You are on page 1of 301

Um paradigma no céu: Platão político, de Aristóteles ao séc XX

Autor(es): Vegetti, Mario; Pina, Maria da Graça Gomes de, trad.
Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra
URL URI:http://hdl.handle.net/10316.2/34791
persistente:
DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0946-1

Accessed : 10-Apr-2017 10:49:24

A navegação consulta e descarregamento dos títulos inseridos nas Bibliotecas Digitais UC Digitalis,
UC Pombalina e UC Impactum, pressupõem a aceitação plena e sem reservas dos Termos e
Condições de Uso destas Bibliotecas Digitais, disponíveis em https://digitalis.uc.pt/pt-pt/termos.

Conforme exposto nos referidos Termos e Condições de Uso, o descarregamento de títulos de
acesso restrito requer uma licença válida de autorização devendo o utilizador aceder ao(s)
documento(s) a partir de um endereço de IP da instituição detentora da supramencionada licença.

Ao utilizador é apenas permitido o descarregamento para uso pessoal, pelo que o emprego do(s)
título(s) descarregado(s) para outro fim, designadamente comercial, carece de autorização do
respetivo autor ou editor da obra.

Na medida em que todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito
de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável, toda a cópia, parcial ou total, deste
documento, nos casos em que é legalmente admitida, deverá conter ou fazer-se acompanhar por
este aviso.

pombalina.uc.pt
digitalis.uc.pt

Um
Um
Umparadigma
paradigma
paradigmano
no
nocéu
céu
céu
Platão
Platão
Platão
político,
político,de
político,de
de
Aristóteles
Aristóteles
Aristóteles
ao
ao
ao
século
século
séculoxx
xx
xx

3
3
MMM
aararirioiooVVV
eeg
ege
getettttiti i

(Página deixada propositadamente em branco)

Um paradigma no céu
Platão político, de Aristóteles
ao século xx

(Página deixada propositadamente em branco)

Um paradigma no céu
Platão político, de Aristóteles
ao século xx

MARIO VEGETTI

Tradução de
MARIA DA GRAÇA GOMES DE PINA

I
I}IPRF.NS,\ [MlJli i\'F.RS II)A[)F.[)F.COL\IRR,\
/\NN~UME
u
COJMBRAUNI\'Eil511YPRF.SS
CLÁ S S I C A

doi.annablume.org/10.14195/978-989-26-0946-1 DEPÓSITO LEGAL 350536/12 © JU NHO 2012 A N NA BLUME IMPR ENSA DA U NI V ERSIDA DE DE COIMBR A .pt/imprensa_uc ANNABLUME editora .uc. comunicação www.br PROJETO E PRODUÇÃO Coletivo Gráfico Annablume IMPR ESSÃO E ACA BA MEN TO LinkPrint ISBN 978-989-26-0260-8 (IUC) 978-85-391-0153-4 (Annablume) ISBN Digital 978-989-26-0946-1 DOI http://dx. COEDIÇÃO Imprensa da Universidade de Coimbra URL: http://www.com.

Os paradigmas da modernidade 67 . SUMÁRIO Apresentação 09 Premissa 21 1. Nas origens da interpretação 43 Aristóteles: o cânone da crítica política 43 Proclo: a hermenêutica da despolitização 56 Idade Média e Renascimento: da alegoria à teologia 61 Nota bibliográfica 66 3. Platão político 25 Os textos 25 A biografia 27 O que significa “política” em Platão? 32 Nota bibliográfica 41 2.

 Gomperz 82 Platão “socialista”: Pöhlmann e Natorp 96 Nota bibliográfica 108 4. Do Terceiro humanismo ao Platão “nazi” 111 “Sob a bandeira de Platão”: Wilamowitz. Itália.   Jaeger. Stenzel 111 A usurpação nazi de Platão 124 Nota bibliográfica 139 5. Kant: os ideais da razão 67 Hegel: o “espírito do tempo” 73 Entre Kant e Hegel: liberalismo e   socialismo 82 Os grandes historiadores: Zeller. Historicismo e engenharia social: o Platão de Popper 175 Por quê Platão? 175 Diagnósticos e terapias 177 Platão e o historicismo regressivo 179 A engenharia social utópica 184 Depois de Popper 187 Nota bibliográfica 191 . Inglaterra 143 Platão político em França 143 Católicos e liberais na Itália fascista 148 Em terra liberal-democrata 160 E os bolcheviques? 170 Nota bibliográfica 172 6. Grote. Platão no Ocidente entre as duas Guerras: França.

Platão sem política 231 Platão impolítico 231 Katoikizein 240 A questão da Carta VII 244 Uma réplica além do Muro:   o Streit um Platon na DDR 249 Nota bibliográfica 253 9. Platão político. hoje 271 A polissemia platônica 271 O excesso hermenêutico 274 O que sobra? 276 Nota bibliográfica 283 Índice dos nomes 285 .7. A questão da utopia 257 Utopias de evasão 257 Utopia de reconstrução 259 Da utopia projetual à teoria normativa 262 Nota bibliográfica 268 10. Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?) 193 Platão liberal-democrata 195 Platão utópico 205 Platão irônico 207 Ironia 216 Eros 220 Filosofia e política 222 Nota bibliográfica 227 8.

(Página deixada propositadamente em branco) .

Laterza. Vegetti havia dedicado-se a outros aspectos do pensamento platônico ao longo de diver- sos estudos. A passagem consiste em um dos pontos mais discutidos do diálogo platônico. Em República IX 592b1. podendo ainda ser destacados os volumes L’etica degli antichi (Bari. Quindici lezioni . 1989). A obra nasce como um dos resultados que se acres- centaram à empresa do monumental comentário da República dirigido por Vegetti. APRESENTAÇÃO 1. publicada em 7 volu- mes pela editora napolitana Bibliopolis entre os anos de 1996 e 2007. notadamente da República. após um longo desenvol- vimento dialógico que visava construir a “bela cidade” com a finalidade de definir a ideia de justiça. mas que consiste em um “paradigma no céu” a ser contemplado. Sócrates diz que tal cidade jamais existiu. e Mario Vegetti emprega como motivo para sua obra acerca da história das interpretações do pensa- mento político de Platão. que compreende vinte e quatro séculos.

1999). da mo- ral. verdade. Após traçar alguns comentários acerca da vocação política de Platão. sempre vinculada ao discurso sobre o ser e o conhecer. Bari. 2003). particularmente os conteúdos dos livros IV 10 . Tal unidade entre os diversos aspectos do pensamento platônico será tratada por Vegetti nos termos do triân- gulo ser. Basta uma primeira leitura da República para que o leitor veja-se envolto no universo de uma plurali- dade de teses. sendo que o sentido de “as coisas políticas” (tà politikà) possui um sentido diverso daquele que hoje conferimos à política. Na crítica aristotélica podem ser notados os elementos que constituirão os pontos mais polêmicos para toda a tradição. Vegetti ad- verte o leitor de que é precisamente o eixo da política. Laterza. Sabemos que somente por abstração podemos separar a reflexão platônica acerca da política daquela acerca do conhecimento. tal como descrita na Carta VII. cuja primeira grande disjunção será operada por Aristóteles no livro II da Política. e de apresentar as grandes linhas da República. que motivará sua plurissecular tradição interpretativa. As dynameis inscritas em cada página da obra platônica serão mostradas pela multiplicidade de interpretações de seu aspecto político. da cosmologia. da psicologia. valor. de modo que não há uma obra que o filósofo dedica exclusivamente ao que hoje denominamos política. bem como o guia esquemático à leitura da República (Guida alla lettura della Repubblica di Platone.su Platone (Torino. Einaudi. opiniões e questões que não permitem uma síntese sem ocultar algum aspecto da obra. ao di- zermos “filosofia política”.

alguns gêneros de cidade foram descartados dada a sua impossibilidade e inadequação à vida humana. São eles: a capacidade das mulheres para o go- verno. A uni- dade e a comunhão absolutas negam a essência plura- lista da cidade. A esses argumentos aristotélicos. Vegetti volta-se. autor do grande e sistemático comentário à República no perío- do. Mostra como Proclo é um dos primeiros a ressal- tar as muitas reticências existentes no texto do diálogo platônico. Nesse tipo de cidade una a infelicidade é universal. A tensão entre desejável e realizável será objeto de uma longa oscilação no campo das interpretações posteriores. Tal nível de unidade idealizada por Platão não é realizável nem desejável. mobilizado por Aristóteles con- tra Platão. aniquila a amizade e generosi- dade entre eles. Aristóteles acrescenta ainda que a dissolução da posse privada é algo que pri- va os homens de prazer. É sobretudo ao problema da dissolução da família e da propriedade que Aristóteles dirige sua atenção. que se funda na colaboração entre os indivíduos. interpretação que será retomada por várias 11 .e V do diálogo. para a tradição platônica tardia. a comunidade de filhos e bens e a necessidade dos filósofos serem reis ou dos reis serem filósofos. Vegetti acrescenta o comentário de um argumento que cha- ma de “historicista”. analisando o caso de Proclo. a cidade platônica não é realizável nem desejável. No decorrer do tempo. sobretudo no caso daquilo que Só- crates chama das três “vagas” ou “ondas” que deverão ser enfrentadas naquele momento da construção da cidade. portanto. Tanto na ordem da na- tureza quanto na dos valores.

psicológicos ou cosmológicos. Abbate. Vale notar que uma perspectiva de combinação entre os diálogos já se ins- crevia na estratégia plotiniana de articulação dos livros centrais da República a diálogos como o Parmênides. em par- ceria com M. embora Plotino notasse as diferenças e contradições existentes entre os diálogos. na organização do volume La Reppublica di Platone nella tradizione antica. Na leitura procliana. o Banquete. ressurge no mundo contemporâneo. Vegetti chama a atenção para a posição secundária da República na ordem de leitura dos diálogos platô- nicos no final da Antiguidade. e. de modo que os bens poderão ser distribuídos de acordo com a necessi- dade de cada um. o autor observa que a interpretação procliana leva à sistemática diluição do conteúdo político do diálogo. 1999). Esse tipo de inter- pretação. Por outro lado. 12 . a unidade da cidade deve ser compreendida no sentido de uma finalidade em dire- ção ao todo e não como aniquilação do elemento plu- ral do polis. Bibliopolis. o Fedro e o Fédon. dura ao longo dos períodos medieval e renascentista. assumindo uma inter- pretação alegórica que se remete a conteúdos teológi- cos. Proclo argumenta que a educação fará com que os indivíduos possam privilegiar o bem comum. a perspectiva com relação àquela plotinia- na será diversa (temática que Vegetti tratou.escolas da crítica moderna. Napoli. o que lhe apresentava a necessidade de interpretação de seu caráter enigmático. como será visto. de outra perspectiva e por outros motivos. em resposta a Aristóteles. Quanto ao comunismo absoluto. No comentário sistemático de Proclo.

que reduzem o elemento normativo-transcendental de modelos. Na época moderna a discussão sobre o sentido da República reaparece no interior da investigação kantiana acerca da noção de “ideia” e de sua resposta à crítica ao caráter quimérico do diálogo platônico feita por Bru- cker (cf. contido 13 . sobretudo com relação à interpre- tação do preceituário factual contido no diálogo (tal como a abolição da propriedade e da família. 3). Nesse sentido. bem como finalidade da práxis. é necessário distinguir ser e dever ser. havendo uma mútua implicação entre ambos os níveis (critério e telos). o caráter regulador da ideia é exercido como critério de juízos de valor. isto é. Vegetti aponta para as dificuldades oferecidas pela perspectiva kantiana. Para Kant. 2. fato e valor. seria inade- quado exigir de um modelo normativo a historicidade e a factibilidade que os críticos de Platão mencionados exigem. Assim. e não podem exercer a função arquetípica e re- guladora específica da ideia. que são reguladores e não leis positivas. mostrar os limites das diversas interpreta- ções. cap. pois o campo do que é ideal não pode ser julgado conforme regras empíricas. Valendo-se de uma estratégia que percorre toda a obra. o pres- suposto. Em outras palavras. Nesse sentido. Os fatos não são perfeitamente adequados às ideias. da impossibilidade de realização é um argumento inadequado para a rejeição da República. Kant visava esclarecer o sentido da noção de “ideia” recorrendo ao campo ético- político. assumido por muitos. acabando por responder. o que não é feito pelas críticas “naturalistas” e “historicistas”. de modo indireto. às críticas aristotélicas feitas na Política.

segundo a qual Platão teria constru- ído um ideal supérfluo. cuja ressonância remon- ta a Aristóteles. Aliás. a vida ético-política grega e seus limites históricos. o projeto filosófico contido na República seria aquele de traduzir no campo do conceito a racionalidade do âmbito político. mas como o próprio “real”. que traduzem a mútua implicação entre ideal e real. que “deve ser” realizado. Nas Lições sobre História da Filosofia. O sentido da exigência platônica do filósofo-rei diz respeito ao domínio do campo dos princípios uni- versais na dimensão política. isto é. Vegetti faz uma 14 . para Hegel. É assim que.nos livros centrais). Em outras palavras. mas transpôs para o campo do conceito a crise de seu próprio tempo. para Hegel a República possui caráter mais descritivo que normativo. o factual e o normativo da República. é inadequado tanto considerar o caráter quimérico do conteúdo da República quanto a interpretação que a toma como ideia reguladora. É assim que. permanece a problemática da relação entre dimensão formal e dimensão de conte- údo. Note-se que o percurso das interpretações que ain- da será feito pelo leitor revela a oscilação permanente entre o caráter quimérico. nesse ponto. ao contrário de Kant. Platão não teria proposto ideais vazios aos quais a realidade deveria se adaptar. não elabora projetos eficazes no campo político. A Filosofia reflete acerca de processos já realizados e os transforma em campo de elaboração conceitual. implicada no caráter normativo do diálogo. na perspectiva hegeliana. Hegel nota que não se deve compreender o ideal como algo ocioso. No entanto. Ou seja. o filósofo retoma a acusação.

as perspectivas filosó- ficas (de kantianas a hegelianas) que lhes são contem- porâneas. Mas se as leituras serão marcadas por sua exigência de um rigor interpretativo que obedece àqueles critérios. No caso deste último. demos ou noûs. À geração dos grandes historiadores do final do sé- culo XIX e início do XX sucedeu-se aquela da filologia clássica alemã. 15 . vinculada ao “espírito do povo alemão” até uma mudança radical de perspectiva nos anos em que o filólogo viu tais expectativas frustradas. Com historiadores da Filosofia como Zeller. e que geraram muitos critérios equívocos de interpretação. Vegetti mostra como serão mantidas. que oscila de uma exaltação da afinidade entre o projeto descrito por Platão e as ex- pectativas relativas à superação da crise e à restauração da autêntica cultura. integrada aos crité- rios historiográficos e filológicos que se consolidarão ao século XX. Grote e Gomperz há uma nova forma de abordagem do pensamento político platônico. que terão longa vida nas posteriores traduções de Platão. com representantes como Willamowitz e Jaeger. ainda que de modo subjacente. E é precisamente nesse ponto que o rigor filológico revela os limites no campo das sínteses que serão feitas no período que circunscreve as duas grandes guerras. 3. É o que ocorre da interpretação da obra clás- sica de Zeller ao surgimento de leituras “socialistas” como a de Pöhlmann. vê-se como ocorre uma transformação de sua interpretação ao longo dos anos de publicação da Paidéia.observação acerca dos problemas apresentados pelas traduções hegelianas de termos gregos como polis.

as três vagas são exemplos da hipérbole em- pregada no diálogo. mencionemos o caso de L. que denota a impossibilidade de realização do comunismo absoluto ou a incompatibi- lidade da figura do filósofo com a atividade política.Na primeira metade do século XX. ao tentarem dar-lhe uma resposta. que se estende de uma leitura fascista ou socialista até a visão liberal-democrata. Vegetti analisa com grande perspicácia as críticas de Popper. A 16 . ou verem-se diante da tentativa de defender Platão de si mesmo. mostrando como. que escreve diante do impacto causado pela ascensão dos totalitarismos na Europa. Popper. correspondentes às convulsões sócio-políticas que o agitaram. os defensores de Platão acabam ou por assumir de modo tácito as teses daquele (o que já ocorria com as respostas a algumas apropria- ções ideológicas mencionadas). a interpretação de K. No- vamente. no entanto. são tais tentativas que geram estratégias interpretativas que renovam a forma de ler a República e que hoje são consensuais entre os críticos. Será. que produz uma gran- de variedade de respostas e críticas. Além do Platão utópico. cuja concepção é de que o método empregado por Platão é a ironia. expressa na forma dialógica. A crise da cultura refletirá a variabilidade de paradigmas interpretativos da obra platônica. a polêmica acer- ca do Platão político adquire contornos particulares. A sociedade aberta e seus inimigos posiciona Platão como o grande autor do pensamento totalitário que vigorou posteriormente no Ocidente. Strauss. Contudo. cujos ecos podem ser encontrados até nossos dias.

O que ocorre é a construção de uma utopia que se refuta a si mesma. a concepção do diálogo como metáfora que guarda um potencial persuasivo com relação aos personagens interlocutores de Sócrates não a expropria de suas teses filosóficas acerca da política. refutando não apenas a Popper. no entanto. portanto. reafirmando a superio- ridade da filosofia sobre a política. que para outros. Vegetti nota. Desse ponto da história da interpretação. Menções de destaque cabem. Nota 17 . que dissolvem o elemento político do pensamento platônico na chave irônico- utópica. O que está em jogo são questões psicológicas. nos úl- timos 20 anos as teses acerca da República não mais poderão descuidar dos elementos retórico-literários e das estratégias implícitas no método dialógico.kallipolis não seria. seguindo Strauss. Vögelin e J. Annas. 4. Tais limites estruturais não permitem tomarmos a Re- pública como obra de um pensador liberal-democrata. nem realizável nem dese- jável. para quem as “vagas” que aparecem no livro V denotam a intenção deliberadamente não realista de tais propostas. mas a outras formas de apropriação do que seria o con- teúdo político do diálogo. Ao concluir suas análises. não pode ser tomado como doutrina política de Platão. a esse respei- to. mas muitas vezes reduzindo toda a análise a tais elementos. fascista ou comunista. Sendo a ironia. Nos capítulos finais. Vegetti dedica-se ao sucesso das estratégias contemporâneas de refutação definiti- va das teses popperianas. às leituras de E. no entanto. e aponta para os limites da política. Vegetti retorna à frase do livro IX que fornece o título de sua obra.

embora note sua dificuldade. além da “teoria normativa” da sociedade justa de J. é necessário considerar o caso da utopia de recons- trução analisando as metáforas pictóricas (o filósofo- rei como pintor de constituições) nos livros V e VII. Com Finley. No entan- to. citando um passo de Rep. que será retomada no final da obra. O ideal kantiano retornaria no campo de uma interpre- tação da utopia como ficção que oferece um modelo imaginário provido de eficácia discursiva e normativa a fim de oferecer elementos críticos com relação à re- alidade. que conduz a uma leitura apenas psicológica do desenvol- vimento argumentativo. 18 . pois o autor ainda observa a necessidade de uma análise da relevância da Carta VII para a compreensão do Platão político.que ela é uma das passagens mais fortes para a ne- gação ou enfraquecimento do conteúdo político do diálogo. contudo concluindo pela afirmação de que a questão da Carta permanece em aberto. Adam de heautòn katoikizein (“fundar uma cidade em si mesmo”). ilhas dos bem-aventurados. que envolve várias ques- tões historiográficas e filológicas. Após retomar a tradução de J. Rawls. Mas que o leitor não se apresse. dada a polê- mica sobre sua autenticidade. etc) e utopias de reconstrução. Aqui são mencionadas as interpretações de Burnyeat e Morrison. V 458 a-b. Ve- getti pondera a prevenção platônica contra o primeiro tipo. observa que podemos com- preender “céu” e “paradigma” como indicadores da teoria normativa para a ação do filósofo. Ao comentar a perspectiva de Gadamer. Vegetti mencionava a diferença feita posteriormente entre utopias de evasão da realidade (idade do ouro.

Vegetti conclui ressaltando a polissemia platô- nica. operado a partir de Hegel (por exemplo. mostrando que ao longo dos séculos de leitura. bem como a vinculação dos diálogos políticos a essa tradição é algo do nosso tempo. Este é um dos traços que percorrem o eixo do livro de Vegetti e que mostra as formas de apropriação política de um clássico ao longo do turbulento século que nos precede. de “não comedidas”. uma vez que estamos diante de um texto teórico e não propagandista. O contraponto retroativo poderá ser feito pelo lei- tor na medida em que recorde as interpretações feitas na primeira metade do século XX. A existência de um suposto plato- nismo unificado é fruto de um processo hermenêuti- co da última fase da Antiguidade tardia. tal como ocorre com os grandes textos que percorreram a história do Ocidente. para quem a comunidade suprime absolutamente o indivíduo. anulando a “polissemia irredutível” do pensa- mento do filósofo. Vegetti chama. absurdas e enganadoras. bem como nas respostas a esse tipo de 19 . Vegetti nota o “excesso hermenêutico” no campo da política. ao final. Mas o autor nos lembra que é inadequada qualquer redução da filosofia platôni- ca à uma opção exegética que exclui radicalmente as outras. nas leituras do Platão totalitá- rio. A tais leituras da República. os intérpretes de Platão puderam encontrar elementos textuais que propiciam o pendor para esta ou aquela alternativa. notadamente de seus períodos mais críticos. Exemplo disso é a divisão já existente na Antiguidade entre um Platão cético e um dogmático. 5. entre duas grandes guerras e na emergência dos grandes totalitarismos. Desse modo.

A sobriedade de sua análise pode notar. que se confunde com a própria história da filosofia ocidental. em suas interrogações acerca da cidade e da alma. marcadas por um anacronis- mo radical. tal como o mostra ao longo de sua exposição. Calvino a propósito da obra clássica. são posições que se encontram nos séculos XIX ou XX. 20 . Aqui talvez não seja ocioso recordar a observação de I.paradigma). Agosto de 2010. com os estímulos críticos que tal pensamento nos oferece por sua distância no tempo. a clareza e a penetra- ção. não em Platão. características das suas obras. Tal extrapolação adquire cores que Vegetti chama de “patológicas”. novamente é a lição da polissemia estrutural do fazer filosófico platônico que aprendemos. Ao concluir o livro de Vegetti. Mauricio Pagotto Marsola São Paulo. que é sem- pre objeto de uma releitura. com a extraordinária precisão sintética. por isso. ou seja. A República já foi chamada de “odisséia da filoso- fia” (cf. J. Vegetti conduz o leitor pela odis- seia das interpretações do diálogo. Howland). que cada intérprete pode chamar a atenção para um aspecto do texto que foi ignorado por outro.

Quando depois. PREMISSA A obra política de Platão constituiu. a sua reconstrução historiográfica torna-se indispensável para evitar a desorientação na leitura desses textos ou a adoção de pontos de vista preconceituosos. isto é. como acontece no nosso caso. “em trabalho de campo”. por assim dizer. já na antiguida- de. esta mesma leitura não se pode eximir de dar conta de uma pluris- secular tradição exegética tão radicalmente conflituosa. devido a questões . a amplitude do leque hermenêutico é tal que é capaz de aparecer até escandalosa. num sentido ou no outro. sobretudo nos séculos XIX e XX. um dos mais violentos campos de batalha em que se desenca- deou o conflito das interpretações. e depois. Certamente isto faz dela um caso de importância capital na história da re- ceção e da eficácia dos textos filosóficos que – sendo já convicção geral – se mostra útil para a compreensão quer do autor. A pesquisa a que este livro se dedica nasce. quer das culturas que o interpretam. por outro lado.

A primeira. que ainda orientam 22 . porém. e à história das suas interpreta- ções. absolutamente não privada da in- fluência do texto platónico na nossa pré-compreensão. são indicados nos últimos dois capítulos do livro. a saber. A pluralidade de interpretações encontradas na enorme literatura relativa a este diálo- go não podia ser considerada uma simples questão de bibliografia especializada mas. por outro. repercorrer toda a vicis- situde histórica teria afastado excessivamente a inves- tigação da sua destinação principal. mas a discussão das vicissitudes hermenêuticas está naturalmente presente em cada parte dele. Adquirir consciência crítica dela significava poder ler o Platão político certamente não de um ponto de vista “neutro” (presunção não só ingénua como impossível). as leituras platónicas dos séculos XIX e XX. Era-me necessário reconstruir os pressupostos antigos e humanísticos que agiram de modo mais ou menos implícito também nos intérpretes modernos. devia ser reconstruída e interpretada como vicissitude cultural em si mesma. diz respeito ao período de tempo que vai do século XVI ao século XVIII (rico em discussões sobre Platão). no que diz respeito a Platão. Alguns resultados da investigação. de carácter cronológico. A reconstrução da história exegética do Platão políti- co aqui delineada apresenta lacunas que devem ser justi- ficadas. pelo contrário.suscitadas por um trabalho de comentário à República de mais de uma década. porém. mas atento ao que se encontra em jogo no conflito das interpretações e da sua complexa estratificação. Isto deve-se ao facto que a questão de que parti concerne sobretudo às interpretações da modernidade. por um lado.

Isto deve-se ao facto de que este diálogo – muito mais que o Político e as Leis – constituiu a questão mais relevante no conflito das interpretações. Só uma verificação rigorosa e bem documentada me parecia capaz de ir além da mera constatação de uma bizarra variedade de interpretações. Por outro lado. decidi concentrar a atenção em auto- res e obras que me pareciam centrais e decisivos. relegando os outros textos a uma posição geralmente marginal ou subalterna. o brilhante livro de Melissa Lane sobre Plato’s Progeny. eventualmente. omitin- do muitos outros. Pareceu-me mais in- teressante analisar de perto as razões e as argumentações expostas nos textos cruciais da vicissitude histórica. até significativos.de forma direta a produção historiográfica acerca do pensamento político do filósofo. como faz. mais do que fazer um resumo abrangente. por exemplo. para compreender de forma mais aprofundada a sua posição e motivos e. também. nos moldes ‘de um sobrevoo’. para apreender aquilo que ha- via por apreender com a finalidade de uma leitura mais consciente de Platão. Um paradigma no céu. convém notar que a investigação versa sobre- tudo sobre a República. por assim dizer. O título do livro. Por fim. que será discutida no CAP. A primeira ocasião para trabalhar neste tema foi-me oferecida pelo falecido amigo Emanuele Narducci que me convidou a falar sobre este tema num encontro de estudos organizado por ele em Sestri Levante em 2005 (Platone politico nel Novecento in Aspetti della fortuna 23 . 8. é uma cita- ção da célebre passagem da República IX 592b.

dell’antico nella cultura europea. S. pp. Francisco Lisi. 24 . Gherardo Ugolini e Federico Zuolo que me ajudaram a encontrar material bibliográfico pertinente. Agradeço também. Audace e L. 51-63). Pisa: ETS 2005. Desejo agradecer aos amigos Walter Cavini. Fezzi. a cura di E. Franco Tra- battoni. Franco Ferrari. Narducci. os estudantes do Laboratório de História da Filosofia que realizei na Primavera de 2008 na Universidade de Pavia. pelos preciosos estímulos propor- cionados pela discussão. Giovanni Giorgini.

o Epinomis e o Crítias no elenco dos diálogos platônicos pertencentes ao gênero “político”. e o Epinomis de Filipe de Opunte. e partilha a mesma enigmática ambiguidade que ele. sem sombra de dúvi- da. de facto. o Minos. Elimi- nemos logo da lista o Minos. de resto. o próprio Diógenes considera “ético” em outro lugar (III 60): trata-se provavelmente de um apêndice ao Timeu. Sobram. ou “sobre o justo”). que ele con- sidera de gênero “lógico” (III 59). as Leis (Nomoi). portanto. 1. três textos inequivocamente “políticos”. mais física (Diógenes considera o diálogo “físico”) e teológica. PLATÃO POLÍTICO OS TEXTOS D iógenes Laércio (III 50-51) insere a República (Politeia. ser incluído o Político (Da realeza). declara- damente política mas. é conveniente tirar também o Crítias que. Na lista de Diógenes deve. certamente espúrio. aos quais se .

de resto. obtêm-se 23 uni- dades dialógicas. por exemplo. é logo evidente. trata-se evidentemente do conjunto legislativo que determina o funcionamen- to de um sistema constitucional. já no plano quantitativo. Quanto basta. à primeira vista. Ficamos com 48 e depois 45. as Tetralogias de Trasilo incluem 56 diálo- gos. Os próprios títulos dão um testemunho bastante significa- tivo disso: politeia significa em grego quer a estrutura “constitucional” de uma comunidade política. mesmo ex- cluindo estas inserções. todo o Menexeno. A centralidade da questão política em Platão era.poderiam acrescentar grandes partes do Górgias e do Protágoras. os dois significados tendiam a coin- cidir porque o que. o Críton e a Carta VII. mais de metade. se a quiséssemos considerar autêntica. de todo o corpus atribuível a Platão. se subtrairmos os três textos políticos. Quanto a Nomoi. Somando ao Político os dez li- vros da República e os doze das Leis. 8 dos quais (inclusive as Epístolas) são certamente apócrifos. in- cluindo o direito de cidadania e de acesso aos cargos públicos (de fato. testemunhada pela edição do grande filólogo 26 . De fato. e o Político versa sobre a definição do tipo de homem a quem cabe o exercício de um poder eficaz no âmbito de um sistema político que ele é chamado a modelar. quer a extensão e composição hierárquica do corpo cívico. portanto. distinguia uma cons- tituição democrática de uma oligárquica era sobretudo esse direito). Mas. para convencer-se de que os temas da política não eram decerto secundários no âmbito da sua reflexão. o espaço ocupado pela reflexão política no corpus platônico.

É o caso de notar que a República. teria colocado a República em primeiro lugar. Por outro lado. indicando. Convém no- tar que. além dos já mencionados Protágoras. Como se sabe. a exposição da Carta (que tem certamente propósitos 27 . como veremos. III a. da Apologia ao Laques.alexandrino Aristófanes de Bizâncio (séc. e a questão provavelmente não tem solução no plano estritamente filológico. O que. a integração da política num quadro filosófico mais vasto é um traço típico do pensamento platônico. como de resto o Político e as Leis. deve contudo ser atribuída a um autor muito próximo dele. talvez Espeusipo ou um discípulo de Espeusipo que pudesse aceder a docu- mentos acadêmicos em posse do mestre. Górgias. segundo afirma Diógenes (III 61-2). se não é de Platão. é igualmente verdade que os temas políticos são quase onipresentes nos textos de Platão. no que diz respeito às vicissitudes siracusanas. Menexeno e Críton.C.) que. assim. do Fédon ao Fedro. A BIOGRAFIA Sobre o papel que os interesses políticos desem- penharam na experiência pessoal de Platão dispomos de um documento (auto?) biográfico excepcional: a Carta VII. pelo contrário. não tratam só de política em sentido estrito: mas. uma ordem de leitura dos diálogos. não parece ser ob- jeto de dúvida é a sua fiabilidade biográfica: a Carta. e isso não altera a centralidade de que se tem falado. sobre a autenticidade des- te texto há fortes dúvidas bem fundadas.

queria entrar na vida política da cidade” (324b). 8). aos olhos de Platão. culpada. e da extrema di- 28 . porque não se encontram envolvidos pela discussão sobre o signi- ficado político do pensamento platônico que. como os tios Pirilampo (de parte pericleia). 3.  A recusa a participar na tirania dos Trinta – pelos seus crimes – e a sucessiva desilusão para com a demo- cracia restaurada. que continha personagens importantes. 2. nascido numa família de elevada condição social e de evidente vocação política.C. Crítias e Cármides (que se destaca- riam no regime dos Trinta Tiranos): “Quando era jo- vem. do pro- cesso e da condenação à morte do seu mestre Sócrates. As informações essenciais que a Carta VII nos pro- põe acerca da atitude platônica quanto à política po- dem ser resumidas brevemente da seguinte forma: 1. que podia dispor de uma documentação in- dependente.  Uma propensão inicial para a atividade política. adquirida depois destas experiên- cias. em geral.. da impossibilidade de uma intervenção pessoal nas vicissitudes políticas atenienses. os historiadores são.  A convicção. partilhei uma paixão comum a muitos jovens: assim que alcançasse a minha independência. como veremos. absolutamente normal num jovem ateniense do sécu- lo V a. dominou a exegese da segunda metade do século XX (voltaremos a esta questão no Cap.apologéticos acerca das intenções que moveram Platão e os Acadêmicos) é confirmada essencialmente por Plutarco. De resto. mais propensos que os intérpretes filosóficos de Platão a reconhecer a fiabilidade do documento.

que só ela consente que se identi- fiquem todas as formas de justiça no âmbi- to quer da vida política. ou aqueles que governam as cidades. se afirmara um regime tirânico odiado mas prestigiado e eficiente. sustentado por Dionísio I). não começarem a praticá-la (326a-b).ficuldade em encontrar ‘amigos’ decididos a compro- meterem-se em uma obra radicalmente reformadora. apercebi-me de que todas as cida- des de hoje são mal governadas (o seu sis- tema legislativo é praticamente incurável a não ser que se lhe dediquem extraordinários preparativos acompanhados de fortuna). a decisão de intervir mais do que uma vez na política siracusana (Siracusa era uma das maiores metrópoles do mundo grego e constituía um verdadeiro laboratório político. embora “continue a aguardar sempre o momento oportuno para a ação”. por uma qualquer sorte divina. E fui obrigado a dizer. quer da pessoal: as gerações humanas não serão libertadas dos seus males enquanto aquele tipo de homens que praticam a filosofia de modo autêntico e verdadeiro não chegarem ao poder políti- co. Com a escolha siracusana.  Por fim. No final. 4. elogiando a autêntica filosofia. porque deter- minou a sua derrota na grande expedição de 415/3. Platão rompia definitiva- mente com a política ateniense: a cidade siciliana era uma inimiga tradicional dos atenienses. du- 29 . depois de uma experiên- cia democrática. no qual.

a Academia. em 367. imposta por Esparta e pela Pérsia e defendida por Dionísio. As palavras com as quais o autor da Carta explica as motivações de Platão ao aceitar o insistente pedido de Díon devem ser referidas na sua totalida- de. aquele era o momento para o expe- rimentar: convencer um só homem ter-me- ia bastado para levar tudo a bom porto. As razões que levaram Platão a fazer a primeira viagem a Siracusa. em 388/7. Com estes pensamentos e com determinação zar- 30 . uma vaga esperança de induzir o tirano a adotar uma forma de governo inspirada nos princí- pios filosóficos da justiça.rante a guerra do Peloponeso. ou a intenção de encontrar um apoio influente para a fundação da escola atenien- se de Platão. que o nobre siracusano Díon – considerado por Platão um dos melhores discípulos da Academia – reputava dis- ponível à receção do ensinamento moral e político do mestre. Mas. com a morte de Dionísio I. podem apenas ser su- postas: talvez. Se alguma vez se devessem tentar realizar as minhas conceções sobre as leis e a forma de governo. porque elas – largamente confirmadas por muitos textos dialógicos – contribuem de modo significativo ao esclarecimento da atitude do filósofo relativamente ao seu envolvimento político. Concluída a experiência com um total insucesso. sucedeu-lhe o filho . e contribuiu para a sua humilhação com a “paz de Antalcidas” de 387. Platão dedicou à Academia os sucessivos vinte anos da sua vida.

]. Parti então. que se concluiu com a deposição de Dionísio II e com a subida ao poder tirânico de Díon.. com a idade de cerca setenta anos. mas sim porque me teria envergonhado demais em ver-me como um homem só de palavras. e incapaz de comprometer-se em qualquer ação [. 31 . To- davia. para ir ao encontro de uma tirania decerto não idônea nem aos meus discursos nem a mim mesmo (328b. O filósofo rea- lizou em 361 uma nova e igualmente inútil viagem a Siracusa.. pei de Atenas. A nova expedição (366/5) terminou num desas- troso fracasso. seguindo razão e justiça por quanto é possível a um homem. com o qual Platão havia estabelecido uma relação de amizade. visto que se dedicou à redação das Leis até os últimos dias de vida). as suas tentativas de intervir diretamente na vida política (mas não a sua reflexão sobre o governo. mais uma vez pelas insistências de Díon e talvez pelo mesmo Arquitas. não pelos motivos que algu- mas pessoas me atribuíam. O próprio Platão só conseguiu voltar para Atenas são e salvo graças à decisiva intervenção do pitagórico Arquitas. comandada por Díon e por outros Acadê- micos e apoiada por Espeusipo. não há dúvida que Platão tenha pelo menos tacitamente autorizado a expedição militar a Siracusa em 357. abando- nando por isso as minhas não indignas ocu- pações. Interrompem-se aqui. pela rivalidade de Dionísio e Díon e pela recusa do tirano a reformar o seu domínio. tirano de Tarento. 329a-b).

1. apesar de ela poder parecer indicativa da inspiração que de modo explícito ou implícito Platão transmitira aos seus discípulos. ao invés. a finalida- de do poder que esses cargos permitem. pelo contrário. o difícil esforço de se manter. das suas tiranias. por assim dizer. O QUE SIGNIFICA “POLÍTICA” EM PLATÃO? Até agora baseamo-nos na objetividade dos dados textuais e na relativa confiabilidade de uma (auto)bio- grafia da qual não se deve esquecer a razão apologética. a estrutura econômico-social da cidade e as 32 . no grau zero da hermenêutica. ta politiká. na segunda metade do século IV. o princípio de uma convulsa par- ticipação da Academia nas vicissitudes das poleis gregas e. então. Tenta- remos. sobretudo. Se este foi o último episódio político que envolveu indiretamente Platão.  O que interessa a Platão no campo dos “negócios da cidade”. oferecer algumas indicações preliminares para definir o âmbito dos problemas em jogo sem pre- judicar o seu sentido total. parece ser constituído por estes aspectos: o acesso aos cargos de governo. Responder neste texto introdutório à pergunta sobre o significado de “política” para Platão – resposta que constitui propriamente o prêmio do conflito das inter- pretações de que se ocupará este livro – comporta. para evitar formulações de alguma maneira preconceituosas e prematuras. a obtenção do consenso. Mas esta é outra história. a expedição siracusana consti- tuiu.

A máxima aspiração da vicissitude histórica dos gregos – a construção de uma comunidade política unida. “a cidade dos ricos e a cidade dos pobres” (Resp. mas não só.relações entre os grupos que a compõem. cada uma delas fragmenta-se ulteriormente numa pluralidade de núcleos de interesse privados. de fato. e aquelas guerras entre gregos que. a preparação e a condução da guerra. um caráter diagnóstico: há uma “do- ença da cidade” (poleos nosema. é a duradoura fratura da polis em duas partes hostis e contrapostas en- tre si. ao invés. ou nas estruturas institucionais que a realizam (sobre as quais se centra. por exemplo. Platão está menos interessado a grosso modo na engenharia constitucional e legisla- tiva. IV 422e).  O primeiro contato com a política tem. VIII 544c7). devem ser consideradas guerras civis da comunidade helênica). 2. o in- teresse historiográfico de Aristóteles na Constituição dos Atenienses). embora estes aspectos sejam. em li- nhas muito gerais. a cida- de democrática de modelo ateniense: a crítica às mais difundidas formas políticas existentes (a democracia. concor- de e pacificada – nunca foi realizada e o seu fracasso tornou-se evidente nas vicissitudes históricas que ser- viam de fundo para a experiência pessoal de Platão (as staseis ou “conflitos civis internos”. a oligarquia e a monarquia absoluta ou tirania) é feita no livro VIII da República e retomada no livro III das Leis. por sua vez. O sintoma mais evidente da crise da cidade nesta épo- ca. tratados nas Leis. Esta doença ataca em primeiro lugar. 33 . Resp. do fracasso do projeto de civilização que os gregos tinham procurado seguir na sua história.

segundo a terminologia de Dawson. mas também ao testemunho. e a uma utopia comunista de perfil alto no livro V. é satirizada no Menexeno). “realistas” ou filotirânicos. 3. o excesso de liberdade que degenera na anarquia). Cálicles e Trasímaco. nos livros II-IV. 4. O poder democrático. quer sejam democráticos. de inspiração dórica. Platão propõe diversas estratégias terapêuticas que visam restabelecer a harmo- nia e a saúde das cidades. e ainda no livro II das Leis. vítima da procura de consenso. como Polo. “extraído” nos diálogos aos ideólogos da política. O desmascaramento da crise e o diagnóstico da do- ença são confiadas por Platão não só ao “seu” Sócrates. em geral.  Uma crítica particularmente áspera é dirigida à democracia ateniense. aos procedimentos e aos mo- dos de vida que a caracterizam (o sorteio dos cargos. Na República. aos seus maiores líderes como Temístocles e Péricles (cuja célebre oração fúnebre aos mortos em guerra. de uma distribuição dos papéis de governo que espelhe o dom psicológico dos diversos tipos de indivíduo presentes na comunidade política. na versão atestada de Tucídides. a uma uto- pia de “baixo perfil”.  Face a estas patologias. transforma-se num ato demagó- gico que está a serviço dos piores desejos das massas ignorantes. como Protágoras. em vez de as guiar para o bem comum da coletividade política. O essencial destas críticas é desenvolvido no Górgias e espelha-se nos livros VI e VIII da República. por assim dizer. Trata-se. essa distribuição dá lugar. 34 . que se põe de maneira explícita – até ao processo e à condenação – como antítese viva da degeneração da cidade.

a sophrosyne ou moderação. um grupo de produtores (agrícolas e artesanais) e de comerciantes. Estas estratégias teriam o objetivo de garantir a unidade da ci- dade sob a forma de uma hierarquia dos papéis sociais. A subordi- nação hierárquica. trata-se pelo contrário de uma rígida delimi- tação do corpo cívico que atribui papéis de governo a um grupo restrito de cidadãos-chefes de família. um grupo combatente. aliado e subordi- nado ao primeiro. Na República.nas Leis. do qual farão parte os indivíduos dominados pelo de- sejo de riqueza e de prazer (epithymetikón). a proposta terapêutica apresenta-se em forma de um argumento de tipo condicional. por uma virtude comum. formado por indiví- duos nos quais prevalece o princípio da racionalidade (logistikón). da concórdia interna do grupo dirigente. e a sua colaboração será o sigilo da justiça finalmente realizada na cidade. Deverá haver um restrito grupo de governo. Com base no axioma tipicamente platônico que aquilo que garante a uni- dade e a estabilidade da comunidade é a harmonia do 35 . da aceitação do seu poder por parte das classes subalternas. capaz de coman- dar com vista aos interesses gerais. unida. em pri- meiro lugar. harmoniosa e pacificada. então será preciso. Se quiser finalmente construir uma cidade governada com vista à felicidade pública. constituído por aqueles em cuja estrutura psíquica prevalecem as motivações de autoa- firmação agressiva (thymoeidés). mas consensual. entre estes grupos deverá ser garantida graças a um trabalho de educação coletivo. por conseguinte. por fim. redistribuir as funções sociais em relação às capacidades dos membros da comunidade.

como é confirmado pela igualdade de papéis e de funções entre os machos e as fêmeas dos cães de caça e de guarda. O grupo dirigente deverá também ser minuciosamente selecionado e consolida- do. uma mentira semelhante. Certamente aquele ethos será radicalmente apagado. brônzea e férrea para os outros). Os dois “escândalos” propostos no livro V da República consistem portanto na abolição da pro- priedade privada e da família: no interior do grupo dirigente deverão estar em vigor quer o comunismo dos bens. diz Platão. argêntea para os combatentes. pois. com objetivos propagandistas. então é preciso que sejam negados aos seus membros quaisquer interesses privados. Tudo isto. quer através de ações educativas. é certamente contrário ao costume vigente. quer através de uma política “eugênica” que junte constantemente os seus melhores elementos. que faça passar a sele- ção reprodutiva como efeito de sorteios casuais. ao ethos tradicional. quer a comunhão de parceiros reprodutores e a criação coletiva da prole. fora exposta no livro III. áurea para os governantes. quer patrimoniais. ser coeso e desinteressado. mas não à “na- tureza” (456c). como se faz na criação de animais de raça (esta política comporta uma mentira ditada pela “razão de estado”. junto com todas as leis vigen- 36 . onde se tratava de fazer crer aos cidadãos que a sua distribuição em diversos grupos sociais se devia a uma diferença da respectiva natureza originária. quer afetivos. será também preciso que este último seja defendido da tentação de exercer o poder no pró- prio interesse e não no poder do interesse geral. Se o grupo dirigente deve.grupo dirigente.

políticas – é questão controversa no jogo herme- nêutico. Trata-se. por conseguinte. igualmente decisivo mostra ser o problema da identificação das figuras às quais cabe o papel ati- vo na reforma. segundo o livro V da República. utópicas. o es- tatuto das terapias da cidade delineadas por Platão – projetivas. intelectuais de elevados dons intelectivos e mo- rais. porque seria ridículo que se tratasse apenas de “castelos de nuvens” (V 456c e passim).). Saber depois qual é. de um só “verda- deiro político” ou “homem real”. e. Isto. é indubitável que se trata de uma terapia de difícil realização. reafirma mais de uma vez Platão. segundo o autor. e a sua destinação aos trabalhos agrícolas (VII 541a) até serem reeducados consoante a nova estrutura da cidade. 5. ser deixada de lado. pelo menos por ora. identificar quem pode agir como médico da cidade doente. segundo a metáfora eficaz na qual insiste o Político (296b segs. dotado de uma ciên- cia política que lhe consente prescindir da legislação 37 . deve. em suma. ou então.tes nas cidades históricas: a medida mais drástica pro- posta por Platão é a expropriação inicial dos lugares de governo a todos os membros da comunidade que tenham mais de dez anos e tenham sido educados segundo a tradição existente. todavia não impossível (VI 499d e passim). é necessário se quiser obter a cura da cidade. de uma elite de “filó- sofos”. cujo lugar de ‘incubação’ não é arbitrário detectar na Academia platônica. ou mais que. irônicas.  Dado que a questão do poder (a pergunta “a quem cabe o governo?”) é central nas estratégias platônicas. éticas além de.

  A questão das estratégias terapêuticas e da sua realização eficaz varia. o da educação-conversão do tirano ou de um filho seu que mostre ter disposição para tal. No segundo caso. com base no modelo ateniense. ou.escrita. ou então de um bom “jovem tirano”. sobre a sua plausibilidade teórica e sobre a sua possibilidade política. como Siracusa. pelo contrário. O primeiro caso tem. ao in- vés. disposto a converter-se à filoso- fia. talvez. no IV das Leis. nas Leis. ou. seja indicado na figura de Dionísio II. quer se trate de curar uma ci- dade existente. decisiva a obra do consulente legislador relativa aos fundadores da nova cidade: é a tarefa que. de uma nova forma de poder. é relevante a utilização de instrumentos de boa retórica para a persuasão das massas. quer de prevenir o surto de patologias sociais numa nova fundação. 6. Sobre estas figuras todas. o estrangeiro atenien- 38 . pode tratar-se dos astroteólogos membros do “Conselho Noturno” que devem controlar o respeito à constitui- ção previsto no livro XII das Leis. a aceitar o conselho de um legislador filósofo. de quem se fala no livro VI da República. então. o problema é. Por fim. melhor. e o seu sentido deve ser aqui igualmente deixado de lado. ou ainda de um “filho de um dinasta”. mesmo coercitiva. no caso das cidades com regime tirânico. aos quais se faz alusão no livro VI da República e que são tematizados no Fedro. duas variantes: se tratar de uma cidade de regime democrático. a questão da instauração. ou de Díon na Carta VII. cuja chegada é dada como hipótese no Político. valem naturalmente as mesmas interrogações formuladas no parágrafo anterior. é. e que. por sua vez.

Isto deve-se. uma degeneração da justiça da “bela cidade” (kallipolis) na “timocracia” (poder da ambição e da força). natureza esta exposta – apesar dos condicionamentos educativos – à pressão das componentes irracionais do eu e. e é legítimo supor que um semelhante papel tenha sido desempenhado pelo próprio Platão e pelos membros da Academia em diversas cidades da Grécia do século IV. até chegar ao regime desprezível da tirania. A fenomenologia histórica da República prevê. 39 . ao contrário do que ocorre nos outros dois. 7. às contradições que são inevitavelmente inerentes a qual- quer sistema de governo. além disso. A transição para os diversos regimes é devida às contradições internas específicas de cada indivíduo. não se faz nenhuma menção a um possí- vel andamento cíclico da temporalidade histórica. portanto. à instabilidade ontológica estrutural da época histórica e à instabilidade estrutural antro- pológica da natureza humana. por mais próximo que esteja da perfeição.se assume para com os colonos da futura Magnésia.  Qualquer regime político. no primeiro destes textos. está porém destinado à cri- se e à transição para outras formas. que comporta a escravidão universal dos homens sob o domínio de um tirano. e a ela se alude no mito do Político. ou que esperassem desempenhá-lo. e não se indica especificamente ne- nhuma saída da tirania. também ele es- cravo dos seus desejos. Esta tese de fundo é defen- dida de várias formas no livro VIII da República e no III das Leis. em primeiro lugar. na oli- garquia (poder da riqueza). na democracia (poder dos desejos anárquicos).

como se dis- se. com as suas ramificações mitoló- gicas relativas ao tema da reencarnação. e sobre as suas variáveis modalidades. por conseguinte. “político” – como declaradamente é a psicologia do livro IV da República e. contudo. precisamente as ideias do justo e do bom. já deformado e desviante se não fosse acrescentado um esclarecimento necessário. um quadro mínimo meramente informativo do âmbito sobre o qual versa a reflexão política de Pla- tão. a colocação metaempírica das ideias de valor impõe a questão da sua cognoscibilidade. faz a Política de Aristóteles. a qual requer a construção de uma epistemologia relativa 40 . exemplo do que sucede no livro X da República e em outros lugares. em parte também. colocando então no centro a questão da imortalidade – como a do Fédon. nem isto seria possível por causa do estilo total da filosofia de Platão. Por outro lado. Por sua vez. ser de tipo fenomenológico e. Mas a psicologia pla- tônica pode. que é primariamente a das ideias-valores. a psicofisiologia do Timeu – ou metafísico. porém. por sua vez. A política. Este quadro resultaria. a política está intimamente interli- gada a uma ética. pressupõe uma antropologia e esta funda-se numa psicologia. por exemplo. O que até aqui se delineou constitui. Mas a ética pla- tônica – preocupada evidentemente com a garantia de absoluto e a objetividade do plano dos valores contra o relativismo sofístico e a arbitrariedade do poder – não pode prescindir de uma ontologia. como. porque a sua tarefa consiste na instau- ração da justiça no mundo humano. ta politiká. Ne- nhum texto platônico se destina em modo exclusivo à discussão das questões políticas.

em cujos vértices têm verdade. Aspects of Antiquity. cf. pois. Harmondsworth: Penguin 19772. Trata-se agora de dar conta desta tradição e das suas matrizes genealógicas. Toda a documentação sobre o envolvimento político de Platão e da Academia se encontra recolhida e é discutida em K.). NOTA BIBLIOGRÁFICA Para a atribuição da Carta VII a Espeusipo ou ao seu círculo. Sobre o problema. FINLEY. cf. A estrutura da filosofia platôni- ca pode. propen-de para a sua autenticidade o recente estudo de L.. die Akademie und die zeitgenössische Politik. 66. in Id. Napoli: Guida. Paris: Flammarion. 1987. e este aspecto filosófico decisivo pode contribuir por si mesmo para explicar as incer- tezas exegéticas e o vastíssimo leque das interpretações que marcaram a tradição do “Platão político”. Stuttgart 1994. e L’Accademia antica e la 41 . os estudos de M. 133-66. Filosofia e politica nelle Lettere di Platone. TRAMPEDACH. 1970. Plato and Pratical Politics. a dimensão política nunca pode.ao plano noético-ideal. pp. ser representada como um triângulo. Platon. 74-87. consoante os casos. Lettres. portanto. I. a partir de qualquer um dos vértices. Onipresente em Platão. ISNARDI PARENTE. pp. ser isolada dos outros âmbitos que a fundam e a orientam. in “Hermes – Einzelschriften”. Platon. fidedignamente M. ser e valor (tanto ético como político) e cujo perímetro pode ser traçado. BRISSON (éd.

SCHOFIELD. Sobre a crítica de Platão aos regimes políticos existentes. Bologna: CLUEB. les démocrates et la démocratie. 69-81. pp. Uma equilibrada apresentação introdutória do pensamento polí- tico de Platão encontra-se em M. New York-Oxford: Oxford University Press. A distinção citada entre os níveis da utopia em Platão é de D. recentemente M. 42 . DAWSON. os sete volumes de M. 2003. Platone. Quindici lezioni su Platone. VEGETTI. VEGETTI.). I filosofi e il potere nella società e nella cultura antiche. são indicados com a abreviatura CR seguida do número do volume e do ano de publicação. in G. Lisi (ed. in F. PRADEAU. 2004. Sankt Augustin: Academia. Platone contro la democrazia (e l’oligarchia). M. pp. 1992. Platon. 1988. Casertano (a cura di). Cities of the Gods. Dionisio II. Oxford: Oxford University Press. The Ways of Life in Classical Political Philosophy. MUCCIOLI. Communist Utopias in Greek Thought. pp. 2005. Political Philosophy. L. in CR VI. Napoli: Bibliopolis. 295-396.-F. Repubblica. Torino: Einaudi. BERTELLI. Napoli: Guida. 2005. J. cf.politica del primo ellenismo. Uma recapitulação histórica das vicissitudes siracusanas no século IV encontra- se em F. 1996-2007. Plato. cf. 89-117. 2006. Aqui e noutros lugares. traduzione e commento. Napoli: Bibliopolis. 1999. L. Filosofia e politica: le avventure dell’Accademia. Para o “triângulo” platónico e uma sintética apresentação do estilo da filosofia de Platão cf. VEGETTI (a cura di).

