You are on page 1of 10

175

Aids, drogas, riscos e significados:

TEMAS LIVRES FREE THEMES


uma construção sociocultural

AIDS, drugs, risks and meanings:


a sociocultural construction

Maria Angela Silveira Paulilo 1


Leila Sollberger Jeolás 2

Abstract The article analyzes the discourse Resumo O artigo analisa discursos sobre o risco
about the risk represented by HIV/Aids and do HIV/Aids e das drogas, extraídos de duas pes-
drugs, found in two qualitative researches carried quisas qualitativas desenvolvidas entre jovens de
out with youngsters from public schools and from escolas públicas e jovens participantes em progra-
public social services and programs. The data mas e serviços sociais públicos. Os dados provie-
came, for the first research, from focus groups, ram de grupos focais, oficina e resposta escrita a
workshops and a written answer to an open ques- uma questão aberta; e questionário com questões
tion; and for the second one, a questionnaire with fechadas e abertas. O texto se baseia em dois eixos
close and open questions. This text is based on de análise presentes no caso da aids e das drogas.
two analysis axes which occur in both cases, aids O primeiro se relaciona à projeção do risco para
and drugs. The first one is related to the projec- um território distante estabelecido pela figura do
tion of the risk to a distant territory established “outro”. O segundo se refere à busca do prazer tra-
by the figure of the “other”. The second one is re- zido pelo sexo e pelas drogas, prazer constituído
lated to the search for pleasure provided by sex pela sensação de vertigem, de êxtase, de perda dos
and drugs, pleasure which derives from dizziness, sentidos, componente oposto à racionalidade es-
ecstasy, senses’loss, opposed to the rationality ex- perada pelo discurso preventivo. A compreensão
pected by the preventive discourse. The sociocul- sociocultural do risco nos levou a considerar que,
tural comprehension of the risks led us to consider embora cientes do discurso preventivo relaciona-
that, in spite of the knowledge about the preven- do aos efeitos negativos das drogas e do HIV/Aids,
tive discourse of the negative effects related to aids os jovens o incorporam de forma particular, na
and drugs, this is done with inconsistency, am- qual aparecem inconsistências, ambivalências e
bivalence and ambiguities. It is concluded that ambigüidades. Concluímos que a linguagem do
1 Departamento
the language of the risk for the youngsters is dif- risco para os jovens é diferente daquela presente
de Serviço Social.
Universidade Estadual ferent from the one presented in the health area. na área da saúde. Os riscos são concebidos e con-
de Londrina CESA/UEL, These risks are conceived and controlled within trolados em meio a diferenças culturais e não re-
Campus Universitário, the framework of cultural differences, not being duzidos à probabilidade de ocorrência de um
C. P. 6.001. 86051-990,
Londrina PR. reduced to the probability of a negative event, as evento negativo, como tratado pela linguagem ra-
mangela@londrina.net in the modern rational language. cional moderna.
2 Departamento
Key words Risk, HIV/Aids, Drugs, Youth Palavras-chave Risco, HIV/Aids, Drogas, Jovens
de Ciências Sociais.
Universidade Estadual
de Londrina, CCH/UEL
176
Paulilo, M. A. S. & Jeolás, L. S.

Introdução laciona-se à projeção do risco para o mundo


externo, para um território distante constituí-
Este artigo pretende analisar o risco como uma do pela figura do “outro”, trata-se do afasta-
categoria social e historicamente construída, mento do risco para além das fronteiras do
cujos significados dizem respeito, muito mais, “eu”. O segundo remete à busca do prazer pro-
à extensão de seus resultados e ao valor social a porcionado pelo sexo e pelas drogas, prazer do
eles atribuídos, em diferentes contextos sociais, qual fazem parte a vertigem, o êxtase, a embria-
do que à probabilidade de ocorrência de algo guez dos sentidos, contrapostos à racionalida-
negativo (Douglas, 1994). Para tanto, utiliza- de esperada pelo discurso preventivo entendi-
mos os dados oriundos de duas pesquisas por do, conforme Fabre (1993), como “o conjunto
nós realizadas, uma desenvolvida com jovens de mensagens de prevenção”.
de escolas públicas e de um centro de referên-
cia para adolescentes e outra com jovens parti-
cipantes de serviços e programas sociais públi- Metodologia
cos que oferecem cursos profissionalizantes e
atividades sócio-educativas. A primeira teve Os dados sobre Aids são oriundos de uma pes-
como objetivo compreender as representações quisa realizada com jovens, de 15 a 24 anos, em
sociais elaboradas pelos jovens sobre o risco de cinco escolas estaduais de diferentes regiões da
exposição ao HIV/Aids e, a segunda, o risco re- cidade de Londrina e em um Centro de Refe-
presentado pelas drogas. rência direcionado para atendimento a adoles-
As representações sociais são aqui com- centes, de 13 a 18 anos. Nas escolas, os jovens
preendidas como elaborações sócio-cognitivas responderam a uma questão aberta sobre o que
e afetivas, enraizadas na realidade social e his- pensavam e sentiam com relação ao risco re-
tórica ao mesmo tempo em que contribuem presentado pelo HIV/Aids. As respostas – 1.022
para construir esta mesma realidade, dando – foram organizadas, para fins de análise, por
sentido às práticas sociais (Minayo, 1993). Tra- meio de um programa para tratamento de da-
ta-se, portanto, de buscar compreender as con- dos qualitativos, QSR NUD-IST (Qualitative
cepções que os próprios jovens pesquisados Data Analysis Software) e cotejadas com con-
elaboraram sobre o risco, de forma a se contra- teúdos extraídos das discussões realizadas em
por ao significado racional e objetivo que o ter- pequenos grupos – oficinas de prevenção e
mo adquiriu, sobretudo, na área da saúde. Em grupos focais – no Centro de Referência citado
tais pesquisas pode-se observar que estes riscos (Jeolás, 1999).
são concebidos e controlados no quadro de re- Os dados sobre drogas foram extraídos de
ferências culturais dos grupos sociais, não se parte de pesquisa mais ampla sobre o uso de
reduzindo, como na linguagem racional mo- drogas ilícitas realizada com 722 jovens partici-
derna, apenas à probabilidade de um evento pantes de serviços e programas sociais públicos
negativo acontecer. que oferecem cursos profissionalizantes e ativi-
Apesar de os entrevistados terem incorpo- dades sócio-educativas. A coleta de dados foi
rado o discurso preventivo dos efeitos negati- realizada por meio da aplicação de um questio-
vos relacionados ao HIV/Aids e às drogas, o fa- nário com questões fechadas e abertas.
zem de maneira particular, com nuanças entre As respostas às questões fechadas levanta-
o positivo e o negativo. A compreensão socio- ram dados quantitativos relacionados ao perfil
cultural dos riscos nos leva a considerar as am- sócio-demográfico dos entrevistados e, dos que
bivalências e as ambigüidades que eles apresen- relataram fazer uso de drogas, dados referentes
tam, frutos da tensão na sociedade contempo- a tipo, freqüência e tempo de uso de drogas, ta-
rânea entre o imperativo da prevenção – res- bulados e analisados em artigo já publicado
ponsabilidade de cada um diante da objetivi- (Paulilo & Jeolás, 2002). Uma breve caracteri-
dade e codificação dos riscos – e o desejo da zação dos jovens entrevistados mostra que a
aventura, próprio de nossa época. faixa etária predominante situa-se entre 14 e 17
O texto ora apresentado estrutura-se em anos, o que corresponde a 83,1% do total. O
torno de dois eixos de análise correspondentes universo masculino é o prevalente – 61,36% –
a dois componentes culturais que aparecem e as meninas representam 37,81% do total pes-
com muita intensidade tanto no caso do risco quisado. A prevalência de meninos tem como
representado pelo HIV/Aids, como no caso do razão o fato de que uma das instituições, res-
risco representado pelas drogas. O primeiro re- ponsável pelo atendimento de 23,68% dos jo-
177

