fazenda Santo
Antônio do Paiol -1850-1888. Vassouras: Universidade Severino Sombra, 2006.[Dissertação de
Mestrado].
263
SAVITT, 1982 Apud. COVEY, HERBERT. African-American Slave Medicine Herbal and non-
Herbal Treatments. Maryland: Lexington Books, 2007.

138
nenhum saber pulou feito “eureca” do nada, nenhuma ciência pertence a um grupo de
poder específico, portanto toda ciência pertence aos povos.264

Voltando um pouco, então, para aquelas discussões que ficaram no
esquecimento da história da medicina e da tecnologia africana, podemos citar o exemplo
do abolicionista, médico e missionário na África Central por dois anos, o Dr. Robert
William Felkin (1853-
1926), que era muito
interessado na medicina
tropical e na hoje
chamada etnomedicina,
o qual relatou em
revistas médicas265 ter
presenciado em 1879
bem sucedidas cirurgias
cesarianas praticadas por
médicos tradicionais de
Uganda. Parece que
relatos similares
também vieram de
visitantes internacionais
Em 1879, o médico Britânico Dr. Robert Felkin relatou que para fazer o parto os em Ruanda no mesmo
cirurgiões africanos de Uganda massageavam o útero para fazê-lo contrair, mas não o
suturavam. Faziam isso apenas na ferida abdominal a qual fixavam por meio de agulhas período. No caso
de ferro (retiradas com sucesso três dias depois). Notes on Labour in Central Africa, relatado por Felkin, os
Edinburgh Medical Journal, vol. 20, April 1884, pp. 922-930.
médicos africanos
utilizavam um preparado à base de banana para a anestesia e o aproveitavam também
para a assepsia na hora do parto.
Isso para espanto dos defensores da ciência dita “europeia”, que ao final do séc.
XIX ainda estavam tendo de engolir seus erros com relação aos procedimentos de
assepsia do pobre Dr. Semmelweis que, nos anos de 1840, contra as evidências da
“ciência” de então, jurava de pé junto que os pediatras que faziam autópsias e em
seguida partos sem lavar as mãos provocavam a morte das mães e/ou crianças pela febre
puerperal266.
Uma análise superficial da imagem dos médicos africanos mostra que o
procedimento cirúrgico era empreendido por pelo menos três pessoas, uma das quais faz
a massagem de estimulo de contração uterina e o outro empunha um “bisturi”; atentem-
264
Por exemplo, a questão da quebra de patentes, no caso da Aids e outros medicamentos de doenças
crônicas, tem sido, por exemplo, um dos paliativos mais seguros para a erradicação e/ou controle do
sofrimento dos doentes no Brasil atual. A disputa recente pelo controle de patentes é um indicativo de
como é possível questionar um poder advindo do seio da sociedade, mas que tem dificuldades de retorno
ao seu lugar de origem, por causa da soma envolvida. O dia em o investimento em pesquisa e a vaidade e
ganancia não forem confundidos (ou seja, no dia em que o médico se tornar feiticeiro – isto é, um
transtornado pela cura) a disputa pelo controle dos meios de cura para fins lucrativos chegará a seu fim.
Antes disso governos e governantes continuarão recebendo enxurradas fortíssimas de incentivos das
grandes corporações e empresas de saúde para manter tudo exatamente como está.
265
Ver: Notes on Labour in Central Africa Edinburg Medical Journal. Vol. 20, April 1884. PP. 922-930.)
(Disponível em http://www.nlm.nih.gov/exhibition/cesarean/part2.html) Como também: Medical History
3, no. 1, London 1959, cited in Ellic Howe, Magicians of the Golden Dawn, p. 240 n. 2. (Apud:
http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Felkin#cite_note-6).
266
Assistam sobre o assunto a essa ópera bem legalzinha de Raymond J. Lustig com libreto de Matt Gray:
http://www.youtube.com/watch?v=bpBPdjSuSMg
139
se à inclinação da cama, possivelmente utilizada na facilitação de um parto normal267.
Outra curiosidade é o fato da cirurgia ser empreendida por homens, seria um dado
antropológico específico do grupo étnico baganda ou ainda uma norma regional? O Dr.
Felkin faz uma narrativa efusiva do sucesso dessas operações que ele mesmo presenciou
e acompanhou por alguns dias tomando notas diárias desde a temperatura da mãe à
recuperação cirúrgica em geral. Mas talvez alguém desconfie do Dr. Felkin por causa de
suas filiações àquela maluquice de Golden Down, e com sua amizade com o querido
Rudolf Steiner e sua homeopatia etc. Numa palavra, talvez alguém desconfie desse
pensamento “anti-europeu”, por excelência, que este médico não convencional,
juntamente com alguns corajosos cientistas que ainda hoje têm demonstrado muito
interesse e inclusive proporcionado o avanço da ciência.
“Havia escravas parteiras. Eis a carta de habilitação de uma parteira: ‘
fazemos saber aos que a presente nossa carta de usança de parteira virem, que a nós
nos enviou a dizer por sua petição, Maria de Fraga, prêta do gentio da Guiné, com
licença de seu senhor, Manuel do Rêgo Tinoco, que ela se acha com capacidade, i n
teligência e experiência para poder parteirar nesta vila, e por quanto nela não havia
parteiras e tinha alcançado do dito senhor licença, mas pedia lhe fizéssemos mercê de
conceder licença para poder exercitar o dito ofício, sujeitando-se a exame por médico e
cirurgião, a qual petição, sendo por nós vista, mandamos por nosso despacho se
passasse carta de usança para exercer o dito ofício de parteira nesta vila, por nos
apresentar certidão de médico e cirurgião (...) é porque todas as circunstâncias e
requisitos concorrem na pessoa da dita Maria de Fraga, lhe concedemos licença pelo
presente nossa carta para que possa exercer o ofício de parteira e lhe arbitramos pelo
trabalho de cada parto que exercer quatro oitavas de ouro (...) 4 de janeiro de 1721.
(BARBOSA, 1972, p. 119-120)
Sabemos que do ponto de vista da função de parteira no Brasil, embora estas
detenham um determinado poder relacionado à sua habilidade técnica que independe de
sua origem, elas tem uma atividade que sempre esteve ligada à funções curandeiras
indígenas, das quais uma porcentagem enorme concretizou os nascimentos de bebês no
Brasil a fora pelos tempos. É como se o grau de influência indígena na área médica
fosse de longe o modelo tecnológico guia de toda o desbravamento do país. A própria
OMS indica que a receita anual dos países da Europa Ocidental em medicina tradicional
alcançou a cifra de 5 bilhões de dólares em 2003/2004, no Brazil (SIC) o comércio da
fitoterapia alcançou a soma de 160 milhões de dólares em 2007268. Nesse sentido, o
princípio de concentração do poder político volta a impactar todas as denominações não
ortodoxas da “ciência” deixando-nos de sobreaviso para que os nossos preconceitos não
limitem uma futura ciência possivelmente livre do poder.
Ora, portanto, devemos considerar também que a luta pela concentração de
poder encontrou na história da tecnologia uma base que comprometeu a estruturação
entre a necessidade e a satisfação humanas. Sendo isso tratado como um tabu fortíssimo
nos círculos conservadores, a noção da erradicação tecnológica universal daqueles que
fomentam os chamados “desajustes da sociabilidade” (tais como a sede, a fome e a
miséria para além das doenças) foi injustamente acusada, na virada do séc. xx para o
xxi, como ideológica ou utópica, culminando na perda generalizada da capacidade de
inconformismo. Ainda nesse sentido, via de regra, louva-se o gênio empreendedor e
desprezam-se aqueles que afinal o permitiram. Isto é, mal se dá a conhecer quais seriam

267
Um relato mais completo desta cirurgia pode ser lido aqui: http://fn.bmj.com/content/80/3/F250.full
268
Ver: http://www.fao.org/docrep/013/i1500e/i1500e08.pdf
140
os fundamentos sociais das elaborações e descobertas dos arautos da ciência, artes e
tecnologia, relegando ao esquecimento toda uma série que apoios que tornaram aquele
saber possível269.
Alguns homens das ciências e das artes fazem o mesmo com relação à suas
mulheres, por exemplo, pois acham que suas realizações devem apenas a si mesmos, ao
seu talento (obstinação) e à sua capacidade criativa. Esses patriarcalistas devem se
lembrar que há homens e sobretudo mulheres sustentando e possibilitando suas
conquistas. São poucos com humildade suficiente para dividir os méritos de suas
conquistas, que por definição jamais ocorrem por meio de uma pessoa só. Por isso
também que, embora o individualismo seja a doutrina última da ontologia humana, ele
sempre será restrito à sua condição de possibilidade que é seu apoio social. O
explorador e missionário na África David Livingstone, por exemplo, quase chorou em
20 de janeiro de 1867 ao perceber que dois de seus carregadores desertaram com as
bagagens que continham todos os seus remédios, deixando-o à sua própria sorte em
floresta fechada no Congo. Ele marcou em seu diário “sinto como se tivesse recebido
uma sentença de morte”. Pois é, se Livingstone os tivesse chamado de “colaboradores”
nada disso teria acontecido! Quantos Livingstones desolados ainda haverão de existir,
para que a lembrança dos arautos não se sobreponha totalmente aos seus propiciadores?
Algum dia chama-los-ão “auxiliares”? E aos colaboradores, chama-los-ão de
“propiciadores”? Fantasia velada de recomendação considerar que um dia aos conteúdos
semânticos dos termos “exploradores”, “desbravadores” e “inventores” juntar-se-ão o
belo termo “equipe”. Por fim, neste dia, o culto à personalidade se desvanecerá como
palha velha, mas antes disso, devemos ainda lançar aos céus a fumaça do incenso aos
heróis, santos e mártires, enquanto nós próprios, seres comuns, não nos desobrigamos
dessa improfícua e absorvente religiosidade.
Pode-se citar ainda como formas de tecnologia e conhecimentos que influem
indiretamente no progresso da ciência, aqueles acontecimentos puramente casuísticos.
Por exemplo, um escravo negro de nome Onesinos (Onesimus), na Nova Inglaterra de
1706 contribuiu com um pastor interessado em ciência ao relatar como ele fora
inoculado de varíola em sua infância na África270. O pastor de nome Cotton Matter
ficou fascinado pela ideia e passou a investigar modos de desenvolver a inoculação
desta doença, formando uma verdadeira cruzada contra a varíola. A técnica de
inoculação da varíola271 já era conhecida utilizada na China e na África imemoriais, mas
Edward Jenner (1748-1823) foi quem difundiu a técnica e ganhou os louros da
“descoberta”, reforçando a noção de que a utilização e adaptação de tecnologia não
europeia nos cânones da ciência pode ser ao mesmo tempo útil e lucrativo. As ações
contra esta doença receberam o apoio do médico Zabdiel Boylston – em determinado
período, o total de mortos pela varíola na cidade de Boston desde abril de 1721 chegou
a 5. 889, resultando em 844 mortes. Sendo que, das 242 pessoas inoculadas pelo método
aplicado por Boylston, apenas 6 resultaram em morte. A despeito de toda controvérsia

269
Fala-se muito em “quebra de patentes”, mas pouco se fala dos trabalhos sobre os quais determinadas
descobertas científicas ou criações artísticas estão assentados. O que se faz em geral é a louvação fácil e a
idolatria que visa “tomar o lugar do outro”, uma espécie de inveja que o irmãozinho mais novo sente pelo
mais velho porque alguém elogiou o sapatinho novo daquele; e o irmão mais novo exige por meio do
olhar que se elogie também o sapatinho velho dele, afinal, psicologicamente ele não poderá ficar de fora
da onda de “estar em destaque” e ter vantagem quando em desvantagem.
270
Blake, John B. The Inoculation Controversy in Boston: 1721-1722." The New England Quarterly 25:4
(Dec. 1952), pp. 490–91. Cf. CLIFF, A. D. & SMALLMAN-RAYNOR, M. World Atlas of Epidemic
Diseases. Boca Raton, FL: CRC Press, 2004, p. 39
271
Ver: CUNHA, J. Vacinas e imunoglobulinas: Consulta rápida. Porto Alegre:Artmed, 2009, p.20.
141
que ele trouxe, a proporção de mortos/sobreviventes parece esclarecedora do sucesso
deste método, pois, mais de três quartos dos infectados em Boston, em 1721 e que não
se submeteram à este método morreram.
Christopher Ellis-Hayden, num texto sobre a vacinação na época colonial norte-
americana afirma que “E em Boston, Mather também conduziu posteriores pesquisas e
descobriu que capitães de navios negreiros na Costa Africana, em sua maioria
provindos da Senegambia ou outro porto na Africa Ocidental no início do séc. XVIII,
inoculavam os escravos contra a varíola antes de cruzarem o atlântico. Protegidos da
doença, os escravos eram vendidos por maiores preços nos mercados do novo
mundo”272
A prática também foi encontrada entre os Amhara e os Tigrai da Etiópia. Relatos
dos viajantes em momentos distintos tais como Nathaniel Pearce, W.C. Harris e o Dr.
Petit da missão médica francesa273. Outros relatos sobre a inoculação da varíola na
África Subsaariana anterioras à chegada europeia podem ser encontradas nos relatos do
explorador escocês Mungo Park que em 1795 pelo Rio Gambiano cruzou o Senegal e o
oeste do Sudão até Segou, sendo o primeiro europeu a chegar até o Rio Niger. Ele foi
informado por um médico residente in Pisania que as comunidades do grupo étnico
Mande ao longo do rio utilizavam a inoculação para refrear o surto da varíola que se
espalhava a partir das regiões mouras ao norte274.
O autor Christopher Hayden também indicou que o viajante francês Gaspard
Théodore Mollien, durante sua visita ao oeste do Senegal (região de Cayor) e no Rio
Gambiano em 1811, relatou que ocorria algo semelhante. A despeito das referências
muito vagas, foi o cirurgião e etnógrafo Béréger-Feraud que serviu como chefe da
equipe médica em Gorée e em Saint-Louis quem descreve a técnica de inoculação
africana de modo um pouco mais detalhado. Eles inseriam o pus inoculador no paciente
por meio de um pavio de madeira, numa pequena queimadura no antebraço.(HAYDEN,
2008 p. 240). E segue dizendo que a profilaxia na África Ocidental contra a varíola se
baseava no entendimento compartillhado (shared undertanding) em que, uma vez o
indivíduo teve contato com a doença e sobreviveu, seja um caso plenamente
desenvolvido a partir do procedimento de inoculação, ele recebe imunidade para a vida
toda. (HAYDEN, 2008, p. 248)
Por fim, esse tipo de conhecimento indireto é sempre alvo do esquecimento
histórico. Parece que nós gostamos dos heróis que são altos, gritam alto, fazem um
grande estardalhaço e morrem com grande honra e de preferência assassinados. Dito
isto, paradoxalmente, vemos que a memória e a história podem se apresentar como um
dos maiores inimigos da verdade, da magia enquanto tecnologia. Assim sendo,
procurem seus próprios exemplos!

272
HAYDEN, Christopher Ellis. “Of Medicine and Statecraft: Smallpox and Early Colonial Vaccination
in ... “ Ann Arbor, MI: ProQuest Information and Learnin Company, 2008, p.230) - o autor também cita
como fonte o livro de HERBERT, Eugenia W. “Smallpox inoculation in Africa” The Journal of African
History Vol. 16, No. 4, 1975, pp. 539-559 Disponível em:
http://www.jstor.org/discover/10.2307/180496?uid=3737664&uid=2129&uid=2&uid=70&uid=4&sid=21102733999043
273
Ver: Richard Pankhurst, An Introduction to the Medical History of Ethiopia Trenton: Red Sea Press,
1999, p. 26 e ss.
274
Ver: Mungo Park. Travels in the Interior Districts of Africa. MARSTERS, F. K.(Ed.). Durham and
London: Duke University Press, 2000. p.113 (1a. edição em 1799).
142
Certos vínculos África Brasil talvez ainda possam ser encontrados nas seguintes plantas:

Pelargonium sidoides (Umckaloabo or African geranium), Prunus africana (red
stinkwood) and Sutherlandia frutescens (cancer bush).
African plum tree ( Pygeum africanum ) . Um produto popular do extrato desta planta é
o Tadenan, que tem sido usado em estudos clínicos que envolvem o Pygeum
Africanum275.
Trigonela laciniata276.
Physostigma venenosum A fisostigmina é indicadA para o tratamento de miastenia
grave, glaucoma, Mal de Alzheimer e esvaziamento gástrico lento277.
G. incanum – o chá foi usado como vermífugo tradicional na África do Sul278.
Geranium robertianum L. usada na África ao sul até a região de Uganda, como
adstringente na diarréia e em sangramentos com causas diversas279.
Tagetes minuta (African marigold).
khaya Senegalensis, chamada “Dalehi” pelos Fula, “Madachi” pelos Haussa, “Ono”
pelos Igbo, “ogonwo” pelos Iorubá, “homra” ou “mahogany” pelos árabes é usada como
veneno para ponta de flechas na Costa do Marfim, mas possui múltiplas funções desde
alimentar, cosmética, veterinária, óleos e resinas para essências, medicinal etc.280)

Quem tiver interesse no campo da medicina, além dos textos supracitados ver
ainda: Abayomi SOFOWORA, Medicinal Plants and Traditional Medicine in Africa
(Ibadan, Nigeria: Spectrum/John Wiley, 1985). Keto MSHIGENI, Traditional
Medicinal Plants (Dar Es Salaam: Dar Es Sallam University, 1991). Z.A.
ADEMUWAGUN, African Therapeutic Systems (Los Angeles: Crossroads Press,
1979). Sandra ANDERSON and Frants STAUGARD, Traditional Midwives (Gaborone,
Botswana: Ipelegeng Press, 1986). Cyril P. BRYAN, (trans.), Ancient Egyptian
Medicine: The Papyrus Ebers (Chicago: Ares Press, 1974). Pascal JAMES Imperato,
African Folk Medicine: Practices and Beliefs of the Bambara and Other Peoples
(Baltimore: York Press, 1977). SHIEMBO, P.N. The Sustainability of Eru (Gnetum
Africanum and Gnetum Buchholzianum): Over-Exploited Non-Wood Forest Product
from the Forests of Central Africa. Current Research Issues and Prospects for
Conservation and Development. Rome: FAO - Forestry Department, 1999. DIJK,
J.F.W. Van. Non-timber Forest Products in the Bipindi-Akom II Region, Cameroon: An
Economic and Ecological Assessment. Tropenbos Series I, Kribi: Cameroon
Documents, 1997. CARNEY, Judith & Richard Rosomoff. "In the Shadow of Slavery:
Africa’s Botanical Legacy in the Atlantic World". Berkeley: University of California
Press,2009. ETKIN, Nina L. & Paul J. Ross. "Recasting malaria, medicine and meals: a
perspective on disease adaptation". In: Lola Romanucci-Ross, Daniel E. Moerman and
Laurence R. Trancredi, (Eds). The Anthropology of Medicine: From Culture to Method.

275
Ver: http://pt.scribd.com/doc/67594267/Botanical-Medicine
276
HARDMAN, Roland, (Ed.) Georgios A. Petropoulos and Panagiotis Kouloumbis Medicinal-and-
Aromatic-Plants-Eucalyptus, vol. 11 [the genus trigonela] London: Francis & Taylor, 2002. p. 12.
277
http://it.wikipedia.org/wiki/Physostigma_venenosum e
http://en.wikipedia.org/wiki/Physostigmine
278
LIS-BALCHIN, M. (Ed.) Geranium and Pelargonium: History of Nomenclature, Usage and
Cultivation. Medicinal and Aromatic Plants – Industrial Profiles. London; New York: Taylor & Francis
Ink, 2002. p.239.
279
LIS-BALCHIN, M. (Ed.) Op. Cit., 2002. p.42.
280
http://www.worldagroforestrycentre.org/sea/products/afdbases/af/asp/SpeciesInfo.asp?SpID=1027#Uses Ver também:
JOFFE, Pitta. Indigenous Plants of South Africa, Briza Publications, 2007 pg 123.
143
New York: Bergin and Garvey. Second edition,1991, pp.230-258. HERBERT, Eugenia.
"Smallpox Inoculation in Africa. Journal of African History 16(4):539-59. PIERSON,
William D. 1993. Black Legacy: America’s Hidden Heritage". Amherst: The University
of Massachusetts Press, 1975. St. CROIX, F. W. de. "The Fulani of Northern Nigeria"
Lagos: Government Printer, 1944. CARNEY, Judith and Richard ROSOMOFF. In the
Shadow of Slavery: Africa’s Botanical Legacy in the Atlantic World. Berkeley:
University of California Press. 2009, p.90. LAGUERRE, Michel S. Afro-Caribbean
Folk Medicine, S. Hadley, Mass: Bergin & Garvey, 1987. KLOSS, Jethro. Back to
Eden, 1939. Loma Linda, CA: Back to Eden Books, 1987. L. Nogueira Prista e col.,
Tecnologia Farmacêutica, vol. I, 6ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
COLON, Sandra Hernandez. The Traditional Use of Medicinal Plants and Herbs in the
Province of Pedernales, Santo Domingo, in: Ethnomedicine 4: 139-166, 1976.
JORDAN, Wilbert C. Voodoo Medicine, in: Textbook of Black Related Diseases.
Richard Allen Williams (Ed.) New York: McGraw-Hill, pp. 715-738, 1975.
SANTILLO, Humbart. Natural Healing with Herbs, Prescott Valley, AZ: Hohm Press,
1987. Seabrook, William B., The Magic Island, 1929. New York: Paragon, 1989.
LORENZI, Harri: Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas
arbóreas do Brasil, vol. 2. Instituto Plantarum, Nova Odessa, SP, 2002, 2a. edição.
GRUBBEN, G.J.H. & DENTON, O.A. Plant Resources of Tropical Africa 2
Vegetables. Wageningen: PROTA – Foundation; Backuys Publishers; CTA, 2004.
ARAÚJO, Alceu M. Medicina Rústica. São Paulo: Brasiliana, 1961.

Para uma lista de árvores e plantas autóctones da África subsaariana ver:
http://es.wikipedia.org/wiki/Anexo:%C3%81rboles_aut%C3%B3ctonos_de_Sud%C3%A1frica
Para um exemplo de programa de integração da medicina tradicional:
http://www.unesco.org/most/bpik18-2.htm

Lista de sites para estudo das plantas medicinais (e de outros usos como cosméticos e
afins) na África

http://www.westafricanplants.senckenberg.de/root/index.php?page_id=19
http://www.westafricanplants.senckenberg.de/
http://www.tropicos.org/RankBrowser.aspx?letter=1&ranklevel=species&projectid=17
http://www.mozambiqueflora.com/speciesdata/index.php
http://www.zimbabweflora.co.zw/speciesdata/index.php
http://www.plantzafrica.com/
http://www.theplantlist.org/
http://www.ville-ge.ch/cjb/index.php
http://www.botanicus.org/
http://www.ville-ge.ch/musinfo/bd/cjb/africa/details.php?langue=an&id=166536
http://plants.jstor.org/
http://www.fao.org/docrep/X5327e/x5327e00.htm#Contents

Para iniciação ao estudo do uso de ervas e folhas no Candomblé ver:

CARDOSO, C. & BACELAR, J. Faces da Tradição Afro-Brasileira: religiosidade,
sincretismo, anti-sincretismo, reafircanização, práticas terapêuticas, etnobotânica e
comida. 2ed. Rio de Janeiro: Pallas; Salvador, BA: CEAO, 2006.

144
CARVALHO, P.M. A Travessia Atântica de Árvores Sagradas: estudo de paisagem e
arqueologia em área de remanescente de quilombo em Vila Bela-MT. São Paulo: Museu
de Arqueologia e Etnologia – Universidade de São Paulo, 2012. (Dissertação de
Mestrado).
BARROS, J. F. P de & NAPOLEÃO, E. Ewé Òrìsà: uso litúrgico e terapêutico dos
vegetais nas casas de candomblé jêje-nagô. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2ª.
Ed.,2003.
VERGER, P. F. Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá. 3ª. Reimpressão. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001.

2.2 – Os Mestres da Técnica

O povo, foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores, tempos idos
Contemplam essa vida, numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo, se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar

Zé Ramalho – Admirável Gado Novo

Em todos os ciclos econômicos no Brasil como o da madeira, cana-de-açúcar,
ouro, algodão, borracha, tabaco, café etc. Desde a chegada dos portugueses até o iníco
do séc. xx foi possível identificar o poder trabalhador dos africanos e seus descendentes.
Mas dentre os produtos exportados pelo Brasil em sua fase colonial, o açúcar é o que
mais lucro rendeu para o comércio português, contribuindo com 55, 97% do total de
536 milhões de libras. Em seguida vem a mineração, representando 31,70% desse
montante e depois o couro e o pau-Brasil, com 2,8% cada. O café que na época do
Império já se destaca como produto de grande importância econômica, nessa fase atinge
apenas 0,75% desse valor (FREIRE, 1989, p.38)
Ao aportar em terras brasileiras, os navegantes portugueses já tiveram uma parca
ideia de que tipo de exploração econômica seria imediatamente possível na “Ilha de
Santa Cruz”: extração de madeira. Os índios foram as primeiras vítimas da exploração
muscular. “Pra quê tanto querem madeira?” Pensaram certamente os índios para os
quais a extração da madeira seguia o curso regular da necessidade, diferentemente dos
portugueses, para os quais a necessidade era apenas uma coceirinha no fundo da
montanha da ganancia. A produção de excedentes na Europa do séc. xiv não podia ser
vista como uma “produção pela produção” senão como uma sentença de “salve-se quem
puder”. Mas se o capitalismo fosse a “lei da vida” os australopithecus já teriam-no
desenvolvido, mas ao contrário, o capitalismo enquanto tal foi só conhecer frutos de um
desenvolvimento sem precedentes depois da revolução industrial promovida pelo
império Britânico. O capitalismos para a mentalidade indígina é tripalium, trabalho,
tortura. O incompriensível termo “capitalismo” devia ser traduzido por “punição” nas
línguas indígenas, pois não tinham condições culturais de como sabê-lo por outra forma.

145
Como se a questão toda se resumisse em questinoar como seria possível vender roupas
para indígenas senão fazendo-os crer que ‘toda nudez será castigada’?
Não foi antes de meados do séc. XIX quando do aumento da mecanização,
aumento do gosto pelo controle dos índices de produtividade, gosto pelo
aperfeiçoamento e ampliação do maquinário disponível nas fazendas que o processo de
melhoramento contínuo da produtividade se fez valer. O parque industrial açucareiro
teve grande parte nesses desdobramentos históricos. As primeiras máquinas a vapor que
vieram substituir as tradicionais rodas d’água e a almanjarra só chegaram ao Brasil a
partir da Inglaterra, em 1815, e ficaram circunscritas a poucos engenhos na Bahia.281
Não é absolutamente a toa que durante os 3 primeiros séculos da colonização
(exploração) portuguesa no Brasil a dependência nas tecnologias indígenas e africanas
foi rigorosamente determinante (até por conta dos altos preços e da dificuldade de
exportação de implementos da metrópole). Mesmo quando pensamos nos períodos
posteriores em que fortemente se investiu em tecnologia de ponta nos séc. XIX e XX,
isto só se constituiu como possibilitadora da formação da burguesia das novas “micro-
metrópoles” (Rio de Janeiro, São Paulo seria o exemplo modelar)
A primeira coisa que nos impressiona assim que começamos a estudar a luta
pela existência sob ambos os seus aspectos – diretos e metafórico – é a abundância dos
fatos de ajuda mútua, não só para a criação de descendência, como reconhecido pela
maioria dos evolucionistas, mas também para o a segurança do indivíduo, e para
proporcionar a ele alimentos necessários. Com muitas grandes divisões do reino
animal a ajuda mútua é a regra. A ajuda mútua é encontrada mesmo entre os mais
infimos animais, e devemos estar preparados para aprender algum dia, a partir dos
alunos da microscópica vida marinha [microscopical pond-life], os fatos de
inconsciente apoio mútuo, até mesmo da vida dos microorganismos. Naturalmente, o
nosso conhecimento da vida dos invertebrados, salvo dos cupins, das formigas e das
abelhas, é extremamente limitada, e ainda, mesmo no que respeita aos animais ínfimos,
podemos recolher alguns fatos de cooperação bem apurada282.
A falta de negros determinava outro despropósito: os que estavam no litoral
debandavam para o Hinterland. A ideia do ganho mais fácil tornava natural essa
violenta transmutação do cenário. Falar em negro, no período agrícola era o mesmo que
falar em cana-de-açúcar no nordeste ou, mas tarde, em café no vale do Paraíba. Na
época do Bandeirismo minerador, negro e ouro andavam juntos. Sem negro não haveria
Pernambuco, disse alguém. Estou inclinado a dizer a mesma coisa quanto ao
bandeirismo: sem negro não haveria o ouro das minas. (RICARDO, C. 1938, p.37)
As tecnologias africanas, algumas das quais já conhecida pelos portugueses
desde o final do século XIV, foram de algum modo utilizadas em diversas áreas da
cultura no Brasil e puderam ser apontadas como um dos vários motivos para a
substituição e/ou complementação de mão-de-obra indígena pela a africana. O trabalho
na extração de bens naturais como o reconhecimento das regiões auríferas bem como a
técnica para agregar valor à matéria bruta do ouro e prata criando, por exemplo,
exemplares de joalheria; o trabalho da fundição do ferro, bem como a forja de
implementos agrícolas e armamentícios; o trabalho na agricultura tropical com uso de
ferramentas de ferro, técnicas da criação de gado e da agricultura extensiva são alguns
dos exemplos de tecnologias africanas que os indígenas brasileiros ainda não detinham
no período da chegada dos portugueses no início do séc. XVI e houve, portanto, em

281
Ver: FREIRE, J. R. B. Dialética e escravo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1989. p. 64
282
KROPOTKIN Mutual Aid A Factor of Evolution London: William Heinemann, 1904. p.p. 9-10
146
algum nível, o aproveitamento destas técnicas durante a implantação do colonialismo no
país.
Chegando a este ponto eu gostaria de falar mais esparsamente sobre algumas
atividades práticas africanas dentro e fora da África que compõe de algum modo seu
arsenal técnico, alguns dos quais puderam ser registrados nas Américas. Certamente, eu
não engrosso aqui o caldo dos que superestimam o alcance concreto das técnicas
africanas no novo mundo, mas não posso deixar de entrever aspectos ainda que
vaporosos desta trama que ademais, somente em parte poderá ser pouco a pouco refeita.
Havia importantes formas tecnológicas na África, algumas delas puderam se
desenvolver nas Américas, mas, como disse Piauí: “lamentável porém é comunicar aos
senhores que a técnica e a arte dos africanos foram abafados aqui pelas proibições da
corte Portuguesa. A vocação artística do africano foi impiedosamente comprimida no
Brasil. Inúmeros foram os alvarás e cartas régias expedidos pela Metrópole proibindo
a brasileiros natos e a outros povos (que não os portugueses) exercerem atividades
industriais, artes gráficas, tecelagem e ourivesaria. A carta-Régia de 20 de outubro de
1621 era taxativa: ‘Nenhum negro, mulato ou índio, embora forro, pode exercer a arte
de ourivesaria’, tal situação estendeu-se por quase todo o nosso período colonial283”.
Contudo, como bem sabemos, a simples existência de leis nunca se mostrou no
Brasil justificativa suficiente para a criação do mundo da organização e da ordem
abstratos. Aquelo nosso apego aos valores da personalidade e aos favores pessoais, tão
bem atacados em Sergio Buarque de Holanda concebendo o sumo da cordialidade
brasileira impedia também que o lado fraco da corda aceitasse formalismos que não lhe
dissesse respeito. Não só se desrespeitou as leis proibitivas em relação aos negros e
mulatos por eles mesmos, quanto seus próprios senhores, desde sempre, perceberam que
essas mesmas habilidades que muitos escravos já traziam consigo da África não
poderiam ser dispensadas, já que o lucro resultante de sua produção podia ser
considerável.
Certas tecnologias, de fato, podem não se referir exatamente a uma habilidade,
mas a um certo acaso misturado com argúcia e senso de oportunidade. Quanto à tecnica
de produção da cachaça, por exemplo, qualquer que seja sua história concreta não há
dúvidas de que se trata de um produto de originalidade brasileira. Fruto do acaso ou de
uma certa tecnologia popular sem vontade de dominação e controle (inclusive por meio
do registro escrito, já que são bem esparsas as notícias de sua origem real). Isso pode ser
estendido de algum modo para as técnicas africanas de produção de bebida. A despeito
de alguns poucos textos em inglês, está pra ser feito um estudo profundo das técnicas
africanas de fermentação de bebidas alcóolicas. O estudo de alguns dos exemplos de
técnicas de fermentação africana que cobrem desde cereais, legumes, até raízes e outros
produtos tornaria nossa visão da criação da cachaça, ainda que não mais correta, pelo
menos um pouco menos ingênua, talvez284.
(...) fazer cerveja a partir grãos tais como milho, milheto, sorgo, ou milho Kafir,
de acordo com a localidade, é uma profissão de grande importância social e
econômica. A cerveja é consumida em todo o cerimonial ocasiões, e fontes da bebida
são essenciais para uma bem-sucedida dança. Durante os ritos relacionados ao culto
dos antepassados, a cerveja é derramada como uma libação, ou ele é usado em

283
PIAUÍ, F.S. O Negro na Cultura Brasileira. Campinas: Academia Campinense de Letras no. 27, 1974
p.10.
284
Um princípio de pesquisa nesse sentido pode ser feito aqui: HOUNHOUIGAN, Joseph African
Fermented Foods and Beverages: Traditional Processes and Modern Technologies. Cotonou, Benin: CRC
Press, 2012. E aqui: http://www.fao.org/docrep/015/i2477e/i2477e00.pdf
147
cerimônias de purificação. Por exemplo, um caçador Ovimbundu derrama cerveja na
vasilha dos antepassados antes de ir caçar. As informações dadas no que diz respeito
ao cerimonial usa da cerveja entre o Balobedu285 é amplamente aplicável, em princípio,
aos povos negros286.

Comunhão da cerveja – Povo Wafipa, do Sudoeste da Tanzânia
Foto: Bilham Kimati
(HAALAND, 2007, p.166)

“A cerveja nas culturas africanas é mais do que apenas um bebida, é um
componente crítico para o desenvolvimento social, estrutura econômica e política da
sociedade. As pessoas gastam uma quantidade considerável de seu tempo e trabalho
transformando (processing) suas colheitas em cerveja, em vez de pão, por causa do
valor da cerveja no estabelecimento de alianças.287”
O jesuíta italiano André Antonil (1649-1716) registrou também parte de como se
dava esse processo comunitário em que uma bebida fermentada a partir da espuma da
cana-de-açúcar passou a ser a “menina dos olhos” daqueles negros escravizados que ele

285
KRIGE, E.J. The social significance of beer among the Balobedu. BS, vol. 6, pp. 343-357.1932, pp.
343-357.
286
(HAMBLY, 1937, p. 590)
287
SELIN, Helaine. Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and Medicine in Non-Western
Cultures Vol. 1 Springer, Berlin, Heidelberg, New York: Kluwer Academic Publishers, 2008, p. 34.
Aqueles que gostarem tanto quanto eu e tiverem o interesse de se “embreagar” com este assunto pode se
iniciar aqui: CARLSON, R. G. Banana beer, reciprocity, and ancestor propitiation among the Haya of
Bukova, Tanzania. Ethnology 29 (1990): 297–311. ; NETTING, R. Beer as a LOcus of Value among the
West African Kofyar. American Anthropologist 66 (1964): 375–84.; ROBBINS, R. H. Problem-Drinking
and the Integration of Alcohol in Rural Buganda. Beliefs, Behaviors, and Alcoholic Beverages: A Cross-
Cultural Survey. Ed. M. Marshall. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1979. 351–61.;
SANGREE,W. H. The Social Functions of Beer Drinking in Bantu Tiriki. Society, Culture, and Drinking
Patterns. Ed. D. J. Pittman and C. R. Snyder. New York: Wiley, 1962. p. 6–21. E
http://www.academia.edu/1362754/2011_Stockhammer_P._W._An_Aegean_Glance_at_Megiddo._In_W
._Gauss_M._Lindblom_R._A._K._Smith_and_J._C._Wright_Hrsg._Our_Cups_are_Full_Pottery_and_So
ciety_in_the_Aegean_Bronze_Age._Papers_Presented_to_Jeremy_B._Rutter_on_the_Occasion_of_his_6
5th_Birthday._Archaeopress_Oxford_282-296

148
viu no Brasil. A experiência “ritualística” de beber em roda de amigos (ou de
“malungos”) é parte integrante do cerimonial comunitário propício para trocas de
experiências. A escuma [...] vai ao paiol [...] e desta escuma tomam os negros, para
fazerem sua garapa, que é a bebida, de que mais gostam [...] guardando-a em potes até
perder a doçura, e azedar-se; porque então dizem que está em seu ponto para se beber
[...] (ANTONIL, 1950. p. 121) Mas atentemos para isso, segundo Manoel Querino
(QUERINO, 1938, p.188.) “o africano, em geral, era sóbrio no uso de bebidas alcoolicas:
não se davam ao vicio da embriaguez, mas do dendezeiro extrahiam generoso vinho.
Para esse fim, na parte superior do tronco dessa palmeira, faziam uma incisão e
colocavam um pedaço de bambú para servir de escoadouro da seiva. Ao liquido que
cahia em uma cabaça ahi amarrada, davam o nome de vinho de dendê.”
Dentre as bebidas africanas que nos restaram, ainda que de modo restrito, o
vinho de palma é, eu presumo, uma influência africana ocidental direta. Atualmente não
é muito fácil encontrar o vinho de palma, exceto em alguns locais do nordeste onde
cultura do vinho ainda se desenrola. Na África ocidental, entretanto, este costume ainda
está muito em voga, embora o aumento das tradições islâmicas ortodoxas entre os
afircanos tem diminuido em muito as práticas tradicionais de processamento de bebida
alcoólica. Esta bebida é chamada oficiosamente e na intimidade de “vinho nacional”, na
Nigéria. Eu próprio tive a oportunidade inesquecível de beber no palácio do rei de Ilê-
Ifé, Oba Okunade Sijuwade, Olubuse II, que seus súditos serviram em um verdadeiro
balde de uns 6 a 8 litros. Tem a cor branca semelhante ao suco de cacau da bahia,porém
não é pastoso. Seu gosto de fermentação natural agradável faz o vinho parecer um suco.
Fui sorridentemente advertido por algumas senhoras iorubanas de que aquela bebida
branca se tratava de vinho de palma e que ainda era feita de maneira tradicional a partir
da fermentação da seiva da palmeira e que se eu tomasse mais que um copo eu não
conseguiria levantar da cadeira, pois é uma bebida muito forte. Bebida deliciosa, na
verdade. Mas, em respeito ao rei, eu não quis testar o limite de minha tolerância e a
veracidade do que disseram aquelas sorridentes velhinhas conversadeiras.
E por falar em delícia... A Amarula (“Comida dos Deuses”, na língua dos Tsona
do Zimbabue, Suazilândia e Moçambique) é a bebida africana de exportação mais
conhecida no Brasil. Ela provém da árvore “Marula” (Sclerocarya Birrea) típica do
bioma das Savanas africanas e sua distribuição pela África se seguiu a partir da famosa
migração banto por todo centro sul africano, fazendo parte importante de sua dieta
alimentar, medicamentosa e artesanal, seja como alimento na forma de óleo, como
digestivo, mas também no tratamento para a profilaxia da malária, analgésico contra
picada de escorpiões e cobras, tratamento contra pirose (queimação gástrica ou peitoral)
e tintura (vermelho amarronzado para artesanato) e no uso veterinário contra carrapato
de gado 288.
Hoje, ironicamente, a cachaça um símbolo nacional, mas a comercialização da
cachaça, de possível invenção de escravos, também foi utilizada em tempos coloniais
como moeda corrente para se comprar escravos na Costa Ocidental Africana; isso tudo,
nesse mundinho patogênico de indivíduos dominados pelo lucro a todo custo só não
pode ser mais estranho e até revoltante que a patente alemã da rapadura, a patente

288
Ver: http://www.marula.org.za/legends.htm. Diversos são os tipos de plantas alcaloides com
propriedades que modificam o estado de consciência e que são utilizadas com propósitos mágico-
medicinais por variados grupos humanos africanos. Aliás, parece que não só os humanos tem o pendor
natural para o álcool; a Amarula, por exemplo, é uma bebida que os elefantes também adoram:
http://www.jstor.org/stable/10.1086/499983?url_ver=Z39.88-
2003&rfr_id=ori:rid:crossref.org&rfr_dat=cr_pub%3dncbi.nlm.nih.gov&
149
japonesa do açaí, do cupuaçu etc. “Era muito mais lucrativo para os senhores de
engenho usar um subproduto do açúcar, neste caso a aguardente, como moeda de troca
por escravos do que dispor de valores para a compra destes, o que foi feito durante
todo o período colonial e, mais a frente por grande parte do primeiro reinado no
Brasil, contribuindo para o aumentoo em colônias africanas das guerras de
apresamento visando o envio de escravos para o Brasil. É claro que para o rápido
enriquecimento desses senhores de vender aguardente, a bebida não era destinada tão
somente aos estabelecimentos comerciais da colônia. Seu verdadeiro destino era a
costa africana. Os navios negreiros atravessavam o atlântico lotados de barris de
aguardente e melado e retornavam abarrotado de escravos.289”
Mas não podemos nos imiscuir em destacar que as “mestras da técnica”, no
feminino, foram decisivas no processo de trasmissão tecnológica “África-Américas”,
uma vez que foram propriamente as tecnologias femininas (africanas e afro-americanas)
que deram conta de todo um desenvolvimento relacionado à técnica do tingimento e do
tear (mulheres adire, sanyan, adinkra, kente, bakuba290, entre outras), à culinária (com a
técnica de cozimento para fazer pamonha, a prática e técnicas culinárias do pirão, fúngi,
cocada, quiabo (quimbombó, em Cuba; “Okra gumbu” na Louisiana”291), caruru, vatapá
e acarajé, acaçá, mungunzá, angu, jabá..., além dos modos africanos de preparar
comidas não-africanas, só para citar alguns exemplos. A mestra da técnica era uma
mulher africana, indígena. A mulher europeia era a mestra em crochet, tricot, rendas de
bilro e em como encontrar subterfúgios para resguardar um pouco de sua própria vida e
de como não ter de ser obrigada, contra a vontade, a sublevar-se contra o patriarca, o
tirano familiar. A mãe preta, a ama de leite (tão comum durante todo período escravista)
é a real detentora da técnica da transmissão cultural africana: transmissão da
brincadeira, do modo de ser, das canções (da musicalidade), da sociabilidade afável do
brasileiro, do gingado (o modo de andar, copular e de outras técnicas do corpo292) do
modo de falar (e das palavras bantas a falar, como exemplo: “cochilar” – que é
“dormitar” em português; “cochichar” – “sussurar”; “dengo” – “manhã”; “bunda” –
“nádegas”...; bem como nas palavras iorubanas a falar como o Abadá, Cafofo, Afoxé,
Agogô, mandinga, os orixás e o axé. E heranças no estilo que determinaram o nosso
linguajar de “pedestres” (como eu digo), linguajar daqueles que estão no meio da rua

289
MONTENEGRO, M. Breve História da Cachaça – da colonia aos dias atuais ” São Paulo:
Biblioteca24horas, Seven System Internacional Ltda, 1ª. Ed. , 2009, p.17-18. Ver também:
CAVALCANTE, Messias Soares. A verdadeira história da cachaça. São Paulo: Sá Editora, 2011;
CÂMARA, Marcelo. Cachaça - prazer brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2004; FIGUEIREDO,
Fernando et all. Cachaça - alquimia brasileira. Rio de Janeiro: 19 Design Editora Ltda, 2005; MAIOR,
Mário Souto. Dicionário folclórico da cachaça. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana,
2004.; CASCUDO, Luís da Câmara. Prelúdio da cachaça. São Paulo: Global, 2006. Li um artigo na
Folha de São Paulo comentando a respeito do livro Álcool e Drogas na História do Brasil de Carlos
Magno Guimarães, que não li, mas me pareceu interessante. Diz-se no artigo sobre o livro que “A
cachaça desempenhou um papel econômico fundamental no Brasil durante período colonial”
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u703514.shtml). E me parece um ótimo
campo de investigação, nesse sentido.
290
Falo um pouco sobre o trabalho do tecido africano em três lugares:
http://pt.scribd.com/doc/65123065/A-Fiacao-dos-Tecidos-Bakuba ; http://pt.scribd.com/doc/65557297/O-
Bordado-das-Mulheres-Bakuba; http://pt.scribd.com/doc/65554713/As-Tapas-do-Povo-Mbuti
291
WALKER, Sheila S. (Ed.) African Roots/American Cultures: Africa in the Creation of the Americas.
Lanham, Maryland: Rowman & Littlefield Publishers, 2001, p. 63-64.
292
MAUSS, M. Manual of Ethnography. Transl. Dominique Lussier Ed. NJ. Allen. Durkheim Press-
Bergham Books, New York; Oxford, 2007, p. 25 (Disponível em:
http://pt.scribd.com/doc/142657743/MAUSS-Manual-of-Ethnography).
150
trabalhando na acepção do coloquial e na atividade vital (em oposição aos que estão
cultivando bunda nos escritórios, nos gabinetes com sua langage erudit, seu modo de
ser rebuscado, falso, burguês, não natural): as palavras faladas do português que não
terminam em consoantes como Falá (falar), Brasiu (Brasil), bebê, comê, conversá... O
belo costume banto e iorubano em desfazer encontros de consoantes ou alternar as
letras “l” e “r” que dão Salvar > Sarvar > Sarvá > sarava ou ainda Flor > Flô ou
fulô, etc. A língua, a comida, a vestimenta, os instrumentos musicais, a composição
artística, a religiosidade, (...) há uma infinidade de suprimentos tecnológicos e culturais
africanos enraizados dentro de nossa cultura brasileira que são frutos principalmente do
trabalho da mulher africana, aquela que africanizou até os filhos dos brancos ao ser sua
segunda mãe, a mãe verdadeira no sentido da família estendida, portanto, é aquela que
cria. Criar é nutrir, estimar, sustentar, suportar, proteger, estimular e educar – esses são
os patrimônios imateriais da tecnologia africana dentro e fora da África.
Mas aqui, não só em relação à língua, mas vou me dar ao luxo de “pular”
também grande parte que trata da tecnologia culinária de influência africana
simplesmente por causa da grande extensão bibliográfica a este respeito. No entanto,
gostaria apenas de fazer mais um pequeno adendo ao dizer que é preciso que se
desenvolva um estudo histórico sobre o complexo da cultura material (incluindo a
culinária) ou de produtos (manufaturados ou “nem tanto”) que foram comprovadamente
frutos de importação convencional direta da África, mesmo após o tráfico de escravos,
como aponta, por exemplo, Arthur Ramos293 sobre produtos que ainda eram possíveis
de encontrar em sua época (1946), tais como a “noz de kola (obi e arobô), o azeite de
dendê, ao lado de panos e sabão da Costa e outros objetos do culto religioso, na
indumentária, os panos vistosos, as saias rodadas, os chalés da Costa, os braceletes,
argolões das mulheres têm procedência nigeriana. E outras influências mulçumanas,
como a rodilha ou turbante, angola-congueses, como missangas e barangandans, vem
completar a figura típica da bahiana, hoje tão popular no Brasil inteiro”. (...) etc...