NAS ORIGENS DA INTERPRETAÇÃO ARISTÓTELES: O CÂNONE DA CRÍTICA POLÍTICA D eve-se a Aristóteles a primeira e a mais drástica operação de isolamento dos temas propriamente políticos da trama complexa do pensamento platôni- co. quebrando os elos de ligação. muito cerrados como se viu nos textos platônicos. com as dimensões da psicologia. Conduzida com precisão cirúrgica. focaliza- se sobre os aspectos daquelas obras que mostravam ser precisamente de pertinência política. a operação é imposta pelo critério de pertinência disciplinar com base no qual Aristóteles distribui o saber dos seus pre- decessores na redação dos tratados que compõem a unidade articulada da sua enciclopédia. 2. . a dis- cussão efetuada sobre as opiniões precedentes no livro II da Política. da ética. em particular as da República e as das Leis de Platão (o Político não é mencionado). Assim.

sem esconder demasiado o seu incômodo: “Quanto ao resto.). e no mesmo tipo de educação (II 6 1264b29 segs. “senhores” (kyrios) da cidade. não alternativas. a comunhão de mulheres e filhos. a comunhão das propriedades. da epistemologia e da teologia. a participação das mulheres nas mesmas funções dos go- vernantes (phylakes). pode-se recorrer mais uma vez ao critério de pertinência: de um ponto de vista político 44 . ainda por cima numa obra tardia em que ele apresentava novamente o essencial do seu diálogo político? Ou então. 4. Sócrates encheu o seu discurso de argumen- tos não pertinentes e de discursos sobre a educação dos governantes” (Pol. A omissão diz respeito ao caráter “filosófico” do grupo de governo (os célebres filósofos-reis do livro V). Este resumo (baseado essencialmente em parte dos livros IV e V da República) apresenta uma omissão e algumas imprecisões ou incertezas. inclusive na guerra. 2. no interior destas classes. Aristóteles cinge-se fundamentalmente ao resumo da República que o próprio Platão havia formulado no início do Timeu (17a-19a).da ontologia. Ao redigir o seu sumário. de um grupo de governo. 3. no qual a figura dos filósofos-reis já havia desaparecido: então por que não seguir uma omissão operada pelo pró- prio autor. e a sucessiva seleção. No final da sua exposição da República. a ordenação dos cidadãos em duas grandes classes.). Ela pode ser ex- plicada de duas maneiras. os “agricultores” e os combates. O que sobra propriamente de político no grande diálogo? Este é o sumário que dele oferece Aristóteles: 1. Aristóteles acrescenta. II 6 1264b39 segs.

Aristóteles. Pelo contrário. imprecisão e incerteza dizem respei- to ao “comunismo” dos bens.o que conta é a existência de uma pequeníssima elite de governo selecionada no interior do grupo comba- tente. tinha também circunscrito explicitamente a este grupo a forma de vida comunitária. o mesmo Platão falara de uma propriedade coletiva da terra. voltando ao assunto do primeiro diálogo político. “Uma legislação como esta apresenta à primeira vista um aspecto agradável e um caráter filantrópico: quem ouve a sua exposição fica bem disposto. Tam- bém esta aparente incompreensão da República tem to- davia uma explicação. não sem lhes atribuir um elogio de tom irônico. parece alargar a propriedade comum ao inteiro cor- po social. V 739c-740a). com efeito. ao in- vés. o que poderia fazer pensar em uma interpretação “autêntica” da República em termos de uma comunhão de bens alargada a todo o corpo social (Leg. Aristóteles pode proceder à sua revisão crítica. Na República. mesmo aludindo ao fato que sobre este ponto Platão não teria dito “nada de preciso” sobre a forma de propriedade dos agricultores (II 5 1264a14 segs.). se- gundo Platão fosse precisamente o saber filosófico a legitimar o direito ao poder do grupo dirigente). embora. Platão não falara de comunhão das propriedades. neste contexto pode parecer irrelevante o con- teúdo da sua formação e do seu saber (precisamente aqueles “discursos sobre a educação” que a Aristóteles pareciam estranhos à política. Assim delimitados e englobados os conteúdos políti- cos da República. pensando que 45 . Nas Leis. mas sim de re- cusa da propriedade por parte do grupo de governo na cidade.

o segundo antropológico. Platão teve certamente razão ao identificar a uni- dade da cidade como objetivo da sua reforma política. na realidade não é sequer desejável.ela produzirá uma maravilhosa amizade de todos com todos” (II 5 1263b15 segs. Trata-se. de uma ilusão que Aristóteles se empenha a dissipar. a comunidade política fun- da-se na colaboração de uma pluralidade de indiví- duos diversos por capacidade e por recursos. é precisamente esta troca entre diversos que permite à comunidade política um nível de “autossuficiência” superior ao da família e ao do indivíduo.). exatamente por estas diversidades interagem na troca recíproca de bens e serviços. Este dispositivo acerta no alvo em dois pontos: o primeiro propriamen- te politológico. A symphonia política não pode ser trans- formada em homophonia (II 5 1263b29 segs.). no livro V da República dizia-se que a comunidade onde todos podem dizer “meu” e “não meu” acerca das mesmas coisas. ultrapassou o limite. confundindo a desejável unidade política com a que é própria da família ou até do indivíduo (II 2 1261a15 segs. O pro- jeto platônico. porém. até chegar a sentir juntos “as mesmas experiências de dor ou de prazer”. De fato. montan- do o seu formidável dispositivo crítico.). Mas ao perseguir esta finalidade. A crítica de Aristóteles não é privada de funda- mento. os quais. Mas. em que a dor no dedo era sentida como propriamente de todo o organismo (462c-d). acabaria por apresentar o mesmo grau de unidade de um só indivíduo. que pode parecer à primeira vista “belo mas impossível” (II 3 1261b31). observa Aristóteles. porque nega a essência pluralística da 46 .

A crítica a Platão nasce da irredutibilidade antropológica deste autô- nomo indivíduo proprietário enraizado na estrutura do oikos privado. mesmo que fosse possível. “É portanto evidente que por natureza não pode existir uma cidade tão unida como alguém defende. acaba. Estando destinado a superar a divisão da ci- dade em dois campos contrapostos (os ricos e os pobres). além da impossibilidade. atribuída ao desenho político da República. que oporia a segunda e a terceira clas- ses à primeira (II 5 1264b6 segs. Virando ironicamente ao avesso a tese platônica. com o inevitável efeito de um ressentimento social e com o consequente conflito interno. e contra- postas uma à outra” (II 5 1264a24 segs. Aristóteles conclui que “numa única cidade haverá forçosamente duas cidades. o modelo platônico produziria uma contra- finalidade.cidade. por impedir a alternância dos cida- dãos no governo. 47 . pelo contrário. no qual a República operava uma negação sistemática. Estas objeções de cunho político fundam-se numa crítica ainda maior e mais radical de ordem antropo- lógica. não deveria ser rea- lizado (II 2 1261a18 segs.). outra à qual cabem as armas.). e que aquilo que é apresentado como o máximo bem nas cidades é exatamente aquilo que as destrói” (II 2 1261b6 segs. e a terceira que é privada permanentemente do poder. De resto.).). A figura social em que se baseia a sociedade po- lítica segundo Aristóteles é o cidadão proprietário e chefe de família (o oikonomos). que confirma a marca de indesejabilidade. dividindo a polis em uma classe dotada de poder.

contudo. ocupa-se muito com as coisas privadas. e destas só na medida em que digam respeito aos indivíduos” (II 3 1261b33 segs. Este dado de fato intransponível aca- baria por dizer respeito também aos “filhos” comuns da cidade platônica: se “cada cidadão se acha na situa- ção de ter mais outros mil cidadãos como filhos […]. de fato. o mesmo acontece também com as relações de parentesco. “tal como pouco vinho doce misturado com muita água torna imper- ceptível a mistura.). “Presta-se pouquíssima atenção ao que é comum a muitos: com efeito. porque numa comunidade tal é inevitável que o pai se preocupe pouco com os cha- mados filhos. no sentido que qualquer um deles é filho de qualquer cidadão. porque ela não pode existir sem reconhecimento parental e vínculos fami- liares. como no plano patrimonial) são. menos com as comuns.).). porque a fonte de “prazer inenarrável” é precisamente poder considerar qualquer coisa como 48 . isto é. Nessa cidade não poderiam sequer existir ale- gria e prazer. afirma Aristóteles. Numa sociedade coletivista como a platônica. com efeito. impossível a ligação fun- damental de amizade (philia). pode enten- der-se o que é amado enquanto próprio. “o próprio e o amado”. acabarão por descuidar de todos da mesma maneira” (1261b38 segs. A destruição do oikos predita pelo modelo pla- tônico tornaria. o filho se preocupe pouco com o pai e os irmãos uns com os outros” (II 4 1262b17 segs. não haveria nenhum cuidado com tudo o que – bens e pessoas – provém de proprieda- des comuns. Os dois objetos primários do cuidado e da afeição (tanto no plano parental.

nem os governantes aos quais são negadas justamente as alegrias do “meu” atribuídas à privacidade da posse (II 5 1264b15 segs. O juízo da história confirma portanto o da natureza: as ideias de 49 . Na longa duração do tempo passado. Aristóteles pode então concluir – com uma afirma- ção que teria encontrado inúmeras adesões na tradição – que na cidade platônica “a vida parece ser de todo impossível” (II 5 1263b9). Ninguém poderia sequer ser virtuoso: a falta de bens privados torna impossível praticar a generosidade e a liberalida- de do dom. se realmente fosse válido: “de fato. Portanto. na esfera privada dos afetos e patrimônios (II 5 1263a40).). um modelo do gênero não teria escapado aos homens. a falta de vínculos matrimoniais impede a temperança sexual. ninguém seria feliz na ci- dade platônica: nem os cidadãos excluídos do poder e das suas honras. por assim dizer “his- toricista”. com os pilares de qualquer sistema social.). de teor. a cidade platônica corre o risco de se transformar em cena de uma tragédia edipiana universal pela difusão de parricídios e de in- cestos tornados inevitáveis pela impossibilidade de se reconhecer as relações de consanguinidade (II 4). não deve ser realizado mesmo que se mostrasse possível realizá-lo). porque ele entra em conflito com a natureza humana. mesmo conhecidas. Aliás. Aristóteles acrescenta às críticas de ordem política e antropoló- gica uma contraprova. não fo- ram postas em prática” (II 5 1264a2 segs.“própria”. Trata-se de um projeto tão impossível como indesejável (portanto. mas algumas coisas nem sequer foram concebidas. outras. pode-se dizer que tudo foi descoberto.

com os instrumentos de uma violenta transformação das bases sociais. ser obti- dos integrando “o ordenamento atual” da propriedade privada no plano moral e legislativo.). ao alhea- mento relativo à ordem da natureza humana e da sua história? A resposta de Aristóteles é clara e. Em suma. no fundo. constitui a matriz de todas as variantes de reformismo.Platão são inaplicáveis quer na ordem temporal. Mas em que consistiria a raiz do erro de Platão. à filosofia e às leis.). extensão dos mesmos aos amigos. o erro que entregava o seu projeto à atopia. etc.). Platão quis transformar radicalmente a estrutura social da propriedade. que prescreverão um certo grau de comunhão dos frutos da propriedade (uso comum de alguns bens. “que exatamente aquele que propunha introduzir a educação na cidade e pensava torná-la boa graças a ela. pelo contrário. em vez de confiar-se ao me- lhoramento dos costumes. como sucede em Esparta e em Creta. creia depois reformá-la re- correndo a semelhantes meios [abolição da família e da propriedade privada]. emen- dando assim os defeitos do egoísmo da propriedade 50 . “É absur- do”. quer na dos valores políticos. Platão perseguiu aqueles resultados que se podiam obter mediante uma reforma educativa e legislativa dos costumes privados e públicos. Os mesmos efeitos dese- jáveis que ele visava podem. “com bons costu- mes e um conjunto de leis corretas” (II 5 21 segs.) (II 5 30 segs. conclui Aristóteles. com consequências políticas e antro- pologicamente avassaladoras. onde o legislador pôs em comunhão os frutos da propriedade através das re- feições em comum” (II 5 1263b37 segs.

como os olhos. as mãos. Mas agora Platão reconhecia que uma comunidade semelhante era talvez mais idônea a ser habitada por “deuses ou filhos de deuses”. talvez. as objeções do mesmo Aristóteles. de criação e de educação”. embora submetido a um cerrado controle legislativo (V 739c-740a). Com efeito. mas se mostrar todavia “im- possível”. Aristóteles concluía assim. o legislador deverá recusá-lo e não realizá-lo 51 .e os da separação excessiva entre ricos e pobres (mas aqui Aristóteles ignora a crítica que Platão dirige no livro VIII da República ao caráter inevitavelmente oli- gárquico e socialmente conflitual de sociedades como a espartana e a cretense). admitindo que tudo isto “excede as atuais {nun} condições de nascimento. uma reflexão crítica sobre a República que. mostrava-se. que se houver algo que possui o mais alto grau de beleza e de verdade. Seja como for. tinha em conta quer a discussão aca- dêmica quer. a ação conjunta. a audição. decisiva- mente. casas e famílias. anteci- pando de perto a prescrição aristotélica de que se fa- lou. as orelhas. um diálogo que. Aqui Platão continuava a reconhecer como melhor o modelo delineado na República. sem dúvida. inevi- tável regressar a um modelo de cidade onde se reco- nhecesse o caráter privado das terras. coletivizando até aquilo que é “privado por natureza”. com o fim de se obter a visão. portanto. pelo menos em parte. com a sua intenção de “desenraizar absolutamente da vida tudo o que se de- fine privado”. já devia ter decorrido no interior da Academia e devia ter produzido uma parcial reconsideração por parte do velho Platão nas Leis. relevava Platão.

nada porém que se mostre im- possível” (II 6 1265a17 seg. e o mesmo se dá com as refeições comuns (Política II 6 1265a1 segs. a mesma forma de vida alheia aos trabalhos necessários. e pouco se diz a propósito da constituição. A maior parte das Leis está dedicada a leis singularmente tomadas. a sua renúncia se fundava sobre o “sempre” invariante da natureza humana. em Aristóteles. Certamente entre Platão e Aristóteles sempre existira uma diferença de princípio: a renúncia platô- nica ao paradigma da República estava condicionada àquele nun. tal como a limitação do número das famílias e da 52 . também a re- visão efetuada pelo mestre nas Leis parece a Aristóteles demasiado parcial e. A crítica de Aristóteles ataca mais uma vez as que nas Leis lhe parecem ser tentativas de incisão na estrutura socioeconômica da polis. enquanto que.).). prescrevem-se as mesmas coisas para ambas as constituições: a mesma educação. de resto. De qualquer maneira. “por ora”.(746c). insatisfatória. por conseguinte. Excluindo a comunhão de mulheres e de propriedades. e apesar de ele querer elaborar uma que tenha mais aspectos em comum com as cidades existentes. acaba pouco a pouco por voltar àquela outra cons- tituição. que é impossível e impensável de se pôr em questão. Aristóteles dirige a Platão a acusação de ter feito exatamente aquilo que ele dizia que o legislador de- via evitar: “Devem-se propor hipóteses segundo o que aparece desejável.

3. as Leis propõem evitar os erros da democracia e da oligarquia. que se devia salvaguar- dar a propriedade privada. com Aristóteles. mas acabam por delinear uma constituição que contém elementos de ambas. pelo contrário. Aristóteles não tem dúvidas quanto à pertinência política das propos- tas constitucionais delineadas na República e nas Leis. nem realizável. a seu modo. salvo violação do ius huma- nae societatis. Quanto aos aspectos pro- priamente políticos. Os traços salientes da crítica formidável de Aris- tóteles ao pensamento platônico podem agora ser esquematicamente recapitulados: 1. apesar de se orientar mais para uma forma de regime oligárquico (II 6 1266a7). Cícero re- cusava em primeiro lugar o comunismo patrimonial. Alguns séculos depois de Aristóteles. e odiava ainda mais a abolição da família e dos laços parentais: 53 . Cícero – o grande vetor da tradição do pensamento político gre- go em ambiente latino – teria retomado os momentos centrais da sua crítica a Platão. escrevendo por sua vez um De republica e um De legibus. mas usar livremente dos seus frutos em comum (De officiis I 20-22.entidade dos patrimônios. porque não é capaz de resolver no plano político os problemas reais das cidades e porque se contrapõe aos dados es- truturais e invariantes da natureza social do homem. sustentando. não considera. Da República. se declarava herdeiro. não duvida sequer que para o seu autor a realiza- ção destas propostas era desejável e de alguma maneira possível. 42). 2. de quem. o conjunto do projeto platônico desejável.

finalmen- te. ed. a mais pequena possível. não como poderia ser. mas tudo deverá ser confuso e indistinto como nos rebanhos de animais. em vez vos apresentar um completamente abstrato [finxero]. nem pu- dor nas mulheres? [.. sólido e forte. nem haverá nenhuma continência nos homens. L. crescer.. fr. Ele procurou e imaginou uma cidade mais para fantasiar que para aguardar [optandam magis quam sperandam]. Zorzetti). nem afinida- de.]. porque defende que as mulheres devem ser em comum”. Então não haverá nenhuma distinção de sangue nem nenhuma descendência segura. Ferrero-N. nem família. Mas mais importante que a previsível recusa do co- munismo platônico por parte de um tenaz defensor da ideologia da classe senatorial romana como Cícero é a sua reformulação da crítica “historicista” já proposta por Aristóteles.5. tornar-se adulto e. fr. Afirma Cipião no diálogo De república: Ser-me-á mais fácil realizar o meu objetivo. como fez Sócrates nas obras de Platão (II 3) [. IV.] Que infelicidade será a de uma cidade onde as mulheres usurparão as ocupações dos homens? (De rep. se puder mostrar-vos o nosso estado no seu nascer.. 15). Mem. (Ao que diz Epicteto. nem parentesco. parece que as mulheres ro- manas confirmavam a invetiva retórica de Cícero: “Em Roma as mulheres têm em punho a República de Platão.. mas para ilustrar a sua 54 .

nas leis da comunidade política: o seu fundamento primeiro está na moralidade individual dos cidadãos. quanto daquilo que de negativo aparece evitável. deve ser acrescentado que Cícero não tem dúvidas também quanto à crítica final de Aristóteles. daquilo que – teria dito Aristóteles – no tempo foi pensado e experimentado. Por fim.. ao falar de um estado fortíssimo. pelo contrário. por fazer manifestar [. os primeiros passos da República no Ocidente latino. constitui o exem- plar. teoria política. mas esforçar-me-ei. ou seja.. por maior que ele tivesse sido. o paradigma real.. É da concreta vicissitude histórica do estado roma- no que o Cipião ciceroniano quer retirar os elemen- tos fundadores da sua teoria política.] não esboçar o perfil imaginário de um estado. e a sua som- bra teria acompanhado. A justiça não pode consistir. O estado romano. Eu. como veremos. tentarei [. e não pelo pensamento visionário de um filósofo. tanto daquilo que de positivo é desejável e possível.] a causa de todo o bem e de todo o mal polí- tico (II 52) (a partir da tradução italiana de D’Ippolito).. na sua concreta evolução. naquele ethos privado que Platão parecia ter negligenciado ao conceder a primazia à reforma estrutural da sociedade. A posição de Cícero destinava-se a ter uma imensa influência no pensamento da renascença. 55 . em primeiro lugar.

Mais relevante era. do único comentário antigo da República que nos che- gou em forma quase integral. de todo o caso. O cânone incluía dez textos intro- dutórios (do Alcibíades I ao Filebo). sobretudo nos seus livros centrais dedicados à ideia do bem e à dialética. etc. na época do médio e neoplatonismo). A República. a escala das hipóstases do intelecto à alma. a complexa teologia procliana. por conseguinte. quer pela temática predominantemente polí- tica – não estava no centro dos seus esforços exegéticos e de sistematização didática. compreender a estratégia interpretativa desenvolvida por Proclo em relação ao grande diálogo político. além da sua inevi- tável e por vezes forçada inserção no quadro sistemáti- co da metafísica neoplatônica (a identificação de bem e uno. PROCLO: A HERMENÊUTICA DA DESPOLITIZAÇÃO De Albino a Jâmblico. 56 . para terminar de- pois no estudo dos dois diálogos considerados vértices da especulação do mestre. a exceção representada pelos comentários dedicados ao diálogo por parte de um grande platôni- co do século V como Proclo: trata-se. era certamente conhecida dos filósofos neoplatônicos. no âmbito do percurso hermenêutico que estamos a investigar. É altamente importante. o Timeu e o Parmênides. mas – quer pela sua am- plitude. a República (para não falar das Leis) foi excluída do cânone dos diálogos platôni- cos que eram lidos e comentados nas escolas do pla- tonismo de idade imperial (isto é.).

o tema da justiça do da politeia: ele insiste que os dois aspectos estão conectados em Platão por um vínculo de implicação recíproca (Diss. que segun- do Aristóteles. Deve-se dizer logo que. Dado que as mulhe- res parecem estar mais apegadas à dimensão privada.23-257. Proclo não põe de todo em discussão o caráter político da República. Sobre este terreno Proclo está atento em assinalar a diferença entre a República e as Leis.15- 21). visto a sua propensão para antecipar os interesses privados aos comuns (257. A unidade da cidade. 256.5 segs. Ou melhor. recusando a posse comum dos bens e reestabelecendo o aspecto privado dos in- teresses (Diss. o seu sentido global. como parece que alguém tivesse feito. VIII. quando esta se encontrar presente. IX. 11. Porque é que pergunta-se ele.2-6). Platão tinha levado ao excesso. Igualmente interessante e pontual é a resposta de Proclo às críticas que Aristóteles dirigira ao desenho da utopia platônica.). não é um bem as mulheres governarem. são reafirmados os carate- res salientes da “ciência política” em Platão: as suas propostas pertencem ao âmbito do possível (dynatón) conjuntamente com o do útil (ophelimon). sendo por- tanto praticáveis como desejáveis (Diss. As Leis mostram-se axiologicamente inferiores à Re- pública porque elas apresentam um grau inferior de unidade do corpo social. I. apesar de tudo isto. no segundo diálogo: as mulheres não participam nos cargos do governo? A resposta é pre- cisa e talvez integre uma parcial omissão platônica.1). ele nega que se possa separar. 238. Identificando o seu skopos. des- 57 . sobretudo familiar.

Comentando a analogia alma-cidade que estrutura o livro IV do diálogo. XVII. o filósofo neoplatônico chega até. Há todavia. contra Aristóteles. mas em sentido formal-final (telikón).truindo a natureza pluralista. ao pertencerem todas as coisas à cidade. cada um obtém o necessário em relação à sua necessidade” (366. como modelos 58 . Proclo replica que ela (tal como outras críticas semelhantes) pode ser verdadeira para quem tenha vivido com os costumes vigentes. 360-365). Quanto à objeção aristotélica segundo a qual ninguém está propenso a ocupar-se das coisas comuns. como prima- riedade de funções e de valor do todo em relação às partes (aqui é inevitável em Proclo o apelo à cosmo- logia do Timeu. Proclo estabelece sem hesitações uma prioridade axiológica e ontológica do primeiro termo sobre o segundo. As virtudes e os vícios das partes da alma pré-existem. isto é.6-7). por assim dizer. a mesma da comunida- de política. com o privilégio ligado à harmonia do “Todo” em relação aos elementos que o compõem) (Diss. a formular com grande clareza aquilo que ficaria a ser o princípio fundamental do comunismo de todas as épocas históricas: “Os bens serão comuns a todos dado que. que deve ser interpretada não em sentido “material” (que faria da cidade uma “coisa” só). a privilegiar o bem comum da cidade (368). Seguindo esta linha. mas não se re- fere a homens educados. segundo o projeto platônico. um ponto de en- contro. na exegese de Proclo. que estava destinado a desempenhar um papel importante na história das interpretações da República.

] Todas as formas de go- verno [. este ponto de vista teria – é difícil dizer se de modo direto ou indireto – uma influência relevante nas estratégias hermenêuticas do século XX que pretendem negar. constitui uma via para aceder à cognoscibilida- de das condições internas da alma de que é “imagem” (210... visto que é mais vi- sível. [paradeigmata] para as virtudes e os vícios inatos nos gêneros políticos. ou relegar para o segundo plano. A dimensão externa. dirigindo-se para o exterior e convertendo-se em ações.] são relações.17-20). a dimensão política da República fazendo disso uma metáfora dos problemas morais da alma individual (basta antecipar aqui os 59 . Proclo não desfaz o nó platônico entre alma e cidade..10-15).25-30. VII.. [.6-13). política. enquanto que. Como se verá no Cap. cf. mas as exteriores são imitações [mimeseis] das inferiores e ativida- des secundárias em relação às primárias.] como a arte políti- ca própria dos gêneros políticos entendidos como imagens [eikones] é também imagem daquela autêntica (Diss. mas dispõe as duas polaridades em ordem hierárquica e mimética em vez de em uma relação circular de interação.. virtudes e vícios dispõem as partes da alma de modo melhor ou pior. agin- do do interior. De fato.. 210. dão ordem aos gêneros políticos ou enchem-nos de desor- dem (209. mas mostra-se subalterna e derivada delas. também 217. 8. e a autêntica arte política diz respeito às formas de governo interiores [.

isto é. segundo os critérios da metafísica neoplatônica. que acabaria por marcar profundamente as leituras renascentistas que se fize- ram da República. em primeiro lugar. uma forte torção do texto platônico em sentido simbólico-alegórico. o que hoje se chamaria aproximação dialógica. Depois há sobretudo na Dissertação I. deve ser assinalado um aspecto interessan- te da sensibilidade exegética de Proclo. do fundo metafísico-teológico próprio do neoplatonismo (assim. que partilham de maneiras diversas uma interpretação deste gênero). Trata-se.nomes de Annas. Proclo es- creve que isso se deve. que pretende estabelecer relações não proble- máticas entre a República e outros diálogos considerados fundamentais pelos neoplatônicos. coisa que Platão fez no Parmênides (pelo menos segundo a interpreta- ção que lhe fora atribuída já por Plotino). Por fim. Além desta incipiente “moralização” do diálogo. Ferrari. na Dissertação VII a função do filósofo-rei torna-se a do me- diador entre a unidade do Bem e do Todo e a pluralidade das vicissitudes humanas). e. a propósito da descida de Sócrates ao Pireu e da festa em honra da deusa Bêndis. Para explicar porque é que no livro VI da República Platão fala do Bem sem identificá-lo explicitamente com o Uno. Blössner. como o Fédon e o Ti- meu. na Dissertação IX a pa- ridade entre homens e mulheres defendida no livro V é fundada na paridade de virtudes de deuses e deusas. em primeiro lugar. à presença 60 . como se disse. da sua leitura sistematiza- dora. outras e mais gerais aproximações exegéticas de Proclo eram destinadas a uma duradoura influência. além.

O texto grego do comentário de Proclo. ele ter-nos-ia enchido de muitos discursos autenticamente teológicos sobre o Bem” (Diss. e continu- ando depois a agir de modo latente mas não insignifi- cante. ao longo de toda a história da sua interpretação.de personagens como Trasímaco e Clitofonte: Sócra- tes “não considera oportuno revelar os mais profun- dos mistérios (ta mystikotata) na presença de sofistas”. inclusive Gláucon: “se os homens fossem adequa- dos a discursos daquele nível. em 1492. e que esta reticência acabaria. A cultura medieval conheceu apenas alguns ecos da República: aqueles transmitidos pelo breve resumo oferecido pelo 61 . foi consultado e parcial- mente traduzido para o latim por Marsilio Ficino. 274. IDADE MÉDIA E RENASCIMENTO: DA ALEGORIA À TEOLOGIA Os textos políticos de Platão não foram traduzidos para o latim durante toda a Idade Média. por outros motivos. não mais cessou de acompanhar a República. influenciando diretamente a sua leitura (devido a Ficino) em época renascentista. há pou- co reaparecido no Ocidente. por ser o centro da leitura de Leo Strauss.1-11). Mais em geral. Desde então. a reticência socrática deve ser explicada relacionando-a com a não preparação dos interlocuto- res. XI. Também aqui é o caso de adiantar que a falta de sistematicidade por reticência dialógica acabaria por constituir no século XX um dos cânones interpretativos da escola de Tübingen.

a abolição da família. in tegumentum (Bernardo de Chartres. A República regressou ao Ocidente latino só em 1402 em Pavia. em suma. graças à tradução devida ao trabalho conjunto de um funcionário da corte dos Visconti. As inquietantes teses platônicas serão portanto interpretadas como defesa per involucrum. Dado que eram avessos a pôr em discussão um grande auctor antigo como Platão. primeiro ao regime feudal. em parte já adotada por Proclo (também ele desconhecido dos medievais). que se reduzisse o aspecto escandaloso do pensamento platônico. e se encontrasse forçosamente uma compatibilidade qualquer com a filosofia cristã. Abelardo). Nesta primeira reaparição. Ambos os testemu- nhos insistiam nos aspectos mais embaraçosos da Re- pública aos olhos de um leitor cristão: a comunhão das mulheres. em qual- quer caso. uma legitimação a opor àque- la que a Política aristotélica havia oferecido durante séculos. Uberto Decembrio. é interessante notar o predomínio de um interesse político para com o grande diálogo: o expe- rimento inovador da senhoria milanesa procurava no diálogo. ainda por cima considerado (graças ao Fédon) um precursor do cristia- nismo. o comunismo dos bens. aos mestres medievais não restava outra solu- ção senão reinventar uma estratégia hermenêutica. Manuele Crisolora. como metaphorice loqui (Egídio Romano): o tratamento alegórico e metafórico consentia. de certa forma.Timeu (um dos poucos diálogos traduzidos e estu- dados) e sobretudo aqueles oferecidos pela polêmica aristotélica no livro II da Política. depois a repúblicas 62 . e de um doto bizantino em mis- são diplomática.

em particular de Leonardo Bruni. embora continuasse a considerar “possíveis” as propostas platônicas. O título dado à obra já não era só Politia. De fato. ao invés. mas divina e celeste. quer das perplexidades suscitadas em ambiente eclesiástico devidas à leitura do livro V do diálogo (os arcebispos de Cartagena e de Milão mostravam-se indignados pela “impudicissima lex” sobre a comunhão de mulheres). VI 499c). apesar de tudo ele se declarava mais próximo de Aristóteles. “votis magis quam rebus expetenda” (ou seja. 63 . seguindo o testemu- nho de Macróbio. todavia. exatamente aquela euche. ex- plicado “qualiter a maioribus fuerit instituta”). ao processo descritivo do diálogo homônimo perdido de Cícero (que teria. Platão tinha querido propor uma cidade não humana.oligárquicas como Florença e Veneza. Pier Candido. mas Celestis Politia. como em Uberto. expli- cava Pier Candido. aquele “pio desejo”. notando. Para Uberto era bem claro o caráter normativo da República (Platão “rempublicam ordinavit quo ordine condenda esse censeret”) que ele contrapunha. Muito diferente era a atitude do filho de Uberto. que cinquenta anos depois da obra do pai propôs uma tradução anotada da República: Pier Candido já devia ter em conta quer as críticas prove- nientes do ambiente cultural florentino. Uberto não tinha dúvidas quanto à intenção política da Re- pública. a sua distância dos “costu- mes públicos” vigentes. e que iniciava a leitura em chave de ideal utópico irrealizável na terra. que Platão tinha querido excluir considerando-o “ridículo”. que retomava o “para- digma no céu” de que Platão havia falado no livro IX da República (592b).

vendo na Repúbli- ca um puro modelo teórico. essênios e até os santos fundadores da Cristandade. alegoria e ironia. Ficino move-se por duas vertentes. acerca do mito da reencarnação do livro X ele avi- sa o leitor “hanc partem mistice esse positam et aliter a Platone intelligi quam ad litteram legatur”. textos nos quais se insere a leitura do comentário de Proclo recém-descoberto (1492). este percurso é concluí- do por Marsilio Ficino. como escreveu Cesare Vasoli. se podem justificar muitos dos aspectos desagradáveis da política platônica e torná-los aceitáveis ao paladar cristão. o tradutor humanista reativa em parte a leitura alegóri- ca. em referência à Igreja pri- mitiva. pitagóricos. o 64 . Entre uto- pia. À luz desta ideia. com as suas Epítomes de 1484 e os comentários de 1496. Ficino faz remontar a comunhão de mulheres e de bens a uma longa tradição. o ideal de uma cidade contemplativa virada para “ad verum investigandum. sub enigmate. à senhoria dos Vis- conti – torna-se possível reler a comunhão dos bens à luz da pobreza dos santos. deumque colendum”. pelo menos na forma timocrática. Nesta ótica – não obstante Pier Candido continua a aludir a uma certa proximidade da cidade platônica. Por um lado. ele “reduz ao mí- nimo indispensável a exegese e a inevitável apologia do discurso político de Platão”. Outras passagens – e aqui a leitura de Pier Candido também adianta correntes interpretativas modernas de peso – devem ser interpretadas como escritos ironice. por exem- plo. que inclui gimnosofistas. Em finais do século XV. No seu esforço por cristianizar a República. dos intérpretes medievais.

como a que foi formulada por Jean Bodin. No que concerne aos conteúdos propriamente políticos do diálogo. para dizer a verdade. de Gemisto Pletone a Patrizi). estava destinado a ter uma secular e profunda influência na leitura do Platão po- lítico. teria prevalecido em todo o Renascimento uma atitu- de de dura condenação. ao qual acrescenta o tema especificamente renascentista da pertença de Platão a uma tradição de sapiência antiquíssima e iniciática. ele teria sido realizado anteriormente pelo povo mais antigo e sábio. argumenta Ficino contra os críticos de Platão. Ficino reconduz pois o diálogo ao percurso da interpretação de Proclo. O encontro de Ficino com a República.seu objetivo. não faltassem defensores. que tem no seu âma- go a identificação da ideia do bem com Deus. no sentido de uma sempre mais marcada espi- ritualização e relativa despolitização. ape- sar dos esforços de Ficino para atenuar o seu impacto. a leitura de Ficino da República é completamente orientada para um sentido teológico (ajudada mais uma vez pelo re- curso à hermenêutica alegórica). o qual na sua République (I 2) considerava o comunismo platónico “contraire à la loy de Dieu et de nature” (embora. . os egípcios (que esta- vam nas origens daquela prisca theologia de que Platão teria sido o prossecutor). mediado pela redescoberta de Proclo. Quanto ao governo dos filósofos. consiste em libertar os homens das discór- dias mundanas e dos interesses terrenos para que se dirijam às atividades do espírito. Por outro lado.

ABBATE: Milano: Bompiani. NESCHKE-HENTSCHKE. de Aristóteles a Agostinho. pp. VEGETTI. VEGETTI. NOTA BIBLIOGRÁFICA Para as interpretações do Platão político no pensamento antigo. vol II. 2000. 2005. HANKINS. cf. É fundamental. PISSAVINO (a cura di). os ensaios agrupados em M. I Decembrio e la tradizione della “Repubblica” di Platone tra Medioevo e Umanesimo (onde aparece o ensaio de Vasoli sobre Ficino leitor da República). Leiden: Brill. O comentário à República de Proclo pode ser agora lido na tradução (com amplo comentário) ao cuidado de M. ABBATE (a cura di). La “Repubblica” di Platone nella tradizione antica. 439-52. Napoli: Bibliopolis 1999. também.. Para a época moderna é importante A. Napoli: Bibliopolis. P. 2003. J. M. VEGETTI. Para a Idade Média e o Renascimento. 2004. 1990. Plato in the Italian Renaissance. também M. CR IV. Para a crítica aristotélica a Platão. cf. Platonisme politique et théorie du droit naturel. cf. os ensaios agrupados em M. Louvain-Paris: Peeters. 2 vols. 66 .

3. OS PARADIGMAS DA MODERNIDADE KANT: OS IDEAIS DA RAZÃO O encontro de Kant com o pensamento ético-po- lítico de Platão dá-se em poucas. visto que o pressuposto me- todológico kantiano é que seja possível “compreender um autor melhor do que ele se compreenderia a si mesmo”. pp. III. ao qual se deve unir o livro II. B 595-9). O ideal em geral. Tratar-se-á portanto de perceber o que são verdadeiramente as ideias platônicas. quais são as suas . A intenção que leva Kant a efetuar esta rápida revisão do pensamento platônico é a de identificar o significado originário da palavra “ideia”: não por uma investigação estritamente filológica. cap. seção I. B 370-5 da edição de 1787. mas densas e iluminadoras páginas da Crítica da Razão Pura (Dialé- tica transcendental. Das ideias em geral. pp. secção I. livro I. mas através de uma discussão “crítica”.

726-7). tinha tentado sobretudo desmascarar erros e contradições dos filóso- fos. além de escandaloso nos seus conteúdos. As ideias representam a exigência da razão de ultra- passar o nível conceitual que produz a unidade sintética dos fenômenos. para combater aquilo que defendia o “pestilentissi- mum auctoritatis praeiudicium”. 68 . partindo de uma dura polêmica antiempirista que acerta num alvo importante mas não declarado: as objeções de Aristóteles a Platão no livro II da Política.condições de validade e também o que não podem ou não deveriam ser. A crítica de Brucker causa a indignação de Kant e induzo a esclarecer o sentido da ideia no espaço da ética e da política. que se exprime de maneira específica na República. mas possuem todavia uma própria Realität e não são redutíveis a simples quimeras “extravagantes”. “demasiado além” para que os objetos da experiência possam corresponder-lhes (kongruieren). com o seu idealístico fanaticismus (I. da República platônica: uma república inventada (fictam) que podia existir “só no cérebro de Platão”. pp. O grande historia- dor luterano. e precisamente esta polêmica desvia o discurso da questão das ideias em geral para o seu âmbito ético-político. Aqui Kant discorda de Brucker. A ele se deve a crítica implacável ao caráter “quimérico”. mostrando assim os limites insuperáveis da razão humana e a consequente necessidade de se recorrer à fé na revelação divina. na sua Historia critica philosophiae. edi- tada pela primeira vez em 1742 – que segundo alguns constitui a única ou principal fonte de conhecimento do pensamento platônico para Kant –.

]. usam-se como modelos de virtude os que são apenas 69 . o prudente conservadorismo aristotélico nos seus pilares naturalistas e “historicistas”. determinando o primeiro com base no segundo... De fato. “não a devemos rejeitar com o pretex- to pueril e nocivo da sua impossibilidade de realização [Untunlichkeit]”. ser destruída exatamente pelas ideias [. acrescenta. Por mais atinente que seja aos princípios da moralidade. Pla- tão adquiriu um mérito especial que não é devidamente reconhecido. A réplica kantiana merece ser citada na totalidade. Mas. são as ideias a tornarem primeiramente possível a própria experiên- cia (do bem). Em relação às leis morais. cuja capaci- dade de servir de princípios devia. a drástica distinção kantiana entre fato e valor. na esteira de Brucker. escreve Kant. A República. ao invés. Como se vê. e é extremamente reprovável deduzir as leis do que devo fazer [Ich tun soll] partindo daquilo que é feito [getan wird]. porque de certa forma se mostra definitiva. da religião – no âmbito dos quais. porque o julgam com base em regras empíricas. a experiência (in- felizmente) é mãe da aparência [Schein]. ser e dever ser. ataca decididamente. “tornou-se proverbial como suposto exemplo de perfeição sonhada tal que não residiria senão na mente de um pensador ocioso” (a partir da tradução italiana de Chiodi modificada). embora não seja possível que encontrem aí uma plena expressão –. da legislação.

servir de “arquétipos” (Urbilder). Nunca nenhum objeto da experiência poderá ser perfeitamente ade- quado à regra. que parece atribuir às ideias uma causalidade também física e natural. ele também não pode aceitar a “dedu- ção mística” das ideias partindo de uma inteligência 70 . mutável segundo os tempos e não utilizável como regra”. então. como fim ou telos da práxis. um papel regulador. que re- conhece os padrões normativos em fatos sociais como leis positivas ou moralidade convencional. No campo prático existe uma verdadeira causalida- de da razão: enquanto critérios de avaliação e horizon- tes de finalidade. isto é. quer no terreno insidioso do Timeu. mas. Quais são. segundo Kant. ao padrão avaliador. por um lado. padrão de avaliação moral.eventuais exemplos dela. que se exerce em dois níveis: como critérios do juízo de valor. Kant recusa-se a seguir Platão. portanto. em oposição ao “positivismo normativo”. podem servir de provas aproximadas da factibilidade (Tunlichkeit) daquilo que a ideia da razão requer. na melhor das hipóteses. por outro. as ideias desempenham o papel de “causas eficientes”. nem poderá realizar completamente a finalidade da práxis ético- política: estes objetos não podem. as funções autênticas e impres- cindíveis das ideias? Elas desempenham. A primeira função implica a segunda: “a ideia serve necessariamente de fundamento [Grunde] para cada aproximação à perfeição moral”. quer ao conferir um estatuto ideal às matemáticas. faz-se da própria virtude “uma equívoca irrealidade. Kant reconhece aqui em Platão o pai do “transcendentalismo normati- vo”. Segundo Seung. Fora deste âmbito.

Um ideal. isto é. que se refere aqui à figura exemplar do sábio estóico. fundado na liberdade”. se chama um ideal platônico (respublica noumenon). concebida segundo conceitos ra- cionais puros. mas isso não implica que ele não forneça à razão um indispensável critério de juízo. mas este desenvolvimento pode ser facilmente suben- tendido. entendendo-se a liber- dade de julgar e de agir consequentemente. isto é confirmado no texto Se o gênero humano está em constante progresso para o melhor: “A comunidade que. isto é. por- tanto.divina. mas é a norma eterna de cada constituição civil em geral”. como algo singularmente determi- nado por meio da ideia (neste caso. por via da reminiscência. um arquétipo apto a fazer com que a constituição das sociedades humanas se aproxime progressivamente da maior perfeição possível. é melhor circunscrever a causalidade das ideias. De resto. um “ideal da razão”. com as quais já Gláucon comentava a enfática descrição da ideia do bem na República (VI 509c). reafirma Kant. não é uma quimera sem sentido. Kant não diz de modo explícito que a kallipolis platôni- ca constitua. da ideia de virtude ou de justiça). e não se constitua em norma e regra para o aperfeiçoamento moral. Na Crítica. em sentido próprio. ou os “exageros” (como a hipóstase hiperurânia das ideias) e a “elevada linguagem” pela qual se deixa levar o velho filósofo. Parecem ecoar aqui as irônicas palavras (“que extraor- dinário exagero! [daimonia hyperbolé]”). visto que o ideal é aí definido como uma ideia in individuo. A tal se 71 . Segundo Kant. que nunca é completamente reproduzível e adequável. “principalmente em tudo o que é prático.

opõe a chamada política “prática”, que considera a or-
dem constituída o bem supremo (mas o seu governo é
considerado por Kant o “pior despotismo que se possa
imaginar”).
Kant não tem nenhuma dúvida – diferentemente
do que pensam muitos intérpretes contemporâneos –
acerca da pertinência do modelo platônico para o âm-
bito político: ele representa o ideal regulador de uma
“constituição que pretende fundar a liberdade huma-
na máxima possível com base em leis tais que façam
com que a liberdade de cada um coexista com a dos
outros” (o objetivo não é pois a imediata felicidade
máxima, mas ela acontecerá necessariamente, por si
mesma, a partir de tal constituição).
O problema que permanece aberto é outro. Kant
é claríssimo acerca do papel avaliador e da causalidade
eficiente e final do paradigma platônico sobre a con-
duta moral e a factualidade política. O que Kant, ao
contrário, não diz é por que são precisamente os conte-
údos daquele paradigma – isto é, os lineamentos cons-
titutivos da kallipolis – a desenvolverem o papel formal
de ideal transcendental que lhe foi reconhecido. Ad-
mitindo que cada realização sua se deva mostrar ine-
vitavelmente parcial e imperfeita, porque é que aquela
“norma eterna” de cada constituição possível deveria
prever a abolição da propriedade privada e da família
(pelo menos para o grupo de comando), o domínio
de uma elite intelectual, a exclusão da maior parte dos
cidadãos das funções de governo? Há uma conexão
necessária entre estes conteúdos e o papel normativo
do ideal platônico?

72

Kant não parece estar interessado em responder a
estas questões (sobre elas se concentrará, como vere-
mos, a interpretação hegeliana). A sua extraordinária
precisão conceitual ao distinguir normas de fatos, ao
atribuir ao projeto platônico o seu papel ideal não ime-
diatamente transferível à práxis, mas ainda avaliador e
orientador relativamente à mesma práxis – portanto,
absolutamente não “quimérico” – teria exercido uma
grande influência na exegese platónica (pelo menos
a partir de finais do século XIX). Mas o seu silêncio
sobre a relação entre dimensão formal e dimensão de
conteúdo da teoria normativa de Platão teria deixado
aberto, para esta exegese, um vasto terreno de discus-
são e também de dissensão.

HEGEL: O “ESPÍRITO DO TEMPO”

Ao contrário de Kant, Hegel dispunha de um co-
nhecimento mais amplo e em primeira mão dos textos
platônicos. Se, não obstante isto, também a sua atenção
se concentra sobre a República, com escassas menções
às Leis e ao Político, é provável, então, que isso se deva
a motivos de ordem teórica (como se verá, o segundo
diálogo podia parecer demasiado “demiúrgico”, o pri-
meiro demasiado dedicado a “receitas” legislativas).
Ao contrário de Kant, Hegel está, antes de tudo,
empenhado em negar o caráter “quimérico” e “extra-
vagante” da República. Mas a estratégia e o sentido te-
órico da defesa de Platão da acusação de Brucker mos-
tram-se radicalmente antitéticas em relação às te-ses

73

kantianas. Se nelas prevalecia o caráter formal do ideal
regulador proposto por Platão, para Hegel tratava-se,
ao invés, de recusar a acusação em nome do caráter
substancial dos conteúdos do modelo platônico, ago-
ra considerados mais descritivos que normativos; com
esta mesma atitude aparecem imediatamente negados
quaisquer caráteres projetivos da República.
Nesta ótica, a de Brucker e de Kant, a “quimera” e
o “ideal” acabam por ser duas faces da mesma moe-
da, dois aspectos do mesmo “vazio”. Na República, diz
Hegel nas Lições de história da filosofia, Platão apresen-
tou um “apelo ideal de constituição política, que se
tornou proverbial como uma Quimera [...] no sentido
que esta representação poderá existir na mente” de um
filósofo ocioso, e será realizável na condição de os ho-
mens serem excelentes, como os que vivem na Lua,
mas não na terra: tratar-se-ia portanto de um “ideal
completamente supérfluo”. Se uma ideia é demasiado
boa para existir, acrescenta Hegel, “então o defeito
está no próprio ideal”. Mas “quando um ideal tem em
geral uma verdade íntima por meio da ideia, do con-
ceito, então não é uma Quimera, mas é verdadeiro; e
um tal ideal não é de todo algo ocioso, fraco [Kraftloses],
mas é o real [das Wirchliche]. O verdadeiro ideal não
deve [soll] ser real, mas é real” (pp. 272-4). Portan-
to, só uma má interpretação da República faz com
que seja considerada um “ideal vazio”, escrevera Hegel
nos Lineamentos de filosofia do direito (Prefácio, p.
XIX), trocando-a por “uma fantasia [Träumerei] do
pensamento abstrato, por aquilo que frequentemente
se costuma chamar um ideal” (§ 185).

74

De fato, a Hegel parece de todo absurda a ideia
de um filósofo-legislador a quem caberia a tarefa de
“realizar o ideal na história” e, com ela, a função de-
miúrgica que Platão parecia (por um equívoco inter-
pretativo) ter atribuído aos seus filósofos-reis. “Para
uma constituição não basta a teoria, não são os indi-
víduos a fazer uma constituição: ela é algo de divino,
espiritual, historicamente necessário [ed. G.-J.]. E é
algo de tão forte que o pensamento de um indivíduo
não significa nada perante esta potência do espírito do
mundo [Macht des Weltgeistes]” (LSF, p. 177). Hegel
menciona dois célebres exemplos de reis considerados
filósofos: um exemplo negativo porque ineficaz, o de
Marco Aurélio, e outro positivo, o de Frederico II da
Prússia. Ele elevou a “princípio inteiramente universal
o bem do seu Estado”; em seguida, nos estados mo-
dernos, sem necessidade de filósofos-reis, mostrou-se
verdadeiro o sentido autêntico da exigência platônica,
isto é, “todo o âmbito político deve ser dominado por
princípios universais” (LSF, pp. 195-6).
Nem sequer a filosofia pode dar conselhos ou “re-
ceitas” sobre pormenores legislativos: “A filosofia pode
eximir-se de dar bons conselhos; Platão podia evitar
recomendar às amas que não estivessem paradas com
as crianças, mas embalassem-nas sempre nos braços”
(LFD, Prefácio, p. XX). Aqui o sarcasmo de Hegel ata-
ca a minuciosidade legislativa das Leis, tal como antes
se dirigira à ambição demiúrgica do suposto criador
de constituições. A filosofia, se é boa filosofia, como é
o caso da de Platão, não deve “construir um Estado tal
como deve ser [wie er sein soll]”, mas “compreender

75

conceitualmente o Estado como algo em si racional”
(ivi, pp. XXII).
Não há portanto nenhuma eficácia política da fi-
losofia. A sua reflexão versa sempre sobre realidades
histórico-políticas (por conseguinte, espirituais) já re-
alizadas na sua maturidade que avança dialeticamente
para o declínio: o que a filosofia pode fazer é transfor-
mar estas realidades em figuras do saber absoluto (no
nosso caso, o estado) e é precisamente o que Platão
fez, se o interpretarmos superando o equívoco do ca-
ráter quimérico-ideal da República.
Longe de propor ideais reguladores “vazios”, aos
quais a realidade tem de se adequar, Platão,

de fato, expôs a ética grega na sua modalidade
substancial. A vida política [Staatsleben] grega
é o que constitui o verdadeiro conteúdo da
República platônica. Platão não é homem para
se entreter com teorias e princípios abstratos:
o seu espírito verídico conheceu e expôs a ver-
dade, a qual não podia ser outra coisa senão
a verdade do mundo em que vivia, este úni-
co espírito vivo e presente tanto nele quanto
na Grécia [G.- J.: im seinem Volk]. Ninguém
pode ir além do seu tempo: o espírito do pró-
prio tempo [der Geist seiner Zeit] é também o
próprio espírito (LSF, p. 275).

A realidade (Wirchlichkeit) deste espírito apareceu
a Platão na sua “verdade suprema, isto é, como orga-
nismo estatal [Staatsorganismus]” (p. 269), em que se
atualiza a “ética substancial” do povo (pp. 277 seg.).

76

Hegel identifica a filosofia platônica com o espíri-
to comunitário da civilização grega, compreendida e
descrita na sua realidade substancial pela filosofia. Na-
turalmente, Hegel está atento a realçar que esta “reali-
dade”, imediatamente convertível em “racional”, não
se identifica com o dado empírico-fenomênico na sua
mudança. Trata-se portanto de compreender a “ver-
dade”, a substância, sob a crosta de vícios e paixões
individuais e passageiros (LSF, p. 274). Platão não es-
creve uma história da Grécia, mas leva este estrato
substancial da sua realidade à compreensão filosófica.
Aqui age claramente em Hegel a pré-compreensão
classicista e idealizada da polis grega – que ele havia
formulado nos anos em que estivera em Jena –, da sua
“bela liberdade”, da “virtude antiga que tinha o seu
significado preciso e seguro, porque possuía um fun-
damento pleno de conteúdo na substância do povo e
propunha como fim um bem efetivamente já existen-
te” (por essa razão, uma virtude que ele contrapunha
ao “pomposo discorrer” sobre a virtude dos modernos
que pretende opor-se de maneira vã ao “andamento
do mundo”: Fenomenologia do espírito, C. AA. V B9).
Hegel tem, então, que ignorar o fato de que o pró-
prio Platão havia considerado as suas propostas con-
trárias aos costumes tradicionais, parà to ethos (Resp. V
452a7), e havia defendido que a unidade da polis nun-
ca fora realizada, dado que a cidade continuava a estar
dividida em duas partes, a dos ricos e a dos pobres,
contrapostas como num tabuleiro de xadrez, e que,
além disso, cada uma delas estava despedaçada numa
pluralidade de interesses particulares (IV 422e seg.).

