ESCRITOS MALDITOS

DE UMA REALIDADE
INSANA
Fabio da Silva Barbosa

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ESCRITOS MALDITOS DE UMA
REALIDADE INSANA
Fabio da Silva Barbosa

1ª edição

São Bernardo do Campo
Lamparina Luminosa
2013

com As licenças deste livro permitem copiar. 102 p.93015 Ficha catalográfica: Sandra Ap. CDD 869. ISBN 978-85-64107-04-5 1. I.com editoralivrepopularartesanal. conquanto que sejam para fins não comerciais. que dêem créditos devidos ao autor e a Lamparina Luminosa. B197 Barbosa. e que as obras derivadas sejam distribuídas somente sob uma licença idêntica à que governa esta. de M. 2013.com www. A. G. Fabio da Silva. Título.blogspot. Conto brasileiro.lamparinaluminosa. Moura CRB-8 5980 LAMPARINA LUMINOSA Coordenação editorial: Christian Piana +55 (11) 4127 0866 +55 (11) 9 8531 9222 k. distribuir. . 1 ed. São Bernardo do Campo : Lamparina Luminosa.piana@gmail. exibir e executar a obra e fazer trabal- hos derivados dela. 1975 Escritos malditos de uma realidade insana / Fabio da Silva Barbosa.

ESCRITOS MALDITOS DE UMA REALIDADE INSANA Fabio da Silva Barbosa 1ª edição .

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PRÓLOGO: Lá vem eles Lá vem ele Lá vem ele Carregando sua cruz Não é o abençoado Não é o senhor Jesus Lá vem ela Lá vem ela Resistindo em seu Calvário Não é a donzela da tv Não espera o galã otário Lá vem aquilo Lá vem aquilo Fustigado pela vida Não parece ser humano Não tem pele. só ferida .

como todos os outros. Nunca entendi porque precisava dos meus serviços. Balancei a cabeça com um sorriso cínico e prossegui. . ainda pude ouvir seu suspiro. Queria sair antes que ela acordasse. Meus clientes deixavam Morgana louca. Mas ela se esquecia do mais importante: Eram apenas clientes.. A pro- prietária devia abater isto no aluguel. Disse o endereço acompanhado de um discre- to sorriso. daquela distância. Dentro de meia hora estávamos no motel. O cliente já estava me esperando na varanda. bonito e tinha dinheiro. Entrei séria. Esqueci de conferir se eram mesmo azeitonas no pra- tinho. Bom dia. Era uma forma de agradar. 1701 Despertei inebriada pela manhã de prazer com Morgana. Qualquer mulher poderia aprender a manusear os consolos de que tanto gostava. era o fato do prédio ter elevador. Um dos argumentos usados para cobrar esse absurdo por mês.Oi. Veio um táxi e fiz sinal. Passei as mãos pelo seu corpo nu. Pedi suco de laranja..Gostosa !!! Deve ter voltado a cochilar logo que dobrei a esquina. o senhor que mora em frente abriu a janelinha. O elevador ainda estava com defeito.Boa tarde. como sempre. poderia estragar tudo com suas crises de ciúmes. Desci no restaurante combinado.. Tinha cliente marcado às cinco da tarde.. tomando sua Tequila com limão e petiscando algo que. princesa! Coitado. O motorista parou. Depositei o dinheiro da cerveja em baixo do cinzeiro que transbordava de bingas e saí. Tomei banho e me arrumei. pareciam azeitonas. Descendo os degraus que desembocavam na rua. assustado. Minha machinha. Cínico. Sabia que eles gostavam quando usava esse artifício.Boa tarde! Respondi com o mesmo sorriso que havia usado para cumprimentar meu vi- zinho. Dona Clarice. Morgana. 8 . bêbado. Ratos e baratas disputa- vam os cantos. Ele abriu os olhos. Era assim que ela gostava de ser chamada. Deve passar o dia esperando eu abrir a porta para olhar pela janelinha com aquela cara de tarado e me saudar com suas frases feitas. . O porteiro está sempre dormindo. Assim que cheguei me elogiou. Conversamos sobre banalidades. sem maiores sacrifícios. Seu Oligário? Assim vai cair da cadeira. Se me visse indo. . Ao abrir a porta. ...Como é. . Ele era jovem.

se vestia de cigana e botava cartas. Pelo menos chegaria bêbada. Estava entreaberta. Tomara que Morgana não resolva acordar todos os sonolentos com suas gritarias. Ela não veio. Fechei os olhos para. O nome havia tirado não sabia bem de onde. ao invés de me alugar com suas crises de ciúmes. Ouvi o barulho do chuveiro e fui para o quar- to. A família ficaria feliz em me ver voltar. Atendi mais dois clientes e fui para o banho. Empurrei com cautela. Morgana estra- çalhou contra o poste. mas não adiantou. O que estaria tramando? Às vezes me assustava com seu lado sombrio. Saiu me amaldiçoando e disse que quando voltasse conversaríamos. Passei em silêncio. mas se não fosse para casa. voltar para minha terra. entrei. A casa estava escura. Uma bagunça só. mas eu não estava para muito papo.. Mas carro era perigoso. Coisas daquela cabeça maluca. Deve ter bebido a tarde toda. Ou então.Morgana? 9 .. Abri a porta do apartamento. no último caso. Estava tudo revirado. abriu um gringo a facadas e deu a maior merda. Deitei e fiquei esperando. Estava pensando em comprar um carro. Ela sabia que ficaríamos na pior se arranjas- se um desses empregos de salário mínimo.Era por volta das vinte e uma quando pedi que me deixasse na boate. O táxi que havia pedido já estava esperando.. Não estava para sorrisos cínicos. Se pelo menos tivesse juízo naquela cabeça. O último que tive. O vizinho da frente também estava dormindo àquela hora. penso que seria melhor morar so- zinha. Estava torcendo para que ela estivesse na rua. Levantei devagar. Morgana apareceu perto da hora de fechar. Disse que lembrava ter ouvido em algum lugar. Muito tempo se passou. ia ter problemas. Na última vez. no ponto certo para desabar na cama. Quase perdi aquela danada. Fui por indicação de uma amiga e realmente encontrei meu destino. Às vezes. Suspirando. Talvez mais de uma hora. O segurança criou problema por ter ordens de não deixa-la entrar. O motorista tentou puxar assunto. fica pior.. Agora não dava para isso. Ficava linda com aqueles lenços. Quando nos conhecemos. fui até a porta do banheiro. Foi uma noite movimentada. Nunca sabia o que esperar. Tinha de juntar mais dinheiro. se não beber. O porteiro estava dormindo. Ô coisinha braba que fui arrumar. Ninguém aguenta. Aque- les brincos enormes. Bem devagar. Qual loucura desta vez? . Conversei com ela. Só pensava em Morgana e na chateação que iria ter quando chegasse em casa. Para que beber assim? Mas também. fingir que dor- mia. Algumas meninas dormiam por lá. A própria cartomante.

Sem vida. Ainda não tinha me recuperado quando os policiais chegaram. A barriguinha. Fui a única suspeita. Não poderia ser. A silhueta que vi atra- vés das paredes plásticas do box registrava algo terrível. Os vizi- nhos disseram que brigávamos muito. Dei uma espiada. abrindo a porta que me separava do meu amor. Era o terror jamais sentido. 10 . O corpo estava caído. Só depois observei o sangue tingindo o chão do banheiro. Disparei pelo cômodo. Ninguém respondia. Agora estou aqui. A água nos molhava. inchada pelo álcool. Seu Oligário não havia visto ninguém entrar ou sair do prédio. Uma coisa é certa e só eu sei: Eu não estava lá. por isso não estranharam aquela gritaria. Parecia uma marionete esquecida por seu dono. Abracei-a em prantos. no centro da cidade. O número 1701 de um prédio. enquanto pedia para que se levantasse. tapava parte de sua xota cabeluda. ou como souberam que precisávamos de ajuda. Não saberia dizer quan- to tempo passou. tomando banho de Sol no pátio. sem saber o que fazer. Nunca saberei o que se passou em nosso apartamento.

Olha quem vem lá.O Passeio Passei pelo Centro da Cidade e lá estava ela de novo. fumaça negra saindo dos canos de descarga e tomando o ar.. com um monte de crian- ças chorando a sua volta.. É ali que se aglomera tudo que o homem conseguiu construir em toda sua existência. Senhora Perdição passou por ali também.... os Opressores. que não espantava mais ninguém. É um clima con- fortavelmente conflitante. Agora. Aquela multidão de caras sem rostos se acotovelando furiosamente.. Cheiro de futuro. Sinto-me em casa. É o Centro. Pera aí. Vivendo a tranquilidade de sua guerra pacífica. Que bom vê-la por aqui. Maldita Dona Miséria. Acabei de dar um belo passeio por esse jardim do inferno. Vamos agora mesmo voltar algumas quadras. O ser humano deve ficar orgulhoso de ver o resultado do seu crescimento. Madame Luxúria. Boa tarde. Só me sinto à vontade no centro do caos. com sua cuia estendida e suas pernas feridas.. cheiro de óleo queimado. Seu corpo possuía a sensualidade que só o mau tem. 11 . Quero te mostrar algumas flores novas. Dona Miséria está comendo macarrão azedo no lixo. Não sou mais humano. os Viciados. Dona Miséria. Não sei mais o que é isso. Muitas tribos se encontra- vam por aquele pedaço: Os Alcoólatras... Prédios encardidos.. Meu grande amigo Ócio. Sou um dos que se sente à vontade no Centro da Cidade. De sua evolução. sujeira se acumulando pelos can- tos.

Fala baixo que a gente está na rua.. Eu quero ver se juntarem 30 velhos na rua. Assim parece que estamos tendo algum tipo de liberdade. Agora..E daí? Na sua democracia não podemos falar o que pensamos? Que espécie de democracia é essa? . . Ele me entope de remédios... Nossa participação é restrita a escolha de quem vai mandar. Quero poder gritar enquanto botam na minha bunda.Calma? Calma é os colarinhos. . Vovô – Nos tempos da democracia . Hum. . mas direito é algo que você faz se quiser. . mas agora o capital não precisa mais dos militares. então devíamos chamar isso aqui de ditadura com voto. . o senhor não chegaria até a esquina falando essas coisas.Democracia? Por quê? Só por estarmos votando? Depois que eles ganham. Se a única diferença do que vivemos agora para a época da ditadura é o voto.. com faixas. por exemplo. Assim. Se estivéssemos naquele tem- po.Aquele médico é um idiota.. E daí? O direito é meu. Eles deixam velhos gritarem na rua. não é? 12 . . . .A ditadura continua. nem se preocupam com o que nós queremos ou deixamos de querer. eles vendem o lixo dessa indústria e ainda conseguem nos controlar. Dizem que é um direito. De quem vai nos currar durante o mandato. o senhor nem parece que viveu a ditadura. Deve ganhar por fora para empurrar o máximo de remédios que puder para as pessoas. Se tranca no mundinho perfeito dele e não con- segue entender nada do que tento explicar. Enojado de toda essa serenidade.Vovô... Se não quiser exercer meu direito..O que foi? Tá me olhando com essa cara por quê? Você também não consegue entender. . Eles estão pouco se fodendo para nossa opinião. Não tem de haver pressão. Estou farto de ter calma. E se essa manifestação subisse a rua e..Calma. não é? Você também já está idiotizada. vovô. Dizem que é louco e está tudo bem. cartazes e o diabo. eles têm novos métodos. E olha que até isso é obrigatório. Aquele desgraçado deve estar de acordo com a indústria farmacêutica.. A única voz que tem força é a voz de quem tem dinheiro. Mas é muito fácil deixar um velho gritar na rua. Todos gritando sobre a situação precária da terceira idade. Uso ou não se eu quiser. A nossa voz. É mais um a apertar o laço em volta do meu pescoço.Semana que vem iremos conversar com o doutor e o senhor poderá contar isso tudo a ele.

. . .Eu sei! Agora é o tempo da ignorância e da estupidez! . Coisa sem graça! O que está havendo com essa juventude? Será que isso tem a ver com o tipo de alimentação dos seus pais? As crianças estão nascendo com um presunto no lugar do cérebro... 13 . O senhor tem de entender que ninguém está mais nessa. Os tempos são outros.Vovô..Calma.Vovô.Passear? Do que estamos falando? Você me traz para ficar vendo essas lojas. Assim. heim.... falo para mamãe que não te trago mais para passear.. vovô.

Algumas horas depois.. Será que estava vivo? Será que estava morto? Ninguém sabia. Três dias depois. fazer alguma coisa.. Não olhavam muito tempo para não sentirem a obrigação de ajudar. O único que não estava com pressa Algumas pessoas passavam apressadas.. estava sendo removido... O mau cheiro no ar. alguém repa- rou na repetição da cena. dando meia olhada... Mas também não tinham tempo para saber. 14 . O corpo estava estendido no chão.. Lá pela noite. Ligou do orelhão para não ter de esperar ambulância ou algo do gênero. o corpo estava coberto.

Se teve. onde devia ficar. . Parecia outro bicho. Uma cara bem tratada. .. E lumbriga? Nunca deve tê tido também. nem os motoristas que passavam de vagar. . mas de todos que acordavam cedo e não tinham hora para dormir. Do que será que ele ria? Severino deu a volta na placa. imagina a mão. aparentemente amigo. O dia passava enjoado. que fica- va rindo não só dele. Até a camisa era bonita. olhando. Ne- nhuma marquise ou proteção. O pé deve sê a merma merda. chutando. Coçou a cara magra e barbuda. filho duma égua! Para di ri! Não percebeu as pessoas que paravam para apreciar a cena. olhando a pele lisa. Nunca andou discalço em rua di chão. De todos que mais trabalhavam e menos tinham direitos. Depois de tanto tempo desempregado. não era das melhores. . escondia certo ar de superioridade. A esquina. né vagabundo? Nunca levô sova di vara nas perna quando criança! Nunca levô sova di polícia depois di homi. 15 . Sorriso matreiro. socando e espatifando tudo.Para di ri..Você nunca pegô nim cabo di inxada. O filho da puta não tinha marca ou cicatriz. conseguiu um quebra galho para comprar o leite das crianças. O primo do amigo que conhece o candidato X arrumou para ele ficar carregando uma placa com a foto do can- didato pela cidade. Apenas o Sol na cabeça e aquela placa a lhe olhar. . Ele não parava de rodear a placa. . Severino avançou com toda raiva que tinha daquele monstro caçoador. Tirou a faca que levou para descascar laranja durante a descida do morro. Era uma cara diferente da sua. com todos os dentes na boca. . pulan- do vala pra chegar em casa.Calma. Tudo fininho.Tá rindo di quê? É di mim? A cara continuava olhando. Como ele fazia para deixar o rosto tão lisinho? E se a carranca era assim. cabelo delicadamente esculpido.Mais um dia de campanha Severino levantou cedo. Chegou na hora marcada e pegou a placa.Tá rindo di quê? Mi respondi! Sô sujeito homi! Mi respeita! Severino percebeu que aquele olhar. Dava para ver só a gola e o botão de cima.Toma!!! Gritava descendo a faca. nunca contô pra ninguém. né? Tinha alguma coisa naquele sorriso que estava irritando Severino.Vô ensiná a não caçoá dum homi.

O filho da puta me cortou.Polícia. viu apenas o corpo no chão.Mi solta. Não era de álcool. que estava atrás dele.Mata! . 16 ..Ele tá é drogado. Ele me cortou! ... . mas era bêbado de raiva. . Ao menos ensinara uma boa lição ao safado. pulou em suas costas. Ele estava bêbado. ..Bate! .O que tá acontecendo aí? Que merda é essa? O policial chegou empurrando todo mundo. olhando para aquele mar de gente à sua volta.Chama a polícia. a faca na barriga e os dedos mexendo bem devagar. Severino girava.. não. conseguindo con- trolar a fera. Um leve sorriso despontava no rosto de Severino. . Babou Severino passando a faca na mão do pedestre.. ..Ele deve estar bêbado. .Pega! . Os demais aproveitaram e partiram para cima. Gritou um pedestre tentando segurar Severino.Ninguém incosta ni mim!!! Ninguém incosta ni mim!!! Um cara grandão. Quando alcançou Severino. Podia ir em paz.. ..

Mas. Me desculpa. Era o corpo feminino mais belo que já vi e nele se balançava um pau maravilhoso.. pude reconhecer aquele rosto feminino que acabara de ir embora. Senti seu pau saindo de minha boceta. Pude ver seu corpo por inteiro. De qualquer forma.. Cachorra!!! Vadia!!! – Gritava. Parecia uma donzela envergonhada.Por favor. Era uma car- teira feminina.. Sempre gostei das minhas mãos. Me entenda. . Você não lembra? Não sabe quem sou? Levantei a parte superior do meu corpo e tentei segurar o membro que parecia me olhar. . Novamente dormi bêbada. Fui virando até ficar de frente para ela. Na foto. Os seios siliconados ainda es- tavam a mostra quando saiu rosnando. Quem é você? Ela me largou e se levantou de um salto. Ela se afastou. algumas notas e um documento de identidade. um homem de bigodes estava a me olhar. Fui me arrastando até a borda da cama e sentei. Abri os braços deixando a carteira e o documento se desprenderem de minhas mãos. Olhei discretamente a mão que apertava meu peito.. Apalpei uma carteira que estava abandonada no canto da cama. Não fazia a menor idéia de onde era aquele teto.. não parecia mão conhecida. No meio daquela expressão máscula.Calma. pude perceber que estava com as unhas pintadas.Bom dia Acordei com a cama se mexendo e sentindo algo estranho entre minhas pernas. Voltei a fitar o teto. Não dava para tirar grandes conclusões apenas pelas mãos. Pela data de nascimento tinha 43... Senti algo estranho nas minhas costas. Era um pau enorme.Como assim?. Acho que são perfeitas.. . Olhei melhor para a mão e.Quem será aquela criatura? . se cobrindo com uma toalha que estava jogada por ali. Ela acabou de se arrumar. Parecia um grande par de peitos. Carlos Cleber Carmindo era o nome dela. Foi aí que o idiota come- çou a beijar meu pescoço. como eu. Ainda mais no escu- ro..Não acredito nisso. Caí de costas na cama e fiquei olhando para o teto... Dentro havia alguns papéis com números telefônicos anotados. mesmo naquela escuridão.. olhei no fundo de seus olhos e perguntei: . Depois de nos apertar e esfregar durante um tempo. Olhei bem para aquele rosto (assim que desviei o olhar do cacete) e ela me beijou com calor.. Estava com uma puta dor de cabeça e achei melhor fechar os olhos para o infeliz não saber que estava acordada. já saindo pela porta. Mas o que aconteceu ontem? Álcool? Drogas? . . enquanto se arrumava. 17 . Comecei a virar lentamente e me deparei com uma linda mulher..

Quando compromisso foi motivo para não beber? . 18 . O Aumento Nos chuveiros da fábrica. A cabeça girava tentando formular frases e gestos.E aí.Vou ver se ele pode atender . . Tarciso? Vamos tomar uma? . Terceiro andar. seus passos começaram a ficar lentos e vacilantes.Mas hoje é sério. tem um funcionário de nome Tarciso querendo falar com o senhor. Con- trariada. . . De pé. . Tarciso e Genival se banhavam no final do expediente. enquanto se enxugava. A úlcera começava a doer e a cabeça girava mais que pião. Agora não dá. . Ela entrou. .Depois te conto. falava ao telefone. Voltou-se para ele e perguntou se desejava alguma coisa. gostaria de falar com o senhor Gervázio. Tenho um compromisso importante.Por favor. Lembrou do funcionário que aguardava do lado de fora. Tarciso se arrumou apressado e seguiu rumo às escadas. Já avistava a mesa da secretária.Também não .Motivo de doença? . Lembrou que deveria ter pego o elevador. Começou a fazer promessas a todos os santos e orixás que lhe vinham a cabeça. Exatos cinquenta minutos passaram. Passou a mão pela testa suada. A secretária juntou alguns papéis que estavam sobre sua mesa.Qual seu nome? . . fechou a página erótica que minuciosamente analisava na tela do computador. a secretária disse que teria de desligar.E então? Posso entrar? . . Ao subir os degraus. . .Ele pediu que o senhor aguarde um pouquinho. que. com a habilidade que só a prática dá.Não. Passou a semana remoendo se deveria ou não tomar aquela atitu- de. Pode sentar. Senhor Gervásio.Tarciso.discou o ramal. Daquele dia não passaria.Indicou. . Tarciso já achava melhor deixar aquilo tudo de lado.sorriu Tarciso. Bateu na porta da sala ao lado. com ar entediado. Sou funcionário. Passado algum tempo. anunciou: -Senhor Gervázio. com a caneta. Tarciso aguardou por quinze minutos até ser percebido.Hoje não.Então é papo de mulher. as cadeiras de espera. Enfim decidiu.

