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Revista de Economia Política, vol. 34, nº 4 (137), pp.

638-655, outubro-dezembro/2014

Crise global, mudanças geopolíticas
e inserção do Brasil

Bernardo Campolina
Clélio Campolina Diniz*

Global crises, geopolitical changes and insertion of Brazil. This paper has as
its purpose to analyze the insertion of Brazil in the international economic order,
considering the fundaments of the world power, the global crisis, the geopolitical
changes and their consequences on the global order. The text attempts to present
the advantages and structural challenges for an adequate international insertion
of technology are the key elements in a process of economic and social innovation
whose goals are to build a richer society, more just and compassionate, and environ-
mentally sustainable.
Keywords: global Brazil in an environment of increasing international integra-
tion of production; defend the idea that education, science and crisis; geopolitical
change; Brazil’s international insertion.
JEL Classification: F01; F02; F5.

A ESTRUTURAÇÃO DO PODER MUNDIAL
E A CRISE DOS SISTEMAS CENTRAIS

Uma das mais acreditadas análises teóricas dos fundamentos do poder mundial
está baseada na articulação entre o poder militar e o domínio do território e deu
origem à Geografia Política ou Geopolítica, onde são articulados os elementos
relativos ao poder e ao território (Ratzel, 1890, apud Morais, 1990; Mackinder,
1904, 1943; Spykman, 1953). Mais tarde, Strange (1988, 1996) demonstrou que a
força dos países na estrutura mundial de poder decorre da união dos poderes mi-

* Respectivamente, Professor adjunto do Departamento do CEDEPLAR/UFMG. E-mail: bcampolina@
cedeplar.ufmg.br; Professor titular aposentado do CEDEPLAR/ UFMG, Ministro da Ciência, Tecnologia
e Inovação. E-mail: ministro@mct.gov.br. Submetido: 20/Agosto/2013; Aprovado: 10/janeiro/2014.

638 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4), 2014

cujo acordo militar de defesa se estabeleceu por meio do Pacto de Varsóvia. con- duzida e estimulada pela atuação dos próprios Estados. sob lideran- ça da Rússia. litar. as ONGs e os movimentos sociais. em uma estratégia de defesa geopolítica do capi- talismo e de contenção do avanço socialista. O avanço teórico recente da economia política internacional vem introduzindo novos elementos para a compreensão da estrutura de poder mundial. coreanas e taiwanesas. pelo Japão e pelas economias de mercado periféri- Revista de Economia Política 34 (4). o capitalismo foi fortaleci- do. a emergência econômica de novos países. estabelecendo um espaço para negociações e evitando a ruptura total e uma nova guerra mundial. monetário e científico. No pós- -II Guerra. a Re- volução Russa. Dessa estrutura bipolar decorreu a “guerra fria”. O resultado foi um período de ampla expansão do sistema capitalista — sob a liderança dos Estados Unidos. em 1948. acompa- nhados pela Europa Ocidental. cuja aliança militar se consolidou com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). objetos da reflexão desen- volvida no presente trabalho. em grande medida. os cartéis (a exemplo da OPEP). 638-655 639 . em especial dos novos atores capazes de criar poder. 1995). o aumento dos fluxos de investimento direto estrangeiro articulado com a expansão e genera- lização das empresas multinacionais. poste- riormente. em 1955 e o mercado comum através do COMECOM. o mundo foi dividido em dois grandes blocos de poder. com destaque para a I Guerra Mundial. BIRD e GATT. e os novos e sofisticados recursos militares. Além do apoio americano à recuperação de uma Europa devastada pela guerra. A autora identifica duas formas principais de poder: poder estrutural e poder relacional. O bloco Ociden- tal ou capitalista. Feita essa nova concertação da governança global. Sua governança global se estabeleceu a partir do acordo de Bretton Woo- ds e da criação do FMI. 1985). O início do século XX foi marcado por uma sequência de grandes crises de dimensão ou implicações mundiais. ao mesmo tempo. O bloco Oriental ou socialista. que funcionou como elo entre os dois sistemas. Esses elementos terão fortes implicações na articulação do sis- tema de poder mundial e da posição relativa do Brasil. 2014 • pp. as crises globais dos sistemas capitalista e socialista centrais. na chamada era keynesia- na (Bleaney. Na linha do segundo. estabelecendo os padrões americanos de produção e consumo como norteado- res para o resto do sistema capitalista e propiciando. econômico. Foi criada a ONU em 1948. a exemplo do poder crescente das agências de classificação de risco e das grandes empresas de contabilidade. Nye desenvol- veu a análise de “soft Power”. a Crise de 1929 e II Guerra Mundial (Hobsbawm. O cenário contemporâneo é de grandes mudanças na estrutura do sistema de poder mundial. Essa expansão foi. as aceleradas mudanças tecnológicas. foram abertos os mercados às empresas japonesas e. Destacam-se os efeitos contraditórios do crescimento e da integra- ção mundial na chamada “Era da Globalização”. a atuação de algumas dessas organizações ampliaram suas influências. Com a crise internacional de 2008. Entre esses atores destacam-se as empresas multinacionais. com des- taque para a China. capitaneado pelos Estados Unidos. exclusividade até então restrita aos Estados Nacionais.