O SAL - uma das principais fontes de sal africana no saara eram as jazidas de
Taghaza d’Awlil entre outros sítios antigos tais como os indica Posnavsky: “Uvinza, a
leste de Kogoma, na Tanzânia; Kibiro, às margens do lago Mobuto Sese Seko, em
Uganda; em Basanga, na Zâmbia, e talvez em Sanga, no Zaire, e no Vale de Gwembe,
na Zâmbia. Em Uvinza, a extração do sal era provavelmente rudimentar, já que as
descobertas relativas aos séculos V e VI, feitas nas fontes salgadas, não estvam
associadas aos reservatórios de salmoura reforçados por pedras que caracterizam a
ocupação do segundo milênio. O sal provinha igualmente de fontes salgadas em Kibiro,
onde um sistema aperfeiçoado de ebulição e filtragem dataria do primeiro milênio, pois
a ocupação do sítio dificilmente se poderia explicar de outra forma. Em Basanga, os
baixios salgados foram ocupados a partir do século V, e, conquanto o fato ainda não
esteja definitivamente estabelecido, é possível que o sal tenha sido explorado muito
cedo, talvez por evaporação. Parece que em outros lugares o sal era obtido pelos
diversos processos que se conservaram até o século XIX e que consistiam em calcinar
ou ferver ervas ou mesmo excerementos de cabra, recolhidos em regiões conhecidas
pela salinidade de seus solos, depois em fazer evaporar a salmoura assim obtida e
eliminar por filtração as impurezas mais grossas.294
293
RAMOS, A. 1946, p.293.
294
POSNANSKY, M. As Sociedades da África Subsaariana na Idade do Ferro Antiga. In: MOKHTAR,
G (Ed.) História Geral da África. vol. II – África Antiga Brasília: 2ª.Ed. UNESCO, 2010. p. 735-36.
Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0019/001902/190250por.pdf
151
Temos algumas coisas a dizer sobre isso, pois se trata de uma das minhas
pesquisas em antropologia econômica, o chamado “dinheiro primitivo”. Mas tudo que
tenho a dizer pode, no momento, ser substituído pelas palavras de Wilfrid Hambly, que,
guardadas as proporções e as suas conclusões de temoralidade datadas, possui
importantes informações a oferecer aos pesquisadores da cultura africana tradicional:
“Tribos negras que mantinham o gado levavam-nos periodicamente para pântanos
salinos ou para lugares onde havia um afloramento de sal. Antes de que o sal pudesse
ser obtido a partir de comerciantes, que o importavam da Europa, a água do mar foi
evaporada e comercializado [o sal] a partir da costa para o interior em troca de tabaco,
cera de abelha e outros produtos locais. No leste de Angola , os Batchokwe seguiam um
método Negro comum de fazer sal a partir de plantas. Folhas de algas de rios são
queimados até às cinzas, são embebidas em água e coadas. Com o avanço dos contatos
Europeus, o valor comercial do sal diminuiu, pois a maioria dos negros se
familiarizaram com o dinheiro europeu. Mas há apenas trinta anos atrás [i. é., 1907] E.
Torday pagou seus carregadores em sal durante as viagens na região do sudoeste Congo.
Naquele tempo, a compensação por homicídio (dinheiro de sangue) eram pagos em sal.
O chefe de uma aldeia, o qual, como uma unidade social era responsabilizado por um
assassinato cometido por um dos habitantes [de sua aldeia e cabia a ele] pagar
compensações a parentes do homem assassinado. Para este efeito , o chefe reuni seus
súditos e recolhe um punhado de sal de cada um deles. A importância das minas de sal
do Saara e do estímulo que estas deram ao comércio com os negros da África Ocidental,
tem sido descrita [seção I do livro de Hambly]. O comércio existe, apesar da
concorrência Europeia e M. Abadie (1927 , pp 274-280 ) apontou os efeitos do tráfego
atual [1937] em estimular os mercados do Sudão ocidental. A preparação e o comércio
de sal nas margens do Lago Mweru foi descrito por R, J. Moore (1937 ), mas antes, os
negros da África Ocidental dependiam de fontes estrangeiras de sal (extraneous supplies
of salt) que podiam produzir o comoditie, especialmente, se vivessem perto da costa. J.
Matthews (1788, p. 37) fala de uma planície costeira de pântanos salinos inundadas pelo
mar em intervalos. Os nativos recolhiam a crosta de lama deixado após a subsidência da
água e líquidos de lama eram decantados em tachos (decanted into pans) que eram
colocados sobre uma fogueira até que apenas os cristais de sal permanecessem.
(HAMBLY, 1937. p.591). Se o Egito é um milagre do Nilo, muitas cidades do norte da
África, em especial no Mali, são milagres do sal.

Mestres da filosofia – sim, a filosofia é uma técnica, assim como a literatura,
técnica da expressão comunicativa, técnica da transparência da vida transposta em
técnica da exposição, valorização e composição da experiência humana por meio da
linguagem ou se quiserem, no sentido de Simone de Beauvoir o “desvendamento por
meio da linguagem” e a política é uma “técnica social” no sentido que damos não tão
anacronicamente a Maquiavel, seu recriador moderno. A filosofia é a técnica do
aprofundamento na realidade das vidas, sem finalidade objetiva, exceto pela busca
incessante pelos fundamentos sem os quais nenhuma racionalidade e nenhuma
emotividade seriam dignas dos seres humanos. É nesse sentido que os negros africanos
no Brasil trouxeram para o domínio do pensamento brasileiro o conceito de liberdade.
Nenhuma tecnologia poderia aborver em si mesma maiores triunfos para seus
defensores. É por aí também que dentre as tecnologias do pensamento uma das mais
frutíferas nos tempos escravistas advinham de “mentes negras” ávidas pela liberdade,
como as de Luiz Gama (1830-1882), José do Patrocínio (1853-1905), André Rebouças
(1838-1898), Tido Lívio de Castro (1864-1890), Teodoro Sampaio (1855-1937), mas
152
também as de outros tempos como a de Lima Barreto (1881-1922), Edison Carneiro
(1912-1972), Guerreiro Ramos (1915-1982), Milton Santos (1926-2001), entre outros
que, em momentos posteriores, continuaram a evocar em uníssono dissonante a
definição do ser tecnológico como sendo, paradoxalmente, não outra senão a liberdade.
Dois filósofos propriamente ditos, embaraçados com suas próprias técnicas datadas e,
por um lado, incapazes de dar respostas mais profundas aos problemas infinitos que a
própria técnica filosófica se impõe e por outro, embaraçados com a impossibilidade
metodológica de dar respostas aos problemas brasileiros, fazem ambos parte do
conjunto dos seres humanos cuja pele denuncia sua origem, fruto da escravidão. Neles
percebemos o aparecimento dos primeiros filósofos brasileiros: Tobias Barreto e Farias
Brito. Pois é, como se a técnica da filosofia (filha da coruja simbólica do arrebol, do
“thaumazo” – espanto, admiração) encontrasse nos trópicos também as sementes de sua
possibilidade e como se ela só pudesse mesmo aparecer nas fissuras, nas transições, nos
tumultos e nas reviravoltas da malha social tropical, tão dignas dela.

Alguns destaques norte-americanos - Nos EUA a influência africana foi ainda
menor...É preciso ter em mente que as influências mútuas, embora sejam inevitáveis,
elas se organizam num campo inconsciente da sociedade e não é só difícil conduzi-lo
para que dê resultados específicos como é tão mais difícil prever quais serão estes
resultados. As políticas governamentais que historicamente tentaram controlar essas
forças foram, num grau ou outro, fracassadas. Sabemos, por exemplo, qual foi o
resultado da política do branqueamento no Brasil e olhando retrospectivamente
conseguimos identificar que esta política que soava bastante racional à época, mas que,
em seu racismo, não foi capaz de prever que a quantidade também produz qualidade, ou
seja, o número de indivíduos com ascendência indígena e africana seria tamanho que a
naturalidade do estilo de vida desses grupos acabaria tendendo dominar a todos os
outros estilos, especialmente, a todos os estilos de vida em decadência, porque, (isso
vale pra hoje e historicamente pra sempre) os estilos de vida dominantes em decadência
tendem naturalmente a procurar outros modelos (ainda que entendidos como inferiores)
mas que possam trazer uma força cooptante, mantendo os padrões de oposição entre a
cultura dominante e a dominada.
A cultura dominante é dominante não por causa de suas virtudes, mas por causa
do seu poder de penetração, sua capacidade militar e tecnológica. Por outro lado,
Historicamente, sabemos que houve civilizações dominantes do ponto de vista militar e
tecnologico que não foram capazes de sustentar essa hegemonia. Cada caso é um caso,
mas se for verdade que a hegemonia branca nas américas (que hoje dura 500 anos)
cooptou as habilidades e alguns aspectos da tecnologia indígena e africana para manter-
se no poder, é verdade que não houve pelo menos nas últimas 5 décadas, uma
orquestração e organizações para a manutenção deste poder. Talvez seja por isso mesmo
que haja mais de 500 milícias armadas de ultradireita branca, cristã e fascista dentro dos
EUA, dentre as quais a já enfraquecida Ku Klux Klan – Embora estas milícias têm sido
habilmente controladas pelas forças federais daquele curioso país. Se este é um caso
para se pensar nas “decadências dos modelos racistas” em face aos “modelos
pluralistas” frutos do multiculturalismo burguês, da ascenção das multinacionais e seus
planos de implantação capitalista mundiais, talvez devêssemos voltar lá pro nosso ponto
de partida que foi iniciada em 1865 com a promulgação à contragosto da decadência da
hegemonia branca nas américas, com a promulgação da Décima Terceira Emenda
constitucional nos EUA que proibia a escravidão. Ao se estudar bem as causas,

153
protegendo-se contra as distrações contingentes, pode-se dar previsibilidade aos
contornos dos efeitos.
Sim, nós que defendemos modelos democráticos somos filhos da Décima
Terceira Emenda. Graças à esse momento histórico, podemos pelo menos sonhar com
modelos de integração que possam um dia dissolver as intrigas tribais e fazermos
voltarmos ao problema do homem, deixado à parte desde o fracasso da revolução
francesa e da manutenção do núcleo duro da democracia depois do fim da era dos
imperialismos. Enquanto isso, voltaremos a face aos nossos próprios erros e não
ficaremos cabisbaixo ao identificarmos que o nível de influência mútua entre brancos
colonialistas e não-brancos colonizados necessitou de séculos para se desenvolver e por
isso, a maior parte dela tendeu ao desuso, à falta de registro e por fim, ao
desaparecimento.
Não devemos, contudo, considerar negativamente o fato de que houvesse pouca
ou quase nenhuma influência africana em muitos aspectos da resolução de problemas
do sistema e da vida colonial. Um dos motivos óbvios diz respeito ao caráter não
especializado dos valores culturais africanos; um médico é um sacerdote que tem
conhecimentos próximos dos feiticeiros e que muitas vezes é chefe tribal ou pertence à
família real. Ao falar da saúde pública e estratégias de cura africanas tradicionais disse
Ambe J. Njoh295 “Antes da chegada das forças coloniais europeias, os africanos
tinham desenvolvido estratégias de assistência médica que foram adaptadas para, e
definidas por, suas culturas, crenças e ambiente natural. Essas estratégias continham
uma forte dose de ‘herbalismo’ e ‘espiritualismo’ (...)”296. Outro dos motivos disso
pode ser verificado na comparação com os modelos e técnicas de exploração comercial
nas colônias norte-americanas e as técnicas e modelos de exploração de algumas das
colônias latinas. Sendo que aquelas são industrialistas e estas outras são aversas à
industrialização. Quando se faz esta comparação percebe-se que, nos EUA, o grau de
maquinação e o interesse crescente na substituição da mão-de-obra (seja ela servil ou
não) pelo uso de maquinário, não só contribuiu para o aumento da produtividade, como
foi crucial na diminuição da escassez - e, consequentemente na distribuição de bens,
ainda que desigual em relação aos escravos - como também foi crucial para os eventos
que culminaram na Guerra de Secessão. Esse caldo de eventos paradoxais no qual os
EUA emergem até hoje, também existe na América Latina, mas é muito mais ralo, isto
é, as diferenças são bem mais escancaradas, as divisões sociais são bem mais evidentes
e isso tem seu fundamento também no atraso generalizado que perpetuou na resistência
histórica em superar o problema da mão-de-obra escrava ou servil (seja com uso de
maquinário, seja com uso de mão-de-obra livre). É sabido que o sul dos Estados Unidos,
francamente dependente do trabalho escravo no séc. XVII, não tinha outra escolha
senão lutar, por assim dizer, pelo "direito de escravisar". É sabido que a elite Brasileira,
por exemplo, viciada no sistema escravista, também só podia abrir mão dele a partir do
apoio e sobretudo por pressão externa, pois o país era quase que inteiramente um país de
“Estados Confederados”, isto é, com uma economia agrária, serva do escravagismo e
principalmente avessa ao industrialismo. É essa aversão ao industrialimso um dos temas
essenciais a ser estudado para compreensão dos Estados que podem, ademais, possuem
esse complexo "Confederado". Eles precisam de uma pressão externa para se

295
NJOH., AmbeTradition, Culture And Development in Africa: Historical Lessons for Modern
Development Planning. Burlington: Ashgate Publishing Company, 2006.
296
Isto é, uma medicina já em si mesma holística, cujos elementos mágicos e tecnológicos, bem como a
religião e a vida quotidiana, as artes sagradas e os utensílios domésticos são todos indecomponíveis.

154
desenvolver, pois suas forças progressistas internas, baseada apenas em ideais de
virtude e justiça, não possuem qualidades, forças e atrativos materiais suficientes para
impor modificações estruturais.
No centro desta disputa burguesa entre o industrialismo e as plantations estão os
servos(trabalhadores ditos “livres”, porque gozam de alguns poucos direitos) e os
escravos. Se eles fossem capazes de impor quaisquer modelo de influência estes tinham
de ser tão fortes, atraentes ou necessários quanto humildes, subalternos ou de fácil
cooptação. É por isso que o grau de influência africana ou indígena nas sociedades das
américas (chamemo-nas de refugo das "sociedades e das culturas brancas europeias") é
mínimo ou nulo se se considerar que essa influência só poderia se dar no campo
cultural mais alheio às forças produtivas e econômicas no período colonial, isto é, na
música, na culinária, na dança, numa palavra, no entretenimento.
Excetuando algumas habilidades pontuais como o trabalho no ferro, ouro,
agricultura extensiva, entre outras habilidades africanas tradicionais, o estudo dos ciclos
econômicos no Brasil explicam o desinteresse geral dos europeus com relação ao
conhecimento técnico dos africanos. Por mais que aqueles reconhecessem nestes em um
momento ou outro da história deste conflito, certas "qualidades" inerentes à suas
próprias tradições tecnológicas, a retirada da madeira, as plantações de comodities (seja
cana-de-açucar, algodão, tabaco, café etc.), o ganho no comércio, os trabalhos
domésticos e serviços mecânicos em geral não constituem elementos influentes dentro
da história da tecnologia no Brasil.
A questão central da tecnologia não é cogitar por que os europeus foram tão
pouco inteligentes ao exluir o saber africano e não tomaram nenhuma lição do estilo de
vida daqueles que subjulgaram (pois obviamente eles o tomaram e tomam como um
estilo de vida inferior, já que supostamente este estilo de vida não opõe homem e
natureza, vida civilizada e vida selvagem, em suma, este estilo de vida africano não
presumeria a “libertação humana do medo”, da qual falava Adorno pela boca de uma
das minhas professoras mais queridas nos tempos da faculdade, a qual reservei um
trechinho numa das epígrafes no início deste texto. A questão central da tecnologia é
considerar o fato de que os europeus não tomaram durante a escravidão nenhum
território para si. Isso foi feito muito depois, no período colonial da África, quando as
colônias das américas já estavam estabelecidas e eram negócio extremamente lucrativo
e permitiram o avanço militar numa África que sempre foi, ademais, impenetrável.
Não separei muito espaço aqui para para trazer também os resultados de
pesquisas a respeito da importância da mulher na africanização do Brasil, seja na
introdução de suas técnicas pedagógicas (como mucama e ama-de-leite que transmite a
tecnologia da língua e mil outros meandros da cultura de origem africana também para
crianças brancas que, ademais, por ausência de adulteração de consciência cultural, não
possuem preconceito de cor de pele, por isso assimilam esta cultura “estrangeira” como
se lhe fosse sua própria) etc...No entanto, um exemplo de pesquisa com resultados
admiráveis dessa recuperação histórica é o belo trabalho de Judith A. Carney297 “‘With
Grains in Her Hair’: Rice in Colonial Brazil. Fazendo o cruzamento da história oral de
afro-brasileiros do Amapá, Pará e do maranhão e outros descendentes de africanos
quilombolas do Suriname, Cayenne e Carolina do Sul (que dão conta de que uma
mulher africana foi a introdutora do arroz nessas regiões ao trazer “grãos de arroz no

297
Ver: http://www.sscnet.ucla.edu/geog/downloads/594/33.pdf
155
cabelo”) ressaltando o importante papel feminino nesta cultura, Carney analisa uma das
principais influências tecnológicas africanas para os EUA.298
De acordo com Joseph E. Holloway: O primeiro cultivo de arroz bem sucedido
no Novo Mundo foi realizado nas Sea Islands, na Carolina do Sul, por uma mulher
Africana, que mais tarde mostrou a seu proprietário como cultivar arroz. As primeiras
sementes de arroz foram importadas diretamente da ilha de Madagascar, em 1685, os
africanos forneciam o trabalho e os conhecimentos técnicos (technical expertise) para
esta nova indústria do cultivo.Os africanos da costa do Senegal ajudavam os europeus
(train Europeans) nos métodos de cultivo e aqueles especializados no cultivo de arroz
foram importados diretamente da ilha de Gorée.(CADÊ?) Os africanos foram capazes
de transferir com sucesso a sua cultura do arroz para o Novo Mundo. O método de
cultivo de arroz usado na África Ocidental e na Carolina do Sul eram idênticos. Os
africanos escravizados utilizavam três sistemas básicos: água de solo (ou subterrânea),
nascentes e retenção de umidade do solo ou lençol freático. Estes três sistemas
encontram-se em ambos os lados do Atlântico, e formou a base para a Economia do
antebellum (pré-guerra civil) da Carolina do Sul.299
Ávidos que são por estatisticas e acompanhamento gráfico, os historiadores
norte-americanos (brasilianistas idem) farão seus estudos práticos quanto a “real”
influência (do ponto de vista numérico) dos africanos nas américas e no Brasil. Vão
tentar indicar o nível de eficiência, quantificação das habilidades, identificação do fator
(ou fatores) total (is) da produtividade africana nas américas, farão escalonamentos
sobre o grau de vantagem econômica trazida pelos negros nas américas, levantarão
todos os efeitos do desenvolvimento economico na sociedade norte-americana e
chegarão a conclusões multiculturalistas bastante bem adequadas aos financiamentos
públicos de suas pesquisas. Não é disso que tratamos aqui e não é da crítica a isto (ainda
que necessária) que também temos tratado aqui. Pensamos por pulos, divergências,
fissuras e não queremos estabelecer os critérios mesmos dessas críticas e das auto-
criticas necessárias para tratarmos das diversas epistemologias africanas e não africanas.
O legal seria iniciar a indução da inversão de valores que supusesse ambas
epistemologias europeias e não-europeias como ponto de partida para uma técnica de
inversão de valores e de valorização da experiência ordinária.
A influência geral africana nos EUA é ínfima perto das de outros países da
américa latina como o Brasil, Cuba, Colômbia etc. Não é a toa que eles falam lá em
“african root twice removed” (ou raíz africana duplamente removida) significando com
isso que os “africanos” nos Estados Unidos em sua maioria, já haviam sido
parcialmente “desafricanizados” no Caribe. A primeira “remoção” seria a africana, a
298
Pesquisas relativamente recentes permitiram reescrever parte de uma historiografia obsoleta, que
atribuia a existência de arroz na África ao transporte português do cereal em suas diversas idas ao oriente.
Alguns trabalhos de botânicos, por exemplo, apresentam a diferença de espécie entre o cereal asiático e o
africano, demonstrando que foi a espécie africana autóctone (e não a asiática) que foi introduzida nas
Américas. Parte destes resultados pode ser visto aqui: J. Carney, Black Rice: The African Origins of Rice
Cultivation in the Americas (Cambridge: Harvard University Press, 2001). Ver também:
CHRISTOPHER, Ehret. Civilizations of Africa: a history to 1800. Charlottesville: University of Virginia
Press, 2002. p. 139
299
Prof.Dr. Joseph Holloway: "African Contributions to American Culture": Disponível em:
http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture Ver também: LOVEJOY, P. E. African
Contributions to Science, Technology and Development Collective Volume; The Slave Project:
UNESCO. http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/pdf/P_Lovejoy_African_Contributions_Eng_01.pdf
.

156
segunda, a do Caribe em direção ao Sul daquele país. Essa influência sofreu reves
históricos tão maiores que a metodologia historiográfica seja capaz de solucionar. Por
isso mudamos imediatamente de assunto, sem prejuízo lógico, mas apenas para um
conforto ilusório.

Debulha de arroz – negros no sul dos EUA utilizando alfaias de madeira com malhos
para separar os grãos do talo. Leslies Illustrated Newspaper.Oct, 20.1866, p. 72.
http://www.unf.edu/floridahistoryonline/Plantations/plantations/Rice_Cultivation.htm

A história do cultivo de arroz no Brasil teve aspectos semelhantes aos dos EUA
e os motivos históricos são conhecidos. Aliás, pouco se estudou as relações entre o
nordeste brasileiro e o sul dos EUA a considerar também o número que deve ser
significativo de escravos saídos do Brasil para trabalhar em plantations naquele país.
Quem sabe não se pudesse ainda acrescentar algum “afro-brasileirismo” na terra do Tio
San?300
No que diz respeito estritamente à produção de arroz, as regiões características
historicas de cultivo deste cereal na África estão divididas basicamente em duas zonas
de cultivo que resultou em dois sistemas tecnológicos distintos de uso da terra. Esses
sistemas seguiam a porcentagem de precipitação anual de cada região: um era mais
agro-pastoral e o outro mais agricultural, embora não fosse incomum por vezes
encontrar campos de técnica mista. Geralmente, em regiões nortistas, em que há baixa
precipitação, o cultivo do arroz se desenvolve nas áreas mais úmidas e em conjunto com
a criação de gado. Já nas regiões sulistas onde há áreas onde o nível de precipitação
chega a cerca de 88 cm de chuvas anuais, maior nível de lençóes freaticos, portanto,
menor necessidade do uso do gado e uma maior predominância do sistema de cultivo
estritamente agrícola, dando espaço para técnicas de plantio de terras altas, cultivo em
terrenos pantanosos ou produção de arroz com proveito da maré. Alguns autores
também fazem uma distinção técnica entre o arroz de planalto (considerado um método,

300
Eu já li sobre isso em mais livros que posso no momento indicar aqui, em qualquer caso não faltarão
referências: Vejam por exemplo: HOME, G. The Deepest South: the United States, Brazil, and the
African slave trade New York: New York University Press, 2007, p. 45.
157
em grande parte africano) e o arrozal de campo submerso e alagado (método asiático),
considerando ainda os modelos de Madagascar com suas ligações asiáticas históricas301.

Num volume coletivo “Projeto
da Rota Escravista” apoiado pela
UNESCO, Paul E. Lovejoy assina um
artigo sobre as influências tecnológicas
africanas nas Américas cujo título é:
“Contribuições Africanas à Ciência,
Tecnologia e o Desenvolvimento”.
Neste artigo, o que certamente merece
estudos à parte, ela afirma que O
Maranhão começou a exportar arroz no
final da década de 1760 e manteve-se a
principal fonte de exportações do Brasil
durante o período colonial. Entre 1760
e 1810, dois em cada três Africanos que
chegavam na região de cultivo de arroz
do Maranhão vinham do Alto da Costa
da Guiné (upper Guinea Coast); na
verdade quase todos embarcaram de
Cacheu e Bissau. Em outras partes do
Brasil, praticamente não houve
africanos da região do Alto da Costa da
Guiné. O cultivo de arroz no nordeste
do Brasil dependia de uma
predominância de africanos de regiões
produtoras de arroz da África
Ocidental302.”

Pilando Arroz – Sul dos EUA Nas planícies pantanosas entre a
Georgia Department of Archives and History, Atlanta, Casamance e Nunez, povos africanos
Georgia. como os Diola e os Baga tinham
http://www.unf.edu/floridahistoryonline/Plantations/plantations/Rice_C
ultivation.htm elevado o nível do cultivo do arroz a
um nível que atraiu a admiração de
visitantes europeus, e o arroz também foi um grão de dieta básico em áreas mais
montanhosas do interior [africano] próximo. Foi a partir deste berçário da cultura do
arroz que os Guineenses foram desenraigados e enviados para o Maranhão, onde
rapidamente construiram uma indústria de arroz bem sucedida303.

301
Antes de 1945 os Fula do norte dos Camarões colhiam o arroz selvagem (de cor avermelhada) no
Delta do Rio Senegal, depois da guerra o arroz indochines passou a figurar como principal no consumo
dos Fula. Mas a técnica de plantio do cereal na África teve historicamente um desenvolvimento
independente milenar,), a partir do Mali, partindo para a Costa da Guiné e para o sul em direção ao lago
Tchad. (AHMADY, N. & JEANGUYOT, M. Grain de Riz, Grain de Vie. CIRAD- Magellan e Cie.,
2002, p.39).
302
LOVEJOY, P. E., African Contributions to Science, Technology and Development Collective Volume;
The Slave Project: UNESCO. p.14.
303
FAGE, J.D. & OLIVER, R. Anthony. The Cambridge History of Africa. Vol. 4 c. 1600- c. 1790.
Cambridge: Prees Syndicate of the University of Cambridge, 1975, p. 803
158
Os Africanos plantavam arroz na primavera, pressionando um buraco com o
calcanhar e cobrindo as sementes com o pé, o movimento utilizado foi semelhante ao
utilizado na África Ocidental. No verão, negros da Carolina passavam pelos campos de
arroz em uma fileira, capinavam em uníssono para trabalhar músicas que se seguiram
de acordo com padrão de cultivo na África Ocidental, e não aquele que foi imposto
pelos europeus. Em Outubro quando o grão debulhado era “ventilado” com o vento, as
largas cestas de joeira planas eram feitas por mãos negras seguindo um design
Africano. Além disso, o processo de remoção de núcleos de arroz da sua cascas era
feito com o uso da técnica de almofariz e pilão, da África. Com base nesta evidência
tecnológica e a presença de escravos africanos da costa da Guiné superior e a
produtora de arroz interior, fica claro que a tecnologia Africana e conhecimento sobre
a produção de arroz foi transferido para as Américas. (pp. 14-15) 304

Pisa do arroz para separar os grãos - Senegal
(AHMADY, N. & JEANGUYOT, M. Grain de Riz, Grain de Vie. CIRAD- Magellan e Cie.,
2002, p.41)

As contribuições africanas no campo da tecnologia nos EUA, obviamente, não
se restringem à tecnica de plantações de arroz. Holloway identifica ainda,
especialmente, o desenvolvimento da indústria americana de laticínios, a técnica de
pastagem de gado aberta, inseminação artificial de vacas, desenvolvimento de vacinas,
cura para picadas de cobra, etc. Mas não há um só texto que trate da influência

304
LOVEJOY, P. E. African Contributions to Science, Technology and Development Collective Volume;
The Slave Project: UNESCO.
(http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/pdf/P_Lovejoy_African_Contributions_
Eng_01.pdf )

159
tecnológica africana nos EUA que não mencione a importância da introdução de
técnicas agrícolas, especialmente, a do cultivo do arroz. Inúmeras técnicas europeias de
plantio foram desenvolvidas nos EUA. Certamente não se fala em “influência europeia”
nas tradições e técnicas norte-americanas no cultivo do arroz simplesmente porque se
quer essas “influências” modelares, quase que “implantações tecnológicas rígidas”, não
puderam se desenvolver como nas outras culturas, como por exemplo, a de trigo. O
cultivo do arroz impõe, numa de suas técnicas, o plantio em regiões de charcos e
alagadiços. Foi assim que apareceu a dificuldade dos brancos norte-americanos se
estabelecerem como agricultores de cultivo do arroz nos charcos do sul disponíveis para
exploração econômica –, especialmente em Louisiana e New Orleans. Estas eram as
regiões onde melhor se desenvolveria a produtividade da colheita do arroz, no entanto,
eram também terras repletas de mosquitos da dengue, ávidos pelo “sangue branco”,
contra o qual, pelo menos o que nos contam inúmeros relatos, seja pelo domínio de
profiláticos, seja por sua capacidade naturalmente adquirida por exposição, os negros
tinham uma enorme resistência contra o mosquito e por isso, sem eles não haveria a
implantação do cultivo do arroz como se deu305.
Um relato muito íntimo com pano de fundo da tecnologia africana de cultivo de
arroz nos EUA pode ser encontrado num livro-diário de uma sagaz Elizabeth Waties
Allston (1845-1921) que escreveu sob o pseudônimo de Pennington, Patience. Diz ela:
“Pode ser sábio explicar a peculiaridade da nossa região arroz no sul do país. A partir da
última semana de maio até a primeira semana de novembro é considerado mortal para
um anglo-saxão respirar o ar da noite em uma plantação de arroz; A fatalmente alta
febre biliar do passado foi apontada como um resultado direto disto (was regarded as a
certain consequence), enquanto o Africano e seus descendentes eram imunes306”
“Das mais de vinte espécies de arroz encontradas no planeta, apenas duas
foram domesticadas, um na Ásia (Oryza sativa), e a outra na África Ocidental (Oryza
glaberrima). Acredita-se que a O. glaberrima foi originalmente domesticada nas zonas
húmidas de água doce do delta interior do rio Níger, no Mali há cerca de dois mil anos
atrás. A diversidade genética também sugere dois centros secundários de inovação e
desenvolvimento do arroz Africano: norte e sul do rio Gâmbia e o planalto da Guiné
entre a Serra Leoa, Guiné Conakry e Libéria” 307
Quisera pudéssemos “colher o fruto sem plantar a árvore”, como diria Sérgio
Buarque de Holanda, mas também nem só de técnica vive o homem. Os indígenas, os
ludditas, John Zerzan ...os magos e bruxos tiveram uma iluminação. O argumento
segundo o qual a escolha entre uma forma tecnológica mais produtiva ou mais “bem

305
A Woman Rice Planter: Electronic Edition. Pringle, Elizabeth Waties Allston (pseud. Pennington,
Patience), 1845-1921 Illustrated by Smith, Alice R. Huger (Alice Ravenel Huger), b. 1876". (Disponível
em: http://docsouth.unc.edu/fpn/pringle/pringle.html)
306
(pág. 37) - Quem souber inglês deve ler essa sensível e bela historia real de meados do Século XIX
sobre “Uma Mulher Que cultiva arroz” na Carolina do Sul , nos EUA. A este exemplo, os diários das
mulheres e homens no período da escravidão são conjuntos extremamente ricos de informações mais ou
menos precisas sobre o dia-a-dia da relação Senhor-Escravo, da colonização e da importância ou
participação consolidada dos africanos e seus descendentes na construção da sociabilidade nas Américas.
Portanto, são úteis para compreensão de alguns detalhes do cotidiano que faltam na maioria dos
historiadores. Leiam pois, o repito: "A Woman Rice Planter: Electronic Edition. Pringle, Elizabeth
Waties Allston (pseud. Pennington, Patience), 1845-1921 Illustrated by Smith, Alice R. Huger (Alice
Ravenel Huger), b. 1876". Disponível em: http://docsouth.unc.edu/fpn/pringle/pringle.html).
307
CARNEY, J.A. Black Rice: The African Origins of Rice Cultivation in the Americas Cambridge and
London: Harvard University Press, 2001, p. 38. Cf. (cf. Joseph E. Holloway African Contributions to
American Culture. P. 10 (disponível em http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-
american-culture )
160
sucedida” e uma “tecnologia tradicional” e preestabelecida por gerações seja uma
decisão paradoxalmente irrelevante se considerada além da luta pela sobrevivência
básica, pode ser visto como uma radiografia do confronto tecnológico histórico entre a
europa e a “não-europa”. Por reforço cultural, o índio em sentido mais amplo, seja o
pajé ou o preto-velho ri e faz piadas da dependência do homem branco à tecnologia e à
sua risível ideia de que o hoje já é ontem308.
Aqui e ali vê um trecho de floresta desbastado, aqui e ali uma faixa estreita da
margem plantada de milho ou uma pequena pasagem, aqui e ali, por entre touceiras de
bananeira, uma casinha pardacenta de barro, na qual um grupo de índios ou negros ou
uma família composta de ambos os elementos vegetam, levando a vida mais simples
imaginável [...] (AVÉ-LALLEMANT, 1961 p. 120). Não é preciso muita imaginação
para a percepção de que a temporalidade africana e indígena no Brasil condicionaram o
homem branco (não só os portugueses, mas também a toda leva de imigrantes que
vieram depois) a se deparar com uma nova e bem vinda forma de temporalidade: a
brasileira. Tudo aqui é de um tempo outro e os gringos ficam loucos com isso, mas
também os citadinos em relação aos interioranos, como bem observou Câmara Cascuro
em sua viagem à África: As minhas observações tiveram o critério da anotação nos
povos do interior, dos campos, das aldeias e das cidades menores ou pequenas
indústrias, com habitações independentes e sem a necessidade do contato citadino. O
prêto nas plantações de chá no Guruê não é o prêto morador nos Musseques em
Luanda. O lenhador de Maiombe é figura diversa de um fâmulo em Nampula. Os prêtos
de Mansoa estão distanciados dos monhés da ilha de Moçambique ou dos lavradores de
Mussuril. Alguns, residindo nas aldeias legitimamente africanas, têm interesses nas
cidades e essa contigüidade é um fator diferencial. A população residente ao redor dos
rios represados, fornecedores de energia elétrica, com canais de irrigação, têm posição
psicológica, na mecânica das soluções mentais, não iguais àquela que colhe água em
poços ou nas bombas hidráulicas. Os pontos de concentração diária não coincidem no
horário e mesmo nos elementos que vão buscar água. Onde o líquido é transportado em
barris rolantes ou veículos de tração humana ou animal e não nas vasilhas seculares, a
conversa popular, especialmente entre mulheres, sofre transformações e, creio,
modificações no temário. As mulheres que buscavam água, voltando de fábricas ou
plantios industrializados, falavam sem saudar, imediatamente à chegada, sem perder
tempo. A preta das palhotas tradicionais, a mulher-de-sua-casa, agitava a mão
saudando e conversava mais longamente. (CASCUDO, 1965, P.88). A temporalidade
interiorana, tradicional, rural indígeno-africana supõe o tempo de espera, o tempo da
paciência e das condições de possibilidades das modificações naturais. Calendários
inteiros são criados a partir do estabelecimento sazonal de pontos de modificação da

308
Mesmo eu, que não sou preto velho nem nada, também ri muito quando estive, com uma delegação
latina no centro norte-americano de ethnomusicologia Smithsonian Folkways Recordings, em 2009.
Fomos muito bem recebidos por um velhinho ruivo muito simpático de nome esquisito Atesh Sonneborn.
Ele nos entrevia sorridente por nosso maravilhamento ao querer eternizar fotograficamente todos os
detalhes dos trilhões de discos em vinil daquele suntuoso e gigantesco prédio em Washington D.C.
Enquanto ele mostrava as instalações internas do “aparelho de Estado para contenção e sedimentação da
arte musical popular de todo o universo”, ele saia de uma sala a outra e, repentinamente, passava a outra
de forma pragmática e utilitaria em questão de segundos resmungando entre os dentes com sua face
vermelho-fogo: “eu não aguento essa diferença cultural”. Ele queria simplesmente dizer duas as coisas:
“1) tempo é dinheiro. 2) vocês são uns lerdos.” (portanto, pobres? Portanto inferiores? Questionei eu em
silêncio...). Bem, ele não passa de um velhinho norte-americano simpático cuja tradição diz a todos:
Sejam mais rápidos, produzam mais e vençam! Todos aqueles que não seguirem esta “fórmula de
vencedores”, serão excluídos cultural e financeiramente da face da terra.
161
natureza como estações do ano, épocas específicas de colheita e plantio, contagem dos
dias, posicionamentos estrelares e lunares e etc. O termo ovimbundo para “ano” vem do
verbo “cultivar”309, que por sua vez, no umbundo é oku lima, que deu na palavra ulima,
e faz referência ao período entre os começos de duas estações chuvosas. A marca
temporal principal é a chegada das primeiras chuvas em meados de Setembro. Além
disso, os Ovibundo tradicionais não tinham medida de minutos e horas. Não há uma
palavra Umbundo para semana, mas apenas para mês (osai). O pendor das
temporalidades se mede menos com o relógio que com as batidas do coração.
Mesmo no Brasil, onde as condições sub-humanas e o verdadeiro delito da
sujeição ideológica dos frutos tecnológicos “não-brancos” como sendo incompletos para
a tarefa civilizatória (o que constitui em si uma falácia de tipo etnocêntrico) podemos
identificar este conflito de visão de mundo, a partir, por exemplo, dos relatos de
Eschwige em sua tentativa de implantar inovações tecnológicas por meio de
mecanização do trabalho extrativista. “(...) Eschwige, em seu afã de introduzir
melhorias técnicas nas Gerais, construiu um complexo aparelho mecânico, em local que
acreditou apropriado tecnicamente e no qual poderia ser visto pelos mineradores a fim
de estimulá-los, pelo exemplo, a contemplarem suas lavras com tais inovações ‘nesse
lugar, eu construí um engenho de socamento hidráulico, destinado a moer as
numerosas rochas auríferas que as águas arrancam da serra, e coloquei-o em circuito
com um grande lavadouro, para aproveitar a areia aurífera do rio, que constitue meio
de vida para muitos negros pobres. Dificuldades extraordinárias tive que vencer para
conseguir a queda d’água necessária. Trabalhei durante quatro meses para estabelecer
uma barragem de vinte metros de altura no ribeirão do carmo e, quando estava quase
determinado, veio à noite, um temporal extraordinariamente violento que engrossou o
ribeirão e aniquilou a barragem até a base’310. Eschwige, (continua LUNA, 1981), ao
criticar os mineiros, fornece uma visão clara da posição desses indivíduos quanto à
introdução de máquinas em suas lavras. Os mineiros não se mostravam preconceituosos
com respeito às máquinas, o que não os levava a adquiri-las para satisfazer um mero
capricho; preocupavam-se com o efetivo resultado econômico da inovação a ser
implantada, sem empolgar-se pelo engenho em si mesmo. ‘O mineiro brasileiro, que só
pude conhecer bem depois de bastante trabalho, ajuíza em geral da utilidade de um
trabalho ou de uma máquina não pelo que ele ou ela pode realizar, mas só pelo que é
capaz de produzir sem levar em consideração as circunstâncias que constituem óbice
ao fim colimado. Sua primeira pergunta, por exemplo é: quanto ouro tem-se
conseguido com isso? Se a resposta não é inteiramente satisfatória, logo pontifica que
o trabalho ou a máquina de nada vale, sem considerar o fato de o terreno poder
produzir outro ou não. Ele exige maravilhas do maquinário’. (Eschwege, 1944, p.69).
Os mineiros, embora não se servissem usualmente de máquinas e equipamentos
sofisticados, a demonstrar conhecimentos práticos de hidráulica: mundéus de grande
capacidade e canais suspensos ou paralelos para mudança do leito dos rios. A própria
realização dessas obras fundamentava-se no uso intensivo e quase exclusivo do trabalho
humano, ou seja, do trabalho escravo”.(LUNA, Ibidem, p.52-53)

O que, entretanto, logo lembra ao viajante que ele se acha numa parte estranha do mundo, é
sobretudo a turba variegada de negros e mulatos [...] A natureza inferior, bruta, desses homens
insistentes, meio nus, fere a sensibilidade do europeu, que acaba de deixar os costumes delicados

309
CANIZZO, Jeanne Into Heart of Africa Toronto: Royal Ontario Museum, 1989, p. 68.
310
ESCHWEGE, W. L. Von. Pluto Brasiliensis, São Paulo: Editora Nacional 2 Vol. 1944 – Brasiliana,
Biblioteca Pedagógica Brasileira, Vol. 257 e 257-A. p. 69.
162
e as fórmulas obsequiosas das suas pátrias. (SPIX & MARTIUS, 1980, p.46)

2.3 – Os Mestres da Mineração

Boa parte do ouro explorado durante todo o setecentos na gerais e nas capitanias de Goiás, de Mato
Grosso e da Bahia, foi recolhido através de técnicas introduzidas pelos africanos e desconhecidas pelos
europeus. Essa realidade estende-se, ainda, aos diamantes extraídos e ao minério de ferro encontrado na
região, transformado em instrumentos de trabalho nas pequenas forjas montadas pelos africanos.

(PAIVA, E.F. Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo.
In: Eduardo França Paiva e Carla Maria Junho Anastasia (organizadores). O trabalho mestiço: maneiras
de pensar e formas de viver, séculos XVI a XIX. São Paulo: Annablume; PPGH/UFMG, 2002.
p.189).

Esses homens e mulheres embarcados na Costa da Mina com destino ao Brasil eram tradicionais
conhecedores de técnicas de mineração do ouro e do ferro, além de dominarem antigas técnicas de
fundição desses metais. Eles conheciam muito mais sobre a matéria que os portugueses (...). Ao que
parece, o poder quase mágico dosMina para acharem ouro e a sorte na mineração associada a uma
concubina Mina eram, na verdade, aspectos alegóricos de um conhecimento técnico apurado.
(PAIVA, E. F.; ANASTASIA, Carla Maria Junho. (Orgs.). O trabalho mestiço: maneiras de pensar e
formas de viver – séculos XVI a XIX. São Paulo: Annablume. 2002; p.187.)

Exageros à parte foi dito que o processo extrativista do período colonial possuía
no mais das vezes um caráter “nômade”, dado a busca contínua por novas jazidas. Isso
diminuia significativamente a viabilidade do uso de máquinas, daí a preferência pela
mão-de-obra escrava em relação aos equipamentos, daí também a preferência brasileira
pelo atraso do capitalismo pré-industrial. Indo mais além, está para ser estudada a real
influência das técnicas africanas para localização do ouro, por exemplo, atribuído,
preconceituosamente e/ou não, especialmente aos Mina (escravos provenientes do Golfo
da Guiné) que possuíam certamente, experiência centenária na descoberta, uso de
implementos específicos para o garimpo e domínio das técnicas da ourivesaria como a
produção de argolas, a folhagem e a filigrana (técnicas já utilizadas na África na
produção de joias de ouro antes do contato com os Europeus). Muitos dos escravos
importados para essas regiões [Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso] vieram do interior
da África Ocidental – a chamada Costa da Mina do tráfico negreiro luso-brasileiro -,
onde já se praticava a mineração aurífera em grande escala havia séculos. Parece
bastante lógico que o conhecimento acerca da extração e refinamento de metais
preciosos destes africanos e seus descendentes teria sido ao menos igual, senão maior,
que o dos seus senhores portugueses e brasileiros. Outra vez, está-se lidando com peças
não registradas e anônimas do mosaico histórico, mas, no caso, um conhecimento
melhor da tecnologia da mineração na África Ocidental contemporânea certamente
apontaria para diversas contribuições de escravos ao desenvolvimento da mineração
no Brasil311.
O ouro é escavado do solo pelos escravos desses Acaneiros [akans] (...)
Enquanto está sendo escavado não se pode notar nenhum ouro visível no solo escavado,
mas esse solo é levado pelos escravos em grandes recipientes de madeira e colocado em
grandes montes onde tiver água mais perto [para batear]. Nos domínios de Petu e

311
LIBBY, D. Cole, (Org.); FUTADO, Júnia FERREIRA (ORG). Trabalho Livre, Trabalho Escravo:
Brasil e Europa, séculos XVII e XIX. São Paulo: Annablume p. 58, 2006.
163
Commendo, várias centenas de escravos são vistos muitas vezes procurando ouro (...)
na praia"312.

