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POLÍCIA MILITAR DE SANTA CATARINA

CENTRO DE ENSINO DA POLÍCIA MILITAR
CURSO DE FORMAÇÃO DE CABOS

CADERNO DE ESTUDOS

Direitos Humanos na Atividade Policial

Professor Conteudista:
Julio Cesar Pereira

FLORIANÓPOLIS (CFC/2017)

1ª Edição

Prezado Aluno,

O ensino da disciplina de Direitos Humanos na Atividade Policial visa o aprendizado da
real importância do respeito aos direitos humanos na construção de uma sociedade mais justa
e igualitária, e de que seu desenvolvimento acompanhou a evolução e aprimoramento da
própria sociedade.
Este conhecimento dará aos discentes a oportunidade de perceber a importância da
atuação do Policial Militar na garantia destes direitos junto à sociedade como forma de
minimizar conflitos e garantir, em seu raio de competência, a paz social.
O estudo desta disciplina será conduzido de forma que as atuais distorções acerca do
tema sejam sanadas. Ou seja, desmistificar a ideia de que a Polícia Militar é o braço armado do
Estado, coadunando com arbitrariedades deste e, portanto, contra os direitos humanos.
De outro norte, o estudo desta disciplina quer despertar a real importância e a difícil
construção destes direitos ao longo do progresso da sociedade, dissociando os mesmos da
aparente função de “defesa de bandidos” ou hodiernamente chamado de forma pejorativa de
“Direitos dos Manos” em função de algumas distorções e desproporção de sua aplicação.
A existência e consolidação destes direitos é uma conquista de toda a sociedade e
qualquer aplicação inapropriada dos mesmos não deve macular a importância deste avanço na
busca pela defesa de direitos mínimos à condição de ser humano.
É uma mudança de paradigma, um olhar diferente sobre o conteúdo, assim convido a
todos para uma nova forma de pensar o tema, capaz de destacar o verdadeiro avanço para a
coletividade e motivando uma nova postura na atuação policial!

Bom Estudo!

Sumário

INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 4
CAPÍTULO 1 .............................................................................................................. 5
1.1 Conceitos de Direitos Humanos ........................................................................... 5
1.2 Evolução Histórica ............................................................................................... 7
1.3 Gerações ou Dimensões de Direitos Humanos ................................................... 9
1.4 Características dos Direitos Humanos ............................................................... 12

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 13
CAPÍTULO 2 ............................................................................................................ 14
2.1 Tratados Internacionais de Direitos Humanos ................................................... 14
2.2 Incorporação dos TIDH na Legislação Brasileira ............................................... 15
2.3 Sistemas Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos ............................. 17
2.3.1 Sistema Universal ou Global (Organização das Nações Unidas) .................... 17
2.4 Os Principais Sistemas Regionais de Proteção: O Sistema .............................. 20
2.4.1 Sistema Interamericano, Europeu e Africano ................................................... 20

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 24
CAPÍTULO 3 ............................................................................................................. 25
3.1 Atividade Policial e Direitos Humanos................................................................. 25
3.2 Código de Conduta-CCEAL ................................................................................ 27
3 .3 Lei de Abuso de Autoridade e Lei de Tortura ..................................................... 29
3.4 Grupos Considerados Vulneráveis...................................................................... 31
3.4.1 Mulheres (POP 304.5) ..................................................................................... 31
3.4.2 Crianças e Adolescentes ................................................................................. 32
3.4.3 Idosos .............................................................................................................. 32
3.4.4 Pessoas com Deficiência ................................................................................. 33
3.4.4.1Cadeirantes ou pessoas com outras limitaçãoes motoras ............................. 33
3.4.4.2 Pessoa com deficiência visual ...................................................................... 33
3.4.4.3 Pessoa com deficiência auditiva .................................................................. 34
3.4.4.4 Pessoa com deficiência intelectual ............................................................... 34
3.4.4.5 Gays,lésbicas,bissexuais,transexuais e travestis - GLBT ............................. 34
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 36

serão descritas as características inerentes aos Direitos Humanos como um grupo especial de direitos. Serão abordadas também as gerações ou dimensões de direitos humanos. será realizada uma revisão conceitual e histórica. 4 . a dinâmica do assunto permite uma divisão bastante coerente com a evolução social. No fim do capítulo. Para compreensão do tema e resgate dos valores reais deste grupo de direitos. Apesar de algumas divergências em relação ao tema na literatura. CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO Neste primeiro capítulo serão abordados aspectos teóricos acerca dos Direitos Humanos.

Segundo Enoque Ribeiro dos Santos (2004. ou seja. pois nascem apenas da condição de ser da espécie humana. diferença biológica. com os contornos que hoje conhecemos (contrato social). com este reconhecimento. independente de gênero. em uma coletividade. a dinâmica social e o desenvolvimento do Estado. a coletividade precisou adequar-se de forma abrupta a um novo sistema. bem como sua positivação constitucional. credo. cuja base é reconhecer de forma igualitária direitos mínimos inerentes a qualquer ser humano. 38). nacionalidade. CAPÍTULO 1 Neste Capítulo. será realizada uma abordagem conceitual. classe social ou outra característica que o faça diferente. 1. Neste sentido. estão pautados os direitos humanos. p. Somos muitos.1 Conceitos de Direitos Humanos Com o crescimento populacional. tão pouco garantidos apenas a uma ou outra parcela da sociedade. ajustes e melhorias precisam ser pensados para minimizar alguns danos causados por estas mudanças. È reconhecer que tais direitos não podem ser negados. teórica e histórica acerca do surgimento e características gerais dos Direitos Humanos. É perceber no outro. nossa espécie é numericamente gigante e diversa. O que nos une e faz com que reconheçamos uns aos outros é a singularidade de sermos humanos. cultura. À medida que a humanidade progride como sociedade. apesar de todas as diferenças. a expressão "direitos humanos" possui 5 . a característica do pertencimento a mesma espécie.