77

no mo- vimento do pensamento de Hegel. a suspeita de um círculo vicioso: Platão não propõe um “ideal”. logo. marcando o limite dialético de ambas. Convém notar que Hegel não hesitou em considerar o coletivismo platônico estendido à inteira sociedade da polis.Hegel deve ainda. Aparece. São reconstruídos com precisão os três pilares. e sobretudo. e é precisa- mente esta idealização a esconjurar a idealidade da República. todavia. Em todo o caso. que Hegel considera não uma dedução platônica. a abolição da propriedade privada. esquecer a perturba- dora discussão sobre a “possibilidade de realização” da kallipolis que se desenvolve nos livros V e VI da Repú- blica. a correspondência entre a filoso- fia platônica e esta realidade torna-se possível somente se a segunda for. por sua vez. mas um “sistema necessário em cada Estado” (a primeira or- dem é descrita como sendo capaz de governar no in- teresse comum. mas compreende uma “realidade”. esta coincidência entre “raciona- lidade” platônica e “realidade” da polis serve. Hegel não se apoia em re- 78 . porque Hegel ob- viamente não deseja realçar a realeza dos “filósofos”). Este limite emerge claramente da exposição hegeliana dos conteúdos positivos da República. mais de acordo com a linguagem do livro IV que com a do livro V. assim. a paralela supressão da família. a superar o clas- sicismo. tais como emergem dos livros IV e V do diálogo: a sub- divisão do corpo social em três ordens (Stände). não obstante uma secular tradição de “defensores” de Platão ter realçado a sua restrição só aos grupos de governo. idealizada.

288 segs. 278. p. pp. quer o caráter substancial da “mesma ideia ética grega” que conside- rava o individualismo o princípio da corrupção dos estados. destrutivo) (LSF. do ethos público. Neste novo quadro. as fortalezas do “princípio da liberdade subjetiva” (LSF. por isso. com o cristianismo. que consiste precisamente na conciliação dialética do princípio de estado com o de liberdade individual: uma conciliação que pertence só à época dos modernos e. sagradas”. 278). 292-5).). A propriedade privada e a família são. dado que representa ao mesmo tempo a ver- dade substancial da época e o seu limite dialético. Este “defeito de subjetividade” marca o limite dialético da época dos gregos e. no cenário mundial (apesar do prelúdio socrático. do seu espírito comunitário (Gemeinsamen Geist) (LSF. de fato. a propriedade privada e a fa- mília são “necessárias. incapaz de aco- lher aquele princípio da liberdade subjetiva que asso- mará só mais tarde.ferências textuais – no livro V da República e no V das Leis – que pudessem justificar esta interpretação. além dis- 79 . p. o limite da época da Staatverfassung platônica que aparece degradada à “posição subordi- nada”. com ela. intempestivo e. pp. 292): e é precisamente a exclusão deste princípio que constitui quer “um traço fundamental da Repú- blica platônica” (LSF. porque não pode “satisfazer a exigência supe- rior de organismo ético”. Trata-se de um ponto de vista “substancial” e pre- cisamente por isso relativo ao tempo. a universalização do coletivismo no conjunto “real” constituído pela República e pela polis grega é decisiva para ele. ou melhor. ao seu pensamento. 288. por isso.

Não obstante a diferenciação hegeliana. ao contrário das castas indianas. permi- tindo-se. ignorar este eventual precedente do pensamento comunista.so. mostrando o seu limite dialético em relação à modernidade – teria certamente influenciado a história das sucessivas leituras do platonismo político. a partir da tradução italiana. consequentemente. assim. Trata-se decerto de uma linguagem em boa parte não inventada por Hegel. justamente por este motivo mal visto pelo fundador do “comunismo científico”. 410). Voltando a Hegel. pode ser que nesta menção se encontre a origem da infeliz defi- nição que Marx propôs da República como “uma idea- lização ateniense do sistema egípcio das castas” (O capital. a liberdade de escolher a própria ordem. Platão negou aos in- divíduos. 80 . do conceitualismo hegeliano seria exercida pela sua lin- guagem. ainda mais eficaz porque capaz de agir de modo aparentemente neutro. mas ao mesmo tempo de supe- rar uma e o outro. livro I. confiando aos governantes a esco- lha da colocação de cada cidadão nas classes. Mas uma influência talvez igualmente grande. mas que se mostra poderosamente codificada no uso filosófico que ele fazia dela. a força da sua interpretação – ca- paz de incorporar a tradição classicista e de refutar a suspeita de utopismo quimérico e de idealismo “vazio” que pesava sobre Platão. independente- mente das opções filosóficas. a segunda oferece às mulheres a sua “destinação essencial”. isto é. porém. mas. § 206). Quanto aos Stände. p. nesta destinação não conta o nascimento (LFD. primitivo ou utópico.

Volk desloca a sua semântica do âmbito político ao da consanguinidade e da pertença territorial. a sua referência à dimensão específica da politicidade que é intrínseca à linguagem grega (basta pensar numa tradução da definição aristotélica do ho- mem como zoon politikón que a explique da seguinte forma: “o homem é um animal estatal”). quanto a ethnos. A terceira palavra. É claro que se for re- ferido à comunidade de cidadãos. do exército. é bem sabido que o termo de- signa uma comunidade política soberana. também segundo Hegel. é Geist. Certamente ela não traduz o grego de- mos. à koinonia politiké. da instrução. por fim. A primeira destas palavras é evi- dentemente Staat. direito de cidadania). de modo duradouro a imagem de Platão. forma de governo de cada comu- nidade. Em ambos os casos uma tradução imprópria. estru- tura constitucional. Bastará exemplificar esta tese com algumas pala- vras pesadas. que no uso platônico designa sempre uma parte política e social da cidadania (o mesmo em demokra- tia. da magistratura. seja. quanto a polis. frequentemente referido às povoações bárbaras. como título da República. com alguns efeitos de tradução destina- dos a configurar. “poder dos pobres”). também. A tradução oculta. Politeia vale em grego seja composição do corpo cívico (portanto. então. trata-se de um termo alheio à dimensão da polis. quer polis. que é o seu objeto. com a qual Hegel traduz quer Poli- teia. A segunda palavra é Volk. Não é necessário insistir so- bre o fato de que ela não traduz logos (intrinsecamente 81 . ou a desfigurar. definem um estado como os corpos separados da burocracia. mas privada de aparelhos que.

Então. que Platão é intérprete do “Geist vivo nele como no Volk da Grécia”. quando Hegel escreve que o objeto da Re- pública é das griechische Staatsleben. mesmo independentemente das suas intenções. e utiliza a sua linguagem. ENTRE KANT E HEGEL:LIBERALISMO E SOCIALISMO Os grandes historiadores : Z eller . cuja monumental Filosofia dos Gregos conheceu uma existência feliz que se es- tendeu por mais de meio século (da primeira edição de 1844-52 à quinta de 1922). quer a gama de avaliações contrapostas. da “substância ética do povo” como “todo vivo orgânico [eine lebendig organische Ganz]”. 82 . numa rede con- ceitual que condicionará por muito tempo quer a sua interpretação. que designa uma modalidade específica do pensamento. G omperz Com Eduard Zeller. o Platão político en- trava no domínio da grande historiografia acadêmica e “científica” do século XIX (mas não por isso neutro ou indiferente relativamente aos problemas ideológi- cos e políticos). G rote . de tipo intuitivo e intensivo. ele inscreve o pensamento político de Platão. Zeller não esconde a profunda inspiração hegelia- na do seu contato com a República e com o pensa- mento político de Platão. ou o Staatsorganismus.conectado à dimensão comunicativa e argumentativa da linguagem) nem nous.

644). Por isto. na República davam-se indicações preci- sas sobre a sua necessidade.] para esperar dos que 83 . nele agem também a influência da ética kantiana e a do pensa- mento liberal (como veremos... uma radicalização extrema.traduzindo sempre polis por Staat. Esta reação exigia que os indivíduos fossem subor- dinados pela força à estrutura estatal (p. porém. Zeller lê em Platão a rea- ção do “espírito grego” face à separação dos indivíduos do estado e ao arbítrio individualista que comportava a sua ruína. quer à sua filosofia. que Zeller associa quer à sua biogra- fia.. tinha ido ainda mais além da ética hegeliana imediata da vida estatal gre- ga. em sentido elitista. “não se pode pôr em dúvida que tomasse re- almente a sério todas as suas propostas” (pp. 640). Apesar de Zeller (ao contrário de Hegel) reconhe- cer agora que a abolição da propriedade privada e da família. tudo isto não podia ser considerado expressão daquele Zeitgeist. de ambiente mais prussiano-guilhermino que anglo-saxão). 637 seg. Hegel tinha razão sobretudo em negar que Platão propusesse “um irrealizável quadro de fantasia”. então. Platão operava. age o ideal aristocrático de Platão. Do primeiro ponto de vista. Todavia. o seu desprezo pelo trabalho manual e pelas massas populares: “como au- têntico aristocrático. possibilidade e realização. aliás. o “comunismo” dos bens e dos afetos se li- mitavam à elite dirigente da polis utópica. Mas Platão. Platão despreza tão profunda- mente o trabalho material [. Seguindo ainda Hegel. Segundo Zeller. que se teriam manifestado plenamente du- rante aquela crise de época que foi a guerra do Pelopo- neso. segundo Zeller.

com as suas formas de vida comunitária e de domínio do estado sobre os indivíduos. À orientação aristocrática devem ainda ser atribuídas as simpatias platônicas pelo opressivo regime espartano. 586). “Platão pensa que não se possa esperar que instituições estatais razoáveis encontrem um acesso na população sem constrição” (p. 645). o intelectual e filosófico pelo outro. E.). o conhecimento verda- deiro dos poucos às flutuantes opiniões das massas. e muito menos que a “massa dos homens se submeta voluntariamente a este domínio” (p. esta não natural e violenta repressão da autodeterminação individual. esta brutal renúncia à liberdade pessoal e política” (ibid. Aqui teve origem esta “dureza da dou- trina platônica do Estado. O aristocratismo social por um lado. O que em Hegel era limite de época do Zeitgeist grego.). Zeller formulou tão completamente a primeira crítica de caráter “ideoló- gico” e classista a Platão. 645). 592 seg. “como seria possível que uma coletividade correspondente à ideia se constituísse a não ser atra- vés do domínio absoluto daqueles poucos privilegia- dos?” (p. então. que teve grande impacto na sucessiva historiografia de orientação marxista. convergem para o delineamen- to de uma conceção do estado como poder absoluto de poucos e como opressão das livres individualidades dos súditos. Mas é na filosofia que Zeller reconhece as raízes mais profundas da política platônica: mais precisa- mente naquele dualismo ontológico que contrapõe as ideias ao mundo empírico.se dedicam a esse tipo de trabalho a bravura política e militar necessária aos seus guardiões” (pp. Consequentemente. torna- 84 .

bem distante do intérprete fiel hegeliano do “espírito do seu tempo”. Sobre isto Zeller gasta palavras verdadeiramente belas que merecem ser transcritas: 85 . por último. Mas esta caracterização sombria do projeto platônico como opressão violenta e não liberal não é a última palavra de Zeller sobre o Platão político. O para- lelismo instituído por Zeller entre o modelo platônico e a Igreja medieval é iluminador. Esta política não pode confiar no espírito comum que nasce do li- vre movimento dos indivíduos” (p. 646). mas pensa sobretudo nas três ordens medievais dos oratores. melhor ainda. 625). um aspecto inaceitavel- mente peculiar do pensamento platônico. uma abertura para um Platão vi- sionário e profético. com o ‘liberalizante’ Zeller. mas antes para realçar o domínio social exercido por uma classe sacerdotal que recusa com os “votos” os objetivos individuais. como faria Marx. como muitas vezes se tem interpretado. 646).se. e legitima o governo sobre a co- munidade em nome de um saber transcendente que a ela apenas é acessível (p. as- sim na política ele “tem necessidade do poder absoluto para domar o egoísmo dos indivíduos. A propósito dos grupos funcionais da polis platôni- ca. bellatores e laboratores. O historiador não re- corre a ele para atribuir à cidade platônica um caráter “cenobítico”. precursor anacrônico de um distante futuro. Há. Tal como Platão tivera necessidade do Demiurgo para submeter com a força (aqui Zeller esquece significativamente o papel da “persuasão” no Timeu) a matéria à ideia. Zeller fala uma vez de “separação em castas” (p.

porque ele antecipou audaciosamente as aspirações e as instituições do futuro. a discussão estava inevi- tavelmente destinada a reavivar-se. Podemos dizer que o seu erro não consistiu em ter proposto objeti- vos irreais com arbítrio fantástico. A moder- nidade preconizada por Platão parece assumir. também. é hora de assinalar que. Platão quer efetuar no solo grego e de forma grega o que estava destinado a realizar-se nou- tra situação e sob outras premissas.). com meios impossíveis – as tarefas pos- tas pela história. 650 seg. Mas há. um filósofo hegeliano e liberal como Hans Georg Gadamer teriam voltado a reconhecer na proposta platônica de governo dos filóso- 86 . Há. a abertura de uma via que levará em época moderna à instituição de uma “classe de funcionários”. e acerca disto. que os conteúdos atri- buídos por Zeller a este olhar profético parecem um pouco decepcionantes. um aspecto decididamente prussiano-guilhermino. como veremos. mas em ter tentado resolver prematuramente – por essa razão. so- bretudo. dos exércitos permanentes. infelizmente. que juntamente com uma “classe de professores” tomará o lugar dos velhos filósofos-reis e. uma burocracia dotada de preparação científica. então. sim. Convém dizer. depois de Zeller. a precursão da pari- dade de direitos reconhecida às mulheres. não só Gomperz mas também. um século mais tarde. de que ele tomou consciência com olhar profético (pp. que Zeller chama também «Terceiro Estado». a eles associa-se a classe dos produtores. Todavia.

a terceira edição em quatro volumes é de 1888). elas pre- viam uma agregação de indivíduos mantidos juntos por obra de instituições. O Político é consi- derado cronologicamente anterior à República e é usado para realçar o caráter absolutista desta. Completamente diferente do clima zelleriano é a atmosfera do liberalismo. Grote fora discípulo de James Mill. pelo menos. Na República. isto é. Platão descreveu só “o cérebro e o coração do grande Leviatã”. o pai de John Stuart Mill. a educação e a 87 . tê-las-ia considerado uma obra tardia e incompleta. and the Other Companions of Sokra- tes é de 1865.fos “a instituição da moderna condição profissional do empregado e o ideal da sua incorruptibilidade”. As críticas de Grote concentram-se nos aspectos educativos e propriamente políticos do modelo pla- tônico. por- que. em seguida. em que Platão não encontrara grande fortuna. Zeller considerava-as inicialmente não autênticas. dedicando-lhes conse- quentemente uma atenção bastante limitada. Um Platão profeta da burocracia moderna representa. um modesto êxito exegético. com veios socialistas. Quanto às Leis. no qual se inscreve o grande historiador escocês George Grote (o seu Plato. As suas equilibradas páginas sobre a República constituem um notável exemplo de independência in- telectual e de lucidez de juízo num ambiente. e permanecera ligado ao seu em- pirismo filosófico e ao radical movement promovido por eles. como o da cultura inglesa do século XIX. ao contrário do organicismo da República. Ainda uma palavra sobre o tratamento zelleriano dos outros textos políticos de Platão.

o sistema da República mos- tra-se contrário ao livre pensamento. pois à terceira classe não parece sobrar senão uma “ilimitada submissão às ordens dos governantes sustentados pela força dos guardiões” (pp. de fato. numa espécie de Dictator (pp. ao contrário do comunismo moderno. Platão negligenciou de todo a discussão dos modos de educação popular. Sócrates transfor- mar-se-ia. que prevê uma “autoridade infalível. 88 . temporal e espiritual”: na República. assim. ele chama sempre Commonwealth.). O “co- munismo” platônico (que. 211 seg. o “radical” Grote está. 139 seg. note- se. não é um comunismo dos produtores) é. O Sócrates histórico.). De modo bastante surpreendente. Acerca do plano político. às free-thinking minds.forma de vida das classes dirigentes: “filosófica” e mi- litar. nota Grote. A ausência de um programa educativo da classe dos produtores. ele não teria ousado ir tão longe. faz deles “mais máquinas que indivíduos humanos” (pp. ao in- vés. 186 seg. segundo Grote. em significa- tiva oposição ao Staat dos autores alemães). apenas parcial. em relação a toda a tradição crítica. Mas. com a sua dialética ne- gativa tão apreciada pelos Mill. disposto a encontrar motivos de consenso para a estrutura social da comunidade platônica (que. limitando-se ao grupo dos guardiões. e o vín- culo que os obriga a exercer um só tipo de trabalho. não poderia existir na cidade platônica. Repreensivelmente. trata- se para Platão só de um second best: mesmo achando auspiciosa uma comunhão universal.).

o modelo platônico propõe «uma conceção mais ampla e mais generosa do objetivo das instituições políticas». e sê-lo-ia pro- vavelmente na sua totalidade se fosse associada a um adequado programa de educação popular e se conce- desse mais espaço à liberdade de pensamento e ao di- reito de crítica. 89 . o argumento forte que impele Platão à abolição da propriedade privada e da família para os governantes consiste no apelo à sua dedicação absoluta à comunidade (p. 183 seg.). Platão tem razão (contra Aristóteles e Xenofonte) em consi- derar os interesses privados e as tarefas públicas incon- ciliáveis (o conflito de interesses pode ser mitigado. porque não proíbe as relações sexuais. Em relação a Xenofonte e a Aristóteles.). Segundo Grote. 193).). Nos seus conteúdos sociais. Nada de absurdo nem mesmo na proi- bição dos casamentos: pelas mesmas razões (evitar o conflito entre interesses privados e missão pública) a Igreja Católica impôs aos seus sacerdotes o celibato (aliás. O objetivo razoável de Platão consiste portanto na “completa extinção” da figura “of the old individual Adam – of all private feelings and interests” (pp. Platão é mais indulgente. porque pede que os guardiões governem também no interesse da massa popular dos produtores. mas não superado. a kallipolis da Repú- blica parece em parte aceitável a Grote. 169 segs. Há mais. que Aristó- teles ao invés tende a excluir dos direitos de cidadania (pp. pela avaliação popular da obra dos governantes). 183 seg. Posto isto. mas só a estabilização dos vínculos matrimoniais) (p.

pergunta-se Grote.. 191). E. Todavia. a es- perança formulada no livro VI da República que esta demiurgic force possa vir de um déspota convertido à filosofia (fiel ao seu princípio salutar de autonomia de cada diálogo. segundo o historiador escocês. conclui o his- toriador de modo absolutamente original. A verdadeira razão desta impossibilidade é ou- tra. E não obstante. aqui ele está muito perto do estilo do pensamento platônico). onde se espera que esta “força” possa provir da de um “bom tirano” disposto a colaborar com o legislador filósofo). de onde vem a força necessária para desenraizar os velhos costumes e gerar os novos. Grote não se refere aqui à passagem do livro IV das Leis. 709e segs. a sua reali- zação é impossível. para lhes dar o first start? É apenas um “pio desejo” (uma forma daquela euché que Platão deplora). 190 seg. poderia funcionar (pp. segundo Grote (no meu parecer. É pois essencial- mente um problema de força o que.). Não porém pelas razões apresenta- das por Aristóteles. de maneira que “a suposta impossibilidade é só o modo de exprimir desaprovação e repugnância” (p. que traduziu para o alemão as obras de John Stuart e que parece. se alguma vez ele fosse aviado. já 90 . O projeto platônico esbarra no fato que todas as comunidades humanas existem com costumes dife- rentes dos que ele propõe (estamos portanto muito longe da correspondência com o Zeitgeist hegeliano). Permanecemos no ambiente dos Mill com o gran- de filólogo vienense Theodor Gomperz. Ele dá voz apenas a enraizados pre- conceitos acerca da família e da propriedade privada. impede a possibilidade de realização do projeto.

o III volume da obra é inteiramente dedicado a Platão. a emancipação das mulheres (um projeto para o qual o progressista Gomperz exprime a sua “admiração”) (pp. a monumental obra dos Pensadores gregos. ter encontrado nelas o impulso para escre- ver uma história da filosofia antiga “from the point of view of the Experience philosophy”: um impulso que produziu. Platão não duvidara da bondade e da utilidade do seu projeto. “a consideração de realizações efetivas de que não faltam inteiramente exemplos. do qual se faz um retrato não privado de respeito e por vezes até de admiração. Pode parecer surpreendente (mas no fundo não de- masiado distante da problemática de Grote) o modo como Gomperz estrutura a sua avaliação crítica da po- lítica platônica. observa o historiador vienense.). a partir de 1896. a supressão da família e. e o confronto desapaixonado 91 . Este conjunto de condições teria feito com que Platão fosse induzido a privilegiar os conteúdos político-sociais do seu projeto em relação aos éticos (p.em 1858. com ela. No campo político. 432 seg. Ora. 403): uma posição exegética exatamente oposta. como veremos. uma inten- ção que requer como condições próprias a abolição da propriedade privada. Gomperz não pode senão apreciar a intenção central de Platão: a de levar ao po- der “a inteligência alimentada de ciência”. à de muitos intérpretes de finais do século XX. mas das suas possibilidades de realização. Apesar das simpatias de Gomperz – sensível também à influência do positivismo de Comte – se dirigirem naturalmente para Aristóteles.

o projeto platônico não prevê a “socialização dos meios de produção” (p. creio. intitulado Geschichte des antiken Sozialismus und Kommunismus na I edição de 1893. ao grupo dirigente da nova so- ciedade. “ficou irremediavelmen- te parado no ideal comunista”. Gomperz une a sua resposta a uma “pergunta recorrente”: Platão pode ser considerado “precursor dos modernos socialistas e comunistas”? A pergunta não era assim tão óbvia: a torná-la «re- corrente» contribuiu provavelmente a publicação do livro de Pöhlmann. sustenta Gomperz seguindo Zeller. razoavelmente. permitem- nos. “sim e não”. de modo geral. às suas simpatias filoespartanas e. 430) e está limitado.de tal regime com o regime tradicional. da República às Leis. embora 92 . a resposta de Gomperz é. A esta aproximação geral. 358). Aos trabalhadores não cabe. que todavia Gomperz não cita. excluindo as massas populares: uma atitude de desprezo devida ao espírito aristocrático de Platão. do impetuoso desenvolvimento da social-democracia alemã de finais do século XIX. Não. não bastava a educação mas ocorria garanti-la com a ausência de todos os interesses pri- vados (p. portanto. explo- rando os súditos. Sim. talvez. ao contrário do co- munismo moderno. porque Platão. inverter até a sua posição” (p. a submissão ao domínio da elite da inteligência. além. Para começar com esta pergunta. sobretudo. porque. à memória das comunidades pitagóricas. 408): aqui Gomperz concorda com Grote contra Aristóteles. convicto (com “sau- dável bom senso”) de que para pôr o poder absoluto da inteligência ao abrigo da tentação de abuso.

se se pensar. Mas voltemos à inversão da perspectiva platônica operada por Gomperz. um pouco heterogêneas e bizarras) garantem que o comu- nismo de matriz platônico não é irrealizável. Com efeito. por exemplo. como o exílio da 93 . experimentos semelhantes foram realizados na Idade Média por comunidades religiosas e pela ordem dos cavaleiros teutônicos. Gomperz considera-se capaz de dar resposta positiva até mesmo a uma ulterior pergunta: assim que for realizado. O argumento de Aristóteles. acrescenta Gomperz. Estas referências históricas (para dizer a verdade. 427). 425): o que sai do normal não é por si só impossível. E existem na América ho- dierna. Ele desejava garantir a potência ilimitada da inteligência. o modelo platônico perdurará? Sim. Ela não parece de todo impos- sível. é o juízo sobre a sua desiderabilidade. 404). libertando-a da “obtusa resistência da estupidez”: algumas das medi- das extremas previstas pelo filósofo. no “despotismo teocrático do Império dos Incas” (p. é “sempre repetido por todos os espíritos conservadores contra as inova- ções mais radicalmente subversivas”. Diferente.segundo Platão esse constitua uma forma de “tutela salutar para as massas” (p. seitas como a dos Perfec- cionistas que praticam o “comunismo matrimonial” (p. e mais esfumado. 431). mas não se sus- tenta perante um visual histórico e etnográfico mais amplo (p. um grupo guerreiro alimentado por populações campone- sas protegidas e tributárias. Também aqui Gomperz está disposto a reconhe- cer as boas razões de Platão. segundo o qual se fosse possível já teria sido realizada.

com o seu livre desenvolvimento da indivi- dualidade no contexto da polis (pp. esta contraposição estava destinada a ter uma longa fortuna. aos olhos desta consciência.). Igualmente reprovável. aproxi- mara a República platônica à China e os filósofos-reis aos seus mandarins). com a sua tendência incoercível à anarquia. “uma uniformidade universal de tipo chinês” (curiosamente. Mas não se trata absolutamente do “espírito do tempo” hegeliano: a consciência libe- ral do século XIX (aqui são indicados os nomes de Tocqueville e Stuart Mill) contrapôs Platão “ao ideal de Péricles”. é a aversão de Platão ao progresso: no seu estado ideal não se poderia compor um texto inovador como a República e até mesmo as Leis teriam sido sem dúvida censuradas pelos guardiões da kallipolis. Mas. Daqui chega a Platão a tendência a negar qualquer autonomia ao indivíduo e a preconi- zar. Aristóteles não estava completamente errado: o projeto platônico acaba por empobrecer e mutilar a natureza 94 . 428). em geral. 409 segs. como a destruição dos maus livros (pp. chegando a Popper e indo além dele. escreve Gomperz. lembram a Gomperz prescrições semelhantes apresentadas por Comte. a constituir um impedimento à plena rea- lização do ideal. em 1667. O risco que Platão corre é o de uma “esclerose espiritual” da comunidade. é o que pertence à individualidade. Como veremos. com a instauração de uma espécie de “pedantocracia” (o termo é atribuído a Mill e a Comte): e isto em estridente con- traste com a incansável evolução do pensamento críti- co do mesmo Platão (p. em Gomperz soa um juízo de Athanasius Kircher que. Deste ponto de vista.). 428 seg.poesia.

humana (p. da emancipação fe- minina. como veremos. Gomperz. com as suas aspirações ao progresso e à liberdade. infelizmente. Mas. encontradas na história grega e. Este mérito é confirma- do pelas Leis. ofere- cem-nos. sobretudo. à moderna ins- tituição de uma classe de “funcionários com instrução especial”. além. segundo as quais. para o progressista Gomperz o “mérito imortal” de Platão consiste. sobretudo. Pelo contrário. espartana. aquele “exaltado idealis- mo” que marcaram a República sem. que se iria muito além dessas ações e. Gomperz garante com um toque de otimismo que – à beira do sécu- lo XX – soa quase comovente: “a nossa época nunca pensará num regresso às ações cruéis dos legisladores gregos” (p. no parecer de Gomperz. todavia. da divisão social do trabalho. por outro. Grote. preconceito e abuso da força” (pp. falta aquela “dureza do sentir”. Gomperz vê em Platão o precursor de novidades bem mais positivas. um Platão político interpretado com simpatia pelas suas razões e avaliado com um certo 95 . de exércitos permanentes. 421). Sabemos. 437 seg. Quanto ao controle demográfico e às ações eugê- nicas previstas na República. de maneira bastante semelhante a Zeller. com a sua preciosa variedade de inclinações e sentimentos.). para abrir uma via iluminista no “triplo muro da tradição. que identifica. em ter pesquisado as instituições humanas com “o olhar da razão numa investigação livre”. por um lado. pois. em particular. renunciar àquilo que de socialmente positivo ela propusera. que Platão seria saudado como guia. 430). naturalmente.

do ponto de vista do liberalismo progressista do século XIX. depois. Geschichte der Sozialen Frage und des Sozialismus in der antiken Welt. da grande indústria e da luta de classes na sociedade antiga. e principal. e sem gestos de execração. a segunda consiste na se- cundariedade do autor (1852-1914). deve-se provavelmente a uma pluralidade de razões. Moderadamente progressista. como a tese da difusa presença do capitalismo. A primeira razão é a sua pertença a uma obra com um título muito genérico (Geschichte des antiken Sozialismus und Kommunismus. considerada incapaz de superar os egoísmos de classe e a “plutocra- 96 . na primeira edição de 1893. O fato que esta análise não tenha desempenhado um papel muito significativo na história da interpretação deste filósofo. Um passo mais decisivo seria dado. a terceira.equilíbrio em claro-escuro. em finais do século XIX. consis- te na anomalia da sua posição geral. Pöhlmann era hostil quer à “democracia radical” (que identificava em Mill e Grote). por historiadores e pensadores orientados para o socialismo e atentos ao pensamento de Marx. na segunda edição de 1912) e com conteúdos indiscutivelmente anacrônicos. que foi o primeiro historiador do Renascimento e. da antiguidade clássica (em Munique). P latão “ socialista ”: P öhlmann e N atorp Os capítulos da grande obra histórica de Robert von Pöhlmann dedicados a Platão oferecem indubita- velmente uma das discussões mais fortes e interessantes acerca do pensamento político do filósofo.

a fragilidade “iluminista” em relação às efetivas possibilidades de realização histórica. em contraposição ao “Estado da lei”. 124. 134) da sequela das críticas que tradicionalmente lhe foram formuladas (a República é definida. segundo Pöhlmann. por outro lado. após a crise que seguiu a Primeira Guerra Mun- dial. teria tornado decididamente a posição não atual. A atmosfera cultural do Terceiro huma- nismo. A defesa de Pöhlmann da República frente aos seus críticos antigos e modernos está articulada em vários aspectos. põe em evidência as ilusões antropológicas. kantianamente. “Estado de razão”. 129). aos quais atribuía ilusões “mais infantis que platônicas” do advento próximo de uma idade de ouro. a potência intelectual “cheia de futuro” do desenho platônico (p. de uma medida consequente à exigência de emancipar a dimensão política e estatal do domínio dos interes- ses econômicos das classes sociais contrapostas e do controle de maiorias incompetentes.cia” inglesa (pp. 159 seg. Por um lado. cujas simpatias se dirigiam sobretudo a Fichte e a Bentham. A abolição do caráter privado na vida da classe dirigente é necessária 97 . Vernunftstaat. como Bebel e Kautski. ele defende com for- ça a coerência lógica. A sua ampla análise do Platão político segue uma estratégia dupla. do “socialista” mas rea- lista Pöhlmann. típica de finais do século XIX. aos ideólogos da social-democracia. ou das Leis). O primeiro tema crítico é o do poder absoluto con- cedido à elite de governo. sobre- tudo.). quer ao marxismo e. da palingênese pós-revolucionária do gênero humano (pp. Trata-se.

nem nenhum desprezo das massas à maneira de Nietzsche.) quer o Político consideram este âmbito demasiado mutável e complexo para poder tornar-se objeto de uma legislação constitucional. mas um conjunto de consequências que derivam logicamente de premis- sas consideradas desejáveis (unidade. que vai de Aristóteles até Gomperz. É interessante a justificação oferecida por Pöhlmann para o controle estatal da reprodução do grupo diri- gente com o fim de evitar a sua decadência: nada de estranho. 49. Com efeito. justiça. o “Terceiro Estado” da República. no cenário da política matrimonial habitual nas grandes famílias gregas e da difusa con- ceção da geração de filhos como serviço oferecido à polis (p. como haviam dito Zeller e Gomperz. e deixam-no ao controle das devidas magistraturas. 23). 98 . É igualmente verdadeiro que Platão se recusa a delinear uma legislação no terreno econômico. Nisto não há nenhum preconceito aristocrático. 80). Mais ampla é a resposta formulada por Pöhlmann a uma longa tradição crítica. segundo a qual Platão teria negligenciado completamente a questão da classe dos produtores e dos comerciantes.. afirma. quer a República (425c segs.para subordinar o egoísmo individual às finalidades coletivas do estado que deve ser guiado por homens possuidores dos mais altos conhecimentos científicos. 10 segs. salvo os princí- pios gerais de controle público sobre a economia que consistem em prescrever a especialização dos deveres produtivos e em evitar os excessos de riqueza e pobreza (livro IV) e de dívida (livro VIII). bom go- verno da comunidade política) (pp.

observa Pöhlmann. Tudo isto implica inevitavelmente um forte en- gajamento na educação social. trata-se. reafirmada continuamente nos livros IV e V da República. implícita na intenção platônica. Ao contrário. 50 segs. se é verdade que também para a terceira classe se requer o acesso às virtudes coletivas da moderação (sophrosyne) e da jus- tiça (pp. 28 seg. pois a nova formação social deve ser realizada com vista à felicidade não só do grupo dirigente.). “pôr a peque- na comunidade de guardiões. a “virtude demótica e política” de que fala o Fédon. 60 seg. De fato. segun- do as indicações que Platão dá nos livros II e III da 99 . ao centro de uma sociedade cuja vida inteira seria governada pelo prin- cípio diametralmente oposto do Laissez-faire” (pp. 54): a eles se destina aquela poesia emendada em sentido educativo. em primeiro lugar. mas de todo o povo. de soziale Pädagogik. uma extensiva educação de todos os jovens. Platão ocupa-se seriamente da con- dição moral e educativa da classe dos produtores. ele implica. insiste Platão.. seria absurdo. Esta forma de moralidade difundida é. concordando.). dentre os quais se selecionariam os melhores (p. organizada de modo puramente socialista e centralizado. unidos entre si por uma fortíssima solidariedade coletiva (pp. de resto. como veremos. como diz Pöhlmann. 36-9). “aliados”. “livres e amigos” (547c). de uma comu- nidade de cidadãos “irmãos” (414e). Não há preconceitos classistas em Platão: o tra- balho manual não impede a moralidade. Dado que o sistema platônico não é de castas e prevê a mobilidade entre grupos sociais. De resto. com o neokantiano Natorp.

Pöhlmann não tem dúvidas de que Pla- tão “auspiciou a maior extensão possível de comunis- mo” também para a classe dos produtores. Leg. o princípio de Bentham da “máxima felicidade possível para o maior número possível”. Contestado assim o primeiro núcleo de críticas ao desenho platônico. mas que deve ser igualmente estendido em potência a todo o corpo social (p. é decisiva a possibilidade de tornar a terceira classe partícipe daquela sophrosyne que garante o consenso à distribuição desigual das funções de go- verno sem recorrer a uma “repressão policial da mas- sa”.).) (pp. Mas a intenção educativa de tornar todos os cidadãos. 83). 739c-d) exten- siva (pp. 55 segs. do Górgias ao próprio Político (297b). moralmente “melhores”. na cidade platônica as massas não estariam ao serviço da aristocracia. é central na po- lítica platônica. além das artes figurativas. III 401a segs. e o positivo influxo moral que um ambiente social harmonioso exerce na totali- dade da população (Resp. onde se auspicia que ela seja “o mais possível” (hoti malista. como se vê nas passagens do livro V da República que insistem no ideal da unidade social capaz de envolver “todos os cidadãos” (462b) e na nova evocação do ideal co- munista do livro V das Leis. Em todo o caso. De resto. A isso se destinavam a educação musical e poética. mas vai além deste princípio na direção de um comunismo cuja plena realização é provavelmente impossível.República. mas seria a elite no poder que estaria ao serviço da comuni- dade: Platão antecipa. 74-9). Pöhlmann enfrenta o segundo que nasce com Hegel e continua com Zeller: de fato. a sua é 100 . assim. Na República.

). virtude comunitária por excelência.a primeira refutação do axioma. pelo contrário. Platão tem perfeita- mente consciência da distância entre teoria e práxis e. É verdade que os órgãos políticos devem dispor de força suficiente para subordinar os interesses particulares aos coletivos. segundo o qual Platão. Platão exclui que se trate ape- nas de fromme Wünsche. significa também saúde e bem-estar para a alma de cada indivíduo (444d segs. ao qual se une. “o utopismo socialista mais moderno que imagina a orga- nização social com base em associações de trabalhado- res” (pp. é impensável uma felicidade privada num contexto coletivo gover- nado pela injustiça. A justiça. pelo livro IV da República. insiste Pöhlmann. também. 111-2). Mas. coerente ou não ao “espírito do tempo”. Pöhlmann chega assim a definir o projeto político platónico como um “socialismo individualista”. da impossibilidade de uma perfeita adequação entre realidade e plano ideal. na realidade. de solidariedade social. 473a). do qual se pretende aproximar o mais possível (engytata. “pios desejos”. em aparência inatacá- vel. Mas trata-se de um erro de cálculo que confunde organicismo estatal com uma exigência que é. enquanto que. teria sacrificado inteiramente o princípio da subjetividade individual em favor do organicismo co- munitário e estatal. Por último. a questão da possibilidade de realiza- ção deste projeto de “socialismo”. por mais imperfeita 101 . com a intenção de harmonizar uns e outros. que a felicidade pública terá consequências inevitáveis na felicidade dos indivíduos. Mas é igual- mente claro. A possibilidade de realização histórica do projeto. por conseguinte.

como atestam as suas ideias sobre a democratização antiplu- tocrática da economia política.). citando uma passagem do livro IV (709d segs. Platão se apresenta como um “partidário do cesarismo”. portanto. como de resto foram. se- gundo Pöhlmann. a propósito da qual se considera de novo a tese de Fichte (pp. e apesar das críticas à tirania no livro IX da República. ou sobre a emancipa- ção feminina (apesar de ela subestimar a potência do instinto maternal) (pp. 129-34). 114 seg. Mas Pöhlmann não conclui a sua análise com esta defesa de Platão dos seus críticos tradicionais e com estas apreciações positivas. Exprimem-se aqui as esperanças suscitadas no século IV pelo desenvolvimento das monarquias absolutas. é garantida grosso modo pela sua correspon- dência com as máximas quer da “natureza” quer da razão. Pöhlmann abre de maneira significativa a sua discussão das Leis. em Platão. erros e ilusões. “cheio de futuro”. preconcei- tos. Neste sentido. uma “educação social de massa”. os grandes reformadores sociais de Rousseau a Saint-Simon e Lassalle.) que detecta na colaboração entre um bom legislador e o poder absoluto do tirano “a via mais rá- pida e eficaz” para a transformação moral e política da sociedade. Por mais que ele tenha justamente posto “a harmoniosa composição entre ideia de liber- dade e necessidade da constrição estatal como objeti- vo de toda a política quando desenha o ideal de uma 102 .que seja. E a reeducação moral dos cidadãos requer. para abrir-lhe o caminho. Certamente ocorre. Um Platão. que a elite dirigente disponha de uma “autoridade ab- soluta”. por sua vez. Há.

Platão supervaloriza. que se tratava de batalha digna de ser travada. 138 seg. Pöhlmann defende que a natureza humana não é capaz de reger a fusão social. o crítico não seja justo com Platão que. assim. a harmonização dos interesses públicos e priva- dos. “a criação de gênios”. a ilusão de que o comunismo possa desenraizar os desejos in- dividuais. “o Estado da perfeita justiça. a fraterni- dade. A criação de uma aristocracia do espírito. a valência ética do saber. a eficácia psicológica das instituições sociais. depois errou ao identificar os meios para alcançar esse objetivo (p. Pode-se notar que aqui. não são senão “sonhos” ou “fantasmas” (phantom) (p. o egoísmo pessoal e de classe. Os erros de Platão podem ser resumidos num erro capital: o de ter supervalorizado a eficácia da política e da educação em relação à ‘viscosidade’ antropológica da natureza humana.). de forma iluminista. exatamente ao incoercível regresso destes egoísmos para o interior do grupo dirigente – mas que pensava. apesar disso. no início do livro VIII da República. a consolidação da classe dirigente mediante o saber e a educação. mesmo se o eventual sucesso não fosse irreversível. Portanto. talvez. Em todo o caso. Antecipando “o otimismo educativo socialista” dos social-democratas modernos como Bebel. o poder transformador da educação. escreve ele com palavras que de algum modo soam proféticas. da verdadeira liberdade e igualdade” – tão semelhante ao “Estado futuro do marxismo” – assim que for re- 103 .forma de governo que prevê a espontânea submissão dos súditos”. 143). Platão cultiva. atribuía a crise da cidade justa. uma vez realizada.

alizado. Por esta via. Mas ele deve ser perseguido precisamente como ideal limite. o socialismo de Pöhlmann efetua a sua reviravolta. ao mau uso corre o risco de produzir uma caricatura deformadora do projeto. O estado ideal de Platão deve ser concebido como ideia transcendental que não pode encontrar uma sólida realização na história (de fato. que consiste num regresso a Kant. portanto. convém confiar. A crítica não deve. ou de confiar em uma aris- tocracia de semideuses deixando o povo privado de ex- pressão política. 151). arrisca-se a ver as boas intenções viradas do avesso: constrição e coerção em vez de liberdade. é precisamente nestes conte- údos que o “socialismo” do nosso autor reconhece a validade e a “plenitude de futuro”. 159 segs. mas aos meios usados para a sua realização. ser dirigida ao sentido do projeto platônico. Podemos fazer apenas uma menção ao amplo trata- mento que Pöhlmann (também devido a este aspecto 104 . e a “potência intelectual” de Platão consiste na conceção deste ideal (pp. Em vez de cultivar esperanças milenaristas acerca do advento da Idade do Ouro. no desenvolvimento da civilização que do despotismo oriental. do ponto de vista dos conteúdos. sem ulteriores possibilidades de progresso). como no caso “marxista”. Mas Pöhlmann dá um pas- so decisivo em relação a Kant: se ele não conseguiu justificar.). o último estado. seria. as razões pelas quais o desenho platônico devia ser aceite como ideal da práxis histórica. ao qual é preciso aproximar-se progressivamente. ante- rior a Hegel e à sua tradição. “má- quina” do Estado em vez de organismo solidário (p. segundo Pöhlmann. gradualmente alcançou o sufrágio universal.

de quem apresentou uma imagem sobretudo inspirada em Kant. mas um modelo de perfeição da comuni- dade social que nunca poderá ser inteiramente trans- ferido para a realidade. Plato’s Staat und die Idee der Sozialpädagogik. o “socia- lismo ético” de Natorp (rebatizado ironicamente “so- cialismo da cátedra”). além da completa intenção sozialreformatorich. Nele. o projeto político de Platão deixa de ser compreendido como utopia à ma- 105 . Diversamente de Pöhlmann. ao sistema de po- der absoluto e ao comunismo da República. realisticamente. Entendido deste modo. renunciando.). por isso. Paul Natorp – expo- ente de realce da escola neokantiana de Marburgo – de- sempenhou um papel importante na história das inter- pretações de Platão. um direto precursor de Fichte (p. na obra Platos Ideenlehre. de uma certa influência no debate no seio da social-democracia alemã anterior à guerra de 1914. maiores concessões à fraqueza e ao egoísmo da nature- za humana. A ideia pla- tônica de estado deve ser concebida como um ideal em sentido kantiano: decerto não situado no mundo hiperurânio. mas que é capaz de orientar a vontade na direção de um progresso ilimitado (pp. nas Leis mais que na República. e dos outros neokantianos como Cohen gozou. 10 seg. fariam todavia de Platão. A ideia de estado fechado e de moralização da economia política. 242).inovador relativamente à tradição exegética) dedica ao “Estado das Leis”. também no plano político. Platão faria. editada em 1903. Natorp parte do ponto de chegada de Pöhlmann. No seu breve mas importante ensaio de 1895.

que se afirma na República. O segundo conteúdo do ideal platônico é cons- tituído pelo comunismo. Os conteúdos principais da proposta revolucioná- ria de Platão são dois. sociedade e educação formam em Platão um laço indissolúvel. de formação moral dos cidadãos. De resto. a contraposição violenta das classes. expressa sobretudo no Górgias. de natureza “negativo-crítica”. É ver- dade que uma passagem das Leis (V 739b segs. que não chega a fundar uma nova ordem econômica. através do trabalho de construção social inspi- rado numa “ideia moral de sociedade” que se obtém precisamente com um esforço de educação coletiva. O primeiro consiste na conce- ção “social-pedagógica” do estado. como um ideal valorizador e regulador da práxis. De fato. que mantém ainda na modernidade todo o seu valor pro- jetivo (pp.) pare- ce preconizar uma extensão universal desta forma de vida.neira de Thomas More. precisamente. Natorp detecta duas fases no pensamento político de Platão: a primeira. 14). mas. Platão parte de um fundamento “realístico” (a análise da co- munidade econômica e da sociedade do luxo no livro II da República). 21).. de natureza “positivo-revolucionária” (p. “Platão reconheceu o autêntico comunismo econômico como a verdadeira 106 . Natorp reconhece a limitação da forma de vida comunista apenas ao grupo dirigente. Estado. a segunda. e igualmente realística é a sua inten- ção reformadora (p. 5 segs. a desigualdade social.17). Em parcial desacordo com Pöhlmann. escreve Natorp. A sua tarefa deve ser a de superar o egoísmo dos interesses individualis- tas.

segundo Natorp. O filósofo de Marburgo crê portanto. 26). 23- 6). a única possibilidade realisticamente praticável (pp. pare- ce entregar ao novo século uma imagem de Platão de- 107 . precisamente por isto. de substituir a velha aristocracia por uma nova aristocracia espiritual com bases socialistas e democráticas. e que ambos estejam na origem do socialismo moderno (p. sem uma efetiva emancipação dos trabalhadores. que o comunismo de More derive do de Platão. após Hegel. é indubitável. Deste modo. Platão teria reaberto uma frecha na comunidade social. tem uma atitude mais crítica relativamente ao elitismo aris- tocrático de Platão.consequência das suas premissas” (nota 24. e nada impede que esta nova aristocracia vista “o avental de trabalho”. Até o princípio da “propriedade coletiva dos meios de produção” e o coletivismo socialista derivam das premissas de Platão. então o socialismo hodierno é tão utopista como o platônico” (p. conclui Natorp. 24). mais do que acreditava Pöhlmann. A última palavra do século XIX. mas rejeitou-o. como já havia suposto Grote. nos ideais da social-democracia de finais do século XIX e. p. circunscrevendo o comunismo à aris- tocracia dirigente. “Se esta é utopia. porque ela lhe parecia. Apesar deste limite. no seu tempo. hoje. 6). 31). mas isso não lhe impede de reco- nhecer nele o mais poderoso inspirador daqueles ideais. Projeta-se. mesmo contra a renúncia do próprio Platão em desenvolver coerentemente os seus pressupostos (p. res- tringindo o pleno acesso à razão à classe dominante. e deixando à classe dos produtores apenas a esfera dos desejos e o pedido de uma passiva submissão.

Torino: UTET. 1979. Platon et l’idéalisme allemand. Sobre a relação entre Kant e o Platão político. LONGO. 9 (1976). Solari e G. 527-635. oferece menos do que o título prometera. Kant e la Repubblica platonica. tradução italiana de G. Kant’s Platonic Revolution in Moral and Political Philosophy. classicis- ta. in “Belfagor”. a tradução utilizada é de P. Brescia: La Scuola. Torino: UTET 1967. K. A Crítica da razão pura de Kant é citada a partir da edição de 1787. 1955. in G. 472-80. 617-32. 108 . cf. M. o livro de T. SEUNG. D’ADDIO. Scritti politici. da filologia clássica alemã. J. VIEILLARD-BARON.cisivamente caracterizada em sentido kantiano e socia- lista. 1979. cf. pp. por fim. Em geral. pp. Chiodi. 351-69. pp. Esta imagem não resistiria. vol. Storia delle storie generali della filosofia. neo-hegeliana e. Para os outros textos de Kant. cf. Paris: Beauchesne. ISNARDI PARENTE. Baltimore: Johns Hopkins University Press 1994. SANTANELLO (a cura di). M. M. sobre o Platão político no pensamento do idealismo alemão. II. NOTA BIBLIOGRÁFICA Sobre Brucker cf. in “Il Pensiero politico”.-L. pp. Vidari. La “Repubblica” di Platone in Germania nel secolo di Marx. contudo. reacionária. por muito tempo: ela estava destinada a ser ‘abalroada’ pela crise do pós-guerra e pela simultânea reviravolta. 37 (1982).

1833 organizada por Michelet e confrontada com a edição crítica Garniron-Jaeschke. Vieillard-Baron. Isnardi Parente (cf. Sobre Zeller. Platone e l’eticità greca nella lettura hegeliana. Hegel e Platone. mais em geral. tradução italiana de G. par J. 309- 42. cf. parte II. Orsi. 3 (1989). Milano: Bompiani. pp. Classe Lettere e Filosofia. F. Stato greco e filosofia in Eduard Zeller. cf. DUSO. Cicero. FARINETTI. pp.. Ela foi traduzida para italiano em E. Paris: PUF. 557-656 (que correspondem às pp. CAMBIANO. 892-925 da V edição do texto alemão). consultou-se também a versão Griesheim. Movia (a cura di). 497-559. Esta edição contém as notas indispensáveis de atualização redigidas por M. vol. III/2. XIX. vol. W. in G. G. HEGEL. 2006. 2000. R. série III. os ensaios contidos em Hegel et la pensée grecque. Para os Lineamentos de filosofia do direito usou-se o texto e a tradução de V. Cantimori. D’Hondt. in “Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa”. sobretudo as pp. a cura di J. Lezioni su Platone (1825-1826). 1995. A Filosofia dos Gregos no seu desenvolvimento histórico de E. 109 . G. 1974.-L. 1117-42. 1970. ZELLER dedica ao pensamento político de Platão a secção XI da Segunda Parte. in CR IV. Cagliari: Ediz. 564-83. editada e traduzida por V. Roma: Editori Riuniti. consultou-se a edição de. ZELLER. Milano: Rusconi 1998. Sobre Hegel e Platão. III. pp. Cicero. traduzida em G. pp. AV 2002.Para as Lições de história da filosofia de Hegel. 1974. Milano: Guerini. 604-24). Acerca de Platão entre Hegel e Marx. cf. além das obras citadas. Firenze: la Nuova Italia. Il confronto di Marx con Platone (attraverso Hegel). O capital é citado com a tradução de D. G. MONDOLFO.

1970 (tradução italiana Marxismo ed etica. R. in “History of Political Thought”. no prelo. Acerca de Grote e do seu ambiente. in “Philosophia”. 1996. GIORGINI. Plato in England. George Grote and the Revival of Plato in XIXth Century England. 1975). Radical Plato. cf. As citações de Natorp foram retiradas de P. Würzburg: Königshausen-Neumann. a correspondência com Stuart Mill é publicada em F. J. DE LA VEGA (Hrsg. 1-4 (1938). 1994. Marxismus und Ethik. 1987.As citações de G. GROTE foram retiradas do IV. Berlin: Carl Heimanns Verlag. Frankfurt: Suhrkamp. Hildesheim: Weimann. 1895. idêntica às anteriores. G. Agazzi. in H. Oertel). London: Aberdeen University Press. Funke (Hrsg. and the Other Companions of Sokrates. edited by W. em geral K.-H. a cura di E. 19532. John Stuart Mill. LEMBECK.). a antologia de H. II (1963). pp. Milano: Feltrinelli. Pensadores gregos. 188-94. 18883. Texten zum neukantianischen Sozialismus. NATORP. 149-209. acerca dos aspetos políticos. The Nineteenth Century and After. Plato’s Staat und die Idee der Sozial-pädagogik. SANDKÜHLER. Trzaskoma. é citada a partir da tradução italiana do III volume. pp. Platons Lehre in der Moderne. GOMPERZ. München: Beck’sche Verlagsbuchhandlung 1925 (em substância. 1-31. cf. Theodor Gomperz und John Stuart Mill. Würzburg: Königshausen- Neumann. Platon in Marburg. e os ensaios contidos em George Grote Reconsidered. Utopie und Tradition.). cf. M. in “Critica storica”. Calder III. Sobre Natorp e a interpretação neokantiana de Platão. A obra de T. cf. J. Firenze: la Nuova Italia. Sobre Gomperz. salvo o título e um apêndice crítico organizado por F. volume de Plato. A obra de R. VON PÖHLMANN é citada a partir do II volume da III edição (póstuma). Theodor Gomperz. HEINIMANN. 110 . pp. S. GLUCKER. S. TIMPANARO.

prestigiado professor catedrático de filologia clássica na Universidade de Berlim. DO TERCEIRO HUMANISMO AO PLATÃO “NAZI” “SOB A BANDEIRA DE PLATÃO”: WILAMOWITZ. 4. terceiro depois do Renascimento e da época de Goethe) de Werner Jaeger (que foi o suces- sor de Wilamowitz em Berlim) e de Julius Stenzel. saída da derrota no conflito mundial e do trauma da revolução republicana. STENZEL P oucas décadas separam o sereno ambiente cultural liberal-socialista do final do século XIX da som- bria atmosfera presente na Alemanha dos anos vinte. primeiro. JAEGER. depois por obra do Terceiro humanismo (isto é. A primei- . Os temas que motivam e orientam este regresso po- dem ser resumidos em poucas táticas teóricas. por obra de Ulrich von Wilamowitz. É nesta atmosfera que se dá o “regresso” ao Platão político – fecundo em efeitos fu- turos –.

de certa forma. dando forma ideal ao estado grego e à sua “ética subs- tancial”. A segunda tática é. p. para a qual a raça alemã [die deutsche Rasse] está dirigindo-se neste momento. guia 112 . segundo a qual Platão havia expressado o “espírito do tempo”. 14). o Antigo torna-se pela segunda vez. Se no discurso de Basileia de 1914 Jaeger havia atribuído à filologia clássica a tarefa de manter vivos os elementos antigos que certamente fundam toda a cultura europeia. mas que “não estão tão profunda e conscientemente incor- porados em nenhuma outra cultura nacional moderna a não ser na alemã” (p. na mesma página de Pai- deia. De fato. mas é justificada arriscada e ulteriormente. com base na primazia europeia da filologia clássica alemã entre os séculos XIX e XX. o mundo grego e a sua idealização platônica constituem uma “forma eterna” (as palavras são de Jaeger e encontram-se presentes em Paideia. pelo contrário. Jaeger fala de “afinidade espiritual marcada pelo destino. I. e ago- ra em sentido muito mais elevado e espiritual. parecer previsível. destinado a ser superado dialeticamente por outras formas superiores espirituais. anti-hege- liana: a fidelidade de Platão ao espírito do seu tempo não representa de maneira nenhuma o limite históri- co. ainda vivo e ativo em nós”. que com os gregos – e aqui se esboça a terceira e decisiva tática – mantém uma profunda afinidade espiritual. Esta afi- nidade pode. na conferência de 1919 Humanismus als Tradition und Erlebnis ele vai mais além: “na pura luz da criação consciente. 5) insuperável e até ao momento exem- plar.ra consiste na reativação da tese hegeliana. Exemplar sobretudo para a Alemanha.

mais tarde. O modelo eterno oferecido pelos gregos. Agora o círculo pode fechar-se.e incitamento à recém-nascida cultura do povo” (p. devido à sua peculiar afinidade fatal com a Alemanha. Após a derrota e a crise. por cada um dos estudiosos empe- nhados nesta complexa operação ideológico-cultural. para o belicismo intransigente. como modo para indicar ao povo alemão a via para a saída da crise e sanear a nação ferida. tais como Geist e Volk. por um lado. escrevia Wilamowitz. por outro. o mundo eslavo (com a sua tradição bizantina). em 1918. os grandes adversários eram a democracia parlamentar. para o autoritarismo guilhermino. o igualitarismo e o anarquismo bolcheviques. que se tornou premissa à segunda edição (1920): 113 . e o da célebre cá- tedra berlinense. Convém notar que o axioma da afini- dade entre gregos da idade clássica e alemães servia de ocasião para deixar à margem. o capitalismo inglês (a “cidade dos porcos” de que fala Gláucon no livro II da República era identificada ao Manchesterliberalismus) e. Os conteúdos e as direções desta orientação são depois identificados. numa célebre apostila publicada no segundo volume do seu Platon (1919). o mundo latino (com os seus apelos à romanização). de diversas maneiras. Nos anos da Primeira Guerra Mundial. pode então valer como orientação. Wilamowitz havia posto o seu prestígio pessoal. ao serviço de um engajamento polí- tico militante claramente orientado para o naciona- lismo prussiano. Nesta campanha. na forma espiritual que Platão lhe imprimira. 19: às habituais palavras hegelianas. se alinha aqui precisamente uma nova e temível palavra: Rasse).