Mineração na Costa do Ouro
D. O. Dapper, Description de l'Afrique.1668.p.293

Por falar em África, pensa-se, por exemplo, no caso de relatos de viajantes tais
como Dapper313 que em momentos diferentes de sua obra faz referências cruciais para o
entendimento das técnicas e das práticas de mineração na Costa Ocidental africana: Não
há só ouro nas montanhas, mas em certos momentos o mar se lança sobre a costa: &
quando a água está baixa as mulheres vem buscá-lo, & encontram às vezes peças de
dois ou três francos de valor. Mas não é então que se tira a maior quantidade de ouro:
é das minas que não são conhecidas nem da população, nem dos estrangeiros. Os reis
somente são os senhores, eles fazem trabalhar a seus escravos, eles negociam este ouro
no litoral com os holandeses, por meio de outros negros.
Como eles têm rios cujas nascentes passam através dessas veias e dessas minas
de ouro, eles removem pedaços por causa da força das águas, & essas pequenas peças
tombam em seguida, pelo peso do metal num local onde a água forma uma cascata alta
e forte na vertical. Os Negros mergulham, carregando nas mãos um reservatório de

312
LOVEJOY, P. E., A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 2002 p.188.
313
DAPPER, O., Description de l'Afrique: contenant les noms, la situation et les confins de toutes ses
parties…trad. du flamand. Amsterdam: Wolfgam, Waesberge, Boom & Someren, 1686. p.293.
(Disponível em: ftp://ftp.bnf.fr/010/N0104385_PDF_1_-1DM.pdf )
164
madeira (“une cuve de bois”)314 que eles enchem com tudo que se pode carregar do
fundo do leito seja pedra, terra ou areia. Quando eles retornam à margem, fazem uma
lavagem de tudo, & se há outro, ele fica ao fundo: localizando às vezes peças de
tamanho e peso de uma fava de feijão, (“d’une fave”), de uma polegada (“d’un
pouce”); antes, não passava de uma pó minúsculo que dá muito trabalho para separar
da areia, & muitas vezes eles mergulham muitos dias sem encontrar nada. Os rios de
Atzin & de Igwira são aqueles nos quais vemos estes mergulhadores. A maior parte dos
viajantes crêem que não se acha mais ouro até trinta léguas a diante; pois em Soco, que
fica a cerca de três a quatro dias do litoral, quase não se conhece este metal, e que a
partir daí para Ningo, não ouvimos mais se falar de minas de ouro.
Perto da pequena Commendo, há uma pequena montanha na costa, de onde os
habitantes tiraram muito ouro no ano de 1622. Mas, como esses negros não conhecem
a arte de cavar & criar minas, elas matavam muitas vezes & sufocavam os
trabalhadores; o rei de Guasso proibiu que as usassem no futuro.
Como os negros têm muito ciúmes de suas minas, eles contam pesadas fábulas
para impedir que os estrangeiros a confisquem; eles dizem que ouvem ruídos & que às
vezes se vê fantasmas que fazem mal aos mineradores. Mas seria suficiente, me parece,
dizer apenas a verdade para inspirar este desgosto; que um grande número de escravos
pereceram pelo fedor, a infecção do ar, pela dureza do trabalho; & sobretudo, que é
pela terra que se afunda, quando morrem os mineradores; & e tudo o que um homem
pode extrair de ouro por dia não passa do valor de dois ou três Louis de
ouro.(DAPPER, 1686, p.293)
A referência que faz Dapper de que “esses negros não conhecem a arte
de cavar & criar minas” só pode dizer respeito aos negros desta região visitada por ele,
mais que isso, o seu próprio relato dando conta do medo que tinham das minas, parece
dizer respeito antes a um tabu relacionado às mortes que um desconhecimento da
técnica315. Relatos mais antigos, por exemplo, Paul Lovejoy, apontam que o Códice
Valentim Fernandes, datado de 1507 no Senegal relata um processo de mineração
diferente do ouro de aluvião. As covas de ouro são sete e as têm sete reis, cada qual
sua cova. E as covas são muito altas debaixo do chão. E estes reis têm seus escravos,
aos quais metem em aquelas covas e lhes dão mulheres que levam consigo e parem e
criam nas ditas covas e ali lhes dão de comer e beber. Estes escravos são todos
negros316.
A história da metalurgia e mineração no Brasil são exemplos de nossa
característica singular em depositar forças inumanas em todas as áreas de
empreendimentos que afinal não dão tantos resultados quanto os esperados. As técnicas
mineradoras portuguesas também não eram competitivas em relação às congêneres
alemãs e britânicas. Não sei quê da bela alma portuguesa os fazia basear, pelo menos até
finais do séc. XVIII, seu conhecimento nessa área num empirismo317 incerto e em
soluções pouco utilitárias ou lucrativas. Talvez não seja a toa que Portugal faça parte
dos primos pobres da Europa, juntamente com Chipre, Grécia, Turquia e Espanha.
314
Ou seja, “uma bateia”. Nota do renatinho.
315
Estudos arqueológicos apontam que a técnica de mineração de superfície avança o subterrâneo pela
primeira vez por volta do ano 40.000 a.C. na Swazilandia. Nesse sentido, ver: KENNEDY, B.A. Surfaces
Mining (ed.) Maryland: 2º. Ed. Society for Mining Metallurgy and Exploration, Inc., 1990, p. 2. Ver
também: http://media.wiley.com/product_data/excerpt/11/04713485/0471348511.pdf (p.7).
316
LOVEJOY, P. E., A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 2002. p.70.
317
Ver: HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro:
Bertrand do Brasil. Tomo I, Livro 1. 1997; pp.248-249.
165
Claro é que eu não sou nem um pouquinho um determinista geográfico, mas taí o
distinto norte da Italia para não deixar eu mentir e, em geral o desgosto, indiferença ou
falta de entusiasmo pelo capitalismo “rola solto” nos países latinos e mediterrâneos,
além de alguns países africanos. De qualquer forma, um bilhão de explicações históricas
se sobrepõe a umas míseras dezenas de explicações culturais e, além do mais, nem todo
“fracasso” não gera lucro e esta é uma questão própria do paradoxo do capitalismo. No
nosso caso, historicamente, as cidades de Sabará e Mariana que o digam, pois são as
menininhas dos olhos não só do retângulo mineiro, mas de todo o país no que diz
respeito à mineração de ouro. O Brasil produziu cerca de uma tonelada de ouro em
cerca de 100 anos, entre 1700 a 1820318 e essa é apenas uma porcentagem da soma total
de riquezas em ouro que puderam ser desenvolvidas agregando valor ao metal, em
joalheria, por exemplo.
A metalurgia indígena não existiu no Brasil, como já me referi em outro
momento acima, não tinham necessidade ou desafios suficientemente direcionados para
terem de desenvolver este tipo de tecnologia. A metalurgia africana, certamente muito
útil no momento de implantação da mineração, tampouco tinha modelos que pudessem
fazer frente ao maquinário especializado que a Inglaterra e a Alemanha já vinham
desenvolvendo e ampliando freneticamente. No entanto, essa tecnologia teve espaço no
país e foi decisiva para o desenvolvimento industrial que se seguiu à implantação da
colônia.
De modo geral, aspectos das tecnologias africanas pré-coloniais são autóctones,
ou seja, possuem desenvolvimentos independentes no próprio continente. Mas, não
podemos deixar de fazer referência à forte influência islâmica na tecnologia africana e
deixar registrado que houve um desdobramento formal desta influência islâmica na
joalheria afro-brasileira, por exemplo. A relação dos africanos com povos mulçumanos
antecede em séculos a relação daqueles com os europeus e muitas das práticas
tecnológicas africanas podem ser traçadas a partir de sua influência árabe. A técnica da
filigrana de ouro, por exemplo, foi difundida em boa parte das cortes da África
Ocidental, especialmente no Reino do Benin, Igbo-Ukwu, ambos na Nigéria e ainda em
Gana; mas também em toda região da Costa Oriental da África, amplamente islamizada,
desde o Iêmen, Mogadishu, na Somália, Mombasa no Quênia, Zanzibar na Tanzânia,
Madagascar e Moçambique, até onde hoje são os países do norte africano. A ligação
fundamental de todos esses países pode ser feita pela cultura material da joalheria.
Desenvolveram-se técnicas de extração ou manipulação do metal, algumas foram
enormemente testadas localmente, como a técnica da filigrana, mas em todo caso esta
deve ter sido aprendida com os árabes. Penetrando a África a partir da península
arábica em direção ao Magreb (ocidente) já desde o séc. VII, os árabes levaram sua
arte, religião, escrita, língua e cultura a países como Egito, Líbia, Argélia, Mali, Chad,
Marrocos, Mauritânia, entre outras áreas do norte da África. A proximidade da África
do Norte com as regiões mediterrâneas facilitou ainda a passagem dos árabes para o
sul da Europa no séc. VIII, de onde também influenciaram a cultura europeia local
(notadamente em algumas cidades da península Ibérica). (SILVA, 2012, p. 12).
Ralações sobre as tecnologias africanas de influência árabe que tiveram desdobramentos
no Brasil ainda estão por ser feitas. Destaquei apenas uma destas possibilidades a partir

318
Esta estimativa foi dada por João Pandiá Calogeras, Apud. EAKIN, M. C. A British Enterprise in
Brazil: the St. John d’el Rey Mining Company and the Morro Velho Gold Mine (1830-1960) Durham:
Duke University Press, 1989, p.10. Ver também: CALÓGERAS, Pandiá Formação Histórica do Brasil,
Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1930
166
da hipótese de utilização de tijolos de Adobe nas construções de palhoças, mas é preciso
ir muito mais a fundo nesta pesquisa.
Estudos mais recentes constataram que uma grande quantidade de negros Mina
foram nos setecentos transferidos da Bahia para a corrida do ouro de Minas Gerais. Este
conhecimento técnico que ficou sempre envolvido em névoas, seja pelo preconceito
ideológico que pretendeu restringir a contribuição negra apenas ao trabalho braçal, seja
pelas mitologias de época tais como aquelas que atribuíam aos “feitiços” a habilidade
que tinham para achar o ouro.
As técnicas de extração do ouro variavam de região a região e seguiam a
modelos tecnológicos também adaptados ao novo mundo de maneira geral. Isto é,
empiricamente mesclavam-se práticas europeias com africanas. Embora seja um
trabalho coletivo, o garimpo normalmente envolve a concentração e o talento individual
do garimpeiro, até por isso, a influência africana se fez valer um pouco neste campo, já
que muitos detinham o manejo e a habilidade esperada para extração do metal em bom
tempo e a deixá-lo em bom uso.
A garimpagem, a cata, a faiscação são alguns dos nomes utilizados desde então.
A “garimpagem” é uma tecnologia calcada no trabalho individual do garimpeiro. Ele
utiliza instrumentos rudimentares, seja dispositivos manuais ou como atualmente se usa,
certas máquinas portáteis – um dos instrumentos clássicos pelo qual se fazia o garimpo
desde tempos remotos era a chamada “bateia”, da qual tivemos a ocasião de falar um
pouco acima. A “faiscação”, reservada para busca pelo metal em depósitos de aluvião,
fluviais ou marinhos em geral, visa, em resumo, a procura por metais ao se seguir os
cursos dos rios ou margens reservadas em que, em razão das áreas em que houvesse
maior concentração do metal o chamado “faisqueiro” consegue avistar seu brilho e fazer
a “cata” por meio de técnica específica. A “cata”, trata-se da extração de minérios e
pedras preciosas propriamente dito; esta prática funciona analogamente de modo
subjetivo e, como as outras técnicas, está fundada na preeminência do talento de poucos
indivíduos. Algo semelhante pode ser dito por exemplo, na prática da mineração do
ferro, na qual talvez o trabalho mais coletivo de preparação do arenito ou o processo de
produzir o combustível do carvão tenham exigências muito menores em relação aos
trabalhos mais individualizados do garimpo e da própria fabricação do forno, tarefas
específicas onde se deve buscar expertises individuais, sejam ela africanas, europeias ou
ambas.
Como um parênteses, vale lembrar que a busca por pedras consideradas
atualmente como “semipreciosas” e sua utilização é uma tradição africana antiquíssima,
como nos lembra Posnansky, uma cultura sobre a qual não paira dúvidas: “a busca de
pedras semipreciosas para a confecção de contas. As pedras mais comumente
utilizadas eram as cornalinas e diversos tipos de calcedônias, como a ágata e o jaspe,
assim como os quartzos cristalinos (ou cristais de rocha). Essas contas são encontradas
em toda a África subsaariana, não raro em túmulos, como os das grutas do rio Njoro,
no Quênia, que datam do século x antes da nossa era, e em sítios de habitação. Em
Lantana, no Níger, uma mina de onde se extrai o jaspe vermelho, ainda hoje exportada
para a Nigéria como matéria-prima para a fabricanção de contas, é considerada muito
antiga; no entanto, é impossível determinar sua idade. As contas de pedra raramente
são abundantes, mas testemunham uma procura sistemática de certos tipos de rochas
bem conhecidos. Sua produção teve início na Idade da Pedra e prosseguiu durante a
Idade do Ferro, para depois ser progressivamente substituída pela fabricação de

167
contas de vidro, menos custosas, mais fáceis de confeccionar e eventualmente mais
acessíveis.319

Mineração na Colômbia - Vega de Supia, 1826.
D'ORBIGNY, Alcide Dessal. Voyage Pittoresque Dans Les deux Amériques
Dessins: M. de Sainson. Paris: Imprimerie Panckoucke, 1826.

Havia ainda o sistema de “lavras” era a prática de encontrar ouro nos veios de
rochas ou em morros e que precisavam de um investimento de capital muito grande uma
exploração escravista maior. Métodos de exploração da modernidade fazem uso de
explosivos e de produtos químicos tóxicos (cianido, mercúrio etc.), metodologias estas
decisivamente que não são indicativas do garimpo “ecológico”, tradicional, africano ou
indígena320, por isso não trataremos comparativamente de nenhuma destas técnicas aqui.
Determinados tipos de detalhamentos não devem ser propostos por diletantes, como no
meu caso, assim, também por falta de dados, fontes primárias e bibliografia, as
presenças africanas em outros processos e técnicas de mineralogia como na extração de
determinados tipos de pedras preciosas, semi-preciosas e minerais não-metálicos, sem
contar as técncias de reconhecimento dos depósitos secundários, as “chapadas”, as
“grupiaras”..., bem como a busca em vertentes e altos de morros e outros depósitos que
eu particularmente desconheça, deverão ter um estudo à parte321.

319
POSNANSKY, M. As Sociedades da África Subsaariana na Idade do Ferro Antiga. In: MOKHTAR,
G (Ed.) História Geral da África. vol. II – África Antiga Brasília: 2ª.Ed. UNESCO, 2010. p.739.
Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0019/001902/190250por.pdf
320
O uso indiscriminado desses produtos químicos tem provocado sérios danos ambientais, além de
perverter os modelos tecnológicos tradicionais como no caso dos “quilombolas” do Suriname. VERSON,
W. Artisanal gold mining in Suriname Overcoming barriers to the development and adoption of
sustainable technologies, 2007. (ver, especialmente, a página 4) Disponível em:
http://alexandria.tue.nl/extra1/afstversl/tm/Versol2007.pdf
321
Quem interessar iniciar-se por essa área, pode começar lendo um texto precioso: PAIVA, Eduardo
França. Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo. In: _______ e
168
Tavez nunca venhamos a saber com segurança o nível de implicação das
técnicas africanas de mineração, no entanto, não é esta tecnologia a que menor há
indícios de uma influência decisiva, muito pelo contrário, pode-se encontrar nos relatos
de testemunhas oculares, especialmente os viajantes estrangeiros a demonstração
mínima de que essas técnias eram certamente identificáveis frente as técnicas
conhecidas por eles desde a europa.
Eu não fiz um “garimpo” sistemático dessas referências, apenas trago aqui
alguns dos exemplos possíveis destas comprovações. O pintor alemão Johann Moritz
Rugendas (1802 – 1858), por exemplo, fez diversos comentários a respeito de como
eram desenvolvidas as técnicas de garimpo no Brasil e não se esqueceu de fazer
referência, virtualmente, ao único garimpeiro que o Brasil teve, desde sempre que foi o
Africano e seus descendentes.
“Os escravos, com enxadas e alavancas, destacam dos barrancos a terra e a
rocha friável que as águas carregam para reservatórios abertos ao pé das montanhas
[...]322”
E, em outro momento diz que:

“É de duas espécies o trabalho dos faiscadores: uns entram na água até a
cintura e recolhem a areia do rio numa batéia. Remexendo a batéia à superfície da
água, a terra e o cascalho são carregados, precipitando-se a areia de ouro no
fundo.323”
Eu gosto da ideia de que alguns dos viajantes eram na verdade artistas e seu
olhar apurado, descritivo foram muito úteis para a compreensão das sutilezas que
residem nas influências africanas na cultura material e nas tecnologias brasileiras.
Quanto à descrição da técnica, por exemplo, outro viajante artista dos mais conhecidos,
Jean Baptiste Debret (1768 – 1848), nos trouxe referências como esta:

"[...] os feitores se assentam em lugares [...] altos [...]. Diante deles, alinham-
se os trabalhadores, segurando, cada, um, uma batéia, espécie de gamela [...] que o
negro enche de cascalho [...] e, imprimindo à batéia um rápido movimento de rotação,
os trabalhadores a mergulham na água, por um instante, a fim de retirar todo o
cascalho, ficando apenas a areia [...]. No fim de cada dia cada feitoria, fiscalizada pelo
inspetor, leva para o administrador a batéia onde estava depositada a produção
diária.324"
Outros analistas são ainda mais categóricos quanto à participação africana. Sua
presença na formação desta tradição foi consolidada e de uma maneira ou outra indicou
caminhos para a realização brasileira:
“Atentemos para o que se segue: 1) Wilhem Ludwig Eschiwege, o pioneiro da
siderurgia no Brasil, salientou que a mineração do ferro (apesar de todas as
pretenções, foi aprendida dos africanos. 2) A maioria das práticas na criação de gado
no Brasil, foram introduzidas aqui pelos africanos. 3 ) foi o negro que iniciou, no Brasil
a fabricação de instrumentos de ferreiro, no que sempre se revelaram muito diligentes.

ANASTASIA, Carla Maria Junho (org). O Trabalho Mestiço: maneiras de pensar e formas de viver,
séculos XVI a XIX. São Paulo: Annablume: PPGH/UFMG, 2002, p. 187-207.
322
RUGENDAS, João Maurício. Viagem Pitoresca Através do Brasil (1825-1830). São Paulo, EDUSP/
Biblioteca Histórica Brasileira/ Martins Editora, 1972. p. 36.
323
RUGENDAS, Idem, ibidem, 1972. p. 37.
324
DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1816-1839). t. II, vol. III, São
Paulo, Martins Editora, 1940. p. 138, 140.
169
4) Eram os negros excelentes fazedores de sabão. 5) Exímios ourives 6) Foram, no
dizer de Antonil “as mãos e os pés dos senhores de Engenho.325
Há também outros relatos dos manejos brasileiros com a mineração que trazem
ainda certas referências sobre a nossa cultura material. Diz o botânico escocês George
Gardner (1812-1849): “[...] ao longo de um lado dum tanque d'água coloca-se uma
fileira de onze cercados [...] chamados bacós [...] bem em frente de cada bacó fica um
escravo [...] munido de um grande prato raso de madeira, a batéia com que atira com
toda força água sobre o cascalho: por este modo e remexendo-o a intervalos frequentes
com uma pequena enxada, liberta-se o cascalho da terra e areia com que se mistura,
retirando-se as partículas maiores de pedregulhos que surgem à tona. É neste processo
que se encontram os maiores diamantes”.326
Foi somente Sérgio buarque de Holanda327, cuja compreensão africanista foi no
mais das vezes de segunda mão com relação à Costa Ocidental Africana e jamais foi
completa, quem pôs em questão (mesmo assim, de modo instigantemente) duvidando de
que a habilidade de alguns africanos e seu conhecimento de mineração fosse maior que
a dos portugueses ao dizer por exemplo que: “Nem é crível que os pretos introduzidos
no Brasil pelo tráfico tivessem sido portadores de técnicas, mesmo primitivas, de
mineração, já que as ignoravam em suas terras de origem. Para tanto estariam menos
aparelhados do que os próprios portugueses”. Além de não indicar especificamente
quem seriam esses “pretos” que ignoravam em suas terras de origem a técnica da
mineração (com uma generalização de certo errônea), os argumentos de Holanda não
são suficientes para demostrar que houvesse uma leva significativa de ourives
portugueses (que trabalhassem para os exploradores territoriais ou que fossem eles
próprios os exploradores dos metais) a ponto de não necessitar da contribuição africana
ou a considerar menos relevante que a portuguesa328.
O engenheiro alemão Barão de Eschwege atuou como diretor do Real Gabinete
de Mineralogia do Rio de Janeiro a partir de 1810. “O Barão levantou algumas quetões
referentes às técnicas de extração do ouro e para o fato de como esse ‘saber’ foi
transmitido e por quem durante aquele período (...) Essa tentativa não obtém
resultados, pois todo o trabalho de extração realizado nas minas era feito pelos
escravos africanos, que introduziram suas próprias técnicas de extração utilizadas
durante muito tempo. (...) Segundo o Barão de Eschwege, uma mudança na técnica de
extração nos leitos dos rios foi introduzida pelos primeiros escravos africano,
conhecedores da mineração, provenientes da Costa da Mina. O prato de estanho foi
substituído por bateias de madeira redondas, de pouco fundo, de dois a três palmas de
diâmetro, permitindo a separação rápida do ouro da terra (...) outro tipo de técnica,

325
PIAUÍ, F. S. O Negro na Cultura Brasileira. Campínas: Academia Campinense de Letras no. 27, 1974.
p. 10.
326
GARDNER, George. Viagem ao Interior do Brasil (1836-1841). São Paulo, Belo Horizonte, EDUSP/
Itatiaia Editora, 1975. p. 204.
327
HOLANDA, Sérgio Buarque de. A mineração: antecedentes luso-brasileiros. História Geral da
Civilização Brasileira: a época colonial. São Paulo: Difel, 1985, t.1, v.2.
328
Esse é um ponto pacífico na historiografia e que pode ser descartado facilmente, já que o nível de
contato europeu não só com grupos mineradores de ferro e de ouro, mas pelo interesse, busca e relatos
descritivos de algumas das técnicas africanas nativas, já ficou mais do que comprovado, como mostro em
diferentes momentos deste texto também. O que nos permite dispensar os argumentos núméricos em
relação a quantidade de negros mina ou de mineradores achanti ou de outras regiões africanas com
tradição forte na mineração. Ver ainda, nesse sentido, a relação dos portugueses com o comércio do ouro
africano em: VILAR, Pierre. Ouro e moeda na História: 1450-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
p.67.
170
introduzida com a contribuição do escravo africano, foi a das ‘canoas’, simples,
rápidas e baratas, que eram lavadouros parecidos com mesas, por onde o cascalho era
retirado dos rios e margens ficando depositado em pequenos montes para ser lavado e
apurado.329”
Não precisamos nos ater às afirmações de Eschwege (que por si só já são mais
que suficientes para verificação de algum vínculo atlântico), mas podemos ainda
encontrar as fontes primárias ou secundárias diversas, fazer um inventário e também
deixar em aberto a questão só por esporte da dúvida. Então, nos perguntamos: foram
ainda assim relevantes os recursos africanos no tocante às descobertas do ouro, suas
técnicas de mineração e suas técnicas de agregar valor na produção? Não há resposta
negativa em quaisquer fontes possíveis analisadas. Portanto, julguemo-nos no direito de
afirmar que os trabalhos de mineração do ouro, fossem Mina, Lobi, ou dos sítios de
Mpumalanga ou Limpopo, Bambuk que fica na fronteira entre Senegal e Mali, Buré na
que fica na Guiné-Conacri e sobretudo na abundância aurífera e tecnológica dos Fanti-
ashanti de Gana ou mesmo em Monomotapa, etc. fazem parte importante da tradição
tecnológica africana, e estes são comprovadamente muito bem entendidos na arte de
descobrir e explorar essa riqueza. 330
Não faltam analistas que indicam este vínculo. Por exemplo, o historiador Norte-
Americano Charles Boxer diz o seguinte: “Algumas das técnicas de mineração eram
aparentemente da África Ocidental em sua origem, por isso os portugueses sabiam
menos sobre mineração que sabiam alguns de seus escravos do Sudão Ocidental331”
Podemos também deixar esta questão em aberto porque talvez seja mesmo irrelevante
hoje sabermos com toda certeza se o conhecimento africano em face ao português fosse
dominante ou não na área da mineração. Para nossos intentos, basta recobrarmos certas
téncias existentes na áfrica, alguns exemplos de seu uso nas américas para termos pelo
menos os primeiros indícios de que a migração de técnicas e a transmissão de saberes
puderam ser verificados durante o período colonial e quanto a isso parece não restar
dúvidas, quanto às demais questões, que os historiadores tirem suas próprias
conclusões.
Mas com relação à atividade e mineradora, o nível de produtividade é indicativo
da cisão entre esses dois modos de vida. De um lado você tem os seres que acreditam
em mitos e de outro você tem mitologicamente aqueles que acreditam que não
acreditam nos mitos e chamam a isto de “ciência”. O médico e botânico escocês George
Garder comenta a respeito de duas mineradoras que possuiam níveis diferentes de
produtividade e que nos é útil para compreendermos a diferença entre o estilo de vida e
interesse capitalista europeu (no caso de mineradoras britânicas atuantes no país) e o

329
DIAS, Cláudia M. C. Eschwege: um olhar sobre as técnicas de mineração do ouro no séc. XVIII e no
início do XIX. In: MARTINS, R. A.; MARTINS, L. A. C. P.; SILVA, C.C; FERREIRA, J.M.H (Eds.)
Filosofia e História da Ciência no Cone Sul: 3º. Encontro. Campinas: AFHIC, 2004. p. 128.
330
Ver: SILVA, A. C. e., A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1996. p.36. Cf. FAGE, J.D. & OLIVER, R. Anthony. The Cambridge History of Africa. Vol. 4
c. 1600- c. 1790. Cambridge: Prees Syndicate of the University of Cambridge, 1975, p. 605. Ver também
PRESTON, James. Latin America (London, 1959), p. 308. E ainda: WALKER, Sheila S. (Ed.) African
Roots/American Cultures: Africa in the Creation of the Americas. Lanham, Maryland: Rowman &
Littlefield Publishers, 2001, p. 50.
É certo mesmo que não se pode confundir Costa do Ouro com Costa da Mina, mas não é isso
absolutamente que faz da alma mineira, uma alma minera e sim os esforços dos trabalhos setecentistas e
oitocentistas de mineração e suas mãos pretas de amarelo.
331
BOXER, Charles R., 1962, The Golden Age of Brazil 1695-1750. Berkeley and Los Angeles:
University of California Press. p. 184
171
estilo de vida e interesse africano, (no caso de mineradoras sem maquinário hidráulico
para exercer suas atividades de modo mais produtivo e digamos, “se livrar” dos
métodos “primitivos” dos “boçais”): [em Cocais há uma] maneira de explorar a mina
[que] contrastava muito com a que eu já vira adotada pelos brasileiros. Todo o
maquinismo era acionado por água e era bem interessante observar como uma
pequena corrente de água, trazida de várias léguas de distância, podia ser utilizada
para tantos fins úteis. (...) Ao tempo de minha visita trabalhavam, dentro e fora da
mina, trinta mineiros ingleses, cerca de trezentos escravos e trinta brasileiros livres
contratados. [em Gongo Soco] O minério, metal rico é lavado e pisado em pilão, ao
passo que o inferior é enviado para as máquinas de moer e, depois separado pela
lavagem na bateia, ou amalgamado. Não obstante a riqueza superior desta mina, era
seu maquinismo muito inferior ao de Cocais332.
Faço essa referência para destacar que a diferença de produtividade é um dos
fundamentos da divergência das cosmovisões europeias e não-europeias neste período
colonial. Atividades no país que deviam ser lucrativas se demonstravam insuficientes,
por exemplo, como ocorreu no ciclo da madeira e o modo de produção escravista
português utilizando-se de mão-de-obra indígena. A inclusão de africanos diminuiu o
déficit entre as potencialidades econômicas e o baixo índice de produtividade, devido
aos problemas clássicos da economia brasileira, seja o baixo número de trabalhadores
especializados (que chamamos hoje de incapacitação profissional), sejam os problemas
de infraestrutura, qualidade dos commodities, ou ainda a desmotivação psicológica para
com a aceitação da necessidade de “se matar” de trabalhar, simplesmente para dar o
lucro a alguém. Em nenhum desses casos, soa vantajoso a ninguém a substituição de um
estilo de vida cultural pelo outro. A pulga do empreendedorismo só viria começar a
“fazer cócegas” na Urbes Brasilis a partir da era dos “cinquenta anos em cinco” de JK,
centenas de anos de tentativas depois.
Diga-se e sempre que a história, bem como a estória, sempre foi contada pelos
vencedores. Nesse mesmo sentido, em sua tese de doutorado a arqueóloga Anicleide
Zequini faz indicação sobre o achado de ouro por escravos, por vezes inaudito ou mal
lembrado: “Pode-se dizer que a esperança de encontrar minas de prata, um Potosi em
terras de São Vicente, persistiu até o início doséculo XVIII, quando, de fato, foram
encotradas minas de ouro pelos paulistas na região dos atuais Estados de Minas Gerais,
Mato Grosso e Goiás. [a autora segue em nota; Ibidem] As minas de ouro localizadas
pelos paulistas foram disputadas também por portugueses e todos reivindicavam aquela
descoberta. Essa disputa culminou na chamada Guerra dos Emboabas, na qual os
paulistas foram derrotados. As descobertas das minas de Mato Grosso e Goiás
marcaram o início das monções, expedições fluviais regulares que faziam a
comunicação entre São Paulo e Cuiabá. O ouro encontrado onde hoje se ergue a cidade
de Cuiabá foi achado por escravos do sorocabano Miguel Sutil, em 1722.” 333 Essa
realidade também foi registrada em documentos de época, como por exemplo em
documentos da Comarca de Sabará: “Quanto à mineração, já comentamos, em outro
capítulo, que foram os escravos minas que ensinaram os paulistas e reinóis a mineirar.

332
GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil: principalmente nas províncias de Norte e nos
distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da
USP, 1975. p. 218-220. Ver também: REBELATTO, M. Fábricas e Tendas de Ferro em Dinâmicas
Escravistas, Termo de Santa Bárbara, Minas Gerais, 1822-1888. Belo Horizone: UFMG, 2012. [Tese de
Doutorado].
333
ZEQUINI, A. Arqueologia de uma Fábrica de Ferro: morro de Araçoiaba séculos XVI-XVIII” São
Paulo: MAE-USP, 2006. p. 90.
172
Mas, ainda em 1764, a Câmara de Sabará salientava que os escravos eram os únicos
que sabiam fazê-lo com arte. Eis o trecho: ‘em toda a Comarca, como também dentro
da mesma vila, se encontrava um grande número de escravatura empregados em
mineirar, sendo estes os únicos que sabem trabalhar com arte’”334 e mais adiante,
Barbosa335 dá ainda outra indicação importante da presença feminina ao mesmo tempo
na prática da mineração bem como na habilidade técnica para a descoberta do ouro. O
que, embora não tenhamos os detalhes desta descoberta, não seria fácil pensar que
poderia uma “boçal” perambular casualmente por aí e, simplesmente, “encontrar ouro”:
“(...) As negras também eram empregadas na mineração. E foi a africana Jacinta da
Sequeira quem descobriu ouro em quantidade, no córrego chamado Quatro Vintém, no
Sêrro Frio.
Seja como for: “discutindo as origens das minas de Pitangui, cuja descoberta se
deve aos paulistas, Taunay afirma haverem os descobridores solicitado repetidas vezes
para o seu arraial umas tantas medidas para concluir: ‘a grandeza que os paulistas
reputavam existir consistia no ouro trazido de um buraco a que haviam denominado
“Batatal”, que supunham ser ouro de béta. Foram os “neros” e Carijás que fizeram o
descobrimento336. Meus queridos, ao fim e ao cabo, somente nos restringindo ao
séc.XVIII, 800 toneladas de ouro foram enviadas a Portugal, segundo dados oficiais, ou
seja, sem contar a quantidade de ouro extraviado ou extraído de modo ilegal. Afinal,
eram 80 mil habitantes na cidade de Ouro Preto de 1750, menos da metade de habitantes
tinha Nova Iorque na mesma época, São Paulo então, com seus 8 mil habitantes, não
passava de uma vilinha pobre perto da Vila Rica337.
Mas não somos sufucientemente tolos para afirmar que essa influência africana
nas minas de ouro no Brasil seja absoluta ou que se pudesse verificar em todos os
territórios brasileiros com jazidas exploráveis. Reforcemos, portanto, para além das
provas concretas do uso tecnológico tradicional africano, não só da habilidade para
descoberta do metal, conhecimento técnico este que é dificilmente registrado, mas
reforcemos também o quanto as habilidades específicas que tinham alguns africanos no
tratamento do metal e na produção de joias que agregavam valor ao material bruto
colaboraram no desenvolvimento do design de joias brasileiras e no incremento da
economia burguesa que ousou alçar o vôo da inconfidência e depois abriu o caminho
para a República.

2.4. – Os Manos das Minas e das Metalurgias

A herança das tecnologias africanas relacionadas à extração do ferro (juntamente
com a mineração) são algumas das que tem atraído maior atenção dos historiadores
brasileiros. O fato da influência africana neste campo se fazer gritante tem a ver em
parte, com a característica história de Portugal em enviar poucos tecnólogos, cientistas e
334
Livro da comarca de Sabará, códice 35:75. Documento publicado por Silvio Gabriel Diniz, Ver.
I.H.E.M., IX, 100. In: BARBOSA, W. de A. Negros e Quilombos em Minas Gerais. Belo Horizonte,
1972. p. 118.
335
Ver. A.P.M., X, p. 171. In: BARBOSA, W. de A. Negros e Quilombos em Minas Gerais. Belo
Horizonte, 1972. p. 119.
336
Anais, Museu, Tomo VI. P. 307. RICARDO, C. O Negro no Bandeirismo Paulista. In: Revista do
Arquivo Municipal. Ano IV. Vol. XLVII. São Paulo: Departamento de Cultura, 1938 [Nota 56 p. 21]
337
LAMIM-GUEDES, V. Colher o Fruto, Sem Plantar a Árvore. In: Rev. Ciência Hoje vol. 49. Maio,
2012. p. 60
173
especialistas das diversas áreas para a exploração das riquezas brasileiras, que foi,
ademais, não tão sistemática quanto nossa crítica tende sempre a apontar. Certamente
este processo foi lucrativo e até por isso a utilização de mão-de-obra africana
especializada seja na tradição da metalurgia, seja na mineração ou em outras áreas do
saber foi consciente e algumas vezes indispensável a considerar o desinteresse indígena
por essas tecnologias.
Na medida em que foram fazendo um “reconhecimento de campo” na Costa
Africana nos finais do séc. XIV, os portugueses já tomaram conhecimento das técnicas
não só da extração como do trabalho artístico em metal produzidos com bastante esmero
e técnca por diferentes povos africanos. Quando da exploração das reservas brasileiras
anos mais tarde, conscientes também de que a população indígena do país não
trabalhava com ferro, a busca por mão-de-obra especializada africana foi indispensável
para o desenvolvimento da extração desse metal, até certo ponto da colonização, muito
precioso. É praticamente impossível precisar quando ou onde primeiro se fundiu ferro
nas Minas Gerais, mas a baixa avaliação de ferramentas e artefatos de ferro registrada
em inventários ‘post mortem’ de meados do séc. XVIII é muito sugestiva [ver
MAGALHÃES, B.R. de. La societé ouropretaine selon les inventaires “post mortem”
(1740-1770). Tese (Doutorado) – Université de Paris, 1986. N do A.]. Sem registro ou
não, este é um caso óbvio da superioridade tecnológica dos africanos ‘vis a vis’ de seus
donos. Os altos custos do transporte até as Minas agiram como um muro de proteção
para esta peculiar indústria de ferro e dezenas de pequenas fundições iriam florescer
ainda no último quartel do século XIX. A dependência deste empreendimento do
trabalho habilitado de escravos e forros somente terminaria com a emancipação geral
em 1888.338
Os métodos de obtenção do ferro na África subsaariana foram muito
diversificados. Extraiam por exemplo ferro provindos de meteoros e faziam a mineração
propriamente dita em depósitos de regiões variadas. A técnica de fundição do ferro tem
sua difusão pelo continente datada de pelo menos antes do séc. I da nossa era. Mas a
cultura Nok, da Nigéria, de acordo com datação por radiocarbono já fundia e forjava
ferramentas de ferro desde 970 a 925 a.C., (FAGG, A. 1972) aproximadamente, o que
indicaria precedência no desenvolvimento independente desta técnica em relação a
muitas regiões europeias339. Foi a partir dos trabalhos de M. Diop (hoje amplamente
aceito) que se estabeleceu a noção da origem independente da exploração do ferro,
particularmente entre os povos bantos. Ao dizer isto, convenciona-se dizer também que
não houve idade do bronze, enquanto uma passagem intermediária na África. Passou-se
da idade da pedra tardia (supostamente pré-banta), imediatamente à idade do ferro (pela
civilização banta mais antiga) exatamente neste período.
Não sei por que bons motivos, o professor de antropologia Roderick J. McIntosh
da Rice University diz que: “Por muito tempo, muitos estudiosos descartaram a África
como um remanso cultural indigno de um estudo sério. Mas 50 anos de arqueologia
têm demonstrado que o continente tem cerâmica milhares de anos mais velhas do que a
do Oriente Médio e Europa, o verdadeiro aço com dois milênios e meio de anos antes
de sua “invenção” por Europeus no século XIX e civilizações urbanas sem déspotas e
guerras.Trata-se de mais do que apenas conhecimentos (insights) africanos, são

338
LIBBY, D. Cole, (Org.); FUTADO, J. FERREIRA (ORG). Trabalho Livre, Trabalho Escravo: Brasil
e Europa, séculos XVII e XIX. São Paulo: Annablume, 2006. PP. 58-59.
339
MILLER, Duncan E. & N.J. MERWE, Van Der. 'Early Metal Working in Sub Saharan Africa' Journal
of African History 35 (1994) 1-36; Minze Stuiver and N.J. Van Der Merwe, 'Radiocarbon Chronology of
the Iron Age in Sub-Saharan Africa', Current Anthropology 1968.
174
revelações fundamentais sobre como os seres humanos interagiram uns com os outros e
com seu meio ambiente e de como as sociedades mudaram no passado.340” É certo que
as cerâmicas proto-bantas aparecem muito anteriormente e não é a toa que dizemos que
a prática cultural humana tem uma interrelação muito forte, pois sem o desenvolvimento
de técnicas de cerâmicas, muito da tecnologia de fornos para fundição de metal não teria
se desenvolvido. De modo análogo, a criação de foles de fundição não existiriam sem as
anteriores técnicas de curtição de couro, daí também por que os estudos da metalurgia
africana estão intimamente ligados aos estudos da criação de gados na África já que,
não por acaso, muitos povos pastorialistas desenvolveram também a técnica da
fundição. As técnicas em geral estão muito interligadas. Isso mostra o quanto há a
necessidade de se ampliar os estudos da cultura material e dos modos como se deram o
desenvolvimento e as transferências de tecnologias no interior do continente. São todos
estudos que podem nos indicar também caminhos mais frutíferos no estabelecimento
das reais contribuições africanas nos desdobramentos que elas tiveram durante e depois
do período da escravidão.
Um pequeno grande passo tem sido dado por projetos da UNESCO e outras
instituições mundiais que revalorizam os sistemas de conhecimento tradicionais. O
projeto da UNESCO “Rotas do Ferro na África” lançado em 1991, previa tornar mais
bem conhecida a cultura tecnológica do continente, bem como (o que se deve sempre ter
em mente em quaisquer projetos relacionados aos povos ditos “tradicionais”), o projeto
previa também confrontar os desafios para o desenvolvimento e enfrentar os problemas
dos povos de hoje. Uma exposição, nesse sentido, foi apresentada na sede da UNESCO,
em 1999. Na ocasião foram apresentados dados recentes sobre a tecnologia do ferro na
África e se apresentou um mapa com indicações e datações dos sítios arqueológicos de
ferro conhecidos. Datando de cerca de 3 mil anos antes de Cristo, essa tecnologia teve
início no continente provavelmente num desenvolvimento em separado em Egaro, no
Níger Oriental, cerca de 2.900 anos e em seguida, em Giseh, no Egito, cerca de 2.700
a.C.
Parece ser aceito que a indústria do ferro e do aço tenha dado início no Brasil em
Biragoiaba (1597), na Capitania de São Vicente, próximo à cidade atual de Sorocaba-
SP, por Affonso Sardinha Filho. Baer aponta que seu pai foi quem descobriu de minério
de ferro na região e ainda foi quem construiu duas forjas catalãs iniciando a produção
comercial no Brasil que funcionou até morte de Sardinha Filho em 1629341. Edward
Rogers diz que “a contribuição dos escravos africanos à metalurgia brasileira não deve
ser negligenciada (overlooked). Há uma escola de pensamento que indica que a
metalurgia no mundo ocidental começou na África Central. É afirmado que estas
técnicas centro africanas podem ter sido absorvidas pelos mouros do Norte de África e
depois transferida para a Europa por eles durante as suas conquistas ali. Basta dizer
aqui que foi o escravo Africano que introduziu em São Paulo e Minas Gerais o
processo de trabalho de ferro conhecido como cadinho, que ainda pode ser visto em
funcionamento em áreas remotas do Brasil.342” Rogers também aponta como sua

McINTOSH, R.J. Africa’s Storied Past in: Archaeological Institute of America
340

Volume 52 Number 3, May/June 1999.
341
BAER, Werner The evelopment of the Brazilian Steel Industry. Vanderbilt University Press. Nashville,
Tennessee, 1969. Ver: http://iron.wlu.edu/reports/MinasGeraes.htm
342
ROGERS, E.J., The Iron and Steel Industry in Colonial and Imperial Brazil. The Americas: Vol. 19,
no. 2, October, 1962, p 174. Disponível aqui:
http://www.jstor.org/discover/10.2307/978891?uid=3737664&uid=2129&uid=2&uid=70&uid=4&sid=21
103114207737
175
referência principal para estes fatos o livro de: Robert R. Forbes, The Black Man’s
Industries, Geographical Review XXIII, No.2 (April 1933) 230-236. Baer ainda afirma
que, embora a tradição de fundição datar de meados do século XVI, as técnicas
utilizadas no Brasil já do século XIX ainda eram “primitivas”, pois, conclui que “das 30
Siderúrgicas existentes na cabeceira do Rio Doce em 1879, somente sete delas
utilizavam métodos de forja italianos e o resto utilizava a velha técnica africana do
cadinho” (idem, Ibidem). Esta técnica fazia a utilização de forno metalúrgico que
consistia essencialmente de um vaso de material refratário que pudesse ser selado. Os
cadinhos de grafite ou de cerâmica de alta qualidade foram anteriormente utilizados na
indústria de aço, e seu amálgama era aquecido diretamente pelo fogo. Esta técnica
encontrou desdobramentos, pois o aço moderno de alta qualidade é produzido pela
refinação em cadinhos que possuem sua estrutura interna evacuadas de ar, mas não são
mais aquecidos diretamente, senão por indução. As siderúrgicas contemporâneas fazem
trabalhos com metais como o titânio, por exemplo, que tem a especificidade de
necessitar ser protegido do ar durante a queima, é fundido e refundido em cadinhos
hermeticamente selados que remetem romanticamente aos cadinhos selados usados por
africanos há milênios.
Outro estrangeiro, o engenheiro francês Paul Ferrand, que chegou ao Brasil em
1882 para lecionar em Ouro Preto nos trás indicativos sobre as técnicas de trabalho no
ferro neste período da formação tecnológica brasileira. Seus estudos eram variados, suas
pesquisas incluiam a indústria de ferro em Minas Gerais, além da mineração do ouro
entre outros assuntos relacionados à engenharia civil. Apresento, a seguir, ipsis literis
parte das pesquisas in loco do professor Francês, dando especial atenção à utilização dos
modelos tecnológicos africanos aplicados no Brasil, comparativamente ao método
italiano (ou catalão) de fundição:

Até o presente momento, os métodos utilizados na província de Minas Gerais
(Brasil) para a obtenção do ferro permite a sua manufatura diretamente do minério de
férro sem a intervenção do processo de fundição. Estes métodos se dividem em dois:

1. O método pelo cadinhes (em itálico no original: crucibles, cadinhos), que é o
mais simples e exige, mas pouca manipulação, porém, este método permite que a
produção seja de apenas uma pequena quantidade de metal de cada vez.

2. O método italiano, uma variação do catalão, requer mais habilidade por parte
dos trabalhadores e produz mais ferro do que o anterior.

Como esses métodos me parecem de interesse, do ponto de vista de sua
simplicidade e facilidade de instalação, proponho descrevê-los brevemente, a fim de dar
o mais fiel e um aperçu geral (em francês no original, “um exame geral”) possível para
sua aplicação. No momento, tratarei apenas o primeiro, o chamado o método por
Cadinhos.

ESTUDO DO MÉTODO POR CADINHOS - (...) O minério de ferro é
encontrado em grande abundância nesta área [Minas Gerais] e é extraído com muita
facilidade. No centro de uma massa de quartzito que parecem constituir de um nível
superior dos sedimentos vulcânicos (eruptive grounds) da província, foram encontradas
camadas de um minério de ferro designado como itabirito - uma mistura de óxido de
ferro e quartzo. Esses estratos são de grande espessura, e possuem numerosos
176
afloramentos rochosos (outcrops) que permitem serem trabalhados como pedreiras
(worked by quarrying)343.

Esse estudo da técnica africana do forno de cadinho que nos traz de Paul
Ferrand, levanta questões que merecem atenção dado seu grau de implicação nos
estudos de cultura material e tecnologia afro-brasileiras. A primeira dessas questões diz
respeito à especificidade técnica do cadinho africano ao permitir a manufatura do metal
sem passar pelo processo de fundição (não que este não tenha sido amplamente
utilizado pelos negros na África ou no Brasil, esta é apenas mais uma das variadas
técnicas de trabalho no metal)

Trabalho em metal344
Passo-a-passo: Da natureza ao social; do minério de ferro à produção em metal

A segunda dessas questões diz respeito ao nível de habilidade envolvido no
processo de extração. Depósitos de afloramentos rochosos dão tipos diferentes do metal.
A metodologia africana de extração enfrenta alguns aspectos paradoxais, porque,
embora alguns Itabiritos possibilitam que o metal seja mais facilmente extraido, por
outro lado, estes são necessariamente mais quebradiços e fornecem menor quantidade
de metal. Se a quantidade do metal não foi uma questão técnica importante na África,
ela passou paulatinamente a ser uma questão de relativa importância, pelo menos para
aqueles setores no Brasil colônia que dependiam de uma produção cada vez mais ativa
para se manter. De qualquer forma, dado que por mais de um século os pequenos
produtores de ferro se satisfaziam com os limites de sua produção, os modelos
tecnológicos africanos, quando aplicados, eram até certo ponto, francamente suficientes.
O interesse na substituição dos modelos tecnológicos africanos só se fez patente muito
mais tarde, quando nas voltas da pressão internacional para o fim do tráfico aumentou a
necessidade de dar competitividade à indústria nacional, dando ao menos um limite para
a resistência brasileira ao aperfeiçoamento técnico, à maquinização e aos modelos de
produtividade pela produtividade. Antes disso, o mercado de ferro brasileiro, bem como
em outras partes da América Latina, sempre se serviu dos baixos custos promovidos

343
BAER, Werner The Development of the Brazilian Steel Industry. Vanderbilt
University Press. Nashville, Tennessee, 1969. Ver: http://iron.wlu.edu/reports/MinasGeraes.htm
344
FERRAND, P. The Iron Industry in Brazil (Province of Minas Gerais). In: Varios Autores, Scientific
American Supplement, no. 430, March 29, 1884. O suplemento complete está disponível online em:
http://www.gutenberg.org/files/8484/8484-8.txt

177
pelos modelos da indústria de ferro africana, possamos estabelecer decisivamente bem
estes dados por documentação ou não.
Ainda assim, o fato da quase ausência de documentos e relatos mais encorpados
sobre as utilizações e detalhes sobre as técnicas africanas são, ao fim e ao cabo, bastante
desanimadores se quiséssemos indicar quais foram definitivamente os pontos
vinculantes entre a África e o Brasil no quesito téncnologia do ferro. O próprio Vansina,
que costuma geralmente “tirar leite de pedra”, nesse sentido, chega a demonstrar esse
desânimo em texto clássico, referindo-se ao mesmo problema da documentação já desde
a África:
A história do ferro na África permanece ainda muito pouco conhecida, apesar
dos estudos aprofundados a respeito de alguns sítios metalúrgicos da África Ocidental
e Oriental e de Phalaborwa. Diferentes tipos de ferro podiam ser produzidos, mas não
sabemos até que ponto a produçao era controlada, nem como os diferentes
procedimentos, da extração até o produto final, evoluíram, começando pela fabricação
dos fornos. As plantas mudaram, a maneira de usá‑los mudou, o combustível mudou, o
produto bruto era trabalhado de maneira diferente e todas as ferramentas necessárias
também foram desenvolvidas. Até a concentração ou a dispersão da indústria são mal
conhecidas. Sabemos que em Ruanda e Burundi, um tipo de forno foi abandonado
durante o período estudado e que a indústria foi dispersa. Mas não sabemos bem qual
tipo de forno lhe sucedeu, nem quais foram os efeitos de tal dispersão sobre a produção
ou a qualidade do produto. O fato de ter existido, no passado, uma importante
atividade tecnológica é demonstrado pela distribuição cartográfica dos tipos de fornos
e equipamentos (foles, martelos, marretas, bigornas, pedras de trefilação, etc.), bem
como de combustível e de modo de uso. Todas essas informaçoes permanecem pontuais,
mal coordenadas entre si, e por isso privadas de seu valor indicativo essencial em
relação a evolução tecnológica que adivinhamos, mas conhecemos muito mal345.

