Edição Nº 19

OUT/2016

O CONCEITO DE GÊNERO EM SCOTT, BUTLER E PRECIADO,
APROXIMAÇÕES, DISTANCIAMENTOS E A CONTRIBUIÇÃO PARA O
OFÍCIO DO HISTORIADOR 153

Natanael de Freitas Silva
Mestrando em História (PPHR/UFRRJ/CAPES)
E-mail: natanaelfreitass@gmail.com

RESUMO:
Atualmente os estudos de gênero desfrutam de considerável reconhecimento acadêmico, social e
político. Inegavelmente, a categoria gênero surgiu no bojo do debate sobre a História das
Mulheres ao longo das décadas de 1960/70 e passou a ser usada como uma possibilidade de
teorização sobre a diferença sexual oferecendo uma alternativa às explicações que pautavam no
biológico as diferenças sociais e sexuais existentes. Em vista disso, este texto objetiva
apresentar algumas aproximações e distanciamentos nas concepções de gênero propostas por
Joan Scott, Judith Butler e Beatriz/Paul Preciado, focalizando, principalmente, a desconstrução
do binarismo gênero/sexo, natureza/cultura e evidenciar a contribuição dessa categoria para o
ofício do historiador.

Palavras-Chave: Gênero, historiografia, discurso.

ABSTRACT:
Nowadays gender‟s studies enjoy considerable academic recognition, social and
political. Undeniably, the gender category emerged in the midst of the debate on the
History of Women over the decades of 1960/70 and went on to be used as a possibility
of theorizing about sexual difference by offering an alternative to explanations which
marked social differences in the biological and existing sex. In view of this, this paper
aims to present some similarities and differences in gender proposed designs by Joan
Scott, Judith Butler and Beatriz/Paul Preciado, mainly focusing on the deconstruction of
the binary gender/sex, nature/culture and highlight the contribution of this category to
the historian occupation.
Keywords: Genre, historiography, speech.

Atualmente os estudos de gênero desfrutam de considerável reconhecimento
acadêmico, social e político. Uma vasta, expressiva e impactante produção bibliográfica
na área das ciências humanas, além de revistas acadêmicas, grupos de pesquisas e

como campo de investigação das relações sociais do sexo. Gênero e Racismo. de “ideologia de gênero”. Gênero e Escravidão. não só como . 2006. Gênero. amplia-se o debate em torno das relações de gênero evidenciando o seu caráter não natural.2 afirma que esta passou por uma significativa transformação (PERROT. Por outro lado. a categoria gênero surgiu no bojo do debate sobre a História das Mulheres ao longo das décadas de 1960/70 (MATOS. Deste modo. 154 Parentesco e Conjugalidades. PERROT. RAGO. 1995. Gênero e Sexualidade. não posso deixar de registrar que. 2007) contra toda e qualquer reflexão que coloque em xeque os privilégios da heteronormatividade1. Gênero e Família. complexificando o olhar para além das mulheres e incorporando as relações entre os gêneros e. consequentemente. 1995). a entrada maciça das mulheres no campo universitário entre os anos 60/70 do século XX. 2006) e passou a ser usada como uma possibilidade de teorização sobre a diferença sexual oferecendo uma alternativa às explicações que pautavam no biológico as diferenças sociais e sexuais existentes. Como bem aponta a historiadora Margareth Rago. Inegavelmente. Edição Nº 19 OUT/2016 eventos diversos. os estudos de gênero têm sofrido certas resistências. protagonizado por setores conservadores da sociedade que o tem denominado. Um dos pontos fundamentais desta proposta analítica é a percepção de que o gênero é um dos modos de compreender e analisar as históricas concepções de masculinidades e feminilidades e uma forma de evidenciar as hierarquias entre os sexos. segundo uma relação espaço-tempo. 1998. SCHVARZMAN. considerada a grande mestra da História das Mulheres. denunciando as desigualdades e as históricas opressões e hierarquias entre os sexos. 1998. apontando a historicidade do “ser homem” e “ser mulher” numa determinada sociedade. Gênero e Poder. Gênero e Feminismos. produzindo uma espécie de “pânico moral” (MISKOLCI. Gênero e Saúde. tem articulado o conceito e/ou categoria gênero a uma diversa e significativa série de temas e discussões teórico-metodológicas como: Gênero e Identidades. equivocadamente. Gênero e Masculinidades. as masculinidades. Gênero e Sociedade etc. Segundo a historiadora francesa Michele Perrot.