Ciência & Saúde Coletiva, 10(1):175-184, 2005


vens entrevistados, oferece cursos profissiona- elucidativos. Vale lembrar, de acordo com Cal-
lizantes e ocupações voltadas para o aprendiza- vez (1993) e Douglas (1994), que o termo risco
do de tarefas usualmente desempenhadas por só aparece entre os séculos 16 e 17 – três sécu-
adolescentes do sexo masculino. A freqüência à los depois da palavra perigo – no contexto dos
escola faz parte da vida de 82,41% dos jovens jogos de azar, do comércio marítimo e da aná-
contra 13,43% que não mais freqüentam a es- lise matemática referente às chances de um
cola. Embora a grande maioria dos jovens es- evento vir a ocorrer. No século 19, a análise de
tude, vê-se que o primeiro grau incompleto é a probabilidades tornou-se comum e o risco,
faixa escolar de 61,08% do universo pesquisa- agora dimensionado, se mostrou importante
do, seguida de 18,84% com segundo grau in- no âmbito da economia, sendo aplicado, então,
completo e 12,74% com primeiro grau com- à esfera do comércio e da indústria, para cálcu-
pleto. Apenas 2,08% dos entrevistados referi- los de investimentos, em termos de custo-be-
ram ter completado o segundo grau. Apenas nefício. Nas teorias econômicas, o risco de uma
14,68% do total de jovens relataram realizar al- transação justificava-se pela expectativa de lu-
gum tipo de trabalho e o baixo índice aponta- cro. O termo foi se consolidando estreitamente
do pode ser atribuído ao fato de que quatro das ligado ao sentido de possibilidade – positiva e
instituições pesquisadas oferecem cursos pro- negativa – e à teoria das probabilidades, incor-
fissionalizantes, tendo como exigência outro porando, a partir de então, a idéia de escolha
período de turno escolar. Os dados referentes à racional, ponderadas as possibilidades de ga-
renda familiar mostram que 12,60% das famí- nhos e de perdas.
lias ganham abaixo de um salário mínimo, se- O uso do termo se expandiu para a epide-
guidos de 35,46% que recebem de um a dois miologia, tecnologia, meio ambiente e direito,
salários mínimos, 25,76% que obtêm de dois a referindo-se a problemas coletivos. Fortalecida
quatro salários mínimos e 15,93% que alcan- sua associação com a possibilidade de resulta-
çam rendimentos acima de quatro salários mí- dos negativos, o termo passou a expressar da-
nimos. No que concerne ao uso de drogas, nos, coisas ruins e indesejáveis.
21,61% – 156 jovens – responderam já terem Aos poucos, desenvolve-se uma crença ge-
experimentado algum tipo de droga. Destes, neralizada referente à possibilidade de decisões
entretanto, afirmaram ser usuários de drogas cientificamente objetivas sobre exposições ao
na data da pesquisa 63 jovens, o que equivale a risco no debate sobre riscos industriais, ecoló-
40,38% dos 156 jovens que revelaram já ter fei- gicos, médicos e no domínio dos riscos rigoro-
to uso de droga. Tomado como referência o samente calculados como nas práticas de es-
universo total, este dado corresponde, portan- portes radicais e competições esportivas.
to, a apenas 8,72% dos 722 jovens pesquisados. Estamos quase prontos, diz Douglas (1994),
As respostas às questões abertas, do ques- para tratar toda morte como responsabilidade de
tionário aplicado, trouxeram as representações cada um, cada acidente como causado pela ne-
sociais elaboradas pelos jovens acerca das dro- gligência criminal de cada um, cada doença co-
gas. A organização dos conteúdos foi realizada mo ameaça de responsabilidade criminal. Ressoa
por meio do programa QSR NUD-IST (Quali- no ar a pergunta de quem é a culpa? E temos
tative Data Analysis Software) para pesquisa que nos acostumar, expressa muito bem a au-
qualitativa e a técnica utilizada para o trata- tora, a essa matemática da probabilidade se in-
mento dado ao material coletado foi a análise trometendo em nossas preocupações íntimas, a
temática (Bardin, 1997). essa objetividade e codificação dos riscos na nos-
O artigo ora apresentado pretende, assim, sa presente cultura (Douglas, 1994).
analisar conjuntamente tanto as representações A figura do expert, solicitada como juiz ou
associadas ao risco representado pelo HIV/ árbitro externo para avaliar níveis de risco re-
Aids, como aquelas relacionadas ao risco repre- força a expectativa depositada em soluções téc-
sentado pelas drogas, resultantes das pesquisas nicas e no saber da ciência, como aval irrefutá-
mencionadas. vel e legítimo. A palavra risco, nas discussões
dos especialistas em perigos representados, por
exemplo, pelo lixo nuclear ou por águas poluí-
O risco como construção sociocultural das, parece proporcionar maior abstração ou
tornar mais remota uma possibilidade de ocor-
A história da noção de risco e o processo de rência similar, prorrogando a iminência do pe-
construção dos significados a ela atribuídos são rigo. De acordo com Douglas (1994), perigo se-
178
Paulilo, M. A. S. & Jeolás, L. S.