345
VANSINA, J. & DEVISSE, J. A África do século VII ao XI: cinco séculos formadores In: FASI, M.
El. (Ed.) História Geral da África – Vol III., Cap. 28. Brasília: Unesco, 2010, p. 904-5. Disponível em:
http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-
1/#.Us7Jx7CBvIU

178
Seguindo esses passos vacilantes, esforcemo-nos para dar continuidade na busca
pela diminuição do nosso profundo desconhecimento dos modelos tecnológicos
africanos e das afro-americas. Pensando nisso em relação à cultura do ferro, a
considerar também que as características dos fornos variam enormemente de local a
local, de data a data, há que se fazer também uma análise comparativa entre os
diferentes tipos de fornos africanos, as diferentes datações de um mesmo sítio e a
análise dos resultados arqueológicos em sítios antigos brasileiros. Se determinadas
características técnicas persistiram em diferentes sítios, pode-se com algum esforço dar
indícios de que a ponte África-Brasil possa ter sido mais larga que pudemos comprovar
com nossos parcos dados e instrumentos. Mas só a julgar pelo mínimo que temos de
documentação nesse sentido, esses indícios tenderão a se tornar cada vez mais
volumosos, na medida em que a tradição arqueológica brasileira se desenvolva nos
estudos coloniais e também no período escravista, áreas que têm sido ampliadas, mas
ainda há enorme espaço para crescer o campo da arqueologia.
Voltemos à história. Ao pensarmos no Brasil colônia, vários agricultores de
Minas fizeram construir em suas casas pequenos fornos onde fundiam o ferro,
exclusivamente para seu próprio uso346. Apesar do ofício de ferreiro se difundir em
346
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco (1819). São Paulo, Belo
Horizonte, EDUSP; Itatiaia, 1975. p. 184.
179
muitas partes do país, como afirmou Saint-Hilaire no séc. XIX, no início da colonização
portuguesa ninguém detinha o conhecimento especializado do ofício de ferreiro aqui no
Brasil. Em 1584, por exemplo, havia 3 ferreiros em São Paulo ( HOLANDA, 1957, p.
186). Edward Rogers347 indica que por volta de 1556 o Jesuíta Mateus Nogueira fundou
uma oficina para forjar instrumentos variados como anzóis, facas, cunhas, pás entre
outros implementos que podem ter sido os primeiros a serem produzidos no país. Não
teremos tempo para avaliar isso, mas não é à toa que o nosso José de Anchieta, (como
indica Gilberto Freyre em Ferro e Civilização no Brasil, 1988, p.249-51) e outros
padres da Companhia de Jesus, sabiam trabalhar com o ferro, ou melhor, eram ferreiros
mesmo, e haviam desenvolvido este saber a partir das “ferrerías” ou os “hornos”
castelhanos e catalões. Anchieta noticiou de primeira mão a existência de minério de
Ferro e a mais antiga das evidência de depósitos de ferro no Brasil, na antiga Capitania
de São Vicente, nas imediações da atual São Paulo348. O império espanhol, à frente das
técnicas de mineração, já havia iniciado a exploração das minas de prata de Potosi, na
atual Bolívia e enviou a armada de Diego Flore Valdéz para dar início à colônia de
exploração e povoamento em vista de criar defesas à esta poderosa mina. Valdéz passa
por São Vicente, São Paulo em 1583 revelando interesse pelas riquezas minerais da
região paulista e faz um pedido à Coroa para o envio de técnicos e especialistas e minas,
indicando também a necessidade de fortificação de São Vicente. (ZEQUINI, 2006,
p.95). Não tardou para que mais engenheiros e técnicos fossem enviados às novas terras
seja para descobrir novas jazidas ou para reconhecer notícias de novas descobertas. Oito
anos depois “o castelhano Agostinho de Souto Maior (que havia trabalhado
anteriormente em Monomotapa – Moçambique, colônia portuguesa que possuía minas
e a metalurgia do ferro e do ouro), o qual foi nomeado para o cargo de provedor das
minas do Brasil (...)” (ZEQUINI, 2006, p. 95). Na virada do séc. XVI para o XVII os
poucos mestres ferreiros existentes no país encontraríam inúmeras dificuldades
técnicas349, como em relação ao ponto certo de caldeação e a manutenção da qualidade
do metal. Houve, portanto, influência castelhana decisiva tanto na descoberta quanto na
implantação de algumas técnicas de mineração empregadas no Brasil em finais do séc.
XVI.
Mas isso não nos impede de destacar que a força tecnológica e as tradições
africanas neste ofício, eram reconhecidas pelos exploradores europeus. Por exemplo, em
Bengala os portugueses encontraram fornos africanos tradicionais em formato cilíndrico
que eram “confeccionados em areia ferruginosa mal amassada, sustentada por uma
armadura de bambu. Tinham dimensões de 0,90m de altura com um diâmetro de 0,30m.
A base do forno era furada em vários lugares e colocava-se um fole em cada uma das
aberturas, exceto na grade da frente (orifício pelo qual eram retiradas as escórias), o
que dava em geral um total de sete foles por forno. (ZEQUINI, 2006, p. 65). Dentre as
mais importantes sedes de tradição de ferro em Angola, havia a fabrica real localizada

347
ROGERS, E.J., The Iron and Steel Industry in Colonial and Imperial Brazil. The Americas: Vol. 19,
no. 2, October, 1962. pp. 172-184. Disponível aqui:
http://www.jstor.org/discover/10.2307/978891?uid=3737664&uid=2129&uid=2&uid=70&uid=4&sid=21
103114207737
348
Ver ZEQUINI, 2006, p. 94 nota 53: “José de Anchieta era descendente de bascos, seus pais eram de
Guipúzcoa, Provincia do Pais Basco. BARBOSA, Francisco de Assis. Dom João Vi e a Siderurgia no
Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1958. P. 26. Ver também:
http://iron.wlu.edu/reports/MinasGeraes.htm
349
Ver: Carda de Luiz Antonio de souza ao Conde de Oieras, Portugal. São Paulo, 3 de janeiro de 1768.
In: Dossiê Ipanema. Arquivo do Museu Quinzinhode Barros – Sorocaba-SP Apud. ZEQUINI, 2006, p.
102, ver nota: 65.
180
em Nova Oieras, o mesmo local para onde fora levado ao degredo e onde morreu o
inconfidente e conhecedor do trabalho no ferro José Álvares Maciel (1760-1804). Em
uma carta do inconfidente arrependido, datada de São Paulo de Assunção de Luanda em
4 de novembro de 1799 lê-se:
“edificado o forno, ou fornos, que serão tantos você puder estabelecer, e fazer
trabalhar, procurará você aproveitar o mineral, fundindo-o pelo melhor modo que as
circunstâncias permitirem, ensinando aos negros, que em semelhantes trabalhos se
empregarão, um método mais proveitoso, que o que eles conhecem e usam para igual
efeito, proporcionando as lições às sua capacidades, atraindo-os para o ensino, e para
as tarefas para que você necessitar de sua ajuda, com muita brandura, pagando-lhes
com regularidade competentes jornais, segundo os estilos da terra, e comprando-lhes
todo o ferro que eles em barra fundirem e a você entregarem, por preço de vinte e cinco
réis o arratel.”350
O aparentemente “arrependido” Álvares Maciel quer logo mostrar-se “útil” para
o governo português e o demonstra por meio de cartas, também aceitando que seja feita
a construção de um forno siderúrgico. Antes de morrer, conseguira montar à duras
penas uma siderurgica com a ajuda de 134 africanos. Mas isso não o impediu de, em
1800, pedir a Lisboa, por carta, a vinda de mais técnicos do Brasil “para um
desenvolvimento maior da siderurgia na Angola”. Porém, casualmente ou não, o
“inconfidente arrependido” morreu antes de ver chegar esses recursos que pedira351.
Esse problema de mão-de-obra também pôde ser verificado no Brasil quando do
caso do uso de escravos Mina com habilidades com o trabalho no ferro; diz Paiva: “A
opção dos traficantes luso-brasileiros por escravos da Mina, principalmente durante a
segunda metade do século XVIII e a primeira do XIX, fundou-se nesse know-how
mineratório e metalúrgico dos negros. Tratou-se, pois, de equipar a região mineradora
da colônia com mão-de-obra especializada352”

Desenhos de fornos africanos (Nigéria A e B; Tanzânia C) – SCHMIDT, Peter R. & AVERY, D. H.
More Evidence for an Advanced Prehistoric Iron Technology in Africa Journal of Field Archaeology,
Vol. 10, No. 4 (Winter, 1983), p. 431.

350
LOPES, Francisco A. Álvares Maciel no degredo de Angola. Depto. Imprensa Oficial, RJ, 1958. p. 43.
351
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_%C3%81lvares_Maciel
352
PAIVA, Eduardo França e ANASTASIA, Carla (orgs). Trabalho Mestiço maneiras de pensar formas
de viver, Séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume/ UFMG – PGH, 2002 p. 187.
181
Ferreiros negros e suas forjas “primitivas”, Nova Oeiras, Angola, 1800
VELLOSO, Júlio Caio (org.). Catálogo de iconografia: Coleção Alberto Lamego. São Paulo:
Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 2002.

Aproveito a seguir a transcrição encontrada em um artigo sobre ferreiros de Ouro
Preto353:

“A transcrição do que foi anotado sobre o desenho detalha o modo como ocorreu a
obtenção do ferro bruto:

A- He hum matho de [mahu], ou palha e que se põem no meio do forno.
B - He o ferro [imbusto] de carvão que se põe nos lados da mesma palha, cuja também
he coberta do mesmo carvão, em preparação do [o que vai dar] sendo se vai metendo o
tubo de barro. E igualmente chegando os foles e chegando o tubo a pedra já esta o ferro
fundido da pedra.
C- He a parede do forno com [socos] de telha engradados.
D- He o ferro que sai pelos buracos da mesma parede.
E- He o couro dos foles.

353
ALFAGALI, C.G.M. Um Segredo de Fabricar:os artesãos do ferro na Vila Rica de Ouro Preto
(Século XVIII). Seminário Internacional Justiça, Administração e Luta Social: dimensões do poder em
Minas. Mariana: Universidade Federal de Ouro Preto. Imstituto de Ciências Humanas e Sociais.
Setembro, 2010. http://www.seminariojals.ufop.br/crislayne_g_m_alfagali.pdf
182
F- He o pau com que se toca os foles
Esta fundição he da própria pedra do ferro, e nela meti duas arrobas, e 6 libras de ferro
em pedra [com libras foi fundir thé libras de ferro].”

Pode-se desprender desta descrição (feita em português do séc. XVIII) da
técnica de ferreiro tradicional em Oieras, Angola que a técnica de obtenção de ferro da
fábrica não deve ter se “livrado” de um dos aspectos das técnicas “primitivas” da forja,
já que seu funcionamento foi parcialmente restrito do ponto de vista do montante de
produção, pelas dificuldades de mão-de-obra especializada, relatada acima e outros
revézes . A ilustração mostra foles muito semelhantes aos outros foles de tradição
bantos, cuja tecnologia de precisão percorreu centenas de milhares de quilômetros
sobrevivendo à profundas modificações em âmbito linguístico e cultural354.
A Fábrica de ferro de Nova Oieras, construída num vale de confluência entre os
rios Luínhas e Lucala integrava a política desenvolvimentista de Marquês de Pombal
(que fora Conde de Oieras) no estímulo ao parque industrial português na colônia. Mas
é certo a infraestrutura era incipiente no início da implantação da fábrica segundo as
tecnologias de sede industriais já empregadas na Europa daquele tempo. A pesquisadora
Juliana Ribeiro indica que foi justamente a preocupação em conhecer detalhadamente
também o processo utilizado pelos africanos para fundir o ferro, visando apontar
alternativas para aumentar a produção que fez com que fosse produzido o desenho
(RIBEIRO, Juliana da Silva, 2011, p.153). Foi assim, por exemplo, com o Governador
Inocêncio de Souza Coutinho (1764-1772) e os empreendedores que desejavam levantar
a Fábrica. Eles se aproveitaram inicialmente das técnicas africanas de fundição e forjas,
pelo menos no momento da implantação da Fábrica. Ao seguir foram tentadas
alternativas para dar maior amplitude às técnicas autóctones, já desenvolvidas por povos
bantos da região de Oieras.355 Pelo visto, dado a impossibilidade de concretizar este
“sonho”, o desejo de europeizar a tecnologia nativa nunca foi concretizado. Também
não foi absolutamente à toa que se escolheu Oieras para o empreendimento português:
era região onde abundavam africanos com conhecimento das técnicas de fundição e de
uma maneira ou de outra, não fosse a existência desta tecnologia autóctone, a fábrica
amargaria um fracasso ainda maior.
O governador Souza Coutinho, por volta de 1765 estava portanto (mesmo sem
encará-las de frente) no centro das novas ideias revolucionárias de emancipação
econômica das colônias, provindas das ideias revolucionárias liberais dos EUA (tanto
quanto estava também o imprudente José Álvarves Maciel, que deixou-se flagrar mais

354
Tradição esta que conseguiu chegar ao Brasil, algo que pôde ser comprovado graças aos mais recentes
trabalhos sobre os ferreiros em minas Gerais tais como: RIBEIRO, Juliana da Silva. Homens de Ferro: os
ferreiros na África Central no Século XIX. São Paulo: Alameda, 2011.[Dissertação de Mestrado –
Universidade de São Paulo] – Disponível em:http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-
03092009-145620/pt-br.php
355
Ver novos documentos comprados recentemente em leilão como a “Notícia e mappa da nova vilha de
Oieras no Reino de Angola...” depositados na Biblioteca Nacional de Portugal (cota COD-13424),
seguido de um artigo de Fernando Batalha com fotos das ruínas da antiga Fábrica e informativos sobre o
uso dos métodos fundição tradicional africanos em Oieras ao dizer que por volta de 1765 a fábrica
“utilizou-se nessa fase experimental dos processos de fundição e forja usados pelos ferreiros autóctones”,
mas sem dar maiores detalhes. Disponível em: http://purl.pt/24075/3/ A notícia de jornal (1972), o Fac
Símile (1776) e o artigo “a podem ser baixados aqui: http://purl.pt/24075/4/cod-13424_PDF/cod-
13424_PDF_24-C-R0150/cod-13424_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf
183
de uma vez lendo as ‘Leis da Constituição Norte-Americana’356). Mas não era disso que
se tratava, Coutinho desejava firmemente a realização da fábrica. E mantinha sua
fidelidade jurada à sua Alteza real Portuguesa, de quem precisaria e muito! da ajuda
para levar a diante a empreitada da Fábrica de Ferro de Nova Oieras. Afinal, segundo
ele afirmara em carta à sua majestade, o Rei; tanto a metrópole quanto a colônia
lucrariam com a implantação da Fábrica.
O que eu tenho a dizer é que a dificuldade de implantação de modelos europeus
de extração e manipulação do minério de ferro se deveu à conjugação do velho e bom
“fardo do homem branco” com a “in”-útil e “des”-agradável “tumba do homem
branco” (pois inúmeros técnicos europeus e descendentes que eram recrutados para a
implantação dessas técnicas em Nova Oieras morriam, um a um, misteriosamente). Os
primeiros eram brasileiros, vindos por Benguela: morreram antes de chegar a Oieras.
Outros foram encomendados a Lisboa. Chegarm em Luanda em 1768 cheios de si, com
sua instrumentação europeia, vistoriaram a região da fábrica em montagem e ficaram
impressionados com os potenciais dela. Mas praticando “desordens de vida e de boca”,
ficaram doentes e nenhum dos 4 viria a sobreviver até o ano seguinte. O resultado disto
foi que os modelos ora ditos “primitivos”, eram os únicos disponíveis para a
continuidade da implantação e início da possível ampliação da Fábrica de Ferro
Angolana, que às voltas de 1800, exatamente o mesmo ano do desenho acima
reproduzido, segundo o Governador D. Miguel António de Melo, já estava aniquilada,
sendo impossível pensar-se em estabelecer-se qualquer coisa de semelhante por
dificuldades do ‘régio patrimônio’357. Essa “trapalhada” típica de nossa herança
portuguesa (e é por isso que eu honro tanto a estes também meus ancestrais europeus)
não deixou de se fazer presente, forçando a necessidade que os mestres de obras
assumissem posições que de contrário lhe seriam bloqueadas em absoluto (vide casos de
empreendimento e de política ingleses e alemães). O aparteid tecnológico não vingaria
tanto neste Brasil, onde a ausência de técnicos e engenheiros se fez, se faz e se fará
presente, se Deus quiser. E ele há de querer, pois “pouca saúde e muita saúva os males
do Brasil são”, como já bem dizia o poeta.

Planta da Casa, Açude e Engenho da Fábrica de Ferro de Oieras – 1776
(Biblioteca Nacional de Portugal - cota COD-13424)

356
ROUANET, Sérgio Paulo. As Minas iluminadas: a ilustração e a inconfidência. In: NOVAES, Adauto
(org.). Tempo e História. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. P. 335.
357
http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2018/00036821.pdf

184
As ruínas da fábrica foram redescobertas em 1925, quando se tornou
monumento Nacional, mas foi só em 1972 que retirou-se a densa mata que já cobria os
antigos vestígios: "O aqueduto tem 22 arcos e cerca de 118 metros de comprimento(...)
Três rodas hidráulicas moviam os mecanismos da Fábrica, por meio de veios de
transmissão transversais. Para o lado esquerdo, um deles ia accionar os foles do forno
de fundição; para a direita, os três veios movimentavam os foles do forno de refino e os
martelos-pilões358". No plano direito percebe-se duas das rodas d’água que alimentam o
engenho, no plano esquerdo, o que particularmente nos interessa, percebe-se os foles
semelhantes aos tradicionais africanos em seu formato “de coração” deitado para direita.
As técnicas tradicionais eram insuficientes para a satisfação dos interesses europeus na
criação de excedente pela produção em larga escala na África. Nada mais alheio à
“mentalidade primitiva” que a tentativa de usurpação e esgotamente de toda natureza.
Como esses “descoloridos setentrionais” não deviam intrigar tanto aos viajados velhos
bantos, quanto intrigaram os velhos “txai”, isolados cá, nas plagas onde canta o sabiá,.
A velha divisa “conhecer para dominar” estava agora ameaçada pelas dificuldades
técnicas. A melhor e maior usura entre todas é aquela que multiplica para si o dinheiro
alheio. Foi assim que não faltaram as descrições sobre a tecnologia do ferro e
funcionamento dos fornos na África Central, no entanto, ao mesmo tempo,
paradoxalmente, faltou também entusiasmo porque essa técnica revelou-se indigna dos
propósitos europeus. Ao comentar sobre esse conflito de interesses entre europeus e
africanos tradicionais, Juliana Ribeiro afirma que “a intensificação do contato com os
europeus resultou numa pressão para que os especialistas locais aumentassem a
produção, o que não ocorreu (...) E acrescenta mais adiante que, embora os ferreiros
africanos transformavam suas ferramentas (a exemplo dos ferreiros de Bié, que usavam
limas importadas) e ainda trocavam suas ferramentas pelas europeias, quando achavam
isso vantajoso, eles “insistiram em não atender à pressão estrangeira para aumentar a
produção de ferro, pois isso significaria alterar também uma visão de mundo local
ligada ao equilíbrio do homem com a natureza, enquanto que a incorporação de
ferramentas europeias apenas contribuiria para faciltar o trabalho ou também para
agregar valor simbólico. (SILVA, J. R. 2011, p. 155)
Da mesma forma que ocorre com o trabalho com o ouro, ainda que possamos
fazer análise destes conflitos e fazer até boas indicações sobre os interesses distintos
envolvendo africanos e europeus e seus descendentes, pouco podemos fazer para dirimir
as enormes dúvidas em relação ao nível de penetração das culturas de mineração
africanas, seja nas técnicas de análise do solo, técnicas de obtenção e mineração,
beneficiamento do minério, adequação de temperatura para o ferro gusa e posterior
manipulação de lingotes de ferro em estado sólido, fundição, forja, transformação do
ferro fundido em ligas metálicas e criação de aço etc. Todas essas técnicas que tiveram
desenvolvimento independente na África devem ter sido certamente utilizadas no Brasil
por escravos que detinham expertise do ponto de fusão, as técnicas de como evitar
falhas ou partes quebradiças etc. Nossa questão, portanto é semelhante à que nebulou a
historiografia: quais são os contribuintes africanos no desenvolvimento da metalurgia
no Brasil? As técnicas africanas aqui usadas, como o uso do cadinho, uso de foles com
desenhos e estruturas específicos etc foram decisivos ou tiveram apenas usos
localizados? Sejam quais forem as respostas à estas perguntas ou ainda que não
possamos jamais respondê-las, gostaria de propor que refletíssemos de outra maneira.

358
BATALHA, Fernando “Nova Oieras” Direção de Serviços de Obras Públicas e Transportes –
Monumentos Nacionais – Luanda, Angola, 1970s. Disponível em: http://purl.pt/24075/3/
185
Em vez de tentarmos somente encontrar as confirmações das influências africanas nas
técnicas e nos modos de minerar brasileiros, talvez devêssemos nos aproveitar de alguns
relatos secundários que, embora não comprovem necessariamente os vínculos técnicos
entre a África e o Brasil, ao menos nos são úteis para supormos os alcances destes
vínculos ou ao menos constatarmos suas potencialidades. Por exemplo, Em meados do
séc. XVIII, depois de alguns fracassos, o governo da Província de São Paulo fez nova
tentativa de instalar agora uma "fábrica de ferro", em Sorocaba. Esta seria dirigida por
um tal Domingos Ferreira, que utilizaria um forno tipo “biscainho”, chamado
Stuckofen. Esse forno tinha capacidade de atingir uma temperatura adequada para
produzir ferro coado (gusa) ou ferro maleável. Os trabalhos transcorreram de 1765 a
1772 e ao final do período o governador Luiz Antonio relatava a El-Rei que “um hábil
escravo africano ali engajado, principiando a trabalhar com o mestre, tira melhores
fundições quando a governa”. (http://www.pmt.usp.br/notas/notas.htm)
E ainda, ao historiografar a metalurgia do ferro no brasil Landgraf, Tschiptchin
& Goldstein, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo confirmam a presença
e o uso das técnicas de trabalho no ferro por africanos no Brasil do séc. XVIII: A
metalurgia do ferro desse período é pouco documentada e parece ter sido marcada pelo
aproveitamento dos conhecimentos africanos de extração do ferro. A mineração exigia
artefatos de ferro, o minério era abundante e as culturas africanas já dominavam uma
técnica rudimentar, porém eficaz, de extração de ferro, e as dificuldades de transporte
de matéria-prima até a região mineira concorrem para justificar as afirmações de
autores do século XIX, de que as "forjas de cadinho", operadas por escravos negros,
estavam bastante disseminadas por Minas Gerais. As tais dificuldades de transporte
incluíam, por exemplo, o corte dos lingotes nos portos brasileiros, para que fosse
possível distribuir a carga no lombo dos burros que subiam as serras em direção a
Minas Gerais359. Em outro ponto, os autores afirmam que a leitura de livros e
documentos da época, muitos deles de viajantes, coloca uma certa confusão a respeito
dos fornos de redução de minério de ferro da época. Chamam de "fornos de cadinho"
aqueles de origem africana, mais rudimentares, de volume em torno de 1 m3 ou menos,
produzindo aproximadamente 15 quilos de ferro por corrida. A insuflação era feita por
meio de foles, acionados manualmente.
A discussão portanto, a respeito da habilidade de alguns africanos no trabalho
com o ferro, bem como da qualidade das técnicas empreendidas na África nos
aproximam das ideias que vimos tentando estabelecer de que, por mais difícil de provar
a existência de uma certa “indispensabilidade” do uso das técnicas africanas neste
campo (algo que, como visto, jamais tentaremos fazer, porque inútil), poderemos
sempre lançar mão dos relatos e argumentos de historiadores, antropólogos e viajantes
que nos ajudam a refazer esses pontos de vínculos dispersos e pouco coesos. Tal como
afirma o embaixador Alberto da Costa e Silva: “Pelo menos desde 600 anos antes de
Cristo, a África conhecia a metalurgia do ferro, e alguns de seus povos produziam ferro

359
LANDGRAF, F. J. G. ; TSCHIPTSCHIN, André Paulo ; GOLDSTEIN, H . Notas sobre a história da
metalurgia no Brasil, 1500-1850. In: Milton Vargas. (Org.). História da Técnica e da Tecnologia no
Brasil. São Paulo, 1994, cap 5, p. 107-129. Disponível parcialmente em:
http://www.pmt.usp.br/notas/notas.htm Eu não tive acesso a estes livros que também podem ser úteis; os
autores os citam como referência: FELICÍSSIMO JÚNIOR, J., História da siderurgia de São Paulo.
São Paulo: ABM, 1969; PENNA, J. A A forja catalã de Jean Monlevade. MetalurgiaABM, v.31, n.217,
p.837, 1975. GOMES, F. M. História da Siderurgia no Brasil. Belo Horizonte: Ed. lratiaia, 1983. 15
TYLECOTE, R. F., op. dt., 1976; SAlAZAR, J. M. O Esconderijo do Sol. Brasilia: Ministério da
Agricultura, 1982. 3 TYLECOTE, R. F. A History of Metallurgy. London: Merals Sodety, 1976. p.86. e
ainda GAMA, R. Engenho e Tecnologia. Rio de Janeiro: Duas Cidades, 1983.
186
e aço de alta qualidade, comparável ou até mesmo superior ao que saía das usinas
europeias.360” Ora, se isto foi realmente assim, o esforço em definir o nível de
conhecimento europeu das qualidades das usinas africanas e de seus especialistas, até
que ponto foi feita a utilização destes especialistas no novo mundo, e qual o alcance
técnico teve a introdução destes especialistas nas Américas é um esforço que continua a
ser louvado. É aí que deixaríamos de estudar as influências africanas na metalurgia do
ferro no Brasil e passaríamos a estudar as influências catalãns e portuguesas no
nascedouro desta indústria em plagas tupiniquins.
Concluo, portanto, que não resta dúvidas sobre a existência de africanos
habilidosos com o trabalho de metalurgia nas Américas e sobre o uso (pelo menos
isolado) de suas técnicas. Portanto, o confronto de ideias e de dados entre os
historiadores mais favoráveis à interpretação de que essas técnicas africanas foram
amplamente utilizadas e a expertise aproveitada como Eduardo França Paiva, Juliana
Ribeiro, Basil Davidson361, etc. E posições mais moderadas ou que deixam entrever
dúvidas sobre a influência africana como as de Andréa Lisly Gonçalves e Sérgio
Buarque de Holanda entre outros362 deverão, afinal, trazer maiores subsídios para o
estudo das reais contribuições técnicas africanas na reelaboração de sua cultura material
no Brasil e nas Américas em geral.

Com respeito ao cobre temos pouco a falar, mas não por se tratar de um metal
menos importante para a tradição africana, ao contrário, ele disputa com o ouro posições
de demanda e numa intensidade semelhante em muitas regiões africanas, mas a sua
função intrínseca de moeda corrente (algo que eu falo a respeito nos meus trabalho
sobre joalheria africana e não tratarei aqui363) impõe a ele aspectos relevantes como sua
difusão generalizada dificultando e confundindo, por vezes, a pesquisa por centros
produtores, procedência ou os sentidos de orientação de suas linhas de difusão. Para
falar de centros produtores dentro da nossa zona de influência, por exemplo, Katanga
(na atual República Democrática do Congo) era um centro difusor do metal 364. Para
piorar nossa incompreensão dos detalhes de como se desenvolveu a produção desse
metal na África subsaariana, a maioria dos relatos de viajantes árabes supérstites
parecem se preocupar antes com a circulação deste bem (que possui uma reserva de

360
COSTA e SILVA, Alberto da, Um Rápido Olhar sobre a África in: ARAUJO, E. ; MARCUSSI, A.
A.; SANTOS, M. S. ; SILVA, R.A. ; SILVA, A. Da C.e, O Museu Afro Brasil. São Paulo: Banco Safra,
2010.p.
361
O próprio Basil Davidson apresentou uma informação importante: foi só a partir do séc. XIX que
métodos de extração de ferro europeus mais avançados substituíram os métodos africanos, amplamente
utilizados durante o Brasil Colônia. DAVIDSON, Basil. The Search for Africa: History, Culture,
Politics. New York: Random House, pp. 57-8, 1994.
362
GONÇALVES, Andréa Lisly, As técnicas de mineração nas Minas Gerais do século XVIII. In: Maria
Efigênia Lage de Resende & Luiz Carlos Villalta (eds.), História de Minas Gerais: as Minas setecentistas,
vol. 2, Belo Horizonte: Autêntica/Companhia do Tempo, 2007. pp. 187-204. HOLANDA, Sérgio
Buarque de. A mineração: antecedentes luso-brasileiros. História Geral da Civilização Brasileira: a
época colonial. São Paulo: Difel, 1985, t.1, v.2.
363
Um exemplo disponível aos interessados:
http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308349962_ARQUIVO_JoiasAfricanaseAl
gunsExemplosdesuaMemorianasAmericas.pdf
364
Bem como Silla, no Rio Senegal, Air e o Saara Ocidental. Ver: História Geral da África vol III. p.861
e ss. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU A cruz de Katanga é
um exemplo do que se convencionou chamar de “moeda primitiva”, feita de cobre, difundiu-se por todo
centro africano.
187
valor concreta em seu próprio material), que com as tecnologias ou técnicas empregadas
na sua produção. Em todo caso, é certo que quando Stanley fez sua primeira visita
através da África em 1873-75, encontrou interessantes tornozeleiras em formato de tiras
de cobre batido. Posteriormente foi possível encontrar algumas fontes mineradoras de
cobre oxidado em valas abertas. Na região onde fica hoje a República Democrática do
Congo, há velhos sítios em que se calcula ter mais de 100 distintos corpos de minério de
cobre365. As relações comerciais e transferências tecnológicas entre o Egito e a Núbia
por volta do ano 4000 a.C já difundiam confirmadamente indústrias de cobre na
África subsaariana. A pesquisa arqueológica num entreposto egípcio em Buhen datado
de cerca de 2600 a.C continha algumas evidências de ser um centro produtor e difusor
da fundição de cobre. Kerma, igualmente, produzia a fundição de bronze pela técnica
africana dos fornos de cadinho (discutidos acima em seu desdobramento brasileiro), que
são seguidamente datados de 2300-1900 a.C., embora seja completamente desconhecida
a fonte para o estanho que compunha essa liga metálica.
Como vímos, estamos muito longe de esgotar esse tema que é um dos mais
vastos dentro da cultura material africana fora da África. A recuperação e o estudo dos
modelos africanos de bigornas, martelos, malhos (martelo de ferreiro), foles, dos
próprios fornos, as alavancas, os almocafres, cavadores etc. Contribuiriam
enormemente para a reconstituição dos possíveis vínculos existentes entre a cultura
material dos dois lados do atlântico.
Os campos de pesquisa relacionados ao trabalho no ferro seja na África seja em
seus desdobramentos americanos, como se podia esperar, também exigem trabalho em
conjunto de equipes das mais diversas áreas. Observações do ferro em seus aspectos
mais variados integra o corpus de estudo daqueles que tem a metalurgia do ferro
africano como objeto. Temas como a geologia do ferro, entendimento das formas de
depósitos do minério, as técnicas de fundição e forja, a tecnologia dos implementos
ligados à sua extração e manipulação. Mas também, levando em conta os aspectos
econômicos envolvidos nesta tradição, por exemplo, aspectos ligados à agricultura, ao
comércio, a fundição das chamadas “moedas primitivas”, bem como os aspectos sociais
do ferro na África como, por exemplo, a tradicional “compra da noiva” ou a função dos
trabalhos e do material ferro como símbolos de poder e, indo mais além, estudos
comparativos em geral como as análises quimicas e os estudos linguisticos
comparativos para o uso e desenvolvimento do metal nas expansões bantas etc. se não
“fecharem o ciclo” ao menos nos auxilirão a tornar os estudos de metalurgia africana e
seus desdobramentos nas Américas muito menos “insosso” do que injustamente se
apresentou.366

Quem estiver interessado no campo da metalurgia e mineração não
desanimem, podem se iniciar lendo os seguintes textos: BASSEY, Andah, Nigeria's
Indigenous Technology (Ibadan, Nigeria: Ibadan University Press, 1992). SCHMIDT,
Peter R. Iron Technology in East Africa: Symbolism, Science and Archaeology
365
KENNEDY, B.A. Surfaces Mining (ed.) Maryland: 2º. Ed. Society for Mining Metallurgy and
Exploration, Inc., 1990, p. 6-7. Ver tambem: JORALEMON, I.B. Copper: the encompassing story of
mankind’s first metal. Berkeley: Howell-North Books, 1973.
366
Aos que desejarem trabalhar com a África de cultura Banto, não devem deixar de experimentar a
versão online da “Reconstrução do Léxico Banto” proposto pelo Museu de Tervuren. Disponível aqui:
http://www.africamuseum.be/collections/browsecollections/humansciences/blr Segue a referência
bibliográfica completa: BASTIN, Yvonne, André COUPEZ, Evariste MUMBA, and Thilo C.
SCHADEBERG (Eds)) Bantu lexical reconstructions 3 / Reconstructions lexicales bantoues 3. Tervuren:
Royal Museum for Central Africa,2002. Online database: http://linguistics.africamuseum.be/BLR3.html
188
(Bloomington: Indiana University Press, 1997). I. Van Sertima, Blacks in Science (NJ,
Transaction Books, 1992). RIBEIRO, Juliana da Silva. Homens de ferro. Os ferreiros
na África-central no século XIX. São Paulo: Dissertação de Mestrado em História,
Universidade Federal de São Paulo, 2008. Disponível em:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-03092009-145620/pt-br.php]; Fred
ANOZIE, Metal Technology in Pre-colonial Nigeria, in African Systems of Science,
Technology and Art, Gloria THOMAS-EMEAGWALI, (ed.) (London: Karnak, 1993).
MACHADO FILHO, Aires da Mata. O negro e o garimpo em Minas Gerais, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1964; VILLAR, Pierre. Ouro e moeda na História:
1450-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. ROLFF, Aníbal Marques de Almeida
Síntese histórica da Batéia, Mineração e Metalurgia, 40:378, Setembro, 1976. LIMA,
Heitor Ferreira. Industrias Novas No Brasil-Siderurgia No Passado. Observador
Economico e Financeiro, ano XXIII, n. 264 and 265. MELLO, Geraldo Magella Pires
de, Histórico, Possibilidades e Problemas Da Siderurgia no Brasil. Observador
Econômico e Financeiro, No. 262. ABUKAKAR, N. 1992. Metallurgy in northern
Nigeria: Zamfara metal industry in the 19th century. In Thomas-Emeagwali, G. ed
Science and technology in African history with case studies from Nigeria, Sierra Leone,
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Em Casa de Ferreiro Pior Apeiro: os artesãos de Vila Rica e Mariana no séc. XVIII.
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Vejam também esses links:
http://projects.exeter.ac.uk/mhn/Africa.html
http://www.cedeplar.ufmg.br/diamantina2004/textos/D04A031.PDF

191
Um Homem de Ferro367
Ibani Jorge Bicca

Toca o fole,
bate o ferro ,
que tem cor de por-do-sol.
O ferreiro vai batendo,
batendo na sorte maula,
que não lhe deu outra escolha,
pois foi criado ferreiro,
com ferro no coração.

Que ironia Senhor,
é a vida deste pobre!
Bate o ferro por uns cobres,
que não cobrem seu sustento.
A mulher lava pra fora
e planta horta quando dá.
O piá faz changa no povo,
pra comprar tamanco novo,
e ir na escola estudar.

Ferra a roda da carreta,
bate a enxada e o machado,
bate a ponteira do arado
que de lavrar se gastou.
Solda o freio do campeiro
que na doma se quebrou,
e faz a trempe de ferro
que o patrão lhe encomendou.

Passa o dia e chega a noite
e não tem hora pra parar,
pois prometeu terminar
o serviço que assumiu.
E só termina a jornada
depois que a lua subiu.
Cansado deita na sala
e se cobre com o velho pala,
pois não deseja acordar,
a china que já dormiu.

O sono lhe traz os sonhos...
Que sonharia o ferreiro?
Será que sonha ser rico
e poderoso estancieiro?
Ou um comerciante abastado,
contando muito dinheiro?
Pois seus sonhos são humildes,
quer pouco pra ser feliz.:
Sonha com um fole novo,
que o velho já está furado

367
http://www.juntandorimas.com/poesias/ibani%20bicca/umhomemdeferro.htm
192
e com três barras de ferro,
pra fabricar dois arados.

Canta o galo no poleiro,
mas não acorda o ferreiro,
que há muito já está mateando,
e solito matutando,
como vai fazer a marca,
que o coronel desenhou.
Larga a cuia, Acende a forja
e recomeça a labuta.
É mais um dia de luta
em honra a Nosso Senhor.

- Guri me traz mais carvão.
- Depois me alcança a marreta,
que o ferro já está no ponto.

"O velho galpão pendido,
que agasalha a ferraria,
o fole, a forja, a bigorna,
a talhadeira, a tenaz.
A marreta que sobe e desce,
moldando o ferro aquecido;"
Este é um retrato querido,
que mora em minha lembrança,
desde os tempos de criança.

E aquele homem de ferro,
com orgulho eu repito:
Este ferreiro bendito,
que da minha idéia não sai,
pois não consigo esquecer...
Sinto-me honrado em dizer,
era de fato...meu pai!

2.5. – Os Mestres das Tecelagem, Cestaria e da Cerâmica

Muito abundantes também são os desenvolvimentos técnicos africanos no
trabalho com cestaria, cerâmica e tecidos. Com relação à este último, a variedade de
técnicas, bem como a amplitude de seu alcance faz das tradições africanas em tecido
ganharem destaque também no campo da cultura material recolhida em coleções de
museus. Certamente tem merecido trabalhos à parte que têm estudado a fundo a
influência das vestimentas africanas no Brasil, não somente no contexto dos tecidos
religiosos, mas em roupas de uso também cotidianos bem como os importantes Panos-
da-Costa, os Turbantes, os xales típicos da crioula baiana antiga e a saia rodada à
brasileira, etc.
Eu jamais estudei sobre as tecnologias dos teares africanos, mas, muito embora
o texto “Alguns aspectos da indumentária da crioula baiana” (de leitura obrigatória para
quem estuda vestimenta africana) seja um dos mais interessantes que já li sobre o tema,
não concordo muito com Heloïsa Torres quando, baseada em ... ela diz que “O tear de
193
pedal não conservou sua pureza originária; sofreu alterações, inclusive lusitanas.
Admite-se já a hipótese de ter sido introduzido pelos portugueses em África” 368.
Admimitir-se uma hipótese não é provar sua infalibilidade. Ela própria vinha traçando
em seu texto um caminho muito mais seguro e antigo em relação ao tear de pedal
africano, remetendo seu percurso desde o Norte da África (região do Sirtes, durante a
idade média) até esta técnica chegar entre os ashanti no início do séc. XIX. Perdoemos
este contracenso a par de nossos próprios ao lidarmos todos com fontes tão esparsas. O
que não resta dúvida é que, com a transmissão tecnológica ocorrida no período da idade
média europeia, a influência tecnológica mediterrânea e saariana, cujo centro de
influência regional principal no séc. X era Bornu, os teares de pedais conquistaram os
tecelãos subsaarianos a ponto desta tecnologia se difundir muito rapidamente por toda
África Ocidental e parte da África Central também. Como diz a própria Heloïsa Torres:
Introduzido na África negra, esse tear forneceu as bandas de tecido que constituem as
vestes e os grandes panos envoltórios do corpo usados pelos homens em alguns grupos
negros sob influência maometana e os panos que o padrão de moral ocidental impôs as
mulheres para cobrir o corpo. Dele se originam também as bandas que, no Brasil, se
emendavam para fazer os panos da Costa.(idem, ibidem)

Cartão Postal - Tecelão e mulher segurando um tecido – Povo Ewe do Togo
Duncan Clark Collection
http://www.adireafricantextiles.com/eweintro.htm

368
TORRES, H.A. Alguns Aspectos da Indumentária da Crioula Baiana. Tese com que se apresenta
Heloïsa Alberto Torres, ao concurso para provimento da Cadeira de Antropologia e Etnografia da
Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, 1950. In: Cadernos Pagu (23), julho-
dezembro de 2004, pp.413-467. Disponível em : http://www.scielo.br/pdf/cpa/n23/n23a15.pdf
194
Máquina de tear na Bahia com banda de Pano da Costa
Fotografia: Tecelão baiano de ascendência iorubana: Alexandre Geraldes da Conceicão
(TORRES, H.A.,1950, p. 451)

“A localização do artífice, cujo nome era Alexandre Geraldes da Conceição, foi
extremamente penosa. Havia sido funcionário dos Correios e foi nessa repartição que,
de indagação em indagação, conseguimos finalmente o endereço desejado. A Alexandre
apresentamos os panos. O tecelão examinou-os e reconheceu dois como trabalho seu;
um recente, tecido aproximadamente entre 1930/35, outro mais antigo, datando de
1915/25. O terceiro pano prendeu a atenção de Alexandre por muito tempo; terminou
por dizer: ‘feito por meu pai, já lá vão mais 40 de anos; é tecido de fins de século
passado, quando eu ainda era rapaz novo’. E acrescentou: ‘digo-lhe mais; alguns
poderão julgar que é legítimo africano mas, bem examinado, se vê que não é genuíno.
Quando estava escasseando o pano legítimo, meu pai intercalava nas bandas que tecia,
bandas autênticas de África. Colocava uma faixa no centro e as duas barras’. Foi o que
sucedera ao pano em causa e estava explicada a divergência de opiniões quanto à
legítima origem africana, expressa pelas filhas de santo. Alexandre Geraldes da
Conceição rejeitou o quarto pano da Costa como trabalho feito no Brasil e mesmo
como de fabricação nativa, declarando que na África não se tecem panos dessa
largura; que deveria ser tecelagem inglesa, em cores usuais na África, para iludir os
nativos. Essa informação, destituída de valor quando se considera a tecelagem africana
em geral, não pode ser desprezada como contribuição para confirmar a origem
geográfica, a que se filiavam os seus conhecimentos de tecelagem. Alexandre Geraldes
da Conceição aprendera a tecer com seu pai, mas disso não fizera o seu meio de vida.
Quando o conheci, já era empregado público aposentado. Seu pai, Ezequiel Antônio
Geraldes da Conceição, nasceu livre em Salvador e também foi tecelão. Não tendo
conseguido prover à subsistência da sua família com esse ofício, fez-se carpinteiro, mas
nunca abandonou o tear. Seu avô, Antônio Campos, Ioruba de nascimento, veio para o
Brasil muito jovem e foi forro por uma Junta de patrícios; a alforria se justificou pela

195
alegação de que Antônio conhecia ofício. Das três gerações, foi o único a dedicarse
exclusivamente à tecelagem”369.

Constituintes de um tear mecânico a pedal370

De outra feita, a limitação que trouxe a escravidão para a transferência de
tecnologia africanas tem na tecelagem um dos exemplos mais pesarosos. Eu tive a
oportunidade de escrever três pequenos textos371 sobre o assunto da vestuária e técnicas
de fabricação e tingimento de tecidos entre os Kuba da República Democrática do
Congo. Por outro lado, este é um tema há muito considerado bem relevante e pode-se
encontrar algumas boas referências, inclusive no que diz respeito aos “africanismos” ou
às pontes afro-americanas. É certo que a maior parte dos grupos africanos aqui trazidos
detinham conhecimento milenar da produção de tecidos e “tecido não-tecido”(como o
trabalho das “Tapas” dos grupos Mbuti da Rep. Dem. do Congo, suas mantas fibrosas
retiradas de árvores e utilizadas como se fossem tecidos); o tingimento de roupas como
o uso da técnica do tye-dye, o trabalho no indigo – além da massificação da produção de
índico, isto é, sua industrialização que se verificou durante o período escravagista norte-
americano. Acrescente-se a isto a produção de algodão, (ver LOVEJOY P. p. 25 e ss.) –
os variados relatos nesse sentido são bastante mais satisfatórios, se comparados a outras
áreas de influência.