das bruxas e loucas. Elas não só reivindicaram seu lugar na História. Heleieth Saffiot (1992). a consistência teórica de uma pesquisa (e me refiro especificamente aos estudos de gênero) ocorre quando alguns autores conversam minimamente entre si compartilhando. da prostituição. da maternidade. Linda Nicholson (2000). Sociologia e Antropologia. em alguma medida. p. às vezes. na minha percepção. qual perspectiva trilhar. vem discutindo. p. Raewyn Connell (2014. Margaret Rago (1998).90). o nosso saber sempre é parcial. novas práticas problematizadas e novas interpretações forjadas. novos mundos foram descortinados. provocou uma “feminização do espaço acadêmico”. como aponta Donna Haraway (1995). desconfio e não concordo com uma prática que considero redutora. das fazendeiras. tratava-se “de encontrar as categorias adequadas para conhecer os mundos femininos. 1998. Logo. ademais. mas como produtoras de conhecimento. pesquisadores e militantes pode sentir-se perdido em qual caminho seguir. lacunar e localizado. Indo além da inclusão das mulheres no discurso histórico. Digo isso por que. Desde então. “Histórias da vida privada. em meio a essa miríade e. do aborto. Judith Butler (2013). qualquer um de nós estudantes. O que era considerado como 155 característico do(s) mundo(s) feminino(s) ganhou visibilidade no relato histórico. Edição Nº 19 OUT/2016 estudantes. Por isso. como demandaram novos temas e novas abordagens. . teorizando e propondo definições para o termo gênero. divergentes definições e proposições em relação ao gênero. Preciado (2014). Posso destacar nomes como Joan Scott (1990). Todavia. da infância e da família. para falar das práticas das mulheres no passado e no presente e para propor novas possíveis interpretações inimagináveis na ótica masculina” (Idem. enfermeiras” (RAGO. uma série de autoras de diversas matrizes teóricas e metodológicas e de distintos campos do conhecimento como História. Gaylin Rubin (1993). Donna Haraway (2004). 1998. de certa forma. Paul B. do amor. como também desestabilizou uma produção científica masculina e heterossexista. entre tantas outras e outros. empresárias. pois se constituem nas lentes que nos permitem olhar e analisar uma determinada realidade. Parto da ideia de que a elaboração do nosso referencial teórico é política. um mesmo referencial epistemológico. 2015).92).

B ou C sem refletir o porquê ou como cheguei àquela concepção de gênero e não outra. bem como os estudos por ela possibilitados. por exemplo. como categoria analítica. nos lança a seguinte questão: afinal. [significa] deixar de focalizar a „mulher‟ ou as „mulheres‟. p. [trata-se] de relações entre homens e mulheres. 1998. é fundamental uma reflexão mais aprofundada sobre o termo gênero. “Falar de gênero. para historiadoras como Joana Pedro e Maria Izilda Matos. [Porém] procede de um campo profundamente diverso daquele que tinha como horizonte a emacipação social de determinados setores sociais (RAGO. “em face da insuficiência dos corpos teóricos existentes para explicar a persistência da desigualdade entre homens e mulheres” (1998. todo saber é político”. ou seja. da mesma forma como quando falamos de classe. p. geração” (2005. p. Em dialógo com Joan Scott. penso que não basta dizer que trabalho com a noção do autor A. o que considero mais importante para a nossa reflexão é que.29). não nasce do interior de um sistema de pensamento definido como o conceito de classes em relação ao marxismo. Porém. além de reivindicar para si um território específico. Assim. inclusive ele mesmo. 156 xxi). mas também entre mulheres e entre homens” (PEDRO.71). “não há saber neutro. a necessidade de se historicizar os conceitos e categorias” (MATOS. 2011. raça/etnia. não é mais o que foi até os anos 1990. como nos diz Foucault (1979. ampliou o conhecimento do objeto histórico e diversificou a documentação. p. novas temporalidades. . Maria Izilda Matos chama atenção para o caráter instável e transitório da categoria gênero. uma prática de corte e cola de trechos de obras de diversos autores/as como um simples argumento de autoridade. sinônimo de mulher ou apenas de história das mulheres. 2006. o gênero possibilitou novas questões.69). Pois. “do que estamos falando quando dizemos “relações de Gênero”? Estamos nos referindo a uma categoria de análise. Independente de ser entendido como conceito ou categoria.78). Edição Nº 19 OUT/2016 que é o uso instrumental da teoria. bem como. Joana Pedro. Também gostaria de destacar que a categoria gênero. Margaret Rago reconhece que o gênero como categoria. Segundo a autora. “o gênero apontou a necessidade de se libertar de conceitos abstratos e universais. p. além de aceitar a efemeridade e transitoriedade dos conceitos e da produção do conhecimento. p.273).

