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Paulo Castro Rangel/Porto/2002

CIÊNCIA POLÍTICA PARA JURISTAS
— NOTAS E TÓPICOS —

(IV) ARQUITECTURA CONSTITUCIONAL E ENGENHARIA POLÍ-
TICA: SISTEMAS DE GOVERNO

TRAÇOS FUNDAMENTAIS DO SISTEMA DE GOVERNO
PORTUGUÊS (versão sinóptica)

1. Qualificação do sistema de governo e a querela termino-
lógica

A maioria dos autores que se debruçaram sobre o tema
— e foram muitos — qualifica o sistema de governo português
como um sistema semipresidencial. Tal qualificação nunca foi
aceite pela dupla de constitucionalistas coimbrãos Gomes Ca-
notilho e Vital Moreira que, mesmo em face da versão original
da Constituição de 1976, sempre insistiram no carácter parla-
mentar — no máximo, misto parlamentar-presidencial — do sis-
tema de governo. Uma tal posição fica a dever-se a três ordens

de razões. Primeiro, uma grande reserva quanto à possibilida-
de científica de autonomização de um tertium genus entre
«parlamentarismo» e «presidencialismo» (no que seguiam uma
parte importante das doutrinas alemã e até francesa). Segun-
do, porque mesmo admitindo a existência de regimes verdadei-
ramente semipresidenciais, estes teriam de ser regimes mistos
em que avulta o lado presidencial do sistema (daí que se dis-
sessem «semipresidenciais» e não já «semiparlamentares»).
Ora, no caso português, havendo embora uma clara combina-
ção de traços vindos do presidencialismo e do parlamentaris-
mo, a base dominante é a base parlamentar e, por conseguin-
te, seria incompreensível a denominação do sistema de gover-
no como sistema semipresidencial (que, justamente, como se
disse, empolava o componente presidencial). Finalmente, a di-
vulgação do semipresidencialismo anda directamente ligada à
circulação do modelo francês da V República e o sistema por-
tuguês, na sua letra e no seu funcionamento, nada teria que
ver com tal modelo.
Outros autores, aceitando sem reticências o direito de ci-
dade das formas semipresidenciais, consideram todavia que o
sistema português se aproxima mais do tipo dos parlamentaris-
mos racionalizados ou corrigidos. E isto, em especial, depois
das transformações da Revisão Constitucional de 1982, que,
segundo alegam, teria cerceado patentemente os poderes do
Presidente da República e mudado dessarte a natureza do sis-
tema. Assim discorre André Gonçalves Pereira e ainda o presti-
giado fundador da engenharia constitucional, Giovanni Sartori.

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Para eles, os poderes do Presidente, claramente superiores
aos de um chefe de Estado em regime parlamentar tradicional,
não passariam de um «correctivo» ou de um «instrumento de
racionalização» da matriz essencialmente parlamentar do regi-
me1. A sua funcionalidade não seria muito diferente da função
da cláusula-barreira ou da moção de censura construtiva do
parlamentarismo teutónico. Tratar-se-ia sobretudo de evitar um
deslize para o regime parlamentar de assembleia, sem, no en-
tanto, instaurar um parlamentarismo de gabinete à inglesa.
Finalmente, não falta quem, situando-se no plano da pu-
ra análise do funcionamento efectivo do sistema — no plano da
análise politológica—, procure fórmulas expressivas do poten-
cial do sistema. Ficou especialmente célebre a qualificação de
«presidencialismo do primeiro-ministro» que Adriano Moreira
empregou para caracterizar o regime durante o consulado do
primeiro-ministro Cavaco Silva (aludindo naturalmente à posi-
ção central do chefe de governo que é suportado por maiorias
parlamentares monopartidárias rigidamente disciplinadas). Ao
fazê-lo, retomou a fórmula de que Marcello Caetano, na vigên-
cia da Constituição de 1933, tinha lançado mão para designar o
modo de funcionamento real do sistema político. Também já se
aventou, a propósito do primeiro Governo Guterres e da rela-
ção institucional com o Presidente, que se estaria perante um
«semipresidencialismo de pendor bi-presidencial». Com tal fór-

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Considerando que essa a leitura que se deve fazer da eleição directa do
Presidente, mesmo no sistema de governo português, cf. GONÇALVES PE-
REIRA, O Semipresidencialismo em Portugal, cit., págs.61-62; VITAL MOREI-

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do desgaste da governação quotidiana e al- çando-se a uma posição de «representante» da nação). 4 . edição de 19 de Setembro de 1999. que fala mesmo em «parlamentarismo corrigido» ou «parlamentarismo presidencial». cf. naturalmente. 399-405. 3 Para ver uma recensão exaustiva de quase todos os autores — nacionais ou estrangeiros — que tomaram posição sobre o assunto. a votar no carácter semipresidencial do sistema português. a per- gunta a que tem de responder-se é se cobra sentido identificar. in O Direito. o substantivo (referido justamente à natureza do sistema) e o terminológico (relativo ao desconforto com a expressão «semipresidencial»). PAULO CASTRO RANGEL. Em sede taxionómica. ANTÓNIO ARAÚ- JO/CONSTANTINO TSIMARAS. Parece-nos também ser esta a posição mais avi- sada. disputando-lhe o espaço político (alheando-se.mula queria significar-se que o primeiro-ministro chamou a si. págs. o mais que pôde. «O País dos Dois Presidentes». 2 Cf. porém. um certo pendor parlamentar (espe- cialmente visível quando se coteja o caso português com o ca- so francês)3.. na verdade.º III-IV. mis- turam-se. n. Variações sobre o «Semipresidencialismo». 21-23. sem deixar de reconhecer. 2000. Guter- res parece ter então inaugurado uma nova variante do semipre- sidencialismo. pois. todas as funções simbólicas e de arbitragem «social» típicas do Presidente. A generalidade dos autores continua. «Os poderes presidenciais nas constituições grega e portuguesa». RA. cit. in Diário de Notícias. ano 132. três problemas: o taxionómico (concer- nente à construção de uma classificação dos regimes ou siste- mas de governo). págs. Uma variação em que afinal — e ao contrário da normal tentação dos semipresidencialismos — seria o primeiro- ministro a querer «presidir» e não já o presidente a querer go- vernar2. Nas pertinentes observações da Escola de Coimbra.

