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INVENTÁRIO DAS VARIANTES NAHUKWÁ E MATIPU

DA LÍNGUA KARIB DO ALTO XINGU

PROJETO
Levantamento Sócio-Lingüístico e Documentação da Língua e das
Tradições Culturais das Comunidades Indígenas Nahukwa e Matipu
do Alto Xingu

Ref. Processo no 08012.004267/2008-12

Termo de Cooperação nº 006/2009 firmado entre o MJ/SDE/FDD e a
UFRJ (Museu Nacional)

Coordenadora: Profa Dra Bruna Franchetto

Abril 2009 - Junho de 2010
Apresentação

O Inventário das variantes Nahukwá e Matipu da língua Karib do Alto Xingu
(LKAX) é o principal produto previsto pelo Projeto Levantamento Sócio-Lingüístico e
Documentação da Língua e das Tradições Culturais das Comunidades Indígenas
Nahukwa e Matipu do Alto Xingu, apoiado pelo Fundo Gestor de Direitos Difusos-
CFDD do Ministério da Justiça (Ref. Processo no 08012.004267/2008-12), através do
ermo de Cooperação nº 006/2009 firmado entre o MJ/SDE/FDD e a Universidade
Federal do Rio de Janeiro-Museu Nacional. O Apoio do Museu do Índio (FUNAI-RJ)
foi essencial em termos da disponibilização de equipamentos para a documentação em
campo, a edição das gravações, o armazenamento dos arquivos digitais e a produção dos
resultados (design e cópias.
O Inventário se organiza seguindo o roteiro proposto pelo Grupo de Trabalho
Diversidade Lingüística-GTDL para O Inventário Nacional da Diversidade Lingüística-
INDL, iniciativa do IPHAN. Este Projeto é um dos projetos-piloto do INDL.
O Projeto vigorou de abril 2009 a junho de 2010 com uma equipe composta por:

 Coordenadora: Profa Dra Bruna Franchetto (UFRJ-MN, linguista e
antropóloga);
 Sub-coordenadora: Dra Mara Santos (pós-doutoranda CNPq, UFRJ-MN-
PPGAS, linguista);
 Coordenador local: Aigi Nahukwa (professor, Licenciatura pela UNEMAT);
 Pesquisadores:
- Thiago Coutinho da Silva (mestre em Lingüística pela USP e doutorando em
Lingüística na UFRJ);
- Aline Varela e Juliano do Espírito Santo (IC-CNPq, UFRJ, hoje mestranda em
Lingüística);
 Juliano Leandro do Espírito Santo ((IC-CNPq, UFRJ, Lingüística);
 Pesquisadores indígenas: Mutua Mehinaku (mestrando UFRJ-MN-PPGAS),
Kaman Matipu Licenciatura pela UNEMAT), Kulumaka Matipu;
 Cinegrafistas indígenas: Takumã, Mahajugi e Münai Kuikuro;
 Assistente de edição: Joana Collier.

Experiências anteriores:

Bruna Franchetto foi coordenadora do Projeto Linguistic, Historical and Ethnological
Documentation of the Upper Xingu Carib Language or Kuikuro (Brazil), de 2002 a
2006, projeto apoiado pela Volkswagen Stiftung (Alemanha), no âmbito do Programa
Internacional DOBES (Documentação de Línguas Ameaçadas). O modelo clássico de
documentação inclui uma descrição geral de uma 'língua', contida em uma gramática,
um léxico e textos. A lingüística documental atual inova essa tradição: documentar
implica em um modelo de pesquisa empírica e uma metodologia rigorosa que faz uso de
tecnologias de ponta. A constatação do processo rápido e sem volta de perda lingüística
nos grupos indígenas, minoritários e sitiados por uma língua e uma cultura dominantes,
fazem da documentação uma tarefa crucial. As novas tecnologias de registro, anotação e
armazenamento de dados, bem como o envolvimento em projetos de manutenção e
revitalização lingüísticas, traçam o novo perfil da documentação. Descrição e análise
são vistas como atividades paralelas que se alimentam passo a passo dos dados gerados
pela documentação, possibilitando uma re-elaboração constante. Documentar uma
língua, hoje, significa coletar, digitalizar, organizar, transcrever e anotar o maior
número possível de gravações, em áudio e em vídeo, de eventos de fala, permitindo uma
amostra, a mais extensa e variada possível, dos diversos gêneros de discurso, de arte
verbal, de fala coloquial e formal. São utilizamos programas (free softwares) como
Toolbox (para as bases de dados lexicais e para a anotação de sessões áudio), LEXUS
(para bases lexicais), ELAN (para a anotação de sessões áudio e vídeo),
TRANSCRIBER (para a transcrição de sessões áudio), ECONV (para a conversão entre
formatos), IMDI-Editor e IMDI-Browser (para a elaboração de metadata e o acesso aos
arquivos digitais). A alimentação dos arquivos é e será contínua graças aos softwares
para upload LAMUS e NEXUS, produzidos pelo Instituto Max Planck de
Psicolingüística. O Projeto DOBES permitiu a construção de um acervo digital
multimídia da variante Kuikuro, com 300 horas de gravação áudio e vídeo. uma base
lexical com 3 mil entradas, uma dissertação e uma tese com descrição e análise da
morfologia Kuikuro e um grande número de trabalhos publicados e inéditos sobre
sintaxe e tradições orais desta mesma variante.
Com a criação do grupo de pesquisa Documenta Kuikuro, do qual fazem parte
pesquisadores do Museu Nacional-UFRJ e indígenas, da Associação Indígena
Kuikuro do Alto Xingu-AIKAX e do Centro de Documentação da aldeia Ipatse
(Kuikuro) em 2007, e graças aos projetos financiados pelo PDPI (MMA). Petrobrás
Cultural (MINC) e IPHAN, está sendo concluída a documentação completa dos rituais
Kuikuro, com quase 200 DVDs e o apoio do Museu do Índio-FUNAI.
Bruna Franchetto possui Bolsa de Pesquisa CNPq com o Projeto Documentação
de Línguas Indígenas: exploração de fatos gramaticais, históricos e etnolingüísticos
a partir de arquivos multimídia e, desde 2008, é Coordenadora do Programa de
Documentação de Línguas Indígenas-PRODOCLIN, Museu do Índio-FUNAI e
UNESCO, com 13 projetos em andamento.
A coordenadora do presente Projeto é consultora do Programa DOBES e do
Programa ELDP (Endangered Languages Documentation Program) do SOAS,
Universidade De Londres.

Metodologia

A metodologia usada foi a da moderna documentação lingüística, associada com o
método de pesquisa de campo em etnologia e o uso de tecnologia de ponta.
Entendemos como documentação a construção de um acervo digital multimídia
a partir de gravações áudio e vídeo. Utilizamos câmaras de vídeo profissionais
(emprestadas pelo PRODOCLIN) e gravadores digitais Zoom e Panasonic (adquiridos
pelo presente Projeto). O PRODOCLIN nos forneceu também os HD externos para
armazenar os dados coletados e editados. No Rio de Janeiro, as mídias originais
foram rotuladas; os correspondentes arquivos digitais estão sendo editados para
produzir sessões (eventos de fala) que possam ser anotadas (transcrição e tradução,
como anotação mínima) usando o software ELAN.
A realização de uma Oficina de Documentação foi uma modalidade da
metodologia adotada. A Oficina em área indígena possibilitou o envolvimento intensivo
das comunidades indígenas, uma formação inicial de pesquisadores indígenas, que
poderão continuar o trabalho com o nosso acompanhamento, uma melhor organização
do trabalho de campo (ver a seguir a descrição da Oficina).

A documentação em vídeo de toda a Oficina foi realizada pelos cinegrafistas
indígenas do Coletivo Kuikuro de Cinema, usufruindo de sua sólida formação como
documentaristas, formação adquirida junto à ONG Vídeo nas Aldeias ao longo dos
projetos DOBES e PDPI, entre outros.

Descrição do trabalho realizado

O trabalho relativo à Documentação lingüística foi estruturado nas seguintes fases:
1. Preparação: compra de materiais de consumo e equipamentos, leituras, organização
dos materiais para o trabalho de campo (identificação e cópia de imagens e de
documentos históricos e iconográficos, elaboração de mapas, etc.), organização do
trabalho de campo - abril-setembro 2009;

2. Viagem de campo, 14/10 a 4/11 2009: Oficina, 18/10 a 2/11 2009 (ver descrição
detalhada a seguir);

3. Edição e Análise dos dados coletados (transcrição, tradução, etc.), 5/11 a 15/12
2009;

4. Elaboração dos produtos (Vocabulário comparativo, Relatório INDL, Diagnóstico
Sociolingüístico, design gráfico, etc.);

OFICINA

A Oficina de Documentação realizada na Aldeia Ngahünga (Matipu), localizada na
Terra Indígena do Xingu - MT, aconteceu entre os dias 18 de outubro e 02 de novembro
de 2009.
Foi realizado o Levantamento Sociolingüístico primeiramente na aldeia
Ngahünga, depois nas aldeias Magijape e Ĩtagü ( o levantamento para a aldeia Jagamü
foi realizado após a Oficina pelo professor e pesquisador indígena Aigi).
No módulo dedicado ao estudo lingüístico foram abordados e discutidos vários
aspectos da gramática da LKAX utilizando como gatilho as análises já realizadas dos
dados kuikuro nas áreas da morfologia, sintaxe e fonologia. O material coletado
possibilitará averiguar com precisão as diferenças fonológicas, lexicais e morfológicas
entre as variantes e iniciar a construção de um corpus comparativo. Todas as aulas
foram gravadas e filmadas pelos cinegrafistas indígenas e seus aprendizes.
Ao longo da Oficina, tivemos vários momentos de discussão acerca das
expressões metalinguísticas usadas para identificar e distinguir as variantes: o Kukuro é
falado ‘reto, direto’, o Matipú-Uagihütü é ‘caído` (ou como dizem maliciosamente os
Kuikuro, “são os caipira”), Nahukwá, Matipu e Kalapalo falam “em onda, curvas,
pulos”. A discussão sobre estes termos nos revelou o quão é necessário empreender a
tradução lingüística destas observações baseadas na apreciação qualitativa do ritmo,
desde uma análise experimental dos parâmetros acústicos e perceptivos até uma
abordagem formal. Um componente importante da Oficina foi a documentação da
história oral dos povos Jagamü (Nahukwa), Uagihütü (Matipu) e Matipu ‘novo’, através
gravações em vídeo e áudio com os mais velhos e lideranças.
Oficina na aldeia Ngahünga. Fotos de Mara Santos e AlineVarela.
No alto, esquerda: fazendo mapas etno-históricos; direita: apresentação do Projeto.
Em baixo, esquerda: entrevista sobre história Uagihütü com Tikugi e Ijali Kuegü; direita: oficina de
vídeo.

Houve a inscrição formal de 23 pessoas, que receberam certificado; para os
professores indígenas, a SEDUC-MT se comprometeu a considerar a Oficina como
parte de sua formação continuada:
1- Jalui Matipu
2- Djanama Yaluiké Matipu
3- Kaiapo Murilo Matipu
4- Kulumaka Matipu
5- Autá Kumaré Matipu
6- Kani Matipu
7- Tamapü Nahukwá
8- Euka Nahukwá
9- Münai Kuikuro (Professor – cinegrafista)
10- Yakálo Kalapalo
11- Raguita Tamaisca Nahukwá
12- Taliko Kalapalo
13- Igahoka Matipu
14- Wanakagü Kalapalo
15- Mayagu Mutuá Matipu
16- Takumã Kuikuro (Professor – cinegrafista)
17- Kaman Nahukwá
18- Marrayary Jair Kuikuro (Professor – cinegrafista)
19- Kuany Kalapalo
20- Aigi Nahukwá
21 – Mayke Matipu
22 – Kohizinho Viola Kalapalo
23 – Tawana Kalapalo

Participaram também ativamente especialistas indígenas (mestres de narrativas e de
rituais):

- Agihiga, chefe da aldeia Ngahünga (Matipu).
- Jamatua, Matipu, chefe da aldeia Ngahünga.
- Ijali Kuegü, Uagihütü, chefe da aldeia Ĩtagü.
- Tikugi, Uagihütü, moradora da aldeia Magijape.
- Mügaika, Yawalapiti e Kuikuro, morador da aldeia Ngahünga.

Jamiku, Nahukwa, pai do coordenador local (Aigi Nahukwa) e morador da
aldeia Jagamü, nos recebeu na cidade de Canarana, para gravar entrevista sobre a
história dos Jagamü.
RELATÓRIO INDL

I. Identificação da língua
Trata-se da identificação de variantes de uma mesma língua, a Língua Karib do Alto
Xingu – LKAX. A LKAX é composta por duas variantes, cada uma delas composta por
sub ou co-variantes:

- Co-variantes Kuikuro e Uagihütü, da variante falada pelas etnias Kuikuro e Matipu
antigo (este último, daqui em diante, Uagihütü).
- Co-variantes Matipu, Nahukwa e Kalapalo faladas pelas etnias Matipu, Nahukwa e
Kalapalo.

Este inventário diz respeito às co-variantes Uagihütü, Matipu e Nahukwa.

É impossível falar de Uagihütü, Matipu e Nahukwa independentemente das outras
etnias falantes de LKAX (Kuikuro e Kalapalo). Eles pertencem ao sub-sistema karib
alto-xinguano, por sua vez inserido no sistema multilíngüe e multi-étnico conhecido
como Alto Xingu, situado a nordeste do Estado de Mato Grosso, hoje incluído na
porção meridional da Terra Indígena do Xingu (TIX), antes Parque Indígena do Xingu
(PIX). A existência de um sistema regional (como é o do rio Negro, no noroeste
amazônico) implica na necessidade de adotar uma visão compreensiva das relações
entre as suas comunidades, tanto do ponto de vista tanto histórico como sincrônico.

Denominação mais corrente: Matipu, Nahukwa.

Auto-denominações: Uagihütü, Jagamü
Matipu, Nahukwa, Kalapalo, Kuikuro são denominações registradas ao longo da
história do contato com os Brancos e o Estado. Há uma questão sabidamente complexa
que deve ser considerada e que concerne denominações (etnônimos e heterônimos) e
auto-denominações (auto-etnônimos). No Alto Xingu não existem, originalmente, nem
‘nomes de etnias/povos’ nem ‘nomes de aldeias’. Estes resultam, na maioria dos casos,
de (re)interpretações de ‘nomes’ dados por outros grupos e então fixados em
documentos escritos por viajantes, pesquisadores (não-indígenas) e agentes do estado.