Edição Nº 19 OUT/2016 Entenda-se. o crescimento da produção historiográfica sobre o gênero. talvez. verdade. Judith Butler e o seu Problemas de gênero (2013) e Beatriz Preciado (2014) com o seu provocativo Manifesto contrassexual. uma série de pesquisas e reflexões são formuladas e fundamentadas. método e explicação 157 persistem. 278). mas. Primeiramente. pois além de assegurar uma posição classificatória. fontes. Contudo. sedimentando um determinado modo de fazer e pensar as relações de gênero. ao contrário de esgotar as possilibidades. e entre eles a diversidade que envolve a própria categoria gênero (MATOS. “instaura um certo grupo de discursos e seu modo singular de ser” (FOUCAULT. ou seja. Todavia. no sentido negativo do termo. a ideia é apontar algumas aproximações e distanciamentos como um exercício de historicizição da categoria gênero e apresentar como o mesmo pode ser profícuo no ofício do/a historiador/a. tenho me aproximado das proposições de três autoras de ampla ressonância. 1998:74). o que aponta a necessidade de aprofudamento e conhecimento . sexualidade e discurso. como sugere Foucault. O GÊNERO EM SCOTT. não pretendo com esse exercício comparativo esgotar e dar conta de todas as proposições desses trabalhos. O exercício aqui proposto é o de identificar possíveis aproximações e distanciamentos nas definições da categoria gênero. instaurando um debate fértil. um “problema de gênero”. com o texto Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1990). 2006. parto da ideia de que elas são instauradoras de discursividade. e retomo as palavras de Maria Izilda Matos. Com efeito. no seu texto o que é um autor? (2006). são elas: Joan Scott. um problema que desorganiza mass também abre novos caminhos e possibilidades analíticas. abriu controvérsias. o proletariado. BUTLER E PRECIADO Ao longo da minha investida nesse campo minado. a partir de suas obras. alguns problemas de definição. como diria Butler. p. Um dos outros pontos de aproximação entre elas é a utilização e apropriação das noções focaultianas de poder. aventado por elas. Não sei se concordo que seja um problema.

“sem o sentido não há experiência. De modo geral. [. Aqui é evidente a influência de Foucault que entende o discurso “como uma série de segmentos descontínuos. É pensar. sem processo de significação não há sentido” (SCOTT. o que Scott está defendendo é a historicidade da própria noção de experiência. p.as ordens simbólicas . reflexo da realidade. ela entende que a “linguagem não designa somente as palavras. pensamento e ação (RAGO. assim como o discurso deixa de ser considerado como mera abstração conceitual. 1998. da leitura e da escrita” (Scott. 2014). Scott sublinha que a experiência não deve servir como uma evidência para ilustrar a diferença (de sexo. cuja função tática não é uniforme nem estável. segundo Miriam 158 Pilar Grossi. que. então.11).. p. p. mas sim os sujeitos que são constituídos pela experiência. gênero ou sexualidade). sobre o que o conhecimento é apresentado (SCOTT. p. por aquilo que muitas autoras definem [como] discurso” (2004. pois não são indivíduos que têm experiências.31) Desta forma. em diálogo com Scott. Para Scott. como evidencia em si mesma. por exemplo. é possível . não a origem de nossa explanação. logo. deixa de ser vista como autenticidade do vivido. p.] mas. Edição Nº 19 OUT/2016 do saber proposto pelo filósofo do cuidado. logo. no efeito Foucault na historiografia como aponta Margaret Rago (1995) e Albuquerque Júnior (2004) e também na acolhida de Foucault pelo movimento feminista (RAGO. Margaret Rago. Em seu texto A invisibilidade da experiência. Scott reconhece que a linguagem não é tudo. mas os sistemas de significação . pois. Experiência nesta definição torna-se. o potencial produtivo e questionador da experiência encontra-se no momento em que ela é usada como possibilidade de exploração do processo de construção das próprias diferenças. p. 1990. por isso. mas sim o que procuramos explicar. ao contrário. a partir da oposição binária que hierarquiza teoria e prática. portanto. p. 1990. corrobora essa ideia ao dizer que: a experiência. é o “exame crítico de todas as categorias explicativas normalmente tomadas como óbvias” (SCOTT. 2013. não a evidencia legitimadora (porque vista ou sentida) que fundamenta o que é conhecido. 1990. 1988.que antecedem o domínio da palavra propriamente dita. como uma multiplicidade de elementos discursivos que podem entrar em estratégias diferentes” (FOUCAULT. elas são consideradas pós-estruturalistas.111).304).5).. “o discurso é um instrumento de orientação do mundo”. esta corrente de pensamento entende que “o gênero se constitui pela linguagem.11).11).

