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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

ALVARO LUIZ TRAVASSOS DE AZEVEDO GONZAGA

O DIREITO NATURAL DE PLATÃO NA REPÚBLICA E SUA POSITIVAÇÃO NAS
LEIS

DOUTORADO EM DIREITO

São Paulo
2011

ALVARO LUIZ TRAVASSOS DE AZEVEDO GONZAGA

O DIREITO NATURAL DE PLATÃO NA REPÚBLICA E SUA POSITIVAÇÃO NAS
LEIS

DOUTORADO EM DIREITO

Tese apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em Filosofia
do Direito e do Estado sob a orientação do
Prof. Doutor Cláudio De Cicco.

São Paulo
2011

BANCA EXAMINADORA

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que gerou o que de melhor temos em nossas vidas. FRANCISCO LUIZ GONZAGA NETTO. A minha doce esposa Nathaly. pelo constante apoio. o pequeno Alexandre. À memória de meu pai. ERICIO e FABIANA. . e aos meus irmãos. À minha mãe. SHIRLEY. que platonicamente libertou sua alma do corpo.

Tercio Sampaio Ferraz Junior. Magali Gallello. Márcia Alvim. tornaram a realização deste trabalho possível. Willis Santiago Guerra Filho por suas preciosas observações em aula. AGRADECIMENTOS Ao Professor Claudio De Cicco. Maria Carolina de Assis Nogueira. Sergio Gomes da Silva. de alguma forma. Edson Luz Knippel. Dalton Oliveira. Henrique Garbellini Carnio. banca de qualificação ou conversas informais que inspiram cada vez mais o universo e o ambiente acadêmico de uma verdadeira instituição de ensino superior. . Sob o risco de cometer injustiças agradeço nominalmente os amigos André Luiz Freire. Agradeço ainda aos professores que diretamente ou indiretamente me orientaram nessa empreitada. Flávio Viana Filho. Cauê Nogueira de Lima. Em especial aos Professores Haydée Maria Roveratti. Meus mais sinceros agradecimentos a todas as pessoas que. que francamente me orienta na vida e na academia. Wallace Ricardo Magri. Marcio Pugliesi. Lara Barros.

República. As Leis. e sua consequente positivação e integração na obra As Leis. em especial na República. RESUMO A presente tese predispõe-se a estudar o pensamento platônico na perspectiva do Direito Natural. Platão. Para isso. . mas se completa com a conjugação das obras mencionadas. Palavras Chaves: Teoria da Justiça. partiremos da proposta temporal lógica do pensamento platônico. Visamos apresentar como a doutrina platônica de justiça não muda radicalmente. bem como da pesquisa de sua concepção de Justiça a fim de verificarmos a maturidade de sua postura com relação à organização da pólis. Virtudes Cardinais.

Laws. but rather completes itself with the combination of the two mentioned works. and its following concretization and integration in Laws. ABSTRACT This thesis will study the platonic thinking under the Natural Law perspective. Key words: Theory of Justice. especially in The Republic. Republic. considering also the research of his conception of Justice in order to verify the maturity of its posture as it relates to the organization of the polis. for which we shall weave our analysis setting out from the logical temporal proposition in the platonic thinking. We aim to observe how the platonic doctrine does not change radically. Plato. Cardinal Virtues. .

.........................2...................................... 56 4........................... 72 5......................................................................................... 44 3..................... 50 4.................... OS PRECURSORES DO PENSAMENTO PLATÔNICO ....1 Biografia ..............2 A república platônica .............................................. PLATÃO: ENTRE A TEORIA E A AÇÃO ....................................2............................ 11 1.......... A MUDANÇA DE POSIÇÃO SOBRE A COERCIBILIDADE – A MITO-LOGIA EM PLATÃO: DO MITO DE GIGES AO MITO DE ER E DO MITO DE ER ÀS LEIS ...............................2....................................2.........2................................................................. 52 4.......................... 70 5............................................. A JUSTIÇA EM PLATÃO DA PRIMEIRA PARA A SEGUNDA FASE .............................................................................. 52 4.....................................2 O Mito de Giges e o Mito de Er ................ 73 ..............2 A mudança de posição: a Justiça em A República (2ª fase) ...................... 69 4..................................... 72 5................. 27 2......1 O pré-platonismo nos pré-socráticos ................................2 Os sofistas – O contraponto para Platão . 44 3........................................................................1 A justiça na cidade ....2 Da cidade para o indivíduo ............................... 14 2............. CONTEXTO HISTÓRICO DE PLATÃO NO ESTADO GREGO ..................................2.................................................... 27 2........................................1 A maturidade de Sócrates ....... 61 4.............................................. 58 4.............1 Considerações iniciais ................................................................2.................. 35 2............ 63 4................................1 A justiça em Protágoras: breves considerações (1ª fase) ........................................ VIII SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................3 Sócrates ...........2........................................................................................................3 O conflito da alma – A akrasia .2 Obras e fases ....................................... 38 3......

.....2....................................... 84 6............. a embriaguez.....................3 Livro III – A origem das constituições...... graus de excelência das constituições ........................ hierarquia do Estado..... a questão da coercibilidade ...... o amor. 87 6....................................6 Livro VI – A escolha.... o corpo...........2........... deveres perante os pais.... 115 6.............. os tipos e a importância do magistrado......................4 Do Mito de Er para o logos de As Leis ......... 81 6..................2 Os XII Livros de As Leis .... os jogos militares........... formas de governo.... 90 6. as questões da agricultura.1 Considerações iniciais .. perversões amorosas..2.......... 76 5.......5 Livro V – A alma e o julgamento......... 109 6..... relações entre vizinhos...... o acaso e a ocasião....... ........................................... casamento..... 84 6.. IX 5.................. 79 6.................9 Livro IX – O direito criminal ...........8 Livro VIII – Legislação das festividades e sacrifícios às divindades............ legisladores e o povo.... 95 6..2... 123 ..................7 Livro VII – A educação física e mental dos jovens ............2 Livro II – Os banquetes e vinho..2.1 Livro I – A guerra..... A MATURIDADE DE PLATÃO – A JUSTIÇA NA TERCEIRA FASE EM AS LEIS .. 102 6........ experiência dos mais velhos e os coros ........ as virtudes divinas e humanas.................2......... a procriação ........2............................. equiparação da mulher face ao homem... distribuição da renda..3 O corpo em Giges e a alma em Er ......... Estado e Religião......................... os bens.. escravo.2.. educação com base nas virtudes.... a vida digna.............. votações para os cargos da nova constituição........ comércio e economia coletiva ...................... santuário e deuses.................................2.................4 Livro IV – Os homens de virtude.... organização do estado................... “a divindade é a medida de todas as coisas”..................................... sanções de origem humana.................... o legislador e o médico e o prelúdio ou preâmbulo .................. 120 6..................... 81 6......... amor e riquezas.............................................. a educação e as marionetes ......

...........2.. 134 i e 6.........................10 Livro X – A impiedade....11 Livro XI – O direito civil e o direito comercial .............. O DIREITO NATURAL DE PLATÃO NA REPÚBLICA P E SUA POSITIVAÇÃO NAS LEIS .. 127 n 6......................... 156 o 8............... suas formas e hierarquias.................................................................. DIREITO NATURAL E DIREITO POSITIVO NA ANTIGUIDADE ..................................................................................................................... 148 s 7.....................................4 O direito natural em A República e sua positivação em As Leis .................. 164 o REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................. 169 l a d o ........................................................ n ã o s e r á o m .2 Trasímaco e o positivismo jurídico .............................1 Considerações iniciais ......................... 156 8....... 156 o r 8................. a alma ................. 161 r CONCLUSÃO .....................1 Considerações iniciais ................................................. 141 n 7......2......................2....................................................................................12 Livro XII – A proposta sobre o justo e outras questões .............. 148 e : 7......2 O jusnaturalismo na Antiguidade ................................................ 158 u t 8...............................................3 O divino e o direito natural para Platão ............................................O X a t e 6................... 150 8......

A condução metodológica da pesquisa se estruturou a partir da proposta temporal lógica precedente. . A República e As Leis. a fim de verificar o amadurecimento de sua postura com relação à organização da pólis. 11 INTRODUÇÃO Dando continuidade à nossa dissertação de mestrado – A Justiça em Platão e a Filosofia do Direito –. Platão amadurece seu pensamento e nota que. Com isso. pouco se fala sobre sua última obra. além da punição da alma. Para isso. habitualmente. a maioria das pesquisas desenvolvidas focam esforços na compreensão de sua República e dificilmente apresentam a maturidade de suas ideias na última fase de seu pensamento. embora existam diversos estudos sobre as obras e o pensamento platônico. do pensamento platônico. bem como da pesquisa da concepção platônica de Justiça nas obras Protágoras. sendo que naquela se apresenta o melhor modelo de cidade. no plano sensível. ou divergente. em As Leis. O trabalho se justifica porque. tratamos nesta tese de compreender o pensamento platônico na perspectiva do Direito Natural. a presente tese tem por objetivo apresentar que a doutrina platônica sobre a justiça não muda radicalmente. As Leis. Como bem adverte o Professor Dalmo Dallari em seu prefácio para a tradução brasileira da obra. poucos são desenvolvidos em programas de pós- graduação em Direito. em especial na República e sua consequente positivação e integração na obra As Leis. adotaremos a exposição da teoria da justiça platônica a fim de verificarmos a hipótese de que. e nesta o segundo melhor modelo de organização social. Especificamente. e quando são feitos. são necessárias leis coercitivas para os injustos. é correto dizermos que Platão é inexplorado nessa riqueza de ideias que trasbordam em As Leis. mas se completa com a conjugação da obras A República e As Leis.

O terceiro capítulo guarda atenção para a compreensão da biografia e da classificação e posicionamento das obras e fases do pensamento Platônico. 12 Posto isso. Será no sexto capítulo que exporemos breves considerações e uma rememoração dos XII livros de sua obra As Leis. O quinto capítulo visa transitar da segunda para a terceira fase do pensamento platônico. Tais considerações se põem imprescindíveis para atingirmos o próximo capítulo. 2 e 3. para que. Homérico. na obra. o desenvolvimento da tese nos capítulos 4 a 8 e a consequente conclusão. possamos entender com mais clareza a evolução e sua mudança de posicionamento à medida que este avança em seus escritos. Feita a correlação mito-lógica do pensamento platônico chegamos ao estudo da fase de maturidade filosófica do pensador. dos sofistas que ofereciam a possibilidade de contraposição nos diálogos e de seu grande mestre Sócrates. Para isso. podemos avançar para o quarto capítulo. afim de ressaltarmos. chegaremos à tese deste trabalho. A partir das considerações feitas nos capítulos anteriores. considerando a necessidade de compreender os períodos da história grega: pré-Homérico. Arcaico. aspectos fundamentais à tese defendida O sétimo capítulo abrirá caminho para compreender como eram o Direito Natural e o Direito positivo na Antiguidade. elaboramos um referencial teórico nos capítulos 1. exporemos respectivamente as classificações expostas em Protágoras e na sua República. e a fim de uma melhor compreensão dos temas a serem desenvolvidos. com a proposta de coercibilidade que é apresentada na obra As Leis. em que é disposto o pensamento platônico sobre a Justiça da primeira para a sua segunda fase de sua doutrina. O mote para apresentar esse complemento à sua teoria se dá com a análise dos Mitos de Giges e de Er. Expostas a biografia e as fases do pensamento platônico. Objetivando criar o elo necessário para a . no capítulo oitavo. Então exporemos brevemente o pensamento de alguns pré-socráticos. O primeiro capítulo consiste em uma breve exposição do contexto histórico de Platão no Estado grego. Clássico e Helenístico. O segundo capítulo busca a relação dos precursores que de alguma forma influenciaram o pensamento platônico. com isso.

Por fim. 13 compreensão dos elementos jusnaturalistas na República e sua positivação nas Leis desenvolvemos argumentos que se interrelacionam com os capítulos anteriores. a fim de propor a tese do Direito Natural de Platão na República e sua positivação em As Leis. expusemos nossas conclusões deste trabalho a fim de verificarmos nossa tese. .

conseguiremos compreender em que contexto se deu a positivação das leis atenienses. ed. (. Introdução à história do direito. acreditamos permitirem identificar elementos desse “sentido da história” na obra platônica a) Existe uma reflexão sobre o tempo nos diálogos. e com isso. Embora esses textos deixem transparecer uma concepção mítica. centrada na idéia do retorno cíclico e nos cataclismos como divisão temporal. José Reinaldo de Lima. São Paulo: Saraiva. 51.. São Paulo: Paulus. Sobre o legado grego para o direito. DE CICCO. ed. O direito na história. CONTEXTO HISTÓRICO DE PLATÃO NO ESTADO GREGO Ainda que nem sempre se possa encontrar nas fontes do Direito Grego aquela objetividade e método que o Direito Romano proporcionaria. Acácio Vaz de. Cláudio. Gerson. Além disso. Op. Uma filosofia da história em Platão – O percurso histórico da cidade platônica de As Leis. São Paulo: Max Limonad. 2. Luiz Carlos de. devemos volver nossos olhares para o contexto histórico em que se inseria esse pensador. 5. História do pensamento jurídico e da filosofia do direito.. São Paulo: Ícone. 2005. 2. 2010. verifica-se quão expressiva foi a contribuição do primeiro para os fundamentos da ciência política e das instituições de Direito Público. p.. bem como quem eram os “trinta tiranos”. é negada até mesmo a possibilidade de que haja um pensamento histórico em Platão e até entre os pensadores gregos. PEREIRA FILHO. entendermos porque Platão sente a necessidade de complementar sua doutrina de A República com o pensamento disposto em As Leis. cit. 1999.) Ressaltamos aqui alguns indícios que. O poder na Antiguidade aspectos históricos e jurídicos. . ed. LIMA FILHO. LOPES. Em muitos casos. Luiz Carlos de. Gerson Pereira Filho pronuncia-se no seguinte sentido: Encontramos poucas abordagens na bibliografia de estudos de Platão e do Platonismo que consideram a relação entre história e filosofia nos diálogos como sendo uma temática que mereça atenção. podemos perceber uma temporalidade construída nas relações dramáticas dos personagens e na temporalidade da pólis a partir 1 AZEVEDO. São Paulo: RT.2 É preciso compreender o processo de construção da democracia ateniense.1 Para compreender o pensamento de Platão e sua teoria da justiça. 2010. 2002. 2 A construção deste capítulo teve como referencial teórico as seguintes obras: AZEVEDO. 14 1.

em especial com Hegel e Marx. desenvolvida posteriormente pela historiografia ocidental. ao século VIII a. os centros de poder e a corrupção. oferecendo elementos para uma interpretação da história universal. econômico e cultural da Grécia.C. b) As guerras e suas causas. em especial naqueles decorrentes das ações políticas. podemos elencar tantos outros fatores da necessidade da conjugação da história com o pensamento Platônico. eram pequenas organizações sociais e econômicas na qual seu chefe supremo era o pater). ético. XX a. no contexto político. d) As mudanças de costumes e das técnicas de produção. Gerson.). dos acontecimentos humanos. p. d) A percepção das mudanças e acontecimentos. b) A concepção de uma filosofia antropológica. compreendendo o homem enquanto ser político. que desenvolve a noção de coletividade e cidadania e que passa a perceber o ser humano como dotado de liberdade. a história da Grécia Antiga é divida em cinco períodos distintos. 15 dos acontecimentos humanos. c) A investigação das origens. das decadências. o Período Homérico (século XII a. e) O papel do ser na Pólis. social. abrindo a possibilidade para explicação da mudança e do devir do homem e da cidade. cit. .. houve a divisão em Genos (Famílias coletivas constituídas por um grande número de pessoas sob a liderança de um patriarca.). c) As desigualdades. e) A invenção da dialética como método epistemológico que foi fundamental para posterior compreensão da história humana. Tradicionalmente. mas que caminha. no qual houve a formação da cultura creto-micênica e a imigração de povos indo-europeus para a Grécia.C. dos conflitos. logo depois em Fratrias (união 3 PEREIRA FILHO. o que nos permite aproximar essa idéia da noção de ‘sujeito histórico’. 35-36. o Período Pré-Homérico (séc. para a investigação daquilo que denominamos ‘origens históricas’ das cidades. neste período começa a evolução política da Grécia com a fixação dos indo-europeus. que parte inicialmente de um sentido ontológico e cosmológico da realidade em seu significado mítico. a sabermos: a) Os conflitos internos na Cidade Grega. ao século XII a. ainda que timidamente. Op.C.3 Além desses elementos citados acima.C.

História da cidadania. a da própria forma da existência social.. hábitos cotidianos. Exporemos brevemente tais períodos e destacaremos o período clássico. em suas histórias particulares (. 2003. quais sejam: Atenas e Esparta.C. 2..C. defrontamo-nos com um primeiro problema: é tão difícil oferecer uma definição cabal de cidade-estado (. mas de modo bem distinto. tão diferenciadas.C. que farão com que estudemos as duas principais pólis grega. Povos distintos. leis. riquezas. o período clássico. PINSK.) eram muito diferentes entre si: nas dimensões territoriais. O mundo greco-romano não se estruturava como os Estados-nacionais contemporâneos. caracterizado pela fusão da cultura grega com a oriental.. .C. ou pólis.C. 16 de alguns genos para enfrentar um inimigo comum). Não é fácil (talvez seja impossível) dar conta de tantas histórias. a questão da idade e dos antepassados respeitando a tradição no modelo antigo: (. no respeito aos antepassados. o supremo comandante do exército).) é época na qual a pólis se firmou. 5 GUARIELLO.. com tal instabilidade. Norberto Luiz.). pelo esforço militar que garantia a independência.4 o período arcaico (século VIII a. a autoridade dos mais velhos era garantida por uma série de mecanismos. culturas diferentes. mesmo que estes últimos fossem os responsáveis. com seus próprios costumes. de suas comunidades.. atribuído aos conselhos de anciãos. (.5 Destacamos. houve a segunda diáspora e. por vezes importante. ao século III a.) diferença mais crucial entre presente e passado. In: PINSKY. os mais próximos do pater tinham as melhores terras (eupátridas. seguem as considerações de Norberto Luiz Guarinello. o período helenístico (século IV a. Cidades-estado na Antiguidade Clássica. Sobre as cidades-estados. p. como cidades estado.). ou a expansão. “bem nascidos”). ou limites 4 Com a crise da sociedade alterou-se a estrutura interna das genos. 30.. Aqui. várias tribos se uniram em comunidades independentes que deram origem as cidades-estados. sequencialmente em Tribos (Reunião de Fratrias. correspondente ao apogeu grego (século V a. Assim. ritmos históricos e estruturas sociais (. instituições. São Paulo. Jaime.. Vale destacar que a privatização de terras e a dissolução da comunidade gentílica levaram a profundas transformações na sociedade.) diz respeito à distinção entre jovens e velhos. e por fim cidades-estados. ao século IV a. com organização político-social sólida.). ao século VI a. para Demos (união de várias tribos).). ao longo de quase dois milênios. Em muitas cidades. Carla Bassanezi (orgs.. ed.). De um modo geral observa- se um forte domínio dos mais velhos sobre os mais jovens. também. como o poder.C. a sociedade começou a se dividir.. em ultima instância. na tradição. época em que Platão viveu. cidades-estado eram comunidades fundadas e legitimadas no passado comum. época na qual viveram Sócrates e Platão. Comandadas pelo filobasileu..

pressupondo. foram a primeira civilização com estruturas sócio-político- culturais e econômicas complexas na região. Mesmo na tradução completa do alfabeto linear A existem enormes dificuldades para o entendimento dessa civilização. p. ao conquistar Creta. 8 Até hoje parte dessa civilização permanece em mistério absoluto. fundiu aspectos da cultura minóica com a micênica. onde fundaram a cidade de Micenas. é usado como ponto de referência para subdivisão da história grega. autor dos poemas Ilíada e Odisseia. . impondo à Grécia um período de grave crise. esse alfabeto registrava apenas mercadorias. os registros mostram que essa civilização mantinha trocas comerciais intensas com os mais diversos povos do mundo.. O Período Pré-Homérico7 se caracteriza pela existência de duas culturas mais ou menos hegemônicas que dominavam o que mais tarde seria a Grécia Antiga. Entre 2000 a. pois ainda não se decifrou por completo o alfabeto cretense. pois. 17 etários para o acesso às magistraturas principais. em um novo ciclo de imigrações indo- europeias chegaram à península os povos eólicos e jônicos... Em 1200 a. dessa forma. no mar Egeu e. Entre os anos de 1700 a. ou minóicos. segundo os historiadores. as comunidades 6 Idem. geralmente na faixa dos trinta ou dos quarenta anos. que é dividido pelos historiadores e linguístas em linear A e linear B. berço de uma nova civilização que. (.C e 1400 a.8 É originária da Ilha de Creta.6 Nos próximos parágrafos faremos uma breve rememoração dos principais elementos de cada período histórico Grego. Por volta do século VIII a. dificultando o entendimento de muitos aspectos da cultura e política da sociedade cretense. 7 Homero.C.). a dos dóricos..C. resultando na cultura creto-micênica que dominou a Grécia até o século XII a.. denominado Período Homérico. de acordo com o que os historiadores podem observar se caracterizou por ser uma sociedade matriarcal. trocas comerciais e estoques de armazéns. a última e mais devastadora imigração indo-europeia ocorreu. os primeiros povos indo-europeus denominados aqueus imigraram para o sul da península balcânica. ibidem. poeta grego do séc. que eclipsou a civilização creto-micênica levando à primeira diáspora grega quando os habitantes do continente migraram para as ilhas do mar Egeu e para a Ásia menor. retratou o modo de vida dos antigos helenos.C. e 1700 a.C. VI a. Os cretenses.C. que eles constituíam uma sociedade avançada tanto do ponto de vista tecnológico como do econômico. No Período Homérico a civilização grega se organizava na forma de comunidades gentílicas que se caracterizavam pela associação de indivíduos através dos laços consanguíneos..C. 37..C. já que em seus versos.) Esse apego à tradição é uma diferença significativa entre os antigos e modernos (. porém..

formando assim. enquanto outras se mantiveram oligárquicas. os grupos mais próximos às origens do clã. Esses grupos desprovidos de bens migraram para regiões fora da Grécia. na Sicília. Esparta era uma cidade-estado que ficava na península do Peloponeso. deram origem às cidades-estados. posse de terras e monopólio do poder militar. foram chamados de thetas (marginais). desses modelos de política: Esparta e Atenas. de Nápoles. Tal processo ficou conhecido como a “segunda diáspora grega”. mais tarde. que eram os descendentes dos conquistadores dórios e únicos a ter cidadania. no sul da Itália e de Marselha no sul da França. Os que tiveram uma distribuição mediana de riquezas foram chamados de georgóis (agricultores) e os que ficaram completamente desprovidos de riqueza material. além de contribuir para a própria expansão das cidades gregas. aliado à futura expansão comercial das cidades na Grécia levou a cultura grega a influenciar os povos dessas regiões. como os etruscos e os romanos. em que. 18 passaram a ser mais complexas por meio de novas associações entre os genos. política e economicamente por esses grupos. como a cidade de Siracusa. Esse processo foi acompanhado de uma diferenciação de classes sociais que se protrai no tempo. Tinha uma estrutura social dividida rigidamente em três classes sociais: os espartanos. Sendo os genos associações fundamentalmente familiares. a maioria das cidades-estados da Grécia foi dominada. chegamos ao Período Arcaico. as terras. Esse fator. entre essas. Serão citados aqui os dois exemplos mais conhecidos. os mais importantes. As movimentações humanas duraram até o século VIII. as aristocracias das cidades-estados e são denominados eupátridas (bem-nascidos. que. Algumas cidades-estados se transformaram em democracias. tradicionalmente. o sul da Península Itálica e algumas regiões mediterrânicas do sul da atual França. notadamente a ilha da Sicília. Com o fortalecimento de certos grupos sociais. as Tribos e os Demos. ou seja. em grego). Esses grupos privilegiados acabariam se tornando uma classe social distinta. temos a fundação de cidades- estados gregas fora da Grécia. resultando em grupos como a Fratria. oligarquias. chamados de pater tiveram privilégios na distribuição de riquezas. Como consequência desse processo histórico. e talvez. religioso e . mais tarde. os grupos associados aos mais velhos. e era cercada por montanhas que faziam sua defesa natural e que conquistou toda a região ao seu redor.

e. dois reis com funções religiosas e militares. os periecos. as manobras em campos de batalha ou as ameaças dos inimigos da coletividade. composta por todos os espartanos maiores de trinta anos. não apreciavam nenhum tipo de tolerância. que controlavam a atividade dos monarcas e atuavam no campo legislativo. no qual. transformado num soldado. Para controlar os hilotas pela força e continuar as conquistas militares. Os maiores poderes eram exercidos pelo Éforato. não teria receio de nada que envolvesse as artes militares. que eram descendentes dos povos que foram submetidos ao domínio dos dórios e se dedicavam ao comércio e artesanato e. Atenas. já fortalecidos. os espartanos tiveram que dirigir a educação9 do cidadão à obediência absoluta à autoridade e para a habilidade física. teve a ocupação realizada pelos aqueus. Platão observou que sua principal falha era exatamente a ênfase. isso porque o objetivo final da pólis espartana seria desenvolver exclusivamente a coragem (thimos). essencial no meio militarizado. . ou seja. antes de tudo. Por consequência. Todo esse sistema foi criado para perpetuar o modo de vida espartano. Entretanto. em seu seio. Não foi invadida. aqui entendida como a educação humanística em geral. Esparta valorizava muito a educação. entretanto. Platão compreendia que a obsessão militarista impedia-os de saberem conduzir-se em tempos de paz e mesmo em administrar as sociedades conquistadas que não tinham os mesmos. A título de exemplo: um jovem. que eram propriedade do estado. por fim. Acreditavam os espartanos que a cidade só se fortaleceria se tivesse uma educação qualitativamente boa. situava-se na Ática. os hilotas. que tinha funções eletivas e legislativas. nem desenvolveram sensibilidades outras que os tornassem mais humanos e cordatos. extremamente oligárquico. existia a Apela. outra pólis de destaque. depois pelos eólios e principalmente pelos jônicos. formado por nove arcontes. A monarquia foi mantida durante muito tempo em Atenas até que os aristocratas. Além disso. com mandatos anuais 9 É possível estabelecer um comparativo sobre a questão da educação em Esparta e a educação no pensamento platônico. militarizado e rígido. era uma obsessão espartana. por fim. composto por cinco membros eleitos anualmente que dirigiam o Estado. em especial a educação física. já que se localizava numa região montanhosa e próxima ao mar. A coragem. 19 político. também ocorreu o fortalecimento de alguns grupos sociais. pela Gerúsia. composta por vinte e oito homens maiores de sessenta anos. O poder em Esparta funcionava da seguinte forma: a cidade se organizava numa diarquia. e descontentes com ela. sobre essa postura dos espartanos de dar ênfase aos exercícios físicos. portanto servos. que compunham a maior parte da população e faziam a maior parte do trabalho agrícola. Atenas também não foi deixada de lado pelas transformações que ocorreram no Período Homérico. pelos dórios. Acreditava que a boa educação resultava de um composto da ginástica e da música. destituíssem-na e a substituíssem pelo Arcontado.

que deviam controlar a atuação dos arcontes.10 Como afirma José Reinaldo Lima Lopes sobre a lei positiva na Grécia: A escritura das leis na Grécia. o que as tornou mais difíceis de serem manipuladas (elas antes eram mantidas pela tradição oral). José Reinaldo de Lima. À cidade compete decidir e manter a paz. Do mesmo modo que Drácon sofre pressões sociais para tomar essa medida. Os diferentes interesses dos eupátridas (manter-se no poder). cit. A sociedade ateniense era então segmentada socialmente entre os eupátridas (já mencionados).. . os demiurgos (thetas que permaneceram na pólis durante a segunda diáspora e a colonização de alguns lugares do Mediterrâneo ou georgóis que perderam suas terras. O grande propósito é abolir a justiça familiar. põem fim à solidariedade familiar e obrigam ao recurso aos tribunais nas disputas entre clãs. colocou as leis do Estado na forma escrita.. fonte de sangrentos conflitos. Op. 39-40. pode se assemelhar à postura platônica de verificar que a pólis só é justa quando possui leis claras que garantam os direitos a todos os cidadãos.C.). escravizados muitas vezes pelos eupátridas e sem direitos políticos. em Atenas. Um dos reformistas foi Drácon. A luta de classes e o crescimento do comércio e da pólis foram fatores que possibilitaram uma série de reformas que eram os reflexos dessa profunda divisão social. foi consolidado o período oligárquico em Atenas. visavam transformações radicais na sociedade ateniense) levavam esses grupos a uma tensão social cada vez maior. até se tornar insustentável. de transformar a tradição oral em tradição posta (positivada) por leis escritas. Platão sofre pressão. Essa estrutura organizacional gerou uma série de conflitos e tensões sociais enormes. para rever sua teoria e apresentar uma espécie de código que positive As Leis. Neste período foi estabelecido também o Areópago composto pelos eupátridas. Dedicavam-se ao artesanato e ao comércio) e os escravos (prisioneiros de guerra ou de endividamento se tornaram progressivamente a base de toda a produção agrícola e atuaram em todos os ofícios em Atenas). Dessa forma.C. 20 que detinham tanto funções religiosas e militares como funções judiciais. de seus adversários. fazem-se de Drácon (621 a. 11 LOPES. resulta de processos revolucionários.11 10 Essa postura de Drácon. os comerciantes do litoral (participar do poder) e os demiurgos (péssimas condições de vida. que em 621 a. todos sabem. Transformada a composição dos grupos de poder. p.

gerando emprego para as camadas menos favorecidas. e esta era uma parcela mínima da população. e 527 a. Atenas foi dividida em dez tribos por Clístenes. na República. em vez das quatro tribos anteriores. e realizou inúmeras obras públicas. uma assembleia popular que aprovava as medidas da Bulé e o Helieu. em 594 a. acabando de vez com o papel político tradicional das famílias. . Essas mudanças possibilitaram o aparecimento dos tiranos. mulheres e escravos. votando as propostas da Bulé. uma vez que as virtudes dos homens determinariam se eles seriam de bronze de prata ou de ouro. genos e frátrias e retirando o controle político dos eupátridas. a Eclésia. Sendo assim. este consegue espaço e toma o poder da pólis. além de poderem votar o ostracismo. como veremos no capítulo IV. a Eclésia. deixando de fora os estrangeiros (metecos). 21 Depois de Drácon. apesar de ter permitido o avanço econômico e político de Atenas. outro legislador teve um pouco mais de ousadia. que não conseguiram manter a situação política estável. o que amenizou sua fúria. Sólon eliminou a escravização por dívidas e dividiu os privilégios sociais censitariamente. O primeiro tirano de Atenas foi Pisístrato. adultos e filhos de pai e mãe atenienses poderiam ter direito político. um tribunal de justiça aberto aos cidadãos. que teve maiores poderes decisórios e de regulamentação dos outros órgãos públicos. A “Bulé” foi reorganizada para comportar quinhentos membros (cinquenta de cada tribo). com seis mil representantes de todas as classes. que governou Atenas entre 561 a. O contexto político ateniense torna-se ainda mais intenso com as reformas políticas de Sólon. os quais se revezariam no governo da Pólis. Pisístrato foi sucedido pelos seus filhos Hiparco e Hípias. a riqueza do indivíduo determinaria sua posição social. 12 Para Platão. que tinha quatrocentos membros. que perderam seu monopólio.C. criando uma importante oposição com Esparta (que seria obscurecida durante muito tempo pela guerra com os persas) era excludente. um representante de cada tribo e por fim.C. até que em uma revolta liderada por Clístenes.12 o que favoreceu os demiurgos ricos (comerciantes do litoral) e desagradou os eupátridas. Apenas homens.C. dez membros. representantes das quatro tribos da Ática. Sólon fundou a Bulé. ao Arcontado foi acrescentado mais um membro. tendo assim. isso seria reprovável.. Não devemos esquecer que a democracia de Clístenes.