Os alto-xinguanos nomeiam lugares, ou seja, atribuem topônimos, dos quais derivam os
nomes de grupos locais. Os Karib alto-xinguanos (falantes da LKAX) usam a expressão
X ótomo, oto-mo, dono/mestre-PL, ‘os donos/mestres do lugar X’. Ótomo pode denotar
um grupo local/aldeia ou mais grupos locais/aldeias que gravitam em torno de uma
aldeia central ou principal. As denominações dadas pelos estrangeiros se tornaram de
uso corriqueiro na comunicação entre índios e não-índios até serem adotadas e
congeladas em documentos (certificados de nascimento, carteiras de identidade, fichas
médicas, etc.), tornando-se sobrenomes e assim incorporadas ao uso por parte das novas
gerações indígenas. Não poucas vezes, tal ‘sobrenome’ é fruto de um equívoco. Um
exemplo é o nome do nosso consultor Kaman Nahukwa: de fato ele é Uagihütü, mas foi
rotulado como Nahukwa quando habitava em uma aldeia considerada, na época, como
Nahukwa.
Os assim chamados Nahukwa são (os descendentes dos) Jagamü ótomo, um ou mais
grupos locais habitantes do lugar Jagamü. Nahukwa e Kalapalo têm uma origem
comum. Os Matipu são (descendentes do) Uagihütü ótomo (uagi-hütü, ´jatobá-lugar
de’, hütü sendo um sufixo não mais produtivo e provavelmente de origem, arawak, não
karib). Os Uagihütü ótomo são descendentes dos Oti ótomo (os mestres/donos do
campo), dos quais descendem também os Kuikuro (Lahatua ótomo). Hoje há apenas
uma família Uagihütü na aldeia Ĩtagü. O resto dos Uagihütü ótomo se juntou aos
Nahukwa (Jagamü) do início do século XX. Os Matipu e os Nahukwa de hoje são fruto
da convivência numa mesma aldeia (Magijape), com inter-casamentos, do início do
século XX até os anos 70 do mesmo. Fissões e fusões de grupos locais influíram
decididamente na formação de variantes e na supremacia de umas sobre outras: a
variante Uagihütü é hoje falada apenas por 11 pessoas e na fusão entre Nahukwa e
Uagihütü, a variante Nahukwa-Jagamü se tornou dominante. Voltaremos a esta
intricada história.

Denominação em Português (grafias):
Matipu (em outra grafia mais antiga, Matipuhy), Nahukwa (Nahuquá, Nafuqua,
Nafukwa).

Os heterônimos Matipu e Nahukwa derivam de nomes ouvidos pelos Brancos de outras
etnias alto-xinguanas:
- Nahukwa vém de Anahukwa (em outra grafia, Anahuquá), nome originário dado pelos
Mehinaku (povo alto-xinguano de língua arawak) a todos os grupos karib,
provavelmente a partir do nome Angahuku, dado ao atual rio Buriti (ou Mirassol), já
que era no alto e médio curso deste que se concentravam, originalmente, os Jagamü
ótomo. O primeiro kagaiha (Branco) a usar o termo ‘Nahuquá’ foi o etnólogo alemão
Karl Von den Steinen, que visitou o Alto Xingu no final do século XIX. Steinen deixou
claro, contudo, que ele estava usando este termo para se referir a todos os grupos karib
alto-xinguanos, consciente de que era um rótulo genérico para povos que se auto-
denominavam de outras maneiras.
- A origem do nome Matipu é ainda um mistério; não está em Steinen, mas é encontrado
nos documentos escritos da época das viagens de membros do SPI já nas primeiras
décadas do século XX. Talvez derive de mati(?)-pühü, -pühü sendo um sufixo de
origem arawak significando ‘conjunto de’.
- A mesma lógica ou história vale para os outros povos karib do Alto Xingu: Kuikuro
vém de kuhi ikugu, ‘igarapé dos peixes kuhi (agulha)’, nome do local da primeira aldeia
fundada Mütsümü e Hikutaha, chefes do grupo que se separou dos Uagihütü antes da
metade do século XIX.
- Kalapalo é termo de origem Mehinaku e significa ‘do outro lado’.

Caracterização e classificação:
Variantes da língua karib alto-xinguana-LKAX, um dos dois ramos meridionais da
família lingüística karib (Ramo Xinguano, Meira e Franchetto, 2005). A variante
Uagihütü é hoje falada apenas por uma única família na pequena aldeia de Ĩtagü (sua
co-variante é o Kuikuro); os hoje chamados de Matipu e Nahukwa das outras aldeias
falam co-variantes da variante falada pelos Kalapalo. Ver ANEXO 1 com a
classificação da família karib proposta por Meira (2006).
Região de origem: Os grupos chamados de Matipu e Nahukwa devem ser
considerados como habitantes ‘imemoriais’ da região na qual se encontram hoje, o Alto
Xingu, porção sudeste do Parque Indígena do Xingu, hoje Terra Indígena do Xingu. Por
outro lado, devemos considerar que as fronteiras do Parque deixaram fora de seus
limites meridionais muitos dos territórios originais dos povos karib alto-xinguanos. Se
remontarmos a épocas anteriores à gênese do sistema multilíngüe e multi-étnico alto-
xinguano, é possível confirmar a hipótese de que os Karib alto-xinguanos são
descendentes de uma migração específica vinda do norte amazônico, que se deslocou ao
longo do vale do Rio Xingu até a região de suas cabeceiras. Os antepassados dos Karib
alto-xinguanos devem ter se deslocado para o oeste do rio Culuene, formador do Xingu,
vindo do leste, entre os séculos XVI e XVII. Ver adiante para uma reconstrução
histórica, mas é necessário alertar de que estamos diante de hipóteses baseadas em
estudos arqueológicos e lingüísticos, já que a história oral recua não mais do que dois
ou três séculos (ver Item III.1).

Estatuto: Indígena

II. Distribuição geográfica e localização das comunidades

 

 
 
 
 
 
 
 

Mapa 1: Parque ou Terra Indígena do Xingu
 
As comunidades Nahukwa e Matipu habitam 4 aldeias na margem direita do rio
Culuene, e nos altos rios Curisevo (ou Culiseu) e Buriti (ou Mirassol), todos formadores
do rio Xingu. Seus territórios foram parcialmente incorporados ao Parque Indígena do
Xingu (hoje Terra Indígena do Xingu), criado em 1961 e homologado em 1979, após
sofrer sucessivas alterações de seus limites, no estado de Mato Grosso, com uma área de
cerca de 22.000 km2.

No Mapa 2, apresentamos a distribuição das aldeias karib alto-xinguanas em
2009/2010:

Mapa 2: Aldeias/grupos locais karib alto-xinguanos em 2009-2010:
ALDEIAS Karib AX

NAHUKUÁ (NH), população: 167.

Nahukuá 1 Magijape – (‘conjunto/plantação de magija(?)’, margem
direita do rio Culuene), população 106.
Nahukuá 2 Jagamü (auto-denominação) NH, rio Curisevo, próximo da
divisa do PIX), população 61.

MATIPU (MT) – população: 128.

Matipu 1 Küngahünga (porto Janaí, margem direita do Rio Culuene),
população 115.
Matipu 2 Ĩtagü (ou Hakatu, rio Buriti, falantes do ‘Matipu original’),
população 13.

KUIKURO (KK) - população: 600 (cerca de, não inclui os KK que vivem na aldeia
Yawalapiti e em outras aldeias).

Kuikuro 1 Ipatse (porto Iguka, 2 km a partir da margem esquerda do Rio Culuene)
Kuikuro 2 Ahukugi (margem direita do Rio Culuene)
Kuikuro 3 Lahatuá (km a partir da margem esquerda do Rio Culuene)
Kuikuro 4 Asã enkgugetoho (‘porto do veado’ / Paraíso, margem esquerda do Rio
Culuene)
Kukuro 5 Tangurinho (rio Tanguro, próximo à divisa do PIX)
Kuikuro 6 Curumim

KALAPALO (KP) – população: 700 (cerca de)

Kalapalo 1 Aiha (‘pronto, acabado’ – porto Kanho, margem direita do Rio Culuene),
população 267.
Kalapalo 2 Tanguro (margem direita do Rio Culuene), população 128.
Kalapalo 3 Tehu ũgu (‘nuca da pedra’ / Kunué ou Pedra, margem direita do rio
Culuene), população 16.
Kalapalo 4 Tahoki (tipo de árvore ? Lago Azul, próximo da divisa do PIX e
PIV Culuene), população 34.
Kalapalo 5 Agata (Taũgi hotepügü ‘que Taũgi queimou’ / barranco queimado,
margem esquerda do rio Culuene). População?
Kalapalo 6 Kahindzu (não está no mapa, porto da aldeia KK Paraíso), população?
Kalapalo 7 Tangurinho (rio Tanguro, próximo à divisa do PIX), população 27
PIV Culuene
Caramunju (?)
 
 

III. Caracterização lingüística e histórico-cultural

Os povos Nahukwa, Matipu, Kuikuro e Kalapalo constituem o o sub-sistema karib
alto-xinguano. Este se localiza na porção sudeste do sistema alto-xinguano. A região
das nascentes do rio Xingu, o principal afluente meridional do rio Amazonas, é
conhecida como ‘Alto Xingu’ e constitui uma unidade ecológica, cultural e política.
Desde 1968 faz parte do Parque Indígena do Xingu-PIX, hoje rebatizado de Terra
Indígena do Xingu-TIX.

O Alto Xingu é um sistema multilíngüe e multi-étnico cuja formação se inciou há
pelo menos 3 séculos. Nele, convivem, ainda hoje, falantes de:
- LKAX, Língua Karib Alto-Xinguana com as suas variantes e co-variantes:
Kuikuro-Uagihütü, de um lado, Kalapalo-Nahukwá/Jagamü-Matipu, do outro;
- Waujá e Mehinaku, variantes de uma mesma língua arawak;
- Yawalapiti, outra língua arawak;
- Kamayurá, uma língua tipicamente tupi-guarani;
- Aweti, língua às margens da família tupi-guarani;
- Trumai, língua isolada.
Estamos diante de um sistema regional histórica e etnograficamente complexo,
com tradições de origem distinta, línguas geneticamente distintas e variantes
internas a cada língua, um amálgama que articula semelhanças e diversidade, com
processos de tradução nas diferentes línguas de conceitos e ‘objetos’
compartilhados.
• compartilhamento de conceitos, modelos, tradições, condutas verbais e
não-verbais, padrões e valores de interação verbal e não-verbal

O Alto Xingu é um sistema nativo ainda vigoroso para o qual são vitais a
convivência de línguas distintas e o compartilhamento de uma mesma cultura.

Composição dialetal:
Este inventário diz respeito às co-variantes Uagihütü, Matipu e Nahukwa, no interior de
de uma mesma língua, a Língua Karib do Alto Xingu – LKAX.
A LKAX é composta por duas variantes, cada uma delas composta por sub ou co-
variantes
- Co-variantes Kuikuro e Uagihütü, da variante falada pelas etnias Kuikuro e Matipu
antigo (este último, daqui em diante, Uagihütü).
- Co-variantes Matipu, Nahukwa e Kalapalo faladas pelas etnias Matipu, Nahukwa e
Kalapalo.

Apesar de uma história razoavelmente longa de convivência e de tráfego de pessoas,
rituais e idéias entre os diversos povos do sistema alto-xinguano, as diferenças
lingüísticas se mantiveram e a língua, inclusive no nível das variantes dialetais, continua
sendo o diacrítico básico que mantém as diferenças dinamizando o sistema como um
todo. O multilingüismo diacrítico levou a uma impressionante reflexividade
metalingüística, tópico já abordado por Franchetto (2001, 2003, 2006).
Três níveis distintos de identidade lingüística estão presentes no discurso nativo no
interior do sistema alto-xinguano: a) ser, por exemplo, Uagihütü (ou Kalapalo, Wauja,
etc.) é ser único na singularidade lingüística de seu próprio ótomo (grupo local, oto-mo,
mestre/dono-PL); (b) ser um ‘outro igual’ (otohongo) em relação à aldeia em que se fala
um dialeto da mesma língua; (c) ser telo ‘outro diferente’, em relação aos que falam
uma língua geneticamente distinta.
Kuikuro, Kalapalo, Nahukwá and Matipu (Karib) são ditos falarem ‘na garganta’, ‘para
dentro’, enquanto Wauja e Mehinaku (Arawak) falam ‘para fora’, ‘na ponta dos dentes’.
A comparação ressalta qualidades articulatórias, como a preponderância de sons dorsais
(velares e uvulares) nas línguas karib e de coronais e palatais nas arawak.
As variantes dialetais também operam como diacríticos de identidades sócio-políticas
diferenciadas. A história oral que conta a origem dos Kuikuro como povo distinto fala
de processos internos de fissão que resultaram na constituição de um novo grupo a
partir de uma aldeia mãe original (oti, ’campo, savana’), da qual também se originaram
os Matipu. Uma destas narrativas, se conclui com comentários do narrador e de seu
interlocutor sobre a cisão dialetal: as palavras (aki) e a fala (itaginhu) mudaram, a fala
dos Kuikuro se tornou reta (titage), enquanto a fala dos Matipú ‘caiu’ (isamakilü). Por
outro lado, o dialeto karib falado pelos Kalapalo e pelos Nahukwá é descrito como
sendo falado ‘em curvas’ (tühenkgegiho) ou ‘no fundo’ (inhukilüi) (Franchetto 1986).
Observe-se a sensibilidade metalingüística às diferenças prosódicas entre as variantes
karib alto-xinguanas. Contudo, tais diferenças rítmicas não impedem que os grupos
karib se vejam, um ao outro, como otohongo (outro igual), falantes de variantes de uma
mesma língua. Para os Kuikuro, telo (‘outro diferente’) são os que falam línguas
geneticamente distintas, arawak ou tupi (Franchetto 1986).1 Romling, Franchetto e
Colamarco (2010) realizaram um estudo em fonética experimental que procura
‘traduzir’ as diferenças dialetais karib alto-xinguanas, rotuladas e comentadas pelos seus
falantes, nos parâmetros acústicos e perceptivos relevantes, descobrindo uma distinção
rítmica ‘dramática’ que resulta de padrões de distintas interpretações fonológicas de
constituintes de uma mesma sintaxe frasal: enquanto a variante
Kalapalo/Nahukwa/Matipu ‘lê’ fonologicamente as fronteiras entre sintagmas
(constituintes compostos por um núcleo e seu argumento), a variante Kuikuro/Uagihütü
interpreta fonologicamente os pontos de concatenação entre núcleos e seus argumentos.
Cada um dos dois padrões apresenta, por sua vez, dois sub-padrões; os diferentes ritmos
resulta, desses padrões e sub-padrôes, numa articulação complexa entre os parâmetros
da altura (F0), intensidade e alongamento, onde o primeiro é o mais relevante. Os
autores concluem que os rótulos diferenciadores são um jogo de espelhos, em que cada
dialeto é ‘reto’ para seus falantes, como bem explicou Kaman Nahukwa durante a nossa
Oficina na aldeia Matipu de Ngahünga:

Kitaginhu ügühütu

Matipu, Kalapalo, Nahukwá kingalü Kuikuro akisü heke, iheigü (ihotagü).

                                                            
1
Um maior conhecimento da diversidade dialetal karib em sua gênese histórica e em sua realidade
atual será o projeto desenvolvido por Gélsama Mara Ferreira dos Santos, pós-doutoranda com bolsa
CNPq.
Üleatehe titsilü itaginhuko heke: iheigü (ihotagü), tühenkgegihongo. Inke tsapa
tandümponhonkoki ugupongompeinhe küntelü, anha inhügü gehale tükenkgegiko, nügü
hungu igei.
Sagage gehale Kuikuroko heke tisitaginhu tangalü, iheigü gehale, tühenkgegiko gehale.
Inhalü gitage ínhani anümi.
Sagage gehale titsilü ihekeni, inhalü gitage itaginhuko anümi.