de tal forma que a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma (2013. Assim ela termina dizendo que “a dualidade do sexo num domínio pré-discursivo é uma das maneiras pelas quais a estabilidade interna e a estrutura binária do sexo são eficazmente asseguradas” (2013. Desta forma. Nas palavras de Margareth Rago: 159 trata-se. 1990. Por isso. anterior à cultura. Em suas palavras se o carater imutável do sexo é contestável. um conjunto plural de experiências sociais. que os sujeitos estão nos pontos de chegada e não de partida como acreditávamos então.25). heterossexualidade/homossexualidade. Um dos alvos de suas reflexões é desmontar os binarismos natureza/cultura.11). áreas. p.25). p. um sujeito em processo. culturais e históricas que delineiam. nos processos de produção. mas um devir.91).14). talvez o sexo sempre tenha sido gênero. Diferentemente de Scott. normatização e normalização dos corpos. e ainda. uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura (2013. ele também é o meio discursivo/cultural pelo qual “a natureza sexuada” ou “um sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”. Butler e Preciado evidenciam como o discurso heterocentrado atua na produção de corpos-homem e corpos-mulher. tomado como ponto de partida. p. e dão sentido. a rigor. Com efeito. Nesse sentido. p.25). etc. é possível . e os conceitos jogam na definição da personalidade e da história humana” (SCOTT. Butler vai propor uma indiferenciação nas noções de gênero e sexo. nessa referência. p. de perceber que as subjetividades são históricas e não naturais. para Scott. para quem o gênero “é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos [e é] um primeiro modo de dar significado às relações de poder” (1990. qualquer teoria “que não leve [a linguagem] em consideração não saberá perceber os poderosos papéis que os símbolos. Na esteira da desconstrução. o sujeito de gênero não é um dado ontológico. que as conexões podem ser estabelecidas entre campos. talvez o próprio constructo chamado “sexo” seja tão culturalmente construído quanto o gênero. as metáforas. dimensões sem necessidade exterior pré-determinada (1998. homem/mulher. p. às experiências de masculinidades e feminilidades. Butler afirma que o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza. Edição Nº 19 OUT/2016 pensar historicamente nas hierarquias entre os gêneros. e de acordo com Butler.

como sugerem algumas das criticas simplificadoras e redutoras ao pensamento dito pós-estruturalista. com isso. e não biologicamente. ela chama a atenção ao fato de que antes mesmo de nascer somos inseridos em uma histórica matriz de inteligibilidade heterossexual. é através do corpo que vivemos.15). normal/anormal. Através de uma pedagogia de gênero é agenciada uma série de atributos. 2003. inseridos numa ampla e complexa rede de relações socioculturais que inscrevem nos corpos. 2008. performances que “inscreve nos corpos o gênero e a sexualidade legítimos” (LOURO. p. p. Para Louro. Edição Nº 19 OUT/2016 entender que as experiências dos sujeitos de gênero não são anteriores ao acontecimento. o corpo é inserido numa teia de significados. os mesmos são produzidos e constituídos na ação com o Outro. p. a dimensão biopsicossocial dos sujeitos. a afirmação „é um menino‟ ou „é uma menina‟ “inaugura um processo de masculinização ou de feminilização com o qual o sujeito se compromete” (2008. inserindo-os numa matriz de inteligibilidade. “o ato de . a ecografia (exame médico aplicado através do ultrassom que identifica o sexo biológico da criança) é uma das estratégias da biopolítica que produzem corpos-homens e corpos-mulheres. Isso não quer dizer.16). Berenice Bento (2003). Nas palavras de Guacira Louro. através da repetição estilizada de atos. inegavelmente. se trata de historicizar os sentidos. Ao analisar as experiências trans.97). pois. como exemplo dessa estratégia pedagógica do gênero. Todavia. existimos e constituímos nossa posição de sujeito no campo das históricas experiências de masculinidades e feminilidades. gestos. Bento destaca. nos movemos. doente/sarado. Assim. Estas experiências são definidas historicamente. uma suposta coerência entre sexo e 160 gênero. Guacira Lopes Louro (2008) e Simone Ávila (2014) salientam como o gênero é um constructo social. que “a ecografia é uma tecnologia prescritiva e não descritiva” (BENTO. Louro alega que ao nascer. que se esteja negando a materialidade dos corpos. pelo contrário. cultural e histórico e não um dado biológico. produzindo assim corpos-homens e corpos-mulheres. os valores atribuídos sobre o corpo que forjam binarismos classificatórios como belo/feio.

