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A “OFICINA DE TRADUÇÕES KUMARAJIVA”

DO INSTITUTO BUDISTA DE ESTUDOS
MISSIONÁRIOS
MISSÃO SUL-AMERICANA DE BUDISMO SHIN,
RAMO OTANI
Reverendo Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves

Budismo Shin , Ramo Otani

Introdução
Principio com uma breve auto-apresentação. Sou Ricardo Mário Gonçalves, docente
aposentado do Departamento de História da USP, especialista em História Antiga e
História das Religiões. Sou budista e atuo como Ministro do Dharma no Templo
Nambei Honganji, principal templo da Missão Sul-Americana da Ordem Otani de
Budismo Shin. Estou aqui hoje porque acredito no diálogo fraterno e na colaboração
harmoniosa entre as diferentes religiões.Adotei como lema a seguinte frase do filósofo
bizantino Georgios Gemistos Plethon (c. 1356 – 1450): CADA RELIGIÃO É UM
FRAGMENTO DO ESPELHO PARTIDO DE AFRODITE. É dentro desse espírito
fraterno que quero hoje compartilhar convosco algumas experiências no campo da
tradução de textos sagrados budistas, trabalho desenvolvido pela “Oficina de Traduções
Kumarajiva”, grupo de trabalho que criei dentro do Instituto Budista de Estudos
Missionários, organismo subordinado à Ordem Budista a que pertenço. Principiarei
expondo o essencial da vida e da obra do tradutor Kumarajiva, patrono de nosso grupo
de trabalho e principal inspirador da metodologia de tradução que adotamos.

Kumarajiva e seu trabalho como tradutor
Introduzido na China no ano 65 d.C., o budismo em

breve deixou de ser uma religião exótica de mercadores e monges estrangeiros para
começar a criar raízes na sociedade chinesa. Tal implantação só se concretizou graças ao
extraordinário e árduo trabalho de uma plêiade de eruditos e abnegados tradutores que

Kumarajiva foi o primeiro tradutor que conseguiu criar um vocabulário chinês adequado para a transposição dos conceitos budistas. Ali ele encontrou o Príncipe Suryasoma. Nasceu ele no ano de 344. estudando o Abidharma do Pequeno Veículo. que o iniciou no estudo do mesmo. filho de um brâmane indiano convertido ao budismo e de uma princesa da casa real local. Desse esforço. As biografias de Kumarajiva arroladas no Tripitaka Chinês são ricas em lances dramáticos e rocambolescos. produzindo traduções fiéis aos originais que ainda hoje são utilizadas na China e no Japão. povos para os quais chinês literário funciona como uma língua internacional de cultura. compartilhado pelos coreanos. foi o chamado ko-i (kakugi em japonês). a Gramática. longe de ser satisfatório. na cidade-oásis de Kucha. onde começou a estudar os Sutras do Pequeno Veículo com Bandhudatta. permanecendo em Kashgar durante um ano. Convertido ao Mahayana. adepto do Grande Veículo. Região Autônoma da República Popular da China habitada pelos turcos Uigures desde o século X). adquirindo a reputação de grande mestre. durante vinte anos. As primeiras traduções eram bastante imperfeitas. Aos oito anos de idade seguiu com a mãe. mergulhou no estudo do mesmo. nessa época. No Norte dominavam dinastias de origem bárbara (turco-mongol) e no Sul formaram-se reinos estabelecidos . resultou o Tripitaka Chinês. atravessava um período bastante conturbado. regressou a Kucha onde. pois. Converteu então ao Grande Veículo seu antigo mestre Bandhudatta. fragmentada politicamente. a Retórica e a Astrologia. que consistia em utilizar o vocabulário técnico do taoísmo. tal como era outrora o latim na sociedade ocidental. os tradutores encontraram grandes dificuldades para encontrar na língua chinesa vocábulos adequados para traduzir os termos específicos do budismo. ao se defrontarem com uma sociedade totalmente diferente da indiana. A fama de Kumarajiva se estendeu até a China que. japoneses e vietnamitas. de passagem por Kucha. os Vedas.verteram os textos sagrados budistas do sânscrito para o chinês. doutrina percebida como próxima do budismo. que se tornara monja budista juntamente com ele. que se estendeu até o século XII. na Seríndia (hoje Sin-Kiang. para a Caxemira. Dois anos depois voltou para a Ásia Central com a mãe. O primeiro método adotado.