Sobre línguas

Matipu, Kalapalo, Nahukwá falam da relação deles com a língua Kuikuro: iheigü
(ihotagü).
Por isso falamos que a língua deles é iheigü (ihotagü), tühenkgegikongo.
Significa como se estivesse descendo de um morro ou como quando tem curvas no
caminho.
Da mesma forma os Kuikuro escutam a nossa fala: iheigüi, tühenkgegiko também. Eles
ouvem diferente do que a língua deles.
Nós também falamos e escutamos as falas deles diferente do que a nossa língua
(principalmente a música da língua).

Como observa o pesquisador indígena Mutua Mehinaku (2010), os Kalapalo
também chamam os Kuikuro de ihotagü, ‘boca torta’, uma visão preconceituosa e
jocosa. Uganga, a velha mãe de Jamutuá, chefe matipu, afirma em depoimento gravado
durante a nossa Oficina em Ngahünga que:

Quando eu era ainda criança morei na aldeia Lahatua com a minha
mãe, onde aprendi a falar ihotagü, como fala o pessoal de Lahatua (Kuikuro).
Depois minha mãe faleceu e meu tio Aküjülü Kuikuro foi me buscar para eu
morar na aldeia dos Kalapalo. Assim, eu esqueci a fala ihotagü e aprendi
minha língua, o Kalapalo.

Escreve Mutuá: em troca, os Kuikuro chamam os Kalapalo de utsi, porque eles
chamam outra pessoa de untsi, e de ngagupohongo, ‘outro povo, povo de fora (lit.
aquele que fica do outro lado da fronteira com outro povo/cultura)’.

Grau de distanciamento em relação a outras variedades lingüísticas
aparentadas:
A LKAX é uma língua meridional da família karib. Meira e Franchetto (2005)
realizaram amplo estudo comparativo com o objetivo de definir o parentesco entre as
línguas karib setentrionais (ao norte do rio Amazonas) e meridionais (ao sul do rio
Amazonas, bem como entre as línguas meridionais. Esta últimas são, além da LKAX, as
línguas Arara e Ikpeng - muito próximas entre si e faladas ao norte do Alto Xingu - e a
língua Bakairi, falado ao sudoeste do Alto Xingu. A conclusão dos autores é a de que
existem dois ramos meridionais: um que compreende Bakairi e Arara-Ikpeng, outro
que inclui a LKAX (e suas variantes). O ramo xinguano é totalmente independente do
primeiro ramo (Pekodiano). Meira e Franchetto compararam cognatos de três línguas do
sul (Kuikuro, Bakairi, Ikpeng) com cinco línguas setentrionais (Yukpa, Tiriyó,
Hixkaryana, Makuxi, Panare), a partir de uma lista de 100 itens vocabulares
(listaSwadesh). A reconstrução dos proto-segmentos foi usada para determinar as
mudanças que poderiam ser definidas para as línguas meridionais e essas mudanças
foram comparadas de modo a estabelecer a possibilidade de que pelos menos algumas
delas pudessem ter sido compartilhadas. Os autores atribuiram as afinidades entre os dois
ramos, especialmente entre Bakairi e Kuikuro (LKAX), a empréstimos, já que um
grande número de Bakairi viveu, até 1920, ao longo dos rios Culiseu e Batovi, próximos
dos Nahukwa.

Caracterização tipológica:

A LKAX é uma língua altamente aglutinante e de núcleo final (OV). É ergativa em
termos de marcação morfológica do Agente (Causa externa) de um verbo transitivo,
enquanto os argumentos internos (argumento único de um verbo intransitivo e Paciente
de um verbo transitivo) não são marcados e ocorrem rigidamente antes do verbo.
No que concerne a fonologia, a LKAX tem 6 vogais (a, e, i, o, u, ɨ), sendo que todas
elas podem ser nasais (nasalidade distintiva); 13 consoantes (p, t , k, ɉ, l, s, ʦ, m, n, ɲ, ɳ,
h, flap uvular). A estrutura silábica é (C)V.

III.1 Deslocamento histórico sobre o território:

Pesquisa arqueológica, histórica e etnológica:
A primeira evidência de ocupação da região do Alto Xingu data do IX século D.C. A
colonização inicial foi marcada por aldeias circulares e uma indústria cerâmica
comparável àquela produzida hoje pelos povos arawak do Alto Xingu, o que leva à
hipótese de que os primeiros colonizadores devem ter sido arawak (Heckenberger,
2005). A família liguística arawak é a mais amplamente dispersa, geograficamente, na
América do Sul, se estendendo das ilhas caribes, ao norte, até a periferia meridional da
Amazônia, ao sul. Parece altamente provável que os primeiros colonizadores do Alto
Xingu foram povos arawak que migraram para o norte e para o sul a partir da
Amazônia central (cerca de 3000 anos atrás), para então chegar à Amazônia meridional
e se dispersar num eixo leste-oeste, das planícies da Bolívia ao Alto Xingu. Os povos
arawak, conhecidos historicamente e etnograficamente, além de pertencerem a uma
mesma família lingüística, apresentam elementos culturais recorrentes (Schmidt, 1917;
Heckenberger 2002): hierarquia, espaços político-rituais definidos, participação em
sistemas regionais pluriétnicos e multilíngües, redes extensas de troca, sedentarismo e
práticas agrícolas elaboradas. A população alto-xinguana colonizadora chegou à região
com uma gramática cultural estabelecida: aldeias circulares com a sua ‘praça’, seu
centro político-ritual.
Figura 1: Periodição alto-xinguana, pré-histórica e histórica (Heckenberger)

AD500 1250 1650 1750 1850 1950 2005

Establishment of PIX, 1961

Late Xinguano

Karl von den Steinen, 1884

Early Xinguano

Early Bandeirante Raids, 1740-1770

Proto-Xinguano

Late Galactic

Columbus/Cabral, 1492-1500

Galactic period

Initial occupations

 
 
 
 
A população alto-xinguana cresceu até meados do século XIII e, por volta de 1250,
tinha alcançado proporções impressionantes superando de muito os limites
habitualmente atribuídos às sociedades indígenas das terras baixas. O período de
‘boom’ demográfico e cultural durou até meados do século XVII, com aldeias dez vezes
maiores do que as atuais, caracterizadas por estruturas defensivas, como revelam as
escavações de 12 sítios, até o momento. Os sítios ‘pré-históricos’ (complexos formados
por aldeias principais e aldeias satélites) eram conectados por amplos caminhos,
indicando uma densa interação social (Heckenberger et al 2003, 2008). A presença de
pontes, barragens, canais, assim como uma transformação significativa da cobertura
vegetal, revelam um sistema complexo e uma ocupação e exploração do território
surpreendentemente profunda e extensa. Essa escala ‘monumental’ se deve não tanto a
demandas econômicas, mas, sobretudo, indica uma função político-ritual: prestígio (em
competição) das aldeias e de seus chefes. Quem conhece o Alto Xingu identifica aqui a
configuração do sistema atual, embora em menor escala. Ver no ANEXO II, a
reconstrução das aldeias pré-históricas feita por Heckenberger, a partir de seus estudos
arqueológicos realizados no território kuikuro, parte central da área karib alto xinguana.
Em meados do século XVII, o sistema alto-xinguano entra em colapso por causa dos
efeitos diretos e indiretos da Conquista. As grandes aldeias desaparecem, a população é
drasticamente reduzida por sucessivas epidemias (Heckenberger, 2001b).
O sistema alto-xinguano se formou pela absorção, assimétrica, de povos e tradições
distintos num modelo arawak pré-existente. Analisando narrativas e dados etnográficos
e arqueológicos, pesquisadores de diversas áreas concordam com a hipótese de que os
povos karib alto-xinguanos teriam migrado da região ao leste do rio Culuene para a
bacia alto-xinguana, por volta de 1700. A separação dos povos que falavam uma língua
karib teria ocorrido. Segundo as hipóteses de Franchetto e de Heckenberger,
posteriormente, os proto-kuikuro e os proto-matipu da localidade ou aldeia de Oti
teriam se separado por volta de 1850 (Franchetto, 2001). Os antepassados dos Kalapalo
teriam entrado pelo rio Culuene e os Jagamü (antepassados dos Nahukwá) teriam
entrado entre o rio Angahuku (Mirassol) e Kugitihu (Culiseu). Grupos de língua tupi-
guarani chegaram pouco depois; Aweti e Trumai foram as incorporações mais recentes
no sistema regional. Este foi o quadro encontrado pelo primeiro etnógrafo e testemunho
da sobrevivência desse sistema pluriétnico e multilíngüe, o alemão Karl von den
Steinen, qu visitou o Alto Xingu em duas viagens - 1884 e 1887 (Steinen, 1886/1942;
1894/1940). 
Em suas obras, Steinen mencionou os grupos karib alto-xinguanos. Ele é
lembrado nas narrativas kuikuro como Kalusi, o primeiro branco (kagaiha) que “veio
em paz”, trazendo presentes e bens para trocar. Através dele, sabemos que no Alto
Xingu viviam, no final do século XIX, mais de 3.000 índios em 31 aldeias, 7 das quais
karib. O ANEXO III contém os mapas das viagens de Steinen e toda a iconografia
‘nahuquá’ por ele apresentada.
Nestas viagens de exploração para o mapeamento do rio Xingu, Steinen etnografou os
povos indígenas encontrados, entre os quais os que habitavam ao longo dos cursos dos
rios Batovi e Culiseu. Uma das razões que tinham levado Steinen a empreender a
viagem de 1887 foi um mapa desenhado por um índio Suyá na primeira viagem de 1884
(Steinen 1942); neste mapa, o índio localizava os grupos karib ao longo do rio Culuene,
uma região não visitada por Steinen. Em 1887, ele observou a localização das aldeias
‘Nahuquá’ às margens do rio Culiseu. Denominou todos os grupos karib alto-xinguanos
de ‘Nahuquá’, a partir do termo usado pelos Mehinaku para se referir a todos os grupos
de língua karib do Alto Xingu: Anapukwa. Ele era todavia ciente de que este era
somente um rótulo provisório que subsumia uma considerável variedade dialetal. Foi
Steinen o ‘descobridor’ das línguas karib meridionais: Bakairi, Nahukwá, Apiaká
(Tocantins). A importância de Steinen, aqui, se deve ao fato dele ter sido o primeiro a
registrar, em 1887, listas de palavras da língua que ele chamou de Nahuquá, dados,
publicados em apêndice a Entre Os Aborígenes do Brasil Central (1940), a primeira
grande etnografia do Alto Xingu. As listas estão no ANEXO III. .
Krause (1936), outro etnógrafo alemão, a partir de materiais trazidos para a Alemanha
pelo primo de Steinen e os coletados por Hermann Meyer, afirmou que um grupo
chamado de Yarumá habitava a área ao leste e sudeste do rio Culuene, entre o Xingu e o
Araguaia. Os ‘Nahuquá’ (Nahukwá) e os ‘Calapalu’ (Kalapalo), grupos karib da bacia
do Alto Xingu, tinham relações descontínuas e não sempre pacíficas com os Yarumá ao
longo do rio Yarumá (talvez o rio Tanguro) e do rio Paranayuba (hoje Suyá Missú).
Finalmente, Krause publicou uma comparação entre Yarumá, Apiaká do Tocantins, os
‘dialetos Nahuquá’ e o Bakairi (baseado em Steinen 1892). Concluiu que havia relações
lingüísticas estreitas entre Yarumá e Apiaká, e bem mais distantes com os ‘dialetos
Nahuquá’. Outros grupos karib teriam dado origem aos Yarumá-Apiaká, occupando as
áreas em que Meyer os encontrou. No começo do séc. XX, os Yarumá já tinham
desaparecido da região entre o alto Xingu e o Araguaia, assim como não existiam mais
os Apiaká do rio Tocantins, por epidemias e ataques de outros grupos.

Após Steinen, outras expedições científicas e até militares entraram na região e
registraram a presença de seus habitantes: Hermann Meyer (1897, referente a viagem
de 1896), Max Schmidt (1905; 1942, referente a viagem de 1900-01), Ramiro
Noronha (1952, referente a viagem de 1920); Vicente de Vasconcelos (1945, referente
a viagem de 1924-25); Vincent Petrullo (1932, referente a viagem de 1931). Todos
eles mencionam grupos karib alto-xinguanos nos territórios onde os havia encontrados
Steinen, mas com algumas importantes mudanças: os ‘Nahuquá’ tinham desaparecido
do rio Culiseu (Curisevo), sendo que umas poucas famílias sobreviventes às epidemias
tinham se juntado aos também poucos sobreviventes Matipu na aldeia de Magijape.
Não havia mais Bakairi no rio Batovi.
A partir dos anos 40, se abre um novo capítulo da história dos povos xinguanos,
confundindo-se com a história da criação do Parque Nacional (mais tarde Indígena) do
Xingu.
A partir de 1915, intensificou-se a exploração das cabeceiras do rio Xingu,
inclusive com a participação de militares da Comissão Rondon. Todos os relatos
deram conta de um processo incrivelmente rápido de depopulação. Um declínio
demográfico drástico depois de 1500 até 1884, quando começou a história escrita do
Alto Xingu, é claramente sugerido pela redução significativa do tamanho e número
das aldeias em toda a região da fase prehistórica tardia até o século XX. Entre 1884 e
1960, quando começaram os programas de vacinação sistemática no Alto Xingu, a
população da região diminuiu de quase 80%. Agostinho (1972) nos fornece uma
estimativa trágica do resultado do choque bacteriológico e virótico. Entre o final do
século XIX e até meados da década de 50, a população da região teria sido reduzida de
3.000 a 1.840 pessoas em 1926 e para pouco mais de 700 índios no final dos anos 40.
Em 1943 foi criada a Expedição Roncador-Xingu (ERX), vanguarda da
Fundação Brasil Central (FBC), para a ocupação das regiões centrais do Brasil. Os
irmãos Villas-Boas, que iriam criar o Parque Indígena do Xingu (PIX), chegaram à
região dos formadores do rio Xingu. Ver no ANEXO IV fotografias publicadas em
Rondon (1953).
Nos anos 40 começam as expedições científicas do Museu Nacional, que
registraram um quadro de grandes mudanças. A contaminação com vírus de gripe e
sarampo causou mais uma violenta depopulação, que atingiu seu ápice na epidemia de
sarampo de 1954. Com isso, os grupos karib dos rios Culiseu e Culuene foram
obrigados a se deslocarem mais próximos do Posto Leonardo, ao norte dos territórios
tradicionais, já que passaram a depender da assistência médica dispensada nos Postos
da FBC. Posteriormente, uma vez iniciada a recuperação demográfica a partir dos anos
60, graças às campanhas de vacinação, os diversos grupos locais começaram a se
organizar para reocupar seus territórios tradicionais, de fato nunca abandonados e
continuamente visitados e utilizados por conterem sítios históricos, cemitérios,
recursos naturais essenciais. A partir dos anos 80, surgem novas aldeias, num processo
de clara recuperação demográfica e de reconstituição dos territórios originais.