deve dizer-se que ele arranca de um verdadeiro equívoco. a questão vem a ser a de saber qual a natu- reza do regime (presidencial. Se se assumir que a expressão semipresidencial não retrata convenientemente um «regime misto». O equívoco reside. em rigor. ele sim. a resposta parece ser afirmativa. Ao segundo argumento. parlamentar ou misto) e parece não haver hesitações quanto à sua opção pelo carácter misto. que seria o mais tradicional e paradigmático). o parlamento tem uma posição decisiva no quadro dos sistemas presidenciais. na circunstância de não se ter em conta que a trilogia «parla- 5 . importa averiguar do présti- mo e adequação do adjectivo «semipresidencial». por isso que ela só vê um dos seus lados. seja por so- brevalorizar o lado menos relevante do regime (o lado presi- dencial). em sede terminológica. que dizer então da locução «sistema presidencial»? Com efeito. O emprego deste adjectivo é. apesar da separação rígida dos po- deres. Ao primeiro argumento. Ora.autonomizar e tipificar um «grupo de regimes» algures entre o modelo parlamentar e o modelo presidencial. pois. posição essa que é justamente obnubi- lada pela expressão «presidencial». Reino Unido. obtemperar-se que também o sistema parlamentar conhece a mais díspares variantes (por exemplo. vivamente condenado. Finalmente. seja por evo- car o exemplo francês (que diverge do português). Em sede substantiva. Espanha. tanto que Gomes Canotilho e Vital Morei- ra não hesitam em isolar um núcleo de «sistemas mistos». Holanda) e nem por isso alguém se lembrou de restringir ou circunscre- ver o seu uso apenas a um deles (supostamente ao Reino Uni- do. deve. Itália.

A identificação desta característica. Vejamos por quê. o sistema diz-se presiden- cial. se o seu papel é o de autêntico chefe de executivo. Esta é naturalmente uma característica directa- mente proveniente dos sistemas presidenciais. 2.º da CRP 76)4. Sendo as coisas assim. o único autenticamente presidencial) o Chefe de Estado não é designado por sufrágio directo e que o mesmo ocorria na Finlândia até há bem pouco tempo (Finlân- 4 CRP 76 é abreviatura para Constituição da República Portuguesa de 1976. semipresidencial. presidencial» põe em relevo um úni- co factor de diferenciação e só esse: o concreto papel do Chefe de Estado no pólo executivo do sistema. o sistema tem-se por parlamentar. que toma a designação de Presidente da República. a qual se antolha cientificamente adequada a retratar o sistema de governo português. 121. no regime presidencial norte- americano (porventura. É que é por demais conhecido que. todavia. com alguma (variável) capacidade de influenciar o exe- cutivo. na versão saída da V Revisão Constitucional de 2001. nenhuma razão sobeja para pôr de lado a utili- zação da terminologia consagrada («semipresidencial»). 6 . o sistema há-de ter-se por semipresidencial. não pode ter-se como determi- nante para efeitos de qualificação do sistema de governo. A eleição popular do Chefe de Estado O Chefe de Estado. se representa algo de intermédio entre aqueles dois para- digmas. é eleito por sufrágio universal e directo (art. Se o seu papel é nulo e simbólico.mentar.

com receio de «populismos autoritários» — converteu-se numa verdadeira bandeira da oposição demo- crática ao regime (que via nas eleições directas. Actualmente. de Silvio Gam- bino. o irlandês ou o irlandês em que a eleição directa do Presidente não impede a vigência de uma «prática» estrutu- ralmente parlamentarista. op. cit. pág. jurisdicional em matéria constitucional e de acon- selhamento político do Presidente). Na verdade. designadamente através do Conselho da Revolução (que era um órgão simultaneamente legislativo em sede militar. in Democrazia e Forma di Governo. 106. considera que o caso finlandês se aproxima da eleição indirecta. «La Forma di Governo Finlandese». Por outro lado. págs. Em sentido de que havia uma eleição praticamente directa. op. A eleição directa do Chefe de Estado entronca na tradição vinda do regime do Estado Novo e que foi interrompida por for- ça do resultado eleitoral das eleições de 1959 em que o candi- dato oposicionista Humberto Delgado esteve próximo da vitó- ria. GIOVANNI SARTORI. falando em «sistema misto». o modo de provocar uma ruptura constitucional). 7 . org. 135. ALFRED STEPAN-CINDY SKACH. págs. cit.-107. no entanto. nota 13.dia. a par do suíço. Desde então. cf. pág. cf. cit. forçou também a eleição di- recta do Chefe de Estado. Este Autor. 146-147 e 150. a eleição faz-se por sufrágio directo e uni- versal.. são bem conhecidos sistemas como o austríaco. MAURICE DUVERGER. na medida em que. A manutenção de um elemento militar na versão original da Constituição de 1976. 1997.. 256. a eleição directa — que sempre fora contes- tada pela esquerda. cf. Rimini. que configura um caso paradigmático de sistema semipre- sidencial)5. por 5 Tratando ex professo a questão de saber a partir de que ponto é que se pode identificar uma eleição indirecta com uma eleição directa e chegando à conclusão de que tudo está em saber qual o grau de liberdade de que dispõe o colégio eleitoral. LUCA MEZZETTI. em sentido um tanto diferente. entretanto abolidas. op. consoante informa Luca Mezzetti..

segundo a qual o primeiro Presidente universalmente eleito seria necessariamente um militar (o que veio efectiva- mente a suceder). Foi reeleito com o apoio do PS e da esquerda em geral e um suporte formal e passivo do PSD (à época já no segundo governo com maioria absoluta). Ramalho Eanes foi primeiramente eleito com o apoio dos partidos do chamado «arco constitucional» (PS. 1981-1986). CDS) e depois reeleito com os votos da esquerda (PS e PCP). ele presidiria ao Conselho da Revolução. Veio a ser ree- leito com a mesma base de apoio. com os votos da esquerda contra o PSD e o CDS (encontrando-se o PSD no Governo mi- noritário de Cavaco Silva). já na pendência do segundo Gabinete Guterres. viu-se na eleição popular do Presidente a forma de cobrir aquele órgão militar-revolucionário com um «manto» de «legitimidade demo- crática». Tanto assim foi que se disse que o consenso consti- tuinte entre partidos e o Movimento das Forças Armadas (MFA) continha uma «cláusula militar implícita» (André Gonçalves Pe- reira). todos eles reeleitos para um segundo man- dato: Ramalho Eanes (1976-1980. CDS e PPM). em ruptura aberta com os partidos apoiantes do Governo de então (PSD.inerência. PSD. 1991-1996) e Jorge Sampaio (1996-2001. na única se- gunda volta até agora disputada. foram eleitos três presidentes. 2001- 2006). Desde a entrada em vigor da Constituição. Jorge Sampaio foi eleito com os votos da esquerda. Durante muito tempo — pelo menos até à 8 . Mário Soares (1986-1991. Mário Soares foi eleito. nos meses ini- ciais do primeiro Governo Guterres (minoritário).