369
A autora indica em nota ainda que: “Merece reparo ter ficado a tecelagem africana no Brasil estrita a
uma só família. Quando outra informação colhida futuramente não venha contrariar a hipótese, pode o
fato ser apontado como sobrevivência africana (Entre outros autores, cf. HERSKOVITZ, Dahomey and
ancient West African kingdom, 2vols. New York, 1938, vol.I, pg.76. (TORRES, H.A., 1950, P. 424-25 -
NOTA 18 p. 448).
370
Traduzido e adaptado de: http://claudeafrique.pagesperso-orange.fr/metiertisser.htm
371
Ver: http://pt.scribd.com/doc/65557297/O-Bordado-das-Mulheres-Bakuba ;
http://pt.scribd.com/doc/65123065/A-Fiacao-dos-Tecidos-Bakuba;
http://pt.scribd.com/doc/65554713/As-Tapas-do-Povo-Mbuti
196
Tecelão Malinke - Costa do Marfim
Cartão postal: Col. Particular

De qualquer forma, pouco se estudou exceto muito recentemente sobre as
influências tecnológicas africanas no quesito fabricação e tingimento de tecidos. A
tintura índigo, por exemplo, “é uma antiga biotecnologia que era utilizada no oeste do
Sudão (Mali) há mais de mil anos atrás, e tem desempenhado um papel fundamental na
evolução do design têxtil em toda a África Ocidental. Havia três principais centros.
Entre as mulheres iorubás, tintureiras especializada em panos adire produzidos através
da aplicação de uma pasta à base de mandioca para dar resistência, utilizando-se a
técnica de batik. Entre os Haussa (norte da Nigéria), a tintura índigo foi praticada por
homens, por outro lado, a despeito do uso de outras técnicas de tingimento de tecidos,
embora o tingimento de tipo tie-dyeing não foi considerado historicamente importante,
segundo alguns autores372.
Já a difusão da cestaria africana no novo mundo teve um desenvolvimento de
suas técnicas, formas e funções entrecortadas com as tradições milenares indígenas. É
muito interesssante observar a semelhança técnica entre os trançados da cestaria
africana e indígena. Algumas elaborações de ordem estética que se repetem no contexto
tradicional gerando marcas contínuas ou um pouco mais permanentes, as quais facilitam
o trabalho de classificação do antropólogo, são os elementos gerais que se distingue
uma cestaria da outra, mas não é muito possível fazer essa distinção muito além disso.
Ainda assim, não é impossível encontrar quem afirme haver todo um estilo de cestaria
afro-brasileira (fora dos quilombos) que conseguiu se estabelecer com alguma
independência dos modelos indígenas, que geralmente se sobrepunha a todos os outros.
O próprio Debret fez algumas indicações quanto a isso ao dizer que: a todas essas
espécies de baús, produções do gênio europeu, se ajunta a contribuição da indústria de
trançado, que cabe no Brasil aos escravos africanos. Revivendo as atividades de sua
pátria estes empregam algumas horas de lazer, para fabricar cestos de diversas formas
372
MIDDLETON, J. (ed.) New Encyclopedia of Africa Vol. 5 New York: Thompson Gale 2008. p.27.
197
e cores. Esses numerosos utensílios, de dimensão variável e adequados a diferentes
usos, são utilizados em todas as classes da população brasileira [...] 373.

O estudo das máquinas de tear manual brasileiras remanescentes do período
colonial, assim como as redes de descanço, as tipóias, o palanque, bem como todos os
maquinários relacionados à cestaria, à tecelagem e aos fornos e os grafismos utilizados
na arte da cerâmica, responderiam a mais uma das diversas facetas das tradições
técnicas e tecnológicas afro-brasileiras. Mas as dúvidas que pairam sobre esses tipos de
tecnologias podem ser resumidas no relato feito sobre as “redes de caça”, no livro da
UNESCO sobre a história da África: evidentemente, uma técnica como a da fabricação
das redes de caça, obviamente muito antiga, evoluiu e seria preciso estudar tal
evolução no Egito, na África do Oeste e na África Central, por exemplo, de acordo com
os animais caçados, as técnicas de caça e os tipos de sociedades e de alimentação. De
qualquer maneira, todos os estudos antropológicos mostram que existe uma relação
entre os métodos de tecelagem da rede, seu tamanho e o tamanho das malhas, seu modo
de conservação e de uso, de um lado, e as estruturas socioeconômicas, de outro lado.
Porém, somente conhecemos alguns marcos dessa evolução milenar, e não suas
continuidades374.
Acredito que dentre todas as técnicas, a tecelagem africana e seus
desdobramentos nas Américas são as que mais tem encontrado gente disposta a estudá-
las. Ainda estamos bem no início disto, mas cabe somente a nós fazê-lo, porque já são
poucos gringos brazilianistas que se dão ao luxo de sair do conforto deles pra vir ralar
aqui pra descobrir alguma coisa que valha a pena, nesse sentido. Nós também teremos
de nos torcer até o talo para tentar superar as dificuldades que assombram os que se
arrogarem no direito de querer saber, mas não ter os meios de como fazê-lo e bem.
A própria história recente da tecelagem no ocidente mostra um pouco disso, pois
se confunde com a história do desenvolvimento industrial da Europa e por fim, a toda
crítica possível da “transformação do ou-t-ro em merda”, da riqueza em luxo, da
necessidade em mais-valia (surplus), da potência em excrescência, do homem em
máquina. Casualmente, no centro da história, estava na vanguarda deste movimento
indefinido o fabricante de perucas Sir Richard Arkwright (1732-1792) que patenteou o
início do capitalismo industrial com a criação da sua “fiandeira movida a água” (water
frame) em 1769, que substituía o trabalho dos músculos dos trabalhadores (e, por
extensão e definição, da humanidade) pela força motriz da água (que, no limite,
representaria simbolicamente a condição de degradação total da complexidade
trabalhadora humana para a simplicidade inconsciente e elementar da água, neste caso,
ou ainda da “mecânica”, no séc. xix e consequentemente da eletrônica, da nano-
tecnologia e dos bitcoins do fim do séc. xx e dos transistores moleculares e da
computação paralela e quântica do séc. xxi, etc.)375.

373
DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1816-1831). t. I, vol. I e II, São
Paulo, Martins Editora, 1940. p. 155-6.
374
EL FASI, M. (Ed) História Geral da África. vol. III - África do século VII ao XI Brasília: UNESCO,
2010, p. 895. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU
375
Eu não sei se vocês se interessam por isto, mas a transição por esses modelos tecnológicos todos
respondem à pergunta “qual é o limite prático de consumo de energia?” A industrialização deu o ponta-pé
inicial na corrida que nos levou à velocidade da luz ao menor tempo e com o menor consumo de energia
possíveis. Ou seja, o capitalismo nos levou ao tempo do para além da percepção humana (velocidade da
luz) convergindo as limitações práticas de realização e consumo de bens e serviços às dependências em
relação ao ganho de desempenho e ao know-how privado, gerador de centralização de capital.
198
Mas isso não foi tudo, essa substituição dos homens pelas máquinas não foi
efetuada pela burguesia que também de forma simbólica conceberia as sementes de seu
próprio fim; era patente também que aquela aberração tecnológica fosse uma ameaça à
existências das pessoas que, tomadas pelo espírito destrutivo da “contra-revolução”,
invadiram a casa do inventor da lançadeira volante (flying shuttle) John Kay (1704-
1764) vingando-se contra essa forma aberrante de protótipo e substituto do homem376.
O tear mecânico do (power loom) foi criado pelo clérigo Edward. E. Cartwright (1743-
1823) e aperfeiçoado por William Radccliffe (1761-1842) em 1804. Alguém cuja
vontade de potência era suficientemente maior que a vontade de destruição e de
vingança do grupo de fiandeiros que botaram a fabrica Grimshaw e seus teares
mecânicos abaixo377. E ainda todas as ideias de sabotagem tão caras ao Sir Hakim Bey
começaram a ser postas em prática num terrorismo poético tão mais assustador para o
futuro de uma ilusão que para aqueles que estavam a tentar defender um precioso bem,
que era, afinal, sua única possibilidade de subsistência. A partir de então, as classes
laboriosas passariam a interpretar os termos “inovações tecnológicas”, como termos
padrões para “crimes contra a humanidade”. O próprio termo “aperfeiçoamento” tão
implícito na noção de tecnologia encarna em si mesmo o sadismo neurótico provindo
das almas torpes que, para suportar sua existência torpe, inventam coisas. Ora, eles não
teriam mais nada pra fazer... Ou chamariam-se eles mais especificamente, de “aquelas
almas torpes que não têm melhor modo de hierarquizar e tornar mais valiosa a
contemplação de sua própria vaidade senão na ‘invenção’”. Não é a toa que movimentos
juvenis de “narizes a procura de ar puro” se fizeram estabelecer de maneria cada vez
mais necessária e cada vez mais inútil ao movimento ecológico, vale dizer, desde os
ludittas do séc. XIX até dos bons selvagens das metrópoles modernas.
Resistir é uma palavra nobre! Mil e umas maneiras de fazê-lo também foram
desenvolvidas no Brasil e os africanos e seus descendentes também estiveram
envolvidos em algumas delas. “os escravos inventavam diversas formas de resistir
contra a dura sorte a que estavam submetidos, como revoltas, fugas, ou cultos
clandestinos. Uma das formas mais sutis e difíceis de combate era, como se diz, fazer
‘corpo mole’. Os escravos executavam com lentidão e de forma grosseira os trabalhos
solicitados, esperavam duas ou três ordens antes de iniciar o trabalho, mostravam-se
preguiçosos, quebravam as ferramentas ou as perdiam, descuidavam-se dos canais de
irrigação, de sorte que estes se avariavam, tratavam mal os cavalos e outros animais de
carga, quebravam as máquinas por falta de atenção, provocavam incêndios
misteriosos378. A tática de sabotagem contemporânea que visa o ‘corpo mole’ só pode
encontrar meios de desenvolvimento em sociedades suficientemente não-europeias, a
ponto que os casos do setor de confecção se tornarem passado. Um passado rebelde e
contrutivo, sem dúvida, mas apenas passado.

376
Ver: BONO, Edward de. Uma História das Invenções: desde a roda até o computador (Editorial Labor
do Brasil S.A., 1975 e PHILBIN, Tom. As 100 Maiores Invenções da História Rio de Janeiro: Difel,
2006.
377
Estudos das formas de contenção Estatal do “ódio louco das massas humanas” (que não passa da
simples e bela forma musical da canção “Freedom”, do Rage Against the Machine) revelam
decisivamente a importância da noção do Estado como Marx o indicou, um “comitê executivo da
burguesia” ou ainda, o Estado como constitutivo da ideia de uma “violência legítima” (segundo Weber,
seguindo os contratulaistas desde Rousseau) – chamemos a isto apenas de “legítima defesa” – mas que
caberia mais aos humanos (trabalhadores) que aos não humanos (Estado, máquina, “burguesia” em
sentido amplo, ou seja enquanto quaisquer classes de “agentes provocadores do anti-homem ou do
trabalhador desvalorizado”).
378
Equipe Cehila-Popular. A História dos Africanos na América Latina. Petrópolis: Ed. Vozes, 1988. p.25
199
O Trabalho na Cerâmica - É arriscado dizer isto, mas a mais antiga cerâmica
africana datada provém do saara central de cerca de 6100 a.C 379. Independentemente
da datação correta (é possível que isso ainda se modifique com o surgimento de novos
dados), a eminência desta tecnologia parece não ter ocorrido durante o neolitico, embora
houvesse um desenvolvimento tecnológico de artefatos ligados à esse período, a
economia mesolitica (caçadores-recoletores), sem domesticação, era regra no Saara.
Quando o critério de domesticação é utilizado, o número de sítios neolíticos no Saara é
bem pequeno e estes ocorreram depois do aparecimento da cerâmica. Nenhum grão de
planta domesticada foi encontrado em sítio do Saara. Na verdade, somente um único
grão de pólen de 'cereal' identificado em Méniet e datado depois de 3450 a.C380 e dois
grãos de pólen de painço cultivado foi recuperado em Amekni381 pode ser apresentado
como possível manifestação de agricultura.382 O que o autor afirma é que a agricultura
não é um prerequisito para o aparecimento da cerâmica. E cita exemplos das ilhas de
pescadores Jomon na Asia e Ertebolle, na Europa, ilhas do pacífico e Costa da América
do Norte. Indicando assim que, a tomar por estes dados, o pré-requisito para o
aparecimento da tecnologia da cerâmica não é a agricultura, mas sim o sedentarismo.
Seguindo a técnica e a classificação da argila queimada, os objetos de cerâmica
tem sido classificados em seu aspecto mais geral em utilitários e não utilitário;
figurativos e não figurativos. Parece que ficou estabelecido tratar pelo termo “terra-
cota” os objetos não-utilitários, ou obras cerâmicas recolhidas em museus, fazendo
desses objetos artísticos, geralmente esculturas de caráter figurativo, se distinguirem de
vasos, pratos e outros utensílios de uso prático (estocagem, transporte, cozinha, etc. -
com ou sem grafismos, alguns dos quais caracterizados como indicativos de etnicidade).
Embora a base desta separação seja a cada vez menos usada (desde o modernismo)
distinção entre arte e artesanato, essa distinção ainda é utilizada nos museus sem alusões
políticas ou hierárquicas, mas apenas material. Mas se pensarmos, por exemplo, no
aspecto da divisão do trabalho, essa distinção corresponderia, em verdade, à dominação
masculina na área da escultura e a contenção da área de artesania feminina restrita ao
trabalho com as cerâmicas de utensílios estritamente domésticos.

379
Esta datação foi dada por CAMPS,Gabriel Amekni: Néolithique ancien du Hoggar. Mémoires du
Centre de Recherches Anthopologiques, Préhistoriques et Ethographiques 10, 1969, p.207) cuja indicação
é HAYS, T.R. The Saara as a Center of Ceramic Dispersion in Northern Africa. In:SWARTZ,B.K.&
DUMETT,R.E. West African Culture Dynamics: Archaeological and Historical Perspectives - p.184.
[CONTINUAÇÃO DA NOTA- o próprio Hays indica que as datações anteriores como em LIBBY, W.F.,
Radiocarbon Dating. Chicago: University of Chicago Press, 1955. E em KANTOR, H.J. The Relative
Chronology of Egypt and its Foreign Correlations Before the Late Bronze Age. In: Chronologies in Old
World Archaeology. Ed. by R. W. Ehrich, 1-46. Chicago: University of Chicago Press, 1965 p.5.
conferiam a antiguidade da cerâmica no Egito, Sudão e Etiópia aproximadamente aos 4441 a.C. e que no
tempo de Hays (1980) chegou-se, como indicado, a datações mais antigas com cerca de 6100a.C. Novas
datações posteriores à década de 1990, entretanto, têm sido estabelecidas e com frequência a antiguidade
dos objetos cerâmicos saarianos remetem a tempos cada vez mais remotos. Fala-se hoje que a cerâmica
possuiu uma datação saariana de cerca de 10 mil anos atrás, ou seja, 8.000 a.C, fazendo esta tecnologia ter
também um desenvolvimento original na África anterior aos desenvolvimentos subsequentes nos outros
continentes. Ver: YANKAH, P. P. (ed.) African Folklore: An Encyclopedia p.116]
380
HUGOT,H.J. Recherches préhistoriques dans l'haggar norá-occidental. Mémoires du Centre de
Recherches Anthopologiques, Préhistoricques et Ethnographiques 1, 1963, p.156.
381
CAMPS,Gabriel Amekni: Néolithique ancien du Hoggar. Mémoires du Centre de Recherches
Anthopologiques, Préhistoriques et Ethographiques 10, 1969, p.2005
382
HAYS, T.R. The Saara as a Center of Ceramic Dispersion in Northern Africa. In:SWARTZ,B.K.&
DUMETT,R.E. West African Culture Dynamics: Archaeological and Historical Perspectives. Mouton
Publishers, 1980 - p.186.
200
Vista deste ponto de vista, certamente esta distinção não é neutra. Ela decorre de
séculos de controle e domínio sobre a mulher, que ficaria relegada aos modelos práticos
do cotidiano, cada vez mais concreto, diário e público, em oposição à criação de
associações masculinas reservadas de artesãos com monopólio da técnica e da função
que se tornam paulatinamente mais abstratas, religiosas e secretas. Oposições tão
rústicas como estas que acabo de fazer, obviamente, não são bons registros explicativos
de como as formas artisticas, assim como grande parte da cultura material, tenderam a
registrar as modificações sociais estruturais que as revoluções mesolíticas e neolíticas
trouxeram para as sociedades. Fica apenas um pequeno aviso histórico, portanto,
certamente é possível encontrar indícios da dominação masculina não só na divisão do
trabalho, mas em todos os aspectos da cultura material - e na cerâmica isto não seria
diferente. Ao encontrarmos casos singulares dentro da África em que os homens
produzam peças utilitarias383 e as mulheres peças de cerâmica figurativas - o que de fato
ocorreu, por exemplo entre os bambuti, como exemplo de caçadores-recoletores e os
Bakuba, como exemplo de agricultores, retomamos os pontos de nossa argumentação a
partir dos aspectos geográficos, históricos e antropológicos dos grupos em questão, mas
sem deixar de explicitar este “deslocamento” dos modelos tecnocráticos de
predominância masculina de um aspecto da cultura material para outro; também havido
nestes poucos exemplos que fujiriam à regra. [futuros estudos de antropologia que
pudessem indicar alguns dos motivos para contenção do trabalho feminino nas artes
ornamentais e corporais (no sentido de Mariano Carneiro da Cunha, seguindo o sistema
de Marcel Mauss384) em alguns grupos, se estes proveriam ou não da ampliação dos
modelos tecnológicos da cerâmica na criação de objetos portáteis como potes para água,
vinho de palma, óleos, cosméticos, potes medicinais, tinturaria, veneno para flechas
etc385 comporiam melhor o quadro de dominação masculina, como um dos fundamentos
(senão o principal) dos modelos tecnocráticos que nos fizeram a todos vítimas.
Num importante artigo sobre os cinco séculos formadores na África (do séc.VII
ao XI), Vansina e Devisse indicam também que em algumas regioes da África como o
Air, ao norte do Níger, a cerâmica tem mais de nove mil anos. Seu emprego era ligado
a formas cada vez mais acentuadas de sedentarizaçao, mas nem sempre ao surgimento
da agricultura. Costumamos, em particular na África Oriental e Meridional, designar
alguns tipos de cerâmicas pelo nome do principal sítio onde foram descobertos.
Quando foram datadas pelos escavadores em condiçoes satisfatórias, essas cerâmicas
serviram então de indicadores para as cronologias sequenciais. Assim, muitas vezes se
ligou o aparecimento de tipos de cerâmicas ao surgimento das sucessivas idades do

383
E isso ocorreu em regiões onde houve especialização da cerâmica para comércio - ver: SAIDI, C.
Women's Authority and Society in Early East-Central Africa. Rochester: University of Rocherster Press,
2010 note 4 p.144.
384
ZANINI, Walter. (Org.) História Geral da Arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles
Fundação Djalma Guimaraes, 1983. vol. 2. P. 1027.
385
Ver também sobre o curioso fato de que a porcentagem de ceramistas mulheres na África é
incrívelmente maior que em quaisquer locais do mundo. São 5% de homens ceramistas na África contra
10,9% nas Américas Centrail e do Sul, 13,8% na América do Norte, 29,2% no Pacífico insular e 61,7 %
Eurasia oriental. Que espécie de explicações podemos depurar destes dados? Ver: RICE, Prudence.
Women and Prehistoric Pottery Production. In: The Archaeology of Gender: Procedings of the Twenty
Second Annual Conference of the Archaeological Association of the University of Calgary, ed. Dale
Walde and Noreen D. Willow (Calgary, AB, Canada: University of Calgary Press, 1991), 436). ]
201
ferro e, por demais vezes, a migração dos povos portadores tanto do ferro quanto da
agricultura e dessas cerâmicas386.
Como eu havia dito acima o professor de antropologia Roderick J. McIntosh da
Rice University afirma que de arqueologia têm demonstrado que o continente tem
cerâmica milhares de anos mais velhas do que a do Oriente Médio e Europa, o
verdadeiro aço com dois milênios e meio de anos antes de sua “invenção” por
Europeus no século XIX e civilizações urbanas sem déspotas e guerras387.

1. 2.a 2.b

1. Motivos decorativos comuns nos vasilhames cerâmicos de contextos com datas médias entre
1797 e 1836. (Artes cerâmicas utilizadas por escravos dos engenhos brasileiros das Chapada dos
Guimarães – MT - analisados em SYMANSKI, 2010, p.302)
2. Motivos incisos comuns nos contextos com datações médias entre 1797 e 1850 de Chapada dos
Guimarães (2.a). Motivos decorativos usados pelos Ovimbundu (2.b)388

Certamente este é um campo em que muitas informações ainda precisam ser
trazidas a tona e quaisquer afirmações que se queiram definitivas acabam sendo um
pouco datadas e incompletas, até porque as metodologias quantitativas e comparativas,
bem como a identificação de ocorrências simbólicas, se colocadas “em cheque”, só
resistem à análise se assumirem a consciência de sua eventual limitação. Naturalmente,
os estudos “afro-ceramistas” no Brasil com suas poucas décadas, embora tenham

386
FASI, M. El. (Ed.) História Geral da África – África do séc. VII ao XI. vol III., Brasília: Unesco,
2010, p.895 e ss. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU
387
McINTOSH, R.J. Africa’s Storied Past in: Archaeological Institute of America Volume 52 Number 3,
May/June 1999.
388
GERDES, P. Women and geometry in Southern Africa. Maputo, Universidade Pedagógica de
Moçambique, 1995; HAUENSTEIN, A. La poterie chez les Ovimbundu. Acta Tropica, 21, 1964, 48-81.
________________, Examen de motifs decoraties chez les Ovimbundu et Tchokwe d’Angola. Coimbra,
Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, 1988. Apud. SYMANSKI, L.C. Cerâmicas,
Identidades Escravas e Crioulização nos Engenhos de Chapada dos Guimarães (MT) História Unisinos
14(3): pp.302-302 Setembro/Dezembro 2010. [disponível em:
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/4728]

202
avançado nos últimos anos, não estão tão adiantados quanto os estudos arqueológicos de
cerâmica africana, já centenários. Acredito que ao serguirmos os exemplos levantados
pela arqueologia da África nesse sentido, haverá uma contribuição mais direcionada e
necessária aos estudos ceramistas brasileiros em geral. Além disso, não se deveria, a
meu ver, separar em dois campos de saber distintos em “cerâmica indígena” e “afro-
brasileira”, ainda que estes fossem materiais provenientes de quilombos ou de aldeias
indígenas não-isoladas (bem como quase todos os níveis da cultura material
superficialmente tratadas aqui como a arquitetura, tecelagem, cestaria, agricultura,
medicina. etc. precisariam todas de convergências genéricas afro-indígenas).
Eu não tenho costume de ver na bibliografia técnica indigenista (embora seja
muito mais desenvolvida) as referências às literaturas técnicas afro-brasileiras e vice-
versa. Acredito que esta falha teórica das universidades de antropologia e arqueologia
em não inir ou criar disciplinas comuns no âmbito das tecnologias afro-indígenas
limitam a ambas tecnologias, especialmente às que deram desdobramentos citadinos e
folclóricos que podemos reconhecer hoje nas cidades do meio oeste, norte e nordeste.
Como a tradição ceramista no Brasil é eminentemente indígena é natural identificarmos
a sobreposição (ou substrato) dos elementos africanos na adaptação técnica e formal da
cerâmica indígena e qualquer excessão à essa regra me parece ser apenas localizada,
ainda que não seja menos digna de nota.

Mulher pilando argila para posterior produção de trabalho em cerâmica
(separarando as impurezas do barro como gramas, raízes etc.)
Comunidade Quilombola de Moça Santa, ca.2013 – MG
http://biblioteca.igc.ufmg.br/monografias/Geografia/2013/nadia/geo40.pdf

Para citar um exemplo isolado, Dalglish indica uma influência africana direta na
cerâmica do Vale do Jequitinhonha, exemplos como este talvez possam ser identificados
nas técnicas de outras regiões do país: Na construção de peças escultóricas utilizam-se,
também as técnicas de bloco, do repuxado e de placas; nas esculturas pequenas, como
as criadas por Noemisa Batista, é comum usar a técnica do repuxado ou bloco, e a
imagem é formada partindo de um pedaço de argila maciça, com adições posteriores
de detalhes como braços, olhos, boca etc. Antes de ir ao forno, ainda úmidas, estas
peças são ocadas, deixando as paredes finas e homogêneas para não estourar durante
a queima. Alves (p. 10, 1994) explica que esta ‘técnica de montagem do artefato
cerâmico em bloco...é técnica originária da África Negra, introduzida no Brasil pelos
escravos africanos na época do Brasil-Colônia’”389.

389
DALGLISH, L. Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha São Paulo: Editora
UNESP, 2006, p.38.
203
Forno para cerâmica antigo - Comunidade Quilombola de Moça Santa – MG
http://biblioteca.igc.ufmg.br/monografias/Geografia/2013/nadia/geo40.pdf

Eu não incluí aqui os estudos ceramistas quilombolas que, seja pelas peças
contemporâneas dispostas para o mercado de utensílios e artesanato, seja pelas peças
arqueológicas, eles constituem um campo que merece uma análise à parte e uma
sistematização mais aprofundada. É certo que alguns africanos no Brasil, especialmente
os das últimas gerações de escravizados, tinham interesse cultural direto na produção de
cerâmica como elemento nos cultos religiosos. Isso ainda não foi apropriadamente
estudado, mas como esta tecnologia é pré-histórica e relativamente pública (isto é, uma
técnica que não se manteve tão confinada à associações), há chances de que boa parte
dos africanos aqui chegados devessem deter os conhecimentos minimos para sua
prática, ainda que esta lhe fosse eventualmente restrita por sua condição social.
Particularmente, os vasos de oferendas dos africanos ocidentais, dentre eles dos
Iorubanos, que faziam pratos de oferendas decoradas para Olokum e a nossa conhecida
opon shango390, já feita no Brasil em madeira, configuram interessantes objetos de
estudo em separado.
Indo mais além, quais seriam as fontes das técnicas dos grandes mestres
ceramistas pernambucanos? Negros ceramistas do nordeste como Ana Leopoldina dos
Santos (1923-2008), que aprendeu o ofício com a mãe e mestiços como Mestre Vitalino
(1909-1963), entre outros, para não termos de nos restringir às questões formais e
técnicas, será que tiveram algum tipo de antecessor africano, ainda que seja algum tipo
de antecessor espiritual? Talvez não seja exagero traçar alguns parâmetros ainda que
tênues de “africanismos” tal como fez Mario de Andrade em relação a Aleijadinho
(c.1738-1814)391 ou como se tem feito em relação a outros artistas mestiços como
Mestre Valentim (c.1750-1813), Manuel da Cunha (1762-1809), Manuel da Costa
Ataíde (1762-1830), Muito ainda há que ser estudado dentro das tradições ceramistas
brasileiras e afro-brasileiras: faltou fazer a análise da especialização artesanal que
compreende as várias técnicas de moldagem, raspagem, incisão, excisão e pintura, onde
havia, seja na África, seja no Brasil. O estudo analítico dos diferentes sistemas de
cozimento e téncias de construção dos fornos, esmaltagem e composição de vernizes,
onde houvessem; a produção de terracota brasileira em contraposição à cerâmica
vidrada, que certamente encontrou artífices na África também, por exemplo, com o
390
PEEK, Philip M., & YANKAH, Kwesi. African Folklore: an encyclopedia. Taylor & Francis, 2004.
p.117.
391
Segundo o escritor de Macunaíma, Aleijadinho coroa, como gênio maior, o período em que a entidade
brasileira age sob a influência de Portugal. É a solução brasileira da Colônia. É o mestiço e é
logicamente a independência. ANDRADE, M. Aspectos das artes plásticas no Brasil. São Paulo: Livraria
Martins Editora, 1965 (Obras completas de Mário de Andrade, XII).

204
trabalho de joias, com as contas cerâmicas vidradas - ainda que estas produções fossem
localizadas. Além disso, acrescente-se a fabricação colonial de telhas, que faz parte do
folclore do “fazer nas coxas” brasileiro, mas as peças de tradição portuguesa também
não podem ser excluídas, como os azulejos portugueses produzidos no Brasil, a faiança,
que é propriamente a louça portuguesa feita pela pasta porosa cozida e posteriormente
esmaltada, bem como a grês, obtida pela pasta de quartzo, feldspato, argila e areia, entre
outras produções que eventualmente tinham uma pequena parcela de africanidade ou em
alguns casos em que certamente sofreram alguma influência africana e afro-brasileira
mais ou menos direta no seu trabalho prático.

Quem se interessar pelos estudos ceramistas, pode se iniciar com os seguintes
livros: BRANCANTE, E. F. O Brasil e a cerâmica antiga. São Paulo, ano
MCMLXXXI. São Paulo: Cia. Lithográfica Ypiranga, 1981; JACOBUS, André Luiz.
Louças e cerâmicas no sul do Brasil no século XVIII: o registro de Viamão como estudo
de caso.In: Revista do CEPA, UNISINOS, 1996. DIAS, Ondemar F. A cerâmica Neo-
Brasileira. In: Arqueo-IAB. Textos avulsos, nº. 1. Rio de Janeiro: IAB, 1988;
DALGLISH, L., Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha São
Paulo: Editora UNESP, P.38, 2006. SILVA, F. A. As tecnologias e seus significados:
um estudo da cerâmica dos asuriní do Xingú e da cestaria dos kayapó-xikrin sob uma
perspectiva etnoarqueológica . São Paulo: FFLCH-USP, 2000. [Tese de Doutorado]
LIMA, Cláudia. Tachos e panelas: historiografia da alimentação brasileira. Recife: Ed.
da autora, 1999. 2ª Ed. BEZERRA, C.P.A. et al. Mostra Patrimônios Vivos de
Pernambuco. Recife: FUNDARPE, 2010; MARANCA, Silvia; SALUM, M. H. L..
Participação em banca de Cláudia Alves de Oliveira. Estilos Tecnológicos da Cerâmica
Pré-Histórica no Sudeste do Piauí - Brasil. 2000. Tese (Doutorado em Arqueologia) -
Universidade de São Paulo. SILVA, Agatha Rodrigues da. O periódico científico como
documento da história da arqueologia: um estudo do conhecimento produzido sobre
cerâmica africana. - Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo,
2011.[Pesquisa em andamento]; SYMANSKI, L.C. Cerâmicas, Identidades Escravas e
Crioulização nos Engenhos de Chapada dos Guimarães (MT) História Unisinos
14(3):294-310, Setembro/Dezembro 2010. [disponível em:
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/4728]; MITCHEL, P. &
LANE,P. A Regional Overview: space, time, and ceramics.chap. 45. Early Farming,
communities of southern and south-central Africa. – The Oxford Handbook of African
Archaeology.Oxford: Oxford University Press, 2013, p. 658; DARISH, P. Fired
brilliance: ceramic vessels from Zaire. Kansas City, University of Missouri, 1990;
GOSSELAIN, O. 1999. In pots we trust: the processing of clay and symbols in Sub-
Saharan Africa. Journal of Material Culture, 4(2):205-230. [Disponível para compra
em: http://dx.doi.org/10.1177/135918359900400205 ; DAVID, N.; STERNER, J.;
GAVUA, K. 1988. Why pots are decorated. Current Anthropology, 29(3):365-389.
[Disponível para compra em: http://dx.doi.org/10.1086/203649; GOSSELAIN, O.P
Technology and Style: potters and pottery among Bafia of Cameroon. Man 27 (3): 559-
586; GOSSELAIN, O.P. & SMITH, A.L. The Ceramics and Society Project: an
Etnographic and Experimental Approach to Technological Choices. KVHAA
Konferenser 34: 147-160, Stockholm , 1995. [Disponível em:
https://www.academia.edu/548553/The_ceramics_and_society_project_An_ethnographic_and_experimental_approach_to_technolo
gical_choices];
GOSSELAIN, O.P. Identités Techniques. Le travail de la poterie au
Cameroun méridional. Ph D Dissertation. University of Brussels. BRAUN, D.P. Pots as
Tools. In: Archaeological hammers and theories. Moore, J.A. and Keene, A.S. (eds.).

205
Academic Press. 107-134. New York, 1983; BRONITSKY, G. The Use of Material
Science Techniques in the Study of Pottery Construction and Use. In: Advances in
Archaeological Method and Theory (vol. 9). Schiffer, M.B. (ed.). Academic Press. 209-
276. Orlando, 1986; COART, E. And de Haulleville, A. Notes Analytiques sur les
Collections Ethnographiques du Musée du Congo. La Céramique. Spineux et Cie.
Bruxelles, 1907; COURTY, M.-A. And ROUX, V. Identification of Wheel Throwing on
the Basis of Ceramic Surface Features and Microfabrics.Journal of Archaeological
Science 22 (1): 17-20. DAVID, N. & HENNING, H. Ethnography of Pottery: a Fulani
case seen in Archaeological perspective. McCaleb Module: Addison-Wesley, #21.
CHILDS, S.T. Style in Technology: a view of African Early Iron Age . Iron smelting
throuh its Refractory Ceramics. PhD. Dissertation, Department of Anthorpology.
Boston University, 1986.

2.6. – Os Mestres da Agricultura Tropical

A produção agrícola é algo que nós citadinos damos pouca ou nenhuma atenção.
Nossa ligação espiritual com os produtos industrializados não nos permite refletir sobre
alimentações saudáveis e raramente nossa curiosidade se reflete na questão “de onde
isso vem”? “como isto veio parar em minha mesa”? Etc. Lembro-me da piada tão
naturalizada entre as crianças paulistas, quando perguntadas de onde vem determinado
produto industrializado eles simplesmente respondem que “vem da árvore”. Recobrar as
tradições orgânicas será não só um grande passo para a existência de algum futuro
citadino menos alienado, mas represetará a prórpria condição mesma do futuro.392
Acredito que a tradição indígena, caipira, sertaneja e quilombola...podem nos
auxiliar no processo de transição para desintoxicação alimentar e política393. Sabemos
ainda que grande parte da tradição tecnológica africana se desenvolveu como técnicas
agricolas implantadas nas Américas, porque disso também dependiam os escravos,
especialmente os autônomos, livres ou libertos. A desnecessidade de boicote, sabotagem
e não-cooperação com relação aos senhores no campo da tecnologia agrícola, pode ter
mantido certas técnicas africanas ruralistas mais ou menos intactas.
Foi assim que uma séria de alimentos e culturas desenvolvidas na África
conquistaram continuadores do outro lado do atlântico. Citamos como exemplos
vinculantes, dentre outras tradições não-indígenas, as técnicas e produtos tais como a
cana-de-açúcar, o azeite de dendê, o inhame394, o conhecimento da cultura de grãos

392
Excelente, neste sentido o documentário “Muito Além do Peso”, mostrando crianças subnutridas
viciadas em industrializados. http://www.youtube.com/watch?v=TsQDBSfgE6k
393
A bem da verdade, ainda não refleti profundamente até que ponto os processos de transição propostos
na atualidade não sejam meras tentativas de manutenção do estatuto da reforma de excelência contra-
revolucionária e portanto, sejam apenas formas de procastinação escatológicas. Mas não é preciso muito
para ver em projetos como “A Grande Transição” ecológica, modelos interessantes, ainda que sem muita
expressão ou efetividade concreta:
http://www.gtinitiative.org/documents/PDFFINALS/8Technology.pdf
394
Inhame é uma palavra senegalesa “nyam” dos wolof que significa “amostra”, “sabor” e “Nyama” ou
“yamyam”, termo certamente onomatopaico que significa “comer” na língua dos Haussa, que englobam o
que hoje são nada menos que oito países da Costa Ocidental Africana e possuem uma “língua comercial”
utilizada amplamente, com mais de 38 milhões de falantes atualmente. Agora, uma curiosidade que pode
ter a ver: na minha primeira viagem aos EUA em 2009 ouvi vendedoras chinesas no sudeste de
Manhatam gritando e chamando ao público para provar seu chop chouey, falando rápido e repetidamente,
o que imaginei ser alguma frase em Chinês: “myam myam...myam myam...” Tive dificuldade para
206
tropicais como o milho e o sorgo, a domesticação antiga do gado e sua posterior
importação colonial, e mesmo produtos mais recentes como o café, o amendoim, entre
outros produtos. a considerar também as produções indígenas do tabaco, as técnicas de
irrigação e fertilidade da terra o conhecimento do calendário de plantio etc, temos o
outro lado da mesma moeda que compõe a maestria dos agricultures dos trópicos.
Temos a utilização extensiva pela grande lavoura e o uso de técnicas
agronômicas como o manejo agroflorestal como exemplos bastante ativos de herança
tecnológica africana no período colonial brasileiro. Os indígenas brasileiros, embora
tivessem sua agricultura de subsistência, não faziam grandes plantios e não se
utilizavam de técnicas de agricultura extensiva (principal produtora de excedentes na
agricultura) não fazia sentido para eles que, em sua grande maioria, vivia em
abundância e oferta alimentar ou em “afluência”, como se diz em antropologia
econômica. Os indígenas brasileiros não tinham a mesma demanda de algumas regiões
africanas por comércio ou o autoritarismo e monopólio alimentar de algumas chefias e
reinados africanos e o problema da estiagem, e pobreza de solo, entre outros revézes
africanos que exigiam a produção de excedente e o uso de técnicas agressivas a serem
aplicadas em resposta a uma natureza muito rigorosa para com a vida humana. A
técnica agroflorestal, sendo um cultivo integrado às árvores, garante aos agricultores
que se beneficiem de abrigo contra a copa das árvores, é ótima na prevenção contra a
erosões do solo, além de beneficiar as colheitas com aumento de nutrientes provindos
da reciclagem natural da matéria orgânica.
Em resumo, as práticas do cultivo envolvem desde técnicas de conservação da
água, trabalho no controle de erosão e manutenção de nutrientes no solo, combate à
pragas, técnicas de fertilização propriamente dita em culturas específicas e que podem
ser reapropriadas a novas culturas no processo de transferência tecnológica etc, e podem
ser estudadas também levando em conta o nível de envolvimento dos escravos numa
prática que afiranl, também os manteriam vivos. A produção dos gêneros tropicais em
grande escala ou em “escala de exportação” é outro dos feitos do trabalhador africano e
seus descendentes no campo da agricultura. Mas esta influência nas Américas não se
limita a isso. Algumas técnicas africanas de fertilização do solo como a compostagem e
produção de húmus agrícolas (hoje sabemos que também foi outra técnica que teve
desenvolvimento independente na África) estão ligadas à obtenção por meios naturais
de ácido fosfórico. E a utilização de plantas africanas como o uso das Mucuna,
respectivamente Mucuna Preta, Cinza e Anã (Stizolobiun aterrinnum, Piper &Tracy ou
Mucuna aterrima -; (Stizolobiun aterrinnum, Piper &Tracy ou Mucuna aterrima) –];
(Stizolobiun aterrinnum, Piper &Tracy ou Mucuna aterrima)-, do Labe-Labe Dolichos
lablab, ou Lablab purpureus (L.) Sweet, do Feijão Guandu (Cajanus cajans), a Soja
Perene (Glycini wightti) são exemplos da técnica de compostagem africanas,
ecologicamente indicadas até hoje para a produção agrícola395.
Outra questão importante nos chama a atenção. Boa parte da cultura africana no
Brasil, seja em seu aspecto medicinal, humano e veterinário, seja nos modelos, preparo
e fertilização do solo ficou encoberta pelo tabu relacionado ao uso de excrementos

conversar com elas, que não sabiam palavra em inglês, mas finalmente me disseram o significado da frase
apontando pra comida e lambendo os beiços ao dizer: “hum...myam myam...myam myam” Chorei de rir!
Ver: FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira p.947, 1986.
395
Ver: FORMENTINI, E. A. Cartilha sobre Adubação Verde e Compostagem. Vitória: INCAPER-
Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, 2008. pp.5-8
http://agroecologia.incaper.es.gov.br/site/images/publicacoes/cartilha_leguminosas.pdf

207
animais e urina humana, mas que eram amplamente utilizados, diga-se de passagem.
Não só o esterco das estrebarias e currais, os adubos naturais propriamente ditos tinham
força centrais na relação homem-animal-terra. Essa relação integral exigia um certo tipo
de singularidade que convergia com as cosmogonias africanas (e algumas indígenas
também) segundo as quais os produtos e subprodutos da terra compõe com eles a
unidade do que significa o mundo natural, integridade homem-animal-natureza.
Indo perfeitamente ao encontro disto, a leitura de “Os Parceiros do Rio Bonito”
do maior intelectual brasileiro vivo da atualidade, Antônio Cândido, apresenta o
fenômeno da integração entre o colonizador e o indígena no interior do Estado de São
Paulo. Antônio Cândido nos dá indícios também desse processo holístico afro-indígena
na bela figura do caipira paulista. Ele ressalta que “os aspectos ecológicos de expansão
como o desenvolvimento das técnicas de orientação de defesa, de utilização do meio
natural – tudo isso em busca do tipo de equilíbrio entre o grupo e o meio, característico
da cultura tradicional do caipira396. O uso de sangue (FREIRE, 1989, P. 59) Adubo,
ossos de animais, entre outras fontes , os minerais fósseis são ricas fontes de fosfato.
Freire cita o texto de 1861 que dizia: “todos os agricultores sabem, ou devem saber, que
os estrumes são a base de toda boa cultura; sem estrume não há colheitas” (IDEM,
Ibidem, p. 60).
Dentre as técnicas africanas de fertilização do solo utilizada nas américas
durante a colonização está na chamada “agricultura itinerante”, uma tecnologia
sustentável que respeita a temporalidade de oxigenação e regeneração do solo por meio
da “técnica da rotação das culturas”, que também teve desenvolvimento independente
dentro e fora da África. O tempo de reserva (chamado “pousio”) depende da capacidade
da terra arável, mas a derrubada e a queimada dependem sempre do controle ecológico
sustentável, caracteríscia das técnicas africanas tradicionais. A técnica do “pousio”
também é utilizada no controle de ervas daninhas397. No período colonial a habilidade
africana de tirar o máximo de proveito da terra era conhecida e certamente esse
conhecimento foi utilizado em favor das colônias. Um estudo geográfico apurado das
diferentes regiões climáticas e a distribuição das vegetações nos locais que forneceram
mão-de-obra escrava (força técnica) nos traria as informações que precisamos para
recuperar com maiores detalhes os fundamentos destas técnicas. Sabemos de ante-mão
que a maior parte dos africanos vindos ao Brasil (talvez possamos generalizar essa
conclusão também para as Américas, mas, no momento, meus dados são insuficientes)
provinha de regiões de savanas em primeiro lugar (embora a disputa do primeiro lugar
seja controverso), regiões de florestas tropicais em segundo, e em menor número povos
de regiões desérticas e de pradarias. Ora, as técnicas de agricultura seguem
necessariamente os tipos de solo, o clima e a vegetação intercorrentes. É milenar a
“técnica mista” africana na qual é constituído um sistema que mescla a pecuária com a
agricultura (chamada policultura), certamente uma das contribuições de peso entre as
tradições banto nas Américas. Resumidamente, a incorporação de

396
Ver: VIEIRA, H. Bandeiras e Escravismo no Brasil. São Paulo: Secretaria da Cultura Esportes e
Turismo – Conselho Estadual de Cultura, sem data. [Este livro, bem como boa parte dos indicados aqui,
podem ser encontrados nas bibliotecas: Carolina Maria de Jesus (Museu Afro Brasil) e da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
397
A técnica estritamente africana de rotação de culturas se faz valer em culturas de arroz, sorgo e
possivelmente algodão. Mas também pode ser constatado seu uso na África atual e nas Américas pelas
culturas do milho, algodão, feijão, girassol e trigo. Ver: ANDRES, A.; AVILA, L. A. de; MARCHEZAN,
E.; MENEZES, V. Rotação de Culturas e Pousio do Solo na redução do Banco de Sementes de Arroz
Vermelho em Solo de Várzea Rev. Bras. 88 de AGROCIÊNCIA, V.7 n.2, mai-ago, 2001. p. 85-88. Ver
também: http://en.wikipedia.org/wiki/Crop_rotation
208
ovinos/bovinos/caprinos numa interação sistêmica na qual os resíduos das plantações
fornecem a ração dos animais implementados instrumentalmente na cultura que, por sua
vez, fornecem adubo para reposição de nutrientes agrícolas, além do fornecimento
habitual de leite, ovos ou carne398.
A distribuição climática africana e brasileira comparadas respondem a algumas
das questões sobre os modelos de agricultura similares adotados em ambos os
continentes africano e americano. A Zona da Mata (que tem Salvador como a “Capital”,
por ser a maior cidade desta faixa e centro ativo de grande parte da era colonial) e todo
litoral brasileiro, inevitavelmente constituiram a porta de entrada (e permanência) dos
africanos no país. Mas foram as regiões de clima tropicais e semi-arido que receberam o
maior contingente de africanos em termos proporcionais. Por outro lado, como os ciclos
da Borracha e do apelo farmacêutico pelas tradições medicinais e a exploração da
amazônia são relativamente mais recentes, ou pelo menos posteriores à chegada das
grandes levas africanas, estas regiões de clima equatorial úmido, limitaram a presença
de maiores aglomerações de população negra, portanto, nestas regiões as influências de
contexto indígena tornaram-se superstrato em relação a todas as outras culturas.
Igualmente, a presença negra nos estados do sul do país, embora antiga e também
bastante expressiva, talvez não esteja relacionada a nenhum dos grandes ciclos
econômicos e por isso merece um estudo a parte. Por outro lado, temos de formular as
hipóteses em que a cultura geral do agreste e do sertanejo brasileiros (especialmente da
Bahia, Maranhão, Pernambuco e Piauí encontrem reflexo nas tradições bantas de savana
ou semi-árido como algumas culturas que transmitem semelhantes formas de vida e
com pontos antropológicos em comum como povos bantos do sul da República
Democrática do Congo, os maconde de Moçambique, os herero da Botsuana, Namíbia e
Angola, entre de outros povos de regiões angolanas como, Namíbe, Cunene, parte de
Cuando Cubango e algumas províncias do Reino do Congo como Mbamba, Nsundi,
Mpango, etc. A análise sistemática dos valores culturais, modo de ser e cultura material
em geral destes povos podem ser a pedra de toque dos vínculos África-Brasil cujas
fronteiras ainda não foram devidamente cruzadas.

