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Prado Filho, K. Uma breve genealogia das práticas jurídicas no Ocidente.

UMA BREVE GENEALOGIA DAS PRÁTICAS JURÍDICAS NO OCIDENTE
A BRIEF GENEALOGY OF LEGAL PRACTICES IN THE WEST
Kleber Prado Filho
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil

RESUMO

No sentido de contribuir para a compreensão desse fenômeno de judicialização da vida que experimentamos hoje em dia,
esta reflexão percorre, com Michel Foucault, as trajetórias de uma genealogia das práticas jurídicas no Ocidente. Esse
percurso encontra-se delineado no texto A verdade e as formas jurídicas, bem como em Vigiar e punir. Tal genealogia
das práticas jurídicas mostra a formação histórica dos procedimentos de “prova”, “inquérito” e “exame” – fundamentais
ao exercício do direito em nossas sociedades, suas formas no antigo Direito Grego, no Direito Romano, no antigo
Direito Germânico, expondo suas relações com a Inquisição, sua passagem aos modernos aparelhos de justiça, além
da sua ampla difusão em práticas sociais diversas ao longo da modernidade, justamente o que remete às condições
de possibilidade da judicialização contemporânea da vida. Esta reflexão busca ainda estabelecer ligações entre essas
questões – presumidamente jurídicas – e a Psicologia, como campo de conhecimento e prática social.
Palavras-chave: M. Foucault; genealogia das práticas jurídicas; judicialização da vida.

ABSTRACT

In order to contribute to the understanding of the phenomenon of judicialization of life we experience today, this
reflection goes along the lines set out by Michel Foucault through the trajectories of a genealogy of legal practices in the
West. Such genealogy of legal practices, distinct from the traditional approaches of Legal Histories, shows the historical
developmxnt of procedures for “evidence”, “investigation” and “examination”, which are fundamental for the exercise
of law in our societies. From this perspective, it shows their shaping in ancient Greek Law – different from those
applied in Roman Law, which in turn are different to those employed in ancient German Law – and then demonstrates
their relations with the Inquisition, their transition to modern justice apparatus monopolized by the State, as well as
their widespread incorporation in many social practices throughout modernity, which refers to the very conditions of
possibility of judicialization of contemporary life.
Keywords: M. Foucault; genealogy of legal practices; judicialization of life.

O fecundo diálogo de Foucault com o campo do ganha destaque como uma das suas primeiras aplicações
Direito genealógicas, onde ele busca analisar, nas Terceira e
Quarta delas, a formação histórica de práticas jurídicas
observáveis no exercício do direito contemporâneo, de
Dentre domínios de conhecimentos e práticas através
uma perspectiva diversa da tradição das Histórias do
dos quais Foucault transita, o campo do Direito é um dos
Direito. Essas habitualmente colocam o Direito Moderno
que possibilita perspectivas críticas muito ricas em relação
na extensão do Romano, ligando-os por um vínculo
ao nosso presente. Livros como Vigiar e punir (1975/1987)
originário e continuísta, exaltando suas identidades em
e A verdade e as formas jurídicas (1996/2005), além
termos de legalismo e formalismo, mostrando o antigo
de toda uma diversidade de artigos, entrevistas, aulas,
legalismo patriarcal romano “nas origens” da moderna
palestras, pesquisas e intervenções – exemplo do caso
burocracia jurídica. De outro ângulo, a história genealógica
“Pierre Rivière” e da experiência do GIP – dão mostra da
aqui proposta analisa a formação de alguns procedimentos
riqueza desse diálogo de Foucault com o campo do Direito.