Pode entrar..Não. . . Uma coisa que me incomoda é a visão errada que as pessoas têm de mim.Pode entrar. Pegou o telefone e pediu que a secretária levasse a pasta com os documentos de Tarciso. Ele passou os olhos pelos documentos.Com licença. Ela se retirou. ..Que absurdo. A conversa continuou descontraída.Cigarros? .O senhor deseja uma bebida? .Aumento? .. claro.Que funcionário? Vem cá. até dona Ma- risa cortar a sala com a esperada pasta na mão. O chefe agradeceu com cerimô- nia. Nem atrasado cheguei.. Nunca faltei um dia sequer. são quinze anos... obrigado. . Folgo em saber que temos alguém com tanta perspicácia como o senhor trabalhando aqui. Tarciso quase saltou da cadeira. 19 . ... Sente-se. .Parei de fumar.Mais quarenta minutos se passaram. poderá ver que não há nada que me desabo- ne.Claro. . senhor Narciso. Parecia ler sua alma..Sim.Tarciso. .Hum. Em que posso ajudá-lo? . . Afinal. Senhor Gervázio o olhou de forma penetrante. Fechou a pasta e a jogou sobre a mesa.... .Tarciso. .. quer dizer que.. Agora não tinha mais jeito. – Sabe de uma coisa. .. senhor Narciso.. .Entende mesmo? Então. . dona Marisa.Hum. .Gostaria de pedir um aumento. Às vezes percebo que alguns funcionários me veem como uma pessoa fria e sem coração. . Senta aqui. . O senhor sabe como é. Então gostaria de pedir.Sábia decisão. circulando por assuntos leves. A família cresceu. Tarciso já se levantava quando ela voltou.Meu nome é Tarciso e já trabalho quinze anos na sua fábrica... Tarciso – estudou o rosto do funcionário por algum tempo..Se o senhor verificar minha ficha. Mesmo quando doente. Entendo.

. Ainda tenho muito que fazer..Tudo bem. . não pode ser. Acho inclusive bem compreensivo.. . E. . Sejamos razoáveis. .. com certeza chegaremos a um acordo. . ..Então faça o favor de se retirar.Não para o senhor. Esqueçamos essa história de aumento. 20 . Tenho certeza..Conversando.. .Eu realmente estava querendo falar-lhe – continuou o chefe..Mas. se conversarmos com calma.Sabia que o senhor não iria aprovar. O senhor é realmente um bom ho- mem. . Emprego está difícil.Infelizmente.. Seu salário é inviável. . ..Não é tão fácil. Deveria ter tomado a mais tempo aquela decisão. – Nossa fábrica está pas- sando por um momento difícil e estamos pensando em fazer alguns cortes...Lamentamos muito.Não nos sentiríamos à vontade pagando tão mal a alguém tão capacitado. podemos...Mas não é só o caso do aumento. . Eu aceito. pondo-se de frente para o computador...Por favor.. .Tem certeza? .Mas.. Com certeza isso não será problema para alguém como o senhor. senhor. E teremos de começar por funcionários como o senhor. tomando nesse ponto um ar grave que deixou o funcionário confuso. Ao ver Tarciso fechar a porta.Cortes? .A fábrica só pode pagar a metade que o senhor recebe. Tudo bem....A metade? . Tem um ótimo coração.Muito obrigado e desculpe o incômodo.. Qualquer empresa ficaria satisfeita em recebê-lo em seu quadro de funcionários. . onde iria voltar a analisar alguns corpos nus enquanto Tarciso descia as escadas orgulhoso. . Tarciso estava completamente aliviado.. Queria chegar em casa e contar a mulher como heroicamente defendeu seu emprego. .Claro.Realmente sua visita foi providencial. o garboso senhor Gervázio girou a cadeira. que estão muito além de nossas posses no momento. . . Não tomarei mais seu tempo.

Des- ta vez. já deviam estar ali por muito tempo e não acreditavam que o transporte viria antes do amanhecer. Percebi uma música muito ani- mada emanando de seu interior. A chuva começou a cair fina. Não me lembrava de ter saído do meio da rua (meu local preferido para essas caminhadas). Comecei a ter impressão que era um cara com uma mulher dentro do carro. Só aquele silêncio aconchegante. Logo após. Não iria deixar que um carro sinistro com seu motorista problemático estragasse minha caminhada perfeita. era mesmo uma moto. Olhei para o alto e avistei A Santa. Achei o carro sinistro. Não havia ruas para ele entrar. mas decidi que não era im- portante. raios e trovões pelo céu e meus passos continuavam desapressados e bêbados. o vento soprou mais forte. Ninguém que estivesse planejando fazer maldade contra um notívago estaria ouvindo aquele tipo de música. Ouvi um barulho de ônibus vindo atrás de mim. Olhei para dentro da rua (de onde acreditava que ela tinha saído) e vi um casal ao longe. 21 . Ao terminar de passar. que parecia me olhar fixamente. avistei apenas o motorista. Que bom. Cruzei com um grupo no ponto de ônibus. Quando passei por ele. Passou um ônibus com uma galera zoando na janela. Consegui mais um bom pedaço sem avistar ninguém. Uma mulher surgiu correndo e quase me atropelou. Olhei para trás. o carro acelerou ao máximo e foi na direção de onde eu vinha. Faltava menos ain- da. já vislumbrava as torres da igreja. pude constatar que ela ainda estava acordada. Acho que me chamaram de bolo de merda ou algo do gênero. Já o tinha percorri- do diversas vezes. do universo noturno. cortado pelo zumbido do vento. O barulho sumiu e o ônibus não passou. Estava quase chegando. Depois de mais alguns passos. Pelas caras desanimadas. Mas a caminhada estava gostosa. avistei uma rapaziada coletando lixo e atravessei a rua em frente a igreja. A chuva começou a apertar. Mais passos pela solidão noturna daquela madrugada fria. As pernas bêbadas me faziam rir. Percebi que estava caminhando pela calçada. passou um triciclo majestoso. Ela ia a passos rápidos. Agora. Não era nada de mais. Quando avistei minha janela e reparei na luz acesa. seguia pela rua deserta. Não tinha pressa de chegar ao meu destino. Passou em disparada. As mãos nos bolsos tentavam fugir do frio cortante. Segui pela escura lateral. Fiquei cismado por um tempo.Notívago Desbravando a madrugada. Seu ronco foi sumindo nas minhas costas até voltar a ficar sozinho na agradável companhia do mundo. Seria um ônibus fantasma? Ouvi um barulho de moto vindo da mesma direção. Conhecia muito bem aquele trajeto. Um carro encostou-se ao meio fio bem na minha frente. Deve ter saído da esquina.

..Se tentá fugi....O pessoal tava te procurando aí.. Se ficar... .... Tinha de levantar o dinheiro.Que isso é o caralho! Tirou as fraudas ontem e já qué dá volta na boca? Por isso que o pessoal diz que a vida do crime não tem espaço pra aposentadoria...... ... ... Fica frio..Que isso. Jorginho? . ..... Porque tem uns comédia igual a você... A gente é irmão.... ...... .. . Acabei devendo dinheiro.....Olha lá..... .. Ô filho da puta. Orta. muleque? .. 22 .. Passou na casa de Ortaleistro.Você acha que mandei a rapaziada te trazer até aqui pra conversá? Seu tempo de conversa já passou. Se assaltá aqui na favela... Anda.. Jorginho..Pera aí.Não tem problema.... Tô precisando de ajuda.. tá ligado que não vai passá bem na minha mão........ Tô precisando levantar uma grana até a noite.. . ..Mas.....Agora vai! Vai.Fala. né? ....Fiz umas burrices aí. Só preciso do 38 emprestado.Mas. . .. Vamos conversar.. Parou na frente do irmão e olhou bem nos olhos dele.........Tá fazendo merda...........Mas.. Olha só.. O mesmo sangue....... .. muleque! Rala! Juca desceu as vielas apressado.. porra. Não vai me trazer problema... Lembra quando o pai morreu? Ele tinha pedido para você tomar conta de mim..Fala Jorginho é o caralho.....Que se foda! Aquele filho da puta.E nada de vendê pó malhado na minha área.. . Se correr.......Fala.. .... – Jorginho andou de um lado para outro. é melhó rezá pra nunca mais te encontrá..... ....... .... – Você tem até a noite pra levantar esse dinheiro. .... Jorginho.. .E aí.....Mas.Já encontrei... ....Não me envolve nos problemas com seu irmão. antes que me arrependa e te passe agora. .....

Pera aí.É de menor mermo? . mas este já tinha tran- cado a porta e sumido. . ffffffffffffffffffuuuuuuuuuuuuuuuuuunnnnnnnnnnnnnnnnggga 23 . Quando tentou se mexer. Um pedaço pontiagudo de metal entrou em sua barriga. . Conheço esse moleque.Sou de menor. Os presos se levantaram e cercaram o menino. foi rapidamente imobilizado. Você não pode me colocar junto. Uma merda isso.. Jorginho esperava por seu irmão. . O sangue escorreu.. . .Aaaaaaaaaaaaaa éééeéé. Quer dizer que você é o irmão daquele vacilão? Juca engoliu em seco. Isso a gente vê depois..Entra! . Juca entrou com um empurrão. procurando o policial que efetuou a prisão. . Ele se virou.Eu sei.. Viu algo brilhando passar pelas mãos dos detentos...E aí? .Meio cumprido. . Juca caiu sem vida. Sen- tiu um pano envolver seu pescoço.Deixa aquele porra aparecer aqui só para ver um negócio.Sô.Cala boca. É o irmão do Jorginho. . No morro..Tentei roubar a lotérica e me fudi.

Merda! O copo quebrou e minha mão estava cortada. . Comecei a lembrar da transa com meu ex. Seu corpo estava intacto. Achei que estivesse quebrado. Levantei um pouco tonta e fui até a cozinha beber um copo d’água. do tempo em que ainda 24 . Caminhei vagorosamente até aquele. Parece que ele tinha mesmo feito a cirurgia e implantado uma prótese para deixar o pinto duro para sempre. O pênis estava ereto. que parecia ser meu ex. O bichinho aguentou sem dobrar ou minguar. Pensei em cair de boca e chupar aquela caceta fúnebre. tentando encontrar um meio de virá-lo. No trajeto do armário até a geladeira. Abri a porta do espelho e vi que o nariz também estava intacto.Puta que o pariu! Levantei desesperada. Confirmei minhas suspeitas. Escoando No meio da madrugada. O coração estava completamente parado. até senti-la gozar dentro de mim. Levantei em um salto e acendi a luz. O dia já tinha começado pela rua. Era mesmo o Fred. Apenas a vida tinha se ido. avistei um corpo caído de bruços. Mas o que ele estava fazendo ali. Como a coisa ainda podia piorar. Depois de alguma enrolação. não estava cortada. puxei a calcinha para o lado e sentei. tropecei em algo que não devia estar ali. A ca- beça começou a girar e tudo apagou. Taí um investimento que valeu a pena. mas dei apenas algumas lambidas suaves pela cabeça do dito cujo. Olhei para minha mão e depois para o chão. . Pensei em tomar alguns tranquilizantes e ligar para a polícia. Coloquei-o virado pra o alto e ele ficou na posição em que eu havia deixado. mas meus olhos não desviavam daquele enorme pênis duro. o sono parecia não querer voltar. Corri a mão por sua barriga e segurei o membro pela base. Acordei na cama. Ajeitei meu corpo sobre o dele. Cavalguei por horas naquela rola dura. Nem uma batidinha. Os sons da cidade já entravam pelas janelas do apartamento. aquela hora e completamente nu? Pensei que ele tinha se mudado para outro estado com a nova companheira. Levantei o rosto do chão e apalpei o nariz. Aproximei meu ouvido de seu peito. consegui pô-lo de barriga para cima. no chão da minha cozinha. O telefone tocou. Por que aquele filho da puta não botou essa porra enquanto ainda éramos casados? Evitaria muitas brochadas. O que ia fazer agora? Olhei para minha mão e. Abaixei-me com as mãos trê- mulas. para minha surpresa. Era um amigo nosso.

. Nesse momento. O desespero voltou.. procurando alguma coisa para comer enquanto ainda remoía aquela estória toda.estávamos casados. Revirei todo o apartamento. Corri para a cozinha e não havia nada pelo chão. . Nenhum corpo. 25 . tomei o maior susto. Abri a geladeira. sem saber o que tinha acontecido. havia um grande pênis am- putado. Dentro do pote de conservas. Falei que estava um pouco ocupada e pedi que me avisasse caso soubesse de alguma novidade. E ele ainda estava duro. Ele disse que Fred estava desaparecido há quase um mês e que sua atual esposa estava desesperada. Tomei banho e me arrumei para o trabalho.Coisa estranha.

Fechou novamente os olhos...... Deu dois passos a frente. Vomitou de novo.. ela cedeu.. atingindo o topo do crânio... Se tivesse dado mais alguns passos. Uma ratazana correu...... respirou fundo e foi. Fez força para se levantar... Jogou-se no sofá.. soltando um suspiro de dor.... estava encostado. Um gru- po de mulheres conversava na esquina.. Não eram mulheres. respirou fundo mais uma vez e bocejou: ...... Tentou novamente abrir os olhos.. Reuniu toda a energia que havia em seu corpo para segurar no poste e ficar de pé.. O Sol iluminava seu mal estar.. Faltava pouco.. Quando reparou. Mas em qual deles estaria? Depois de revistar todos os lugares possíveis... Tentava entender o que acontecia....Merda! Ao encostar na porta... VIDINHA Vinha se arrastando pelos muros.. A da esquerda era onde o sofá rasgado... Caiu bem na esquina.. Olhou para o chão e viu o vômito que ser- vira de travesseiro por toda a noite...... Tomou conhecimento que existia.. Cambaleou pelo pequeno quintal.... .. O portão.. Parecia im- possível desgrudar o corpo do chão. que encontrara na rua.. Os olhos en- treabriram.... Olhou para o velho fogão a frente.... Jogou a cabeça para trás....... Chegou mais perto do grupo. teria conseguido dormir em casa e evitar mais esse vexame.. Olhou para um lado e depois para outro. Com o corpo pendendo de um lado para outro. Tinha de pegar a chave no bolso.. Quase caiu de cara no cômodo que funcionava como sala....... se localizar.Será que eram mulheres? – Resmungou. Quase caiu.. Uma dor entrou pelas pálpebras.. A dor de estômago competia com a da cabeça. Quase caiu de costas... Tentou ajeitar seu esqueleto..... Tentou se afastar da parede.. .. já haviam passado alguns quarteirões.... Um cachorro invisível latia em algum lugar. Pensou um pouco.... quarto e cozinha. Sentiu algo esquisito colado ao rosto. indicava ser a sala. como sempre... A parede da direita era o quarto..... Só restava descobrir onde estava... conseguiu chegar em casa... Sentiu chegar à nuca... As mãos tremiam com o esforço... Depois do último espasmo estomacal. até parar diante da porta. Esqueceu que as madeiras do 26 ... Olhou para sua casa... Banheiro não havia.. Conseguiu ficar de joelhos. Nela ficava encostada a cama. derrubando a lata que estava com um resto de sopa. Tudo começou a girar.......... tentou acelerar o difícil ato de levantar.. Pedras e buracos golpeavam seus pés... Um cheiro azedo invadiu as fossas nasais..

móvel velho estavam expostas. Ficou por ali algum tempo, tentando organizar as
ideias. Quando parecia melhorar, o teto rodava e o mal estar voltava, incapaci-
tando nosso herói de qualquer ação. Uma mosca o aborreceu por algum tempo.
Levantou irritado. Precisava de um banho. Olhou para o quintal procurando
solução. Só encontrou lixo e bingas de cigarro rodeando a casa. Pensou em juntar
algumas e enrolar um cigarro. A ideia fez subir um calafrio de ojeriza. A baba
grossa encheu a boca de nojo. Deixou o corpo cair sobre a cama. A ratazana
correu para o quintal. Sentia-se fraco e doente. Os olhos foram fechando. De
repente, dormiu.

27

Homem Moderno
O balconista robô se aproximou com um grande sorriso. Era um modelo novo.
Mesmo sendo simpático, preferia os andróides femininos.
- Boa noite, senhor. Posso ajudar?
Não sabia do que precisava. Como todo cidadão comum, trabalhei a maior parte
do dia e saí para consumir.
- O que o senhor tem de novidade?
O balconista foi até a prateleira e trouxe uma coleção de dvds.
- Temos esta ótima coleção. Ela ensina tudo o que as pessoas precisam saber.
Fiquei em dúvida.
- O que as pessoas precisam saber para...
Sem diminuir um centímetro do sorriso, respondeu de imediato:
- Aqui tem todas as respostas. Não sobrará questão sem resposta.
Pensei em comprar a coleção e pronto. Mas chegaria cedo em casa e ainda não
estava no horário do programa de anúncios. Sempre gostei desse tipo de progra-
ma. Assim, não tinha nada que interrompesse os comerciais.
- Mas seria possível colocar todas as questões do mundo em uma coleção tão
pequena?
O vendedor se animava mais a cada pergunta.
- Claro! Não só as questões, como suas respostas. Pode levar que o senhor não vai
se arrepender. Ainda vou fazer uma promoção e lhe propor um saco de comida
desidratada pela metade do preço. Assim, enquanto o senhor assiste ao filme,
degusta essa delícia da cozinha moderna.
Lembrei que não gostava de comida desidratada.
- Desculpe, mas atualmente só me alimento de pílulas.
Ele pegou um pacotinho ao lado e chegou perto, debruçando sobre o balcão.
- Mas esse pacotinho aqui contém componentes que fazem suas fezes saírem
perfumadas.
Isso me interessou. As fezes ficam sem cheiro quando nos alimentamos de pílu-
las.
- Que tipo de perfume.
Ele não perdeu tempo:
- Como o senhor tem se alimentado de pílulas, deve estar sentindo falta do odor
natural.
Tentei lembrar, mas...
- Não lembro como é o odor de fezes.

28

Fiquei discretamente observando o relógio de parede enquanto conversávamos.
Quando faltava meia hora para começar o programa, paguei tudo o que comprei
e segui meu caminho. Tinha tudo o que nunca precisei. Água (sabor limão), suco
de laranja (sabor framboesa), hambúrguer congelado (sabor empadão de fran-
go), refrigerante (alcoolizado), cerveja (sem álcool), comida desidratada (diversos
perfumes fecais) e minha coleção com todas as questões e respostas do mundo.
Mal cheguei e o programa começou. Deixei todas as coisas espalhadas pelos can-
tos. Assim que acabei de ver os novos lançamentos, fui para a banheira e liguei
Sol (minha esposa virtual). Pedi uma dança e fiquei me masturbando. “Puta que
o pariu”. Esqueci o refrigerante alcoolizado em algum lugar da sala.
Uma semana depois, comprei a mesma coleção de dvds. Não lembrava que ti-
nha comprado antes. De qualquer forma, a segunda coleção ficou esquecida em
algum canto da casa, do mesmo modo que a primeira. Nunca soube o que tinha
nos dvds.

29

embarcou noutro ônibus (igualmente lotado) e chegou ao trabalho. com um pouco mais de dinheiro. Chega a essa hora e ainda quer ficar de conversa fiada. 30 . João João acordou 4hs da manhã. Quantos como ele trabalhavam duro.. Ficar velho não parecia ser mais tão interessante. esgoto. Pouco depois.” João foi deitar pensando naquilo.. . Quando pensou que ia começar a dormir. saúde. Se arrumou as presas e saiu rumo ao trabalho. Com a escola- ridade que tinha.Vamos lá. Saiu às pressas para pegar no biscate. e não conseguiam. Ligou a televisão em um volume bem baixinho para não acordar os que dormiam em sua pequena casa.. rapaz. Ninguém queria saber de seu arrepen- dimento.. pegando o prato que a mulher tinha preparado e deixado sobre o fogão. pensou que. ter o básico (água. desceu a favela.? A ideia povoou sua mente por alguns dias e por fim se alistou no exército do tráfico. era melhor ver a palavra trabalho de outra forma..)? Seu pai morreu trabalhando e nunca teve condições de conseguir nada com que sonhara. Um homem de terno falava: “Vivemos em um sistema onde todos têm oportunidades.. Mas. embarcou no transporte lotado. aprovei- tando todas as raras oportunidades que apareciam. levantou com o gritar do despertador. educação. ao menos. não estava se dedicando a função certa. Seria complicado achar novos caminhos.. botou o uniforme. agora.. que tinha arrumado para comprar o presente que o filho tanto queria. desceu no ponto do próximo. aumentou seu ódio. Se desse sorte e conseguisse chegar a idade do seu pai. esperou o ônibus (enquanto tremia de frio). Dobrou o horário para tentar tirar um extra e trabalhou durante quase todo o dia. qualquer um pode ficar rico. mal dando tempo de almoçar.” Na cadeia. de repente. Chegou tarde em casa. Trabalhando bastante e se dedicando a sua função. uma invasão policial no morro possibilitou uma foto de João. A manchete dizia: “Polícia pren- de traficantes da favela. era tarde. entre os novos amigos. na capa do jornal. Sempre fora trabalhador e se arrependeu da esco- lha que havia feito. Ao passar pelo pessoal do tráfico.