Enquanto isso. com apenas 11% da área e 13% da população mundiais. as periferias dos mesmos passaram a assumir novos papéis. com destaque para China. As crises econômica e política da União Soviética levaram ao seu desmoronamento. mas não efetivadas. também. 2014 • pp. com as revoluções chinesa e cubana. toda a periferia teve sua participação aumentada. a estrutura de poder montada durante a era stalinista. vale dizer. Por outro 640 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). para 65% e 45% (Tabela 1). na geografia política. o sistema socialista foi sendo ampliado e fortalecido. 1994. Índia e Brasil. refletido pela criação do G20. am- pliando seu poder na governança global. mas também de vários outros países. Essa liderança foi ampliada durante a II Guerra pela ocupação e dominação de vários países do Leste Europeu. 2006). acelerado com a morte e sucessões de Stalin. respectivamente. Tendo como ponto de partida o ano 2000. especialmente dos novos membros do G20. No entanto. e com as lutas no Sudeste Asiático. Essas mudanças indicam alterações na geografia econô- mica e. respondia por 70% do PIB e 55% das exportações globais. Índia. não só dos denominados BRICS (Brasil. Friden. 1946). Os avanços tecnológicos de ambos os lados levaram a uma corrida armamentista sem precedentes. O primeiro é a perda de peso relativo na produção e nas exportações do capitalismo central. dos Estados Unidos. com a guerra e posterior divisão da Coreia. Entre 2000 e 2011 essas participações caíram. formando um bloco dominado e defendido pela Rússia em uma linha que se estendia do Mar Báltico ao Mar Adriático. com ameaças mútuas. muito efi- ciente durante a II Guerra Mundial. União Europeia e Japão. de certa forma. A expansão socialista alcançou outras regiões. com poder atômico de des- truição em massa o que. começou a mostrar suas inconsistências logo após o fim do conflito mundial.cas — o qual ficou conhecido na literatura como “Anos Dourados” ou “30 Glorio- sos Anos” (Hobsbawm. o capitalismo central. China e África do Sul). para outros países e regiões do globo. muito bem simbolizado pela queda do muro de Berlim e a reconstituição de 15 Estados Nacionais. da União Europeia e do Japão. por sua maior escala. que Churchill denominou de “cortina de ferro” (Churchill. impediu sua concretização — por isso o período ficou conhecido como de “guerra fria”. O mesmo tempo em que se gestavam e desenvolviam as crises nos sistemas centrais (socialismo e capitalismo). seguidos por depressão econômica em toda a região. sob a li- derança da União Soviética. chegando à eleição livre de um presi- dente socialista no Chile — Salvador Allende. O resultado do fortalecimento dos dois blocos gerou disputa e tensão. além do ressurgimento da Rússia. Camboja e Vietnã. MUDANÇAS NA GEOPOLÍTICA MUNDIAL Tomado o período 2000-2011. Paralelamente. dois fatos complementares se destacam. 638-655 . Rússia. representado pelos Estados Unidos. especialmente em Laos. com consequências na ordem global. O segundo é a ampliação do peso do sistema até então periférico. indicando alterações na geografia econômica e na geografia política mundiais.

0 0.8 0.3 0.3 311.8 0.1 346.3 1.9 5.2 3.5 5.6 29.Acesso em Março 2013.4 13.0 0.4 1.6 1.3 0.0 13.5 31.7 Alemanha 357 0.4 17. a África se transformou. com efeito inverso. % *US$ Tri.3 196.8 0.1 0.7 1.4 22.2 1.6 100.1 6.lado.0 42. as mudanças no cenário global ficam claras.9 0.5 1. o que fez com que o Produto Interno Bruto da maioria dos países aumentasse.MKTP.6 3.0 Fonte: Banco Mundial .0 7.6 7. Ainda no cenário das mudanças mundiais. em uma nova fronteira cobiçada pelas potências emergentes.0 9.0 14.9 12.9 6. 638-655 641 .6 2. México.7 100.7 4.5 3. P. Freitas e Barbosa Filho (2013).1 100.4 0.0 8. (2007).5 9.6 1.0 Ásia 31959 23.5 1. Tabela 1: Continentes e países selecionados: Área.2 2. como a China.9 2. P.1 0.9 India 3287 2.6 Russia 17098 12.5 17.0 0.6 1.5 0.9 30.2 0.6 32. 2000 e 2011 (US$ 2000)1 População PIB Exportação Continentes e Países Área 2011 2000 2011 2000 2011 Mil Km % Milhões % *US$ Tri. Oreiro e Jayme Jr. D.5 Mundo 134269 100. ávida por alimentos e maté- rias-primas.0 0.org/indicator/NY. A.8 0. do Banco Mundial e do Conselho de Segurança da ONU.3 1. Revista de Economia Política 34 (4). 2014 • pp.1 5.7 2. PIB e Exportação.6 2.1 26.6 0.3 Japão 378 0.6 11.6 4. África do Sul.0 6.0 6973.1 1344. Missio. Arábia Saudita.1 11.5 60. a exemplo do FMI. Os dados estão disponíveis em http:// data.1 1. *Valores Constantes 2000. Turquia.0 35. entre outros. além dos demais novos membros do G20 (Rússia.3 A.5 1.9 0.5 1.worldbank.0 8.3 81.3 100. (1979).1 8.8 4186. Para uma análise da complexidade do fenômeno e um discussão sobre o caso do Brasil veja. (1978).7 1. Rodrik.3 0.9 27.0 254.6 A.6 1.7 1. L.1 1.7 1.5 1.0 8.9 Oceania 8561 6. Thirlwall.8 1.9 EUA 9832 7.1 0.4 0. % *US$ Tri.9 0.5 3.6 0.6 5.4 0.5 Corea do Sul 100 0.8 3.0 2.2 3.5 0.8 0.1 19.1 49.8 5.1 0.8 1.8 2.3 8.3 3.1 0.5 6. % *US$ Tri. Os destaques das mudanças no peso econômico mundial são a China. isso ilustra uma contradição com a institucionalidade da governança global que continua sob o comando dos países centrais.0 32.1 40.6 0.9 2.5 1. (2010). nos últimos anos..3 127.5 0.2 1.6 11. Ferrari.4 China 9600 7.2 1.9 União Europeia 4329 3. população de mais de 1 bilhão de habitantes e abundância de terras e maté- rias-primas.5 114.5 8.3 0. Observado o comportamento do conjunto de países que compõem o G20.4 0. do Norte 20227 15. Coreia do Sul.3 2.6 1.6 7. Malásia e Austrália). Com área geográfica de 30 milhões de km2.0 0.4 1034.9 1.0 100.8 2.9 2.GDP.7 27.1 0.7 141.6 0.0 14.9 0.4 Brasil 8515 6.7 Argentina 2780 2.8 34.3 0.4 1241. No pós-crise de 2008 o dólar sofreu uma forte desvalorização. Estamos utilizando dólares constantes à preços do ano 2000 com base na Paridade do Poder de Compra (PPC). há que considerar o novo papel da África. Nos últimos meses essa tendência está se invertendo.8 0. Latina.7 1.8 4.1 25.1 0.7 0.6 11. % África 30047 22. e Taylor.5 2.1 5.8 2.8 0.7 3.3 0.2 2.1 13.7 0.4 37.0 0.8 0.8 0.2 487.8 0.8 5.2 595.2 2.6 0. O volume de investimentos estrangeiros que vêm sendo feitos no con- 1 A instabilidade nas paridades cambiais entre as moedas dificulta as comparações internacionais ao se fazer a conversão em uma única moeda de referência. Argen- tina.8 0. A este respeito.1 0.9 27.7 14.0 10.2 2.9 México 1964 1. População. e Caribe 20423 15.2 3. a Índia e o Brasil. Krugman.1 Resto da Europa 18743 14.KD. Arrighi (2010) argumenta que o centro hegemônico do sistema mundial estaria se deslocando do Ocidente para o Oriente.

