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complexas para uma mente destreinada, salvou-o o latido do cãozinho oveiro: a mulata velha

voltava no seu trote de cusco friorento.

— Dormiu bem, filho?

- Buenas. Sim, como um chefe.
- Lindo dia.
- Nem tinha reparado. Quer um mate?
- Me dá.
Depois do primeiro sorvo, a velha disse:

- A Felipa te espera.
- Hum - fez Ranulfo, sem abrir a boca.
— Disse que tu tava primeiro e que tu é o pai dos guris. Timóteo entendeu e se foi,
manso.

- Melhor assim.
- A vida é a vida - resmungou a velha.
E fez com a boca desdentada, quase com o avesso dos lábios, duas ou três morisquetas que
levaram Ranulfo a lembrar, com um princípio de escândalo, as piscadelas rosadas que as éguas
dão com a vulva quando estão terminando de mijar.

- A vida é a vida - ele repetiu. - E pra que o mundo seja mundo, dona, tem que...

Ia dizer "tem que haver de tudo", mas a velha, adivinhando, atalhou:

- Não diz isso. O mundo devia andar reto

que nem lista de poncho e anda arrodeando que nem burro de olaria. Onde juntaste a roupa?

- Lá - apontou Ranulfo, e recebeu a cuia de volta.

A velha olhou para o monte de roupa.

— Deus fez o mundo, tomou uns tragos pra festejar e até hoje não curou a borracheira...

Troteou resignadamente até as roupas, recolheu-as e foi ajoelhar-se no barranco. Ranulfo
tomou ainda uns mates, observando-a, depois encilhou o tordilho e regressou ao rancho
como se dele tivesse saído naquela mesma manhã.

E tudo voltou a ser como era antes da guerra.

Os contrabandistas
Cinco homens a cavalo, uma trintena de cavalos soltos e uma mula velha e cega estavam
vadeando um rio. Era verão, meia tarde de um dia sereno e redondo.

Homens e cavalos cruzavam o rio, dos arbustos e juncais da margem esquerda para o matagal
da margem oposta: era o fronteiriço Ja-£uarão. O movimento do grupo se assemelhava 2 uma

. Quem o conhece sabe bem que.Se degolas a mula . Os outros. a mula. aparadas com certa uniformidade. Rulfo e seus homens zelavam para que não s£ molhassem demais. os dois tapes que vinham bem atrás. precisamente por ser largo. arratonada.resmungou Pedro Corrêa.Não apura tanto. era om auxiliar valiosíssimo nas noites mais tenebrosas. com uma faca em brasa). Os inse- paráveis irmãos Corrêa pareciam gémeos.sobretudo para o chefe —. homem corpulento e de grande barba negra. ainda assim. repartindo e levantan- do águas que o sol fez rebrilhar. que volta e meia empacava. e talvez o fossem. . Pouco se dava . Rulfo Alves olhou para Juan e Pedro Corrêa..Não deixem que se espalhem — chegava-lhes a voz do chefe. Rulfo te degola. . os que não levavam nem ginetes nem bolsas . As grandes bolsas de couro cru.acabava de dizer Juan. Parda. traziam bucais de tentos retorcidos e as colas bem compridas. Não traziam bucais e suas colas. embora não o fossem. mas também com o desejo de não exercitá-la).operação bélica e se cumpria sob o comando de Rulfo Alves. eram. é raso no verão: as correntezas invernais formam remansos e bancos de areia que parecem pequenas pontes submersas.gritou para o rapaz o velho da égua tordilha que encabeçava a marcha. para os contrabandistas . .Camba um pouco rio acima . inveteradamente receosa e dona de sentidos misteriosos criados ou aguçados pela ibolição dos olhos (que Rulfo arrancara. Muitos (a maioria) dos cavalos que referimos como soltos..os cavalos de muda dos contrabandistas -. Montava um tostado alto e esguio e já se encontrava na metade da travessia. Pedro puxava a mula velha e cega. Com uma corrente.Prende um man- gaço nela. periodicamente eram untadas por rbra com graxa quente de rim6. com acento igual -. mal roçavam na água. com acento fortemenre abrasi- leirado. em geral. .gritou o chefe. talvez pelo fato de que as mulas guardam como soterrada ou dissimulada sua assombrosa vitalidade. que caminhavam como rateando os bancos de areia (é sabido que todo cavalo nasce com aptidão para nadar. O Jaguarão é muito largo naquele lugar solitário. jamais pelechava por completo. Eram animais de todo tipo e pêlo. com o pêlo para dentro. talvez por velha. . . para significar que não levavam ginetes. O rapaz que recebera a ordem esporeou seu zaino negro e ivançou quase a galope. iam carregados com volumosas bolsas de couro amarradas com cinchas e peiteiras de sisal. anos antes.Se esta puta não tivesse tanta serventia. mas. filho . e montavam dois baios que pa- reciam irmãos. medrosa de rio e arroio como qualquer mula. Naquele zelo colaboravam por instinto os cavalos. como ricocheteando na su- perfície mansa e móvel do rio. — A vontade que eu tenho é de degolar essa mula — dissera ele. potros de boa estampa. Juan! Dotada de uma memória infalível e conhecedora às escuras de caminhos e sendas de uma vasta zona. com voz poderosa.