Algo que não seja bobagem então. Não devia ser nada importante. Completamente catatônico. ouvi um barulho na sala.. Já havia passado horas naquela batalha. Peguei alguma coisa que jazia ao meu lado e taquei na tela. Não usei força suficiente. mas desisti.Crème de la crème Estava tudo em um ritmo lento. Tentei mexer o braço. Fiquei estático por algum tempo.. Tentava tirar o cigarro do maço. Fiquei apenas observando a fumaça azul subindo no ar. Estava passando alguma bobagem sem importância (Bobagens importantes não fazem parte da programação. Pensei em pegar. Pensei que veria tudo explodindo e sairia pela rua podendo me orgulhar de não ter mais aquele aparelho boçal em casa. Não encontrei. quase pastoso. Olhei para o cinzei- ro e reparei que tinha um cigarro queimando. mas acabei por desistir. Melhor! Assim ficava mais tempo sem fumar. Aí é pedir demais para a mídia convencional). mas o esforço era grande de mais para mim. Pensei em ver quem era. 31 . Procurei o controle remoto para mudar de canal. Percebi a televisão ligada. Não sei quanto.

32 . com ar desanimado: .Você ainda é um gatinho. Mas você ainda faz o cocô mais fedido que já vi. a esposa entra no banheiro para escovar os dentes enquanto o marido toma banho e diz: . O GATINHO Depois de trinta anos de convivência.Não. O marido abre a cortina do box e põe a cabeça para fora: .Verdade? Você ainda me acha bonito? A mulher.

.Vem sentar.Que gracinha.Desculpe.. Senta um pouco. Agora vamos colocar a roupinha nova. Sai daqui! . onde está o beijo da tia? .Tem que secar o cabelo direito. assim.tá me machucando.grita o menino ao ser agarrado e embrulhado na toalha...Dando língua para a tia? Que coisa feia! . menino.Fica quieto. Só me faz passar vergonha.Assim ele vai ficar triste. . . . menino .Gostou da festa. Daquela mesa você consegue vigiar ele..Me solta.Olha a falta de educação. . Passado algum tempo. Paulinho mostra a língua.Para de correr. Milne dirigia o carro com atenção.Leva o presente para o amiguinho. 33 .Deixa de ser bobo.. resolveu quebrar o silêncio.. Não gostei dessa roupa. Levanta.Problema dele. Tira isso. .Não quero. Paulinho. Que bom que vocês vieram! Paulinho. Nem parece meu filho. dorme como um anjinho. . Chegando na festa.Não quero. Enfia o braço.Não quero. . diabo.Volta aqui. . Vera. Milne.Milne vira levemente a cabeça para o lado e se depara com o menino dormindo . . Olha a atracação.Desgraça de menino.Oi. . .Não vou entregar nada. . Não sei mais o que fazer com esse menino.Não.Me larga. .. . .Milne corre atrás do filho com a toalha na mão . garoto. Vai.Como não? Conjunto tão bonitinho! . meu filho? Paulinho? Você poderia pelo menos fazer o favor de me responder? . Milne deu um leve empurrão nas costas do filho.Mas ele não é seu amiguinho? . No caminho de volta. Está ficando todo suado. . O conjuntinho novo está amassando. Deixa eu te enxugar.Ai.A festa . Que inferno de criança. .a casa está ficando toda molhada. . Não quero sentar.Fala com a tia Vera.. . . Isso.

Levava sempre um político. Com o tempo. Não queria voltar para rua e dormir em cima das caixas de papelão. Conseguiu deixar o chão duro que lhe servia como cama e alugou um quarto em uma cabeça de porco. Tudo. Outras Dimensões Jorginho não conheceu o pai e a mãe sumiu no mundo quando ainda era peque- no. para falar com a rapaziada. lápis. depois para água e refrigerante. O jeito foi alugar um barraco na favela das proximidades. Iriam trabalhar no sistema de paraquedas. pen drive. Dessa vez. Conheceu Ari. Descobrindo que pedir não rendia o suficiente e que não levava jeito para roubos e furtos.. Nessa época. mas conseguia muito mal o de pagar o aluguel do quarto. Criado pela avó. a Prefeitura botou todos os moradores da ca- beça de porco na rua.. é só meter nas costas e dar o pinote. Ari reapareceu e chamou o amigo para trabalhar com ele vendendo cd e dvd pirata. não teria erro. Conhecendo um e outro. foi sobrevivendo. Ele queria andar com roupa da moda e ter carro. . E assim. Daí. O cara sempre tinha uma grande idéia.. Jorginho começou a estudar a noite e continuava a procurar emprego enquanto pagava o aluguel do quarto e corria dos fiscais com seu ganha pão nas costas. Ia começar a trabalhar na boca de fumo do morro onde morava. Alguns meses depois. Jorginho e Ari tentaram argumentar que dependiam daquele tipo de trabalho para sobrevi- ver. mas era difícil para quem não sabia ler e escrever.. caneta. Passou da bala para chocolate. Estava chateado. Jorginho achava Ari um gênio. Certo dia chegou a fiscalização e tomou tudo. que dizia querer mudar o mundo. partiu em nova empreitada. Queria ser playboy. do chocolate para doces em geral. começou a vender bala no sinal. O Presidente da associação de moradores local era um gente boa. tomou muita surra da velha senhora até resolver fugir de casa. chumbinho. morreu na troca de tiros com a polícia. é só puxar a cordinha que a lona fecha. Jorginho tentou arrumar emprego. mas conseguiram apenas insultos e um dia na delegacia. Com o tempo. Tomar conta de carro na porta da faculdade era menos can- sativo e estressante. Ficou dois anos vendendo os cds e dvds piratas. Jorginho 34 . Ari deixou o trampo com Jorginho por achar que o lucro não era o esperado.Quando os vermes chegarem. com quem montou uma barraquinha que vendia de tudo no centro da cidade. Começou a vender essência. virou cabo eleitoral do tal político e se rotulou: comunista. Isqueiro.

que parecia não lembrar mais do ocorrido. organizaram um grande protesto para chamar atenção da sociedade. Entre aquele jeito difícil de falar. 35 . O político venceu as eleições e nada melhorou no mundo. Ficou em coma por alguns dias até a morte chegar. Ao questionar o recém eleito. A vida parecia estar melhorando. Foi para um alojamento provisório. conseguiu entender alguma coisa.começou a ler sobre essa idéia que trazia uma nova proposta de sociedade. No meio do tumulto. Jorginho foi espancado e deu entrada no hospital. quando as chuvas derrubaram o barraco onde morava e vários outros. Quando perceberam que estavam abandonados a pró- pria sorte. onde passou meses com os demais sobreviventes da tragédia. Jorginho conseguiu um emprego de maqueiro no hospital público das redondezas. muito menos na vida dos moradores da favela. A polícia foi acionada e a repressão veio com tudo para cima dos manifestantes.

revezan- do entre a bebida e os comprimidos. Voltei rapidamente para a posição meio que de lado. mas ele sorriu dizendo que lembrei de algo importante. Achei que era hora de dizer alguma coisa e perguntei se não tinha problema tomar comprimi- dos como se fossem jujubas. – Comemorou virando uma talagada goela abai- xo. . A essa altura. Permaneci de lado. Nesse momento.Roubei hoje no mercadinho. Não se pode dar mole com isso. parece ter entendido. desgrudando os olhos das páginas de seu álbum. Inclinei-me para frente. preocupado com o sofá. Eu tomava uma cerveja. . É coisa séria. outras dele e algumas apareciam por ali como por encanto) estacou a nossa frente com olhos cansados. Tudo continuava como antes. Não parava de pensar no 36 . . e fumava um cigarro. O movimento me fez perceber que a cueca estava mais cheia do que imaginava e provavelmente já tinha deixado passar seu recheio para a calça. levando alguns a boca sem desviar os olhos da televisão. uma das crianças (algumas eram filhas e filhos dela. a mãe tinha voltado a analisar as páginas do álbum. enquanto sua companheira folheava uma espécie de álbum com diversos medicamentos de tarjas coloridas.Isso aqui não é brincadeira. apoiando o copo sobre a mesa. mas. Ele cutucou a companheira que.Tô com fome. A menina. Tomo porque minha médica receitou. Ao vê-lo se dirigindo para a cozinha. A cagada Ele enchia as mãos na vasilha repleta de comprimidos. Olhei em volta.. enquanto pensava em parar de beber. pensei que ia pegar o álcool de acender a churrasqueira que sempre estava por ali para dar umas goladas. mas parecia que ninguém tinha percebido. já habituada com esse dialeto. . Ela olhando as páginas e ele fixado na televisão.Mas ela sabe que você passa o dia inteiro tomando isso e que mistura com álcool? Pensei estar sendo impertinente. mas ele voltou com uma garrafa de Whisky. Foi até o quarto e sentou na cama onde já haviam crianças dormindo.. Ele desviou os olhos da tv lentamente e me encarou com um olhar vazio. para minha surpre- sa. Demorava-se um pouco mais nos de tarja preta. disse alguma coisa que não consegui entender. enquanto pensava em parar de fumar. Inclinei-me um pouco para o lado para soltar um peido. senti um quilo de merda enchendo a cueca.

Não seria boa ideia contar que estava na casa de meus amigos comedores de comprimidos.Opa. Dei um pulo em direção ao banheiro. Pulei pela janelinha que dava para o quintal e corri para a rua na madrugada fria.. Pelo visto. Daqui a pouco Carinhoso vai vir te buscar.Tentei. Sou eu..O hospital disse que a garotinha que tinha sobrevivido acabou de morrer e até agora você é o único suspeito detido. tem de contar com a lembrança dos outros. Advo- gado é para quem tem dinheiro. Já era para eu ter saído a mais de uma semana e ainda não me soltaram. Pensei muito rapidamente no que dizer.E você não tentou falar com ninguém? . Vozes estranhas berravam. .sofá. Pensei em abrir a porta. crianças choravam e tudo parecia estar quebrando pela casa. Algum vizinho me viu pulando sem roupa para a rua e resolveram que era melhor me guardar aqui até tudo ficar esclarecido.. A gente.. Como estamos completamente a mercê disso que eles chamam de justiça. Percorri alguns quarteirões a toda velocidade até dar de cara com o carro da polícia dobrando a esquina.Mas. Fui assaltado por algumas cólicas. . quando os tiros me fizeram mudar de ideia. . a cagada estava apenas começando. Lembrei que estava completamente nu da cintura para baixo.Eu já passei por aqui algumas vezes e sei bem como é isso que vocês estão falando. Acabei de esvaziar o intestino e fui lavar a roupa na pia. passou tudo muito rápido e fui jogado aqui. não me resta outra opção até julgarem que eu possa sair. O delegado mandou avisar que o melhor a fazer é entregar seus camaradas. .Para aí.. Foi aí que começou uma barulheira sem fim.Quem é o cara da cagada? .Não precisa falar nada agora. .Advogado? Dá para ver que você não conhece como funciona isso aqui.Isso.Meu julgamento já foi adiado duas vezes e ninguém vem me visitar. . . . Não deu tempo de pensar em mais nada.E seu advogado? .. se eles lembrarem de você. . 37 . que conta com defensor público. . Tava tudo uma merda só. mas o carcereiro me quebrou duas costelas e disse que se não me aquie- tasse iria me deixar aqui mais um ano. O cheiro estava tomando conta do ambiente e eles pareciam não se dar conta. malandro! Daí por diante.

“É. Comentou com seus botões. Só me faltava essa”.... DESIGUALDADE José tomou um café requentado às pressas e se assustou com a chuva medonha que assombrava aquela manhã. José recebeu sua marmita fria. Como era bom ter tempo para os filhos. mas o patrão deixou bem claro: “Só sai quando acabar. Só passa desgraça. 38 . Hoje não é um bom dia para trabalho”. As lágrimas escorriam enquanto os bombeiros eram aguardados. Quando o café acabasse de descer. “Reunião com funcionário? Diga que surgiu um imprevisto. Não vão querer que saia nessa chuva. iria almoçar.” Clodovico acordou tranquilo.. Muito triste.” A secretária lembrou da reunião com um funcionário. “Chegarei mais tarde hoje. fez o máximo para adiantar o serviço. Afinal. A vida não é fácil”. “É. “Ai. Clodovico começa o dia.. Vamos ver aquele programa com o apresentador risonho”.... Os táxis devem estar escassos hoje”. Olhou pela janela e viu a forte chuva desabando. Chegou atrasado e levou uma bronca pelo seu péssimo estado. Parece um. ainda tinha um caminho longo e molhado a lhe aguardar. A roupa já secava em seu corpo magro e cansado.. José viu chegar a hora de sair.. Mandaria a empregada fazer um jantar especial para a mulher que chegaria de viagem. Enfim. meu Deus.. Será que fui amaldiçoado?” E olha que ainda estava na metade da jornada de trabalho.. “Coitada. Vou mandar o motorista buscá-la no aeroporto. Toma um café reforçado.. abriu a tampa e contemplou aquela coisa mistura- da.. Resolve deitar mais um pouco. Brincaram. Clodovico Viu o noticiário na TV e decretou: “Tira disso. Chegando nessa chuva.... Saiu correndo assim que pode. apreciando a chuva batendo na janela.” Preocupado com as goteiras no barraco. “Ai. Como a mulher está se virando com as crianças no meio daquelas goteiras?” Clodovico aproveitou a tarde com os filhos que estavam de férias.. jogaram. “Como vai aten- der nossos clientes assim? Todo ensopado. Pegou então o celular e ligou para o trabalho. enquanto resolve o que fazer.. Enfrentou ruas alagadas e pegou engarrafamento. José estava parado em frente ao desmoronamento que levara toda a sua família. meu deus.

Mas ele não deu oportunidade para tal explanação. me levantei. . Quando percebeu que ia emitir alguma opinião. . Fingi estar apreciando qualquer coisa e me fiz de surpreso quando estava bem próximo. deixando para o acompanhan- te o trabalho de dispensar o pedinte.Fui pedir dinheiro ou comida nos quiosques. Assim que me olhou. . .Na areia Estava sentado na areia da praia. Fala aê. 39 . Tentei explicar que não deveria se aborrecer com isso. hoje com aquele cara. olhando o horizonte. pediu um cigarro.Uma lágrima escorreu. . voltou em mi- nha direção. Precisava conse- guir um cigarro. ficou em dúvida. Não estava interessado no meu ponto de vista. sensível e inteli- gente. quando senti aquela mão levemente apoiada em meu ombro.. pensando em quem realmente seria aquele cara. . Agora. Olhei para trás e vi o rosto jovem debaixo da barba e do cabelo longo e despenteado.Aquela ali.A mulher. um dia disse que me amava e que nunca me esqueceria.Talvez ela não tenha reconhecido. bati a areia da bermuda e comecei a procurar alguém que estivesse fumando. Fiquei olhando ele ir. já que levaria um tempo para descolar outro.. Queria apenas dividir o pesado fardo de sua vida. Expliquei que aquele era o último. . tentando contemplar o que ainda há de bom e belo no mundo.. . mas logo em seguida re- conheceu. mas logo vestiu uma máscara fria e olhou para o outro lado. Depois de correr três mesas. Afinal.. Vestido apenas com uma bermuda suja e amarrota- da.Opa. mas daria a ele e isso seria bom para mim. ficando assim algum tempo sem me poluir com todos aqueles agentes nocivos a saúde. . se virou e caminhou pela beira d’água. ela tinha se mos- trado como sempre fora: Uma pessoa com sentimentos menores. Tinha dado sorte em não terminar com tal pessoa.Reconheceu. Muitos o viam como mais um morador de rua.. ela olhou como se nunca tivesse me visto antes. Encarei mais um pouco o horizonte e me virei procurando o sujeito. Acontecesse o que acontecesse. Por um rápido momento achei que fosse me cumprimentar..Sabe a última mesa em que parei? .. Quando ele sumiu do meu campo de visão..Apontei com a cabeça. mas debaixo daquele rótulo devia haver um ser muito interessante. Localizei a figura entre as mesas.Confessei ao observar seus olhos molhados. O rapaz me agradeceu por dividir o vício suicida e caminhou em direção aos quiosques. pedindo algo. .Eu vi.

Lucro? . . deformando a realidade e tirando a potência transformadora hu- mana. Quanto mais nos aprofundarmos no relatório. .. a divisão do mundo em países. jhzbckcc. . Escravizam. . . .Como assim? . os únicos terráqueos que se submetem a televisão são os humanos. eles estão destruindo todo o planeta.Assustadora.Impressionante. . Ainda nem falei sobre as diversas faces da mentira. que estão com o poder nas mãos. O RELATÓRIO .Na verdade.Exato. .Isso porque ainda não falei das guerras. . Entre os diversos meios utilizados para narco- tizar essas pessoas está a televisão. Esses filhos são preparados para ocuparem os lugares deixados por seus pais nessa cadeia de destruição. que os que têm mais dinheiro dominam os que têm menos para poderem ganhar mais dinheiro destes.Esclarecer? A população está entorpecida. roubam.A ganância humana é tamanha.É a ocasião onde armas terríveis entram em ação. . É uma caixa colorida que submete os terráqueos ao pior nível de informação.Crianças são os seres que eles chamam de filhos? . Como foi a pesquisa entre os habitantes da Terra? .Você não faz ideia. Essa raça que está submetendo todos os outros terráqueos a sua vontade.. . . Matar se torna permitido e nem mesmo suas crianças são poupadas.jhzbckcc acaba de chegar.. a omissão.Talvez devêssemos esclarecer. . 40 . matam e torturam por prazer..Li sobre isso.Existe um papel chamado dinheiro que determina todas as ações humanas.E por que eles.Conte tudo. .Guerras? . . Não consegue perceber ou compre- ender o que acontece à sua volta.Os seres denominados humanos dominam todas as criaturas vivas. Para acumular esse papel.Isso não faz sentido. mais sem sentido tudo fica. Atacam até seus semelhantes se isso lhes trouxer lucro. se submetem a tal aparelho? .Bem vindo.