ria, portanto, a palavra mais acurada para se Aids, riscos e significados


expressar algo sujo, poluído, inaceitável. E a pa-
lavra risco, numa tentativa de reduzir incerte- Sabe-se que todas as culturas humanas elabo-
zas para melhor controlá-las, tornou-se uma ram interpretações para explicar o mal, os in-
forma decorativa para a palavra perigo. Na ver- fortúnios e os perigos que acometem os sujei-
dade, tal mudança semântica possibilitou que tos sociais (Augé, 1991). No processo de cons-
o termo se revestisse de cientificidade e possi- trução social da Aids, significados produzidos
bilitou quantificar as possibilidades em termos na história das epidemias ocidentais se mostra-
de probabilidade, única forma aceita pela ciên- ram igualmente presentes: a força da idéia do
cia. O risco passa a ser abstrato e objetivamen- contágio; os simbolismos atribuídos aos flui-
te controlado. Essa pretensão de um cálculo dos corporais como o sangue, o esperma e a sa-
preciso com aura de ciência explica o fato de liva; o medo do desconhecido e a segurança do
seu uso ter se estendido e de ter se tornado familiar; as explicações moralistas para os peri-
conceito em várias áreas do conhecimento. A gos e sofrimentos; a busca de bodes expiatórios
autora acredita que a maior contribuição para e a responsabilização do “outro” – o estrangei-
a importância do conceito proviria da necessi- ro, o diferente, o estigmatizado – como o por-
dade atual, nas sociedades globalizadas, de um tador do mal. Tais significados permeiam o
conceito universal, um vocabulário jurídico co- imaginário social entendido, de acordo com
mum adequado aos foros de discussão que de- Balandier (1998), como imagens mensageiras
mandam leis de alcance internacional. Pode-se de sentido coletivamente produzidas e, no caso
compreender por que a idéia de risco se adapta da Aids, precisamente, o deslocamento do real
bem aos tempos atuais, pois, segundo a autora, ao simbólico e do real ao imaginário encontrou
sua terminologia universalizante e seus usos ju- vias de fácil acesso uma vez que há muito tem-
rídicos se adaptam à cultura que dá suporte à po traçadas na cultura ocidental.
sociedade moderna industrial. O primeiro componente cultural aqui ana-
Ayres (1998) faz uma análise sobre a noção lisado volta-se para o processo de construção
de risco na saúde pública e na epidemiologia e, do “outro” que aparece de forma recorrente nas
na discussão do conceito de risco no âmbito da falas dos jovens entrevistados.
epidemia de Aids, propõe, juntamente com ou- Crawford (1994) contribui para a com-
tros autores (Ayres et al., 1998), a substituição preensão deste processo de relação entre o “eu”
do conceito de risco, com o qual se busca cal- e o “outro” em termos do “sadio” e do “não sa-
cular a probabilidade de ocorrência de um dio”, compreendidos em seus significados bio-
agravo, pelo conceito de vulnerabilidade que lógicos e metafóricos. A autora parte do pres-
admite diferentes variáveis, entre elas, as socio- suposto de que a saúde é uma das imagens
culturais. O conceito de risco, quando associa- mais poderosas associadas, por contraposição,
do aos termos grupo e comportamento, nos pri- à imagem de doença e de doentes. Primeiro, o
meiros anos da epidemia, mostrou-se limitado conceito de saúde seria absolutamente central
para abranger a complexidade das múltiplas à identidade moderna, em termos físicos e sim-
dimensões da Aids relacionadas a práticas e re- bólicos, com conotações de competência, res-
presentações na esfera da sexualidade e do uso peitabilidade e responsabilidade. Em contra-
de drogas. partida, a doença não apenas negaria estes
Neste sentido, entender a noção de risco componentes aos sujeitos da modernidade co-
como uma construção sócio-histórica implica mo lhes imporia o peso de uma cidadania one-
buscar a maneira como as situações considera- rosa. Segundo, a partir da década de 1970, a
das de risco são concebidas pelos próprios ato- saúde teria emergido como valor, manifestado
res sociais que as vivenciam. na proliferação das academias de modelação
Os discursos dos jovens aqui analisados evi- do corpo, das cirurgias estéticas, da busca de
denciam o quadro de referências socioculturais corpos saudáveis e de aparência jovem. Tercei-
no qual os riscos são representados e adquirem ro, o “eu” sadio seria simbolicamente sustenta-
significados que se distanciam da esfera do con- do através da construção do “outro doente”. Es-
trole e da racionalidade. Esses significados se- tes argumentos trazem para a discussão que a
rão interpretados a partir dos dois componen- estigmatização da imagem do outro se encon-
tes culturais acima citados, a projeção do risco tra fundada na lógica de que o “outro” é neces-
para o “outro” e a sensação de êxtase e vertigem sário ao “eu”. A idéia da resistência ao “eu doen-
que o sexo e as drogas provocam. te” seria, portanto, essencial à noção do “eu sa-
179