Apresentamos abaixo o gráfico 1, elaborado por Heckenberger mostrando a evolução
demográfica no Alto Xingu nos últimos pouco mais de 100 anos (a partir de Steinen),
de modo a visualizar os picos de declínio e de recuperação demográficos, fatores
importantes para os deslocamentos, fissões e fusões de grupos locais:
O traçado do Parque estabelecido em 1961, com uma área 10 vezes menor do que
aquela do ante-projeto de 1952, excluia os territórios de vários grupos indígenas, entre
os quais os arawak (Waurá e Mehináku) e os karib. O Decreto de 1968 modificou os
limites meridionais, reconhecendo parcialmente o erro do decreto anterior.
Permaneceram, porém, seccionados os territórios dos grupos arawak e karib,
finalmente incorporados - não em sua integridade - ao Parque pelo Decreto de 1971,
que traçava a fronteira na altura da latitude 13 Sul, acima da confluência dos rios
Tanguro e Sete de Setembro. Sítios antigos e pequizais karib ficaram fora da fronteira
sul do PIX.

 
A seguir estão resumidos os resultados da reconstrução da história karib alto-xinguana
com base em narrativas orais e depoimentos coletados entre os Kuikuro de 1981 a 2005
e durante a Oficina de Documentação entre os Matipu e Nahukwa em 2009. A estas
informações integram agora os dados provenientes de pesquisas arqueológicas,
etnológicas e lingüísticas.

O mapa 3 mostra uma primeira tentativa de localização dos territórios karib alto-
xinguanos antes da chegada da Expedição Roncador-Xingu, nos anos 40, e da criação
do PIX nos anos 60 do século XX, bem como seus deslocamentos depois da criação do
PIX (Franchetto 1986, 1992):
 
Mapa 3
Observe-se no mapa 3 acima que: (i) os sobreviventes Jagamü (Jaramâ), reduzidos a
poucas dezenas de indivíduos depois de sucessivas epidemias de doenças infecto-
contagiosas contraída no contato com os Brancos, se deslocaram para o local Magijape
(MJ) já no início do sec. XX; (ii) do território do grupo de Oti se originaram os Kuikuro
(KK) e os Uagihütü, cujos sobreviventes se deslocaram para o norte (KK para
nordeste), onde se juntaram aos sobreviventes Jagamü.A partir desta época se processa
a predominância da variante Nahukwa(Kalapalo), que fez com que as sucessivas
gerações de Matipu-Uagihütü passassem a falar esta variante. O território original
Kalapalo (KP) é a sudeste (rios Tanguro, Sete de Setembro e alto Culuene), mas
considere-se que este território se estendia muito mais ao sul, incluindo todo o alto
Culeuene, parte que foi excluída dos limites do PIX.

O gráfico 2 abaixo representa a hipótese de origem e surgimento dos grupos karib alto-
xinguanos, reelaborado a partir de Franchetto 1986. Observe-se a cronologia dos
locais/aldeias ocupados:

 
 
 
Gráfico 2
 
 
 
 
 
 
 
 
O gráfico 2 representa uma hipótese sobre a origem e o surgimento dos grupos Kalapalo
e Jagamü (Nahukwa), elaborado por Antonio Guerreiro (doutorando em antropologia na
UnB), a partir da Oficina de Documentação de 2009 e de sua pesquisa entre os
Kalapalo:

 

 
Gráfico 2

Os gráficos 1 e 2 são comentados a seguir a partir dos resultados decorrentes da
documentação da história oral realizada na Oficina e resumidos por Mutuá
Mehinaku (2010):

Podemos tentar esquematizar como teriam ocorrido as separações das grandes aldeias
na época de Oti, entre, de um lado, os antepassados kuikuro e os Uagihütü, e, do outro
lado, entre os antepassados dos Kalapalo e os Jagamü.
Conta-se que os antepassados dos Kalapalo e os Jagamü, antepassados dos Nahukwá,
viviam juntos na grande aldeia de Timpa, segundo narrativa dos Matipu, hoje. Já na
versão dos Kalapalo, conta-se que eles teriam passado a viver junto na outra grande
aldeia de Kuakutu, da qual os Kalapalo têm memória.
O mestre de narrativas Jamiku Matipu (66 anos) conta que na Aldeia Timpa tinha muita
gente; de fato, havia cinco grandes aldeias uma ao lado da outra. Assim sendo, nos seus
rios e lagos não havia mais peixes. As pessoas começaram a sobreviver de caça,
começaram a comer anta, veado, porque não tinha mais nada. Eles já estavam tendo
escassez de peixe. Para resolver o problema, conta-se que um índio bravo estava
andando na região e foi procurar a aldeia de Timpa seguindo a direção de onde se via
fumaça de fogo. De repente, escutaram o grito de um individuo no outro lado do rio.
Eles perceberam que aquele grito era estranho e foram contar para o anetü Ahiguata.
Por sua vez, o anetü (chefe) mandou uma pessoa que entendia qualquer língua de outros
povos. Explicam que essa pessoa tinha escutado a “fala” do pássaro xexeu depois do
ritual de furação de orelha, por isso entendia tudo.
Este poliglota viu que quem estava gritando era um Bakairi manso chamado Koisa, que
estava avisando que havia encontrado um lugar com peixes. Assim, os dois anetü de
Timpa resolveram dividir a aldeia. Metade foi fazer uma aldeia nova. Chegaram ao
lugar que eles queriam, onde, de noite, escutaram o esturro de uma onça chamada na
nossa língua Ahua. Os chefes resolveram nomear essa sua nova aldeia de Ahuahütü
‘lugar de Ahua’. Lá eles ficaram muito felizes de ver fartura de peixe e macaco para
caçar. Constituíram uma nova comunidade nesse lindo lugar. Contam que foi neste
momento que Steinen apareceu (estaríamos, então, no final do século XIX?). Eles
ficaram muito tempo lá, assim os brancos começaram a aparecer e vir, trazendo suas
ferramentas. A aldeia de Ahua ficou como ponto de chegada dos Brancos, causando
inveja nos vizinhos que começaram a kugihe hagatelü, a ‘fincar feitiço forte’ para
acabar com o povo. Por causa disso, o restante resolveu mudar para Ihumba e outras
famílias foram encontrar seus familiares na aldeia antiga dos Kalapalo, provavelmente
Kuakutu. “Depois mudamos de novo para Amagü onde eu nasci”, conta Jamiku. Este
deveria ter mais ou menos 7 anos quando os pais resolveram morar com o pessoal de
Uagihütü, por que só haviam sobrado sete famílias do seu povo, os Jagamü. Depois
disso foram fundar outra aldeia em Ahangitaha. “Foi eu que abri aquele lugar primeiro,
depois os Kuikuro chegaram, por causa disso fomos embora e abrimos Magijape.
Coitado do meu pai sempre queria muito voltar de novo para Jagamü, pois, não sabia
que um dia eu voltaria para lá” lembra Jamiku, que hoje vive em Jagamü, o local de
origem dos Jagamü/Nahukwá.
A outra metade da aldeia resolveu ficar em Timpa; seus habitantes logo depois
migrariam rumo à cabeceira do rio Culuene. Hoje podemos ver as conseqüências de
todo esse processo: Jaramü/Nahukwá e Uagihütü/Matipu foram reduzidos a
pouquíssimas famílias e se misturaram. A variante jagamü predominou sobre a variante
uagihütü. Agora eles estão crescendo rapidamente.

Esse processo de rompimento da união dos povos e das línguas possibilitou a formação
das variantes dialetais da língua karib alto-xinguana. Os Kuikuro afirmam que a fala dos
Uagihütü otomo samakilüi, ‘foi a que caiu’, enquanto a fala dos que fundaram a nova e
primeira aldeia kuikuro ficou titage ‘reta’.

Os anciãos kuikuro conseguem lembrar o nome da primeira aldeia do seu povo, Oti, já
ao oeste do rio Culuene. Segundo as narrativas orais, de Oti saíram alguns chefes e seus
seguidores, por causa de conflitos políticos internos. Isso levou à criação de novas
aldeias; contam que eles alegavam que em Oti não tinha mais terra boa para plantar a
roça. Assim, o ancião Agatsipá, já falecido, apontava a origem do povo Kuikuro
dizendo “ilangopenginhe”, apontando para o sul da atual aldeia de Ipatse, confirmando
que Oti estaria localizada no alto curso do rio Angahuku, hoje rio Mirassol.
O nome Kuikuro surgiu, segundo as narrativas dos antigos, quando Mütsümü, chefe da
aldeia Oti, primeira aldeia do povo Kuikuro, descobriu uma lagoa onde havia muitos
peixes chamado kuhi, daí o nome por ele dado ao lugar da primeira aldeia: kuhi ikugu,
que significa ‘lugar dos peixes kuhi’, hoje, pronunciado pelos brancos, Kuikuro (Mutua
Mehinaku, 2006).

As narrativas contam os conflitos internos entre os chefes de uma aldeia. Depois que Oti
se dividiu, se tornou Uagihütü. Somente os que lá permaneceram, os que permaneceram
em Oti, se tornaram Uagihütü. Na breve conversa que segue à narrativa Kopogipügü,
ouvimos a origem das diferenças dialetais: “O pessoal fez nossa língua ficar reta, o
pessoal de Lahatuá fez andar reto nossas próprias palavras, enquanto a fala dos
Uagihütü ‘caiu’ ”.

O que aconteceu com os Uagihütü, os antepassados dos que hoje são chamados de
Matipu?
Tikugi, anciã Matipu, conta que, depois de terem saído de Oti, os antepassados Matipu
foram fundar outra aldeia. Num primeiro momento ficaram em Hotu, depois foram abrir
Akugi embipe, cujas terras, em seguida, esgotaram sua fertilidade para plantar a roça.
Assim saíram para outro lugar e abriram primeiro a aldeia de Uagihütü e depois a de
Tatehengo. Quando estavam morando na aldeia Uagihütü, receberam a notícia da
chegada dos irmãos Villas Bôas. Foi lá que uma terrível epidemia de sarampo os atacou,
trazida pela expedição Roncador Xingu. Tikugi conta também que foi um Kalapalo,
Jauakati, que levou “feitiço” para Kahindzu. Um homem, Tagahikuegü, fugiu da
doença, mas a levou consigo para Lahatua; em seguida Lapija levou a doença para a
aldeia Uagihütü, assim foi se espalhando em todo o Alto Xingu. Tikugi conclui a sua
akinha dizendo que “Orlando nos juntou aqui, assim ficamos próximos de outras
línguas, as línguas se misturaram, por isso hoje vocês falam acompanhando a forma de
falar de outro povo (tikinhü), não é uma boa coisa”.
Outro depoimento foi dado por Jamatua, chefe da aldeia Matipu de Ngahünga. Este
conta que ele nasceu na aldeia antiga dos Kalapalo, Kunugijahütü, de onde mudou com
a sua família para a aldeia de Kahindzu, e, de lá, para a aldeia Uahütü. Diz ele: “depois
nos juntamos com os remanescentes Nahukwa porque eramos poucas pessoas, assim
Orlando nos levou ao Posto Leonardo para nos escolhermos o nosso novo lugar”.
Escolheram Magijape, com a ajuda dos Kamayurá. Ele conta que sofreram muito, sem
comida: “Orlando nos fez sofrer muito, era triste mesmo”.

Os primeiros resultados da pesquisa interdisciplinar, integrando lingüística, etnologia e
arqueologia, começam a clarear o processo pelo qual povos falantes de línguas
pertencentes aos três maiores agrupamentos lingüísticos da América do Sul (Arawak,
Karib e Tupi) e de uma língua isolada (Trumai) chegaram a criar um sistema social
único e vivo até hoje. resultando em uma sociedade onde a diversidade lingüística tem
sido uma das principais condições de sua reprodução. Retomando as hipóteses
decorrentes da pesquisa arqueológica de Heckenberger, na primeira metade do século
XVII, o rio Culuene separava os Karib ao leste das grandes aldeias aruak a oeste. É
possível que grupos karib tenham atravessado o Culuene do leste para oeste, forçando
grupos aruak a se deslocarem par o norte e para oeste. Estes recém-chegados karib
foram os antepassados dos karib alto-xinguanos de hoje (Kuikuro, Kalapalo, Nahukwa,
Matipu). Se há evidências consistentes de uma proeminência e de uma precedência
arawak, é não menos claro que o pluralismo cultural e lingüístico enriqueceu o sistema
como um todo.

V.2 Situação de contato com outras línguas:
O contato mais intenso é com as outras variantes da língua karib alto-xinguana. Os
contatos com outras línguas alto-xinguanas, geneticamente distintas (arawak, tupi) se dá
nos encontros rituais inter-tribais e em encontros individuais, quando hoje predomina o
uso do português para a comunicação. Há casamentos com indivíduos pertencentes a
outros povos alto-xinguanos na falante de karib, o que gera o uso doméstico (não
público) de outras línguas não-aparentadas e filhos bilíngües (tendência para o
bilingüismo passivo). O contato com o português é crescente e cotidiano.
Não obstante essas origens desiguais, os povos do Alto Xingu reconhecem as
contribuições e as inovações atribuíveis a cada um. As narrativas que contam as origens
dos vários rituais são evidências disso. A chegada dos Tupi e dos Trumai enriqueceu e
ampliou a vida cerimonial. A festa do Javari, por exemplo, seria de origem Trumai e
Aweti, mas foi difundida através dos Kamayurá e muitos de seus cantos são em Tupi-
Guarani. Os Kamayurá contribuíram com o ritual das máscaras Aga (em Kuikuro), e,
talvez, das Jakuikatú. O quinteto de flautas Takwara (em Kuikuro) é considerado como
sendo de proveniência Bakairi, grupo karib que habitou o Alto Xingu até o começo do
século XX.
A análise das ‘rezas’ Kuikuro (kehege, fórmulas de cura em fala cantada) mostra um
amálgama lingüístico instigante. Em todas elas, há uma primeira parte em língua
arawak, parcialmente compreensível, na qual se pontua a associação com o mito de
origem (a primeira execução), e uma segunda parte em língua karib, hoje ainda
plenamente compreensível, pela qual é pronunciada a fórmula performativa e
simbolicamente eficaz. Os cantos do Kwaryp, o ritual intertribal mais importante e
comemoração dos chefes falecidos, contêm palavras e expressões tupi e karib, com
alguns cantos provavelmente arawak. O ritual Kwaryp, tão central e cujas origens
míticas remontam à origem da ‘humanidade’ e suas espécies, é um exemplo claro do
processo histórico de hibridização que se deu ao longo dos últimos séculos.
A comparação lexical entre línguas alto-xinguanas revela uma quantidade de
empréstimos muito menor do que se esperaria em uma situação de contato longo e
bastante intenso. A manutenção da identidade lingüística das etnias e grupos locais é
fator que contrasta a difusão. Considerando os empréstimos identificados até o
momento, nas línguas karib alto-xinguanas prevalecem os proveninetes das línguas
arawak, em segundo plano estão os poucos provenientes de língua tupi(guarani)
(Franchetto org, 2010).
Crescente é o contato com o português, que se processa desde o final do século XIX.