Temos de nos afastar ao máximo deste planeta e de suas formas de vida. Temo que o comportamento humano seja contagioso. .Primeiro temos de ir para longe.Direcionar a nave para outra constelação! Usem a velocidade da luz! 41 ..

para desgastar. para ir clareando a família. construíram uma estátua no centro de Pseudópolis e fizeram discurso. Sem dúvida era um grande exemplo do que é ser um homem de bem. Faceboock. comer comida que não alimenta. E-mail e MSN. Aprendeu que a política partidária é a melhor forma de lutar por um mundo ide- al e mergulhou de cabeça. socialistas autoritários. Seus pais não suporta- vam atitudes racistas ou classistas. favoreceu a uma meia dúzia que o ajudou com votos de várias pessoas que nunca viram as promessas se realizarem. ficou velho e satisfeito. Dedicava horas do seu dia na construção de blogs e na escrita de textos revolucionários. pa- cifistas da indústria bélica. Formildo é fruto de uma típica família da Pseudolândia. fez churrasco. ganhar um brinde idiota e. Hoje iremos acompanhar o desenvolvimento de um típico cidadão Pseudo. capitalistas bem intencionados e artistas alienados (militantes da cultura do emburrecimento). vai comprar algo supérfluo. mas sempre ensinaram a Formildo que deveria se misturar com quem tivesse mais dinheiro e casar com uma moça direita. nunca comparece a manifestações ou a eventos do mundo real. que fosse mais branca que ele. latifundiários e todos que tivessem boas intenções o suficiente para ajudá-lo em sua caminhada. Para financiar sua campanha. Na Terra dos Pseudos Bem vindo A Pseudolândia – A Terra dos Pseudos. Pegaremos o caso de Formildo. Por se dedicar ao protesto no mundo virtual. fez acordo com empresá- rios. se aposentou sem nunca ter produzido nada de concreto. Viveu com fartura. Morreu. Chegou a presidência. ele vai lanchar em alguma multinacional. Formildo chegou a adolescência e virou um verdadeiro militante por um mundo melhor. Nos próximos capítulos de “Na Terra dos Pseudos”: vegetarianos carnívoros. no shopping mais próximo. 42 . Tinha Twitter. Depois de militar incansavelmente pelo mundo virtual. mas que esteja na moda.

vomitando todo o feijão passado.Vai! Assume logo seu posto que hoje não tô para conversa fiada! Vai ser des- contado! . Olhou para o relógio e viu que estava no atraso. falta de ar. Juvenal! Não se aproveita de minha compreensão! 43 .Dá licença!? Engarrafamento. O caminho nem era tão longo. Dois minutos de caminhada entre pedestres furiosos. . “Melhor voltar a pé”. ué! . .É que. Pensou em quanto tinha na carteira.. Espremeu-se entre os demais.Mas... .Juvenal Perdeu o ônibus...Novamente atrasado. . .. . .. Uma hora de viagem. Sai mais cedo de casa. Meia hora depois.. veio outro lotação. eu sei. A marmita caiu. Por pouco não perdia a descida. Vai botar a culpa no ônibus de novo.Eu sei..Anda.Com licença!? Desceu no ponto.Puta que o pariu! .. Juvenal!? .Assim não podia ser..Mas.

mas o advogado era um mestre e conseguiu provar que não havia nada que nos proibisse de prestar a última homenagem.. mas não havia nenhuma restrição no concurso quanto a artistas mortos. a ligação caiu.Não acredito em espíritos. . não podia prever que meu grande sonho estava por se realizar. ao lado de seu ídolo.Alózio Alonzo – Respondi sem bobear. Acho que não entendi. De- pois de muito debate. A única restrição era quanto a artistas estrangeiros. Belmiro. Sua irmã era o único parente vivo e estava ali. Mesmo em decomposição.. Quem você irá escolher para te acompanhar neste grande evento? Lembramos que terá de ser um artista nacional. já que a exigência da auto- rização da família foi cumprida. O próprio locutor da rádio me ligou durante o programa. Era o resultado da promoção. tivemos alguns problemas. Ele já morreu. Nesse momento. Quero a exumação do cadáver. . . pois já entrei em contato com a irmã dele. Foi uma noite espetacular. conseguimos convencê-los que não havia um porque do impedimento. No final. Ele morreu em um acidente há exatos três meses. . quan- do apareci com a irmã do grande Alózio e o advogado da família. autorizando e se responsabilizando pelo bem estar do morto e de sua memória. . uma pessoa sem igual. Pelo menos foi o que me disseram depois. . A única exigência foi que a levasse junto.Você quer um ritual espírita no meio do show? – O locutor tentava ser engra- çado.Desculpe. Alózio Alonzo. Não precisa se pre- ocupar com a autorização da família. A banda conseguiu colocar outro cara no lugar para cumprir a agenda de lançamento do novo disco. . Tivemos alguns problemas legais para concretizar a exumação do cadáver. que aceitou no ato.Mas esse era o nome do ex baterista do Carniça. devido a falta de recursos para trazê-los em tempo ao show. ele aprontou das 44 . Você foi o grande vencedor e poderá assistir ao lançamen- to do novo disco da banda Carniça Podre. O ídolo iconoclasta Quando o telefone tocou. . caso ganhasse o concurso.Quero curtir esse show ao lado do maior baterista de todos os tempos.Muito bem.Eu sei. O pessoal da rádio tentou me driblar de todo o jeito. naquela manhã.

encontraram o corpo no apartamento de uma groupie. Ela aproveitou um momento de distração e surrupiou o corpo.. Sumiu de repente. Aaaaaaaaaa Alózio. Dois dias depois.. 45 .dele. Hahahahahah.

Né não? Ari dá um sorriso bêbado. Tá aí. Um de cada lado da mesa. Eu não gosto de segunda. Cerveja aberta. se mexendo. Ari: Me vê uma cerveja aí. Ué. Vamos tomar uma gelada? Ari: Tô duro! Dir171pastorassis: Tá duro nada. à essa hora. Tô falando para pegar é porque vou pagar. – Tenho nojo de segunda feira.. meu camarada. É o pior dia da semana. – Vira o copo. Copos cheios. Dir171pastorassis: Dia horrível é segunda. como se estivesse com a mais bela das damas. Esvazia de uma vez só e enche de novo Ari: Eu gosto de beber segunda. Segunda no bar Ari já vinha por conta. Segunda não é bom para nada. isso aqui já tinha gente. Domingo é outro diazinho mise- rável. Iiiiiiiiiiiiiiiii. Não tem ninguém na rua. Vou embora que amanhã tenho de acordar cedo e trabalhar. Detesto. sou um cara tranquilo.. entrando no bar com os braços levantados. – Revolta-se – Eu heim.. – Já está na hora. Dir171pastorassis: Que isso. – Mas isso é programa de garoto. Amanhã tenho de acordar cedo para trabalhar. dois passinhos para a es- querda. Dir171pastorassis: Se eu tivesse 17 anos. tentando dizer alguma coisa. Ari: Vai pagar? Euuuuu.. – Pede. Como é que tá duro? Pede uma lá. Dir171pastorassis: Agora. Ari. Aí o cara sai de lá e já emenda no forró. Dois passinhos para a direita. Não tenho mais idade para isso. Os dois se mantém em pé. É ruim de estar.. heim. Pode pedir. Aí a gente troca uma ideia melhor. – Volta a fazer sua dança solitária. – Fala segurando o copo e fazendo cara de sério. Aí sim. Dir171pastorassis: A não ser que o cara vá para o funk que está tendo lá em São Gonçalo. rapaz... Né não? Ari alarga o sorriso. – Aparece amanhã. Passou por Dir171pastorassis na porta do bar.. Se não ó. rapá. rapaz. – Consegue enfim dizer. – Olha o relógio. Dir171pastorassis: Pega logo isso. Ari se balança de um lado para o outro. A semana começa na terça. 46 . Aí sim. – Faz que está dançan- do. não tava aqui a essa hora não. Dir171pastorassis: Fala. Se fosse terça.

Virou a garrafa.Ari tenta falar alguma coisa. Na metade do primeiro passo. Levantou com alguma dificuldade. sentiu a mão em seus ombros. mas Dir171pastorassis já ia a alguns passos rápidos dali. Ficou sentado por algum tempo tentando terminar o copo de cerveja. Dono do Bar: Falta essa cerveja 47 . mas Dir171pastorassis secou a coitada tão rápido que ele nem perce- beu.

. A suplica em seus olhos lhe dava um ar infantil.A pontualidade é uma virtude muito apreciada . Não fale.Vem. .Xxxiiiii. estendendo os braços. apertando Eulálio contra o corpo. fitando seu objeto de desejo. . .Vamos para o altar.Estudou o rapaz de cima a baixo. Deparou-se com o cristo crucificado.Vem! Vem! .Apoiou a cabeça no ombro de sua querida tentação. O mem- bro. Mamãe demorou a dormir. A porta lateral rangeu. ..Venha. padre. com ar severo. senhor! Depositou o livro sobre as coxas. . segurando a mão de Eulálio .Desculpe.Mamãe. sobre o comprido banco de madeira. A mão direita tateou. A Bíblia caiu. Não é hora de falar. Eulálio! Vem! Eulálio desviou o olhar.Vem! Anda! Vem! Eulálio abriu rapidamente o fechecler.repreendeu o sacerdote. desengonçado..Pediu com delicadeza. Fechou os olhos e começou a murmurar alguma coisa... . . embriagada pelo prazer. Padre Eurípides se levantou com um salto. Os olhos passeavam pelas linhas da Bíblia. . Não fale.Não seja bobo ..Não tem problema. descobrindo as nádegas brancas. . já meio endurecido. .. .sorriu. enquanto os dedos alisavam as contas do sagrado cordão.Ó. escorregando rumo a discreta porta lateral da capela e de lá para o relógio. descendo a causa até os joelhos. .No altar? . Não diga nada. – Murmurou o padre. Do padre Padre Eurípides já se impacientava. Padre 48 .. padre. penetrou sem dificuldade o sacrossanto orifício..Padre Eurípides virou a cabeça.Ai. Já fazia um quarto de hora que aguardava pela chegada de Eulálio. Eulálio! Vem! Eulálio pousou as mãos tremulas sobre as nádegas flácidas do padre.Porque demorou tanto? . . .Vem. . . Chegando ao último degrau pôs-se de quatro.Padre. até achar o terço que repousava. .. tentando capturar todo frescor juvenil que exalava do pescoço. . A voz estremeceu. .Vem.Xxxiiiii.

Eulálio.. 49 . Do padre Francis.Xxxiiiii. misturando passado e presente.Padre Francis. Não fala. .Ah. os lábios do padre se entreabriram. Mas o padre não poderia desconfiar...Vem Eulálio... assistir a missa do santo padre Eurípides. Ao passar pelo padre deitado no altar.A voz do padre saía ofegante. O ritmo dos corpos acelerava.. .. Começou a recordar os tempos de seminário. De como esse rigoroso mestre o introduziu nos mistérios da fé.O dinheiro está no lugar de sempre.... Padre Francis.As lembranças o embalavam. Como era bon- doso o padre Francis.. Atravessou a porta por onde meia hora antes havia entrado. .. Um estremecimento repentino jogou os corpos no chão.. aproveitou para levar uma garrafa de vinho pela metade que o sacerdote havia esquecido ali por perto. pois inventaria de não pagar e dinheiro era muito bem vindo. Ao pegar o pagamento.Ah.. Subiu a rua tomando um gole do vinho. Eulálio e Eurípides. Tão paciente com os que ainda tinham tanto a aprender. Após curto silêncio. . deixando escapar um gemidinho agudo... Oh. Vem. -? .. com doçura angelical.. Não era só o padre que sentia prazer naquela atividade. Os olhos sacerdotais ainda estavam fechados.. Tão amigo.Eurípides foi sacudido por bizarros frenesis.. Cuidado quando for... Eulálio saiu em silêncio. Ninguém pode ver. pode escutá-lo sussurrar o nome do rigoroso padre Francis. pensando que teria de acordar cedo para levar sua velha mãe a igreja... Padre Eurípides apertava os olhos. Não fala. Eulálio aproveitou para apreciar um pouco mais aquela criatura dantesca com que acabara tão bestialmente de se satisfazer.. Ele próprio já sentia falta daqueles encontros noturnos quan- do demoravam um pouco mais a acontecer. Ah.

Eles não tentavam só me convencer.. impondo verdades falsas. Estava uma noite bonita. Existem muitas garotas da novela por aí. Não su- portava a convivência com mais ninguém. escondiam-se na tenebrosa gruta da arrogância. Só não posso me esquecer que se o certo é certo. Conversei com algumas pessoas que me falaram de coisas horríveis a que os sui- cidas eram submetidos depois da morte. Nem com Frederico. O limite do qual não poderia passar.. Lembro do quanto estava sozinha. ele me beijava com ardor. como diziam. Décimo oitavo andar Senti o vento batendo enquanto meu corpo caía.. Não sentia vontade de falar nada com ninguém. eles sabiam que nada era exatamente assim. Agora. Alguma lembrança boa eu tinha de levar daqui. O que salvava. Quando namorávamos. sem me importar com mais nada. não haveria erro. Mas acabava obser- vando falhas nas fórmulas tidas como perfeitas. Incapa- zes de compreender qualquer ponto de vista que fugisse a sua frágil convicção. mas convenciam-se constantemente de que seja qual fosse a sua verdade. foi lindo. completamente isolada do mundo. O vento era realmente muito agradável.. era a única que valia alguma coisa. Talvez fosse esse o problema.. Há muito tempo não sei mais de nada. Tentei muitas coisas. mas eu nunca quis ser uma delas. Eu em mim mesma. No fundo. Cada um erguia sua fronteira. Fred. Fronteiras. nunca assisti no- vela. era no máximo um estalinho. Fui cada vez mais me fechando em mim e cada vez mais ficando sem sentido para os outros. Desta vez. Nos últimos tempos. que parecia ser a única pessoa que compreendia o que eu dizia. Na verdade. Apreciei bastante a escuridão celeste antes de pular da janela do meu quarto. Foda-se. Cada um com sua certeza. Me ajudava a superar o medo da proxi- midade do solo que aumentava rapidamente. Ninguém pode dizer que não tentei. era aquele vento. Estar limitado é certo? Não sei. então eu estava certa. Logo ele. é também uma fronteira. Quando conheci Frederico. As pessoas se sentem muito desconfortáveis com a falta de sentido (rs). não me importo. O li- mite era onde seu conceito de certo se erguia. Mas será que minha fronteira não teria acabado por ser eu mesma? De qualquer forma.. Fique com sua puta de plantão e deixe-me seguir meu caminho. minha casa. Será que era certo? Se o certo for a felicidade. Bilhete? Não deixei. não gostava nem de beber água no mesmo copo. Era o único momento de conforto. Eu estava em meu útero. Será que era isso mesmo? Será que isso 50 . Era o único que não se impor- tava por eu não ser parecida com a garota da novela.

Só não queria continuar por aqui. Hipocrisia.não era só mais uma verdade que visava nos afunilar pela única opção de certo? Não importava. Preferiam fingir. É só fechar os olhos e esperar pelo que vem. Não existe maneira de voltar. Uma boa camada de hipocrisia tinge qualquer bobagem com as cores da verdade. A hipocrisia é forte aliada desses que fingem acreditar por inteiro em uma verdade. qualquer um poderia. Depois a gente vê como fica. Pronto! Agora está próximo. Eles não queriam ver. Se eu conseguia ver as falhas. 51 . Se é que vem algo depois.

Ai..... A hora é essa! Plim!!! Atravessei a rua na frente dos carros e peguei o ônibus lotado. Plim!!! Esperei.... Olha a frente. Vai. Blá... Cheguei a tempo de bater o cartão na hora certa. Fom. Fffffffffffffffffffffoooooooooooooooooooommmmmmmm mmmmmm... Tac.... Bibi... Terei de adiar a pintura.. Cidadão modelo Rodei pelo apartamento e olhei as paredes: .. Pega ladrão. Olha a bala. Tic.. Emburrecer... Fom. Consumir. ô engraçadinho. Tic........ Ai... Peguei outro ônibus. motorista???... Com licença.. meu deus........ Vai ficar se esfregando. Blá.... Ó o guaraná. Fom. Filho da puta... Bibi.. Tic........ Puta merda. Ó o guaraná.. Tac.. Olha a bala. Blá. Bibi..... motorista... Blá.. barbeiro. Trabalha escravo.. Comprou o carro hoje???.... Olha o sinal....Estão precisando de uma pintura.. Fffffffffff ffffffffffoooooooooooooooooooommmmmmmmmmmmmm.. Entrei e liguei a TV.. Olha a frente. Seja obediente.. Fom. barbeiro... Peguei o trem... Peguei outro ônibus..... Tenho de observar a novela para saber quais as cores da moda. Olha o sinal. Pega ladrão.. Olha a frente. ô braço duro. Vai ficar se esfregando... Filho da puta... Atravessei a rua na frente dos carros e peguei o ônibus lotado. Compre.... Tic. Olha a frente.... meu deus. Blá. Tac. Aleluia... Blá. Blá. Tac.... Ligo a TV enquanto me arrumo. Bibi. Saí correndo escadas abaixo. Abaixe a cabeça.. Vai devagar que você não está transportando animal não... Tá sem pressa. Vai... Blá... Aleluia... Tá sem pressa motorista???. Perdi a novela.. motorista.. Peguei o trem. Vai devagar que você não está transportan- do animal não..... até chegar a hora de retomar minha vida. Subi as escadas correndo. 52 . satisfeito por ser mais uma engrenagem nesse sistema.. Venda tempo de vida..... ô engraçadinho....... Blá. Comprou o carro hoje???........ ô braço duro. Com licença...

Mas essa era a única recordação que tinha.Tá olhando o que. Vira um. com ar contrariado. sai aquela gelada e um copo para a moça aqui.A hora da macaca manca Já fazia mais de uma hora que estava ali. Seu Rô olhava Gonzaga com desconfiança. Ele vira um escravo.Perguntou Zinda sentando.Ele tem sido bom para mim.Torpedo prometeu que cuidaria de meus negócios. mas ele não deixava. . Preferia estar só a ter aquele tipo como único freguês.. Me pediu em casamento. Disse que teria de escolher. Mas segunda-feira era um dia fraco e as contas não paravam de chegar.Não posso demorar. Gon- zaga apreciou o trajeto dela com incontido interesse e admiração. . Pegou a cerveja.. Podia escolher o nome que quisesse. essa porcaria tava vazia. Se não fosse por mim..Só consegui chegar agora. português? Não tô agradando.Pensei que não viesse. Queria me transformar numa mulher séria.Ô português. . . Nome feio aquele. Quer me tirar da rua... Tinha quarenta e dois anos. Aos 53 . Zinda levantou-se e foi buscar. O ven- tilador de teto espalhava o ar quente pelo lugar..Então é ele? É por causa desse sujeito que você me abandonou? . Não podia continuar sendo a prostituta protegida por um preso sem nenhum tipo de poder aqui fora.Tentei levar o dinheiro. Todos os documentos que tinha. Prometi que nunca mais nos veríamos.Grunhiu Gonzaga ao ver Zinda entrar no botequim. Se Carboniere descobre que me encontrei com você. mãe. nada. Seu Rô. Estavam tomando tudo que ganhava. encheu o copo e já veio bebendo. Pai.. Do nome ele não gostou. Gonzaga era um baiano baixinho e troncudo. Ninguém respeitava mais seu nome. Ela ainda era uma menina. . O único pedaço de história pessoal que possuía..Na primeira semana em que esteve preso ele me quebrou três costelas e disse que se te falasse me mataria e botava a culpa na polícia. Seu Rô estalou os lábios e foi arrumar o freezer. . . Sabe o que é estar agarrado naquele buraco. sem dinheiro e sem pertencer a nenhuma facção? Sabe o que acontece com um homem nessas condições? Ele deixa de ser homem. foi ele quem arrumou com um amigo.Tudo que você tem fui eu que dei. O que você quer? . Não sabia de mais nada. . vai se aborrecer. . pôs a cerveja e o copo em cima do balcão.. avisa. O suor escorria pelo pescoço. . Dezesseis? Dezessete? Quem sabe? Nem ela sabia ao certo.

.Parado. Isso é besteira. Ao sair. português. baiano. . . ao ser pego roubando uma bolsa em São Paulo.Zinda pegou algumas notas e depositou sobre a mesa. O que vai conseguir sabendo ler? O que importa é ter uma viração.Não posso. Te perdôo. Prometo.Gonzaga levantou-se agarrando Zinda pelo braço. . escorreu pelo ar até cair sentada de volta na cadeira.Ensinando a ler? Eu te dei muito mais que isso.Abaixa essa arma. Sacou rapidamente da faca e a enfiou com ferocidade na barriga da mulher que.Argumentou Gonzaga atordoado. Pela primeira vez alguém quer realmente melhorar minha vida.Suplicou Gonzaga . Não quero mais isso . Dos onze aos dezoito saiu pelo Brasil a fora e conheceu os horrores das instituições para menores. Participou de uma fuga aos quinze. leu no muro uma pichação que dizia: “Agora. . Com um movimento rápido.E nós? .Ele me paga. meu chapa. Ao ouvir essas palavras. esvaziou os bolsos do velho português e pegou a bolsa de Zinda que foi esvaziando pelo caminho. sete era engraxate. mas em menos de seis meses estava de volta. Conferiu se não vinha ninguém. Aos vinte veio para o Rio de Janeiro co- meçar carreira de rufião. .. Aos nove vendia doce no ônibus. .Claro que pode. te trancam de novo. deu a volta por trás do balcão e pegou todo dinheiro do caixa.Paga nada. 54 .. tornando o rosto rígido e trincando os dentes. de olhos arregalados.Foi até a porta. Metendo na cintura o trinta e oito que acabara de adquirir. se não eu atiro. Vai ter vida de rainha. tomou conhecimento da traição do colega de profissão. Eu te ensinei a viver por você. Tem um professor me ensinando a ler. sem precisar de nada nem de ninguém.Não me procure mais.Não. . é a hora da macaca manca”. Se fizer qualquer coisa.Sempre fizemos uma dupla infernal. . .Isso deve dar para pagar a cerveja. . .Volta a colar comigo e esqueço tudo isso.E você pensa que é assim? . . Gonzaga desarmou o comerciante passando a faca por sua garganta. Juntos podemos tudo. Ao passar por uma esquina.Você não entende. Ele realmente está cuidando de mim. Sabe que ninguém vai conseguir dar o que te dou. Deixa o maldito gringo comigo. Não quero contrariar Carboniere.