O que significa que o sistema semipresidencial português viveria. o contraste de concepções da Presidência foi por demais visível e pode ser caricaturado da 9 . senão mesmo de ruptura constitucional ou governa- tiva. os candidatos relevantes do centro- direita apresentaram-se sempre com um programa de interven- ção activa. nas presidenciais de 1996. em 1986. apresentou um programa de moderni- zação do país (Uma solução para Portugal). Nas míticas eleições de 86. quase permanente- mente. patrocinou um projecto de re- forma constitucional que visava o fim da transição militar. sustentou-se que vigora- va em Portugal a «teoria dos ovos e dos cestos». em 1980. apesar de o Gover- no estar nas mão do PS.primeira eleição de Jorge Sampaio —. A partir de então. A teoria não se confirmou. passou a falar-se numa «lei da vitória inevitável dos candidatos do centro-esquerda». Soares Carneiro. Cavaco Silva. em regime de coabitação. de acordo com a qual os cidadãos nunca davam a vitória presidencial a um candidato com as cores partidárias do partido que ocupas- se o Governo (assim foi com a reeleição de Ramalho Eanes e com as duas eleições de Mário Soares). porém. em que. Enquanto os candidatos do PS se anunciaram co- mo simples moderadores. Frei- tas do Amaral. Esta preferência pelos candidatos do centro-esquerda mostra também uma maior apetência do eleitorado por projec- tos presidenciais de intervenção moderada — o que confirma uma leitura mais «parlamentarizada» do nosso sistema semi- presidencial. em 1996. exibiu a imagem e a experiência de um decisor executi- vo. venceu o candidato socialista.

8 Cf.º. n. depois da reeleição de Eanes. Lembre-se. pois. 190. Eis aqui. da CRP 76. que. Soares limitava-se a dizer que era «fixe». confes- sadamente destinado a «cumprir calendário»). que precisamente estabelece só o Primeiro- Ministro é responsável perante o Presidente da República. apresentou um candidato de segunda linha. na dicotomia Chefe de Estado/Executivo. als. 6 Cf. 187. 3. art. n. art.º.seguinte forma: enquanto Freitas trazia no bolso um programa em formato de livro.º 1.º 1. as outras duas «reeleições» foram tomadas pelo bloco de centro-direita como «eleições perdidas à partida» (em 1991. presidido pelo Primeiro-Ministro. de o relacionamento institucio- nal com o Presidente ser efectuado única e exclusivamente através dele8. de a sua morte. da CRP 76. figura que goza de primazia em face dos restantes membros — como atesta e documenta o facto de ser ele quem escolhe os minis- tros6. um traço carac- terístico dos sistemas de governo parlamentares. perfeita- mente distinto e independente do Presidente da República. b) e c). 195. n. aliás.º. O Governo como órgão autónomo responsável pela polí- tica geral O Governo é um órgão constitucional autónomo. incapacidade ou demissão acarretar a demissão de todo o Governo7. O Governo é. em 2001. o PSD deu um apoio discreto e reservado à recandidatura de Mário Soares. art. um órgão colegial. da CRP 76.º 2. 10 . 7 Cf. Nesse sentido depõe ainda a nossa praxe e convenção constitucional (recorde-se a audiência semanal concedida pelo Presidente da República ao Primeiro-Ministro).

atenta a progressiva «internacionalização» das agendas políti- cas nacionais).º da CRP 769. OLIVIER DUHAMEL. 9. com o Presidente Soares. no I Go- verno Guterres (XI Governo Constitucional) em 1996. art. págs. Com efeito. 1995. às relações externas com as an- 9 O que aconteceu. de resto. No modelo francês. Eis um ponto em que o sistema por- tuguês se afasta do paradigma francês do semipresidencia- lismo. 528-529. onde o Presidente da República detém uma competên- cia normal para presidir ao Conselho de Ministros10.º não faz. 194 e 198-199. na gíria política. como doutrina da «diplomacia paralela» e que respeitariam. Manuel de Droit Constitutionnel. consoante decorre da al. onde esclarece que a competência para presi- 11 . Pa- ris. GEORGES BURDEAU. 182.ª ed. Droit Constitutionnel et Politique.. Cf. por exemplo. nos termos lapidares do art. Paris. i) do art. 133. pág. uma alusão directa à «política externa». 10 Cf. O art. Ora. Esta dualidade orgânica documenta-se no facto de o Pre- sidente da República não ter competência para presidir aos Conselhos de Ministros. 182. 24.º da Constituição Francesa. o que po- de deixar — e deixou na experiência passada. todavia. o Presidente da República só presidirá ao Conselho de Ministros quando para tal for con- vidado pelo Primeiro-Ministro. com o Presidente Eanes no Governo Pinta- silgo (V Governo Constitucional) em 1979 e. existe uma verdadeira «re- serva presidencial» em matéria de política externa que clara- mente intersecta o domínio da governação (e cada vez mais. nomeadamente. FRANCIS HAMON e MICHEL TROPER. maxime na Pre- sidência Eanes (1976 a 1986) — margem para algumas inter- pretações mais generosas para o Presidente (conhecidas.º da CRP 76. ao Governo cabe a condução da política geral do país e a direcção suprema da administração pública. 1994.

nunca o chegou a ser. consoante decorre. E compreende-se que a Revi- são de 1982 tenha empreendido esta clarificação. o dever de «informar o Presidente da República acerca dos as- suntos respeitantes à condução da política interna ou externa do país» (art. desig- nadamente tendo em vista que goza aí de poderes negativos mais significativos e de um direito a informação «mais inten- so»12. a CRP 76 define o Presidente como representante da República Portuguesa e dá-lhe certas competências. pág. 11 Cf. no âmbito das relações internacionais. dado que a prática presidencial ia no sentido de ver a matéria das relações internacionais.º 1. cabendo ao Presidente da República um mero «direito à informação». Lisboa.ª ed. 12 . da CRP 76). respectiva- mente. Na verdade.º. quando muito.º da CRP 76. O Sistema de Governo Português. 4. como um «condomínio presidencial e governamental».º e 135. o Presidente da República te- rá.tigas colónias e à participação portuguesa na NATO11). deste precei- to tira-se cristalinamente que a política externa é definida e conduzida pelo Governo. dos arts. De registar que a revisão constitucional de 1982 clarificou este ponto ao aditar. no mínimo. 120. al. 204. o direito a proceder a um «especial acompa- nhamento» da definição e execução da política externa. dir ao Conselho de Ministros. Actualmente. c). 1992. 21. às competências do Primeiro-Ministro. n.. Ora. MARCELO REBELO DE SOUSA. podendo ter sido meramente protocolar.

o poder de veto político de diplomas legislativos e o poder de requerer a fiscalização (preventiva ou sucessiva) da constitucionalidade das normas jurídicas junto do Tribunal Constitucional (que é. os quais estão elencados no art. de competências próprias. o órgão de «controlo concentrado» da constitu- 12 Cf. re- vestido de um superávite de legitimidade e desprovido de um leque de competências compatível. o poder de demissão do Governo. o poder de decretar referendos nacionais. sobre este tema e neste sentido. O princípio é até o da taxatividade dos actos submetidos a referenda. 140. sobressaem o poder de dissolução da Assembleia da Re- pública. sem prejuízo da extensão e importância da lista dos actos carecidos da referenda) A existência de um conjunto vasto de poderes libertos da obrigação de uma intervenção go- vernamental ulterior constitui um corolário lógico do concreto modo de designação do Presidente da República.4. A extensão dos poderes presidenciais a) O Presidente da República dispõe. GOMES CANOTILHO e VITAL MOREI- RA. Os Poderes do Presidente da República. todavia. a sua desnecessidade consubstancia a regra (e isto. De entre o leque de competências politicamente relevan- tes. Coimbra. Não se per- ceberia efectivamente um presidente directamente eleito. o poder de escolha do Primeiro-Ministro e de nomea- ção dos restantes membros do Governo. Numa fórmula fácil: a referenda é a excepção. 1991. especialmente 13 . cujo exercício não depende do instituto (medularmen- te parlamentar) da referenda ministerial.º da CRP 76. como se sabe.