ele foi libertado por uma expedição militar enviada por Yao-Hsing. Obrigava-o a montar a cavalo e divertia-se em vendo-o cair da montaria. lamentando que um homem tão sábio viesse a falecer sem deixar descendência. debaixo das risadas da soldadesca. soberano da Dinastia Ch’in Anterior que controlava o Norte. Quando seu corpo foi cremado. Finalmente. com o que conseguiu conquistar algum respeito de seus carcereiros Entrementes procurou aproveitar ao máximo os longos anos de seu cativeiro estudando com afinco a língua chinesa. sua língua teria sido miraculosamente preservada das chamas. Lu kuang recebeu a notícia da destruição do reino de seu soberano e decidiu se estabelecer em Liang-chu. costumava dizer: Sou um lótus nascido da lama. assessorado por numerosos discípulos e colaboradores. um fervoroso budista que o recebeu com todas as honras em sua capital Ch’ang-an. soberano da nova Dinastia Ch’in Posterior. Kumarajiva não resistiu à tentação e quebrou o preceito relativo ao celibato monacal… Para aliviar um pouco sua triste situação. intentando por à prova a fidelidade de seu prisioneiro aos votos monásticos. Kumarajiva tratou de adquirir fama de mago e de astrólogo. Durante o regresso. onde o nomeou Preceptor da Nação e criou para ele uma Academia de Tradução dotada de todos os recursos em que o sábio trabalhou intensamente até sua morte em 413. Certa ocasião. em que Kumarajiva permaneceu prisioneiro por quase duas décadas.pela elite chinesa que lá se refugiara. quando olharem para mim. Fu Chien. Kumarajiva. Yao-Hsing tinha pelo mestre um grande apreço por causa de sua inteligência e. onde fundou um reino independente de nome Liang Posterior. para buscá-lo. Desejoso de acolher o famoso Kumarajiva em seu reino. Lu Kuang era um bárbaro inculto e brutal que não tinha o mínimo respeito por seu ilustre prisioneiro e o submetia aos mais humilhantes vexames. despachou seu general Lu Kuang para Kucha em 383. massacrou seus habitantes e aprisionou Kumarajiva. não a lama. no ano de 402. Como os governantes da cidade se recusassem a entregá-lo. vejam a flor. o que foi interpretado como um sinal de confirmação de sua sabedoria e do valor de seu imenso trabalho como tradutor. bebidas e uma bela mulher. . em 401. Lu Kuang atacou-a. ofereceu-lhe um harém com dez belas concubinas. durante suas pregações. encerrou-o numa sala onde ele se defrontou com um lauto banquete.

 Dasabhumika Sutra (Sutra das Dez Etapas da Carreira do Bodhisattva) – texto extremamente importante para todas as Escolas do Grande Veículo. um pequeno texto largamente usado tanto no budismo chinês e japonês como no tibetano. que reproduz quase na íntegra o texto de Kumarajiva.Kumarajiva se dedicou principalmente à tradução de textos do Grande Veículo. extremamente importante para as escolas da tradição da Terra Pura. Nichiren e também nos movimentos neobudistas contemporâneos originários da Escola Nichiren. Zen.  Saddharma Pundarika Sutra (Sutra do Lótus da Lei Excelente) – texto extremamente importante no budismo japonês.  Dasabhumi-vibhasa-sastra (Tratado Explicativo das Dez Etapas) – obra atribuída a Nagarjuna. .  Surangama Samadhi Sutra (Sutra da Contemplação Surangama) – texto estudado no budismo Zen. Hoje se costuma usar a tradução de Hsüan-tsang.  Pequeno Sukhavati-vyuha (Sutra de Amida) – texto bastante utilizado na liturgia das escolas japonesas da linhagem da Terra Pura.  Prajnaparamita Hrdaya Sutra (Sutra do Coração da Perfeição da Sabedoria) – trata-se do popular “Sutra do Coração”. Destacamos aqui suas traduções mais importantes:  Vajracchedika (Sutra do Diamante) – escritura muito estudada e comentada no budismo Zen. onde é estudado principalmente pelos adeptos do Zen e da Terra Pura. onde é utilizado nas Escolas Tendai.  Vimalakirti Nirdesa Sutra (Sutra do Ensinamento de Vimalakirti) – texto bastante popular na China e no Japão.