pelo simples fato de ter ela nascido com esta qualificação jurídica. culturais ou de qualquer outra ordem. de participação política. afirmando que independem do espaço físico ou do tempo. crença. opinião. 35-36): Em que pese sejam ambos os termos („direitos humanos‟ e „direitos fundamentais‟) comumente utilizados como sinônimos. Ao tratar do tema em sua obra intitulada: Introdução ao estudo dos direitos humanos. procedente para a distinção é de que o termo „direitos fundamentais‟ se aplica para aqueles direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de determinado Estado. pois possuem tendências universais presentes em todos os seres com patrimônio genético compatível com o humano. independente da soberania de qualquer Estado. aspiram à validade universal. A existência desses direitos visam coibir arbitrariedades e abuso do próprio Estado garantido o mínimo de dignidade ao indivíduo perante a difícil condução do coletivo pelos poderes constituídos.. saúde. ao trabalho. a explicação corriqueira e. São direitos que pertencem à essência ou à natureza intrínseca da pessoa humana e que não são acidentais ou suscetíveis de aparecerem e de desapareceram em determinadas circunstâncias. independentemente de condição social..o seguinte conceito: [. são os direitos humanos positivados na norma constitucional de uma nação. resta claro que. p. direito a proteção. diga-se de passagem. independentemente de sua vinculação com determinada ordem constitucional. 6 . de forma didática. progresso. portanto. qualquer documento ou lei normativa interna. de tal sorte que revelam um inequívoco caráter supranacional (internacional). Nos ensinamentos de Ingo Wolfgang Sarlet (2007. etc. direito ao repouso. a dignidade. 5) ensina acerca da universalidade conceitual dos direitos humanos. os direitos humanos já se fazem presente com a qualidade de pertencer à espécie humana.] pode ser atribuído aos valores ou direitos inatos e imanentes à pessoa humana. traços raciais. religiosos. e que. p. visando influenciar as leis que formarão o arcabouço jurídico sob o qual um povo conhecerá seus direitos e deveres para viver em sociedade. Claudio Brandão (2014. segurança. cuja execução é assegurada pelas garantias fundamentais. por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal. privacidade. a informação. ao passo que a expressão „direitos humanos‟ guardaria relação com os documentos de direito internacional. Já os chamados direitos fundamentais. Neste sentido. do direito à vida. para todos os povos e tempos. São direitos que tratam da liberdade. meio ambiente equilibrado.

Conforme verificamos no caput do art 5° da CF/1988: “Todos são iguais perante a lei. durante a Segunda Guerra Mundial. limitando o poder estatal.. de forma mais resumida. o racionalismo. ocorreram uma série de violações contra seres humanos. podemos levantar três importantes fatos históricos que influenciaram sobremaneira na construção dos direitos humanos como conhecemos hodiernamente: o Iluminismo. Enaltecia o homem em relação aos demais animais. foi um movimento de luta contra as arbitrariedades do Estado. destacou-se o pensamento racional dos fatos em contraste com o obscurantismo e misticismo vigente. XXXIV. em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder. também em seu art 5°. inúmeras constituições que trouxeram insculpidos em seu texto direitos individuais e coletivos como forma de proporcionar dignidade mínima aos seres humanos. Pregavam a liberdade. à segurança. Apesar de inúmeros acontecimentos terem influenciado tais direitos. A influência dos ideais iluministas está presente no texto da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. a Revolução Francesa e o término da Segunda Guerra Mundial. trazendo discussões sobre a necessidade das nações criarem 7 . sendo um movimento de debate de ideias que influenciaram a humanidade e refletiram na atual concepção dos Direitos Humanos. defendia a igualdade. à propriedade [. alínea a garante o direito de peticionamento. à igualdade. de forma direta. sendo modificados (evoluindo ou retrocedendo) conforme as transformações sociais. a igualdade e a fraternidade entre os homens e influenciou.2 Evolução Histórica A evolução dos direitos humanos acompanhou a história da humanidade.. A CF/1988. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida.” 1. sem distinção de qualquer natureza. DIREITOS FUNDAMENTAIS: são direitos reconhecidos e declarados na Constituição Federal. A Revolução Francesa influenciada pelo Iluminismo. Na metade do século XX.]” (grifo nosso) GARANTIAS FUNDAMENTAIS: são os mecanismos que garantem o exercício destes direitos. “são a todos assegurados. independente do pagamento de taxas: A) o direito de petição aos Poderes Públicos. à liberdade. No período do Iluminismo.

. A criação da Organização das Nações Unidas e A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) tinham como escopo a manutenção da dignidade das pessoas. sendo um ideal a extensão dos direitos humanos a todos os povos.A Convenção de Genebra de 1864.Declaração de Direitos (Bill of Rights) de 1689 na Inglaterra. . Neste sentido.A Constituição Francesa de 1848. No Brasil. Constituição de Portugal (1822). .mecanismos para impedir arbitrariedades e barbáries similares. Além da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. a primeira Constituição do Império de 1824 sofreu influência dos textos constitucionais da França e dos Estados Unidos. .O Estatuto do Tribunal Penal Internacional de 1988. A Constituição de 1988.Lei de Habeas Corpus de 1679 na Inglaterra. dentre outras.A Carta das Nações Unidas de 1945. Outros eventos ao longo da História e outros documentos legais em diversos países contribuíram para a evolução da definição e proteção dos direitos humanos. . . chamada também de Constituição Cidadã. Outras Constituições que também demonstraram contribuições na positivação dos direitos humanos foram a Constituição da Espanha (1812).A Constituição de Weimer (Alemã) de 1919.A Magna Carta de 1215 do Rei João da Inglaterra. . . traz em seu Art. . outros documentos podem ser elencados para quem deseja aprofundar-se nos estudos da progressão evolutiva do tema. e trouxe um capítulo tratando dos direitos e garantias fundamentais que se mantém até os dias atuais. vigente atualmente. podemos citar os seguintes documentos como um rol exemplificativo: . . 1° os fundamentos no qual o Estado está alicerçado e assim coloca: 8 .A Constituição dos Estados Unidos da América do Norte em 1976.Os Pactos Internacionais de Direitos Humanos de 1966. Belga (1831).A Constituição do México de 1917. independente de sua nacionalidade.