e fez-se então um grande silêncio.Será que vão cruzar o rio? . Alves mandou o velho ir atalhando ali mesmo e esperar um pouco. Quase de bruços no barro. murchando as orelhas. águas abaixo. Os irmãos saltaram de seus baios iguais e. — Nos salvamos . antes de atravessar o mato e tocá-los quase duas léguas por diante. detonações de armas de fogo). Aqui eles não mandam nada. O velho e o rapaz tombaram. correram para os juncais da margem esquerda. a fumaça dos disparos. com a voz desnecessariamente baixa. Planejava chegar à noitinha numa região de cerros pedregosos. que pouco a pouco foi deixando de bracear e ficou boiando. feridos de morte. escondia-se em compridos mergulhos. Para impermeabilizar. Alves precipitou seu cavalo para os lugares fundos e o obrigou a nadar de viés para os disparos. As carabinas.Mas é melhor a gente dar o fora. conforme o costume (a cola do cavalo da frente atada no bucal do que vinha atrás). Ainda se faziam ouvir. Foi nulo o resultado dos muitos mangaços que lhe deu Juan Corrêa. Vendo que não venciam os medos e a teimosia da mula. no matagal da margem oposta. onde conhecia paradouros seguros. Estava satisfeito. deu um giro com seu tostado e gritou aos irmãos Corrêa que se apressassem. . Divisavam também. alguns cara-colearam. Conferiu a altura do sol. desapareciam um atrás do outro. . menos unânimes. Juan e Pedro viram na água o pipoquear das balas que buscavam Rulfo e observaram como todos os cavalos. pequeninas nuvens brancas que se elevavam indecisas na tarde sem vento.Eu digo que não. escondidos en tre juncos e espessos camalotes. por fim. um tanto vagamente. e sem avistar os policiais. Queria que tornassem a juntar-se os car- gueiros. não longe de certo casario que possuía mulheres e onde talvez pudesse vender parte do profuso contrabando que trazia.) com os cavalos. Os cavalos se detiveram. o matagal da margem direita devolveu o matraquear seco e furioso das carabinas policiais que atiravam para matar. na primeira descarga. inclusive os quatro encilhados. pois uma de suas manhas era mastigar as guascas até cortá-las. afundando lentamente. agarrando-se nas crinas e oculto atrás das paletas. outros amea- çaram retroceder. cortando banhados e pajonais.disse Juan. ergueu-se nos estribos e soltou seu vozeirão: . O rapaz do zaino negro vinha ama-drinhando metros atrás. Rulfo o abandonou e pôs-se a nadar na dire- ^áo de uma ilhota próxima. (N. mais de uma vez. agachados. maneados pda água e às vezes enterrando os pés na areia e no barro. emudeceram. mas sem demora a tropilha inteira e solidária reiniciou a marcha como se rada tivesse acontecido (provavelmente. do T. .6. todos ou quase todos já haviam escutado. Comissário Silveira. Várias balas mosquearam de branco o tostado do chefe. Acreditava que enganaria mais uma vez as patrulhas fronteiriças e seu grande e perigoso inimigo.Um de vocês monte na mula! Como um eco desse grito.perguntou e perguntou-se Pedro. mais espaçados. . Era bom nadador. os estrondos das invisíveis carabinas. O velho da égua tordilha e os cavalos que ponteavam a marcha já se aproximavam da margem direita. Prendiam-na sempre com uma corrente.