. a primeira comunidade de budistas chineses a se dedicar ao culto do Buda Amitabha. Sua Academia contava com um grande número de colaboradores. fundador da Confraria do Lótus Branco do Monte Lu. interpolando em seus textos glosas ou explanações referentes a passagens particularmente obscuras. Atribui-se ainda a Kumarajiva a tradução de regras monásticas do Pequeno Veículo e a redação de manuais de meditação e das biografias do tratadista e poeta Ashvaghosha. e letrados chineses não familiarizados com o sânscrito. de Nagarjuna e de seu discípulo Aryadeva.  Satyasiddhi–sastra (Tratado sobre a Realização da Verdade) – tratado composto por Harivarman (século IV). As sessões de trabalho da Academia. ser comparado com o original sânscrito.  Mula Madhyamika Karika (Versos do Meio Fundamental) – é o principal tratado de Nagarjuna. atribuído a Nagarjuna. eruditos estrangeiros conhecedores ou não do chinês. de que às vezes participava o soberano Yao-Hsing em pessoa. Preocupado em tornar suas traduções perfeitamente inteligíveis aos leitores chineses.  Maha Prajaparamita Upadesa (Ensimanemto sobre a Grande Perfeição da Sabedoria) – vasto tratado enciclopédico sobre as doutrinas do Grande Veículo. escritura fundamental da Escola Japonesa Jôjitsu. compreendendo copistas. divindade principal da tradição da Terra Pura. Devo lembrar ainda que Kumarajiva manteve intensa correspondência com Hui-Yüan (334-416). algumas vezes Kumarajiva se afastava um pouco do texto original. Kumarajiva criou uma nova metodologia de tradução alicerçada no trabalho em equipe. muitas vezes fomentando rebeliões e revoluções contra as dinastias reinantes. Kumarajiva dava sua palavra final depois do texto definitivo. o mais importante mestre chinês do período. redigido pelos letrados. Essa organização foi a ancestral das inúmeras sociedades secretas que ao longo dos séculos floresceram em solo chinês. alicerce teórico da Escola Madhyamaka ou Escola do Vazio. costumavam ser bastante concorridas. Os eruditos estrangeiros explicavam o texto aos chineses que faziam uma minuta de tradução que era amplamente discutida por Kumarajiva e seus principais discípulos. discorre sobre o conceito do Vazio numa perspectiva intermediária entre o Pequeno e o Grande Veículo.

textos que possibilitaram a constituição da Escola San-Lun (Sanron em japonês).  A interdependência dos fenômenos. nasceu em 374 ou 378 nos arredores de Ch’ang-an. . Durante uma breve faz se sentiu atraído pelo budismo. exerceram uma considerável influência sobre o budismo da China e do Japão. Por ordem de Yao Hsin passou a assessorar o mestre em seus trabalhos de tradução. Essas obras. que os situa além da existência e da não- existência pura e simples e a qualidade não-dual do Prajna.. Seng-chao. provocou nele uma profunda comoção que o fez converter-se ao budismo e buscar a ordenação monástica. o Conhecimento Supremo “sem objeto”. dentre os quais cumpre destaca Seng-chao e Tao-cheng. síntese do espírito indiano e do pensamento chinês. Aproximando-se de Kumarajiva. “A Vacuidade do Irreal” e “A Sabedoria que transcende o Conhecimento”. Sua obra compreende vários tratados de grande profundidade como o “Tratado sobre a Imutabilidade dos Fenômenos”. mas a leitura da tradução do “Sutra dos Ensinamentos de Vimalakirti” do tradutor-missionário indo-cita Tche K’ien. além do movimento e do repouso. tornou-se seu discípulo e estudou intensamente as doutrinas do Grande Veículo sob sua orientação. que alguns estudiosos cognominaram “o Santo Agostinho do budismo chinês”. ocupação que o familiarizou com a tradição literária chinesa. Era de origem humilde e na juventude trabalhou como copista de textos clássicos. versão chinesa da Escola Madhyamaka indiana. pois tem a vacuidade como objeto.A principal contribuição de Kumarajiva para o desenvolvimento do budismo chinês foi a tradução dos Sutras sobre a Perfeição da Sabedoria (Prajnaparamita) e dos tratados de Nagarjuna sobre o Vazio. Esse trabalho foi realizado com a colaboração decisiva dos principais discípulos chineses do célebre tradutor. Nesses escritos ele trata principalmente das seguintes questões:  A inalterabilidade dos fenômenos.