V.3 Intervenções que afetaram a língua

Podemos resumir os fatores que afetam mudanças lingüísticas, a partir do que foi dito
até agora e considerando que toda língua, incluindo suas variantes, vive na história e
sofre constantes mudanças, nos tempos longos do processo lingüístico:
 o declínio demográfico decorrente do contato com os não-índios e de conflitos internos
e com outros grupos indígenas;
 os deslocamentos territoriais que levaram a fusões e fissões de aldeias, antes e depois da
instalação do Estado no território indígena; a partir deste último fato, a atração dos
grupos para perto dos postos de assistência; hoje assistimos ao movimento contrário,
com um deslocamento centrífugo que tende à reocupação de antigas localizações.
 o impacto do português a partir de: (i) o contato mais intenso com os não-indígenas,
sobretudo a partir dos anos 40 do século passado (chegada da Expedição Roncador-
Xingu e criação do PIX, presença permanente de não-indígenas nos Postos do SPI antes
e da FUNAI depois, pesquisas, turismo, médicos e enfermeiros, etc); (ii) implementação
da educação escolar e dos cursos de formação de professores e agentes de saude, entre
outros, indígenas; (iii) intensificação dos deslocamentos individuais e de grupos para as
cidades; (iv) presença crescente da mídia impressa e digital nas aldeias (televisão,
internet, computadores, CD e DVD players, livros, etc.).

VI. Demografia e Levantamento sócio-lingüístico
VI.1 Demografia
Nahukwa e Matipu somam, em suas quatro aldeias, 300 pessoas (dados
atualizados provenientes dos consultores indígenas).
• Nahukwa: 167
• Matipu: 115
• Uagihütü (Matipu ‘antigo’): 18
Total: 300

População por aldeia:
 Ngahünga (Matipu): 115
 Intagü (Uagihütü): 18
 Magijape (Nahukwa): 106
 Jagamü (Nahukwa): 61

Indivíduos que se consideram pertencentes a estas etnias vivem em outras aldeias alto-
xinguanas, sobretudo Kalapalo e Kuikuro.

VI.2 Levantamento sócio-linguístico
O levantamento sócio-lingüístico foi realizado durante a Oficina de
Documentação na aldeia matipu de Ngahünga e resultou no Diagnóstico Sócio-
linguístico, apresentado em texto separado e documentado em vídeo.

Ver DIAGNÓSTICO SÓCIO-LINGÜÍSTICO
VII. Usos na sociedade
A LKAX e suas variantes são ainda plenamente usadas nos espaços das aldeias e nas
interações entre seus falantes, mesmo quando eles se encontram na cidade. O português,
contudo, é cada vez mais presente nas gerações mais jovens, escolarizadas e
alfabetizadas. Os cursos de formação são os maiores incentivadores do uso da língua do
Branco e dos sinais de enfraquecimento das línguas indígenas. Uma nova língua
‘misturada’ está se difundindo, onde são cada vez mais freqüentes empréstimos do
português (até frases inteiras) (Mehinaku 2010). Estes sinais de enfraquecimento são
evidentes no progressivo desinteresse por parte dos mais jovens com relação às
tradições orais de artes verbais, tais como discursos rituais e formais, ‘rezas’, execução
de narrativas, cantos.
Chama a atenção, no Alto Xingu, a inexistência de uma língua franca, se não
considerarmos a difusão do português nos últimos 60 anos. Isto mostra que os povos
‘chegados de fora’ não foram absorvidos numa posição de submissão. Ao invés de criar
uma comunidade lingüística, o processo geral de incorporar, transformar, para criar o
sistema alto-xinguano, implicou na criação de uma comunidade moral. A língua serviu
para preservar as diferenças, mas um complexo sistema de rituais e etiquetas foi
cimentando uma identidade abrangente. A difusão do português como língua-franca,
hoje, pode contribuir para mudanças profundas também no sistema de multilinguismo.

Com exceção dos Yawalapiti e dos Trumai, grupos internamente multilíngües por
histórias específicas de dispersão e de casamentos intertribais, os povos alto-xinguanos
são lingüisticamente conservadores. Quando um indivíduo mora na aldeia do esposo ou
da esposa falante de outra língua, ele não usará a sua própria língua em situações
públicas, mas sim no dia a dia dentro do espaço doméstico; seus filhos serão bilíngües,
mas continuarão a usar predominantemente a língua da aldeia em que nasceram e
vivem. Os ‘misturados’ (em língua karib, tetsualü) são às vezes criticados por não
serem falantes ‘puros’ da língua da aldeia em que moram.2
Citamos Mutua Mehinaku (2010) para ilustrar como o diacrítico lingüístico ainda opera
mesmo no caso das publicações de livros didáticos em língua indígena:
“Cada etnia alto-xinguana de fala karib defende que ela fala diferente dos outros karib,
como disse há pouco. Cada uma diz que as línguas das outras etnias estão
influenciando-a. Podemos ver o que ocorreu quando tivemos a primeira experiência
com a escrita em língua indígena, quando esta passou a ser representada numa
ortografia. Em 1996, foi publicada pelo Instituto Socioambiental e com o apoio do
Ministério da Educação a primeira cartilha para a alfabetização, Tisakisü, ‘a nossa
língua’. Os autores eram todos professores falantes da língua karib alto-xinguana. Em
cada etapa do primeiro curso de formação de professores indígenas do Xingu
(experiência que se desenvolveu de 1994 a 2005), os alunos produziam vários materiais
didáticos. Em primeiro lugar, a idéia foi reunir todos os trabalhos dos alunos karib em
uma única publicação (Tisakisü), a fim de usá-la no âmbito do ensino para a
alfabetização, assim como em outros níveis da 1ª fase do ensino fundamental, em todas
as escolas karib. Na hora de usar a cartilha nas aulas, muitos alunos encontraram
dificuldades no entendimento da pronúncia das letras para distinguir as duas ‘línguas’
                                                            
2
A dissertação de Mutuá Mehinaku, filho de mãe Kuikuro e pai Mehinaku, defendida em dezembro
de 2010 no PPGAS-MN-UFRJ, é uma contribuição decisiva para a discussão da ‘mistura’ lingüística
no Alto Xingu, já que seu objeto é o encontro entre línguas e dialetos na gênese e não presente desse
sistema.
ou, melhor, as duas variantes (Kalapalo-Matipu-Nahukwa, de um lado, e Kuikuro, do
outro), mesmo com a explicação do professor. Depois outros professores começaram a
refletir sobre o que estava acontecendo. Os alunos kuikuro e kalapalo se confundiam na
hora da leitura.
A partir da observação desse problema, os próprios professores tiveram consciência de
que as variantes deveriam ser tratadas separadamente. Foi uma boa decisão, já que
assim valorizaríamos ambas as variantes. Historicamente, os anciãos afirmam que, em
tempos remotos, éramos um só um povo, os Kuikuro/Matipu tinham uma grande aldeia,
assim como os Kalapalo/Nahukwa também eram um povo só. Ao longo da história,
fomos nos afastando, um de outro, gerando ‘novas’ línguas (variantes), com suas
características próprias. Depois da cartilha, concordamos que os livros deveriam ser
separados: os Kalapalo/Nahukwa/Matipu escreveriam seus livros didáticos, os Kuikuro
(e Uagihütü ou Matipu antigos) poderiam produzir outros, diferentes, assim não teria
mais confusão na leitura. Os livros passariam a ser produzidos como objetos marcadores
de diferença lingüística. Na verdade, ficou excluída a variante Matipu antiga
(Uagihütü), que já está à beira da extinção, pela forte influência da variante
kalapalo/nahukwa”.

Tradições orais e seu grau de transmissão intergeracional:
Todas as crianças Matipu e Nahukwa são socializadas no ambiente doméstico em sua
língua materna; o uso da LI é pleno e vital, garantindo, por enquanto, a sua transmissão
de uma geração a outra. Já não pode ser afirmado o mesmo no que concerne a
transmissão de tradições orais e artes verbais. A escola e as mídias escritas e, sobretudo,
a televisão ocupam hoje a maior parte do tempo outrora dedicado à transmissão de
narrativas (akinha), de conteúdos culturais, bem como aos processos de ensino-
aprendizagem de gêneros formais, como rezas (kehege), discursos cerimoniais (anetü
itaginhu, ‘fala do chefe’), cantos (egi). Esta transmissão é a condição da reprodução
social e cultural dessas comunidades. Os jovens são cada vez mais atraídos pela vida
dos kagaiha (não-índios), pelas cidades e pelo seu modo de ser e viver (ügühütu),
virando as costas para o modo de vida tradicional.

Na escola:
Há uma escola em cada aldeia, funcionando precariamente. Ela não é o lugar
privilegiado da entrada do modo de ser não-indígena na vida aldeã. A LI é usada como
língua de interação e de instrução, mas não é objeto de estudo. A alfabetização é em LI,
embora seja preciso averiguar a sua eficácia enquanto alfabetização; grande esforço é
dedicado à aprendizagem do Português. A escola é uma porta de entrada do modo de ser
kagaiha, mais do que um espaço-tempo de aniquilação lingüística.

Formas especiais:
As artes verbais alto-xinguanas são complexas e riquíssimas e mencionamos
anteriormente os principais gêneros de fala formal (objeto de estudo de vários trabalhos
de autoria de Franchetto). São elas as primeiras a sofrer o impacto da mudança cultural,
como já dissemos. Delas já existe uma boa documentação realizada entre os Kuikuro e
os Kalapalo, em fase inicial entre Matipu e Nahukwa.
VIII. AÇÕES SOBRE A LÍNGUA
VIIIa. Ações jurídicas, educacionais e culturais

Educação
As escolas situadas nas aldeias atuam exclusivamente professores indígenas formados,
atualmente, por cursos específicos que se pretendem interculturais, diferenciados,
específicos e bilíngües. Hoje, estes cursos são o Hayô, da SEDUC-MT, para a formação
de professores em nível de magistério e, em nível superior (licenciatura e pós-
graduação), o PROESI da UNEMAT. A qualidade de todos estes cursos é precária e
discutível, sobretudo no que concerne a atenção dada às línguas indígenas.

Saude e meio-ambiente (formação dos agentes de saúde):
Os agentes de saude indígenas são formados, atualmente, por cursos específicos que se
pretendem interculturais, específicos e bilíngües. Há iniciativas com relação ao meio-
ambiente por parte do Instituto Socioambiental-ISA (www.socioambiental.org.br). Em
todas elas prevalece o uso do português.

Instituições políticas (associações e organizações):
Em 2010 foi criada a AIMA, Associação Indígena Matipu, resultado da Oficina
realizada pelo Projeto. Kulumaka Matipu, um dos nossos colaboradores indígenas, tem
sido o principal responsável pelo surgimento da AIMA.

Instituições culturais de promoção:
O primeiro projeto com alguma atividade e proposta de natureza ‘cultural’ foi o projeto-
piloto CFDD, sobretudo através da Oficina de Documentação.

Publicações: ver Bibliografia no final.
Observe-se a inexistência de publicações sobre os Matipu e os Nahukwá. Há somente
uma dissertação de mestrado defendida sobre os Matipu.
Informações gerais sobre estes povos podem ser encontradas no site do Instituto
Socioambiental/ISA, Enciclopédia dos Povos Indígenas, informações mais ricas no que
concerne os Nahukwá (verbete de autoria de Debra S. Picchi, que apresentou nos anos
80 um projeto sobre rede de trocas nos Nahukwá, não realizado e inédito) e mais
genéricas e parciais sobre os Matipu (autoria de, provavelmente, Karin Veras, que
produziu o único trabalho existente sobre este povo). www.socioambiental.org.br

Contrastando com esta pobreza, há um grande número de publicações sobre Kuikuro e
Kalapalo, sendo que não há nenhum trabalho propriamente lingüístico sobre Kalapalo.
Sobre Kuikuro, a maioria das publicações é de autoria da coordenadora e da sub-
coordenadora do presente Projeto (Franchetto e Santos).

Eventos culturais na língua: nenhum, até agora

Programas na mídia: nenhum
Programas especiais de outro tipo: nenhum
Demandas das comunidades sobre programas e serviços lingüísticos (documentação,
educação/escolas bilíngües):

VIIIB. ESCRITA
Ver ANEXO V com exemplos de produção escrita em língua indígena.

Quantas pessoas sabem ler e escrever e quais suas idades?
Ver Levantamento/Diagnóstico Sociolingüístico.

A língua é usada como língua de alfabetização e instrução?
Sim

Como aprenderam a escrever na língua?
Os professores são os responsáveis pela introdução da escrita em LI nas escolas das
aldeias. Eles aprenderam a escrever em LI nos cursos de formação em nível de
Magistério (ISA, FUNAI), nos módulos ‘Língua Indígena’ organizados e realizados
desde 1994 pela coordenadora do presente projeto.

Qual a atitude sobre a escrita na língua?
É positiva, apesar do objetivo almejado da educação escolar ser o de aprender a ler e
escrever em português.

Como a língua está sendo escrita? Quem elaborou o sistema
ortográfico?
O sistema ortográfico foi elaborado e consolidado por Franchetto junto com os
professores indígenas em formação nos cursos de magistério do ISA, ao longo dos anos
90.

Quais os usos que a escrita tem na comunidade? Que textos são
produzidos?
Na escola são produzidos poucos textos em LI, além de listas de palavras e frases. E há
pouco material para exercer a leitura. Os verdadeiros ‘escritores’ são essencialmente os
professores e, em menor grau, os agentes de saúde. Fora da escola encontramos bilhetes,
cartas, mensagens em geral. A produção de textos propriamente ditos acontece de modo
quase sempre induzido por pesquisadores e em cursos de formação. É nestas ocasiões
que comprovamos a fluência da escrita em LI, bem como algumas dificuldades ou
dúvidas, como a representação do traço nasal, de clíticos (palavras independentes ou
presas) e os trígrafos (decisão dos professores indígenas para representar a consoante
oclusiva pré-nasalizada). Considere-se que tais dificuldades se devem basicamente à
decisão de representar elementos sub-fonêmicos e à aproximação ao sistema ortográfico
do português visto como referência.

Como circulam os textos escritos na língua?
ilhetes, cartas, mensagens.
Veja-se a seguir uns exemplos de uso da LI e do português na internet:
26 de maio de 2010, Kaman Nahukwa escreve para Mutua, perguntando como pedir
uma bolsa de mestrado.

Estudante:
Oi, Rei ande uge inde Canaranate reuniãozinho tsihetsühügü. Olha amigo, ukita eheke
angoloi ekugu, mamãe Bruna kilü uanke uheke Matipute tisatahehijühata: Mutuá heke
atsange kitse ina sitote, ngikona ngampa uanke bolso tüilü igakaho tüilü iheke, nügü
uanke iheke Bruna kilü. üleatehe hüle igei ukita eheke uahetinhombatomi eheke luale
ekugu tsekegüi osi kitse, ingukgingike hõhõ aetsingoi katahehisatühügü Pavuru,
Diauarum e Leonardote lamuke kutegatühügü, üleatehe egea ukita eheke, como grande
colega de estudo. ukilü uanke mamãe heke ületa Matipute, ülepe nügü iheke uheke:
einde tita uamigusü tigati etetohoti eitsohote, nügü uanke iheke uheke. Amigo
aitsingompe hüngü nahã kingukgingui tuhuti tsünahã eheke. Oi Rei, Salvadona igei
utelüti uitsagü utahehijüinha tsuein ekugu, üleatehe egea ukita eheke, atahehitsomi
uinha avisando tudo sügühütuki, uhutomi uheke utelü igakaho. Ahehitse ina uinha
katute ekugu, uama uanke tüilü eheke, etelü igakaho egena riuna? Ihumike uinha
ahehitse ina uge orkut

Yakálo Bállack (Kalapalo) escreve para Farato (Matipu):
Oi Farato baixinho tudo bem? por que vc q cumbinar primeiro com a minha irmã Eu
separei com a minha mulher,eu não quero volta eu estou indo hoje p/ minha aldeia
ületsügütse Büukü Utetanileha

Circulam textos escritos em outras línguas?
Em português. Lembramos que estamos diante de um sistema multilíngüe (o Alto
Xingu) e há produção e circulação de escritos em outras línguas alto-xinguanas, mas
somente no interior das comunidades e entre falantes da mesma língua.