prática sexual e desejo” (2013. definir o sujeito pela sua sexualidade. pois implica no reconhecimento sobre “o que é sexualidade para além das concepções biológicas. pois ao nascer. Não obstante. gênero. renunciando “não só a uma identidade sexual fechada e determinada naturalmente. desejantes. p. Nesse contrato. p. entende-se que “o corpo já nasce maculado pela cultura” (BENTO. Assim. os corpos não se reconheceriam mais como homens ou mulheres. o ato de interpelar já é uma ação política e não apenas verbal. mas o que se enfatiza são os processos e as práticas discursivas que fazem com que aspectos dos corpos se convertam em definidores de gênero e de sexualidade e. como afirma Ávila. Edição Nº 19 OUT/2016 nomear o corpo acontece no interior da lógica que supõe o sexo como um “dado” anterior à cultura e lhe atribui um caráter imutável. como também aos benefícios que poderiam obter de uma naturalização dos efeitos sociais.21). p. obrigando-nos a pensar nas vivências da sexualidade nos âmbitos privado e público. p. são “aqueles que. sublinha que “a contrassexualidade aponta para a substituição desse contrato social que denominamos Natureza por um contrato contrassexual” (PRECIADO. instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo. tanto como prática individual.38) e.80). . como conseqüência. 2003. em certo sentido. não se trata de negar a materialidade dos corpos.3 o gênero é entendido como uma sofisticada tecnologia social heteronormativa que produz gêneros inteligíveis. a-histórico e binário” (2008. em seguida. econômicos e jurídicos de suas práticas significantes” (Idem). como prática social e política” (2014. Como bem observa Guacira Lopes Louro. 2014.25-26). mas sim como corpos falantes. consequentemente. filósofas contemporâneas e primordiais para os chamados estudos queer. É marcar. p. cujas performatividades normativas foram inscritas nos corpos como verdades biológicas”. exclui todos aqueles e aquelas que fogem a essa norma. Preciado propõe primeiramente “uma análise crítica da diferença de gênero e sexo. de atribuir um lugar para aquele indivíduo. Portanto.98). p. Neste caso. o corpo já é inscrito em um campo discursivo heteronormativo. 161 inserindo-o numa matriz de inteligibilidade. acabem por se converter em definidores dos sujeitos (2008. À vista disso. e partindo de uma episteme similar. para autoras como Butler e Preciado.15). segundo Butler. que. “a transexualidade coloca em xeque normas sociais”. produto do contrato social heterocentrado.

Edição Nº 19 OUT/2016 O que Butler e Preciado criticam.seja em relação ao corpo. 1993.223): Rubin examinava a “domesticação das mulheres” na qual as fêmeas humanas eram o material bruto na produção social de mulheres através da troca nos sistemas de parentesco controlados por homens na instituição da cultura humana. negadas ou reprimidas” (1990. 2012) que segundo Haraway (2004. entendida como um conjunto de “instituições linguísticas como . Ela definia o sistema sexo-gênero como o sistema de relações sociais que transformava a sexualidade biológica em produtos da atividade humana e no qual são satisfeitas as necessidades sexuais específicas daí historicamente resultantes. Scott enfatiza que as categorias homem e mulher são “ao mesmo tempo categorias vazias e transbordantes. Por isso. Gayle Rubin buscava compreender as relações sociais que transformavam “uma fêmea da espécie” em “uma mulher domesticada” (RUBIN. é o binarismo Natureza/Cultura. sem historicizar os sentidos atribuídos à noção de “natureza”. Butler enfatiza que essa alocação do sexo como elemento pré-discursivo não passa de um efeito do aparato de construção cultural que “designamos por gênero”. p. quando parecem fixadas. Rubin pressupunha uma dicotomia entre natureza e cultura. apud SCOTT. Scott concorda com a visão da antropóloga Gayle Rubin de que a psicanálise fornece uma teoria para a reprodução do gênero.68) como argumenta Lévi-Strauss. E. uma descrição da “transformação da sexualidade biológica dos indivíduos à medida da sua aculturação” (RUBIN. MOSCHKOVICH.19). elas 162 desmontam o sistema sexo/gênero proposto por Gayle Rubin (1993 e 2003. pois que. p. considero importante a sua concepção de “tecnologia social heteronormativa”. elas recebem. Scott mantém a noção de diferença com o algo inerente do campo biológico. principalmente. ao apresentar a noção de “identidade subjetiva” como o quarto aspecto da sua definição do gênero. 2013. p. duvidando que exista uma estrutura universal “da troca reguladora que caracteriza todos os sistemas de parentesco” (BUTLER. Com efeito. ademais. Entre os diversos pontos abordados por Preciado . 1990:15). definições alternativas. Entretanto.2). Publicado originalmente em 1975. Alicerçada numa perspectiva marxista. ao gênero e à sexualidade-. apesar de tudo. presente no paradigma estruturalista. Mas ainda assim. em seu texto O tráfico de mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo. p.