.Pera aí. Vocês não pediram permissão para fazer esse evento. Levaram-na por desacato a autoridade.Olha o rapa. A manhã foi correndo tranquila no que já havia se transformado em um formi- gueiro humano. Quem podia meter o tabuleiro na cabeça. 55 . Belmiro chegou em casa machucado e sem o dinheiro para comprar o macarrão do jantar.Calma.. . . Vio- lência para todo o lado. Era a ordem pública e o bem estar geral sendo empurra- do goela abaixo de quem não tem grana. . sobre suas frutas. . Se distrai um pouco. os camelôs arrumavam suas mercadorias. nem sempre está aberto a diálogo e a discussão virou briga.Por favor. Pois foi o que Belmiro fez. Entre uma brincadeira e outra. tomando a frente da conversa.Linha dura nos olhos dos outros é refresco As ruas começavam a ganhar movimento. Os policiais desceram da viatura e foram logo anunciando que estava na hora de terminar a confraternização. O pagode estava animado e um amigo o convidou para a cerveja. Cassetetes. . Alguém não suportou ver seu ganha pão ser tomado e resolveu argumentar. Logo as vans começaram a chegar e a despejar passageiros por toda a parte.Gritava o garoto dos relógios vendo sua mercadoria ser jogada na carroceria de um carro da Prefeitura. madame? . Mas quem é pago para manter a ordem. Essa frase acabou com toda a tranquilidade dos que tentavam ganhar uns trocados para viver e dos que compravam suas mercadorias. pedras. Falou com a mulher que teria de conseguir capital emprestado para comprar novas mercadorias. meu bem. Dona Marrequita se debruçou. Hoje a noite tem festa na quadra.. . . Vai lá e esfria a cabeça. porra.Ó o cordão. Lá pelas dez. É tudo que eu tenho para sustentar meus filhos. desesperada. – Disse um de bigode. . Logo a confusão estava generalizada..Vai um biscoito aí. o policiamento comunitário chegou. Os primeiros pedestres já se esbarravam pelas esquinas..Olha o suco de laranja. saiu correndo.Como assim terminar? – Interveio o cara da barraquinha de cachorro quente.É isso aí. Não levem minhas mercadorias. Pronto. É prata pura.

Pedir permissão para quem? Nós sempre fizemos esse encontro para o pessoal da comunidade ter uma distração e vocês que chegaram aqui ontem me apare- cem com essa marra. Temos que organizar a situação. O que tá havendo aqui? – O Presidente da Associação chegou tentando acalmar os ânimos. . Pode ser? .Mas. foi dado e os policiais foram em direção a caixa de som para desligar e mandar os pago- deiros descerem do palco improvisado. Agora acabou a bagunça. ainda tão reclamando. Dessa vez a festinha já tá rolando.Tá havendo que a gente tá pedindo na educação para acabar a festa e esse pes- soal tá querendo arrumar barulho. Para fazer evento tem de pedir permissão e esperar para ver se vai ser aprovado. gente..A gente se compromete a pedir a tal da autorização da próxima vez. Antes do Presidente argumentar. . . – Replicou o de bigode. Temos de encerrar. Um falatório tomou conta da quadra. . O Presidente pediu calma e sugeriu: . não. A gente abaixa o som. Já tinha visto esse filme hoje. Foi o que faltava para o tumulto começar. Ao invés de agradecer que deixamos rolar até essa hora.Calma. 56 .Infelizmente. . um sinal. invisível para os moradores.É isso aí! Marra dentro da nossa comunidade não! – Concordaram todos. Belmiro passou a mão na cabeça..

até que resolvi levantar. Tinha de ter muito cuidado para não pisar nos diversos corpos espalhados pelo chão. como em um passe de mágica. foi um odor terrível que me atingira. Pensei em vomitar de novo. a porta abriu de uma só vez e um cara muito estranho saiu blasfemando.Parte I Completamente tonto. A cabeça estava um horror. meio sem entender nada. Nisso. Sentei o mais rápido que pude. Tentei abrir. Ressaca. percebi o grande sofá rasgado em que estava esparramado e um casal disputando. perguntando se tinha alguém. mas ela estava trancada. Andei por dois degraus.. mas as pequenas bo- las de luzes estouravam diante de mim. Caí de quatro e continuei a vomitar sem parar. O resto do percurso fiz rolando. Comecei a ficar espremido no canto. que se assemelhou muito ao para sempre. Consegui puxar a perna e ele não sentiu. entre garrafas e objetos não identificados. roncando sobre o vaso. tentando tirar minha perna debaixo das nádegas do rapaz. Abri e recebi o Sol como um soco na cara. levantei resmungando e avistei a escada. Não sei se cheguei a desmaiar. De repente. Dei meia volta e vomitei ali mesmo. . displicentemente.. um lu- gar enquanto se agarrava. Acredito que nem perceberam minha presença. Coisas e mais coisas 57 .Fecha essa porra!!! Olhei para trás. ou pelo menos não quis interromper a bolinação para saber o que escorregava de baixo da sua bunda. tombaram no sofá. Devo ter levado a própria eternidade até me por de pé. mas não encontrei nenhum rosto conhecido. Pronto. Resolvi atender ao pedido. Tomei alguns passos de dis- tância e investi contra a porta. Co- loquei os pés para dentro e recebi meu segundo soco desde que acordara. Olhei em volta e vi o caos por todo o lado. A rua era completamente desconhecida. Cambaleei pelo grande salão até a janela. a menina virava um copo de Vodca. Não consegui. Na minha frente.. Agora. Urgh. Olhei em volta. Apertei os olhos e me debrucei olhando para baixo. Consegui alcançar a janela. Bati algumas vezes. Segurei-me no portal e olhei para dentro. Depois de um tempo. Que ideia idiota. Fui escorando na parede e levantando bem devagar. dificultando o reconhecimento. Nada. tentando identificar de onde viera o grito. Aquilo me enjoou. sentado em uma mesa. Tateei até lá para arranjar uma forma de melhorar meu estado de espírito.. mas quando percebi estava. já que o Sol aumentara terrivelmente minha dor de cabeça. Lá estava um rapaz sem as calças. Avistei uma porta que parecia o banheiro. Nunca aprendi a me dar bem com ela. Cai com dores terríveis na cabe- ça e a porta nem se moveu. Estava no terceiro andar da casa.

Ou se estava em casa. empilhadas e espalhadas por todo o canto. Nem vi para onde ia. Parecia estar explicando sobre seu posicionamento político. Ouvi uma porta abrindo. normalmente. encostei em uma grade. Talvez tivesse me expressado mal. nunca fazem sentido. ou algo do tipo.. que abriu sem maio- res problemas. Nunca fiquei tão feliz em encontrar uma. . 58 . Meti a mão na maçaneta. Sabe aqueles dias em que nada faz sentido? Ele deu um sorriso contrariado. Levantei desesperado. ou na rua. Subi as escadas com dificuldade. Após vencer alguns metros. A menina estava falando. Os dias. Só consegui guardar na memória o contraste marcante entre sua pele extremamente pálida e suas olheiras.. Para que degraus tão altos? Como os anões faziam para subir nesse tipo de transporte? Meti a mão no bolso e descobri que minha carteira tinha sumido. Não havia quintal. Chegaram dois caras carregando várias garrafas de bebidas.Amigo. Encostei-me na roleta e olhei para o trocador. Era mesmo uma porta. mas corri para o meio fio fazendo sinal. Estava vindo um ônibus. destacando os olhos apagados. estava falando por horas sem que me desse conta. Provavelmente não entendeu minha colocação. Com certeza. cambale- ando até a origem do barulho que havia ouvido. Ouvi alguma coisa.

Não tinha nada dentro. Não tinha como errar. Parecia que estava escalando o próprio Everest. E se fosse até a rua? Besteira.. Depois de muito rastejar.. Senti uma dormência estranha no braço. até atingir o chão. Espalhei- -me de barriga para cima. Olhei para o sofá e para a geladeira que ficava de frente para ele. servindo apenas como exposição para os que gostam de apreciar a desgraça alheia. Sim. Nunca vi esse tipo de efeito após um banho gelado. Com os vizinhos não adiantava contar. ligaria para a emergência. Tentei levantar. A coisa não estava boa. Meu corpo. Olhei para o tênis. Puro gasto de energia. Era alguma coisa quente e com gosto de mijo. mas. não aguentaria muito tempo nessa rotina. Nunca me senti tão doente. Fechei o registro. Apenas uma divisória para o pequeno banheiro.. Seria o que teria de ser. Estiquei o braço e girei o registro. Não faço ideia. Não iria conseguir. acredito que se passa- ram dois dias. Assim que melhorasse. no qual a água despencava do cano que saía da parede e atingia em cheio o alto da cabeça. Mas daqui que chegasse. para me jogar dentro com roupa e tudo. Pensei em pedir ajuda. o que estava lá. Porque fazer alguma coisa? Iria ficar ali. Esqueci de comentar: A geladeira não funcionava. A água começou a despencar gelada. Pelo menos. Não havia espaço para isso. Arrastei-me até o banheiro e sentei no vaso. Ah. Ficaria caído no caminho. De repente. Para subir nele tive de me empenhar ao máximo. Fui inclinando para frente. 59 . Era só sentar no vaso e deixar a água cair. me senti esquisito. além de uma lata de cerveja aberta e uma barata tentando sair da gaveta de legumes. Consegui. O cheiro de vômito e merda que exalava da minha roupa aumentava o enjoo. fraco e cambale- ante. Queria uma banheira daquelas. Melhor ficar no sofá e esperar. Pode ter sido mais. não podia ser chamado de cerveja. Se ao menos tivesse um telefone. cheguei ao sofá. A roupa molhada grudava no corpo. estaria morto.. esperando. O cheiro de vômito e merda ainda persistia. Fiquei ali por tempo indeterminado. Decidi pela geladeira. Mas o apartamento não tinha espaço para tal regalia. O frio estava incomodando. mas desisti muito rápido da ideia de tirá-lo. Pensariam que estava tendo só mais uma crise de loucura. E olha que já havia passado por maus bocados.Parte II Dois dias depois estava chegando ao meu ap. mas a cabeça começou a pesar. Achei melhor ir para o sofá. Bebi o resto da lata. poderia tirar as calças e ficar apreciando os bagos flutuarem.

chamariam algum sacerdote para fazer seus rituais. Só pode ser sacanagem. com certeza apareceriam.. Impressionante como nunca me dei bem com gente.. sem o infortúnio que as demais pessoas poderiam me oferecer. Lembro de quando era criança e meu pai me falou sobre as grandes questões. “De onde viemos? Para onde Vamos? E quem somos?” hahahahahha. sozinho. No final. Fui. Uma coisa eu podia ter de consolo: Sempre tive medo de ficar esquecido. mesmo contra minha vontade. prefiro acertar nossas diferenças pessoalmente. Sempre as pessoas me incomodando... enquanto enfermeiras impacientes contavam os minutos para a troca de plantão. E aquelas visitas indesejadas que sempre busquei evitar. Chegou a hora. Confortei-me em saber que tudo acabaria dentro de alguns minutos. 60 . Nunca gostei de intermediários. Se existe Deus. Isso nunca teve a menor importância e continuava não tendo agora. olhando para o teto.. Não sei se era melhor isso ou ficar jogado lá.. sofrendo em uma cama de hospital.

até que adormeceu. Mas também ninguém perguntou.Indiferença . Foi apenas mais uma cena rotineira na cidade grande. 61 . Qual seu nome? Não perguntei.Mais uma cena rotineira da cidade grande Um homem. Nada de mais. caiu perto de uma rampa para deficientes físicos. Ficou por ali a falar com o céu. depois de muito cambalear pelo centro de Niterói.

Já era possível observar os traços sinistros naquele rosto petrificado. oculto pela fumaça. Quanto a hora. . . Meteu a mão e puxou. Três tiros foram disparados na direção da porta. . Uma língua muito estranha ocupava todo o espaço. Acordos de campanha Ao ouvir a explosão.Quem é você? .Me procurando? O Candidato disparou duas vezes. desgraçado. Agora. quando acabar de revistar o quarto quero que monte guarda na minha porta. Quem era aquele que. O Candidato deu um salto. Voltou alguns passos. senhor. Tem alguém aqui. cale a boca e deixe-me falar. Tinha sentado em alguma coisa. Não havia mais ninguém. O Candidato sentou na cama.. Candidato.Sim. Todo o papel adquiriu uma coloração avermelhada e um brilho repentino irritou sua vista. Você que está olhando em baixo da cama. Ao se ver sozinho no quarto.Podemos dizer que sou um colega de profissão. . Teve seus pensamen- tos interrompidos quando sentiu algo. Virou rapidamente quando ouviu uma voz sussurrando no seu ouvido .O que tá havendo.Boa noite. É uma hora tão boa quanto qualquer outra. pegando a arma que dormia sob o travesseiro. se espalhem pela casa. . o saudava da porta do seu quarto. . Desenrolou o troço e tentou ler. Nem imaginava de onde era aquilo. Candidato? ..Talvez um tipo de político. . por acaso? Vasculhem toda a casa. furou o dedo em algum canto do pergaminho e uma gota caiu sobre as estranhas letras. Os seguranças entraram pelo quar- to. Deu alguns passos cuidadosos para a porta.Político? Qual o seu nome? O que faz aqui a essa hora? .Vocês estavam dormindo.Morre.Os outros. Tenho muitos nomes. Trouxe o contrato. Você sabe que todo político é um grande homem de negócios. Ninguém.Será que alguém esqueceu o pino do gás aberto? . A cada palavra. Quando abriu os olhos. Levantou da cama assustado. não o encontrou em suas 62 . O Candidato acordou. a sombra se aproximava mais. De repente. Uma fumaça amarelada e de cheiro pestilento tomou conta do lugar. Era um pergaminho. A fumaça já tinha quase desaparecido.

.mãos. Olhou para os lados e percebeu que estava amarrado. o gélido visitante desaparecera com uma gargalhada ex- plosiva. mas que se quisesse chamá-lo de alguma coisa. .Podemos renegociar. ainda na adolescência. não posso sair de cena por baixo.O senhor perdeu novamente a memória. .. você se recuperou e chegou à presidência.Mas eu não sabia ler o contrato. Lembrou que em uma conversa entre amigos. você começou a apresentar sérios distúrbios. abriu os olhos.. ficou impossibilitado de se movimentar e tomar decisões pelo excesso de acordos que fez pelo caminho. Uma mulher vestida de branco estava sentada ao seu lado. ele lembrava daquele rosto que foi levar o contrato para ele assinar anos depois. Tudo apagou.. . com empresários. Eram pactos para todo o lado e com todo o mundo. disse que teria poder. Entrou muito jovem para a política. . Sua visão ainda estava prejudicada ao perceber. Foi o mesmo rosto que apareceu diante dele no gabinete da presidência.Qual a opção? . Isso não faria diferença. . . Sinto-me completamente a vontade na atmosfera capitalista. Nesse mesmo dia.Quem é você? Porque estou amarrado? Quem sou eu? . a presença daquele homem no seu quarto.Fez um excelente negócio. cobrando a dívida.Pactos? . tudo clareou em sua memória. Seu nome é Clarisvaldo Vilenhare. poderia ser. Aí.Com o Diabo. Ao dizer estas palavras.Fechou com latifundiários. Ele riu e respondeu que a ideia de diabo era uma coisa muito an- tiga. Nesse ponto. Perguntou se o homem era o Diabo.Bom dia. O senhor acaba de sair de um surto. novamente. Depois de uma rápida ascensão. Não vai se arrepender. Senhor Presidente. onde um desconhecido lhe apareceu com a proposta de um pacto. Mais um. . 63 . Sou sua médica.. . Ninguém saberá de suas falcatruas. teve um sonho muito estranho. com sindicatos. Sem saber onde estava.Existe essa lenda também. Agora. nem que fizesse um pacto com o diabo. Comprometeu-se demais para conseguir financiar suas campanhas milionárias.Não serás afastado por nenhum escândalo. Negócios são minha vida. Não é justo. inexplicavelmente. O fato é que sua imagem já estava mais que desgas- tada quando. . Depois de tudo isso. ou ao menos quem era.

A culpa é toda dele. Escolha! Os enfermeiros já estavam em cima de Clarisvaldo. .É o Diabo. Um corrupto odiado ou afastado por motivos de saúde. Enquanto isso. mas quero sua sanidade enquanto for vivo e sua alma depois de morto.Isso não está certo. o político gritava: . 64 . . aplicando o tranquilizante.É o que posso fazer. Seu nome ficará marcado positivamente na história do Brasil.

onde ficou um tempo a mais entre beijos e lambidas. mas ela o surpreendeu e rolou. Passou a mão pela vagina mais que dilatada da companheira. exibin- do as enormes “calotas”. Universitários sentavam nos bares para debater sobre algum ilustre intelectual morto com sua insípida lógica acadêmica. Trabalhadores corriam atrasados como baratas envenenadas. Chegando lá. Enquanto isso. sentindo o enorme grelo e confirmando o porquê do infame apelido. Pedro chupava os dedos de sua mão. Principalmente as maus raspadas como aquelas. Adorava axilas. O suor temperou toda aquela carne em que se deliciava sem pudor. Tirando as botas da menina. em que não precisava compartilhar da rotina dos demais seres tidos como humanos. O estrado rangeu e as mãos começaram a explorar cada canto dos corpos. a um motel barato das redondezas. Ao enfiar o dedo. Boceta de vaca já agarrava o membro do namorado com força entre os dedos dos pés. Continuou o passeio linguístico até chegar às axilas. viu que ela já estava em “ponto de bala”. Pensou em voltar para entre as pernas e sentir um pouco do sa- bor de todo aquele smegma. Continuou alimentando o banho de gato até chegar à virilha cabeluda de sua amada. Ela sentou no membro incandescente. O ar condicionado só fazia barulho e os corpos se dissolviam. Algumas buzinas tentavam trazer o engarrafamento e tudo o mais do desinteressante mundo exterior para aquela cama. mostrando suas habilidades. Já estava mais que encharcada. Menores infratores e mendigos transitavam observando supostas presas. Segurou o “pau” com violência e caiu de boca. No meio da mistura de salivas. A língua foi deslizando pela sola do pé. Várias posições alegraram os coitos que se se- 65 . Pedro ia com a namorada. ao som de Chico Buarque e outros nomes da MPB. Alguns punks se reuniam na esquina. sem dó nem piedade. causando frenesis no corpo branco e flácido de Boceta de Vaca.Buraco de rato Era apenas mais um final de tarde de calor intenso pela cidade. Pedro apreciou um pouco seus pés e caiu de boca no dedão atrofiado da “donzela”. Aranhas e traças assis- tiam a tudo de cantos escondidos. conhecida como Boceta de Vaca. se pondo por cima. Nesse momento. Peças de roupas eram atiradas a esmo. enquanto aspirava o agradável odor. largando um suspiro doloroso. enquanto contavam moedas para comprar uma garrafa de qualquer coisa e argu- mentavam sobre o show de noise que aconteceria naquela noite. seus corpos despencaram sobre a cama. Os seios se espalharam ao se verem livres do sutiã. Pedro agradeceu a Satanás por aquele momento sublime. começaram a se agarrar como dois lutadores de sumô.

O inimagi- nável era permitido sem precisar pedir licença.. . . A menina já estava roxa quando o animal foi expelido. É algo tão bizarro que posso garantir nunca ter visto. . Correu para a quina da parede e se pôs de pé. As contrações aumentaram.As mãos fraquejaram. Ele tá saindo pelo seu cu. O animal estava gigantesco. . Isso não é uma gravidez normal. acompanhado pelo jato de bosta e sangue. Ao sentar no vaso. não é? Às vezes penso que você está concordando com isso apenas porque não desejo esse monstrinho. Já transei com uma garota que teve um filho meu uma vez e não foi assim. Pedro se assustou com o grito. Ela sentiu uma dor lancinante. Estou arrebentada. Os dias se passaram e nada mais saía pelo “rabo” da coitada. Pedro o seguiu com a vassoura pronta para o ataque. A barriga começou a inchar e dores terríveis assaltavam-na por todo o momento. Pedro deixou os comprimidos caírem. guiram.. Aquela sagrada sensação de que nada importa transbordava. 66 . .Acho que hoje você caprichou. como se tivesse passado por algum tipo de mutação intra-intestinal. – Declarou o decrépito doutor.É o melhor mesmo.Mas a criança apresenta estranhas deformações e parece estar fora do útero. Antes de voltarem para o mundo. Não precisamos da burocracia hospitalar para resolver nossos problemas. Isso que está acontecendo não é normal. E é como o médico falou. . É uma aberração. Só a ideia de ver a namorada cagando o deixava excitadíssimo. Pedro correu e pegou a vassoura que repousava no canto da quitinete de Boceta. . soltando a vassoura. . . Procuraram um médico e durante o ultrassom visualizaram o invasor..Está aqui a solução. .AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.. O grande acúmulo de fezes já expulsava a ratazana com toda a pressão possível. Boceta de vaca pôde perceber a incerteza na voz de Pedro. .Grávida?! – Assombraram-se sem entender.Você pode ser meu filho.Estou vendo o que ele está causando a você. A cabeça do desgraçado já está saindo. as dores causadas pela prisão de ventre e pelo roedor se alimentando de seu intestino não a deixavam mais andar. tomaram um banho e Boceta de Vaca pediu um minuto para esvaziar o intestino. Não tardaram a decidir pelo aborto. Aquilo já era demais.A senhora está grávida.Tudo certo aí? – Perguntou com o ouvido encostado na porta. Ele está vivo fora do útero. Na semana seguinte. uma enorme ratazana que vinha pelo esgoto entrou pelo cu da “madame”. Pedro chegou abatido. Mas espera. .Puta merda. mas. Tome esses comprimidos e nos livraremos desse pequeno infeliz.