como a teoria de que os chamados icchantika (seres viventes considerados incapazes de alcançar a Iluminação) também eram possuidores da Natureza Búdica (buddhata) e seriam capazes de manifesta-la instantaneamente em um Despertar súbito. com a publicação integral da tradução do “Sutra do Nirvana” por Buddhabhadra. no século XIII. desde que adequadamente preparados para isso através da prática. Assimilando o conceito de Vazio dos Sutras da Perfeição da Sabedoria. Conta-se que em 434. onde conheceu Kumarajiva. deixou cair bruscamente seu bastão. Tais idéias que não constavam de nenhuma Escritura traduzida na China até aquele momento suscitaram veemente oposição que culminou em sua expulsão da comunidade budista de Ch’ang-an. ao se levantar de seu assento. Para ele não existe nenhuma Terra Búdica fora deste mundo. pois consistiria na penetração direta e total da Realidade Absoluta. exposta no “Sutra do Nirvana”. Segundo Tao-cheng. Vazio e Natureza Búdica são uma única realidade no seio da não-dualidade. de quem se tornou colaborador. Só em 414. Trabalhou com Kumarajiva e Seng-chao na tradução do “Sutra do Ensinamento de Vimalakirti” e do “Sutra do Lótus da Lei Excelente” em 406. também iria defender a tese da possibilidade da salvação para o icchantika. suas idéias foram reconhecidas como corretas e ele foi reabilitado. Nascido em 360 ou 365. não existe nenhuma contradição entre a idéia do Vazio da literatura do Prajnaparamita e a tese da presença da Natureza Búdica em todos os seres. Sua tese da Iluminação Súbita faz dele um precursor do Budismo em e da Verdadeira Escola da Terra Pura. Tao-cheg pronunciou um grande discurso doutrinário. o fundador do Budismo Shin. . permanecendo sentado em postura de meditação: acabava de ingressar subitamente no Nirvana. dirigiu-se para Ch’ang-an em 405. Para Tao-cheng o Despertar não poderia resultar de uma lenta progressão. Quando terminou. Shinran. no Monte Lu. ilustrando com sua morte os princípios que defendera durante toda sua vida. uma vez que a Natureza Búdica está presente nas profundezas de cada ser vivente. defendeu idéias originais para a época. Tao-cheng desde cedo mostrou inclinação para os estudos e já gozava de excelente reputação como erudito quando de sua ordenação. Lembro que no Japão. Depois de passar um período no Monte Lu estudando sob a direção de Huai-Yüan.