Nesse sentido. há que ressaltar o poder militar e os avanços tecnológicos e. especialmente dos Estados Unidos. ia l ia ça o il o A a a lia in Su dá l Su as in id pã di qu an ra ss U. política. ha lia ia as Su in di pã u U. colocando no- vos desafios para a ordem mundial. ss o l éx an Itá Su nt Ar rq Ch Ín na ra id Br an ia Ja né E. As forças econômica. em exercê-lo. Ar né nt ia éx an Itá na Ch Un Ín Br st do Ja Ru áb E. as recuperações recentes das economias americana e japonesa ilustram essas forças. ss d o l éx an Itá Su nt Ar s rq Ch Ín na ra id Br an ia Ja né E. ia l ia ça o il o A a a lia in Su dá l Su as in id pã di qu an ra ss U. a capacidade do sistema capitalista central. científica e tecnológica do capitalismo central funcio- narão como fortes restrições às mudanças. ha lia ui sia as Su di pã U. Ru do ge M Fr Tu Un st áb ro Ca do em do Au Ar Eu Ar a 0 o ric In a Al in ei f o Re a or a Á in C o a ia il ça A ea a lia ic dá l in S. em r ge do ro do M Fr Tu Ca Au Ar Eu Ar no a In Al ca ei 0 i ha Re or ri sia Áf ico C a ea lia S. 638-655 .tinente e as novas institucionalidades surgidas após os movimentos de independên- cia e os processos de descolonização indicam que o continente africano terá nova posição no cenário econômico e político mundial. Ar né nt ia éx an Itá na Ch Un Ín Br st do Ja Ru áb E. em r ge do ro do M Fr Tu Ca Au Ar Eu Ar o ia In Al a in re Gráfico 2: G20: Participação relativa nas Exportações Mundiais. 2000 e 2011 ric 30 Re Co Áf 30 25 25 20 2000 2010 20 2000 15 2010 15 10 10 5 5 0 ico a ia ia il ça A o ea a a lia á l in S. Ru do ge M Fr Tu Un st áb ro Ca do em do Au Ar Eu Ar a o ric In ia Al in re Áf Re Co A continuidade desse processo de transformação não será simples. em 2000 e 2011 35 30 35 25 30 20 25 2000 2010 15 20 2000 2010 10 15 5 10 0 5 a ha sia ea ico lia S. Gráfico 1: G20: Participação relativa no PIB Mundial. cultural. 642 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). 2014 • pp. Adicionalmente. embora a Europa ainda se encontre em grandes dificuldades econômicas. mais ainda.

do forging ahead e do leap forging (Freeman. DO PODER MILIAR E DA ORDEM GLOBAL O papel da ciência e da tecnologia nos processos inovativos é tema recorrente na literatura econômica. No entanto. a ação pública passou a ser orientada para suportar e induzir esses processos (Lundvall. haven- do hoje múltiplos instrumentos e arranjos. Alburquerque & Suzigan. beneficiados pelas vanta- gens decorrentes do atraso (late comer). Igualmente. entre outros. Ele parte da concepção de fluxo circular. Esses elemen- tos poderão se traduzir em avanço relativo da periferia. Se há consenso sobre o papel da ciência e da pesquisa para a inovação. CIÊNCIA. Gráfico 3: Patentes concedidas nos Estados Unidos (USPTO) 5000 4500 4000 3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Brasil China Índia Rússia Fonte: Brasil. dos parques tecnológicos. dos núcleos de inovação tecnológica nas universidades. como sugerem vários autores na linha do catching up. Diniz et al. 638-655 643 . Indicadores da produção científica. o qual é rompido pelo processo de Revista de Economia Política 34 (4). 1988).. 2014 • pp. a exemplo das incubadoras. 2011. Ministério da Ciência e Tecnologia. desde os clássicos. demonstram a ascensão de países como China. Índia e Brasil. medidos através do número de artigos indexados e publicados nos maiores periódicos internacionais. 2006). que na prática seria um sistema de reprodução simples. 1992. No entanto. Perez & Soete. foi Schumpeter (1911) quem introduziu de forma sistemática o conceito de inovação como o elemento central na dinâmica capitalista. o número de patentes produzidas e depositadas pelos países periféricos em seus próprios domínios legais e nos grandes centros internacionais (Estados Unidos e Europa) também vem se ampliando. TECNOLOGIA E INOVAÇÃO: MOTORES DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. a capacidade científica e tecnológica de um conjunto de outros países vem se ampliando de forma significativa nos últimos anos. Em função disso. 2010. o grande desafio esta relacionado com a institucionalização e gestão desses processos.