Ciência & Saúde Coletiva, 10(1):175-184, 2005


dio”. Devido aos medos e preocupações trazi- parte das vezes, estas representações reforçam a
dos por doenças graves, a angústia é simbolica- idéia de grupos de risco, tão presente no imagi-
mente mobilizada e utilizada para sustentar o nário social no início da epidemia da Aids, ou
“eu sadio” como uma identidade metaforica- a idéia de grupos e pessoas mais vulneráveis ao
mente articulada à classe social, raça, gênero e vírus, moralizando seus comportamentos.
identidades sexuais. A vulnerabilidade, o “eu A moralização implica mecanismos de ne-
doente”, se ancora, assim, na imagem do “ou- gação e de projeção dos riscos para longe de si
tro”. Desta forma, quando, em uma doença co- conforme pode ser observado nas falas que se
mo a Aids, pessoas, que já carregam estigmas seguem:
de marginalização, tornam-se atingidas e, por- – A melhor maneira de se prevenir é evitando o
tanto, “contagiosas”, as duas formas de alterida- sexo antes do casamento, pois se todos seguissem
de são perigosamente combinadas. O margina- a vontade de Deus e analisassem por quê e para
lizado “outro”, agora duplamente discrimina- quê, não fariam somente por prazer, portanto,
do, é visto como um perigo físico para o indi- acho que só pega quem quer. Acho que a Aids po-
víduo e um perigo simbólico para a sociedade de ser considerada um castigo, como uma peste
em geral. para os que saem do caminho. Quanto àqueles
Desta forma, importante elemento a in- que pegam na transfusão, uma provação de Deus.
fluenciar a percepção do risco de infecção pelo – Isso é para acabar com as pessoas que gostam
HIV, são as representações sociais elaboradas de andar fazendo sexo a torto ou a direito. A Aids
para pensar a epidemia, ancoradas no modelo é uma coisa bíblica que não devemos praticar
contagionista de doença, presente no coração porque o salário do pecado é a morte.
da cultura ocidental e mantidas com grande O conjunto de outras falas dos sujeitos en-
força metafórica. De acordo com Czeresnia trevistados nos permite apontar para um signi-
(1997), as noções de miasma e de contágio não ficativo refluxo destas representações ancora-
eram, a princípio, excludentes ou conflitantes. das na moral e na religião, e a referência ao
Práticas sanitaristas na Idade Média, ligadas à “outro” se faz agora, mais freqüentemente, na
lepra e à peste estiveram ancoradas tanto na figura das meninas fáceis, galinhas, do menino
idéia de contágio como na de miasma e asso- que sai com todas ou com qualquer uma e na fi-
ciavam a doença ao contato com seus portado- gura do usuário de drogas injetáveis. Podería-
res. Fabre (1993) busca mapear a sedimentação mos afirmar que tal refluxo indica um movi-
cultural dos significados que se associavam à mento inicial de aproximação em relação ao
noção de contágio. risco representado pelo HIV, fruto de reorgani-
A idéia de que todo contato constitui risco zações de imagens e de significados anteriores,
faz o medo permanecer e mesclar-se às diferen- trazendo a possibilidade da infecção pelo HIV
tes maneiras de se compreender a infecção pelo para mais perto de si e de suas relações. A apro-
HIV. Foi, aliás, a força da idéia de contágio que ximação se esboça nas afirmações, muito mais
impeliu a atitudes de discriminação e até de ex- freqüentes do que as anteriores, de que qual-
clusão, mais numerosas no início da epidemia, quer pessoa, atualmente, inclusive os próprios
embora ainda hoje existentes mesmo depois da parceiros, namorados, “rolos”, amigos, vizinhos
identificação das formas de transmissão pelas podem se infectar com o vírus da Aids, como
ciências biomédicas. ilustram as seguintes falas:
O medo de contágio serviu para ancorar as – Eu posso correr o risco caso o meu compa-
representações da Aids como doença do “ou- nheiro não use a camisinha (...). Você quer saber
tro”: estrangeiro, longínquo, fora do grupo, o que eu acho, não é seguro você transar nem com
desconhecido, marginalizado, de forma a atua- o seu próprio namorado, você fica sempre com
lizar antigos e a produzir novos estereótipos. A aquela dúvida: será que ele só transa comigo?
idéia da dupla capa protetora, a sua própria e a – (...) podemos ter um parceiro só, mas ele po-
de seu grupo de pertencimento faz-se ainda de ter mais de uma e aí começa a corrente da
muito presente (Douglas, 1994). Aids.
As explicações morais e religiosas igual- – (...) a pessoa pode pensar que nunca vai ter
mente contribuíram para a ancoragem da Aids e, no momento, sua parceira pode estar con-
doença no “outro”, neste caso, o transgressor taminada.
representado pelo universo dos homossexuais, É certo que este modelo contagionista de
das prostitutas e dos travestis, ou dos pecado- doença, apesar de estar se transformando len-
res, dos promíscuos e dos imorais. Na maior tamente, serviu, e ainda serve, para ancorar as
180
Paulilo, M. A. S. & Jeolás, L. S.