Segue-se a história de Vimalakirti que um dia adoece. cada um em sua virtude preferida. que o levava a esmolar apenas nas casas dos pobres. refeições e outras ninharias. se dispõe a visitá-lo. conta a história de Vimalakirti. acompanhadas das discussões sobre as mesmas. precedidos de um Prefácio de Seng-chao.Só o Bodhisattva Manjusri. como dizem os exegetas chineses. foi repreendido por seu espírito discriminatório. Abaixo. apresentam as passagens difíceis do Sutra. Vimalakirti declara que adoeceu porque todos os seres viventes estão doentes. cujos principais parágrafos são transcritos abaixo. Diz ainda que o coração reto e sincero é a Terra Pura dos Bodhisattvas. em que Vimalakirti interfere através do silêncio. um rico comerciante da cidade comercial de Vaisali. monge celebrado nos textos do Budismo Primitivo como sendo o mais sábio. modelo perfeito do Bodhisattva (Buscador do Caminho) que excedia em virtudes e sabedoria os melhores discípulos monges da comunidade budista. Kumarajiva. Kumarajiva emite sua palavra final. Discrimina as mulheres e se vê transformado em um anjo feminino. ela permite ao leitor vislumbrar a Academia de Tradução em pleno funcionamento. faz um papel ridículo. por exemplo. encerrando a questão. interrompendo os discursos para indagar sobre cadeiras. mas estes recusam. Seguem-se vários diálogos sobre temas diversos. um silêncio mais potente do que o ribombar do trovão. dizendo que foram suplantados por Vimalakirti. Compilada por Seng-chao. O prólogo se passa nos jardins da cortesã Ambapali onde o Buda Sakyamuni instrui seus discípulos a respeito da Terra Pura. evitando os ricos. Seng-chao e Tao-cheng são os principais protagonistas do “Comentário ao Sutra do Ensinamento de Vimalakirti” (Chu-Wei-mo- kie-ching. Mostra aversão pelas pétalas de flores celestiais que chovem sobre a assembléia e estas grudam em seu corpo. Chû-Yuimagyô. personificação da Sabedoria. O clímax do Sutra é um diálogo sobre a não-dualidade. considerado um dos principais esteios doutrinários do budismo laico. Mahakasyapa. Os “Comentários”. dizendo que os seres viventes são a Terra Pura dos Bodhisattvas. sendo acompanhado por todos os discípulos. seguem-se alguns parágrafos do Prefácio de Seng-chao ao “Comentário ao Sutra do Ensinamento de Vimalakirti”: . O objetivo do Sutra é pregar o Vazio e mostrar como um leigo pode exceder os monges em virtudes e sabedoria. em japonês). transcrição parcial das atas da s discussões realizadas na Academia de Tradução por ocasião da tradução do referido Sutra. essa obra é um precioso documento para o estudo dos métodos e técnicas de tradução e interpretação de Kumarajiva. Após o pronunciamento dos discípulos. O Buda manda seus discípulos o visitarem. Sariputra. Esse Sutra.

um despertar que. Kumarajiva tinha qualidades sobre-humanas. mas sem que se saiba porque: eis o Inconcebível! Por que? Porque a sabedoria dos entes sublimes nada conhece. ele o traduzia oralmente. Eu participei das sessões por um bom tempo e.Vejam! O Sutra do Ensinamento de Vimalakirti designa uma maravilha absoluta que. conhecia as línguas estrangeiras. leva a cabo toda a transformação: um abismo de mistério que os sinais e as palavras não podem sondar. mas ilumina cada detalhe do múltiplo. Ora. onde convidou o Mestre Kumarajiva a traduzir novamente original do Sutra. além disso. Porque a rima suprema é silenciosa mesmo que os textos de mistério se propaguem em todos os lugares. ainda que sei movimento consista em se adaptar às realidades vulgares… O Príncipe Celeste dos Grandes Ch’in é um ser superior cujo pensamento transpõe o século e cujo espírito misterioso se ilumina na solidão. Porque o corpo absoluto não tem aparências.200 monges eruditos ao Templo de Ch’ang-an. Ele refletia perfeitamente a Palavra sutil e distante. Seu estilo era conciso e direto. ainda que meu espírito fosse pouco profundo. No 8º ano do período Hon-che (406) o rei convocou o Duque Marechal de Ch’ang-an e o Marquês General de An-ch’eng e mais 1. Entretanto. A partir do que eu ouvi. estendendo-se aos limites do invisível. o Dharma se deslocou até os Céus do Norte. para além dos três vazios. não lhe agradava a maneira pela qual os antigos tradutores haviam transcrito a Verdade Absoluta e temia que eles tivessem posto a perder o princípio misterioso. Ele mobilizava todos os seus recursos para manter perfeitamente o sentido sagrado. anotando as palavras de Kumarajiva:” eu as relato sem nada inventar” . não depende mais da decisão dos dois veículos inferiores e transcende a superficialidade de todas as categorias ao romper com os objetos do pensamento discriminante. Ó imensidão inativa pela qual nada permanece sem se fazer! É assim. seu pensamento. mas corresponde a todas as formas em sua diversidade. elaborei este comentário. penetrava misteriosamente no domínio da Verdade e atingia exatamente o “centro do círculo”. os ensinamentos chegaram até nós e nós os assimilamos. E porque os expedientes imprevisíveis ignoram as deliberações. nele seu espírito buscava refúgio. captei o sentido do texto em suas linhas gerais. Tendo em mãos o texto ocidental. Cada vez que ele lia este texto. Monges e leigos respeitosamente repetiam por três vezes cada palavra sua. (Confúcio) A “Oficina de Traduções Kumarajiva” . elegante e claro. Seu reino supremo abrange os dez mil assuntos e sua conversão ao Despertar se propagará por mil anos.