Quais os usos da língua escrita na escola?
Listas de palavras, frases, pequenos textos.

Materiais didáticos e seu uso:
Há materiais didáticos bilíngües e monolíngües em LI, todos produzidos pelos
professores indígenas, publicados pelo ISA e com a participação de Bruna Franchetto
(como organizadora, revisora e/ou consultora). São eles:

1996. Tisakisü Instituto Socioambiental (SP)/MEC/PNUD.
(107 p.)

2002. Tisügühütu, Kukügühütu. Livro de Estudo da língua Kalapalo/Nahukuá/Matipú.
Instituto Socioambiental (SP), (72 p.).

2003. Gekuilene. Livro de saúde Kalapalo, Matipu e Nahukuá. Instituto Socioambiental.

FRANCHETTO Bruna, TRONCARELLI Maria Cristina, SANTOS Mara,
GAUDITANO Camila (orgs). 2007. Ngongoha igei kungatagoho: esta é a terra que nós
plantamos / Kalapalo, Nahukwa, Matipu. Belo Horizonte: FALE/UFMG,
SECAD/MEC. (110 p.).

Oura publicação bilíngüe é:
FRANCHETTO, Bruna (org.). 2003. Iku ügühütu higei. Arte Gráfica dos Povos Karib
do Alto Xingu. Rio de Janeiro: Museu do Índio/FUNAI.

Estes livros são usados nas escolas, mesmo se não sistematicamente. Tisakisü é a única
cartilha para a alfabetização. Todos eles deveriam ser submetidos à revisão e
atualização. Trata-se de materiais de boa qualidade, mas absolutamente insuficientes
para manter o interesse na leitura e na escrita em LI.

No ANEXO V estão alguns exemplos de escrita em LI.

 

IX. Produção audiovisual:
A produção áudio-visual realizada pelo presente Projeto é a primeira para as
comunidades Matipu e Nahukwa.

XI. Estudos sobre a língua:
Até a realização do presente Projeto, os estudos lingüísticos tinham se concentrado
exclusivamente na variante Kuikuro, o que significa que já temos um bom
conhecimento, amplamente documentado, da gramática da língua karib alto-xinguana
(ver Bibliografia). A pesquisa sobre as outras variantes e, de conseqüência, de natureza
comparativa, começaram agora.

 
XII. Acervo:
Todas as mídias originais estão armazenadas na reserva técnica áudio-visual do
Museu do Índio (RJ), em condições adequadas de conservação. Todo o acervo
digital decorrente do presente Projeto está depositado nos servidores do
PRODOCLIN, Museu do Índio.

Lista de palavras: ver DVD contendo o Vocabulário Comparativo.
No segundo dia da Oficina de Documentação na aldeia matipu de Ngahünga,
apresentamos os principais aspectos da construção de um dicionário: como fazer, para
que serve, como se organizam os campos temáticos, como fazer uma lista de palavras.
Tivemos tempo para mostrar o programa Toolbox e suas funcionalidades básicas. À
guisa de exercício, construímos uma pequena base de dados a partir de uma lista de 300
palavras contendo diferentes campos temáticos (numerais, parentesco, nomes, animais,
natureza, cores, plantas, parte do corpo, parentesco e verbos). Esta lista é uma
ampliação do conhecido vocabulário básico de Swadesh, feita pelos lingüistas do
Museu Goeldi. A atividade de elicitação da lista contou com a participação de 3
representantes das variantes: Kuikuro, Matipu-Uagihütü e Nahukwá-Matipu(/Kalapalo).
Cada falante ouvia o termo em português e traduzia para a sua língua/variante, repetindo
a palavra 3 vezes com intervalos de 2 segundos. Toda a atividade resultou no total de 3h
de gravação áudio, que foram editadas e transcritas foneticamente e ortograficamente.
Os dados obtidos nesta atividade permitiram a produção de um Vocabulário
Comparativo das Variantes da LKAX, apresentado junto com este Relatório, em
formato que possa servir como suporte didático nas escolas indígenas karib. Estes dados
serão agregados às entradas lexicais do dicionário, que está sendo produzido junto aos
Kuikuro, com o objetivo de produzir um dicionário multi-dialetal da LKAX.

Escrita: foi realizada uma avaliação escrita da Oficina por cada aluno e foram
produzidos outros textos escritos (em LI ou bilíngües), todos já digitalizados e
arquivados; ver ANEXO V para exemplos.

Usos da língua: ver registros em vídeo, gravações digitalizadas e incorporadas ao
acervo Matipu e Nahukwa no PRODOCLIN.

O DVD Ahehijü, A Marca da Língua contém vídeo que mostra usos das variantes
inventariadas em diferentes gêneros e contextos.

No ANEXO VI há uma lista das gravações de áudio realizadas na Aldeia Ngahünga–
outubro de 2009. Destacamos a gravação dos cantos Jamugikumalu realizada com
Tikugi Matipu (Uagihütü), que participou da Oficina, vindo da aldeia Magijape, e a
gravação do depoimento/entrevista de Jamiku, chefe da aldeia Jagamü, sobre história
oral do povo Jagamü (Nahukwa) realizada na Casa de Saúde de Canarana no dia 2 de
novembro 2009. Todas as gravações foram incorporadas ao acervo digital no
PRODOCLIN.

 
 
Bibliografia

Esta bibliografia não pretende ser exaustiva; ela contém, também, as referências citadas no texto. Organiza-
se nas seguintes partes: Geral, Matipu, Outros povos karib alto-xinguanos (Kuikuro e Kalapalo). Não há
bibliografia específica para os Nahukwa

Geral:
FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michel J. (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu. História e
Cultura. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ.
FRANCHETTO, Bruna. 2001. Línguas e História no Alto Xingu. B. Franchetto e M. Heckenberger (orgs.),
Os Povos do Alto Xingu. História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ (111-156).

FRANCHETTO, Bruna (org.). 2010. Alto Xingu. uma sociedade multilíngüe. E-book, Programa de Pós-
Graduação em Antropologia Social – PPGAS, Museu Nacional, UFRJ, CNPq, Sub-Reitoria de Pós-Graduação e
Pesquisa da UFRJ (contém os trabalhos apresentados no Workshop realizado em março de 2008, Projeto CNPq
(Edital Universal 2006) ´ Evidências lingüísticas para o entendimento de uma sociedade multilíngue: o Alto
Xingu’).

KRAUSE, Fritz. 1936, Die Yaruma-und Arawine Indianer Zentralbrasiliens. Baessler-Archiv 19 (32-44).
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MEIRA, Sérgio. 2006. A família lingüística Caribe (Karib). Revista de Estudos e Pesquisas v. 3, n. 1/2
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1884. Leipzig: F. A. Brockhaus.
______________1892. Die Bakaïrí Sprache: Wörtewerzeichnis, Sätze, Sagem, Grammatik. Mit Beiträgen
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______________1894. Unter den naturvölkern Zentral-Brasiliens. Reiseschilderung und ergebnisse der
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Matipu:
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PENONI, Isabel. 2010. Hagaka: ritual, performance e ficção entre os Kuikuro do Alto Xingu (MT, Brasil).
Diss. de Metrado, PPGAS-MN-UFRJ.

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entre as variantes karib do alto xingu: resultados de uma análise acústica. In: FRANCHETTO, Bruna (org.).
2010. Alto Xingu. uma sociedade multilíngüe. E-book, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
– PPGAS, Museu Nacional, UFRJ, CNPq, Sub-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UFRJ.

SANTOS, Mara. 2002. Morfologia Kuikuro: as categorias ‘nome’ e ‘verbo’ e os processos de
transitivização e intransitivização. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Lingüística,
UFRJ.
______________2007. Morfologia Kuikuro: gerando nomes e verbos. Programa de Pós-Graduação em
Lingüística, UFRJ.
 
 

 

ANEXO I

Classificação das línguas da família karib, Meira 2006
ANEXO II
Reconstrução das aldeias complexas pré-históricas no Alto Xingu (1200-1700), território
kuikuro (karib), Heckenberger 2005.

 

 

Conjunto
Ipatse

Area de estudo
Kuikuro

Centro residencial

Satélite

Desconhecido

Conjunto
Kuhikugu
 

 

 
 

 

Mapeamento dos conjuntos pré-históricos de Kuhikugu e Ipatse, com suas conexões
(estradas/caminhos).

X38
Port Road Port Road
X21
Kuhikugu
Cluster
X34 (Heckenberger)

X11
Port Road

X37

X35

To Kwapügü
To Inha
 
Reconstrução da aldeia pré-histórica de Kuhikugu

X38
Port Road Port Road
X21
Kuhikugu
Cluster
X34 (Heckenberger)

X11
Port Road

X37

X35

To Kwapügü
To Inha

X38
Port Road Port Road
X21
Kuhikugu
Cluster
X34 (Heckenberger)

X11
Port Road

X37

X35

To Kwapügü
To Inha
 

 
Aldeias pré-históricas e históricas

The circles represent the
following historic villages

•Atüka (c. 1850-1860)
•Kuhikugu (c. 1860-1920)
•Lahatuá I e II (c. 1920-1950)
•Lamakuka (c. 1950-1961)

 
 

 

Percurso das viagens de Karl Von den Steinen em 1884 e 1887 (Steinen, 1940)

 

ANEXO III: Karl Von den Steinen 1940 (viagem ao Xingu de 1887), 1942 (viagem
ao Xingu de 1884)
 

 

Viagem de Steinen dos Bakairi ao rio Culiseu, 1887 (Steinen, 1940)

   
 

 

Mapa dos rios Batovi e Culiseu com localização dos grupos indígenas, viagem de
Steinen de 1887 (Steinen, 1940)
Mapa dos grupos karib do rio Culuene, desenhado por um índio Suyá, 1884 (1ª viagem),
Steinen 1942.
Dança dos ‘Nahuquá’, 1887 (Steinen 1940)
Steinen 1887 (1940)
Steinen 1887 (1940): figuras feitas com entrecasca
Steinen 1887 (1940) – Lista de palavras ‘Nahuquá’
ANEXO IV: Candido Mariano da Silva Rondon, Índios do Brasil: cabeceiras do
Xingu/Rio Araguaia e Oiapoque. 1953.

 

 

 

 
 
ANEXO V

Exemplos de produção escrita em língua indígena e em português

Avaliação da Oficina de Documentação, outubro 2009 - Euka Nahukwa, 19 anos

 
Avaliação da Oficina de Documentação, outubro 2009 – Kukumaka Matipu, 24 anos

 
Outubro 2009 – Kaman Nahukwa (Matipu), 25 anos

 
 

 

Kaman Nahukwa (Matipu), outubro 2009

 
 

 

 
 

 

 

 

Trecho de narrativa transcrito ortograficamente por Amatiwana Matipu (20 anos), 20

O mesmo impresso em Tisügühütu, Kukügühütu. Livro de Estudo da língua
Kalapalo/Nahukuá/Matipú.São Paulo: Instituto Socioambiental, 2002.

 
ANEXO VI
Acervo digital Matipu e Nahukwa depositado no PRODOCLIN
(Museu do Índio-FUNAI-RJ)
Pasta 21/10

STE – 001
Aigi – apresentação

STE – 002
Aigi – continuação da apresentação

STE – 003
Aigi – continuação da apresentação

STE – 004
Amatiwana – apresentação

STE – 005
Amatiwana – continuação da apresentação

STE – 006
Takumã,
19:42 - Arifirá (cacique, irmão do pai do Mayke)

23:45 – Jamatuá / Kalapalo Talikinho – Barranco Queimado

Pasta 23/10

STE – 000
Talikinho – sala de aula

STE – 001
Aigi chama Hagita (fala da sua participação na oficina)

STE – 002
Aigi explica o evento da primeira oficina

STE – 003
Agivira explica sobre seu avô (Agihütü)

Jamatuá explica sobre os seus antepassados 3:49

Manufa(ha) como hoje estão usando a língua misturada (Kalapalo/Matipu)

STE – 004
Tikugi (mãe do Kaman) como ela é Matipu uagihütü (verdadeira)

STE – 005
Agivira como os Vilas Boas transferiu a comunidade Matipu para o parque.

STE – 006 ~itagü
aula Jairão / Aigi

STE – 007
Aigi – sobre ugahünga
Bruna / Aigi

STE – 008
Ahivira / Agihiga
fala sobre o nome Jagamü – Ahuahütü (o lugar do lobo-do-cesto)

STE – 009
Agihiga – continua falando sobre ahuahütü

STE – 010
aula, Aigi fala sobre a lingua

Bruna fala, Kaman traduz

STE – 011
Bruna fala, Kaman traduz, Aigi

STE – 012
Tipügi fala sobre a lingua, Bruna pergunta se ela é pajé.

STE – 013
Aigi traduz a fala da Bruna, tema: campo temático.

STE – 014
Bruna fala sobre t~u
Agihiga explica como se usa esse instrumento para acompanhar, nduhe

STE – 015
Kaman chama kagutu / Nahukwa

Jairão

STE – 016
Bruna

Agihiga fala sobre a lingua

STE – 017
Nahugigu (esposa do Lamati), ela explica como se usa a língua Arwak e Tupi no Jamugikumalu

Agihigu fala sobre Hagaka

STE – 018
Agihiga falando sobre nduhe
STE – 019
Agihiga fala sobre nduhe

Kaman fala sobre a lingua (Bruna)

Agihigu fala sobre Hugagü

Nahugigu fala sobre tolo

STE – 020
Agihiga fala sobre Kuluta

STE – 021
continuação

STE – 022
aula sobre o rio Aga
Agihiga / Kaman / Jairão / Aigi
STE – 023
aula, uso da lingua
Jairão

STE – 024
aula, Kaman, Jairão, Aigi

STE – 025
aula, Aigi, Jairão, Takumã

STE – 026
aula, Aigi, Takumã

STE – 027
aula, Manüfa, ehu

STE – 028
Tikugi, historia sobre a lagoa de Ipatse

STE – 029
aula, Aigi, Takumã

STE – 030
aula, Kaman, Bruna, Aigi

STE – 031
aula (Taliko)

STE – 032
aula (Takumã)

STE – 033

STE – 034
Kulumaka falando sobre o questionário

Pasta 25/10

STE – 001
aula, Jairão, Kaman

STE – 002
palavras, aula

STE – 003
continuação

STE – 004

STE – 005
aula, reflexivo (Takumã)

STE – 006
aula continuação

STE – 007
aula continuação

STE – 008
aula continuação
STE – 009
aula continuação, Ahakatu

STE – 010
aula continuação

STE – 011
aula continuação, Taliko

STE – 012
gravação com Tikugi

STE – 013
continuação

Pasta 26/10

STE – 000
aula Bruna, verbo intransitivo

STE – 002
continuação

STE – 003
continuação

STE – 004
Reunião da entrevista Jamauá (Matipu)

Jairão explica o roteiro

Aigi organização do evento

STE – 005
continuação gravação Jamatuá, o nome do filho Autá Kumaré

STE – 006
Nahugigu / Ahakatu / Agiviha / depois da entrevista do Jamatuá ficaram discutindo sobre as diferentes
variantes.