portan- to. incorporando a concepção de “ondas longas” proposta origi- nalmente por Kondratieff (1926). da biotecnologia e da enge- nharia genética. o avanço e a generalização do uso da nanotecnologia. da generalização do padrão fordista de produção. energia eólica. fusão nuclear. o sexto Kondratieff está sendo constituído. com a emergência de outras fontes de energia (luz solar. da eletricidade e da indústria química. pela expansão do investimento estrangeiro e das empresas multinacionais. nova fonte de matéria- -prima ou novas formas de organização. Schumpeter propõe e analisa uma versão mais acabada dos ciclos econômicos. A maioria dessas novas trajetórias e tecnologias decorre da contribuição inter- disciplinar e do cruzamento dessas tecnologias. gerando desequilíbrio. ou seja. resgatando de forma bastante abrangente a discussão histórica e teórica no âmbito da ciência econômica e fazendo uma revisão acerca da importância e das contribuições posteriores dos trabalhos seminais de Kondratieff e Schumpeter. O pri- meiro Kondratieff (1789-1849) é caracterizado pela generalização de inovações na indústria têxtil. inovação. dentre elas o aperfeiçoamento das tecnologias da informação e comunicações (TICs). o próximo Kondratieff será caracterizado por múltiplas trajetórias tecnológicas. e o uso generalizado dos computadores pessoais no final da década de 1980 e início dos anos 1990. Em sua obra Capitalismo. motivada pela busca de lucro. dos automóveis. demons- trando que o processo de inovação é. o processo de pesquisa e desenvolvimento que su- porta os processos de inovação são desenvolvidos dentro das próprias empresas. Mais tarde. tratada como elemento exógeno. Para ele. Nesse mesmo livro. caracterizados por um cluster de inovações li- deradas por um único setor ou conjunto de setores. gerando um processo de integração 644 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). novo método. hidrogênio). o de criação do novo e destruição do velho. No nosso entendimento. O terceiro Kondratieff (1896-1940) é caracterizado pela ascensão do aço. A inovação era. Schumpeter (1939) demonstrou que no capitalismo consolidado ou oligopolizado. da produção e consumo de massa. novo mercado. 2014 • pp. O quinto Kondratieff tem início com a difusão das tecnologias da informação e comunicação. a inova- ção. de novos paradigmas e trajetórias energéticas. ao mesmo tempo. 638-655 . se dá de forma combinada ou alternativa de cinco formas: novo bem. crescimento econômico e ciclo. em As time goes by retomam o debate acerca das ondas longas no capitalismo mundial. É caracterizado pela era do petróleo. em diferentes aplicações. ao retomar a análise do papel da inovação no desenvolvimento. pelo uso do ferro e do vapor enquanto força motriz das máquinas. tendo como elementos centrais o ferro e o carvão. o autor entendia que a inovação era criada por um inovador isolado que a transferia para um empresá- rio inovador capaz de introduzi-la no processo produtivo. Freeman e Louçã (2001). Ao con- trário dos ciclos longos anteriores. O segundo Kondratieff (1849-1896) é caracterizado pela introdução e generalização da estrada de ferro. O quarto Kondratieff tem início durante a II guerra-mundial e dura até por volta de 1990. hidroenergia marítima. socialismo e democra- cia Schumpeter (1943) desenvolveu o conceito de “destruição criadora”. Em sua obra original. sistematizando e sintetizando os grandes ciclos.

todos esses elementos indicam que o novo ciclo terá características diferentes dos anteriores. Embora em períodos recentes o desenvolvimento econômico. a posição da América Latina continua muito limitada. observa-se Revista de Economia Política 34 (4). No caso do MERCOSUL. No entanto. as novas tecno- logias e os processos de inovação estejam totalmente articulados com o desenvol- vimento científico. mais huma- na e ambientalmente sustentável. comparativamente ao desenvolvimento de outros países. 1969). a pequena integração regional. Nesse sentido. Apesar das mudanças observadas na distribuição do poder mundial nos últi- mos anos. transformando o avanço científico e tecnológico num fim em si mesmo. A INSERÇÃO DO BRASIL Posição relativa e a inserção regional da América Latina É dentro do cenário de grandes transformações na economia mundial que se deve pensar as possibilidades da América Latina e do Brasil.crescente entre áreas de conhecimento e processos produtivos. um dos elementos de fragilidade da região é sua pequena integração intrarregional. a exemplo do NAFTA. entre seus argumentos. América Latina é mais uma concepção histórica e cultural. Brasil e México). EU e ASEAN. O México e os países da Améri- ca Central estão fortemente vinculados aos Estados Unidos. atualmente o bloco constitui um entrave aos países-membros para a negociação de acordos de comér- cio bilaterais. possuem base econômica. tecnológica e dinâmica econô- mica relativamente limitadas. cujas consequências. Os três países latino-americanos que compõem o G20 (Argentina. ALADI. especialmente dos asiáticos. são de difícil previsão. boas ou más para a humanidade. MERCOSUL. O clássico diag- nóstico de Prebisch (2000[1949]) e de vários outros autores sobre o atraso relativo da América Latina tinha. vem ocorrendo um gnosticismo tecnológico. tecnológicas. 638-655 645 . científica e tecnológica. Segundo Martins (2012). 2014 • pp. Apesar das várias tentativas feitas nas décadas que se seguiram à II Guerra. e não em instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. Tomado o comércio internacional dos grandes blocos econômicos. Portanto. com a criação da ALALC. falta prevalência dos objetivos sociais e humanos no processo de desenvolvimento. combinando a integração crescente das dimensões cientificas. huma- nas e ambientais. GRUPO ANDINO. a má distribuição da renda e a restrição da demanda (Furtado. os resultados alcançados são muito pequenos em comparação com outros processos de integração regional. o que tem restringido o crescimento econômico e o desenvolvimento tecnológico. Além de sua fragilidade econômica. embora com condições diferenciadas. pensar a integração regional do Brasil é pensar principalmente a integração com a Améri- ca do Sul.