Desse modo.13 permitiu o ingresso e a participação política de parcelas da população antes excluídas.. onde atacaram Mileto. não podiam dedicar-se à participação política. pode facilmente expandir seu comércio exterior. envolvidos no trabalho para garantir a sobrevivência. Embora aristocrata de nascença. denominadas Confederação ou Liga de Delos. é considerado a “Idade de Ouro” de Atenas. Tal confederação consistia na coligação das cidades-estados. quando a cidade viveu o seu auge econômico. Atenienses de baixa renda. Éfeso e as ilhas de Samos e Lesbos. e nesses trinta anos tornou-se a cidade mais importante da Grécia. sem nenhum tipo de rivalidade. que eram depositados na ilha de Delos. graças às reformas implantadas tanto em nível cultural como em nível político. militar e cultural. É desta forma que tem início as Guerras Médicas. sendo que cada uma deveria contribuir com navios ou dinheiro. voltadas ao aperfeiçoamento da democracia. Após algum tempo de submissão.C. Em 449 a. e metecos não eram considerados cidadãos) usufruíam dos privilégios da igualdade perante a lei e do direito de falar nos debates da Assembleia. político. crianças. o Mediterrâneo Oriental ficou aberto à frota ateniense. Foi governada. que assumiu a ofensiva contra os persas e libertou algumas províncias da Ásia Menor. 22 O Período Clássico tem como referencial o seguinte cenário: enquanto a estrutura democrática de Atenas se consolidava. Quase a totalidade dos estados gregos do Mar Egeu aliou-se. que.C. na qual os persas comprometiam-se a abandonar o Mar Egeu.C. No geral. vencendo a decisiva batalha do Rio Eurimedon. as cidades-estados gregas estavam militarmente mais fortalecidas. por Péricles. É possível dizer que tal democracia ateniense era uma forma de oligarquia. permitindo que os persas destruíssem Mileto e iniciassem seu avanço sobre a Grécia. Péricles deu amplitude à democracia ateniense. comandados por Atenas. Péricles retirou uma 13 Essa democracia está muito distante dos moldes democráticos que temos na atualidade. foi assinada a Paz de Cálias ou Paz de Címon. . A situação beligerante contra os persas culminou na união militar das pólis gregas. e 429 a. os esforços foram insuficientes. Sob o comando do Imperador Dario I chegaram à Ásia Menor. em 468 a. uma vez que somente os cidadãos (as mulheres. nesse ínterim.C. O período entre os anos de 461 a. os persas avançavam em direção ao oeste.

houve uma prática de falcatruas eleitorais. um modelo a ser seguido. Aqui. por volta de 480 a. 70 viviam até os 30. cit. dos tributos cobrados das outras Pólis..C. a figura se altera: São 40. 7 viviam até os 80. 90. como alhures. Segundo Cook (1971:131).000 mulheres e crianças. bem menos residentes estrangeiros e escravos. numa população total girando em torno de 250. 23 série de restrições à cidadania. p. o tesouro de Delos foi transferido para Atenas.16 Com isso.000 habitantes. o povo foi vitimado pela astúcia dos demagogos e dos oportunistas. há uma sensível diferença entre o modelo e a “praxis”. 33-34: “Alguns dados sobre o período clássico ajudam-nos a ter uma idéia material da vida. que ainda representava risco de vida em muitas ocasiões”. contava 30. são um destes vícios. ou outras pólis ajudaram em demasia tal crescimento. Alguns Estados-membros quiseram se retirar. p. em geral. transformando-os de aliados em inimigos que lhe pagavam tributos. Atenas obrigou-os a permanecer por meio da força.. da prata extraída das minas do Láurio. também nela. Op. Também na Democracia de Atenas. mas Atenas tinha uma relação tirânica com as outras cidades. Contra as mazelas da Democracia Ateniense.000 habitantes (. 15 LIMA FILHO. embora os cidadãos ainda constituíssem uma minoria. 16 Há quem diga que Péricles tinha uma postura democrática com Atenas. 108. A Democracia Ateniense costuma ser vista como um arquétipo dos regimes democráticos. se insurgia Platão. cit. num total aproximado de 150. Ora.000 escravos. seja pelas condições de saúde seja por causa das guerras.000 mulheres e crianças.15 Com o passar dos anos..C. a democracia ateniense e o crescimento dessa pólis só foi possível. José Reinaldo de Lima. pois escravos.)”. o desenvolvimento e a manutenção da democracia ateniense dependiam desse imperialismo. além do intenso comércio. O casamento ocorria na média entre os 30 e 40 anos para os homens (portanto após o serviço militar ou outras tarefas). Após pressões. relativamente cedo.14 Sobre a Democracia Ateniense. 120. Acácio Vaz de Lima ensina: Aqui. Op. 20. A mortalidade feminina era agravada pelo parto. pois. em Esparta. Acácio Vaz de. . Sobre a mortalidade: “A mortalidade em Atenas apresentava-se mais ou menos assim: de cada 100 adultos com 20 anos. entretanto. e para as mulheres aos 20. o predomínio de Atenas na Confederação de Delos transformou-se em imperialista: havia interferência ateniense na política e sociedade dos demais estados aliados. 25 viviam até os 60.. Já em 430 a. Morria-se. que viam.000 cidadãos (homens adultos livres). bem como os seguidores do partido “laconizante”. Atenas. inquinaram os regimes democráticos – e as fraudes eleitorais.000 cidadãos (homens adultos livres).. 14 Sobre os dados populacionais da época: LOPES.000 estrangeiros residentes e 60. uma observação se impõe. Ou seja. a realidade histórica era outra.

Os domínios sucessivos entre as cidades-estados gregas enfraqueciam toda a Grécia. de modo a torná-las alvo fácil para o avanço de outra potência.C. por conta de uma disputa comercial entre Atenas e Corinto (aliada de Esparta). Com o nascimento da Liga do Peloponeso. foi uma guerra de desgaste: durante dez anos os conflitos se estenderam sem que houvesse vitórias ou derrotas decisivas.) e iniciaram sua supremacia. Reiniciadas as lutas.). Péricles. inclusive. foi substituído por trinta atenienses aristocráticos (governo dos Trinta Tiranos).. tem início o período de hegemonia espartana. que também foi de duração curta. A superpopulação ajudou a propagar uma epidemia17 que atingiu. e viam nisso um perigo econômico e político (afinal. Esparta tinha grande poderio terrestre. crescia rapidamente como potência bélica da Grécia. Atenas e Esparta entraram em conflito direto. enquanto Atenas tinha força naval. porém é muito mais provável que pudesse ter sido outra doença como sarampo ou varíola. criaram – lideradas por Esparta – a Confederação do Peloponeso.C. O domínio de Esparta durou pouco tempo. na Guerra do Peloponeso. Em 421 a. localizada no estreito de Corinto. Esparta obteve vantagem. seus interesses eram os maiores ameaçados).C. os tebanos venceram a batalha de Leutras (371 a. foi assinada a Paz de Nícias. . entregando seus navios e demolindo suas fortificações. Com isso. Deste modo. estas só se encerraram com a vitória espartana na Batalha de Egos Potamos (404 a. a democracia ateniense sucumbiu a Esparta. com ascensão dos governos oligárquicos e a decadência da democracia ateniense. Tebas se opôs a Esparta e com a tática militar dos generais Epaminondas e Pelópidas. E foi isso que aconteceu com o avanço da Macedônia que acabou com a hegemonia grega trazendo para essa época o Período Helenístico. Atenas teve que renunciar seu império. O sistema democrático até então vigente em Atenas. em 431 a.C. A partir daí. 17 Não há um acordo entre os historiadores: os medievais descrevem como peste negra. uma vez que Tebas. De início. 24 As cidades-estados que se opunham ao expansionismo ateniense. rompida por Atenas sete anos depois. arrasou os campos e obrigou seus habitantes a se refugiarem dentro das muralhas atenienses. que exporemos a seguir.

com a Pérsia. onde fundou a primeira das várias cidades com o nome de Alexandria. Além do domínio da região balcânica consolidado.C. na .C. Com o assassinato de Filipe II. com as continuas guerras travadas entre si. atravessou o Helesponto em 334 a. No campo político. na Índia. Morreu jovem. 25 Isolada do mar. – 336 a. em seguida. Cassandro. Alexandre que foi educado por Aristóteles. na geografia com Eratóstenes. Seus habitantes. iniciando sua hegemonia. chegando até o Egito. como vimos. A época. Voltando suas campanhas militares. Foi na batalha de Grânico que venceu os persas e conquistou a Ásia Menor. enfraqueceram-os e possibilitaram a conquista romana que se concretizou nos séculos II e I a. com a Ásia menor e a Trácia. e Iniciou seu avanço sobre o Oriente.C. eram chamados pelos gregos de bárbaros. com a Macedônia. Enquanto as cidades gregas estavam em plena decadência. Importante destacar que a ação de Alexandre viabilizou uma fusão cultural entre a cultura grega e a cultura oriental. que venceu a batalha de Queroneia em 338 a.C.. seja na astronomia com Ptolomeu.C. a Macedônia era reinada por Filipe II (359 a. que ficou com o Egito. Avançando. Estendeu seu domínio. os avanços da democracia foram eclipsados pelo retorno do despotismo oriental. iniciou uma organização de seu exército e escolheu a Babilônia como sede de seu império. e seus sucessores não conseguiram manter unidade e força no enorme império criado por Alexandre. que acabou sendo dividido entre quatro generais: Ptolomeu. os macedônios fortaleciam-se e iniciavam conquistas aos territórios gregos vizinhos. A divisão do Império Alexandrino e as lutas internas que se seguiram. sucedeu-o seu filho. Seleuco. descendentes dos indo-europeus e que falavam uma língua derivada do grego. Alexandre assimilou os valores da cultura grega. sobre o Oriente Próximo. que além de buscar mais realismo nas pinturas trouxe também grandes impulsos às ciências. e Lisímaco. na matemática com Euclides ou na Geometria com Arquimedes. a Fenícia e a Palestina. A essa fusão nomeamos de Helenismo. a Mesopotâmia e a Síria. chegou com suas tropas até as margens do rio Indo. a Macedônia fica situada ao nordeste da Grécia continental. aos 33 anos.).

Op. Cláudio De Cicco assim se manifesta sobre o Helenismo: Com efeito. Cláudio. Estoicismo e Epicurismo são as correntes de pensamento que ganham força na época. 53. devemos destacar o período Clássico. dele decorrente. p. isto é. em que Sócrates. cit. militar (com o exército) e cultural (com a filosofia). Ao interpretar Benoist-Méchin. e do período que viveu Platão. As lições de seu mestre Aristóteles não tinham sido baldadas. 18 DE CICCO. . Na filosofia. comunicar aos povos da Ásia os valores da cultura grega e seus progressos no campo filosófico.18 Do exposto. O Grande sonho de Alexandre era helenizar todo o mundo. que foi o apogeu ateniense e grego. O Século de Ouro teve em Péricles a grande figura imperialista-militar que liderou Atenas para sua ascensão política (com a democracia). Platão e Aristóteles se elevam ao monoteísmo e à concepção da dignidade humana. Alexandre colocara sua espada a serviço da cultura. 26 qual a autoridade do governo era inquestionável..

não existia tal termo nessa época. um dos últimos pré-socráticos.1 O pré-platonismo nos pré-socráticos Em uma época de crises e mudanças históricas e políticas. sofista e socrático. analisaremos alguns pensadores da Antiguidade que precederam Platão. pois. consequentemente. 27 2. Os pré-socráticos recebem essa nomenclatura não pela questão cronológica. dizemos que eram observadores da natureza. portanto. pois. 53. Marilena. OS PRECURSORES DO PENSAMENTO PLATÔNICO Neste capítulo. Anaxágoras. pois tinham na physis seu objeto de estudo. Chamados de filósofos da natureza ou cosmocêntricos. Introdução à história da filosofia. que consiste no relato das 19 CHAUÍ.19 Eram “empíristas” – na verdade. p. . seu estudo. Suas obras. v. surgem os primeiros filósofos da história da humanidade. Exporemos brevemente o pensamento pré-socrático. 1. auxilia na compreensão da construção de sua teoria. foi contemporâneo de Sócrates. escritas em verso ou poesia se perderam. bem como compreender os sofistas e o pensamento socrático. 2. é preciso saber onde se dá o nascedouro da filosofia ocidental. mas sim por sua identidade na preocupação investigativa. Tudo que temos dos pré-socráticos são algumas frases ou alguns parágrafos escritos por outros autores (doxografia. Como menciona a própria nomenclatura. buscavam o absoluto numa determinação real da natureza. 2. Importante o estudo desses pensadores. 2009. pois são figuras centrais para os diálogos platônicos e. eles volviam seus olhares para o mundo da natureza. da organização das coisas. São Paulo: Companhia das Letras. ed. a exemplo.

. estudaremos alguns pensadores das escolas pré-socráticas que temos. exporemos também o pensamento de Anaxágoras de Clazômenas. 23 Seus conhecimentos de geometria lhe permitiram medir a altura das pirâmides partindo da medição de suas sombras. Trad. Apoiado na crença comum de boa 20 No século XVIII. 22 Tales nada deixou escrito.). ed. o alemão Hermann Diels leu toda (ou boa parte) a literatura grega e separou todas as passagens (diretas ou indiretas) com informações sobre algum filósofo pré-socrático. Isis Borges B. da Escola Eleata grafamos sobre Parmênides de Eleia. que reinou um período na província Jônica de Mileto. 21 Para isso. Anaximandro de Mileto. 24 VERNANT. e dificuldade de classificá-lo como um pensador de determinada escola. Cunhou a palavra filosofia (Filo = amizade + Sofia = sabedoria). jurídicas e filosóficas. sendo certamente o primeiro filósofo ocidental da história. pois estes abrem o campo reflexivo da filosofia. Tamanha sua importância. exporemos também o pensamento de Anaxágoras de Clazômenas. teceremos comentários sobre Tales de Mileto. além de prever eclipses e dividia o ano em 365 dias. As origens do pensamento grego. como Plutarco.C. Anaxímenedes de Mileto e Heráclito de Éfeso. Anaximenedes de Mileto e Heráclito de Éfeso. Era uma dos sete sábios da Grécia arcaica e o primeiro filósofo da Grécia.20 O pensamento político pré-socrático terá um papel muito importante no pensamento platônico. Da Escola Jônica. matemáticas23 e até mesmo sobre a democracia. Por isso. Os filósofos e escritores que surgiram depois dele apresentaram um resumo de seus ensinamentos. nascimento da filosofia: entre duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça. da Fonseca. 94 e 95: “Advento da Pólis. em obras que sobreviveram e chegam até nós.22 Além das discussões astronômicas. Considerava a lua como um corpo opaco que recebia a luz do sol. filho de Examies e descendente da família Télida. Anaximandro de Mileto. Não se conhece nenhuma obra deixada por Tales. da Escola Eleata grafamos sobre Parmênides de Eléia. da Escola Pitagórica ou Itálica. grande historiador romano. estudaremos alguns pensadores das escolas pré-socráticas que temos.24 Tales discutia muito sobre filosofia. Da Escola Jônica teceremos comentários sobre Tales de Mileto. 1992. Sabia calcular as revoluções da Lua e do Sol. Jean-Pierre. 7. Tamanha sua importância. exporemos notas sobre Pitágoras de Samos. solidário das estruturas sociais e mentais próprias das cidades grega. da Escola Pitagórica ou Itálica. São Paulo: Bertrand. exporemos notas sobre Pitágoras de Samos. Reuniu essas passagens e as publicou no livro Die Fragmente der Vorsokratiker (Os fragmentos dos pré- socráticos) e a partir daí os pensadores dessa época ficaram conhecidos com o nome “pré-socrático”. p. Começamos com Tales de Mileto (624 a 546 a. 28 ideias de um autor quando interpretadas por outro autor). em suas origens. e dificuldade de classificá-lo como um pensador de determinada escola. e com isso oferecem subsídios para suas argumentações21 políticas. Diógenes Laércio menciona 200 versos escritos por ele e que tratavam de astronomia.

a filosofia despoja-se desse caráter de revelação absoluta que as vezes lhe foi atribuído. na jovem ciência dos jônios. procurava. Foi astrônomo. apresentamos alguns deles expostos por Plutarco. A contraposição ao pensamento de Tales também é de Mileto. uma primeira forma de racionalidade. a filosofia está enraizada nesse pensamento político cujas preocupações fundamentais traduz e do qual tira uma parte do seu vocabulário”. a physis deriva do úmido. constituiu-se e formou-se. se os animais nascem da umidade não podemos supor que o Universo nasce da umidade?. geógrafo. na Grécia. orientada para a exploração do meio físico e cujos métodos. é no plano político que a razão. encontra na água como principal elemento para explicar a origem de tudo.) é descrito por Teofrasto como concidadão. b) Dá-se porque a água está em todos os lugares.. instrumentos intelectuais e quadros mentais foram elaborados no curso dos últimos séculos no esforço laboriosamente continuando para conhecer e dominar a Natureza. A escola de Mileto não viu nascer a Razão. não vivemos. .. f) A Terra flutua sobre as águas. sem água. e boa parte de nossos corpos é composta de água. 25 Mais especificamente.) Quando nasce em Mileto. Assim recolocada na história.. quais sejam: a) Afrodite nasce de Cronos (Saturno) a partir do corte de sua bolsa escrotal. discípulo e sucessor de Tales. podemos justificar que a água25 é a fundadora do início da vida por vários motivos. a razão intemporal que veio encarnar-se no tempo. Essa razão grega não é a razão experimental da ciência contemporânea. saudando.. ela construiu uma Razão. c) A água é a causa da umidade e se sabe que a semente ou o sêmen de todos os animais é úmido. O questionamento básico de Tales de Mileto consistia no seguinte: De Onde Vim? Dos quatro elementos da natureza. Anaximandro de Mileto (610 a 547 a. um elemento de que todas as coisas se originassem e para a qual voltassem. isto é na descrição hipotética da criação do mundo. ora. na natureza. primeiramente se exprimiu. (. Segundo Tales. Seu testículo cai nas espumas das águas e nasce a Deusa do Amor. porque as plantas e os animais morrem quando ficam secos?. (. e) O sol e os astros parecem que se nutrem dos vapores ou da umidade da terra.) De fato. Seus trabalhos mais importantes são na cosmologia. 29 parte da humanidade no sentido de que nada vem do nada ou volta ao nada. filho de Praxíades.C. d) A umidade é necessária para a nutrição e fecundação das plantas como a semente dos animais. matemático e político.

consiste no fato de que a multiplicidade.. tais como a imensidade. Empédocles foi o primeiro a reconhecer a existência do ar atmosférico como substância separada. Por isso. elemento universal.30 pois este elemento tem atributos magníficos. Assim como Tales de Mileto. e não existe nada maior que o infinito que possa mudá-lo entretanto é variável. invisível e indeterminado. Marilena.C. movimenta-se: contraindo-se ou dilatando-se. o mundo não poderia vir da água nem de qualquer outro elemento. nos mantemos unidos. 27 A crítica elaborada em desfavor de Anaximandro reside no fato de que ele adotou um princípio que não pode ser considerado como elemento material porque. propõe o Ápeiron que não é algo sensível. ao contrário de Tales. Fundamentava sua explicação com o conceito que apresentava de infinito.28 O pensamento de Anaximandro é refutado por Anaxímenes de Mileto (585- 529 a. porque os elementos que nele se encontram podem ser separados e unidos ou aproximados por semelhanças e afastados por diferenças.)29 que não seguiu os passos daquele explicando o mundo a partir de um elemento indeterminado. “um motor imóvel que movimenta os motores móveis”. outro pré-socrático que podemos citar é Empédocles de Agrigento (cerca de 490 – 435 a. mas alguma substância diferente. Anaximandro.26 é impossível ter como ponto de apoio de uma doutrina algo determinado como a água. 30 Crítico do pensamento de Tales e de Anaxímenes. Anaximandro acredita que há um princípio indeterminado. Para ele o mundo. palpável.31 26 Afirmava: “Nem água nem algum dos elementos. Op. Para ele. pois existe. 28 Essa ideia motriz é retomada por Platão em As Leis para justificar a causa primeira como veremos em 895a-b.) que também teceu comentários sobre o ar. o apeíron tudo inclui. o infinito é imutável e variável nas suas partes: Imutável. veio do ar (pneuma). a formação das coisas se dá pela existência complexa e simultânea de elementos contemporâneos uns dos outros e confundidos primitivamente no caos que era o mundo em seu começo. em seu tratado Sobre a natureza ou do desenvolvimento das coisas. uma coisa determinada e certa. chamado por ele de Ápeiron. 64: “A grande originalidade de Anaxímenes. por sua força interna própria.C. assim como o sopro e o ar abarcam o cosmo”. tudo governa. afirma que não se pode explicar a origem dos elementos naturais pelos próprios elementos. a physis. 30 Além de Anaxímenes de Mileto. 29 Tem a seguinte frase atribuída a si: “Como nossa alma que é ar. p.27 Esse elemento é. O ar. material. perante Tales e Anaximandro. Para ele. O cosmos vive no ritmo de uma respiração gigantesca que o anima e mantém coesas suas partes”. . transformação e ordenação do mundo se fazem por alterações quantitativas em um único princípio: menos ar (rarefação) e mais ar (condensação) determinam toda a variação e organização do real. limitada. Deste modo. procurou um ponto de apoio. cit. o infinito e o movimento. 31 CHAUÍ. vai engendrando todos os seres determinados como manifestações visíveis de uma vida perene. e que dela nascem os céus e os mundos neles contidos”. nas suas palavras.

“Mede-se a grandeza de uma ideia pela resistência que ela provoca”. Já Anaxágoras de Clazômenas (497-428 a. Se alguém quisesse explicar a causa de como alguma coisa nasce ou morre ou existe. a ser assim mesmo. segundo Anaxágoras. sofrer ou produzir seja o que for. certa vez alguém ler num livro de Anaxágoras – segundo dizia – que a mente é organizadora e causa de tudo. simples concausas ou causas secundárias. Desse jeito. estabelecendo-se em Lâmpsaco. tendo imaginado que. que algumas coisas contêm”. até ser acusado de impiedade por sugerir que o Sol era uma massa de ferro candente e que a Lua. a mente disporia cada coisa em particular pela melhor maneira possível. 31 Recebeu duras críticas ao seu pensamento. muito certo que a mente fosse a causa de tudo. Fugiu. além de proceder da Terra. Depois dessas reflexões alegrei-me ao pensar havia encontrado em Anaxágoras um professor da causa das coisas (.C. Em sua obra. o nous é o organizador e a causa de todas as coisas. só o que importa ao homem considerar. tanto em relação a si mesmo como a tudo o mais. Ensinou em Atenas durante cerca de trinta anos. O nous seria uma força de natureza imaterial capaz de ordenar as coisas – a causa motora e ordenadora que promove a separação dos elementos contidos no "magma" original. exceto a alma. a função do ar era preencher o vácuo.). se mudou para Atenas por razões desconhecidas. era uma rocha que refletia a luz do Sol. acrescidas de que é impossível explicar o início por meio de algo sem forma e que não vemos. fiquei satisfeitíssimo com semelhante causa. pois acrescentou o nous – espírito ou inteligência – aos elementos físicos que compõem a realidade. teria apenas de descobrir qual é a melhor maneira para ela existir. não há um que o seja”. para alguns naquela época. naturais e concretas. por parecer- me. “Em cada coisa há uma porção de todas as outras. então. As verdadeiras causas se encontrariam nessa "inteligência". e é citado por muitos como o pré- socrático mais importante. porém.. como coordenadora do Universo.. como as que foram incutidas a Tales. . Platão escreve que.32 filho de Hegesiboulos.). Além disso. ficaria necessariamente conhecendo o pior.C. 32 Seguem algumas máximas atribuídas a esse pensador: “Prefiro uma gota de sabedoria do que toneladas de riqueza”. para a Jônia. XLVI – Ao ouvir. de algum modo. é o modo melhor e mais perfeito. Segundo esse critério. Fedão (97 d. sendo as demais. mais nada. por ambos serem objeto do mesmo conhecimento. Anaxágoras foi um dualista.). “De todos aqueles que consideramos felizes.

como veremos ao final dessa tese. o sopro de vida se esvai e a alma retorna gradativamente ao estado terroso. somos e não somos”. 2. portanto. Por seu turno.35 Quanto à teoria da Justiça. O objeto da ciência é algo imutável. ao dizer que todo conflito que provoca injustiça é inerente ao próprio processo 33 Seguem algumas frases atribuídas a Heráclito: i) “Este mundo. Ela se renova incessantemente pela respiração e pela sensação.) era filho de Blison. Mais tarde. Heráclito divergiu de Anaximandro. . é o fogo latente na terra que. que se manifesta na natureza. Além e acima da realidade sensível – a opinião – deve existir uma realidade inteligível – a verdade atingida pela razão”. inspiração para a estrutura e a ordem inteligente da organização da pólis.. A geração é a transformação da semente liquida em sopro seco. de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Para o pensador em comento. Mitologia greco-romana: arquétipos dos deuses e heróis.) a alma é uma emanação do fogo celeste e vive apenas em contato com esta fonte da vida. eterno e real. o mesmo de todos os (seres). 34 José Renato Nalini dispõe o seguinte em Por que filosofia? (São Paulo: RT. contudo quando o homem sonha ou reflete. que nos leva a uma compreensão mais ampla do pensamento Platônico: Anaximandro havia se referido à ‘injustiças’ que ocorre quando há desencontros ou conflitos durante os movimentos naturais dos corpos. uma vez que. São Paulo: Madras. consegue se isolar e retirar-se a um universo pessoal. em comparação com Anaximandro. reverte a seu estado primitivo na alma humana. 36. acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas”.C.34 Como ensina Pugliesi: (. temos as observações de Carlos Eduardo Meirelles Matheus. deve buscar na inteligência divina. nenhum deus. lama do mundo soberanamente inteligente e sábia.33 Diz que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. iii) "Não se pode entrar duas vezes na mesma corrente de um rio". 2008. p. Marcio. Essa individualização possível em um sistema que unifica o universo pelas leis de movimento permanente dá a primeira grande pista da formação do conceito de indivíduo a partir daquele isolamento de alma.. A energia da vida individual depende de comunhão mais ou menos seguida com o fogo celeste. nenhum homem o fez. através do estado líquido. mas era. as almas são desiguais quanto à força e é difícil o autodomínio. O sopro mais seco constitui a alma mais forte e na morte. p. a verdadeira ciência não tem como objeto os seres cambiantes do mundo de Heráclito – ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. 35 PUGLIESI. é e será um fogo sempre vivo. nada é estático. ed. 32 Essa questão guarda forte relação com o pensamento platônico. para organizar sua cidade ideal. tudo é constante processo. com relação a Heráclito. Assim. ii) “Nos mesmos rios entramos e não entramos. Heráclito de Éfeso (540-476 a. 77-78): “Para Platão. Platão considera que o homem.

o poema divide-se em três partes: o prólogo. Para Heráclito. 18. há uma constante mudança. Parmênides de Eleia37 (530 a 460 a. O poema de Parmênides nos oferece – ao lado dos fragmentos de Heráclito – uma das doutrinas mais profundas do pensamento pré-socrático. À doutrina do caminho da verdade. sendo que o primeiro caminho é o da certeza. Parmênides nasceu na Eleia (colônia Jônia. a lembrança. o poema distingue “o coração inabalável da verdade”. . São Paulo: Atlas. Foi o fundador da escola eleática. Maria Constança Peres. Direito e filosofia – A noção de justiça na história da filosofia. Carlos Eduardo. buscava um sentido oculto para a vida humana. 37 No diálogo platônico intitulado Parmênides. a água pode até não ser a mesma.. Filho de Pietro e discípulo de Xenófantes e depois de Pitágoras. como resultado. In: PISSARRA. antes de Platão. para Parmênides a essência não muda.) Esta noção de uma justiça natural presente na ordem universal foi também uma das principais fontes inspiradoras da busca de conhecimento e da reflexão sobre a presença da justiça como uma idéia na qual Platão. a justiça resultaria de um equilíbrio entre elementos contrários. 36 MEIRELLES MATHEUS. visitou Atenas. na Itália) atingindo a fama por volta de 475 a.C.C. FABRINI. como vimos. o do ser e o do não-ser. 33 universal. A noção de justiça em Platão. bem como a teoria das formas é apresentada. Portanto.). e por volta dos 70 anos conheceu Sócrates. No prólogo. p. Se. No fim do prólogo. o caminho da verdade (alethéia) e o caminho da opinião (doxa). Aos 25 anos. As pessoas podem até mudar. De difícil interpretação. produzindo-se. das “opiniões dos mortais” o que permite distinguir as duas partes sequentes de sua doutrina. 2007. o filósofo distingue dois caminhos de investigação. e o segundo não leva à verdade. o filósofo é conduzido à presença da deusa que lhe promete a revelação da verdade.. discute-se a natureza da realidade. Ricardo Nascimento (orgs. os movimentos celestes se confrontam em sucessivas oposições recíprocas. a justiça era entendida como o ‘ajustamento’ necessário de forças – que se opõem exatamente para estabelecer a ‘ordem’ cósmica (. para Heráclito. seu ‘justo’ equilíbrio. se é múltipla ou única. a essência do ato praticado é sempre a mesma.). Talvez se possa dizer que. mas a sensação. pois conduz à verdade.36 Em contraposição a Heráclito.