398
POWELL, J.M., William, T.O. An overview of mixed farming systems in sub-Saharan Africa.
Livestock and Sustainable Nutrient Cycling in Mixed Farming Systems of Sub-Saharan Africa:
Proceedings of an International Conference, International Livestock Centre for Africa (ILCA) 1993, 2:
21–36.
209
Distribuição do Clima Brasileiro
http://www.algosobre.com.br/images/stories/geografia/tipos-de-clima-do-brasil.jpg

Distribuição do Clima e Vegetação Africanas
http://bioclimaufv.blogspot.com.br/2013/12/descobrindo-o-clima-caracterizacao-do.html

210
No Brasil essas regiões mais secas como as savanas africanas possuem
correspondência com as regiões com o bioma de tipo Cerrado (como vistos em Goiás,
Mato Grosso, Tocantins, Minas Gerais, mas também uma menor parte na Bahia,
Maranhão e Piauí). Nessas áreas, as tecnologias agrícolas de subsistência, mais do que
práticas de agricultura extensiva de tradição escravista, devem ter encontrado um
desdobramento independente em relação ao resto do país e que, portanto, dado as
dificuldades de adaptação, somente de modo muito latente se poderia retraçar os laços
de uma tradição tecnológica não “autóctone”, ou melhor, uma tradição que não fosse
desenvolvida localmente. Por outro lado, a adaptação no uso das gramíneas do serrado
/savana e outras reutilizações de palmeiras tais como a Carnaúba no processo de
adubação (talvez também na extração de cera, embora isto seja questionável), como a
utilização desta na medicina tradicional como diurético, o uso do babaçu na arquitetura
vernácula do Maranhão e sobretudo o uso de folhas de palmeiras ou de buriti na
construção dos Mocambos do nordeste e do serrado, podem encontrar alguns laços de
correspondência com os modelos indígenas e africanos.
Embora seja muito generalista dizer, é provavel que as regiões mais secas sejam
mais estimuladas que as tropicais para o desenvolvimento de tecnologias mais rígidas
de adaptação ambiental. Existem variados determinantes que forçam os seres humanos a
tentar encontrar soluções a problemas impostos pela natureza ou pela realidade prática
de determinado grupo social. Alguns destes determinantes formaram o caldo da
sociologia da agricultura brasileira de modo difuso, mas nem por isso se relegaria à
incuma ompreensão muito grande que nos forçaria a desistir de encontrar alguns por
quês. Certas técnicas são essenciais segundo certas condições dadas de ambiente, clima,
disponibilidade de sementes e adequação de implementos. E certamente as distintas
regiões do país desenvolveram suas culturas também considerando as adaptações
regionais dadas pelas circunstâncias.
Os Reinos do Congo, e Loango, por exemplo, possuíam mais de 2 milhões de
indivíduos cada um por volta do ano 1500399. Descrito pelos primeiros visitantes
portugueses como poderoso e com muitos vassalos, o Reino do Congo governava uma
população de 2, 5 milhões de pessoas por volta de 1500 (...) a capital real continha
cerca de 30 mil residentes400. Como alimentar tantas pessoas sem tecnologia
apropriada? Isso só é possível por meio de técnicas de agricultura extensiva,
amplamente utilizada por vários povos africanos que necessitavam produzir excedentes
seja por causa das condições climáticas de estio, seca ou fome sazonal, seja por causa de
condições sociais de Estados centralizados e conquistados pela força.
Aliás, abrindo um parênteses, eis aí um dos critérios antropológicos que eu
mesmo utilizava para diferenciar determinados grupos étnicos que possuem sistemas
sociais e econômicos com distinções evidentes. A literatura antropológica sedimentou
os termos hoje cada vez menos utilizados como “primitivo” (em oposição ao
“moderno”; “tribo” (em oposição a “Estado”), “selvagem” (em oposição ao
“civilizado”) etc. Isso não se trata apenas de uma limagem do politicamente correto,
fruto do multiculturalismo capitalista e fenômeno típico de burgo. Trata-se antes de toda
uma revisão conceitual promovida pela auto-crítica antropológica e pela crítica ao

399
BUSTIN, E., et. All. (eds). Five African States: Responses to Diversity: the Congo, Dahomey, the
Cameroun Federal Republic, the Rhodesias and Nyasaland, South Africa, Ithaca, New York: Cornell
University Press, 1963; THORTON, J. The Origins and Early History of the Kingdom of Kongo,
International Journal of African Historical Studies 34/1 (2001): 89–120.
400
LOCKARD, Craig. A. Societies, Networks, and Transitions: A Global History. Vol. II Since 1450.
Berkeley: Houghton Mifflin Company: p. 465.
211
eurocentrismo nas ciências humanas. O cruzamento de dados arqueológicos,
antropológicos, sociológicos e econômicos de grupos africanos ditos “tradicionais”
impõe a dúvida absoluta e essencial a esses conceitos. Quanto mais se estuda a
complexidade sócio-econômica até mesmo de grupos antes considerados os “mais
atrasados” do ponto de vista social como os chamados pigmeus (por serem caçadores-
coletores, nômades etc.) mais se chega a conclusões totalmente diversas das primeiras
afirmações da antropologia destes povos.
O mesmo se aplicaria ainda a grupos que desenvolveram uma agricultura de
subsistência, sem comércio, isolamento tribal, com pouco ou nenhum relacionamento
entre clãs, com número populacional reduzido ou com poucas chances de
desenvolvimento como “Estado” ou como “Reino”. Questiona-se hoje, e com razão, se
se é aplicável o termo “tribo” a qualquer grupo étnico e sob quaisquer circunstâncias.
Aliás, até o próprio termo “étnico” já teve suas bases questionadas. Da minha parte, em
verdade, como eu fui treinado no séc. XX e eu já era adulto 10 anos antes do início do
séc. XXI, por isso eu me acostumei a utilizar o termo “tribo” para grupos cuja economia
de subsistência, isolamento e escassez populacional os forçasse a organizações de tipo
“tribal” clássicas. Por outro lado, sempre foi muito óbvio para mim, mesmo quando
estudante, que os Reinos ou Estados que fazem ou fizeram comércio exterior,
praticaram intercâmbio sexual, linguístico, tecnológico e de outras ordens culturais,
jamais poderiam ser categorizados como “tribos”. Salvo engano, toda antropologia e
etnologia africanas do final do séc. xx que não leve isto em conta deve ser questionada.
Tampouco eu me desfiz do embaraço do termo “étnico”, também subutilizado e
escasso na literatura das ciências humanas. Obviamente, nada mais odioso do ponto de
vista do rigor das ideias, supor que o primeiro sentido para o termo “étnico” seja o
termo “tribal”, tornando-se um “conceito” de duplo falseamento. Até que ponto o povo
Iorubá ou Igbo, para citar apenas dois exemplos, são ou foram tão integralmente
caracterizáveis como “grupos étnicos distintos” a ponto de terem este termo utilizado
para designar cientificamente esta distinção? A bem da verdade, poderíamos transferir
para esses termos o mesmo tipo de rigor transferido ao termo “raça”, ou seja, são termos
biológica, sociológica, econômica ou antropologicamente desacreditados. Por isso, as
contundentes críticas de Leopold Sédar Senghor ou a discussão trazida por livros como
“Os Condenados da Terra”(1961) do antilhano Franz Fanon e o “Discurso sobre o
Colonialismo”(1955) de Aimé Cesaire são textos chaves para esta virada de sentido.
Quando a realidade histórica se trata de dados observáveis verifica-se mais
facilmente os indícios de espelhamento de características sociais que se assemelham.
Esse é o caso das tecnologias de agricultura africanas, utilizadas em maior ou menor
grau nas Américas, mas que merecem em si mesmas atenção dos historiadores.
Geralmente, o tipo de cultura e de região climática determinam as técnicas e os modelos
de adaptação tecnológicos a serem estabelecidos. Por exemplo, as culturas africanas de
leguminosas, verduras, tubérculos, enfim, cultura de alimentos como por exemplo do
milho, do sorgo, etc. transferidas para as Américas exigiram a manutenção de algumas
práticas que facilitavam o cultivo ou renovavam terrenos desgastados ou estimulavam a
abundância produtiva. Ao mesmo tempo em que a exportação de produtos nativos
africanos foram em si mesmos transferências tecnológicas, tais como a universalização
da noz de kola, do óleo e vinho de palma, da ráfia, da urtica massaica e dezenas de
outras espécies usadas globalmente seja na indústria alimentícia, médica ou outra,
constituem exemplos desta transmissão afro-americanas.
Também a domesticação, que é a seleção e adaptação de animais e outros seres
vivos, trata de um recurso técnológico existente historicamente no mesolitico africano
212
que foi aproveitado pelos demais contintentes. Talvez possa-se associar certas culturas
relacionadas ao uso do jegue nordestino ao chamado “burro”(equus asinus asinus) que
foi domesticado no nordeste africano por volta de 4 a 6 mil a.C401 e difundido pelo
sudoeste da Ásia. (Segundo Bealer & Weiberg, 2001, 394). Mas isso se aplicaria a
outros animais domesticados na África e eu cito como exemplos: o “gato” (Felis
Silvestris), igualmente, pode ter sido domesticado no Egito por volta de 3.500 anos atrás
(outros dados remontam a uma antiguidade de 9.000 anos e na Mesopotâmia402; o
“Ganso” (Anserinae e Anser Cygnoides); o “pombo” (Columba Livia); a “rola”
(Streptopelia Risoria); talvez o exemplo de animal domesticado na África mais
associado às relações África-Brasil seja mesmo a “Galinha da Angola” (Numida
Meleagris) que foi introduzida no Brasil provavelmente a partir da Guiné durante o
período da colonização403. Inúmeros outros exemplos de plantas e animais domesticados
na África em que podem ser encontrados com facilidade na bibliografia sobre o assunto
podem eventualmente ser traçados vínculos mais ou menos perseverantes.404 Um dos
primeiros registros no novo continente representam nossas fontes primárias. Ao
descreverem ou fazerem simples referências a respeito dos sistemas produtivos nas
terras desbravadas e nas futuras colônias, os chamados “viajantes” contribuíram para o
estudo histórico e comparativo entre as tecnologias africanas e americanas405.
No passado, técnicas agrícolas subsaarianas surpreendentes foram registradas em
relatos árabes, por viajantes europeus, em imagens produzidas por estes viajantes e
também por meio da cultura oral. Relatos da existência histórica de extensos terraços
agrícolas ocorrido em duas regiões da Nigéria, Yil Ngas no planalto de Jos, no centro da
Nigéria e em Gwoza no nordeste tem admirado historiadores, uma vez que a
quilometragem total das linhas do terraço para as duas áreas combinadas podia chegar
até 80 mil km. Bem como os trabalhos de Patrick Darling a respeito das obras de
terraplanagem no Benin, estimados em aproximadamente 16 mil km, dado que foi
reconhecido no livro dos recordes no ano de 1974 e em algumas edições posteriores,
como sendo as mais longas terraplenagem antigas do mundo406.
Esses dados e ideias que aparentam serem caçados como agulhas num certo
palheiro do eurocentrismo precisam de metodologias comprobatórias por vezes
idênticas àquelas cituações geralmente passadas por grupos minoritários em que, para se
dar o valor, necessitam ser incrivelmente surpreendentes. Situações comuns como a
transmissão tecnológica de um étimo de substrato ou, por exemplo, a gestualidade

401
Os dados referentes às datas de domesticação do burro na África ainda disputados. Ver:
http://www.animaltraction.net/donkeys/donkeys-blench-history.pdf
402
http://pt.wikipedia.org/wiki/Domestica%C3%A7%C3%A3o#cite_note-19
403
http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v14n1/v14n1a20.pdf
404
Ver: Zohary, D. & Hopf, M. Domestication of Plants in the Old World Oxford: Oxford Univ.
Press,2000; Clutton-Brock, J. Domesticated Animals from Early Times. Austin: Univ. Texas Press, 1981.
Zeven, A. C.; de Wit, J. M. Dictionary of Cultivated Plants and Their Regions of Diversity, Excluding
Most Ornamentals, Forest Trees and Lower Plants. Wageningen, Netherlands: Centre for Agricultural
Publishing and Documentation, 1982.
405
No final deste subcapítulo eu trago, entre outras dicas de fontes primárias, uma lista com o nome de
alguns dos viajantes mais importantes que trouxeram em seus relatos, diários de viagem e outros textos
indicações de ordem tecnológica úteis para este trabalho comparativo.
406
EMEAGWALI, G. African Enginnering- Terraces and Earthworks. In: Africa Update newsletter. Vol.
XV, Issue 2 (Spring), 2008. Disponível em: http://web.ccsu.edu/afstudy/upd15-2.html Ver também:
MITCHEL, P. & LANE,P. Towns and State of The West Africa Forest Belt. Early Evidence of Urban
Centres and Social Complexity – The Oxford Handbook of African Archaeology.Oxford: Oxford
University Press, 2013, p. 861.

213
corporal das mãe pretas asssumidas pelas crianças brancas, embora pudéssemos conferir
a isso o elevado grau de “transmissões de tecnologia de ponta”, não passam de situações
comuns e sem valor técnico, porque o corpo ou a língua jamais foram considerados
tecnológicos em si mesmos pela vã historiografia. O que quero dizer com isso é que
todos nós precisamos estar atentos, firmes e fortes para ampliar os horizontes das
metodologias que indicam contribuições técnicas fora da Europa. Elementos de
influência considerados hoje mínimos, podem ter dado impulso sem o qual não
seríamos os mesmos.
Um dos exemplos de ressalvas a se fazer nos métodos de análise histórica,
antropológica e tecnológica é quanto à análise de gravuras, figuras, pinturas e imagens
antigas que é sempre, como sabemos, um trabalho hercúleo. Ingenuamente, sempre nos
atamos ao que vemos como se estas fossem uma fotografia. Eis um assunto muito
propício a ser levantado, a considerar a “era da imagem” e a “era da reprodutibilidade” a
qual vivemos e sua implicação psicológica em nós, a ponto de confiarmos piamente nas
imagens. E elas se apresentam a nós como que “espelhos do mundo prático”. Mas não!
Gravuras e imagens antigas, por mais que tentem nos conduzir ao mundo de sua
antiguidade, são apenas sombras idealizadas de um certo real muito distinto daquele que
precisamos angustiantemente solucionar. Precisamos, portanto, ter sempre em mente
que as imagens antigas sobre a África e o Brasil colonial igualmente, em grande parte.
são meras idealizações. Tendo feito essa ressalva, reforçamos que raramente se tem
condições de avaliação ou capacidade concreta da leitura de muitas das imagens que
chegaram até nós. Algumas delas foram feitas posteriormente aos relatos aos quais elas
seriam apenas “ilustrações”. Como o próprio nome diz, elas serviriam mais para
“ilustrar” (no sentido ornamental) que para “informar”, no sentido que sempre
buscamos ao nos depararmos com elas. No entanto, como vivemos uma atualidade
maior de imagens que de palavras seria justo que também este texto estivesse tão mais
bem “ilustrado” que cheio de blá blá blás (como está) que poucos teriam a paciência de
“se dar ao luxo do tempo a perder”. Não se deve confiar nem em mil imagens ou mil
discursos repetidos, mas não se pode ao mesmo tempo atender mais ao sentido da visão
que do “ouvido”. Tu, ó paciente leitor, tendo portanto chegado até aqui, receba os meus
parabéns!
Voltando, então para as discussões sobre as técnicas da agricultura nos trópicos,
temos ainda algumas considerações a fazer. Uma delas diz respeito às atividades afro-
indígenas. Certas correspondências culturais entre os africanos e os indígenas foram
diversas vezes relatadas na historiografia. Não só os modelos politeístas de “deificação
do mundo natural ou naturalização do mundo divino”, bem como os modos e técnicas
de se relacionar com a natureza, possuem pontos convergentes bastante significativos.
Isso se fez valer no Brasil, onde os modelos africanos e indígenas foram tão
ambivalentes que podemos mesmo pensar numa zona de influência ou até de uma
cultura afro-indígena.
O sistema de cultura do solo, em Goiás, obedeceu a tradição confirmada em
todo Brasil Os índios e os negros confundiram suas experiências, que foram adaptadas
pelo homem branco dirigente. Conforme Saint-Hilaire, as florestas eram queimadas
nas proximidades das regiões auríferas e semeavam-se sobre as cinzas”. A produção se
fazia pelo plantio do milho, mandioca, açúcar, algodão, café, tabaco, feijão e
legumes.”407

407
SALES, Gilka V. F. O Trabalhador Escravo em Goiás nos Sécs. XVIII e XIX [comunicação
apresentada em 9 de Setembro de 1971] in: PAULA, Eurípedes S. de (Org.) Trabalho livre e trabalho
214
Gravura Holandesa (N.G) “Pernambuco” – Reys boeck va het rijcke Brasilien – Livro de viagem – 1624
(LOUREIRO, J. C. Quintais de Olinda - uma leitura indiciária sobre sua gênese Anais do Museu
Paulista vol.20 no.1 São Paulo. Jan./Jun., 2012, p. 264.)

Essa técnica de semeadura “sobre as cinzas” vegetais, indicada por Saint-Hilaire
era também uma técnica com desenvolvimento independente na África. Assim como no
desenvolvimento da metalurgia e utilização de machado de ferro também na agricultura,
esse tipo de semeadura está intimamente ligada à expansão e migração bantu ao longo
de diferentes levas e etapas durante 3 mil anos, desde cerca de 2.000 a.C408.
Dependendo do material decomposto na queimada, as cinzas podem fornecer cálcio,
potássio, magnésio, fósforo e outras fontes de energia, micronutrientes que enriquecem
as plantações atuando no desenvolvimento das culturas e às vezes aplicados na forma de
pesticidas naturais em alguns plantios.
Nesse processo de cultivo o agricultor queima uma pequena área ao seguir o
corte das árvores, passa so processo de fertilização do solo a partir do uso das cinzas. É
justamente a rotatividade no cultivo que dura de 2 há 3 anos que evitam o esgotamento
e a desfertilização do solo, provando-se ser uma técnica sustentável, se organizada,
premeditada como a que é gerida no modo tradicional.
Um dos exemplos de tecnologia agrícola tradicional ao mesmo tempo
sustentável e produtivo, apresentados na Enciclopédia da História da Ciência,
Tecnologia e Medicina não-ocidentais é a técnica da coivara. Ela é apresentada como
um método de fertilização do solo usado tradicionalmente na África e também por
comunidades quilombolas, entre outras comunidades de região tropical409. A
“Faiscação” nos minérios e a “Coivara” na agricultura, portanto, são dois exemplos de
técnicas africanas e indígenas amplamente utilizadas no Brasil, inclusive na atualidade.
Trabalhos de cultura material recentes no campo da antropologia e arqueologia indígena

escravo. Vol. 1 Col. Da Revista de História Anais do VI Simpósio Nacional de Professores de Historia.
São Paulo, 1973. pp. 605-606.
408
Para uma boa introdução à etnogênese de aspectos tecnológicos de povos bantos vejam: DIAW, M. C.
Si, Nda Bot and Ayong (Land, Family and Clan): Shifting cultivation, land use and property rights in
Southern Cameroon. Network Paper 21e Summer, 1997. p. 03-04. Disponível em:
http://www.odi.org.uk/sites/odi.org.uk/files/odi-assets/publications-opinion-files/1156.pdf
409
“Soil Fertility Management” HELAINE, S. Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and
Medicine in Non-Western Cultures (Springer), 1997. p. 24.
215
revelam que o estudo de parte substancial de seus modelos tecnológicos enfrenta menos
dificuldades práticas que o estudo sistemático da história da tecnologia africana410.
Mesmo na cultura material propriamente dita os itens de convergência entre as culturas
indígenas e africanas se multiplicam. Como afirma Funari: Contatos com nativos
brasileiros é também sugerido pelo estilo da cerâmica nativa. Esses vasilhames
Tupinambas são similares às cerâmicas africanas Ovimbundu, indicando
provavelmente uma convergência de tradições africanas e nativas. Não há dúvidas de
que a cerâmica é do estilo nativo sul-americano, provavelmente porque ele foi feito por
mulheres nativas brasileiras, que eram casadas com os habitantes do quilombo. Os
africanos fugidos talvez estivessem se sentindo confortáveis com a cerâmica Tupinambá
especialmente porque ela se assemelhava com a feita por nativos de suas terras natais.
Nós não temos evidências que sugiram que a maior parte dos homens africanos
controlava a produção de cerâmica, nem na África nem nas Américas, e, por isso,
preferimos supor que a cerâmica, como uma atividade feminina, era feita por nativas
sul-americanas. Tipos cerâmicos feitos localmente eram torneados e, até agora, não
foram identificados em outro lugar. A cerâmica usada em Palmares atesta, portanto,
tanto a integração dos fugitivos dentro de um mundo mais amplo de trocas – da costa
brasileira à África e à Europa – quanto o caráter único de sua organização411.
Dentro das linhas de influência indígenas essenciais para o desenvolvimento
colonial, a tecnologia arquitetônica (bem como o conhecimento geográfico-espacial), a
tecnologia alimentar (como as técnicas do plantio da mandioca, do milho, guaraná,
pamonha, povilho, amendoim, tapioca, o preparo da farinha etc.), a produção de tabaco,
as técnicas herbalistas (como a tradição de uso de plantas curativas desde o boldo à
catuaba), bem como uma série de técnicas da caça, os conhecimentos indígenas em
torno da aplicação de venenos e antídotos, enfim, são estes somente alguns poucos
exemplos desta ampla cultura material sem a qual também não haveria modos de
sobrevivência da exploração europeia nas Américas. A utilização da Coivara (a
queimada), como vinhamos dizendo, uma tecnologia compartilhada com os africanos,
seja para facilitação do corte da cana-de-açucar, prevenção contra pragas (que forçava a
alternar o plantio depois de 2 ou 3 anos), foi uma prática generalizada e ela pode ainda
ser vista em muitas regiões do país, em especial no centro, norte e nordeste. Técnicas
específicas para o cultivo de feijão e do milho são aliadas às técnicas de caça e pesca
multiplicando a cultura material indígenas que perfazem seu arsenal tecnológico.
Não foi só na culinária tanto quanto também não só nas práticas médicas que se
confundiram as tecnologias africanas e indígenas no Brasil. Suas técnicas de construção,
da qual falamos en passant, evoluíram, desde o início dos contatos entre eles, para uma
simbiose de difícil distinção. Como já foi relatado, as análises de Gilberto Freire em
Sobrados e Mocambos, parcialmente tocada em Nina Rodrigues e em Arthur Ramos,
dão conta da formação arquitetônica dos mocambos (e das casas de pau-a-pique
nordestina, cujas semelhanças estéticas e nas técnicas de construção confundem

410
Eu desconheço os detalhes sobre este tema, mas cito como exemplo um trabalho de uma professora
que eu conheci no Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo. Ao ser adaptado, pode ser
aplicável às culturas africanas e é um bom exemplo de como se faz um estudo da temática “tecnologia”
na pesquisa sobre a cultura material: SILVA, F. A. As tecnologias e seus significados: um estudo da
cerâmica dos asuriní do Xingú e da cestaria dos kayapó-xikrin sob uma perspectiva etnoarqueológica .
São Paulo: FFLCH-USP, 2000. [Tese de Doutorado]
411
FUNARI, P.P.& Orser Jr., C.E. Arqueologia da Resistência Escrava. Cadernos do LEPAARQ -
Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio.Trad.: Aline vieira de Carvalho. V. I no.2 Pelotas, RS:
Editora da UFPEL. Jul-Dez,2004.p.19.

216
africanos e indígenas – especialmente as casas com formações retangulares) como
exemplares modelares da tecnologia afro-ameríndia.
Como temos visto será necessário, portanto, que os estudos afro-americanos e
ameríndios sejam integrados em alguns níveis para que os estudos das magias e
tecnologias no Brasil sejam suficientemente concisos ou minimamente aprofundados.
Visualmente, parece que nós que estudamos a cultura africana e nossos colegas que
estudam culturas indígenas não temos nada a trocar, a discutir ou confundir uns aos
outros. Não aguento o silêncio teórico que se próstra diante de nós, como se não
tivéssemos os mesmos fundamentos teóricos e que nossas divergências práticas não
fossem apenas caprichos regionais. Nós, índios, negros, brancos históricos e nós
pesquisadores fomos jogados no mesmo barco e aprendemos a tirar o maior proveito do
necessário e a maior dignificação de nossas vidas. Não foi isso que aconteceu até
mesmo com relação aos senhores, que se viram no meio do mato tentando criar
europeidades impossíveis nos trópicos?
Quando o mineiro voltou sua atenção para a lavoura, já o número de mancípios
[isto é, escravos] havia minguado pelos excessos de trabalho e padecimento nas minas
(...). As fugas, a alforria e o abandono por parte dos mineiros arruinados, colocaram
grande parte em pequenos amontoados de ranchos e em sítios dispersos em volta de
mínima faiscação e debilitada rocinha. Sendo a produção para o consumo, havia pouca
intensidade de labor. Surgiu, então, a modorra cansada dos longos dias de carência.
Pequeno plantio, pouca colheita e os períodos dilatados de caça e pesca e mínima
fartura nos domínios do senhor. O lavrador fazia a queimada periódica, amontoava,
pachorrentamente a coivara e aguardava as primeiras chuvas. O gado apascentado
sem esforço e a sementeira espalhada ao modo tradicional do índio com algumas
inovações africanas, eram as atividades do começo do séc. XIX, nos nódulos de
população e propriedades da imensidão de terra goiana. Como a ambição do branco já
não mais era febrilmente entoada pela unsão dos milagres repentinos de cornucópia
explosiva, não mais havia pressa, exigência ou impaciência exageradas. O próprio
senhor, em sua desdita, achegou-se mais ao prêto, numa humildade que a necessidade
lhe ditou. (SALES, 1973, pp. 620-21).
E de humildade em humildade e por fim com suas contrariações vão se criando e
destruindo sociedades. O embaixador Alberto da Costa e Silva, ao tratar do Reino do
Daomé, aponta motivos e nos lembra o quanto é necessário fazermos um estudo a parte
sobre as razões pelas quais houve impedimento, resistência e outras dificuldades na
transmissão de tecnologia para a África e da África: “possuir escravos era o modo por
excelência, em grande parte da África de acumular riquezas. E de fazê-las crescer. Tal
como se passava com o gado, nas comunidades patoris, quanto maior a escravaria,
mais veloz o ritmo de investimento natural e mais rápido o incremento do número de
braços, ter muitos escravos hoje significava geralmente ter ainda mais escravos
amanhã. A quantidade de mão-de-obra, considerando se estáveis as condições
climáticas e solos igualmente férteis, era a principal variável determinante do volume
de produção em sociedades com pequena acumulação de capital e tecnologia pouco
desenvolvida. O arado não descera das terras altas da Etiópia, e o agricultor da África
subsaariana dependia de instrumentos muito simples (a pá, o pau de furar, a enxada de
cabo curto, o machado, pequenas foices) para seu trabalho. Em algumas áreas
desenvolveu ele processos de irrigação e adubagem e construiu socalcos para
assegurar o húmus e a umidade. E aprendeu a cultivar, entremeadas, diferentes
217
espécies vegetais na mesma gleba, para não desgastar o solo, para impedir a
disseminação das pragas e para ter segura ao menos uma colheita, se as outras
falhassem. Tudo isso, que se contrapõe à regra da agricultura deambulante e da
coivara, feito sem a ajuda de meios mecânicos, pela força dos braços quase
desarmados (...) E se o camelo pode ter sido um entrave à propagação da roda, outro
foi possivelmente a abundância de escravos, que tornava antieconômico, tal qual se
dera na Roma clássica em relação ao moinho, o uso deste na África, e o danora (que
não ultrapassou as fronteiras da Núbia) e o da carroça, e o de outros engenhos que
multiplicam o esforço do homem. A escravaria numerosa e fácil não era de molde a
estimular a difusão de máquinas poupadoras de trabalho comuns no mundo islâmico e
na Europa medieval e renascentista. Os inventos da Eurásia não penetraram na África
subsaariana senão com grande atraso. As rotas dos caravaneiros e dos navegadores
árabes, berberes e persas interromperam-se nas praias do saara e do índico, e os
coptas se isolaram nas altas montanhas etíopes. Desses litorais onde terminava um
mundo e começava outro, só se filtrava, e com grnde lentidão, o que era possível trazer
se nos camelos e nos barcos, e aquilo que desejavam as populações limítrofes e as
estruturas de poder a que estavam submetida412.

A técnica do Socalco (ou terraceamento), indicada por Costa e Silva é uma das
principais técnicas de conservação do solo e muito úteis no combate à desertificação.
Ela organiza o modo de escorrer da água das chuvas ou de rega e evita a erosão nos
terrenos em declive. O cultivo em áreas declivosas, tão comuns nas plantações de arroz
asiáticas, também teve um desenvolvimento independente na África, com adaptações
específicas, mas com grande índice de segurança de cultivo. Os também chamados
Terraços (Socalco) “estão entre as características mais particulares das paisagens
montanhosas. Estas paisagens encontram-se espalhadas pela África, particularmente
pela Etiópia, são monumentais nos Andes peruanos e ocupam vertentes de desníveis
vertiginosos nos Himalais413.

Casas Costeiras e armazéns de cereais
Stanley. How.I.Foud.Livingstone
http://dianabuja.wordpress.com/2009/06/29/swahili-city-states-pre-european-%E2%80%98colonizers%E2%80%99-of-
east-and-central-africa-2/

412
COSTA E SILVA, A. Enxada e a Lança – a África antes dos Portugueses, Rio de Janeiro; São Paulo:
Nova Fronteira/Edusp, 1992, p.630.
413
http://geografia.fcsh.unl.pt/lucinda/booklets/C2_Booklet_Final_PT.pdf
218
Outra técnica que teve grande influência na agricultura africana foi a técnica de
armazenamento de grãos. Tanto a técnica de construção de paiol ou silo de
armazenamento de grãos africanos podem ser analisados sob o ponto de vista técnico,
quanto também seriam úteis os estudos que identificassem os modelos construtivos dos
silos de armazenamento coloniais. Trago poucas informações neste assunto, porque
nenhuma análise dos sistemas agrários africanos pode deixar de lado todo o processo
que o envolve. A ideia é que a agricultura faz parte de toda uma base social e espiritual
como C. K. Meek enfatiza a importância dos ritos para se assegurar a abundância de
colheita, mas afirma que muitas tribos da Nigéria tem uma técnica que faz uso da
irrigação, rotação de colheitas, adubação e permitem que a terra faça pousio por
algum período414.

Silos de Argila (estocagem de grãos) – Alto Niger
“Esses estranhos armazéms (queer looking storehouses) são jarros de argila realmente gigantes, com
uma pequena abertura no topo que é coberto por esteiras ou colmo e há um outro buraco so lado para
ventilação. O último é também usada como uma entrada. Todos os armazéns repousam sobre suportes
com cerca de 30 cm abaixo do chão”.
Fonte: A. Henry Savage Landor Across Widest – National Geographic Vol.19 no. 9 Out. 1908, p.728.

Os estudo comparativos da cultura de cereais pode tomar como método a análise
dos processos tecnológicos de relação homem-natureza que destaquem pontos
semelhantes e divergentes entre os modos de preparação do terreno (escolha e
adaptações, adubagem específica etc), preparação e uso de sementes, cultivo
propriamente dito, colheita, pré-secagem ainda no campo de cultivo, debulha e joeira,
secagem convencional, aspectos técnicos que envolvam o armazenamento dos grãos
como forma e técnica dos paióis e silos, eventuais aspectos de condicionamento e
controle de humidade e o posterior processamento, seja a limpeza a moagem,
descasque, trituração, peneiramento etc. Enfim, todos os estudos neste campo no que
respeitam às tradições afro-brasileiras ainda estão por ser feitos.

414
Ver: MEEK, C. K,. Northern tribes of Nigeria. 2 vols. Oxford. Vol. 1, 1925. pp. 119-133,Apud.
HAMBLY, 1937. p.401.
219
Quem tiver interesse em investigar os relatos, crônicas, ilustrações e as impressões
de viajantes estrangeiros no Brasil e nas Américas coloniais, podem buscar nas
bibliotecas (ou na internet) os títulos dos seguintes viajantes, nesta lista não exaustiva:
Alexandre Rodrigues Ferreira, Frei José Mariano da Conceição (SP), Manuel de Arruda
(PE e PB), José Vieira Couto (MG), John Mawe “Viagens ao interior do Brasil, 1812,
príncipe Maximiliano (mata atlântica. Viagem ao Brasil, Montigny Taunay, Carlos
Julião (RJ), Lebreton, Debret, Spix & Martius (MG e Nordeste), Barão de Langsdorff,
Rugendas, John Luccok (MG, SP, BA, SC, RS), Henry Koster (Nordeste) “Viagens ao
Nordeste do Brasil” (1816), Maria Graham Chamberlain, Hildebrandt, Wilhenlunde,
príncipe Alberto da Prússia, Hermann Burmuster, Keller-Leuzinger, Princesa Teresa da
Bavária, Russel Wallace, Charles Darwin, Castelnau, Richard Burton (RJ, MG e
Nordeste), James Wells, Louis Agassiz, Francisco Freire Aemão, Binot Palmier de
Gonneville (SC), Nicolas Durand de Villegaignon (RJ), André Thevet, Georg
Marcgrave, Johannes de Laet e Gaspar Barleus, Fernão Cardim, Hans Staden, Louis
François de Tollenare (PE, BA), Antonil (BA, MG) James Henderson, Maria Graham
(Nordeste), Américo Vespúcio, Jean de Léry, Orville Derby, William Dampier, James
Cook, Arthur Phillip, Claude d’Abbeville (MA), Yves d’Evreux (MA), Daniel Parish
Kidder, Johann Emanuel Pohl, Augustus Earle, Thomas Ender, Joaquim Cândido
Guillobel (RJ), William John Burshell, Alexander von Humboldt, George Gardner,
Albert Eckhout,Wagner, Frans Post, Nicolas-Antoine Taunay (RJ), Paul Ferrand, Henri
Gorceix, Armand Bovet, entre tantos outros.

* Os textos de alguns desses autores já podem ser encontrados online em páginas como:
http://archive.org/
http://www.brasiliana.com.br/brasiliana/colecao/autores
http://www.mcb.org.br/ernMain.asp

ANJOS Jr., João Alfredo dos (Org.) Viajantes ingleses no Nordeste do Brasil no século
XIX. Recife: Fundaj; Instituto de Documentação. Biblioteca Central Blanche Knopf;
The British Council, 1991. [Catálogo de exposição]
CALDEIRA, José de Ribamar C. O Maranhão na literatura dos viajantes do século
XIX. São Luís: Academia Maranhense de Letras; Edições AML/Sioge, 1991.
SILVA, Leonardo Dantas. Viajantes: a paisagem vista por outros olhos. Ciência &
Trópico, Recife, v.28, n.2, p.249-260, jul./dez. 2000.

2.7 Mestres da Madeira – Além da bibliografia indicada, existem alguns trabalhos que
estão se desenvolvendo neste campo, assim, neste ponto eu gostaria apenas de pedir sua
licença para falar de uma experiência pessoal e familiar como uma observação. Sou, por
parte de pai, da quinta geração de marceneiros (profissão que renunciei aos 13 anos em
nome da Música e depois de ser atacado por algumas farpas e lascas de madeira debaixo
das minhas delicadas unhas de menino). Meu avô, que ensinou meu pai que me ensinou,
foi ensinado pelo avô dele na arte de trabalhar com a madeira produzindo móveis. Com
excessão dos excessos, eu nunca vi mestre maior que meu pai na arte (aqui vai meu
primeiro elogio a um homem de arte que hoje - depois de enfrentar a pneumonia há 40

220
anos atrás - vive maravilhosamente no interior a cuidar de vacas, cavalos, galinhas e
pavões)415.

2.8. – Os Mestres da Criação de Gado Extensivo

A domesticação do gado e o pastorialismo em geral teve uma função
determinante em grande parte das culturas africanas redundando em implicações sociais
decisivas. Tamanha foi e é a importância do gado para inúmeras populações africanas
que ela fez Herkovits criar a bela fabulação do “complexo do gado” (1926). Ao analisar
a cultura comum dos pastores do lesta africano, Herkovits busca explicar os motivos
“irracionais” do “apego” ao gado no leste africano e da relutância geral em relação à
capitalização do seu gado. Ainda que a pecuária seja vinculada ao sistema de trocas e
possuisse uma função monetaria que causou um impacto cultural importante, não deve
ter havido uma noção mística do gado entre os povos banto416. O que havia, de fato,
nessa relutância em tornar o gado uma mercadoria no sentido capitalista, era o “valor
sentimental”, como diríamos hoje, bem como outros valores sociais (não só religiosos),
por assim dizer, “embutidos” no gado que os impediam de considerar sua venda como
“justa”417.
“Os Ba-ila do nordeste da Rhodesia (atual Zimbabue) valorizam seu gado acima
de todas as outras possessões e eles ficam indignados com a ideia de usar o gado para
transporte ou aproveitá-los no arado. Os Ba-ila pensam que o gado tem vozes
melodiosas e a beleza natural dos animais é aprimorada por meio da decoração deles
com colares, babados e cinos.418”
Os Herero da Angola, Namíbia e Botsuana, bem como os Fula (peul, em
Francês) da Nigéria, Guiné, Senegal e Mali e os Bijagó da Guiné-Bissau são exemplos
de relação intrínseca em que o gado é incluído em todas as esferas da vida social. Em
outra ocasião eu escrevi um texto sobre os herero419 no qual destaquei a importância
histórica central que o gado possui em todos os aspectos da vida deste povo. O gado

415
A bibliografia deste campo pode ser muito mais ampla do que posso vir a levantar deste tema
conhecido mas pouco estudado. Vou apenas dar destaques a dois textos que eu conheço: SALUM, M. H.
L. . A madeira e seu emprego na arte africana: um exercício de interpretação a partir da estatuária
tradicional bantu 1997 (Tese de doutorado) e MOURA, C.E.(Org.) Travessia da Calunga Grande: três
séculos de imagens sobre o negro no Brasil 91637-1899). São Paulo, EDUSP. 2000. p.398. Além de
chamar a atenção aos livros seguintes: BRACHER, E; NAVES, R. & MUSA, J.L. Madeira sobre
Madeira. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 1998. BATALHA, M.O. & BAUINAIN, A.M. (Coords.)
Cadeia Produtiva de Madeira . Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria
de Política Agrícola, Instituto Interamericano de cooperação para a Agricultura, 2007. MACQUEEN, D.
Et Al. [Exportando sem Crises: a indústria de madeira tropical brasileira e os mercados internacionais]
Growing Exports: the Brazilian tropical timber industry and international markets. London: IED Small
and Medium Enterprise series no.1. International Institute for Environment and Development, 2003.
BURDEN, E. Dicionário Ilustrado de Arquitetura. São Paulo: Artmed Editora, 2002. pp.219 e ss.
416
Se bem que o professor Kabengele Munanga excetua os Ovimbundo e os Lozi como de fato tendo o
chamado “complexo de gado”. MUNANGA, K. Origem e Histórico do Quilombo na África In: Povo
Negro : Revista USP. São Paulo (28): 56-63, Dez. /Fev.,1995/96. p.61 Disponível em:
http://www.usp.br/revistausp/28/04-kabe.pdf
417
Ver: MTETWA, R.M.G. Myth or Reality: the ‘Cattle Complex’ in South East Africa, with special
reference to Rhodesia. Zambezia Vi(i), 1978. pp. 23-24. Disponível em:
http://archive.lib.msu.edu/DMC/African%20Journals/pdfs/Journal%20of%20the%20University%20of%20Zimbabwe/vol6n1/juz006
001004.pdf
418
HAMBLY, Wilfrid D., Souce Book for African Anthropology. Chicago: Field Museum of Natural
History – Anthropological Series. Vol. XXVI, 1937. p.355.
419
http://pt.scribd.com/doc/63804544/Os-Herero-Quem-Sao
221
interfere na guerra, nas relações de casamento, nas leis, na religião e sobretudo na
economia; a “moeda” ou o valor monetário mais poderoso entre os Herero é o gado. O
número de cabeças de gado que um Herero possui determina toda a sua vida social.
Arthur Ramos420, ainda associado às concepções do seu amigo Herskovits, faz a
associação africana nas tradição festivas brasileiras como os cordões, os ranchos, nas
confrarias negras, nos maracatus do nordeste e, o que temos em grande evidência, em
elementos do bumba-meu-boi. No que diz respeito aos ritos de coesão social africanos
Ramos chega até a falar de um certo “totemismo do boi” para o qual vincula o Boi de
Geroa dos Nhaneca angolanos às tradições brasileiras que estariam para além do boi de
presépio natalino, que teria influências diversas e foi apontado por outro etnólogos,
erroneamente, segundo Ramos, como a influência única aos autos do boi brasileiros.
Na realidade, a vida econômica destes povos é assegurada pela agricultura. O
gado tem um prestígio que podemos chamar mágico. Assim, só é comido nas oferendas
cerimoniais (embora não possamos falar propriamente em sacrifícios totêmicos). As
mulheres não podem tomar conta do gado, tabu para elas; a sua tarefa é
essencialmente agrícola. O complexo do gado desses povos bantus chegou a influenciar
certos hábitos sociais e festas populares, no Brasil, trazidos pelos negros escravos
procedentes dessa área cultural421.
Para uma consequente pesquisa nesta que é uma das mais fluidas percepções que
temos da influência africana no Brasil, é necessário buscar nas minúcias de
caracterização cultural que muitas vezes só podem ser identificadas intuitivamente.
Porém, mesmo estrangeiros como Saint-Hilaire foram capazes de fazê-lo, reforçando
ideias segundo as quais o nível de influência de povos em relação aos outros se dá não
só no campo da cultura material, religiosa, social, mas também em seu jeito de ser, seu
estilo de vida e em sua “espiritualidade”, em sentido mais amplo: Os indivíduos das
classes mais baixas, tais como os vaqueiros e muladeiros, são os únicos que amassam e
comem com os dedos a farinha e o feijão preto. É necessário, aliás, que um homem com
casa própria seja muito pobre para não possuir alguns talheres de prata; mas esses
talheres são, geralmente, de extrema pequenez. Usa-se por toda parte toalha, mas não
se oferecem guardanapos aos convivas. O escravo que serve à mesa está sempre de pés
no chão, por melhor vestido que se apresente, e leva ao ombro uma toalha de algodão
arrematada por uma bainha larga. Os mineiros não costumam conversar quando
comem. Devoram os alimentos com uma rapidez que, confesso, muitas vezes me
desesperou, e quem se contentasse em assisti-los comer, tomá-los-ia pelo povo da terra
mais avaro de seu tempo. Depois da refeição os comensais se levantaram, juntam as
mãos, inclinam-se, rendem graças, fazem o sinal da cruz, e, em seguida, saúdam-se
reciprocamente. Esse costume é, sem dúvida, respeitavel; mas fica-se surpreso de ver o
escravo que serviu a mesa juntar-se aos convivas, e agradecer a Deus um repasto em
que não tomou parte422.