por geraram seu próprio desenvolvimento tecnológico. Os pequenos países da América Central funcionam como países primário-exportadores. por comprarem tecnologia. apenas 26% do seu comércio internacional se faz dentro do próprio bloco. e os países da América Latina como integracionistas. Isso limitou e limita a capacidade de gera- ção de capacitação tecnológica e de processos inovativos que assegurem capacida- de de competição nos mercados globais e integração produtiva entre os mesmos. fortemente depen- dentes da dinâmica das economias avançadas. Inicialmente o Japão e. No caso do México. Canadá e México). Para Amsden os países asiáticos seriam classificados como independentes. a Rússia tem buscado retomar 646 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). enquan- to país como o Brasil possui escala e uma relativa tradição de global trader. 53% do comércio internacio- nal da região foi efetuado internamente no continente. a Coreia do Sul se industrializaram em empresas nacionais. sendo obrigadas a internalizar o esforço de pesqui- sa. 638-655 . Em contraste. Embora a industrializa- ção chinesa conte com a presença de empresas multinacionais. onde o principal ativo era o conhecimento (Amsden. está totalmente orientado para servir de suporte à formação de recursos humanos e à pesquisa. posteriormente. ele continua exportador de produtos primários e com uma estrutura social interna com grandes desigualdades. que vem sendo desenvolvido de forma acelerada. na América Latina. A industrialização desses países se fez com forte presença de empresas estran- geiras. este possui uma forte integração com os Estados Unidos. No caso da América do Sul. com vistas ao ganho de competitividade dos mercados globais. em 2010. pelo rela- tivamente vazio populacional no interior da América do Sul e pela deficiência do sistema de transportes. o sistema acadêmico universitário asiático. Essas características se contrastam fortemente com os modelos e padrões asiá- ticos. composto por apenas três países (EUA. No caso do NAFTA. Hong Kong e China sejam verdadeiras máquinas de exportação. Embora o Chile tenha sido aceito como membro da OECD e tenha uma integração internacional muito maior que a dos demais países da re- gião. 49% do comércio internacional destes se deu entre os mesmos. mas com propósitos semelhantes. No caso da União Europeia. Além da pequena complementaridade produtiva. Embora o Japão. as quais não internalizaram seus esforços de pesquisa. estas agem sob o absoluto controle do governo. Sistema produtivo este que tem como objetivos o crescimento. desenvolvimento e inovação nas indústrias aqui instaladas. há um grande obstáculo para a integração territorial da própria região. na América do Norte. Adicionalmente. visando atender ao sistema produ- tivo. Taiwan. 1989). facilitado pela proximidade geográfica. países de menor escala encontram grande dificuldade de se integrarem ao comércio inter- nacional inter-regional. De forma diferente. 2014 • pp. Mais recentemente os demais países asiáticos e a China seguiram padrões seme- lhantes.que a maioria deles possui uma forte integração intrarregional. a modernização e a inovação. Fato sig- nificativo é o caso asiático. o que funciona como protecionismo regional. a Coreia do Sul. 71% do co- mércio internacional dos países que a compõem ocorreu intrabloco.

acrescida de apro- ximadamente 4. denominada pelos demógrafos como “bônus demográfico”. Nesse sentido.3% das exportações. 6. a) Base produtiva Embora muito heterogênea. tanto no comércio interna- cional quanto no mercado interno. Potencialidades e desafios estruturais do Brasil Tomado o caso do Brasil.8%.5 milhões de km2 de plataforma marítima.5 milhões de km2.2% do PIB.9%. b) Tamanho e características de sua população Com 200 milhões de habitantes. No período 2000-2011. sua economia cresceu à taxa média anual de 3. Apesar da crise conjuntural.7% da produção científica. seu catching up tecnológico e a melhoria na distribuição de renda constituem o caminho necessário e inevitável para o fortale- cimento regional. mas apenas 1. com governos que oscilaram nos últimos 20 anos entre diferentes diretrizes e orientações ideológicas e de políticas econômicas. 638-655 647 . o país possui escala para ampliar seu peso econômico e o crescimento de seu mercado interno. observa-se que o país possuía. o Brasil possui hoje um grande percentual de sua população em idade ativa.3% da área geográfica. 2. Entretanto.seu esforço de pesquisa para modernização produtiva de forma acelerada. o país possui uma estrutura produtiva diversifica- da em todos os setores. constituída pela chama- da Amazônia azul. o que foi insuficiente para que a participação brasileira no PIB e nas expor- tações globais aumentasse de forma significativa. com drástica redução na taxa de crescimento no ano de 2012. em termos mundiais no ano de 2011. Revista de Economia Política 34 (4). 2011). inclusive como estratégia geopolítica para a integração no espa- ço mundial e como mecanismo de preservação das condições de paz da própria região. c) Uniformidade linguística e identidade cultural d) Bônus demográfico Tendo em vista as altas taxas de crescimento populacional das décadas ante- riores e a queda recente e acentuada dessas taxas.8% da população. 2014 • pp. 2. o que significa uma vantagem con- temporânea. A integração da América Latina. contra a média mundial de 2. este é um grande desafio. 2. o país possui grandes potencialidades para ampliar seu ritmo de expansão. b) Avanço científico recente Embora ainda esteja na 13ª posição no ranking mundial de produção científica. Potencialidades a) Área geográfica e recursos naturais O Brasil possui uma área geográfica de 8. serão listadas a seguir as poten- cialidades e os desafios estruturais para a economia e a sociedade brasileiras: 1. à luz de diferenças políticas e econô- micas na região. com vistas a recuperar seu poder na geopolítica mundial (Mazat & Serrano.