42 Observa a natureza pelas cordas e sons de instrumentos musicais e. o quente e o frio.. 41 Em Górgias (508a). e mesmo sendo verdadeira é mais fraca e insegura que o conhecimento.. 68-69: “Como teria chegado a essa idéia? Os exercícios espirituais da comunidade pitagórica eram realizados ao som da lira órfica ou a lira tetracorde (lira de quatro cordas). Platão critica aqueles que não querem estudar geometria. ao contrário.C. Sob o ponto de vista cientifico e político esta influencia foi incontestavelmente muito grande. número? A proporção ou harmonia universal faz com que o mundo possa ser conhecido como um sistema ordenado de opostos em concordância recíproca e por isso. contínuo. Trad. Buscou explicar a origem. 43 CHAUÍ. p. pois como ele mesmo associa estreitamente o conceito de isotes. da igualdade geométrica. às virtudes políticas sobre as quais repousa a nova ordem da cidade.41 Filósofo e matemático que viveu de 582 até 497 a. 39 Essa busca da essência e do não mutável nos remete novamente à doutrina platônica no que tange à questão do conhecimento verdadeiro do sábio e da opinião. Jorge Palekat. ficou famoso pelo seu teorema no qual a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. portanto. p. situada muito perto de Mileto. 5. Buscava justificar as leis pela proporcionalidade que há nas cordas da lira. eterno e não preso numa duração sem principio nem fim. 42 Cosmo (Universo) significa em sua gênese “belo”. Fundou a Escola Pitagórica. o bom e o mau. se o som é. . mas nem por isso se deve exagerá-la”. cit. o masculino e o feminino – não seria um sistema ordenado de proporções e.C. Tal observação da natureza é a busca de ordenar intelectualmente o que se reproduz de maneira ordenada na natureza. Globo. por que toda a realidade – enquanto harmonia ou concordância dos discordantes como o seco e úmido. Nesse momento. fundamento do cosmos físico. 33-34: “Em suma. assim como Pitágoras foi o primeiro a falar em philosophía (. 34 A terceira parte do poema ocupa-se do caminho da opinião. onde viveu Thales. Ora. ao passo que a opinião pode ser verdadeira ou falsa. Banquete e Fedro). Importante destacar que Pitágoras identificava as leis como a relação numérica de igualdade entre uma ofensa e sua reparação. Introdução de Paul Tannery. com isso. ed. os sons da lira seguem regras de harmonia que se traduzem em expressões numéricas (as proporções). do mundo afirmando que era no número (arithmós)”. isto é. Rio de Janeiro: Ed. sendo que para ele o ser é uno. prova algumas de suas teorias matemáticas. desenvolve sua cosmologia.38-39 O último pensador pré-socrático que destacamos é Pitágoras de Samos40 (582-497 a. O ideal de sua matemática vem do belo. e é muito provável que Pitágoras tivesse percebido que os sons produzidos pela lira obedeciam a princípios e regras para formar os acordes e para criar a concordância entre sons discordantes. Marilena. número. 40 Diálogos (Menon. uma ilha do Mar Egeu. principalmente no que se relaciona com o ponto de vista estritamente filosófico. pode-se ser levado a exagerar desmedidamente a influência dessa escola sobre Platão ou.. em Samos.43 Na Matemática. a reduzi-la quase a nada. Pitágoras acreditava que: 38 Note que na doutrina Platônica boa é alma que se governa pelo conhecimento que só pode ser verdadeiro. na verdade. Op.). physis.) foi o primeiro a falar no mundo como kósmos”. único. o justo e o injusto. segundo a concepção histórica que se tem do pitagorismo.

46 PUGLIESI. onde se encontram os astros. estudaram a subjetividade. Levando em consideração os interesses dos alunos. que vão para competir e exibir suas qualidades ao público. Acreditava que a alma poderia se purificar. na transmigração das almas. filosofaram para justificar sua arte oratória – os sofistas possibilitaram. os atletas. que posteriormente são resgatados por Platão na Tripartição da alma que apresenta em sua teoria. ibidem. libertando-se da “roda do nascimento” com o conhecimento ou a vida contemplativa. ou seja. e os que vão para contemplar os torneios e avaliá-los.46 44 Idem. 68: “Ele (Pitágoras) teria dito que aos jogos olímpicos comparecem três tipos de homens: os que vão para comerciar e ganhar a expensas de outros. Filosofia geral e do direito – Uma abordagem contemporânea. Ensinavam conhecimentos úteis para o sucesso dos negócios públicos e privados. 45 Idem. 2009. Assim também existem três tipos de almas: as cúpidas. onde nos encontramos. Intentavam entender um ser que sente. ainda. por essa razão. 35 há uma música universal e que não a ouvimos porque nascemos e vivemos em seu interior e não possuímos o contraste do silêncio que nos permitiria ouvi-la. acreditava que as almas poderiam reencarnar passando por diferentes corpos. No mundo. deseja e pensa. A transição do estudo do cosmo e do homem em seu interior para o homem como objeto de estudo significa a contribuição mais efetiva desses filósofos de transição. Tese de Doutoramento em Filosofia pela PUCSP. . tanto humanos como animais. Sobre esse tema. p. p. o desenvolvimento a toda filosofia platônica em seu intento de fundamentar o saber para desalojar a relativização sofística. ou seja. voltadas para a contemplação”.44 Acreditava. e a esfera terrestre. presas às vaidades da fama e da glória. como a maioria dos historiadores da filosofia pensa. p. davam aulas de eloquência e sagacidade mental. presas às paixões.45 2. somente por meio da theoria. ainda.2 Os sofistas – O contraponto para Platão Os sofistas eram professores viajantes que por determinado preço vendiam ensinamentos práticos do conhecimento. ibidem. e cuja existência oferta questões de inteligência e de moralidade e. Marcio. A música ou harmonia universal é a relação proporcional e ordenada entre as esferas ou entre os céus e a terra. as mundanas. e as sábias. se. 69. 37. os doxógrafos trazem ensinamentos muito úteis. as cordas da lira são as esferas celestes. E. Os sofistas se preocuparam com o homem e com o seu modo de viver no mundo.

alcunhando-os de “demagogos que usavam falsos argumentos”. e. segundo eles. chamarão os sofistas de charlatães e mentirosos”. Para Protágoras. que seriam utilizados na arte de convencer as pessoas. ao momento e a um conjunto de fatores e circunstâncias. devemos observar que os sofistas podem ser estudados sob uma ótica positiva. Hípias como pensador da transição dessa geração. o que reflete a impossibilidade de se praticar plenamente a justiça. Marilena. Daí se justifica a visão sofista de que a justiça não poderia ser plena. podem ser instáveis e relativas. 161: “Embora não tivesse o sentido pejorativo que veio a adquirir posteriormente. volvendo. os olhares do cosmo para o homem. pois estas. filho de Neandrios. Eles transmitiam um conjunto de raciocínios e concepções. Exatamente por isso os inimigos. aproveitando-se dessa ambiguidade. 48 Ideia contraposta pelo ateniense nas Leis em 716c-d ao afirmar que a divindade é a medida de todas as coisas. Tudo seria relativo ao homem. não podemos nos prender a 47 CHAUÍ. 36 As lições sofísticas tinham por objetivo o desenvolvimento do poder de argumentação retórica. e por conta disso. temor e desconfiança. Os sofistas não tinham como objetivo a verdade.48 ou seja. não haveria uma verdade absoluta. A ideia de podermos relativizar as verdades poderia abalar a filosofia de Sócrates e de Platão. Em contrapartida os sofistas muito estudavam e buscavam acumular o máximo de conhecimento. assim. Protágoras de Abdera (480-410 a.). mas são positivos no que se refere à moral e ao Estado.. o qual afirmava como tese principal que o “homem é a medida de todas as coisas”.C. A primeira geração de sofistas é formada por aqueles conhecidos como negativos no que tange ao conhecimento e à crença nos deuses. conotando aquela pessoa cuja habilidade extrema provocava uma mescla de admiração. Destacamos Protágoras e Górgias como os sofistas dessa geração. Essa relativização da justiça ocasionaria certo desprezo às leis. Op. pois ao sustentarem que o ser humano não estava apto a alcançar a verdade. cit. Segundo essas concepções. eles consideravam os sofistas como seus inimigos. . Podem ser classificados em duas gerações. e do conhecimento de outras doutrinas.47 Com isso. defendia a ideia de que as coisas são relativas para cada um. fizeram inferir que as instituições político-jurídicas da pólis grega também não o poderiam fazer. p. a palavra sofista tinha um sentido ambíguo. também. em especial sobre a linguagem.

C. iii) se fosse conhecido. política e retórica também são pontos de toque desta geração. da linguagem e da retórica. escreveu sobre o uso adequado das palavras e fez progredir a gramática. nesta obra ao discutir sobre o que é ou não é natureza extrai as seguintes conclusões: i) nada existe. uma vez que há nele uma grande importância para a própria construção do pensamento filosófico. atribuiu à arte de falar o poder de tornar vitoriosas as causas. Defende o direito natural do homem de se libertar das leis escritas e de se impor como senhor. segundo o direito da natureza. Ensinou a arte da retórica na Sicilia e em Atenas. Hípias de Élide (527 e 510 a. Direito Natural.C) era filho de Diopites e pode ser considerado um sofista de transição da primeira para a segunda geração. 50 Exporemos com mais detalhes as questões desse diálogo no capítulo IV deste trabalho. A segunda geração dos sofistas destaca-se pelas mudanças circunstanciais na Grécia. na medida em que são os sofistas que contribuem para que os diálogos de 49 Desenvolveremos no capítulo IV o diálogo entre Sócrates e Protágoras escrito por Platão. Com isso não podemos descartar ou banalizar o pensamento sofista. por assim dizer. tal questão é bem debatida na Antígona de Sófocles. . pois elas não existem. dá explicação para a crença nos deuses como invenção de um político sagaz. da mesma maneira que a ordem do cosmo se deduz do jogo dos átomos na escola atomista. Crítias foi um dos trinta tiranos e tio de Platão. Trasímaco e Crítias. não poderia ser comunicado. Coloca a questão da distinção do direito natural das leis positivas. ii) se existisse. o direito e o Estado emanam do jogo dos egoísmos individuais. Eurípedes é o poeta que representa essa época. não seria conhecido.) foi um grande estudioso e teórico. Cálicles é um personagem encontrado na obra Górgias que tem até sua existência questionada. Trasímaco da Calcedônia é encontrado no Livro I da República Platônica. É possível encontrar Górgias no diálogo socrático que leva sua alcunha.50 Apresenta para Sócrates um sistema ético-político que será apresentado no desenvolvimento sobre o que é justo. Além disso. sendo que a moral.49 Já Górgias de Leontini (485-375 a. Destacamos Cálicles. 37 verdades absolutas.

(. Coimbra: Fundação Caluste Gulbenkian.1. que. In: XENOFONTE.1. como Crítias.. em seus diálogos. Na época da oligarquia dos trinta tiranos em Atenas. perdendo. deste modo. 1. Trad. que tinha precisamente integrado. 13.2. A fonte mais importante de informação sobre Sócrates que temos é Platão. à parte o de Jesus Cristo.) Foi Platão quem criou o Sócrates de nossa imaginação. derrotada Atenas por Esparta. Acreditava que a escrita petrifica e a palavra vivifica.. 21. Sócrates recusou-se a participar da indigna trama. Xenofonte. democrata radical e de percurso irregular. São Paulo: Companhia das Letras.. O julgamento de Sócrates. que com facilidade traía a sua cidade a favor de interesses pessoais. 1. Memoráveis. desta forma imaginava que se escrevesse algo poderia ser interpretado de maneira equivocada no futuro. deixou uma impressão tão forte na imaginação do homem ocidental quanto o de Sócrates. tendo seus posicionamentos petrificados ou imobilizados para sempre. Memoráveis. ao passo que sua palavra poderia ser transmitida a todos mantendo seu pensamento livre e vivo. Diógenes Laércio. 2009. a simpatia que tinha dos tiranos. . 2. e até hoje é impossível determinar até que ponto é produto do gênio criativo de Platão.40). Sócrates nada escreveu. p. os governantes tentaram fazer Sócrates cúmplice na execução de Leon de Salamina.3 Sócrates Nenhum outro julgamento. 2007. prosperem. Paulo Henrique Britto.. cujos bens desejavam confiscar. Assim.12-16.52 51 STONE. 33a-b. além do que a democracia ateniense é desenhada por muitos argumentos trazidos pelos sofistas. 52 Trecho extraído da introdução de Ana Elais Pinheiro. 2. Apologia. quando do seu círculo tinham feito parte indivíduos como Alcibíades. retrata Sócrates como mestre da razão e da busca pela verdade.) Não é efectivamente difícil que Sócrates tenha sido considerado uma ameaça à constituição democrática. p. escritos por Platão. o governo oligárquico dos Trinta Tiranos (cf. Platão.51 Sócrates foi um dos pensadores mais importantes da tradição filosófica ocidental. Ana Elias Pinheiro diz o seguinte: (. 38 Sócrates. Isidor Feinstein.

por difundir ideias contrárias à religião tradicional.. Para Platão. e descreve seus efeitos. para sua saudável e sábia alma.. em 115b-118a. quer aos promotores de uma acusação. 57b. mas como respeita a cidade e as leis por ela positivadas.55 Nas palavras de Wolf: “Desde que no ano de 399 a. assim sendo competia. um verdadeiro gênero literário nasceu da noite para o dia: ‘a discussão socrática’”. possibilita sua libertação do velho corpo que tinha. concorda com sua reprimenda. Op. diante dos juízes. 56 WOLFF. a época assim era considerado o regime ateniense. 39 Mais tarde. Assim. cit.C. de maneira mais branda. 57. na realidade. assim dispõe sobre a acusação que recaia sobre Sócrates em Memoráveis 1. quer aos seus arguidos. Sócrates foi acusado pelo regime democrático de Atenas53 de ter corrompido a juventude. . 57 XENOFONTE.C. p. 4. a ambas as partes era concedido igual tempo para apresentarem as suas razões”. tendo sido condenado a morrer bebendo cicuta. o estado ateniense o condenou a beber cicuta mortal.56 Importante destacar que Sócrates aceitava as leis de Atenas e isto resta patente. muito provavelmente. Op.1: A sentença lavrada contra ele dizia qualquer coisa como: Sócrates é culpado diante da lei por não reconhecer os deuses que a cidade reconhece e por ter introduzido divindades novas. a pena aplicada pelos seus juízes. para Sócrates.. considera sua pena injusta e desapropriada. cit. 55 XENOFONTE. a defesa das suas motivações embora pudessem contratar para o efeito os serviços de logógrafos profissionais que se encarregavam de organizar os processos e de compor os discursos a pronunciar no tribunal. e é culpado ainda por corromper os jovens. Outro argumento que pode fazer com que acreditemos no motivo de Sócrates aceitar sua pena é o fato de ele defender a imortalidade da alma e a transitoriedade do corpo. 26 (Introdução de Ana Elais Pinheiro): “A defesa de Sócrates diante dos juízes parece ter sido. Francis. São Paulo: Brasiliense. como veremos. fará com que ele não acredite no sistema democrático proposto em 53 Embora distinto de nosso regime democrático atual. o fato de a Pólis grega ter condenado seu grande mestre. ed. uma vez que ele se curva à decisão imposta pelo Estado ateniense57 e que. p. em 399 a. uma não defesa. p. Instruído o processo. 54 Em Fédon. Platão diz apenas ser veneno. Sócrates.54 Xenofonte. 9.1. à luz de toda sua teoria. O sistema jurídico ateniense não contemplava a figura do advogado.

. Sócrates apresenta sua dialética como caminho para lembrarmos do que foi esquecido. recuperamos tais esquecimentos pela anamnese que 58 WOLFF.. Hector. cit. O meio para que chegássemos à verdade absoluta. 59 BENOIT. nenhuma ciência das coisas). Ao perceber a complexidade das coisas. Moderna. o nascimento da razão negativa. Episódio importante a ser destacado sobre Sócrates se deu com o questionamento do Oráculo de Delfos sobre “o que sabia”.58 Assim. p. Mostrava que essas representações eram apenas opinião (doxá). necessariamente. e não ciência (epistême). p. coloca em dúvida o que supostamente sabe. esquecidas. Sócrates acreditava que conhecer a verdade seria retornar aos conceitos esquecidos para buscar a verdade. ou então não esquecimento. pois lethe significa esquecimento e seguido da partícula negativa “a” cria o “não esquecimento”. tendo afirmado: “Só sei que nada sei”. a irônica força que destruindo germinava sempre o novo. Op. Todas as verdades estavam em nós. Francis. instaurando a incerteza. 48: “É justamente isto que Sócrates. e o convidará para a propositura de um sistema ideal em que as leis do Estado observem e se subordinem ao Direito Natural. e que os conhecimentos transmitidos naquela época eram os dos sofistas.’ Que espécie de ciência? Aquela que é. 2006. essa máxima socrática não surge por uma ignorância dos conteúdos apresentados pelos sofistas da época. mas como uma atitude crítica filosófica de buscar a verdade. orgulha-se de saber ‘eu o reconheço. deste modo. não tinham compromisso com a busca pela verdade. e então o oráculo afirma ser Sócrates o homem mais sábio. necessariamente. São Paulo: Ed. (Sócrates) caminhava pelas ruas de Atenas espalhando dúvidas.. Sócrates percebe que todos os conhecimentos não são necessariamente verdadeiros.59 Sobre a verdade. O termo grego Alethéia significa o caminho para a verdade. É assim que surge sua famosa frase: Sei que nada sei. ao confessar que nada sabe (quer dizer. implantava a força revolucionária do negativo (apophatikón). perguntando e reperguntando. possuo uma ciência . a ciência própria do homem”. afirmando não conhecer nada. . a alethéia. Nega os dogmas e as supostas verdades para questionar positivamente a fim de buscar uma verdade filosófica. Desde jovem. ou a doxa seria o método dialético que consiste na busca das verdades absolutas ou dos esquecimentos universais. e. 40 Atenas. 9. Sócrates. que.

ou fazer abortar. parteira. . segundo ele.C. conforme o caso. Ora. Sócrates parteja as almas dos homens que estão na iminência de conceber o que é verdadeiro.. com a diferença de eu não partejar mulher. Enquanto as mulheres parem uma vida. 150-151 a. p. Francis. dizia ele. Dentro da indagação teremos a refutação que consiste na exposição dos preconceitos para que possamos rebatê- los e parir o conhecimento por meio da maiêutica que explicamos a seguir. conduzir o parto a bom termo suavizando as dores. os homens parem uma verdade.60 Em Teeteto. a indagação é o questionamento do tema que será dialogado. Porém a grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência 60 WOLFF. parteira. 54-55. Sócrates mostra ao personagem que dá nome ao diálogo que seu método é análogo à arte obstétrica realizada pelas parteiras com a diferença de que ao invés de partejar corpos. ‘minha arte maiêutica tem as mesmas atribuições gerais. ou seja. não os corpos. pretendia ter herdado esta arte da interrogação de sua mãe. e é as almas que auxilia no trabalho de parto não aos corpos. Op. cit. Sócrates.. A diferença é que se aplica aos homens e não às mulheres. Dentro do método dialético. Sobre a definição da maiêutica socrática destacamos o que observa Francis Wolff sobre essa técnica de conhecimento: Assim se justifica a técnica socrática de investigação filosófica a que Platão chamava sua ‘maiêutica’. A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras. 41 acontece com a recuperação da memória e pela maiêutica exercitamos a aprendizagem. a verdade. um conhecer. só as mulheres que não podem mais parir é que podem fazer partos. o homem pode gerar o conhecimento. a partir também de uma gestação. em seu trabalho de parto. deveria passar por um estágio de gestação até chegar a seu nascedouro. Fazia uma analogia com a função de sua mãe. A dialética divide-se em exortação e indagação e esta última se divide em refutação e maiêutica. e dizia que assim como as mulheres conseguem gerar uma vida após um tempo de gestação. porém homens. Sócrates acreditava que o conhecimento deveria ser “parido”. e de acompanhar as almas. quer dizer. de acordo com os costumes religiosos. A exortação consiste no convite ao diálogo.

de sabedoria. . Carlos Alberto Nunes. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros. Teeteto. 2. aprisionando o escritor ao texto. e o texto escrito paralisava o ato. 61 PLATÃO. traduzindo com maestria a vida que é dinâmica. que após escrito não podia mais se libertar da própria prisão que criou para si mesmo. Segundo Robinson tal método traz um salto qualitativo aos partícipes do diálogo. para Sócrates. de só interrogar os outros. raiva por parte do interpelado. Uma palavra pode ser polissêmica. Plato’s Earlier Dialectic. deve- se produzir. Trad. Um texto escrito não consegue capturar esses sentimentos além de não atingir todos os públicos. 62 ROBINSON. alguns de seus discípulos. por carecer. sem nunca apresentar opinião pessoal sobre nenhum assunto. R. 1962. ter diversos sentidos a depender do modo que for dita. Por isso mesmo. grafaram textos que narram alguns diálogos de Sócrates ao longo de sua vida. 42 de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro. ou seja.61 Deste modo. em seguida. a oralidade. auxiliar na parturição. tendo grande fundo de verdade a censura que muitos me assacam. Neste particular. podendo ser interpretado de infinitas formas. sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria. Pensava que a fala. é a geração do conhecimento ou a verdade. em As Nuvens. o conhecimento deve ser “parido”. 1988. Mesmo não tendo escrito nada. embora traga num primeiro momento. Em seu tempo existia uma exaltação do logos através da oralidade.62 Sobre a frase atribuída a Sócrates “a escrita petrifica e a palavra vivifica” podemos inferir que tal assertiva representa sua crítica aos textos escritos que chegaram até nós – paradoxalmente – pelos textos escritos por Platão. UFPA. ou seja. e alguns de seus opositores. como a parteira. investigar até concluir algo. Oxford: Oxford at the Clarendon Press. 18. a vergonha que o reveste o convida para a reflexão da sua ignorância. como Xenofonte e Platão. como Aristófanes. p. e é o papel do filósofo exercer o papel de obstetra e. dinamizava o pensamento. justamente. que. ed. isso porque. não sou sábio não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. assim como a fala. porém me impede de conceber. no caso. Belém: Ed.

dedicou todos seus escritos em homenagem ao seu grande mestre. e GARNSEY. As Leis. Sócrates é apresentado por Platão como o modelo do homem bom. 43 De todos que escreveram sobre Sócrates não resta dúvida que foi Platão quem ganhou mais destaque. Brasília: UnB. Com sua vida e com sua morte. a antítese do protótipo do homem mau. I. Sócrates provocou a fé profunda em sua tese de que injustiça não deve ser combatida com injustiça. 1998. Ao longo do trabalho. com a única exceção de seu único trabalho. Peter. . R. O legado da Grécia – Uma nova avaliação. em sua primeira fase. e sua importância para Platão está simbolizada em seu papel de protagonista em todos os diálogos primitivos e médios. 56. traduzem sua crença na imortalidade da alma e na justiça divina. Trad. do tirano. veremos como as questões relacionadas à alma e à justiça divina guardam forte relação com o pensamento platônico. In: FINLEY. p. Assim se manifestam Winton e Garnsey: E a experiência de Sócrates foi fundamental à carreira intelectual de Platão. narra Platão em Fédon. como veremos. Yvette Vieira Pinto de Almeida. Sócrates aparece em todas as obras de Platão. M. 63 WINTON.63 Sobre os últimos instantes de Sócrates. Platão. Na verdade. Teoria política.

65 WATANABE. deve ter em vista sempre a história grega: 64 MASCARO. nomes de pessoas. na verdade. p. 2. ed. p.C. a bem da verdade – e se saltarmos as complexas etapas do procedimento de datação – cientificamente poderíamos apenas dizer: “Platão deve ter nascido no ano de 427 a.1 Biografia Nascido em 7 de maio de 427 a. O estudo de sua vida mostra como agiu e pensou ao longo dos anos. Tais datas são dotadas de grande significado. Alysson Leandro. segundo Diógenes Laércio. quando nós. 62. em Atenas ou em Egina. Faleceu em 348-7 a. Filosofia do direito. Os gregos não contavam os anos como nós o fazemos. Platão por mitos e hipóteses. por exemplo. São Paulo: Atlas. . denominado. Para Watanabe. Os anos tinham. que se reuniam no arcontado). 3. por isso. Ligia Araújo. 2010.”. Um grego então diria: “Platão nasceu no arcontado de Animías”. arconte epônimo. PLATÃO: ENTRE A TEORIA E A AÇÃO Se o apontar à justiça como horizonte político faz de Platão um filósofo do direito revolucionário. apenas numerando-os abstratamente..64 Para a compreensão do pensamento Platônico é preciso expor. 2006. a qual permitiu a Filipe da Macedônia a conquista do mundo grego.C. 44 3. o nome do arconte principal (era o título dos membros de uma assembléia de nobres da Atenas antiga. assim como o estudo da proposta de organização de sua obra possibilita melhor compreensão de sua estruturação teórica. ainda que sua biografia e uma proposta de organização de sua produção bibliográfica. não é possível dar precisão ao ano. São Paulo: Moderna. como dissemos. Era costume atribuir ao ano. sua legitimação do Estado e do soberano como os responsáveis pelo destino de toda a sociedade revela seu corte de classe e sua filosofia política de dominação. 18. A originalidade de Platão. quanto mais à data exata de seu nascimento.C. Estudar a biografia de Platão. sua singularidade no todo do pensamento jurídico e seu incômodo para a filosofia do direito prosseguem ainda hoje. uma vez que Platão nasceu no ano seguinte ao da morte de Péricles e faleceu dez anos antes da batalha da Queroneia.65 Platão.

p. pelo lado materno. teve ainda um irmão. 109. particularmente ateniense. culminando com a Guerra do Peloponeso.66 O nome Platão é.68 Teve dois irmãos mais velhos. que foi mãe de seu discípulo e sucessor. começou a viver a angustia da decadência. conhecido como Platão”. 68 LIMA FILHO.C. da invenção da democracia ao fracasso dos regimes e constituições que culminaram com as dominações estrangeiras. assim. Platão era filho de Aríston e Perictione. Op. Sua genitora descendia do grande legislador Sólon. Foi a fase em que o ‘espírito grego’. um apelido que surgiu por conta de possuir ombros muito largos. numa expressão hegeliana. 45 O contexto de desenvolvimento da filosofia platônica esteve marcado pela contradição entre o período áureo da cultura humanista e racionalista e o início da decadência do período helenístico. apresentavam- se utilizando como referência inicialmente seu nome. 57. com certeza deixaram seus efeitos nos debates e reflexões dos filósofos desse tempo. p. A grandeza Grega. seguido de sua pátria. a grandes personalidades do meio político. O agravamento dos conflitos entre as cidades.. Naquele tempo. sua filiação e seu apelido: “Arístocles de Atenas. Gerson. 67 Tal termo significa “relativo a pai”. e uma irmã. a corrupção. por parte de mãe. . cit. Potone. Acácio Vaz de. cit. Talvez seja possível atribuir o desapreço de Platão pelos políticos de seu tempo ao convívio e. passou do esplendor comercial às crises e subordinações econômicas. Op. adquirido desde 66 PEREIRA FILHO. consequentemente. sua localidade mais específica na pólis. Antífon.. Seusipo. Segundo narra O Parmênides. na verdade. No entanto. filho de Pirilampes. A filosofia também se transformou e mudou de sentido e papel diante das novas realidades. tendo recebido a educação reservada aos jovens pertencentes à aristocracia. ao conhecimento dos bastidores políticos. fica mais inteligível a mundividência revelada em “A República”. as pessoas se apresentavam com seu patronímico. filho de Aríston e de Perictione. O futuro grego tornou-se obscuro e pouco promissor após o século IV a. os desmandos e as crises sociais. da incomparável produção técnica e artística para uma era de incertezas e transições. não seria demais dizermos que a pátria ou pátrio significa “dizer respeito aos pais” (pai e mãe) e pátria (terra de nascimento dos meus pais). era irmã de Cármides e prima de Crítias. O nome que seus pais lhe deram foi Arístocles. do demo de Colutés. Adimanto e Gláucon.67 ou seja. dois dos trinta tiranos que dominaram Atenas durante algum tempo. pertencendo a uma tradicional família de Atenas estando ligado. Sobre isso é importante a advertência que nos faz Acácio Vaz de Lima: É preciso não perder de vista que Platão era um aristocrata.