4. Fornecer aos missionários subsídios sobre a sociedade.a cultura e a religião dos países da América do Sul. Editar livros. 5. Produzir material escrito ou audiovisual para uso dos missionários. A Missão Sul-Americana da Ordem Otani de Budismo Shin – escola budista estabelecida no século XIII pelo Mestre Shinran – foi fundada oficialmente em 1953 quando da Visitação feita a nosso país pelo Grão-Mestre da Ordem. Uma das tarefas capitais do Instituto é elaborar traduções para o português das Escrituras Sagradas. Realizar cursos e conferências sobre o Budismo Shin para o público em geral. panfletos e periódicos em português sobre o Budismo Shin. para que os mesmos possam adequar sua atuação às condições locais. Realizar traduções para o português das Escrituras Sagradas do Budismo Shin. pois boa parte da mesma não mais entende o japonês. atual sede da Missão que atualmente possui ao todo 19 templos no Brasil. contando ainda com núcleos e representantes em cidades onde não existem templos. o Instituto dispõe de uma equipe constituída por missionários e colaboradores leigos selecionados por seu notório saber na área. a maior parte nos Estados de São Paulo e Paraná. 2. criei dentro do mesmo um grupo de trabalho dedicado à tradução denominado Oficina de Traduções Kumarajiva que tem como objetivos: . Reverendo Kocho Otani. São Paulo. pois sem elas a mensagem do Budismo Shin não atingirá o público brasileiro em geral e nem mesmo a comunidade nikkei. 3. São objetivos do Instituto: 1. o Templo Nambei Honganji. 6. Em março de 1980 foi fundado nas dependências do Templo Nambei Honganji pelo Provincial Reverendo Susumu Hoshinobori o Instituto Budista de Estudos Missionários (Nambei Shinshu Kyôgaku Kenkyusho). Realizar estudos sobre a doutrina do Budismo Shin e colaborar na formação de pessoal dedicado às atividades missionárias. Presidido pelo Provincial da Missão. único organismo especializado em pesquisas sobre budismo em nível superior até agora criado por uma missão japonesa em nosso país. Em 1959 foi inaugurado no bairro da Saúde. Atuando no Instituto como pesquisador desde sua fundação.