por sua vez. meios e visão estratégica. a nosso ver. o país vem avançando de forma acelerada. a integração mundial exige que sua população desenvolva habilidades em outras línguas. progresso técnico e inovações têm uma forte dependência do Departamento I da economia. b) Debilidade do departamento I da economia Qualquer processo de investimentos. Desafios a) Baixa escolaridade fundamental e média Esta é. é a condição decisiva para o avanço científico e tecnológico como base para o desenvolvimento econômico e social do país. que se transformou na língua franca mundial. produtor dos bens de produção. A incapacidade de articular o planejamento faz com que o gestor público atue quase que de forma pontual resolvendo problemas emergenciais aqui e acolá e de forma desarticulada. O grande desafio é o de criar condições técnicas. O país vem progredindo significativa- mente na sua produção científica e na qualificação de recursos humanos. d) Monolinguíssimo Embora. para a baixa consciência política e social de parcela expressiva da população. Este. c) Ambiente de paz com os vizinhos territoriais d) Estabilidade política e institucional Não há no cenário brasileiro indício de ruptura de sua estabilidade político- -institucional. e como preparação para o ensino superior. especialmente em inglês. a baixa escolaridade con- tribui para a baixa produtividade da economia brasileira. 2. por um lado. por outro lado. a baixa esco- laridade fundamental e média traz graves consequências para a qualificação pro- fissional de seus recursos humanos. institucionais e políticas para a transforma- ção desse conhecimento científico em conhecimento técnico e tecnológico. Por outro lado. 2014 • pp. seja bom que toda a população brasileira fale a mesma língua. todavia reduzindo o excessivo volume de normas que muitas vezes engessam e encarecem o gasto público produzindo dis- 648 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). especialmente no combate à corrupção. Um elemento central está rela- cionado com o peso da base produtiva estrangeira e a necessidade de que esta seja estimulada a internalizar no país seu esforço de pesquisa e desenvolvimento. embora a melhoria e o avanço de sua institucionalidade pública pre- cisam ser aperfeiçoados. médio e longo prazos e pensar em políticas de Estado. e) Entraves institucionais e burocráticos As instituições públicas brasileiras precisam avançar de forma a serem mais eficientes no uso do dinheiro público. com a sua aplicação para a inovação econômica e social. metas. Além da deficiência na formação de recursos humanos. 638-655 . c) Debilidade do planejamento estatal O país precisa retomar sua capacidade de realizar um planejamento de curto. a questão mais grave para o desenvolvimento brasileiro. sem uma definição clara de objetivos.

No capitalismo. da ciência. Esta tem como função a preparação Revista de Economia Política 34 (4). TECNOLOGIA E INOVAÇÃO COMO IMPERATIVOS PARA O DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO Sem negar a importância das potencialidades e dos desafios para o desenvol- vimento brasileiro antes listados. CIÊNCIA. Além de um processo migratório bastante significativo que impactou a ocupação do território brasileiro. o fortalecimen- to da educação básica (fundamental e média). Nesse sentido é necessário repen- sar as funções e o papel do Estado brasileiro. especialmente transportes A deficiência da infraestrutura se manifesta de forma mais aguda no sistema viário e dos portos. EDUCAÇÃO. O crescimento das regiões metropolitanas representa um desafio para a política pública brasileira. a maior parcela da produção e das inovações é feita pelas empresas privadas. 2014 • pp. O país fez uma opção rodoviária. para a tomada de consciência política e social. consequentemente. entende-se como requisito central para o desenvolvimento do país e para a implantação de um sistema nacional de inovação. Em primeiro lugar. além do problema do congestionamento urbano. e. i) A deficiência da infraestrutura em geral. da tecnologia e da inovação para o desenvolvimento econômico e social do país. a redução da desigualdade é condição para a melhoria do sistema educacional. h) Rápida concentração urbana A população brasileira se multiplicou por quatro nos últimos sessenta anos. Considerada a grande dimensão territorial do país. Simultaneamente ocorreu um forte processo de urbanização. f) Baixa integração das instituições e da comunidade científica com as ativida- des produtivas de bens e serviços Os modernos processos de inovação tecnológica estão fundamentados nos avanços científicos. preservada a natureza pública das universidades. cabe destacar o papel central da educação. 638-655 649 . Além da justiça social. tendo o grau de ur- banização subido de 36% em 1950 para 83% em 2010. torções e impedindo avanços estruturais do país. Nesse sentido. é necessário construir caminhos que permitam uma maior integração entre as universidades e o sistema empresarial e produtivo. a deficiência do sistema de transportes dificulta e encarece a integração comercial e sobrecarrega o custo das exportações. o que se soma à deficiência do sistema portuário e gera o chamado “custo Brasil”. g) Desigualdade social O Brasil é um país com os maiores níveis de desigualdade social. mas não possui uma rede de estradas em condições de fa- cilitar a integração. principalmente no que tange à infraestrutura e aos equipamentos urbanos. para o desenvolvimento do país.