O cisne representava para os gregos de então um atributo simbólico do deus Apolo. a liberdade para cada um não é independência. pois o Bem o conduz à sua autarquia e. Tendo Sócrates sonhado com um cisne e tendo Platão se apresentado no dia seguinte a ele para ouvir as palestras deste já então famoso filósofo. um sinal do caráter apolíneo de seu discípulo Platão. faculdade de arbítrio). p. Platão aprofundou sua descrença na democracia. da beleza tranqüila e da razão paciente e calculista – imagem que por muito tempo foi conferida a todo o Classicismo e à arte clássica grega. mas não livre escolha (opção espontânea da vontade. no entanto. Contudo. assim. Pressupõe deliberação pelo que é melhor. Alvaro de Azevedo e GONÇALVES. bem como por serem eles que condenaram seu grande mestre a morte. foi condenado pela pólis ateniense à pena capital bebendo cicuta. (Re)pensando o Direito – Estudos em homenagem ao Professor Cláudio De Cicco.69 A juventude de Platão foi marcada por ter conhecido seu maior mestre. a preferência torna-se base da responsabilidade de cada um pela sua vida. Ligia Araújo. tão grego e tão clássico quanto o caráter apolíneo. que é. deus da embriaguez e da des- razão. Op. Platão aparece na vida de seu mestre Sócrates primeiramente sob a forma de sonho. à liberdade. e ao caráter barroco das artes. Antônio (coords. o que Platão explica por meio da hipótese da preferência da alma que. Trata-se antes de uma compulsão de identificar o próprio ser na sua plenitude. 46 criança. o sentido político domina: livre é o homem cuja ação se dirige ao Bem (não a um bem). 34.). do deus Dioniso. Sócrates. .70 Face à injustiça que Sócrates havia sofrido. mas o permanecer firme junto ao que lhe é melhor. p. Ser apolíneo significava ser amante da ordem. a liberdade e a política seguem os dizeres de Tercio Sampaio Ferraz Junior: Com Platão. por consequência. em particular. 304. São Paulo: RT. Tercio. pré-existindo no mundo anterior (mundo das formas ou idéias). em algum momento. Sendo determinante a vida passada para a vida futura. cit. In: GONZAGA. tomando-o para sua própria vida futura. Assim como livre (autárquica) é a pólis em que domina aretê. Sobre Platão. Sócrates concluiu que o cisne de seu sonho era seu novo discípulo. assim também livre é a alma cujo saber sobre o Bem domina as forças inferiores da alma. 70 WATANABE. em particular –. não conseguia acreditar que as leis positivadas nessa época 69 SAMPAIO FERRAZ JUNIOR. em oposição ao caráter dionisíaco. 2010. Da liberdade como liberdade de consciência e seu percurso histórico. Em vão foram as tentativas de Platão e de alguns de seus companheiros de se apresentarem como fiadores do mestre. e. como a melhor forma de governo.. alcança o Bem de modo intuitivo. como era apresentada em Atenas. que como vimos.

Entretanto. Como os homens habitantes da caverna não se volvem espontaneamente. Platão pede a Glauco para imaginar homens vivendo em uma caverna na qual a entrada é grande. aquele que volta à caverna é morto pelos que lá se encontram agrilhoados. que consiste na verdade. o mais sábio e mais justo de todos os homens não poderia ter sido tratado daquele modo. Além disso. Dentro da caverna existem objetos que são exibidos atrás dos homens presos. Nesse sentido. Ou seja. por fim. e assim também refletir sobre o Bem. o ocorrido com sua alegoria da caverna. convivem apenas com as projeções e não com os objetos propriamente considerados. alegoricamente. Elas são libertas. Para Platão. na quarta parte (531 até o final do livro) são apresentados os caminhos da dialética. Nesse tópico nossa pretensão é analisar a primeira parte deste livro. na alegoria. O ato de virar o pescoço não é gratuito no texto platônico. e. forçadas a se levantar e a virar o pescoço. se os homens virarem seus rostos. a Alegoria da Caverna não compreende a libertação de todos os homens. devem se acostumar antes com a luz da lua para futuramente habituar-se à luz do sol e então compreender a inteira verdade. para ver a luz do sol. deverão sair da caverna. mas sim ao mundo inteligível. Mas. pois libertos não teriam mais seus olhos voltados ao mundo sensível. a alegoria da caverna. Após a contemplação da verdade. no justo. e que a verdade esta lá fora. deve aquele que saiu voltar para alertar os outros do engodo no qual estão envolvidos. 47 fossem justas. das aparências. para atingir a verdade nessa luz. que se confirma e deve ser positivado nas Leis. são falsas. a segunda (517-521b) a interpretação da alegoria. disposta no Livro VII de A República: Platão dispôs em seu Livro VII da obra A República. Importante ressaltar que as pessoas presas na caverna não quebram por si só os grilhões que as prendem. ou seja. Esses homens são prisioneiros e vivem com grilhões (correntes) no pescoço e nas pernas. ao mundo das ideias. Platão trata. apenas aqueles que têm um natural filosófico. no belo. a terceira parte (521-531b) trata sobre qual cultura científica deve ter o filósofo. A alegoria da demonstra bem a doutrina das ideias platônicas (mundo das ideias). O bem reside em algo inteligível que os homens devem buscar para que possam viver da forma correta. A primeira (514- 521a) a Alegoria da Caverna. representa uma conversão mental. motivo pelo qual apresenta sua proposta de Direito Natural na República. vistas por eles. Entretanto. somente quem possui a capacidade de compreender o bom o belo e o justo conseguem sair da caverna. sendo que está saída é muito árdua. o trabalho para atingir a verdade é árduo. ou no bom. A sabedoria . (Tal alegoria pode ser divida em 4 partes. A projeção destes objetos é feita no fundo da caverna. o homem deve voltar para dentro da caverna para explicar aos demais que as projeções.

Platão realizou sua primeira viagem para a Sicília. t.73 Platão dispôs de boa parte de seu patrimônio em suas viagens. em Siracusa. propostas para interferir com o seu pensamento político na forma de governar em Siracusa. pois representariam a justa medida que nenhuma linguagem consegue exaurir. perto do ginásio de Academo. podem praticar atos injustos com aqueles que conhecem o bom.71 Em tal alegoria. um pequeno jardim. 72 MORA. em 387 a. . mostra como aqueles que vivem no mundo das sombras. particularmente daquelas referentes aos irracionais. 2010. 74 No testamento que fez ao filho do seu irmão Adimanto. com outros colegas e ali conheceu Euclídes. 73 Os irracionais matemáticos foram inspiração para a doutrina platônica. inteirou-se das pesquisas matemáticas desenvolvidas por Teodoro. Visitou ainda o norte da África. Zenão de Eléia e Melisso de Samos [. mas agora se dedicava a uma escola filosófica que mais tarde fundaria. Conquistando a amizade e a inteira confiança de Díon. Ali edificou uma capela dedicada às Musas. foi ao sul da Itália (Magna Grécia). verifica-se que o filósofo dispunha de modesta fortuna.] Característica dos eleatas era. onde conviveu com Arquitas de Tarento. apontado por Platão em sua obra A República como sendo a solução ideal para os problemas políticos. p. Antônio (coords. Em Cirene.. guiados por opiniões. Parmênides de Eléia. 48 e o bem existirão apenas naqueles que volveram seus rostos e saíram da caverna. o velho. II. que comprou. São Paulo: Loyola. sem obter sucesso no seu intento. quando. São Paulo: RT. Nesse momento. Em continuidade. sobrinho do tirano Dionísio. reiteradamente. ligou-se a Díon.C. vinculando o socratismo e o eleatismo.).72 A seguir.74 Sabe-se que foi com o dinheiro ofertado por Díon. O famoso matemático e político pitagórico deu-lhe um exemplo vivo de sábio governante. o núcleo de estudos liderado por Sócrates ficou disperso. J. (Re)pensando o Direito – Estudos em homenagem ao Professor Cláudio De Cicco. Alvaro de Azevedo e GONÇALVES. Com a morte do grande mestre. 2001. capitaneada pelo fundador até seus últimos 71 Alvaro de Azevedo Gonzaga. construiu pórticos e estabeleceu um lugar de reunião que se transformou na sua célebre escola – A Academia –. 55-56. In: GONZAGA. p. são estes os que possuem o natural filosófico.. Dicionário de filosofia. apresentou. o belo e o justo. 809: “Dentre os pré- socráticos. a afirmação da unidade do que existe”.. Ferrater. que já havia pertencido ao grupo socrático. A alegoria da caverna em matrix. com efeito. Platão retirou-se para Mégara. são chamados de eleatas Xenofonte de Colofonte.

49

dias.75 Esse acontecimento, acentuam os comentadores e historiadores da Filosofia,
é de extrema importância para a história do pensamento ocidental. Platão foi o
primeiro dirigente de uma instituição permanente de investigação científica e
filosófica, voltada para a pesquisa original e concebida como conjugação de
esforços de um grupo que vê o conhecimento como algo vivo e dinâmico e não,
como na maioria das academias, inclusive as atuais, como sendo um corpo de
doutrinas a serem simplesmente resguardadas e transmitidas.

Platão dedicou-se ao ensino e à formulação teórica em sua Academia por
cerca de vinte anos. Entretanto, um fato novo interrompeu essas atividades: em 367
a.C. morreu o tirano de Siracusa, Dionísio I, sucedido por Dionísio II. Díon chama
novamente Platão a Siracusa. Afirma-se que o jovem Dionísio é simpático às ideias
políticas do filósofo. Aceitou então o convite de Díon, partindo para Siracusa.

Parecia esse o momento propício para reformar a vida política da cidade.
Como a pólis era governada por apenas um indivíduo, favorável às suas ideias,
bastaria convencê-lo para que tudo se encaminhasse da maneira almejada, ou seja,
conforme seus entendimentos acerca da organização social da República. Todavia,
sua empreitada não teve o sucesso esperado. Platão não conseguiu mudar as
disposições de Dionísio II, que se indispôs com Díon, fato que implicou o exílio do
filósofo.76 Diante das dificuldades circunstanciais, Platão voltou para Atenas e
confinou-se em seu papel puramente filosófico.

Platão, exemplo raro da grandeza humana, morreu aos 81 anos em uma festa
realizada em Atenas. Durante a festa, se afastou para um canto e dormiu. Quando
foram acordá-lo pela manhã, já estava morto. “Uma multidão acompanhou seu
sepultamento”.

75
A academia, de nível superior, com vários professores, subsistiu, até 529 d.C., quando foi fechada,
após nove séculos de atividade, pelo imperador Justino, objetivando fortalecer o cristianismo em
Constantinopla.
76
Em 392 a.C., Díon derruba Dionísio, o tirano do poder, mas também é assassinado. O exílio de
Platão o livrou de ser vendido como escravo por não pagar suas dívidas. É, talvez, uma lenda, para
frisar a desgraça do filósofo.

50

3.2 Obras e fases

A maior parte dos comentadores de Platão divide seus diálogos em três
fases, são elas: 1ª fase: Diálogos da juventude ou socráticos; 2ª fase: Diálogos da
Maturidade ou fase média e a 3ª fase: Diálogos tardios ou da velhice. Tais diálogos
demonstram uma mudança77 no pensamento de Platão ao longo dos tempos.78

As obras da fase socrática, que têm em Sócrates a figura central,
caracterizam o início da escrita dos primeiros diálogos platônicos. As ideias
apresentadas nessas obras são distantes das ideias que Platão defendeu e que
imortalizaram seu pensamento ao longo do tempo. Tais diálogos giram em torno de
questões morais. Diversos são os diálogos dessa fase,79 o que podemos citar com
mais destaque para as questões que interessam ao Direito é Protágoras, uma obra
que classifica a justiça sob a ótica Socrática da unidade das virtudes, e que pode ser
classificada como a justiça latíssimo sensu.

As obras da fase média, por seu turno, caracterizam-se por um
questionamento da conhecida doutrina das ideias.80 Na maioria dos diálogos, Platão
coloca Sócrates no tema central das obras e tem neste o porta-voz de suas
doutrinas. Suas obras principais são: A República (Livro II ao X), Hípias Maior, O
Banquete, Menon e Fedro. Para nossa análise interessa muito o estudo dos Livros
da obra A República, ou Da Justiça, principalmente no que tange à classificação da
justiça ideal para Platão, que pode ser vista como justiça lato sensu.

77
Sobre mudança ou evolução do pensamento platônico, bem como sobre as fases das suas obras
temos autores que não comungam desta proposta de divisão, nesse sentido: TRABATTONNI,
Franco. Platão. Trad. Rineu Quinalia. São Paulo: Annablume, 2010, p. 23-25.
78
Algumas obras são de difícil localização, tais como Górgias, Eutidemo e Menexeno (obras como
transitórias da primeira para a segunda fase); e Crátilo (obra transitória da segunda para a terceira
fase).
79
Carmides (da temperança), Críton (do dever), Eutifron (piedade), Hípias Menor (falsidade), Ion
(a Ilíada), Laques (coragem), Górgias, o Livro I da República.
80
É nessa fase que Platão desenvolve sua teoria da ciência, sendo passível desta apenas o que
nunca muda. Para ele, a ciência concerne certa unidade que ultrapassa a multiplicidade de
particulares.
Por conta disso, Platão diferencia corpo de alma. Mostra que o corpo não é objeto do conhecimento,
pois é um obstáculo para conhecermos o real, uma vez que está no campo das sensações e, no
máximo, pode participar como particular do conceito, mas nunca será o conceito. Já a alma é
imutável, está no pensamento, de modo que só é acessível pelo intangível. A rigor, é a alma é a
expressão verdadeira do indivíduo, que pode, assim, ter acesso ao real.
Essa distinção é muito importante na obra A República, pois ao partir do indivíduo para justificar a
cidade, Platão parte da alma do indivíduo e suas características, e não do corpo deste, pois assim a
cidade seria mutável, é assim que se justifica o destaque para os Mitos de Er e de Giges.

51

Após diversas criticas à doutrina das ideias, Platão começa a se questionar
na terceira fase, e ainda na doutrina das ideias, entretanto, aplica-se a um estudo de
coisas novas e simples. Algumas das obras que foram escritas nesse momento
foram: Parmênides, Teeteto, Sofista, Político, Timeu e Crítias. Recebeu críticas
quanto à inexistência de coercibilidade de sua teoria da justiça.81 Nesse diapasão, a
resposta surge com a obra As Leis, na qual Platão apresenta a mesma estrutura
social de A República, mas com a necessidade de positivar leis dotando-as de
coercibilidade, bem como uma organização de leis para que os cidadãos possam
participar de maneira plena da pólis. Tal estrutura proposta, de positivar o justo,
pode ser vista como uma justiça estrito sensu.

Podemos sistematizar as obras e suas épocas da seguinte maneira:82

Primeira Fase Segunda Fase Terceira Fase

Carmides (da temperança) A República (Livro II ao X) Parmênides

Críton (do dever) Hípias Maior Teeteto

Eutifron (piedade) O Banquete Sofista

Hípias Menor (falsidade) Menon Político

Ion (a Iliada) Fedro Timeu

Laques (coragem) Crítias

Livro I da República As Leis

81
O Mito de Giges, dentre outras coisas, visa mostrar a necessidade de leis coercitivas.
82
A classificação apresentada apóia-se na de Roberto Bolzani Filho, na introdução de A República.
Trad. Anna Lia de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. X-XIII.

se na primeira ou na transição para a segunda fase do pensamento platônico. 85 A justiça em Platão e a filosofia do direito. que aborda questões como a Justiça e a separabilidade ou unidade das virtudes cardinais. Entretanto. questiona a Hipócrates em 312-d. Temperança. 52 4. 2000. antes de partirem para encontrar Protágoras. uma vez que piedade passa a não ser considerada uma virtude distinta da justiça. São Paulo. UFPA. Belém: Ed. PUC-SP. Carlos Alberto Nunes. Sócrates escuta Hipócrates enaltecer Protágoras como sendo um orador eloquente. temperança e piedade) como veremos em Protágoras. Trata-se de um diálogo entre Sócrates e Protágoras. as virtudes são em número de cinco (saber. mas sim uma extensão desta. 84 Em que pese a controvérsia sobre a localização da obra Protágoras. Para nossos estudos nessa tese isso é suficiente para que possamos prosseguir. Inconformado. Hipócrates não sabe dizer sobre que matéria 83 Todas as citações das obras Protágoras e A República serão feitas a partir das edições traduzidas direto do grego por Carlos Alberto Nunes: Protágoras.1 A justiça em Protágoras:83-84 breves considerações (1ª fase) Como já exposto em nossa dissertação de mestrado. Sócrates critica os sofistas. e. justiça. coragem. Trad. Sabedoria e Piedade (Prudência). seja em esculpir algo ou em grafar uma poesia.85 Protágoras ou Dos sofistas é considerada uma das mais belas obras de Platão. Belém: Ed. A JUSTIÇA EM PLATÃO DA PRIMEIRA PARA A SEGUNDA FASE 4. 86 Nos diálogos de juventude. em que arte o sofista Protágoras é perito? Nesse momento Hipócrates afirma ser “na arte de ensinar a falar bem”. Coragem. Nesse momento. as virtudes de excelência são apenas quatro. não resta dúvida que esta antecede A República no que tange as teorias expostas por Platão. UFPA. Assevera que os escultores ou os poetas são peritos em alguma arte. 2007. quais sejam: Justiça. Carlos Alberto Nunes. Trad.86 O diálogo se inicia com o relato de Sócrates sobre o diálogo travado com Protágoras: Hipócrates entra na casa de Sócrates e informa sobre a chegada de Protágoras à cidade de Atenas. . nos diálogos de transição. 2002 e A República. Afirma a Hipócrates que se deve oferecer dinheiro àqueles que são peritos em algo. Sócrates insiste e questiona sobre o que entende o sofista por “ensinar a falar bem”.

Sócrates e Hipócrates. consequentemente. foram visitar Protágoras. filho de Hipônico. Sócrates apresenta sua definição para os sofistas em 313-c: são mercadores. ou traficantes de vitualhas para alimentar a alma. 89 TRABATTONNI. exemplo aos que . cabendo a Prometeu a revisão final das distribuições. e assim sendo. 90 Protágoras narra que houve um tempo que só havia deuses e não existiam criaturas mortais. Franco. o anfitrião Cálias. ou seja. também deixaria de existir a possibilidade concreta de modificar as atitudes dos homens em relação a isso. Platão. Hipócrates. apenas rememoramos os conceitos que sabíamos através de nossas almas. Pródico. entregá-la a alguém que nem ao certo sabemos que matéria transmite.90 Afirma Protágoras 87 Vale-se da mesma indagação feita a Hipócrates em 312d qual seja: aquele que tiver aulas contigo voltará para casa com um progresso em que matéria. somente se. Assim. tal conhecimento seria uma sensação. Quando o destino determinou o momento para que as criaturas mortais fossem criadas. Crítias e Alcebíades. Desse modo. a alethéia ou não esquecimento. Sócrates apresenta a que perigo Hipócrates irá expor sua alma. a respeito de quê? 88 Sobre a possibilidade das virtudes serem ensinadas. / Prometeu e Epitemeu foram incumbidos de conferir as qualidades adequadas para cada criatura. Nesse momento.88 Para retrucar o argumento de que as virtudes podem não ser ensinadas. Se de fato pudéssemos conhecer o bem. p. cit. Platão pode refutar Protágoras.87 Protágoras responde que ensinará ao jovem mancebo a virtude da arte da política e a formação de bons cidadãos. conseguir provar que distinguir o verdadeiro do falso em geral é necessário para distinguir o que é útil (ou bom) daquilo que não é”. O diálogo tem início com a indagação socrática sobre o que Protágoras ensinaria ao jovem Hipócrates. Protágoras.89 Protágoras explica o Mito de Prometeu e Epimeteu. mostra bem em Menon ou Da virtude que nada aprendemos. de alguma forma. Assim. todas as opiniões do que é o bem seriam igualmente válidas. e no momento certo de tirá-los da terra para a luz. como vimos. mas é possível conduzi-lo a uma melhor e mais útil. após esse diálogo. Se não é possível convencer alguém que tenha uma opinião falsa a mudar para uma verdadeira. e isto significa que o bem não é uma coisa que se possa conhecer. Nessas condições. em 320c. sendo que devemos alimentar nossa alma de conhecimento verdadeiro e não de mercadorias ignoradas de sua utilidade. e. Epitemeu pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição das qualidades. Estavam presentes na ocasião Sócrates. que se encontrava na casa de Cálias. Epitemeu distribuiu as qualidades entre os seres de acordo com o critério da compensação. uma vez que não há segurança se o que os sofistas ensinam efetivamente a verdade. não existiria mais a possibilidade de distinguirmos aquilo que é mais ou menos bom ou útil. Hípias. Sócrates afirma que a virtude não pode ser ensinada.. os deuses plasmaram nas entranhas da terra. 66: “A tese de Protágoras se sustenta no pressuposto que a verdade e o saber possam existir separadamente do bem e do útil. 53 Protágoras transmite ensinamentos aos seus discípulos. correndo o risco ainda de enfraquecer ou fortalecer sua alma. Deste modo. utilizando-se de uma mistura de ferro e de fogo. Op.

a piedade e a sabedoria. tinham velocidade seriam fracos. Sócrates afirma que as virtudes são as seguintes: Justiça. os homens não possuíam a sabedoria política que se encontrava com Zeus. entretanto. Prometeu. a coragem. Como possuíam conhecimento. pois as cidades não subsistirão “se o pudor e a justiça forem privilégios de poucos como se dá com as demais artes” e assevera. foi feito. Como asseverou Protágoras para Sócrates em 321. em 322d. PUGLIESI. Depois da exposição do Mito de Prometeu e Epitemeu. pois deste modo haveria a manutenção da preservação. todos os seres se alimentariam de fontes diversas. diferentemente dos animais. e ter roubado o fogo dos deuses para os homens Prometeu foi severamente castigado. e o deus ordenou a uma águia. aos fortes. vestuário. Mitologia greco-romana. ordenou a Mercúrio que o conduzisse ao monte Cáucaso e que lá o acorrentasse. 54 que os homens com o conhecimento e o fogo tinham as condições necessárias para serem levados da terra para a luz. . calçados e leitos... sons. Por viverem os homens dispersos. / Após dotar todos de qualidades. filha de Tífon e de Equidna. Nesse contexto predatório.91 Com isso. Coragem. Temperança. a fim de assegurar a salvação dos homens. vindo a ser partes dela a justiça. no qual os homens desorganizados politicamente precisavam de uma organização. deste modo pergunta se as virtudes são separáveis ou se estas devem sempre ser vistas juntas em uma unidade. Sócrates elogia a bela oratória de Protágoras. deste modo. Com os animais providos do necessário para serem levados da terra para a luz e a geração dos homens despida de qualidades. cit. roubou de Hefeso e de Atena a sabedoria das artes juntamente com o fogo e deu aos homens. / Por ter penetrado na morada de Atena e Hefeso. que “todo homem incapaz de pudor e de justiça sofrerá a pena capital. 109-110: “Júpiter. A partir dessa exposição. Zeus interfere e ordena que Hermes leve “aos homens o pudor e a justiça como princípio ordenador das cidades e laço de aproximação entre os homens” (322c). começaram também a coordenar palavras. conta Protágoras que Zeus afirma categoricamente que a distribuição deve ser equânime para todos os homens. ainda desejoso de punir Prometeu. tinham consciência da existência dos deuses e.. Piedade e Sabedoria. Além disso. Assim. rapidamente levantaram altares e fabricavam imagens de deuses. p. indaga a Protágoras se a virtude é completa. ou se todas essas qualidades são apenas nomes diferentes de uma única unidade. lentidão. Indagado por Hermes sobre o modo de distribuição da justiça e do pudor. 91 Platão jamais argumentou por que são apenas essas as virtudes cardinais e não outras. que devorasse eternamente o fígado do demiurgo dos homens”. apenas a geração do homem não havia sido dotado de nenhuma qualidade. a temperança. por ser considerado flagelo da sociedade”. Márcio. eram dizimados pelos animais que possuíam condições físicas melhores que as deles.

1973. 92 Sócrates questiona Protágoras se a justiça é uma coisa. a quarta premissa afirma que todo não conhecedor não é audaz. ou se ela não é nada. mas que podem ser separadas. uma terceira premissa que Protágoras não havia dito. qual seja: todo audaz é corajoso e. associando o bem ao prazer. com efeito. Princeton: Princeton University Press. Por seu turno. 94 Com a afirmação de Protágoras. significa que as virtudes. 93 A partir da concordância de Protágoras de que “cada contrário. contido entre os parágrafos 330b-7 a 332a-1. as virtudes são distintas. portanto. defendida por diversos comentadores. 71). A mesma resposta dá para a piedade. Sócrates começa o seguinte raciocínio: 1º A partir da ideia que as virtudes são separáveis podemos dizer que: “A justiça não é piedade”. contido entre os parágrafos 351b a 360d. 3º Por consequência: “A justiça é ímpia. A reciprocidade ou bicondicionalidade. visa provar que Coragem é igual à Sabedoria. Sócrates introduz. Protágoras intervém. que a piedade é uma coisa. . pois o terceiro foi desmontado por Protágoras.92 O segundo argumento está contido entre os parágrafos 332a a 333b. temos duas interpretações: a tese da bicondicionalidade ou da reciprocidade e a tese da unidade ou da identidade.95 A tal concepção de que não há separabilidade das virtudes. em 350c-d: “Porém não fui perguntado se os homens audazes são corajosos” e conclui que o fato de todo corajoso ser audaz não significa que todo audaz é corajoso (essa assertiva não foi demonstrada). Sócrates apresenta quatro argumentos sendo um deles rebatido por Protágoras: O primeiro argumento. Platonic’s studies. a segunda premissa afirma que todo homem conhecedor é audaz. e portanto a piedade é injusta”. 95 Sócrates propõe uma tese hedonista. 2º Assim: “A justiça é não piedade”. 96 VLASTOS. Para dar robustez a sua proposta. ed. Sócrates não comunga desta ideia e acredita que todas as virtudes cardinais são encontradas juntas. Sócrates depreende a primeira premissa: todo homem corajoso é audaz. Protágoras concorda que é alguma coisa. rebatido por Protágoras e contido entre os parágrafos 350a a 351a. A partir dessas premissas. ou seja. só tem um contrário. Sócrates empenha seu argumento em provar que tanto a temperança quanto a sabedoria contêm o mesmo oposto: a ignorância. como Vlastos. 55 Acredita Protágoras que as virtudes podem existir juntas. analisará uma opinião do senso comum. consequentemente. no qual Sócrates se propõe a provar que a sabedoria é igual à temperança ou a moderação. Deste argumento Protágoras não discorda. Para fazer valer essa tese. e. e o mal à dor. Posteriormente. não muitos” (p. a tese da unidade ou da identidade.93 O terceiro argumento.94 o quarto argumento. tem por base provar que a Sabedoria e Coragem são uma coisa só. 2. de que corajoso é o homem que se atira com conhecimento. Mas. mas quem tem uma tem todas. então.96 consiste na distinção das virtudes. portanto são a mesma coisa e possuem o mesmo significado. afirma que a justiça é igual a ser justo e a piedade é igual a ser pio. tem por base provar que a Justiça e a Piedade são uma coisa só. G. Em outras palavras. porém na condição de ter todas ou nenhuma.