os doutrinadores utilizam o termo “gerações” ou “dimensões” para determinar sua evolução. este assunto evolui com os acontecimentos históricos. dividindo-os em cinco capítulos: direitos individuais e coletivos. conforme o art. § 4º. 9 . Direitos de 1ª Geração São os direitos civis e políticos. constitui-se em um Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – […]. discussão entre os séculos XVII e XVIII. A redação da Constituição de 1988 demonstrou um avanço em termos de proteção aos direitos humanos não apenas elencando uma série de direitos e garantias fundamentais. direitos sociais.3 Gerações ou Dimensões de Direitos Humanos Para facilitar o estudo acerca dos direitos humanos. sendo apenas uma forma didática de tratar o tema. Devemos citar ainda. resta claro que o ordenamento jurídico pátrio deve pautar-se neste sentido. 1. porém como explicado anteriormente. 60. Contempla também os direitos do homem de participar e fazer parte do processo político. A liberdade do indivíduo tinha que ser resguardada evitando arbitrariedades do Estado. 1° A República Federativa do Brasil. garantias no Titulo II de seu texto. II – […]. (grifo nosso) Desta forma. Neste sentido. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. possuindo uma dinâmica que acompanha a evolução da sociedade. a inclusão de direitos difusos como o faz em seu art. através da limitação de sua interferência. sendo a dignidade da pessoa humana um dos pilares que fundamenta o Estado. 225 ao tratar do meio ambiente. A própria Constituição Federal traz um elenco de direitos fundamentais. nacionalidade. direitos políticos e partidos políticos. Há divergência doutrinária quanto ao tema. A exposição diferente na literatura acerca da divisão destas gerações não elimina qualquer direito. bem como. III – a dignidade da pessoa humana. mas também os elevando ao patamar de cláusulas pétreas. destaca-se a prestação negativa do Estado. inciso IV. Art.

São direitos que visam à manutenção da própria existência humana. discussão entre os séculos XIX e XX. O conhecimento científico culminou em inúmeros direitos que devem ser estendidos à humanidade como um todo. muitos estão presentes em tratados internacionais. assim como os direitos coletivos. A evolução histórica no qual houve a saída em massa das pessoas do campo para as fábricas (Revolução Industrial). Estes direitos são do final do século XX. ou de uma determinada classe. Direitos de 3 ª Geração São os chamados direitos difusos ou transindividuais. O quadro abaixo ilustrado por Claudia Franco Lopes em seu site. bem como. interferindo de forma a oferecer e garantir estes direitos. pois a manutenção destes direitos depende de esforços coletivos: do Estado e da sociedade. traçar diretrizes para o bem estar social. Direitos de 2ª Geração - São os direitos. bem como o desejo de acesso aos bens de consumo produzidos. trouxe a necessidade de proteção aos direitos econômicos. Por suas características coletivas. Direitos de 4ª Geração Os ditos direitos de 4ª Geração foram sendo delineados com o avanço da ciência e tecnologia. culturais e sociais do homem. Não visam proteção individual. tornando-se um compromisso de diversas nações. no sentido de coletividade. Nos direitos de segunda geração há prestação positiva do Estado. facilita o entendimento estas gerações de direitos humanos: 10 . sociais e econômicos.

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Não há hierarquia entre os mesmos. Relatividade: Os direitos fundamentais não são absolutos. podem ser relativizados diante de situações em conflito. 12 . raça. independente de nacionalidade credo. Imprescritibilidade: eles não sofrem alterações com o decurso do tempo. cor. nacionalidade. Inviolabilidade: esses direitos não podem ser descumpridos em razão de lei infraconstitucional. convicções.4 Características dos Direitos Humanos Os direitos humanos possuem características especiais próprias que devem ser elencadas: Universalidade: são direitos inerente à qualquer ser humano. por nenhuma pessoa ou autoridade pública. 1. sexo. seja a título gratuito ou oneroso. Irrenunciabilidade: Não podem ser objeto de renúncia. Indisponibilidade: esses direitos não podem ser renunciados em nenhuma hipótese Não cabe ao particular dispor dos direitos conforme a própria vontade. Indivisibilidade: Sua análise não pode ser feita de forma isolada. Inalienabilidade: São direitos que não permitem transferência.

vamos tratar dos mecanismos internacionais de garantia do exercício pleno dos direitos humanos. tornando-se parte do Direito Internacional. Para tanto. característica dos direitos humanos. Nesta lógica. com que a plenitude de seu exercício ultrapasse a soberania dos Estados. estudaremos sobre tratados internacionais e suas consequências aos países signatários. 13 . Abordaremos também de que forma estes documentos internacionais são inseridos no ordenamento jurídico pátrio e as polêmicas sobre o tema. vamos apresentar os Sistemas de Proteção e sua forma de atuação: Sistema Global e Sistemas Regionais. faz. A universalidade. Por fim. conforme estudamos. CAPÍTULO 2 INTRODUÇÃO No segundo capítulo estudaremos acerca da concepção internacional de direitos humanos.

1 Tratados Internacionais de Direitos Humanos Os Tratados Internacionais de Direitos Humanos surgiram como uma forma de evitar atrocidades a qualquer indivíduo da espécie humana. Tratados Internacionais de Direitos Humanos visam à melhoria das condições humanas 14 . veio a aprofundar a afirmação histórica dos direitos humanos. cor ou outra característica própria. Nos ensinamentos de Fábio Konder Comparato (2005. iremos abordar os Tratados Internacionais de Direitos Humanos. a humanidade compreendeu. foram discutidos e formalizados diplomas orientadores visando metas e garantias para o respeito a vida humana em qualquer circunstância. segundo a lição luminosa da sabedoria grega. sua influência no ordenamento jurídico pátrio. como forma de evitar os infelizes acontecimentos de conflito entre nações. assinando-os através de seus representantes. mais do que em qualquer outra época da história. Surgiram como uma resposta mundial aos horrores ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. excluindo qualquer juízo de valor acerca de sua nacionalidade. iniciados com o fortalecimento do totalitarismo estatal nos anos 30. As nações que analisam e concordam com os ditames destes Tratados Internacionais. p. CAPÍTULO 2 Neste Capítulo 2. São documentos norteadores da conduta dos Estados em busca da melhoria de suas ações visando a manutenção da dignidade de seus indivíduos. bem como o Sistema Internacional de Proteção. O sofrimento como matriz da compreensão do mundo e dos homens. Neste sentido. 2. o valor supremo da dignidade humana.9) […] após três lustros de massacres e atrocidades de toda sorte. crença religiosa. são chamados de signatários e estão comprometidos com a observação das orientações expressas.