2014.29). Tal concepção é forjada a partir da noção de tecnologia de Foucault. [Assim] a natureza humana é um efeito da tecnologia social que reproduz nos corpos. nos espaços e nos discursos a equação natureza=heterossexualidade (PRECIADO. p. p. Foge das falsas dicotomias metafísicas entre o corpo e a alma. p. Inspirada em Donna Haraway (2009). O gênero é. Deste modo. um efeito das práticas culturais linguístico-discursivas) como desejaria Judith Butler. Deste modo. assim como técnicas de desejo e de saber que geram diferentes posições de sujeito de saber-prazer” (PRECIADO. uma técnica é um dispositivo complexo de poder e saber que integra os instrumentos e os textos.154).23). . prostético.23). 2014. 2014:28). 2014. a forma e a matéria (2014. os prazeres do corpo e a regulação dos enunciados de verdade (PRECIADO. p. Outro ponto que merece destaque é a sua concepção de gênero. instrumentos. não se dá senão na materialidade dos corpos. pelo contrário. 2014. os discursos e os regimes do corpo. certas sensações com determinadas reações anatômicas. a autora defende que a noção de “Natureza Humana” nada mais é do que “um efeito de negociação permanente entre humano e animal. Para Foucault. máquinas ou outros artefatos. a força da noção foucaultiana de tecnologia reside em escapar à compreensão 163 redutora da técnica como um conjunto de objetos. antes de tudo. [Mas] é uma tecnologia de dominação heterossocial que reduz o corpo a zonas erógenas em função de uma distribuição assimétrica de poder entre os gêneros. Por consequência. “como dispositivos inscritos em um sistema tecnológico complexo” (PRECIADO. (feminino/masculino). p. mas também entre órgão e plástico” (PRECIADO. Edição Nº 19 OUT/2016 médicas ou domésticas que produzem constantemente corpos-homem e corpos-mulher” (PRECIADO. ou seja.156). ela sugere que o sexo não é um lugar biológico preciso nem uma pulsão natural. p. É puramente construído e ao mesmo tempo inteiramente orgânico.25). ela crítica a distinção sexo/gênero e propõe compreendê-los como tecnologias. corpo e máquina. as leis e as regras para a maximização da vida. Preciado vai defender que a noção de “tecnologia do sexo” permite compreender que o sexo e a sexualidade não são efeitos de um sistema repressivo. Em Preciado ele não é simplesmente performativo (isto é. 2014. Para a autora. fazendo coincidir certos afectos com determinados órgãos. “as técnicas disciplinadoras da sexualidade [são] estruturas reprodutoras. assim como escapar à redução da tecnologia do sexo às tecnologias implicadas no controle da reprodução sexual.

ao observar as proposições de Butler e Preciado. com igual facilidade. p. não só o caráter de construção do gênero” (BUTLER. o próprio gênero se torna um artifício flutuante. e levando a cabo reflexões que ficaram conhecidas como Estudos Queer. o gênero nos oferece um rico e vasto arcabouço teórico e metodológico para pensarmos as relações sociais dos indivíduos baseados.de que a base biológica continua sendo estruturante das construções de gênero possíveis-. p. como também o seu caráter não natural. pelo contrário. elas apontam a associação limitada feita entre gênero e biologia. com a consequência de que homem e masculino podem. Edição Nº 19 OUT/2016 É preciso esclarecer que a sua crítica à noção de gênero performático de Butler não o invalida. enfim. tanto um corpo masculino como um feminino (2013. 24-25). Pois como enfatiza Butler quando o status construído do gênero é teorizado como radicalmente independente do sexo. a percepção de Scott quanto ao sistema sexo/gênero seja um dos efeitos da sua transposição do campo da história social para a história cultural. mas histórico e performativo. percebo uma crítica à perspectiva de Joan 164 Scott . Diante do que foi apresentado cabe agora pontuar em que medida essa reflexão sobre a categoria gênero pode ser profícua ao ofício do historiador. significar tanto um corpo feminino como um masculino. das chamadas dissidências de gênero. das sexualidades. 2013. como também questionar a assimetria na esfera social (como a . como aponta o artigo de Carla Pinsky. Estudos de Gênero e História Social (2009). mas aponta a historicidade do conceito e os seus limites. não só na diferença sexual entre homens e mulheres. Outra questão a se pensar é que. cujo efeito principal é a negação da feminilidade às mulheres transexuais. e mulher e feminino. Primeiramente. que os estudos de gênero são muito mais do que estudos localizados e à parte da considerada “grande história”. Considero adequado que todos/as os/as que se filiam ao campo da História (e nas ciências humanas em geral) percebam. ela entende que “localizar o mecanismo mediante o qual o sexo transforma-se em gênero é pretender estabelecer.67). e reconheçam. das homossexaulidades. não é possível circunscrever o termo gênero apenas como sinônimo de uma história das mulheres. Assim. Por isso. possivelmente. travestis e também aos homens.