representações sociais elaboradas sobre a Aids rária, de caos provisório. Seria uma forma con-
e a forma de se pensar o risco do HIV. No en- trolada de perder o controle dos sentidos.
tanto, refluiu-se a referência direta aos homos- Observamos nas falas dos entrevistados, de
sexuais, às prostitutas e aos travestis como gru- um lado, o discurso da razão e, de outro, o da
pos mais suscetíveis para se contrair e transmi- des-razão, da irracionalidade, do descontrole.
tir o HIV, nota-se ainda a prevalência da legiti- Eles se expressam da seguinte maneira: de um
midade das relações heterossexuais e monogâ- lado, ter consciência, pensar bem, planejar, ter
micas. cabeça; de outro lado, o vacilo, o descuido, a
Em síntese, no que concerne ao componen- marcação, o não planejado, o espontâneo, a falta
te cultural de projeção do risco para o “outro”, de cabeça, a bobeira, o tesão, a hora “h”. A natu-
pode-se afirmar que tudo o que o “eu” quer evi- reza do amor, do desejo e da paixão, domínios
tar, tudo o que o “eu” receia para si, tudo o que dos sentimentos e das sensações, do imponde-
o “eu” não reconhece em si é simbolicamente rável, do não-planejado, do espontâneo, da não
deslocado para o “outro”. Em outras palavras, o racionalização transforma-se em mais um ele-
“outro” é construído para permitir a ancoragem mento de vulnerabilidade.
do inverso, do oposto, do avesso do “eu”. So- Chama ainda a atenção, nos discursos so-
mente a aceitação do múltiplo, do plural, do di- bre o risco representado pelo HIV/Aids, a idéia
ferente, abriria espaço para a aceitação do es- da inevitabilidade, seja da força das atrações,
trangeiro fora e dentro de cada um de nós. dos amores e das paixões, seja do sentimento
Ainda na esfera da Aids, o segundo compo- de impotência em face da fatalidade. De um la-
nente analisado, ou seja, a busca do êxtase e da do, o discurso das paixões, de outro lado, um
vertigem proporcionados pelo sexo se faz pre- sentimento de inevitabilidade, e mesmo de fa-
sente de forma muito marcante. Através de prá- talidade, com relação ao risco da Aids, contra o
ticas sexuais, quando livremente desejadas, as qual o sujeito nada pode; suas ações são enca-
pessoas se ligam entre si, constroem vínculos, radas como incapazes de mudar o curso supos-
trocam afeto, amor ou prazer. O sexo contém tamente inevitável dos acontecimentos. Traba-
um elevado investimento afetivo e apresenta lha-se com uma noção de pessoa sujeita às for-
um conteúdo simbólico muito forte de ligação ças do destino, à vontade de Deus ou incapaz
com o ato de viver e de se sentir vivo. Sexo é, de de controlar sua própria vontade. Citamos al-
fato, um motivo poderoso, exerce uma atração guns exemplos:
que fascina, sua prática traz gratificação ime- – (...) imagino ser algo terrível que muitos até
diata, é reforçado por fantasias e mantido por choram querendo voltar ao seu passado livre. Por
experiências passadas prazerosas e desejo de isso peço a Deus que eu não seja mais um dos es-
momentos futuros igualmente prazerosos. colhidos pela Aids.
É previsível, portanto, que as atividades se- – É como se fosse uma pedra no caminho e eu
xuais sejam particularmente difíceis de serem tropeço, não tem hora para vir/ (...) se tiver que
mudadas, em função de construções culturais acontecer, acontece, não dá pra ficar pensando
já sedimentadas aliadas às sensações inebrian- nisso.
tes dos sentidos que sua prática provoca. – A questão do vírus da Aids, da contamina-
A vertigem, o êxtase e a embriaguez tor- ção, é uma questão do destino de cada um, se ti-
nam-se, nos dias de hoje, mais e mais presen- ver que acontecer vai acontecer mesmo, não
tes. Aparecem na proliferação das atitudes de adianta fazer nada.
risco que têm nestas figuras a sensação procu- O discurso racional da prevenção, assim co-
rada particularmente no universo dos esportes mo a linguagem dos riscos pressupõem sujeitos
radicais e das drogas aos quais nos remete Le da modernidade racionalista, burocratizante e
Breton (1991). O autor parte do pressuposto de secularizadora. Vê-se, no entanto, sujeitos so-
que, em sendo a morte o significante último, ciais lançando mão de forças outras para sua
jogar com a vida com o risco de perdê-la é jo- proteção, trabalhando com a noção de pessoa
gar simbolicamente com a existência, com o sujeita às forças do destino, à vontade de Deus,
objetivo de conseguir o surplus de sentido que ou incapazes de controlar suas ações, necessi-
tornaria a vida mais plena. É o caso dos ralis tando de forças transcendentes que os prote-
automobilísticos, da asa delta, do salto com jam, guiem ou definam sua sorte, principal-
elástico, todos riscos socialmente aprovados e mente em se tratando de domínios tão refratá-
valorizados. Nos jogos de vertigem prevalece o rios à racionalidade, como o são o do prazer,
sentimento de abandono, de desordem tempo- do amor e da paixão.
181