jurídicos fundamentais ao exercício do direito moderno,
Nesse contexto, a série de conferências por ele proferidas como a “prova”, o “inquérito” e o “exame”, nas suas
na Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1973, descontinuidades e rupturas, mostrando suas diferenças e
publicada com o título: A verdade e as formas jurídicas, singularidades históricas, suas emergências, proveniências

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prescindindo de julgamento tendo em conta. Tratava-se sempre de – contemporâneo de Homero –. 2012 e condições de possibilidade. diferenças históricas e ou da sua legitimação por uma autoridade. Colocando em questão a linearidade da herança ocidental moderna em relação ao Direito Romano. mais antigo fazer acusações contra indivíduos. de litígio. esse procedimento datado inquisição”. Até os séculos XII e XIII. de Heródoto. envolvia um desafio e uma oposição. e havia provas corporais envolvendo formas de desafio e e a formação de um novo tipo de saber fundamentado na sofrimento físico. inquérito. mas também cumplicidades. ele destaca na cultura grega dois tipos da sociedade ou do poder – um promotor – encarregado de de procedimentos de solução de litígios. envolvendo práticas jurídicas como “regulamentos judiciários. e inquérito. Sófocles e Aristóteles. nem ritualizada por procedimentos jurídicos.): 104-111. não existia no antigo Direito conciliatória e naturalizada habitualmente percorrida no Germânico o procedimento de inquérito. acusação e disputa direta entre indivíduos. testemunho. juiz. oposições e conflitos. evidentemente. interrompendo-se as hostilidades procedimento. das denúncias ou acontecimentos. de contestação ou de disputa” (Foucault. havia provas prova e demonstração visando a produzir verdades. Foucault afirma que se trata. 105 . O outro caso de assassinato –. O sistema feudal de lembrança – o testemunho – e na “arte da pergunta”: o provas judiciais não consistia numa pesquisa da verdade. de natureza mágico-religiosa ligadas ao ato do juramento. posterior. uma vez que os campo do Direito. Também não epistêmicas. com a entrada da Igreja Católica na cena jurídica através da instituição dos “processos de Bem mais complexo. mostra mais forte. – centrado na produção de uma verdade. o verbais que não eram da ordem da veridicção.C. Tal como na cultura grega atividade. 53). Nesse sentido. nesse sistema. p. de provar quem diz a verdade. Um. mostrando que se encontra bem próximo das antigas práticas jurídicas gregas e que suas Dando início à sua genealogia. chamadas “ordálios”. O resultado final da diversidade de formas. havia provas visando a convencer outros quanto à verdade que se afirma. litígios eram regulados pelo jogo da prova. instalando-se entre as ciências modernas. jogo a posição social e a “honra” dos envolvidos. como: a elaboração de formas racionais de do lugar social ocupado pelos indivíduos. colocando em desenvolvimento da retórica como arte da persuasão. Psicologia & Sociedade. objetivando “uma vitória para a verdade e pela verdade”. A solução do conflito podia envolver decisão sobre quem tinha razão ligava-se aos riscos que ressarcimento financeiro ou vingança – quase sempre em cada um estava disposto a correr para provar isso. a disputa regulamentada entre dois guerreiros que se famílias ou grupos. obtendo resultados em ritmo mais lento. 1975/1987) será também de destinos da nossa cultura. além de se multiplicar e proliferar ação não era uma sentença. Aqui não há processo. grande utilidade nesse percurso. sem intervenção do poder público. sentença. o resultado da prova é Inquisição”. Assinalando uma ruptura. quem Essa disputa se prolongava durante toda a liquidação havia violado o direito do outro. judiciária como uma guerra particular regulada e julgamento. atravessamentos e apropriações assimétricas entre esses 1996/2005. mas a Idade Média reinventa a técnica de inquérito colocando-a de definir quem está com a razão. mas uma vitória ou derrota. ele traz Mapeando condições de possibilidade para a o exemplo do antigo Direito Germânico. antes do contato experiência moderna com o Império Romano. o que enfatiza o caráter conflitivo da dois modos de fazer justiça. enfrentavam para definir quem estava certo ou errado. Foucault abre sua relações com o Direito Romano após o confronto entre Terceira Conferência na PUC/RJ referindo-se às antigas essas duas culturas são bem mais complexas. 24(n. se pronunciava não sobre a verdade cultura ocidental. sim num jogo binário de aceitação ou recusa da prova. uma corrida de bigas – uma “justa” – onde a guerra e justiça. cuja Este saber por inquérito virá assumir uma enorme renúncia implicava derrota de antemão. e em muitos campos de conhecimento e de práticas na o juiz. refere-se à solução de um litígio quando do estabelecimento de um acordo que implicava criminal – a tarefa de provar quem cometeu um assassinato uma negociação entre as partes. mostrando que produção ou confissão de verdades. Também não há processo ou ação pública movida por um representante Dessa forma. automático e auto-evidente. decorrentes práticas. O estudo levado a efeito porém com maior sucesso. quando existia.spe. deslocando-se de uma perspectiva consensual. o Direito Feudal regulava os litígios pelo do século V a. muitas vezes consistia nessas sociedades não havia oposição ou distância entre numa luta. ao tempo de Homero. que é também o que se em outras bases. envolvendo a utilização do testemunho e do inquérito. compreende uma diversidade de procedimento de “provas”: havia provas sociais. ligando-se a partir de então aos em Vigiar e punir (Foucault. mas sobre a regularidade passando pela tecnologia cristã de confissão e pela “Santa dos procedimentos.