C – Coragem. seja da bicondicionalidade ou da unidade das virtudes. Platão abandona essa tese e propõe um novo modelo de justiça. Platão terminou A República em aproximadamente 375 ou 374 a. como veremos. defendida em Protágoras. Como veremos a seguir. é por conta disso que consideramos como uma definição universal. Definição Forma Simbólica97 Tese da Quem tem uma virtude tem todas V(C=J=T=S) reciprocidade ou bicondicionalidade Tese da unidade ou As virtudes cardinais são nomes V=J=T=S=C da identidade diferentes para a Virtude Tal tese. Sócrates não é mais apresentado refutativo ou elêntico. J – Justiça. Ao contrário da primeira fase. qual seja a Virtude. Dez livros dividem a obra. a obra A República ou Da Justiça surge com mais de dez anos da fundação da Academia de Platão. Apresenta na República a teoria que ficou conhecida como a tripartição 97 Onde: V – Virtude. S – Sabedoria. a temperança. Platão abandona quase por completo sua teoria intelectualista da unidade das virtudes. .2 A mudança de posição: a Justiça em A República (2ª fase) Como já exposto em nossa dissertação de mestrado. 56 (a justiça. que não prescinde das virtudes. Assim. com exceção do Livro I. T – Temperança.C. 4. nos traz uma ideia ampla do conceito de justiça. a piedade e a sabedoria) são nomes diferentes para uma mesma coisa. dos quais a maioria pertence à época dos “diálogos médios”. Nessa obra. mas não as une condicionalmente. chamar um homem de justo significa chamá-lo de Virtuoso ou de sábio. a coragem. moral latíssimo sensu de Justiça na doutrina Platônica. É apresentado como porta voz da doutrina Platônica sobre a Justiça.

justa. guardiã ou sábia (433d-e). Tal teoria aceita a akrasia ou o conflito interno. tuteladas e dominadas por homens que consideravam o lar. no final.99 Para Platão a mulher não é vista como alguém que não mereça espaço nessa sociedade justa. Em seus estudos. 57 da alma. menores”. por exemplo. certamente. Platão apresenta sua cidade ideal e. estuda as causas que geram a sociedade. Luis Recaséns Siches. 1965.. à tarefa de explicitar racionalmente a articulação essencial entre justiça e excelência. o espaço doméstico. cit. em que planeja a realização aproximada. 37: “embora a posição das mulheres variasse em cada cidade. Pensa desse modo. demonstrando. Luis.98 Richard Oliveira bem resume a obra que comentamos: Todo trabalho que lhe caberá. independentemente. Globo. faz uma espécie de Sociologia política sobre as formas defeituosas de governo. As mulheres eram. . Norberto Luiz. p. O Livro V inicia-se com uma discussão sobre o papel da mulher em sua cidade ideal. Deste modo.. entendida como um bem digno de escolha por si mesmo. por ai. que se afastam do ideal. restringidas em seus direitos individuais. sociais ou econômicas – que ela eventualmente possa ocasionar. seja produtora. ao escrever sobre o âmbito dos predecessores da sociologia invoca o pensamento de Platão nos seguintes termos: Assim. consequentemente. mas sim sua natureza. como o único apropriado ao gênero feminino. v. tais como o papel da mulher e a organização da família na cidade ideal platônica. nos primeiros livros de sua República. Platão.]. João Baptista Coelho Aguiar. então. Rio de Janeiro: Ed. das recompensas exteriores – políticas. do ideal do Estado. Podemos destacar alguns aspectos interessantes sobre esta obra. sem direito à participação política. faz não poucas observações sobre aspectos de realidade sócio-política [. e analisa a passagem de uma e outra dessas formas. p. Op. praticamente viável.. Tratado de sociologia. membros da comunidade – mas membros. o processo de divisão do trabalho neste. portanto. a estrutura da cidade. e. 99 Sobre esta questão: GUARIELLO. e em seu livro As leis. a mulher pode exercer qualquer função na cidade concebida por Platão. 45. Trad. em cada âmbito cultural. é fato que elas permaneceram à margem da vida pública. pois todos devem participar da vida pública. 1. A obra de Platão pode ser vista como uma precursora dos estudos sociológicos. que a vida mais feliz para o homem é a vida justa. por assim dizer. realizar ao longo das páginas da República resume-se. não leva em consideração a questão do gênero humano. seja na esfera 98 RECÁSENS SICHES.

N. 67. como julgam alguns intérpretes. Entretanto. típica de um sofista como Trasímaco. Platão tenha escrito esse primeiro livro como um diálogo independente. Platão propõe uma procriação da comunidade de um modo eugenético.1 A maturidade de Sócrates O Livro I da República é considerado pela maioria dos comentadores como uma obra independente cujo título seria “Trasímaco”. 5. p. os filhos seriam de todos também. Roberto Bolzani assim se manifesta: Mesmo que. 1999. I.º. A paternidade da prole poderá ser reconhecida pela faixa etária. seriam comuns a todos os homens. Carlos Alberto Nunes. 4. Devem-se evitar relações incestuosas. pois está sendo injusto com a cidade. 3.101 Em 457d. Aquele que desrespeitar os sorteios deverá ser punido. Em 459-a. exposta por Platão há séculos atrás. o que importa é que passou a ver nele o adequado modo de introduzir o tema da justiça. p. as mulheres não teriam esposos. Guida alla lettura della Repubblica di Platone. bem antes do restante do diálogo. dispõe sobre essa a igualdade entre homens e mulheres.2. de modo que todos serão filhos deste pai. e que deveria exercer grande influência nos meios 100 Essa igualdade entre homens e mulheres. nessas festas sorteios a fim de formar os casais seriam feitos e sutilmente manipulados pelos governantes para que as qualidades naturais de cada um se encontrassem. partindo de uma concepção comum e pragmática de justiça. ou seja. . seja na militar. superando as oposições entre homens e mulheres. Essa seleção não é baseada na raça. Laterza. só veio a ganhar corpo. Roma: Ed. o que nos lembra que Platão admirava Esparta. deveriam ser promovidas festas para que casais acasalassem. nesse novo modelo social. mas sim na intelectualidade e na moral de cada um.102 pois nesse livro ainda apresenta-se um Sócrates refutativo e o diálogo que se finda com uma aporia. entre nós brasileiros. efetivamente em 1988 com a Constituição Federal que em seu art. tal livro foi absorvido pela obra que agora comentaremos e integra sua totalidade.100 Essa participação das mulheres nas classes superiores demonstra uma integração plena e uma perspectiva de unificação da cidade. 58 política. Consequentemente. na introdução à obra A República. 101 VEGETTI. Acredita-se que sua elaboração ocorreu na juventude de Platão e deveria pertencer ao período de escritos socráticos ou diálogos jovens platônicos. 102 Ver.

e depois partir para o além sem temer nada. tais como participar politicamente na cidade. 28. p. Paris: Ed. . Com a visão de quem se volta para atividade comercial. respondeu. que defende a felicidade como algo que não depende da infinidade de desejos que possam se realizar. Polemarco. seu saber que não sabe vai ser colocado à prova na casa de Céfalo. O filho de Céfalo. seja dinheiro a um homem. que a justiça pode ser resumida como “dizer a verdade e restituir aquilo que se tomou”. XXV. onde se realizava uma festa em homenagem à Deusa Bendis da Trácia104 que era reverenciada por Céfalo e sua família. Céfalo era um rico meteco105 que vivia com seus filhos Polemarco e Lysias. Céfalo por mais que fosse rico vivia na Grécia sem direitos de um cidadão comum. Durante a festa. da riqueza e de alguns posicionamentos morais de Céfalo. Por ser meteco. O primeiro diálogo se dá entre Sócrates e Céfalo. para citar uma concepção de justiça que consiste na seguinte assertiva que se interpreta em consonância com a típica moral de sua época: “Por ser justo.103 Inicia-se o diálogo com uma descrição da descida de Sócrates até o Pireu. mas depende da paz que a mente adquire com a temperança e a justiça. mesmo involuntariamente nem ficar a dever. magia e proteção àqueles que a procuram. em 331d. Céfalo propõe. J. uma concepção comum de justiça. como não ludibriar ninguém nem mentir. máxima que se me afigura 103 A classificação trazida apóia-se naquela apresentada por Roberto Bolzani Filho na introdução de A República. uma vez que somente este saberá utilizá-las em benefício da prática de atos justos. dar a cada um o que lhe é devido. Sócrates desce ao Pireu e sua descida (katábasis) é muito significativa. mas ambos não conhecem o que seja a justiça em si. retoma a discussão invocando o Poeta Simônides. pois se entende como a representação de um momento de amadurecimento filosófico. Sócrates conclui. 104 Bendis é a deusa da Lua na Trácia e oferece vidência. Introduction a la République de Platon. p. 105 ANNAS. em 331b. os velhos têm a capacidade maior de serem justos. da vida. Desses exemplos de Céfalo. Tanto Sócrates como Céfalo não aceitam a injustiça e a impiedade. 59 políticos. Puf. mas apenas pelas que são obtidas pelo homem comedido e prudente. Pode-se mesmo dizer que uma das tarefas de A República é desqualificar essa concepção. 1994. A conversa gira em torno da velhice. ou seja. em 331e. sejam sacrifícios aos deuses. diz ter muito apreço pelas riquezas.

60 bem enunciada”. pois ele deve praticar ações que melhorem as pessoas e prejudicar os inimigos não irá melhorá-los sendo. devendo os transgressores ser punidos. o mais forte é quem governa e os mais fracos são os governados. portanto. fica difícil definir a justiça sem definir seu lugar ou o seu objeto.107 Polemarco. 107 Sócrates desenvolve o mesmo sistema de raciocínio em Protágoras para apresentar sua concepção de sofista. pois pressupõe uma justiça sem um objeto específico. as leis democráticas são justas em uma democracia. ao contrário da medicina. É este o ponto alto do livro I. que tem por objeto as doenças do corpo. a vantagem do mais forte é também pautada em outra proposição de Trasímaco que seria a de que o mais forte é aquele que governa e promulga leis. ou a cozinha. implicaria a possibilidade de uma pessoa justa utilizar tanto a justiça quanto a injustiça para realizar seus fins. . Essa concepção taliônica não foi aceita por Sócrates. e consequentemente. o que é contraditório. favorecendo os amigos e prejudicando os inimigos. e não pode ser aceito. quem age deste modo é tirânico. A partir desse conceito que Trasímaco traz de justiça. retomam o debate proposto durante o diálogo anterior. o justo é o que é sancionado pela lei. Porém. Terminado esse diálogo. Por conseguinte. praticar o mal. injusto. Não é próprio do homem justo. pois atendem aos interesses de quem governa. É estabelecida uma conexão entre justiça e melhoria das pessoas. Segundo Sócrates. é possível concluir que é correto tirar vantagem em qualquer coisa. Trasímaco avançou nos dois como se fosse um animal de rapina e começou sua argumentação a fim de dilacerar o argumento-método socrático (336b). as leis tiranas são justas em uma tirania. Sendo assim. Desse modo. diz que a especificidade da Justiça é fazer o bem. as leis promulgadas devem estar de acordo com os interesses do governante. Trasímaco oferece como primeira definição para a justiça. como sendo “justo não é mais nem menos do que a vantagem do mais forte”. pois se assim fosse. em 338c. Para Trasímaco. que nada 106 É conveniente lembrar que esta será a noção de direito dos romanos: a arte de dar a cada um o que é seu. Esse desejo irrefreável em tirar vantagem de toda sorte indistintamente pode ser chamado de pleonexia. então.106 Sócrates assevera que a frase é vazia. que tem por objeto específico os temperos para a formação de pratos saborosos.

mas baliza-se na injustiça de auferir em demasia ao mais forte. porém sempre o inverso”. entretanto. se tornaria injusto e enganaria alguém. a discussão termina em aporia. há uma mudança de método. e começa a discursar sobre a arte108 e seu objeto. injusto é o ignorante. não ter como escopo o bem dos mais fortes e dos mais fracos. no qual a personagem Sócrates é porta-voz da teoria platônica. ou seja. assume um papel de 108 Essa arte nada mais é do que a virtude do objeto. Após exemplificar com vários casos. antes combativo e debatedor. 109 Esse parágrafo será muito importante para fundamentar sua teoria da organização social. . produz conflitos. Em 353b. dizendo que não é interesse do homem justo galgar. A arte deve se concentrar no aperfeiçoamento do objeto. Assim. faz as seguintes afirmações: “Por toda parte o homem justo perde do injusto” e diz também “nunca viste na dissolução da sociedade levar o justo nenhuma vantagem sobre o injusto. consequentemente. sem domínio da arte. divisões de grupos e incapacidade para a cooperação. em 342a-e.109 Trasímaco e Sócrates discutem se a justiça é um vício ou virtude. 61 mais seria que a oposição da justiça. Trasímaco. Exemplificando seria a função que um objeto tem. e deste modo. em 343d. tirar vantagens de seu semelhante. pois quando Sócrates começa a buscar uma definição para justiça o eixo do diálogo toma outro rumo. Será sobre essas afirmações que Sócrates irá se concentrar em 349b a 350c. começa a defender que a justiça é uma virtude. ignorância ou sabedoria e ao final do Livro I estabelece-se um silêncio e Trasímaco se retira do diálogo e apenas assiste aos próximos diálogos. que não reconhece a justa medida a que se deve ater. 4. Sócrates afirma que cada coisa tem uma atividade e que cada coisa faz melhor essa função que todas as outras. Sócrates critica o posicionamento de Trasímaco. Somente um incompetente. aquele que exerce verdadeiramente sua arte não a utiliza em causa própria.2.2 A república platônica A partir do Livro II. Um poder tirânico tem por marca exagerar nas medidas e. e não na vantagem que se deve tirar dele. mais adiante. Sócrates. Trasímaco. conclui que o justo não deve buscar seu próprio interesse. O método refutativo socrático dá lugar ao discurso mais fluente.

mas pelas consequências. Depois dessas considerações. conhecimento. por exemplo. é fundamental que todos queiram aprender com o filósofo. pois só desse modo é possível aceitar a ideia da acrasia ou a fraqueza da vontade. se deixando persuadir por ele. a maioria seguiria a terceira opção. apoiado por Adimanto. Sócrates não concorda com essa concepção. entretanto. prazeres inocentes. Glauco. 111 Esse conflito do homem. pergunta a Sócrates. bastava pagar aos deuses e tudo estaria resolvido. por exemplo: vantagens monetárias ou de qualquer natureza que nos possam proporcionar. reforça a ideia em 366d “ninguém é voluntariamente justo”. 112 O Mito de Er. pois a justiça não pode ser vista como consequência de alguma coisa. seu irmão. salvo se for dotado de 110 Como veremos. . mas por coação”. 62 espectador. obtida com o silêncio de Trasímaco. querendo aprender com Sócrates. para isso. deve ser concebida como um bem em si. conta o Mito do Anel de Giges. como vimos em Protágoras. que será exposto no capítulo V desta tese. agora é aceita na República.112 Com o elogio que Glauco fez à injustiça. segundo o qual Giges levou a cabo atos pérfidos após ter a posse de um anel mágico que o tornava invisível perante o olhar dos seus semelhantes e extrai a seguinte conclusão em 360d: “Ninguém é justo por livre iniciativa. Glauco adverte que a maioria não concebe essa via. Tal postura de Trasímaco é fundamental para o projeto de cidade ideal platônica. consiste na resposta ao Mito de Giges sendo um contra ataque de Platão no sentido da impossibilidade de comprar os deuses. não haveria problema em uma outra vida.110 A teoria platônica a ser apresentada por Sócrates baseia-se na tripartição da alma. a saúde. Sócrates aceita a segunda proposição. passivo. Glauco responde que como teria muitas riquezas. em 357b-d: em qual das três alternativas se encontra a justiça: a) bens que almejamos possuir por si mesmos e não por suas consequências. que não era possível nos diálogos jovens. Quando questionado sobre como resolveria esse caráter injusto com os deuses.111 No início do Livro II Glauco. a exemplo alegrias. b) bens que almejamos tanto por si mesmos como por suas consequências. c) bens que não desejamos tanto por si mesmos. Adimanto. e inconformado com a aparente vitória de Sócrates. (que será exposto em mais detalhes no próximo capítulo). não satisfeito. ainda inconformado com o silêncio de Trasímaco continua advogando a ideia de que a justiça não é um bem em si.

114 Retoma o argumento de 353b. o trabalho mais perfeito será mais bem desenvolvido com a pessoa se aplicando a apenas uma atividade. pois o que havia sido proposto era a definição de Justiça e sua manifestação na alma do indivíduo. a partir da situação econômica de seu tempo e as condições para que uma sociedade possa existir. Por serem várias as necessidades de cada um. descreve as necessidades básicas que encontrarão os que acabaram de se agrupar em uma sociedade. Em 370b. Sócrates. Acrescenta a essa pequena 113 ROUSSEAU. não fala do indivíduo. e outro. porém.1 A justiça na cidade A partir dessas ilações de Trasímaco.2. p. 4. Para tanto traçará um perfil da sociedade elementar. A primeira grande necessidade é a alimentação.2. um tecelão e até mesmo um sapateiro e mais alguns artesãos para outras necessidades do corpo. Entretanto. parte da justiça no domínio maior (cidade) para depois encontrá-la no domínio menor (homem).114 e não a muitas. A partir dessas necessidades é mister que na cidade tenhamos um lavrador. 63 uma capacidade divina que faz com que sinta “aversão à injustiça ou se tenha tornado esclarecido pelo conhecimento”. desses quatro ou cinco é possível concluir que “nascemos com disposições diferentes. a terceira são as vestes e coisas semelhantes. Rousseau foi um deles com seus raciocínios hipotéticos condicionais. Com isso. cada um com mais jeito para determinado trabalho”. 1973. a segunda é referente à moradia. Sócrates. desse modo se constituem as cidades. para reciprocamente se auxiliar. São Paulo: Abril Cultural. um pedreiro. Esses raciocínios hipotéticos113 partem de um tempo imaginário no qual um indivíduo chama outro para ajudá-lo em algum empreendimento. ou seja. começa a descrever o que seria a cidade justa. de Glauco e de Adimanto. 369a. Discurso sobre a origem da desigualdade. o início da defesa se dá de maneira indireta. em 369d. 234: Diversos foram os pensadores que buscaram a situação originária da espécie humana. Sócrates deverá argumentar e apresentar sua doutrina sobre a Justiça. Jean Jacques. mais tarde chama um outro. vários indivíduos se reúnem no mesmo local. .

camareiras e padeiros. todos são necessários. Sócrates se põe a imaginar o que devem ter os guerreiros. Nesse momento. Deste modo. . Quem faria esse comércio seriam os comerciantes. sendo que nenhum é mais importante que o outro. Com isso. pintores. É em 375e que encontra poria para esta dúvida. na seguinte ordem: a) a formação cultural e. que consistiria na tolerância. ferreiros e muitos outros profissionais para que existam instrumentos para a cidade poder funcionar. bem como expandir seus territórios para que os luxos existam a contento. Com isso. Com esse crescimento é necessária a criação de uma moeda. b) a formação do corpo. não poderia exercer esse labor. a recém criada classe dos produtores. bem como relações com cidades vizinhas. em 372c. apresenta como saída procurarmos guardiões com as características de um cão que é dócil com a família e bruto com os inimigos. Esse luxo que se apresenta. a fim de melhorar a economia local. Glauco. Não é possível que os próprios cidadãos se incumbam disso. na gentileza com os cidadãos (mansos com os familiares) e corajosos (agressivos com o inimigo). Sócrates se põe em aporia. que nada mais são que “indivíduos fracos fisicamente e incapazes de qualquer outra ocupação” (371d). para tanto cita em 373b os artistas. interrompe o discurso de Sócrates e questiona se nessa cidade as pessoas vivem apenas de pão seco. temos uma sociedade estruturada com produtores e guardiões. é assim que surgem os guardiões. uma vez que só é possível exercer a atividade que lhe é própria. é necessário proteger seu patrimônio. pois não sabe como encontrar alguém gentil e corajoso ao mesmo tempo (375c). É necessário criar uma nova classe que exerça a arte da competição bélica. Assim a cidade ganha tamanho e não pode mais ser considerada pequena. Sócrates afirma que devemos atuar em dois pontos. Com relação à educação dos Guardiões. e conclui que devem ter um bom treinamento e a parte da alma conhecida como thimós. 64 cidade carpinteiros. É nesse momento que Sócrates introduz a ideia de luxo ou das cidades fartas.

O art. Sócrates apresenta como devem se organizar dois estamentos da sociedade. Devemos começar pelos discursos mentirosos. não deverá ser guiado pelos discursos de alguém que não saiba o que é bom para a cidade. 117 No Livro X faz uma crítica aos poetas e aos artistas que produzem falsos conteúdos baseados em opiniões falsas. por exemplo. os poetas ou os atores. 5. mas esta pode ser omitida caso exista a necessidade do sigilo imprescindível para a segurança da sociedade e do Estado. Vale frisar. 116 Em que pese o Brasil não adotar a forma de governo proposta por Platão. no Livro II da República. em sua educação. sob pena de responsabilidade. 65 Assim. caso essa medida traga vantagem à comunidade.. sejam os próprios cidadãos.117 115 Veremos mais a frente que são os filósofos que possuem esse bom cálculo. o expediente da mentira pode ser encontrada de forma mais branda em nossa atual Constituição Federal. Aos demais que habitam essa cidade é proibido mentir. ou de interesse coletivo ou geral. Sócrates estabelece a censura asseverando que todos os escritores de fábula deverão ser vigiados. pois estes contêm algo de verdadeiro.. transcrevemos: XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. que somente para os governantes cabe a possibilidade da mentira. Sócrates afirma em 389b que é lícito aos dirigentes da cidade mentir. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. (. entenderão como deverão agir. quais sejam. segundo Sócrates. Tais discursos. uma vez que balizam- se pela razão. Além disso. deve ser guiado pelos ensinamentos adequados à luz de sua função nas cidades. e desde crianças balizando-se nessas histórias.º. que serão prestadas no prazo da lei. Sendo que. Em 377c. O Livro III continua com a apresentação dos guardiões e a organização da cidade ideal.)” (grifo nosso). poderão ser verdadeiros ou mentirosos e devem ser vigiados. XXXIII garante o direito de informação. os produtores e os guardiões. seja para enganar os inimigos. uma vez que estes não terão o bom cálculo e não terão sabedoria sobre seus atos.115-116 Em 392 começa a falar das artes e assevera que o guardião. . Entende que a formação cultural deve se dar por meio da música que alimenta a alma e subtenderá discursos. para que possamos aceitar as boas e rejeitar as ruins. os produtores devem produzir objetos e alimentos necessários para a sociedade e os guardiões devem agir com gentileza com familiares e brutalidade com inimigos.

a saber: 118 No Livro IV. Aqueles que na cidade são os sábios e deveriam governá-la. é necessário que os guardiões se dediquem inteiramente à liberdade da cidade. em 429a. prata (guardiões) e bronze ou ferro (produtores). disposto no Livro IX. desde sua infância118 o que eles deverão imitar. Sócrates assevera que são poucos os que pertenceriam a essa classe e que são eles que detêm um único conhecimento denominado sabedoria. a partir do momento que temos os produtores e os guardiões. a sabedoria. temos três classes nessa cidade. o que não seria de proveito nem para ele nem para a comunidade”. aqueles que possuem conhecimento verdadeiro. Sócrates aproxima essas classes a qualidades de metais como o ouro (governantes). Em 407d. guardas). No Livro IV. Já no Livro IV. Em 415a-b.119 Sendo assim. . os governantes devem dispor aos guardiões. 66 Em 395b. pois afirma que esta é cunhada em moedas de baixo valor. Sócrates é questionado. ou o Filósofo. a temperança e a justiça. seriam os filósofos. quem deve mandar e quem deve obedecer. (III) Governantes (filósofos). já nasce com o dom natural filosófico. A partir deste parágrafo até o final do Livro III. Sócrates apresenta quem seriam os verdadeiros guardiões da cidade. a saber: (I) Produtores (artesãos. em 427d. agricultores). Para que tenhamos a proteção. Em 429a-d. Sócrates reduz a natureza humana a centavos. as crianças se tornarão corajosas e temperantes nos moldes dos que governam e que impõem os conteúdos dos conhecimentos verdadeiros. em 412b. 119 O Sábio. (II) Guardiões (soldados. e para manter a ordem na pólis. Sócrates retoma as quatro virtudes cardinais estudadas nos diálogos jovens de Platão. na qual “não valia a pena tratar de quem se revelava incapaz de viver o tempo fixado pela natureza. desse modo. Por conta disso. Sócrates delineia uma ideia favorável à eugenia. a coragem. em 425a Sócrates afirma que os jogos e brincadeiras de crianças podem ser censuradas. as classes da cidade são relacionadas cada uma com uma virtude cardinal.

É nessa questão que devemos nos ater agora. foram relacionadas. a justiça reside em cada um cuidar do que lhe diz respeito. por consequência. Sendo assim. que não é uma função da alma. deste modo. qual seja. Sendo assim. O modo pelo qual exercerão a justiça será diferente dos demais. com a justiça imperando. Platão acredita que os produtores são temperantes. esse é um dos motivos que nos leva a crer que a cidade e a alma foram divididas em três partes e não quatro. Por serem três classes. os filósofos que são temperantes. vistas nos diálogos jovens de Platão. A justiça é algo que deve ser partilhado por todos. na cidade. A virtude excetuada foi à justiça. ou seja. sábios e justos. a cidade terá a justiça reinando nela. seja pelo conhecimento ou pela opinião. Passa a acreditar que essas virtudes podem ser encontradas separadamente. guardiões e sábios deverão ser justos. o que fará com que eles sejam e ajam com justiça é seu conhecimento/sabedoria. existe fortemente apenas nestes indivíduos. aquele que tem uma virtude. a sabedoria. uma única ocupação. aquela que naturalmente se encontre habilitado. Cada indivíduo deve cuidar das suas atribuições. abandona a tese da unidade das virtudes. pois. das quatro cardinais. essa função da alma. corajosos. . corajosos e sábios. tem todas as outras. A justiça é aplicada na cidade em 432b a 435a. podemos inferir que existe apenas uma classe que aglutina as quatro virtudes cardinais. Sócrates acredita que cada indivíduo só poderá exercer. qual seja. mas que deve residir em todas as funções. Quando cada um exerce sua função e. 67 (i) os produtores estão ligados com a temperança. ou seja. o conhecimento trará racionalmente o caminho para a justiça. Nesse momento. (iii) os governantes estão ligados com a sabedoria. (ii) os guardiões estão ligados com a coragem e. os guardiões são temperantes e corajosos e os governantes são temperantes. apenas três virtudes. Como já dissemos. produtores.

que a justiça poderia ser investigada primeiro na cidade e posteriormente poderia ser analisada no indivíduo. A título de exemplo podemos citar a própria bibliografia de Platão. Nesse caso. Por outro lado. pois confere as leis o caráter educativo em seus preâmbulos. Concluiu que cada ser tem uma habilidade específica que deve ser utilizada em benefício da cidade. 68 Nessa cidade justa os produtores. é possível encontrar um ponto de fuga a essa teoria platônica. aqueles que agirem em consonância com suas funções darão forma a uma cidade justa. exercer função diversa daquela que é apto. caso algum indivíduo queira. pois se isso acontecer estes não exercerão na plenitude suas capacidades e consequentemente serão injustos. com um sistema dirigido a adequá-los às necessidades dessa cidade justa. e que temos três classes de homens na cidade (produtores. as duas primeiras classes agem por opiniões verdadeiras. . os guardiões e os sábios deverão agir conforme seus papéis sociais. Podemos ter cidadãos injustos que não se convençam das ideias expostas pelos sábios. É por isso que Platão acredita que devemos controlar ou expulsar uma companhia de atores ou poetas que queiram fornecer conteúdos morais diversos dos que são ensinados para os cidadãos. pois são justos. Platão não apresenta nenhuma saída na obra A República. Sendo assim. em 369-a. guardiões e sábios). inconformado com as ideias expostas se retira do diálogo e não retorna mais. enquanto a última age com conhecimento. Deste modo. mas entendemos que apresenta nas Leis.120 Entretanto. foram educados pelos sábios desde crianças. como vimos. 120 Conforme veremos mais a frente. mas caso isso aconteça essa cidade será injusta. 121 Entretanto. A título de exemplo um produtor não deve querer ser um guardião. aquele que for injusto e não quiser exercer sua função será penalizado para que exista a manutenção da justiça. coragem e sabedoria). Na obra Górgias. Sócrates havia asseverado.121 Assim. Cálicles. mas não devem ser. pois não tem capacidade para sê-lo. por qualquer motivo. para cada homem existe uma virtude que os caracteriza (temperança. Dedicou os Livros II ao IV a essa análise. este dá elementos para uma cidade injusta. bem como o caráter retributivo com a aplicação da pena a quem não segui-la. sabedoria. uma vez que a justiça consiste em fazer as coisas que lhe são próprias. Além disso. Os guardiões e os produtores aceitarão essa divisão social. um guardião ou um sábio tem condições de serem produtores. pois explica o porque agir conforme a lei. A questão que surge é a seguinte: Mas o que fará com que homens de bronze aceitem sua classificação e homens de prata não queiram ser de ouro? A resposta para esse questionamento está na Justiça.

na maioria das vezes caminhariam para opiniões falsas. Platão continua a discussão da opinião e do saber. os corajosos. A sabedoria possui um conhecimento verdadeiro.2. em que todo processo de construção de um modelo ético e político se dá pela oposição entre saber e opinião. mas como os que detêm conhecimento irão governar os que não têm. que é sempre ligado à verdade. Assevera que o conhecimento tem como base a verdade e a opinião ao que é e não é verdadeiro. . por conta de sua sabedoria. 122 Assim. uma vez que desejam apreender toda a substância. graça e elegância. Esse intermédio demonstra que a opinião pode ser falível. Em 485b. e por isso são os únicos capazes de revelar alguma coisa sobre a essência eterna. São temperantes de tal maneira que odeiam a riqueza. serão equiparados a qualquer pessoa do senso comum. suas opiniões serão sempre verdadeiras. assim como a sabedoria para o verdadeiro. será modificada com a tripartição da alma. deste modo sempre caminham para o que é verdadeiro ou certo. a opinião é o meio termo entre o não ser (ignorância) e o conhecimento (sabedoria). Desse modo. É necessário que exista uma relação entre o conhecimento e o que é verdadeiro. Em 478a. de tal modo que o filósofo execute-as com simplicidade. na maioria das vezes.122 No Livro VI. os governados terão apenas opiniões verdadeiras. possuem opiniões verdadeiras e habitualmente caminham. se fossem guiados por suas opiniões. que tem como base cognitiva a opinião verdadeira e o saber. esta é uma peculiaridade de A República. Mas como os corajosos e os temperantes se guiam pelo conhecimento do sábio. caso contrário.2.2 Da cidade para o indivíduo No Livro V. por seu turno os temperantes. Platão faz uma distinção entre o conhecimento e a opinião em 478a-e. O filósofo é corajoso no sentido de não temer a morte. O conhecimento tem um conteúdo do sistema ideal. enaltece os filósofos e diz que estes amam a verdade. podemos entender que cada uma dessas posturas estão ligadas a uma parte da alma. a teoria moral. e à opinião que pode ser verdadeira ou falsa. ao contrário do conhecimento. considerando que o conhecimento. fundada nos diálogos jovens na unidade das virtudes. 69 4. ama a justiça e concentra as quatro virtudes cardinais. Sócrates diz que todas as qualidades enumeradas estão articuladas umas às outras.