ou dos tratados internacionais de que a República Federativa do Brasil seja parte. (BRASIL. CF).] I – [. 4° (BRASIL.. em dois turnos. Por conseguinte. (BRASIL. § 2º. ao adquirirem status de Emenda Constitucional. 1988): Art.. podendo ser alterados somente por processo de votação qualificado (artigo 60.. 5º. serão equivalentes às emendas constitucionais. em 2004. 2. o teor terá força de Emenda Constitucional. (grifo nosso) E ainda devemos mencionar o art. Sua existência influencia os ordenamentos jurídicos internos das nações e são referência para o mundo dos valores globais mínimos de dignidade que se espera oferecer a todos os indivíduos da espécie.. 5º da Constituição Federal de 1988: Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. parágrafo 2º. revestem-se da rigidez constitucional.2 Incorporação dos TIDH na Legislação Brasileira Ao tratar expressamente sobre os princípios que regeriam nossa nação no que tange as relações internacionais. em cada Casa do Congresso Nacional. 45 acrescentou o parágrafo 3º no art.no âmbito mundial. 1988) Logo. a Constituição Federal pontua expressamente em seu Art. se a matéria contida no Tratado Internacional assinado pelo Brasil tratar de Direitos Humanos e o quórum qualificado mediante votação nas duas Câmaras (Senadores e Deputados Federais) for verificado. 15 . 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [. esses TIDH. por três quintos dos votos dos respectivos membros. a Emenda Constitucional nº.] II .prevalência dos direitos humanos. que aduz: “Os direitos e garantias expressos nesta constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. 1988)” No que tange especificamente a Tratados Internacionais de Direitos Humanos (TIDH).

tendo como relator o Ministro Cezar Peluso do Supremo Tribunal Federal foi que Tratados Internacionais de Direitos Humanos que não seguiram o rito constitucional do quórum qualificado têm natureza de normas supra legais. em geral. CF). A decisão do Recurso Extraordinário nº. quorum qualificado para aprovação 16 . os Tratados Internacionais de Direitos Humanos. ou seja. qual seja. Em razão de sua matéria. algumas divergências doutrinárias acerca dos TIDH aprovados pela regra antiga. tratar de direitos fundamentais. seguidas as formalidades processuais. 5° da Constituição Federal. os mesmos encontram-se protegidos pelo manto da imutabilidade das cláusulas pétreas (artigo 60. Na hierarquia das leis. 466. sem o quórum qualificado.343/SP em 03 de dezembro de 2008. § 4º. começaram a ocorrer entre os juristas. devendo cumprir a regra processual prevista pelo §3° do Art. estes TIDH estariam assim classificados no ordenamento jurídico: CONSTITUIÇÃO FEDERAL TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS LEIS ORDINÁRIAS Com a mudança da legislação trazida pela Emenda Constitucional n° 45/2004. nos quais o Brasil é signatário farão parte do ordenamento jurídico brasileiro. conforme se verifica no desenho abaixo: CONSTITUIÇÃO FEDERAL TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS LEIS ORDINÁRIAS Desta forma.

1 Sistema Universal ou Global (Organização das Nações Unidas) É o sistema normativo global. o Conselho de Tutela (suspenso em 1994). um tratado internacional que enuncia direito e deveres dos membros da comunidade internacional. interferência estatal ilegal. Estes sistemas são o conjunto de normas. órgãos especializados e mecanismos internacionais surgidos após a 2ª Guerra Mundial com o intuito de promover a proteção dos direitos humanos em todo o mundo. casos de limpeza étnica. 2. a manutenção da paz. Os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos foram estruturados com este objetivo. formado por uma série de tratados e pactos de proteção aos direitos humanos no âmbito das Nações Unidas (ONU). entre outros. além das fronteiras políticas das nações. o progresso social e preservação dos direitos humanos. são necessários mecanismos e estrutura para tornar possível a consecução destas metas.3. assinada em 26 de junho de 1945 pelos 51 membros originais (hoje são 193). Europeu e Africano). há um sistema universal (Organização das Nações Unidas) e três sistemas regionais de proteção (Interamericano. 2. A ONU foi criada com o escopo de promover a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu com o fim da Segunda Guerra Mundial.3 Sistemas Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos Além das normas e preceitos trazidos pelos Tratados Internacionais acerca do respeito e prevalência dos direitos humanos a todos os povos. Hodiernamente. fica em Haia e sua principal finalidade é dirimir litígios entre os Estados. a ONU realizaria suas atividades através de seis órgãos principais: a Assembleia Geral. O tribunal ouve casos relacionados a crimes de guerra. na qual os países signatários propunham medidas para evitar a ocorrência de conflitos armados entre as nações mundiais. Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). o Conselho de Segurança. o Conselho Econômico e Social. Regida pela Carta das Nações Unidas. O Sistema ONU (Global) possui dois tipos de procedimentos: os convencionais e os 17 . a Corte de Justiça e o Secretariado. As nações pactuaram os ditames da Carta da ONU.

A título de conhecimento. tomando providências concretas. a sistematicidade. organograma representando o Sistema das Nações Unidas. 18 . os órgãos que o compõe e suas atribuições. Os procedimentos não convencionais são mecanismos não previstos em tratados que contribuem com a eficácia do sistema internacional de proteção. a ONU analisará as violações com base em requisitos como a persistência. pactos e convenções internacionais. O referido organograma faz parte do material preparado pelo Major Reginaldo Rocha de Souza e pela Cabo Djenane Mezetti Semensati para o Curso de Formação de Soldados da PMSC. segue abaixo. O procedimento convencional requer a sua previsão expressa em tratados.não convencionais (ou extraconvencionais). como por exemplo. o sistema de ações urgentes. a gravidade e a prevenção. Nestes casos. Os mecanismos não convencionais são bastante específicos em caso de não assinatura dos tratados internacionais pelos países violadores de direitos humanos num caso específico. para decidir se intervirá através de um de seus órgãos.

19 .

Outro ponto é a relativização da soberania absoluta do Estado. Esta Declaração traz direitos fundamentados na condição de pessoa humana. é permitido o monitoramento e mesmo intervenção em âmbito nacional. aprecia petições que contenham 20 . ou seja. ratificada pelo Brasil em 1992. independente da nacionalidade. Trabalham de forma similar ao sistema global. 2. pelo bem maior da defesa dos direitos humanos. quando houver violação destes direitos. além da qualidade de pertencer à espécie humana. Como diplomas que fazem parte desse Sistema. não subjugando a qualquer característica específica. dentre suas atribuições. Como Sistema Regional temos o Sistema Interamericano. 2. o Sistema Europeu e o Sistema Africano.4 Os Principais Sistemas Regionais de Proteção: O Sistema Estes mecanismos de proteção internacional obrigaram em uma nova forma de pensar os direitos. Fazem parte desse Sistema também uma Comissão e uma Corte Interamericana de Direitos Humanos. uma vez que se aplica o princípio da norma mais favorável a vítima (direito internacional). No entanto. pois seu direito é reconhecido fora da esfera de sua nacionalidade. evitando qualquer violação. uma vez que possuem os mesmos objetivos. Neste sentido.1 Sistema Interamericano. Europeu e Africano Os chamados sistemas regionais trabalham de forma complementar ao sistema global de proteção dos direitos humanos. proporcionou proteção internacional. a importância da garantia aos direitos humanos. este tem direitos que ultrapassam o seu Estado ou ordenamento jurídico parece equivocada. A Comissão. a proteção máxima aos direitos humanos. em 1948. ou seja.4. fez a mudança no olhar de situações aparentemente estáticas. O Sistema Interamericano iniciou com a aprovação da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. independente da nação ao qual o indivíduo pertença. podemos ainda citar a Convenção Americana sobre Direitos Humanos ou Pacto de San José da Costa Rica (1969). Inicialmente a ideia de que. o indivíduo que entender possuir algum direito violado pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça.