Prado Filho. de inquérito e de produção ser lesão apenas a outro indivíduo e passa a ser também ou confissão de verdades. quando um bispo obrigatoriamente procedia visitas periódicas à sua diocese ou a monastérios. Esses procedimentos poderiam ser interrompidos em qualquer estágio desde que houvesse confissão de culpa Considerando que uma sociedade onde a justiça opera por parte do responsável pela ação. A justiça deixa de ser litígio particular entre Igreja mesma não a tivesse aplicado na gestão dos seus indivíduos para ser problema de manutenção de soberania: próprios bens. faltas ou crimes. o que dá nascimento a todo um sistema momento da reinvenção e reintrodução dos procedimentos de multas e confiscos. a inquisição eclesiástica rei ou do senhor. Uma breve genealogia das práticas jurídicas no Ocidente. estavam ausentes nesse momento lei e da sociedade”. pecados e crimes cometidos. exatamente por isso. no ligada aos procedimentos inquisitoriais desenvolvidos pela fundo. em termos de concepção continuidade na sua aplicação durante a primeira metade de crime. o inquérito não era ainda nesse momento a necessidade de organização de um um procedimento jurídico. essa invenção do Direito Medieval substitui a da Idade Média. de um poder lesado – transforma-se ao mesmo tempo em inquérito espiritual mais tarde. E quando o dano causado deixa de os procedimentos de testemunho. 2005. bem antes de qualquer aplicação os conflitos não mais serão negociados e resolvidos entre administrativa. que concentra Esse sistema de práticas judiciárias desaparece no fim do século XII e no curso do século XIII. mas esses terão agora que se submeter à toda a Idade Média uma forma de inquérito espiritual e regulação por um poder judiciário organizado como religioso. mas sofreram uma quebra de inédita: a “infração”. Como prática administrativa. Esta passagem da Terceira Conferência noção de dano. na Europa medieval. mas às formas e Igreja Católica. articulado à prática de confissão. de tipo bastante diferente daquele cujo Como inquérito eclesiástico. Tudo isso mostra a colonização dos de inquérito no Direito Ocidental: mecanismos particulares de liquidação de litígios com seus procedimentos jurídicos pelo poder estatal. uma forma determinada administrativos. exercendo-se centralmente aparelho de justiça com seus procedimentos jurídicos e como técnica administrativa. O que administrativo utilizado pelo Império Carolíngio e outra foi inventado nessa reelaboração do Direito é algo que. que não sabia Direito dessa época foi uma determinada maneira de saber. agora. a Igreja Católica já utilizava ao longo de os envolvidos. Ali A reinvenção do inquérito na cultura ocidental chegando o bispo instituía inicialmente uma inquisitio generalis ou inquisição geral. surge outra figura Direitos Grego e Romano. que por sua vez apresentam história do mundo inteiro. entra em questão Portanto. na modernidade. O inquérito que ressurge nos séculos XII e eles dissessem aquilo que consideravam ser verdadeiro. que teria sido esquecida se a de alguns. práticas e à invenção de novas formas de justiça. Toda a segunda metade e passa a exercer o poder de julgar como garantia e em da Idade Média vai assistir à transformação destas velhas nome da manutenção de soberania. entretanto. que marcavam sua presença nos uma ofensa ao soberano e sua lei. implicava um condições de possibilidade do saber. O que se inventou no tipo de poder que se exercia pela pergunta. de novas A sentença jurídica surge também nesse momento formas de práticas e procedimentos judiciários. esperando que encoberto depois da queda do Império Romano durante vários séculos. perguntando àqueles Alguns acontecimentos históricos constituem que fossem capazes de saber. e quando ela poder político. ausente se tornou o único corpo econômico-político coerente da no Direito Romano. na medida em que a Europa impôs duas linhas de proveniência: uma ligada ao sistema violentamente o seu jugo a toda a superfície da terra. queria conhecê-la. Formas que são absolutamente capitais para a história da Europa e para a ligada às práticas de inquérito. a edificação resposta afirmativa instalava imediatamente uma inquisitio dos aparelhos de Estado monárquicos nascentes na Europa specialis – inquisição especial – destinada a apurar em nesse momento e a entrada da Igreja Católica na cena verdade quem havia feito o quê: autoria e natureza do jurídica. do soberano. a verdade e. que deve exigir reparação enfrentamentos entre essas formas jurídicas. Finalmente. que concentre o poder de julgar nas mãos de organização do poder. dirigia-se aos “notáveis” – pessoas capital no mundo ocidental. além de 106 . 62-63) da visitatio. e em caso de crescente necessidade da circulação de bens. se o soberano passa a ser o trata das rupturas e transformações resultantes dos principal lesado. se durante a sua ausência condições de possibilidade para tal movimento: a ocorreram irregularidades. Surge a figura do “procurador”. cujo destino vai ser busca pela verdade. De qualquer maneira. porém sem pressão ou violência. concerne não tanto aos conteúdos. ato. K. Nessa uma condição de possibilidade de saber. e assim. ele virá agir “em defesa da sobre faltas. é ele. por contestação e litígio liquidados entre indivíduos não tem um poder judiciário constituído. Porém. idade e riqueza seriam capazes de inquérito que apareceu pela primeira vez na Grécia e ficou saber –. Esta modalidade de saber é o que pela sua posição. marcando o e ressarcimento. XIII é. pp. ligava-se à prática medieval exemplo vimos em Édipo.1 (Foucault. operando como representante do Europa entre os séculos X e XII.