O que estou fazendo? O monstro aqui sou eu. Tão egoísta. Pedro entrou em desespero e se jogou em seguida. Boceta de Vaca se via as voltas com a agonia do último suspiro.. 67 . Enquanto seu crânio explodia na avenida. . tentando salvar seu rebento. Meu deus.. A ratazana o olhou por algum tempo e correu para a janela.. A ratazana correu para o lado oposto e entrou em um bueiro. de onde pulou de- pois de uma rápida escalada. os jornais lucravam com as manchetes sobre o acontecimento macabro em uma quitinete do subúrbio.Caindo de joelhos.. estendeu os braços.Como posso ser assim. O calor continuava impossível e os carros buzinavam com trabalhadores apressados correndo entre eles. No dia seguinte. .Ah..

Disse que era para colocá-lo fora da- qui. apontando a arma para aquele homem cambaleante e disparando. . Muito tempo antes disso acontecer. fazia zigue e zague pela rua. . é só um vagabundo de segunda. Os dois olharam em volta. já havia sido avisado sobre o despejo. Palavra. Levou um tapa na cara e voou em direção a parede.Encosta. a patamo estava estrategicamente parada em cima da calçada por onde caminhava. Ao segurar o punho do polícial. Vamos jogar no mato e pronto. O lugar era deserto àquela hora. Agora vamos ter de encarar toda aquela burocracia. até que o outro policial conseguiu separar. Dois dias. Para completar. Dona Clotilde foi taxativa. Diz para ela que pago mês que vem. já havia perdido o emprego. Ago- ra. O policial o empurrou contra o muro de chapisco e começou a dura. Completamente transtornado.É.Não mete a mão no meu bolso. .Mas não tenho para onde ir. . esse tentou se soltar e acabaram caindo no chão. Matou esse saco de merda a toa. Eles entrariam com o corpo já sem vida pela emergência a dentro e depois diriam que morreu no hospital. Jogaram o corpo na parte de trás do carro e saíram logo dali. en- quanto o outro se aproximava de vagar. Ouviu uma sirene.. Era todo o tempo que tinha para pagar os meses atrasados. 68 . Um policial apontou a arma em sua direção. estava completamente sozinho.Lá na estradinha? . . promovendo uma troca de tiros.Hã?. Tropeçando pelo caminho.. Os amigos se afastaram. . Os dois se embolaram. . Quando virou a esquina. A operação era simples. Não vamos gastar essa com isso aí. Que coisa Lá ia ele. dizendo que não podia mais aguentar.Vamos levá-lo para o hospital? Tentar socorrer esse vagabundo? O velho caô de salvar a vítima de um assalto ou um bandido que ofereceu resis- tência.Você tá maluco. . pensava na vida e imaginava como as pessoas podiam ser assim.Socorrer vagabundo nada. Sua esposa o abandonou. . porra.Burocracia.Infelizmente. Lá está bom. Pela pinta. . porra nenhuma.

Virou assustado. Continuou a subida com a impressão que estavam a lhe observar. Não havia ninguém. Décimo segundo andar. Não tem mais idade para essas coisas. Não havia ninguém no corredor. Tentou acender a luz.Visões Já passavam das duas da manhã. O prédio estava todo apagado. Olhou o elevador.Eu heim. mas tudo que viu foi o sofá vazio. . Não havia ninguém. Correu até a porta e abriu. teve a sensação que alguém iria tocar em suas costas.O que está acontecendo? . deu uma espiada em volta enquanto girava a chave e entrou. Morava no último andar e não tinha vencido os primeiros degraus. Acelerou os pas- sos ao máximo que pôde. Pensou logo em Lindalva. Abriu a porta. Assim que ganhasse algum dinheiro se mudaria para um prédio com porteiro e gerador. Debruçou no parapeito e olhou para os andares inferiores. Rodou a chave. Olhou para ele e se indignou. Chegando perto.Você tem de parar com isso. Agora teria de dar boas explicações. A mulher se desesperou. . Foi direto para o banho. 69 . Só aquela impressão de uma companhia indesejada. Quando passa- va do terceiro andar. Sempre que tentava averiguar quem estava por lá. Acelerou o banho. Apenas as escadas que já tinha subido. Ia ter de encarar as escadas. Era ali mesmo que morava. Seria difícil dizer que ainda estava no trabalho. Lindalva estava dormindo. Meteu a chave na portaria do edifício. deu um pulo. Seu corpo pendeu para frente e caiu. Virou depressa tentando surpreender o que quer que fosse. tombou a cabeça para ele e sorriu. viu uma sombra do lado de fora do box. Chegou ao segundo andar. nada encontrava.. Era Lindalva. Tinha de aguentar. Ninguém. Fez um esforço tremendo para lembrar se a rua também estava sem luz. Alfredo sentiu o mundo rodar. Apertou o botão e nada. Ao sair do banheiro. Chegou. Ele tentou apontar. Sentiu algo apoiando em seu ombro. Um homem disforme. Deu uma conferida para ver se estava no lugar certo. Aí fica assim. indescritível. . Escutou um barulho. Chegou ao oitavo andar se assustando toda vez que ouvia passos ou barulhos estranhos. Vasculhou toda a casa e não achou nada. Enxugou-se e vestiu a bermuda que estava embolada em um canto. viu alguém sentado no sofá. Nada.Perguntou Lindalva ao se deparar com a cara de assombro do marido.Não aguento mais. A mulher foi até o interruptor da sala e acendeu a luz. Virou assustado. Causa mortis? Infarto fulminante. Pronto. Correu até a porta. Enquanto a água gelada caída sobre sua cabeça. Os olhos ficaram brancos e giraram dentro das órbitas. . – Murmurou entrando..

Pela madrugada Andando pela madrugada. ele e os pingos caindo do céu. sem se importar com as esquinas que passavam. passo a passo. daquelas em que podemos confiar. Os olhos apreciavam os pré- dios escuros. as marquises abrigando quem não tem outro lugar para ir. Mas o que ele mais gostava de ver era a rua deserta... Caminhava com tranquilidade. pontos de ônibus com passageiros atentos para não perder o próximo transporte (será que o próximo existe?). Nada mais importava. Continuou. Esses trechos de pura solidão o alimentava como se fossem vitaminas. deixando a água entrar pelo furo da sola. apenas um caminhar tranquilo e soturno para sabe lá onde. A garoa fina massageava seu crânio. Apenas a escuridão. A bota pisava no asfalto molhado. A tristeza não lhe trazia sofrimento. 70 . Pelo meio da rua. caminhava completamente a vontade. pois tinham uma amizade antiga. se aproximan- do do destino (será?). sentia as sombras inundarem seu corpo. Não havia preocupação.

. Na ado- lescência. Seu primeiro contato com esse universo foi na infância. Resmungou um “alô” entediado...Porra. . Me ajuda aí.....Ele foi detido em uma transação com drogas..Entre meus iguais O corpo há muito jazia deitado na pedra.. Encontrou Mateus.. Os caras só deixaram ligar para celular porque disse que era seu parente....... O auxiliar de necropsia lanchava seu sanduíche de queijo com presunto. Estava com menos do que tinha deixado.. Chegando à delega- cia.. .. O sono não vinha...... quando a velha avó o levara numa rezadeira que dizia fazer contato com “os do outro lado”.. A vida é assim. chegou a con- clusão que não conseguiria fazer nada na vida. Quebra mais essa para seu amigo.... Era Val- frido.. seu amigo de infância. Aquele cara continuava visitando sua casa enquanto trabalhava... reco- nhecendo o mundo..... cara..... Procu- rou a garrafa de cana que escondia embaixo da pia...... roubava túmulos. O celular tocou........ meu camarada. Estava detido na Delegacia ao lado.... ... Viu uma faca suja.... Levantou com o mesmo cuidado com que deitou. denunciava o afoga- mento. anel. pulseira.... Depois de muito perambular pelo mundo...... As moscas voavam por cima dele... Os olhos eram apenas buracos vazios nas órbitas.... Por insistência da mãe... a quem ga- rantiu ver o que poderia fazer....... “Agora sim”.. 71 . “Bons tempos aqueles. Por favor.. procurou fazer concurso público e acabou passando para trabalhar no necrotério da cidade. bebeu uma golada do álcool..... O auxiliar disse que estava indo e saiu reclamando da vida.... Pensou sobre as possibilidades.... comido pelos peixes. Continuou o caminho pensando nos mortos.. Pegou a garrafa e saiu.. parando na garrafa de álcool... Entrou em casa silencioso para não acordar a esposa... em um estranho balé frenético.. . mas pôde ver o amigo... Foi aí que percebeu que os únicos a entendê-lo por toda sua existência foram os mortos....... .Qual é Mateus. O cadáver.. Colocou a cana no lugar. Coisa que não existe mais”.. sem abrir. enquanto apreciava o trabalho que tinha pela frente. procurou algum conhecido. Era dente........ Não tem como aliviar.. “Não”.!? O cara é boa gente. Deitou vendo o teto rodar. onde o finado podia se dar ao luxo de ser enterrado com peças de ouro.. Virou o rosto lentamente..É.. Parou.... Olhou para os pratos empilhados. Não tinha vocação para nada.. Voltou para o necrotério e olhou para o afogado...... foi à única resposta que conseguiu. Ao atravessar o primeiro quarteirão.

estou entre os únicos que me compreenderam por toda minha vida. Pensou que deveria ter fumado mais um cigarro. Voltou para seu lugar preferido e deu mais uma golada. fogo ao próprio corpo.Merda!!! Meteu a mão no bolso e sentiu a faca suja que estava em cima da pia. em seguida. Comprou outra garrafa de álcool. Dor. Os joelhos se dobraram. ateando. Ficou imóvel o máximo que pode. Lembrou ter um mercadinho nas redondezas que também funcionava como bar e ficava aberto até mais tarde. Olhou para a garrafa e para a faca. Acendeu o isqueiro e virou a garrafa de álcool sobre a cabeça (a tampa se perdeu em algum ponto entre sua casa e o cemitério). mas reuniu suas úl- timas forças e saiu correndo pelo cemitério como uma enorme tocha viva. “Merda”! A garrafa estava vazia. Na metade do cigarro. Entrou por entre as tum- bas. Virou toda a garrafa em sua cabeça. No dia seguinte encontraram um corpo. Apagou o isqueiro e jogou a garrafa longe. jogou fora. Pegou o bloquinho de anotações no bolso. Chegou ao seu local predileto. mas resolveu ficar de pé mesmo. 72 . Sentou e acendeu um cigarro. Pensou por um momento. . duas garrafas de álcool e um isqueiro espalhados pelo lugar. apreciando cada detalhe. Teve vontade de se jogar no chão. Em cima de uma lápide estava um bloquinho aberto em uma página que dizia: Agora. Pensou em sentar. Em meia hora já estava pulando o muro do cemitério. Deixou sobre a lápide mais próxima que encontrou. escrevendo alguma coisa em seguida. Acabou antes do tempo.

procurou fazer concurso público e acabou passando para trabalhar no necrotério da cidade. cara..... As moscas voavam por cima dele....... Não tem como aliviar... ... sem abrir..... Resmungou um “alô” entediado.... anel. denunciava o afoga- mento.... . Ao atravessar o primeiro quarteirão... Deitou vendo o teto rodar... Na ado- lescência. “Agora sim”.. em um estranho balé frenético.. Por favor. Levantou com o mesmo cuidado com que deitou.. enquanto apreciava o trabalho que tinha pela frente. Parou... comido pelos peixes.. Voltou para o necrotério e olhou para o afogado.. 73 .. onde o finado podia se dar ao luxo de ser enterrado com peças de ouro.... Estava com menos do que tinha deixado... Quebra mais essa para seu amigo.. “Bons tempos aqueles.. procurou algum conhecido. Era Val- frido. O sono não vinha. Coisa que não existe mais”..... Entrou em casa silencioso para não acordar a esposa. pulseira.. Viu uma faca suja. Pegou a garrafa e saiu. Foi aí que percebeu que os únicos a entendê-lo por toda sua existência foram os mortos.. O celular tocou. quando a velha avó o levara numa rezadeira que dizia fazer contato com “os do outro lado”....... Continuou o caminho pensando nos mortos.. Me ajuda aí..... Olhou para os pratos empilhados. Os caras só deixaram ligar para celular porque disse que era seu parente... foi à única resposta que conseguiu. Aquele cara continuava visitando sua casa enquanto trabalhava..... Seu primeiro contato com esse universo foi na infância..... roubava túmulos.....Entre meus iguais – versão 2 O corpo há muito jazia deitado na pedra..... Por insistência da mãe. reco- nhecendo o mundo. a quem ga- rantiu ver o que poderia fazer. Colocou a cana no lugar. Pensou sobre as possibilidades.. bebeu uma golada do álcool. chegou a con- clusão que não conseguiria fazer nada na vida. mas pôde ver o amigo.... parando na garrafa de álcool.!? O cara é boa gente........ seu amigo de infância.Qual é Mateus......... Encontrou Mateus... Estava detido na Delegacia ao lado.....Ele foi detido em uma transação com drogas. . meu camarada....... Depois de muito perambular pelo mundo. “Não”. O cadáver.... .......É.. Os olhos eram apenas buracos vazios nas órbitas.. Virou o rosto lentamente... Não tinha vocação para nada... O auxiliar disse que estava indo e saiu reclamando da vida. .. Era dente. Chegando à delega- cia.. Procurou a garrafa de cana que escondia embaixo da pia.... O auxiliar de necropsia lanchava seu sanduíche de queijo com presunto.Porra. A vida é assim.

Acendeu o isqueiro e virou a garrafa de álcool sobre a cabeça (a tampa se perdeu em algum ponto entre sua casa e o cemitério).Merda!!! Meteu a mão no bolso e sentiu a faca suja que estava em cima da pia. Virou toda a garrafa em sua cabeça. jogou fora. escrevendo alguma coisa em seguida. Entrou por entre as tum- bas. Apagou o isqueiro e Jogou a garrafa longe. Sentou e chorou. “Melhor voltar para casa”. “Merda”! A garrafa estava vazia. . Pensou por um momento. Sentou e acendeu um cigarro. Voltou para seu lugar preferido e deu mais uma golada. Lembrou ter um mercadinho nas redondezas que funcionava também como bar e ficava aberto até mais tarde. Chegou ao seu local predileto. “Acabou o gás”. Acabou antes do tempo. Comprou outra garrafa de álco- ol. Pensou em sentar. Na metade do cigarro. Olhou para a garrafa e para a faca. 74 . mas resolveu ficar de pé mesmo. Deixou sobre a lápide mais próxima que encontrou. apreciando cada detalhe. Em meia hora já estava pulando o muro do cemitério. Pegou o bloquinho de anotações no bolso. mas o isqueiro não acendeu.

. ..Vai aumentar tudo.Saiu mais cedo do trampo? .Aumento de salário mínimo.Fala aí? Chegou agora? . Aqueles esquemas da milícia e tal a gente vê até hoje. Olha essa: Filme Tropa de Elite 2 se destaca por mostrar a realidade.Muita coisa acontece sim. . .Não apareceu ainda..Fala.Mas lembro que você entrou na firma ganhando quase três salários. Mas aí não ia dar aquele efeito heróico da tropa perfeita. .Ué. ganhando um pouco mais que o salário..Pois é. .. É só o tempo de acordar que ele já corre para curar a ressaca. .. mas ninguém citou aquele cara que estava com uma furadeira no telhado de casa e o caveira acertou ele pensando que era um bandido armado.E o que isso tem de ruim. .Aí o povo ia continuar ganhando sempre a mesma coisa? .. Me vê um conhaque.Conversa de botequim Avistou o amigo e foi logo sentando .Mas esse filme é a realidade mesmo.Faz mais ou menos duas canas e uma cerveja que estou aqui. . Com esse monte de aumento que vai ter para acompanhar o mínimo. Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii rapaz. Cadê o Jurandir? – Perguntou. .Cara. É sempre assim. . procurando pelo balcão. . Sou contra aumento de salário mínimo. Ia ser mais jogo para o povo.Estranho.. Ele chega cedo. Eles tinham é de dimi- nuir o custo de vida.O que foi? . O pessoal tava comentando. essa coisa de aumento é conversa para boi dormir. Sem falar que eu. .Puta que o pariu! .Vai abrir os trabalhos? .Disse que estava com dor de cabeça.Você tá muito revoltado. Eles podiam mostrar isso no filme. 75 . .Claro! Já faz mais de 1 minuto que estou aqui e ainda não bebi nada.É sim.. Que foi? A chefe pegou no seu pé? Dá uma golada que acalma. . Esse jornal é seu? . . não vai adiantar nada. Pode ler.Pois é. não terei aumento porque esse é só para assalariado.

Essa semana é a conta da padaria. Se tivesse revoltado já tinha feito merda.Nem vou reclamar de mais nada. PENDURA ESSA! – Chegou perto do balcão – E vê se desliga essa televisão porque não é todo mundo que tem estômago para merda..Que foi? Vai reclamar do quê? .Não paga a bebida e ainda quer reclamar? . – Dobrou o jornal e pôs sobre a mesa.. MEU QUERIDO. 76 . . – Va- mos ver o que está passando na televisão.. no Big Brother Brasil. Olha essa.. Tô até conformado.” . rapaz.Fodeu! Aí já é demais! Vou nessa! Se o Jurandir pintar por aí. . . O aparelho disparou: “E hoje.Nada. Semana que vem é sua vez. manda um abra- ço.

Consegui chegar ao banheiro. pude sentir o pânico aumentar desesperadoramente. até então. Pensei em voltar para a cama... As mãos tremiam muito. O despertador tocou várias vezes antes de conseguir me levantar. Saí do banheiro e olhei para a porta que me levaria até o corredor do prédio. mas meu corpo desabou. Não poderia ser uma simples ressaca. O grão que correspondia a minha consciência e percepção caiu entre os tacos velhos.. mas consegui alcançar. Será que foi algo ingerido durante a noite anterior? Minha memória só alcançava até o momento em que levantei (alguns minutos atrás). Confusão mental extrema.Estranha manhã Amanheci sem vontade de trabalhar. Sem problemas?. Sinto 77 .. Nada havia do joelho para baixo. apoiando o peso do corpo no cotovelo. As idéias começavam a se misturar. Abri os olhos e após algum tempo (não saberia dizer se minutos ou horas) entendi que estava no chão. até ficar de barriga para cima. Virei-me tentando encontrar a chave. mas fiquei com medo de morrer ali.. Ao olhar no espelho. Senti meu corpo se espalhar por toda parte. Foi um movimento demorado e que me fez vomi- tar pelo menos duas vezes. Uma dor aguda preenchia todo o meu interior. Tentei gritar. sozinho. Cada parte do meu corpo foi se transformando em minúsculas partículas de poeira. Cada passo levava uma eternidade. de me equilibrar. naquele quarto mofado. O crânio foi a última parte a desaparecer. Não foi tão fácil quanto eu imaginava. Uma violenta convulsão atirou-me de costas no chão e fortes dores me fizeram conferir o que estava havendo com minhas mãos. Tentei sentar. Era difícil de acreditar. Ao subir meu tórax. vi meu rosto encharcado de suor. Não teria condições de bater o ponto e desperdiçar o tempo da minha vida em troca daquela mixaria. Senti arrepios e dores internas que se assemelhavam a. nada era novidade. Parecia que o mal estar não era apenas a falta de vontade de chegar ao escritório e olhar para a cara daquela cambada de neuróticos vomitando suas superficialidades e me incomo- dando com seus dramas pessoais enquanto o mundo desabava ao meu redor. Segurei na parede e fui me arrastando nela. a nada que já tivesse visto ou sentido. Que início de dia. Virei-me devagar. Era uma distância curta. mas nenhum som saía pela minha boca.. O mal estar era enorme e não estava em condições. Mas. Ver as horas passarem no nada. Conseguiria chegar?. A chave não estava na fechadura como eu costumava deixar. Pelo menos. hoje não. sequer. Tudo girava. mas elas estavam se desintegrando.