serão examinados mais adiante. 15 O facto de. 1. É que. Coimbra. por Juan Linz-Arturo Valenzuela. que depende apenas e só da leitura política presidencial14. «Presidentialism and Majoritarian Democracy». já que é um po- der completamente livre.cionalidade). 172. na versão originária da CRP 76. quando se tratar do pro- blema da formação. Baltimo- re/London. Para já analisar-se-ão os poderes de dissolução do Parlamento. no artigo citado.º) da CRP 76. GOMES CANOTILHO. de acabar por não proceder à dissolução do Parlamento. cf. porventura. 539. b) O primeiro poder relevante vem a ser o poder de dissolução da Assembleia da República (art. 99. AREND LIJPHART. vol. do poder mais forte do Presidente. pág. Trata-se. Direito Consti- tucional e Teoria da Constituição. 78-98. Registe-se que. é que os sistemas presi- dencialistas têm uma maior propensão para favorecer a emergência de «demo- cracias agressivas de tipo maioritário» em detrimento das «democracias con- sensuais». portanto. explanado designadamente na sua conhecida obra Democracies (cf. Democracies — Patterns of Majoritarian and Consensus Government in Twenty-One Countries. Trata-se daquilo a que tecnicamente se chama um «parecer confor- 14 . org. 13 A expressão é de Gomes Canotilho. Aquilo que se procura provar. o Presidente conservava sempre a liberdade de não seguir o parecer e. pág.ª ed. o poder de dissolução carecia de parecer prévio favo- rável do extinto Conselho da Revolução15. mas dispondo dele. o Presidente da República não podia dissolver a Assem- bleia sem o dito parecer favorável. necessitar do parecer prévio favorável não significa que tal parecer fosse absolutamente vinculativo. não era obrigado a dis- solvê-la. in The Failure of Presi- dential Democracy. AREND LIJ- PHART. demissão e responsabilidade do Governo. Os poderes relativos ao Gover- no. 2001. designadamente os chamados poderes de controlo primá- rio13. mesmo dispondo de um pa- recer favorável à dissolução. Ou seja. no limite.. 5. a inexistência) do poder presiden- cial de dissolução é um dos factores que mais contribui para determinar o ca- rácter mais «consensual» ou mais «majoritário» da democracia. 1994. 14 A maior ou menor amplitude (e. Note-se que esta asserção é expendida no contexto do pensamento do Autor. A Revisão de 1982 págs. 1984). de veto político e de iniciativa em sede de fisca- lização da constitucionalidade. New Haven/Londres. cf. na altura.

bem assim. Ainda assim o poder livre de dissolução conhece dois ti- pos de limites: os limites temporais e os limites circunstanciais. os partidos com assento parlamentar (em nada estando vinculado pelo sentido do parecer do Conselho ou dos partidos). 136-139. A Assembleia da República não pode ser dissolvida nos primei- ros seis meses subsequentes à sua eleição ou no últimos seis meses mandato presidencial (limites de cariz temporal) e não pode ser dissolvida na pendência de estado de sítio ou de emergência (limites de ordem circunstancial). sobre a figura do parecer conforme. 15 . e) do art. Os limites circunstanciais previ- nem. Direito Administrativo — Lições ao Curso Complementar de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito de Coimbra. designadamente. nos termos da al.cifrou-se. Actualmente. me». 1978. uma «tentação autoritária» ou a materializa- ção de uma autêntica cláusula de ditadura (de tão má memó- ria) em que o Presidente ou o Governo fica só — isolado e sem controlo — a gerir a crise. por sua vez. Coimbra. O primeiro limite temporal visa evitar uma anómala cadeia de dissoluções su- cessivas e o segundo uma «manipulação presidencial» de soluções políticas em termo de mandato (especialmente. fazendo coincidir o calendário das eleições legislativas com o calendário das presidenciais). o Presidente tem apenas de ouvir previa- mente o Conselho de Estado e.º da CRP 76. cfr. 133. neste aspecto particular. págs. num importante reforço da posição presidencial. ROGÉRIO SOARES. Sobre a classificação dos pareceres e.

c) No que toca ao chamado veto político (art. a Constituição estabelece um poder de veto absolu- to quanto aos diplomas provenientes do Governo e um veto re- lativo.ºs 1-3 do mesmo preceito quan- to à Assembleia da República. «Presidentialism and Majoritarian Democracy». basta a maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções. cf. transformando o decreto vetado em proposta de lei. embora devendo ser usada criteriosa- mente. não pode nem deve ser menorizada. 136.º CRP 76) — veto fundamentado em razões de conveniência e oportunidade política —. 136.º 4 do art. Esta margem de manobra é ainda maior no que concerne às chamadas conven- 16 Cf. No manejo dos seus poderes de veto. superável mediante confirmação.º 3 do art. 99-100. quanto aos diplomas oriundos da Assembleia da República16. De sublinhar que para a confirmação dos diplomas parlamentares. exige-se uma maioria duplamente qualificada. no entanto. 136. todavia. 16 . No caso do veto de decretos governamentais. n..º quanto ao Governo e n. o Presidente dispõe de um capacidade de influência da política governa- mental e legislativa que. cit. o que natural- mente dificulta a superação do veto e valoriza correspondente- mente o poder de bloqueio do Presidente17. 17 A possibilidade de superação do veto por maiorias pouco exigentes é um dos traços que Lijphart considera «atenuantes» do carácter «majoritário» dos siste- mas presidencialistas. evidentes custos políticos.º). Para certas matérias (elencadas no n. AREND LIJPHART. já que implica uma tomada de posição assumidamente conflitual com a instituição presi- dencial. Este expediente de recurso tem. em regra. o veto é ainda «torneável» mediante o exercício dos poderes de iniciativa legislativa do Governo junto da Assembleia da República. págs.