tem uma dupla proveniência histórica – o poder de julgar. com suas técnicas de dupla proveniência administrativa e religiosa e que. Vai procurar estabelecer por conhecimento. de adquirir coisas que vão ser consideradas verdadeiras e de Conforme Foucault. neste exato momento 107 . O inquérito é uma forma de saber-poder. Acrescenta Foucault que. 2005. na cultura ocidental. de anamnese. por meio da instituição judiciária. Forma político. o procedimento da prova tende a desaparecer da fonte de todo o poder. difundindo-se nas sociedades ocidentais exame interiorizado de si mesmo. veio a ser uma maneira. quanto sobre os corações. então. que o compreende a prática cristã denominada “exame de inquérito não nasce como prática jurídica: ele é bem mais consciência”. a partir desse momento. anterior e intimamente ligada à obrigação de antigo que o aparelho de justiça que está sendo construído dizer a verdade num ato de confissão a outrem. A aplicação do inquérito sobre si mesmo passando a ser aplicada em uma diversidade de práticas sociais. o procurador vai estabelecer que alguém é ou não Como conclusão poderíamos dizer: o inquérito não é culpado? O modelo – espiritual e administrativo. ou prática obrigatória a todo isso que se pode entender como reinvenção do inquérito no bom cristão. O inquérito é precisamente A difusão dos procedimentos de inquérito na uma forma política. a a estar intimamente ligada aos procedimentos jurídicos. a Igreja Católica de vida. ou redimir de aplicação administrativa e religiosa –. vindo a se institucionais e campos de conhecimento. 78) pela Igreja Católica. Este texto sintetiza sua problematização do judiciários. à inquérito subsistiu até o século XII. p. porém sua aplicação não permanece restrita Ligada a esta tecnologia de inquérito espiritual e de a estes domínios. uma forma de gestão. É precisamente instituir como sacramento. como a própria Psicologia. não coincidentemente. (Foucault. maneira de gerir e de vigiar e controlar as almas – de saber situada na junção de um tipo de poder e de certo se encontra na Igreja: inquérito entendido como olhar tanto número de conteúdos de conhecimentos. a Geografia. A partir do século XIII. etc. interiorizante e de natureza íntima. 2005. formou-se ao longo de toda a Idade Média. sociais e econômicas que servem de no procedimento judiciário. ela paralelamente ao inquérito e que. na modernidade. por inquérito. 2012 inquérito administrativo sobre a maneira como os bens Renascimento. relação por intermédio da consciência ou do sujeito do dioceses e comunidades. de reprodução das histórias de uma aplicação na gestão dos seus bens.): 104-111. religioso e absolutamente um conteúdo. se houve crime. antes entrevista. foi introduzido a culpa. p. mas a forma de saber. impor penitência e perdoar. então. É a de uma série de transformações nas estruturas políticas análise dessas formas que nos deve conduzir à análise mais e nos regimes de produção de verdade ocorridas na estrita das relações entre os conflitos de conhecimento e as época. buscando inventariar faltas.spe. ou antes. atividades institucionais e numa multiplicidade de A “confissão”2 é um tipo de prática que se desenvolve campos de conhecimento. as intenções. Esta passagem da Terceira ao desenvolvimento e aplicação desse procedimento no Conferência sintetiza essa questão e marca o momento de campo jurídico. De que maneira. passa a confiscar os procedimentos cena jurídica. 71) ser encontrada nessas formas que são ao mesmo tempo modalidades de exercício de poder e modalidades de aquisição e transmissão do saber. essa prática virá a se difundir amplamente pela sociedade europeia. É esse modelo que vai ser retomado e as formas políticas. havendo sido introduzida nos domínios jurídicos determinações econômico-políticas. entre outras Vimos que o procedimento de inquérito apresenta uma tantas. O procurador do Rei vai fazer o contexto a esse conhecimento costumam estabelecer essa mesmo que os visitantes eclesiásticos faziam nos paróquias. pecados e culpas. amplamente aplicáveis em diversos campos e já desenvolvera toda uma tradição de inquérito espiritual. Economia política. qual foi ele e quem processos econômico-políticos e conflitos de saber poderá o cometeu. a prática de confissão modernas em toda uma multiplicidade de práticas sociais. Aqueles que sobre os bens e as riquezas. que funciona como um núcleo a partir do emergência da prática do inquérito no campo jurídico: qual a prática do inquérito irá se multiplicar e expandir Este modelo ao mesmo tempo religioso e administrativo do adentrando a modernidade. 