Neste sentido. na sua estrutura hierárquica e na renúncia aos bens terrenos. cabe à ciên- cia.]. os miasmas da putrefação não penetram no seu puro éter [. Só lhe resta morrer. como traço central da República. tam- bém. fundado na concórdia das ordens (Stände) e governado por uma autoridade paternalista. não há mais lugar para um velho que não deixa que se arranque do coração – de nenhum Deus. a costumeira comparação com a Igreja católica. enquanto viver. Fui obrigado a ver a autodestruição.. e nós. que leitura faz Wilamowitz no seu Platon? O “estado de justiça” da República (ao qual dedica uma análise bastante breve) parece oferecer-lhe a imagem de um estado corporativo. a auto- castração do meu povo. de nenhum homem – a sua honra de ser Prussiano. o Grande (já Hegel o havia lembrado como exemplo feliz de filósofo-rei). Mas há mais. Mas. 402 segs. sob a bandeira de Platão. exceto quanto ao papel desempenhado pela revelação que em Platão. Na oclocracia e entre os aduladores velhacos e venais. primazia na guerra. com a nossa ciência. atenção à cultura. Wila- mowitz identifica o governo de uma classe de guer- 114 . que ela en- contra em todas as classes. I. Regressa. o ideal platônico parece coincidir com a Prússia de Frederico. Mas o reino das formas eternas que Platão apresentou é indestrutí- vel.. pelo contrário. estamos ao seu serviço.). a isto se acrescenta uma interessante referência ao estado jesuítico no Paraguai (Platon. que combinava de maneira justa: solidariedade social. pp. Combaterei.

é uma espécie de manifesto programático. e do inicial conservadorismo se estendeu até ao nacional-socialismo. tornando-se ministro das Finan- ças prussiano de 1933 a 1944. A inspiração da leitura jaegeriana de Platão diferencia- 115 . pois. Werner Jaeger sucedeu ao seu mestre Wilamowitz na cátedra de Berlim e retomou com entusiasmo a pro- posta de fazer de Platão o guia espiritual do renasci- mento alemão. o filósofo platônico parece. indica à sociedade alemã para que ela saia do seu desalento atual. pp. autoritarismo e militarismo constituem o modelo que Platão. através do seu intérprete Wilamowitz. Neste sentido. mestre de política.reiros e de senhores (Kriegerstand. proferido em 1924 por ocasião da celebração do aniversário da fundação do Reich (que. o discurso Die griechische Staatsethik im Zeitalter des Plato. 444 segs.). Esta imagem de Platão como restaurador do sentido de estado numa Grécia abalada por guerras intestinas e por um nascente individualismo é reafirmada na confe- rência de Wilamowitz Der griechische und der platonische Staatsgedanke (1919): corporativismo. um militar dotado de formação científica ou um homem de ci- ência educado militarmente (I. Também o movimento do Terceiro humanismo foi fundado por Jaeger e tinha como seu canal a influente revista “Die Antike” (von Popitz foi diretor dessa re- vista. Herrenstand) que vivem em “casernas” e praticam um “comunismo de guerra” hostil à moleza da vida burguesa (I. quando caiu vítima da repressão que se seguiu à conspiração contra Hitler). segundo Jaeger. 430 segs.). pp. precisava de ser “no- vamente fundado”) e significativamente publicado em 1934.

ela está mais próxima de Hegel porque insiste na organicismo do estado e na sua supremacia (enquanto “comunidade de vida”. no “espírito do Estado”. o que não significa. indo na direção platônica do homem-ideia. como acredi- tava Hegel. No discurso proferido na celebração. Lebensgemeinschaft) sobre o indivíduo. Jaeger volta a atribuir aos gregos uma concepção “orgânica”. a princípio ideal: a supremacia do estado sobre o indi- víduo (p.se da de Wilamowitz em dois aspectos importantes: por um lado. antes pelo contrário antecipam-na (pp. Jaeger insistia sobre o caráter da ética estatal grega elevada. pois. No primeiro volume da sua grande obra Paideia. a cultura grega superou quer a visão do homem-rebanho. O objetivo educativo e também propagandista dos escritos de Jaeger – como os do seu mestre e do seu colaborador Stenzel –. porque concebe o indivíduo como parte do todo. escreve Jaeger 116 . quer a de um “suposto eu autônomo”. Esta forma consiste. e pela mesma ra- zão. a exigência de “sanidade moral e de si- metria da comunidade do povo [Volksgemeinschaft]” (p. 89). que os gregos ignorassem a individualidade cristã. ela soa perigosamente mais “atual” relativamente à nostalgia de Wilamowitz da época guilhermina e da sociedade prussiana. 9-11). é marcado pelo seu elevado nível de verbosidade muitas vezes retórica que resulta inversamente proporcional à análise preci- sa dos textos discutidos. mais do que ser estritamente histórico-filológico. por Platão. cujo objetivo é “imprimir no indivíduo a forma da comunidade”. 16). por outro lado. 102). e aqui se ma- nifesta a essência da antiga paideia (p. publicado em 1933.

Marcas forte- mente hegelianas. outrora e sempre.criticando o classicismo de Goethe típico de “uma épo- ca ainda impolítica do povo alemão”: “o nosso próprio movimento espiritual para o Estado abriu-nos os olhos para o fato de um espírito alheio ao Estado não ter sido menos desconhecido dos Helenos do período áureo. Faz-se necessário. Do que se trata. voltar à saudável herança grega (e platônica). Jaeger teria criticado a ameaça que o individualismo democrático representava para a socie- dade e o estado alemães. também em Paideia. na qual nos sentimos afins a eles em índole e em raça: o heroísmo” (p. é o mau individualismo desagregador propagandeado pelos So- fistas. o primeiro confere ao segundo a sua ética autêntica. Jaeger irá explicar numa página densa de ecos alarmantes da sua Introdução à Paideia: 117 . O adversário a abater. Staat und Kultur. 48). Num artigo sucessivo. mas ligadas diretamente à atualidade política dos acontecimentos do Reich ale- mão. do que um Estado alheio ao espírito” (p. Há “uma conceção da vida dos gregos fundamental. que se apoiava na ideologia da democracia dominante e fazia do ideal tradicional a fachada de um individu- alismo totalmente cético-individualista”. Die platonische Philosophie als Paideia. 164). como se vê. Jaeger tinha escrito que os sofistas “fundaram a sua educação numa teoria do Estado e da Sociedade. Na unidade viva de estado juntamente com o indivíduo. Num artigo de 1928. eles acabaram por formar “uma raça cética e privada de escrúpulos” (p. fundada. então. 18). na apaixonada reivindicação jaegeriana da continuidade entre gregos e alemães. Deste modo. de 1932.

uma civi- lização que sintetiza em si milênios e engloba a cultura grega junto com o germanismo. De resto. deve despertar a necessidade prepo- tente de penetrar até às camadas mais pro- fundas da existência histórica.. na forma que conserva até hoje e imortaliza o instante cria- tivo da sua erupção (p. o próprio Adolf Hitler escrevera poucos anos antes (1925-26) em Mein Kampf. então. para Jaeger. onde o obtuso mecanismo exteriorizado da cultura se torna o inimigo do elemento heróico que se encontra no homem. 8).. Em todo o caso. A luta que hoje se avizinha visa um prêmio altíssimo: uma civilização luta pela sua existência. trata-se. onde o espíri- to afim ao povo grego plasmou aquele fogo. de um heroís- mo altamente “aristocrático”. São palavras publicadas em 1933. a partir da vida incandescente. ano em que o Parlamento votou o início do rearmamento alemão.]. o homem vivo sai do seu casulo. no endurecimento de uma época tar- dia. Precisamente em momentos históricos em que. insistindo sobre o valor educativo da cultura clássica: Também o ideal helênico deve ter-nos ficado na sua exemplar beleza [. “É um fato fundamental 118 . e deste acontecimento o apelo jaegeriano ao “heroís- mo” torna-se uma sombra sinistra. por uma pro- funda necessidade histórica juntamente com a brama de ir beber às nascentes da própria estirpe.

a tradicional aristocracia junker prussiana. 6 seg.. mas uma nova aristocracia do “espírito” e do “heroísmo”. [. 28).). o legado dos gregos.. exprimin- do “uma suprema vontade com a qual enfrentavam o destino. como efeito de um “mau hábito de nive- lamento positivista” (pp.] a formação de uma humanidade supe- rior”. por sua vez. Jaeger decerto não tem mais em mente. E neste sentido. foi todavia escrita nos Estados Unidos. a sua cultura é verdadeiramente fundadora: pelo contrário. segundo o Jaeger de 1933. e de Platão. Supremacia do estado como forma viva da ética. quanto a israelitas. com base étnica mais do que hereditá- ria. Os gregos perseguiram exemplarmente. e conclui: “A aristocracia é a fonte do processo espiritual da formação da cultura de uma nação” (p. heroísmo aristocrático como guia do povo: este é. a eugenia platônica com a sua referência à seleção das raças ca- ninas. deriva da natural diversidade física e psíquica dos indivíduos”. a este propósito.da história da cultura que cada cultura superior surgiu da diferenciação social da humanidade. onde Jaeger se refugiara em 1936 para impedir que a esposa judia sofresse perseguições raciais (destino verdadeiramente 119 . ao “destino” afim à Alemanha moderna. chineses e hindus pode falar-se de “culturas” só em sentido an- tropológico. Convém dizer que o tom jaegeriano muda sensi- velmente no segundo volume de Paideia. em- bora ainda viesse a ser publicada em Berlim em 1944. a qual. ao con- trário de Wilamowitz. Jaeger cita. pois. mais especi- ficamente dedicado a Platão: esta parte da obra. projeto paidêutico de forjar uma humanidade supe- rior.

Trata-se. e sinal da “resignação” política de Platão (II. num novo pós-guerra muito diferente do de Wilamowitz. publicado em 1947. “a maioria da população” (II. como o desinteresse pelo “Ter- ceiro Estado”. 518). pp. por um espírito heróico da aristocracia. Aqui. que conduz ao parale- lismo entre o filósofo e os tiranos. 350). 341). que deixara de ser um povo orgânico. o ideal da Hélade tornar-se-ia o “de uma se- nhoria de filósofos. Este desvio é confirmado pelo terceiro volume de Paideia.trágico para o velho apologista da deutsche Rasse). talvez. e após se ter ve- rificado uma segunda tragédia alemã. 120 . para ser apenas uma massa” (III. cujo modelo de referência era a figura do filósofo alheia às vicissitudes mundanas delineada no Teeteto. Aqui o Jaeger “americano” retoma temas próprios da crítica oitocentista a Platão. do espelho de uma análoga resignação jaegeriana: para Platão. e considera totalmente não política a destinação da Academia. construída a partir da capacidade do intelecto investigador do homem de alcançar o co- nhecimento do Bem divino” (p. Não por acaso. E também aqui. 363): uma norma in- compreensível para o tirano e também “para a maioria das pessoas. parece substituir-se mais levemente uma concepção religiosa e quase teocêntrica do destino da política por um “Es- tado orgânico” e educador. Jaeger intitula o capítulo sobre a vicissitude siracusana de Platão A tragédia da paideia. p. uma Academia possível só no contexto da tolerante democracia ateniense. o “conhecimento do Bem divino” é considerado norma e medida do rei platônico (III. p. isto é. 473 segs.). p.

Julius Stenzel foi o ‘companheiro de aventuras’ de Jaeger naquela altura: decerto. com o seu Platão educador. perda das esperanças no novo Reich e de- finitiva derrota. mais filósofo do que Jaeger (o seu ponto de referência era o neokantismo de Rickert) e menos afortunado na carreira de filólogo. “Uma consciência cristã”. e recompunha ciência e paideia. No que diz respeito ao acontecimento do Terceiro hu- manismo e à fruição política de Platão. face ao tirano e à “massa”. Ao refletir sobre o movimento dialético hegeliano. Stenzel se ins- pirara fielmente no “manifesto” jaegeriano de 1924. p. escreve Jaeger. se completa o retrato platônico desenhado por Jaeger: um retrato que segue fielmente. Há uma “analogia externa de eventos. entre exaltação nacionalista. a vida própria de uma parte dos inte- lectuais alemães entre as duas guerras. que 121 . antecipara a grande obra de Jaeger de 1933. como se viu. que reúne o nosso tempo ao tempo de Platão”. Platão era visto como expressão de uma “espiritualidade ática” que se tinha contraposto ao racionalismo “iluminista” jônico. e uma mais ínti- ma. aliás. saber e vocação educativa (p. Nessa obra. de 1928. 368). e com a consequente passagem da política à “resig- nação” e ao divino. 116). Com este duplo fracasso. “encon- trará um só ponto de honesto erro na atitude de Pla- tão: o de ter procurado neste mundo aquele reino do espírito que ele queria edificar” (III. que consiste precisamente na luta contra aquele subjetivismo iluminista outrora promovido por aquela sofística grega contra a qual se lançara também Jaeger.

Esta estranha “dialética” leva-nos. p.. a dialética real deu um passo em frente. 100 anos separam-nos de Hegel. hoje mais do que nunca. Segundo Stenzel. ser para nós mestre e guia nos princípios fundamentais” (Plat. e dela até Platão: “Platão deve. que forma o indivíduo e o eleva além de si mesmo”: só ao assumir o estado como tarefa o indivíduo se torna verdadeiramente “pessoa” (p. 120). O segundo princípio reside em aceitar a condução dos chefes deste estado. quais são esses princípios? O primei- ro deve ser atribuído à “enorme potência da comu- nidade estatal. que espera pela síntese (p. A paideia platônica não se dirigia 122 . até à “comunidade orgânica”. para trás.via Platão “superado” pelo princípio da subjetividade. 2000 anos separam Hegel de Aris- tóteles. 317). portanto. ed. ele disse-nos o que existe no meio e mudou a cara do mundo: a nova liberdade do eu. 117). O que aconteceu nestes poucos anos? A liber- dade do eu tornou-se débil. além de Hegel e do liberalismo individualista. como antítese barulhenta. Stenzel escreve no ensaio Hegels Aufassung der griechischen Philosophie. O passo da huma- nidade liberal-individualista à comunidade da nação caracterizada como individualida- de [individuell characterisierte Gemeinschaft der Nation] cumpriu-se. num primeiro mo- mento. de 1932: Por excesso de má subjetividade nós sonha- mos o regresso à substancial comunidade de Platão.

no caminho que. porém sempre ao serviço da meta paidêutica da República (a formação do indivíduo na comunidade estadual). 109 seg. o Platão educador de Stenzel coloca-se plenamente..). À parte os seus muito no- táveis desenvolvimentos filosóficos. e isto era uma vantagem para todos os cidadãos. reconhece no Político elementos de “cesarismos”. o tirano de Atarneu (pp. todos recebem a sua pessoal dignidade e liberdade (p. no que diz respeito ao pensamento político de Platão. só que nem sempre é clara a eles mesmos [. Da ideia da personalidade do Estado. por fim. e nega. Platão inspirou toda a sua vida neste princípio de governo filosófico. 122). todos devem sentir a subordinação à condução da classe dirigente como cum- primento [. conduz ao primeiro volume de Paideia – e.] da própria felicidade.]. Stenzel não duvida da veracidade da Carta VII como documento que testemunha o enga- jamento na ação política direta.. o caráter utópico do projeto platônico.a todos. citando o sucesso dos acadêmicos Erasto e Corisco junto de Hermia. viva nos chefes. O que a autoridade dos filósofos sobre a massa dos artesãos faz é cumprir a sua própria vonta- de. par- tindo de Wilamowitz. 123 . Nunca em outras ocasiões o Terceiro humanismo se aproximou a tal ponto da doutrina do Führerprinzip como nestas páginas de Stenzel. como veremos.. ainda mais além. Portanto.. mas só aos governantes da estrutura estatal.

ao expor a Weltanschauung pertencente ao pro- grama NSDAP. ambas as obras publicadas em 1933. em 1927. se Gottfried Feder. como veremos. teria consequências duradouras na interpre- tação deste pensamento não só na Alemanha. O mesmo subtítulo da obra maior indicava com precisão o background de referência de Hildebrandt: se Geist remetia genericamente à tradição hegeliana. o processo já estava em curso e. já oficializado. Macht era indubitavelmente uma referência a Nietzsche. A luta do espírito pela potência. de alguma forma. e Kampf era uma referência ao escrito programático de Hitler. além de no seu explícito – porque de afortunada divulgação – prefácio à República. Certamente. pôde escrever: A vontade da forma. a vontade de libertar-se do caos. A USURPAÇÃO NAZI DE PLATÃO 1933 – o ano da ascensão de Hitler ao poder e ano também da publicação do primeiro volume de Paideia – pode ser considerado o momento crucial da apro- priação do pensamento político de Platão por parte da ideologia nacional-socialista: um evento que. Platão. Tudo isto encontrava a sua formulação “científica” mais madura no grande livro de Kurt Hildebrandt. de repor a ordem no mundo saído da ruína e de governar a ordem como guardi- ões [Wächter] no mais alto sentido platônico: eis a tarefa imensa que o nacional-socialismo se atribuiu como objetivo. 124 .

p. Hildebrandt decerto podia encontrar facilmente na literatura platônica do Terceiro humanis- mo mais do que um elemento congênito. porém. cf. 4. onde se diz que “Platão foi o desejo que se realizou. como os te- mas do estado orgânico. a referência explí- cita de Hildebrandt encontra-se no parágrafo I. compreen- deu “profundamente na alma” a paixão política. mesmo discordando dela. visto que “nos reinos espirituais não é a mo- mentânea aquisição de poder que decide. em particular a obra de Kurt Singer sobre Platão o fundador. de resto. de 1927. do domínio de uma aristocracia do espírito. que considera indispensável. de que ele tinha em mente também textos como os dos aforismos 957- 125 . 43). porém. de se tornar o sumo legislador filosófico e fundador de um Estado”. que oferecia a imagem de Platão como profeta místico. Os tiranos do espírito. 8. inspirado e he- róico (pp. cujo título explícito era Platons Staat und Hitlers Kampf. é rápida a assonância também estilística entre a página de abertura de Platão e a já citada de Paideia: se Platão não realizou o seu plano na Atenas contem- porânea. Pelo contrário. o “grande adversário” de Platão que. do heroísmo fundador. é porque o calor da poderosa necessidade pode vir inesperadamen- te à luz nas gerações dos bisnetos” (p. No que diz respeito a Nietzsche. 261. os seus predecessores indicados são Nietzsche. Não há dúvida. A propósito des-te último. 487). de Humano. e depois o círculo de Stefan George. aparecia o livro do nazi Jo- achim Bannes.Ainda em 1933. demasiado humano. Na verdade. Mas Hildebrandt limita-se a citar a obra de Wilamowitz.

. onde Platão não é menciona- do explicitamente. Pelo contrário. isto é. prodi- giosa. porém. mas se evoca uma raça de dominadores. um outro aspecto do ataque de Nietzsche a Platão. A recusa de ambos os traços formará. Platão é carac- terizado (talvez seguindo Grote.]. típico socialista na corte do tirano siciliano”. tal- vez o mais interessante da obra de 1878. Ele ignora. ele polemiza muitas vezes contra a crítica nietzschiana ao Platão “socrático”. compreensivelmente. na qual se dê à vontade de filósofos violentos e de artistas tiranos a possibilidade de durar milênios [.. Em tudo isto. ascético e moralista. e ao Platão dialético. § 427). porque deseja tornar-se seu herdeiro: precisa da mais servil sujeição de todos os ci- dadãos perante o Estado absoluto [. Por isso.. Hildebrandt podia facilmente reco- nhecer os traços centrais da sua leitura de Platão. os futuros “senho- res da terra” – uma aristocracia nova.961 de Vontade de poder.] para modelar artistica- mente “o homem”. prepara-se secretamente para dominar pelo 126 .. O socialista deseja e favorece o estado ditatorial cesarista de então e de hoje. o esqueleto teórico da interpretação de Hildebrandt. como veremos. e certamente anteci- pando Pöhlmann) como “o antigo. edificada sobre a mais dura legislação de si. em quem o filósofo re- conhecia “uma péssima e pedante capciosidade concei- tual” (VP.

Aos outros vestígios. da sutileza dialética. 411. Nele dominam a intuição. E ainda: “A melodia utópica fundamen- tal de Platão. cujo principal documento é o Timeu: “Platão é o fundador de uma religião cujos ministros são ditadores. se dirige todo o seu empenho teórico. demasiado huma- no. não resta em Hildebrandt nenhum vestígio. A doutrina que não pode ser escrita de que fala a Carta VII não é cer- tamente uma “ciência positiva”. que traga em si o futuro de todo o povo” (p. suprimir todas as virtudes humanas (ivi. segundo Nietzsche. “Quanto mais Estado for possível” (Humano. de fato. que tem certamente tons proféticos. como se dizia. § 473). da árida ciência: não é de Hegel que deve ser aproximado. a criatividade espiritual. a fé numa nova religião. pois. 43). repousa sobre um defeituoso conhecimento do homem”: suprimir a propriedade. a vontade heróica. § 285). I. mas uma religião cós- mica e política. Em primeiro lugar. Desta crítica nietzschiana ao Platão socialista. terror e como um prego inculca na cabeça das massas semicultas a palavra “justiça”. O “grito de guerra” do socialista é. que hoje é cantada ainda pelos socia- listas. e com ela a vaidade e o egoísmo. Platão não foi o filósofo do con- ceito. 414). 127 . II. delineia- se uma imagem decisivamente irracionalista do pen- samento platônico. Platão. escreve Hildebrandt. “quer uma sapiência que encontre lugar numa alma individual heróica. corpos legislativos e reis” (pp. mas de Schelling e de Schopenhauer. significaria. para privá-las completamente do seu intelecto.

insiste razoavel- mente Hildebrandt. o Fedro não oferece uma teoria da imortalidade da alma. que no seu livro de 1930. em que consiste a «felicidade da vida platônica” já na terra (pp. nem estes diálogos devem ser interpretados só com base no Fédon (pp. infundada.). ele não sugere a fuga ascética do mundo. A ta- refa da filosofia é “a criação do homem perfeito” no corpo e na alma: “no momento em que o verdadeiro kaloskagathos obtivesse o poder sobre a terra. a irrelevância da sobrevivência de uma alma privada de corpo. segundo Hildebrandt. mas 128 . deve ser refutada a imagem do Platão ascético. Se o Fédon está destinado sobretudo à batalha contra o “terrível inimigo” re- presentado pelo materialismo. Hil- debrandt lê a sensualidade platônica. Em todo o caso. Além do óbvio eco niet- zschiano. Por sua vez. nem “a oni- potência da alma purificada e voltada para o eterno”. a República e o Fedro. e não tem no centro nem as doutri- nas da imortalidade da alma e das ideias. 112 seg.). 214-20). Hildebrandt parece aqui repropor a célebre tese do ideólogo nazi Alfred Rosenberg. inimigo da corporeidade e do eros. a terra seria perfeita” (pp. “O reino de Platão é deste mundo!” (p. A leitura cristianizante do Górgias e do Fédon é. No Cármides. 213 seg. Der Mythus der XX. o Fédon não pode ser lido (“cris- tãmente”) sem ter em conta o Banquete. mas uma “configuração bela” do próprio mundo. 154). Jahrhunderts. Junto da acusação de conceitualismo dialético abs- trato. ti- nha reconhecido em Platão o inspirador do projeto da criação de um “tipo racial” perfeito tanto no corpo quanto no espírito.

no centro do diálogo estaria o amor de Platão por Díon: prova disso é a afirmação “nós [scil. 4 seg. Tanto mais que. No início está naturalmente a “paixão política” de Platão.) que aludem precisamente ao nome do amado príncipe si- racusano (p. com a de Adolf Hitler. em contraluz. Trata-se. que situa o seu reino neste mundo e não no além: tão pouco ascético quanto conceitual e dialético. uma “divindade renovadora. Todavia. A tarefa que Platão desde o início assumiu para si. lá onde a seiva da vida estagna” (pp. mas tornada explícita na introdução à República (p. uma espécie de confissão em forma mítica. Platão e Díon] seguimos Zeus” (250d). é na reconstrução da “biografia política” de Platão – conduzida através do exame dos diálogos por ordem cronológica – que o discurso de Hildebrandt alcança tons francamente surreais.). portanto. Platão heróico. uma figura em que “se enraízam as forças espi- rituais e psíquicas fundamentais da cultura europeia”. quer pelas exclamações retó- ricas. embora conduzida com atenção quer pelas análises pormenorizadas. com a “potência do grande homem de Estado”. 343). De fato. que considera insepará- vel a beleza dos corpos da beleza do espírito. faz-se coincidir esta biografia. etc.uma “figuração simbólica” da vida interior de Platão. uma menção somente implícita na obra maior. XI). como se vê. de teses certamente opiná- veis mas não de todo infundadas ou privadas de pre- cisas referências textuais. e indício disso é o uso de for- mas oblíquas do nome do próprio Zeus (dios. era a de “fazer renascer o Estado ático” 129 . até certo ponto.

a “profecia” de Sócrates no fim da Apologia (39c-d) mostra que Platão sente em si “a força da vitória” (p. 34). Platão decide “ge- rar a nova mentalidade estatal com novos seguidores”. em fundar um conjunto de seguidores para reformar a vida da comunidade (p. quase como se recordas- se ao leitor as vitórias memoráveis hitlerianas de 1933. o leitor pode escolher pensar na Hitlerjugend ou nas SA. Desta personagem Hildebrandt reconhece a afinidade nietzschiana e também – pela 130 . um caos cujos artífices eram os demagogos atenienses e os sofistas “iluministas” (p. 105): aqui. 85). No Protágoras. A coragem era a qualidade necessária. a sua intenção é recolher “discípulos incondicionalmen- te devotos. porém. o momento de re- viravolta e da decisão na façanha política do jovem Platão. “exultante de vi- tória e certo da sua força dominadora e educadora”. Após a morte de Sócrates.(p. num momento em que a nação está ameaça- da pelo caos. 36). com os quais possa determinar a consti- tuição e realizar a nova espiritualidade. Convém notar desde já que este tema da “vitória” volta no livro de maneira obsessiva. o encontro com o jovem Hipócrates e o combate com Protágoras sobre a virtude delineiam o projeto de Platão que consiste em selecionar os jovens melhores. Só quem desprezava o perigo da morte podia ser seu verdadeiro seguidor” (p. tal como resulta do confronto de Sócrates- Platão com Cálicles. “que em lugar nenhum se anunciava tão terrível como em Atenas”. A discussão sobre a coragem no Laques não deixa espaço para dú- vidas: Platão dirige-se à juventude. 65). O Górgias representa.

131 . os “desejos animalescos” e a recusa da justiça. ele recusa apoderar-se imediatamente do governo ateniense e volta-se para a Sicília (pp. 180) e depois ain- da na República. que tinham fundado uma espécie de ordem de cavaleiros teutônicos na Magna Grécia (p. contudo. mas em séculos e milênios aos olhos da posteridade) (p. acreditava que tinha chegado a sua hora. recusa a tenta- ção à maneira de Cálicles de se aliar com os demagogos atenienses e de exercer um poder sem justiça. Mas Platão. 165). Uma renúncia não definitiva. 325 seg. 165). Para voltar à recusa posta em cena no Górgias.). destinado a dar os seus frutos po- líticos só passados muitos anos (aos seus olhos. e parecia que não faltava outra coisa senão a mais fácil: a decisão do povo de deixar-se guiar por ele. Platão sentia-a verdadeira pelo fato de ter encontrado os Pitagóricos. 157-60. 592) ele formula- ria a última vã oferta aos atenienses de se decidirem a passar-lhe o poder.sua “moral dos dominadores” – uma certa proximi- dade com Platão. estava convencido de trazer em si a força salvadora. discípulo de Sócrates. Este é o momento fatal em que Platão via ruir a nação. seguindo esta via. de- pois dela Platão voltar-se-ia para a fundação de um “Estado espiritual”. sob pena de desaparecimento da história da grande cena (pp. que não pode partilhar. depois do Górgias. onde (no livro IX. calcu- lável em dezenas de anos. porque tentaria uma reconciliação no Menexeno (p.

Sobre o tema dos filó- sofos-reis. É bastante surpreendente que Hildebrandt dedi- que as suas páginas relativamente mais equilibradas à exposição deste diálogo. que tinham unido. medroso e conservador” (p. 266). articulada em guerreiros e governantes (p. Hildebrandt passa 132 . 281). O encontro com Alcibíades no Banquete repre- senta a decisão de Platão de dedicar as suas energias à “reunião de sapiência e força”. Parmênides. para reconhe- cer. porque reconhece nela o detestável “Estado pacifista. se se recordar a tradição tipicamente helênica de personagens como Pitágoras. saber e poder. Por exemplo.168). Ao invés. por um lado. Empédocles. e é prelúdio. ele recusa a tranquilizadora versão de Zeller (e oitocentis- ta) que aí lia a instituição das classes de produtores. quanto à versão mais recente da soberania – a do tirano –. uma “casta da nobreza”. 288). Hildebrandt observa com razão que não há nada de utópico. ao contrário. portanto. de militares e de funcionários-professores. 273-6). uma tensão que a crítica posterior. ou aspira- ram unir. Quanto à tripartição social do livro IV. Heraclito. há uma boa reconstrução da peculiar atmosfera do livro I e uma análise inteligente do livro IV. Hildebrandt partilha o sarcasmo de Gláucon acer- ca da “cidade dos porcos”. um “povo de campo- neses e artesãos sem direitos e sem educação”. A propósito da sociedade primitiva e sã do livro II. pôs em evidência (pp. “reconstrução do povo”. di- retamente para a República (p. por ou- tro. formação de reis-filósofos. de fato. Platão veria aí “o pior inimigo e ao mesmo tempo o ideal do renovador do Estado”.

Após o grande diálogo. No seu conjunto. 380). para se dedicar à construção de um “reino espiritual” 133 . parece-lhe – desta vez. nas Leis. realizado pela Igreja católica. 482). O que mais importa a Hildebrandt é que. A decisão de Platão de recusar a ação política direta. pelas ordens de cava- leiros medievais (uma e os outros reforçados pelo “san- gue jovem” dos povos germânicos) (pp. de acordo com muitos intérpretes do século XIX – ter sido. caindo no vazio mais um apelo ao povo ateniense lançado na República. aquele “triunfo” que o mestre esperava. 5. que não encontra um grande interesse por parte do nosso autor. indicando a Díon a via a seguir na Sicília (p. 405-29). que encarna plenamente o ideal do kaloskagathos platônico (pp. em boa parte. Platão teria escrito o manual destinado aos fu- turos membros da assembleia constituinte da Sicília. Platão se teria de- dicado inteiramente à Academia. limitando-se a mencionar o esforço de persuadir os comerciantes a renunciarem ao poder. além de.por cima do “comunismo” do livro V. deixando aos outros – isto é. o desenho utópico da República. depois dele. 308. com a sua hierar- quia e o celibato eclesiástico. e os governantes a renunciarem à propriedade privada. 444 seg.). pela específica união de guerreiros e religiosos. Platão se volte para a recusa à tomada direta do poder. a escola platónica passa de vitória a vitória. Por fim. Assim. E é precisamente Díon a obter. de Timole- onte até Alexandre. 397). proposta por ele na Carta VII (p. o Político evoca a figura do “ditador”. por conta de Platão. ao predileto Díon – a tarefa de agir (pp. entrevista na relutância dos filósofos-reis em governar.

pertencia à raça dos dominadores “louros” que tinham subme- tido as populações autóctones (pp. embora se distanciasse de alguns “abusos”. central em outra corrente da ideologia nacional-socialista. Mas a questão vai tornar-se. 488). segundo ele. longe de significar uma derrota política. 295. em seguida. e Günther obteve em 1935 a cátedra de antropologia política na Universidade de Berlim.e à formação dos discípulos. num total de 120. Platão. com uma introdução do autor que confirmava a validade. por índole. nos Estados Unidos. 17. seria a premissa para uma “vitória” mais completa e duradoura. Platão guardião da vida. a raça ariana dos 134 . e. ou seja. A fortuna deste livro. é digna de nota: publicado em 1928. Portanto. do já citado livro de Rosenberg ao opúsculo de Hans Friedrich Karl Günther. e do seu autor. ele teve durante a época hitleriana vinte impressões. a eugenia do livro V: para o “meio heróico” que consiste na eliminação dos deficientes apela-se mais uma vez a Nietzsche (pp. e em certa me- dida. com a sua “raça loura dominante. das leis eugenéticas alemãs de 1933. Hildebrandt trata apenas de raspão. largamente justificadas quer pela genética moderna. 46): é difícil não pensar aqui no precedente de Nietzsche. em primeiro lugar. O que é ainda mais surpreendente é que uma terceira edição da obra tenha aparecido em 1965. isto é. que por pro- cessos análogos adotados nos países anglo-saxões.000 cópias. na imediatez da história grega sucessiva. ações e feições era “homem essencialmente nórdico”. entretanto. por séculos e milênios até à definitiva vitória póstuma em 1933.

28 seg. e na supressão dos doentes com defeitos genéticos prescrita sempre no livro III. contrapostos aos homens de teor oriental que enchiam a sofística (p. 415 (esquecendo-se do de- clarado carácter de “nobre mentira”). e daí nascem as preocupações eugenéticas que Platão desenvolve na República. 64-7). Além da eugenia do livro V da República. a guerra do Peloponeso tinha quase extinto esta raça. ao contrário do “sofista Rousseau”. Não há dúvida de que também em Platão a educação desempenha um papel importante. uma vez que elimina o “sedimento cristão medieval” que abre a passagem 135 . Platão tinha claramente consciência das raízes biológicas da kalokagathia: tanto a virtude quanto a beleza somática são “questões de raça”. 36). mas.). Segundo Günther. Günther encontra os seus textos de referência no mito das raças “metálicas” do livro III. 28. de “estilo racial”. § 5).conquistadores” (Genealogia da moral. 29. Também no livro IX das Leis e no Político se prevê o recurso à “pena de morte como purificação da estirpe” (pp. razão pela qual é perfeitamente lícito atribuir-lhe um “racismo da alma” (pp. ele nunca pensou que todos os homens fossem igualmente educáveis e que a educa- ção pudesse cancelar as diferenças biológicas: aqui a sua posição é confirmada pela eugenia e pela higiene racial dos modernos. de Gobineau a Mendel e Galton (pp. Também por este aspecto o espírito helênico se re- vela afim ao espírito germânico. 409e seg. 47-50). De fato. Os filósofos-reis deverão ser “homens de sangue puro” (Günther traduz deste modo o gnesioi em República VII 535c9).

Por um lado. tenha marchado à nossa frente um espírito criador como Platão” (p. No fundo. Um Führer. através da esterilização. a eugenia moderna aparece mais dócil do que a platônica. o sentido da decisão fatal confiada a um Führer (Platão. a luta con- tra os “sofistas” iluministas e “burgueses”.. com Günther. a aspiração à potência de uma “heróica” aristocracia do espírito. Portanto. ou quem quer que fosse) e a uma elite capazes de guiar a nação para o seu renascimento. Hitler. e o acesso à educação superior (o resto. 57). Adriano Romualdi. que visa provocar uma melhoria do homem através da seleção.. porque não chega a elimi- nar os indivíduos inferiores. é oportuno passar a palavra a um neonazi italiano. Mas para definir a suposta afinidade entre este Platão e o nacional-socialis- mo. pelo menos segundo a edição de 1965. não pertence à “providente legislação” de 1933. encontrava-se a afinidade entre as virtudes guerreiras dos gregos e dos alemães. por outro. limitando-se a impedir a sua reprodução. a eugenia voltada para a pureza racial. Já em 1933 as linhas de fundo da usurpação nacio- nal-socialista do pensamento político de Platão pare- ciam nitidamente marcadas. mas às suas “insensatas distorções” não bem especificadas). demasiado severo se.ao igualitarismo do homem-massa moralista e se mos- tra cientificamente insustentável (p.] que na nossa pesquisa da Kultur. “é um bem [. este. como observa de forma be- nevolente Günther. 80). ex- clama Günther. com Hildebrandt. vol- tada à salvação do povo e do estado. que ainda em 1965 podia estabele- cer estes elementos de continuidade: 136 .

a concepção do Estado como ordem viril que se identifica com a vontade política. a mobilização permanente de todas as virtudes cívicas e guerreiras. de primeira mão. a difusão de ideias-força por meio do mito.]. as referências a alguns lugares platônicos são irrepreensíveis. as “fortalezas da ordem” surgidas um pouco em toda a Ale- manha. O seu conhecimen- to dos textos platônicos é. Dificilmente Pla- tão se teria escandalizado com a pira dos livros “corruptores” ou com as leis para a proteção do sangue. o fervoroso sentimento comunitário. e. a concepção da vida pública como espetáculo nobre e belo onde todos participam [. sem dúvida.. e ao qual se acrescenta a utilização extensiva de uma linguagem retórica de matriz nietzschiana. Podemos perguntar-nos: há algum método neste delírio? Certamente os ideólogos nacional-socialistas podiam apoiar-se numa prestigiosa tradição filológica. antes de tudo. Em segun- 137 . a educação espartana da juven- tude. 54).. criados nas Ordensburgen. do uso linguístico da tradução. salvo algumas exceções. Claras influências platônicas en- contram-se também na doutrina interna das SS empenhadas em submeter a uma pacien- te seleção física e espiritual os futuros chefes. O efeito defor- mador derivou. A Ordnungsstaatgedanke. a identificação do Estado com a minoria heróica que o rege. parece-nos uma revi- vescência das ideias da República (p. cujas premissas (dissemos) remontam a Hegel. de Wilamowitz a Jaeger e Stenzel.

por oposição. duas atitudes igualmente desviantes: a condenação de Platão. por parte dos adversários do na- zismo que. igual- mente de forma arbitrária. produzindo. o silêncio sobre a instância de fraterni- dade e de solidariedade entre todos os cidadãos. defendiam aquela imagem.do lugar. todavia. encontram-se os drásticos cortes operados no texto platônico. porém. também. e. ela foi aceita e partilhada tam- bém fora dos confins da Alemanha e da duração do regime. O dano provocado pela usurpação nazi de Platão vai. como a separação da política da ética e da dialética. além da construção daquela sua imagem deformada que dominou a cultura alemã dos anos Trinta. a desvalorizada legitimação do poder mediante o saber e. Um Platão amputado e reescrito desta forma pode efeti- vamente tornar-se disponível à leitura ideológica nazi. Infelizmente. a isto se acrescenta – para garantir a sua derivação do modelo platônico – uma imagem idealizada e propagandista da natureza e das intenções do regime hitleriano. na história das interpretações novecentistas. embora nenhuma destas operações tornem minima- mente plausível a leitura de todos os diálogos em cha- ve de autobiografia política. para não falar – a propósito da seleção da classe dirigente – da introdução da afinidade imaginária de raça e de “sangue” em vez dos dons intelectuais e morais. todos os elementos que tinham contribuído para a formação dessa imagem. que pretendia cancelar. a sua defesa. Naturalmente. no terreno especifica- mente político. 138 .

Firenze: La Nuova Italia. in “Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa”. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft 1956. Berlim: De Gruyter. pp. Weimannsche Buchhandlung. NOTA BIBLIOGRÁFICA Sobre o papel do classicismo na cultura alemã do século XX. cf. III. 393-449.. F. As citações de Wilamowitz foram retiradas de U. cf. Bari: De Donato. 1977 (contém a tradução da Postilla ao Platon). Platon im Staatsdenken der Weimarer Republik. Acerca das posições políticas de Wilamowitz. vol. sobre Jaeger. As citações de J. M. Funke (Hrsg. cf. mais especificamente acerca de Platão. Rilegendo il “Platon” di Ulrich von Wilamowitz. CANFORA. tradução italiana. in “Il Pensiero”. As citações de W. 19202 (sobre a República. Cultura classica e crisi tedesca. Platon. vol. Würzburg: Königshausen-Neumann 1987. Platons Lehre vom Staat in der Moderne. 147-67. II. XVII (1972). 133-47. ID. tradução italiana. Especificamente sobre Platão. Torino: Einaudi 1980. 179-213). vol. Gli scritti politici di Wilamowitz. 1914-1931. 1936. pp. pp. I. série III. Berlin. ISNARDI PARENTE.). para artigos e conferências da Humanistische Reden und Vorträge. 1 (1973). JAEGER foram retiradas de Paideia. 1960. Bari: Laterza 1966. cf. 3 vols. in H. (19532)-59. Ideologie del classicismo. para artigos e conferências da Kleine Schriften zur griechischen Philosophie. cf. 91-122. L. Note sul “Platonbild” del terzo umanesimo. pp. STENZEL foram retiradas de Platone educatore. pp. CANFORA. Sobre Platão e o Terceiro humanismo. FRANCO REPELLINI. em geral L. Utopie und Tradition. VON WILAMOWITZ. em particular vejam-se os ensaios recolhidos no mesmo 139 .

em particular. NIETZSCHE. Milano. Ferraris e P. Biopolitica delle anime. 34 (2006). and Plato.. Kobau. Le origini culturali del Terzo Reich. pp. e de D. in I. Sobre Nietzsche e Platão. 1968. Isnardi Parente a Zeller-Mondolfo. Mayenne: Aubier Montaigne. 140 . M. 9-32. Atlanta: Scholars Press 1992 (pp. Para o background cultural do nacional-socialismo e. XVII (2003). Korotin (Hrsg. e às já mencionadas notas de M. WHITE. tradução italiana.). H. FISCHER. pp. 2 vols. 1959. 1994. a cura di M. Wien: Picus. H. cf. in “Filosofia politica”. GOLDSCHMIDT. para a influência do George-Kreis. Torino: Einaudi. além do já citado ensaio de Canfora de 1987. tradução italiana. EAD. ISNARDI PARENTE. in EAD. pp. Calder III (ed. troppo umano. 397-417. Giametta. Die Besten Geister der Nation Philosophie und Nazionalsozialismus. L. 141-85. OROZCO. cf. Nazism. S. FORTI. sobretudo T. Milano: Adelphi. Milano: Bompiani. Os textos nietzschianos são retirados de F. Umano. Cf. 1965. Die Platon-Rezeption in Deutschland um. pp... in “Political Theory”. LUKÁCS. Napoli: Guida. V. F. Werner Jaeger’s “Third Humanism” and the Crise of Conservative Cultural Politics in Weimar Germany. Sobre a usurpação nazi de Platão. a cura di M. tradução italiana. Werner Jaeger Reconsidered. G. Montinari e S. Mondadori. Werner Jaeger’s Portrayal of Plato. Assalto al potere mondiale. pp. M. 135-75).). 1992. também os ensaios de C. Platonisme et pensée contemporaine (La querelle politique. Platone politico e la VII epistola. Torino: Einaudi. 69-81 e 267-88). The Biopolitics of Souls: Racism. Filosofia e politica nelle lettere di Platone. 1970. 168-204.fascículo de “Il Pensiero”. G. tradução italiana. 1970. in W. tradução italiana. cf. KAHN. 2002. MOSSE. 1933. La distruzione della ragione. e de La volontà di potenza.

19653). Der Staat. Frankfurt am Main: Klostermann. Platone.. 1965. G. München: Nazionalsozialistische Bibliothek. Roma: Volpe. Der Programm des NSDAP und seine Weltanschauliche Grundgedanken (1927). Para o programa de partido nacional-socialista. F. tradução italiana. K. Padova: Edizioni AR. 1977. o vasto repertório bibliográfico de U. Para a receção da República na cultura alemã. 1947 (mas a tradução foi dada a Giorgio Colli com um contrato de 1943). 1933 (1939). cf. cit. 1935. 141 . 1994. GÜNTHER. Weiß’sche Buchdruckerei. ROMUALDI. H. ID. Heft 1. Platone custode della vita (1928. Platone. La lotta dello spirito per la potenza (1933). Stuttgart: Kröner. ZIMBRICH. Introduzione a Platon. FEDER.Os textos citados são: K. HILDEBRANDT. Bibliographie zu Platons Staat. cf. Torino: Einaudi. Ideologie del classicismo. tradução italiana. A. Mein Kampf é citado em Canfora.

(Página deixada propositadamente em branco) .

de 1935 (ambos au- tores de inspiração católica em sentido lato). Apoiando-se. INGLATERRA PLATÃO POLÍTICO EM FRANÇA N a serena França dos anos trinta. 5. Diès acrescenta que a filosofia foi origi- . quanto no magistral Platão de Léon Robin. que aparece tanto na relevante introdução de Auguste Diès à edição Budé da República (1932). ITÁLIA. Segundo a peremptória e feliz fórmula de Diès. naturalmente o cli- ma cultural é muito diferente do da febril Alema- nha pós-bélica – entre Weimar e o nacional-socialismo – e da sua ansiosa busca de modelos antigos inteiramente utilizáveis na reconstrução social e moral do Reich. PLATÃO NO OCIDENTE ENTRE AS DUAS GUERRAS: FRANÇA. “Platon n’est venu à la philosophie que par la politique et pour la politique”. como é natural. não muito diferente é a acentuação do cará- ter eminentemente político e “engajado” do pensamento de Platão. na Carta VII. Todavia.

a forma discipline a ma- 144 . em política como em cosmologia.). é que o idêntico discipline o diverso. a forma socrático-platônica da tradicional hetairia polí- tica aristocrática (porém. XLVII seg. 200). ação à qual se renuncia provisoriamente só para a poder realizar de modo mais seguro (p. porque Platão leva ao limite extremo experimentos sociais presentes em Creta. O problema para Platão. Mas a sua avaliação dos conteúdos do pensamento político de Platão é mais articulada e também mais crítica. Diès afirma justamente que “ninguém é tão radical como um ide- alista”: idealismo e radicalidade não separados de uma certa dose de realismo. para Platão. IX). imposta pela hos- tilidade do ambiente histórico. A Academia é. em Esparta. Platão estava pronto a enfrentar qualquer risco para realizar a sua ideia dominante de uma Cité sainte (p. pois. “ser filósofo ou ser homem de Estado é a mesma coisa” (p. e a “espera ardente do momento em que se conquistará ou converterá o po- der”. Robin partilha com Diès a politização extrema de Platão: para ele. entre os Citas mencionados por Heródoto e. onde à primazia da política se integra a da verdade. no élitisme naturel das cidades gregas (pp. em que as ideias constituem o nível normativo da práxis) (p. a atitude de Platão – escreve Diès antecipando. VIII).nalmente. a linguagem de Hildebrandt – oscila entre uma renúncia duradoura à política. de algu- ma forma. no que diz respeito à eugenia. Perante a “enormidade” das propostas platônicas sobre o comunismo de bens e mulheres. V). Em seguida. Com efeito. só action entravée. quando lhe pareceu possível.

um produto da técnica política. portanto. a constrição é pos- ta finalmente nas mãos dos Filósofos. servidão” (pp. 191 seg. o resto dos cida- dãos como simples escravos de impulsos privados de regras. Os não-filósofos não podem regular de modo autônomo a própria vida segundo a justiça: deve-se. a inteligência discipline o caos. por vezes. ao serviço da in- teligência”. “por nature- za”. na “observância de uma obediência que pode ser. portanto. os filósofos devem ser concebi- dos como “a inteligência do ser social”. o objetivo fundamen- tal de Platão é. deve- se “organizar um amestramento da Força” mediante um assíduo esforço educativo. e de resto. “para evitar uma revolução militar que voltaria a Força contra a Sabedoria”. conseguir. Neste quadro. Robin identifica como tema central no pensamento político de Platão o tema da constrição. os guerreiros como a sua “energia disciplinada”. A República adota então uma dupla estratégia. pois. por mãos de demiurgos humanos em vez de divinos. pelo contrário. Se a história produz uma determinação do social por obra do individual. uma obra a “ser fabricada”. Deste ponto de vista. uma determinação do individual por obra do social. A unidade da cidade deve resultar de uma soli- dariedade que é o êxito de uma integração ordenada e hierárquica de funções distinguidas segundo dotes e inclinações dos diversos grupos que a compõem.). por vezes. pretende “organizar a constrição: ao criar a classe intermédia dos Guerreiros. Por um lado. 145 . A moralidade da cidade consiste. colaboração.téria informe. no saber dos filósofos no poder. por outro lado. A cidade justa é. “subjugá-los e mantê-los sob cus- tódia”.

O “comunismo” platônico deriva da intenção de suprimir as estruturas que se opõem a esta unidade. que eu saiba. As mesmas Leis. prevista no livro VII da República. Como instaurar a cidade ideal? Robin foi o pri- meiro.. e esses sucessos faziam prognosticar a próxima realização dos planos platônicos. referindo-se à expulsão de todos os adultos da cidade. 200-4). como a propriedade privada e a família. como medida inicial para a sua reforma. 196). a ilusão de Platão. o percurso platônico delineado por Robin soa de perto – de maneira tão surpreenden- te como significativa – ao que Hildebrandt tinha re- construído na sua biografia imaginária. E aqui resi- de. escritas após o fracasso de Díon. 14). IX 875c segs. em 146 .). Ela consistia em acreditar que. pode-se observar que esta persistência do desejo constituiria o problema antropológico central de todos os coletivismos do século XX. esta esperança é “atualizada indefinidamente”. Todavia. nota perspicazmente Robin. em forma de poder justo desvinculado das leis existentes (pp. não re- nunciariam à esperança do advento de um novo Díon: Robin insiste justamente sobre passagens muitas vezes descuradas do diálogo. onde Platão desenha a figura de um chefe autocrático capaz de reformar eficazmen- te a cidade (IV 709d segs. se suprimia também “o desejo em si mesmo” (p. a falar de um “golpe de Estado do qual nascerá a cidade futura”. Além da República. “suprimindo o objeto do desejo” (a característica privada dos afetos e interesses). Com efeito. O Político te- ria sido escrito depois dos primeiros sucessos de Díon na Sicília: nele Platão tinha visto o futuro filósofo-rei (p.

da sua parte.vez da constrição. como é habitual. o afastamento relativo à “democracia in- tegral e de tudo o que se parece com a livre expressão de uma iniciativa individual. o projeto de reforma social de Auguste Comte. toda- via. mediante os preâmbulos às próprias leis. 229). por esta distância. Robin afasta-se nitidamen- te do projeto político platônico no seu conjunto e. Esse pro- jeto mostra-se “vão” e falimentar: “os acontecimentos parecem ter tirado toda a possibilidade de sobrevivên- cia ao aspecto político. àquela nova figura de filósofo que é representada pelos membros do Conselho Noturno. o “sonho platônico” não ficou sem ecos. porém. dos conte- 147 . 206-14). Cada conceção política análoga não pode não fazer apelo ao sonho de Pla- tão”. mesmo se indiretos. Se as Leis desenham uma sociedade sustentada por um regime de “democracia temperada”. 230). a soberania última pertence. a exigência de unidade social e. um sinal de re- cusa. No final da sua análise. como Gomperz. O apelo ao positivismo comtiano é certamente. e pretendem fornecer um “catecismo do bom cidadão” que vise a uniformidade das mentes (pp. conclui Robin (p. partilha a posição da maior parte dos leitores europeus alheios ao âmbito alemão. Robin menciona a este propósito. típico do pensamento cristão-liberal. as Leis apontam sobretudo para a persuasão. mas acrescenta. a organização teocrática da Idade Média cristã (onde um poder espiritual rege a força militar e a sociedade dos laicos). E. sobretudo. Aqui aparecia novamente a figura dos Sábios como mestres de educação nacional. precisamente aquele sob o qual Platão teria escolhido sobreviver” (p.

o mesmo Mussolini recorria de boa vontade aos precedentes romanos da vocação imperial da Itália. e no de Platão. como se viu. para um país latino.údos constritivos próprios do pensamento político de Platão. ao contrário da Alemanha pós-bélica e nazi. à Alemanha helenófila): tarefa. apesar da sua simpatia pelos aspectos mais propriamente filo- sóficos deste pensamento. mas não se fundavam em nenhuma referência que fosse além da cultura do século XIX. tal como de todo estadismo organicista. a muitos lugares comuns da “ideologia alemã”. le- gitimação e modelos eram facilmente oferecidos. de reivin- dicar uma suposta afinidade com os gregos. CATÓLICOS E LIBERAIS NA ITÁLIA FASCISTA A Itália da época fascista não tinha necessidade. Para dar um exemplo. além da liberal-democracia. Continuidade. por conseguinte. Os traços com os quais Mussolini desenhava a sua ideologia na alínea Fascismo da Enciclopédia italiana (uma “criação espi- ritual” oposta ao materialismo positivista e socialista. porventura. segundo a qual o estado constituía a “realidade verdadeira do indivíduo”) eram semelhantes. pela política e pela cultura da romani- dade imperial. o mesmo estudioso 148 . em que se viram ativamente empenhados os latinistas e romanistas italianos. fontes de legitimação e modelos inspiradores. nem de procurar no seu pensamento. reivindi- car a originalidade e a supremacia relativamente aos gregos (e. esta. da qual se devia. em outras obras.