“o discurso não é reflexo de uma suposta base material das relações sociais de produção. de acordo com a sua relação espaço-tempo. Como sugere Rago (2006. profissionais e políticas atribuídas a homens e mulheres em diferentes sociedades. ele também é partícipe e instituinte disso que chamados de real. SARTI. a meu ver. é mister que historiadores/as leiam o que uma produção feminista tem a dizer sobre a sociedade e sobre o nosso ofício. é problematizar a ocupação dos espaços de poder por homens e mulheres ao longo da história e apontar como a noção de violência e de dominação não são as mesmas para homens e mulheres (WELZER-LANG. Isso. algo que considero fundamental. politiza o nosso olhar e nos leva a desconfiar dos discursos normativos. a dinâmica social baseada nas identidades de 165 gênero. Em segundo lugar. atribuindo hierarquias entre os indivíduos com base no seu sexo. ou seja. Gênero é investigar. 2004. É reconhecer que “elas vivem e escrevem como um dos componetes do social. ou seja. é preciso abandonar o androcentrismo . as atribuições sociais. 2009). também. socialmente e culturalmente. p. Assim. entendo que o gênero possibilita rastrear as diferentes concepções de tempo para homens e mulheres e. a tendência a excluir tudo o que se refere às mulheres e também sejam escritos por elas. em nossas reflexões e produções acadêmicas. 2004.112). p.20). o gênero é também um modo de investigar o processo que forja e naturaliza essa diferença. é denunciar e nomear os históricos processos de exclusão das chamadas “minorias sexuais e sociais”. inclusive daquilo que. e não como uma especificidade do geral. é percebido e entendido como homem e mulher. p. mas produtor e instituinte . De acordo com o sociólogo francês Daniel Welzer -Lang. a radical historicidade de tudo. do normal que supostamente só eles [os homens] representariam” (WELZER-LANG. parto da ideia de que o discurso historiográfico não só relata ou interpreta uma dada realidade. Edição Nº 19 OUT/2016 presença no espaço público e privado) sustentada historicamente por essa diferença. 112)-.que é “a tendência a excluir as mulheres dos estudos históricos e sociológicos” (WELZER- LANG. e não menos importante. os sentidos atribuidos são marcados pela experiência e condição social e sexual do sujeito de gênero. Por fim. 2004. excludentes e androcêntricos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS De acordo com o que foi analisado. um desses elementos pode se sobressair mais do que outro. a partir de uma análise dos discursos. p. dependendo das redes de sociabilidade e dos espaços que o indivíduo atua e/ou circula. também. 2012) articulando os diferentes conceitos nas nossas pesquisas. Isso quer dizer que. como sugere Scott (1990. ao propor esse exercício de aproximação e distanciamento entre essas definições da categoria gênero. Assim sendo. entendo que o gênero. como sugere Foucault. Por conseguinte. Edição Nº 19 OUT/2016 de “reais””. buscando. como categoria de análise. gênero como categoria de análise não “compreende a simples dicotomia masculino e feminino. que a elaboração do conhecimento histórico a partir do gênero. ao produzirmos uma interpretação sobre um dado acontecimento já estamos atribuindo e produzindo um determinado sentido. é marcar um lugar de enunciação e denunciar as práticas institucionalizadas que tendem a silenciar e perpetuar uma concepção hegemônica do discurso histórico. as regras que incidem em . p. seja sobre a desigualdade ou o poder. Entendo. Como sublinha a antropóloga Fátima 166 Cecchetto (2004. implica em uma tomada de posição. não está desconectado de outras categorias sociais como classe e raça. entendo que esses marcadores sociais da diferença estão no mesmo plano. antes.57). o gênero cruza-se com uma rede de elementos vinculados às estruturas de classe. poder e etnicidade. pois são constituintes da experiência do sujeito. todavia. entendendo-o como um modo de explicar as relações sociais entre os sexos. que estruturam as relações sociais”. o desafio é trabalharmos na perspectiva interseccional (CRENSHAW. no entanto. não se trata de substituir uma categoria por outra.7). o gênero possibilita explicar continuidades e descontinuidades bem como analisar as desigualdades e diferenças sociais e sexuais nas relações inter-gêneros (homens e mulheres) e intra-gêneros (homens e homens/mulheres e mulheres). recompor a trama de sua produção. Por fim. e são essas conexões que devemos identificar e analisar em nossos objetos.