124 Platão busca apresentar uma teoria da ação mais potente na República. com as virtudes e as partes da alma seria a seguinte: (i) produtores -----------→ temperança -----------→ epitimia.2. você sabe que não deve beber. com aceite da akrasia. através da ação. e tenho condições de. ou parte da alma. tal teoria não será alterada substancialmente.2. Platão irá ligar um tipo de motivação. mas quer beber. ou seja. Os temperantes (produtores) estão ligados com a parte da alma conhecida como a epitimia ou apetite. . Em 439-c. apresentado por Platão. seria o de Leôncio. 70 4. 124 É possível encontrar o termo adaptado para a ortografia portuguesa grafando-se acrasia. não é considerada na teoria da ação de Protágoras. ou a parte racional da alma. A teoria da ação apresentada no Protágoras era fortemente intelectualista. pois é defendido que a ação humana é baseada exclusivamente em elementos cognitivos (precisamos ver melhor o que é isso). seu logos não quer beber. Essa mudança de posicionamento. trabalha com o exemplo de um conflito da alma relacionado com a bebida. (iii) os governantes -----------→sabedoria --------→ logos. o logos deve governar tanto o thimós como a epitimia. mas sua epitimia (apetite) quer que beba. se creio que o objeto “x” representa o que é melhor. propondo uma alma tripartite. sendo assim. (ii) os guardiões -----------→ coragem ------------→ thimós. na qual a força é subordinada à sabedoria e a Lei. Platão percebe que é importante considerar a akrasia na teoria da ação. ou seja. ou parte iraciva da alma. após a exposição nessa obra. Outro exemplo. o conflito interno de desejos.123 Esquematicamente a ligação da divisão da sociedade. os corajosos (guardiões) estão ligados com o thimós. Dessa forma. e para conseguir a integração desse fenômeno. necessariamente irei agir tendendo para a conquista do objeto “x”.3 O conflito da alma – A akrasia A cada virtude cardinal. e os sábios estão ligados pelo logos. o fenômeno da akrasia. Exemplificando. alcançar o objeto “x”. o ideal do Estado de Direito demonstra essa organização necessária. que ao saber que do outro lado de um 123 Modernamente. precisará modificar radicalmente sua teoria.

segundo Platão. Quanto ao filósofo. mas claramente quer que ou o conhecimento. posso ter vontades diferentes. um sábio jamais se embriagaria sabendo que tal comportamento lhe faria mal e racionalmente não valeria a pena. ou no mínimo a opinião verdadeira prevaleça. o jurista também deve se balizar pela razão. Sendo assim. ou seja. embora possa lhe fazer mal. Como asseveramos no tópico anterior. mas tem pudor e não quer vê-los (thimós). Platão não direciona sua filosofia para o resultado que será alcançado. 71 muro existiam corpos jogados um sobre o outro tem desejo de vê-los (epitimia). Um exemplo contemporâneo seria uma mulher que queira comer chocolate: racionalmente sabe que não deve comê-lo (logos). 125 Nessa exposição. o que importa é que a partir dessa ideia temos a possibilidade de encontrarmos conflitos morais. minhas motivações devem ser diferentes. mas impulsivamente quer comê- lo (epitimia). . nesse momento. então. A título de exemplo. a epitimia e seu fio condutor. Para Platão. o logos trariam a justiça. mas não na mesma função: não posso saber e não saber. por um momento tem a crença que comer aquele derivado de cacau é certo. a alma é harmônica por causa da justiça. não importa se a pessoa bebe ou não. afirma isso. Com a teoria da tripartição da alma. Platão abandona a tese reducionista.125 Esse princípio foi posteriormente denominado por Aristóteles de “principio da não contradição”. este deve sempre se guiar pela razão ou logos. vê os corpos ou não. ter o impulso e o não impulso. pois acredita que aquele que tem conhecimento – por ser tão grande – jamais deixaria que partes não tão fortes de sua alma prevalecessem. Agora acredita que a harmonia entre o thimos.

72

5. A MUDANÇA DE POSIÇÃO SOBRE A COERCIBILIDADE – A
MITO-LOGIA EM PLATÃO: DO MITO DE GIGES AO MITO DE ER E
DO MITO DE ER ÀS LEIS

5.1 Considerações iniciais

Para que possamos expor a questão do mito em Platão, é importante
fazermos uma consideração inicial sobre o tema.

Em que pese Platão, aparentemente, ter abandonado gradativamente uma
justiça de cunho mitológico, substituindo-a por uma justiça baseada no nomos (a lei
positiva e escrita), entendemos que a forma com que Platão apresenta e
fundamenta seus argumentos é uma maneira sui generis. Isso porque seus
argumentos valem-se do mythos e do logos. Nesse sentido, acordamos com a
posição de Jean-François Mattéi que assevera que, com a tensão entre mito e
razão, a argumentação e a narrativa nasce a filosofia Platônica como uma mito-
logia. Nas suas palavras:

A narrativa fabulosa define um espaço autônomo e todos os traços
deste se opõem aos da pesquisa dialética. A forma lógica do mito é
o monólogo, e não o diálogo; seu procedimento retórico deve-se à
narração, e não à argumentação; a sua mediação simbólica é a
imagem, e não o conceito; sua finalidade epistemológica repousa
sobre a verdade, e não sobre a verificação; enfim, sua referencia
ontológica é a totalidade do mundo, e não a realidade singular da
coisa. O mito assume a respeito da vida cotidiana uma distancia
manifestada pelo afastamento da narrativa e pelo o alheamento do
narrador. É notável que os mitos sejam todos confiados a uma voz
estrangeira: o Estrangeiro de Eléia, o estrangeiro de Atenas, a
estrangeira de Matinéia, Timeu de Locros, Protágoras de Abdera, o
sacerdote egípcio de Saís, e mesmo Sócrates cuja atopia faz pensar
em ‘um estrangeiro que é guiado’ em sua própria cidade (Fedro,
230-c). O Mito Platônico é, assim, a narrativa encadeada de um
conjunto de episódios dramáticos, pela voz de um narrador
estrangeiro com a intenção de tornar manifesto, por meio de uma
figura especifica, o conjunto dos seres relacionados ao invisível.
(...) O mito faz parte, por ai, da estrutura mimética que caracteriza a
teoria platônica do conhecimento e apresenta um jogo de espelhos

73

que reflete de maneira inextricável a fala e a escrita, o olhar e a
escultura.126

Neste capítulo objetivamos apresentar a necessidade da existência de leis
coercitivas. Para tanto, exporemos brevemente o Mito de Giges e o Mito de Er.127
Cada um desses mitos, dispostos em A República, visa mostrar como é preciso leis
coercitivas para que os homens sejam justos (Giges), bem como é possível
conceber uma espécie de coercibilidade inteligível à alma (Er).

Entretanto, tal justificativa, contida no Mito de Er, não é suficiente para que a
justiça impere na cidade ideal. Com isso, Platão, em As Leis, muda de posição, sem
abandonar sua teoria de organização social de A República, acrescendo o
elemento coercitivo.

5.2 O Mito de Giges e o Mito de Er

Disposto pela mitologia grega e retomado por Glauco no Livro II de A
República (359-d-a 360-d),128 O Mito de Giges ilustra a questão da coercibilidade e
sua necessidade para o império da justiça. Podemos apresentá-lo da seguinte
forma:

Giges era um pastor a serviço do rei da Lídia. Por conta de um grande
temporal que acompanhou um tremor de terra, o solo se abriu, formando-se uma
fenda no lugar em que ele levara a pastar o seu rebanho. Ao ver isso, entrou na
abertura e viu entre outras maravilhas um cavalo de bronze, oco e com portas em
seus flancos. Ao abrir uma dessas portas, Giges viu o esqueleto de um gigante,
inteiramente despido que deixava apenas um anel de ouro numa das mãos à vista.
Giges retirou o anel e voltou para a superfície.

Na reunião habitual dos pastores, para apresentar o relatório mensal do
estado do rebanho ao rei, compareceu também Giges com o anel no dedo. Sentado
no meio dos outros pastores, Giges virou a pedra do anel para a palma da mão.

126
MATTÉI, Jean-François. Platão. Trad. Maria Leonor Loureiro. São Paulo: Unesp, 2010, p. 160-
162.
127
Sobre a questão da distinção do mito e da alegoria já nos pronunciamos: A alegoria da caverna
em matrix, p. 54-55.
128
Para narrar esse mito nos apoiamos pelo narrado por Glauco na República, entre 359-d a 360-d e
por PUGLIESI, Márcio. Mitologia greco-romana... cit., p. 251-252.

74

Imediatamente se tornou invisível aos que ali estavam para a reunião, mas ouvia e
via todos que ali estavam.

Quando volvia novamente a pedra do anel para o outro lado, voltava a ser
visível. Com esse instrumento trabalhou para ser um dos mensageiros para o rei.

Chegado à corte, seduziu a rainha e com a sua ajuda matou o rei, apoderou-
se do trono, casando-se com ela e assumindo o poder.

Com a apresentação do mito ora exposto, Glauco assevera para Platão que
na hipótese de haver dois anéis iguais a esse, sendo um deles usado pelo homem
justo e o outro pelo injusto, ninguém, absolutamente, segundo tudo indica, revelaria
resistência para conservar-se fiel a justiça.

Na verdade, entende Glauco, ao narrar esse mito, que ninguém é justo por
livre iniciativa, mas por coação. Nas suas palavras, em 360d.

Todos os homens são de parecer que a injustiça lhes é de muito
mais proveito do que a justiça, no que estão certos, como o dirá o
defensor da presente proposição. Pois o indivíduo com semelhante
poder, que não decidisse a praticar nenhuma injustiça nem a tocar
nos bens alheios, seria tido na conta de infelicíssimo pelos
observadores, e inteiramente destituído de senso, muito embora uns
para os outros o elogiassem, enganando-se mutuamente, de medo
de virem a ser vítimas de alguma tramóia de qualquer deles.

No Livro X de A República (614b a 621b), Platão rejeita a tese de Glauco
disposta a partir do Mito de Giges com a narrativa do Mito de Er. Na narrativa deste
mito, Platão visa demonstrar que é preciso praticar a justiça para fortalecer a alma;
entende que, caso não pratiquemos na vida atos justos, seremos castigados pelos
deuses futuramente. Relatamos brevemente esse mito:

Er, filho de Armênio, morreu em combate. No décimo dia, quando eram
recolhidos os corpos em começo de putrefação, verificou-se que o de Er encontrava-
se em perfeito estado. Ao ser colocado na pira funebre,129 Er reviveu e contou o que
viu no outro mundo. Disse que quando sua alma saiu do corpo, partiu com a
companhia de muitas outras pessoas e foram parar em um lugar maravilhoso com
duas fendas na terra e duas fendas no céu, ambas contíguas. Entre essas duas
fendas, estavam sentados alguns juízes que anunciavam a sentença. Os justos

129
A pira era uma fogueira em que se queimavam os cadáveres; também era chamada de Pira
Funerária.

Deste modo. cumprimentavam-se. caso não seja. Os relatos recíprocos davam conta de que na terra as almas que lá estavam sofreram muito. A duração da punição era o décuplo do crime cometido. As que subiam da terra apareciam exaustas e empoeiradas. sendo que. Se reuniam no prado. também. as almas eram castigadas. Das outras duas fendas saiam de contínuo novas almas. 75 deveriam caminhar para a direita. Pelas faltas cometidas contra alguém. por ordem e individualmente. pois. as que desciam do céu estavam limpas e alegres. para cada crime teria de sofrer dez vezes mais. no céu as almas relatavam suas vivências celestes. todas as almas pareciam chegar de uma longa viagem. Tanto os que estavam no céu como os que estavam na terra perguntavam o que havia se passado nos distintos lugares onde eles não estavam. Er narra que a maioria não se encontrava nem no céu nem no inferno. os injustos encaminhavam-se para a esquerda. será punido em sua alma. ou fosse cúmplice de alguma malfeitoria do mesmo gênero. Quando Er se aproximou dos juízes. rumo ao céu. Os principais tiranos que passaram pela história antiga. com suas sentenças estampadas no peito. de inconcebível beleza. Esse mito refutará o posicionamento de Glauco quando expõe o Mito de Giges. Por outro lado. dirigiam-se para uma das aberturas do céu ou da terra. mostra que é necessário ser justo. caso cometa atos injustos . Sendo assim. disposto no último Livro da República. Er notou que as almas depois de julgadas. Para Platão não será possível comprar os deuses. onde acampavam como num festival. estes lhe disseram que ele havia sido escolhido como mensageiro para os homens e lhe recomendaram ouvir e observar tudo que se passasse à sua volta. Por seu turno. os que só espalharam benefícios e viveram de forma justa. quem fosse criminoso de muitas mortes ou houvesse traído cidades ou exércitos e os reduzisse a escravidão. levavam nas costas o relato de quanto haviam praticado. Em levas ininterruptas. eram recompensados na mesma proporção. as que se conheciam. lágrimas e gemidos davam o tom dos relatos. o Mito de Er. ladeira abaixo.

na opinião da maioria dos homens. quando chamado para participar da pesquisa? O que digo é o seguinte: a vista e o ouvido asseguram aos homens alguma verdade? Ou será certo o que os poetas não se cansam de afirmar. 76 na vida. Tens razão.3 O corpo em Giges e a alma em Er A partir da exposição dos dois mitos supramencionados. 2002. Como discute com Símias em Fedão (65a – 66a):131 Nisto. aqueles que não seguirem o caminho certo serão punidos em vidas futuras. Então. vê se lograda por ele. Belém: Ed. quando é que a alma atinge a verdade? É fora de dúvida que. Isso porque. em sua obra A República. . respondeu. em sua teoria da ciência. Símias. Para compreendermos melhor essa assertiva precisamos diferenciar o que Platão entende por corpo e por alma. Fedão. 131 PLATÃO. perguntou. X – E como referência à aquisição do conhecimento? O corpo constitui ou não constitui obstáculo. de. é que o filósofo se diferencia dos demais homens: no empenho de retirar quanto possível a alma na companhia do corpo.130 Além disso. (grifo nosso) Essa é a razão. a punição da alma mais importante que a punição do corpo. Carlos Alberto Nunes. por conseguinte. desde o momento em que tenta investigar algo na companhia do corpo. Tens razão. a ciência concerne certa unidade que ultrapassa a multiplicidade de particulares. podemos verificar que Platão considera. 130 Trata-se de uma resposta ao argumento de Glauco apresentado em 366 na República e no Capítulo IV deste trabalho. só é possível conhecer e definir o que nunca muda. Para ele. UFPA. por achar-se muito mais perto da condição de morto e por não dar a menor importância aos prazeres alcançados por intermédio do corpo. Evidentemente. se esses dois sentidos corpóreos não são nem exatos nem de confiança. 5. não merecer viver o indivíduo a quem nada disso é agradável e que não se importa com tais práticas. Trad. que diremos dos demais. antes de mais nada. que nada vemos nem ouvimos com exatidão? Ora. Platão diferencia corpo de alma. em tudo inferiores aos primeiros? Não pensas desse modo? Perfeitamente.

E algum dia já percebeste com os olhos qualquer deles? Nunca. sem dúvida. pode participar. por assim dizer. pois é um obstáculo para conhecermos o real. respondeu. Certo. apartado. esforçar-se por apreender a realidade de cada coisa em sua maior pureza. que alcançara o conhecimento do Ser? Tens toda a razão. E não alcançará semelhante objetivo da maneira mais pura quem se aproximar de cada coisa só com o pensamento. Com isso. respondeu Símias. a alma pensa melhor quando não tem nada disso a perturbá-la. e concentrada ao máximo em si mesma. Símias. a alma é a . de todo o corpo. esse indivíduo. do conceito. ou tudo se passará da seguinte maneira: quem de nós ficar em melhores condições de pensar em si mesmo o mais exatamente possível o que se propõe examinar. no máximo. A rigor. Símias: afirmaremos ou não que o justo em si mesmo seja alguma coisa? Afirmaremos. É por intermédio do corpo que percebemos o que neles há de verdadeiro. da vista e do ouvido. nem a vista nem o ouvido. porém valendo-se do pensamento puro. por Zeus. sempre que a ele se associa? Não será. nem associá-los a seu raciocínio. uma vez que está no campo das sensações e. E também o belo em si e o bem? Também. Ora. não é esse que estará mais perto do conhecimento de cada coisa? Ou não? Perfeitamente. de modo que só é acessível pelo intangível. trabalhando por concentrar-se em si própria? Evidentemente. E não é nesse estado que a alma do filósofo despreza o corpo e dele foge. evitando tanto quanto possível qualquer comércio com ele. Platão acredita que o corpo não é objeto do conhecimento. E com relação ao seguinte. e esforça-se por apreender a verdade. logismou). nem dor nem prazer de espécie alguma. quanto possível. saúde. como particular. força e o mais que for. mas nunca será o conceito. por ser o corpo fator de perturbação para a alma e impedi-la de alcançar a verdade e o pensamento. dispensa a companhia do corpo. Sócrates. se houver alguém em tais condições. numa palavra: à essência de tudo o que existe. Já a alma é imutável. e. sem arrastar para a reflexão a vista ou qualquer outro sentido. 77 E não é no pensamento – se tiver de ser de algum modo – que algo da realidade se lhe patenteia? Perfeitamente. conforme a natureza de cada coisa. Ou por intermédio de outro sentido corpóreo? Refiro-me a tudo: grandeza. está no pensamento e é alcançada pelo raciocínio (dianoiai.

a alma é superior ao corpo. Por conseguinte. ter acesso ao real e o corpo nada tem a ver com a verdade. Assim. assim. em que o personagem que dá o titulo ao diálogo define a coragem como ações individuais (particulares) de coragem. inteligível e de aspecto único. e não como um conceito geral e amplo. Exemplo disso. ao passo que no Mito de Giges temos uma explicação do justo ou do injusto por meio de uma representação do corpo do homem. temos que descobrir aquilo que está presente nos vários particulares para que possamos definir algo. temos a narrativa de atos ou pessoas que participam do conceito. Para Platão. Platão considera que é impossível encontrarmos no corpo as definições de qualquer coisa. mudando todo momento. na obra Platônica. encontramos em Laques (191e). Veja-se que em nenhuma das hipóteses temos uma definição abrangente e imutável de coragem ou de beleza. como a alma que é divina. no que tem como resposta uma moça bela e não a definição de beleza. em sua teoria da ciência. É por conta disso que Platão justifica sua cidade ideal em A República por meio do Mito de Er. é preciso buscar na alma. ao passo que estes são idênticos a si mesmos e invariáveis quanto à forma. Assim temos duas espécies de seres. que pode. sendo que aqueles não mantêm identidade. Somente na alma podemos alcançar as definições e os conceitos do que quer que seja. . que como vimos explica a punição do justo ou do injusto com a alma de Er no inteligível. os chamados visíveis e os invisíveis. que acaba sendo um obstáculo para a aquisição do saber. 78 expressão verdadeira do indivíduo. e não com o corpo deste no sensível. como o corpo que é sensível de múltiplos aspectos. Nos dois exemplos que trouxemos. obra em que Sócrates questiona Hípias sobre o que é o belo. Outro exemplo está em Hípias Maior (286d a 288a).

Richard R. e seu corpo deve ficar incólume a um ato de injustiça? Sabemos que uma das características da coercitividade é retorquir imediatamente o ato injusto praticado e que. uma mudança radical de sua teoria. que subjaz tacitamente às suas propostas de interpretação. deve-se punir a alma. é necessário existir uma organização tal que puna o corpo daquele que é injusto.4 Do Mito de Er para o logos de As Leis Embora exista explicação para o Mito de Er no que tange à questão da coercibilidade ou punição da alma. 2011. é preciso esperar que a pessoa morra para que pague por suas injustiças praticadas neste plano? Afinal. as relações de justiça e a natureza da cidade. mas não foi devidamente explicitado ou problematizado por nenhuma delas. mesmo com o Mito de Er mostrando que futuramente a alma será punida.. consequentemente. Sobre essa questão.. É a partir dessas questões. p. a ideia de que ambos os textos – a República e as Leis – tratam de um único e mesmo assunto – a descrição do melhor regime político –. mas temas diferentes da filosofia política. apenas modificando a forma de abordá-lo. no plano inteligível. ficam ainda assim alguns questionamentos: e se a pessoa que pratica um ato injusto não acredita em Deus? Ou ainda. portanto. Concordamos com a visão exposta acima. já 132 OLIVEIRA. Richard R. acreditamos que elas partem de um mesmo pressuposto fundamental. e. a saber. e a tese oposta de que há em As Leis uma adaptação dos princípios do paradigma político projetado (a sofocracia). A República busca pensar. mas não leis para sua existência. Demiurgia política – As relações entre a razão e a cidade nas Leis de Platão. 79 5. que Platão propõe uma nova obra em que observa a necessidade de existirem leis coercitivas sem abandonar sua proposta de organização social de A República. Entendemos que A República e As Leis não abordam o mesmo objeto. 73-75. São Paulo: Loyola.) em que pesem as diferenças flagrantes entre essas duas leituras. especulativamente. é possível observar que: (. . Oliveira132 considera que entre a tese da “conversão realista” de Platão como “produto do desespero” face a suas experiências em Siracusa. criando limites. agregadas à experiência que teve na tentativa de implementar seu sistema na Sicilia.

135 Note que Platão não abandona a divisão do corpo e da alma. Enquanto esta obra ignorava detalhes constitucionais.133 A dúvida que surge é como representar (positivar) leis justas se as formas são invisíveis e o corpo não pode chegar a elas por intermédio da sensibilidade mas somente pelo pensamento e pelo racicionio? É justamente sem abandonar sua teoria de estruturação social da cidade ideal que Platão encontra nos sábios a saída para poder representar as formas justas por meio de leis. O cocheiro simboliza a alma racional dirigindo um carro alado que é puxado para cima por um dos cavalos. que tais leis devem ser propostas por aqueles que. 134 Em Fedro. E note-se que essa resposta recorre à alma para escolher quem deve criar a lei para puni-lo. por meio da anamnese.135 Com os papéis sociais reafirmados para Platão que surge a obra As Leis. I.. e porque um dos cavalos deseja subir. possuem reforçadamente como virtude a sabedoria. mas puxado para baixo pelo outro. caindo. dessa maneira lembrar aquilo que já é sabido. Disto podemos inferir que para o pensador em comento A República consiste no conceito da cidade invisível e justa no plano inteligível . Op. o que puxa o carro para baixo é o espírito concupiscente que. mas sim apresenta uma resposta imediata para o corpo que deve ser punido pela prática de atos injustos. e assim os sábios representarão o que o pensamento e o racicíonio conhecem. pelo prazer. R. Platão. nem tudo está perdido. Nas Leis. p.. troca a verdade pelo vício. nem abandona a ideia de sanção da alma. dando forma a melhor ordem possível no plano sensível. 80 As Leis. Platão apresenta uma proposta para a organização da segunda melhor constituição. Peter.. 133 WINTON. enquanto As Leis é uma obra que se preocupa em oferecer uma cidade visível e justa para o plano sensível. Nesse sentido Winton e Garnsey: “O contraste com A república é óbvio. O cavalo que sobe. e GARNSEY. 61. respondem a isso. Por que o cocheiro se recorda do voo. até que o carro pesado. cai sobre a terra deixando no cocheiro exclusivamente a saudade do voo. . a vaga recordação do que vira e o desejo insaciável de retornar aos céus.)”. que será objeto de nossa análise. na alegoria da auriga temos abordada também a questão da alma: tal alegoria conta- nos a história do cocheiro que tinha seu carro puxado por dois cavalos alados. ou segunda melhor cidade. é possível. o cocheiro tem as mãos feridas pelas rédeas que puxam em direções contrárias. é o espírito que valoriza a coragem e a virtude. carros alados chocam-se com outros e as asas vão perdendo a força. cit. portanto. em complemento. A parelha se machuca. Entende. As leis expõe-nos com exaustiva minúcia (. em sua estrutura social.134 tendo em sua alma o logos como parte determinante.

137 DALARI. A MATURIDADE DE PLATÃO – A JUSTIÇA NA TERCEIRA FASE EM AS LEIS136 Essa importância ressalta ainda mais se considerarmos que enquanto na República a base do Estado é a educação perfeita. não caracterizaram a segunda melhor pólis. O ‘governo constitucional’.1 Considerações iniciais Após tantas desilusões diante dos regimes que conheceu. São Paulo: Edipro. Prefácio da obra As Leis. nem são elas feitas pelo povo. 2. .137 6. tanto na democracia da época quanto nas tiranias. Diante dos diversos problemas que Platão verifica ao longo de sua trajetória. 2010. a um novo projeto com a obra As Leis. no que tange ao aperfeiçoamento legislativo. Em primeiro lugar. a obra A República cede lugar. as leis a que o povo deve dar seu consentimento não são simplesmente qualquer lei que agrade ao povo. precisamos desemaranhar toda uma série de equívocos. Nesse caso. as leis que Platão deu à pólis. sem consideração 136 Todas as citações da obra em comento serão feitas a partir da edição traduzida direto do grego por Edson Bini. não há outra saída. São Paulo: Edipro. qual seja. Elas continuam a ser as leis do rei-filósofo. entendendo ser da competência do filósofo contribuir para a construção da justiça nas cidades. Quaisquer outras leis. ed. sendo praticamente supérflua a legislação. 2010. Diz Eric Voegelin: O Plano de uma segunda melhor pólis parece implicar uma tradição do ‘ideal’ de ditadura de rei-filósofo para o ‘ideal’ de um governo pela lei com o consentimento constitucional do povo. a de um centralismo filosófico (reis filósofos). 2. que talvez pudessem ser mais do agrado do povo. Platão permaneceu fiel e leal ao seu propósito que concebia a missão filosófica. ed. Embora mantenha o centralismo filosófico ora citado. ou mesmo a terceira ou quarta: elas não caracterizam nenhuma pólis que pudesse ser considerada uma incorporação da realidade da idéia. Dalmo de Abreu. 81 6. nas Leis a legislação é a base. senão a que apresenta em A República. As Leis.

escrita nos últimos anos de sua vida. R. . se estendem desde a primeira edição da obra. p. Ordem e história: Platão e Aristóteles. como veremos. podendo ser considerada como a obra que põe fim ao seu percurso de diálogos. mas corrupção da realidade. 3. mas pouco estudada e comentada. 140 WINTON.138-139 Obra de indispensável leitura para compreensão do pensamento platônico. reconhecendo-se a autenticidade de As Leis. v. Eric. 2009. por exemplo. na tradução de Diógenes Laércio. 61. 1985. 213. p. 142 CHÂTELET. Peter. 82 para com o espírito das leis. Pois. permitindo a conjugação de ambos uma ideia do que Platão 138 VOEGELIN. embora ainda permaneça uma linha interpretativa que prefira reconhecer ali. pode-se dizer que é o trabalho de maior fôlego do pensador em comento. Gerson. não é realidade para Platão. ainda na antiguidade. Extensa e composta por XII livros. Trad.. Trad. Madri: Siglo XXI de España Editores. El nacimiento de la história. nos dizeres de Pereira Filho: As controvérsias sobre a não autenticidade e o caráter inacabado de As Leis.142 Para nosso objeto de estudo cabe atenção especial na relação e na mudança de posição da obra A República para a obra As Leis. sendo a lei é a personificação humana da divina Razão que governa o universo. François. 149. I.141 Para compreensão mais global desse estudo Platônico é preciso atravessar a leitura de todos seus diálogos. Op. em seu projeto político Platão tem na República seu primeiro pensar que se completa com as Leis. p. 276.. 139 Trazer uma participação popular plural. cit. Hoje parece superado esse debate. As Leis consiste em um trabalho reconhecido postumamente. até ao século XIX. atribuída a Felipe de Opunte. cit. Op. ainda que como um diálogo inacabado (seja pela morte do autor ou por sua interrupção por questões não conhecidas).”140 Sobre a autenticidade de a obra ter sido escrita ou não por Platão damos como questão superada. não significa que Platão muda por completo sua teoria. Ensina Gilda Naécia que: o projeto político de A República completa-se com o de As Leis. p. 141 PEREIRA FILHO. uma obra coletiva dos discípulos da Academia. César Suarez Bacelar. São Paulo: Loyola. e GARNSEY. “A tese fundamental de As Leis que é a lei condicionada a razão. responsáveis também pela redação do Epinomis. com a participação do próprio Felipe de Opunte. Cecília Camargo Bartalotti.

inevitavelmente. em especial o termo Nomoi. Eric. 145 Nota do tradutor Edson Bini. Alguns comentadores equivocadamente asseveram que a obra em comento consiste apenas em um tratado sobre a “jurisprudência”. As Leis. no entanto. 144 VOEGELIN. da ontologia. destrói essência do pensamento de Platão.145 Para nossos estudos. cit. da gnosiologia. e pela justificação metafísica de coercibilidade. O nomos de Platão.143 Como vimos. além daquelas da matemática. apud. Op. o governante. .. praticamente não se ocupa da legitimação de uma legislação própria. 2010. 143 BARROS. quando o governante. As Leis. por suas próprias virtudes. Gilda Naécia Maciel de. Isso se dá por conta da difícil tarefa de transferir de um quadro de signos para outro algo tão rico como o vocábulo grego.144 No mesmo sentido observa Edson Bini: Platão abarca não apenas o domínio estritamente jurídico. da ética e mesmo da psicologia. como também as áreas correlatas da política. da religião e da mitologia. 83 entendia por Paidéia superior e o que deveria ser a formação geral do cidadão médio. Prefácio de Dalmo de Abreu Dalari. o que já se inverte na obra As Leis. ao legislar deve se colocar entre Deus e o homem. está profundamente inserido no mito da natureza e tem uma amplitude de significado que inclui a ordem cósmica. não perderemos de vista a riqueza da obra e o que o termo nomoi significa. os ritos dos festivais e as formas musicais. O pressuposto de que as leis são um tratado sobre ‘jurisprudência’ ignora essa variedade de sentidos e. 275. nosso esforço se volverá efetivamente para as questões relacionadas à jurisprudência e à proposta política da segunda melhor cidade na obra As Leis. Platão. pois a tradução do termo Nomoi por Leis não pode ser interpretada como a palavra é vista na teoria jurídica moderna. 2010. Falha quem afirma isso. Rousseau e o estado total. p. na República. e buscar o consentimento dos governados a fim de propor uma legislação justa. entretanto.

cit. 108. enquanto na Lacedemônia. p. na minha opinião.1 Livro I – A guerra. não faremos um resumo. então. estrangeiro.. estrangeiros. em diversas obras como Protágoras e A República. como vimos. chamamos de Zeus o nosso legislador.146 Deste modo. onde nosso amigo aqui tem seu domicílio. em 625d-e: “Clínias: (…) E assim todos estes nossos costumes são adaptados à guerra e. qualquer que seja. a embriaguez. Como assevera Lygia Watanabe: “Não se deve sequer tentar resumir uma obra clássica. Não é assim. que já foi explorada. citaremos in verbis trechos da obra. volta a baila e se aprofunda e cada um dos dialogantes expõe seus pensamentos. 6. cretenses. surgem questionamentos com relação à virtude total dever ser a meta de toda legislação e sobre como um Estado pode não somente ser afetado pelas guerras externas. Lygia Araújo. a autoria de vossas disposições legais? A um deus ou a algum homem? Clínias: A um deus. a educação e as marionetes No prólogo. porque estaremos sempre arriscados a perder sua essência”. como também pelas guerras intestinas. A discussão acerca das virtudes. as virtudes divinas e humanas. mas sim uma rememoração de alguns pontos de discussão do diálogo em comento. Após as reflexões sobre a guerra como cerne da elaboração das leis. havendo um consenso no sentido de que suas criações são divinas:147 Nota-se. Clínias e Megilo sobre a forma como as disposições legais são estabelecidas em seus respectivos Estados. A fim de não perdermos o rigor filosófico. Percebe-se ao longo do 146 WATANABE.2 Os XII Livros de As Leis Nas próximas páginas buscaremos destacar alguns pontos importantes na obra em comento. com toda a certeza a um deus. Megilo? Megilo: Sim. uma preocupação entre aqueles que dialogam a respeito da guerra como meta da legislação. . Nós. nem a essência do discurso de alguns trechos que julgamos importantes. há indagações entre O ateniense. afirmam – acredito – ser Apolo o deles. Op. em 624a. 147 O ateniense: A quem atribuis. era este o objetivo que o legislador tinha em mente quando os determinou a todos”. em 627a-b.2. 84 6.