Ergueram-se um pouco para ver melhor. apontando a mula. Pronunciou uma só palavra: as três sílabas do nome de um português largamente conhecido no pago. Intimamente se lamentavam por ter perdido.propôs de novo Pedro. alegraram- se ao vê-la. antes de arris car a dentada. Viram os corpos meio submersos do velho e seu filho. — Rulfo! — exclamaram. No mesmo instante a mula ergueu a cabeça e alertou as orelhas na direção de uma ponta de mato à esquerda dos irmãos. Deteve-se. Por um momento deu a impressão de meditar. de cabeça torcida para não pisar na corrente que arrastava. Juan e Pedro. Nada de anormal puderam notar no matagal fron- teiro. decerto encalhados na areia. . sangue também na escorrida barba negra. parando. pernas abertas. Tinham esquecido a mula ou não haviam pensado nela. depois os Corrêa. Uma intensidade arisca e com algo de vítreo dilatava.. . Abandonaram o juncai e escorregaram por um barranco lateral. E mesmo. a mula .comentou Juan. dava passinhos curtos e pastava com a tranquilidade de um ser solitário sobre a terra.concordou Pedro. simplesmente distanciando-se daquele lugar. os trevos doentes de sol. Olha só a mula velha . O corpulento chefe vinha cambaleando. viram afastar-se águas abaixo. viram um bando de pássaros atravessar o rio com uma curva ampla. a paisagem agora com mortos exibia uma calma falsa. a parte que flutuava do cavalo de Rulfo. Eles olharam e viram aparecer Rulfo Alves. a palha. e também parou. famoso por curar feridas com água fria e. por sua habilidade na extração de balas com tenazes de arame ou chamando-as a ponta de faca. .os olhos dele. mas autoritária. na precipitação.E sem fazer barulho.Ela sempre se sai com uma das suas .disse Juan. em grande parte inútil. E falou. Caminhavam sem rumo certo. havia sangue nas roupas encharcadas e rasgadas. fitou primeiro a mula. Ofegava roucamente e borbulhas sanguinolentas cresciam e estalavam em sua boca. A mula. Pouca ou nenhuma surpresa lhes causou encontrá-la. e quem garante que não vão voltar? — Vamos . . Depois da violência. . possuidor de um tempo ilimi- tado.disse Pedro. vagarosamente. sem saber por quê.Vamos embora .disse Juan. que ali era bem mais ralo.. Comia farejando uma e outra vez o pasto. seus baios tão necessários. num sítio qualquer das solidões sulcadas pelo Jaguarão e seus afluentes. – Os policianos foram pegar os cavalos. como hipócrita e ardilosa. pois só de estorvo lhes servia. principalmente. Voz surda. Eu digo que também mataram Rulfo -disse Juan. Consideraram os . em seguida fez um gesto de mando. Não pode ter escapado . aproximadamente a cinco léguas do ponto em que se encontravam os três homens e a mula. . mas sabiam que não podia estar longe. internando-se no mato. que de algum modo eles perceberam e lhes provocou uma espécie de temor animal. Aquele mestre da cirurgia primitiva e da hidroterapia vivia num povoado como ca ído do céu..