Na República. os estu- diosos italianos de Platão podiam ocupar-se dele num lugar tranquilo de neutralidade ideológica. segundo Calogero. que no ano anterior. baseada. Calogero parece seguir Hegel. desilu- dido pela experiência siciliana. O velho Platão das Leis. na Carta VII. a reconstrução da biografia política de Platão.filonazi Julius Evola. “sem nenhum respeito pela liberdade individual dos que não sabem”. Sobre o tema da subordinação do indivíduo ao estado. atribuindo também a Platão uma recusa da proprie- dade e da família. nos seus escritos racistas dos anos quarenta. as “du- rezas dogmáticas do Estado platônico” que consistem. como “sonho central” o “domínio ético-po- lítico das forças da razão sobre as forças da vontade”. como é habitual. num governo legitimado só pelo sa- ber. Platão mostrava-se ainda “confiante em poder converter a ideia em realidade”. se perguntara ironicamente: “temos que ler nas entrelinhas o desejo que o dritte Hu- manismus se identifique com o dritte Reich?”. tão apreciada por Günther. Deste “sonho” dependem. Protegidos pelo privilégio da romanidade. Calogero atribui à política um papel bastante mar- ginal no seu tratamento da obra platônica. contudo. seria mais realista (mas 149 . ao fazer a recensão de Paideia. pelo contrário. Reconhece. É prova dis- so o fato que a alínea Platão da mesma Enciclopédia ita- liana (1935) fora atribuído a um filósofo liberal e anti- fascista como Guido Calogero. Mais aliada às tendências novecentistas é. evitava quaisquer apelos à eugenia platôni- ca. por parte do indivíduo em geral e não só por parte da classe dos governantes. essencialmente.

as Leis representariam ainda assim um eventual plano
constitucional para as cidades sicilianas). Por outra ra-
zão, e de maneira mais original, Calogero entrevê nas
Leis um passo adiante na direção de um governo rígi-
do desenhado pela República e pelo Político. Em vez de
deixar, como acontecia nestes diálogos, amplo espaço
à iniciativa autônoma dos filósofos no governo, as Leis
esgotam uma vez por todas também a atividade legis-
lativa. Assim, em vez de preparar o trono aos futuros
filósofos, o velho Platão, fazendo-se legislador, ocupa
ele próprio o trono.
A obra-prima dos estudos platônicos na Itália dos
anos trinta é seguramente representada pelos dois volu-
mes de Luigi Stefanini, Platão (1932-35): um estudio-
so paduano de orientação católica, alheio ao fascismo e
sempre atento a distanciar-se cautelosamente da con-
temporânea literatura nazi sobre Platão (I, p. 364 nota).
Stefanini partilha, porém, com o espírito do tem-
po, a acentuada politização do pensamento do filóso-
fo. O seu programa consiste numa “regeneração moral
do indivíduo”, que só pode acontecer no quadro de
uma polis por sua vez regenerada, não fora ou contra
ela. Aliás, Stefanini, tal como Hildebrandt, tende a ler
os diálogos tendo presente a biografia política de Platão.
Na República deve ser vista tanto a “amargura do pri-
meiro insucesso” seguida à primeira viagem à Sicília,
quanto a esperança depositada no jovem Dionísio e
em Díon. Trata-se, portanto, não “do exercício retóri-
co de um pedante ocioso”, mas de um “programa de
ação do homem que, na longa vigília do estudo e da
meditação, se tinha preparado para uma intervenção

150

positiva no campo de batalha” (I, p. 338: ainda como
Hildebrandt, Stefanini vê no Fedro 252e uma referên-
cia autobiográfica à ligação com Díon, p. 348 nota).
Considerando a sua interpretação, a leitura da Repú-
blica proposta por Stefanini ganha um sabor kantiano.
Certamente o que se quer é melhorar a realidade exis-
tente, não transcendê-la, mas o ideal não é suscetí-
vel de ser perfeitamente reproduzido na história: ele
pode, porém, orientar um “progresso infinito para o
bem”. Todavia, aqui Stefanini identifica, com razão,
uma tensão no pensamento platônico ou, pelo menos,
uma dificuldade na sua interpretação kantiana. Não
se chega ao nível do valor na temporalidade histórica,
ou melhor, “ascende-se de uma só vez com um voo
prodigioso” (I, pp. 349-50); para Platão, o tempo da
história não é o do progresso, mas o da decadência. É
difícil pensar num percurso de progressiva aproxima-
ção do ideal, dado o caráter instantâneo de seu eventu-
al alcance, que representa uma ruptura, uma solução
de continuidade no percurso histórico, como parecem
indicar os livros VIII e IX da República.
Seja como for, Stefanini – tal como Pöhlmann –
considera infundadas quer a crítica a Platão, de matriz
hegeliana, segundo a qual Platão sacrificou o indiví-
duo ao estado, quer a crítica zelleriana, segundo a qual
Platão prospetou uma coerção não liberal do estado
sobre os indivíduos. A unidade política coexiste, ou
melhor, coincide, com a realização das qualidades e
das atitudes dos indivíduos na sua diversidade. A razão
estabelece para todos o direito à igualdade de respon-
sabilidade para com a comunidade e de obediência à

151

ordem coletiva; a autoridade do estado não é senão
o reflexo da autoridade da razão em cada cidadão,
defende Stefanini ao referir-se à célebre passagem da
República IX 590-91. Por esta via, “a aristocracia coin-
cide com a democracia” (I, p. 355). Portanto, a aris-
tocracia platônica não apresenta de maneira nenhuma
um caráter de casta, mas funda-se na razão; o seu po-
der encontra o limite e a norma na responsabilidade
para a justiça comum, numa sociedade que deve ser,
como escreve Platão, de “livres e amigos”. A educação
é chamada a formar um consenso espontâneo à ordem
social, tornando marginal o eventual papel da constri-
ção (I, p. 358).
Nesta ótica, a Stefanini o comunismo platônico
parece estar em nítida oposição com o “comunismo
materialista dos nossos dias”; se neste último domi-
na “a avareza de todos”, no primeiro, pelo contrário,
é decisiva a magnânima renúncia aos interesses pri-
vados do indivíduo em nome dos da comunidade
(o otimismo platônico consiste aqui, segundo Stefanini,
em pensar numa generosidade generalizável, que na
moral cristã pertence só a pessoas excecionais) (I, p.
359). A vários séculos de Platão, conclui Stefanini, e
“depois de tantos experimentos liberais, continua a ser
verdade que não se deve tirar autoridade ao Estado e
subordinar os seus interesses aos dos indivíduos e aos
dos grupos que o compõem” (I, p. 360).
Mas há também em Platão contradições, ou “dis-
sonâncias”, que Stefanini detecta lucidamente.
A primeira atravessa a figura do filósofo, dividida
entre a imagem autárquica do Fédon (e do Teeteto) e

152

a imagem erótica do Banquete; na mesma República,
ou pelo menos, no livro VII, o filósofo parece não ter
necessidade do estado, é renitente em voltar para a ca-
verna. Não se reconhece nele “aquele fervor de ação e
proselitismo que levara Platão a fundar uma escola e a
tentar um governo perigoso” (I, p. 357).
A segunda “dissonância” consiste na dificulda-
de em obter o consenso da massa dos cidadãos que
não podem ignorar os princípios supremos sobre os
quais se funda a nova sociedade, e que não se sentem
vinculados à comunidade política nem pela tradição,
negada, nem por uma inexistente estrutura religio-
sa, nem pela nacionalidade pátria. Nesta situação, o
poder arrisca-se a parecer “arbitrário e despótico”, e
a tripartição funcional arrisca-se a transformar-se em
“esquálida uniformidade de tarefas e de trabalho”. O
católico Stefanini, ao contrário dos nacional-socialis-
tas, não pode, naturalmente, aceitar a eugenia platô-
nica, que lhe parece constituir uma “falsa aplicação da
razão de Estado”, nem sequer o feminismo, que, ao
negar as diferenças de gênero, pode parecer “ofensivo
para a feminilidade” nos valores e nas tarefas que lhes
são próprios (I, pp. 361-3).
Por fim, Stefanini considera perigosa a recusa da lei,
que Platão formula já na República e mais especifica-
mente no Político, em nome de uma ciência ideal que
corre o risco de mascarar o arbítrio dos governantes (I,
pp. 360-1). A nostalgia do absolutismo, que caracteriza
o Político e é confirmada pelo menos por uma passagem
das Leis (IX 875), espelharia as esperanças resíduas que
Platão depunha num sucesso final de Díon em Siracusa

153

(II, p. 446). Mas nesta nostalgia Stefanini lê algo mais,
algo mais universal e também atual, isto é, “a ânsia e o
sofrimento da humanidade” que

procura um Homem que a salve [um “Dux
iluminado”], abandona-se a ele e abençoa-o,
depois perde-o ou é traída por ele e, então,
reforça as instituições representativas e esten-
de as participações populares no poder para
compensar com o número o vigor do único
que falta, consolida as próprias experiências
segundo as leis e depois busca ainda a Vonta-
de única capaz de dar uma alma às leis e uma
forma às massas (II, p. 441).

Mesmo o estilo, tenso e atormentado, desta pági-
na, mostra como Stefanini vive de perto o drama do
Político entre governo autocrático e governo das leis e
das maiorias, e reconhece o pathos da sua época.
Como é habitual, as Leis são lidas como o sinal do
fracasso de Díon, da dificuldade ou impossibilidade
de encontrar um “déspota iluminado e perseverante”,
portanto, como documento de um maior realismo po-
lítico de Platão. Neste diálogo, não se recusa o hori-
zonte da idealidade, mas aceitam-se recusas e compro-
missos face à dureza dos fatos. As Leis são, pois, uma
República imersa na história: a propriedade privada
não é abolida, mas regulamentada, o arbítrio do sábio
é limitado pela autoridade da lei. Uma “nova política
medíocre”, em suma, revivida pelos “homens políticos
de todas as épocas”, que se contentam com “modes-
tas conquistas graduais”, conscientes, porém – e aqui

154

pode-se ouvir um eco do progressismo de Pöhlmann
de inspiração kantiana –, de que “aquilo que se quer
deve ir mais além do que aquilo que se faz, para que
o esforço seja sustentado e eficaz” (II, pp. 431 segs.).
Isto vale também para o destino do comunismo pla-
tônico: um “comunismo realizado, na prática, com o
regime da propriedade controlada e limitada: a dialé-
tica do pensamento platônico tem o mesmo resulta-
do de certos experimentos comunistas, em geral, dos
quais somos testemunhas nos nossos dias” (II, p. 448:
talvez Stefanini pensasse na Nova política econômica
de Lenine; de qualquer forma, a sua tentativa é uma
das primeiras aproximações significativas de Platão ao
caso da União Soviética, destinada, como se verá, a ter
uma grande repercussão).
Mas há “dissonâncias” também nas Leis. Quan-
to mais elas se aproximam da realidade histórica, tanto
mais refletem a separação entre uma aristocracia pri-
vilegiada e a “massa dos submetidos, escravos, merca-
dores, mercenários [isto é, trabalhadores assalariados],
artesãos”, uma “massa que desaparece, totalmente ig-
norada, vivendo à margem da vida grega, resultado da
última política platônica” (II, pp. 449 seg.). A opo-
sição entre República e Leis seria emblematicamente
representada, no Timeu e no Crítias, por aquela opo-
sição entre a antiga Atenas e a Atlântida: a primeira “é
a cidade da ditadura divina e do comunismo, face ao
reino da legalidade e da propriedade privada”, o “pri-
meiro estado” face ao medíocre “segundo modelo” de
constituição (II, pp. 434 seg.).
As últimas palavras do livro, segundo as quais a
solução desta tensão platônica “teria aparecido sob a

155

209). A Academia foi concebida como “viveiro de uma nova classe dirigente”. sentiu um “objetivo tenaz e constante de participar ativamente na vida pública e no governo do Estado” (p. representam. depois da crise das concepções polí- ticas “prevalentes até à Revolução fascista” (p. 8. 2 nota). que. entre os quais insere. Ideia e Estado estavam inseparavelmente ligados e. Deste ponto de vista. 11). 459). Daqui parte o interesse atual de Platão por uma renovação da ciência política à luz dos valores do espírito. Gentile está certo de que a atividade intelectual de Platão começou por interessar-se primeiro pelos ideais políticos. p. De um teor completamente diferente é o livro de 1940 de Marino Gentile sobre a Política de Platão: uma tentativa verdadeiramente modesta de conciliar Platão com um fascismo temperado pelo catolicismo (exata- mente nesta óptica. Gentile considera a República o texto em que Platão teria refutado. o estado não nasce de 156 . a prioridade da sociedade e estado em detrimento dos indivíduos. Para ele. com surpresa. Tal como Diès (e como a maior parte dos estudiosos deste período). Hans Kelsen. estabelecendo a fundamental socialidade do indivíduo e. 9). por conseguinte. p. ainda hoje modelo da “escola universitária como oficina de prepa- ração política” (p. por conseguinte. cf. p. Locke e Rousseau. na verdade.luz de Roma” (II. o contratualismo moderno de Hobbes. testemunhas da politicidade imanente da filosofia. a única homenagem explícita de Stefanini à ideologia domi- nante na Itália fascista. talvez. parecem um pouco incongruentes. ante litteram. também Gentile se distancia dos intérpretes nazis.

43 segs. que antecipa o estado cor- porativo. mas da “integração natural. fas- cista). ao que parece – com o pedido do “certificado de ha- bilitações” para quem desempenha funções públicas (pp. ou seja. por exigências éticas.). o “primeiro mani- festo da intelectualidade na política”. por condição e prepa- ração. 88).). Parece significativa a atenuação que Gentile faz do pedido platônico de um governo de filósofos (agora considerados “soldados”). os fins gerais da atividade social” (pp.um contrato. que encontraria a sua realização na modernidade – realmente modesta. 54 seg. por outro. assim. o aspecto melhor do comunismo platônico encontraria o seu cumprimento na figura do funcionário estatal. a um “Partido” (scil. O filósofo não é o cultor específico de uma disciplina (aqui Gentile parece re- almente esquecer o livro VII da República). 52). que só o cristianismo teria resgatado. orgânica e necessária do indivíduo”. até 157 . além das econômicas e militares. na distinção entre “produtores e soldados” (com este termo Gentile traduz sempre em linguagem fascista o termo platônico phylakes). Definição clássica que Gentile considera essencial nas “asperezas dos tempos em que vivemos” (pp. em ter subordinado a economia à política. e. a sua grandeza está. Se o limite de Platão consistiu nos seus preconceitos contra o valor do trabalho e da pessoa. mas um intelectual capaz de “dirigir-se exclusivamente à consi- deração dos problemas capitais para a vida moral e po- lítica”. sobretudo. Da mesma forma. ao invés. “capaz de compreender. por um lado. 66 segs.. A República constitui. De resto. ao qual se pede que se afaste dos negócios privados (p.

de modo bas- tante original. Político (que prepara a revalorização da legislação positiva) e Leis (a este diálogo Gentile dedica. A política demográfica. uma continuidade positiva – sinal da destinação ética do estado – entre República. E mesmo de- pois. de carnalidade brutalmente natural com religiosidade miticamente artificiosa” (pp. apesar de não se estenderem até ao “amor livre”. vinculadas às contingências históricas. acabam por dar lugar. A abolição da propriedade privada e da família é incompatível com a condição essencial do homem. 95 seg. as expressões mais utópicas e paradoxais do pensamento platônico e. No plano 158 . contra Zeller. que insiste na oportuna recuperação da família privada). segundo Gentile. a ideia do homem e do estado. As críticas que Gentile dirige às ideias expostas no livro V da República parecem estar mais inspiradas na moral católica. No conjunto. no final. a uma “mistura. escreve Gentile em tom francamente mussoliniano. um amplo tratamento. ao dissolverem a unidade viva da família. Além destes marginais desvios. críticas que constituem. em vez de “expandir-se alegremente com a perspectiva de au- mentar a população de modo indefinido”. Platão teria contemplado apenas “uma só ideia”.). apesar dos desenvolvimentos dialéticos. e aqui Platão fracassa precisa- mente como filósofo. as normas platônicas sobre a reprodução. Gentile entrevê. se- gundo Gentile. ao mesmo tempo. repugnante. 71-84). pretende limitar artificialmente o crescimento.à República. “prefere a simplicidade de um soldado às ziguezagueantes suti- lezas de um sofista” (pp.

evi- dentemente. por outro. por um lado. passado o sonho de um jovem tirano. mas interessante. era preciso aguardar pela Itália imperial e concordatária. um estado unitário e forte que destina cuidados particulares à se- leção da classe dirigente. correspondem as Artes maiores. 109 segs.). em ambiente romano. é a leitura que Gentile oferece do livro VIII da República. a “caridade cristã” nas relações sociais (pp. na supre- macia do estado que submete a dimensão econômica da sociedade às próprias finalidades éticas. 155). no absolu- tismo subversivo contemporâneo. As suas fraquezas são. Marginal. Assim. Para uma e para a outra. a ausência de capacidades expansivas. que vai encontrando os seus equivalentes na senhoria renascentista. na Idade Média. corresponde à timocracia. Em conclusão: a vitalidade do pensamento polí- tico platônico consiste. por outro. no século XIX o estado burguês-plutocrático. por um lado. “preparar a educação das gerações jovens numa ordem melhor e nova”. segundo Gentile. o ob- jetivo de Platão é. primeiro o patriciado. 207 segs.).histórico. 159 . depois o déspota iluminado e a burocracia imperial. Mais incerta é a questão da tirania. à oligar- quia. encontrando ele- mentos de uma filosofia da história (como mais tar- de faria Vögelin). à de- mocracia corresponde o anarquismo moderno. de “impe- rialidade”. mas talvez também na «ordem nova» como resposta ao anarquismo demo- crático (pp. propor uma concreta plataforma legislativa aos experimentos “acadêmicos” que decorrem em Siracusa e em Axos (p.

em relação à her- menêutica alemã. motivo de reprovação do filósofo. Tanto mais que. entre os séculos XIX e XX. tinham visto em Platão um projeto educa- tivo adequado à juventude e à classe dirigente britânica e um defensor dos direitos e da liberdade do indivíduo. se apresentava “a República e os seus ideais como a única solução real disponível para os problemas da humani- dade moderna”: palavras que Jaeger e os seus amigos teriam subscrito de boa vontade. Nos anos trinta. Dickinson em After Two Thousand Years. imagina um diálo- go entre Platão e um jovem inglês onde. se acrescentava agora um elemento novo. com o sinal avaliativo inverso e. em Cambridge. 160 . compreensivelmente coberto pelos admiradores alemães do filósofo: o Platão “bolchevique”. seguem claramente os passos do Terceiro humanismo alemão. dando lugar a repe- tidas e decisivas intervenções tendentes ao “desmasca- ramento” de Platão contra a sua tradicional imagem de peso e respeito. de 1930. Richard Livingstone. era a receção da imagem “reacionária” de Platão – elaborada na Alema- nha e aceita na Inglaterra –. Já Benjamin Jowett e Ernest Barker. que se tornou. muitas vezes. aprovando-se a crítica do filósofo aos abusos da democracia de massa. como veremos. em Oxford. e decerto mais incisiva. EM TERRA LIBERAL-DEMOCRATA Um traço saliente da receção do Platão político na cultura inglesa entre as duas guerras é constituído pela forte influência das tendências interpretativas alemãs contemporâneas (embora. e Lo- wes Dickinson. obviamente. com uma integra- ção importante). Mais difusa.

O paralelismo entre o regime bolchevique e a República é nele perfeitamente delineado. segundo Russell. deteste o Bolchevismo. há um paralelismo ex- traordinariamente exato entre a República de Platão e o regime que os melhores Bolcheviques estão a tentar criar (p. acrescentando-lhe os habituais paralelismos com os jesuítas do Paraguai e os eclesiásticos medievais (p. pela sua 161 . e que cada Bolchevique considere Platão um antiquado bourgeois. tendo Esparta e o governo do pitagórico Arquitas. que pretendia es- clarecer o público inglês sobre The Practice and Theory of Bolshevism. se ti- vesse tido sucesso. de 1920. Apesar disso. os soldados têm mais ou menos o mes- mo estatuto em ambos. Platão aparecia bastante precocemente num pan- fleto de Bertrand Russell. em qualquer parte do mundo. com pa- lavras destinadas a obter uma eficácia duradoura: O Partido Comunista corresponde aos guar- diões. Suponho que se pode dar por certo que cada docente de Platão. na Rússia há uma ten- tativa de tratar a família mais ou menos como sugeria Platão [aqui Russell alude à política do “sexo libertado” de Alexandra Kollontai]. ter-se-ia obtido um estado dotado de víveres suficientes e hábil em batalha. em Tarento. 161). mas. Voltando a Platão. realista. 30). Russell confirma a semelhança dos go- vernantes platônicos com o partido comunista sovié- tico. na sua História da filosofia oci- dental (1946). A intenção de Platão era. não utópica. como modelo.

Platão não teria entendido a impor- tância do relativismo ético de Trasímaco (p. este projeto contemplaria uma aliança entre a casta militar espartana (na tradi- ção de Licurgo) e a intelligencjia ateniense. por “cães de guarda humanos”. Ainda em 1950. segundo Russell. que se reproduzem acasalando-se precisa- mente como os cães. Platão e Aristóteles. Substancialmente. dado que se dedicam unicamente ao bem-estar coleti- vo do Commonwealth. 92 seg. “até os seus discípulos Lenine e Hitler terem fornecido uma exegese prática delas”. que preten- dia estabilizar e normalizar a sociedade grega durante a sua crise. de 1935 – é mais forte. Toynbee pensa poder reconhecer um projeto político comum aos grandes teóricos do século IV. Esta casta seria formada. Pelo contrário. defende Toynbee retomando uma metáfora típica da República. fechado a qualquer progresso das artes e das ciências (p. e estão destinados à infelicidade. O cara-a-cara de Platão com Arnold Joseph Toynbee – no terceiro volume do seu importantíssimo A Study of History. 172): crí- tica que pode parecer realmente estranha visto que foi o próprio Platão a ter formulado e argumentado esta teoria nos primeiros dois livros da República. 169). que forne- ceria uma “casta intelectual soberana” (pp. O principal erro teórico de Platão consiste. O comunismo platônico repre- senta “um grande salto para o desconhecido” em rela- 162 .).rigidez. Russell voltava a insistir sobre o fato que as tendências reacionárias de Platão tinham escapado aos liberals. em ter acreditado na ob- jetividade dos valores éticos (cuja projeção política representa inevitavelmente um governo autoritário).

um Platão lido precisamente pela ótica preferida dos adversários e. Porém. Japão militarista” (p. impressionar o próprio Popper. como veremos. Os guardiões de Platão. era muito comum o “desejo de uma ditadura política 163 . que reproduzem no nível intelectualmente mais elevado o grupo dos “iguais” spartiatoi. Plato’s Commonwealth (note-se que ao traduzir politeia os autores ingleses seguem o exemplo de Grote). a casa real do Sultão otomano (p. 97): desenha-se aqui o inteiro alinhamento dos espectros que a utopia de Platão (na verdade. facilmente predisposto à condenação) evocava para a cultura inglesa dos anos trinta. 94. por conseguinte. A Gré- cia do século IV. tal como a Europa depois da Primeira Guerra Mundial. Um paralelismo que se mostra bastante obscuro. segundo Toyn- bee. antecipam.ção ao rudimentar coletivismo da Esparta de Licurgo. Por isso. Alemanha nacional-socialista. o comunismo é logicamente necessário se “as células humanas do Leviatã têm de ser subordinadas ao pseudo-organismo social” (p. Itália fascista. e formula um apelo que pretende. No mesmo ano do volume de Toynbee aparece um ensaio importante de Francis Macdonald Cornford. nota 33). 95): aqui Toynbee refere-se indubitavelmente ao desenho que ilustra a capa da obra-prima de Hobbes. tinha perdido a confiança na capaci- dade da democracia garantir a ordem social. visto que são muito mais claras as analogias encontradas en- tre a condenação platônica dos poetas – com a censura do “pensamento perigoso” – e as “regras obscurantistas da Rússia comunista. por outro lado.

o retrato de um monarca paternalista. que está na posse da verdade e é capaz de uma devoção religiosa à própria tarefa” (p. 164 . o poder absoluto de um grupo capaz de impor ao corpo social os valores da comunidade. Isócrates ter-se-ia dirigido a Fi- lipe de Macedônia. Neste sentido. Xenofonte teria desenhado. assim. quer à fundação da Academia (uma escola para philosophic statesmen) (pp. Ao contrário de Sócrates (e depois dos Estóicos). fato que teria dado lugar quer às tentativas si- racusanas. de uma autoridade que libertasse os ho- mens do peso da liberdade.). Cornford repete curiosamente o esquema proposto por Hildebrandt: o Górgias marca a recusa de Platão em deixar-se envolver na política da Atenas democrá- tica. mas só se eles se harmonizarem na ordem comum. Cornford concorda com a aproximação entre Platão e o bolchevismo proposta por Russell: “a sociedade pode ser reformada somente submetendo a massa da humanidade ao domínio indiscutível de uma pequena minoria. Isto requer. mas não a recusa à exigência de unir filosofia e poder. Desta forma. Platão não perse- gue a reforma moral do indivíduo. pois. o desejo. 56 segs. na figura de Ciro. mas a construção de uma ordem social que assuma a natureza humana tal como é e procure retirar o que nela há de melhor. a divisão das funções sociais busca ter em conta os desejos específicos de cada grupo. Ao delinear o desenvolvimento político de Platão.ou espiritual” (pp. capaz de guiar os homens a objetivos que eles não podiam escolher sozinhos.). Cornford considera a Carta VII autêntica). e Platão teria depositado as suas esperanças em Dionísio II e em Díon (naturalmente. po- rém. 65). 48 seg.

segun- do as mais ou menos nobres mentiras propagandistas inculcadas pelos governantes para evitar revoltas popu- lares (pp. tão comum na cultura inglesa entre as duas guerras. com a sua autoridade infalível. em vez do “democrático” Protágoras. Este traço teocrático acentua- se. Nas Leis. Todavia. Plato Today. segundo Cornford. Citando Dostoevskij. mais que ao bolchevismo. nas Leis. porém. A sociedade dividida em classes e a obediência total à von- tade da classe dirigente são imposições divinas. réu de livre pensamento (p. Nas palavras do 165 . pela teologia. com o Conselho noturno (comparado inevitavelmente ao tribunal da Inquisição) entra “pela primeira vez na história europeia a apologia da perseguição religiosa” (p.). No âmbito da operação de “desmascaramento de Platão”. para citar o principal dentre eles. 79 segs. o contributo mais brilhante e de maior su- cesso veio. porém. por sua vez. Segundo Benjamin Farrington. 92). e no centro se encontra a imposição de uma “ver- dade de Estado”. segundo indi- cação de Wilamowitz. com a instituição do Conselho Noturno que pode ser assimilado à Inquisi- ção. de 1937. 67). o “materialista” Demócrito). toda a filosofia de Platão é uma filosofia po- lítica. Este Platão teocrático e inimigo da liberdade de pensamento estaria no centro da polêmica antiplatô- nica dos estudiosos ingleses de teor marxista (agora o arqui-inimigo de Platão torna-se. do inteligente panfleto de Richard Crossman. Cornford imagina o quadro sombrio de um Platão na pele do Grande Inquisidor que processa Sócrates. garantida. Platão deve ser posto ao lado da hierarquia da Igreja católica medieval.

por conseguinte. mesmo considerando- o demasiado indulgente em relação ao filósofo. Cros- sman era um bom conhecedor de Platão. Crossman refere-se ao escândalo suscitado no seu ambiente de Oxford pela descrição da Academia como uma school for counter-revolutionaries. mas sim realista. não acredita nas possibilidades de sucesso do regime democrático. e também o mais largamente difundido. de um governo imparcial capaz de superar os conflitos entre as classes (p. Platão nutre uma estima pessimista pelas capacidades intelectuais e morais das massas e. mas o de Grossman é certamente o primeiro trabalho sistematicamente voltado para esta operação. o “desmascaramento” de Platão já estava bem avançado. É preciso uma ditadura. A República deve ser considerada o manifesto programático da Academia como protago- nista de uma benevolent dictatorship. alguns exageros. Há duas possibilidades: ou a Academia se tor- 166 . o livro encontrou a aprovação de personagens eminentes como Bertrand Russell e Isaiah Berlin. a sua atitude não é de maneira nenhuma idealística. como se viu. embora não fosse um estudioso de profissão (no pós-guerra tornar- se-ia deputado trabalhista). 77). e da República como um han- dbook for aspiring dictators. A primeira parte do livro oferece uma reconstrução histórica do contexto social e das intenções de Platão.autor. porque. Popper leu-o certamente com interesse. Há. talvez. No prefácio à edição pós-bélica do livro. mas não opressiva como a do modelo espartano. Face a esta situação. Ele encontra-se perante uma crise social em que estou- ram os conflitos de classe entre o povo e a oligarquia.

uma justificação para os déspotas militares (o “cesarismo” já atribuído a Platão por muitos intérpretes). conclui Crossman. ela funciona como o “central advisory bureau para uma rede internacional de dita- duras aristocráticas”. 167 seg. portanto. encontrou a sua realização his- tórica na Igreja católica. para os dita- dores modernos. ou então (como sugere a experiência siciliana).). Contudo a nos- sa época. tem necessidade do espíri- to crítico. Entre a primeira e a última parte do livro.na diretamente “não só a consciência mas o ditador político da sociedade grega”. Produziu-se assim uma “apologia racional da reação”. para os príncipes do Renascimento (basta pensar no interesse pela República no ambiente da senhoria dos Visconti). afirma Crossman retomando uma tese muito comum. No seu conjunto. Platão teria provado 167 .). em ambos os casos Platão desem- penharia o papel de commander-in-chief (pp. A posição platônica produziu. segundo Crossman. No final do livro. Cross- man imagina – e trata-se certamente das suas páginas mais brilhantes – um Platão hoje. onde os eclesiásticos tomaram o lugar dos filósofos-reis (pp. mas. Em relação ao comunismo. a sua política foi “dema- siado ideal” (no sentido da divinização da elite) e “de- masiado pouco ideal” (no sentido de negação de pos- sibilidade de autorrealização das massas). que profere as suas avaliações sobre a Rússia soviética e sobre a Alemanha nazi. do respeito pela dignidade humana próprios de Sócrates. a “ditadura do Bloco de Direita virtuoso” só pode transformar-se numa polite form of Fascism. Mas ela. Crossman pergunta-se porque Platão faliu. 81 seg. não de Platão.

embora seguidores de uma filosofia errada. disciplina. No conjunto. a seu ver. Mas Platão teria sentido simpatia também por Stallin. No plano político.). 168 . e considera as concepções opostas “su- perstições de beatos” (pp. obediência aos chefes.repugnância pela glorificação dos trabalhadores e das massas populares. 129 segs. ele reconhece uma profunda seme- lhança entre o “temperamento” de Platão e o de Leni- ne. do instinto aquisitivo. que por este as- pecto teria aproximado. 134 segs. a convicção de que o filósofo-rei sabe exatamente o que a vida deveria ser. um triunfo da epithymia. pelo contrário. Pla- tão teria aprovado no comunismo exatamente os aspec- tos mais repugnantes para o pensamento democrático: o sacrifício das vidas individuais em vista da realização do “grande plano” coletivo. apreciando sobretudo a capacidade de manter o controle do povo mediante o uso experiente de “nobres mentiras”. Ele teria certamente reconhecido nos dirigentes soviéticos os herdeiros dos seus filósofos-reis.). Crossman vai mais além: na comum dedicação à “tirania do ideal”. Muito menos favorável é a atitude que Crossman atribui a Platão relativamente ao nazismo. pela inhumanity de ambos. a Rússia da Améri- ca) (pp. sobretudo pelo materialismo do re- gime que punha como seu fim o melhoramento das condições econômicas da vida (portanto. e teria admirado a organização do partido comunista pela sua coragem. Platão teria sen- tido um “interesse apaixonado” pela Rússia empenha- da numa “tentativa consciente de planificar a socie- dade humana de acordo com uma clara filosofia de vida”. a supressão das oposições.

graças ao uso sem preconceito de “nobres mentiras” de tipo racista. porque reduz o modelo da República ao modelo espartano. mesmo no quadro de pilares filosóficos mais robustos. Esquecem-se assim as críticas de Platão ao regime militarista espartano e sobretudo revela-se a figura de um filósofo não senhor mas servo do de- magogo. Platão contar-lhe-ia que escutou o dis- curso de um político de aspecto “hitita”. Esperaria mais do orador seguinte. um fi- lósofo autor de uma obra intitulada Platão e a conceção nacional-socialista do Estado (nesta figura Crossman concentra provavelmente autores como Rosenberg. e a muitos outros autores. graças a ele. Platão caracteriza o fascismo como um regime misto de timocracia e oligarquia: um juízo no fundo benévolo. apreciando a sua habilidade demagógica em manter unido o povo. Bannes e Hildebrandt). Como se vê. 169 .). 144 segs. a cultura inglesa dos anos trinta (recebendo e invertendo a interpretação platô- nica em voga na Alemanha contemporânea) tinha pre- parado grande parte dos materiais polêmicos de que se teria alimentado Popper. Aqui encerra Crossman. porque evita a condenação do governo “hitita” como tirania (pp. Escrevendo a Aristóteles o resumo de uma visita sua a Berlim. Este discurso suscita a indig- nação de Platão (que o considera pior do que o opús- culo do jovem Dionísio). e Esparta às origens raciais arianas. Em conclusão.

no limiar da revolução. que o tinham apresentado como um genuíno precur- sor do comunismo: de fato. Mas não é bem assim. através de Pöhlmann e de Natorp (além de Kautski). Mas estes interesses estão destinados a esmorecer mal se fecha a fase da utopia revolucionária e o seu “co- munismo de guerra”. E OS BOLCHEVIQUES? Bertrand Russell. temas abraçados tanto por Clara Zetkin. depois com o poder es- taliniano (embora o jovem Stallin fosse um bom co- nhecedor de Platão). embora notasse as afinidades en- tre a utopia platónica e os projetos dos “bolcheviques melhores”. quanto por Alexandra Kollontai. Novitskii dedi- caria um livro a Platão. todavia. Mas no fervor dos primeiros anos da revolução – segundo o resumo de Frances Nethercott – são sobretudo dois os aspectos do Platão político que tocam o grupo dirigente bolchevique. e no projeto de educação coletiva das crianças. na série “Antepassados do comu- nismo utópico”. quer no livro Platão educador de Rubinstein. suposto que eles teriam odiado o antigo filósofo “burguês”. de 1920. Há um regresso aos valores insti- 170 . O segundo aspecto diz respeito à “questão feminina”. Platão chegava à Rússia. O primeiro reside na ideia de “pedagogia social”. com o objetivo de moldar o “homem novo”: encontram-se ecos deste platonismo educativo quer no Código da família. no sentido de um afrouxamento dos vínculos conjugais e de uma sexualidade livre. em 1923. ideia abraçada pelos estudiosos alemães. primeiro com o advento da Nova política econômica de Lenine. tinha. de 1918.

da Santa Aliança. reproduz-se o juízo de Marx. Nietzsche e outros. Tanta prudência é explicável se se levar em conta que Losev foi condenado a dez anos de traba- lhos forçados. a isso segue-se a citação ritual de Lenine sobre a “linha platônica”. e de Lenine (em Materialismo e empiriocriticismo. Na conclusão da alínea. o seu pensamento político era agora etiquetado como utopia reacionária. Talvez uma discreta e prudente reabilitação tenha sido realizada em época estalinista avançada. a importância filosófica de Platão é iden- tificada na sua fundação do “idealismo objetivo”. junto com as de Kant. sem acrescentar nenhum comentário. Em 1923. voltam agora a exercer todo o seu peso. classista e anticientífica. No final. Segundo Salomon Luria. dos anos trinta aos quarenta. um importante estudioso de filosofia antiga. mas certamente não do “socialismo científico”. à maneira de avaliação conclusiva. de 1909) sobre Platão como chefe da “linha idealista” em filoso- fia. Pode-se encontrar vestígios na alínea sobre Platão na Grande Enciclopédia soviética escrita por um grande estudioso como Aleksei Losev.tucionais da família e à ortodoxia marxista-leninista: os juízos peremptórios de Marx. sobre a República como idealização ateniense do estado de castas egípcio. Nela oferece-se um quadro breve mas preciso e equilibrado da estrutura social deline- ada no Gosudarstvo (República). Mesmo que reagisse à contemporânea propaganda nazi filoplatônica. são excluídas da livre con- sulta nas bibliotecas soviéticas. Platão foi o precursor da cristandade medie- val. as obras de Platão. porque era 171 . do jesuitismo.

ROBIN. in Enciclopedia italiana (1929-1936). par E. La République. quer com o de um “estado agrário” nas Leis. CALOGERO. portanto. mas não escondem completamente a atenção e o favor com os quais a utopia platônica é acolhida nos primeiros anos da revolução. Milano: Cisalpino. Roma: Istituto della 172 . As vicissitudes da interpretação sucessivas a 1921 justificam. tradução italiana. ao seu ensinamento na Universidade de Moscovo. A alínea sobre Platão da numismática Ljudmila Kazamanova na Enciclopédia histórica soviètica é histo- ricamente mais articulada. Introduction a Platon. L. Platão teria procurado uma saída para as contradições sociais da polis quer com o projeto parcialmente comunista da República. DIÈS.suspeito de simpatias idealistas. Les Belles Lettres: Paris (1932) 1989. 1988. Platone (1935. NOTA BIBLIOGRÁFICA Os autores franceses citados são A. voltando. a previsão de Russell. em que preten- de recuperar a condição da Ática antes de Sólon e da Esparta de Licurgo. em seguida. 19682). A sua avaliação crítica é mais de teor hegeliano: em ambos os casos. como premissa para a uma radical trans- formação educativa e moral da sociedade. Platão não teria conseguido superar os limites históricos e sociais da polis antiga. Platone. Chambry. A autora não recorre às habituais citações de Marx e de Lenine. Para os autores italianos: G.

L. 358-71. CROSSMAN. Oxford-London: Oxford University Press (19352). pp. 1935). III. 47-67. La politica di Platone. Plato Today (1937. Plato’s Progeny.. além do ensaio de Glucker citado no CAP. ID. 1950. 4-5). The Unwritten Philosophy and Other Essays. STEFANINI. a recensão a Paideia encontra-se em “Giornale critico della filosofia italiana”. in Id. M. 3. Pude consultar a alínea Platão na Grande enciclopedia sovietica e na Enciclopedia storica sovietica (nas edições de 1976) graças à ajuda de Adele Mazzotti. How Socrates and Plato Still Captivate the Modern Mind. London: Allen & Unwin. Para o “Platão bolchevique”. F. The Practice and Theory of Bolshevism. London: Allen & Unwin. Milano: Feltrinelli 1960. 2 vols. M. A Study of History. B. H. Padova.Enciclopedia Italiana. I (1946). S. 1940. Plato’s Commonwealth (1935). vol.. 1920. GENTILE. 173 . Russia’s Plato. cf. 9-34. F. 1951. RUSSELL. pp. LANE. Aldershot: Ashgate 2000 (caps. tradução italiana. Scienza e politica nel mondo antico (1946). J. 1966. Philosophy and Politics. pp. London: Duckworth. FARRINGTON. CORNFORD. A. TOYNBEE.. London: Allen & Unwin. 19592). Platone. 19492 (reedição facsimilada Istituto di Filosofia-Istituto di Storia della Filosofia. Science and Ideology (1840-1930). vol. 2001 (pp. 510-21 da edição de 1949. 97-134). Plato and the Platonic Tradition in Russian Education. Sobre o ambiente cultural de língua inglesa. As obras citadas são respetivamente: B. 4-5 (1934). R. 1963. Storia della filosofia occidentale. M. Milano: Longanesi. Padova: CEDAM. cf. tradução italiana. in Id. Unpopular Essays.. 1991). (1932. NETHERCOTT. ID. Cambridge: Cambridge University Press (1950) 1967. pp.

(Página deixada propositadamente em branco) .

HISTORICISMO E ENGENHARIA SOCIAL: O PLATÃO DE POPPER POR QUÊ PLATÃO? Q uando foi obrigado a emigrar para a Nova Ze- lândia devido à iminente ameaça nazi. Para Popper tratava-se – no fogo da “luta perene contra o totalitarismo” (I. 15) – do combate entre as demo- cracias ocidentais contra o fascismo e o nazismo. no dia em que lhe chegou a notícia da invasão alemã da Áustria. o filósofo austríaco Karl Popper já tinha publicado a sua grande obra epistemológica A lógica da descoberta científica. p. em plena Segunda Guerra Mundial. de que ele era testemunha e vítima simul- taneamente: ele próprio conta que o livro foi iniciado em março de 1938. A urgência em escrever um grande livro de história e crí- tica da filosofia política. como The Open Society and Its Enemies. nesse . A obra foi publicada em 1944. portanto. foi-lhe imposta pelo dramático caso da histó- ria europeia. 6.

do pensamento crítico. para o autoritarismo paternalista. constitui um caso interessante o mesmo par conceitual sociedade aberta/sociedade fechada. além destes. constitui um texto requisitório con- tra Platão. Popper também utiliza largamente as interpretações dos seus adversá- rios “totalitários”. tê-lo-ia centrado na crítica ao marxismo). para compreender as suas raízes teóricas e intelectuais. aponta para o imobilismo da tradi- ção que vincula os indivíduos a desempenhar papéis pré-determinados. Gomperz. The Spell of Plato.momento. Mas é evidente que. contra o estalinis- mo soviético (de fato. É a autoridade dos grandes homens que justifica os maiores erros contra a liberdade e a razão. Popper afirma que se tivesse reescrito o livro. aos quais Popper podia ir beber para construir a sua imagem de um Platão totalitário. Crossman (nota 2 do cap. pelo contrário. para chegar às origens da tra- gédia europeia. mas também. que o segundo volume da obra seja dedicado à crítica dos profetas destes tota- litarismos: Hegel e Marx. esta também não é uma verdadeira surpresa. e o segundo. onde o primeiro termo indica o espaço da autodeterminação individual livre. VI). De certa forma. decerto. Neste sentido. considerado o verdadeiro iniciador da gene- alogia de todos os totalitarismos. IV). Não é de surpreender. predecessor tanto do fascismo quanto do bolchevismo. a partir do próprio Hegel. na sua leitura de Platão. portanto. 176 . não faltavam. na Introdução de 1959. Como vimos. Mas todo o primeiro volume. Toynbee (notas 32 e 43 do cap. Ele refere-se ex- plicitamente a Grote. na cul- tura anglo-saxã numerosos precedentes desta crítica.

Numa frente ou noutra. Contudo. Do ponto de vista da sua teologia política. um marco de época na história das interpretações modernas do Platão político. Platão tinha compreendido perfeitamente os motivos do mal-estar social. para a hostilidade à mudança. DIAGNÓSTICOS E TERAPIAS Como grande sociólogo que era. com clareza. mas detectava. da infelicidade da sua época. Mas nesses mesmos anos. uma potência de ins- trumentos teóricos e também uma energia refutatória que não tinham precedentes autênticos e que fazem do livro. quer o avaliemos pelos seus conteúdos quer pelos seus efeitos. Popper declara que fez derivar os conceitos de sociedade fechada e aberta de Bergson. Leo Strauss usaria o mesmo par conceitual bem próximo da utilização de Popper. Popper enfrentava o seu rival com uma profundidade de análises. 284). e a preferência da “sociedade aberta” pelo niilismo anglo-saxão de marca liberal. fora largamente preparada a estrada para fazer de Platão o pai da genealogia to- talitária. referindo a pre- ferência da “sociedade fechada” pelo niilismo alemão. segundo Popper. Os motivos consistiam na revolução que levou à ruína da 177 .para o organicismo coletivista. Strauss não partilhava nenhuma das posições. o terrenos das escolhas e das oposições em que o próprio Popper conscientemente viria a estabelecer-se. numa conferência feita em Nova Iorque em 1941. p. embora ti- vesse modificado o seu sentido (I.

178 . ao invés. com a aceitação dos riscos. que se torna. contra a crise. réu de pensamento livre). e propõe uma terapia regressiva. Em vez da solidariedade comunitária surgiram os conflitos econômicos e de classe. enfim. 241 segs. assim. funções. a que Popper define a “grande geração” – a geração de Péricles. costumes. nascera uma sociedade democrática e individualista.). que teria pro- cessado Sócrates. segundo Popper.sociedade tradicional. Sócrates (aqui é inevitável a comparação do Conselho noturno das Leis com o Tribunal da Inquisição. o expansionismo. He- ródoto. como outros intelectuais atenienses à ma- neira de Crítias. que fazia pesar ao indivíduo a responsa- bilidade pessoal. traindo. a insegurança. da liberdade como a única garantia de um desenvolvimento autônomo da personalidade. Protágoras. Platão. The Greeks and the Irrational). com a concepção da política como confronto aberto sobre os valores e os projetos comuns (pp. reage. a ideia de um progresso com perspectivas incertas. Antístenes. pior do que o mal que pretendia curar. inter- pretando-a como uma queda do homem de uma con- dição originária de felicidade. em nome do pressuposto que “a justiça é desigualdade” (pp. e com a proteção que a coletividade garantia às vidas de cada indivíduo. com a sua tranquilizadora fixi- dez de valores. No seu lugar. o mesmo Sócrates – reagia com o exercício da razão crítica. uma liberdade vivida como solidão e precariedade (é interessante notar que estas teses de Popper seriam retomadas por Eric Dodds no último capítulo da sua grande obra de 1951. Face a esta crise.). 271 segs.

3. ele está convencido de que 179 . Ao contrário dos historicistas “integrais”. e porque a primeira acusação parece mais fraca e até mais um pretexto. É o caso de as analisar separadamente. no caso de Platão. Platão defende que existe uma lei da mudança histórica. a posição de quem: 1. de 1957). 2. mas está convencido – como se vê no livro VIII da Repú- blica – de que cada mudança signifique decadência e degeneração. Mas. dado o diverso valor hermenêutico. segundo Popper. mais pertinente e mais rica de perspectivas problemáticas. en- quanto que a segunda é. a acusação deve deixar cair os pontos 2 e 3 e limitar-se a discutir as consequências do primeiro ponto. Além disso. considera o rumo do mundo um desenvolvimento e um progresso finalisticamente orientados. pensa possuir um conhecimento certo das “leis da história”. afirma que essas leis determinam necessariamente o rumo do mundo. PLATÃO E O HISTORICISMO REGRESSIVO O historicismo é. A acusação de historicis- mo a Platão serve evidentemente para fundar a sua aproximação aos outros réus do mesmo delito. Hegel e Marx (além de expô-lo à crítica que Popper desen- volveria de forma mais ampla na sua Miséria do histo- ricismo. Popper desenvolve a sua tese requisitória contra Platão através de duas acusa- ções principais: a do “historicismo” e a da “engenharia social utópica”. A partir deste quadro histórico. sem dúvida. para ser minimamente credí- vel.

num coletivismo tribal que atribui para sempre os papéis e 180 . a linguagem dos livros V e VI põe claramente a construção da mesma kallipolis num futuro não ci- clicamente regressivo. à perfeição passada. da qual teve início a “queda” do homem (pp. inverter o rumo da história de modo a orientá-lo para um regresso à primitiva “idade do ouro”. Dois pontos devem ser salientados. pelo domínio de uma casta militar que acode o “rebanho humano”. O segundo: embora efe- tivamente no livro VIII do mesmo diálogo se ponha a hipótese da existência de uma kallipolis no início da história. isto é. fazendo voltar para trás o relógio da história. representadas precisamente no mito de Crono. com a sua animalização da humanidade.). em VI 499d1 (epeita genesetai). 42 segs. O primeiro: Po- pper não vê o caráter evidentemente irônico dos mitos sobre a idade áurea de Crono no Político e no livro III das Leis. além disso. Basta notar as formas verbais no futuro. passa por cima do fato que a primitiva “cidade saudável” do livro II da República é rapidamente liqui- dada. 501e4 (telos lepsetai) e em outras passagens. Popper está convencido de que a in- tenção de Platão era curar a doença social do seu tem- po. como uma “cidade de porcos”. 76). Canceladas as lutas de classe e o mal-estar da liberdade.um esforço “sobre-humano” da vontade possa parar o processo de decadência. Seja como for. pela sua condição pré-política e pré-filosófica. aqui os homens vivem na segurança ofere- cida por um rei pastoral e patriarcal. remontando – mesmo antes das apreciadas culturas de Esparta e Creta – até às “antigas formas tribais de vida social” (p. por exemplo.

o máximo possí- vel.). por exem- plo. comum também o que por natureza é do indivíduo. ao referir-se à República. ao estado) é expressa de maneira deveras eloquen- te. onde Platão. A segunda passagem. muito menos citada. o rei-filósofo (com o qual Platão se iden- tifica) parece mais um “rei-sacerdote tribal”. não se trata da única oscilação popperiana) (pp. para que pareçam ver. com quaisquer meios o que é dito privado. mas. por quaisquer modos é retirado de todas as partes da vida. Popper realça duas passagens das Leis. De fato. Neste quadro. 152 segs. escreve Popper. indo mais além de Hegel. Esta é. como veremos. perten- ce ao livro XII e refere-se especificamente às atividades militares.. Para argumentar esta tese. 77 segs. conceito incongruente para uma sociedade tribal. as orelhas e as mãos. e procura-se.as funções de cada indivíduo (pp. que para Platão “o indivíduo é o Sumo Mal em sentido absoluto”. A primeira é a famosa passagem do livro V. uma espé- cie de feiticeiro ou xamã (pp. 216). nas quais a su- bordinação do indivíduo à comunidade (para não di- zer. ouvir e agir em comum (739c). e o critério mo- ral consiste apenas no interesse do estado (na verda- de. tornar. em certo sentido. mas pode ser facilmente estendida a toda a vida social: 181 . 152 segs.). afirma que a melhor cidade é aquela em que. os olhos. grosso modo. 209. a terapia proposta por Platão para a crise da sua época.

à mesma esfera pertencem figuras do “totali- tarismo” como a polícia secreta (p. virando sempre o olhar para o comandante e o siga. ensine a alma. que a vida de todos seja o máximo possível coletiva e comum a todos [.. Jamais ninguém.. Ao contrário.]. numa palavra.. ele – talvez influenciado pelas suas fontes. muito para justificar pelo menos algumas das asserções de Popper. nem a alma de alguém. o mesmo Popper insere entre os 182 . a não conhecer nem a saber iniciar uma ação separadamente dos outros. a sério ou a brincar.] e.).. A anarquia deve ser eliminada da vida inteira de todos os homens e animais sujeitos aos homens (942c-d). por hábito se acostume a agir sozinha e por iniciativa própria. 278). que pertence evidentemente à esfera do estado moderno (pp. Há. homem ou mulher. mas viva em todas as situações de guerra e de paz. como a tirania e o despotismo. através dos hábitos. De resto. A primeira delas (sugerido talvez por Toynbee e Crossman) consiste em assimilar o “holismo” tribal ao organicismo do Leviatã de Hobbes. deixando-se guiar por ele mesmo nas coisas mais pequenas [. O mesmo efeito retórico transforma o “xamã” tribal em formas de poder relativamente modernas. 118 segs. sem um comandante [anarchon]. que ganham o aspecto de uma série in- controlável de asserções retóricas. por outros aspectos. como se vê. talvez impelido pela agitação polêmica – opera alguns desvios teóricos incorretos em relação às suas próprias teses.