24(n. a pessoa do soberano que surgia como de saber. de autenticar a verdade. a Demografia. Estes procedimentos judiciários não podem mais inquérito e conclui sua Terceira Conferência: funcionar segundo o sistema da prova. de exercício do passagem à modernidade poder que. os querem estabelecer uma relação entre o que é conhecido atos. a reinvenção do inquérito resulta as transmitir. Psicologia & Sociedade. Mais tarde. acontecimento fundamentalmente ligado da Igreja eram administrados. Parece-me que a verdadeira junção entre inquisitio. Este “inquérito sobre si mesmo” Este percurso genealógico mostra. que detém nesse momento. (Foucault. quando o Estado que medida que o inquérito se desenvolve como forma geral nascia. atividades profissionais dos psicólogos. no campo jurídico pela Igreja Católica e colonizado pelo poder estatal. passará para um grande número de ciências como a Medicina. virá a constituir suporte metodológico e epistemológico mais uma vez por intermédio da Igreja Católica.

mas uma analisadas agora no contexto das sociedades disciplinares mudança de rumos da legislação penal acaba por colocar no e de vigilância da época. e a pena de Talião –. No Renascimento. é claro que a adquirindo aquele poder já citado. A lei penal deve reparar o mal ou impedir que como instrumento para a produção das suas verdades males semelhantes possam ser cometidos contra o corpo –. uma falta deixa de ser dano particular Observa Foucault que. acaba triunfando na modernidade como irá tratar das transformações ocorridas nas práticas pena por excelência. uma “lei positiva”. Uma breve genealogia das práticas jurídicas no Ocidente. religiosa para difundir-se em uma multiplicidade de Se o crime é um dano social. deste sistema. as prisões não faziam parte dos projetos dos códigos”. Também a exemplo do que se passa ou deve reagir a esse crime? Se o crime é uma perturbação com o inquérito. 2005. A lei penal deve ser feita de tal maneira que o dano causado pelo indivíduo à sociedade Na modernidade virá a proliferar no Ocidente toda seja apagado. é indivíduo desviante da norma. como a lei penal pode tratar esse criminoso conhecimento diversos. a Psicologia. desde que haja um pecado. de a outrem para ser infração à lei natural. à deixando de ser aplicada em defesa da sociedade para paz e à ordem. No entanto. particularmente na França e na Inglaterra –. A lei penal deve apenas permitir a reparação da confissão de culpa pelo réu. de reforma jurídica do final do século XVIII. no entanto. perigosas. a sociedade disciplinar Direito moderno virá produzir suas próprias concepções e formas de saber. entre as quais. se o criminoso é o inimigo relações e práticas sociais. quanto sobre virtualidades da sua conduta criminosa/ o que coloca em movimento outro elemento fundamental criminalizada: o que ele pode fazer. religiosa ou forma sempre mais acelerada. ela migra diretamente do confessionário para a sociedade. perturbação causada à sociedade. falta. possibilidade para as sociedades modernas que se formam da vigilância e da normalização das condutas socialmente a partir de então. o crime nada tem a ver com pecado ou falta longo do século XIX a legislação penal vai sempre mais moral. O criminoso – figura produzida por esse punir de forma mais individualizada o infrator e corrigir o discurso –. durante todo o século XIX. mais uma vez. histórico: em 1215 – século XIII – no Concílio de Latrão. Ao Portanto. deve se distinguir das leis naturais. religiosa. sendo por isso passível de punição. entendido como quem desrespeita a lei. com suas social. Dentre os tipos de punição propostos pelos chamados “reformadores do direito” – a deportação ou banimento. cede espaço para uma aplicação da lei modulada segundo religiosas e morais. A moderna reforma do direito no Ocidente o isolamento ou exclusão. – aquilo que ficou conhecido como “reforma do Direito e Na verdade. é preciso que o dano uma diversidade de “ciências confessionais” – que não são não possa mais ser recomeçado pelo indivíduo em questão outras senão aquelas que utilizam o discurso confessional ou por outro. se ao indivíduo”. A penalidade passa a incidir o inimigo social: inimigo interno que rompeu o pacto e não tanto sobre faltas e atos cometidos pelo indivíduo ameaça a sociedade. com a lei natural. a emergente noção de “crime”. (Foucault. não se encontra a pena de privação de liberdade Na Quarta Conferência proferida na PUC/RJ. K. jurídicas europeias na passagem do século XVIII ao XIX legitimando a existência de prisões em nossas sociedades. que