dicionário português- japonês publicado pelos padres jesuítas em Nagasaki em 1603. sempre passível de aperfeiçoamento. dispomos de fácil acesso a textos ricos em inspiração e subsídios dificilmente utilizáveis pelos tradutores que trabalham com o inglês ou outras línguas. um texto já editado é submetido a uma reavaliação antes de ser reeditado. para que a tradução dos mesmos para o nosso idioma seja devidamente sistematizada e uniformizada. os primeiros ocidentais a estudarem a língua e a cultura japonesa. já que muitos tradutores recorrem ao vocabulário cristão para traduzir conceitos budistas. Podemos nos reportar a traduções inglesas. Exponho a seguir os principais pontos da mesma:  Os textos devem ser sempre traduzidos a partir das fontes originais. O VOCABVLARIO DA LINGOA DE IAPAM. Trata-se dos textos produzidos no Japão pelos padres jesuítas portugueses que estiveram no país nos séculos XVI e XVII.  Como produtores de traduções para a língua portuguesa.  Concebemos a tradução como um processo inacabado. ainda está num estágio comparável ao dos textos budistas chineses do período ko-i. contém inúmero termos técnicos budistas vertidos para o português e é para nós uma preciosa ferramenta de trabalho. Ao longo dos anos a equipe da Oficina tem acumulado experiências que a levaram a começar a articular uma metodologia apropriada para a elaboração de traduções em português dos textos sagrados do Budismo Shin. Não existe até agora em nosso idioma nenhum glossário sistemático de termos técnicos budistas.1499). lamentavelmente.  treinar elementos jovens e ainda inexperientes para que se tornem exímios tradutores de textos sagrados budistas. A tradução de textos budistas para nosso idioma. as traduções são feitas como trabalho de equipe. cuja linguagem é praticamente a mesma que os portugueses encontraram no Japão um século depois. A HISTORIA DE JAPAM . os textos dos mestres da Escola como Shinran e Rennyo são traduzidos diretamente do japonês medieval e os dos Sutras e Tratados o são a partir das traduções chinesas que foram utilizadas por Shinran.  Em conformidade com o método de tradução desenvolvido por Kumarajiva. mas não admitimos traduções de segunda mão. o que resulta em gravíssimos erros de interpretação. principalmente no caso da tradução das Cartas (Ofumi) de Rennyo (1415.  desenvolver uma metodologia de tradução de textos budistas para o português inspirada nos métodos criados por Kumarajiva para traduzir os textos do sânscrito para o chinês. vai sendo elaborado um Glossário de termos técnicos do Budismo Shin. Assim.  Paralelamente ao trabalho de tradução. Assim. Uma minuta produzida por um membro da equipe é exaustivamente discutida por todo o grupo até se chegar a um consenso em torno de um texto passível de publicação. francesas ou outras quaisquer em busca de subsídios.

a grande metrópole multicultural da Antiguidade onde pela primeira vez Oriente e Ocidente se encontraram. São Paulo: Instituto Budista de Estudos Missionários. 1995. São Paulo: Roswitha Kempf e Instituto Budista de Estudos Missionários. cosmovisão. 1997. 5 – Cantares da Aspiração do Nascer na Terra Pura – Tradução do Ganshôge do Patriarca Vasubandhu. Jean Delisle. 2 – Revista do Instituto Budista de Estudos Missionários (Vols. São Paulo: Budagaya. bem como em pesquisas antropológicas envolvendo tradução como a realizada por Cristina Pompa a respeito de missionários católicos e indígenas brasileiros no Período Colonial. São Paulo: Aquarius e Templo Budista Higashi Honganji. São Paulo: Axis Mundi e Budagaya. Vários problemas encontrados pelos tradutores da Septuaginta são parecidos com os que enfrentamos hoje ao traduzir textos budistas para o português e a reflexão sobre algumas soluções que eles encontraram pode nos ajudar a encontrar nossas próprias soluções. São Paulo: Budagaya. 7 – Shuichi Maida – Quem é o mau? . Contém a tradução do Shoshinge (Poema da Verdadeira Fé do Nembutsu). do Padre Luís Fróis é outra importante fonte de informações úteis para nosso trabalho. 8 – Yutai Ikeda – Vivendo juntos na diversidade. 1997. por causa de seu desconhecimento da doutrina budista e seu contexto histórico e cultural. valores. Judith Woodsworth e outros. etc. 4 – Manshi Kiyozawa – Arcabouço de uma Filosofia da Religião. . Considero extremamente ilustrativo para nós o estudo da formação da Septuaginta. 3 – Kenryo Kanematsu – Naturalidade. de alguns Wasan (Hinos em japonês do Mestre Shinran) e de algumas Cartas do Mestre Rennyo. 1983. Publicações 1 – Louvação do Budismo – Livro de ofícios bilíngüe editado em 1987 em comemoração do 35º Aniversário da Missão. Assim. 1986. já que se trata da transposição de uma mensagem concebida no seio de uma cultura para uma sociedade totalmente diferente no que diz respeito a mentalidade. buscamos subsídios para nosso trabalho em estudos históricos sobre traduções como os de Peter Burke. 1 e 2). 6 – Gyomay Kubose – Budismo Essencial (Tradução de Everyday Suchness). Foi reeditado em 2009 com o título de Gongyo-su – Livro de Ritualística em versão revista e ampliada.  A tradução de textos religiosos exige muito mais do que simples domínio das línguas envolvidas no processo. Já temos visto excelentes tradutores da língua japonesa para o português completamente perdidos ao se verem obrigados a traduzir material sobre budismo. tradução grega da Bíblia Hebraica realizada em Alexandria.