ajudando-o a montar. por sua vez.Eu já imaginava. com voz precisa. ao sol já quebrantado. . Dom. e. Juan Corrêa ouviu muito bem a frase. esperava pelo homem tempestuoso e temido que mais de um crime de sangue devia a cada lado da fronteira. vieja. E assim iniciou-se a viagem. os olhos extraviados. em não repetir as palavras com que tantas vezes tinha instado a mula.. Luís. no Jaguarão. Juan puxando o cabresto e gritando pela vez milésima: "Toca.era novamente a voz rouca de Rulfo. quieta e de pé como as árvores do caminho.. fosse uma caminhada até um lugar prefixado onde a morte. . -Toca. e de árvores altas em cujas copas modorravam os últi- mos clarões do sol. numa instância inevitável e também secreta. árvores petiças e arbustos de espinhos como agulhas. um pouco vitoriosa: . . mas custou a acreditar. vieja". Pedro desembainhou o facão e deu-lhe um planchaço nas ancas. a aceitar. A mula. Juan pensou também que pouco poderiam contar com os favores da lua demasiado nova. um pouco zombeteira. O chefe entesou o corpo. apenas um. tombou sobre as crinas. de- pois outro. era uma longa viagem para a noite. ao mesmo tempo. ao sol mais baixo. por baixo do peito do animal. uma viagem que talvez. a verdadeiramente ouvi-la. A mula deu um passo. paciente — ou indiferente —. não se moveu. flutuantes.Não mente . Mal se acomodou. mas bem modulada.Dá-lhe.Toca. que desembocava noutro arroio. Também compenetrou-se em caminhar em silêncio.Corrêa que a viagem seria longa e difícil. surpreendentemente. Imagens sucessivas podem resumir boa parte dessa viagem: a unidade Juan-mula-Pedro andando entre macegas. mais outro. lenta peregrinação cuja meta explícita era a casa do português. os tor- nozelos do ferido. Rulfo inclinado no lom- bo da mula e os duros cascos dela removendo o pó da trilha e amassando as gramíneas secas. A mula deu um passo. num cenário de esparsas pedras cinzentas. e Rulfo Alves emergindo de seu mutismo para dizer. que Rulfo ia erguido. Rulfo tombado sobre as crinas. não firme. vomitando sangue. os cascos empinados da mula pisando com jeito uma encosta que também era empinada. que andavas à minha procura.. Rulfo agarrou-se nas cruzes do arreio e empreendeu um salto que ficou pela metade. Agarrou o cabresto e deu um puxão: . os braços como asas destroçadas e a cara. pressurosos. Rulfo balançando-se e sua comprida sombra balançando-se bem mais. Juan desprendeu a corrente do bucal e com ela ligou. que desembocava.E vai pra puta que te pariu! . em essência (e os irmãos o intuíram sem demora). Adivinhava. Juan-mula-Pedro vadeando um arroio de água escassa e leito pedregoso. oscilando. Pedro.. enquanto a mula avançava com cautela por um liso areal e Pedro golpeava-lhe as ancas com o facão. sem saber como. sem resultado. no melhor dos casos não terminaria antes da noite. Não se atreveu a olhar para trás e até se preocupou em puxar com mais força o cabresto. mas. não muito grandes e em pé como homens. Acor- reram os irmãos. vieja — repetiu Juan.