complemento e melhoria da infraestrutura. científica e de conhecimentos e cultura gerais. A base científica e seu avanço contínuo e permanente conformam. portanto. O conhecimento científico pas- sou a ser o maior instrumento para a criação de novas empresas ou novos empreen- dimentos. A experiência histórica demonstra que os países que lideraram a produção e aplicação do conhecimento científico e tecnológico lideraram também o crescimen- to econômico e os padrões culturais e políticos entre os países e os povos. 1994). Isso implica uma nova concertação do pacto federativo com vistas à reconfiguração de responsabilidades. e adequação e acompanhamento permanente dos currículos. em um ambiente de paz interna e internacional e capaz de cooperar com outros povos e nações. não há definições claras dos meios e das metas para a sua consecução.das crianças e dos jovens brasileiros em sua escolaridade linguística. Se há consenso político e social sobre esses objetivos. o atrelamento entre o sistema acadêmico-universi- tário e o sistema empresarial tornou-se mais forte. A reestruturação. a condi- ção estrutural para o desenvolvimento. na tecnologia e na inovação. 638-655 . mais justo. para sua formação cidadã. na Coreia do Sul. para a modernização produtiva. 1992). instâncias institucionais para promover e estimular 650 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). Entre as principais ações para a construção de um sistema escolar básico. cujo maior destaque é o Vale do Silício e a Estrada 128 na região de Boston. A partir das experiências americanas. para a li- derança econômica e política e para a competição nos mercados doméstico e inter- nacional. Taedok. Entende-se que uma profunda reestruturação do sistema educacional brasilei- ro em seu nível inicial é condição fundamental para um projeto de desenvolvimen- to nacional que tenha como objetivo central a construção de um país mais rico. a exemplo de Tsukuba. público e de qualidade. mais harmônico e mais solidário. Partindo da concepção de um sistema público e universal. Os agentes públicos e privados pas- saram a buscar o planejamento dessas ações. capacita- ção profissional e preparação para os estudos universitários. das metas e dos caminhos alternativos e das reformulações estratégicas para a sua consecução. baseada na ciência. e Novosibirsk. introdução da es- cola em tempo integral. na Rússia. Foram criadas. foram criadas várias cidades científicas. dos meios. listaríamos quatro: capacitação e reconhecimento social e financeiro do professor. o aprimoramento e a implementação do sistema de educação básica compõem a primeira etapa para a construção dos meios necessários a uma sociedade do conhecimento. vários estudiosos passaram a analisar a constituição dos chamados sistemas institucionais de inovação. a primeira condição é a redefinição de atribuições das três instâncias de governo e da complementari- dade entre as mesmas. Após a II Guerra mundial. no Japão. Essas experiências foram generalizadas nos Estados Unidos e assimiladas em vários países da Europa e da Ásia. À luz dessas iniciativas. da forma de financiamen- to. criando instrumentos e articulações entre si com vistas a estimular e potencializar os processos de inovação. na maioria dos países. ambas nos Estados Unidos (Saxenian. alguns de forma planejada e outros de forma espontânea (Lundvall. matemática. 2014 • pp.

o CTA. que. com alta produtividade. o governo brasileiro montou um sofisticado e ativo sistema institucional de apoio à ciência e à tecnologia. o gasto do setor empre- sarial ainda não alcança 50%. há vários setores modernos que têm conseguido fazer seus alcances tecnológicos (catching up). com destaque para a criação de vários cen- tros federais de fomento à pesquisa ou especializados em alguns setores. Apesar de todo esse aparato. o número de patentes depositadas e a posição de várias universidades brasileiras nos rankings internacionais são indicadores do avanço da posição do país no contexto mundial. o país tem conseguido avançar em várias frentes. o setor serviço. Desse modo. 2014 • pp. embora ainda muito heterogêneo. necessita de tempo para seu amadurecimento e aperfeiçoamento. o INPE. há alguns pontos falhos que precisam ser aper- feiçoados. o INPA. com sua liderança na exploração de petróleo em águas profundas. Mesmo assim. tendo os demais setores industriais sido instalados também com grande atraso. 2006). todavia. na China e na Coreia do Sul o gasto privado em pesquisa e desenvolvimento gira em torno de 70% do total. Entre estes.. o Laboratório de Luz Síncrotrone a EMBRAPA. Tecnologia e Inovação (MCTI). Do ponto de vista do seu sistema acadêmico universitário. d) Ampliação do esforço de pesquisa pelo setor empresarial: enquanto nos países desenvolvidos. a exemplo do sistema bancário. A Estratégia Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação para o período 2012- -2015 (ENCTI. o Brasil fez um grande esforço institucional e político. cabe destacar: a) Reestruturação do sistema acadêmico universitário. centros de pesquisa e sistema empresarial a fim de fortalecer os sistemas nacionais. industriais e de comércio exterior. Mais recentemente. foram criadas fundações de apoio à pesquisa pelos estados federados. as primeiras indústrias têxteis só foram instaladas no Brasil aproximadamente 100 anos após a revolução industrial inglesa. o ITA. o setor agropecuário. publicada pelo MCTI. embora relativamente atrasado em relação ao mundo. no Brasil. o Ministério da Ciência. o crescimento do número de artigos científicos publicados. São exemplos a indústria aeronáutica. a partir da pioneira FAPESP. b) Novo marco regulatório do sistema de ciência e tecnologia. a interação de universidades.. com segmentos robustos. cabe ressaltar o CNPQ. Diniz et al. as denomi- nadas FAPs. competindo no mercado mundial como um dos grandes exportadores de commodities agrícolas. Entre estes. a FIOCRUZ. de forma a se obter melhores resultados do esforço de ensino e pesquisa e sua materialização na modernização produtiva. que consegue competir no mercado mundial de aviões mé- dios. O Brasil chegou atrasado ao processo. define as linhas gerais da política Revista de Economia Política 34 (4). c) Articular a política de ciência e tecnologia com as políticas macroeconômi- cas. Segundo Cano (1993). a CAPES. As primeiras instituições de ensino superior somente foram criadas na segunda metade do século XIX e as primeiras universidades so- mente no século XX. a Petrobras. 2011). regionais ou locais de inovação (Braczyk et al. Além do sistema universitário público. 638-655 651 . 1998. Do ponto de vista produtivo. a FINEP.