Entende o ateniense. a riqueza. surge uma nova pauta. assim deverá o legislador posicioná-los. visto que um chefe de ébrios que fosse ele mesmo ébrio. enquanto instituição bélica. A sabedoria. portanto. no entanto. para ser preservada. não o contrário. e. o vigor em terceiro. posicionando-se os bens divinos acima dos bens humanos. sugere-se que os exercícios físicos e as alimentações regradas sirvam de incentivo. necessário à corrida e todos os demais exercícios corporais. e que os bens humanos são orientados para os bens divinos. 85 discurso uma hierarquia como fio condutor de tais virtudes. seguido pelo quarto. . humanos e divinos. depois do que deverá ser proclamado aos cidadãos que todas as outras instruções que recebem têm em vista esses bens. a propósito. da união destas duas com a coragem nasce a justiça. e nessa seara também se delineia uma hierarquia entre eles. Em 636a: “Megilo: Certamente um assunto nada fácil! E. provavelmente os repastos comuns e os exercícios físicos constituem boas concepções para fomentar essas duas virtudes”. os homens que servirão e lutarão por ele deverão combater o temor. mas aquela de visão aguda. que podem atrapalhar seus objetivos mais nobres. Então. A temperança também é vista como uma grande virtude e. vindo racional moderação da alma em segundo lugar. como vemos em 633c-d. o problema da embriaguez e suas consequências para a manutenção das virtudes. precisa que seus homens tenham tal virtude. a saber. nessa busca. que somente “homem sóbrio e sábio que devemos instalar no comando de indivíduos ébrios. em verdade. Ainda no discurso sobre as virtudes. segue- se o quarto bem. antes dos bens humanos. a beleza em segundo. não a riqueza cega. temos a sabedoria. E. pois ele. que é soberana. caso contrário é privado de ambos. Ora. os bens são de duas espécies. ocupa o primeiro lugar entre os bens que são divinos. que tem a sabedoria por companheira. verifica-se a distinção entre os bens humanos e os bens divinos. ou seja. como se verifica em 631b-d: O ateniense: (…) Ora. e estes para a razão. a partir de reflexões sobre os meios de se alcançar a temperança. que é a coragem. se revelaria um grande felizardo se conseguisse se furtar a cometer um sério dano”. por natureza. a prudência e a justiça. a dor e muitas formas de desejos. Entende-se que a coragem é uma virtude muito importante para o Estado. os bens humanos dependem dos divinos e aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o menor. o terceiro bem divino. todos estes bens estão posicionados. jovem e tolo. Entre os bens menores a saúde vem em primeiro lugar.

o qual possui a compreensão tanto de governar como a de ser governado com justiça. esse fio é flexível e uniforme. os arrastam e. o ateniense enuncia sua definição do que é a educação: O ateniense: O que afirmo é que todo homem que pretenda ser bom em qualquer atividade precisa dedicar-se à prática dessa atividade em especial desde a infância utilizando todos os recursos relacionados a sua atividade. À frente.. se. é forçoso que todo homem obedeça a uma dessas forças de tração. entretanto. que grande vantagem diríamos que adviria ao Estado a partir do correto controle de uma única criança ou de um grupo de crianças? A uma tal questão assim colocada a nós responderíamos que o Estado extrairia pouco proveito disso. então prover uma resposta será extremamente simples pois responderíamos que crianças bem educadas se revelarão bons indivíduos. não a soltando em nenhuma circunstância. dão-se alguns passos importantes sobre 148 O ateniense: Bem.. exceto que esses nossos sentimentos interiores. posteriormente Clínias também o faz (642e) “(. pois como indica nosso raciocínio. ou inventado para ser um brinquedo deles. além de agirem com nobreza em relação a outras coisas. contrabalançando desta forma à tração dos outros tendões: é o fio condutor. e de todas as formas e aspectos possíveis. o que torna o indivíduo entusiasticamente desejoso de se converter num cidadão perfeito.. seja no trabalho. criaturas vivas. que sendo bons vencerão seus inimigos em batalha. (643e). dourado e sagrado. por vezes.) O ateniense: (…) a educação a que nos referimos é o treinamento desde a infância na virtude. e enquanto os outros cordéis são duros e como aço. produz falta de educação visto que os homens amiúde se tornam mais insolentes devido à vitória na guerra. sendo postos em oposição recíproca. como tendões ou cordéis. esta. em 641b-c:148 Diante dos pensamentos do estrangeiro ateniense. da avaliação que se intitula lei pública do Estado. 86 Ainda no assunto acima abordado. por meio de muitas comparações e análises.) Então nossos ancestrais passaram a permutar hospitalidade e amizade com os vossos. e desde então tanto meus pais quanto eu desenvolvemos uma afeição por Atenas”. ou para um propósito sério – com referência ao que nada sabemos. as vitórias que os homens obtêm na guerra com frequência foram e serão cadmianas. Em 644d-e e 645a-c o ateniense oferece uma alegoria em que apresenta a imagem das marionetes. visto que é de ouro. é uma engenhosa marionete dos deuses. e através de sua insolência se tornam repletos de outros vícios incontáveis. e se ao passo que a educação jamais se mostrou até agora cadmiana.149 Nessa alegoria. se formula uma questão geral com referência a qual vantagem efetiva extrai o Estado da educação das crianças. se por um lado a educação também produz vitória. “O ateniense” também se preocupa em analisar se há algum proveito dos banquetes regados a vinho para a educação. Com esse excelentíssimo fio condutor da . arrastam-se uns contra os outros para ações contrárias. Assim. 149 “O ateniense: Vamos conceber a matéria da seguinte maneira: suponhamos que cada um de nós. (643b) (.. Megilo declara sua admiração por Atenas (642c). seja em seu entretenimento. e aqui jaz a linha divisória entre a virtude e o vício.

restabelecer suas formas de disciplina se reunindo em seus banquetes com os deuses. a ginástica e a música juntas na composição do coral e mais regras relativas ao uso do vinho. porém mais branda do que dura. 87 o poder e o como devem os homens ser conduzidos. em 652a a 653b. instituíram os banquetes de ação de graças como períodos de trégua em relação às vicissitudes humanas. Deste modo a alegoria que nos compara a marionetes não será sem efeito e o significado das expressões superior a si mesmo e inferior a si mesmo se tornará um tanto mais claro. Alegoricamente. ao menos. segundo ele. tanto o vício quanto a virtude seriam para nós diferenciados com maior clareza (…)”.150 e depois mostra. nessa alegoria. e à humanidade conferiram como companheiros de seus banquetes as Musas. em 653c-d. os deuses. sobre o banquete com vinho e a descoberta das disposições naturais humanas. . a instituição dos três coros. Assim.. Os fios de ouro conduzem as leis do Estado e as virtudes que se espera. as exposições passam pelos benefícios da música numa sociedade bem educada. críticas à educação espartana. que consistem na correta disciplina dos prazeres e das dores. o corpo da alma. que os deuses se prontificam a serem nossos parceiros de dança. em 653e-654a. essa espécie é fadada à miséria. nós. um de ouro e outro de aço.2. compadecidos pela espécie humana deste modo nascida para a miséria. educação com base nas virtudes. como marionetes. Diante disso. 6. 150 O ateniense: (. o sensível e o inteligível e o justo do injusto. Apolo. seu fio condutor requer colaboradores para assegurar que a raça áurea dentro de nós possa derrotar as outras raças. o estrangeiro ateniense.. o estrangeiro ateniense coloca em pauta a maneira com que os deuses se compadeceram dos humanos. dualizando. já os fios de aço contém em si os vícios e as deficiências que tornam o homem em injusto. explica-nos que. acha devido definir melhor o conceito de educação e desenvolver ideias a respeito de como os elementos dessa educação devem ser estabelecidos para que a sociedade se forme com base nas virtudes. concedendo a agradável lei nós temos que cooperar sempre pois considerando-se que a avaliação é sumamente boa.) E prosseguindo notaremos que essas formas de treinamento infantil. seja de um homem esclarecido) fazer disso uma lei para si e ser guiado por meio dela em sua relação tanto consigo mesmo quanto com outros Estados.2 Livro II – Os banquetes e vinho. o valor das artes. Logo adiante. e quão necessário ao Estado (quando este recebeu tal valor seja de um deus.e também quão necessário será para o indivíduo compreender o verdadeiro valor dessas forças de tração interiores e viver de acordo com isto. podemos ser conduzidos por duas espécies de fios. se afrouxam e se debilitam numa grande medida ao longo da vida humana: assim. valor técnico e valor moral. o vicio da virtude. o mestre da música e Dionísio para que pudessem. haja vista que. a experiência dos mais velhos e os coros Retomando a discussão proposta em 641.

“O ateniense” menciona “os três coros”. em primeiro lugar. logo depois viria o coro daqueles que têm menos de trinta anos. Aqueles com mais de sessenta anos. Em 659d diz: “O ateniense: a educação é o processo de atrair e orientar crianças rumo a esse princípio que é pronunciado como correto pela lei e corroborado como verdadeiramente correto pela experiência dos mais velhos e dos mais justos”. são universalmente belas. p.151 O ateniense resume seus pensamentos até aqui em 655b. Posteriormente. As Leis: Do ponto de vista da educação especialmente. clara referência a Esparta que habitualmente contava com três coros masculinos nos festivais que incluíam sempre a dança: o dos meninos. o dos moços e o dos homens mais velhos. portanto. o estrangeiro e “Clínias” concordam. ou seja. . 107 do tradutor. em 662c-d. 152 Vimos no contexto histórico que naquela época a faixa etária de 30 anos já poderia considerar-se velho. consagrariam as Musas para cantar essas máximas com vigor para toda a cidade. surge também a preocupação sobre como pode e deve ser a vida ideal. em terceiro. pois o belo acaba se identificando com o bom e o feio com o mau. ou a alguma imagem deste. (…) Para Platão a criança bem educada deveria se sentir instintivamente atraída para o belo e experimentar uma repulsa imediata diante do feio. Então.152 é dotada de experiência de vida e. 88 percepção do ritmo e da harmonia que nos liga mediante canções e danças. explica a dinâmica dos coros. resumamos todo o assunto afirmando que as posturas e as melodias que se vinculam à virtude da alma ou do corpo. ao afirmar: O ateniense: (…) E para nos poupar uma discussão tediosamente longa. são exatamente o contrário. deveriam se ocupar dos mesmos temas 151 Nota da p. 33-34. A partir dos novos pensamentos a respeito da educação. a figura do homem mais velho. agradável e justa e como é a definição de uma vida injusta e desagradável. Platão tem em altíssima conta a formação dos gostos e das aversões. tem mais autoridade para opinar e decidir o que é melhor e mais justo. com voz fraca. José Reinaldo de Lima. enquanto que aquelas que se vinculam ao vício. Isto conduz a uma espécie de conjunção entre o estético e o ético. em 663d que a vida injusta não é apenas mais ignóbil como também desagradável face a vida justa e piedosa. Em 664c-d. invocando Apolo Paeon. Op. Platão. As crianças. cit. o que detém um peso francamente estético. que tem a responsabilidade de encantar os mais novos na arte da educação. No pensamento platônico. aquele que tem mais de trinta anos. viria a coro dos mais de trinta e menos de sessenta anos. E conclui em 654b: “O ateniense: E portanto o homem bem educado terá a capacidade tanto de cantar quanto de dançar bem”.. Nesse sentido: LOPES.

Tal explicação. desde que bem administrado pelos mais velhos. particularmente Dionísio. e assim nos guardando da disposição excitável dos jovens? E em seguida regulamentaremos para que o jovem de menos de trinta anos possa tomar vinho com moderação. esse método como meio de educar. a qual ele concedeu à humanidade como um potente medicamento contra a rabugice da velhice. poderá participar das reuniões festivas e invocar os deuses. . cada um daqueles idosos mais disposto e menos constrangido a entoar cantos e encantamentos (como amiúde os chamamos) na presença não de um grande grupo de estrangeiros. pode ter peso medicinal para a aquisição de força ao corpo e pudor à alma. desenvolve-se a teoria de que o prazer não é o critério da música. mostrado tamanho benefício à sociedade. em primeira instância. convidando este deus para o que é simultaneamente cerimônia religiosa e a recreação dos mais velhos. em 672d. novamente. uma vez que. em 671d-e. Mas quando um indivíduo atingir quarenta anos. o ateniense faz um paralelo entre o canto e o vinho: O ateniense: Então como os estimularemos a se prepararem para o canto? Não deveremos promulgar uma lei segundo a qual em primeiro lugar nenhuma criança abaixo de dezoito anos pode tocar de modo algum o vinho. manter a ordem e a disciplina entre os mais jovens. a música. diz em 668a-b. Não tornará esta disposição mais branda. a têmpera de nossas almas possa perder sua dureza e se tornar mais macia e mais dúctil. Depois a discussão retorna à figura dos anciãos como aqueles que devem ser responsáveis por presidir e regular os banquetes e. para que através deste possamos reavivar nossa juventude e que olvidando seu zelo. reitera a importância da idade como fator de valoração positiva do homem. assim. que se esse for o critério devemos considerar essa música com a menos séria de todas. ensinando que é errado verter fogo sobre fogo no corpo e na alma antes que principiem a se ocupar de seus efetivos labores. 89 morais em narrativas e por meio de discursos de inspiração oracular. abstendo- se inteiramente da intoxicação e da embriaguez. Em 666a-c. espera-se que as críticas se abrandem. Quanto ao vinho. mas de um pequeno número de amigos íntimos? Durante a elaboração das ideias sobre o coro. tal como o ferro que foi forjado no fogo e passou a ser mais maleável.

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Há ainda um ponto sobre o coro que deve ser esclarecido. Em 673c-d, o
ateniense afirma que a música terá que estar em harmonia com o corpo, isto é, com
a dança, para que tal ensinamento se revele completo.

Por fim, em 674a-b, “O ateniense” encerra a discussão discorrendo sobre
algumas regras gerais em relação ao uso do vinho:

O ateniense: (…) eu daria minha adesão à lei de Cartago, a qual
ordena que nenhum soldado em campanha jamais prove a poção
embriagante, limitando-se durante todo esse tempo a beber
unicamente água. E eu acrescentaria que na cidade, também os
escravos e escravas jamais a provassem; e que os magistrados no
desenrolar do ano de seu mandato, os pilotos e os juízes enquanto
no cumprimento de seus deveres não bebessem vinho algum, bem
como qualquer conselheiro que fosse convocado a dar seu parecer
colimando uma deliberação de considerável monta; nem qualquer
pessoa durante o dia salvo por motivo de treinamento físico ou
saúde; nem tampouco um homem ou uma mulher à noite, quando
se propõem a procriar (...).

6.2.3 Livro III – A origem das constituições; hierarquia do Estado; legisladores e o
povo; a questão da coercibilidade

O Livro III se inicia com a discussão proposta pelo estrangeiro ateniense
sobre a origem das constituições, partindo do “ponto de vista” da observação “de um
período de tempo infinitamente longo e das transformações que nele ocorrem”.
Assim seria possível perceber as várias transformações dos Estados, como dito em
676c: “O ateniense: Tentemos descobrir a causa desse processo de transformação,
se o pudermos, pois quem sabe isso poderia nos revelar a origem primeira das
constituições, bem como a transformação destas”.

Tal proposta de discussão é aceita por “Clínias”, o estrangeiro toma, então,
como exemplo o dilúvio, que deveria ter extinguido quase toda espécie humana e
suas produções, restando apenas, provavelmente, o grupo dos “pastores dos
montes, pequenas centelhas da espécie humana preservadas nos cimos das
montanhas”. Por conta disso, afirma em 677c que as grandes descobertas de todas
as artes que se encontravam na planície se perderam.

Em seguida, após uma rápida menção à revelação, há mil ou dois mil anos
atrás, desses implementos e descobertas para alguns personagens da mitologia, “O
ateniense” retoma a divagação sobre o contexto no qual viveram os sobreviventes

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ao dilúvio e seu desenvolvimento gradual. Para ele, essas comunidades eram
compostas por homens cândidos, não contaminados pelos vícios próprios das
cidades. A partir de então, tenta entender a necessidade de leis por parte dos seres
humanos daquela época e a identificação de seu legislador. Percebe-se em 680a:

Em 680a, “O ateniense” observa que os que antecederam o dilúvio viveram
em uma época da história em que não havia leis escritas, pois tal arte não existia,
com isso, limitam-se a viver à luz dos costumes que era chamada de “lei dos
ancestrais”.

Nesse momento, Homero é citado como fonte de entendimento dessas
sociedades agropastoris, e “O ateniense” conclui com a contribuição do poeta que a
origem da legislação e dos legisladores se deu através da reunião dos vários clãs
governados por seus membros mais velhos. Em 681c-d apresenta o próximo passo,
que seria:

essas pessoas das comunidades se reunirem e escolherem alguns
membros de cada clã que, depois de um exame dos costumes
legais de todos os clãs, notificariam publicamente os líderes e
chefes tribais (que poderiam ser chamados de seus reis) quais
daqueles costumes os haviam agradado mais, recomendando sua
adoção. Esses membros seriam chamados eles mesmos
legisladores, e quando tivessem estabelecido os chefes como
magistrados e estruturado uma aristocracia, ou possivelmente até
mesmo uma monarquia a partir da pluralidade de patriarcados,
todos passariam a viver sob a nova forma de governo.

Com isso, “O ateniense” passa a discorrer sobre como teria surgido “uma
terceira forma de governo na qual estão combinados todos os tipos e variedades de
forma de governo tanto quanto Estados”, em 681d. Para tal empreitada, o
estrangeiro recorre mais uma vez a Homero, a fatos históricos e à mitologia da
fundação de algumas cidades, tempos após o dilúvio. Nota-se em 683b:

O ateniense: (...) O curso tortuoso de nossa discussão e nossa
excursão por várias formas de governo e fundações resultaram num
grande ganho: discernimos um primeiro, um segundo e um terceiro
Estado, todos, como supomos, sucedendo um ao outro nas
fundações que ocorreram no desenrolar de muitas e longuíssimas
eras. E agora surgiu este quarto Estado, ou nação, se o preferis, que
esteve, outrora a caminho de sua fundação e está agora fundado. Se
pudermos concluir de tudo isso quais dessas fundações estavam
corretas e quais, errôneas, quais leis garantem a segurança do que
está seguro, quais arruínam aquilo que está arruinado e quais
transformações (em quais particularidades) produziriam a felicidade

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do Estado – teríamos, então, Megilo e Clínias, que descrever essas
coisas novamente, recomeçando do início – a menos que não
tenhamos nenhuma, objeção às nossas prévias afirmações.

“O ateniense” começa a argumentar em cima do exemplo do quarto Estado (a
confederação formada por Argos, Messênia e Lacedemônia) para explicar como
deveriam ser resolvidos problemas de hierarquia entre esses Estados.153

E encerra a questão da hierarquia com o pressuposto de que “dois Estados
deveriam sempre se unir contra o terceiro sempre que este desobedecesse as leis”,
em 684b.

Passa, então, a discorrer sobre a relação entre os legisladores e o povo,
sobre a criação e mudanças nas leis e sua repercussão. De acordo com “O
ateniense”, após a invasão do Peloponeso pelos dórios, e as constituições e leis de
Argos e Messênias terem sido destruídas, somente teria restado estável a
Lacedemônia, apesar de todos acreditarem que seus sistemas eram estáveis e
resistentes.

A partir de então o estrangeiro, em 686d-e, passa a analisar como uma união
política tão promissora teria se arruinado e suspeita que não teria sido feito um bom
uso dela.

Em seguida, leva “Megilo” a concluir que a culpa da ruína do quarto Estado
teria sido de seus legisladores ao agirem em função dos próprios desejos. “Megilo”
ressalta em 687e:

Megilo: Compreendo o que queres dizer. O que pretendes dizer, a
meu ver, é que aquilo que um homem deve suplicar e anelar pelos
seus votos não é que tudo caminhe segundo seu próprio desejo –
visto que seu desejo de maneira alguma acata sua própria razão. É
sim pela vitória da racionalidade que todos nós – tanto Estados
quanto indivíduos – devemos suplicar e lutar.

153
Temos em 684 b: O ateniense: (...) Ora, o que aconteceu realmente foi o seguinte: cada uma das
três casas reais e as cidades a elas submetidas juraram entre si segundo as leis que haviam
estabelecido obrigando tanto governantes quanto súditos, que os primeiros com o passar do tempo e
o progresso da raça se conteriam no sentido de não tornar sua autoridade mais severa, e que os
segundos – enquanto os governantes se mantivessem fiéis a sua promessa – jamais transtornariam a
monarquia eles mesmos, como também não permitiriam que outros o fizessem; e ambos,
governantes e povos submetidos, juraram que os reis deveriam auxiliar tanto reis quanto povos em
caso de injustiça, e os povos tanto povos quanto reis em caso idêntico. Não era isso?
Megilo: Era.

ao dizer que está é a mais importante quando da confecção de uma lei: O ateniense: (. . Por isso. 93 “O ateniense” o corrige. ele expõe os tipos de títulos ou direitos de autoridade e de obediência. Em 695e a 696a. e começa a expor sobre como teriam ocorrido os ápices e decadências do império persa. (. “Clínias” o questiona quanto às metas atribuídas ao legislador no que diz respeito à amizade.. é essencial que uma constituição encerre elementos dessas duas formas de governo se quisermos que disponha de liberdade e amizade combinadas com a sabedoria”. Em 693b-c “O ateniense” explana sobre como deve ser um Estado e o que deve observar o legislador: O ateniense: Defendemos a ideia de que um Estado deve ser livre. sustentei que enquanto conforme vossa injunção as leis fossem moldadas tendo como referencial apenas uma das quatro virtudes. faz um elogio a virtude cardinal da sabedoria. a qual é a sabedoria (…).) A injunção que apresentastes é que o bom legislador tinha que moldar todas suas leis com vistas na guerra. passando pela educação. de acordo com ele. abordando que o problema foi a ignorância dos interesses da humanidade. era realmente essencial considerar a virtude total e acima de tudo dar conta da principal virtude entre as quatro. como vimos. Em seguida. os persas nunca mais tiveram um único grande rei. A partir daí. o estrangeiro faz diversas considerações. o legislador devendo desempenhar seu trabalho visando isso. não devendo nos perturbar a multiplicidade de expressões que possamos encontrar. dizendo que apenas a Lacedemônia conseguiu sobreviver e não cair na tirania. racional e amigo de si mesmo. ao que “O ateniense” passa a responder afirmando que há duas formas possíveis de constituição (a monarquia e a democracia): “Ora.. mas sim a mesma..) É preciso refletir que a sabedoria e a amizade quando colocadas como a meta a ser atingida não são realmente metas distintas. em 693d. reiterando a posição adotada em A República. eu. por outro lado. à sabedoria e à liberdade.. afirma que de Dario até o momento onde escreve. em 688b. o governo deve ser confiado aos sábios. acusa os reis de Argon e Messiênia de transgredirem tais direitos e os culpa pela ruína do mundo grego.

portanto. os atenienses. meus amigos. seja atribuindo ao dinheiro o posto da honra. pois em matéria de refúgio contavam com eles próprios e com os deuses.) destruíram no Estado os laços de amizade e camaradagem.. o estrangeiro conclui sua exposição sobre o Estado persa. O intuito dessa análise é mostrar como se faz mister a existência de leis coercíveis para provar que a liberdade plena sem os grilhões de qualquer autoridade é sumariamente inferior a uma força de governo moderado sob o comando de magistrados eleitos. será responsável por infringir tanto o sagrado quanto o político. disposto no livro II de A República.. Então.154 Disso. E se qualquer legislador ou Estado transgredir essas regras. “O ateniense” afirma. em 698b. passa a discorrer sobre a virtude da temperança e seu reconhecimento no Estado. em 697d: (. conseguiram não ser aniquilados. e em terceiro lugar os chamados bens substanciais e propriedades. em 697b-c. o conselho dos governantes não delibera mais no interesse dos governados e do povo. em 699b-c. sozinhos. 94 Após reconhecer a preocupação dos lacedemônios com a educação de ricos e pobres. na guerra contra os persas. sendo o modo correto o seguinte: deverá ser estabelecido que os bens da alma recebam as mais elevadas honras e venham em primeiro lugar desde que a alma seja detentora de temperança. que “sob as antigas leis. seja designando uma posição superior a uma das classes de bens inferiores. em 700a. nosso povo não 154 O ateniense: Declaramos. em segundo lugar viriam as coisas boas e belas do corpo. “e foi assim que tudo isso neles gerou uma amizade recíproca – tanto o medo que então os possuía quanto aquele temor engendrado do passado e adquirido devido a sua sujeição às leis mais antigas”. Na sequência. que um Estado que pretende durar e ser o mais feliz que for humanamente possível terá necessariamente que dispensar corretamente honras e desonras. Faz uma aproximação entre Atenas e o império persa no que diz respeito às respectivas falhas na legislação: os atenienses dão liberdade demais à massa do povo e os persas levam seu povo à escravidão extrema. . mas somente no interesse da manutenção de seu próprio poder. o ateniense propõe. que se analise a constituição da Ática. o estrangeiro explica o motivo pelo qual. Nesse sentido. A lição que se tira é a necessidade de criarmos leis coercíveis no plano sensível. E quando estes são destruídos. Essa ilação do ateniense corrobora com o nosso capitulo anterior e dá força ao argumento apresentado por Glauco com a Exposição do Mito de Giges.

e que a melhor forma de governo acontece quando há uma devida medida de governo despótico e de governo da liberdade. por localizar-se longe da costa. uma vez que seu nome é menos importante. voluntariamente escravo das leis”. porém. como se conhecessem a d i f e r e n ç a entre a música bela e a feia. Deveres perante os pais. um tal resultado não teria sido tão seriamente alarmante. e em lugar de uma aristocracia da música nasceu uma vil teatrocracia. a unidade e a racionalidade do Estado para o qual legisla”. 701a:155 O ateniense: (…) Como consequência. com autossuficiência para a produção interna e sem outros Estados em suas proximidades. Em 700e.2. da maneira que tudo aconteceu. “A divindade é a medida de todas as coisas”. 155 Aqui. O legislador e o médico e o prelúdio ou preâmbulo “O ateniense” inicia o quarto livro indagando-se sobre o que virá a ser o novo Estado. como se verifica em 704d. O acaso e a ocasião. se esse Estado deverá localizar-se no interior do continente ou na costa marítima. 95 detinha controle sobre coisa alguma.4 Livro IV – Os homens de virtude. além de outras proibições. e na música a p e n a s houvesse surgido uma democracia de homens livres. . não podemos ter leis tão livres como as de Atenas. “O ateniense” fecha sua explanação afirmando “que o legislador tem que visar em sua legislação três objetivos: a liberdade. por assim dizer. No entanto. nem tão duras como a dos Persas. Depois expõe que o Estado descrito por “Clínias”. como se crendo-se competentes os indivíduos perdessem o medo. especificamente. Portanto. com o tempo surgiram compositores que começaram a transgredir essas leis e levar todos a fazerem o mesmo. mas era. Assim. que não detém o conhecimento verdadeiro. em 701d. não seria inadequado para a aquisição da virtude. ainda que possua portos em um de seus lados. podem causar em uma pólis com suas apresentações. em 700b. 6. pois se na música. inclusive das leis que proibiam “fixar um tipo de letra a um diferente gênero de melodia”. na esteira da presunção universal da sabedoria total e do desprezo pela lei originados no âmbito da música veio a liberdade. o audácia gerando o atrevimento (…). novamente vemos uma clara referência à nocividade que os artistas. as plateias se tornaram loquazes em lugar de silenciosas. Formas de governo.