Fala-se. Assim.méritos do Platão “sociólogo” o de ter formulado uma teoria das elites que anteciparia Pareto (p. com a sua propaganda que. visa impedir qualquer inovação cultural. que o próprio “tribalismo” popperiano. então. de uma “raça dominadora” (dórica) que sub- mete uma população sedentária. e da qual é difícil ver a relação com a regressão ao primiti- vismo tribal. por fim.). mistu- rados um pouco desordenadamente na maior ‘sopa’ de “totalitarismo” de todos os tempos. A segunda asserção sofre. num “gover- no de classe”. 82 seg. opostos ao igualitarismo grego que cons- titui “o arqui-inimigo” do filósofo (pp. Por último. do rei-filósofo como se fosse um “criador científico da raça dominante” (pp.). a doutrina hierárquica da justiça própria de Platão significa fazer consistir a própria justiça num “privilégio de classe”. Mais especificamente. fazendo do texto platônico “historicis- mo biológico” (p. a terceira asserção consiste numa reutili- zação da linguagem própria da crítica marxista a Platão. 199). 129). pelo contrário. noutros textos. de um “mito do Sangue e da Terra” exprimido pela “no- bre mentira” (p. tendo como referên- cia o fim do livro III da República (pp. 211 seg. a influên- cia dos leitores nacional-socialistas de Platão. como se vê.). 67). 183 . 120). considerada uma espécie de regresso a uma so- ciedade sem classes) é agora considerado como “o go- verno natural de classe dos poucos sábios sobre os mui- tos ignorantes” (p. o patriarcado tribal (cuja vantagem era. com um tom que lembra de perto mais a interpretação de Günther. Outros ingredientes. na esteira de Farrington. 134 segs.

pelo contrário. a forma de engenharia social gradual. Marx. A estrutura da engenharia social utópica é claramen- te identificada por Popper. o problema do engenheiro social utópico é projetar os meios adequados à obtenção da finalidade estabelecida. ao domínio de raça ou de classe: a panóplia do antiplatonismo é alinhada sem poupar forças com o custo inevitável de produzir um monte de argumentos pouco controlável histórica e teoreticamente. por oposição aos seus dois grandes adversários: por um lado. A ENGENHARIA SOCIAL UTÓPICA De maior densidade e de maior interesse é a segun- da das acusações de Popper. ou reformista (à letra. 230). que trabalha não para o bem últi- mo. que recusa qualquer forma de engenharia social em nome da legalidade imanente à história (mas Platão e Marx partilham. piece-meal). Após este fato. no sentido que os supostos conteúdos “tribalistas” são inessenciais em relação à estrutura do desenho utópico atribuído a Platão. 48. 55). 221). pre- ferida por Popper. Este desenho pode ser definido. 44. por outro. Ela pode ser lida indepen- dentemente da primeira. mas contra os males presentes (pp. 44. Do tribalismo arcaico ao despotismo estatal mo- derno. Em primeiro lugar. está a or- dem dos fins: a teoria das ideias é o instrumento teórico que permite delinear e fundar o modelo de estado perfei- to. antes de mais. por definição imutável e invariável (pp. Trata-se de uma dedução de 184 . o radicalismo das suas atitudes) (p.

O fim último não pode senão ser o objeto de uma intuição que é im- 185 . ou então. a sua “purga”. Quais são.). 221 segs. para Popper. Platão fala de um pin- tor de constituições que tem de limpar a tela antes de começar a esboçar o seu quadro desta forma (Resp. a ditadura de quem conhece o modelo a realizar e é capaz de derivar dele a plani- ficação racional da sociedade inteira (pp.). matando ou exilando parte dos seus cidadãos (293d-e) (pp. nota sutilmente Popper. Em tudo isto há. A política torna-se – neste quadro – uma arte cuja obra- prima consiste precisamente na sociedade nova que o engenheiro social está construindo. a expulsão da cidade de todos os habitantes com mais de dez anos (VII 541a). os erros escondidos neste modo fascinante de pensar? Antes de tudo. Cada objeção parece insensata e reacionária. sem partir os ovos”). um componente significativo de estetismo: imperfeição do mundo tomado como modelo torna impaciente o engenheiro social utópico face à estratégia reformista que consiste na tentativa de “remendar” o existente. 231 segs. O que é preciso é um sistema de poder centralizado que garanta a realização sequencial da cadeia de meios com vista ao fim.. A beleza perse- guida torna-o completamente indiferente à violência porventura necessária durante a obra (Popper cita o dito de Lenine. não pode admitir dis- sensões.tipo condicional (se. segundo o qual “não se pode fazer uma omeleta. então).. como diz o Político. aliás. há o ine- vitável dogmatismo sobre os fins. que não tem nenhuma necessidade de consenso e. ou seja. por exemplo. VI 501a): pouco importa se esta limpeza implicar.

motivo pelo qual é impossível prever racionalmente os resultados do processo de transfor- mação. é preciso dar conta do seu “retrato” eficaz de Platão. o modelo mostra-se não modificável. 235). ape- sar da indefinida dimensão do tempo necessário para o realizar: cada mudança do modelo em realização tor- naria inúteis e vãos os meios até àquele momento usa- dos para a sua atuação. sobretudo. Quem era Platão? No diagnóstico de Popper. falta e faltará sempre uma base de conhecimento empírico suficien- te para prever os efeitos – numa perspectiva temporal assim tão vasta – das tentativas de planificação integral da sociedade. Por outro lado. a mente de Platão esta- va dividida por uma “luta titânica” entre o fascínio da sociedade aberta. para depois tomar consciência que tudo isso era inútil em vista das diversas finalidades previstas nas Leis). traga para a terra o inferno (p. encarnado por Sócrates. E. razão pela qual é preciso recorrer à força para resolver as dissensões. conclui Popper: pela arbitrariedade dos fins e pela impossibilidade de controlar racionalmente a sequência dos meios. a ordem das finalidades dos seus projetos de en- genharia social. Evidentemente volta- remos a esta lúcida agressão à utopia platônica. precisamente. dar início ao programa da República: senão teria recorrido a exílios e genocídios. Em suma. que se funda. Mas Popper poderia replicar que Pla- tão não pôde. e.possível argumentar racionalmente. Mas antes de saudarmos Popper. é muito provável que a enge- nharia social utópica. só na admissão dogmática do fim último. entretanto. em vez de levar para o céu. o apelo 186 . (Poder-se-ia observar que Platão efetivamente modificou. entre a República e as Leis.

está ainda bem longe de se ter esgotado (pp. Mas o insucesso de Platão. que esperava fundar o primeiro reino filosófico com a Academia. às quais seguem períodos de depressão (p. Com o tempo. Porém. conclui Popper. as Leis apontam para o par tirano/legislador que menciona a relação entre Dionísio II e Platão (p. E o po- tencial antidemocrático da sua “escrita venenosa”. 71 segs. 219). numa positiva recensão de 1952. 189.da tirania representado por Crítias: ou seja. 240). Platão. reafirmava as teses popperianas e escrevia secamente: “Berchtesgaden e o Kremlin man- têm as promessas da República e das Leis”. A partir disto. DEPOIS DE POPPER Popper encontra imediatamente o consenso de personagens ilustres como Bertrand Russell. razoável individualista e o de um totalitário semideus” (pp. A República testemunha “vivazes e exaltantes esperan- ças de sucesso”. 273 seg. no final. a partir da Idade Média até à idade moderna (p. acaba por instituir nada mais nada menos que a primeira cátedra de filosofia (p. 219). Ernst Gombrich e Gilbert Ryle que. 274). 187 . à maneira de Hildebrandt. entre “o mundo de um modesto.). a biografia política de Platão pode ser lida através dos diálogos. em “Mind”.). dado que é fascinante (tal como a do livro VIII da República). infeliz- mente foi apenas provisório. 218). No final. prevalece a “vontade de poder” nietzschiana (p. o político totalitário acabaria por ter demasiado sucesso. nota sarcasticamente Popper.

O livro ‘picuinhas’ de Levinson. Não faltou. da alternativa 188 . segundo Maurer. não tinha dema- siada dificuldade em replicar no apêndice da edição de 1959). demasiado fraca e intelectual- mente destituída de interesse. In Defense of Plato (1953). tentando demonstrar com os instrumentos de uma suposta neutralidade filológica. nem a longo prazo. deste modo. que Platão não tinha verdadeiramente de- fendido todas as deploráveis consequências que de- rivavam das suas premissas teóricas) constituía uma estratégia unprofitable. constituía um minucioso elenco dos “erros” e das distorções interpre- tativas de Popper (o qual. sobre a questão da relação entre a ideologia igualitária das democracias contemporâne- as e o duradouro aparecimento de elites tecnocráticas e “meritocráticas”. herdeiras. Dado que o ataque ver- sava precisamente sobre estas premissas. O saudável aviso de Bambrough não encontrou muitas repercussões nem a curto. uma reação igual e imediata por parte dos especialistas da antiguidade. de 1995. da “aristocracia racional” preconizada por Platão (que. se afasta. na verdade. Entre as raras tentativas de recolher a este nível o de- safio de Popper. como é natural. pode-se citar um ensaio interessante de Maurer. Bambrough avisava estes críticos de Popper que a tentativa de de- fender Platão a este nível (isto é. era necessário empenhar-se numa discussão sobre elas. duplamente irritados pela invasão de terreno por parte de um incompetente e pela sua dessacralização de um clássico venerável como Platão. associando o ponto de vista histórico com o filosófico. mais ou menos legítimas. Num ensaio importante de 1967.

talvez por isso mesmo. Podemos apresentá-los em forma de dois esquemas silogísticos: 1. 2. só o reformismo gradual é aceitável – mas Platão era um engenheiro social utópico hostil ao reformismo –. há um método unívoco para decidir quem tem razão e quem não em todas as discórdias sobre o bem e o mal). ainda mais arriscadas no plano hermenêutico. não seria difícil considerar o pensa- mento de Popper passível de acusação de totalitarismo (definido assim segundo a fórmula de Bambrough: só há um guia acessível para os problemas morais e polí- ticos. logo. pode-se tranquilamente dizer que faltou de todo uma análoga discussão sobre os princípios que orientam o discurso de Popper. Platão estava errado e o seu pensamento é inaceitável. só o pensamento liberal-de- mocrata é aceitável – mas Platão era organicista. desejada por Bambrough.totalitarismo/democracia que imperava na “ideologia ocidental”). comunitário. da qual voltaremos a falar. logo Platão está errado e o seu pensamento é inaceitável. Esquemati- zado deste modo. mais intelectualmente sofisticadas que as que tentou fazer Levinson. iliberal. Seja como for. mas. 189 . E deve ser também lembrada a importante discussão de Schofield (2006) em torno da questão da utopia entre Popper e Platão. é certo que considerar in- discutíveis os princípios de Popper (como próprio de uma espécie de “pensamento único” intransmissível) produziu uma longuíssima série de “defesas de Platão” certamente menos ingênuas. holís- tico. Se são raros os casos de discussão histórico-filosó- fica sobre os princípios reguladores do pensamento político de Platão.

é com a marca de Popper que se desen- rolará a história hermenêutica do Platão político na se- gunda metade do século XX. em todos os sentidos que se podem atribuir ao advérbio verdadeiramente. A primeira. mais refinada. com a intenção de defender Platão de Popper. pelo contrário. constituiu na defesa de Platão ser um pensador de alguma forma liberal-democrata. e como autor de um projeto utópico fun- dado numa teoria dos valores ético-políticos conside- rados objetivos e não discutíveis. minoritária mas que recente- mente está avançando. de “desfigurar” ou deformar Platão como os seus críti- cos e mais do que eles. uma impressionante sequência de esforços tendentes à refutação desta ima- gem. e isto constitui uma prova indiscutível da força intelectual da sua agressão crítica. elaborou a tese de que Platão não defendeu verdadeiramente as teses que Popper lhe atribuiu. Portanto. já temida por Bambrough. O efeito devastador está. muitas vezes acabaram por tentar defender Platão de si mesmo. 190 . em ter produzido. a segunda. Creio que o efeito devastador produzido pela crí- tica de Popper não consistiu em ter delineado uma imagem de Platão como um pensador não redutível à tradição de pensamento liberal-democrata (porventu- ra cristão). durante toda a segunda metade do século XX. De tudo isto se falará nos capítulos seguintes. mas já se podem encontrar as linhas principais destes esfor- ços que. com a consequência.

2000. par M. Plato. Polis und Kosmos. 1973. t. Il nichilismo tedesco (conferência pronunciada por Strauss em. R. tradução italiana in Nichilismo e politica. Political Philosophy. The Open Society and Its Enemies. Platos modern friends and enemies. 85-90. R. 3-19). 1996 (pp. 1967 (respetivamente pp. Cambridge (MA): Harvard University Press. M. 19665. London: Routledge & Keagan Paul. Platon. 5: Utopia). in E. POPPER. 74-107). Roma: Armando. The Greeks and the Irrational. pp. BAMBROUGH.). 2006 (cap. 1941 na New School for Social Research de Nova Iorque).). VIII (The Fear of Freedom) (tradução italiana I Greci e l’irrazionale. De l’antiplatonisme politico-philosophique moderne. cap. A recensão de G. D. Para L. 191 . Vitiello. DODDS. Roma- Bari: Laterza. Galli e V. in Contre Platon. LEVINSON. NOTA BIBLIOGRÁFICA A obra de K. SCHOFIELD. In Defense of Plato. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft. 2003). vol. BAMBROUGH (ed. Para E. MAURER. estão incluídos na recolha de R. Paris: Vrin. 129-54. II: Le platonisme renversé. 1995. Milano: Sansoni. RYLE e o ensaio de R. Dixsaut. Cf. California: University of California Press. Cambridge: Heffer. Popper and politics. 1953. Popper und der historizismus. 1: The Spell of Plato (1944). também: R. STRAUSS. é citada na tradução italiana La società aperta e i suoi nemici. 1951. cf. cf. a cura di R. B. FREDE. Plato. Esposito. C. Rudolph (Hrsg. London: Oxford University Press. R.

(Página deixada propositadamente em branco) .

então. 7. era necessário. que se estende por toda a segunda metade do século XX. cristão) fosse o único modo acei- tável de conceber a política. para evitar a sua expulsão da “boa” tradição ociden- tal. demasiado pesada de suportar. DEFENDER PLATÃO DE POPPER (OU DE SI MESMO?) N a longa história das defesas de Platão do ataque de Popper. nenhum intérprete ocidental pôs em discussão a premissa maior do silogismo po- pperiano: que o pensamento liberal-democrata (e. refutar a segunda premissa popperiana. segundo a qual Platão não era um pensador político liberal-democrata. em virtude da sua duradoura auctoritas. mas um autoritário ou até totalitário. Desejando salvar Platão da conclusão do silogismo (Platão estava errado). As três linhas defensivas pensadas para realizar esta refutação podem ser esquematizadas deste modo: . em algumas variantes.

  Não obstante as aparências e o consenso qua- se unânime da tradição exegética. desejáveis e de certa forma realizáveis.  A segunda.  A primeira. 194 . Num caso e no outro. um pensador político liberal-democrata e. e mais simples. que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto. Popper estava errado. pois visam exclusivamente os problemas da moral individual (a polis é. uma metáfora da alma). Neste capítulo falaremos da primeira e da segunda linhas. tem o seu ponto forte na tese segundo a qual – apesar do consenso de uma tradição exegética milenar que vai de Aristóteles ao próprio Popper – Platão verdadeiramen- te não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem. atribuindo a Pla- tão intenções diretamente políticas. 3. 1. porque a sua crítica ataca um falso alvo. Esta tese distingue-se em duas variantes: a) os textos políticos de Platão pertencem ao gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual. consiste em susten- tar que Platão era verdadeiramente. mais complexa e articulada. Popper estava errado. de alguma forma. por conse- guinte. a terceira será discutida no capítulo seguinte. quando muito. 2. b) os diálogos políticos de Platão têm uma intenção irônica. Mesmo neste caso. na realidade. acontece que Popper falhou o alvo. os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política.

Saxonhouse e Bobonich. porque apresenta a posição liberal-democrata com o mais rico e inteligente repertório argumentativo. por exemplo. porque estes intér- pretes devem fazer um autêntico braço de ferro com as evidências textuais. ou até democráticos. porque devem desafiar (ou simplesmente ignorar) uma tradição secular opos- ta. de certa forma. porque devem enfrentar refutações de peso como. mostrando que o seu pensa- mento político apresenta. de Grote a Gomperz. de fato. Griswold parte de um resumo das críticas feitas à “provocação” platônica: trata-se de uma teoria não 195 . que vai de Hegel a Zeller. elementos liberais. um cruzamento de todas as tendências antipopperianas. as recentes refutações de Jean-François Pradeau e Lucio Bertelli (que seria ingênuo considerar definitivas dado o forte peso ideológico que motiva esta tendência e também porque foram formuladas precisamente em ambiente “continental”). Surpreendente pelo menos por três razões: em primeiro lugar. PLATÃO LIBERAL-DEMOCRATA A corrente interpretativa que visa defender Platão das acusações de Popper. depois. constituindo assim. de 1995. que tem o título emblemático de Le libéralisme platonicien. partindo de Levinson até aos recentes estudos de Monoson. por fim. neste capítulo. de Russell a Toynbee e Crossman (para não falar das vicissitudes do século XX “continental”). deu provas de uma surpreenden- te tenacidade durante toda a segunda metade do sé- culo XX no ambiente cultural anglo-saxão. É o caso de considerar de perto. so- bretudo o ensaio de Charles Griswold.

sem dúvida. 2. perguntamo-nos) seja capaz de fazer justi- ça à natureza humana? (ibid. é só uma personagem de Platão. de um projeto irrealizável e. adepto do pensamento livre. que retrataram um Sócrates “histórico” como adepto. inca- paz de alcançar os resultados desejados. Nisto Griswold apela-se implicitamente a uma longa tradição. na realidade. mais articulada e vê-se nas passagens que podem ser resumi- das da seguinte maneira: 1. ao autoritário Platão. de modo mais explícito.  Mas. impraticável e sobre-determinada” (p. em suma. e a sua moral consistia numa concepção da perfeição individual como telos primordial do ser humano. e a moral que lhe é atribuída funda-se em princípios da metafísi- 196 . dependente de uma metafí- sica que pressupõe uma inaceitável redução de todos os bens humanos sob um bem único e unívoco. Mas a estratégia de Griswold é. por princípio. que um filósofo que “falou do amor de modo tão comovente”. apela-se aos estudos sobre a Apologia e sobre o Críton de Vlastos e Kraut.igualitária.). individualista e de- mocrático. que contrapusera o “democrático” Sócrates. embora crítico. este Sócrates. tenha acreditado que um regime totalitário e “espiritualmente degradante” (mas qual?. A primeira linha de- fensiva parece francamente retórica: como é possível.  Sócrates era. um defensor da liber- dade política. além disso. 162). mas. de Mill ao próprio Popper. hierárquica. pergunta-se Griswold. do regime democrático ateniense. no final. injusta. de uma “teoria política não liberal.

nos textos políticos de Platão. e sobretudo no modelo “holístico”. 170 seg. se refere só a este e não a outros textos platôni- cos mais aceitáveis. hierárquica e holística. esta “aproxi- mação dialógica” unidirecional ao objetivo de tor- nar irrelevante a República. O ponto central é que a sua kallipolis.  Mas não basta. portanto. liberal e individualista não é senão a expressão do pensamen- to do seu autor. Griswold reconhece que. o Sócrates democrático. 168 seg. in- felizmente. “Platão pode fazer afirmar às suas personagens todo o tipo de coisas. todavia. 165. 175. ele não considera insuperáveis (pp.ca platônica. Para este objetivo. e não pode. 4. para o sucesso da operação. ser-lhe contraposto. Aqui. de forma alguma. nota 48: é necessário notar que. iliberal e anti-igualitário – pelo menos. nem persuadir o lei- tor a aceitá-las tais como são” (p. sem todavia esperar retomá-las como ideias próprias. 3. existem elementos de contradição relacionados com esta imagem que.). aparentemente propos- to pela República –. pelo menos.). A intenção de desplatonizar a República leva Griswold a notar que Aristóteles – que “escolhe cuidadosamente as palavras” na sua crítica à filosofia política de Platão no livro II da Política – atribui as teses da República a Sócrates e não a Platão (p.  A primeira tática usada neste sentido consiste numa peculiar aplicação do “princípio dialógico” que. torna-se necessá- rio eliminar da República a imagem geral de Platão ou. o “cuidadoso” Aristóteles atribui a Sócrates também as teses do Ateniense nas Leis). 197 . porém. tirar a potência do seu peso contraditório. evidentemente. não pode existir.

Se assim é. 170). e “a forma de inteligência muito mais importante e bela é a que diz respeito à constituição da vida pública e privada. a asserção desta impossibilidade não ser pronunciada contra Platão. dado que. nada de novo em relação à crítica aristotélica. no mesmo Banquete se afirma que o desejo de imortalidade para os homens de engenho se tra- duz na produção de obras duradouras. cujos 198 .À primeira vista. mesmo não realizá- vel. mas isto não o libertaria das acusações para simpatizar com o seu dito “holismo” hierárquico. por outro. possessores de uma sabedoria completa. Pode-se observar. Mas a novidade consiste no fato de. De resto. todavia. para Platão. mas atribuída ao próprio Platão. A panóplia dos argumentos usados para demons- trar esta tese é. constituir a finalidade de um percurso que se aproxime dela “o máximo possível”. o filósofo platônico ama e procura o saber. como o Fedro e o Banquete (que Griswold faz aproximar do Político). porém. mas sabemos de outros textos. muito vasta e sofisti- cada. A cons- tatação é esta: os filósofos-reis da República seriam sophoi. a kallipolis permaneceria desejável. que estes fi- lósofos não podem existir. por um lado. Griswold limita-se. como veremos. e a uma referência de duas pas- sagens específicas da República. que embora a aquisição de um saber definitivo e a realização completa da kallipolis sejam para Pla- tão provavelmente impossíveis. em Griswold. e não é seu depositário (p. por definição. a este propó- sito. como em muitos dos “defensores” de Platão do ataque de Popper. a uma constatação geral. uma e outra podem.

Quanto às duas passagens chamadas em causa para testemunhar a impossibilidade (e também a não de- sejabilidade) da kallipolis segundo Platão. Dado que esta passagem cons- titui um dos cavalos de batalha de todos os intérpretes que pretendem apresentar a cidade da República como impossível. já demasiado comprometidos com os costumes tradicionais. entenda-se. mesmo que se queira ler a passagem à letra. a expulsão “para o campo” (eis agrous) de todos os habitantes com mais de dez anos.): pode-se. e/ou indesejável. ela não conteria nada de surpreendente. A expulsão de grande parte do demos da cidade e a ruralização da Ática fazia parte do 199 . Após esta partida inicial da estaca zero para a condição social. ser bons legisladores e governantes mesmo sem possuir a sabedoria completa.) e prevê. portanto.nomes são temperança e justiça”. poderão começar os processos de seleção segundo as atitudes. é o caso de a discutir brevemente. como Licurgo e Sólon (208e segs. Disto são testemu- nhas os autores de “boas leis” para as cidades. a primeira aparece no final do livro VII (540e seg. aos olhos do seu autor. como ato inicial da refundação da cidade. Creio que a afirma- ção platônica não contém nada de tão absurdo que constitua um deliberado sinal de não desejabilidade. A locução eis agrous pode ser entendida como equivalen- te de eis georgous: isto significaria apenas a atribuição preliminar de todos os adultos à terceira classe (salvo. onde os camponeses representam precisamente a parte maioritária. de que o livro III fala amplamente. os governantes e os seus auxiliares que pre- sidem à reforma). Todavia.

em Político 293d. Diels-Kranz 88A1). não há nada de particularmente perturbador para o pensamento político grego de orientação radi- cal do IV século. 171). mas delas falaremos no próximo capítulo. até mais drasticamente.5-7). Xenofonte. de uma interpretação e de uma tradução impróprias do texto. e em 385 os espartanos operaram uma análoga ruralização de Mantineia (cf. onde a kallipolis é considerada um “pa- radigma no céu”. 171). Uma conclusão que se apro- 200 . Vejamos. De resto. Mesmo admitindo. a resposta é clara: o que Platão queria era mostrar que “mesmo um estado de fato pensado idealmente sofre de graves imperfeições” (p. porque a passagem é crucial sobre- tudo para os intérpretes que leem a República como obra não política e destinada à moralidade individual. Trata-se. oferecido a quem pretenda fundar uma cidade justa na própria “interioridade” (p.programa concebido pelo radicalismo oligárquico de Crítias (cf. Platão concebeu a República como um pro- grama destinado a ser aplicado numa sociedade?”. claramente. as conclusões importantes que Griswold retira da sua análise. formula-se uma análoga exigência de “purificar” (ou “purgar”) o corpo cívico como premissa para a reforma da cidade quer em República VI 501a quer. então. A segunda passagem mencionada por Griswold é a célebre passagem do final do livro IX da Repúbli- ca (592a-b). pergunta-se. Helénicas V 2. Em vista da sua declarada impossibilidade. Por mais que tudo isto possa parecer desagradável aos modernos paladares li- berais. que a kallipolis “não seja igualitária nem liberal.

quando é detido por homens desprovidos da «ciência régia» e das intenções morais que lhes são implícitas. ao qual seguem a oligarquia e democracia (a democracia é. além de irrealizável. não são expli- citamente mencionadas. o melhor regime pensável. é considera- do com suspeita e desconfiança pela maioria dos ho- mens. são. de que se falará no parágrafo Platão irónico. não está isento de defeitos e de riscos. A análise do Político consente a Griswold reforçar e desenvolver a sua linha interpretativa. Neste diálogo o melhor regime é considerado o po- der absoluto de um ou poucos homens detentores de um saber político configurado como “ciência régia”. preferíveis regimes regidos por uma legislação constitucional rígida: o me- lhor deles é a monarquia. para mostrar como ele tam- bém. este regime não terá necessidade de conformar-se a uma le- gislação rígida nem de obter o consenso dos súditos em vista do bem que ele procura. então. portanto. e que. confirmar a convicção de Griswold: Platão estaria a expor a utopia da perfeição. 201 . incapaz de causar grandes males. pelo contrário. o que acontece quando ele está concentrado nas mãos de um tirano). porém. assim. por isso. Em ausência (provável) de homens dotados do supremo saber político.xima muito das teses de Strauss. o melhor dentre os regimes imperfeitos privados de lei. e. porque a fragmentação paritária do poder entre uma pluralida- de de indivíduos o torna ineficaz. O Político parece. Platão está perfeitamente consciente de que o modus operandi desta forma absolu- ta de poder desemboca na tirania.

é precisamente o seu respeito pela legislação considerada inviolável a poder motivar. Na verdade. Do privilégio da “secunda cidade” Griswold passa decisivamente ao da democracia. isto é. 172. abandonando as tentações holísticas e hierárquicas (pp. sobre- tudo. Este regime de “liberdade de expressão” (parrhesia) teria permitido a crítica socrática (pp. e. como notou Rowe. 172 segs. No Político.): contra isto se po- deria objetar com a obviedade própria da democracia ateniense (satirizada aqui por Platão). se- gundo Platão. neste regime ninguém é obriga- 202 . o tema tanto do Político quanto das Leis. o melhor dos regimes praticáveis em vista da realiza- ção da perfeição individual. Daqui em diante. diálogos onde a ideia de que a melhor forma de regime realizável é sempre imper- feita teria como resultado “adoçar o funcionamento social” (p. como se viu. ela parece constituir um third-worst. o centro da filosofia política de Platão se deslocaria para a procura do second. o mito de Crono indicaria que no mundo de- sordenado em que vivemos. mais que um second-best. Mas. 174).best. 190 segs. nota Griswold. que condenou Sócrates à morte por crimes ideológicos. 180). a condenação à morte de um reforma- dor à maneira de Sócrates. portanto. Mas Griswold encontra indícios de simpatias de- mocráticas também na descrição do regime demo- crático do livro VIII da República. A cidade de segundo escalão constitui. uma “democracia cons- titucional” constituiria “o regime apropriado à nossa era” (p.). onde este regime aparece também como o quarto dos regimes “degene- rados” e como a ‘antecâmara’ da tirania.

do a governar e. Griswold sustenta. a separação entre modo de vida político e modo de vida filosófico (V 473d). Entre estas. A montante. a necessidade de impedir. de modo categórico. que inclui o desejo de promover também a sua capacidade de perfeição. Na esteira do Fedro. observava-se que as teses de Griswold se situavam. um dever moral imprescindível (VII 520d seg. até porque a recusa dos filósofos a governar constitui um dos pontos salientes também das posições dos intér- pretes straussianos. A jusante. isto é. fora da dimen- são hierárquica do governo político (pp. pelo me- nos implicitamente. as interpretações pressupõem. devem ser mencionadas. Mas é igualmente verdade que o legislador Platão sanciona.). No início. num cruzamento das in- terpretações de Platão em sentido liberal-democrata. que a abertura para a comunidade pode superar os limites da busca da perfeição individual em virtude do amor pelos outros. É verdade que Platão prevê esta resistência. 184 segs. cuja relutância em se envolver politicamente é defendida no livro VII do diálogo. no fu- turo. em primeiro lugar. uma vez declarada irrealizável e/ou indesejável 203 . É o caso de determo-nos brevemente sobre este pon- to. e considera o empenho político dos filósofos uma obrigação da justiça. este torna-se propício aos filósofos. de certa forma. as valorizações dos “segundos regimes” platô- nicos. a defesa “irônica” de Platão leva- da a cabo por Strauss e pela sua escola.). pelo con- trário. elas teriam sido seguidas por uma série importante de pes- quisas que desenvolveram as suas implicações. por isso. fiéis ao dogma de Strauss acerca da incompatibilidade entre política e filosofia.

os estudos tomam à letra as aprecia- ções platônicas da anarquia democrática no livro VIII. a igualdade concedida a todos. no Político. Como observaram muitos críticos. por fim. foi considerada então um prelúdio às Leis. nos preâmbulos às leis) em relação aos de constrição. o caráter eletivo de algumas magistraturas (embora não das principais). sobretudo. Em substância. A relativa valorização dos re- gimes “legais”. sobretudo. a possibilidade de exercer a filosofia por gosto e. como a sua “docilidade”. o regresso à propriedade privada e à família. como é natu- ral. o desapa- recimento de uma classe de governo munida de um saber absoluto ou de uma “ciência régia”. a sua tolerância para com a liberdade de expressão e de crítica. E houve uma decisiva apreciação das mesmas Leis – sobretudo por obra de Bobonich – como projeto de uma “constituição mista” que con- tém elementos apreciáveis de caráter liberal e até de- mocrático: prevalência dos instrumentos de persuasão (expressados. Tudo isto tornaria o regime das Leis certa- mente mais praticável relativamente ao da República (é. valorizar os elementos “democráticos” presentes na mesma República: por exemplo. esta a opinião do velho Platão) e. talvez. são prova disso os es- tudos recentes de Sarah Monoson e Arlene Saxonhouse.a inaceitável República. trata-se. apesar da declaração explícita em Leis V 739. sem dúvida. por exemplo. mais corajosamen- te. Uma segunda tendência visa. todavia. de aspectos agradá- 204 . com base na qual o “primeiro regime” é mencio- nado só para mostrar a sua inconsistência. também mais desejável do que ele. pelo menos segundo os intérpretes. e.

veis para um paladar democrático. A sua interpretação orienta-se por duas linhas principais: por um lado. mas que em Platão constituem mais uma espécie de paródia cômica da democracia ateniense. a valorização do aspecto dialogal. “uma grande provocação lançada à consciência moderna cristã e liberal do humanismo que venera Platão como um dos seus grandes heróis”. a tentativa de reconciliar Platão com Aristóteles. ou seja. Gadamer não pode esconder que eles apresentam um “desafio poderoso”. na sua inversão anárquica de cada hierarquia de valores e de mérito.). quer ético. ideia do bom). mos- trando a sua continuidade no âmbito quer metafísico (teoria das ideias. PLATÃO UTÓPICO Hans Georg Gadamer dedicou a Platão uma série de escritos tanto vasta quanto conforme ao seu modo de pensar. que só pode abrir a via para a trágica tirania. na sua indife- rença para com os fundamentos éticos e educativos da comunidade. Enfrentando. 205 . um desafio e uma provocação que produzem uma tensão intolerável entre as ideias políticas extremas que são afirmadas nos escritos platônicos. intersubjeti- vo e problemático da sua pesquisa filosófica. e a que Gadamer considera a anima naturaliter christiana de Platão (pp. por outro. os escritos políticos de Pla- tão (com a intenção usual de os defender da crítica popperiana). todavia. uma comédia. entre outras coisas. 63 seg. a “ressocratização” de Platão. no ensaio Pensar por utopias.

Aristó- fanes e Eurípides (p. da qual voltaremos a falar no Cap. Retomando os termos de uma antiga polêmica. o Estado não pretende ser o projeto de uma ordem me- lhor da realidade da vida estatal” (p. a função filosófica dos “mitos” nar- rados por Sócrates na República e nas Leis? “O pensa- mento por utopias”. que nunca pode ser cumprido (p. das ilhas beatas. do país da fe- licidade. Os seus grandes textos – aqui Gadamer não distingue a República das Leis – pertencem. nou- tro texto. para não falar da “realidade substancial” de Hegel. Trata-se. de “jogos racionais”. 70).. Segundo Gadamer.). então.].. a um preciso gênero literário. portanto. onde se experimenta o “belo risco do pensar” (pp. entre outros. mas arrastar para o incondicionado o diálogo da alma pen- sante consigo mesma. 195). 9. escreve Gadamer. pode-se sair deste impasse só se se utilizarem os instrumentos da hermenêutica literária. 90 seg. numa pesquisa aberta que não leva a nenhuma solu- ção. que representa uma “cidade nas nuvens” (p. A suposta “teoria política” de Platão é. como mostram. 74). Gadamer escrevera: “Este Estado é um Estado mental e não terreno [. Platão e os poetas (1934). como os contos da idade do ouro. não pretende oferecer o utópico como algo real ou realizável. o da utopia. uma construção satírico-utópica. já bem conhe- cido na Grécia. que aconselham a “não tomar à letra” as teses do Platão político. Para retomar uma distinção feita por Finley. Gadamer parece estar mais perto da “Quimera” de Brucker do que do ideal regulador de Kant. não se trata de utopia de reconstrução mas de utopia de evasão. Qual é. É fácil ver como a leitura utópica de Gadamer 206 . de fato. na realidade. 82).

é preciso pagar para responder a Popper e à “provocação” platônica. VI 499c. Mas trata-se de um preço “hermenêutico” que. de “levar a sério” Platão). PLATÃO IRÔNICO O problema central da reflexão contínua que Leo Strauss dedicou à filosofia política consiste na relação entre teologia e política. ao desenho da República. ele é obrigado a ignorar numerosas passa- gens em que Platão nega o caráter de euché. como veremos no próximo capítulo. “voto” ou “pio desejo”. ao que parece. 83): uma consequência que. um “fingimento que permite compreender me- lhor a anima naturaliter christiana. Bastarão duas observações. Gadamer está naturalmente inclinado à consideração da Carta VII como inautêntica ou irrelevante. Não é o caso de discutir ulteriormente a questão da utopia neste momento. trata-se da descoberta platônica da justiça no devir da polis.esvazia a República e as Leis de qualquer conteúdo político positivo. VII 540d). que tornaria ridículo (geloion) todo o discurso (V 450d. dominaria a linha interpretativa que pretendia despolitizar Platão. onde se falava apenas de “mitos” e de “jogos”. porque ela será retomada no Cap 9. nos limites da última face à 207 . Por um lado. Se algum conteúdo emerge da análise de Gadamer. Por ou- tro lado. O erro de Popper foi ver teorias e propostas (ou seja. dado que aqui se analisa a interioridade da alma e a justiça que a do- mina” (p.

por outro lado. especialmente do hebrai- co-medieval e das suas bases clássicas (aristo- télicas e platônicas).] obrigou-me a comprome- ter-me em muitos estudos. Escreve Strauss em Liberalismo antigo e moderno: Comecei então a perguntar-me se a autodes- truição da razão não era o resultado inevitá- vel do racionalismo moderno. durante os quais prestei sempre maior atenção ao modo com o qual os pensadores heterodoxos do passado escreveram os seus livros (p. 321). as suas importan- tes pesquisas sobre Maimónides. Strauss envereda por uma incansável polêmica contra o pensamento político da modernidade.. A mudan- ça de direção [. partindo dos textos de Maimónides) de um método hermenêutico 208 .. visto como o fundador dos opos- tos ateísmos liberal e comunista. sobretudo. de Maquiavel e Hobbes até Hegel. a reconstrução de uma tradição (clássico-hebraica) que deve ser lança- da contra as filosofias políticas da modernidade. e também do niilis- mo de decisão à maneira de Schmitt. Deste ponto de vista. Este estudo baseava-se numa premissa. Por um lado. isto é. a verificação (inicialmente. distinto do pré-moderno. sustentada por preconceitos poderosos. e menciona o duplo valor destas pesquisas. que dizia que um regresso à filo- sofia pré-moderna era impossível.transcendência da Lei revelada e na necessidade de ela ser orientada pela “ordem unitária e total da vida hu- mana” prescrita pela própria Lei. Strauss indica aqui.

defendendo-a de eventu- ais fruições liberais. do seguinte: os “pensa- dores heterodoxos” (como Maimónides e Platão. mas não Aristóteles) socorreram-se da escrita da dissimulação. a herme- nêutica straussiana da dissimulação e da ironia não só se aplica a autores medievais. limando arestas concetuais. De fato. na leitura straussiana de Platão) da iro- nia. Trata-se. repete. Abelardo e Egídio Romano falaram de uma escrita per involucrum. que Myles Burnyeat delineou de forma muito eficaz. de um metaphorice loqui. Como se viu no Cap. já Proclo notara uma reti- cência dialogal em certas passagens de Platão. Convém dizer já que. Bernardo de Chartres. o risco de cair na censu- ra e na perseguição por parte da autoridade política que podia sentir-se ameaçada por aquele pensamento. uma característica da sua aproximação exegética. a dissimulação toma a forma (decisiva. se for o caso. E. face às suas teses mais embaraçosas. evitando.peculiar. nivelando contradições aparentes. 209 . in tegumentum. capaz. ao mesmo tempo. Pier Candido Decembrio defende- ra claramente que aquelas teses deviam ser entendidas como exposições ironice. 2. substancialmente. a este propósito. Muitas vezes. comunistas ou “niilistas”. de unificar e “normali- zar” esta tradição. Platão punha um problema historiográ- fico relevante a Strauss. de maneira a veicular (esotericamente) o sentido do seu pensamento aos que fossem capazes de o entender. talvez inconscientemen- te. mas também. sub enigmate. pelo me- nos no caso de Platão. como veremos.

cautas. aquilo que seria mais tarde definido como a “aproximação dialogal”: ao contrário de Aristóteles. táticas de Strauss para produzir um distanciamento da superfície textual dos diálogos das verdadeiras intenções do autor consistem em regras metódicas de leitura. ninguém como “o filósofo” que ensine aos gentlemen a respeitar “os limites da política”. ausente dos diálogos. em primeiro lugar.. à primeira vista partilháveis. é verdade. e até pioneiras no terreno da interpretação platônica. personagens dialógicas 210 . que Aristóteles a leu como o faz Strauss e que concordou. nunca propôs uma tese na primeira pessoa (CM.]. como a perda da sabedoria antiga por obra de Maquiavel e Hobbes. por fim.. p. essencialmente. Platão. Mas se Platão fosse aquele utópico radical que os estudio- sos normais creem que ele tenha sido. de 1964. As primeiras. então não existiria algo como o conservadorismo unânime dos “clássicos”. que a conceção platónica das “coisas políticas” foi conserva- da. Strauss expõe o seu combate contra Platão – com grande mestria exegética – nos capítulos que lhe dedi- ca em The City and Man. por toda a tradição da filosofia política clássica (sem excluir Aris- tófanes e Xenofonte) através dos Estóicos e por outros depois deles [. nenhum desastre. Nos diálogos há. Strauss formula. e na quase contem- porânea History of Political Philosophy. e. Ele lançou-se na difícil tarefa de mostrar que a República significa o contrário do que ela diz. 50).

Mas Sócrates foi sempre considerado um “mestre de ironia”: ora. “a ironia é uma espécie de dissimulação. em particular. para os outros (pp. A aproximação é sugeri- da pelo “ridículo” constantemente evocado no diálogo.que podem ser consideradas “porta-vozes” do autor. como o Estrangeiro eleático. A pluralidade destes porta-vozes. mas. é inevitavelmente parcial. tomado individualmente. sobretudo. Ao princípio da ironia se deve acrescentar o do esoterismo: um texto filosófico construído com uma estratificação de signi- ficados. A primeira delas é naturalmente Sócrates. Cada diálogo. o Ateniense das Leis. Timeu. “opiniões saudáveis”. A terceira tática de Strauss consiste em aproximar o diálogo platônico – mas aqui já se começa a falar espe- cificamente da República – da comédia de Aristófanes. sobre eles a suspeita da dissimulação irônica acerca do seu autêntico significado. edifi- cantes. segundo o Fedro. ou de untruthful- ness” (p.). das Ecclesiazuse. juntamente com a dissimulação irônica. superficiais e profundos. aquilo que. o livro em forma de “manual” não pode fazer. O Sócrates protagonista dos diálogos lança. induz a pensar que os diálogos pretendem significar coisas diferentes para pessoas diferentes: a verdade para os interlocutores ou leito- res capazes de a entender. 51): uma nobre dissimulação da própria sa- bedoria superior. Esta ine- 211 . 52 segs. Mas há outros “porta-vozes” de Platão. contudo. no sentido em que enfrenta o seu argumento fazendo abstração de outros aspectos teóricos relevantes para o próprio argumento. é capaz de selecionar por si mesmo os seus fruidores. por uma consideração densa de conse- quências.

Algo. por mérito. e que. por conseguinte. a assimilação dos filhos da terceira classe às classes superiores. governado por filósofos que garantem que cada energia psíquica seja dedicada ao interesse da comunidade. com os seus desejos e. mas sem o citar –. em sentido mais forte. em linha de máxima.. 113). através da persuasão e da coerção. com o eros que ela origi- na. ignora a diferença corpórea e.vitável abstração torna. ridículo ou cômico” (p. ao fazer da reprodução uma tarefa exclusiva- 212 . preci- samente no sentido da comédia de Aristófanes. e asseguram. esta dedicação também por parte das classes subalternas. O problema torna-se agora identificar de que é que a solução política do problema da justiça faz abstra- ção. está irredutivelmente privada dela.] se for tratado como possível. a pertença às diver- sas classes não é hereditária. porém. por isso. “o impossível [. defende Strauss. essencial no desenho platônico. A mesma igualdade de funções políticas entre homens e mulhe- res.. em primeiro lugar. revela-se impossível porque eles conheceram os próprios pais). em primeiro lugar. Ci- tamos. a torna impossível. os carateres fundamentais desta solução segundo Strauss: trata-se de um regime de “comunismo absoluto”. é. Este projeto. É verdade que. faz abstração do corpo. impossível a solução do problema posto no diálogo. antes de tudo. que assemelha à “sociedade egípcia de castas” (p. 62). portanto. ora. preme na direção oposta à da direção comunitária. segundo Strauss. escreve Strauss – recuperando Marx. A dedicação total à comunidade pode dizer respeito só à mente: a corporeidade. mas ela tende a sê-lo (por exemplo.

quer para os próprios filósofos. 109-17). Os filósofos podem ser obrigados a governar só pela coerção da cidade. como veremos. desde já. De fato. a impossibilidade estrutural da kallipolis platônica (pp. ela torna-se indesejável quer para a maioria. mas aqui se cria um círculo vicioso: os filósofos deveriam convencer a cidade a obrigá-los a governar contra a sua vontade. que se veriam obrigados a renunciar à sua atividade teórica. como mostra o livro VII. “silencia as instâncias do eros”. Neste ponto. 124 seg. pois. Escreve Strauss. a “cidade justa” (onde Strauss reconhece a mais profunda expressão do idealismo político) é cons- titutivamente impossível (convém notar. repetindo a crítica aristotélica por este motivo: “A igualdade dos sexos e o comunismo absoluto são contra a natureza” (p. A separação entre filosofia e cidade confirma. 127). Uma segunda razão para a impossibilidade consiste numa contradição radical: os filósofos são necessários para a realização do projeto platônico (só eles são ca- pazes de orientar totalmente o eros e o desejo para a comunidade). Strauss está pronto a tirar as suas conclusões seja das premissas metódicas sobre a natu- 213 .). porque se dedicam à mais alta atividade concedida ao homem e desprezam as vicissitudes humanas que se desenrolam no mun- do da “caverna”. Disto deriva imediatamente a impossibilidade da cidade platônica. não deixam dúvidas a propósito). que Strauss nunca atribui explicitamente a Platão a cons- ciência desta impossibilidade. que deveria sacrificar-lhe a corporeidade e o eros. os filó- sofos não querem governar. mas as suas conclusões. mas.mente política. Por isso. portanto. a comunidade platónica é inatural (pp.

levan- do aos limites extremos a figura de um poder absoluto baseado na ciência. Platão é cons- ciente desta impossibilidade. a sua impossi- bilidade. para além dela. “as Leis são a úni- 214 . O limite insuperá- vel das possibilidades da política leva Platão. 161). Portanto. Na History of Political Philosophy Strauss clarifica ulteriormente esta conclusão: “a República mostra ta- citamente como a cidade efetiva – isto é. conclui Strauss. 161).reza irônico-dissimuladora do diálogo. através de um experimento intelectual que leve as suas ambições ao limite. Portanto. possível e desejável. seja da análise das contradições estruturais que o diálogo apresenta: “Sócrates esclarece na República que caráter é o que a cidade deveria ter para satisfazer as necessidades mais elevadas do homem. assim. a cidade não comunista. a delinear a melhor estrutura política compatível com a natureza do homem. o sentido do diálogo é refutar os aspetos “prometeicos” da engenharia políti- ca (para usar termos de Popper). Fazendo-nos ver [itálico meu] que a cidade construída de acordo com esta exigência não é possível. que a política não pode disputar o espaço que cabe à filosofia e. por esse motivo. nas Leis. O primeiro diálogo. 138). a na- tureza. permite-nos ver os limites essenciais. e. “mostra explicitamente a necessidade de um governo fundado nas leis” (p. da cidade” (p. e mostrando. O capítulo platônico da History apresenta também menções ao Político e às Leis que confirmam o quadro interpretativo straussiano. à teologia. esclarecer. que é construída pela associação dos pais mais do que pela dos artesãos – é a única cidade pos- sível” (p.

2. nem fascista. Platão. dissimulador. cuja conciliação é. a impossibilidade e a não desejabilidade da kallipolis. ao invés.ca obra propriamente política de Platão” (ibid. A análise platônica de Strauss.): uma tese que. Eis os pontos fortes deste dogmatismo: 1. como veremos no próximo capítulo. a imensa influ- ência exercida por Strauss sobre uma grande parte da cultura americana fez com que ela se depositasse numa série de dogmas que dominariam a tradição straussia- na. b) da irredutível oposição entre filosofia e política. por causa a) de ser contra natureza. nem comunista na aceção marxista (HPP. do eros. a insensatez da convicção própria do idealismo políti- co de que os males da humanidade possam ser cura- dos com os instrumentos da política. Todavia. a não desejabilidade da perspectiva comunitária. 3. seria partilhada também por intérpretes “impolíticos” de Platão à maneira de Julia Annas. os limites insu- 215 . 108). p. o pressuposto necessário do projeto platônico. dado que nega as instâncias da corporeidade e. não é um pensador liberal- democrata. fazem do Platão straussiano um filósofo mais próximo do liberalismo conservador do que de qualquer outra opção política. Mas a impossibilidade de transformar a “cidade existente” em “associação de pais”. por conseguinte. em primeiro lugar. avan- ça sempre com cautela e sobriedade mesmo quando parece recorrer a pressupostos infundados e a uma lei- tura muito seletiva dos textos. o caráter irônico-cômico. comenta Strauss. a in- tenção autorrefutadora da República. convém dizer. cujo sentido pro- fundo se mostra oposto às teses explicitamente argu- mentadas.

vê na obra inteira um desafio cômico a Aristófanes. uma série de absurd considerations expostas com ar sério (pp. Os três dogmas naturalmente se entrecruzam e aparecem nos diferentes autores da tradição exegética straussiana. O tradutor e intérprete hiper-straussiano da República. aquela sabedoria socrática que consiste na cons- ciência da própria impossibilidade (p. isto é. quando muito. e que não há nenhu- ma justificativa para tomá-la à letra como a doutri- na política de Platão. Assim. I ronia Brumbaugh (1989) afirma que toda a utopia da República é de natureza irônica. Allan Bloom (19912). Isolaremos aqui. impossível e também indesejável – é o 216 . p. alguns dos representantes mais significativos. 36). de uma concepção socrática. fantastic (CM. torna- se “irônica” a crítica à poesia. 335): de resto. já Strauss havia considerado a teoria das ideias como utterly incredible. como exemplos para a discussão. A ironia representa o lado negativo da natureza humana. porque até os diálogos platônicos são “arte”. Tratar-se-ia. 392). enquanto imitação de um saber absoluto e homogêneo impossível. 25. porque ignora as partes irracionais da alma (pp. 381. 119). A reflexão de Hyland (1988) é muito mais articulada e parece o melhor contributo desta tradição exegética.peráveis da política e a sua constitutiva inferioridade em relação à filosofia. E irônico – por conseguinte. que Platão não partilha- va.

aristotelicamente. nudez e promiscuidade das mulheres nos 217 . Selecionam-se afirmações platônicas (como a expulsão da nova cidade de todos os habitantes com mais de dez anos) que a nós podem parecer tão absur- das que não seriam atribuídas seriamente a Platão. para concluir que se trata de sinais da sua intenção irônica. porque seria desacreditar como irônica a maior parte dos diálogos platônicos e. autorrefutadora. Convém fazer algumas considerações críticas acerca do dogma da ironia. de toda a tradição socrática. Esta última tese é facilmente refutável. Porque é que Platão exporia apertis verbis toda uma série de te- ses escandalosas para a opinião pública (comunhão de mulheres e filhos. essencialmente. A hermenêutica irônica (onde a “ironia” é entendida. 327-35). Tudo isto confirmaria o carác- ter de dissimulação do texto da República. por conseguinte. O pri- meiro está no recurso que Platão faz do “porta-voz” Só- crates.projeto da República. Este pressuposto é evidentemente tão pouco fundado (porque Sócrates é uma personagem platônica e. como dissimu- lação que pretende significar o contrário do que se diz) funda-se. como excessivo. cujo sentido oculto seria oposto ao sentido explícito. universalmente considerado “mestre de ironia”. de uma decisão de autoridade que ficaria na mesma por explicar). a sua natureza irônica seria um efeito. não uma causa. O segundo pressuposto consiste numa espécie de círculo vicioso. isto é. abolição da propriedade privada e da família. além deles. porque se funda na necessidade da “nobre mentira” com o fim de condicionar retori- camente os cidadãos (pp. em dois pressupostos.

assinalada provavelmente por uma série de indícios textuais que é preciso ‘joeiar’ com atenção analítica. de resto. como o programa de uma democracia moderada à maneira de Aristóteles? Isto serve certamente para absolver Platão da crítica de Popper. 218 . pelo contrário. 10. Entre a submersão total dos textos na dimensão irônica e a sua leitura estritamente literal (igualmente inaceitável. Rowe (como tantos outros) vê ironia na famosa passagem acerca da expulsão dos adultos da cidade. continua Morrison. no importante livro de 2005 de um revisionista straussiano como Stanley Rosen. não por acaso dedicado to the genuine Leo Strauss (pp. para. 390). 5. do qual teremos de voltar a tratar. “não há algoritmo nem dose de força bruta filológica que possam demonstrar a presença da ironia a quem não a vê. transmitir esotericamente uma mensagem tranquilizadora e conformista. como parece entender Morrison? Não creio. enquanto que “eu não vejo ironia naquela sugestão. ou o contrário”. mas parece verdadeiramente in- sustentável. A questão da hermenêutica irônica é certamente de difícil solução. à suposta dissimulação platônica aparece. Por exem- plo.ginásios. Uma excelente crítica. e destinadas a irritar a autoridade política (basta pensar na violenta crítica do regime democrático ao poder desenvolvida no livro VIII). deste mesmo teor. porque está fora de dúvida que há ironia em Platão e no “seu” Sócrates) há uma possibilidade intermédia. Convém deixar a pulga na orelha mais ou menos fina do leitor. e não creio que Platão a tenha visto” (p. governo dos filósofos). Como escreveu recentemente Do- nald Morrison. 241).

e evitar interpretar como irônicas aquelas teses que ao leitor podem parecer surpreendentes ou inaceitáveis. Se usavam o tempo livre em função da filosofia. e de ironia autorrefutadora. Sócrates diz: “Deixemos falar as Musas em sublime estilo trá- gico (tragikós). No Político. em III 413b). na realidade. responde o Estrangeiro. em cada caso. por outro lado. 219 . certamen- te sim. perguntamo-nos se os homens de então eram mais fe- lizes do que os de hoje. no sentido que convidam a não levar a sério aquilo que se está para dizer ou se aca- bou de dizer. brincam e zombam connosco como se fôs- semos crianças” (545e: note-se que o advérbio tragikós aparece numa troca de galhardetes decididamente cô- mica. Vou limitar-me só a dois exemplos dentre os mui- tos possíveis. enchendo-se de comida e de bebida até à saciedade. Bastará concluir que um prudente critério metódico para a sua identificação requer que se detecte. após a narração mítica do “reino de Cronos” (quer seja idade do ouro ou país da alegria). Não é o caso de delinear uma tipologia das situações irônicas frequentes nos diálogos. então o juízo negativo é demasiado claro (272b-c). como se falassem a sério. os sinais textuais que permitam identificá-las como tais. quando. “Se. narravam entre si e aos ani- mais os mitos que também agora se contam sobre eles”. Introduzindo no livro VIII da República o “discurso das Musas”. Trata-se de dois exemplos inequívocos de ironia. cujo cálculo errado deter- mina a degeneração da kallipolis primordial. que pretende formular aquele misterioso número nupcial.