Ciência & Saúde Coletiva, 10(1):175-184, 2005


Neste sentido, a camisinha, preconizada pe- universo cósmico. Seus efeitos favorecem o
lo discurso da prevenção como a solução para combate às sensações de angústia, abandono,
evitar a transmissão da Aids, racionaliza algo solidão; proporcionam, enfim, um momento
que é fundamentalmente não racionalizável. de esquecimento ou suspensão das ansiedades
Ela interfere no encantamento do amor, da pai- e incertezas de um mundo indiferente ou
xão; tem de ser prevista, tem de estar sempre à ameaçador. Como analisa Sá (1994), o ser hu-
mão. A necessidade de racionalizar e de plane- mano sonha, imagina, fantasia, devaneia, delira
jar se opõe à espontaneidade do sentimento e e transcende. Lembra o autor que a história re-
do ato amoroso. O desejo e o prazer supõem gistra muitas formas de agir sobre o psiquismo,
poder se abandonar ao outro e o discurso da além da utilização de substâncias psicotrópicas.
prevenção vem se contrapor justamente a esta As danças, os rituais, as seitas, o êxtase ascético,
entrega confiante. o poder, o jejum, o jogo, a música, a arte e a poe-
Certamente, para as pessoas de baixa renda sia constituem parte do arsenal psicoativo que
e pouca escolaridade, expostas à violência diá- nossa história revela, nele incluídas as drogas.
ria, à falta de perspectivas de um futuro melhor A faculdade de proporcionar algo positivo
e à luta pela sobrevivência o risco de infecção e benéfico, característica incontestável das
pelo HIV será dimensionado de forma compa- substâncias psicotrópicas, tem sido, no entan-
rativa e hierarquizada em relação a outros ris- to, escamoteada quando não abertamente ne-
cos presentes em suas vidas. E sua capacidade gada em nosso processo de socialização. Entre
de se proteger estará também, certamente, aí os múltiplos meios empregados, a mídia tem
contextualizada. As dimensões culturais até exercido papel fundamental não pelo que reve-
aqui apontadas, presentes no imaginário do la, mas exatamente, pelo que encobre. De acor-
risco da Aids, explicam as dificuldades avalia- do com Sissa (1999) (...) a não propaganda, pe-
das nos trabalhos de prevenção em curso e sua la proibição dela, tem um efeito reverso contido
análise e compreensão permitem ultrapassar na atração que o interdito exerce. Ainda segun-
algumas abordagens em educação em saúde do a autora, as campanhas de prevenção, quan-
que consideram, de forma ingênua e irrealista, do evocam apenas a ruína do corpo e da vida,
o risco como algo totalmente racionalizável. deixam na sombra aquilo que tenta o usuário: a
No caso das drogas, este componente cul- descontração, a euforia, o êxtase (Sissa, 1999).
tural, a vertigem, e o primeiro citado, relativo Deixadas na sombra pelas campanhas de
ao afastamento do risco e projeção para o “ou- prevenção, as sensações de êxtase, prazer e ver-
tro”, igualmente se fazem presentes como retra- tigem aparecem de forma constante nas falas
ta a discussão que se segue. de pessoas usuárias. O prazer vem associado ao
desejo, à vontade, à espera. O que a droga apre-
senta de mais atraente é a instantaneidade do
Drogas, riscos e significados gozo, a necessidade imediatamente satisfeita.
São falas de pessoas usuárias:
A droga, assim como o sexo, encontra-se pro- Tranqüilidade // é um modo de esfriar a ca-
fundamente ancorada na visão que a toma co- beça, muitas pessoas estão mal e usam droga pa-
mo fonte de satisfação, de sensação agradável e ra aliviar-se de algo // Muito louco // Dá um te-
ela inclui, sem dúvida, uma dimensão de pra- são de fumar // Curtição, viagens, zona e paz // É
zer, sem a qual seria inexplicável a atração por uma coisa boa // Ah, sei lá! é uma coisa muito
ela exercida sobre jovens e adultos. Em que pe- louca // Bom, porque faz a cabeça // Às vezes é le-
se a dimensão prazerosa do uso da droga, no gal você se desviar do mundo // Vem uma vonta-
caso de usuários dependentes, estudos mos- de de usar, experimentar todas as drogas do
tram situações de sofrimento e desprazer rela- mundo // Quem é usuário, pensa legal, gosta de
cionados seja à sua insuficiência, seja à sua abs- usar // Vai dando vontade de usar aquele tipo de
tinência (Sissa, 1999; Bergeret & Leblanc, droga que eles estão falando // Um prazer à parte
1991). // Fico na estiga // Um prazer a parte, nada con-
Sabe-se que o consumo de drogas não é um tra quando se sabe o que está fazendo. Quer usar,
fato novo na história da humanidade, a droga use// Não sou eu que fumo, são as drogas que me
apresenta uma função lúdica e ritualística em fumam.
muitas comunidades, facilita a inserção grupal Esta expressão, estiga, que significa vonta-
e intensifica sentimentos de pertencimento e de/necessidade expressa muito bem os limites
comunhão com as demais pessoas, mundo ou fluidos entre o prazer e a necessidade. Acontece
182
Paulilo, M. A. S. & Jeolás, L. S.