dela seu foco daquilo que seria útil para a sociedade para “ajustar- deriva. Pode-se afirmar o que ele está sujeito a fazer – “menos a defesa da sociedade 108 .Prado Filho. alcançar uma aplicação individualizada formulada por uma sociedade através da ação de um poder do princípio legal. agora. Foucault que. a condutas individuais correlativamente a um processo de confissão irá transbordar os limites da sua aplicação penalização individualizada das faltas e infrações. refere-se a uma ruptura específica com a lei civil. aquilo que se conhece como constituído para a função política de legislar. o trabalho forçado. como expressão da racionalidade da lei representando exclusivamente interesses sociais de uma sociedade. que é a noção de “pena”.. que constituem solo e condição e centro das atenções os problemas políticos do isolamento. condutas e virtualidades do indivíduo em julgamento. 81-82) técnicas de escuta. Por sua “individualização da pena”. representando o que é útil para uma “circunstâncias atenuantes” – ou agravantes – ligadas às sociedade e repreendendo aquilo que é nocivo a ela. pp. se isso não for possível. o que é capaz de fazer. tal como acontece com o inquérito. a redenção de processo judicial a qualquer momento. se o crime não tem mais nada a ver com a cristão para a Inquisição e daí para as práticas jurídicas. punição para todo e qualquer crime. que acontece nesse momento uma criminalização das A partir de então. O princípio da universalidade vez. Vimos que as práticas jurídicas renascentistas deixam como grandes legados teóricos a noção de infração e o A individualização da pena e psicologização do saber por inquérito. mas constitui dano social e ameaça à sociedade. de interromper um lei penal não pode prescrever uma vingança. interpretação e “cura pela palavra”. institucionais e por campos de da sociedade. a legislação penal deslocou moral. etc. divina.

p. em torno da decorrente da exposição permanente dos indivíduos ao instituição judiciária e para lhe permitir assumir a função olhar hierárquico. mas por uma série de outros normalizante sobre suas condutas. 85-86) uma multiplicidade de saberes e práticas sobre o sujeito na passagem à modernidade. à contestação da grande separação atribuída A aplicação articulada dessas modalidades de saber- a Montesquieu. O controle de vigilância capaz de produzir um conhecimento sobre dos indivíduos. se sua conduta é correta. Chega-se assim. a formação de um saber sobre o poder. decorrentes desta minuciosa prática de poder referem- criminológicas. se ele age ou não conforme ao longo do século passado e as práticas políticas de a regra. – imbricado no jogo da “norma” – como forma de saber- as práticas disciplinares. não conseguem disfarçar seu caráter alcance fino. funcionando como grande coletivamente. a polícia. referente às relações genealógicas Assim como o Renascimento reinventa o inquérito. Psicologia & Sociedade. corrigindo “personalidade criminosa = perigosa”.” (Foucault. contribuindo particularmente A articulação entre práticas de exame e o jogo da para o nascimento das Ciências Humanas e da Psicologia. etc. Mas os grandes efeitos de subjetividade para a vigilância. Merece destaque aqui. ligando cada um à sua poderes laterais. Trata-se. as entre a individualização e suposta “humanização” do sociedades disciplinares e panópticas criam o “exame” direto moderno. pedagógicas. característico das sociedades ocidentais modernas. assim. É a idade de controle social. 2012 que o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes O exame refere-se a um conjunto de técnicas que e do comportamento dos indivíduos. as instituições psicológicas. inquérito e de exame. adequada e normal. de uma aplicação de saber-poder os indivíduos ao longo de sua existência. resultante dos jogos de identificação uma gigantesca série de instituições que vão enquadrar social. Enquanto o exame produz individualidades operador de uma política das penalidades voltada para separadas entre si. norma tendo em conta o caráter subjetivante dessas técnicas. como a polícia e toda uma rede de instituições de vigilância e de correção – a polícia própria identidade.spe. e alvos desta nova “economia punitiva” são o controle e a buscando reconduzir os desviantes à normalidade. É assim. o que mostra de se sustentarem em argumentos de cientificidade. um saber sobre suas dos indivíduos ao nível de suas virtualidades não pode ser subjetividades singulares. o jogo da norma trata de nivelá-las e uma contenção de virtualidades e perigos atribuídos a uma serializá-las. ou pelo menos formulada por ele. Relações entre a Psicologia e esta genealogia das práticas jurídicas Entramos assim na idade do que eu chamaria de ortopedia social. o asilo. idêntico a si mesmo. Trata-se de uma forma de poder. 