Por isso. em parti- cular. portanto. mas a kallipolis delineada no livro V suprime-o. é. a tal ponto que escreve que as “necessidades eróticas” são mais agudas do que as “geométricas” (V 458d). E ros O tema da censura platônica da corporeidade e. não há também a kallipolis (p. não pode existir a Repú- blica. da ação e do eros. “a República de Platão. Mas trata-se só de um momento dialético no interior do diálogo. como razão suficiente para fazer considerar impossível (a nós e a Platão mesmo) a rea- lização do desenho utópico. portanto. mas. A filosofia e um diálogo filosófico como a República. “com o seu rígido sis- tema de classes e a feroz restrição do discurso. poder-se-ia verdadeiramente defender que aquele pro- 220 . Este regime é a demo- cracia”. argumenta Roochnik. que Popper estava errado. sobretudo. é colocado no centro do livro de David Roochnik. 77). é infamously antidemocratic”. 69). O que serve – aos olhos de Platão – é um regime que per- mita “o florescimento do eros. um apoio condicionado (ou dialético) para a própria democracia” (p. de fato. requerem um investimento eró- tico. circula amplamente entre os intérpretes de orientação straussiana. que Platão sabe bem que é cona- tural à estrutura humana além de à natureza filosófica. Se realmente o projeto da kallipolis contivesse a to- tal censura do eros. se existe a kallipolis. mas se não houver a República. do eros. Vê- se. A Kallipolis. longe de ser aquela condenação da democracia que normalmente se considera ser. de 2003.

o que se põe sob o controle público na República é apenas a sexualidade reprodu- tiva. uma promiscuida- de que. que não serão acolhidos como membros legítimos da comunidade. 221 . a sexualidade reprodutiva não é a única nem a principal expressão erótica. a sanção pública refere-se a estes últimos. Mas é realmente assim? Como já notara Grote. improvável). no caso de relações que deem lugar à geração de filhos. homem ou mulher (V 468b-c). em todo o caso. escandalizava com razão os seus primeiros leitores de época humanista. E na kallipolis não está prevista ne- nhuma regulamentação para o eros homossexual.jeto deva ser qualificado como indesejável (sobretudo aos olhos do “erótico” Gláucon) e como impossível (embora a inferência à democracia permanecesse. Parece banal recordar um fato que Strauss e os seus seguidores esquecem completa- mente: para Platão. e não aos seus pais (V 461a-c). Mas há mais: cada tipo de relação sexual fora da idade reprodutiva é explicitamente autorizada. a kallipolis parece le- gitimar uma promiscuidade sexual que vai muito além dos limites da tradição – dado que é consentida pela abolição do vínculo matrimonial –. salvo os limites do bom gosto social indicados no livro III (403a-c). com o consentimento entusiasmante de Gláucon. Longe de constituir uma estrutura repressiva do eros. a teknopoiia. porque para Platão (e para as cidades gregas em geral) a geração da prole. Prevê-se também. que se con- ceda a quem se distingue por valor no campo de bata- lha a possibilidade de «fazer amor com quem quiser». como se viu. e para a cultura à qual ele pertence. constitui um ser- viço para a comunidade.

a mesma linguagem (anankasteon. são obrigados a abandoná- lo para voltar àqueles estudos. de deixarem o governo para se dedicarem prevalentemente ao estudo das ideias e do bom. Platão prevê a relutância dos filósofos em aceitar a responsabilidade de governar a nova cidade. mas. 540a) regressa a propósito da obrigação dos filósofos. Esta constrição exercida pela cidade sobre os filósofos causou grande impressão e uma notável falta de vontade exegética junto dos intérpretes. Pode-se já formular uma observação que poderia redimensionar o problema. dado que não querem abandonar a es- peculação teórica que lhes é afim. possivelmente também. uma relutância que impõe à polis onde fizeram a sua formação que recorra a medidas de persuasão e. à co- erção para exigir que contraiam a dívida que têm para com ela. mesmo da- queles que não estão ligados à interpretação straussiana. feitos cinquenta anos. não só os filósofos não querem abandonar os seus estudos para se dedicarem à política. F ilosofia e política No livro VII da República. numa passagem imediatamente seguinte. quase sempre menosprezada pelos intérpretes. 539e). A linguagem da constri- ção é efetivamente formulada a propósito da obriga- ção que os filósofos têm de voltar a descer à “caverna” da política (anankasteoi. como também. Trata-se de uma ten- dência que o legislador da kallipolis exclui solenemen- 222 . Tudo isto pareceria referir-se à tendência inati- va das formas de vida política e filosófica a separar-se uma da outra e a afirmar a própria autonomia: portan- to. assim que tomam o poder.

19). da dimensão “divina”. ao contrário da cidade. em particular. 223 . A kallipolis. Segundo Giovanni Ferrari (2003). a reivindi- cação da superioridade da vida filosófica sobre a vida política. portanto. não o reino. a política é infe- rior ao indivíduo porque ele. sobre a dimensão “humana” que constitui os limites da segunda. seja obrigatoriamente [ex anankes] impedida” de perseguir esta separação (473d). O ponto decisivo é que ele é indesejável e. 103). da superioridade (“teológica”) da filosofia sobre a política. é. que precedem a fundação da kallipolis e que são a sua condição ne- cessária.] de o estado descrito na República ser possível. sobre- tudo. Mas para os intérpretes straussianos outra é a coisa que está em jogo. a deixarem-se envolver pela política) e. indesejável. e a “filosofia. por isso.. é indesejável para o filósofo” (p. é o mais elevado achievement humano” (pp.te no livro V para garantir a salvação da cidade e da filosofia: “aquela maioria. pelos efeitos monstruosos que esta união contra natureza está destinada a produzir. própria da primeira. 90. cuja natureza tende agora para um destes polos [política e filosofia] excluindo o outro. Escrevia Rosen em 1990: “O problema [. em última instância. então. ou ser consi- derado possível por Sócrates. é impossível (por- que ninguém pode obrigar os filósofos. A Repú- blica proporia. Trata-se dos dogmas da incompa- tibilidade entre filosofia e política.. do perigo de toda a pretensão filosófica de conduzir a política a su- perar os limites que lhe são impostos pela sua natureza “mundana”. é capaz de filosofia. de interesse secundário.

A mensagem do diálogo seria. 107-8). Rosen reconhece que seria absurdo atribuir a Platão a convicção da não desejabilidade e da impossibilidade das finalidades visadas com o pro- jeto da República. protegido da contaminação da política. tenta- ção testemunhada pela Carta VII. mas não. escreve Rosen apelando-se explicitamente a Nietzsche. mais complexo. Sócrates afirma que quem conseguir terminar a sua vida mantendo-se “puro”. e as suas po- sições anteriores. Ferrari põe a hipótese de que megiston não significa “o melhor” (kalliston): um bom sistema político permanece “o maior resultado huma- no”. Ferrari é induzido a realizar uma grande distorção textual que merece ser assinalada. Platão preferiu es- crever a República em vez de procurar a oportunidade de obter a grandeza política) (pp. exatamente como se estivesse atrás de um muro durante uma tem- pestade. e à filosofia que a contempla (por isso. mas “o mais belo” cabe apenas à obra divina. A este propósito. Há na filosofia. e também em Platão. na realidade. por- que. 6). terá obtido um resultado “não de pouca con- ta”. na minha opinião. Mas a posição mais articulada e também a mais convincente a propósito desta ordem de problemas parece ser aquela defendida recentemente por Rosen no seu livro de 2005. uma “tentação do poder” (p. que teria conseguido num ambiente político propício como a kallipolis (496d-497a). Na célebre passagem do livro VI sobre o “muro”. Criticando Strauss. que Rosen – distin- guindo-se da maior parte dos estudiosos anglo-saxões 224 . “o máximo” (ta megista). indica um preconceito exegé- tico tipicamente straussiano. acrescenta.

ele perde a sua justifica- ção de o exercer. por um lado. cujos resultados ex- tremos se teriam manifestado no século XX. Mas Platão teria consciência de que o governo do saber está destinado a levar à transformação da filosofia em ideo- logia. dificilmente poderá cons- tituir a base da justiça [. quer no discurso. o desejo filosófico de poder está inevitavelmente exposto a um paradoxo: ao adquirir poder.]. A terapia filosófica está des- tinada a matar o paciente. e do seu poder em tirania. o “homem novo” que ela pretende criar corre o risco de se transformar num monstro. Deste modo. Referindo-se à passagem do livro VII sobre a expulsão dos adultos para o campo (eis agrous). em “expressar simultaneamente a necessidade que a 225 . a natureza humana. Platão (e neste segundo estrato de significação Strauss volta a ter razão) “mostra-nos dramaticamente como a filosofia. 10). é pedido um ato extremo de injustiça” (p. Por outro lado. quer também na ação” (p.das últimas décadas – reconhece como autêntica. O sentido da mensagem platônica consiste. isto é. 9). então. Rosen não hesita em forçar o texto para pintar este paradoxo com pinceladas sombrias. 244). tentando adquirir o poder político. Portanto... Sócrates “funda a tradição radical do Ocidente. segundo a qual a justiça deve ser perseguida mediante uma construção doutrinal” (p. se transforma em tirania”. Para instituir uma cidade justa. Rosen interpre- ta-o no sentido de eles terem de ser mortos: “um ato fundador que nos pede que matemos quem quer que supere os dez anos de idade. resulta que os próprios filó- sofos “estão destinados a sucumbir mal se dedicam à obra de desvio da tradição e de reconstrução dos fun- damentos de uma cidade justa.

é lí- cito perguntar-se se Platão realmente considerava uma “monstruosidade” a perspectiva de um tirania filosófi- ca. como já fizera Strauss. produzindo a sua politização extrema (p. Basta apenas re- cordar a passagem muito explícita do livro IV das Leis. A análise de Rosen (que certamente foi influen- ciada pela discussão sobre a tirania entre Strauss e Kojève. o resultado histórico da República seria bem diferente: ela constituiria a causa mais influente de deterioração da filosofia em ideologia. 229). Com tons que estranhamente lembram os de Hil- debrandt. “política” e “tirania” em sentido fortemente abstrato. De um ponto de vista histórico. e o perigo de uma para a ou- tra”. Afi- nal. por exemplo. Apesar da perspicaz consciência platônica acerca dos riscos da política para a filosofia. O seu limite consiste. a propósito do Hierão de Xenofonte) é im- portante e digna de reflexão. em usar. quase como se se tratasse de entidades histó- rica e socialmente invariantes. e da filosofia para a política. isto é. depois da paralela decadência dos tradicionais regimes oligárquico e democrático. uma ci- dade regida por um tirano [. que o diálogo testemunha. talvez.política tem de filosofia..] se a cidade tiver de 226 . “Deem-me. pede o futuro legislador-filósofo.. conceitos como “filosofia”. exercida ou aconselhada pelo filósofo. as tiranias do século IV representavam um mode- lo político de sucesso e fascinante para a intelligencjia grega. afirma Rosen: “A publicação da República é uma espécie de realização condensada das ambições políticas de Platão e uma ilustração dramática do fra- casso das suas viagens na Sicília”.

a cidade é necessária para a salvação da filoso- fia. t. por outro lado. embora conflitual. que tanto os intérpretes straussianos quanto os “liberais” consideram irônica). Le libéralisme platonicien: de la perfection individuelle comme fondement d’une théorie politique. in Contre Platon. É. De um lado está a irre- parável distância entre filósofo e a cidade dramatizada no Górgias e no Teeteto. Não há nem haverá modo mais rápido e eficaz do que este para estabelecer uma constituição” (709e-710b) (uma passagem. GRISWOLD. e a filosofia é necessária para a salvação da cidade. no modo mais rápido e melhor possível. NOTA BIBLIOGRÁFICA Para as interpretações liberais-democratas: C. a figura de um filósofo de profissão à maneira de Aristóteles (que estruturaria esta tensão em textos como a Política VII e Ética a Nicómaco X). en- tenda-se. entre República. do outro. Político e Carta VII. assim que for realizada. a íntima relação. e. um intelectual aristocrático que se situa entre a tradição pitagórica e a de Sólon – da qual deriva a vocação régia da filosofia –. a mensagem da República parece em si mesma inequívoca: sejam quais forem os riscos desta ligação. toma- do isoladamente. lhe per- mita gozar da máxima felicidade. II: Le 227 .dotar-se. difícil de negar que há em Platão uma tensão entre filosofia e política. de uma constituição que. Mas. todavia. L. Esta tensão reflete provavelmente a colocação histórica de Platão.

Para a crítica destas interpretações. par M. Sobre a utopia. tradução italiana em Id. R. C. cf. cf. KRAUT. Socratic Studies. 1994. Athenian Politics and the Pratice of Philosophy. e. Oxford: Clarendon 2002. sobretudo. PRADEAU. Textos e comentário em F. em geral. 185-215. Athenian Democracy. pp. pp. Studi Platonici I. Plato’s Utopia Recast: His Later Ethics and Politics. Sócrates and the State. 155-95. pp. RENAUD. S. Platone contro la democrazia. J. in “Journal of Hellenic Studies”. 1988. DE LUISE. 121 (2001). Paris: Vrin 1995. 2008. GADAMER. pp. 61-91. MONOSON. cf. Die platonische Hermeneutik Hans-Georg Gadamers. 1984. cf. 1983. BERTELLI. VLASTOS. 63-76. 107-50. Modern Mythmakers and Ancient Theorists. L. les démocrates et la démocratie. Platone e i poeti (1934). Killing Sócrates: Plato’s Later Thoughts on Democracy.platonisme renversé. Em particular. Die Resokratisierung Platons. Napoli: Istituto di Studi Filosofici. para o Político. 2005. pp. cf.-F. Platon. cf. 2005. Platone e il pensare in utopie (1983). G. J. para Sócrates. ROWE. Platone contro la democrazia (e l’oligarchia). 1998. Dixsaut. tradução italiana em L’anima alle soglie del pensiero nella filosofia grega. para as Leis. cf. Infelicità degli archontes e felicità della polis. Princeton: Princeton University Press. BOBONICH. Napoli: Bibliopolis. Plato’s Democratic Entanglements.. in CR III. H. para a República.se em F. 1996.. pp. W. Sankt 228 . Notre Dame (IN)-London: University of Notre Dame Press. G. in CR VI. A. Sobre Gadamer e Platão. Milano: Rizzoli. FERRARI. Cambridge: Cambridge University Press. SAXONHOUSE. Princeton: Princeton University Press. C. 2000. F. 295-396. Genova: Marietti. S. G. Uma equilibrada releitura das teses de Vlastos e Griswold encontra. FARINETTI.

1985. Torino: Einaudi 1981. para o comentário de D. STRAUSS. The Republic of Plato. Platonic Studies of Greek Philosophy.Augustin: Academia. 235-55. D. tradução italiana em Id. pp. in The Cambridge Companion to Plato’s ‘Republic’. S. 267-89. 93 (1988). pp. 2003. 50-138). STRAUSS. 277-321). Uso e abuso della storia. in “The New York Review of Books”. F. 105- 77). Cambridge: Cambridge University Press. Plato’s ‘Republic’. F. and interpretative essay. cf. cf. 2005. transl. Albany: State University of New York Press. The Utopian Character of Plato’s Ideal City. A. 2000. Ithaca (NY)-London: Cornell University Press. D. pp. cf. 1989. 317-35. History of Political Philosophy I (1963). New Haven- London: Yale University Press. ROSEN. Beautiful City. FINLEY. Para L. Bologna: Il Mulino. 2007. Ferrari. R. Il politico e la Legge. Leo Strauss. Chicago: University of Chicago Press 1964 (pp. cf. tradução italiana Milano: Giuffré 1973 (pp. ROSEN. Acerca de Strauss em geral. MATTEO VEGETTI. 30-6 (pp. 1999. in “Revue de Métaphysique et de Morale”. I. Introduzione alla ‘Repubblica’ di Platone. J. Napoli: 229 . edited by G. ALTINI. The Dialectical Character of Plato’s ‘Republic’. L. New York: Basic Books 19912. S. C. Sobre os conceitos de utopia. MORRISON. Taking the Longer Road: The Irony of Plato’s ‘Republic’. A Study. A. 35). HYLAND. BRUMBAUGH. BURNYEAT encontra-se em Sphinx Without a Secret. The City and Man. Utopie antiche e moderne (1971). BLOOM. no prelo. Liberalismo antico e moderno. May 30.. La “serietà della politica” in Leo Strauss e Carl Schmitt. tradução italiana (medíocre) Genova: il Melangolo 1993 (pp. As obras de orientação straussiana são citadas na seguinte ordem: R. S. pp. 33. ROOCHNIK. CROPSEY. R. M. A citação de M.

J. Da Ierone a Stalin. La discussione fra Strauss e Kojève sullo ‘Ierone’ di Senofonte. cf. 1990. Sankt Augustin: Academia. M. F. 2009. M. 2000. STRAUSS. a propósito. On Tyranny.Istituto di Studi Filosofici. Para a discussão sobre o Hierão de Xenofonte.). Il regno filosofico. VEGETTI. KOJÈVE. R. 230 . City and Soul in Plato’s ‘Republic’.. A. G.-F. FERRARI. Sankt Augustin: Academia. Cf. Études sur les figures royale et tyrannique dans la pensée politique grecque et sa posterité. 335-64. cf. VEGETTI. L. le tyran. in CR IV. 2003. Le philosophe. Lisi. pp. le roi. Para um balanço da questão da relação entre filosofia e política em Platão. New York: The Free Press 1991 (tradução francesa Paris: Gallimard 1997). in F. Pradeau (éds.

porque obriga os intérpretes a confrontar-se com uma evidência textual imponente. e com o consenso quase unânime de uma tradição exegética plurissecular. se coroada de sucesso. todavia. a . libertar Platão do vestígio embaraçoso de um radicalismo político que o torna estranho ao âmago tranquilizador do pensamento liberal-democrata. 8. teórico e prático. apresenta uma dupla vantagem para os seus defensores: refutar definitivamente Popper. que vai de Aristóteles ao mesmo Strauss (com a exceção parcial de Proclo). na dimensão política. creio. mostrando que a sua tese requisitória se dirigia a um Platão político inexistente. PLATÃO SEM POLÍTICA PLATÃO IMPOLÍTICO A estratégia que consiste em negar a Platão quais- quer interesses e engajamento. é certamente a mais perigosa. Estas vantagens explicam. Esta tática extrema.

Comentando a passagem do livro IX (592a-b) que já se mencionou e do qual voltarei a falar no final do parágrafo. O salto para o ser – para 232 . aliás. te- ologicamente fundada. que de simples metáfora da polis se torna a descrição de uma realidade existencial. mas qual- quer ordem política histórica. em primei- ro lugar. O fracasso prático do empenho político de Platão. Vögelin não nega absolutamente a centralidade da política no pensamento e na obra do filósofo.difusão recente da linha interpretativa despolitizante. e segue de perto o movimento dialogal da República. ele faz uma inversão radical de perspectiva. Na conclusão do diálogo. A montante. descritos com tons que às vezes parecem ser os de Hildebrandt. Vögelin é um crítico da modernidade e um defensor da necessi- dade de subordinar a política a uma ordem superior. No capítulo platônico da sua monumental obra Ordem e história. deve ser mencionado o seu anômalo precursor: trata-se do gran- de filósofo da política Erich Vögelin. que ne- gava quaisquer destinos políticos à Academia. Platão são revistos segundo esta prespectiva. além do Jaeger “americano”. Vögelin escreve que “a investigação sobre o paradigma de uma nova polis ganha o aspecto de uma investigação sobre a existência do homem numa comunidade que transcende não só a polis. a boa constituição da alma. po- rém. apesar das suas dificuldades intrínsecas. que no livro VI é generalizado teoricamente pela tese da impossibilidade da ação política do filósofo na cidade hostil. Tal como Strauss (do qual se diferencia apenas pelo catolicismo). transforma o sentido da “politeia interior”. a tradição clássica e.

que caracterizam os dois regimes como go- verno da massa e governo de poucos. A sua argu- mentação tende. igualmente retomada por Aristóteles). a enfraquecer o caráter político da República.] uma politeia trans- política que se encontra no céu e que será realizada na alma de quem a observa” (p. 233 . em dois ensaios de 1997 e de 1999. Vögelin configurava desta forma a transição da Repú- blica da dimensão política à dimensão moral e religiosa. Trata-se de uma “deslocação definitiva na direção da alma e na da sua ordem transcendente [. teriam alguma pertinência política. com efeito. Por exemplo. mas constitui a sua estrutura total: todo o discurso político deve ser concebido como uma metáfora da ordem moral da alma. Por esta via se encaminhou certamente Julia An- nas. em primeiro lugar. 151). 150). Mas é evidentemente apenas um preconceito da intérprete que faz com que se conside- re “impolítica” a respectiva definição como governo dos pobres e dos ricos (aliás.a forma transcendente da ordem – dá-se verdadeira- mente em Platão: e as eras seguintes reconheceram corretamente nesta passagem uma prefiguração da conceção agostiniana da Civitas dei” (p. é interessante a recusa em atribuir qualquer pertinência política às análises da democracia e da oligarquia no livro VIII: só o Político e as Leis. até o pôr radicalmente em questão. os defensores recentes da despoliti- zação de Platão (que.. afirmam que a passagem da política à moral (com ou sem saída transcendente) não é o resultado de um movimento dialético da República.. Diversamente dele. não o mencionam).

se o seu tema não é a po- lis ideal? O fato de ela ser retomada no Timeu permite. Annas escreve no ensaio de 1997: “Esta parte mais aberta- mente política da República parece descurar as reali- dades políticas tão deliberadamente que sempre houve uma dúvida quanto à seriedade das intenções de Pla- tão e. 145). 144). poder filosófico). formular uma primeira resposta: aquele mito “sugere fortemen- te que na República Platão pense. nada na biografia platônica que conhe- cemos (considerando a Carta VII inautêntica ou do- cumento irrelevante) pode fazer-nos pensar num in- teresse seu pela política. p. Para concluir: as ideias políticas do di- álogo são apresentadas de such sketchy. O que é então a República. sobre o papel dos argumentos políticos da República em relação ao argumento moral principal” (p. 155 segs. insuficientemente desenvolvidas. a propósito destes detalhes [tais seriam a abolição da família e da proprie- 234 . além de “breves. segundo Annas. comportamento em guerra. limitando-se a mencionar a tese de Brunt sem discutir sequer as fon- tes (1997. marginais” (1999. elas parecem arbitrária e deliberadamente não realistas” (p. mais em geral. se tomadas à letra. nem este interesse pode ser atribuído à Academia. à luz do mito da Atlântida. Quanto às “vagas” do livro V (abolição da família e da propriedade privada para a classe dos governantes.). defende Annas. pp. 152-3). ainda: “as propostas políticas são absurdas. 82). De resto. incompleteand extreme ways que faz com que as consideremos estra- nhas à “tradição séria” da filosofia política à maneira de Locke e de Hobbes (1997. pp.

). 84 segs. só um percurso útil para responder à questão inicial. escreve Annas com a inevitável referência à passagem do livro IX 592a-b. p. de fato. indicada pelos comentadores médio-platônicos. de leitura mais rápida: a passagem à po- lítica representa. Se esta é. Mais atentamente Annas refere-se à passagem do livro II. pp. A discussão acerca do estado ideal não tem relevância política: ela é introduzida para “iluminar a alma” mediante a po- derosa metáfora da hierarquia das partes. 1999. a tese moral da República. concebido como um texto igual mas escrito com carateres maiores e. a autossu- ficiência da virtude em vista da felicidade (1997. da mesma maneira. A via para uma correta leitura da República é-nos. 91). para não falar de propostas práticas” (1999. 145). como Annas procura demonstrar. o desenho da kallipolis tem unicamente a “função de permitir ao indivíduo a formação de uma ideia de virtude que ele possa interiorizar e seguir na vida” (1997. que consti- 235 .). 88 seg. p. então. por conseguinte.dade privada. que liam nela um texto de ética que visava afirmar. pp. Por isso.. ou a paridade entre os sexos]. pp. à maneira socrático-estóica. então a questão da desejabilidade e possibilidade do estado ideal torna-se completamente irrelevante. por- que ele não é necessário para a completude da virtu- de e para a felicidade que dela deriva (1999. como Alcínoo. ou seja. 146 segs. mais como construções imaginárias do que como argumentos sérios para a discussão po- lítica. onde a investigação da justiça no indivíduo se desloca para o âmbito da polis. portanto.

pp. pelo menos porque põem em discussão aquele direito ao governo de quem possui uma expertise política. o seu sucesso junto de uma parte dos estudiosos parece dever-se mais ao fato de os argumentos oferecerem uma resposta de- finitiva a Popper (e ao Platão “mestre ruim”) do que a uma intrínseca capacidade de análise do texto. repete Annas. mais “liberais” do que a República. é “tornar o indivíduo capaz de alcançar uma ideia de moralidade que possa interiori- zar” na sua vida virtuosa (1999. As teses de Annas parecem tão fortes como sumaria- mente argumentadas.tui um modelo para a ordem moral individual. quando muito pode-se reconhecer algum interesse político no Político e nas Leis. 90).). para usar os termos que a autora atribui à República. 80 seg. com razão ou não. sketchy and incomplete. que não nega de todo uma valência política à República mas a passa para segun- do plano relativamente à questão da alma individual. O primeiro desenvolve de maneira radical a tese de que as posições teóricas são dependentes do con- 236 . Um esforço importante para uma melhor articu- lação da tese “metafórica”. o seu papel. afirmado mas não argu- mentado na República (1999. os livros VIII e IX do diálogo. com a sua embaraçante herança. p. De resto. foi levado a cabo por Norbert Blössner (1997) e em seguida por Giovanni Ferrari (2003). que discutem. sobretudo. e reduzida a uma espécie de texto ético que antecipa o estoicismo. é expulsa da história da filosofia política. onde a analogia entre alma e cidade é menos marcante. estes diálogos gozam de maior fama porque foram considerados. A República. como se sabe.

e excecional. há uma correspondência perfeita. nega. prontos a compreender a linguagem da política: o objetivo é convencê-los da conexão neces- sária entre ordem moral da alma e felicidade (pp. pelo contrário. que se mostram logo evidentes. o modelo dos conflitos políticos. com efeito. salvo em casos extremos do reino filosófico e da tirania. mesmo admitindo a presença de uma dimensão política no diálogo.texto dialogal onde elas são propostas. dotada de um grande po- tencial persuasivo face a interlocutores como Gláucon e Adimanto. por sua vez. 190 segs. entre a ordem política e a psi- cológica dos homens no poder. nem os tipos psicológicos determinam os regimes da pri- meira). apenas analógica: a 237 . a possibilidade de instituir uma relação de dependência causal entre cidade e alma (a primeira não determina a ordem da segunda. Blössner conclui que Platão não cria uma verdadeira construção teórica. 212). e a convencer-nos dos resultados eudaimônicos da justiça (pp. onde. 169.). Com base nas dificuldades apresentadas pela re- lação entre tipos individuais e regimes políticos de- senhada no livro VIII da República. que podem es- capar a indivíduos pouco propensos à introspeção (p. visa ilustrar metafori- camente os conflitos interiores da alma. Após ter identi- ficado as contradições inerentes à suposta homologia entre alma e cidade. mas uma “téc- nica literária” metafórica. a correspondência é. sobretudo. A aproximação dialógica leva Blössner a considerar a República uma obra não primariamente política. Ferrari. nota 462). a fazer luz sobre a organização e a ordem da alma. Em casos normais. Por exemplo. mas destinada. 165.

ou nos teatros. 50. 65 seg. “se sentam em massa nas assembleias ou nos tribunais. a superioridade do indivíduo.razão está para a alma como o governo está para a ci- dade (pp. Deste modo. que for capaz. Deve-se. 50). e vice-versa). afirma Ferra- ri. A consequência desta análise é.). todavia. observar que estes estudiosos descuram passagens cruciais onde Platão parece insti- tuir uma relação não metafórica. “Quando”. segundo Ferrari. e exalta o indivíduo colocando-o acima da sociedade” (p. que convém citar completamente. Em primeiro lu- gar. há um texto memorável da República VI onde se descreve a influência positiva e negativa da cidade (neste caso democrática) sobre a alma dos jovens. a anarquia pessoal do “homem de- mocrático” ilumina a anarquia da cidade democrática. apesar de eles não exercerem nenhuma causalidade recíproca. sobre a cidade. ou em qualquer ou- 238 . 61. A relação analógica permite fazer compreender melhor ao leitor a estrutura dos elementos postos em relação metafóri- ca (por exemplo. ou nos acampamentos. mas de dependência bicondicional. por con- seguinte. entre alma e cidade. que a República “focaliza mais a alma que a cidade. esta segun- da conclusão depende da tese straussiana que afirma a superioridade da filosofia sobre a política e. o que equivale a dizer – à maneira de Annas – que o regime político é irrelevante relati- vamente à “constituição interior” da alma. disse. 89): como se viu. “a alma parece radicalmente disengaged em relação à cidade” (p.

tra reunião comum de multidão, com gran-
de barulho ora desaprovam, ora elogiam os
discursos e as ações, e exageram quer nos
berros de desaprovação quer nos aplausos,
de modo que até as pedras e o lugar onde
se encontram fazem-lhes de eco redobrando
o barulho da desaprovação e do louvor. Em
tais situações, que coração – segundo o dita-
do – pensas que pode ter o jovem? Que edu-
cação privada poderia resistir nele sem ser
atropelada por um tal fluxo de desaprovações
e de elogios, sem se deixar transportar para
onde a corrente o leva? Não dirá, talvez, que
são belas e feias as mesmas coisas que a mul-
tidão pensa, não adotará o mesmo estilo de
vida, as mesmas ocupações, tornando-se um
deles?”. “É realmente necessário, Sócrates”,
disse ele. “E olha”, disse eu, “que ainda não
falamos da necessidade maior”. “Qual?”, dis-
se. “Aquela que estes educadores ou sofistas
acrescentam com os fatos, quando não con-
seguem convencer com as palavras: ou talvez
não saibas que quem não se deixa convencer
é punido com a privação dos direitos, com
as confiscas, com as condenações à morte?”
(492b-d).

Pelo contrário, pode recordar-se, por exemplo, a in-
fluência positiva que a cidade justa, com as suas ações
e até com os seus edifícios, exerce sobre a alma dos jo-
vens, “como uma aura que traz saúde, provindo de lu-
gares benéficos”, induzindo a alma a conformar-se com
a “bela razão” (III 401c-d). Ao invés, quanto à relação

239

de causação entre tipos de alma individual e regime
político, bastará lembrar a passagem em que Platão
exclui que as “constituições nasçam de um carvalho ou
de uma rocha”, e não dos caracteres de quem vive nas
cidades (VIII 544d-e; veja-se também IV 435e seg.).
Não obstante o caráter inegavelmente imperfeito da
homologia entre alma e cidade esboçada no livro IV e
retomada no livro VIII, à luz destas e de muitas outras
passagens semelhantes, parece verdadeiramente difícil
negar que a cidade exerça uma influência causal sobre
a conformação interior da alma, positiva ou negativa,
segundo os diversos regimes (e vice-versa: a cidade má
forma uma alma medíocre que deseja viver numa cida-
de que lhe é homogênea). Por conseguinte, é igualmen-
te difícil defender que um bom governo, como o da
kallipolis, não seja influente e relevante para a auto-con-
figuração moral do indivíduo, e que a dimensão moral
pessoal seja de todo independente do ambiente em que
se vive. Mas se assim é, então torna-se impossível des-
politizar o sentido total da República, em vista de uma
destinação moral prevalecente, ou exclusiva. Apesar de
ser para muitos desagradável, e exposta a críticas de tipo
popperiano, a dimensão política da República pareceria
ser, pelo menos, tão relevante como a dimensão ética.

K atoikizein

Tem-se feito muitas vezes referência, neste capítulo
e no anterior, à passagem do livro IX da República,
que constitui o maior ponto de força textual para os

240

intérpretes que querem negar, ou enfraquecer, o cará-
ter político do diálogo, lendo-o, pelo contrário, como
uma investigação sobre a moral individual. É, pois, o
caso de discuti-la com a atenção necessária.
Após uma longa análise, que descreveu o compor-
tamento moral do homem justo numa sociedade di-
versa da kallipolis, Sócrates conclui:

O mesmo acontece com as honras: ao visar o
mesmo objetivo [isto é, a preservação integral
da sua politeia interior, 591e], de boa vontade
frequentará e usufruirá daqueles que ele pensa
que o possam tornar melhor, e fugirá, privada
ou publicamente, dos que correm o risco de
arruinar a estabilidade da sua condição.
Por isso, disse Gláucon, não quererá, decer-
to, fazer atividade política, se for dela que se
ocupa.
Pelo Cão, disse eu, fá-lo-á, e muita até, na ci-
dade que é sua, talvez não na sua pátria, a não
ser que se dê alguma sorte divina.
Percebo, disse: queres dizer na cidade cuja
fundação estamos discutindo, a que está nos
discursos, pois não penso que ela exista em
nenhum lugar da terra.
Mas talvez, disse, esteja no céu como um
modelo [paradeigma], à disposição de quem
o queira ver, e tendo como objetivo heautòn
katoikizein. Mas não faz nenhuma diferença
se ela existe em algum lugar ou se existirá no
futuro: ele poderá agir só em vista da política
desta cidade, e de mais nenhuma (592a-b).

241

O problema crucial está na interpretação das duas
palavras que deixei em grego transliterado. No início
do século XX, o grande comentador inglês Joseph
Adam traduzia-as em found a city in himself, seguin-
do talvez, legitimando certamente, um preconceito
exegético persistente. O texto parecia, então, dizer
claramente: 1. a realização do projeto da kallipolis no
tempo histórico é impossível; 2. de toda a forma, é
irrelevante, porque a sua função consiste em fornecer
um modelo a ser interiorizado para construir a virtu-
de individual, para “refundar-se a si mesmo” segundo
o paradigma da justiça; 3. dado que o homem justo
agiria politicamente somente na cidade justa, que
não pode existir, manifesta-se a sua radical estranheza
à política. O sentido da República consistiria, então,
em última instância, na separação de moral individual
(onde é possível fundar a virtude) da dimensão políti-
ca (onde é impossível fundar a cidade justa).
Creio, todavia, ter demonstrado (2005) que a tra-
dução de Adam, tão propícia a confirmar a exegese
impolítica da República, não é sustentável do ponto
de vista linguístico. Katoikizein com acusativo vale
normalmente, em grego e em Platão, “ocupar, trans-
ferir, fazer habitar” alguém em algum lugar; muitas
vezes designa o “fundar uma colónia”, fazendo com
que a população ocupe uma nova localidade. Na nos-
sa passagem, portanto, o sujeito que tenha decidi-
do abandonar a política da própria pátria histórica
“transferir-se-á para” o “céu” do paradigma, isto é, na
perspectiva teórica da cidade justa (também Morrison
aceita esta exegese, 2007: make himself its citizen). Para
isto, são necessárias duas decisões. A primeira, de or-

242

dem intelectual, consiste em querer compreender o
paradigma teórico (confira-se 472d: “produzimos no
discurso, o paradigma da cidade boa”); a segunda, de
ordem moral, comporta o querer mudar o próprio
habitat político, continuando a visar aquele paradig-
ma. À luz destas premissas, compreende-se melhor o
que vem depois, que tem literalmente este valor: “fará
as coisas desta cidade apenas, e de nenhuma outra”. O
sentido político da República decide-se com esta frase.
Ela encerra dois significados que não podem ser sepa-
rados. O primeiro é que o homem justo (o filósofo),
obviamente, concentrará o máximo da sua atividade
política na nova cidade, em vista da sua conservação.
O segundo é que ele, se agir na pátria histórica, fá-lo-á
só em vista e em função do advento da outra cidade:
isto não se exclui, mas pode acontecer só com o favor
daquelas circunstâncias excepcionais que Platão indica
como uma “sorte divina”.
Corretamente traduzida e interpretada, a nossa
passagem não constitui de maneira nenhuma uma
prova do caráter essencialmente não político, e dirigi-
do à interioridade moral do indivíduo, da República.
Ela retoma de perto o lugar importante do livro VI,
onde se afirma que em vez de se limitar a “plasmar só
a si mesmo”, o filósofo pode encontrar-se na situação
de ser induzido pelas circunstâncias a transformar a ci-
dade segundo “a ordem que vê lá em cima” (500d), ou
seja, no “céu” da teoria normativa. Não se trata, pois,
em ambos os casos, de se limitar à interiorização da
norma moral, mas de iniciar uma ação política trans-
formadora da cidade histórica, mesmo que ela seja
possível só em condições excepcionalmente favoráveis.

243

A QUESTÃO DA CARTA VII

É claro que a avaliação do envolvimento político
de Platão, é, por conseguinte, também da relação entre
República e âmbito da política, depende, pelo menos,
em parte do problema historiográfico posto por aque-
la espécie de autobiografia em forma epistolar que nos
chegou com o título Carta VII (dirigida “aos amigos
de Díon” e que pode ser datada em torno a 353).
É o caso, antes de tudo, de dar brevemente conta
dos conteúdos pertinentes ao problema.
Platão conta, assim, a sua experiência enquanto jovem.

Quando era jovem, partilhei uma paixão co-
mum a muitos; pensava: assim que alcançar
a minha independência, entro na vida políti-
ca da cidade (324b).

Nada de estranho nisto, visto a pertença de Platão
a uma das famílias mais renomadas de Atenas, e en-
volvida na história política da cidade quer pela sua
genealogia, que remontava a Sólon, quer pela direta
participação de muitos dos seus membros nela. Entre
eles havia Crítias e Cármides, tio e irmão da mãe de
Platão, os protagonistas principais do golpe de estado
oligárquico que em 404 derrubou a democracia ate-
niense, instaurando o chamado regime dos “Trinta ti-
ranos”. Ao jovem Platão foi proposto, claramente, um
envolvimento nesta aventura; todavia, o regime dos
Trinta tiranos cedo lhe desagradou pela sua violência
opressiva.

244

a trágica impotência da sua tentativa de influir sobre a condução política da cidade e. pois. Convencia-me de que não era possível fazer nada sem homens que fossem amigos e companheiros de confiança (352c-d). com indignação daqueles crimes. quanto o eventual empenho na política. A condenação de Sócrates marcou. uma fratura incurável entre a sua vocação filo- sófica e a política ateniense. Voltei a refletir sobre tudo isto – os homens que faziam política. Entretanto. para Platão. as leis. De novo. embora com menor impaciência. Estas palavras refletem a solidão de Sócrates. O restaurado regime democrático manchou-se bem cedo de um crime fatal aos olhos de Platão e dos seus companheiros: o processo e a condenação à morte de Sócrates. o mestre de tantos jovens aristocráticos ate- nienses (399). mais me pa- recia difícil governar corretamente a vida po- lítica. “aguardando sempre o momento propício para a ação”. com a intenção de constituir aquele grupo de “amigos e companheiros” com os quais enfrentar tanto a investigação filosófica. e chega à 245 . Não muito tempo depois caíram os Trinta e todo o seu regime. Platão continua a observar a situação. Afastei-me. tomou-me o desejo de me empenhar na vida política e nas ações públicas (352a-b). os costumes – e quanto mais avançava na idade. por outro lado. ante- cipam a fundação da Academia.

mas incapaz de se empenhar em qual- quer ação” (328b). Quaisquer que fossem as in- tenções de Platão ao fazer esta viagem. Dionísio II mandou exilar Díon. no fim. a grande cidade governada pelo po- tente tirano Dionísio I. talvez devida às pressões de Díon. suspeitas e intrigas. um jovem aristocrata siracusa- no que o filósofo considerava o mais dotado dos seus alunos. Primeiro. Relutante em aceitar a proposta. segundo a Carta VII. Díon estava convencido de que uma intervenção direta de Platão poderia “conver- ter” o jovem tirano ao exercício de um governo “filo- sófico” (mas. que Platão se prepara para fazer a sua primeira viagem a Siracusa (388/7). talvez esperasse secretamente usar a au- toridade do mestre para tomar. o poder). elas revelaram-se uma desilusão e induziram Platão a um regresso rápido à pátria: a forma corrupta de vida da metrópole siciliana não parecia de forma alguma suscetível de melhoramento. por sua vez.conclusão. ciúmes. depois foi obrigado a consen- 246 . A expedição de 366/5 (que na narração do Díon de Plutarco parece uma verdadeira invasão da corte siracusana por parte dos Acadêmicos) consumiu-se ra- pidamente em nobres ingenuidades. procurando reter Platão. Vinte anos depois morria o tirano Dionísio I e lhe sucedia o filho Dionísio II. e ciente dos perigos que esta comportava. Platão decide ceder ante as insistências de Díon “porque me teria envergonha- do muito de parecer a mim mesmo com um homem só de palavras. É com esta convicção. segundo a qual só a união de filosofia e poder político poderia sanear os males da cidade (326a-b). destinada a formar o centro da República.

Mas Platão. devendo considerar-se as outras apócrifas. sob o comando de Díon e com o apoio de Espeusipo (além de. Este é o “testemunho” autobiográfico da Carta VII. junto da opinião publica siciliana e grega. como diziam já os antigos (e como reconhecem recentemente Ferrari e Rosen). todavia. morre em 354). seria necessário supor a existência de um alter ego seu. com o tácito consenso do mestre). embora o seu poder acabe por resultar efêmero (de fato. organizam uma expedi- ção militar à Sicília: Dionísio é derrotado e deposto. geralmente aceite durante a primeira metade do século XX. mili- tam algumas boas razões. realizou em 361 a terceira tentativa siracusana. um “segundo Platão”. se fosse considerado autêntico. A linguagem e a fidelidade aos textos platônicos conhecidos (em primeiro lugar. República e Leis) são tais que se o autor não fosse Pla- tão. destinada a concluir-se de maneira ainda mais macabra e perigosa que as an- teriores. A primeira é que a Carta VII pertence a um corpus de 13 epístolas no qual ela seria a única autêntica. destinado a cancelar a suspeita.tir que Platão regressasse a Atenas. A favor da autenticidade da epístola. Há. Aqui termina o envolvimento direto de Pla- tão nas vicissitudes siracusanas. mais uma vez pela insistência de Díon. É claro que. 247 . provavelmente. outras tantas razões para duvidar da sua autenticidade. Mas não o dos Acadê- micos. que em 357. e Díon toma o seu lugar. este autotestemunho eliminaria quaisquer dúvidas acerca das intenções políticas de Platão e da direta in- teração entre filosofia e política por ele praticada. que Platão e os Acadêmicos tivessem tramado algo para conquistar a tirania em Siracusa.

pelo contrário.obra de falsários como todos os epistolários legados pela antiguidade. assim. de qualquer for- ma. A sua linha prevalente (clara. todavia. o seu valor docu- mental acerca dos interesses e o engajamento político de Platão e da Academia. ignorando os parece- 248 . este tipo de dúvidas. Por fim. seja. No plano filológico. A Carta VII conservaria. porém. além de passagens dos textos platônicos de que o falsário poderia ter-se apropriado. as ações siracusanas de Platão e dos seus seguidores. se não atribuível a Platão. Espeusipo te- ria composto uma biografia de Platão. há a intenção apologética de justificar. de forma intacta. apesar dos esforços insistentes dos estudiosos de orientação oposta. sobretudo. omissões e imprecisões narrativas que dificilmente podem dever-se ao enfraquecimento da memória do velho Platão. post factum. ainda. a uma testemunha bem informada (Bertelli). talvez ao mesmo Espeusipo (Finley). considerações fi- losóficas que. a carta é certamente inautêntica: isto é asserido através da única referência ao impor- tantíssimo ensaio de Edelstein. lhe parecem estranhas. que podia ter à disposição aqueles domestica documenta. Há. a carta apre- senta. devida a um “discípulo devoto” seu (Brunt). a questão da autenticidade é provavelmente indecidível. contudo. Mais especificamente. com base nas quais. segundo Apuleio. uma terceira e interessante pos- sibilidade: que a carta. tal como o célebre excursus (342a-344d) e. em Annas) articula-se da seguinte forma: 1. Os intérpretes interessados na despolitização de Platão e na expulsão do âmbito político da República não têm.

von Fritz. contrariamente à maior parte dos historiadores. Stenzel e Maddalena). nenhum valor documen- tal. ao invés. Wilamowitz. quer posteriores e recentes (por exemplo. a carta não tem. contudo.res opostos. A questão da Carta VII é certamente destinada a per- manecer em aberto. parece derivar mais de um preconceito exe- gético do que de uma cuidada análise do problema nos seus diferentes aspectos filológicos e historiográficos. os do Díon de Plutarco e de Filodemo. em primeiro lugar. 3. 2. porque dependeriam exclusivamente dela (convém observar que os historiadores atribuem. como a carta que o acadêmico Timónides de Leucade enviou a Espeusipo para o informar dos eventos). que não tem relevância histórica. a Plutarco ótimas fontes independentes. ela pertence ao gênero literário epistolar. o caráter falso ou ficcional da carta invalida também o valor dos outros testemunhos relativos à política platônica. nos fascículos de 1964 e 1965 da 249 . Mas a resolução dogmática com a qual os intérpretes que negam interesses políticos a Platão e à República recusam qualquer relevância do- cumental à epístola. UMA RÉPLICA ALÉM DO MURO: O STREIT UM PLATON NA DDR Uma espécie de réplica condensada do processo a Platão originado no Ocidente pela acusação de Popper teve lugar na DDR. e o seu valor documental deve ser utilizado com muita cautela. quer anteriores a Edelstein (por exemplo. Isnardi e Brisson). autêntica ou não.

e com um “revolucionário” proje- to educativo que Schottlaender indica como um dos maiores méritos platônicos. ele visa atenuar a gravidade das acusações levantadas por Mende. Na veste de acusador age aqui Georg Mende. todavia. A aristocracia do espírito que ele quer construir não coincide com a do nascimento. e esta filosofia ofereceu o fundamento teó- rico à sua concepção política de uma “aristocracia do espírito”. nem sequer lhe pode ser atribuída uma ideologia de aristocrata esclavagista. O papel da defesa cabe a Rudolf Schottlaender. Ele insiste também. destinada ao governo. Na realidade. no qual se exprime somente a ideologia da aristocracia esclavagista grega.revista “Das Altertum”. Platão foi. à qual ele dirige críticas duríssimas: trata-se de uma nova elite a ser selecionada pelos seus valores inte- lectuais e morais. Portanto. nos interesses científicos de Platão. Tal como os primeiros defensores de Platão relativamente às acusações de Popper. da 250 . Mende propõe-se pôr fim àquela tenaz Platonlegende que atribui às doutrinas do velho filósofo um valor atemporal e super partes. o seu pensamento oferece “um modelo experi- mentado aos inimigos de classe do povo”. com particular vigor. se- gundo o mote de Lenine. professor em Jena. cujos argumentos – apesar da radical diferença de linguagem e dos pontos de vista – apresentam uma notável semelhança com os de Popper. o fundador do “idealismo objetivo”. “Platão não tem mais nada a dizer à grande maioria dos homens de hoje”. no má- ximo. conclui Mende. Platão não é cer- tamente um adepto da democracia socialista.

do qual se exclui a massa dos trabalhadores ma- nuais. pois. dominado pela aristocracia escravista como “classe necessária!”. a marginalização da República: afi- nal. a forma primitiva do comunismo precede a da produção de mercadorias que Platão critica). Alguns anos mais tarde. mas a educação (e com ela também a filosofia) é sempre um privilégio da classe. à cosmologia. Por fim.matemática à astronomia. Ele crê que se deve confirmar a carac- terização de Platão como ideólogo da aristocracia es- cravista. que vão além dos limites do seu “idealismo objetivo” e que são rele- vantes também para a história da formação do “mate- rialismo científico”. Os limites objetivos do pensamento platônico devem-se ao mundo histó- rico-social no qual ele se formou (uma reformulação marxista da tese hegeliana. ela não é a única obra de Platão nem o seu Haup- twerk. É verdade que a aristocracia por nascimento deve ser aperfeiçoada pela educação. Mesmo em negativo. escrita em 1978 por Hans-Martin Gerlach e Günter Schenk. Platão é o ideólogo da aristocracia esclavagis- ta porque é um teórico crítico do desenvolvimento da produção de mercadorias. Schwarzkopf introduz. envolver todo o pensamento platônico. porém. o debate concluía-se na introdução densa e importante à República. uma interessante anotação. Schottlaender repete uma tática defensiva que bem conhecemos. Es- 251 . a crítica ideológica da República não pode. Um primeiro veredito foi pronunciado por Ekkehard Schwarzkopf. a sua posição constitui um momento dialético do processo que levará à crítica comunista da mercadoria (de resto. portanto).

parte de formas sociais reais: a Esparta con- servadora. o projeto da República era impossível (nos fa- tos. 17 seg. Mais em particular. Trata-se de um pensador conservador- reacionário porque teorizava a desigualdade natural entre os homens.). a excluir Platão daquele lugar da história do comunismo utópico. 33). Mas. não segundo o seu autor) porque visava mutar a es- trutura da realidade histórica e econômica apenas com os instrumentos da ideologia e da política: uma luta vã para bloquear o progresso histórico (aqui os autores ecoam Popper). de fato. porém. em primeiro lugar. é constru- ída mediante um processo de abstração idealista que. sobre a qual se funda o seu projeto social. 20. Retomando Mende. 252 . o desenvolvimento da produção e da economia financeira (p. “A Politeia de Platão. 6 seg. a hierarquia egípcia de castas (aqui aparece a citação costumeira do Capital). Pla- tão constrói o modelo de uma estrutura hierárquica de castas a partir da sua importante análise da divisão social do trabalho. que lhe fora reconhecido no início do século por socialistas como Kautski. Gerlach e Schenk reafirmam o nexo entre idealismo objetivo e ideologia da “aris- tocracia do espírito”. a recusa da tentativa de Popper em estabelecer uma continuidade entre Platão e Marx mediante a sua “doutrina antico- munista do totalitarismo: a batalha ideológica condu- zida por Popper contra o marxismo leva-o a ignorar as imensas diferenças sociais e teóricas entre os dois filósofos” (pp.tes autores tendem. como se vê. a ideologia elitista dos Pitagóricos (pp.). Igualmente drástica é. A República.

concluem, devia permanecer uma utopia”, mas uma
utopia que, ao contrário daquelas modernas, apresenta
um caráter conservador e reacionário (p. 21).
Processado em terra marxista-leninista, portanto,
Platão não escapa à condenação. Aqui não são con-
siderados aqueles instrumentos de defesa que teriam
consentido a absolvição, ou pelo menos descontos de
pena importantes, do filósofo (a pacto que se faça uma
espécie de abjuração da República como texto político)
no continente liberal-democrata, onde a acusação fora
igualmente áspera e peremptória. Como se viu, nega-
se-lhe também o direito de asilo naquela pré-história
utópica do socialismo e do comunismo, que até estu-
diosos como Pölhmann e Natorp estavam dispostos a
conceder-lhe. Tanta severidade deve-se, provavelmen-
te, ao fato de o marxismo-leninismo ortodoxo não
sentir a exigência de salvar a unidade da própria tra-
dição intelectual que, pelo contrário – como defende
Gadamer –, é uma necessidade vital para o Ocidente.