E. GOMES CANOTILHO e VITAL MOREIRA..º da CRP 76). 53. A concessão desta «legitimidade» ao Presidente da República não é de somenos importância.º 5 —. 19 A expressão é de GOMES CANOTILHO.º no seu n. porque a «fiscalização preventiva é mais marcada- mente política»19 e a experiência portuguesa revela um uso fre- quente deste tipo de controlo como arma de jogo político. pág. que o Presi- dente não pode recusar a promulgação de leis de revisão da Constituição (art.ções internacionais. uma eventual pronúncia pela constitu- cionalidade por banda do Tribunal Constitucional não preclude um ulterior veto político no normal desenvolvimento do procedi- mento legislativo. págs. LUCAS PIRES. PAU- 17 . por que havendo uma pro- núncia de inconstitucionalidade e o correspectivo e obrigatório veto presidencial. b). 263. mas também da explícita vontade do 18 Cf. 135. Coimbra. 136. já que o poder de ratificação dos tratados e de assinatura dos acordos internacionais é um poder rigoro- samente livre (art. 286. Coimbra.º. por um lado. a superação desse veto não depende apenas e só Parlamento. cit. pág. Teoria da Consti- tuição de 1976 — A Transição Dualista. o Presidente da República pode desencadear o desig- nado controlo preventivo da constitucionalidade das normas constantes dos diplomas legislativos. 910-911. 1998. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. No quadro do sistema português de fiscalização da consti- tucionalidade — e como reconhece o próprio art. Tra- ta-se de uma munição política tanto mais importante quanto é certo que. Acrescente-se. da CRP 76)18. al. por outro lado. para finalizar o tratamento dos poderes de veto. Os Poderes do Presidente da República. 1989.-264.

cf. vol. O Presidente goza ainda da prerrogativa de enviar mensagens à Assembleia da República e dispõe da «última pa- lavra» nos procedimentos complexos de declaração do estado de sítio ou de emergência e. 603. de acordo com o seu alto critério. págs. in Legitimidade e Legitimação da Justiça Constitucional. 1996. pág. da CRP 76. in Direito e Justiça. 1995. JORGE MIRANDA. Porto. De notar que o Presidente pode ainda fazer suscitar o controlo sucessivo da inconstitucionalidade.. Ele julgará. págs. n. Manual de Direito Constitucional. 212-214. as diferentes formulações do art. vol. da CRP 76. 78-79.º.. Coimbra. de convocação de LO CASTRO RANGEL. o chamado controlo da incons- titucionalidade por omissão.º da CRP 76 e. tomo V. com o consequente apagamento do órgão controlador da constitucionalidade. «Veto».. cf. VIEIRA DE ANDRADE. «O Legislador e o Tribunal Constitucional». págs.próprio Chefe de Estado. 18 . «Legitimidade da Justiça Constitucional e Princípio da Maioria». Neste sentido. 283. cit. cit. ao contrário do que se passa com os casos de veto político. pág. tomo 2. bem assim. 293. PAULO CASTRO RANGEL. XI (1997). O Legislador e o Tribunal Constitucional. PAULO CASTRO RANGEL. 279.º 2. se deverá ou não promulgar um diploma reprovado pelo Tribunal Constitucional. bem assim. in Dicionário Jurídico da Administração Pública. págs. nos termos do art. Repensar o Po- der Judicial. Sobre o papel do Parlamento e do Presidente da República em sede de fiscalização abstracta preventiva. a confirmação pela Assembleia da República de um diploma vetado por inconstitucionalidade não determina para o Presidente a obrigação de promulgar. n.º 2. 281. no quadro do art. e do art. 136. mas depois confirmado pelo Parlamento (servindo de árbitro entre o juízo jurídico e o juízo político da constitucionalidade e alçando-se à posição de mais alto guardião da Lei Fundamen- tal)20. Lisboa. VII. É que. 212-214.º. 2001.º da CRP 76 — este com uma evidente carga política de censura aos órgãos legislativos. 20 Cf.

º). o Presidente nomeia o Primeiro-Ministro. e nos termos do art. revela-se já aqui (e de mo- do não despiciendo) a dependência parlamentar do Governo.A formação do Governo (designadamente. seja em termos institucionais (art.º. A CRP 76 estabe- lece inequivocamente a responsabilidade política do Governo perante a Assembleia da República. «ouvidos 19 . No entanto. seja em ter- mos políticos. responsabilidade esta que se afere em vários momentos e a diferentes propósitos. a sua organiza- ção e a correspondente composição pessoal) parece. as inúmeras possibilidades de manifestação nos meios de comunicação social e na opinião pública.ºs 1 e 2). é o Chefe de Estado quem escolhe o Primeiro-Ministro e quem no- meia os restantes membros do Governo (embora sob proposta do Chefe do Governo). n. a). 5.referendos. Com efeito. 190. 187. Na verdade. enunciando-a de modo expresso. e de novo. à vista desarmada. através dos seus membros (art. natural- mente. depender muito mais do Presidente do que do Par- lamento. A responsabilidade do Governo perante a Assembleia da República Uma outra característica (agora. A estas competências somam-se ainda. 190.º da CRP76. típica dos re- gimes parlamentares) é a responsabilidade política do Governo perante o Parlamento.

cf.. pág. 161. cit. Jorge Miranda alvitrou a possibili- dade de se sustentar a solução contrária (isto é. anotação II ao art.º. Cf. A Constituição de 1976 — Formação. o Autor já não aceita tal possibilidade. pág. a partir deste inciso. 187.º 2. n. 21 Antes da Revisão Constitucional de 1982. 20 . não restarão dúvidas de que a solução encontrada há-de pau- tar-se pelo critério da «sustentabilidade parlamentar». na formação do Governo). a vertente parlamentar do regime pode já vis- lumbrar-se num «momento» em que. GO- MES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. JORGE MIRANDA. cit. designadamente na hipótese de co- ligação entre dois partidos não maioritários com uma maior ba- se parlamentar de suporte do que a que é detida pelo partido maioritário. 745. «L'esperienza portoghese di sistema semipresidenziale». 190. Naturalmente. esta sustentabilidade parlamentar pode ha- bilitar o Presidente a chamar para Primeiro-Ministro o líder de um partido não maioritário. 10. Constituição da República Portuguesa Anotada. só pode ter em conta os resultados das eleições legislativas (e já não os das eleições presidenciais ou autárquicas)21. na escolha do Primeiro-Ministro. 430. JORGE MIRANDA.º. Lisboa. a par dos resultados das legislativas.os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais» (art. considerar os resultados das eleições presidenciais. MARCELO REBELO DE SOUSA. pág. da CRP 76). pág. nota 14. Princípios Fundamentais.. O Sistema de Governo Português. Em suma. deduzir que o Presi- dente da República. em idêntico sentido. Por outro lado. Estru- tura. mais avultaria o peso político do Presidente da República. cit. Entretanto. Parece pacífico. qualquer que ela seja (mesmo na hipótese limite de um «governo de ini- ciativa presidencial» ou de um «governo técnico ou tecnocráti- co»). 1978.. presumivelmente.