A Comissão é o órgão inicial das denúncias e após sua análise. com possibilidade de serem solicitadas informações ao Estado denunciado. Inicialmente parece algo muito abstrato em nosso cotidiano. logo só podem ser apresentadas a ela denúncias ocorridas após esta data. 44) e à Convenção caberá regular o procedimento que a isso segue.340 de 2006 (conhecida como Lei Maria da Penha). O Brasil reconheceu a jurisdição contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos em dezembro de 1998. b) Quando a ação foi intentada.org/annualrep/2000port/12051. podemos resgatar aqui uma denúncia junto ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos com efeitos diretos em nosso país e na aplicação da lei no trabalho policial. É o caso Maria da Penha Maia Fernandes que culminou na Lei n° 11. Disponível em: http://www. Ficou curioso? Abra o link: Caso Maria da Penha Maia Fernandes. porém alguns fatores são considerados: a) Quando há impedimentos em acionar a jurisdição – como custas muito alta. c) Quando não se regulamenta o devido processo legal. este Sistema internacional deve ser acionado esgotadas as tentativas junto ao Poder Público brasileiro.htm 21 .denúncias ou queixas de violação (art. mas o judiciário não funciona (morosidade). Porém.cidh. De forma geral. poderá levar ou não a denúncia perante a Corte.

cidh.org/annualrep/2003port/Brasil. devendo o relatório ser enviado ao Comitê de Ministros da Comunidade para apreciação.corteidh.pdf Caso José Pereira. A Carta Africana traz consigo valores tradicionais da África e o combate ao colonialismo e 22 . O objetivo da Carta era a luta contra colonialismo e discriminação. (ii) funcionamento de uma única Corte.or. se houve ou não a violação denunciada. que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão.cr/docs/casos/articulos/seriec_149_por. Os demais procedimentos no tocante à violação de direitos são idênticos ao do sistema interamericano. Disponível em: http://www. (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos. Outros casos importantes: Caso Ximenes Lopes vs Brasil. de 1950. Relatório nº 95/03. porém só entrou em vigor em 1986.por um só órgão: a Corte Europeia de Direitos Humanos). Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa . cabendo aqui ressaltar que a África foi muito explorada ao longo de anos por suas metrópoles. O Sistema Europeu tem como diploma norteador a Convenção Europeia sobre Direitos Humanos. pela maioria de dois terços de seus membros. Este sistema é o único que permite que o indivíduo peticione diretamente à Corte. tão pouco considerado os seus direitos. Sofreu uma complementação pela Carta Social Europeia de 1961 e foi emendada em 1983 pelo Protocolo n° 11. em tempo integral (a nova Corte Europeia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998).11289. devendo este decidir. Disponível em: http://www. No Sistema Africano de Proteção aos Direitos Humanos o diploma orientador adotado é a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos de 1981.htm Foco também do nosso estudo é o Sistema Europeu de Proteção aos Direitos Humanos. de forma a não considerados os africanos como pessoas.

Faz parte do Sistema Africano. formada por 14 membros. e também traz uma inovação quanto aos seus direitos protegidos que são: os direito civis e políticos e direitos econômicos e sociais que. além da Carta como diploma orientador. são considerados “indissociáveis”. segundo o preâmbulo da Carta. 23 . a Comissão Africana de Direitos Humanos.ao Apartheid. fazendo recomendações ou mesmo sugerindo o reparo do dano causado. e que tem como função desempenhar estudos e pesquisas sobre os problemas africanos e analisar qualquer tipo de violação aos direitos humanos. Analisa também as comunicações que lhe são enviadas acerca de possíveis violações cometidas por outros Estados-Parte à Carta Africana.

algumas leis que ensejam em responsabilização do Policial Militar em razão de ilegalidade na conduta. Indicando procedimentos que podem auxiliar no atendimento de ocorrências envolvendo tais grupos. como a Lei de Abuso de Autoridade e a Lei de Tortura. documento da Organização das Nações Unidas que orienta a atividade de inúmeros profissionais. Serão tratadas neste capítulo. a atividade policial é responsável por promover e proporcionar o exercício dos direitos fundamentais da sociedade. em função de suas características. vamos tratar de grupos de pessoas que são consideradas vulneráveis. Nesta lógica. estudaremos que. diferente do senso comum. Por fim. 24 . incluindo Policiais Militares e faremos algumas considerações. CAPÍTULO 3 INTRODUÇÃO Neste terceiro capítulo serão verificados aspectos práticos entre a atuação policial e a aplicação dos direitos humanos em sua rotina de atendimento de ocorrências. Abordaremos também Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei – CCEAL.

A redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 não fez distinção entre cidadãos. por vezes.160): Para o exercício pleno da cidadania. Esta segurança precisa estar presente nos mais diversos lugares e momentos. não há antagonismos entre a atuação policial e a garantia dos direitos humanos. no entanto. serão abordados aspectos práticos da atividade policial e suas eventuais consequências no que tange a aplicação dos direitos humanos em sua rotina de trabalho. restando claro que todas as pessoas são iguais em direitos e deveres e veda qualquer forma de distinção. o qual é lembrado como um período de perdas de direitos individuais e coletivos. Segundo Ricardo Balestreri. ensina Bueno de Jesus (2009.1 Atividade Policial e Direitos Humanos Cabe aqui tratar de um ponto polêmico. diferente do que senso comum afirma. O profissional de segurança possui direitos e obrigações. pois. a ação policial garante. p. 25 . Pelo contrário. o exercício pleno dos direitos dos cidadãos. 3. sem nenhum tipo de prepotência. de preconceito ou de desrespeito às pessoas e aos direitos humanos das mesmas. sua atuação direta em situações ímpares o coloca na condição de figurar como agente promotor de Direitos Humanos. impose que o Estado assegure a toda população o direito à segurança. Sobre este aspecto. há a associação da atividade policial com o período do Regime Militar. CAPÍTULO 3 No Capítulo 3.