Notou que Rulfo ainda discutia com o velho Medina e falava depois com seu irmão António Alves e seu amigo Vicente Suárez. Um desejo ocupava quase por inteiro a alma do homem que abria caminho: não queria ouvir mais a voz de Rulfo Alves. que Rulfo matara com duas punhaladas nas imediações do Arroio Yerbalito.. que à tumultuosa reunião concorria outro assassinado. alerta. Juan já não podia negar que ouvia e sentiu no seu íntimo uma espécie de rachadura. Avançavam entre pedras cinzentas e árvores altas. O que em realidade escutou e o que acreditou escutar se enredaram num emaranhado indiscernível. ou imaginou. Estas.. recomeçava inexoravelmente. com energia desfalecente: . ouviu nomes próprios talvez não pronunciados. mais pesada no cabresto.. enredando-se vagarosamente com os elementos da paisagem. completou arbitrariamente frases que se haviam truncado. não teria conseguido voltar a cabeça. depois trabalhosa. pois Rulfo pareceu sorrir e concordou: . sem possibilidade de soltá-lo. Juan estremeceu. e pela curta distância imposta pelo comprimento de seu braço. Caminhava com um esforço desmedido de todos os músculos e como se tivesse de copiar cada movimento do movimento anterior. distantes umas das outras. mesmo querendo. brotava de dentro dele. inconscientemente. Gritos de pássaros . o primeiro degolado. na porta de uma taberna. decerto o inaudível Luís Medina. temendo saber tudo. puxando forte e sem folga o cabresto. A voz de Rulfo se levantava em escarcéus imprevisíveis. que por certo registrava essa aproximação. que aquele Dom Luís era o velho Luís Medina. só de longe em longe conseguiam tocar-se pelos ramos. Geraldino Moreira.. e também o pai dos Alves. . des- nucado por Rulfo com uma garrafada. isso sim. o segundo crivado de balas na penúltima guerra civil. a voz rouca fez-se ouvir. O homem que abria caminho não olhou para trás e continuou calado. Juan. Acreditou perceber. foi povoando com novos personagens o conclave de defuntos convocado pelo ferido. fechou momentaneamente os olhos e quisera fechar também os ouvidos. alta e bastante clara no começo. isso não! Fez-se um silêncio que durou muitos metros do lento andar da mula.de repente. Seguramente houve outra réplica e Rulfo protestou..esses gritos desconsolados e anónimos que parecem riscar e até rachar um entardecer do agreste — começaram a cair como em rajadas das copas das árvores. tornava-se cada vez mais lenta e desconfiada. Como para obrigá-lo a reconhecer aquele fato de pesadelo. Bueno. Não. desfalecia em pausas. Assim.. Esse desejo não se realizou e novamente Juan teve de ouvir a voz do chefe. murmurante.. e esta mistura foi somando interlocutores de vozes sem som ao entrevero de diálogos que era aquele monólogo. Juan se sentia condenado pela mão presa ao cabresto. conciliador: . reconstruiu de quaJquer maneira palavras rotas ou afogadas. E a mula. Alguém ou alguma coisa respondeu. so- bretudo) do delirante monólogo. a inventar ou criar por sua própria conta a partir da confusão (dos gaguejes e pausas. A noite estava próxima. Aconteceu então que Juan. começou a acrescentar coisas ao que dizia a voz. como se os roubasse do mundo dos vivos — os invisíveis pássaros gritões.Sabes muito bem que não te matei pelas costas. em tom. Co- nhecia a biografia do chefe e sabia pela metade. E enquanto isso a noite apertava sua teia e ninguém senão ela era quem emudecia . mas não descia sobre o mundo.