A esse respeito. Biotecnologia. agora. 30 milhões de km2 e abundância de recursos. É diante desse cenário que se deve pensar a posição relativa e as formas de inserção do Brasil. também. Petróleo e Gás. G20. Essas mudanças na geo- grafia econômica poderão trazer também mudanças na geografia política. sistema de segurança. Discute. Nanotecnologia. a partir de uma avaliação crítica. Ressalte-se ainda a importância da África. 638-655 . a Estratégia não define com clareza os objetivos prioritários. a escolha de alternativas. não indica os diferentes caminhos estratégicos e. especialmente da China. como retra- ta a passagem do G6 para G7. Nuclear. como analisado na segunda seção deste trabalho. À guisa de conclusões Como demonstrado ao longo do texto. Biodiversidade. não quantifica os meios e as metas. Aeroespacial. A perda de importância relativa da então União Soviética. para alcançar liderança internacional. Cidades Sus- tentáveis. dos quais decorreu a guerra fria. No entanto. construir e manter a infraestrutura de pesquisa. Um liderado pelos Estados Unidos e o outro pela União Soviética. a estrutura de poder mundial se baseia em quatro pilares básicos e articulados entre si. Ao lado de suas potencialidades. Em um mundo com grandes mudanças econômicas e tecnológicas e em crescente compe- tição. são abertas janelas e oportunidades para que novos países assumam papel de destaque na nova ordem econômica e política mundial. tecnologia e inovação constituem um dos eixos estruturantes do desenvolvimento brasileiro. há que ressaltar os grandes 652 Brazilian Journal of Political Economy 34 (4). G8 e. Energia Renovável. Identifica os desafios para superar a defasagem tecnológica do Brasil. embora ainda tímida. Complexo Industrial da Defesa. 2014 • pp. os dois blocos en- traram em crise. vem ocorrendo grande crescimento econômico dos países periféricos. Após um período de sucesso de ambos. a governança mundial exige a presença de novos atores. fazer a promoção empresarial. Ao lado das crises dos sistemas centrais. aperfeiçoar o marco legal e estimular os arranjos institucionais facilitando a ponte entre a pesquisa e sua utilização. Oceanos e Zonas Costeiras. A Estratégia define um conjunto de setores como prioritários para o desenvol- vimento brasileiro. Parte da concepção ou definição de que ciência. capacidade de produção. do Japão e da União Europeia se conjuga com o crescimento da importância de outros países. para a sustentabilidade e desenvolvimento de economia de baixo carbono e para alcançar objetivos sociais de superação da pobreza e das desigual- dades. capacitar os recursos humanos. força da moeda e das finanças in- ternacionais e conhecimento (ciência. a saber: Tecnologias da Informação e das Comunicações. dos Estados Unidos.brasileira. com destaque para a China e a Índia ou dos países que compõem o acrônimo BRICS. a saber: controle do território. Mu- danças Climáticas. tecnologia e inovação) Após a II Guerra Mundial o poder mundial foi estruturado em torno de dois blocos. os meios e os caminhos para viabilizar o financiamento. por possuir 1 bilhão de habitantes. Fár- macos e Complexo Industrial da Saúde.

B. Second tier cities: rapid growth beyond the metropolis. Brown. (2009) A ascensão do “resto”: os desafios ao Ocidente de economias com industrializa- ção tardia. Brzezinski. Minneapolis: University Minnesota Press. A. Um elemento central é a necessidade de se pensar projeto de nação e de se definir com alguma clareza o papel do Estado no processo de desenvolvimento. Diniz. especialmente os da África e da América Latina. G et al. Amsden. inclusive com a urgente necessi- dade de reforma do Estado brasileiro. (1985) The rise and fall of Keynesian economics: an investigation of its contribution to capitalist development. Belo Horizonte: Autêntica Editora. &Crocco. E. Diniz. Oxford: Oxford Uni- versity Press. 2012. Fulton. M.C. (1946) Discurso proferido no Westminster College. C. Bleaney. E. W. M. e Lemos. Dosi. org. São Paulo. (2011) Em busca da inovação: interação universidade-empresa no Brasil. a rápida con- centração urbana sem a adequada oferta de infraestrutura e serviços. 2014 • pp. A. C. C. Campinas: Editora da Unicamp. L. Second tier cities: rapid growth beyond the metropolis. Suzigan. et al. Rio de Janeiro: Record. C. Diniz. e Razavi. Economia Regional e Urbana: contribuições teóricas recentes. e Santos. inovação e desenvolvimento regional/local”. in Diniz. C.T. M. (2011) “Structuralist macroeconomics and new developmentalist”. M. (1986) EUA-URSS: o grande desafio. Economia e Território. C.(2006) “Conhecimento. FGV: Texto para Discussão Nº 298. W. Bresser-Pereira. FFLCH/USP: Costa.G. Diniz.. 1. Costa. in Markusen. 638-655 653 . (2012) Depois da crise: a China no centro do mundo? Rio de Janeiro: Edi- tora FGV. Rio de Janeiro: Nórdica. a baixa qualidade da educação fundamental e média. Belo Horizonte: Editora UFMG. (2005) Política e território em tempos de mudanças globais. M. São Paulo: EDUSP. A. W. Referências bibliográficas Albuquerque. Churchill. (1989) Asia’s next giant: South Korea and late industrialization. C. M. C. Destacam-se as grandes desigual- dades sociais. (2008) Geografia Política e Geopolítica. orgs.. v. H. (2005) “Economia do conhecimento e desenvolvimento regional no Brasil”. Para a superação desses desafios. W. W. M. enfatiza-se o papel central da educação. L. C. (1993) Reflexões sobre o Brasil e a nova (des)ordem internacional. C. Revista de Economia Política 34 (4). Belo Horizonte: Editora UFMG.C. da ciência e da tecnologia como instrumentos básicos para um processo de desenvolvimento que seja capaz de combinar crescimento econômico e justiça social com uma inserção internacional que considere nossa competição com os países desenvolvidos e nossa solidariedade com os países do sul. A. São Paulo: Unesp. e Gonçalves. in Diniz. C. Londres/Nova York: Pinter Publishers. (1992) Technical change and economic theory. 2011. et al. São Paulo: Tese (Livre-Do- cência). (1999) “São José dos Campos and Campinas: state anchored dynamos”. H. Amsden. Estados Unidos. Reino Unido: Macmillan Education. Minneapolis: Univer- sity Minnesota Press.obstáculos e desafios que precisam ser superados. Cano. Bresser-Pereira. in Markusen. F. A. et al. a debilidade do Departamento I e as deficiências da infraestrutura. (1999) “Manaus: vulnerability in a satellite platform”. Z. C. (2011) Ascensão e queda do comunismo.

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