STE – 007
continuação

STE – 009
aula Bruna

STE – 010
verbo intransitivo

STE – 011
sobre a variação itimi, itini

STE – 012
gravação com Tikugi

STE – 013
Gravação Jamugikumalu a noite

STE – 014
Gravação Jamugikumalu a noite

STE – 015
Gravação Jamugikumalu a noite

STE – 016
aula Bruna, na manhã do dia 27/10

STE – 017
aula Bruna, na manhã do dia 27/10

STE – 018
aula Bruna, na manhã do dia 27/10

Pasta 28/10

STE– 000
aula Bruna, lista comparativa – 27/10

STE – 001
aula Jairão – 27/10

STE – 002
continuação

STE – 003
continuação

STE – 005
Fala Aigi sobre a bagunça dos alunos na noite anterior (28/10)

Aula Mara e Bruna sobre os programas Toolbox e LexicPro

STE – 006
continuação aula com Bruna

Rótulos das gravações de vídeo - aldeias Ngahünga (Matipu) - 19/10 a 02/11 2009:
1. KBAXVN19out09 - gravação da reunião no centro da aldeia dia 19/10/09 e gravação da
apresentação do projeto dia 20/10/09 (Fita 1)

2. KBAXVN20out09-1 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 2)

3. KBAXVN20out09-2 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 3)

4. KBAXVN20out09-3 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 4)

5. KBAXVN20out09-4 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 5)

6. KBAXVN20out09-5 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 1,
treinamento Matipu)

7. KBAXVN20out09-6 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 20/10/09 (Fita 2,
treinamento Matipu)

8. KBAXVN22out09 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 22/10/09 (Fita 3,
treinamento Matipu)
9. KBAXVN23out09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 22/10/09 (Fita 4,
treinamento Matipu)

10. KBAXVN23out09-2 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 22/10/09 (Fita 6)

11. KBAXVN23out09-3 - gravação feita por Kuany Kalapalo,na aldeia Matipu, dia 23/10/09
(kuãke, hakato explica ahehijü)

12. KBAXVN24out09-1 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 24/10/09 (Fita 7)

13. KBAXVN24out09-2 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 24/10/09 (Fita 8)

14. KBAXVN25out09-1 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 25/10/09 (Fita 9)

15. KBAXVN25out09-2 - gravação da oficina na aldeia Matipu, dia 25/10/09 (Fita 10)

16. KBAXVNout09-1 - gravação do treinamento de Kumaré Matipu, fita sem data e numeração.

17. KBAXVNout09-2 - gravação do treinamento de Igahoka Matipu, fita sem data e numeração.
(Tuma, Yuahika corta palmeira)

18. KBAXVN26out09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 26/10/09 (Fita 5,
treinamento Matipu)

19. KBAXVN26out09-2 - gravação da entrevista com o chefe Jamatuá sobre a mudança Matipu, dia
26/10/09 (Fita 6, treinamento Matipu)

20. KBAXVN26out09-3 - gravação na aldeia Matipu, dia 26/10/09 (Fita 7, treinamento Matipu)

21. KBAXVN27out09 - gravação do Jairão dando treinamento de video na aldeia Matipu, dia
27/10/09 (Fita 8, treinamento Matipu)

22. KBAXVN29out09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, dia 29/10/09 (Fita 9,
treinamento Matipu)

23. KBAXVN29out09-2 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, Aigi contando
história do Jagamü, dia 29/10/09 (Fita 10, treinamento Matipu)

24. KBAXVN30out09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, entrevista Mahutsa
dia 30/10/09 (Fita 11, treinamento Matipu)

25. KBAXVN30out09-2 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, projeção, foto
ngiholo, dia 30/10/09 (Fita 12, treinamento Matipu)

26. KBAXVN31out09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, fazendo pintura, dia
31/10/09 (Fita 13, treinamento Matipu)

27. KBAXVN31out09-2 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, entrevistando
pessoas, dia 31/10/09 (Fita 14, treinamento Matipu)

28. KBAXVN31out09-3 - gravação do treinamento de video, aldeia Nahukwá, dia 31/10/09 (Fita 15,
treinamento Matipu)

29. KBAXVN01nov09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, entrevista com
Magaika Yawalapiti, dia 1º/11/09 (Fita 16, treinamento Matipu)

30. KBAXVN01nov09-2 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, festa do takwara, dia
1º/11/09 (Fita 17, treinamento Matipu)
31. KBAXVN01nov09-3 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, festa do takwara, dia
1º/11/09 (Fita 18, treinamento Matipu)

32. KBAXVN02nov09-1 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, pessoal trabalhando,
dia 02/11/09 (Fita 19, treinamento Matipu)

33. KBAXVN02nov09-2 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, pessoal trabalhando
e encerramento da oficina, dia 02/11/09 (Fita 20, treinamento Matipu)

34. KBAXVN02nov09-3 - gravação do treinamento de video na aldeia Matipu, festa do takwara, dia
02/11/09 (Fita 21, treinamento Matipu)
 
 
DIAGNÓSTICO SÓCIO-LINGÜÍSTICO

PROJETO

Levantamento Sócio-Lingüístico e Documentação da Língua e das
Tradições Culturais das Comunidades Indígenas Nahukwa e Matipu
do Alto Xingu

Ref. Processo no 08012.004267/2008-12

Termo de Cooperação nº 006/2009 firmado entre o MJ/SDE/FDD e a
UFRJ (Museu Nacional)

Coordenadora: Profa Dra Bruna Franchetto

Abril 2009 - Junho de 2010

A este texto estão relacionados:
- o DVD contendo a documentação em vídeo da aplicação dos
questionários;
- Fotos no DVD FOTOS, pasta Aplicando Questionário Sociolin
- o arquivo pdf contendo o UNESCO Survey: Linguistic Vitality and Diversity
(Kuikuro)

 
Introdução

O projeto ‘Levantamento Sócio-Lingüístico e Documentação da Língua e das
Tradições Culturais das Comunidades Indígenas Nahukwa e Matipu do Alto Xingu’ tem
como objetivo central o estudo dos dialetos que constituem o que Franchetto denomina
de ‘língua karib alto-xinguana’, desde sua tese de doutorado (Franchetto, 1986). A
língua karib alto-xinguana constitui um dos dois ramos meridionais da família karib
(Franchetto & Meira, 2005). Ela é constituída, hoje, por duas variantes principais: a
falada pelos povos Kalapalo, Matipu e Nahukwa, e a falada pelos Kuikuro. O Matipu
originário, ou Uagihütü (auto-denominação), é falado por apenas uma família residente
na aldeia de Intagü, no alto rio Buriti; o Matipu-Uagihütü poderia ser considerado como
co-variante do Kuikuro. O Matipu atual não se distingue do Nahukwá e do Kalapalo.
Trata-se de povos que habitam a região entre os rios Culuene e Curisevo, formadores
orientais do rio Xingu, porção sul da Terra Indígena do Xingu, Estado de Mato Grosso.
A população total (excluindo os Matipu e Nahukwa residentes em outras aldeias
alto-xinguanas) é de 295 pessoas.
O Diagnóstico (ou Levantamento) Sócio-Lingüístico constituiu uma das
atividades centrais e é um dos produtos previstos pelo mencionado Projeto.

1. Fases do Trabalho
O trabalho relativo à produção do Diagnóstico Sócio-Lingüístico foi estruturado em três
fases:
1. Preparação dos questionários
2. Oficina
3. Aplicação dos questionários

1.1 Preparação dos questionários
O questionário que foi apresentado aos índios e, em seguida, aplicado nas
aldeias Nahukwa e Matipu é fruto de experiências anteriores e resultou de uma
reelaboração de questionários usados em:
- Levantamento sócio-lingüístico das aldeias de origem dos alunos do 3º Grau Indígena
da UNEMAT (Campus de Barra do Bugres, MT), 1ª turma, 2001-2005, 35 etnias, 28
línguas indígenas (Franchetto, 2004, para uma exposição crítica dos resultados obtidos
naquela primeira experiência);
- Levantamento sócio-Lingüístico realizado nas aldeias Kawaiwete-Kayabi e Yudja-
Juruna (297 Yudja e 483 Kaiabi, TIX, MT) por Mara Santos e Suzi Lima, com apoio do
Instituto Sócio-Ambiental/ISA, agosto 2008.
- Questionário proposto e discutido na 1ª Oficina de Treinamento do PRODOCLIN
(Programa de Documentação de Línguas Indígenas), Museu do Índio-FUNAI e
UNESCO, julho de 2009;
O roteiro proposto para o INDL foi considerado para fundamentar o
questionário. Além disso, foram consultados outros questionários do gênero, como o
adotado pela UNESCO com o objetivo de auferir o grau de ‘vitalidade’ de uma língua

 
(UNESCO Survey: Linguistic Vitality and Diversity). Ver no DVD, o questionário
preenchido para o Kuikuro e enviado à UNESCO.
O Questionário usado no Projeto é individual e contém 27 perguntas destinadas
a: (i) averiguar os graus de bilingüismo e multilingüismo (línguas alto-xinguanas e
português); (ii) o histórico individual e familiar em termos de casamentos interétnicos e
deslocamentos no território indígena e fora dele, as experiências de contato com os não-
índios; (iii) o domínio da escrita em língua indígena; (iv) a familiaridade como novas
mídias (onde predomina o português, como televisão e internet).
Veja-se no Apéndice I, à guisa de exemplo, um questionário preenchido na
aldeia Ngahünga (Matipu).

1.2 Oficina
A Oficina do Levantamento Sociolingüístico foi realizada na Aldeia Ngahünga
(Matipu), localizada na Terra Indígena do Xingu - MT, entre os dias 18 de outubro e 02
de novembro de 2009, como parte da Oficina de Documentação lingüística e cultural .
Esta oficina contou com a participação de:
Pesquisadores lingüistas: Bruna Franchetto (coordenadora, professor associado III,
Museu Nacional-UFRJ); Mara Santos (sub-coordenadora, pós-doutoranda, Museu
Nacional-UFRJ)
Assistente de Pesquisa: Aline Varela (bolsista de IC, Lingüística, UFRJ)
Professores indígenas: Aigi Nahukwa (coordenador local), Kaman Nahukwa, Kulumaka
Matipu
Cinegrafistas indígenas: Münai Kuikuro, Takumã Kuikuro e Mahajugi Kuikuro.
Colaborador: Antonio Guerreiro (doutorando em Antropologia, UnB)
Objetivos da Oficina do Levantamento Sociolingüístico:
- Apresentar e discutir o questionário, abordando cada questão;
- Discutir o que é um levantamento sociolingüístico e qual a sua finalidade;
- Apresentar e discutir a metodologia para a sua aplicação.

Todas as atividades da Oficina foram documentadas em vídeo pela equipe de
cinegrafistas indígenas (ver DVDs Aplicação do Questionário Sociolingüístico e
Ahehijü, A Marca da Língua).
A capacitação de pesquisadores indígenas foi um dos propósitos principais do
trabalho.
A Oficina iniciou em 18/10 com a apresentação de seu cronograma e de todas as
atividades a serem realizadas durante a nossa estadia na aldeia. Iniciamos uma breve
discussão acerca do questionário sociolingüístico, a sua importância, suas finalidades e
as eventuais dificuldades encontradas na sua aplicação. Para justificarmos o motivo de
um levantamento sociolingüístico trabalhamos temas acerca da situação lingüística
mundial, da diversidade lingüística e da ameaça que paira sobre as línguas minoritárias,
sobretudo as línguas indígenas ainda existentes no Brasil.

 
1.3 Aplicação dos questionários - Metodologia
Por ocasião da Oficina Matipu e Nahukwá foram aplicados 134 questionários,
nas seguintes aldeias: Ngahünga, Buritizal (Intagü), Jagamü e Magijape.

Fotos (Santos e Varela): no alto, aplicação do questionário na aldeia Ngahünga
em baixo: aplicação do questionário na aldeia Magijape (outubro 2009)

A metodologia usada foi a aplicação do questionário impresso por parte de 3
professores-pesquisadores indígenas como entrevistadores. Não houve qualquer
obstáculo ou oposição por parte dos entrevistados, uma vez que a Oficina foi um fórum
de discussão e esclarecimento e que os entrevistadores eram parentes ou conhecidos,
falantes da língua/variante dos entrevistados; em várias ocasiões, o entrevistado
ofereceu comentários e memórias que foram muito além de simples respostas.
As situações foram diversificadas e não foi possível, neste primeiro momento,
alcançar uma aplicação exaustiva do questionário. De qualquer maneira, o número de
questionários aplicados foi expressivo e mais do que suficiente para termos um quadro
significativo. Alguns questionários foram enviados por e-mail e correio para os

 
professores Aigi Nahukwa (aldeia Jagamü) e Amatiwana Matipu (Posto Leonardo),
meses antes da realização da Oficina e do trabalho de campo, de modo que pudessem
analisá-los, comentá-los e, se possível, iniciar a sua aplicação em via experimental. Os
questionários foram impressos em número suficientes e levados para a área indígena
pela equipe do Projeto. Uma aplicação posterior foi realizada pelo Professor Aigi na
aldeia Jagamü; os questionários foram enviados por correio para a coordenadora, no Rio
de Janeiro.
Todas as informações coletadas a partir dos questionários foram tabuladas
(Excel), em seguida foram gerados gráficos para cada questão ou conjunto de questões
articuladas.

2. Considerações qualitativas sobre os resultados obtidos a partir da tabulação
dos questionários.
Apresentamos a seguir os resultados em gráficos obtidos a partir da
tabulação dos dados, aldeia por aldeia, com alguns comentários qualitativos. O quadro
final nos mostra não apenas a situação real da vitalidade de cada uma das variantes
karib alto-xinguanas, como também a complexa ‘mistura’ entre elas a partir de
casamentos, fissões e fusões de aldeias, entre outros fatores, Esta ‘mistura’ representa
um vetor de contato que contrasta com a ideologia de manutenção das diferenças
lingüística e étnicas. O questionário é um instrumento que nos permitirá pesar e avaliar
as muitas facetas do multilingüismo alto-xinguano, inclusive interno ao subsistema
karib.

2.1 Análise dos resultados dos questionários aplicados na comunidade Matipu-
Uagihütü da aldeia Intagü

Aldeia Intagü ou Hakatu (Buritizal) - Rio Buriti
População: 13
Número de questionários aplicados: 11
Faixa etária: entre 07 e 70 anos
Nesta pequena aldeia-comunidade, bastante isolada, mora a última família de
falantes da sub-variante Uagihütü (variante Kuikuro-Uagihütü), denominados
(heterônimo) como Matipu. Vejamos os gráficos gerados a partir das tabelas.
(1)

 
(2)

(3)  

 

Os 18% de casamentos no gráfico (3) coincidem com a mesma porcentagem da
presença de outras etnias karib (Kuikuro e Kalapalo) na aldeia Intagü, como se vê no
gráfico (2); em outras palavras, os casamentos são com indivíduos Kuikuro e Kalapalo,
falantes de variantes distintas.
As respostas à pergunta sobre auto-identificação através da língua considerada
materna estão no gráfico (4) abaixo, que mantém os mesmos números do gráfico (3), ou
seja, o número de pessoas que se consideram Matipu (Uagihütü) é o mesmo das pessoas
solteiras, 73% ou 8 pessoas do grupo dos 11 entrevistados.
 