420
Todos os textos de Arthur Ramos são imprescindíveis para os estudo afro-brasileiros em geral. Neste
ponto destaques devem ser dados a: RAMOS, Artur. As culturas negras no novo mundo. 4ª ed. São Paulo,
Companhia Editora Nacional, 1979 p.230-232. Disponível em> http://www.brasiliana.com.br/obras/as-
culturas-negras-no-novo-mundo/pagina/64 RAMOS, Artur. O folclore negro do Brasil, capítulos 3 e 4,
p.75-128. Ver também: RAMOS, Arthur, (org.) “O Negro no Brasil” Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1940 [2º. Congresso Afro-Brasileiro].
421
RAMOS, A. As Culturas Negras no Novo Mundo. http://www.brasiliana.com.br/obras/as-culturas-
negras-no-novo-mundo/pagina/64 p. 64.
422
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (1816-
1817). São Paulo; Belo Horizonte, EDUSP; Itatiaia, 1975. p. 97.
222
Os indígenas brasileiros não criavam gado. Os primeiros exemplares que deram
origem à expansão pecuária no país foram provenientes da África (Cabo Verde), já no
séc. XVI423. No livro da História Geral da África da UNESCO faz-se uma referência a
respeito da origem Cabo Verde do gado nas Américas: “(...) Mais tarde, em 1582, as
duas ilhas principais, Fogo e Santiago, contarão 1600 brancos, 400 negros livres e
13.700 escravos. A economia das ilhas do século XVI baseava-se na criação de gado,
na cultura do algodão e na tecelagem através de técnicas africanas. Logo, não mais
contentes com importar escravos para uso próprio, as ilhas passaram a exportá-los
para a América424. A importância da criação de gado no Brasil está ligada estritamente
ao desenvolvimento econômico dos fazendeiros, mas nem por isso sua força simbólica
no país tenha sido menor do que tinha na África. Sabe-se que o arado puxado por bois
tem origem egípcia mas, já era usado na África central em cerca de 3 mil a.C425. A
considerar a chamada “África negra”, talvez o primeiro registro de uso de animais
domésticos ter-se-ia inicado a partir de 5.590 a.C, exatamente na região da múmia negra
da Líbia wan mahuggiag (referida acima, na pág. 26 deste texto) 426.
Embora o número de “escravos de confiança” que exerciam a atividade de
vaqueiros não fosse tão pequeno, a maior parte dos trabalhadores com gado do período
colonial era constituída de uma massa de homens pobres livres, mamelucos em sua
maioria. Isso se deve, paradoxalmente, a uma tradição de criação de gado em campo
aberto, típica de várias regiões africanas e que impingiram sua influência nas Américas.
Ora, todo sistema escravista desde a antiguidade até os dias correntes necessita de um
complexo aparelho repressivo e de controle, algo que as tradições açucareiras e
mineradoras, dado a seu caráter circunscrito eram muito mais fáceis de controlar
comparativamente aos campos abertos de criação de gado. Eis uma das explicações
razoáveis para que que a influência africana nesta área por meio dos negros não-livres
não fosse tão expressiva.
Houve, ainda assim, algum nível de aproveitamento localizado das técnicas
pecuárias trazidas pelos africanos (muito deles já com conhecimento de técnicas de
criação, manejo e tratamento do gado, bem como conhecimento popular e superstições
diversas relacionadas ao aumento da fertilização, contenção da prenha, aumento da
produção de leite, e mesmo a conserva e melhora do sabor da carne a partir de métodos
tradicionais de secagem, defumação e salga desenvolvidos seguindo tradições vaqueiras
vindas da África.
É possível reestabelecer os vínculos das tradições africanas com a sertaneja
brasileira a partir dos usos tecnológicos semelhantes e tabus africanos relacionados ao

423
LOPEZ, A & MOTTA, C.G. História do Brasil – uma interpretação São Paulo: Editora Senac São
Paulo, 2008, p.167. Uma lista com os tipos de raças de bois africanas e uma pequena história da criação
de gado na África ocidental pode ser encontrada aqui:
http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2011/03/historia-da-criacao-de-gado-na-africa_28.html
424
NIANE, D.T. (Ed.) História Geral da África – Vol. IV – África do século XII ao XVI. Brasília:
UNESCO, 2010, p. 356. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU
425
HAUDRICOURT, A. G. & DELAMARRE, M. J., L'homme et la charrue à travers le monde.
Géographie Humaine No. 25, Gallimard, Paris, France. 506p. Republished 1986 by Manufacture, Lyon,
France, 1955. Ver também: http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2011/03/historia-da-criacao-de-gado-na-
africa_28.html . Para uma bibliografia sobre a história da utilização de tração animal na agricultura africana
ver ainda: http://www.animaltraction.com/StarkeyPapers/Starkey-HistoryAnimalTractioninAfrica-97-draft.pdf
426
MOKHTAR, G (Ed.) História Geral da África. vol. II – África Antiga Brasília: 2ª.Ed. UNESCO,
2010. p.660. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU

223
gado, encontrados em registros em ambas as culturas. Sabe-se, por exemplo, que o
esterco é utilizado como combustível de fogueira para a preparação de alimentos427,
como fertilizante na agricultura e no contexto de uso medicinal. Fala-se ainda na
utilização da gordura, banha e sebo contra queimaduras. As parteiras e benzedeiras
sertanejas e africanas fizeram uso de gordura animal a ser colocada na vagina para
facilitação o parto (COVEY, H., 2007, p. 135). Ainda dentro deste campo medicinal, o
uso da pata de porco e de vaca contra cólica infantil, febre etc. (Idem, Ibidem, p. 137)
podem ser, juntamente com a joia protetiva da fita de couro usada como colar no
pescoço e utilizada como proteção contra coqueluche (Idem, Ibidem, p. 138), são alguns
dos exemplos de convergência cultural Brasil-África no quesito da tradição vaqueira.
Em meados do séc. XIX o norte chegou a conduzir 20.000 couros de boi ao
Pará. A carne sêca era preparada e levada ao litoral para exportação. O mancípio
[isto é, o escravo] participou também ativamente deste trabalho. É êle o curraleiro, o
veterinário improvisado, o peão, o tangedor de manadas para o salitramento. Nas levas
de boiadas de Rio Verde e Jataí para Mato Grosso, para venda no Paraguai, ainda ao
lado de vaqueiros, às vezes crioulo fôrro ou capataz da confiança do senhor, integrava
a comitiva que consistia em burros de carga, vasilhame completo de cozinha, redes,
apetrechos de lidar com o gado. Lá ia o mancípio abrindo picadas, campeando rezes,
cercando-as do tresmalho na amplidão do cerrado (...) na vida livre do campo, dormia
próximo ao capataz, auxiliava-o no transporte, comia ao seu lado assentado em
tamboretes de couro, em pratos que se assemelhavam, e em panelas da mesma trempe.
A aventura pelo sertão irmanou as classes e a hierarquia foi desaparecendo aos
poucos.”428
Foi necessário o desenvolvimento anterior do couro para o desenvolvimento de
foles de fornos utilizados pelos ferreiros. Mas o curtume (processamento de couro) já
era milenar em 600 a.C.429 As técnicas de produção de couro na África variam. A cidade
de Kano, na Nigéria, possuía uma tradição de curtidores430 de influência árabe e a bem
da verdade esta tradição se difundiou por todo norte africano. As técnicas usadas no
Marrocos, Algeria e no Egito, se confundiram dando espaço para novas abordagens no
processamento. O uso herbal, bem como o uso de soluções alcalinas, urina ou soluções
salinas foram essenciais no desenvolvimento destas técnicas. Como afirmou VASISHT,
K. & KUMAR (2004, p. 36), por exemplo, a resina da Boswellia, além de ser

427
O uso de óleos para combustão em lamparinas e candeeiros também foi verificado nas Américas. Este
uso foi identificado no Caribe, por exemplo, na nossa conhecidíssima mamona, planta africana
classificada como Ricinus Communis e, assim como a Tamarindus Indica e a Abelmoschus esculentus
erroneamente identificada como asiática, segundo CARNEY, J. A. African Traditional Palnt Knowlege in
the Circum-Caribbean Region . Journal of Ethnobiology 23 (2): 167-185, 2003, pp.179. Apoiada em
ALPERN, S. The European Introduction of Crops into West Africa in Precolonial Times. History in
Africa 19:13-43. 1992; HARLAN, J. Crops and Man. Crop Science Society of America, Madison,
Wiscosin, 1975; KÜSTER, Hansjörg. Trading in Tastes. In: The Cambridge World History of Food, 2
vol., eds. K.F. Kiple and K.C. Ornelas, vol. 1, pp.431-437. Cambridge University Press, 2000;
VAUGHAN, J.G. & GEISSLER, C.A., The New Oxford Book of Food Plants. Oxford University Press,
Oxford, 1999.
428
SALES, 1973, p. 624-25. Foi o sertão da caatinga, dos santos, dos beatos e dos cabras da peste o
mesmo sertão que nos espinhou e pôde agora, por direito divino nos delinear caminhos singulares por
onde seguir.
429
FASI, M. El. (Ed.) História Geral da África – África do séc. VII ao XI. vol III., Brasília: Unesco,
2010, p.861 e ss. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-
view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Us7Jx7CBvIU
430
COSTA E SILVA, 1992, p.630.
224
aproveitada como perfume na Indústria de cosméticos é também utilizada na indústria
do couro.
Esta influência e participação africana e afro-brasileira no trabalho com gado
também se fez presente em Minas Gerais (talvez até mais intensamente).
Historicamente, os campos de pasto de Minas gerais foram um prolongamento do
trabalho de expansão bovina de origem baiana. Os Estados do sudeste como São Paulo e
Rio de Janeiro receberam de Minas, por sua vez, o fluxo bovino. Certas características
desta tradição que podem ser verificadas ainda hoje se estabeleceram durante esse
período de expansão mineira do gado. A introdução do uso de cercas em propriedades e
pastos [técnica esta amplamente não-africana, diga-se de passagem] é outra inovação
importante,reduzindo a necessidade de vigilância sobre o gado, e introduzindo a
domesticação dos animais. Embora não se dispense a prática de queimadas, adota-se a
rotação das áreas de pasto. É introduzida a ração do farelo de milho como
complemento alimentar. Ao contrário da região Nordeste, a mão-de-obra em Minas
Gerais é constituída de escravos, refletindo a melhor qualidade da produção, que
permite um uso mais intensivo do capital. O fazendeiro e sua família residem na
propriedade e participam ativamente das atividades produtivas431.
O uso de cercas absolutamente é uma tradição africana, ao contrário, outra
técnica de vaqueiro que teve um desenvolvimento efetivo nas Américas foi a técnica da
pastagem aberta e que influenciou ativamente a característica das tradições de criação
animal nas Américas, dentre as mais conhecidas a tradição do cowboy nos EUA432. Ao
analisar em artigo as contribuições africanas dentro da cultura norte-americana, o
professor de estudos pan-africanos Joseph Holloway da Universidade de Califórnia
afirma que A primeira grande contribuição dos africanos para a sociedade norte-
americana foi na arena da pecuária. Quando o povo Fulani (ou Fula) da Senegâmbia ,
juntamente com gado [da raça] Longhorn, foram importados para a Carolina do Sul em
1731 , os rebanhos coloniais aumentou de 500 para 6.784, cerca de 30 anos mais tarde.
Estes Fulas eram pecuaristas peritos e foram responsáveis pela introdução de padrões
africanos de manejo de pastagem abertas, agora praticada em todo a indústria do gado
norte-americana. As movimentações do gado para os centros de distribuição foram
inovações que os africanos traxeram com eles, como contributos para uma indústria em
formação. Originalmente, um cowboy era um Africano que trabalhava com gado, assim
como um houseboy era quem trabalhava em uma “Casa Grande” (“de Big House”). O
pastoreio aberto fez uso prático de terras em abundância e um limitado [uso de] força
de trabalho. Africanos e seus descendentes foram os primeiros cowboys dos Estados
Unidos. A maioria das pessoas não estão cientes de que muitos vaqueiros do oeste
americano eram negros, ao contrário de como a indústria cinematográfica e a mídia
retrataram-nos. Apenas recentemente começamos a reconhecer até que ponto a cultura
do vaqueiro tem raízes africanas. Muitos detalhes da vida de cowboy, trabalho e até
mesmo a cultura material pode ser atribuída aos Fulani, os primeiros cowboys dos
Estados Unidos. Mas tem havido pouca investigação deste pelos historiadores do oeste
Americano433.

431
Ver “O Gado Bovino no Brasil” pág. 06. Disponível em:
http://www.boell-latinoamerica.org/downloads/texto_gado_boll_2009-4.pdf
432
http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture
433
HOLLOWAY, Joseph, E. African Contributions to America Culture. In: The Georgia Historical
Quarterly - Vol. 75, No. 2, Religion and Society in Georgia and the South (Summer 1991), pp. 420-422.
Disponível parcialmente em: http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture
225
Historicamente, naquele país, a atividade vaqueira era desempenhada em parte
por africanos escravizados. Existe uma tese levantada por historiadores norte-
americanos de que o próprio termo cowboy faça referência aos negros escravizados que
tinham por tarefa o ofício de vaqueiro. O termo “boy” (menino), utilizado
pejorativamente no período escravista norte-americano para se referir aos escravos é a
fonte dessa ideia de que o “cowboy” (vaqueiro) seja uma outra forma de representação
do escravo vaqueiro434. Seja como for, neste país, como no Brasil, as indústrias de
couro, lã e seda também formaram pontos de contatos e intercâmbio cultural indígena-
africano-europeu de modo contundente. Não deve ter sido muito diferente naquele país
como também foi no nosso ao sabermos que a inclusão da cultura vaqueira permitiu a
consolidação da territorialidade brasileira435.

“O vaqueiro criou-se [...] em uma intermitência, raro perturbada, de horas
felizes e horas cruéis, de abastança e misérias – tendo sobre a cabeça, como ameaça
perene, o sol, arrastando de envolta no volver das estações, períodos sucessivos de
devastações e desgraças. Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes.
Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras
nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a
existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se
envolvido em combate sem tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de
todas as energias.

Fez-se forte, esperto, resignado e prático.

Aprestou-se, cedo, para a luta.

O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da
refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de
vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido
ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em
joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de
veado – é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso
tempo.
Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse bronze flexível, não tem
cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de
uma batalha sem vitórias...

Euclydes da Cunha – Os Sertões

2.9. – Os Mestres das Artes Plásticas e da Música

434
Atualmente, naquele país, referir-se a algum negro de modo pejorativo, como no uso do termo “boy”,
pode incorrer em graves penalidades jurídicas que podem chegar à monta de milhares de dólares.
http://www.economist.com/blogs/johnson/2010/11/racist_language . Para a hipótese das contribuições africanas na
cultura do cowboy ver: http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture
435
Ver: MARTINS, J.S. A vida privada nas áreas de expansão da sociedade brasileira. In: História da
vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. V.4. p.664.
226
Tendo Aleijadinho como carro chefe e tomando-se as artes plásticas afro-
brasileiras, à parte, é óbvia a herança cultural africana em muito mais áreas artísticas do
que seria possível destacar num texto mais genérico como este. Fazendo este recorte
proposto que é a ligação fundamental com a cultura material, com o trabalho e, com
isso, a formação estrutural da sociedade brasileira, trazemos para a realidade artística
dos “mestres da plástica e da música”, o centro irradiador onde se pôde experimentar o
talento africano e afro-brasileiro sem o medo do ônus contrafeito que afetou
sobremaneira os senhores de escravos (dito de outra forma, tanto nas plásticas quanto na
música, salvo exceções corriqueiras, podia-se fazer mais ou menos o que se bem
entendesse. Pois, pelo que parece, estas não foram tidas como áreas cujo poder
provocasse modificações de peso na estrutura hierárquica entre negros e brancos –
afinal “artistas no brasil jamais ultrapassariam a sua sina de exotismo ou de servir para
diversão a classe nobre).

Batuque em São Paulo Von SPIX, J.B., & Von MARTIUS, K.F., Reise in Brasilien in dem Jahren
1817-1820 (Viagem pelo Brasil entre os Anos de 1817 e 1820)436

Há muitos artigos e livros sobre este assunto. Eu chamaria a atenção apenas para
a reconstrução de instrumentos musicais africanos como a marimba (ou o balafon) nas
Américas, em sua complexidade, como um dos exemplos de que era de fato possível
aos africanos escravizados recuperarem parte de sua cultura material, desde que lhes
fosse dada abertura e que fosse de interesse deles. Isso ajuda a nos unir aos historiadores

436
Cf. Aquarela de Carlos Julião no séc. XVIII “Coroação de um Rei nos Festejos de Reis c. 1776 in:
MOURA, C.E.(Org.) Travessia da Calunga Grande: três séculos de imagens sobre o negro no Brasil
91637-1899). São Paulo, EDUSP. 2000. p.299. E outros exemplos, idem, ibidem, pp. 307; 352-353; 421;
489. E ainda em: ARAÚJO, A. Maynard Enciclopedia da Cultura e do Folclore Nacional p. 288.
227
recentes que têm demonstrado a existência de um certo grau de “autonomia” do escravo
em certas questões do período escravista. Esta é um tipo daquelas ideias que vem
bastante a calhar dos africanos, embora escravizados também apareciam,
paradoxalmente, como “agentes ativos”, sujeitos da história. Mas o corpus completo
disto é algo que está ainda inteiramente por se reestabelecer graças ao trabalho
cuidadoso de recuperação das artes e das obras dos africanos e seus descendentes no
país. Indo mais além, como já referido acima, essa complexidade de reconstrução de
instrumentos musicais relativamente complexos é um indicativo de que eles poderiam
(se quisessem) fazer algum tipo mais sistemático de reconstrução de seus materiais de
trabalho, implementos, ferramentaria e outros tópicos da cultura material, mas isto só se
a ideia fosse “colaborar” com o estado escravista. Como também não era o caso,
considero esta uma das importantes razões pelas quais o nível de influência ou,
especificamente, transmissão de saber técnico material africano não encontrou muitas
bases nas Américas como um todo, exceto pelo que vimos analisando e outros tópicos
que deixamos passar.
Ler partitura é coisa de acadêmico; músico dos trópicos toca de ouvido. Prática
de orquestra é controle da obcenidade e do ímpeto de liberdade do músico face a
harmoização do todo, controlada estritamente pelo maestro. Todas as expressões
musicais nos trópicos sejam de influência africana ou não têm em seu fundamento a
mesma prática societária e função de coesão social que tinham as elaborações musicais
africanas e indígenas. O jazz, o samba e as toadas caipiras dão maior espaço para a
liberdade individual que as fórmulas acadêmicas em sua empostação, aplicação
necessária de regras e rigor excessivo imprescindível em todos os níveis.

Partitura do Lundu instrumental recolhido por Von Martius em sua viagem ao Brasil entre 1817 e
1820, publicado como anexo do livro "Viagem pelo Brasil", de Spix e Martius. É o registro musical mais
antigo que se conhece do lundu
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Friedrich_Philipp_von_Martius

228
Em música, teriam de ficar de fora neste texto, portanto, os estudos sobre o grau
da influência africana (os lundus, as modinhas à brasileira, os ritmos sincopados e
“sensuais” etc.) nos trabalhos de grandes nomes como o do Padre José Maurício (1767-
1830), Domingos Caldas Barbosa (1739-1800), José Joaquim Emérico “Lobo de
Mesquita” (1746-1895) Joaquim Manoel (c.1780 - ?), Francisco Braga (1868-1945)437,
José Raimundo da Silva, Cornélio Vidal da Cunha (1821?-1883), Miguel dos Anjos
Torres (1837-1902), Adelmo Nascimento, Anacleto de Medeiros (1866-1907), Joaquim
Calado (1848-1880) Alfredo da Rocha Viana Jr. (Pixinguinha 1897-1973), Ataulfo
Alves (1909-1969), Lamartini Babo (1904-1963), Chiquinha Gonzaga (1847-1935),
Cândido das Neves (1899-1934)...etc...etc. Trago esta pequena ponta do ice-berg
musical brasileiro para chamar a atenção para a tecnologia musical africana que
subsistiu desde sempre na alma brasileira e que, aliás, não se tem falado muito nisto,
mas cabe à essa (como nomeou Mario de Andrade em relação às artes plásticas) “maior
mulataria” a honra da música brasileira ter sido feita sem fronteiras entre o erudito e o
popular. Ver-se-a com facilidade incrível que se hoje foi possível ter uma MPB digna de
nota, foi porque os compositores que a estabeleceu beberam em fontes não menos
dignas: ah! Essa fonte afro-brasileira que não deixou a música do Brasil ser outra senão
aquela mesma!438
“[...] ouvi sons de música [...] a voz dos escravos, em noite de férias, enganando seus
sofrimentos com cantigas estranhas tocadas em rudes instrumentos africanos [...] fui logo às
cabanas dos escravos casados, onde se realizava a função e encontrei os grupos a brincar, a
cantar e a dançar à luz da lua [...]. Quanto aos instrumentos, são as coisas menos artificiais
que jamais produziram sons musicais; e contudo não produzem efeito desagradável. Um é
simplesmente composto de um pau torto, uma pequena cabaça vazia e uma só corda de fio de
cobre. A boca da cabaça deve ser colocada na pele nua do peito, de modo que as costelas do
tocador formam a caixa de ressonância e a corda é percutida por um pauzinho (*). [...]
tambores feitos de escavações em troncos de árvores, de quatro ou cinco pés de comprido
fechados de um lado com madeira e recobertos de pele do outro lado. Para tocá-los, o tocador
põe o instrumento no chão, monta em cima e bate o ritmo com as mãos para seu próprio canto
ou para o som dos gourmis (*)439.”

437
Francisco Braga é o criador do “Hino à Bandeira” que, musicalmente só pode ser considerado a
camuflagem de um “ijexá” ralentado em uma marcha lírica. Uma tecnologia aproveitada por Caetano
Veloso na música “Beleza Pura” e em tantas outras músicas cujos ritmos africanos saltam aos olhos, ou
melhor, aos ouvidos e ao coração. Mesmo sendo um anti-nacionalista convicto, me fazem bem as
lembranças da infância e da escola (passadas durante a ditadura militar). Essa melancólica melodia que
tange por detrás de tantos sonhos saborosamente inúteis jogados na lata de lixo: “Salve o lindo pendão da
esperança, salve o símbolo augusto da paz. Tua nobre presença à lembraça, a grandeza da pátria nos
traz...”
438
Ver o trabalho interessante do maestro Marcelo Antunes Martins que concluiu, não totalmente sem
razão que “todos os compositores desse período [séc.xviii-início do séc.xx] foram filhos ou netos de
escravos” (p.03) e dá ainda outros nomes como: Luiz Álvares Pinto (1719 – 1789), PE. Caetano de Mello
Jesus (... 1759 ...), Manoel Dias de Oliveira (1745 – 1813), Joaquim de Paula Souza Bonsucesso (... –
1820), João de Deus de Castro lobo (1794 – 1832), Xisto Bahia (1841 – 1894), Viriato Figueira da Silva
(1851-1883), Pattápio Silva (1880-1907), Mário de Andrade (1893-1945).
http://www.sinfonieta.com.br/pdf/sinfonieta.pdf
439
N.R. (*) Nota do Tradutor: "A descrição confere com o berimbau de barriga, ainda
encontrado em várias regiões do Brasil, como Bahia, Maranhão e Minas Gerais. É o instrumento
dos capoeiras." (L. da Câmara Cascudo, Op. Cit. pp.99)
(*) - "Os 'grandes tambores cilindricos de tronco escavado', eram 'chamados em Angola
'ngomba' ou 'ongomba' e na Luanda 'Angoma', vários tipos 'Havia também o 'mondo', feito de
um cilindro de madeira escavado. (Artur Ramos, Introdução a antropologia brasileira, 1º vol.
Rio, 1943, pág. 449). Tambores do tipo descrito pela autora ainda viu o tradutor em uso, no
229
Musico cego tocador de berimbau e tocador de lamelophone (Kalimba) – J. Baptist Debret Viagem
Histórica e Pitoresca ao Brasil (Voyage Pittoresque et HIstorique au Brésil, ou Séjour d’un Artiste
Français au Brésil depuis 1816 jusqu’en 1831).
http://www.brasiliana.usp.br/node/393

2.10. – Os Mestres do trabalho e do jogo de cintura - Elogio ao Trabalho e ao
Trabalhador ou quando a expropriação do trabalho é extenção da expropriação de um
saber

No ‘Universal’ jornal editado em Ouro Preto, de 1836, lê-se o seguinte trecho: (...) fica
demonstrado que a riqueza territorial do Brasil depende essencialmente da população africana, que é a
mais numerosa e a única diretamente produtiva”. (SENA, 1981, pp. 32-33).

“O lugar em que parei é uma grande fazenda [...]. Quando José aí se apresentou não encontrou
senão negros que lhe indicaram, como rancho, velha varanda onde os porcos tem costume de passar a
noite e onde a gente se afunda na terra e no esterco. Ao chegar o dono da fazenda, pedi-lhe que
concedesse um cantinho em sua casa. Consentiu com a melhor boa vontade [...]. Fugira eu da velha
varanda a fim de não ser devorado pelas pulgas. Mas havia ainda em casa de meu hospedeiro grande
quantidade delas a ponto de me impedirem de dormir. Nas comarcas de Sabará e Serro Frio varre-se a
casa logo ao amanhecer do dia, mas na de S. João, o povo geralmente mais sujo é também muito menos
civilizado. Nesta última, os habitantes dos campos aplicam-se mais à agricultura. Trabalham com seus
negros e passam a vida nas plantações, no meio dos animais, e seus costumes tomam, necessariamente,
algo da rusticidade das ocupações. Os homens, que ao contrário, ocupam-se da mineração e apenas
vigiam os escravos, nada trabalham e têm mais ocasiões de conversar e pensar. Sua educação é mais
cuidada e zelam mais pela dos filhos.”
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São
Paulo (1822). São Paulo, Belo Horizonte, EDUSP; Itatiaia, 1974. p. 37-8

No Brasil, tanto quanto nos demais países que foram na maior parte de sua
história (se não em toda) colônias de exploração, o trabalho braçal sempre foi visto de
modo negativo sobretudo em função desse tipo de trabalho ter sido apenas de
responsabilidade dos escravos. Ninguém quer ser associado às classes subalternas e

Estado do Rio, com o nome de 'caxambu', nome, aliás, que também se atribui à dança para a
qual são utilizados." GRAHAM, Maria. Diário de uma Viagem ao Brasil e de uma Estada nesse
País Durante Parte dos Anos de 1821, 1822, 1823. São Paulo, Companhia Editora Nacional,
1956. p. 221-2.

230
laboriosas, em especial nos países em que houve escravidão. A diferença salarial entre
os mais altos cargos e os mais baixos (dentro desse mundo à parte chamado países das
Américas) é inversalmente proporcional ao seu nível social geral. A estranha fórmula
“quanto menor a diferença salarial dos trabalhadores entre, maior o grau de
desenvolvimento do país”, nunca foi tão correta quanto nos países das Américas na
parte do seu subdesenvolvimento que está ligada à má distribuição de riquezas.
O Povo Brasileiro - este livro trata da “história do mundo, da humanidade, da
deshumanidade e dos percalços civilizatórios modernos”. Tendo sido considerado uma
espécie de Bíblia, houvesse algum juízo que incorporasse almas no louvor a potestades,
Darcy Ribeiro seria mais bem lembrado que David e seus livros também repletos de
ignomínias. Darcy, não David, o querido, o amado. Que se funde a dinastia real,
mestiça, meta-hebraica e pós-ibérica chamem-na “Casa de Darcy”, pois disse
admirações como estas: “Atuando com a ética do aventureiro, que improvisa a cada
momento diante do desafio que tem de enfrentar, os iberos não produziram o que
quiseram, mas o que resultou de sua ação, muitas vezes desenfreada. É certo que a
colonização do Brasil se fez como esforço persistente, teimoso, de implantar aqui uma
europeidade adaptada nesses trópicos e encarnada nessas mestiçagens. Mas esbarrou,
sempre, com a resistência birrenta da natureza e com os caprichos da história, que nos
fez a nós mesmos, apesar daqueles desígnios, tal qual somos, tão opostos a
branquitudes e civilidades, tão interiorizadamente deseuropeus como desíndios e
desafros"440. É verdade também que o próprio Darcy Ribeiro em seu livro magistral se
esquece por vezes de dar mostras da contribuição africana dentro da tecnologia do
Brasil Colonial quando diz (idem, Ibidem p. 123-124): “O mesmo processo de sucessão
ocorre com a tecnologia produtiva. Inicialmente quase só indígena, ela vai sendo
substituída, com o passar dos séculos, por técnicas européias, tanto mais rapidamente
quanto mais completamente se integra cada zona na economia mercantil e se
moderniza. Ainda assim, ao longo dos séculos, a tecnologia do Brasil rústico foi e
continua sendo basicamente indígena, no que diz respeito à subsistência - baseada no
cultivo e no preparo da mandioca, do milho, da abóbora e das batatas, e de muitas
outras plantas - bem como às técnicas indígenas de caça e de pesca. Essa base
tecnológica indígena, desde o primeiro momento, vem sendo enriquecida por
contribuições européias que, pouco a pouco, aumentaram a sua produtividade. Tal era
o caso dos instrumentos de ferro - machados, facas, facões, foices, enxadas, anzóis -;
das armas de fogo para a caça e para a guerra; de aparelhos mecânicos, como a
prensa, que às vezes substituiu o tipiti indígena trançado de palha; do monjolo, grande
morteiro de água com que se pila o milho; das moendas de espremer cana; da roda
hidráulica, do carro de boi, da roda do oleiro, do tear composto, do descaroçador de
algodão e, ainda, dos tachos e panelas de metal, que substituíam o torrador de
cerâmica para o tratamento da farinha de mandioca; e, por fim, dos animais do
mésticos - galinhas, porcos, bois, cavalos -, utilizados para a alimentação, caça,
transporte e tração.” A este respeito respondemos simplesmente que todo gênio tem
direito a algumas “imprecisões”. A ausência de relatos sobre a influência africana nessa
parte, seja no trabalho com o ferro, na prática mágico-medicinal e o conhecimento
herbal ainda que fortemente modificado pela cultura indígena, nas técnicas de
mineração (como o uso da bateia ou o agregamento de valor na produção de joias cujas
técnicas autóctones ou islamizadas nada tem que ver com o mundo ibérico senão de
modo indireto e re-islamizado, por assim dizer), nas tecnologias de processamento de

440
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: 2a.Ed. Companhia das Letras, 2005. p.70.
231
alimentos, como o uso do pilão, a introdução, o cultivo e o processamento do arroz nas
américas e mesmo as técnicas de edificação retangulares bantu , Taipas ou mesmo
palafitas, incrivelmente ainda hoje mal comparadas ao velho estilo “superior x inferior”
em relação às casas de tijolos e pedras dos europeus etc441. Mas todas essas magias e
tecnologias ainda não tinham sido estudadas no tempo de Darcy Ribeiro, que foi ontem
e também não foram devidamente estudadas no nosso tempo.
Mas a iluminação da faceta indígena da tecnologia brasileira já nos parece quase
bastante e se basta mesmo não se bastando totalmente: “Anteriormente, uns quantos
clérigos e alguns administradores coloniais, uns poucos militares profssionais e
bacharéis com formação universitária, graduados no Reino, podiam dar conta das
necessidades. Agora, torna-se indispensável criar escolas médias e superiores que
formem as novas gerações de letrados para a magistratura e o Parlamento, de
bacharéis nativos, de engenheiros militares para a defesa, e de médicos para cuidar da
saúde dos ricos. A cultura vulgar e, com ela, a maioria das técnicas produtivas,
entregues a seus produtores imediatos, só muito lentamente começaria a modernizar-
se. Como à criação das escolas para as elites não correspondeu qualquer programa de
educação de massas, o povo brasileiro permaneceu analfabeto. Apesar de tudo, as
novas forças unificadoras não conseguem anular as diferenças regionais da sociedade
nacional, que são formas de adaptação especializada da configuração histórico-
cultural. Embora tenham mais de comum que de peculiar, nelas se registram modos
próprios de adaptação à natureza no processo produtivo, formas particulares de
regulação das relações sociais e econômicas, devidas ao atendimento dos imperativos
oriundos do gênero de produção a que se dedicam, bem como da sobrevivência de
representações típicas de sua visão particular do mundo. O entendimento de cada uma
dessas variantes importa na necessidade de analisar simultaneamente tanto o papel
diferenciador do esforço adaptativo como a força unificadora da tecnologia produtiva,
dos modos de associação e das criações ideológicas que conferem um patrimônio
comum a todas as áreas (tentativas de classificação das áreas culturais do Brasil se
encontram em Diégues Jr., Manuel. 1960. Regiões culturais do Brasil. Rio de Janeiro,
CBPE, l964. Imigração, urbanização e industrialização. Rio de Janeiro, CBPE. e em
Wagley, Charles e Harris, Marvin.1955. A typology of Latin American subcultures in
American Anthropologist, vol. 57, número 3, pp. 428-51.). Essa análise deve ser feita
tanto sincronicamente – mediante cortes do continuum histórico-cultural, para
focalizar as relações que se apresentam num momento dado entre os modos de
adaptação, as formas de sociabilidade e o mundo das representações mentais -, como
diacronicamente, aprofundando a pesquisa histórica para alcançar uma perspectiva de
tempo que permita verificar como surgiram e se generalizaram as técnicas em uso, as
relações vigentes de trabalho, a visão do mundo e os outros aspectos essenciais do
modo de ser dessas variantes da sociedade nacional." (ibem, ibidem, p.253-254).
Chegado os 125 anos do trabalho “livre”, fico embasbacado com o recente
resultado da PEC das domésticas442 – a classe média está apavorada agora pois terá de
se dar conta de que já era chegada a hora de tratar seus empregados domésticos como
trabalhadores com direitos, isto é, chegada era a hora da instauração da relação
trabalhista para além de sua herança escravagista (120 anos depois do fim da

441
Como se no Grande Zimbabwe, no Congo, na Nigéria, no Mali e onde mais se queira e se tenha, não
fosse possível ou mesmo desejável que monumentos de pedra se assentassem sobre as cabeças humanas
para o fim protetivo ou de admiração...
442
Aprovação em primeiro turno no Senado Federal da “Proposta de Emenda à Constituição”(PEC) que
estabelece igualdade de direitos trabalhistas entre as empregadas domésticas e os outros trabalhadores.
232
escravidão). Mas esse problema é antigo. Por meio dos grandes autores da sociedade
grega, da qual somos tributários, supôs-se o ócio como uma das maiores virtudes do
sábio. Essa fórmula abstrata ganhou fôlego durante a ascensão aristocrática da Europa
medieva e se justificou na classe burguesa da modernidade e na ascensão burguesa da
revolução francesa, mas exceto nos países colonizados, onde o patrão, ou mais
especificamente, o coronel, o fazendeiro, o capitalista arrendador de terras e sua família
tendem psicologicamente a retornar sempre a involução aristocrática (pré-
revolucionária). Tudo que o chefe supremo da dominação capitalista fundiária e rural e
sua família, cujo expoente máximo do ócio é a figura feminina querem é a distância do
uso das mãos. É nesse sentido que quaisquer resquícios da vida privada de países com
essência rural como Brasil, insistem mesmo em grandes centros urbanos, nos quais a
figura da empregada doméstica ainda carrega a pesada excrescência escravista nas
mãos: - Sinhá paulistana do Morumbi quer água gelada na cama, as duas da madruga?
- Manda Maria buscar!
“O trabalho executado na casa de caldeira requer um escravo especializado
para supervisionar a tarefa de limpar, cozer e bater o açúcar. Este elemento é
conhecido no engenho como “mestre” do açúcar. Além dessas funções, também
compete ao escravo a atividade de “banqueiro” que é o auxiliar imediato do mestre.
Outro escravo, o “ajuda-banqueiro” reparte o açúcar pelas formas, assenta no tendal e
conserta-os com cipó. Existem ainda os “tacheiros” que realizam a atividade de cozer
e bater o açúcar de acordo com a orientação do mestre. Estes também são escravos. O
trabalho de purgar é executado igualmente, por negros escravos. Segundo Antonil,
trabalhão na casa de purgar quatro escravas, e são as que entaipão, e botão barro nas
fôrmas de assucar, e lhe dão suas lavagem. No balcão de mascavar, assistem duas
negras das mais experimentadas que chamão mãis de balcão e com outras o mascavão,
e apartão o inferior do melhor huns negros, que trazem, e aventão as fôrmas e tirão
delas os pães de assucar, e o amassador do barro de purgar, que he também outro
negro443”
Os seres humanos sempre tiveram uma relação cultural com as ferramentas que
desenvolveram, e ainda as com que trabalharam. Também no sentido de serem um
instrumento (isto é, um meio e não um fim) que as ferramentas estão incluídas na
indiscutível base social humana...Salvo desenganos heideggerianos segundo os quais a
tecnologia e a instrumentação se voltam necessariamente contra seus mestres (seres
humanos) e os dominam a ponto de determiná-los, recriá-los à sua imagem e
semelhança (determinismo tecnológico) o humano persiste. O futuro sombrio delineado
por esses alemães como Heidegger e Ernst Jünger que ao mesmo tempo nos acordam e
nos aterrorizam: “os deuses reclamam veneração - a técnica não está isenta do carácter
de culto, muito pelo contrário. Mas este carácter de culto é dissimulado pela sua
aparente neutralidade: a técnica não pede orações. E o facto de a técnica se apresentar
neutra, à disposição, faz com que outras potências procurem pô-la ao seu serviço, falar
a sua língua, como por exemplo a Igreja, acabando com isso por facilitar um processo
de secularização generalizada [Der Arbeiter p.170]: a técnica não é neutra – é uma
potência de neutralização. Nesse afrontar de todas as potências estabelecidas – ela
nega pela sua própria existência -, a técnica é a única que escapa ao
declínio(CORDEIRO, 1994, p.52) impõem-nos medo!

443
ANTONIL, André J. Cultura e Opulência no Brasil por suas Drogas e Minas . Rio de Janeiro:
Conselho Nacional de Geografia, 1963. p. 151 in: FREIRE, 1989, p.44. também disponível em:
http://www.brasiliana.usp.br/bbd/bitstream/handle/1918/00087300/000873_COMPLETO.pdf pg.89
233
Se isso for assim, liberdade deverá ser um conceito de resistência infinita tal que
faça o período de transição homem-máquina se alargar indefinidamente e as sabotagens
advindas de mundos estranhos e medievos, embora aparentem e talvez sejam motivos
de atraso e desânimo em sua maioria, apareceriam para a história como inibidores do
progresso e alargadores indiretos da liberdade. Mas também teríamos de nos colocar
diante do espelho dos maiores dos tabus. Reler e reescrever nossos livros de história,
especialmente os que dão espaço para aqueles indivíduos cujas ações diretas
promoveram massacres incompreensíveis e irracionais para sua época, mas previsíveis e
comensuráveis para a nossa.
Até certo ponto, a escravidão em si mesma é um apelo anti-tecnológico. A
existência de escravos para gerir e executar o trabalho desestimula o aparecimento de
soluções tecnológicas por parte daqueles que exploram o trabalho escravo (alienação ou
estranhamento do trabalho). Por outro lado, dado o problema de ordem técnica, são os
próprios trabalhadores (gestores e executores) que deverão encontrar saídas práticas e
soluções tecnológicas para o desempenho do trabalho. O engenheiro jamais saiu de
dentro do gabinete ou da academia, ao contrário, o engenheiro acadêmico não passa de
um empresário técnico. Ao contrário, o verdadeiro engenheiro de obras, por exemplo, é
aquele que suja os pés e as mãos. Não é incomum encontrarmos mestres-de-obra que
ensinam os engenheiros como fazer isso. Talvez isso tenha algum fundamento no
período escravista (para além da discussão de se os africanos eram ou não mais experts
em ferro e em ouro) onde escravos, assim como os trabalhadores de hoje, tendo “as
mãos na massa”, possuiam em algum nível maior experiência prática e maior “jogo de
cintura” que seus “superiores”.
Nos documentos dos arquivo do Museu dos Bandeirates, analisados por Gilka
Sales em 1973444 podemos ter uma ideia dos ofícios exercidos por escravos e fazer,
dentro das profissões existentes ainda hoje, um comparativo do valor específico da
profissão ou o tratamento dados aos que as abraçam. Pelos seus levantamentos, dos
1.222 escravos de Goiás em 1872, por exemplo, embora 433 a profissão não fosse
declarada, 114 executavam o ofício de jornaleiro, apenas 134 pessoas trabalhavam no
setor agrícola contra os 541 que desempenhavam a função designada como “artista”,
que significava “artífices em geral”, carpinteiros, pedreiros, alfaiates, pintores,
pedreiros, sapateiros, tecelões, etc. (todos estes estão concentrados em nas zonas
urbanas) e há uma cisão preconceituosa bastante bem delineada no status dos
trabalhadores, a partir do tipo de ofício que exercia.

444
“Arquivo do Museu dos Bandeiras – pacote 1703, Agricultura] in: SALES, Gilka V. F. O
Trabalhador Escravo em Goiás nos Sécs. XVIII e XIX [comunicação apresentada em 9 de Setembro de
1971] in: PAULA, Eurípedes S. de (Org.) Trabalho livre e trabalho escravo. Vol. 1 Col. Da Revista de
História Anais do VI Simpósio Nacional de Professores de Historia. São Paulo, 1973. pp. 605-621.
234
"Le Chirugien Negre" (“O Cirurgião Negro”) – 1816-1831
Jean Baptiste Debret, Voyage Pittoresque et Historique au Bresil (Paris,1834-39),vol.
2, plate 46, p. 142.

“A cirurgiã negra” tchokwe – foto tirada próximo de Ngalangi, Angola
Aplicação de ventosas para operação de sangria
(HAMBLY, 1937. p.577)

“Notamos casos curiosos, como o escravo Matias da Nação Caçange, que era
barbeiro profissional [ofício propriamente de escravo, mas que pode denotar a atividade
de provocar a “sangria” de pacientes] dentista prático (arrancava dentes), aplicava
sangrias e ventosas, daí ser enfermeiro prático, pois naquela época a aplicação de
ventosas e sangrias era habilidade de médicos e enfermeiros e, para completar, furava
orelhas e colocava bichas; isto é, brincos.” (SENA, 1981, 32-33). Judith Carney, além
de trazer registros de cura herbal como a flebotomia, purgação, formação de bolhas e

235
uso de sanguessugas, indica também a existência da medicina das ventosas na tradição
afro-caribenha. 445
O “tabu” criado em relação às práticas de trabalho manuais que pode ser
identificado ainda hoje, fazendo da “linha-de-ofício” uma parceira da “linha-de-cor” na
distinção social no país. “Desde o início da colonização do Brasil as relações escravistas
de produção afastaram a força de trabalho livre de artesanato e da manufatura. O
emprego de escravos, como carpinteiros, ferreiros, pedreiros, tecelões etc. afugentava os
trabalhadores livres dessas atividades, empanhados todos em se diferenciar do escravo.
Ou seja: homens livres se afastavam do trabalho manual para não deixar dúvidas quanto
a sua própria condição, esforçando-se para eliminar as ambiguidades de classificação
social”446.
Mas não foi mesmo no seio da revolução francesa que se permitiu tornar um
fiasco o projeto perpetuador da diferenciação aristocrática? Antes mesmo, Rousseau,
que jamais poderá ser tachado de revolucionário no sentido estrito, considerará o ócio a
fórmula para todo fracasso social. “Quem come no ócio o que não ganhou por si mesmo
rouba-o; e um homem que vive de rendas pagas pelo Estado para não fazer nada, não
difere muito a meus olhos de um bandido que vive a expensas dos viajantes. Fora da
sociedade, o homem isolado, nada devendo a ninguém, tem o direito de viver como lhe
agrade; mas na sociedade , onde vive necessariamente a expensas de outros, deve-lhes
em trabalho o custo de sua manutenção; isto sem exceção. Trabalhar é, portanto, um
dever indispensável ao homem social. Rico ou pobre, poderoso ou fraco, todo cidadão
ocioso é um patife. (ROUSSEAU, J.-J. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro:
Bertrand, 1992, p.214).
Dentre a série de profissões relegadas aos trabalhadores em geral, em muitos
deles havia africanos cuja habilidade e técnica, algumas delas já desenvolvidas ou
aplicadas na África antes do período escravista – lembrando também que algumas
profissões e técnicas foram aprendidas ou reconstituídas no novo mundo. Havia ofícios
desempenhados por africanos e seus descendentes tais como ferreiro, forneiro,
carpinteiro, marceneiro, entalhadores, carregadores, estivadores, Calceteiros, alfaiates,
bordadeiros, caixeiro, purgador, ourives, pintores, músicos, pedreiros, artesãos de toda
ordem, vaqueiro, comboeiro, boleeiro, agricultores e trabalhadores do eito em geral,
jardineiro, vendedores ambulantes (os conhecidos “escravos de ganho”), lavradores,
fabricante de açúcar, de aguardente, cozinheiro, pagem, palafineiro, Abanador, correio,
oleiro, rebocador, carregador, taverneiro, calafates, carapinas, carreiros, moleques de
recado, aguadeiros, boladeiros, pescadores, tirador e vendedor de leite, vendedor de
frutas da quitanda, de doces e bebidas etc., canoeiro, barqueiro, remeiro, palanquins,
redes e serpentinas, cangueiro, pastor, valeiro, atalhador, seleiro, mestre de engenho de
Serra, fabriqueiro, feitor, torpeiro, sombreirero, arreador, enfermeiro, serralheiro,
caldeireiro, taxeiro, latoeiro, barbeiro... etc...etc..etc...447.

445
CARNEY, J. A. African Traditional Palnt Knowlege in the Circum-Caribbean Region . Journal of
Ethnobiology 23 (2): 167-185, 2003, pp.171.
446
CUNHA, Luiz Antônio. São Paulo: Ed. Unesp; Brasília, DF. Flacso, 2005. p. 2.
447
Certamente esta é uma lista sempre incompleta. Muitos desses ofícios eram exercidos pela mesma
pessoa e por vezes não havia uma distinção tão clara entre uma profissão e outra; assim, jamais
poderemos conseguir reconstruir toda a gama de atividades braço-intelectuais aos quais os africanos e
seus descendentes devotavam seu suor e suas vidas. Mas não podemos deixar de esquecer a importância
da profissão eminentemente afro-brasileira dos “marinheiros” (que não tinham à época colonial o mesmo
glamour de hoje – por isso, praticamente, só se via negros ali até a “Revolta da Chibata”, e quase não se
vê mais negros hoje, e nem “chibata” e, muito menos, “Dragões do Mar”, ah! E nem revolucionários,
portanto!).
236
As mulheres sobretudo se davam aos mais diversos trabalhos, elas trabalhavam
fora de casa como escrava de ganho, quituteira, doceira, quitandeira, costureira,
bordadeira, rendeira, florista, parteira, cozinheira, faxineira... ou ainda como prostituta
que, como as de hoje, via seus lucros escorrerem para bolsos superiores alheios... e
dentro de casa nos trabalhos domésticos aos quais estão aferradas ainda hoje: limpar-
lavar-passar-arrumar-cozinhar-bordar-tecer. A estes palavrões incluímos outro: foder.
Além de trabalhar fora e dentro de casa a escrava também trabalhava na cama, como
escrava sexual das fantasias do seu senhor. Nenhuma idealização do acrônimo sado-
masoquista BDSM, isto é, Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e
Masoquismo no face do céu e da terra pôde jamais supor os limites virtualmente
ilimitados que deram vazão a disposição integral dos Senhores em relação às suas
escravas submissas até o absoluto. “o poder absoluto; corrompe absolutamente.” diz o
ditado popular.
E me vem à mente aquele filme imperdível “A Raisin in the Sun” (cuja tradução
no brasil não ficou tão ruim: “O sol Voltará a Brilhar”) em que a empregada doméstica
e mãe de um Sidney Potier novíssimo, mulher velha, íntegra, gorda e rigorosamente
protestante (tudo isso no sentido mais culto e belo) faz esse discurso depois de se
aposentar como empregada doméstica negra dos anos 40 nos EUA graças à morte do
marido que deixou-lhes uma herança de U$10.000. Discurso esse que sei de cor pois é
uma espécie de litania belíssima:
“Eu agradeço isso [aposentadoria como empregada doméstica] ao meu marido, que
tornou isso possível. Ele sempre dizia que era odioso ser servo. 'Mãos humanas não são
para carregar jarros, arrumar camas...são para revirar a terra e criar coisas"448.
Negociante “vendedora de quitutes” de grande habilidade, a mulher
historicamente conseguiu algumas benesses com seu martírio (ato sagrado com o qual,
como dizíamos na Soka Gakai podia-se: “transformar os infortúnios em felicidade”).
Tanto por seu senso estóico, intrigante, de mucama, quanto por seu senso de
responsabilidade de dona de casa, sensos estes natural e biologicamente maiores que os
dos homens, a mulher é grande candidata para ser o gênero consequente e agente
revolucionário singular. A mulher negra, embora não se deva dizer senão
metodologicamente que façam “parte da base da pirâmide social”, teve função também
efetiva neste processo, uma vez que transmutou o racismo e a distinção cultural em
excrescências “de época” ou ao menos em manifestações históricas datadas. Com o
trabalho de ama-de-leite, ademais, fez tão mais sucesso quanto um jesuíta, pois
africanizou a cultura brasileira de modo definitivo como aqueles a cristianizaram
também “definitivamente”. Com aquele trabalho, a criança branca seria alvo da
transferência tecnológica dos saberes africanos, desde o brincar, o falar, o cafuné, até o
dançar, o andar, o duplo ou contínuo estalar produzido pela inspiração de ar e utilização
linguo-dental para negar algo soando “tsi, tsi”, em resumo, o jeito-de-ser, a “alma”
brasileira vem da mulher africana (e indígena).
Uma pesquisa em anúncios de escravos fugitivos ou anúncios de intenção de
compra e venda são também muito úteis, por um lado, para tomada de consciência das
diversas habilidades, desempenho de ofícios e usos da tecnologia africana, por outro,
são úteis para a produção de uma listagem mais ampla dos tipos de ofícios
desempenhados pelos filhos e filhas da África. A título de exemplo, cito: “Da Lagoa
Dourada fugiram da casa do Sargento Mor Joaquim Vieira da Silva Pinto dois escravos
pardos com malas às costas, um de nome Gregório, alto, barbado meio calvo, oficial de

448
Ver também: http://professorcoban.hubpages.com/hub/Symbolism-in-A-Raisin-in-the-Sun
237
alfaiate, cozinheiro, com conhecimento de enfermeiros, e pouco excede de 30 anos e é
bem feito de corpo; outro de nome vitoriano acablocado, menos de ordinário, cabelo
corrido, não tem muita barba, serviu de feitor de escravos, tem pouco mais ou menos 30
anos. (...) escravo, cabra, por nome Miguel (...) dizem que usa de fazer pentes e bocetas
de chifre (...) de nome José, Mina, meio fula baixo (...) é mestre de fazer velas de sebo
de banha, e também mestre de fazer valos.” (SENA, 1981, pp. 30-32).
Posso até concordar que o “trabalho não dignique o homem” contrariando o dito
popular, calcado na sentença de morte perpretada pela exploração de sua força. Mas
acredito ser aceitável a ideia de que o trabalho também não o indigna. Já a escravidão,
em sentido amplo, a fuga do valor concreto do trabalhador e de sua produção para a
abstração do dinheiro e para a desvinculação (desvio) da ideia do trabalho como
constituição da realidade material, não só é a representação máxima da indignificação
do homem como uma assertiva obstrutiva de sua realização emancipatória (aquela
“ação” irmã do “sonho” de Walter Benjamin).
A escravidão histórica e a escravidão maquiada em trabalho assalariado são
uma única face de uma mesma moeda. Lá onde os frutos do trabalho são canalizados
para fontes ditas superioras (detentoras dos meios produtivos) é onde se escondem pela
má-fé o princípio de solidariedade de base humana que é simbolizada historicamente
pelas classes laboriosas, mas que encontrou na contemporaneidade direito de cidadania
em fontes revolucionárias extra-classecistas. A noção de que o trabalhador, na boca do
monstro devorador de todos os frutos laboriosos do artesão, do camponês, do operário
não passasse de um massa descartável é a deturpação principal que levara a
intelectualidade direitista (“cães de guarda da burguesia” – como diria Nizan) acreditar
inopinamente, salvo absurdidades hegelianas, num fim da história.
A decadência do espírito da força de trabalho não é indicativo de sua morte e
isto nos parece óbvio, já que a morte deste espírito seria a morte do humano enquanto
um ser dotado de polegar opositor e criador de cultura. Só o pessimismo intelectual
aponta como irreversível (portanto, não surpreendente) o domínio de toda essa
decadência de espírito449. Essa decadência teria fundamentos ontogenéticos e outros
determinantes tão obscuros e difíceis mesmo para um Spengler, um Simmel, de um lado
e para um Marx, um Fauerbach e outros filósofos materialistas de outro, ignorarem o
modo correto de como defini-los. Ainda assim, a cultura proletária refeita de seus
desenganos totalitaristas, alçada nas suas mais novas “forças de rememoração”, resgata
a antiga comunhão por meio da memória dos arautos do Encouraçado Potekim, da
revolta de Kronstadt, da insurgência maknovinista e ao aprender com as Mujeres Libres
da revolução espanhola, os exemplos passados de uma gota de esperança ativa futura.
Cientes do desespero de Baudelaire destacado por Walter Benjamin nas Teses quanto à
insuficiência desta rememoração isolada e cientes de que a “interrupção do curso do

449
Considero lindo o determinismo tecnológico, Heidegger e toda sua filosofia da “armação” (Gestell).
Mas me parece que nós seres livres (mas herdeiros quase que irremediáveis da tradição de resignação
cristã) gostamos muito afinal, da ideia de que está tudo mecanicamente perdido (apetite trágico) e que
devemos entregar romanticamente nossas escolhas livres a uma “mão superiora” (quaisquer semelhanças
encontradas aqui com aquela ideia da “mão invisível do mercado” não deverá ser tida como pura
coincidência. Toda superioridade material, ou seja, todo determinismo terá de ser passado em revista no
tempo (dotado de milhões de fissuras inauditas) e pelo tempo deverá ser verificado. Mais do que isso.
Como diria mais ou menos Walter Benjamin, não como repetição, mas o passado ainda pode nos revisitar,
ainda que na forma de ruínas e fissuras que se abrem para o futuro: “A verdadeira imagem do passado
perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento
em que é reconhecido.”( Schriften - Volume 1, página 496, Walter Benjamin - Suhrkamp Verlag, 1955).
Por fim, este seria o pesadelo de Heidegger, questionado por toda filosofia crítica da responsabilidade.
238
mundo” pode e deve ser formulada a partir da destruição organizada (ou o conceito de
negação de Durruti e da CNT, só que num nível mais amplo, Gramsciano, por assim
dizer, em que infiltrações orgânica nas variadas “máquinas” executariam papel de
vermes na barriga do leão) movimentos individuais estes e de grupos de afinidade que
devolveriam a esperança a Baudelaire, farejador da modernidade. A épica interrupção
dos motores catastróficos seria semelhante à uma final “liberalização da angústia
mítica” da qual falavam Horkheimer e Adorno só que, ao mesmo tempo, anunciaria a
verdadeira superação da condição de autômato, do desejo de controle, estripação da
racionalidade burocrática e da quantificação da vida social. Em resumo, o congelamento
do declinio da erfahrung (experiência) coletiva é a rejeição da falácia positivista que
sempre ressurge na ideologia de dominação capitalista do homo homini lupus, que não
tem como se livrar da falácia sem se livrar de si mesma.