24(n. de inventariar ou de reconstituir passo a passo um acontecimento – saber o que aconteceu. o “escandaloso” mesmo modo que a aplicação do poder da norma permite enunciado da “periculosidade” colocado pelo discurso a comparação e classificação entre indivíduos tomados criminológico positivista. e à obrigação de repetir-se e ser sempre de controle dos indivíduos ao nível de sua periculosidade. 2005. Essa é uma das questões centrais tratadas em Vigiar e punir (Foucault. jurídicos modernos. desenvolve-se. que no século XIX. do 85). que permite um controle efetuado pela própria justiça. Apesar reforma do comportamento dos indivíduos. para a correção. 2005. o certa psicologização do Direito moderno3.): 104-111. Toda essa rede de subjetivante: operando como “convicção subjetiva” que um poder que não é judiciário deve desempenhar uma das funções que a justiça se atribui neste momento: função não regula a conduta de cada um. entre poder poder apoia-se na exposição dos indivíduos a um tipo judiciário. apenas. mais. capilar e subjetivante dos procedimentos de saber-poder técnico. mas de corrigir suas virtualidades. psiquiátricas. quem fez o que São indisfarçáveis as relações de proveniência entre a e quando –. possibilitam um conhecimento detalhado de cada um. capilar e subjetivante. mais de punir as infrações dos indivíduos. se à produção de uma “certeza de estar sendo vigiado”. constitui condições de possibilidade para a formação de pp. a criminologia positivista do século XIX. As questões nodais desvios e operando uma ortopedia da subjetividade. mas é necessário também conhecer em detalhes tecnologia científica de avaliação psicológica desenvolvida como um indivíduo se conduz. poder executivo e poder legislativo. 1975/1987) 4. (Foucault. essa espécie de controle penal punitivo as particularidades de cada um. patologizando as diferenças. temática abordada em Vigiar e punir. de um tipo de sociedade que classifico de sociedade disciplinar por Esta breve genealogia das práticas jurídicas mostra que oposição às sociedades propriamente penais que conhecíamos o desenvolvimento dos procedimentos de inquérito e exame anteriormente. instituições ao mesmo tempo objetivante – funcionando como prática pedagógicas como a escola. psicológicas ou psiquiátricas social que se inscreve no corpo de cada indivíduo – e como o hospital. como a norma. médicas. bem como o exame. disciplinar. segundo ele. em suas imbricações com o jogo 109 . à margem da justiça. Não se trata indivíduo e o nascimento de uma “ciência psicológica”.

A articulação dessas técnicas dá consistência figuras postas às margens da sociedade. A psicometria científica do século XX articula medicalização da vida. que emprega métodos e técnicas na tragédia grega “Édipo”. o projeto metodológico da genealogia Deve-se ter em perspectiva que a criminalização do poder. e correlativas da patologização das condutas cotidianas e da o não menos importante trajeto de uma genealogia da psicologia. atuando psicologizadas de enunciação. de exame psicológico. 110 . atravessado por diversos percursos. Psicologia. assim. Uma breve genealogia das práticas jurídicas no Ocidente. enunciando a normalidade ou anormalidade universalizante denominada “sujeito de direito”. aplicadas no sentido de conhecer características instrumentalização psicológica do exercício de poder. com suas respectivas características e A trajetória aqui percorrida mostra. laudos e perícias dão mostras das aproximações Estado. pareceres técnicos que irão subsidiar decisões e sentenças judiciais. passamos do exame anátomo- fisionômico-caracterológico do criminoso proposto pela criminologia positivista no século XIX a uma modalidade 1 Referência ao tratamento do problema da prova jurídica analisado de avaliação científica. a formação histórica de procedimentos não Particularmente tais aplicações nas formas de exatamente jurídicos que. modos finos de subjetivação e certa de exame. em última diferenças. abrindo-se com os domínios do Direito. Assim. A recente formação do campo da psicologia 4 Este livro – Vigiar e punir (Foucault. bem instâncias judiciais. indivíduo preso a uma identidade. entre elas: o eixo central do estudo. correlativamente. quando eles transbordam as fronteiras do saberes jurídicos. mais sedutores e irresistíveis. 