desnecessidade de investidura parlamen- tar). 21 .º da Constituição de 1958. a votação parlamentar do programa do Governo é uma faculdade que depende de deliberação do Conselho de Ministros (art. da CRP 76. Comparando o sistema de governo portu- guês com o francês e acentuando este traço distintivo (necessidade de investi- dura parlamentar ainda que tácita.º 5. é apenas um «governo de gestão».º. Os Poderes do Presidente da República. por nem o Governo ter usado da sua faculdade de solici- 22 No sistema francês. a respeito deste pre- ceito não tem sido muito regular. 192. isto é. todavia. cit. A prática constitucional. podendo culminar ou não numa votação. Paris. mas entra na globalidade das suas funções mal se efectiva a nomeação pelo Presidente. para entrar em plenitude de funções o Governo carece de um acto de investidura parlamentar. houver lugar a uma votação (n.º 3 do art. DIDIER MAUS. cf. págs. A investidura diz-se tácita quando não há lugar a qualquer vo- tação. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. 927-929.º).. Cf. podendo tão- só praticar actos que sejam estritamente «necessários para assegurar a gestão corrente de negócios públicos». em virtude da propo- situra de uma moção de rejeição do programa ou de um voto de confiança. 16-18. 186. Esta exigência de investidura só foi aditada pela Revisão de 82. Essa investidura parlamentar traduz-se na apresentação e apreciação do programa do Governo na Assembleia da Repú- blica (art.º da CRP 76). A investidura diz-se expressa se. não está investido na plenitude das suas funções. data até à qual e à semelhança do que ocorre em França.Nomeado o Primeiro-Ministro e os restantes membros do Governo. este entra em funções nos termos do art. Na verdade. n. o Governo as- sumia a plenitude de poderes com a simples nomeação presi- dencial22. Todavia. Na verdade. 49. o Governo também carece da confiança parlamentar.b). 192. 1992. págs. «Responsabilité du Gou- vernement». org. de Olivier Duhamel e Yves Mény. in Dictionnaire Constitutionnel.

22 .º 4.tar um voto de confiança.º e 194. na história constitucional recente. 192. Importa. esta pode provocar a demissão do Governo. a subsistência e manutenção em funções do Governo depende sempre da As- sembleia da República.. e porventura mais importante. seja pela via da aprova- ção de moções de censura (arts. típicas dos parlamentarismo escandinavos. de iniciativa pre- sidencial. seja pela via da rejeição de moções de confiança. nos termos das als. no entanto. A admissão das investiduras tácitas. viu o seu programa re- jeitado — morrendo praticamente à nascença — foi o III Gover- no Constitucional (Governo Nobre da Costa. a qualquer momen- to. 23 Cf.Finalmente. chamar a atenção para que a maioria requerida para aprovação de uma moção de rejeição (maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções) é mais exigente do que a maioria requerida para a recusa de um voto de confiança (maioria simples)23. c). nomeado pelo Presidente Eanes em 1978).º do art. d) e e) do n.º da CRP 76). da CRP 76.º da CRP 76. O único governo que até hoje. n. nem algum dos grupos parlamenta- res da oposição ter lançado mão de uma moção de rejeição. destina-se naturalmente a facilitar a formação e a viabilização de governos minoritários em quadros parlamen- tares altamente pulverizados. 195. designadamente. 193. A rejeição do programa do Governo ou a rejeição do voto de confiança apresentado conduz naturalmente à respectiva demissão. na medida em que. o art.

é imperioso dizer que a Revisão de 1982 «parlamentarizou» o regime. Na verdade. a qual. al. impli- ca a demissão automática do Governo (arts.º 1. Por estranho que pareça — mas bem revelador de uma capitis diminutio do Parlamento português —. os seus signatários ficam impedidos de apresentar uma outra durante a mesma sessão legislativa (art. 194. Todavia. nos termos do art. pela maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções). demonstrava que o Governo poderia sobreviver mes- mo sem a confiança do Parlamento (pelo menos até à reitera- ção. O que.º e 195º. em 1977) e só um caiu pela aprovação de uma moção de censura (o X Go- 23 . n. 195. para que se dê a demissão do Governo. só um Governo caiu pela recusa de uma moção de confiança (I Governo Cons- titucional. No que toca ao regime de demissão do Governo por aprovação de moções de censura. n. Se a moção de censura não for aprovada. e).º. o Governo pode solicitar à Assembleia da Repúbli- ca uma moção de confiança. ou pelo menos um quarto dos Deputados em efectividade de funções. não basta a simples aprovação de uma moção de censura para que o Governo seja demitido. al. podem apresentar moções de censura ao Governo. f).º.º 3. da CRP 76). por outro lado. 193. E. em segundo acto. minoritário PS.º 1 . Assim. da CRP 76). ob- viamente. é necessário que ela tenha sido aprovada por maioria qualificada (a saber. os grupos parlamentares. um Governo só seria demitido pela aprovação sucessiva de duas moções de censura. se não for aprovada. da moção de censura). numa disposição à época largamente criticada. I Governo Mário Soares. n.

A ideia de uma progressiva «governamentalização» do sistema de governo é. desde 1983. Todos os restantes. aliás. a demis- são do Governo Pintasilgo (V Governo Constitucional. por via da aprovação da moção proposta pelo Grupo Parlamentar do PRD). Governo Cavaco Silva. em 1987. seis governos foram de- mitidos por solicitação expressa do Primeiro-Ministro. XIV Governo Constitucional. Três gabinetes terminaram efectivamente a legislatura que iniciaram. «administrativa» ou de «secretaria» denota uma assinalável fragilidade da ver- tente parlamentar do regime (e comprova a sempre denunciada tendência para a governamentalização). em Dezem- bro de 2001. a cada formação da Assembleia da República saí- da de umas eleições legislativas ter correspondido um único 24 . assim e à falta de melhor palavra —. 1987-1995) e o I Go- verno Guterres (XIII Governo Constitucional. a saber os Governos maioritários de Cavaco Sil- va (XI e XII Governos Constitucionais. na sequência dos maus resultados do PS nas eleições autárquicas). Esta regularidade de uma demissão — digamos.verno Constitucional. isto é. 1978) dá-se por acto presidencial. A de- missão do II Governo Mário Soares (II Governo Constitucional. sem que houvesse qualquer intervenção do Parlamento na cessação de funções do executivo (tome-se como paradigma a demissão do II Governo Guterres. apenas com o fito de organizar eleições e a do Governo Sá Carneiro (VI Go- verno Constitucional 1979-1980) ocorreu pela morte do Primei- ro-Ministro. 1995-1999). 1979) deu-se por ser um governo a termo (a prazo). confirmada pela circunstância de. coligação PS-CDS.

tecnicamen- te. Um Governo demitido é. Esta regularidade constitucional — que ameaça con- verter-se em praxe ou convenção — denuncia. A relação do Governo com o Presidente da República como uma relação de responsabilidade (a assimetria das relações de responsabilidade do Governo) 25 . perante o corpo eleito- ral. pois. a demissão do Governo não implica a sua imediata cessa- ção de funções. O Governo só cessará funções com o acto presiden- cial de exoneração do Primeiro-Ministro. a responsabilidade do Governo perante o parlamento parece deslocar-se para uma responsabilidade di- recta do Governo perante o eleitorado. Efectiva- mente. neste quadro. quer ela tenha sido interrompida pelo recurso presidencial à dissolução. Um último esclarecimento para precisar que. um «go- verno de gestão». que não se encontra na plenitude dos seus poderes. 6. a verdade é que. gerava-se evidentemente um «vazio de poder»). também ele.Governo. acto esse que é simul- tâneo da nomeação de um novo Primeiro-Ministro (se assim não fosse. Quer os governos hajam completado a legislatura. de quase vinte anos a esta parte. a tendên- cia para a transformação das eleições legislativas em sucedâ- neos de referendos ou plebiscitos em torno de um candidato a Primeiro-Ministro ou de uma equipa governamental. a demissão do Governo foi sempre acompanhada de novas eleições.