Tese (Doutorado em Sociologia). Anos 90 (UFRGS). o contexto institucional em que se encontra (FOUCAULT. é nessa perspectiva diacrônica e sincrônica que a categoria gênero pode nos auxiliar e enriquecer o nosso olhar sobre os acontecimentos passados. 223-249. recompor a trama de sua produção e historicizar as verdades. com o que supõe de variantes e de efeitos diferentes segundo quem fala. racial). . mas também elucidá-los de acordo com os conceitos. p. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE JÚNIOR. v.com. 2013. p.19/20. as armas do nosso tempo presente (PROUST. Disponível em: http://simposioufac.html. (Orgs. Transmasculinidades: A emergência de novas identidades políticas e sociais.111). as formalidades. 2014. Escrever como fogo que consome: reflexões em torno do papel da escrita nos estudos de gênero. A História em Jogo: a atuação de Michel Foucault no campo da historiografia. como já dizia Bloch (2001). ÁVILA. Durval Muniz. 2004. 1988. Acesso em 28/08/2015. 2008. as teias que sustentam e engendram os históricos modos de opressão (seja de gênero. Porto Alegre.131). afinal. 79-100. por que repor o que já está posto. em enunciações exigidas e interditas. No mais. 2003. 2013). Discursos e Pronunciamentos: a dimensão retórica da historiografia. se o nosso discurso é instituinte de reais. Berenice. p. 2011. de modo a compreendê-los na sua relação espaço-tempo. Universidade de Brasília/UnB. ____.br/2013/07/durval- muniz-de-albuquerque-junior_22. VII Simpósio Linguagens e identidades da/na Amazônia Sul Ocidental. o já dito? É preciso rachar os sentidos das palavras (ALBUQUERQUE JÚNIOR. Edição Nº 19 OUT/2016 coisas ditas e ocultas. nos cabe lançar luz sobre os diversos fenômenos. _____. São Paulo: Contexto. RJ: Editora Multifoco. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. no entanto. sexual.). sua posição de poder. 11. cabe a nós historiadores/as questionar o que está posto e tensionar a 167 produção do discurso histórico. BENTO. n. In: Carla Bassannezi Pinsky e Tânia Regina de Luca. p. O historiador e suas fontes.blogspot. Por fim. Não nos cabe julgar. Simone N.

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Michelle Perrot: a grande mestra da História das Mulheres. de todas as formas de binarismos: feminino/masculino. . 2003. o que justificaria sua marginalização. é uma recusa do regime de gênero heterossexista e da violência praticada na manutenção de uma fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação. atos. Os estudos queer propõem o estranhamento de tudo que é considerado universal. conhecimentos. 11. 2 PEDRO. focalizando os processos de invenção e desdobramentos das identidades. 2. homem/mulher. Desse modo. sexualizando . a heteronormatividade é a ordem sexual vigente. entendida como característica de todo ser humano “normal”. hétero/homo. 154). n. Dec. colocando no lugar do reconhecimento e da estabilidade. relações sociais. Florianópolis.heterossexualizando ou homossexualizando . p. Por sua vez. v. cultura e instituições sociais” (2009. promove a inserção da diferença. Estudos 171 Feministas. natural/cultural. a alteridade e a diversidade. p.corpos. o Queer pode ser definido como “o estudo daqueles conhecimentos e daquelas práticas sociais que organizam a „sociedade‟ como um todo. desejos. A problemática queer vai além das homossexualidades. familiar e reprodutivo. 509-512. 3 Segundo Miskolci. qualquer pessoa que não se adeque a esse padrão é considerada “anormal”. à abjeção e ao desprezo. Edição Nº 19 OUT/2016 1 Segundo O sociólogo Richard Miskolci (2012) e a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus (2015). Joana Maria. identidades. fundada no modelo heterossexual.