Hoje. Permanecerei aqui? Serei completamente soterrado? Me varrerão para algum lugar antes de colocar o novo piso? O que acontecerá comigo? O que acontece com um pequeno grão de poeira? 78 . que é aqui que estou. Me resumi a esse pequeno grão e daqui assisto a tudo acon- tecer pelo imóvel. começaram a trocar os tacos velhos por uma espécie de piso moderno.

não apenas a visão. As próteses. Sentiu logo algo pastoso entre os dedos. Lá estava ele.. Pior que estava não poderia ficar. Enquanto lavava o da esquerda.Puta que o pariu. incluiu um novo hábito entre o banho e a escovação dos dentes. e ele perguntou: “Colocou o nome? Merda no olho?” Ofereço então esse conto ao grande guerreiro que. a prótese escapuliu.. Até sua higiene pes- soal havia se modificado. Agora. Devia ser efeito dos antidepressivos. Lavou o da direita.. Puxou com cuidado para não escorregar e voltar a cair. Afundou até o punho. ao invés de uma estória em quadrinhos. Na verdade. No fim da história. No nada.. escutei o relato do amigo que passou por essa que irei contar agora.. Já podia sentir os fortes tremores da náusea provocada pela sensação lodosa na mão e pelo mau cheiro. no apertado banheiro. realmente.. .... Ouviu o barulho dela batendo na pia e depois um glupt ao lado. Durante a noite. – Contorceu o rosto. Respirou fundo.. Tateou pelo chão. Enfim. Sorte que ainda não havia utilizado esta parte do banheiro. Meteu o antebraço quase até o cotovelo e vasculhou com cuidado. escutei muitas histórias interessantes que dariam um filme. Desde que perdeu a visão. Um dia. . Quando sentei para por esta inusitada experiência no papel. Ele falou na mesma hora: “Então vai se chamar Merda no olho!”. Mas será que o último usuário tinha? E se aconteceu. Falei para ele que saiu um conto. será que deu descarga como manda o protocolo? Parou em frente ao vaso. Ela havia quicado na pia e caído. Pensou em dar descarga e deixar para lá. Histórias que não poderiam morrer assim. custavam os olhos da cara. 79 . O olho da merda ou o olho na merda. mesmo perdendo a visão. Tinha de lavar suas próteses oculares. Tudo certo. Que seja. um livro.MERDA NO OLHO Baseado em fatos reais No decorrer da vida. ai. Lembrou do preço. Uma coisa quase que dentro da outra.. sua vida tornou-se um pouco mais complicada. Não poderia ser outra coisa. lavando seus olhos dentro da pia. Não tinha outra.. tinha perdido ambas as vistas. .Malditos banheiros modernos. Caiu mesmo no vaso. Ai. Não sabia que existiam sanitários tão profundos. Metade do trabalho já estava concluído. Ele me contava as gargalhadas e eu o acompanhei em cada crise de riso. não perdeu o senso de humor.Unghhhhhhhhhhhhhhhh. sugeri que isso dava um puta roteiro para quadrinhos. metendo a mão devagar. saiu um conto. Ainda não tinha conseguido encontrar. E lá estava.

80 . Preencheu o buraco com o que lhe pertencia. Isso. Esfregou bem. sem falar naquela sensação de ter merda no olho que não passava nunca. O cheiro o perseguiu por algum tempo. tinha merda no olho. Lavou as mãos e o antebraço como nunca na vida. Lavou com muito cuidado.

fez vários concursos públicos. foi morar com ela e um belo dia foi dormir e nunca mais acordou. sonhou em ser músico. de várias manei- ras. . sonhou em ser músico. virou pescador. em vários lugares. cheirou. transou. colheu fruta do pé. preferiu parar em uma fazenda que viu pelo caminho e disse que poderia fazer muitas coisas para pagar sua hospedagem. namorou várias meninas.Juca Juca nasceu. resolveu visitar a família. sentiu frio. namorou várias senhoras. passou no vestibular da faculdade de letras. traficou. bebeu.O que? . saiu com o violão nas costas morando em várias cidades brasileiras. acumulou frustrações. encontrou nova companheira. serviu ao exército. perdeu o violão. resolveu deixar tudo como estava. não gostou de estudar (mas se esforçou). passou por diversas expe- riências (algumas insólitas). morrer agora. pegou estrada. roubou. morreu ---------------------------------------xx---------------------------------------- Juca nasceu. ficou velho. deu um jeito. aprendeu muitas coisas (e outras fez sem aprender). estudou. publicou zines. Trabalhou na lavoura. pensou em escrever livros. estudou. sempre morou em várias casas. trabalhou para fazer o que queria (e o dinheiro nunca deu para nada além de sua sobrevivência e algumas futilidades). continuou a trabalhar (o dinheiro continuou sem resolver). complementou renda daqui e dali. passou no concurso público. pediu para o primo de um amigo para sobrar e não serviu ao quartel. ocupou suas raras horas vagas com qualquer besteira que não lhe desse muito trabalho para pensar. ficou velho e faltando pouco para morrer disse que ainda tinha muito que fazer. teve impressão de estar correndo atrás de miragem. pensou em montar sua própria edi- tora para lançar os livros que um dia escreveria. desistiu. fez artesanato. fez novos concursos. montou várias bandas com vários amigos. fez biscate de ajudante de um monte de coisas. ---------------------------------------xx---------------------------------------- Juca nasceu. vendeu. sentiu fome. assim. trabalhou. pediu esmola. namorou várias mulheres. tocou flauta. estudou. trabalhou. fumou. se aborreceu com o fazendeiro. estudou. se desentendeu com todo mundo. não se enquadrou. 81 . em várias quebradas. tocou gaita. pegou bicho de pé. estudou. pensou em ser escritor. trabalhou. tocou. foi morar na rua (ainda criança). fez cada vez mais amigos. arrumou um trocado. trabalhou. terminou a faculdade. viajou por países vizinhos. desistiu dos sonhos e vontades.O que você quiser. estudou. não podendo. tirou leite de vaca.

Mas nenhuma delas era o que eu queria ter feito. morreu logo depois de nascer. 82 ..Que isso. Mas o senhor fez tanta coisa na vida. ---------------------------------------xx---------------------------------------- Juca nasceu. . ---------------------------------------xx---------------------------------------- Juca nasceu e por causa da incompetência de médicos que se formaram devido a pressão familiar e por falta de equipamentos no hospital público. Juca olhou para o pequeno sobrinho e disse: . tio Juca..

que revezava as aparições pelos lugarejos locais. Apenas o mestre podia ir à cidade. . Era um garoto magricela e de perna torta.” Virou-se apoiado no cajado e continuou a andar. O rapaz dizia não lembrar de seus pais. Todo o tempo era destinado ao ensino da estranha doutrina que o mestre chamava de Visão de Grimola. gritasse e jogasse pedra. ou de como surgira no mundo. Olhou bem para o menino.Fala.Olhou em volta e percebeu que não havia ninguém por perto. . legumes e verduras que havia plantado em locais estratégicos. Ia chegando gente de tudo que era lugar. santo. o velho pensou em caminharem em busca de novos lugares pelo interior. uma menina pediu simpatia para abortar.O Mestre e o Discípulo O discípulo foi encontrado por seu mestre em um dos raros momentos em que o velho eremita aparecia no lugarejo. mas era difícil determinar sua idade. O velho sempre ganhava comida. o que fez com que o mestre o chamasse de Pequena Desgraça que Apareceu. Quando algum zom- bador fazia graça do velho flagelado. Não corria riscos. sábio ou milagreiro. Ele não queria que seu discípulo. bebida e fumo dos que se aproximavam pedindo alguma coisa. Chegam até esse tamanho e estacionam. mas poderia ter mais. vinha logo alguém lembrando que era um santo que estava passando. o sábio mestre se confundiu na direção que 83 . o velho sábio santo percebeu que pequenos passos o seguiam. Uma senhora lhe pediu conselho. Vão espichando bem devagar. garoto? Quer uma benção? Então vá pedir a sua mãe uma oferenda para o sábio. corresse risco de se corromper. Durante a andança. um rapaz pediu explicações sobre o mundo. Ao sair do lugarejo. vivia. o guri não parava de seguir. - Seis anos se passaram e o garoto já era rapaz. Faziam três refeições por dia e dormiam o mínimo possível. Parecia ter nove anos. Os dias passavam tranquilos. O mestre já havia nascido Homem Santo. garoto! O que você quer? – Perguntava cheio de irritação. .. Uma vez por mês ele descia a um dos 12 lugarejos vizinhos da mata e arrecadava o suficiente para juntar com as frutas.Que você quer. Os passos continuavam atrás dele. “As crianças dessa terra não conseguem crescer muito.. Ele era o úni- co que sabia onde o misterioso santo. Quase não se percebe. recém purificado e vulnerável aos ataques do mundo. O mestre ensinara tudo que sabia. Como pequenos sinais do progresso já estavam chegando pela região e a rapazia- da que brotara na última safra de gente não estava para sustentar homem. Por mais que ele xingasse.

aflito. O discípulo acomodou o mestre em bai- xo de uma árvore e foi pegar água no riacho. Três dias se arrastaram e nada do discípulo voltar. achou que ele tinha ido deste plano. . No caminho encontrou um homem a cavalo que lhe contou sobre uma cidade que tinha perto dali. Realmente era um homem santo. Não agüentando mais. Ao constatar o desaparecimento do mestre. . Com esse pensamento perambulou por cada rua e beco até ouvir falar de um jovem que havia chegado por aqueles dias.Mandaram que ele sumisse daqui. O mestre tentou resistir a idéia de deixar o inexperiente discípulo ir até a cidade.Sossegue. A autoridade local teria terminado de espancar o infeliz e desovado na estrada. Já aprendi muito com o senhor. mestre. mas havia encontrado o caminho de volta. o mestre foi ao chão. Não achou a cidade. iam seguir e caminharam por distâncias que pareciam o próprio infinito.E de lá? Para onde ele foi? – Perguntou. O mestre pegou a estrada na direção que lhe fora apontada e nunca mais se ouviu falar do místico eremita. Era uma cidade grande demais para qualquer mestre sobreviver. Segundo soube. Tenho muito conhecimento para passar aos moradores dessa cidade. com corpo e tudo. Esperou mais dois dias para se sentir bem forte e seguiu na direção tomada por Pequena Desgraça. 84 . Havia andando muito e acabou por se perder. Com certeza nos oferecerão até uma carroça para vir buscá-lo. . O menino não estava preparado. o rapaz teria se embebedado e entrado em uma briga com prostitutas e travestis. Que fosse embora sem olhar para trás e nunca mais voltasse. No mesmo dia desse desaparecimento. o jovem chegava ao local onde havia deixado seu mestre. O mestre se recuperou na base da meditação e das sementes e brotos que nasciam por ali.

Do mesmo jeito. .. Hoje tá no preço do friambroles. meu amigo. Leva esse lincórceresatomo que você não vai se arrepender.E como se usa isso? . . . Agora dá linha na pipa que tá vindo mais um freguês. Eu gosto de friambroles. mas leva essa aqui que não vai deixar na mão. . . mas leva essa aqui que não vai deixar a desejar. quando você voltar querendo outro.Fala.Você tem friambroles? . meu chapa.Olha aqui..Friambroles . . 85 . . Me dá esse dinheiro aqui.Mas eu não quero isso. .Lincórceresatomo.Aproveita que amanhã. Me vê um friambroles. Essa é a parada.Friambroles acabou. já vai estar no preço normal.O que é isso? . Tô te fazendo um favor.Mas eu não quero um lincórceresatomo.Friambroles acabou. Eu vim comprar um friambroles.

.. por favor. O vagabundo tava querendo passar por trabalhador..Quietinho aí. 86 . Vocês não sabem o que estão fazendo. Que isso. o Sol já tinha nascido.. . Antes de pegar na portaria do prédio. . Na outra mão. .Por favor. Pedaços pequenos. – Começou a chorar.. Desceu o morro segurando a marmita que a mãe tinha preparado com todo carinho. Tinha de estar de volta antes da hora do colégio. Quando estava quase chegando à metade da descida. arranco sua língua.Pera aí..Não..Pelo amor de.O assalto na subida do motel da estrada. . Para. Uma chuva de socos e coronhadas o fez descansar um pouco. – Gritou o sujeito que ocupava o banco ao lado do motorista. ..Olha isso. socos e coronhadas o levou até o carro sinistro que es- tava oculto pelo mato alto na beira da estrada.. Na hora que atirou no delegado não pensou nisso.Entrega seus cumplices e a gente te leva preso. .. Comecem a cortar o dedo mindinho e vão subindo pelo braço até ele resolver colaborar.. Ia ser um dia bonito.. só pode ser um engano. Em algum lugar perto de você. A essa altura. Vocês devem estar me confundindo.. Só de ida e volta eram mais de duas horas dentro de trem e ônibus. .. Uma sequência de chutes. Não estamos com pressa. já estava algemado e todo mundo se espremia dentro do carro. ..Que delegado? Que isso? . Era uma clareira. rapaz. não podendo deixar a empreitada para depois do expediente.. Quando Pedro percebeu.Joga logo esse merda no carro da linguiça..Confundindo é o caralho.. Não fiz nada de errado. .Vocês não estão entendendo. Vocês não estão entendendo. .. filho da puta.. Isso.Se falar de novo. . iria aproveitar a oportunidade de consertar a bomba que leva água para os moradores e tirar um extra. . levava a bolsa de ferramentas.. Não se faça de bobo. a marmita e as ferramentas já estavam espalhadas no chão. . . Quando acordou.Já vi que esse vai ser difícil.Mas. em meio a um matagal fechado.. . ..Propôs um dos homens que estavam a sua volta..Agora pede pelo amor e tudo. Pedro saiu mais cedo para trabalhar. . estava sendo pendurado de cabeça para baixo em um lugar estranho.

. . Me passa a faca. É fácil e a fuga é rápida. Ficar roubando cliente em porta de motel não dá grana. . O malandro quer passar fome. porra. A polícia acalmou. As investigações seguiam a linha de acerto de contas. Vamos pensar. . eles podem cercar a estrada e aí.Eu acho que menos.Vamos descer ele? .Mas. Mais gargalhadas. nem chorava.Acho que ele não sabia de nada..Vamos casar logo o dinheiro enquanto é tempo. . Passado quase um mês. em um barraco longe dali: .Tô falando sério. Enquanto isso.Menos de uma hora depois. Melhor ficarmos mais um tempo quietos.Depende da estrada. Existiam marcas de tortura e se encontrava pendurado de cabeça para baixo. Um corte abriu a barriga de Pedro.Quanto você acha que dura? . 87 . . Vamos começar a roubar comércio de beira de estrada.Morreu? .Quantos dias a gente ainda têm de esperar? .Acho que esse negócio tá furado.. Deviamos apostar em outro tipo de coisa. Pedro não se sacudia.. deixando o que estava dentro escorrer pelo corpo que começou a tremer. .Não sei.Aí.. mas a família da víti- ma jurava que o morto não tinha nenhuma ligação com atividades que pudessem gerar tal acontecimento.. . . mas podem estar esperando a gente colocar a cabeça pra fora.Ainda não. . . .Não.Em que? Arrumar emprego e ganhar salário mínimo? A gargalhada foi geral.. As que a gente tava usando para o lance do motel eram boas para fazer um ganho. saiu a notícia sobre um corpo em decomposição achado na mata.Eu aposto 1 minuto. Já era.

.Calma. Todos aqueles anos enriquecendo a indústria tabagista vieram lhe cobrar o devido pre- ço: Enfisema pulmonar e câncer de boca. falava com seu filho mais novo e seu funcionário de confiança.Calma.. . quem dá as ordens sou eu. O pai controla a tosse.Deixa de besteira. ..Enézio ainda é meu empregado..Reforçou a segurança em volta das minhas terras? . Enézio? Mandou meu recado pra eles? . . meu patrão..Claro.. . Já estava naquela situação há mais de um mês e a perspectiva de melhora era nenhuma.Mas.Esse médico é um marica da cidade.. . . meu patrão. . pai. . pai. o latifundiário fez um gesto com as mãos tremu- las para que Enézio saísse dali. . Tá vendo? Por isso não pode se esforçar.Que isso? Não fala uma bestagem dessas. É melhor o senhor descan- sar um pouco pra poder sair logo dessa cama. O pai tenta se manter o mais firme que pode e olha bem nos olhos do filho. E não se esquece: Enquanto estiver vivo. . é pra mandá chumbo. Mas eles falaram qui num vão saí.Dizem que tão vindo pra cá. Ele já fez muito esforço pra um dia.Enézio.. .E o problema com o vizinho? .. Não sabe de nada. . Começando uma crise de tosse.Manda ele sumir daqui ou esquecer aquele pedaço de terra e vir trabalhar pra 88 . O pai ainda é forte.. O empregado some pela porta. Enézio já falou tudo que tinha pra falar. Que é negócio duma manifestação pacífica. .Aquilo eu tô resolvendo. . Entre uma respirada e outra no oxigênio.Enézio.. Não precisa se preocupar.. É um borra botas. Não me obrigue a me levantar dessa cama e te dar uma surra.Sim sinhô. A gente sabe que dessa eu não passo. homem. Assim demora mais pra ficar bom.E já avisei que se algum miserávi desses tentá entrá. Melhor deixar meu pai descansar.Pode ir.. O último dia do Coroné O velho fazendeiro estava em sua cama. Ele responde a mim. O médico disse.Manda Orozimbro juntar alguns homens e dá um susto nessa cambada. E os índios. O filho espera ela bater e vai em socorro do pai que já se engasgava de tanto tossir. E os Sem Terra? . Enézio.

Quando sobi que tava doente. Vai me pagá com sangue. Lá pelo meio da madrugada. .” Filosofava. menino. Aquela lumbriguenta não é mulher pra você.Tá fraquinho. O vulto sumiu pela janela e a faca mostrava apenas o cabo brotando do lençol ensanguen- tado. Sentiu algo entrando em sua barriga. Não queria que o criadô me tirasse essa alegria. . Mais um tempo se passou e o nome do Coroné batizou uma ponte e mais tarde uma rua. tratei de me apressar. Escutou. O delegado disse que foi um desentendimento entre os presos. 89 .mim. “Sempre precisamos de bons advogados. Agora. né Coroné. Sô doido por aquela moleca. tudo melhorô e vim cobrá o que é meu. Mas. Lembra di mim? Depois de tanto tempo de trabalho o sinhô me mandô embora com uma surra. Sua boca é tapada assim que abre os olhos. Você vai vê. Caí no mundo igual bicho do mato. Ainda vou me deitar com aquela menina dele. O bom fazendeiro virou quase um santo e seu caçula deu continuidade aos negócios da família. Sem um tustão. . agora. pai. . Aquilo já é nosso. A doença o tinha fragilizado ao extremo. O pai queria que todos estudassem e se formassem em dotô. O fazendeiro tentou fazer força para se soltar.Uma puxada funda no oxigênio. E pra dar dinheiro pra qualquer um. uma voz sussurrante saindo da boca oculta pela penumbra. . descansa que já é tarde. Deixa comigo que sei o que tô fazendo. Amanhã a gente conversa. Os irmãos mais velhos nunca quiseram saber da fazenda por terem ido muito cedo para a cidade. o poderoso fazendeiro é acordado com o sacolejar da cama. Aí a gente pega logo o resto da terra. Os olhos enfermos já fitavam o nada quando o facão acabou de entrar.Toma juízo.Calma. Quero só me divertir. Dinheiro não me interessa mais. eu dô pra um filho. .Vou botar ele para trabalhar pra gente e ainda pagar pra ficar na terra. O assassino foi preso no dia seguinte e apareceu misteriosamente morto depois de um tempo. Se ele sumir é melhor. mas não conseguiu. Num acreditô que num tinha robado suas galinha. então.