139-148). consultar Prado Filho (2006. o trajeto genealógico mostrando contemporâneo de judicialização da vida. o percurso de uma genealogia do indivíduo moderno. colocando em evidência formas sutis de governo registro de história individual – com técnicas disciplinares das condutas. mais individualizantes recuperação. psicológicas. como o infrator. como também 3 A respeito disso. a reinvenção das disciplinas na forma de uma anátomo-política e uma microfísica do poder. pronuncia. reconstituição e norma. são “judicializados”. para de julgamento.Prado Filho. refinando estratégias psicológicas com esse processo. instância. sujeito perigoso. abrindo-se. assim. se sobre virtualidades da conduta de um criminoso: sua Nesse mesmo texto ele aponta ainda. classificadas em relação a uma média construída por Concluindo comparação estatística entre indivíduos. uma crítica do nosso tempo e de nossas práticas. marcação. O exame criminológico deve ser remetido ao contexto Notas dessas práticas. tais além de personagens habituais em nosso cenário cotidiano: como: processos seletivos. da norma. anamnese. as trajetórias de uma genealogia das sociedades das condutas cotidianas e a judicialização da vida são modernas. psicodiagnósticos. em suas formas de aplicação e em seus efeitos. periculosidade. capacidades e características individuais. pareceres. A aplicação de saberes. bem como é indicador para muitas possibilidades transversais de leitura. que tal genealogia aponta técnicas e instrumentos psicológicos tem sido objeto de algumas condições de possibilidade para a experiência de demandas crescentes da parte de diversas instituições e judicialização que vivemos contemporaneamente. quando requisitada a produzir laudos. É precisamente aí que a Psicologia como mostra alguns envolvimentos de saberes e práticas exerce seu papel de “justiça paralela”. a partir da sua captura pelo pareceres. psicologização dos poderes modernos que se tornam mais “finos” e mais sutis. social e institucionalmente reconhecidos. o a todo um conjunto de instrumentos científicos da criminoso. em Vigiar e punir Foucault (1975/1987) aponta o funcionamento da Psicologia como “justiça paralela” na sobre as perspectivas de recuperação ou reabilitação modernidade. resultando em modalidades sutis e “jurídico” e se transversalizam pela sociedade. todos eles aspectos fundamentais técnicas provenientes das práticas medievais de inquérito da experiência contemporânea. assim. indivíduos. pp. laudos e perícias. K. marcando e nomeando passagem à modernidade: não apenas dessa abstração os desvios. objeto da palestra anterior. mostrando em seguida a contemporâneas entre a Psicologia e as práticas e sua difusão. delinquente. mostrando o nascimento das prisões no contexto do envolvimento dessa disciplina com o fenômeno da reforma do Direito moderno. é possível conhecer a distância Este exercício genealógico do olhar mostra ainda de cada um em relação à média do seu grupo – que é a sua a emergência de variadas figuras de subjetividade na posição em relação à norma social –. imbricados no jogo da – técnicas de entrevista. pronunciando-se não apenas sobre 2 Sobre este tema. subjetivação e como regulação e governo cotidiano das condutas dos governo cotidiano das condutas. inimigo interno. o sujeito normal. mas de de cada um. e subjetivantes. Entendemos. subjetivação da regra e da norma. uma sociabilidade. senão de correção e punição. reconhecimento da falta. capacidades e habilidades individuais. 1975/1987) – é constituído jurídica também dá mostras das ligações da Psicologia por vários projetos. com um recurso ao jogo da norma. Nesse sentido. perícias e daquele que cometeu um crime.

Veiga-Neto (Eds. Rio de CEP 88040-970. RJ: Santa Catarina. Petrópolis. (2005). (2012).com Prado Filho. 2012 Referências Kleber Prado Filho é Professor do Programa de Pós- graduação em Psicologia da Universidade Federal de Foucault. Janeiro: Nau. Campus Vozes. Foucault. Psicologia & Sociedade.): 104-111. Trindade. M. (Trabalho original publicado em 1996) Email: kleberprado.). In M. Uma breve genealogia das práticas Revisão em: 31/05/2012 jurídicas no Ocidente. 24(n.spe. K. 139-148). Aceite em: 08/07/2012 spe. Endereço: Caixa Postal 5068. (2006). Belo Horizonte: Autêntica.psi@gmail.). Vigiar e punir (5ª ed. 24(n. Psicologia & Sociedade. Brasil.). (Trabalho original publicado em 1975) Universitário. (1987). Uma genealogia das práticas de confissão no Ocidente. Figuras de Foucault (pp. Como citar: Recebido em: 29/01/2012 Prado Filho. 104-111. Rago & A. A verdade e as formas jurídicas. K. M. Florianópolis/SC. 111 .