quando a força de um desejo extremo de fazer sas, pois o nome já diz, droga é uma droga //
uso da droga não mais significa prazer desfru- Uma coisa horrível que eu não quero nem passar
tado e a necessidade. Nas palavras de Sissa perto // É uma droga. Distância // Nada, pois
(1999), não tem mais nada a ver com uma vita- evito até de pensar, pois o nome já diz tudo é
lidade feliz, ao contrário, torna-se um estado fí- uma droga // Não gosto nem de ouvir falar, é um
sico e psíquico atroz. Aos poucos, continua a au- assunto sério. Algo que eu jamais quero experi-
tora, o desejo não acha mais na droga um prin- mentar // Que eu tenho medo, e nunca vou usar.
cipio motor, mas uma exacerbação tão despótica No que se refere ao uso de clichês, concor-
que esse mesmo desejo a ela se agarra sem poder damos com Vuysteek (1991), quando nos diz
mais se mover no sentido de alguma outra coisa. que há hoje uma confiança exagerada no poder
A dose seguinte, em vez de trazer uma volúpia, benéfico da mídia quando se trata de educação
evita uma queda no sofrimento. É sob essa forma para a saúde. No entanto, o que nos é dado a
que daí em diante surge a necessidade: uma dor perceber é a repetição, muitas vezes irrefletida,
insuportável e, entretanto, irresistível. do clichê divulgado pela mídia. O posiciona-
Como diz Mesquita (1992) é impossível mento se faz por meio de um “lugar comum”,
abstrair o fato de que a droga traz prazer. No deixando dúvida sobre sua compreensão ou
caso do uso compartilhado da droga, a possibi- sobre sua influência nos comportamentos. São
lidade de overdose vem ilustrar, de forma cris- repetições do discurso oficial – da família, da
talina, o paradoxo discutido por Le Breton escola, do Estado – sobre as drogas.
(1991). O usuário se arrisca e, por meio da As falas relacionadas ao “outro” tratam-no
overdose, toca simbolicamente a morte ao ora como alguém a quem são atribuídos carac-
mesmo tempo em que se preserva ao confiar teres depreciativos, imperfeições que o deni-
no manejo, ainda que precário, do grupo que o grem tais como a fraqueza, a fragilidade, a falta
socorre. A overdose fornece-lhe o surplus neces- de caráter ora como alguém dotado de força de
sário à continuidade de sua existência. vontade e possibilidade de escolha, conforme
A fala não sou eu que fumo, são as drogas que ilustram as falas abaixo:
me fumam é exemplar. Expõe tal simbiose sim- Eu penso que quem usa drogas só pode ser
bólica entre o usuário e o produto utilizado tonto // (...) falta de amor a si próprio // Uma
que chega à inversão entre o sujeito e o objeto, droga que uma pessoa fraca não pode superar //
à medida que transfere à droga propriedades Pessoas sem caráter // Que as pessoas não têm
de seres animados como é o caso do querer e consciência do que estão fazendo // Momento de
do agir. O usuário, neste caso, passa a ser o “fu- fraqueza, solidão e ajuda // Algo que prejudica,
mado”; a droga torna-se o sujeito da ação. mas para muitos jovens a saída da realidade pa-
Risco, loucura, prazer, vertigem e abando- ra uma viagem sem fim // Eu acho que às vezes
no irrompem, portanto, das falas dos jovens as pessoas usam porque não conseguem encarar
entrevistados, frutos de suas vivências, senti- a realidade // Às vezes por serem mal-informa-
dos, memórias e interpretações. das, as pessoas que usam não sabem do mal que
O segundo componente analisado, ou seja, ela provoca // Só os fracos e ignorantes usam //
a projeção do risco para o “outro”, aparece, co- Quem usa a droga não tem cérebro, só tem per-
mo no caso da Aids, associado à negação do turbação // Quem usa drogas quer se matar //
risco ou ao seu afastamento para algo remoto Alguém que tem problemas e tenta se refugiar em
ou para um ser depreciado, quando não, des- drogas // Entra quem quer nessa bobeira //
prezível. Quem quer se recupera.
As falas relacionadas à negação e/ou ao Nota-se nestas falas, uma tensão entre duas
afastamento contêm elementos de jargão e ele- concepções de pessoa ou de sujeito social. Por
mentos associados ao medo e à apreensão. Em um lado, fazem emergir um sujeito ciente de
todas elas, contudo, aparece nitidamente ex- suas ações e capaz de controlar seus desejos,
presso o distanciamento do tema. É interessan- trata-se aí de um sujeito racional que pode con-
te notar que a negação e/ ou afastamento são trolar a potência atribuída às drogas e mesmo a
terrenos propícios para o risco, uma vez que as dependência em relação a ela. Por outro lado,
pessoas se consideram imunes a ele e, portan- trazem igualmente à tona a imagem de um su-
to, não se preocupam em evitá-lo. Seguem al- jeito frágil, incapaz de controlar seus desejos, de
guns exemplos entre pessoas não usuárias: enfrentar a realidade, pouco inteligente, fraco
Nem morta // Não gosto, saio de perto // Ja- ou, em uma avaliação mais generosa, alguém
mais eu usaria // Que nunca entraria numa des- mal-informado. Entre uma e outra concepção
183