) – Jodo Shinshu. 2009. 10 – Masao Ryose – Rompendo as amarras do ego. Marguerite. Bauru: EDUSC. São Paulo: Edições Loyola. DELISLE.) 13 – Ricardo Mário Gonçalves – O Caminho do Despertar. 40. GONÇALVES. São Paulo: Duetto. R. Tupi e Tapuia no Brasil colonial. BIBLIOGRAFIA BURKE. 2007. POMPA. Vol. Publicação comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Instituto Budista de Estudos Missionários. 11 – Universidade Otani (Ed. 2003. In The Eastern Buddhist – New Series. 14 – Ouvir Shinran aqui e agora. 1992. 12 – Tannishô – O Tratado de Lamentação das Heresias. presentemente o Instituto prepara uma nova edição revista e ampliada.) – A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna. São Paulo: Instituto Budista de Estudos Missionários. São Paulo: Instituto Budista de Estudos Missionários. São Paulo.9 – Shunko Tashiro – O Respeito à Vida. São Paulo: Editora Ática. (Uma primeira edição foi feita pelo Templo Higashi Honganji em 1974. In História Viva Nº 3 Budismo. pp. Po-chia (Orgs. Aquarius. Ricardo Mário – Os Mestres da difusão.. 1976/ 1984. Ricardo Mário – The South American Mission of the Shinshû Ôtani-ha and its Contribution to Buddhsim in Brazil.. 56 – 61. Tradução. 1981. GONÇALVES. São Paulo: Elevação. Notas e Estudo Introdutório de Ricardo Mário Gonçalves. 2009. 16 – Ricardo Mário Gonçalves – A Ética Budista e o Espírito Econômico do Japão. São Paulo: Editora UNESP. 2007. pp. Judith (Orgs.d. São Paulo: Instituto budista de Estudos Missionários e Roswitha Kempf. 1998. Cristina – Religião como tradução – missionários. São Paulo: Instituto Budista de Estudos Missionários. Giles e MUNNICH – A Bíblia grega dos Setenta – Do judaísmo helenístico ao cristianismo antigo. FRÓIS. São Paulo: Instituto Budista de Estudos Missionários. HARL. São Paulo.) – Os tradutores na História. s. 5 vol. Luís (Padre) – Historia de Japam. 1987. Peter e HSIA. . Lisboa: Biblioteca Nacional. 107 -120. 15 – Takashi Hirose – O Caminho do Discípulo. Jean e WOODSWORTH. DORIVAL.

RODRIGUES. (Tradução francesa do “Comentário ao Sutra do Ensinamento de Vimalakirti” por Patrick Carré. 2004. . SENGZHAO – Introduction aux pratiques de La non-dualité – Commentaire Du Soûtra de La Liberté inconcevable. Tokyo: Iwanami Shoten. Paris.) SOARES. 1960 (edição fac-similada). Esequias – SEPTUAGINTA – Guia histórico e literário. São Paulo: Hagnos. 2009. João – Vocabvlario da lingoa de Iapam (1603). Fayard.