“A atividade cotidiana do escravo reproduz a escravidão” Fredy Perlman450

Eu li uma porção de livrinhos interessantes, mas um me chamou a atenção ao
pensar no assunto escravidão em sentido amplo ou restrito. Um tal de William Graham
Summer citando o orador e historiador grego Dion Chrisóstomo (ca. 40 – ca. 120) disse
que ele “apontou os efeitos perniciosos que a escravidão produzia sobre os senhores –
sensualidade, languidez, dependência – e fêz notar a larga diferença entre status
pessoal e caracter: a possível nobreza de um escravo e o possível servilismo de um
homem livre451. O trabalho é a força vital que mais se aproxima da definição do humano
livre (ainda que altamente indefinível). O sujeito é aquele que age pelo trabalho não a
produz coisas somente, por meio do trabalho, mas é possível refazer todo um sistema de
humanização possível, pois, embora a máquina possa fazer a maior parte dos trabalhos
humanos ela não tem452 a chave de sua autoreprodução. Existe ainda aos seres humanos
a opção de escolher ou responder livremente pela sua produção e os momentos em que
se viu sem condições de escolher, dado a vaga de determinismos, instrumentalismos,
separação completa entre meios e fins ou a fé liberal no progresso e nos
empreendimentos sem justa causa, tem sido e serão os momentos em que o medo no
presente se sobrepôs aos medos futuros.
De modo que a “catástrofe” poderia ainda ter seus mecanismos sabotados no
seio mesmo de sua produção. Trabalhadores em blocos coletivos, filósofos da
tecnologia, eco-ativistas, anarcofeministas, embuídos todos da tradição de dissiminação
missionária da liberdade, municipalismo e federalismo autogestionário, alargariam os
elos que nos ligam às nossas finalidades humanas. Que venha, portanto, a derrocada
cósmica, mas que venha também por meio de uma finalidade que nos seja conquistada
pela liberdade da biologia contra a transformação total da natureza (linha reta que vai do
mito prometeico ao mito do progresso infinito) permitindo, em nosso trabalho conjunto,
o aparecimento das fissuras no rolo compressor da história. Assim, o trabalho, em seu
aspecto universal, guardaria sua semelhança com a “festa” em Rousseau, no sentido que
brilhantemente o deu Jean Staroubinski em seu monumental “A Trânsparência e o

450
PERLMAN, F. The Reproduction of Daily Life. Black & Red: Kalamazoo, 1969. p. 2 (disponível em:
https://archive.org/details/TheReproductionOfDailyLife
451
Orat. X, 13; XV, 5 Apud. SUMMER, William G. Folkways – estudo sociológico dos costumes. Tomo
I trad. Lavínia Costa Villela. São Paulo: Livraria Martins Editora S. A., 1950, p.357.
452
Pelo menos ainda, já que por enquanto os humanos estão envolvidos no impedimento que haja
autonomia da tecnologia, momento este em que a máquina se tornará autoreprodutora, como disseram os
livros de ficção científica e como querem os engenheiros e inventores do “pós-homem”.
239
Obstáculo”453. Ou ainda, aquilo mesmo que fez o nosso Arthur Ramos ao se referir ao
termo africano do trabalho coletivo que chamamos lindamente de “mutirão”454.
Segundo o antropólogo “a organização clânica [africana] sobrevive em certas formas de
trabalho coletivo, como, por exemplo, o putirão ou, mutirão, do Estado do Rio, já
referido e que tem muita semelhança com as sociedades Congo do Haiti... O mutirão é
um grupo de trabalho em que muitas pessoas negros e brancos, homens e mulheres, dão
ou vendem um dia de trabalho ao fazendeiro ou outro colono, terminando a sua tarefa
num festival que avança pela noite a dentro.” A atividade precisamente humana,
portanto, é o trabalho. A ação ou a festa. Tanto que as oposições maniqueístas entre o
bem o mal podiam muito bem ser identificadas entre a ação e o pensamento, sendo que
mal seriam os intelectuais e bom seriam os trabalhadores. Haja vista que, como muito
bem disse Walter Benjamin: “O saber, e não a ação, é o modo de existência mais
própria do mal”. (BENJAMIN, Origem do Drama Barroco Alemão. 1984, p.253). Mas
as oposições ainda se mantém maniqueístas e por isso desgarradas da função da
realidade por seu moralismo. Foi antes por moralismo que por cientificidade que Marx
fez transformar a classe trabalhadora em sujeito da revolução, enquanto uma ditadura do
proletariado. Mas, obviamente, são muitíssimos longos os mistérios ainda não
totalmente exprimidos da chamada “classe consequente”. A cultura proletária, embora
tenha todos os grandes dons revolucionários, não foi capaz de por si só, construir os
modelos em que sua ação universal (identificada ao trabalho), excluísse as oposições
entre vanguarda e massa de manobra, entre povo e governo, entre trabalhadores e
intelectuais e assim por diante. Deste modo, vemos hoje que a única planificação
possível terá de ser buscada no indivíduo livre trabalhador e não numa coletividade
tirânica de tipo marxista ou expressa numas vanguardas partidárias sejam elas de
quaisquer tipos.
A preexistência celular é uma das maiores prerrogativas da sociologia universal.
Com isso eu quero dizer que estamos a base interligada da nosso ser biologico é um dos
seus fundamentos. Depois disso a base interligada do nosso ser social está no trabalho,
no modo de produção e na interdependência econômica, mental e espiritual dos seres
humanos uns com os outros. Quando eu era adolescente eu afirmava na boca de uma de
minhas personagens mais maravilhosas: “Liberdade e comunidade” eu buscava uma
síntese entre o aspecto por assim dizer “burguês” de meu pensamento e a necessidade de
não incluir adjetivos ao senso libertário. Hoje, retorno ao meu início fazendo
resumidamente o mesmo tipo de afirmação pela verdade da vida do indivíduo e a
certeza atômica de que as realizações dos indivíduos são interdependentes e que, como
seguiu-se as meditações do poeta inglês John Donne: “No man is an island, entire of
itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed
away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a
manor of thy friends or of thine own were; any man's death diminishes me, because I
am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it
tolls for thee455.
453
http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00484
454
RAMOS, ARTHUR As Culturas Negras no Novo Mundo – o negro brasileiro III. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1946 p.346. “Mutirão” se diz ainda “Nhimbe” na língua Shona, que
habitam o Zimbabue e Moçambique; trata-se de um trabalho tradicional voluntário idêntico ao que ocorre
no Brasil, em que a família beneficiada fornece alimentos e bebidas alcoólicas (cerveja ou cachaça) aos
participantes. Ver: Agricultural Implements Used by Women Farmers in Africa:
http://www.ifad.org/pub/other/!ifadafr.pdf
455
Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é uma peça do continente, uma parte
de um todo. Se um seixo for levado pelas águas do mar, a Europa diminuiria-se, como se fosse um
240
A tendadora associação que a psicologia contemporânea faz dos modos do
pensar humanos aos modelos de processamentos de dados das máquinas tornou-se não
só hegemônica, mas única e homogênea. Nem mesmo em economia ou em política o
pensamento único é tão limitante quanto o é na teoria psíquica e epistemológica. A
apreensão do mundo por meio de sua matematização, no entanto, teve um início e
portanto um fim tão mais localizado e identificado quanto suas próprias fórmulas e
cálculos sempre limitados ou afetados em nível celular. Nada mais indigno que tentar se
desfazer tecnologicamente do embaraço da “falha humana”. Também esse índice de
indeterminação do sujeito, essa sua identidade que é a “falha”, o “erro”, não podem ser
substituídos (ao contrário, radicalmente afirmo que eles devem necessariamente ser
incluídos) assim como não podem ser substituídos os fantásticos modelos de julgamento
instintivos, as formas dedutivas do pensamento, o senso comum, o senso prático, aquele
“apanhado por sobre as cabeças” que é a generalização das “interpretações” promovida
pelo perspectivismo Nietzscheano e as benjaminianas leituras da borra do café, a
intuição feminina, etc., por simplórios cálculos mecânicos ou messiânicos. “É possível,
naturalmente, simplificar o meio em que o cientista atua, através da simplificação de
seus principais fatores. Afinal de contas, a história da ciência não consiste apenas de
fatos e de conclusões retiradas dos fatos. Contém, a par disso, idéias, interpretações de
fatos, problemas criados por interpretações conflitantes, erros, e assim por diante.
Análise mais profunda mostra que a ciência não conhece ‘fatos nus’, pois os fatos de
que tomamos conhecimento já são vistos sob certo ângulo, sendo, em conseqüência,
essencialmente ideativos. Se assim é, a história da ciência será tão complexa, caótica,
permeada de enganos e diversificada quanto o sejam as idéias que encerra; e essas
idéias, por sua por sua vez, serão tão caóticas permeadas de enganos e diversificadas
quanto as mentes dos que as inventaram. Inversamente, uma pequena lavagem cerebral
muito fará no sentido de tornar a história da ciência mais insípida, mais simples, mais
uniforme, mais ‘objetiva’ e mais facilmente accessível a tratamento por meio de regras
imutáveis. A educação científica, tal como hoje a conhecemos, tem precisamente esse
objetivo. Simplifica a ciência, simplificando seus elementos: antes de tudo, define-se um
campo de pesquisa; esse campo é desligado do resto da História (a Física, por
exemplo, é separada da Metafísica e da Teologia) e recebe uma ‘lógica’ própria. Um
treinamento completo, nesse tipo de ‘lógica’, leva ao condicionamento dos que
trabalham no campo delimitado; isso torna mais uniformes as ações de tais pessoas, ao
mesmo tempo em que congela grandes porções do procedimento histórico. ‘Fatos’
estáveis surgem e se mantêm, a despeito das vicissitudes da História. Parte essencial do
treinamento, que faz com que fatos dessa espécie apareçam, consiste na tentativa de
inibir intuições que possam implicar confusão de fronteiras. A religião da pessoa, por
exemplo, ou sua metafísica ou seu senso de humor (seu senso de humor natural e não a
jocosidade postiça e sempre desagradável que encontramos em profissões
especializadas) devem manterse inteiramente à parte de sua atividade científica. Sua
imaginação vê-se restringida e até sua linguagem deixa de ser própria7. E isso penetra
a natureza dos ‘fatos’ científicos, que passam a ser vistos como independentes de
opinião, de crença ou de formação cultural. ”456

promontório, como se fosse a propriedade senhorial de teus amigos ou a tua própria; a morte de
qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os
sinos dobram; eles dobram por vós. http://en.wikiquote.org/wiki/John_Donne
456
FEYERABEND, P. Contra o Método. in: FILHO, José Jeremias de Oliveira. Contra o Método - Série>
Metodologia das Ciências Sociais e Teoria das Ciências. Trad. Octanny S. da Mata e Leonidas
Hegenberg. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1977 - Digital Source:
241
Os indivíduos africanos e afro-brasileiros foram os “trabalhadores não-livres” da
história do Brasil. Foram aqueles que construíram o país com suas próprias mãos e
cérebros (isso mesmo, por favor, não sejam loucos! “Mãos e cérebros” são realmente
indivisíveis quando se trata de trabalho). Porém, dado a ausência quase absoluta de
possibilidade em se fazer um grato “elogio ao trabalho” na atualidade, dado que o ethos
humano esteja migrando para as máquinas457, temos de nos voltar aos velhos (e ainda
que datados) textos que um dia fizeram a nós os “condenados da terra” sairmos da
sombra para fazer a tentativa de encontrar algum lugar ao sol no mundo dos brancos,
como disse Manuel Querino: “A agricultura foi a fonte inicial e perene da riqueza do
paiz. Orientado por processos acanhados, rotineiros e superficiaes, nem por isso
deixou de mediar e desenvolver-se sob a atividade e influxo do trabalho escravo. Todo
o esforço physico do africano caracterizava-se na ideia de se aproveitar a maior
somma de produção agrícola, donde os colonizadores pudessem colher farta messe de
proventos, e só depois de delida a resistência muscular do escravizado pelos rigores do
eito e da carricula e, sobretudo, pela idade, é que se lhe permitia, em paga de tantas
fadigas, entregar-se a outros misteres no interior dos lares, e isso quando a morte o
não surpreendia em meio dos rudes labores dos campos. Uma vez removido para o lar
doméstico, o escravo negro, de natureza affectiva, e, no geral de bôa índole e com a sua
fidelidade a toda a prova a sua inteligência, embora inculta, conquistava a estima dos
seus senhores pelo seu sincero devotamento, e sua dedicação muitas vezes até ao
sacrifício. Foi no lar do senhorio que o negro expandiu os mais nobres sentimentos de
sua alma, colaborando com o amor dos paes, na criação da tenra descendência dos
seus amos e senhores, com o cultivo da obediência, do acatamento, do respeito á
velhice e inspirando sympathia, e mesmo amor a todas as pessôas da família. As mães
negras eram tesouro de ternura para os senhores moços no florescimento da família
dos seus senhores. Desse convívio no lar, resultaram as diversas modalidades do
serviço mais intimo, surgiram então a mucama de confiança e o lacaio confidente, a
ama de leite carinhosa os pagens, os garda-costas e criados de estima. Trabalhador
econômico, previdente como era, o africano escravo, qualidade que o descendente nem
sempre conservou, não admitia a prole sem ocupação licita e, sempre que lhe foi
permitido não deixou jamais de dar as filhas e netos uma profissão qualquer. Foi o
trabalho do negro que aqui sustentou por séculos e sem desfalecimento a nobreza e a
prosperidade do Brasil. Foi com o produto do seu trabalho que tivemos as instituições
scientíficas, letras, artes, commercio, industria etc. competindo-lhe, portanto, um logar
de destaque, como fator da civilização brasileira. Quem quer que compulse a nossa
historia certificar-se-á do valor e da contribuição do negro na defesa do território
nacional, na agricultura, na mineração, como bandeirante, no movimento da
independência, com as armas na mão, como elemento apreciável na família, e como o
heróe do trabalho em todas as aplicações úteis e proveitosas. Fôra braço propulsor do
desenvolvimento manifestado no estado social do paiz, na cultura intellectual e nas
grandes obras materiaes, pois que, sem o dinheiro que tudo move, não haveria
educadores nem educandos, feneceriam as aspirações mais brilhantes, dissipar-se-iam
as tentativas mais valiosas. Foi com o produto do seu labor que o ricos senhores
puderam manter os filhos nas universidades europeas, e depois nas faculdades de
ensino do paiz, instruindo-os, educando-os, donde sahiram variáveis sacerdotes,
consumados políticos, notáveis scientistas, eméritos literatos, valorosos militares, e

http://groups.google.com/group/digitalsource
457
Como apontou mais ou menos Luckács em A reificação e a consciência do proletariado: a ascensão
das máquinas funda a descensão humana.
242
todos quantos ao depois fizeram do Brasil colônia, o Brasil independente, nação culta,
poderosa entre os povos civilizados. (QUERINO, Manuel. Costumes Africanos no
Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938 pp.157-160 [Biblioteca de
divulgação científica vol. XV]

2.11. Outros temas relacionados a técnicas e tecnologias africanas certamente
utilizadas nas Américas (alguns dos quais citei aqui apenas “en passant”) e outros
englobam desde a instrumentação da tecelagem, física (acústica, mineralogia,
astronomia...), criação de instrumentos musicais, a criação de jogos adultos ou infantis,
o giroscópio, a conservação do solo e de alimentos, enfim, destaco em particular a
astronomia e a joalheria (temas estes que conheço um pouco mais e publicarei
brevemente alguns textos neste sentido)458

Um Nativo da Libéria Girando um “Pião” de Giroscópio
“Dois dos inexplicáveis fatos da ciência são que as tribos primitivas da Libéria devem ter descobertos o
princípio do giroscópio tempos antes de ser conhecidos por povos civilizados e que os nativos
australianos, que nem sequer tinham avançado ao estágio agricultural, puderam empunhar o
boomerang, envolvendo um outro princípio de física avançada, de uma maneira que o homem branco
não pôde igualar. O Liberiano (da fotografia) mantém seu pião (top spinning) no ar pelo tempo que
quiser por repetidas batidas (strokes) com um pequeno chicote em sua mão direita.
National Geographic no.36 vol. 2 - Aug 1919 pg. 141.

458
Pankaj SAH; Balqees AL-TAMINI et All. Effect of temperature on antibiotic properties of garlic
(Allium sativum L.) and ginger (Zingiber officinale Rosc.). African Journal of Biotechnology. 11(95):
16192-16195, 2012]. Cf. COVEY, H. 2007 p. 121. Para exemplo prático de técnica tradicional africana
na rabilitação de solo vejam: http://www.unesco.org/most/bpik10.htm
243
Os marfins afro-portugueses, o barroco brasileiro (Minas e Pernambuco) e ainda os
temas sem classificação fácil como as diversas raízes usadas como escova de dentes tais
como a “Mulala” banta e as “Pako Ijebu” (Massularia acuminata) e “Orin Ayan”
(Distemonanthus benthamianus) iorubanas , “Sisibi”(azadirachta indica), entre os
Kusasi do norte de Gana, mas também utilizada pelos Haussa e Fulani459. A Lophira
lanceolata, usada na Guiné460 e mais os diversos nomes locais para as regiões como
Angola, Camarões, Senegal, Níger, Mali, Moçambique, onde se utilizam a raíz da
árvore salvadora persica para limpeza bucal... Não tratamos da pesca461 (e suas
diferentes redes produzidas por diferentes técnicas de trançado de fibra – a “rede de
pesca” (“Nkiti” no Bakongo de Cabinda), por exemplo, embora seja uma tradição com
datação indefinida, estudos linguísticos proto-banto do vocabulário marítimo tem sido
capazes de lançar hipóteses sobre como se deu parte do desenvolvimento da pesca na
África subsaariana462).

Pescadores Congoleses e suas redes de pesca Rio Congo–kisangani, Rep.Dem. Congo
National Geographic, 2011 www.freerepublic.com

Quem tiver interesse nestes e outros temas relacionados à tecnologia na África: há
livros como: CUNHA, H. Tecnologia Africana na Formação Brasileira Rio de Janeiro:
CEAP, 2010. CAMARA, Manuel Arruda. Memória sobre a cultura dos algodoeiros e
sobre o methodo de o escolher e ensacar, etc. 1799. Disponível em
www.brasiliana.usp.br/bbd/handle; MELLO E SOUZA, Marina. África e Brasil
Africano. São Paulo: Ed. Ática, 2007. FINCH, Charles, III. The Star of Deep
Beginnings: The Genesis of African Science and Technology. Decatur, GA: Kheat,

459
Ver: https://extranet.who.int/iris/restricted/bitstream/10665/47410/1/WHF_1985_6(3)_p232-234.pdf e
http://jmm.sgmjournals.org/content/23/1/55.full.pdf e ainda
http://article.sapub.org/pdf/10.5923.j.microbiology.20120201.01.pdf
http://www.santetropicale.com/resume/38703.pdf para o uso em Burkina faso, vejam:
http://www.unesco.org/most/bpik2-2.htm Também chamada “neem tree” a azadirachta indica está sendo
estudada pelo International Development Research Center (http://www.idrc.ca/EN/Pages/default.aspx)
460
segundo VASISHT, K. & KUMAR, V. Vol. 1, 2004. E também uma Lophira alata (azobé or
ironwood - “madeira de ferro”) usada na África Central para dor nas costas e dor de dentes: EYONG. C.
T. Indigenous Knowledge Sustainable Develop Africa. In: BOON, E.K. & HENS, L (Edts.) Indigenous
Knowledge Systems and Tribes and Tribals, Special Volume No. 1: 121-139 (2007) Sustainable
Development: Relevance for Africa.
461
Outros termos bantos de São Tomé e Principe podem ser “mussuá” e “quissossó” – “armadilhas”,
respectivamente, maior e menor para pescar camarões. A metodologia da costa ocidental africana para
criação de armadilhas pra peixe – chamado “covo”, “jequiá(é)” no Brasil indígena – pode ser verificada
no seguinte link: http://www.unesco.org/most/bpik5-2.htm
462
http://www.rogerblench.info/Language/Niger-Congo/Bantu/Was%20there%20a%20proto-Bantu%20word%20for%20whale.pdf;
https://www.academia.edu/952617/Ancient_Nets_and_Fishing_Gear
244
1998. DARK, P.J.C. An Introduction to Benin: Arts and Technology. Oxford,
Clarendon Press, 1973. SUTTON, John E. G., ed. History of African Agricultural
Technology and Field Systems. Special vol. 24 of Azania (1989). SCHICK, Kathy D., &
Nicholas Toth. Making Silent Stones Speak: Human Evolution and the Dawn of
Technology. New York: Simon and Schuster, 1993. McGREW, W. C. Chimpanzee
Material Culture: Implications for Human Evolution. Cambridge, U.K.: Cambridge
University Press, 1992. McCANN, James C. Maize & Grace: Africa’s Encounter with a
New World Crop, 1500–2000. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2005.
GOODY, Jack. Technology, Tradition, and the State in Africa. New York: Cambridge
University Press, 1971. CARNEY, J. Landscapes of Technology Transfer: Rice
Cultivation and African Continuities,” Technology and Culture, 37, 1, 1996.
GWENDOLYN, Midlo Hall, Slavery and African Ethnicities in the Americas:
Restoring the Links (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2005;
THORNTON, J. Precolonial Africa Industry and the Atlantic Trade, 1500-1800,”
AfricanEconomic History, 19. 1-19,1990. THORNTON, John. Africa and Africans in
the Making of the Atlantic World, 1400-1800 (Cambridge 2nd ed., 1998): 1-42.
RODNEY, Walter. How Europe Underdeveloped Africa (1972, revised edition 1981):
1-29, 93-201. AUSTEN, Ralph A., & Daniel HEADRICK. “The Role of Technology in
the African past. African Studies Review 26, no. 3/4 (1983): 163-184. FERGUSON,
James. Global Shadows: Africa in the Neoliberal World Order, Introduction, chapter 1.
2006. WARWICK, Anderson & VINCANNE, Adams, “Pramoedya‟s Chickens:
Postcolonial Studies of Technoscience,” pp 181-204 in Edward J. Hackett et al., eds.,
the Handbook of Science and Technology Studies, 3rd edition (MIT Press 2007). BIAL,
Raymond. The Strength of These Arms: Life in the slave quarters. Boston: Houghton
Mifflin Company, 1997. VLACH, John Michael. "Black Creativity in Mississippi:
Origins and Horizons" in Made by Hand: Mississippi Folk Art. An Exhibition at the
Mississippi State Historical Museum Old Capitol Restoration, January 22-May 25,
1980. Pages 28-32; _________Weevils in the Wheat: Interview with Virginia Ex-Slaves.
ed. Charles L. Perdue, Jr., Bloomington: Indiana University Press, 1980. WOOD, Peter
H. Black Majority: Negroes in Colonial South Carolina from 1670 Through the Stono
Rebellion. New York: Knopf. 1975.

Vejam também: Gloria EMEAGWALI (ed) African Civilization, American
Heritage, 1997, Colonialism and Science in Africa in: Helaine, SELIN(ed),
Encyclopedia on the History of Non-Western Science and Medicine, Kluwer, 1997,
Gloria EMEAGWALI, Women in Pre-capitalist Socio-economic Formations in Nigeria
in: Bappa et alia, Women in Nigeria Today. London: Zed Books, 1985. IDEM, The
Women Question in pre-Capitalist Socio-economic Formations: The Case of Northern
Igboland, Eastern Nigeria at the end of the 19th Century. Ikenga, Institute of African
Studies, University of Nigeria, Nsukka, Nigeria. Vol. 8.1. 1986. IDEM, Colonialism
and African Indigenous Technology" African Technology Forum, Vol. 7. 2 1994.
MIT, Cambridge, Mass. IDEM, Historical Development of Science and Technology in
Nigeria. New York: Edwin Mellen, 1992. IDEM , Science and Technology in African
History. New York: Edwin Mellen, 1992. POWELL, J.M., William, T.O., "An
overview of mixed farming systems in sub-Saharan Africa". Livestock and Sustainable
Nutrient Cycling in Mixed Farming Systems of Sub-Saharan Africa: Proceedings of an
International Conference, International Livestock Centre for Africa (ILCA) 2: 21–36.
1993. AUSTEM, R. And D. Headrick. The Role of Thecnology in the African Past.
Africna Studies Review. 26 (3-4): 163-184.
245
Terminando, há três grandes centros de pesquisa no conhecimento tradicional
(indigenous knowledge) que têm trabalhado para a valorização dos centros de produção
da nossa tecnologia: CIKARD- Sigla em inglês para “Centro de Conhecimento
Tradicional para o Desenvolvimento Rural e da Agricultura em Iowa, Estados Unidos;
LEAD – Etnosistema Leiden e Programa de Desenvolvimento nos Países Baixos. Esses
centros internacionais estão empreendem atividades em nível regional e nacional em
centros da Nigeria (ARCIK), Filipinas (REPPIKA), Brasil, Burkina Faso, Ghana,
Kenya, Indonesia, México, Africa do Sul, Uruguai e Venezuela. O corpo editorial
compreende estudiosos que advogam de alguma forma pela causa da valorização do
conhecimento tradicional: D. Warren, G. Von Liebenstein, L. Slikkerveer, D.
Brokensha, J. Jiggins and C. Reij.

2.12. – Lista de plantas e de árvores com possiveis vínculos África–Américas

Mali

Elaeis guineensis Jacq. (cf. Joseph E. Holloway African Contributions to American
Culture. P. 10 (disponível em http://slaverebellion.org/index.php?page=african-
contribution-to-american-culture; (cf. OLIVEIRA, 2008, p. 213).

Níger

Guiera senegalensis Gmel. (de acordo com a Organização Mundial de Saúde a Guiera
Senegalensis – igualmente as plantas Ancistrocladus abbreviatus, Fagara
xanthoxyloides, Combretum micranthum, Phyllanthus amarus, Guiera senegalensis,
Moringa oleifera, etc., – foi objeto de avaliações pré-clínicas. (“The African Health
Monitor – Special Issue: African Traditional Medicine Day 31 August. World Health
Organization (WHO) – Regional Office for Africa, 2010 p. 50.) Os Haussa ingerem
deliberadamente porções da raíz como preventive contra malária463.

Nigéria

Allium sativum L. (usada como medicina preventiva entre os escravos dos EUA,
segundo COVEY, H. 2007 p. 96. Cf. Kiple, K. F., and V. H. King. (1981). Another
Dimension to the Black Diaspora: Diet, Disease, and Racism. Cambridge, MA:
Cambridge University Press. p. 164)

Adansonia digitata L. (propriedades antidiabéticas) (cf. “The African Health Monitor –
Special Issue: African Traditional Medicine Day 31 August. World Health Organization
(WHO) – Regional Office for Africa, 2010 p. 50.) (A imbondeiro ou Baobá é também

463
Dr. Richard W. Franke: Montclair State University Department of Anthropology Anth 140: Non
Western Contributions to the Western World. Nov., 2006. Slide 63.
http://msuweb.montclair.edu/~franker/Anth140/PowerpointFiles/Week09Africa2Medicine.pptx cf.
OLIVEIRA, 2008, p. 226 em que há uma indicação de que a planta é chamada “quiabo-de-quina”, além
de “Moringa” e “Cedro”
246
utilizada no Brasil contra inflamações purulentas e moléstias de fígado. OLIVEIRA,
2008, 192).

Ricinus communis L. (a semente, quando engolida após o mênstruo, acredita-se ter
propriedades anticonceptivas) cf. COVEY, H. 2007 p. 88. A planta é usada no Brasil
como emenagoga e em compressas para dores reumáticas. Como vermífuga e em outros
usos farmacêuticos. Chamada ewé lara funfun – OLIVEIRA, 2008, 236)

Ageratum conyzoides L. (utilizado como antidoto pelos Iorubá é também utilizado no
combate à anemia falciforme, VASISHT, K. & KUMAR, 2004, p. 36).

Senegal

Tamarindus indica L. (o Tamarindo é utilizado no Brasil como laxante e ainda contra
sarampo, gripe, febre, dores, pedra nos rins e icterícia – Oliveira, OLIVEIRA, M. F. S.
2008, p.243)

Madagascar e Região

Cinnamomum aroma-ticum Nees (Cf. COVEY, H. 2007 p. 87-88, segundo o qual a
Cinnamomum camphora foi usada também pelos escravos norte-americanos contra
calafrios e febre)
Syzygium aromaticum (L.) Merr. & L. M.; Perry Cravo (“Clove”) (Cf. COVEY, H.
2007 p. 91 indica que a planta Syzgium aromaticum – grafada sem um“y” – foi usada
por escravos norte americanos com whiskey para aliviar a dor)

“As plantas Catharanthus roseus (L.) G. Don. e a
Rauvolfia vomitoria Afzel.
Foram os principais itens de exportação para a Europa em 1996.
Catharanthus roseus (L.) G. Don, (utilizada tradicionalmente contra a diabete, é fonte
para remédios como o Vinblastine e o Vincristine, que combatem o câncer.
Amplamente utilizados no tratamento da leucemia infantil”) (VASISHT, K. &
KUMAR, 2004, p. 76)

“Centella asiatica (L.) Urb. (tradicionalmente utilizada contra lepra, é utilizada
igualmente utilizada para o tratamento de feridas na medicina moderna. Madagascar é o
principal produtor e fornecedor do material para o mercado mundial, sua fonte é
advinda, principalmente de coleções silvestres.

Medemia nobilis (Hildebrandt & H. Wendl.) Drude
Ravenea rivularis Jum. & H. Perrier (também tem sido exportada) (VASISHT, K. &
KUMAR, 2004, p. 76)

Bambusa Vulgaris Schrad. Ex J.C. Wendl.

247
Camarões

Aframomum melegueta K. Schum. (A “Pimenta-da-Costa” é usada no Brasil em rituais
de assentamento de orixá, em especial Ossaim e Exu – OLIVEIRA, 2008, p. 192 ).

Cola acuminata Schott & Endl. (a “Noz-de-Cola”464, chamada de Obì, no contexto do
Candomblé, é usada no Brasil como tônico para o coração. OLIVEIRA, 2008, p. 206).

Monodora myristica Dun.; Pepe (Cf. COVEY, H. 2007 p. 103 indica que a planta
“Myristica Fragrans” chamada nutmeg nos EUA, foi utilizada por escravos não para
ingestão, originalmente, mas para ser colocada em volta do pescoço como preventivo;
cf. Joseph E. Holloway African Contributions to American Culture. p. 10 (disponível
em http://slaverebellion.org/index.php?page=african-contribution-to-american-culture )

Ruanda

Capsicum frutescens L. (pimenta vermelha, usada também pelos norte-americanos
COVEY, H. 2007 p. 109)

Capsicum frutescens L. (pimenta vermelha, usada também pelos norte-americanos
COVEY, H. 2007 p. 109)

Chenopodium ambrosioides L. (usada também pelos negros norte-americanos do
Alabama como vermífugo, segundo COVEY, H. 2007 p. 100)

Cucurbita pepo L. (abóbora, as sementes foram utilizadas pelos escravos contra febre
segundo COVEY, H. 2007 p. 108.

Datura stramonium L. (usada também pelos negros norte-americanos, segundo
COVEY, H. 2007 p. 100)

Ocimum basilicum L. (usada também como tônico pelos negros norte-americanos,
segundo COVEY, H. 2007 p. 78.)

Ricinus communis L. . (também usada pelos escravos norte-americanos, segundo
COVEY, H. 2007 p. 88)

464
Uma observação pessoal: eu tive a oportunidade de visitar a Nigéria recentemente. E nas áreas
iorubanas aonde estive, tanto em Ibadan, Abeokuta quanto especialmente em Ile-Ifé, eu vi pessoas
mascando cola o tempo todo. Ao verificar a ausência quase que absoluta de restaurantes em Ifé percebi (o
que comprovei localmente em entrevistas) que a cola é um ótimo ingrediente para tapear a fome. Vi
pessoas num congresso na Universidade Obafemi Awolowo que ficavam praticamente o dia todo sem
comer, somente a base de cola. Estimulantes como a Cola Nitida e outros alcalóides africanos foram
estudados por LOVEJOY, P. E. African Contributions to Science, Technology and Development
Collective Volume; The Slave Project: UNESCO. p. 15.
http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/pdf/P_Lovejoy_African_Contributions_Eng_01.pdf
248
Cinchona ledgeriana (Howard) Bern. Moens ex Trimen; Ikinini (contra malária e de uso
veterinário)

Euphorbia tirucalli L.; Umuyenzi (uso veterinário) (usada no Brasil em casos de
carcinomas e epiteliomas benignos. Em uso externo também é utilizada para retirar
abcessos, verrugas e melanomas e contra reumatismo – OLIVEIRA, 2008, p. 215).

Lobelia gibberoa Hemsl.; Intomvu (uso veterinário) (uma tal Lobelia Inflate era usada
no tratamento de furúnculos pelos escravos norte-americanos, segundo COVEY, H.
2007 p. 102)

Phytolacca dodecandra L'Hér.; Umuko (desordens nervosas, prolapso anal, otite,
queimaduras, aborto e uso veterinário) (uma tal Phytolacca Americana e
especificamente uma phytolacca decandra também foi usada no Alabama e na Carolina
do Sul, causando efeito no sistema gástrico e também é mencionado seu uso contra
febre: COVEY, H. 2007 p. 106) (Cf. EYONG, 2007, p.128) A Phytolacca docecandra,
segundo Eyong, é um bom exemplo do uso do conhecimento tradicional africano para
tratar da saúde global e de questões ambientais conhecida como endod (Phytolacca
dodecandra). A endod tem propriedades de controle de vetores de doenças, controlando
esquistossomose (...) Este baixo custo e biodegradável moluscicida foi saudado como
um dos principais avanço científico esquistossomose controlar endêmica em 76 países
na África tropical, Ásia e América Latina, que resultou em cerca de 200.000 mortes por
ano. Muitas vezes, não-biodegradáveis moluscicidas químicos têm sido utilizados
excedendo os custos . Um exemplo é o Bayluscide, fabricado pela empresa Bayer da
Alemanha, que é vendido a cerca de entre 25.000-30.000 dólares por tonelada (Rural
Advancement Foundation International, 1993). Endod é uma tecnologia tradicional que
veio para o resgate das nações industrializadas, impedindo ainda que mexilhão zebra
(Dreissena polymorpha) promova o entupimento dos tubos de admissão de
encanamentos norte-americanos desde o início de 1990. Esta mais conhecida
saponácea africana foi selecionada e cultivada há séculos por muitos africanos
tradicionais, que usaram suas bagas como sabão e xampu . É um intoxicante de amplo
espectro utilizado para capturar peixes comestíveis, usados para aliviar coceiras na
pele, abortivo, contra gonorréia, sanguessugas, vermes intestinais, pústula maligna e
raiva. 465
Ricinus communis L.; Ikibonobono (abortivo, amebíase, prolapse anal, além do uso
veterinário) (também usada contra vermes pelos escravos norte-americanos, segundo
COVEY, H. 2007 p. 88)

Tetradenia riparia (Hochst.) Codd; Umuravumba (tosse, dor de cabeça, laringite,
hematúria, e uso veterinário) – (no Brasil a planta é conhecida como aloisia; erva-da-
jurema, sândalo...é utilizada em banhos e na defumação. É conhecida no Candomblé
como Ewé Didùn. OLIVEIRA, 2008, p. 244)

São Tomé e Príncipe

465
EYONG. C. T. Indigenous Knowledge Sustainable Develop Africa. In: BOON, E.K. & HENS, L
(Edts.) Indigenous Knowledge Systems and Tribes and Tribals, Special Volume No. 1, 2007. p.128
249
Beauv, Chenopodium ambrosioides L. (chamada Jerusalem Oak, é nativa da América
do norte e usada também pelos negros norte-americanos do Alabama como vermífugo,
segundo COVEY, H. 2007 p. 100, mas não há confirmação de que seu uso tenha se
erradiado a partir dos escravos, aparentemente não.)

Moçambique

Zanthoxylum spp. (Zanthoxylum americanum or Zanthoxylum clava-herculis foi
indicado o uso medicinal por médicos herbais escravos como COVEY, H. 2007 p. 100

Garcinia livingstonei T. Anders. (Garcinia Livingstonii e Garcinia Kola - usada contra
bronquite no Brasil, chamada orógbo no Candomblé)

3.0. Inconclusões – O índio disse: “Tudo está lidado”466

Vímos que, ao falarmos sobre todas estas questões díspares mais ou menos ao
mesmo tempo nessa que é uma verdadeira “bagunça” intelectual, explicitamos sua
incongruência e sua tranquila insuficiência. Podemos, assim, utilizá-la como um
modelo útil de inconclusão de um tema. Sim! O Índio disse: “tudo está ligado”.
Nenhuma tecnologia ou magia (tecnomagia) surgiu do nada. A cultura humana é uma
aquisição pré-histórica e transmitida por gerações primeiramente no local de surgimento
e, excetuando casos privativos, contra-espionagem, segredos de estado, fórmula da
Coca-Cola etc, essa aquisição da cultura é difundida com algum grau de generosidade e
necessidade a outros locais, povos vizinhos, viajantes estrangeiros assim por diante.
Excentricidades e raridades à parte, não há tecnologia autóctone. Falar disso é privar o
cérebro de neurônios. Falar que a tecnologia veio da Europa e a magia da África é
palavriar no vazio. Tudo está ligado.
A magia e a tecnologia querem intervir na ordem do mundo. Por que as pessoas
acreditam na magia? Por que as pessoas acreditam na tecnologia? A magia [assim como
a tecnologia] é, por definição, objeto de uma crença a priori . Porque a crença é
anterior ao resultado, a operação mágica que fracassa nunca coloca em xeque o
sistema. Quando o resultado esperado não vem, refazem-se os ritos, varia-se as
técnicas e, no limite, substitui-se o mágico [ou cientista]. Também o mágico retira sua
força dos poderes que a sociedade lhe atribui. Ele é o que é, sente o que sente, porque
segue a opinião pública da tribo: ele é, ao mesmo tempo, o seu explorador e escravo. A
própria sociedade o empurra a preencher seu personagem467 O fundamento dessa
crença é o desejo incomensurável de vencer os desafios da existência ao lançar uma
certa e essencial habilidade humana em fantasiar para dentro de uma caixinha cheia de
souvenires; como aqueles que fizeram os homens auto-produtores de deuses.
O ser racional “euro-bípede ímplume”, ignorante da irracionalidade fundamental
e supostamente insuperável da existência (ou melhor, da imanência), sonhou que podia
intervir, dado sua importância insubstituível no mundo natural de modo que o
transformásse absolutamente. Até aonde esse sonho iluminista e aquelas crenças

466
http://www.comitepaz.org.br/chefe_seattle.htm
467
MONTEIRO, P. Magia e Pensamento Mágico. São Paulo: Ática, 1986. p. 12.
250
subexistissem também em nós, subsistiriam ainda a icógnita e a melancolia. A tarefa
iluminista falhou. O fardo do homem branco já pode ser despachado em rio corrente
para se desfazer de seus embaraços no além mar. Plácidos foram os anos de sonho em
que a verdade estava entre eu e você. Não há liberalismo possível se pensarmos que não
é a verdade que estava entre eu e você e sim era o abismo.
Aquelas categorias de causalidade de Lévy-Bruhl que poderiam facilmente ser
adaptadas aos seres “euro-bípedes implumes” e aos dolicocéfalos de coração (em seu
primitivismo que nomeava os outros assim, os “primitivos”) mostrando que a
mentalidade europeia primitiva valorativamente invertida, crer-se-ia na
“impossibilidade do impossível” e na aceitabilidade racional da naturalização do
milagroso e do extra-sensorial (lá onde se lia magia, lia-se tecnologia, e por elas tudo
seria possível). A crença na magia se demonstra facilmente hoje não mais nem tão
menos absurda que a crença na satisfação última e definitiva da tecnologia. A
explicitação da “pedra no sapato” representada pela ideologia, refletiu no abandono da
noção da eficácia da magia-tecnologia como critério para sua perenidade.
Pode-se desfazer do embaraço da religião, mas não se pode desfazer do
embaraço da magia e da tecnologia. Num mundo “cheio de deuses” a comunhão dos
seres biológicos em anarquia se mostra não só possível, mas a única experiência
provável a estender os padrões biológicos aos limites ditados pela dinâmica universal e
não pelos ditadores de plantão. E se não for possível por alguma maneira que eu
desconhecer nos desfazermos do embaraço das magias e tecnologias que se
desenvolveram na era patriarcal e industrial com o objetivo estrito do controle dos
desígnios da natureza e do estado habitual de dominação, então que seja reinventado na
máquina o Homem. Afinal, não faz muito tempo atrás que eu era leitor de Heidegger e
em meu pessimismo biológico almejava ingenuamente a salvação humana da tecnologia
pela tecnologia. Antes do fim da expansão universal e seu congelamento, sabendo que
daqui há 100 trilhões de anos, quando ocorrerá ainda o fim das reservas de hidrogênio, a
salvação viria a nós como lindos ex-humanos (ou Et´s) e atuais fótons expandidos
(energia) em ondas infinitamente longas vivendo com ajuda de alguns neutrinos,
electrons e positrons...ou demarcando uma “fuga pela esquerda”, invadindo algum
universo paralelo por meio de uma modificação quântica qualquer...
Se a antropologia estiver certa quanto a distinção entre a religião e a magia ao
dizer que enquanto a religião lida com “ideias e conceitos” de transcendente e a magia
lida com técnica e de evocação naturais materiais, será acertado ainda dizer que não só a
magia e a técnica sejam “cara da mesma moeda”, nem só dizer que uma nasceria da
outra, mas sim, que ambas seriam desdobramentos do mesmo pendor humano para
tornar-se abstrato.
Ao fim e ao cabo, consciente de minhas dificuldades e pendências teóricas, neste
texto eu defendi que parte da expropriação do trabalhador africano escravo foi uma
expropriação do saber africano livre. Um saber que se desenvolveu historicamente no
continente africano e se limitou, foi decepado e se transformou (com e sem a
perspectiva moralista quanto a essa transformação) a ponto de não termos metodologias
seguras que nos indicasse nas demais áreas aonde um certo africanismo pudesse ter sido
identificado e sobretudo aonde resideria este “limite” fictício entre o africano e o afro-
americano. Apresentamos também por isso, ideias que dão de ombros a embates
teóricos abstratos do tipo Herkovits-Frazer em saber se houve ou não heranças africanas
classificáveis nas Américas (tampouco chegamos a criticar a ausência de uma
“antropologia branca”, ou uma etnologia que levasse em conta os elementos “brancos”
dentro da cultura dita “negra” – e fizemos isso também por achar, salvo metodologia
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política e histórica ainda extremamente necessárias, essa questão de negro e branco uma
questão ou bem para historiadores e antropólogos, ou bem para bobões com complexos
de inferioridades, racistas e-ou “defensores de direitos” (dentro da sociedade citadina)
que sempre supõem uma descarga de energia por princípio, uma vávula de escape que é
a chamada “ação democrática”, ou “luta por direitos civis”.
Subestima-se muito a função do viajante estrangeiro. Confundidos todos com
turistas, eles passam desapercebidos a sugar a técnica indígena de reconhecimento de
plantas medicinais para vendê-las em outras partes, que não hesitarão em remunerar
bem esta tecnologia roubada, mas à sua disposição. O mesmo pode se dizer dos
diamantes e de out