NOTA BIBLIOGRÁFICA

Sobre a despolitização de Platão, cf.: E. VÖGELIN, Ordine
e storia. La filosofia politica di Platone (1966), tradução
italiana Bologna: il Mulino, 1986; J. ANNAS, Politics and
Ethics in Plato’s ‘Republic’, in Platon. Politeia, herausgegeben
von O. Höffe, Berlin: Akademie Verlag, 1997, pp. 141-60;
EAD, The Inner City: Ethics without Politics in the ‘Republic’,
in Ead., Platonic Ethics. Old and New, Ithaca (NY)-London:
Cornell University Press, 1999, pp. 72-95; N. BLÖSSNER,

253

Dialogform und Argument: Studien zur Platons ‘Politeia’, in
“Akademie Mainz, Geistes-und Sozialwissenschaftlichen
Klasse”, 1, Stuttgart: Steiner, 1997; ID, Kontextebezogenheit
und argumentative Funktion: Methodische Anmerkungen
zur Platondeutung, in “Hermes”, 126 (1998), pp. 189-201;
G. R. F. FERRARI, City and Soul in Plato’s ‘Republic’, Sankt
Augustin: Academia, 2003.
Sobre a interpretação de República IX 591-592, cf. M.
VEGETTI, Il tempo, la storia, l’utopia, in CR VI, 2005, pp.
137-68 (pp. 156-62).
Sobre a questão da Carta VII: contra a autenticidade, L.
EDELSTEIN, Plato’s Seventh Letter, Leiden: Brill, 1966;
a favor (com status quaestionis), L. BRISSON, Notice, in
Platon. Lettres, Paris: Flammarion, 1987 (pp. 133-66); M.
ISNARDI PARENTE, Filosofia e politica nelle lettere
di Platone, Napoli: Guida, 1970; EAD., Introduzione a
Platone, Lettere, a cura di M. G. Ciani, Milano: Mondadori
2002. Cf., também, M. I. FINLEY, Plato and Practical
Politics, in Id., Aspects of Antiquity, Harmondsworth:
Chatto & Windus, 19772 (pp. 74- 87); K. VON FRITZ,
Platon in Sizilien und das Problem der Philosophenherrschaft,
Berlin: De Gruyter, 1968; L. BERTELLI, Platone contro la
democrazia (e l’oligarchia), in CR VI, 2005, pp. 295-396
(pp. 295-307). Sobre o envolvimento político da Academia,
cf. a documentação crítica em K. TRAMPEDACH,
Platon, die Akademie und die zeitgenossische Politik, in
“Hermes – Einselschriften”, 66, Stuttgart, 1994; avaliações
em P. A. BRUNT, Studies in Greek History and Thought,
Oxford: Oxford University Press 1993 (pp. 282-342)
(excessivamente redutivo); M. ISNARDI PARENTE,
L’Accademia antica e la politica del primo Ellenismo, in G.
Casertano (a cura di), I filosofi e il potere nella società e nella

254

cultura antiche, Napoli: Guida, 1988 (pp. 89-117); M.
VEGETTI, Filosofia e politica: le avventure dell’Accademia,
in F. Lisi (ed.), The Way of Life in Classical Political
Philosophy, Sankt Augustin: Academia, 2004 (pp. 69-81).
Sobre o testemunho de Plutarco, cf. M. SORDI, Il IV e III
secolo da Dionigi I a Timoleonte, in E. Gabba, G. Vallet (a
cura di), La Sicilia antica, II, 1, Palermo: Le Edizioni del
Sole, 1980 (pp. 207-88); F. MUCCIOLI, Dionisio II. Storia
e tradizione letteraria, Bologna: CLUEB, 1999 (além do já
citado von Fritz).
Para o debate na DDR, cf. R. SCHOTTLAENDER, Der
Streit um Platon, in “Das Altertum”, 10 (1964), pp. 142-54;
G. MENDE, Zum “Streit um Platon”, ivi, pp. 230-34; E.
SCHWARZKOPF, Kritische Anmerkungen zum Streit um
Platon, ivi, 11 (1965), pp. 137-43; H.M. GERLACH, G.
SCHENK, Einleitung a Platon, Der Staat (tradução de O.
Apelt), Leipzig: Reclam Bibliothek, 1978 (pp. 5-48).

255

(Página deixada propositadamente em branco)

9.

A QUESTÃO DA UTOPIA

UTOPIAS DE EVASÃO

Acerca do sonhar com os olhos abertos e do fanta-
siar. Prova de falta de caráter e de passividade.
Imagina-se que um facto tenha acontecido e
que o mecanismo da necessidade se tenha in-
vertido. A iniciativa mesma se liberta. Tudo é
fácil. Pode-se fazer aquilo que se quer, e quer-se
toda uma série de coisas de que presentemente
se está privado. É, no fundo, o presente de ca-
beça para baixo que se projeta no futuro. Tudo
o que está reprimido rebenta. É necessário, ao
invés, chamar a atenção para o presente tal
como ele é, se o queremos transformar. Pessi-
mismo da inteligência, otimismo da vontade.

São palavras de Antonio Gramsci, que desenham
perfeitamente o quadro mental das “utopias de eva-
são” e a sua crítica. A República de Platão foi inseri-

da neste quadro por uma longa tradição, começando
com Pier Candido Decembrio (que falava de uma ci-
dade votis magis quam rebus expetenda), passando pelas
“Quimeras” de Brucker, chegando aos “castelos no ar”
de Gadamer. Desta forma, a República era assimilada a
toda uma série de utopias da idade do ouro, das ilhas
beatas, dos países da alegria, que talvez inicie com
Aristófanes, continue no helenismo e termine, natu-
ralmente, com as grandes utopias da idade moderna,
de Campanella a More, e outros: exatamente aquele
tipo de utopias às quais se opunham com decisão, por
ideias diferentes, quer Kant quer Hegel e a tradição
hegeliana, começando por Marx, do qual bem se co-
nhece o desprezo pelo “comunismo utópico”.
Mas o mesmo Platão, quase como se tivesse pre-
visto esta leitura, tomou todas as precauções para evi-
tar que o desenho da kallipolis fosse considerado um
substituto imaginário da realidade. Numa passagem
decisiva, Sócrates pede uma licença provisória para
se comportar como o gramsciano “sonhador com os
olhos abertos”, para antecipar a questão da desejabili-
dade à questão da possibilidade.

Faz-me um grande favor: oferece-me uma
festa, como aqueles preguiçosos mentais que
costumam banquetear com as suas fantasias
quando passeiam sozinhos. Eles, com efeito,
antes de encontrarem o modo com o qual se
poderá realizar algo que desejam, descuram
o problema para não adoecerem por tanto
deliberarem sobre a sua possibilidade ou im-
possibilidade de realização; postulando como

258

e que isto seria. tendo-as postulado como possíveis. V 450d. passam logo a dispor tudo o resto. como os governantes irão regular a sua realização. A República não pode. investigar juntamente contigo e.. considerado ridículo (cf. castelos no ar. assim que forem postas em prática. a República não é uma fantasia de evasão da rea- lidade. porém. se mo concederes. Trata-se. com razão. Também eu me sinto tomado por essa moleza. Isto procurarei. e gozam por isso passan- do em revista tudo o que farão assim que esse algo se realizar. enfrentarei aqueloutros problemas. e mostrarei que. e desejo adiar para mais tarde a investigação sobre a possibilidade daquelas coisas. UTOPIA DE RECONSTRUÇÃO Como qualquer tipo de “utopia séria”. dos “votos”. nada po- derá ser mais útil para a cidade e para os de- fensores. escreve Fin- ley. portanto. ou seja. examina- rei. VI 499c). mas só se me permitires (V 458a-b). ser colocada no âmbito das utopias de eva- são. existente aquilo que desejam. por exemplo. pios desejos. de um reenvio provisório. em primeiro lugar. Platão não se cansa de repetir que evitar a questão da possibi- lidade de realização significa permanecer no nível das euchai. pois. mas “é concebida como um fim que se pode 259 . pelo menos nas intenções declaradas do seu autor. agora. tornando ainda mais pregui- çosa uma alma que já é preguiçosa. em seguida.

que representa uma reprodução inevitavelmente im- perfeita dele. é inevitável prever uma separação. De fato. na não impossibilida- de de princípio.legitimamente tentar e esperar alcançar”: trata-se. “ótimas. 502c. pelo menos. Um projeto que resultasse. irrealizável não seria sequer desejável. 504d). “pintor de constituições”. de uma “utopia de reconstrução” social e mo- ral. o modelo é anterior ao desenho. Platão reafirma mais do que uma vez um vínculo entrecruzado de desejabilidade e possibilidade do desenho utópico. Há outra metáfora pictórica que parece contradizer esta: a bravura de um pintor não diminuiria. apesar de repetir que é “difícil” (VI 499d. se ele não conseguisse apresentar a existência de um homem tão belo como o que pintou (V 472d). tentará reproduzir aquele modelo na tela da história com a maior fidelidade que a instabilidade e variabilidade das circunstâncias lhe consente (VI 501b-c). por- tanto. A contradição é só aparente. No primeiro caso. o modelo é cons- 260 . porque cairia no “ridículo” das euchai: eis porque Platão insiste na possibilidade ou. um décalage. Aque- le paradigma é modelado a partir da ordem ideal da justiça. pelo contrário. e a sua inserção no mundo da temporalidade histórica acarreta uma deformação: o filósofo-político. se realmente são possíveis”. entre o paradigma delineado no discur- so e qualquer possível tradução histórica sua. de uma qualquer forma de realização do projeto. escreve Platão. Aqui. por princípio. se realizáveis” (VI 502c). Naturalmente. que é expresso de forma eficaz através da tese de que as suas propostas são “as melho- res.

uma “utopia”. de “utopia projetual”. “a constituição sobre a qual criamos mitos no discurso”. Um ato persuasivo de imagi- 261 . embora seja difícil e necessariamente imperfeita. contudo. na ideia representada in in- dividuo (a kallipolis).tituído pelo próprio desenho – que representa o pa- radigma esboçado no discurso teórico – e a eventual réplica. Platão afirma que aquele pro- jeto foi construído à maneira de uma ficção narrativa. com clara referência à República). veja-se. de um conto mítico (“como se contássemos um mito”. ou. não poderia ser igual a ele. no campo dos fatos reais. Ambas as metáforas convergem. ao assinalar que a reprodutibilidade prática do paradig- ma. nunca se adequa completamente a ele. “Projetual” porque a sua realização é desejável e possível. a menção a “os cidadãos e a cidade que nos contavas ontem como um mito”. Tudo isto consente que se fale. representa uma possível saída das “perspectivas paroquiais da existência cotidiana”. o que não diminui a sua validade teórica. não impossível. Mas é. 8). no Timeu. embora possível. II 376d. pelo menos por alguns aspectos. então. pois. O desenho utópico é. uma “condução de cá para lá” (pense-se no katoikizein de que se falou no Cap. A que se destina? Em primeiro lugar. deve ser buscada fora do modelo. 26c. um ato discursivo já dotado em si mesmo de eficácia. que. VI 501e. Não é errado pensar aqui (como sugeriam Pöhlmann e Natorp) no ideal kantiano. pelo menos. a propósito da Re- pública. isto é. de qualquer modo. apresentado como um gesto de poderosa imaginação filosófica. como es- creveu Burnyeat.

a quem pode ser útil esta representação utópica? Certamen- te. Na linguagem da filo- sofia contemporânea. 247). certamente.] ser constituída de maneira di- versa e melhor”. A passagem do mythologein.. Mas é provável que seja também algo mais do que isso.. acrescenta Schofield. pode-se acrescentar. E. 199 seg. a aceitar o reino filosófico. à teoria normativa – uma passagem que do nosso ponto de vista é muito mais marcada do que do 262 . para oferecer aos filósofos da cidade histórica “uma razão política para defender a causa da filosofia na sua sociedade. da imaginação mito- poiética. também para convencer quem não é filósofo a acreditar que numa cidade justa a vida seria mais feliz para todos e. não uma utopia de evasão. por conseguinte.nação alternativa. que vale como “tentativa de verificação de como poderia a estrutura inteira da sociedade [. ou – como pensam alguns – a ditadura de uma elite racional. responde ele. com o fim de aproximar ou tornar mais provável o dia em que os filósofos reinarão nela” (p.). porque uma esperança sem dimensão utópica é demasiado pouco ambiciosa para construir uma alternativa à realidade presente (pp. uma utopia projetual. DA UTOPIA PROJETUAL À TEORIA NORMATIVA A República é. creio que se possa falar de uma “teoria normativa” acerca da sociedade justa (e não é errado fazer uma referência à posição de John Rawls). Mas. como se perguntou recentemente Morrison.

a referência à “natureza” é. Em ambos os casos. a parecerem ser constituídas contra natureza”. pelo contrário. Que aquela comunhão seja “conse- quente [epomene] ao resto da constituição. contrárias àquela que propomos.. é preciso confirmá-lo com o logos” (V 461e). O primeiro deles consiste na repetida asserção platônica da “conformidade com a natureza” (katà physin) das suas propostas (veja-se. VI 484c-d). V 456c). ela é descritiva e diz respeito à ordem observável da realida- de: por exemplo. Pelo contrário. e concerne à melhor ordem possível das coisas. Esta referência que se baseia na “natureza” como elemento fundador apresenta um duplo valor. onde a conformidade à ordem na- tural observável não puder desempenhar esta função (como no caso da comunhão de mulheres e filhos). por exem- plo. por exemplo. apropriados à teoria mas certamente supérfluos para a ficção mítica. os quais. e legitima os pedidos da teoria normativa. o critério de validação identifica-se na coerência interna da argumentação. colaboram na re- alização das mesmas tarefas de caça e de guarda. a conformidade à natureza acarreta uma atitude crítica face ao existente (“são as instituições atuais. normativa. a paridade de funções entre homens e mulheres é confirmada pelo comportamento efetivo dos cães. Trata-se de provar a consistência dos diversos aspectos da legislação com 263 . V 455d). Por um lado.ponto de vista de Platão – é assinalada pela introdução de alguns critérios de validação. machos e fêmeas. Por outro lado. tal como resulta da compreensão da estrutura paradigmática do mundo noético-ideal (cf.

requer. A coerência intrínseca da argumentação. trata-se do seguinte: 264 . V 473b-d) (ou. que os dynastai. ou então. Uma “mudança mínima” na es- trutura do vértice de governo político. que. Para Platão estas condições de possibilidade são fundamentalmente duas: 1. Esta consistên- cia toma a forma de uma necessidade condicional: se certos objetivos gerais (tais como a justiça. que conecta os enunciados de modo “espontâneo” ou “automático” (apò tou automatou. a unidade da comunidade social) são desejáveis. Como mostrou Federico Zuolo. VI 498e). então é preciso prever as medidas argumentativamente necessárias para os realizar. de uma teoria da eficácia. No primeiro caso. em via subordinada. uma série complexa de outras condições preliminares. tam- bém. de um outro ponto de vista e com outra linguagem. Leis IV 709e-710d). da tanto discutida questão da possibilidade de realização. mesmo que seja imperfeita. Conceber a utopia platônica também como uma teoria normativa contribui para o esclarecimento. define Platão (V 473b). que aceitem seguir a liderança de um filósofo legislador. une-se assim à referência à natureza como con- dição de validade da teoria normativa. a felicida- de. todavia. que já o detêm. que os “verdadeiros” filó- sofos assumam o poder nas cidades. em ambos os casos. 2. que analisa – embora sempre em âmbito infrateórico – as condições neces- sárias e suficientes para a atuação prático-histórica do modelo de valores proposto. comecem a praticar a fi- losofia (Resp.os objetivos do projeto constitucional. do projeto utópico. a utopia de Platão pertence à tipologia das teorias normativas que se dotam.

as condições são as seguintes: 2a. extraordinariamente afortunado”. mas não pode ser declarado impossível em toda a duração do tempo (VI 502a). 2c. No segundo caso. Isto é difícil. ou aceitem a sua guia. porque a cidade não promove a formação dos filósofos. que a multidão de cidadãos se deixe convencer e confie aos filósofos o governo da cidade (VI 501e seg. pois. 500d) ou ainda de uma “sorte divina” (IX 592a). Que a cidade seja “obediente” ao seu governo (VI 502a-b): esta é a condição menos difícil. o que pode depender de uma “fortuita necessidade” (VI 499b. É preciso. 2b. em virtude de uma qualquer “inspiração divina” (VI 499b). Que eles se convertam à filosofia. 2d. 1a. que estes filósofos se po- nham à disposição de um envolvimento político. por fim. É preciso que. cuja eventual persistência é devida a uma “sorte divina”. 1c. também. se possam encontrar filósofos “verdadeiros” aptos a governar.). tratando- 265 . Que eles encontrem filósofos que sobreviveram com base nas condições 1a. 1b. É preciso. e 1b. theia tyche ou theia moira (VI 492a. “divino” equivale a “caso excepcional. Que existam homens de poder. “autoformar-se” em condi- ções hostis (VII 520b). que devem. ou filhos seus. dotados de uma natureza bem disposta à filosofia: isto não é provável. e porque ela tende a corromper aqueles existentes. 493a): é necessário esclarecer desde já que nestas e em outras passagens semelhantes. na cidade histórica.

como afirma mais repetidamente Platão. por exem- plo. O segundo diálogo deixa na sombra o aspeto 266 .se de dynastai ou até de tiranos. ou [. O ponto de vista que se propõe aqui permite com- preender melhor a relação entre República. Elas não excluem a ação política efetiva. VI 499c).] em qualquer região bárbara que ignoramos pela sua distância. pelo con- trário.. mas não constituem um progra- ma político capaz de indicar modos e tempos de ação. ou no futuro”. em linha de máxima. VI 499c-d). Além deste limiar. imper- feita) deva ser considerado diverso de 0. como se afirma no livro IV das Leis (711b-c). Resp. por exemplo. decerto. não é impossível (cf. O conjunto destas condições de eficácia mostra que a realização do quadro normativo. teoria normativa e teoria da efi- cácia não podem ir. Político e Leis. Quando muito. A não impossibilidade faz com que. por motivos morais e psicológicos. da partilha da teoria e das finalidades que ela indica. mostram as suas finalidades dese- jáveis e possíveis. nas vicissitudes siracusanas. pela decisão de Platão e dos seus “companheiros” acadêmicos de recusarem o envolvimento político nas vicissitudes atenienses e de se empenharem. como resulta da célebre passagem de IX 592 discutida no capítulo anterior. difícil. mas.. o grau de probabilidade daquela realização (entenda-se.. ou melhor. a ação política pessoal pode constituir uma consequência que deriva. é. Este nexo extrateó- rico está claramente indicado na Carta VII. num quadro espaço-temporal indeterminado e gran- de quanto se queira (“no infinito tempo passado.

a te- oria da eficácia introduz dois novos vínculos: con- trariamente à República. A questão da eficácia reage. mesmo que 267 . recusan- do. e a teoria da eficácia mostra também a sua potencial possibilidade de realização. ela deve ter em conta. numa colónia em vias de fundação. então. além disso. porque as finalidades propostas pela teoria normativa devem ser consideradas desejáveis para Platão. a teoria normativa aparece aqui aplicável numa cidade que deve ser construída ex novo. ela deve. por exemplo. talvez. a abolição da propriedade privada e da família (que é substituída por um rígido controlo político-social em ambas). possível uma nova “absolvição” de Platão das acusações de Popper? Cer- tamente que não. e não numa cidade historicamente existente. e diminuir as pretensões de perfectibilidade.normativo da teoria para tentar uma análise radical da questão da eficácia: como é possível governar “cienti- ficamente” a existência histórico-política na sua inde- terminada variabilidade? Aqui são postos à prova as potencialidades e os limites do poder absoluto e do governo segundo a lei. Esta reformulação torna. isto é. mais do que fazia a República. a resistência oposta pela estrutura antropológica de base às tentativas de transformação social. se deve mostrar-se realizável. nos conteúdos da mesma teo- ria normativa. modificar a configuração das suas finalidades. Quanto às Leis e à sua “utopia legislativa”. numa discussão que pode ser considerada um suplemento de reflexão em torno da configuração de um “reino filosófico” delineada mas não aprofundada na República. então.

também a defendem).seja parcial. II. 267-89). Oxford: Oxford University Press. SCHOFIELD. porque se trata de textos teóri- cos. apesar de tudo. NOTA BIBLIOGRÁFICA A citação de A. Savile (eds. o nexo aqui proposto impede a não comedida leitura politiquista dos textos platônicos praticada nos anos trinta e quarenta do sé- culo XX: ler nos diálogos o imediato reflexo das vicis- situdes pessoais de Platão. certamente de pertinência ético-política mas não autobiográfica. M. Quando muito. 1981 (pp. BURNYEAT. vol. As obras a que fiz referência são citadas na seguinte ordem: M. à maneira de Hildebrandt. The Practicability of Plato’s Ideally Just City. FINLEY. um nível de análise decisi- vamente mais interessante.). Oxford: Oxford University Press. Torino: Einaudi. Psychoanalysis. a discussão deveria ser finalmente deslocada para outro plano: o confronto teórico entre a teoria normativa de Platão e a teoria proposta por Popper (e pelos seus críticos que. 1992 (pp. GRAMSCI encontra-se em Quaderni del carcere. Poder-se-iam contra- por as críticas de Popper a Platão às de Platão a Popper. Utopia and Fantasy. porém. Utopie antiche e moderne. e obter-se-ia. Ao mesmo tempo. A. tradução italiana Torino: Einaudi. I.. Uso e abuso della storia (1975). 1131). 268 . M. 175-87). deste modo. Plato. Mind and Art. é absurdo e enganador. in J. in Id. Political Philosophy. propagandista ou agitadora. Hopkins. 1977 (p.

in The Cambridge Companion to Plato’s ‘Republic’. Platone e l’efficacia. L’utopia. I. vol. F. Settis (a cura di). DAWSON. Oxford: Oxford University Press. L. Beltista eiper dynata. Lo statuto dell’utopia nella ‘Repubblica’. VEGETTI. C. por último. Lo spazio letterario della Grécia antica. A. 103-14. in R. I. ROWE. Cities of the Gods. Myth. in CR IV. Cambiano. Torino: Einaudi. QUARTA. Buxton (ed. F.). pp. 2005.2006. Villeneuve-d’Ascq: Septentrion. edited by G. cf. 2000 (pp. sobre o Político e as Leis.. 232-55). vol. Médiation et coercition. M. LAKS. A. Communist Utopias in Greek Thought. in S. 1992. MORRISON. Canfora. Lanza (a cura di). JACONO. The Utopian Character of Plato’s Ideal City. New York: Oxford University Press. La ‘Repubblica’ di Platone: utopia o stato ideale?. Sobre a República. Sobre a questão da utopia antiga e platônica. R. 269 . D. L’utopia greca. C. D. 1999 (pp. From Myth to Reason?. 107-47). 2007 (pp. 1996 (pp. I Greci. in G. 8 (1993). Realizzabilità della teoria normativa. ZUOLO. 883-900). BERTELLI. Ferrari. Sankt Augustin: Academia. D. 1992 (pp. in “Idee”. Pour une lecture des ‘Lois’ de Platon. M. R. Cambrigde: Cambridge University Press. Roma: Salerno. 263-78). tomo I. 2009. 493- 524). indicações úteis encontram-se em: L. History and Dialectic in Plato’s ‘Republic’ and ‘Timaeus-Critias’.

(Página deixada propositadamente em branco) .

De um certo ponto de vista. para o neoplatonismo. cético para a Academia antiga. PLATÃO POLÍTICO. tanto sobre Platão quanto sobre os seus intérpretes. Esta amplitude do arco interpretativo. Trata- se de um “teatro filosófico”. hiperdog- mático. Esta estrutura . HOJE A POLISSEMIA PLATÔNICA V inte e quatro séculos de hermenêutica do Platão po- lítico podem ensinar-nos certamente alguma coisa. articulado numa plurali- dade de textos dialogais. propõe algumas reflexões úteis acerca da natureza mesma da filosofia platônica. 10. ao invés. e não pode considerar-se limitada ao âmbito político do pensamento platônico: já a antiguida- de nos ofereceu duas imagens radicalmente separadas do Platão teórico. onde o que se põe em cena não é tanto uma filosofia quanto o espaço e as formas constitutivas do pensar filosófico em si. que é ine- vitável e irredutível. a vastidão do espectro exegético não nos surpreende.

que cada deci- são demasiado drástica que reduza a filosofia de Platão ao quadro de uma opção exegética exclusiva corre o risco de ser viciada por um preconceito do intérpre- te. o fato de a fluidez das situações discursivas nas quais os traços se acham inseridos autorizar uma pluralidade de interpretações possíveis: por exemplo. em linha de prin- cípio. estratégias argumentativas usadas. O intérprete pode formular argumentos razoáveis a favor de uma das opções. Permanece. e que sejam atribuíveis à filosofia de Platão. diria. naturalmente. a variabilidade das situações dialogais. Isto não significa.peculiar dos escritos de Platão torna. É certo. quer a lei- tura cética de Platão. devem ser levados a cabo. porque um excesso de tole- 272 . pelos contextos. que não sejam re- conhecíveis traços constantes que podem consentir a identificação dos núcleos teóricos relativamente trans- versais em relação às variações dialógicas. pelo me- nos. Esforços hermenêuticos orientados podem. por duas boas razões: a polifonia dos interlocuto- res dialógicos. que argumentam teses contrapostas. todavia. ou somente como relevância para nós. quer a dogmática podem aduzir boas razões em sua defesa. de onde deriva uma ulterior variabilidade das teses defendidas pelos interlocutores. das res- pectivas concepções). em primeiro lugar. impossível uma unificação sistemática. seja também de ordem teórica (plausibilidade e consistência dos textos usados como prova. pela própria personagem Sócrates. porém. seja de ordem historiográfica (a prevalência quantitativa ou qualitativa. problemas. a proximidade ou distância cronológi- ca das testemunhas).

e esta forma dificulta o fazermos uma ideia da sua filoso- fia e o darmos dela uma exposição precisa. na tradição exegética. por outro lado. Acrescente-se uma segunda consideração. aceitar uma margem irredutível de polissemia do seu objeto: o pensar filo- sófico de Platão – pela mesma forma textual em que é representado – não pode ser reduzido a um sistema unívoco de significados. de resto. bem presente. uma tradição (espiritualista) do Fédon. Pelo contrário. deliberadamente recusou fazer uma exposição sistemática e em forma de tratado do pró- prio pensamento. pos- suímos apenas os seus diálogos. p.. isto é verdade para cada grande filósofo. uma tradição (parado- 273 . viveram na posteridade vidas diversas. Assim. é. no estoicismo e na Idade Meda. mas é igualmente verdade que estes esforços devem. dentre eles. de Aristóteles a Hegel. em medida ainda maior para aquele que. A forma dialogal contém muitos elementos. houve uma tradição (cosmológica) do Timeu. entre neoplatonismo e cristianismo. muitos lados heterogêneos (LSF. 179). diver- sos percursos. evidentemente.] então te- ríamos perante nós a filosofia de Platão na sua forma mais simples. Se. como lamentava com certo incômo- do o próprio Hegel: se possuíssemos ainda a obra puramente fi- losófica (dogmática) de Platão [.rância acarreta um pressuposto de irrelevância teórica da interpretação. por exemplo. que se aproxima do problema do Platão político. Os diálogos platônicos atravessaram..

todavia. e houve uma tradição separada e autônoma do Platão político. para não falar do Político e das Leis. diálogos sobre os quais pesou um grande esquecimento. epistemologia. possibilitado pela exclusão. contribuem para melhor compre- ender a forma constitutiva irredutível do “fazer filoso- fia” por parte de Platão. aos nossos olhos. a República pode apresentar-se como um cruzamento central de on- tologia. não obs- tante a possibilidade de elasticidade exegética. A ideia mesma de “platonismo” unificado é um produto her- menêutico tardio da tradição do neoplatonismo. É tam- bém verdade que. e estas. ou pela interpretação redutiva de muitos conjuntos tex- tuais. o con- traste das interpretações atingiu limites que podem ser considerados intoleráveis. por sua vez. um produto. tanto antigo quanto renascentista. O EXCESSO HERMENÊUTICO No campo dos escritos políticos. em certos 274 . sobretu- do em ambiente neoplatônico. ajudam a explicar a amplitude da gama de interpretações legitimamente possíveis. com resultados. excluído do cânone principal das leituras da escola. A polissemia estrutural dos textos platônicos. que viveu de maneira relativamente isolada das outras. pela marginalização. Mas só aos nossos olhos: para o neoplatonismo foi um texto marginal.xalmente bastante metafísica) do Parmênides. por sua vez. e a relativa autonomia da tradição dos três diálogos espe- cificamente políticos. entre os quais os aporéticos ou até os políticos. psicologia e política.

também. nazi e racista com Hildebrandt e Günther. uma testemunha amiga. ao invés. que visam fazer do Platão político uma auctoritas a investir na legitimação das diversas opções teóricas e éticas. para poder ser esqueci- do. fascista ou comunista com Crossman.casos. francamente patológicos. Quando tudo isto não parece possível. experimenta- se. sobretudo em ambiente alemão – parece demasiado importante para a autoconsciência da tradição inte- lectual e política do Ocidente. também. a seu modo. instru- tivas – estratégias de assimilação poderosas. democrático em certas versões americanas (nada de semelhante. mostrá-lo como um precursor profético. então. À cabeça de uma rela- tiva homogeneidade (quer fosse crítica quer não) das leituras antigas. na modernidade tivemos um Platão teórico do “ideal” com Kant e. Platão – sozinho ou. Pare- cem estar a trabalhar – além das leituras que muitas vezes se mostram penetrantes e. de fato. um companheiro de viagem. considerado como um adversário: urge. forçosamente assimilado ao aristotelismo. então. por vezes. às vezes. bolchevique com Russell. considera-se o filó- sofo estranho à controversa dimensão política e ao 275 . uma estratégia de neutralização: para não inserir Platão entre os adversários. Pölhmann e Natorp. a usar diretamente no discurso ideo- lógico e propagandista. Tudo isto diz qualquer coisa não tanto sobre Platão. um teórico da “realidade substancial” com Hegel: um Platão li- beral e socialista com Grote. aconteceu com o pensamento político de Aristóteles). totalitário com Popper. quanto sobre a modernidade que o interpreta. ou pior ainda.

esta. no conjunto. em primeiro lugar. Uma estratégia. final- mente. isto é. de Annas a Roochnik. amplamente experimentada de Strauss a Gadamer. de ser um inimigo totalitário da democracia. livre dos gravosos empenhos de assimilação. Também aqui. so- cialista ou totalitária). na maio- ria dos casos. valendo-se delas como de uma fonte de validação e de legitimação. todavia. como é. É caso de repetir: em quase todos estes autores há algo que podemos aprender. uma espécie de assimilação em negativo: Platão é reconduzido à classe dos mestres medíocres. a tarefa inevitável da verificação historiográfica. de um lado. as posições do mar- xismo-leninismo: umas e outras não hesitam em des- mascarar Platão. neste quadro assimilativo. a posição do anti-historicista Popper. ou. por um lado. acusando-o. Mas.significado literal dos seus textos. na sua eventual relevância. como Hegel e Marx. e à “linha” idealista dos inimigos do socialismo. nas posições da modernidade (seja liberal-democrata. que mata o paciente pretendendo descontaminá-lo das suas toxinas. São exceções. posições menos sensíveis ao prestígio da tradição. porque o obrigam a ser um precursor cuja verdade se encontra fora dele. que deveria proceder. 276 . o ideó- logo reacionário. as es- tratégias de assimilação constituem um tela opaca que não permite pensar verdadeiramente o Platão político. de outro. nos países socialistas. por outro. age. O QUE SOBRA? Sobra. em ambiente anglo-saxão.

em Platão. é uma socie- dade que. com o objetivo de usar o poder para os próprios interesses. dos im- pulsos ocasionais. em vez de guiar as massas adula os seus piores instin- tos. com grandes difi- 277 . uma tarefa que hoje pode valer-se de uma nova e mais refinada consciência me- tódica. por um lado. Uma sociedade de “irmãos” (Resp. III 415a). proposicionais. para a forma dialogal. em virtude da sua distância. capaz de chamar a atenção para os contextos culturais. para o papel das me- táforas e da narração mítica. Bastará indicar sumariamente alguns pontos de vista. numa ulterior crítica ao seu pressuposto antropológico: a igualdade de dotes entre os homens concebida como dom natural e não como tarefa social a alcançar. pode torná-lo de novo “bom para pensar” também as ques- tões do nosso presente – fazendo dele um observatório precioso. pois. por outro. Há. privado de ordem de valores e abandonado à anarquia dos interesses. neutralização. críticos. dos desejos irracionais.justificação. ao devolver o Pla- tão político à sua diferença radical relativamente às posições dominantes do pensamento político. antes de tudo. um regime dotado de uma extraordinária po- tência conformadora e homologatória. talvez possa ser construída. que torna difícil propor e praticar alternativas de sistema. uma crítica intransigente à democracia demagógica: o regime onde quem governa. de “homens livres e amigos” (VIII 547c). por fim. A crítica política à democracia funda- se. para as dinâmicas argu- mentativas da escrita filosófica platónica. Mas precisamente este trabalho. um regime. que este observatório permite assumir em toda a sua radicalidade.

e sobre a sua duradoura capacidade de estimular uma reflexão em torno dos problemas que este regime coloca também na sua forma ocidental con- temporânea. que seria fortemente defendido por Aristóteles: o di- reito “natural” à propriedade privada e à transmissão familiar do patrimônio. o produto espontâneo de uma distribuição igualitária natural de dotação moral e intelectual entre os homens. garantida pela recusa do caráter privado do patrimônio e da fa- 278 . condena- da à demagogia e ao domínio oligárquico da riqueza. exercido sem demasiados escrúpulos em vista do incremento dos próprios patrimônios às custas da comunidade. desafiando as imposições de “pensamento único” que tendem a considerá-lo como o estado “final” e insuperável da história.culdades devidas exatamente à deformidade qualitativa do material humano no qual se trabalha. acarreta necessariamente. A crítica paralela à anarquia democrática. desmascarada como poder dos ricos. De maneiras diferentes. por obra de um governo inspirado na razão. mas não é. Pradeau e Bertelli insistiram sobre os motivos da crítica platô- nica à democracia. Sem derrubar este pressupos- to. em Platão. de modo nenhum. toda a forma de governo exercida por grupos restritos está destinada a transformar-se inevitavelmente em poder de exploração e espoliação do corpo cívico. Aqui está em jogo outro pressuposto antropológico. a perspectiva de um governo exercido por uma elite legitimada pelo sa- ber e pela dedicação moral ao bem comum. Igualmente drástica é a crítica platônica à oligar- quia. Stefanini. segundo Platão.

que também se mostram ricos de in- teresse pela radicalidade com a qual propõem temas de reflexão dificilmente evitáveis. vivo na cultura política europeia dos inícios do século XX. após a crise dos historicismos evolucionistas. e que se verifique uma consequente neces- sidade de severos procedimentos de seleção e de for- mação: um problema que se tem colocado de forma perspicaz. Só um grupo dirigente deste tipo pode guiar e harmonizar a sociedade. é relevante a forma com a qual estes aspectos são con- figurados: trata-se de um pensamento da grande polí- tica. quanto nas vicissitudes dos grupos dirigentes dos partidos revolucionários do século XX. encontra-se bem presente em Platão o risco que uma elite de poder se transforme numa oligarquia. constitui uma antecipação in- teressante do debate em torno da teoria das elites. em vez de corrompê-la dema- gogicamente e de quebrá-la no conflito entre ricos e po- bres. já mencionado por Pöhlmann). à gestão dos negócios quotidianos (delegando implicitamente 279 . tanto na reflexão teórica moderna. como escreveu Edmond. de Mos- ca a Michels (bem como em Pareto. numa época de crise dos dogmas liberais-democratas. um programa de orientação “ilumi- nista” e. Numa situação históri- ca em que o pensamento da política. tende a ser reduzido de modo asfixiante à administração do existente. Esta aliança entre saber e política configura. Na margem crítica. na intersecção entre perspectiva utópica e teoria normativa de grande âmbito. por outro lado. unem-se em Platão aspectos proposicionais. Por outro lado. Antes de tudo.mília. e ainda hoje não privado de uma potencial atualidade.

de “utopia” anacrônica. militar. a perspectiva do governo das elites aparece. Dois aspectos estão no centro deste pensamento da grande política. o estado (como conjunto de aparatos de gestão de poder). dada a viva- cidade. por outro lado. sobre a qual justamente insistiu Schofield. também aqui. interpondo-se entre os dois ex- tremos que na modernidade contribuíram para a tornar irrelevante: por um lado. Do ponto de vista deste último. juntamente com o pensamento já mencionado do governo de uma elite do saber. A comunidade política é o lugar de formação do “cida- dão”. pre- cisamente. segundo Platão. as decisões es- tratégicas cruciais. por um lado. a tarefa das orientações morais da sociedade). da qual Platão é teórico e crítico. propõe uma terceira via entre estado e privado. do “burguês” da esfera econômico-familiar. A sociedade da polis. O pri- meiro consiste no relevo dado à dimensão da comuni- dade política. o apelo platônico à necessida- de de devolver à política – pensada em grande como “saber régio” – uma capacidade de orientação da vida social na sua complexidade econômica. de uma perspectiva absolutamente não inatual. pro- 280 . mesmo com os seus excessos. ética. A comunidade deve ser. o sujeito e o destinatário da política. a via da comunidade: trata-se. do pensamento comunitário contemporâneo.a atores extrapolíticos. por outro. a carac- terística privada do individualismo (“burguesa” na lin- guagem de Hegel) da propriedade e da economia. ou seja. só pode mostrar-se extremamente relevante. embora não seja difícil classificá-lo hoje. dado que é distinto do “súbdito” do estado e. como se fizera já no seu tempo.

e. mas que contribui para tornar radical.vavelmente. por fim. em contradição com a comunitária. além dela. para uma questão teórica que certamente Platão não resolve. O nexo entre política. do aspecto mais importante do legado intelectual do Pla- tão político – deve ser mencionada a infatigável insis- tência sobre o nexo necessário entre política e ética. Esta transformação esbarra não só com os seus adversários políticos. e tende a conceber o seu projeto como uma obra de arte de que o filósofo e o político são os artífices. pelo pensamento dos jacobinos. Tudo isto reenvia. Cada “grande política” tem ambi- ções de transformação demiúrgica do mundo moral e social. Por último – mas para muitos se trata. talvez. mais uma vez. mas também contra a resistência antropoló- gica de uma “natureza humana” que resulta da sedi- mentação. mas trata-se de uma exigência que nunca pode ser dada como exigência su- perada ou irrelevante. que constrói a sua unidade num permanente trabalho de autoeducação. não há justiça sem um sistemático empenhamento de educação pública por parte da comunidade política. mas não creio que se possa excluir que os dois termos da contradição possam ser utilmente pensados em conjun- to. uma perspectiva de pensamento radical. numa tensão não improfícua. no tempo de formas de vida e de concepções do mundo. resulta das pulsões que ca- racterizam o ser humano historicamente dado (aquele 281 . na modernidade. convém acrescentar. E. virtude e edu- cação foi vigorosamente recuperado. poder e virtude: não há felicidade pública sem justiça na conduta social e individual. e a ela Platão oferece.

visto as resistências que devem enfrentar: com o risco. a uma linguagem filosófica. a questão da paridade das funções entre os sexos a par dos dotes intelectuais e morais). bem conhecido pela modernidade da revolução francesa até às experiências trágicas do século XX. uma questão colocada mas. E seria ingênuo. daquela Sozialpädagogik em que Natorp depunha uma confiança demasiado oti- mista. depois de Zeller. mais uma vez assimilativo.núcleo de ambições e desejos que Platão caracterizava como o estrato do thymoeidés e do epithymetikón). o problema da relação entre persuasão. que a coerção se torne o único substituto eficaz para as di- ficuldades da educação social. segundo Grote. ou até longuís- simos. So- bre a tenacidade desta resistência chamaram a atenção eficazmente. por exemplo. de um uso direto no debate contemporâneo. sendo a última chamada a suprir. são evidentemente necessárias à “grande política”. ao que parece. Abre-se. falar de uma sua atualização imediata. os efeitos das primeiras duas que requerem tempos mais longos. a uma dimensão 282 . Não se trata de perspectivas que devem ser aceitas ou recusa- das enquanto tais. pior ainda. Coloca-se então a questão do encon- trar a força (exterior e interior ao indivíduo) necessária a superá-la. talvez. não resolvida por Platão. educação e coer- ção que. por outras palavras. porque pertencem a um horizonte histórico. pelo menos provisoriamente. tanto Pöhlmann quanto Robin e Stefanini. Não é necessário continuar com este repertório dos pontos de vista que o Platão político é ainda ca- paz de oferecer à reflexão contemporânea (poder-se-ia acrescentar. ou.

SCHOFIELD já citadas nos CAPS. uma espécie de neoplatonismo político. obviamente. Platão (se for compreendido sem in- tenções apologéticas. realmente. ao invés.-F. Trata-se. BERTELLI. 283 . se quer repensar a política de maneira radical. Se. NOTA BIBLIOGRÁFICA As obras às quais se fez referência são as de J. o melhor modo para o tornar mais uma vez interessante. nem. M. Pretendo dizer outra coisa. porque parece mais adequado ao pensamento liberal-democrata dominante). deveria haver um neoaristotelismo político (que. talvez.política irremediavelmente remotos. é largamente difuso. Paris: Payot 1991. Platon et la politique. na minha opinião. L. não pode haver hoje. como os tempos parecem requerer. Distanciar Platão é. justificativas ou de execração) ofe- rece ainda estímulos críticos e proposicionais que têm interesse para nós. 7 e 9. Le philosophe-roi. EDMOND. PRADEAU. P. e não podia ser o dele. de investi-los num quadro de problemas e de interesses que é o nosso. Em suma. talvez. também M.

(Página deixada propositadamente em branco) .

216. 133 Annas Julia. 248 Arquitas. 60. 210-2. 258 Aristófanes de Bizâncio. 27 * O índice não inclui os nomes das personagens dos diálogos de Platão e de Cícero. 161 Aristófanes. 209 Adam Joseph. são indicados só os nomes dos autores e dos organizadores das obras citadas. 235 Alexandre. 276 Antístenes. . 66 Abelardo. 31. 178 Apuleio. No que diz respeito às notas bibliográficas. 242 Agazzi Emilio. índice dos nomes* Abbate Michele. 253. 56 Alcínoo. 62. 238. 110 Albino. 233-6. 248. 215. 206.

97. 131 Calogero Guido. 195. 57-8. 216. 188-191 Bannes Joachim. 68. 169 Barker Ernest. 195. 228 Bodin Jean.Aristóteles. 233. 249. 229 Bruni Leonardo. 209. 34. 234. 103 Bentham Jeremy. 140 Cálicles. 237. 194. 218. 40. 269 Calder William M. 172 286 . 166 Bernardo de Chartres. 248. 89-94. 207 Berlin Isaiah. 268 Buxton Richard. 63 Brunt Peter A. 73-4. 229. 66. 254 Burnyeat Myles. 63. 130. 97. 206 Brumbaugh Robert. 110. 275. 278 Audano Sérgio. 278 Bloom Allan. 261. 231. 62. 204. 68-9. 227. 169. 110. 273. 100 Bergson Henri. 216. 41. 236. 197. 65 Brisson Luc. 209 Bertelli Lucio. 108. 149-150. 60. 122. 254. 42. 33. 248. 254 Brucker Jakob.. 160 Bebel August. 43-55.. 229 Blössner Norbert. 209-0. 269. 228. 205. 253 Bobonich Christopher. 23 Bambrough Renford. 162. 98. 125.

133. 244 Casertano Gianni. 109 Dickinson Lowes. 187. 139. 150-1. 91. 165-9. 229 Crossman Richard. 42. 105 Comte Auguste. 249 287 . 165 D’Hondt Jacques. 163-5. 25. 27 Díon. 269 Campanella Tommaso. 153-4. 160 Diès Auguste. 42. 62 Crítias. 254 Cicero Vincenzo Cícero. 128. 30-1. 147 Corisco.Cambiano Giuseppe. 156. 123 Cornford Francis Macdonald. 109 Ciro. 209. 246-7. 28. 200. 172 Diógenes Laércio. 34. 178. 173 Crisolora Manuele. 129. 164 Cohen Hermann. 258 Canfora Luciano. 62 Demócrito. 269 Cármides. 109. 176. 244 Cropsey Joseph. 25. 228 Decembrio Pier Candido. 182. 155. 38. 28. 146. 254 Cavini Walter. 108 Dawson David. 23 Ciani Maria Grazia. 195. 143-4. 94. 275 D’Adio Mario. 173. 269 De Luise Fulvia. 258 Decembrio Uberto. 164. 244.

54 Erasto Espeusipo. 124. 183 Feder Gottfried. 149 Farinetti Giuseppe. 246 Dixsaut Monique. 279. 109. 249 288 . 164 Filipe de Opunte. 38. 236. 132 Epicteto. 228-230.Dionísio I. 237-8 Ferraris Maurizio. 60. 25 Filodemo. 191 Eurípides. 64-6 Filipe de Macedónia. 29-30. 109 Eldestein Ludwig. 123 Esposito Roberto. 165. 254. 30-31. 164. 140 Fezzi Luca. 23. 102. 23 Fichte Johann Gottlieb. 141 Ferrari Franco. 165 Duso Giuseppe. 283 Egídio Romano. 206 Evola Julius. 187. 228 Farrington Benjamin. 61. 97. 173. 178. 223-4. 246 Dionísio II. 269 Ferrari Giovanni. 228 Dodds Eric. 62. 191. 254 Edmond Michel-Pierre. 105 Ficino Marsilio. 209 Empédocles. 191 Dostoevskij Fëdor.

276 Galli Carlo. 134-6. 87-92. 227-8 Grote George. 82. 228. 258. 110 Glucker John. 23. 254. 135 Goethe Johann Wolfgang. 195 Gramsci Antonio. 254. 147. 117 Goldschmidt Victor. 248. 251-2. 275 289 . 111. 163. 140 Franco Repellini Ferruccio. 110. 249. 173 Gobineau Joseph. 140 Forti Simona. 176. 98. 176. 86. 90-5. 191 Frederico II. 95-6. 229. 259. 86. 187 Gomperz Theodor. 140 Gombrich Ernst. 82. 156-9 George Stefan. 110. 141. 255 Gabba Emilio. 268 Fischer Fritz. 41. 282 Günther Hans Friederich Karl. 75 Fritz Kurt von Funke Hermann. 126. 257. 125 Gerlach Hans-Martin. 205-7. 183. 221. 65 Gentile Marino. 110. 268 Griswold Charles. 253. 139 Frede Dorothea. 275. 135 Gemisto Pletone. 191 Galton Francis. 195. 149. 200-3. 255 Giametta Sossio. 206. 195-8. 140 Giorgini Giovanni.Finley Moses. 255 Gadamer Hans Georg. 107.

124-130. 169. 182. 208. 122. 67-74. 176. 97. 140. 226. 249. 276. 139.Hankins James. 232. 210. 254 Isócrates. 179. 116. 141. 160. 206. 104-5. 252 Kazamanova Ljudmila. 110 Heraclito. 160 Kahn Charles. 82. 144. 156 290 . 253 Hyland Drew. 115. 171. 149. 100. 275 Kautski Karl. 258. 73-5. 77-8. 107. 208. 162 Hobbes Thomas. 41. 275 Hitler Adolf. 170. 118. 216. 181. 258. 114. 129. 123 Hildebrandt Kurt. 109. 269 Jaeger Werner. 234 Höffe Otfried. 132 Hermia (tirano de Atarneia) Heródoto. 275. 268. 150-1. 136. 146. 156. 140 Kant Immanuel. 187. 56 Jowett Benjamin. 124. 108-9. 232 Jâmblico. 127. 80-4. 280 Heinimann Fritz. 229 Isnardi Parente Margherita. 195. 104. 137. 164 Jacono Alfonso. 108. 273. 163. 206. 111-112. 66 Hegel Georg Wilhelm Friederich. 137. 164. 172 Kelsen Hans. 115-21. 136. 139-140. 132-4.

249 Maimónides. 109. 42. 291 Levinson Ronald B. 168. 252. 179. 191. 269 Lane Melissa. 170 Korotin Ilse. 188-9. 196. 170. 234 Longo Mario. 96. 63 Maddalena Antonio. 162. 160 Locke John. 195 Lisi Francesco. 23. 85. 140 Luria Salomon. 226. 212. 171. 156. Licurgo. 208. 250. 94 Kobau Pietro. 155. 228 Laks André. 108 Losev Aleksei. 21. 258 291 . 80. 110 Lenine (Vladimir Il’ič Ul’janov). 171 Lukács György. 173 Lanza Diego. 171 Machiavel Niccolò. 208-9 Marco Aurélio. 171-2. 176. 255 Livingstone Richard.Kircher Athanasius. 184. 230. 185. 140 Kojève Alexandre. 75 Marx Karl. 140 Kraut Richard. 102 Lembeck Karl-Heinz. 172. 269 Lassalle Ferdinand. 230 Kollontai Alexandra. 210 Macróbio. 161.

275. 96 Mill John Stuart. 105-7..Maurer Reinhardt. 124-7. 292 Natorp Paul. 229. 170 Oertel Friedrich. 269 Mosca Gaetano. 224 Novitskii Orest. 140 More Thomas. 262. 87. 148 Narducci Emanuele. 253. 171. 173 Mendel Gregor. 204. 140 292 . 261. 170. 191 Mazzotti Adele. 255 Mussolini Benito. 134. 279 Mosse George L. 109 Muccioli Federico. 170. 228 Montinari Mazzino. 99. 110 Mondolfo Rodolfo. 90. 188. 135 Michels Roberto. 140 Movia Giancarlo. 258 Morrison Donald. 66 Nethercott Frances. 110. 242. 106-7. 140. 282 Neschke-Hentschke. 279 Mill James. 173 Nietzsche Friedrich Wilhelm. 195. 109 Monoson Sarah. 94. 218. 96. 88. 98. 42. 110 Orozco Teresa. 90.

246. 228 Rickert Heinrich. 155. 143-7. 169. 163. 282 Romualdi Adriano. 228. 279. 166. 231 Protágoras. 34. 42. 193-8. 136. 255 Pöhlmann Robert von. 252. 134. 141 Roochnik David. 28 Pissavino Paolo. 214. 262 Renaud François. 56-62. 34. 218. 207. 130. 230. 236. 247 Rosenberg Alfred. 223-6. 282 Polo. 267-8. 183. 261. 165. 28. 269 Rawls John. 249. 115 Popper Karl. 92. 220. 178 Quarta Cosimo. 184-191. 250. 94. 126. 65 Péricles.Pareto Vilfredo. 132 Plutarco. 283 Proclo. 151. 64-6. 121 Robin Léon. 231. 274 Patrizi Francesco. 128. 275-6 Pradeau Jean François. 278. 229. 175-182. 218. 209. 26-7. 110. 220. 94. 276 Rosen Stanley. 169 293 . 195. 172. 196 Pirilampo. 66 Pitágoras. 249. 96-107. 170. 229. 279 Parménides. 34 Popitz Johannes von.

269 Seung Thomas K. 207-218. 251. 275 Ryle gilbert. 221. 191 Saint-Simon. 137. 255 Schwarzkopf Ekkehardt. 173. 156 Rowe Christopher. 42 Schopenhauer Arthur. 61.Rousseau Jean-Jacques. 110 Santanello Giovanni. 172-3. 161-2. 102 Sandkühler Hans Jorg. 195. 170 Stefanini Luigi. 172. 228. 164. Claude-Henri Rouvroy de. 218. 150-6. 199. 252.. 202. 229-230 294 . 121-3. 195. 102. 282 Stenzel Julius. 269 Rubinstein Matvei. 170 Rudolph Enno. 111. 116. 228 Schelling Friedrich. 187. 255 Stallin (Iosif Vissarionovič Džugašvili). 168. 191. 139. 127 Schenk Günter. 204. 108 Singer Kurt. 208 Schofield Malcolm. 191 Russell Bertrand. 135. 170. 255 Schmitt Carl. 251. 249 Strauss Leo. 187. 127 Schottlaender Rudolf. 250-1. 203. 244 Sordi Marta. 227. 166. 201. 255 Settis Salvatore. 108 Saxonhouse Arlene. 224-6. 125 Sólon. 278. 70. 177.

254 Trasilo. 253 295 . 110 Tucídides. 173. 182. 159. 133. 34.Temístocles. 228 Vögelin Erich. 269 Vegetti Matteo. 66 Vegetti Mario. 41. 110 Tocqueville Alexis de. 249 Timpanaro Sebastiano. 108-9 Vitiello Vincenzo. 255 Vasoli Cesare. 195 Trabattoni Franco. 254. 26 Trasímaco. 23 Vallet Georg. 34 Timoleonte. 254 Trzaskoma Stephen. 176. 64. 191 Vlastos Gregory. 196. 230. 229 Vieillard-Baron Jean Louis. 162 Trzaskoma Stephen. 232-3. 34 Trampedach Kai. 41. 61. 110 Tucídides. 162-3. 255. 23 Trampedach Kai Trasilo Trasímaco. 66. 255 Timónides de Leucade. 34 Ugolini Gherardo. 42. 94 Toynbee Arnold Joseph.

140 Wilamowitz Ulrich von. 249 Xenofonte. 89. 23. 170 Zimbrich Ulrike. 226. 92. 100. 165. 295 Zetkin Clara. 95. 264. 123. 195. 132. 139. 113-116. 98. 210. 158. 82-7. 111. 109. 230 Zeller Eduard. 164. 140. 119-120.White Donald. 125. 200. 137. 269 296 . 141 Zuolo Federi. 282.

(Página deixada propositadamente em branco) .

discursos. e etenha tenha e tenha como como como objetivo objetivo objetivo habitá-la” habitá-la” habitá-la” (República (República (República 592a-b).“““ Percebo Percebo Percebo – –ele–eledisse eledisse disse –:–:queres –:queres queres dizer dizer dizer que que que a cida- a cida- a cida- dedecuja decuja cuja fundação fundação fundação estamos estamos estamos discutindo discutindo discutindo está está está nos nos nos discursos. à disposição à disposição à disposição dedede quem quem quem o oqueira oqueira queira ver. pois pois pois não não não penso penso penso que queque elaelaexista elaexista exista ememem nenhum nenhum nenhum lugar lugar lugar dadaterra”. 592a-b).esteja . 592a-b). ver. “Mas “Mas “Mas talvez talvez talvez – –eu–eurespondi eurespondi respondi . terra”. discursos. ISBN ISBN 978-989-26-0260-8 ISBN 978-989-26-0260-8 978-989-26-0260-8 9 789892 9 789892 9 789892 602608 602608 602608 . paradigma. ver.esteja nonocéu nocéu céu como como como um umum paradigma. paradigma. daterra”.esteja .