 

 

 

 

 

 
(4)  

A mesma situação se repete, quando perguntamos sobre a língua usada no
espaço doméstico. Os 18% referentes às outras etnias disseram que usam a língua do
cônjuge, no caso específico a língua Kuikuro.
(5)  

Quando perguntamos sobre outras línguas, o português aparece com 27% refletindo os
números dos alfabetizados, mostrados nos gráficos (7 e 8), abaixo.
(6)   

 
(7) 

 

(8)  

Observamos que os fatores ‘casamentos’ entre etnias diferentes e ‘alfabetização’
em língua diferente da materna afetam o quadro de monolingüismo (ou
monodialetalismo). O domínio do português se faz necessário quando os cônjuges não
falam línguas geneticamente distintas, na comunicação com os não-índios ou com
povos de outras etnias, situações em que o português passa a ser, hoje, a língua de
comunicação.
Apesar da diferença mínima entre as sub-variantes Matipu-Uagihütü e Kuikuro e
apesar da necessidade de casamentos com falantes de outras variantes (ou até de outras
línguas alto-xinguanas), observamos que os membros desta pequena comunidade
preservam a identificação como Matipu (Uagihütü). Observamos também que 8 em 11
membros da comunidade são analfabetos, algo compreensível pela idade e pelo
isolamento geográfico da aldeia, que possui apenas um rádio como meio de
comunicação e nenhum barco a motor.

 
2.2 Análise dos resultados dos questionários aplicados na comunidade Matipu
da aldeia Ngahünga (Matipu)
Aldeia Ngahünga (ou Küngahünga)
População: 115.
Número de questionários aplicados: 70

Esta aldeia é localizada na margem direita do rio Culuene e se identifica e é
identificada como Matipu, falante da variante Kalapalo-Nahukwa. Nesta comunidade
foram aplicados 70 questionários. Para efeito de análise, dividimos os questionários por
faixa etária. O primeiro grupo com a faixa etária entre 8 a 14 anos com um total de 19
questionários, e o segundo grupo entre 15 e 70 anos com um total de 51 questionários.
(1) 

 

 

(2) 

 

 

 

 

 

 
(3) 

 

 

Nos gráficos 1, 2 e 3, acima, podemos observar que a faixa etária de casamento
encontra-se acima dos 19 anos, sendo que a maioria dos casamentos são entre os
Matipu. Estes números se refletem na questão Etnia, na faixa etária de 8 a 14, no gráfico
(4) abaixo: quando se pergunta aos filhos de casais interetnicos, todos respondem
pertencerem à etnia Matipu. O mesmo acontece no gráfico (5), da faixa etária 8 a 14
anos; o Matipu é a língua materna de 74% dos entrevistados.
(4) 

 

 

(5) 

 

 
No gráfico (6), faixa etária entre 15 e 70 anos, a questão sobre Língua Materna
apresenta a situação lingüística dos pais das crianças representadas no gráfico (5): 70%
tem o Matipu como língua materna e 30% são falantes das outras variantes da língua
karib alto-xinguana (Kalapalo, Nahukwa e Kuikuro) ou de línguas de outras etnias alto-
xinguanas (Kamayura, Mehinaku e Aweti). A variante Kalapalo, com 12%, se
apresenta, dentre as diferentes etnias presentes na aldeia Matipu, como a mais
representada.
(6)

 

O mesmo quadro se mantem no gráfico (7), observando que, quando não se usa
o Matipu, somente uma outra variante pertencente à lingua karib do Alto-Xingu é usada.
(7) 

 

 

10 

 
No quesito Alfabetização, o grupo da primeira faixa etária, de 8 a 14 anos,
mantem estável os números dos que têm Kalapalo como variante materna. A variante
Matipu, que no gráfico (5) aparece com 74% como sendo a língua materna dessa faixa
etária, é a língua de alfabetização de 48%, apresentando o portugues como língua de
alfabetização de 21% dos entrevistados.
(8) 

 

 

Ainda observando o uso de outras línguas na faixa etária de 8 a 14 anos, é
expressivo o uso do português como língua de comunicação entre etnias diferentes. Das
19 pessoas entrevistadas, 10 responderam que usam o português para se comunicar com
pessoas de outras etnias quando visitam outras aldeias.
(9) 

 

Na faixa etária de 15 a 70 anos, a situação permanece a mesma da apresentada pelo
grupo acima, gráfico (9). No gráfico (6), o Matipu aparece com 70% como língua
materna dos entrevistados. No gráfico (10) abaixo, 62% dos entrevistados utiliza o
português como língua de comunicação quando estão em outras aldeias.

11 

 
(10) 

 

 

2.3 Análise dos resultados dos questionários aplicados na comunidade da aldeia
Jagamü (Nahukwa)
Aldeia Jagamü
População: 61
Número de questionários aplicados: 49

Esta comunidade se auto-identifica (e é identificada) como Nahukwa, falantes da
variante Kalapalo-Nahukwa. Foram aplicados 49 questionários. Para efeito de análise,
dividimos os questionários por faixa etária. O primeiro grupo com a faixa etária entre 4
a 14 anos com um total de 21 questionários, e o segundo grupo entre 15 e 80 anos com
um total de 28 questionários.
Na faixa etária entre 15 e 80 anos identificamos 4 etnias diferentes na aldeia Jagamü:
Kalapalo, Kuikuro, Matipu e Nahukwa sendo a última a identidade de 50% desse grupo.
 (1) 

 

12 

 
 

Na faixa etária de 04 a 14 anos, o quadro Etnia (2) muda. Neste grupo não
aparece Kuikuro; a porcentagem de Kalapalo passa para 43%, igual à porcentagem de
Nahukwa; Matipu diminui para 14%. Os números abaixo dizem respeito aos filhos dos
indivíduos do gráfico (1).
 

(2) 

 

 

Os gráficos (3 e 4) do grupo de faixa etária de 04 a 14 anos apresentam dois
quadros diferentes. Na questão sobre Lingua Materna aparecem as etnias dos pais. Na
questão Língua que fala com fluência, o Nahukwa é a língua majoritária, 95% dos
entrevistados disseram falar fluentemente o Nahukwa.
 

(3) 

 

 

 

 

 

 

13 

 
(4) 

 

 

O gráfico (5) reflete a questão do gráfico (4), o Nahukwa é a língua falada no
interior das casas.
(5) 

 

(6) 

 

 

14 

 
(7) 

 

 

(8) 

 

A alfabetização em língua materna é um dos principais problemas apontado
pelos professores indígenas no que diz respeito às escolas das aldeias. A falta de
formação dos professores indígenas e a falta de material didático específico em língua
indígena são problemas que resultam da adoção de um modelo de educação escolar nos
moldes das escolas de Branco, modelo incorporado e transmitido pelos próprios
professores indígenas, sobretudo através dos cursos de formação dos quais são alvo,
tanto em nível de Magistério, como de Ensino Superior.
Os dados dos gráficos (6, 7 e 8) apresentam uma situação de vitalidade da língua
materna, quando comparados os números de alfabetizados em língua materna com os
que sabem escrever e ler em português. Dos 21 indivíduos que responderam ao
questionário, na faixa etária de 4 a 14 anos, 16 pessoas são alfabetizadas na língua
materna, 7 sabem escrever em português e 4 sabem ler em português. Isso nos leva a
crer que a alfabetização, prioritariamente, está sendo realizada na língua materna
Nahukwa. 
Nos próximos gráficos vamos analisar a situação de alfabetização do grupo da
faixa etária entre 15 e 70 anos.
15 

 
(9) 

 

(10) 

 

 

Os gráficos (9 e 10) se mantem inalterados nos quesitos ‘Língua que fala com
fluencia’ e ‘Outras línguas faladas em casa’. 89% falam com fluencia a língua Nahukwa
e 89% das línguas faladas dentro de casa é o Nahukwa.
(11) 

 

 

 
16 

 
(12) 

 

Nos gráficos (11 e 12), destacamos a alta frequencia do uso do portugues como
língua de comunicação com os grupos de etnias diferentes.
(13) 

 

(14) 

 

 
17 

 
(15) 

Os três gráficos acima (13, 14 e 15) nos mostram que existe uma diferença
geracional de modelos de alfabetização nas escolas indígenas. No grupo de faixa etária
entre 15 e 80 anos, 18% foram alfabetizados na língua portuguesa, fato que revela uma
realidade que, hoje, com uma nova geração de professores, já mostra sinais de mudança.
Essas mudanças podem ser observadas no gráfico (6) do grupo de faixa etária de 04 a 14
anos, no qual 76% foi alfabetizado na língua Nahukwa.

2.4 Análise dos resultados dos questionários aplicados na comunidade
Nahukwa da aldeia Magijape
Nesta aldeia, infelizmente, só foram realizadas uma entrevista e conversas
informais. A aldeia foi visitada pelos membros da equipe Mara Santos e Aline Varela,
acompanhadas pelo professor Kaman Nahukwa, membro da comunidade, e pelo
professor Maiki da aldeia Ngahünga. A aldeia se encontrava praticamente vazia, em
decorrência de conflitos entre famílias. O próprio professor Kaman estava preparando
sua saída para a comunidade de Barranco Queimado (Kalapalo).
A entrevista realizada com uma jovem mulher pelo professor Kaman foi,
contudo, extremamente esclarecedora. O depoimento baseado na aplicação do
questionário deverá ser objeto de análise após sua transcrição e tradução, trabalho que
em andamento, que será incluído na versão final deste texto. De qualquer maneira, a
situação sócio-lingüística da comunidade de Magijape não difere substancialmente da
das outras comunidades.

3. Conclusões
O panorama delineado a partir da análise dos questionários nos revela que cada
comunidade lingüística avaliada apresenta uma complexa ‘mistura’ entre as variantes
karib alto-xinguanas, resultado de casamentos, fissões e fusões de aldeias, entre outros
fatores. Cada história de vida contida nas entrevistas mostra paralelos e sucessivos
cruzamentos entre as etnias karib, desde tempos antigos. Esta ‘mistura’ contrasta com a
18 

 
ideologia e as práticas de manutenção das diferenças lingüísticas e étnicas, inclusive em
termos dialetais, sendo este o principal fator que dá vitalidade a cada uma das variantes
karib alto-xinguanas. Outro fator positivo para a manutenção das línguas nativas, sem
dúvida, foi, até recentemente, a inexistência de uma língua-franca para a comunicação
entre grupos falantes de línguas geneticamente distintas, na região do Alto Xingu. A
chegada e a difusão do português nas gerações hoje abaixo dos 40 anos e seu
consolidamento como língua-franca apontam para mudanças que merecem ser
acompanhadas e que devem ter algum impacto na reprodução do sistema multilíngüe (e
sua ideologia ou representação).
As questões voltadas para averiguar os graus de bilingüismo e multilingüismo
(línguas alto-xinguanas e português), nas aldeias Ngahünga, Buritizal (Intagü), Jagamü
e Magijape apresentam um quadro de diferentes históricos de indivíduo e famílias em
termos de casamentos interétnicos. A situação de bilingüismo e multilingüismo é
conseqüência, como já dissemos, do contato intenso com etnias linguisticamente
distintas, fenômeno inerente ao sistema indígena alto-xinguano, e das experiências de
contato com os não-índios, que se intensificaram progressivamente nos últimos 20 anos.
O domínio do português, principalmente a partir dos 14 anos, tanto na escrita como na
leitura, apresentou uma porcentagem mais alta do que o domínio da escrita e leitura em
língua materna. Este último dado indica de modo bastante dramático as falhas da
alfabetização na L1, sobretudo a inexistência de escolarização em língua materna
voltada para jovens e adultos.
A familiaridade com as novas mídias, onde domina o português, como, por
exemplo, a televisão, é um fator a ser considerado no incremento da presença do
português. Os dados tabulados acerca da pergunta “Você tem televisão?” revelam que
somente na pequena aldeia Buritizal (13 pessoas, 11 questionários ) não tem televisão;
na aldeia Jagamü (61 pessoas, 49 questionários), há 13 televisões; na aldeia Ngahünga –
(115 pessoas, 70 questionários) há 20 televisões.
À televisão devem ser acrescentados o uso do computador e a o acesso a internet
(e-mail, blogs, face-book, etc.), que, apesar de ainda impossível nas aldeias Matipu e
Nahukwa, são atividades prioritárias dos jovens quando chegam às cidades mais
próximas (Gaucha do Norte e Canarana, ou até Brasília e Goiânia) ou em aldeias com
internet via satélites (Kuikuro, a mais próxima, e Posto Leonardo). Em outra pesquisa
em andamento sobre o uso da L1 e do português na internet, averiguamos a coexistência
de L1 e português na internet numa relação de 50%.
A escrita em LI é usada em bilhetes na internet e na escola, mas é uma produção
esporádica e muito pequena. A Oficina estimulou esta produção em vários momentos,
mas devemos considerar que os ‘escritores’ em LI são basicamente os professores e os
agentes de saúde, formados em cursos de Magistério e, alguns, no ensino superior, todos
cursos definidos, mesmo se apenas retoricamente, como sendo ‘específicos,
diferenciados, bilíngües e interculturais’ (ver o Anexo II e a pasta Avaliação no DVD
que contém este texto). A leitura em LI é ainda menos freqüente, se concentrando
apenas na escola (e raramente) e nos materiais didáticos bilíngües já produzidos, todos
organizados pela coordenadora do Projeto, desde 1996. A leitura e, em menor grau, a
escrita em português são mais estimuladas, dentro e fora das escolas das aldeias.
Nas comunidades Matipu e Nahukwa a língua indígena é ainda plenamente vital,
mas já podem ser detectados sinais de mudanças na direção de uma maior presença do
português, crescentemente desejado e usado. Além disso, é preciso considerar o
enfraquecimento das tradições orais nas gerações mais jovens. A transmissão de
narrativas e o ensino-aprendizagem de cantos, ‘rezas’ e discursos formais não são mais
19 

 
ao centro dos interesses da ‘rapazeada’, cada vez mais enredada pelo fascínio do mundo
urbano e das mídias de comunicação de massa. A escola indígena não logra funcionar e
ser vista como um espaço-tempo para a prática de um equilíbrio entre as línguas
indígenas e a do kagaiha (não-indigena).

Referências:

FRANCHETTO, Bruna . 1986. Falar Kuikúro. Estudo etnolinguístico de um grupo karíbe do Alto Xingu.
Tese de Doutorado, Programa dde Pós Graduação em Antropologia Social, Departamento de
Antropologia, Museu Nacional, UFRJ.

FRANCHETTO, Bruna . 2004. Línguas indígenas e comprometimento lingüístico no Brasil: situação,
necessidades e soluções. Cadernos de Educação Escolar Indígena, v. 3, n. 1, 2004. UNEMAT, Barra do
Bugres – MT, p. 9-26.

20 

 
ANEXO I ‐ Exemplo do Questionário preenchido 

Página 1:  

 

 

 

 

21 

 
 

 

Página 2: 

22 

 
Página 3: 

 

 

 

 

 

 
23 

 
ANEXO II ‐ Exemplos de produção escrita em língua indígena e em português (ver no DVD o 
conjunto dos textos produzidos na Oficina como avaliação da mesma) 

 

 

 

 

 

 

24 

 
 

 

 

 

 

 

25