Cura-se aqui de um poder livre e discricionário. 513. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. órgão com legitimidade democrática directa. Lá onde exista uma maioria absoluta de um só partido. importa determinar se intercorre ou não uma verdadeira relação de confiança política entre am- bos. É por demais evidente que. dispõe de um poder inicial (nomeação) e de um poder final ou terminal (demissão) relativamente ao Governo. É que. Ora. em que lhe é deixada uma ampla margem de actuação. Havendo presente que o sistema português se apresenta prima facie como um modelo semipresidencial. O primeiro poder presidencial relativamente ao Governo é justamente o poder de escolha do Primeiro-Ministro. o Presidente da República.. GOMES CANOTI- LHO. ainda assim — e atenta a estrita necessidade de confiança parlamentar para a assunção de plenitude de funções —. será extremamente difícil ao Presidente fazer uma escolha diversa daquela que é indicada por esse mesmo partido (eis justamente o que sucedeu com o Presidente Soa- 24 Sobre a destrinça entre controlo primário e secundário. dispondo o Presidente da República de tais poderes de contro- lo primário sobre o Gabinete24. 26 . é natural que se procure dilucidar a natureza da relação entre o Presidente e o Governo (e isto especialmente com o intuito de averiguar se haverá aí uma relação de responsabilidade política em tudo e- quivalente àquela que subsiste perante a Assembleia da Repú- blica). as escolhas presidenciais hão-de considerar o critério da «susten- tabilidade parlamentar». consoante decorre do que se foi adiantando. cf. pág. cit.

res em face das duas maiorias absolutas atingidas pelo PSD em 1987 e em 1991). perante o falhanço do II Governo Balsemão (VIII Governo Constitucional). Na verdade. na sequência da primeira maioria abso- luta da Aliança Democrática em 1979). as con- dições para o exercício do poder presidencial não serão muito diversas (veja-se o que sucedeu com a nomeação de Sá Car- neiro — adversário político confesso do Presidente Eanes — para Primeiro-Ministro. A latitude dos poderes fácticos do Presidente aumenta. O 27 . rejeitou a proposta fei- ta pelos partidos da Aliança Democrática (apesar de estes go- zarem de uma ampla maioria absoluta). estes pro- puseram o nome de Vítor Crespo para Primeiro-Ministro em substituição de Balsemão (que já substituíra Sá Carneiro). Eanes esclareceu que só daria posse a um governo com apoio parlamentar maio- ritário. nos casos em que o partido maioritário dispões apenas de maioria relativa e será tanto maior quanto mais intensa seja a fragmentação partidária no parlamento. minoritário. Eanes. tendo então forçado a solução da coligação PS-CDS que deu origem ao II Governo Soares. Tudo depende da aprecia- ção que fizer de cada conjuntura política. Em 1978. O Presidente não es- tá nunca obrigado a nomear para Primeiro-Ministro o líder parti- do mais votado (e poderá mesmo designar uma segunda ou terceira figura do partido em causa). No caso de haver uma coligação pré-elei- toral que atinja também o patamar da maioria absoluta. perante o fracasso do I Governo Soares. todavia. já em segundo mandato e já depois da Revisão de 82 que lhe reduzi- ra sensivelmente os poderes. Em 1983.

. dissolver a Assembleia e convocar eleições. Constituição da República Portu- guesa Anotada.Presidente entendeu. Tais governos são gabinetes de confiança presidencial. Também em 1987. Coimbra. 190. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. o Presidente Eanes logrou formar sucessivamente três Governos de «inicia- tiva presidencial». o IV (Mota Pinto) e o V (M. mas ainda assim exerceu decisivamente o po- der de formação dos Governos. 1993. já que o Governo Nobre da Costa foi destituído logo aquando da apreciação parlamentar do respectivo programa e 25 Cf. Como é amplamente sabido. 3. mais precisamente o III (Nobre da Costa). com fundamento no alegado esgotamento das arranjos partidários possíveis. Destes só o Governo Mota Pinto teve algum sucesso.ª ed. Nestes dois casos. no entanto. Extremamente controversa é a possibilidade de o Presi- dente formar os chamados «governos de iniciativa presiden- cial» ou «governos técnicos»25. na sequência da aprova- ção da moção de censura que derrubou o I Governo Cavaco Silva (minoritário). o Presiden- te usou o seu poder de escolha do Primeiro-Ministro de uma forma negativa. em 1978-79. o Presidente Soares rejeitou a proposta feita pelo PS e pelo PRD da constituição de um Governo PS-PRD com apoio parlamentar do PCP. pág.º. no contexto do sistema português. anotação III ao art. 28 . constituídos à margem do quadro parla- mentar e partidário. 746.ª de Lurdes Pintasilgo) Governos constitucionais.

dado que o veto do Presidente quanto a decretos de origem governamental é absoluto e que. Com efeito. pág.. págs. Os Poderes do Presidente da República. 27 Cf. Importa demais lembrar que o poder do Presidente se es- tende à inteira composição do Governo e não apenas ao seu chefe.º. neste do- mínio material. Tome-se o exemplo da recusa do Pre- sidente Soares em nomear Vice-Primeiro-Ministro o então Mi- nistro da Defesa. 24-29. 164. JORGE MIRANDA. por via de regra. Convém. acrescentar que o Presidente tem ainda uma palavra a dizer no que respeita aos domínios de organização governati- va. Fernando Nogueira. MARCELO REBELO DE SOUSA.. Efectivamente. n. 47-49. já por repetidas vezes o Pre- sidente vetou o nome de certos ministros ou aconselhou mes- mo o nome de outros27. a matéria de organização governamental per- tence à área de competência legislativa do Governo.. os decretos vetados não podem ser transforma- dos em propostas de leis. a palavra do Presidente é aí termi- nante. são nomea- dos pelo Presidente da República (art. cit. já que.º 2). cit. cit. muito embora os ministros e secretários de estado sejam propostos pelo Primeiro-Ministro. não po- dendo. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. aliás. «L'esperienza portoghese di sistema semipresidenzia- le». 29 . em caso algum. ficaram confinadas às reuniões entre o Pre- sidente e o Primeiro-Ministro indigitado. O Sistema de Governo Português. Pois bem. 28 Muitas destas situações são apenas alvo de especulação jornalística ou de bastidores. Na expe- riência constitucional portuguesa. 187. págs. ser disciplinada pela Assembleia da República29.o Governo Pintasilgo foi apenas um «governo intercalar» (in- cumbido de organizar eleições legislativas)26. 26 Cf. em 199528.