Considerando ainda os ensinamentos de Balestreri. proporcionando à sociedade o exercício pleno de sua cidadania e não o cerceador de direitos de forma aleatória e arbitrária. No Brasil. carrega a singular permissão para o uso da força e das armas.Do outro lado. Ambas associações estão equivocadas. conforme visto é.  A polícia existe para proteger os direitos humanos de qualquer pessoa. técnicos e legais. A atuação policial é pautada em dispositivos legais e na supremacia do interesse coletivo sobre o individual. Neste sentido. o que lhe confere natural e 26 . no âmbito da lei. crianças. Técnica e Legal para Instituições Policiais Militares divulgado em 2008 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República tem como pontos principais:  O policial como primeira linha de defesa dos direitos humanos e da segurança da comunidade na qual trabalha. mulheres. por vezes. O Guia de Direitos Humanos. omitindo dados importantes. Verificamos nos capítulos anteriores. o advento da democracia. a origem e importância dos direitos humanos para uma nação. a missão de ser uma espécie de ouvidor social e “porta-voz” popular do conjunto de autoridades das diversas áreas do poder. colocou nos ativistas de direitos humanos o estigma de “defensores de bandidos” e da impunidade. têm agravado a situação. de forma a evitar as atrocidades verificadas contra a espécie humana: homens. o promotor direto dos direitos das pessoas. porém o fortalecimento deste quadro pejorativo por alguns seguimentos da mídia que manipulam a informação. o profissional da segurança pública deve entender que a existência e garantia destes direitos é salutar à sociedade e visa à proteção do ser humano. idosos. Conduta Ética. pois deve dispensar um tratamento impessoal. “Sendo a autoridade mais comumente encontrada tem. sem fazer juízo de valor acerca de suas diferenças.  O policial cidadão entende as diferenças.  O policial cidadão tem suas ações fundamentadas em princípios éticos. O Policial Militar. não discrimina e promove a tolerância e o respeito. Além disso. a militância por direitos humanos restou associada à ideologia de cunho esquerdista. portanto.  Policiais também têm direitos.

seu conteúdo só terá resultado prático quando for incorporado à cultura das instituições através do ensino e aprimoramento. O CCEAL possui os seguintes artigos: Artigo 1º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem sempre cumprir o dever que a lei lhes impõe. Para tanto. Neste sentido. O impacto sobre a vida de indivíduos e comunidades. Esta mácula que atua no imaginário da sociedade levará um tempo a ser superada. Direitos Humanos e Justiça Criminal das nações. servindo a comunidade e protegendo todas as pessoas contra atos ilegais. proporcionalidade e respeito aos direitos humanos levará as forças policiais ao patamar de reconhecimento que merecem perante o coletivo. Quando o Policial Militar atua com profissionalismo. cada indivíduo deve exercer este conhecimento em seu cotidiano. promovendo os direitos de todos. profissional e dentro da legalidade. exercida por esse cidadão qualificado no serviço é. 3. em conformidade com o elevado grau de responsabilidade que a sua profissão requer. atue de forma ética. naquilo que lhe cabe. indistintamente. não estará mais contribuindo para o mito da truculência policial.destacada autoridade para a construção do social ou para sua devastação (grifo do autor). ressaltamos que é devido e legal o Policial Militar atuar de forma proporcional para vencer a resistência sofrida em caso de atuação no cumprimento do dever perante a sociedade. sempre um impacto extremado e simbolicamente referencial para o bem ou para o mal-estar da sociedade”.CCEAL O CCEAL é um documento orientador (não é um tratado) da ONU às Forças de Segurança dos Estados. Neste sentido. Em razão de se tratar de uma orientação. 27 . mas apenas a boa atuação pautada na legalidade. considerando que o Policial é por vezes. pois.2 Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei . o único representante do Estado que a população em geral alcança e que a própria população também sofre com as ingerências do Estado.

tais como o estado de guerra ou uma ameaça de guerra. devem comunicar o fato aos seus superiores e. evitar e opor-se com rigor a quaisquer violações da lei e deste Código. como justificativa para torturas ou outros tratamentos ou penas cruéis. devem adotar medidas imediatas para assegurar-lhes cuidados médicos. desumanos ou degradantes. Artigo 4º Os assuntos de natureza confidencial em poder dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem ser mantidos confidenciais. também. Artigo 7º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei não devem cometer quaisquer atos de corrupção. Artigo 5º Nenhum funcionário responsável pela aplicação da lei pode infligir. Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei que tiverem motivos para acreditar que houve ou que está para haver uma violação deste Código. Artigo 6º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem garantir a proteção da saúde de todas as pessoas sob sua guarda e. sempre que necessário. desumano ou degradante. Artigo 8º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar a lei e este Código. se necessário. os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar e proteger a dignidade humana. instigar ou tolerar qualquer ato de tortura ou qualquer outro tratamento ou pena cruel. a não ser que o cumprimento do dever ou necessidade de justiça estritamente exijam outro comportamento. 28 . a outras autoridades competentes ou órgãos com poderes de revisão e reparação. na medida das suas possibilidades. instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública. nem nenhum destes funcionários pode invocar ordens superiores ou circunstâncias excepcionais. ameaça à segurança nacional. Artigo 3º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força quando estritamente necessária e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. Devem.Artigo 2º No cumprimento do dever. em especial. manter e apoiar os direitos humanos de todas as pessoas. Também devem opor-se vigorosamente e combater todos estes atos.