Ciência & Saúde Coletiva, 10(1):175-184, 2005


há muita ambivalência e mesmo ambigüidade. variante que pode ser pressuposta nos traba-
Mesclam-se e confundem-se na figura do “ou- lhos de prevenção do risco de uma ou de outra.
tro” a responsabilização do sujeito por seus São diversas as tensões em meio às quais o su-
atos, acusações de baixa auto-estima e incapaci- jeito faz suas escolhas e frágil a lógica racional
dade de suportar a realidade da vida. que acredita que representações e comporta-
Das falas apresentadas e da análise a partir mentos constituem um sistema relativamente
delas tecida, pode-se concluir que motivos, sig- estável, concatenado, coerente e homogêneo.
nificados e representações associados aos riscos Das falas dos entrevistados emergiram cons-
representados pela Aids e pela droga compor- tâncias e estabilidades, mas elas trouxeram à
tam componentes de positividade, ao mesmo luz, sobretudo, diversidades e singularidades na
tempo em que a negatividade neles igualmente forma como o risco é representado e vivido. Os
se manifesta. Há indicações de que a ambiva- discursos refletiram ainda a polissemia a eles
lência encontrada nas falas dos entrevistados intrínseca, ou seja, apontaram para a existência
reflita a ambivalência que permeia as práticas e potencial de significações concomitantes e
as representações de uma sociedade complexa construíram versões plausíveis de um eu inter-
e, em seu conjunto, as falas deixam transparecer subjetivamente constituído.
os inúmeros significados que a própria noção O conjunto dos dados extraídos das duas
de risco vem acumulando nos tempos atuais. pesquisas aqui analisadas mostra que a inva-
Cabe lembrar que a droga, assim como o riância na determinação dos riscos simples-
sexo, oferece o que o mundo tem de mais escas- mente não existe. Não existe nem mesmo a di-
so, a sensação de felicidade e prazer, ao mesmo cotomia determinação/evitamento de risco. Es-
tempo em que podem trazer ansiedade e sofri- ta visão dicotômica leva a uma redução da plu-
mento. Vê-se assim que são ambos ambivalen- ralidade nos comportamentos humanos. Entre
tes, neles o indivíduo pode buscar tanto a cria- estes dois pólos flutuam miríades de variâncias,
tividade e o êxtase, como o desvario e a disso- sutilezas, e significados. Trabalhar com riscos
lução. exige, portanto, abrir mão da busca da inva-
A ambivalência na prática do sexo e no uso riância, da lógica racional e dos discursos auto-
das drogas não são mais que reflexo da ambi- ritários. Exige ainda estratégias de ação que
valência das práticas humanas. A complexida- aceitem a ambivalência das práticas sociais e
de interna dos sujeitos humanos é a única in- descartem a expectativa de soluções definitivas.

Colaboradores

MAS Paulilo detalhou o marco teórico, analisou os dados


da pesquisa sobre o risco representado pelas drogas entre
jovens participantes de programas e serviços sociais pú-
blicos e fez a revisão final do artigo. LS Jeolás organizou o
esquema inicial do artigo, detalhou o marco teórico e tra-
balhou os dados da pesquisa sobre o risco representado
pelo HIV/Aids entre jovens de escolas públicas.
184
Paulilo, M. A. S. & Jeolás, L. S.

Referências bibliográficas

Augé M & Herzlich C (eds.) 1991. Le sens du mal: anthro- Fainzang S 1992. Reflexions anthropologiques sur la no-
pologie, histoire, sociologie de la maladie. (3a ed.). tion de prévention, pp. 120-124. In P Aïach et al.
Archives Contemporaines, Paris. Comportements et santé: questions pour la prévention.
Ayres JRCM, Calazans GJ & França Júnior I 1998. Vulne- Presses Universitaires de Nancy, Nancy.
rabilidade do adolescente ao HIV/Aids, pp. 97-109. Jeolás LS 1999. O jovem e o imaginário da Aids: o bricoleur
Seminário Gravidez na Adolescência. Ministério da de suas práticas e representações. Tese de doutorado.
Saúde, Usaid, Brasília. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Balandier G 1988. Le désordre: éloge du mouvement. Fa- Le Breton D 1991. Passions du risque. Métallié, Paris.
yard, Paris. Mesquita F 1992. Drogas injetáveis e Aids, pp. 80-96. In V
Bardin L 1997. Análise de conteúdo. Edições 70, Lisboa. Paiva (org.). Em tempos de Aids. Summus, São Paulo.
Bergeret J & Leblanc J 1991. Toxicomanias: uma visão mul- Minayo MCS 1993. O desafio do conhecimento. Pesquisa
tidisciplinar. Artes Médicas, Porto Alegre. qualitativa em saúde. (2a ed.). Hucitec-Abrasco, São
Calvez M 1993. L’analyse culturelle du risque, pp. 75-87. Paulo-Rio de Janeiro.
In A Tursz et al. (eds.). Adolescence et risque. Syros, Minayo MCS 1994. O conceito de representações sociais
Paris. dentro da sociologia clássica, pp. 89-111. In S Jovche-
Crawford R 1994. The boundaries of the self and the un- lovitch & P Guareshi (orgs). Textos em representações
healthy other: reflections on health, culture and Aids. sociais. Vozes, Petrópolis.
Social Science Medicine 38(10):1347-1365. Paulilo MAS, Jeolás LS, Urahama CK, Campaneri MAR &
Czeresnia D 1997. Do contágio à transmissão: ciência e cul- Lima ML 2002. Risco e vulnerabilidade: jovens e dro-
tura do conhecimento epidemiológico. Fiocruz, Rio de gas. Revista Semina 22:57-66.
Janeiro. Sá DBS 1994. Projeto para uma nova política de drogas
Douglas M 1994. Risk and blame: essays in cultural theory. no país, pp. 147-171. In A Zaluar (org.). Drogas e ci-
Routledge, Londres. dadania. Brasiliense, São Paulo.
Fabre G 1993. La notion de contagion au regard du sida, Sissa G 1999. O prazer e o mal: filosofia da droga. Civiliza-
ou comment interférent logiques sociales et categories ção Brasileira, Rio de Janeiro.
médicales. Sciences Sociales et Santé XI(1):5-32. Vuysteek K 1991. Toxicomania e prevenção primária, pp.
289-301. In J Bergeret & J Leblanc. Toxicomanias: uma
visão multidisciplinar. Artes Médicas, Porto Alegre.

Artigo apresentado em 1o/4/2004


Aprovado em 7/5/2004
Versão final apresentada em 20/5/2004