. mas lenta.. obrigou-se a contemplar o que seus olhos pensavam ver. E outra pedra.. que ver uma pedra (uma entre tantas. Juan registrou em seu corpo os impactos do medo (sua alma já estava fechada a qualquer novo espanto)... avançava como em outro mundo estrito e firme. e outro morto pela mão de Rulfo. sujeitando com ambas as mãos sua trôpega cabeça de degolado de orelha a orelha e outra foi o velho Miguel. esperando. escondido. Paula. Juan Corrêa já sentira vertigens diante do vazio da noite. ainda vagarosas. puxava o cabresto. mas nos ramos baixos de uma árvore parecia estar Geraldino Moreira. Juan. A pe- dra. incerto.. com seu andar alquebrado... o negro Loren-zo. mais iminente do que em verdade chegada.Miguel. foi visivelmente António Alves.. nebulosas. O monólogo do chefe era agora um murmúrio que Juan talvez nem ouvia. e a pedra era e não era. a velha mula avançava com sua má vontade de sempre. às vezes tropeçando. transformou-se no velho Medina e passou rapidamente e tornou a passar. que vivera alguns anos com o chefe. o pai e outra foi o negro Lorenzo. por breve momento. Sim. era onipresente. era ele.. A pedra era apenas pedra. parecia estar. Era uma das muitas rochas comparáveis a sentinelas esquecidas e passiva - mente monstruosas. de negro entrado em anos e outra que surgiu impetuosamente e fugiu de um salto foi talvez o milico Dos Santos. junto a um fogacho escondido entre os matos do Yerbalito. A mula avançava. e se dobrava como um grande pássaro à espreita.. era simplesmente uma das muitas pedras que se erguiam pelo caminho. sem transformar-se inteiramente (como ocorre às vezes aos avatares dos sonhos). vários metros adiante) ameaçando deixar de ser pedra para ser Dom Luís Medina não o impressionou como demasiadamente sobrenatural. que ele conhecera só de nome. era e deixava de ser e voltava a ser o alto e agora desenterrado Luís Medina. o milico brasileiro por nome Dos Santos. Paula como desfigurada pelos vários anos de morta. Como todo homem. Desviou-os em vão: em pé. no ancião alto e de cara fechada e sem gestos que Rulfo despachara.. meio borradas. baleado pelos comandados do Comissário Silveira. ou estava mesmo. Foi por isso. espiando com olhos de vivo pelos buracos de sua caveira. Juan puxava o cabresto quase com fúria. numa ventosa noite de primavera. mas nunca o noturno tinha significado para ele o que significava agora: um modo de ser das coisas. pernas frouxas. mais sombra. recortada nas primeiras sombras noturnas. e se transformava. mas conseguiu desviar os olhos. e um contrabandista. que devia ser Vicente Suárez. A noite.. o único amigo que Rulfo incluíra em sua biografia e outra sombra delimitada. bem diferente daquele que começava a desordenar-se nos olhos de seu condutor. uma pequena alegria maligna e um certo desvario coexistindo no rosto de nuanças terrosas. uma outra sombra mais nítida. arrepios gelados nas vértebras. Numa outra árvore reapareceu e logo se ocultou o sorrateiro Geraldino Moreira. Juan. sem dúvida. um rancor já sem força nas pupilas de vidro opaco. e ainda uma mulher chamada Paula. de perto. junto ao tronco de outra árvore e apoiada nele para não cair.

Pedro ergue os olhos. subitamente. parecia corresponder misteriosamente a profundas pulsações da terra e à recuperada dimensão do céu. e outra sombra apressada lançou gritos hostis. tão urgente que dir-se-ia instalada por um relâmpago secreto. O alucinado puxava o cabresto. como enterrada desde muito tempo. Pedro! . com os olhos baixos. . também em pé como um homem. e roçar ou tocar. Algo parecido passou-se com o mundo. na mula agora imóvel ("Ela sempre se sai com uma tias suas". aos olhos e ouvidos do também imóvel Juan Corrêa. Uma faca. . certo ar de homem atarefado.. E no meio daquele horror. algo de todo imprevisto: seu irmão Pedro. nos cerros.exclama Juan. e ali permanece imóvel. . e outra sombra calada e parcimoniosa e severa foi Dom Miguel Alves em pessoa.. e Paula reapareceu com sua máscara de louca e seu leve regozijo satânico. como sonhando e sonhando-se e como se fosse ao mesmo tempo motor. e uma árvore falou. O mundo era também mais claro. deu um pequeno passo atrás. nitidamente. tombado sobre o pescoço da mula com a gravidade totalitária dos defuntos. expunha em seu topo a cara amulatada e vingativa do milico brasileiro.. E outra pedra mais baixa..A noite cingia a paisagem e do murmúrio de Rulfo emergiam palavras soltas e dissociadas e como cheias de pavor. a mula avançava com seus alheados passinhos matemá- ticos e suas sempiternas ganas de empacar. aquela nobreza fora de escala. espelho e carne de um sonho de febre alta. e uma sombra disse algo.torna e reprova Juan. cedeu seu lugar àquela pausa belamente imprecisa. nomes próprios que gritava. reduziu-as à quietude e ao mutismo que lhes eram conaturais. O murmúrio do chefe parecia não ter fim e a noite cingia mais e mais a paisagem. caminhava o alucinado Juan Corrêa. embora ainda não o fosse (e fosse o último minuto do doce tempo de pausa que não é dela nem do dia). e uma pedra balbuciou uma injúria. Giravam os mortos. Calou-se a voz de Rulfo. Uma paz terminativa e minuciosa. Aos olhos de Juan. Recém agora via Juan um fragmento de lua. imobilizou-se e silenciou de modo estranho.. está limpando a faca na anca peluda da mula. . o mundo vibrou um instante. confusamente. dissera um dos Corrêa) e no corpo e na alma de Juan Corrêa. cessou tudo. A paisagem inteira adquiriu uma serenidade desmedida. retrocedeu um pouco. Aquele mesmo sossego. por fim. crava-se com um golpe seco e vibrante. Pedras e árvores deixaram de ser ou de arremedar ou de ocultar fantasmas. cravou as coisas em si mesmas. so-brepassando as possibilidade humanas de apreendê-la.. uma alta pedra cinzenta era novamente ou queria ser o velho Medina. com urna proximidade bem mais amistosa do que aquela aparentada por outros elementos da paisagem. Mas também percebe. nos campos muito acidentados. Mas. As sombras voltaram a ser aquelas sombras gratas que nos verões dos matos.. cingindo também a turba de mortos em torno do homem que cabresteava a mula. Juan se volta e vê então algo que sabe que vai ver: o chefe está morto. na claridade difusa. iniciam a noite por conta própria. E a noite. E olhou para trás. giravam rondando e se atropelavam numa endemoniada desordem. Mas Pedro. lançada de longe a uma tábua.. imprecações e pedaços de imprecações.