com o uso da força necessária. resta claro que não se considerará como tortura as dores ou sofrimentos que sejam consequência unicamente de ações legítimas e dentro da técnica policial aplicada ao caso. Sua reação deve ser proporcional a situação de risco. em defesa da própria a vida própria ou da vida alheia. 3 . Atos de corrupção são incompatíveis com a condição de militar estadual e fere importantes artigos de nosso estatuto. independente de ter sido alguém ferido. aquele que no exercício de função pública. 3º Constitui abuso de autoridade qualquer atentado: a) à liberdade de locomoção. 3° da supramencionada lei. Por óbvio sua ação deve estar pautada na legalidade. incluindo o uso de arma de fogo é legítimo nos casos de resistência armada. Em nossa Corporação já existe um padrão de Relatório de Disparo de Arma de Fogo que deve ser preenchido em caso de disparo. c) ao sigilo da correspondência. conhecida como lei do abuso de autoridade visa punir nas esferas administrativas. b) à inviolabilidade do domicílio. conforme segue: Art. j) aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício profissional. apesar de reconhecermos a banalização da acusação dos policiais militares por este crime. devendo ensejar na exclusão do militar através do rito legal previsto. g) aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício do voto. civil e penal. d) à liberdade de consciência e de crença. Comentário Esta orientação é cabível aos Policiais Militares como "funcionários responsáveis pela aplicação da lei". No que tange o crime de tortura. punindo os agentes que infringirem a lei. age em contrariedade com os preceitos legais e com abuso de poder. 29 . h) ao direito de reunião.3 Lei de Abuso de Autoridade e Lei de Tortura Cabe trazer estas legislações para a discussão uma vez que as mesmas visam a tutela dos direitos individuais e coletivos.898 de 1965. e) ao livre exercício do culto religioso. i) à incolumidade física do indivíduo. na razoabilidade e na proporcionalidade. mesmo que putativa. f) à liberdade de associação. O uso de arma de fogo. No caso da Lei n°4. principalmente nos casos de resistência. Alguns direitos fundamentais tutelados estão previstos no art.

por intermédio da prática de ato não previsto em lei ou não resultante de medida legal. incorre na pena de detenção de um a quatro anos.455 de 1997. esta lei possui como bem jurídico protegido os direitos fundamentais e a punição ao funcionário público que cometer as infrações penais previstas nesta lei podem variar de multa a perda da função pública. com emprego de violência ou grave ameaça. causando- lhe sofrimento físico ou mental: a) com o fim de obter informação. da Convenção Interamericana Para Prevenir e Punir a Tortura e da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica). 1° da referida lei: Art. b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa. II . Desumanos ou Degradantes firmada pela ONU. a intenso sofrimento físico ou mental. § 3° [. § 5º A condenação acarretará a perda do cargo. Nosso país também é signatário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.se o crime é cometido por agente público. O Brasil aderiu. portador de deficiência. função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada. III . Pena . II – se o crime é cometido contra criança. 30 . em 15 de fevereiro de 1991. gestante. cuja promulgação tem relação direta com as Cartas Internacionais de proteção aos direitos humanos. adolescente ou maior de 60 (sessenta) anos. A condenação por este crime também prevê a perda da função pública. conhecida como Lei de Tortura.submeter alguém. c) em razão de discriminação racial ou religiosa. não havia a tipificação do crime de tortura em nosso ordenamento jurídico. poder ou autoridade. de dois a oito anos. Todavia.constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça. porém constitui pena agravada se o sujeito ativo for agente público. Neste sentido. ativos ou passivos. mesmo o Brasil sendo adepto dessas convenções. à Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo. seus agentes.se o crime é cometido mediante sequestro. cabe relembrar o que preconiza o Art. sob sua guarda. § 2º Aquele que se omite em face dessas condutas. declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa. quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las. Segundo a Lei de Tortura.. 1º Constitui crime de tortura: I . § 1º Na mesma pena incorre quem submete pessoa presa ou sujeita a medida de segurança a sofrimento físico ou mental. fato modificado com a tipificação penal da conduta em 1997. do Pacto Internacional para a Defesa de Direitos Civis e Políticos.reclusão.. podem ser qualquer pessoa.] § 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço: I . o que o condiciona internacionalmente a prevenir e punir a prática da tortura. Outro diploma legal que deve ser lembrado é a Lei n° 9. Conforme visto anteriormente.

4 Grupos Considerados Vulneráveis (procedimento diferenciado) Todos são iguais perante a lei. brigas de marido e mulher são assuntos de polícia. separadas dos homens detidos.5)  Sempre que houver caracterização de crime sexual. sempre que possível. A Lei de Tortura visa proteger a dignidade da pessoa humana. constrangimento ilegal. crimes contra a honra ou lesão corporal. Atentar ao Protocolo de Atenção às Vítimas de Violência Sexual de cada Município. se não importar retardamento ou prejuízo da diligência. Tema também tratado no Guia de Direitos Humanos. Para os dois primeiros grupos a Polícia Militar de Santa Catarina possui Procedimento Operacional Padrão. especializando penalmente condutas com punições mais severas com o intuito de tutelar o bem-estar físico.  Mulheres e meninas vítimas de crime sexual devem receber atendimento. ameaça.5)  As revistas pessoais e das vestimentas de mulheres serão sempre feitas por uma policial feminina. Este protocolo municipal visa diminuir o constrangimento da vítima. moral e emocional dos seres humanos. Os policiais não devem hesitar em interferir. 31 . que pode ser consultado em caso de dúvida no atendimento de ocorrências envolvendo mulheres ou crianças e adolescentes.1 Mulheres (POP 304. 3. os policiais devem adotar providências legais de imediato. 3. (POP 304.”  Mulheres detidas ou presas devem ser mantidas. bem como proporcionar o melhor atendimento. em quaisquer circunstâncias. mas alguns grupos possuem características que exigem alguns procedimentos para a melhor condução da ocorrência na atuação policial.4. de policiais femininas. salvo no caso previsto no Artigo 249 – Código de Processo Penal: “A busca pessoal em mulher será feita por outra mulher.  Quando envolvem violência. conduta ética. técnica e legal para instituições policiais militares.

 Ao abordar-se uma pessoa idosa deve-se levar em consideração suas especificidades físicas e sensoriais decorrentes de sua condição etária.  A forma segura de saber a idade de uma pessoa é conferindo seu documento de identidade.  Em caso de apreensão.4. 3.33)  Criança é toda pessoa de até doze anos de idade incompletos. de modo que a ação policial não represente risco à sua integridade física. o adolescente não poderá ser colocado com presos adultos.741-01/10/2003) 32 . 3.  As pessoas idosas demandam especial atenção dos agentes e autoridades policiais e devem ser tratadas com respeito e conforto.  Estatuto do Idoso (Lei nº 10. o adolescente apreendido em flagrante de ato infracional deverá ser a ela encaminhado.3 Idosos  Considera-se idosa a pessoa com idade igual ou superior a 60 anos.4.  Conforme estabelece a Constituição Federal. no entanto o transporte em compartimento fechado é vedado em razão do artigo 178 do Estatuto da Criança e do Adolescente. ainda que o ato infracional tenha sido cometido em coautoria com maior idade. o adolescente deverá ser imediatamente encaminhado ao juiz e não à autoridade policial. não devem ser tratados como adultos.  Quando a apreensão se der em virtude de ordem judicial. crianças e adolescentes são pessoas em peculiar fase de desenvolvimento e. O uso de algemas pode ocorrer em caso de justificada necessidade.2 Crianças e Adolescentes (POP 304.  Sempre que houver repartição policial especializada. adolescente é toda pessoa entre doze e dezoito anos de idade incompletos.  Crianças e adolescentes não podem ser tratados de modo atentatório à sua dignidade ou com risco à sua integridade física ou mental.  A proibição do uso de algemas e do transporte em compartimento fechado de veículos deve ser tratada como regra. portanto.