porque o Governo prosseguia uma política contrária às concepções do Presidente —.º 2. art.º. 30 . a dever ser usado com grande par- cimónia. o poder de demissão era um poder livre. da CRP 76.º. Esta limitação é tanto mais evidente quanto.º 2. para a sua subsistência e manutenção. o Presidente só pode de- mitir o Governo quando tal se mostre necessário para garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. carecia da confiança política presidencial (permanentemente renova- da). este podia. a vertente presiden- cial se faz sentir mais ao nível da composição e organização governativa. portanto. a bem dizer. n. de pleno direito. Resta ainda falar no poder presidencial de demissão do Governo que consubstancia. Uma vez perdida essa confiança — por exemplo. antes da Revisão de 1982. a competência presiden- 29 Cf. Pode mesmo di- zer-se que. n. demiti-lo. A partir do momento em que se estabeleceu o limite do «regular funciona- mento das instituições democráticas». Nos ter- mos do art. O Presidente tem. A utili- zação do advérbio «só» logo demonstra que se trata de um po- der altamente circunscrito. 198. um poder não negligenciável na conformação da solução governativa especialmente no que concerne à respectiva composição pessoal. da CRP 76. na concepção constitucional. 195. Quando se tratava de um poder livre. a verdadeira chave de leitura da respectiva relação de responsabilidade. enquanto que a vertente parlamentar se manifesta preferencialmente no domínio do programa e das opções subs- tantivas de governação. não restavam dúvidas de que o Governo.

Impõe-se. não se es- tará perante uma disfunção do sistema político? Em última aná- lise.. é que será admissível a demissão do Governo. não será isso. Ainda as- 30 Cf. Se o Primeiro-Ministro não cumpre os deveres de informação do Presidente. LUCAS PIRES. págs. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA.. já em si uma fonte de funcionamento irregular31? Acrescentar-se-ia: um Governo cuja política patentemente viola compromissos externos do Estado (por exemplo. todavia. não haverá um funciona- mento institucional anómalo? Se o Governo não cumpre prazos constitucionais para a apresentação do Orçamento. próximos do estado de excepção ou necessidade constitucio- nal30 —. nessa medida. Os Poderes do Presidente da República. adiantou um conjunto de exemplos que ilustram a ambiguidade daquela cláusula constitucional. lembrar que o exercício deste poder presidencial não é juridicamente sindicável e. cit. Lucas Pires. «O Sistema de Governo Português: sua Dinâmica». em sede de défice orçamental) não incorrerá numa adulteração do devir de- mocrático das instituições? A posição de Lucas Pires tem decerto o mérito de alertar para a subjectividade inerente ao conceito e para a sua aperta- da dependência das diversas conjunturas políticas. não falta quem ache que o conceito de «regular funcionamento das instituições democráticas» é passível de interpretações po- líticas muito variadas. 297-298. Só em sucessos muito graves — segundo alguns. cit.cial passou a revestir uma natureza inquestionavelmente ex- cepcional. designadamente. págs. se o Presidente perder a confiança política no Governo. 31 Cf. 50-51. 31 .

onde se fala em «responsabilidade política do Governo» perante a Assembleia e em «responsabili- dade» (sem mais) do Primeiro-Ministro perante o Presidente. O Sistema de Governo Português.. MARCELO REBELO DE SOUSA. enquanto que a relação Governo- Presidente é uma mera relação de responsabilidade institucio- nal ou político-institucional32. págs. 191. mas muito circunscrito em sede de eventual cessa- ção de funções. 32 . A concreta conformação do poder presidencial de demis- são do Governo depois de 1982 fez com que as relações de responsabilidade do Governo perante o Presidente e perante a Assembleia deixassem de ser simétricas.º da CRP 76.sim. Esta diferença ou assimetria das relações de responsabilidade levou Marcelo Rebelo de Sousa a considerar que a relação Governo-Assembleia é uma verdadeira relação de responsabilidade política. 67-70. parece exagerado aceitar que o Presidente da Repúbli- ca possa demitir o Governo fora de circunstâncias excepcionais (as quais. no entanto e naturalmente. Esta diferença de natureza das re- lações de responsabilidade tem até apoio expresso nos dizeres do art. A Assembleia tem um poder basicamente livre nos momentos do início de funções e de cessação de funções do Governo (aprovação ou rejeição do programa e aprovação ou recusa de moções de censura e con- fiança). 32 Cf. Já o poder presidencial revela-se largo no momento da formação. não terão de chegar ao «estado de excepção» — como sibilinamente parecem sugerir Gomes Canotilho e Vital Moreira). e em face do tom categórico da letra do preceito constitu- cional. cit.

uma vez que os Primeiros-Ministros nunca adoptaram esse comportamento. o Primeiro-Ministro não estaria obrigado a apresentar a demissão ou. com o advento de um novo mandato presidencial. A referida assime- tria pode ainda documentar-se na circunstância de o início de uma nova legislatura implicar sempre a formação de um novo Governo. parlamentarmente legitimado. cit. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. 34 Cf. GOMES CANOTILHO-VITAL MOREIRA. A questão está resolvida pela praxe constitu- cional. Os Poderes do Presidente da República.De notar — o que. 33 . Este pre- cedente foi seguido pelo Primeiro-Ministro António Guterres. É bastante discutido pela doutrina se. pág. sem qualquer possibilidade de haver um relacionamento directo entre o Presidente e outros membros do Governo33. acentua o que vem de dizer-se — que a responsabilidade perante o Presidente é mediada (sempre e só) pela figura do Primeiro-Ministro. O problema pôs-se. Gomes Canotilho e Vital Moreira.. 75. Os Poderes do Presidente da República. mas o Pri- meiro-Ministro Cavaco Silva entendeu não impender sobre o Governo. na contingência das duas eleições do Presidente Sampaio. nota 82. aquando das duas eleições do Presidente Soares. pelo menos. quanto ao pólo presidencial em «res- ponsabilidade política difusa ou imperfeita». cit. enquanto que o início de um mandato presidencial em nada afecta a vida do Governo que estiver em funções. 33 Cf. um tal dever. designadamente. 76. falam. pág.. a colocar o «lugar à disposição» do novo Presidente — à semelhança do que ocor- re em França34. para caracterizar o mesmo fenómeno. aliás.

Em jeito de conclusão. é qualitati- vamente diversa da relação de responsabilidade parlamentar. mas que tal relação de responsabilidade. 34 . dir-se-á que o Governo é indubita- velmente responsável perante o Presidente da República. sendo política.