E vão pra casa correndo. Pensam nada. vocabulário e simplório? Como assim o senhor acha que estou me fazendo de doido pra. não matei ninguém. Não tenho costume de preocupá com nome das coisas. Não. Empurrei pra ele me largá e foi aí que caiu de cabeça e não levantou mais. né? Isso. Hã? Drogas? Olha. pra ficá na frente da caixa hipnotizadora. Vô olhan- do e definindo do jeito que acho melhor.. né? Assim que pedi. Acho que é esse o nome. Dinheiro? Isso. Não. Servem pra consegui o que quiser. Vou perdê o ônibus colorido que sempre passa de noite. É ônibus o nome daquele tipo de carro grande. Não. Bonito ele. Já são quase todos máquinas. Hã? É.. Isso mesmo. Sei lá. Ali. Não. Também não sei de onde vim.. Dinheiro. Só perguntei se podia arranjá um daqueles papéis que servem pra consegui comida. olhando essa gente dentro das má- quinas de economizá os pés. com um monte de gente dentro? É carro ou televisão o nome da máquina de economizá pés? 90 . Não. É tudo muito esquisito. né dotô? Sempre andei por aí. Dotô.. Não matei ele porque não quis me dar o di. senhor. o respeitável cidadão começou a gritá um monte de coisa doida e me segurou. eles ficam zumbis por horas. Carro. Eles acreditam no que dizem ser verdade e vão repetindo por aí. Sabe como é? Sabe como é. Se foi por isso que matei o cara de terno? Qual nome dele mesmo? Engraçado. Já expliquei que não matei o homem de terno. Vão me levá de volta pra gaiola até eu resolvê colaborá? Então ainda não posso ir embora? Que pena. Não tô sendo engraçado. Apenas pedi um pouco daquele papel pra comprá comida e mais alguma coisa que precisasse. desaprendendo a ser gente e virando mais um aparelho. Nunca falo com ninguém. O que? Eu me utilizo de palavras e pen- samentos elaborados ao mesmo tempo que uso um vocabulário simplório? Mas o que é utilizá. Há quanto tempo estou em situação de rua? Não sei dizê. Tele- visão. Tinha cara de outro nome. não sei de nada disso que o senhor tá falando.

porque eles estão nos expulsando daqui? Eu não quero ir embora.Por quê? Ele não é bandido. Não queria chorar. A poeira fez o menino ter um ataque de tosse.Mas por que tão derrubando nossa casa? Eu até ajudei a senhora na reza para eles não virem. Ainda tínhamos de arrumar um canto para dormir. 91 . . ele não ia deixar.Se papai tivesse aqui. . .Faz o que a vovó tá falando e fica quietinho. Meus olhos enchiam d’água. menino.Mas por que estão fazendo isso com a gente? . . E de pensar que fomos comemorar quando soubemos que os jogos seriam aqui. A filha chegou bem do ladinho dela para falar.Mamãe. Agora. Resistimos enquanto foi possível. .Eu acho. . . Os tratores iam derrubando tudo. .Fica quieto. tá preso. II A mãe foi contida pelos vizinhos. .Mas não foi Deus que criou o.Eles não querem saber da nossa opinião. Ainda não consigo. .Mas eles prenderam seu pai. Fica quietinho que acaba logo. Meu filho ficou todo animado. . cuidar do filho e da casa ao mesmo tempo.Vem. Acho que nunca vou entender..Vovó. Conseguiram acalmá-la. ..Os derrubadores de casas I Segurei forte a mão do meu neto enquanto assistíamos a derrubada de nossa casa. Achei melhor sairmos dali. .Mas se fossem derrubar a casa deles. . Isso é coisa do homem. Por que Deus deixou isso acontecer? .. .Por que dizem que aqui não é o melhor lugar para a gente ficar.Mas a senhora já entende? – Perguntou entre uma tossida e outra.Isso não tem nada haver com Deus.Prenderam porque ele não ficou quieto quando soube que os homens que der- rubam casas iam vir para cá. . Foi ali que o pai dele nasceu e foi ali que encontraram abrigo quando a mãe dele deu no pé e o pai não sabia como trabalhar fora. ninguém ia falar nada? Eles iam ficar quietos também? ..Não. Você ainda é muito pequeno para entender as coisas.

. bota na cadeia. tentando insuflar os demais. . . Os olhos da mãe não desgrudavam da casa. se continuar a criar problema. Imagina se o Governador achar que não estão obedecendo as ordens dele? Aí quem dá as ordens para o Governador também vai achar que não está sendo obedecido.Um dos homens tá criando caso. mamãe? . Se não obe- dece as minhas ordens. assim como o meu. Bota esses homens para trabalhar. Entrou nesse último concurso e na época morava em uma rua das proximidades. Já estava quase tudo no chão. Calisto? . III .Temos um problema. . passando ou cozinhando para eles.Mas agora ele tá aos berros. . Dizendo que não fez concurso para a polícia para isso e que o dever deles é defender a população. . mande para outro lugar. I Enquanto tentava arranjar um canto para dormir com meu neto. pensava em cada cantinho da minha casa. 92 . “.?!” .Vamos logo. -Mas pobreza incomoda? . Todas as lembranças viraram escombros. Só quem passa é que sabe.Substitua essa criatura.Quem disse? O dever dele é obedecer ordens. rapaz.Mas que história é essa? Quem é esse fulano? . Era para estarmos chegando lá.Mas eles não. parece que não estou obedecendo as que recebo e daí por diante. Tá imaginando onde essa corrente vai dar? Tá vendo o volume da merda? Como um sujeito desses faz parte do meu batalhão? Vai lá e diz que ele tá dispensado da ação e.O suficiente para não os incomodar com nossa pobreza.Vão nos mandar para longe.Que problema. mora com a mãe e o filho na favela que vai ser desocupada. Disse que não vai participar da operação e que isso é um absurdo total. .O nome dele é Peçanha. fazer outra coisa. Pelo que estive levantando. Por que está me olhando com essa cara? Não temos tempo a perder. Jorge Peçanha. . Não sabíamos que tinha parente no lugar.Muito longe. -Eles vão mandar a gente para um lugar melhor? .Só não incomoda quando estamos lavando.Vamos.

a gente vai ajudando os amigos. Enquanto estivermos aguentando com nosso teto em pé.Não.Lamento te informar. Eu me ajeitava na casa de algum conhecido.Ela disse quem era? . Sabia que Jorginho não ia gostar.Calma. ele voltou a me perguntar. Os olhos estavam pre- gados no que já se resumia a entulho. Teve confusão. tava morando numa favela próxima.Merda! . . foram interrompidas por outra vizinha .Para onde a gente vai? Não sabia mais o que dizer. Antes da vizinha acabar a explicação. . Você tem de botar sua cabeça no lugar.Tinha uma senhora te procurando. . menino. vovó? II . . mas tinha de procurar a mãe do menino e pedir para deixá-lo passar pelo menos uma noite com ela. Nisso. Tava com um garotinho pela mão. Parece que hoje eles vão derrubar só essa parte. mas começaram a derrubar as casas lá do seu pedaço.Calma. Tentei desviar a atenção e falei que tínhamos de ficar atentos para atravessar. . Todo o dinheiro que tinha economizado para comprar aquela casa tinha virado entulho. . segundo me disseram. sim senhor.Que foi. As lágrimas faziam lama no rosto empoeirado. gente presa.-Vovó.Jorge Peçanha. Não ia ter jeito.Para onde a gente vai. voltou a contemplar os destroços. Quando percebeu o que estava acontecen- do. . filha dela. III -Você é o Peçanha? . Mas ela parecia não ouvir uma palavra dita pela vizinha. mulher. Leva as coisas que conseguimos tirar do seu barraco para o meu e dorme na casa de Heteovina com a menina. Para um fica mais fácil. Soube que a mãe dele tinha voltado e.Mamãe. mas sua mãe e o menino não criaram maio- res problemas. Não havia ne- nhum conhecido em seu campo de visão. .Para onde foram? 93 . Assim que chegamos ao outro lado da rua. Parece que ela tinha chegado com uma menina. a gente vai dormir na casa da tia Heteovina? Ela olhou para a filha. Arlete ficou de pé e olhou para a direção apontada pela vizinha. virou as costas e foi embora.

Mas fica calmo. amigo. Não piore sua situação.Entendo. . Mas é difícil ficar calmo. Será um valor simbólico. Nossos superiores não gostam de insubordinação e é capaz de deixarem você aqui por um bom tempo para servir de exemplo. . também temos família. Mes- mo tendo de obedecer ordens. . . 94 .Tudo bem. É por isso que vou esperar melhorar sua situação para apresentar a conta. Se preocupe com você. precisando de mim.Calma.Isso ainda não sei. . Qualquer notícia sobre eles te avisamos. Só para cobrir os custos desse vai e vem com informações. Mas fica tranquilo que a gente te mantém informado.Minha família tá na rua.

O Bush tem um namorado grego. Bom foi o sapato voando na cabeça do Bush. De repente falta luz. Filho que correu ao telefone para ligar escondido para o namoradinho: Arman- do. Mãe: Mas o Bush não é americano? Aaaaah. 95 . vai falar da Madona.. Mãe: Coitado. Pai e mãe: O marido da Suzana Vieira? Filho de saco cheio: Marido de quem? O Bush. Um rapaz tão bonito. Filho se animando: Espera. Pai irritado: Puta que o pariu! Só faltava essa. Pai: Isso já é nota fria. Então ele é gay? Pai: Está dando merda na Grécia. O namorado dele é grego? Pai: O Bush está tendo um caso com um grego? Então é isso. faltou luz aqui em casa. Mãe desesperada: Onde vai parar esse mundo. Filho de saco cheio: Tinham era que matar esse sacana.A hora do jantar (escrito na época em que tais acontecimentos estavam sendo noticiados na tele- visão) Mãe: Viu o marido da Suzana Vieira? Pai: Que merda ele fez agora? Mãe: Morreu de overdose Filho de saco cheio: E daí? Muita gente morre de overdose. Pai: Quem??? O Bush? Mãe: Não. Me conta o que tá falando da Madona no repórter.. Que Bush? Tô falando do marido da Suzana. Mãe: O marido do Bush.

. um mar de esperma sufocava o submisso castigado que. no centro da sala. . ela estava amordaçada. . mas seus movimentos eram cansados e cambaleantes. puxaram chicotes que estavam ocultos pelo manto e começaram a açoitar a mulher. procurando alguma coisa. que parecia liderar o ritual. ao se ver livre do membro. Mais alguns golpes foram aplicados a vítima e depois todos se afastaram. Assim. ela foi violentada ferozmente por vinte loucos. está 24 horas em nosso poder. suado e completamente atordoado virava a cabeça para os lados. ela já se contorcia no chão. introduzindo na boca tremula. abriu a boca golfando. . Ela tentava resis- tir. com as mãos amarradas para trás. 96 . sem água ou comida.Isso. se aproximou do homem e com uma voz tétrica disse: . se alimentando apenas das emulsões mágicas. O estranho ritual Os sacerdotes se aproximaram do corpo nu que se encontrava ajoelhado. ... . Enquanto você foi tran- cado em um quarto. de onde puxou o pênis latejante. A venda foi tirada de seus olhos com brutalidade. Ele pode reconhecer a namorada sendo trazida por alguns homens musculosos. O sacerdote abriu o manto. Dessa forma. assim como você.. Alguns minutos depois. . – Choramingou o ajoelhado. Parecia enfra- quecida e alguns hematomas podiam ser vistos na pele branca. que se encontravam imóveis até então. O sacerdote. Um homem vendado. Um gemido constante o fez olhar para o lado. abra a boca que o ritual vai começar.Dizia o líder dos sacerdotes.Você veio aqui porque tem uma dívida com Satã e quer se libertar do compro- misso que você mesmo assumiu em um momento de desespero. Foi empurrada para o chão.É esse pedaço de carne que você vai oferecer a Satanás? Ele olhou para o sacerdote e balançou a cabeça afirmativamente. Além de vendada. durante toda a noite. Os outros sa- cerdotes.Então.Ela.Sim. enquanto observava as chicotadas cortarem a pele da mulher. você alcançará sua libertação. de sunga e botas de motoqueiro. até sumirem nas sombras do aposento escuro. arfando e gemendo muito. Após os primeiros golpes. próxima a ele.

que água é sólido. mostra o desdém para justificar sua ausência no primeiro lugar. As duas maiores variações de fanáticos são os Religiosos e os Ideológi- cos. O horizonte nunca vai além dele. Doutrina: “Faço só o que me der voto!” Vida em grupo: Se reúnem em partidos. Qualquer forma de raciocínio se compara ao sofrimento eterno. mesmo não sendo compatíveis com o que dizem pensar. Costumam ser chatos e cansativos. De acordo com o grau de fanatismo do grupo. São presas fáceis para os Políti- cos Partidários e outros grupos que não serão tratados nesse trabalho. com certeza. Doutrina: “Ddddddddddddãããããããããããããããããããããããããããã” Vida em grupo: Passam os dias entre a perda de tempo e a conversa fiada. como os Publicitários e os Apresentadores de Programas de Televisão. Talvez seja o grupo que apresente maiores variações. Quer sempre ser o melhor. Veremos aqui alguns exemplos desse ser para termos uma visão geral de como se comporta tal criatura.Políticos Partidários: Com profundos conhecimentos de ilusionismo e teatralidade eles conseguem tudo o que querem. Pensar é sempre algo doloroso. . . eles podem se tornar extre- mamente violentos e até letais. Doutrina: “Eu estou certo” Vida em grupo: Vivem exclusivamente para seu grupo.Competidores: Compete com tudo e com todos. saia de perto. pois mesmo os amisto- sos conseguem ser mais chatos e cansativos que os Alienados. Ele se divide em vários grupos e subgrupos.A BIZARRA FAUNA HUMANA Dos animais mais bizarros encontrados na fauna de nosso planeta. fazem pactos com outros partidos. 97 .Fanáticos: Existem diversos tipos de fanáticos. Se existe algo que não possa fazer. . o de maior destaque é o ser humano.Alienados: Esse grupo humano pode ser identificado principalmente por usar seu cérebro apenas como recheio do crânio. Provam que 2+2=5. que a política parti- dária é a forma mais eficaz de política e que Deus está sempre do lado de quem vai vencer. Uma coisa é certa: Se você ver um fanático. De acordo com a conveniência. Podemos dizer que vieram ao mundo e perderam a viagem. Existem tipos migratórios neste grupo. .

. Ele precisa ter.. Doutrina: “Existe.. . Logo. seus companhei- ros. 98 . Muito difícil conviver com essa espécie. Ter é o ato mais importante de sua existência. Quero ter!” Vida em grupo: Ele quer sempre ter tanto quanto.Acumulador: Esse tipo tem como principal característica acumular tudo que puder. A própria razão da vida. Ele é um subgrupo derivado dos competidores. Ter ao máximo de tudo que possa existir. ou mais que.. Doutrina: “Eu sei! Eu tenho! Eu sou o melhor!” Vida em grupo: Loucura total.

Presa fácil para qualquer outro grupo humano que tenha o mínimo de inteligência e disposição. 99 .Baba Ovo: Adoram dar uma puxada no saco e viver na submissão. meus pêsames.Modistas: Esse grupo é da pesada. Se a moda é peitinho entra na faca e diminui os peitos. Costumam acasalar e praticar as demais atividades só entre eles. Sei que você deve estar se tremendo todo. misturados com os Com- petidores e Acumuladores. O cara é o máximo. silicone nele. o Baba Ovo se relaciona com outros tipos de seres humanos.Egocêntricos: Esse está entre os mais asquerosos tipos de humanos. Assim como o peixe pilo- to se relaciona com o tubarão. . mas tem.. Um pesquisador tem de ter estômago forte e nervos de aço. Vamos respirar fundo. Doutrina: “O que posso fazer? Tenho de aceitar. mas se a moda é peitão. . A primeira vista pode parecer impossível ter alguma criatura que apre- cie viver como capacho. para não darmos um nó nas tripas logo de arrancada. Doutrina: “Você é o cara!” Vida em grupo: Normalmente não gostam de viver em grandes grupos. tão bem quanto ele. Em suma: Merda para mais de balde. colocar algo bem leve na vitrola e fazer essa leitura em jejum. pois ainda há muitas modalidades do asqueroso ser para serem analisadas. É um subgrupo derivado dos Alienados e dos Egocêntricos.” Vida em grupo: Estudo ainda em andamento. .Conformistas: O grupo dos conformistas é composto por um tipo muito peculiar de ser hu- mano. Não perde uma. o negócio é estar igual ao ídolo do momento.A BIZARRA FAUNA HUMANA – 2ª parte Para quem acompanha nosso trabalho e se arrepiou com a primeira parte des- se impressionante estudo. Os arrepios de nojo devem estar subindo pelas suas costas. Ninguém pode com ele. E vamos que vamos. pois existe certa disputa entre eles para ser o mais submisso diante de seu ícone. Mas não tema. Preparados? Então vamos. Ele acha que tudo é assim mesmo. Doutrina: “A TV é meu pastor e nada me faltará!” Vida em grupo: Passeios por lojas e centros de consumo são o auge da vida em grupo. Desde a cueca (ou a calcinha) até o corte de cabelo.. Doutrina: “Eu sou o cara”! Vida em grupo: Seu grupo é formado por ele mesmo e por quem quiser puxar seu saco. Ou pelo menos é assim que ele “pensa”. . Ninguém faz o que ele faz. Todo egocêntrico de respeito tem de ter um ao seu lado. É nosso próximo grupo estudado.

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. como células malignas. Tento ser um abençoado. Estou perdido. Acumulo apenas desilusão. Minha recompensa é o escárnio. as pessoas me atiram seus restos. aranhas venenosas. Quando penso que passei por tudo. com tanto frio. Tendo dividir todo o bem. Escorpiões. Sinto sua presença e calafrios. cobras aladas e dragões. Me atiram garrafas e absurdos. Por que tudo tem de ser assim? Por que o homem.EPÍLOGO: Insônia Insônia Lágrimas de sangue que escorrem enquanto me apunhalam sem compaixão. Os ponteiros passam agrupando muita angustia em meu ser. Sou apenas mais um inseto vivendo a morte a cada momento enquanto degusto meu inseticida. maldade e covardia. se nega a crer em todo o bem que ainda possa existir? Será que pode? Disso eu não sei.

Não tenho respostas.. Não tenho perguntas. Só nos restam justificativas vazias em um mundo bizarro que insiste em viver . Sinto a vida seguir e partir. Não sei mais o que sentir. Todas trancadas. São tantas portas.. Só o vazio a me preencher como um cálice sedento e empoeirado.

SOBRE O AUTOR:

Fabio da Silva Barbosa

Jornalista e escritor, dedica sua vida ao trabalho de registrar nossa barbárie
social, além de produzir e se expressar através de formatos pouco convencionais,
bailando entre o consciente e o inconsciente, unindo a realidade brutal do
nosso tempo a delírios e viagens rumo a novas possibilidades. Idealizou e
realizou diversos projetos, como o Comunidade Editoria (junto do sempre
irmão Luiz Henrique) e o Impresso das Comunidades (com o companheiro de
infância Alexandre Mendes). Entrou para o mundo dos fanzines no final de 89
e até hoje produz esses veículos de forma independente. Com Winter Bastos e
Alexandre Mendes, Fabio lançou o livro Um ano de Berro – 365 dias de fúria,
pela Editora Independente, de Brasília. Participou do livro Cumplicidade das
letras (coletânea reunindo o trabalho de diversos poetas). Foi convidado pelo
amigo Victor Durão a participar do programa de rádio Hora Macabra, onde
ficou certo tempo fazendo parte da equipe. Além dos blogs onde divulgava o
material que saia em seus jornais impressos, ele ainda criou dois outros para
dar vazão a suas experiências e criações. Ambos, o Inverso&aocontrario e o
Reboco Caído, sumiram da internet, mas conseguiram manter seus leitores com
acesso a atualizações diárias durante seus anos de existência. Organizou alguns
materiais em dois PDFs que foram lançados de forma gratuita na internet (A
Saga do Jornalismo Livre e Quem somos nós?). Atuou em parceria com o artista e
militante Eduardo Marinho em experiências como o fanzine Pençá e a iniciativa
Vídeo-Garagem. É Assessor de Imprensa da Amarle (Associação de Moradores e
Amigos da Rua Laurindo e Entorno) e vem participando do Grupo de Estudos
e Oficina Roda Vivia, que pretende iniciar suas atividades no interior de
presídios. Contribui para vários veículos impressos e via internet.

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org.br .padreleo.Lamparina Luminosa é um projeto que integra as atividades da Associação de Promoção Humana e Resgate da Cidadania +55 (11) 4127 0866 +55 (11) 4334 1142 www.

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mostrando que são. o cotidiano de uma sociedade injusta. onde a realidade muitas vezes se dilui no inusitado de uma neurose social compulsiva. partes da grande maioria. Nestas páginas. sem deixar de viajar por caminhos poéticos e até delirantes. .ESCRITOS MALDITOS DE UMA REALIDADE INSANA busca registrar de forma direta. transbordando por todo lado. partes de um todo. desigual e opressiva. na verdade. os marginalizados passam em desfiles solitários e fantasmagóricos. A margem toma seu lugar no centro e a escuridão se torna a luz necessária para apreciarmos pontos evitados por muitos.

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