 Não é confortável para ninguém ficar olhando para cima. para evitar que a pessoa caia para frente.4. para que ela saiba que você está se dirigindo a ela.4 Pessoas com Deficiência 3.1 CADEIRANTES OU PESSOAS COM OUTRAS LIMITAÇÕES MOTORAS  A cadeira de rodas é um equipamento complementar ao corpo da pessoa com deficiência.4. não se apoie ou segure nela. que tem outros sentidos muito desenvolvidos que compensam a falta de visão. avise o que vai fazer.  Não estacione a viatura nas vagas reservadas a veículos que conduzam pessoas com deficiência física.  Quando se tratar de pessoa suspeita.4.  Identifique-se logo no início da comunicação.3.  Em uma ocorrência.  Sempre que sair de perto de uma pessoa cega. se faça anunciar. no caso de direcioná-lo até uma cadeira. avise-a para que não converse sozinha.2 PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL  Ao falar com uma pessoa cega ou com baixa visão. 3.  A descida em uma inclinação deve ser feita de ré. 33 .  Se for necessário submeter pessoa cega a busca pessoal. o cadeirante deve sofrer busca pessoal. não despreze informações prestadas pelo cego. pois o cego não tem deficiência auditiva.4. bem com sua cadeira ou outros materiais de apoio. coloque a mão dela no braço ou encosto da cadeira para que ela sente sozinha.  Ao guiar uma pessoa cega deixe que ela segure seu braço para que possa ser conduzida.4.  Fique no mesmo nível dos olhos da pessoa com deficiência.  Utilize o tom normal da voz.

 Se não entender o que o surdo estiver falando. solicite que repita ou. violada ou humilhada. em último caso. BISSEXUAIS.4.4.4 PESSOA COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL  Não use termos pejorativos quando se referir a uma pessoa com deficiência intelectual. LÉSBICAS. Muitos surdos fazem leitura labial. que escreva a mensagem.  A linguagem deve ser clara para facilitar a sua compreensão.4.  Não constranja ou humilhe o travesti ou transexual lendo em voz alta o seu nome constante da carteira de identidade.  Mesmo que a pessoa surda esteja acompanhada por um intérprete. para que ela possa ver seus lábios.  Pergunte à pessoa abordada como deseja ser chamada.  Fale com o surdo clara e pausadamente e não grite. 3. fale sempre de frente para ela. 3.4.4.  Todas as denúncias de pessoas que aleguem ser vítima de crime devem ser registradas.4.3 PESSOA COM DEFICÊNCIA AUDITIVA  Para se comunicar com uma pessoa surda.  Trate a pessoa com deficiência intelectual de acordo com sua idade.  Respeite a orientação sexual de cada um e não faça gracejos ou críticas.  A busca pessoal em homossexual masculino será realizada da mesma forma que se realiza em homens. 34 . utilize pronomes femininos. fale diretamente com ela e não com o intérprete. TRANSEXUAIS E TRAVESTIS – GLBT  A população GLBT tem os mesmos direitos que todas as pessoas e não deve ser desrespeitada.5 GAYS.  Ao referir-se a travestis e transexuais.  Gestos ajudam muito na compreensão da mensagem. pois ele não o ouvirá e sua expressão parecerá agressiva. 3. independentemente de sua orientação sexual.

O policial deve orientar a população sobre o direito à expressão pública de afeto. Tal orientação visa respeitar sua dignidade. reconhecendo seu direito de identificar-se como do gênero feminino. A manifestação de afeto. 35 . desde que não seja um ato obsceno de cunho sexual. o efetivo feminino deve realizar a busca pessoal na mulher transexual e na travesti. em público.  Prioritariamente. entre pessoas heterossexuais ou homossexuais não constitui crime.

2014. ed. Princípios Básicos Sobre o Uso Da Força e Armas de Fogo Pelos Funcionários Responsáveis Pela Aplicação da Lei (adotados por consenso em 7/09/1990. Ricardo Brisolla. COMPARATO. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Caderno de Estudos de Direitos Humanos CFSd/CFAP. D. A Polícia e os Direitos Humanos. A era dos direitos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALESTRERI. BUENO DE JESUS. Cláudio. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. São Paulo: Saraiva. 1988. SARLET. ______. Direitos humanos e fundamentais em perspectiva. ed. São Paulo: Editora Ltr.). A eficácia dos direitos fundamentais. 2009. São Paulo: Campos.Conjunto De Princípios Para a Proteção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão (Resolução nº 43/173. C. BOBBIO. Lei n° 4. In: BRANDÃO. Enoque Ribeiro de. 1988). SOUSA. N e DORNELLES. ONU. R. Direitos Humanos na Negociação Coletiva. 2001. Florianópolis. Fábio Konder. R. ONU. CERQUEIRA. José Lauri. 2004. 1ªed.898 de 09 de dezembro de 1965. M. ONU. Direitos Humanos: coisa de polícia.Rio de Janeiro: F. 2ed. Norberto.455 de 07 de abril de 1997. W. (Org). 17 de Dezembro de 1979. gráfica editora Berthier. 9. 2007. ONU.Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). São Paulo: Atlas. j. Polícia Militar e Direitos Humanos. R. Cláudio (Coord. Ingo Wolfgang. ONU. Constituição da República Federativa do. Curitiba: Juruá. 2014. ______. 1ed. Código De Conduta Para Os Funcionários Responsáveis Pela Aplicação a Lei. 7. M. e SEMENSATI. Introdução ao estudo dos direitos humanos. no VIII Congresso das Nações Unidas) SANTOS. Bastos. BRASIL. 36 . 2011. 2014. 2003. Passo Fundo: Edições CAPEC. Lei n°9. BRANDÃO.