no verão. para pernoitar na estância de um inglês cujo sobrenome todos no pago pronunciavam cada qual à sua maneira. homem baixo. era filho de espanhóis e falava com sotaque peninsular não de todo involuntário. mas de certo volume. — Certo. e ao longo do dia não tinham esquecido aquilo do "tordilho mui cabeceador". .Vamos sair só eu e tu. num acordo tácito. três dias de infrutíferas buscas. com eficácia (era capaz de atos de lúcida coragem e de violências mais ou menos arbitrárias). Faltava pouco para o entardecer e os dois homens não esperavam chegar com luz ao arruinado casarão onde o inglês. de que o bandoleiro Velasco montava um tordilho tirando a magro e mui cabeceador. é mais o cavalo do que o homem. e continuou olhando para o chefe. ele nos enlouquece os dois. Três dias depois. Pazos recebeu os visitantes no rancho maior. Desta vez o safado não me escapa.informou Pazos. um pouco apartado dos demais. Retornando. Desempenhava havia muitos anos. chamou o Sargento Maciel . já vai guardá-la e diz: . e Maciel. que sempre encontrava alguém disposto a cooperar. sestearam menos do que costumavam. Dele desceram o taberneiro catalão e dois abonados estancieiros da zona. Ainda estava alto o sol quando montaram e partiram a trote. E voltou ao seu rancho. confiado em voz baixa e a sós.Dizem que Velasco anda no pago .. Pazos e Maciel. faziam o fogo do meio-dia. Três homens Era uma vez três homens. Maciel.disse Maciel. E tordilho. que era onde morava. em resposta àquele olhar. A vegetação silvestre que margeava o arroio era extensa naquela baixada: talvez mais de duas quadras de árvores e arbustos que iam até a base da coxilha. Manda me trazer o zaino grande.Não tinha jeito. O comumente chamado Comissariado do Pazos era um amontoado de vários ranchos de diferentes tamanhos. Na noite anterior tinham dormido num ranche-rio. O primeiro se chamava Ramiro Pazos. Se não o tranquilizo.. . o cargo de comissário de polícia numa vasta área rural de um dos departamentos centrais. de cara e sorriso que faziam amigos. Pretendiam vadeá-lo mais adiante. quase um misantropo. Naquela tarde. nos altos de uma meseta pedregosa e sem árvores. comissário e sargento marchavam quase paralelamente a um arroio manso. Pouco depois os acompanhou de volta ao carro. . visto de longe. diri- giu-se à ramada onde os milicos.Pedro Corrêa olha para a faca.Depois da sesta vamos sair por aí.nosso segundo homem. deixando o comissariado a cargo do enfermiço e taciturno escrevente González. recolhera o informe. Comissário e sargento sabiam muito bem que um homem a cavalo. . vivia cercado de cães de raça. com roupa civil. Certa manhã de verão chegou ao comissariado um carro puxado por cavalos de pêlo lus- troso. meu comissário .

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