“Clínias”. 96 O ateniense: (…) Então tal Estado não seria irremediavelmente inadequado para a aquisição da virtude. dispor de bons portos. Em 707a: O ateniense: Assim. dotado de tais características. O estrangeiro ainda explica que num Estado onde se pretende adquirir costumes nobres e justos a superfície acidentada é um fator benigno uma vez que impede. pois até leões. “O ateniense”. argumenta que já em Homero se encontra a crítica à existência de uma infantaria naval ao lado de soldados combatendo em terra. O estrangeiro retoma a discussão dizendo que o que se está analisando é i) a excelência política. pois se tivesse que se localizar na costa marítima. submeteu todo o povo da Ática a pagar-lhe pesados tributos. em que Odisseu repreende Agamenon por querer zarpar do litoral troiano.. e consequentemente não conseguiam imitá-los.. no entanto. . acabariam se acostumam a fugir das corças! (. ilustra seu argumento com o exemplo de quando Minos. a produção em abundância. Ao que “O ateniense” contra- argumenta que foram as batalhas terrestres de início e término dessa mesma guerra que lhes garantiram a vitória. Com a citação de um trecho da Odisseia. o que impossibilita do Estado se inundar de moedas de ouro e prata advindas da exportação. também Homero estava ciente do fato de que trirremes alinhadas no mar nas proximidades da infantaria combatendo em terra não são boa coisa.). em 706 e. tornando-se um povo de marinheiros. relembra-o de que foi a batalha naval em Salamina (travada contra os bárbaros) que salvou a Grécia. embora produza tudo. que possuía uma frota naval muito poderosa. se tivessem esses hábitos. Como os áticos não possuíam arsenal de belonaves nem era rica de madeiras para a construção destas. que indicaria um sinal de covardia e redenção. Depois de postular que uma lei é incorretamente promulgada quando não visa à virtude ou quando tende apenas para uma parte dela. evitar uma multiplicidade de costumes tanto suntuosos quanto vis. mas ser deficiente em muitos produtos em lugar de produzir tudo. Outra característica natural da região que será nociva ao Estado é a falta de material que sirva para a construção de embarcações. necessitaria um poderoso preservador e legisladores divinos para. destituído de valores honrosos se curvando aos inimigos.

no entanto. produz qualquer lei. 97 ii) o caráter natural de um país. diz que estava na iminência de argumentar que nenhum ser humano mortal. . mas sim a conquista de todo bem. Em 707c-d: “Mas visto que o nosso presente objeto de discussão é a excelência política. questiona “Clínias” sobre qual povo deverá instalar-se no Estado: O ateniense: Na sequência diz-me: qual é o povo a ser instalado? Será este constituído por todos aqueles que desejam deixar qualquer parte de Creta supondo que em cada uma das cidades a população tenha superado o número de cidadãos que o solo da região pode alimentar? Em 708c-d. que as produzem para nós – seja uma guerra que violentamente derruba governos e altera as leis. língua e cultos religiosos. acima de tudo. em verdade. seja a penúria causada pela pobreza aviltante.156 “Ao acaso e à ocasião”. em que um grupo heterogêneo mais facilmente adapta-se a um conjunto novo de leis. a legislação e a fundação de Estados são empreendimentos que exigem que homens aprimorem. nota-se claramente que “O ateniense” pondera duas situações: a) a primeira em que um povo homogêneo. e iii) suas instituições legais. os assuntos humanos são quase todos produtos do puro acaso. mas que é difícil fazê-los coparticipar num mesmo espírito. os quais ocorrem de todas as maneiras. mais facilmente cria amizade dadas as suas semelhanças. no entanto. em 709a. o que estamos examinando é o caráter natural de um país e suas instituições legais (…). A propósito da discussão sobre os legisladores. então. em 709b: 156 O ateniense: Eu estava na iminência de dizer que indivíduo humano algum jamais produz leis. mas que são os acasos e acidentes de todos os tipos. Essa advertência serve para despertá-los que não se considera a mera segurança e a manutenção da existência como o mais precioso a ser possuído pela humanidade. “o ateniense”. ajunta-se a supremacia divina em controlar ‘tudo o que é’ e a arte inerente a todos os ofícios. mas dificilmente aceita um conjunto de leis que difira das antigas que conhecem e cultuam. diz “O ateniense”: “Mas. que partilha da mesma raça. e b) a segunda.” Ele. outros homens na virtude”. em 708d.

. está plantada a semente da melhor 157 O ateniense: (…) O passo mais fácil é a partir de uma monarquia despótica. se admitirmos que esses dois elementos são acompanhados por um terceiro. que vem em quarto lugar na ordem. o princípio da melhor legislação. sucedida pela democracia e em quarto lugar. e que aquela qualidade que anteriormente mencionamos acompanhe necessariamente todas as partes da virtude (.. . A partir de um engano de “Clínias” quanto à melhor forma de governo e a sua sucessão. sobre em que condições deve estar o Estado para que ele possa legislar mais facilmente. então. o próximo mais fácil de uma monarquia constitucional e o terceiro a partir de alguma forma de democracia. portanto. na qual existirem o menor número de condutores. considerando que a melhor forma de governo é a monarquia despótica. em 709e: O ateniense: Eis o que ele responderá: ‘dá-me o Estado com um soberano despótico e que este seja por natureza detentor de boa memória. pois em tempo de tormenta que a arte do timoneiro coopere com a ocasião (…). Será menos duro.). “O ateniense” se põe a discutir a hierarquia das formas de governo. Nesse momento “O ateniense” simula uma pergunta a ser feita ao legislador. meus amigos. apto no desempenho da sua arte. e que o acaso e a ocasião cooperam com esse deus no controle de todos os assuntos humanos. pois considera que é melhor a forma de governo. jovem. 98 O ateniense: Que há um deus que controla tudo que é.157 As mudanças necessárias ao melhor Estado são realizadas. entretanto. tente nos persuadir que um Estado possa jamais alterar suas leis mais rápida ou facilmente por outro meio além do norteamento pessoal dos governantes (…). coragem e maneiras nobres. seguida da monarquia constitucional. afirma-se que: “Que ninguém. a arte. quando há um verdadeiro legislador e quando a sua opinião política é partilhada pelos indivíduos mais poderosos.” “O ateniense” postula. Em 711c. em 712a: “(…) sempre que o poder supremo reúne num indivíduo humano sabedoria e temperança. somente mediante a maior das dificuldades permitiria o desenvolvimento do melhor Estado já que é a forma de governo na qual existe maior número de condutores. a pior forma de governo é a oligarquia. E assim a apresenta em 710e. dotado de facilidade de compreensão. Ao que ele próprio responde. Uma oligarquia.

e começam a dizer-lhes como devem se portar perante a divindade.) Dá-se então a narrativa do mito da idade de ouro (uma era venturosa na qual a vida humana era suprida em abundância e sem que se precisasse trabalhar por isso).) o legislador classificará como justas as leis assim promulgadas. mas em que a responsabilidade pelo governo da sociedade (dado que Cronos entendia que o poder nas mãos do homem é corruptível) fora entregue a uma divindade (os dáimons). De acordo com o estrangeiro. assim. preservando-lhe a felicidade. em 714d. punindo todos aqueles que as violem como culpados de injustiça”. uma oligarquia ou uma democracia encerram uma alma que se empenha pelos prazeres e apetites. 99 constituição e da melhor legislação. dando a essa ordenação da razão o nome de lei. Para impedir que haja luta pelo poder. buscando empanturrar-se deles. Uma raça superior. governava sobre uma inferior.) a divindade será ‘a medida de todas as coisas’ no mais .. em 713e.. então. “Clínias” e “O ateniense”.. incapaz de continência e presa de um mal interminável e insaciável. 714a: O ateniense: (…) tal como a tradição a retrata. Sendo assim. o mais elevado cargo (o serviço aos deuses) ao primeiro destes. ordenando tanto nossos lares quanto nossos Estados segundo o acatamento ao elemento imortal no nosso interior. e de nenhuma outra maneira chegar-se-á a isto. se uma autoridade de tal espécie. Mas se um indivíduo humano. um governo não produz leis que não garantam a sua permanência no poder. “O ateniense” argumenta em 715c sobre como devem ser organizados os cargos aos homens: O ateniense: Os cargos deverão caber aos homens que se destacam na obediência às leis e estendem esta vitória ao Estado. explica: “(. então não haverá (como eu disse há pouco) nenhum meio de salvação.” (grifo nosso. e os demais cargos sendo necessariamente distribuídos de maneira análoga e sucessivamente a todos esses homens. “O ateniense” conclui.. Afirma que “(. simulam que os imigrantes desse grandioso Estado a se formar chegam. chegar a governar um Estado ou indivíduo pisando sobre as leis. o segundo cargo ao segundo destes.

o resgate a idade de ouro. mas tentemos pensá-las de uma tal maneira. concidadãos que devem ser obedecidas de acordo com as regras da hospitalidade e punidas através da aplicação da lei. não pode realizar mais de uma postulação de conduta. o poeta evidencia tanto os bons quanto os maus costumes. Depois. por sua vez. já que contamos com a possibilidade de conseguirmos afirmar algo definitivo a respeito delas”.. enquanto aquele que não é temperante será dessemelhante e hostil a ele – como também aquele que é injusto. já que é semelhante a ele. Assim sendo. e nesse contato com o divino. O estrangeiro. Dever- se-á sempre venerá-los. em especial a Protágoras que afirmava que o “homem é a medida de todas as coisas”. isso porque este acredita que somente em deus. Segue-se a isso as obrigações com os filhos. amigos.. e assim e modo análogo com o restante. o culto aos dáimons e aos heróis. mantendo viva a memória deles quando se vão. e de acordo com o presente raciocínio aquele que entre nós é temperante será caro ao deus. modelo único de formulação. de um caráter semelhante. ainda que não necessariamente se prestem bem a uma formulação sob a forma de lei. através da imitação (mimesis). adverte que a obra dos poetas não deve ser admitida sem controle pelo legislador uma vez que.)”. que pretende se tornar caro a um tal ser precisa se empenhar com todas as suas forças para se tornar na medida do possível. apresenta outras matérias sobre as quais o legislador terá que regulamentar. por paridade de raciocínio. . 158 Clara referência aos sofistas. Aqui está o cerne da teoria jusnaturalista em Platão. parentes. em 718c: “Não é nada fácil abarcá-las todas num. “O ateniense” lista os deveres para com o culto dos deuses. por assim dizer. a necessidade de respeitá- los acima de todas as coisas e de prestar-lhes honras enquanto vivos.158 em 716c-d: O ateniense: Aquele. bem como de oferecer-lhes a melhor possível das cerimônias fúnebres. é possível acessar a lei justa. Segue-se a relação de deveres perante os pais. 100 alto grau – um grau muito mais alto do que aquele em que está qualquer ‘ser humano’ (. devendo a mais ponderada delas tornar-se lei. portanto. então. quando falecidos. O legislador.

segundo ele. o primeiro sendo aquele que apenas postula a lei e a sua punição caso descumprida. o orador e seus ouvintes tratassem da questão do grau de zelo ou negligência que as pessoas devem utilizar com respeito às suas almas. Tudo o que disseram até o momento não passou de prelúdio às leis. com certeza é conveniente e do maior interesse comum que. além de apresentar a coibição a um comportamento ilegal. E continua em 723a-b: “Assegurar que a pessoa a quem o legislador endereça a lei aceite a prescrição com tranquilidade. E é a discussão que seguirá no próximo livro. No epílogo. No entanto. o conspícuo objetivo do orador ao proferir seu persuasivo discurso”. eu supunha.160 159 720e: O ateniense: Qual dessas duas formas da medicina revela o melhor médico. e em matéria de treinamento. sem que tenham de fato começado a postulá-las. seus corpos e seus bens. . 101 À maneira do ofício dos médicos.159 O estrangeiro nota mais um terceiro requisito que deve estar presente nas leis. aquele que. 160 O ateniense: Bem. e devido a esta tranquilidade a aceite com docilidade era. persuade sobre os motivos por que não realizá-lo. em cada caso. em 724a-b. e neste caso a pior maneira das duas e a menos humana? Clínias: Acredito. a critério do legislador. seus corpos e seus bens. E precisamente esta a formulação que precisamos realmente fazer e escutar a seguir. estrangeiro. e sobre isto ponderar e assim ampliar sua educação na medida do possível. que o método duplo é sem dúvida o melhor. juntamente com os assuntos mencionados. o estrangeiro ressalta ser necessário agora discutir o grau de zelo ou negligência que as pessoas devem utilizar em relação as suas almas. o simples e o duplo. o prelúdio às leis é constituinte das verdadeiras leis políticas. antes. O ateniense: Desejarias que examinássemos o método duplo e o simples também em sua aplicação nas legislações? Clínias: Com toda a certeza eu o desejaria. Assim sendo. o melhor treinador? Deverá o médico executar uma única função idêntica de duas maneiras ou de uma maneira apenas. o prelúdio ou preâmbulo às legislações. “O ateniense” versa sobre como há dois tipos de métodos na aplicação da legislação. e ele deve ser deixado. em 722d: “(…) todo discurso e toda expressão vocal contam com prelúdios e preliminares que produzem uma espécie de preparação em apoio ao desenvolvimento posterior do assunto”. e o segundo.

organização do Estado.2. sanções de origem humana.) nada mais apropriado do que a alma para evitar o mal. 102 6. devendo estes ser valorados numa escala similar. e devo fazer como aconselhaste”. pelo que a alma está classificada em segundo lugar na ordem das honras”. os bens. graus de excelência das constituições O quinto livro apresenta-se como um longo monólogo do estrangeiro ateniense (à parte o último comentário de “Clínias” ao final do livro).5 Livro V – A alma e o julgamento. temores. . Sendo o primeiro dos bens os deuses. o forte. os de maior temperança e estabilidade pois se um extremo torna as almas soberbas e orgulhosas. distribuição da renda. o corpo digno de apreço não é o corpo belo. o estrangeiro passa então a discorrer sobre o terceiro: o corpo.161 Ele começa apontando a ordem em que devem ser honrados os bens dos seres humanos. também não está honrando sua alma. dificuldades e dores e o ser humano se esquiva a estes em lugar de suportá-los com firmeza. o célere. E quando alguém cede aos prazeres contrários ao conselho e recomendação do legislador. quando 161 747e: “Clínias: Disseste-o bem. Os corpos que ocupam a posição mediana entre todos esses extremos opostos são. e depois de apreendê-lo viver com isso pelo resto de sua vida. localizar e aprender tudo que há de melhor. em 728d. nem o grande e nem mesmo o corpo saudável. modo algum. e ainda no caso oposto. com larga vantagem. a vida digna. E exemplifica.. é a própria alma que nos dota da capacidade de julgamento. o corpo. E. tal esquivamento não confere honra nenhuma a sua alma pois mediante todas essas ações ele a deprecia. a função do legislador é investigar quais as formas genuínas e falsas das honras do corpo. estrangeiro.. mas sim a desonrando ao carregá-la de infortúnios e remorsos. a alma. não é tampouco o corpo que reúne as qualidades opostas a estas. 729a: O ateniense: Ora. mediante isso está honrando sua própria alma. imaginando que. isentando-se a si mesmo sempre da culpa. embora muitos creiam nisto. quando se recomendam esforços. santuário e deuses. Para “O ateniense”. verifica-se em 728d: “(. e sim a ofendendo. o outro as torna vis e mesquinhas. não o estará fazendo de. o segundo. O mesmo se aplica à posse de bens e riquezas. em 727b-c: O ateniense: (…) quando um ser humano imputa sempre a outros e não a si mesmo a responsabilidade por suas faltas e a dos males mais numerosos e mais graves. ele – suponho – declara que as honras são as seguintes e dos seguintes tipos. para ele.

oferece sua teoria baseada na matemática e na busca do termo do meio. 733a: O ateniense: (…) deve-se recomendar a vida mais nobre não só porque exteriormente seja superior em termos de boa reputação. para isso. Após ter tratado das regras de sanção divina. advertir as pessoas mais velhas para que respeitem os jovens e. se acautelem para não serem jamais surpreendidas por um jovem fazendo ou dizendo algo vergonhoso. praticar por toda nossa vida aquilo pelo que repreendemos os outros. Percebe-se em 732e. Lembra então. acima de. 1997 (1106a-b). Além de Aristóteles. em 729b-c: O ateniense: O legislador prudente deverá. pois ali onde os velhos são impudentes. − Ambicionar a conquista da virtude sem. − Todo homem tentar dissimular toda exibição dos extremos de alegria e tristeza e cobrar dos outros homens a mesma postura (732c-d). “O ateniense” passa a discorrer sobre a educação dos jovens. geram animosidades e conflitos tanto no Estado como no âmbito particular e quando deficientes geram. mais digno ainda. maledizer os outros (731). 732 b). Em seguida. antes. E então explicita o caráter de uma vida digna: − Dizer a verdade e. “O ateniense” passa a discorrer sobre como os cidadãos devem se relacionar entre si e com os estrangeiros. servidão. vigiar para que os outros também o façam (730c-d). via de regra. Pitágoras. . 103 excessivos. “O ateniense” passa a formular aquelas de origem humana: prazeres. os jovens fatalmente o serão ainda mais: o modo mais eficiente de educar os jovens – bem como as próprias pessoas mais velhas – não é repreender mas sim simplesmente. ou os deuses podem intervir. − Amar-se a si mesmo moderadamente para evitar os maus julgamentos (731e. − Conter e abrandar a cólera contra os cometedores de erros e dar livre curso à ira contra o perverso e irrecuperável (731b-d). mas também porque se alguém consente em gozá-la e não evitá-la 162 Essa posição muito se assemelha ao meio termo proposto por Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco. como vimos. tudo.162 Após essa analogia entre a posse de bens e riqueza com as qualidades do corpo. Brasília: UnB. dores e desejos.

do corajoso e a saudável.. via de regra. 736a: O ateniense: A melhor depuração é dolorosa. ou seja. e com a do corajoso em relação à vida do covarde.) ficando claro agora (se acertado for o nosso argumento) que para ninguém é possível ser licencioso voluntariamente. afasta os maiores criminosos que são irrecuperáveis e causadores de sérios danos ao Estado. mas inferior em dor. a do tolo. o legislador pode considerá-los como um mal inerente à cidade e despachá-los para o exterior o mais delicadamente possível. 104 na juventude. a vida do corajoso triunfa sobre a do covarde e a do sábio sobre a do tolo. será igualmente superior naquilo que todos os indivíduos humanos cobiçam: o máximo de prazer e o mínimo de dor ao longo de toda a existência. e já que uma vida é superior à outra em prazer. usando um eufemismo emigração para designar sua evacuação. como todos os medicamentos efetivamente eficazes (são amargos): é aquela que arrasta as punições por meio da justiça associada à vingança. mesmo que afirme que. Com tal postulado. ele indica os tipos de vidas possíveis de serem vividas: a da temperança. a correção aos indivíduos malfeitores). do covarde. Uma forma mais suave de depuração é a seguinte: quando devido à escassez de alimento os carentes se predispõem a seguir líderes que os conduzem ao saque das propriedades dos ricos. e seus tipos opostos. rapidamente. Em 734b: (.) Afirmaremos.. De onde ele conclui que a vida da temperança proporciona prazeres brandos bem como dores brandas. em 734c-d: (. esta depuração. onde os prazeres têm maior peso que as dores. conclui. que já que a vida de temperança abriga sentimentos mais modestos. então. Considera as diferentes formas de depuração (isto é. do sábio. o mesmo acontecendo com a vida do sábio em relação à vida do tolo. do licencioso e do enfermo. para o novo Estado. .. não há ainda a necessidade de impô-las aos cidadãos. esta coroando com o exílio ou a morte. ou devido a ambas que a maioria esmagadora da humanidade vive vidas nas quais a temperança está ausente. Em 735d. Assim. é devido à ignorância ou à incontinência. E. para entender como é essa vida mais nobre. mais escassos e mais leves que a vida licenciosa.. encerra o que chamou de “o prelúdio de nossas leis” e vai passar agora a elaborar seus argumentos para a organização do Estado.

o planejamento para uma correta distribuição é. mas por ora.163 O meio para se escapar dessa situação. e de acordo com as orientações dos oráculos. Apresenta um plano em que podemos indicar as constituições divididas em três graus de excelência. 165 “Essa constituição de que agora nos ocupamos. a números. Em 736c-d. No que concerne. seja visando a todos os propósitos da paz ligados a contribuições e distribuições. Em seguida é necessário que se chegue a um consenso quanto à sua distribuição em classes e qual a sua dimensão. em 737d. 5040. se a divindade assim o quiser. portanto. Depois. dispõe acerca do número moderado e ideal de habitantes. sendo estes consecutivos de um a dez. que esse princípio se torne pré-fixado. enquanto o número 5040. E. em 738d. não lhe restando meio algum a não ser o que poderíamos chamar de piedosa aspiração e mudança cautelosa. todo homem que está produzindo leis tem que entender ao menos qual número e qual tipo de número será o mais útil a todos os Estados. seja visando à guerra. se viesse a ser. O que seria. a terra e as habitações sendo divididas igualmente no mesmo número de partes. cinco e assim por diante até dez. Comecemos por dividir o número total por dois. caso ela se coloque. A primeira delas sendo a em que mais claramente se possa observar o dito “amigos têm todas as 163 O ateniense: Pois quando um Estado se vê constrangido a legislar o assunto dessa disputa não é capaz nem de deixar inalterados os interesses assentados nem alterá-los de alguma forma. Agora. Escolhamos aquele que contém as mais numerosas e mais consecutivas subdivisões. em primeiro lugar. O próximo passo no estabelecimento das leis é a análise e a proposição da hierarquia das constituições. depois o dividamos por três. O que viria em terceiro nós o investigaremos na seqüência. 105 Também é motivo de boa sorte que o novo Estado não enfrente o conflito brutal e perigoso concernente à distribuição da terra e do dinheiro.165 em 739b. em 737. nos perguntamos. admite como divisores não mais que 59 divisores. pouco a pouco estendidas sobre um longo período (…). A série numérica completa compreende todas as divisões para todos os propósitos.164 Passa então a discorrer sobre como o legislador deve dividir os santuários e os deuses e dáimons a serem adorados de forma equânime. 738b. qual é a segunda melhor constituição e como poderia assumir um tal caráter?” Embora faça menção a uma terceira constituição não a detalha nesta obra. ao longo do território do Estado. continua. a saber. e em seguida na ordem natural por quatro. que a distribuição dos bens dos cidadãos deverá se dar de forma que não suscite nunca conflitos internos. um homem e seu lote formando um par. . 164 O ateniense: Suponhamos que haja – como um número adequado – 5040 habitantes a serem detentores de terras e defensores de seus lotes. e o motivo matemático que o justifica. dever-se-á distribuir da maneira mais justa terras e habitações. traçando inícios para uma visão comunista. a fixação do número total de cidadãos. seria muito próxima da imortalidade e viria em segundo lugar do ponto de vista do mérito. “consiste em renunciar à avareza com a ajuda da justiça”.

Nesta perspectiva. formação e treinamento que supomos. Em 739e-740a. tão verdadeira e excelente que ninguém jamais formularia outra definição. ou seja. a fala do ateniense deixa uma indicação de buscarmos uma constituição que muito se assemelhe com essa. que é sua terra natal. o que é praticamente indispensável aos artesãos e a todos aqueles que precisam dessas coisas para pagar os mercenários. Por essas razões afirmamos que nosso povo deveria possuir moeda cunhada com valor circulante legal entre seus integrantes. o princípio de manutenção do número de habitantes deve sempre ser preservado. viveriam apenas os “deuses ou filhos de deuses – os habitantes viveriam agradavelmente segundo esses princípios (. devemos nos inspirar na organização dos deuses para que possamos fazer uma mimeses dessa perfeição.) devendo nós sim nos aferrarmos a esse e com todas as nossas forças procurarmos a constituição que a ele se assemelhe o máximo possível. 106 coisas realmente em comum”. para a organização da pólis... consequentemente. escravos ou imigrantes. recorrendo-se à métodos de controle populacional tanto para o excesso. mas sem valor alhures. E que a distribuição seja feita com esta intenção. diz o que segue: O ateniense: (…) Que nossos colonos dividam a terra e as habitações mas não cultivem a terra em comum. . Entretanto. à exceção de moedas para as permutas diárias. visto que uma tal prática estaria além da capacidade de pessoas do nascimento. com maior diligência do que uma mãe cuida de seus filhos (. ou seja. ou seja. Ainda em relação à segunda melhor constituição. Passa-se a discorrer sobre as propriedades ruins do lucro excessivo e sobre que leis deverão ser redigidas para que se regule a prática do comércio. em 742a: O ateniense: (…) segue-se ainda uma lei que proíbe a todo cidadão a posse particular de ouro e prata... quanto para a escassez. algo que reside no campo inatingível para o corpo e. que o homem que recebe seu lote ainda assim o considere como propriedade comum de todo o Estado e que cuide da terra. em 739a-d. Quanto ao segundo tipo de constituição Platão mostra que a ideia de propriedade particular é algo avesso a sua teoria. Essa constituição refere-se a uma organização perfeita. Essa primeira constituição trata da proposta de uma constituição inteligível.).

deve doar o excedente ao Estado sob a pena de multa. Caso algum cidadão. Como é cediço. terá suas leis corretamente formuladas se prescrever as honras seguindo a ordem de importância que ele descreve. deve-se dividir os cidadãos em quatro classes. . ser rico não está no termo do meio e. o interesse pelo corpo. A seguir. Posteriormente o estrangeiro passa a discorrer sobre a organização interna do Estado. discorre sobre a situação da cidade e a divisão do conjunto do território e da disposição dos cidadãos nesses territórios. e em primeiro o interesse pela alma.. em 745e. É necessário ao Estado não permitir que nenhum dos seus cidadãos desfrute de uma condição de penúria ou de riqueza. na riqueza financeira não reside a felicidade plena. nos termos especificados em 745b-e.166 A forma de governo. ou seja. em 743c: “Tudo isto comprova a veracidade do que afirmamos. O limite da pobreza e da riqueza é traçado em relação ao valor do lote (o máximo de riqueza permitida sendo até quatro vezes maior do que o valor do lote e o da pobreza não podendo ser inferior a um lote).) se doar o excedente ao Estado e aos deuses que zelam pelo Estado. venha a receber uma fortuna. Aristóteles crê que a ética consiste no caminho. Em 745a: “(. será alvo de boa estima e estará isento de punição (…)”. 746b: O ateniense: Mas temos de todo modo que observar isto. e sobre como. como postura de vida. o interesse pelo dinheiro deve ser o terceiro. se torna uma deficiência moral. em segundo. por conseguinte uma das virtudes da alma que residem na ética é a excelência moral que tem como um de seus pressupostos o termo do meio. para a busca da felicidade. para garantir chances iguais na vida pública. de todos os três objetos que interessam a todo indivíduo. depois. ou seja. portanto. cabendo ao legislador declarar o limite para ambas as condições. Na sequência ele prevê as críticas que tal organização tão rígida poderia acarretar. que todas as disposições que foram agora descritas provavelmente jamais encontrarão tais condições favoráveis de maneira a todo o 166 Tal afirmação nos remete a assertiva aristotélica em 1094a de Ética a Nicômaco: “o bem é aquilo que todas as coisas visam” e que o maior bem de todas as coisas é a eudaimonia. No exemplo em epigrafe. que os muito ricos não são bons e não sendo bons tampouco são felizes”. 107 Ele continua discorrendo sobre o tópico e conclui. portanto. ou seja. por qualquer motivo..

Ao discorrer sobre os benefícios do conhecimento das artes divinas (de que a matemática participa). Então. uma cidade e cidadãos de cera. Assim. tem-se que produzir a obra em todos os pontos coerente consigo mesmo. o que significa boa ou má nutrição para os corpos. a aproximação desses ideais. diferença natural contra a qual nossa legislação não pode se chocar. uma vez que em qualquer tarefa. Megilo e Clínias. por assim dizer. “O ateniense” fecha o livro argumentando sobre as diferenças dos povos de região para região. constitui um ponto que não podemos deixar de notar. ao máximo possível. aconselhando a “Clínias” que dê atenção a esse aspecto. Alguns locais são desfavoráveis ou favoráveis em função de ventos de diversos tipos ou ondas de calor produzidas pelos raios solares. ou seja. Ao que ele contra-argumenta que a prerrogativa do legislador deve ser sempre tentar. com as moradias instaladas no centro e em círculo. em 747b. o longo monólogo do quinto livro apresenta a questão dos bens. 108 programa poder ser implantado de acordo com o plano. em 747d-e: O ateniense: (…) Pois isto igualmente. tendo também (os cidadãos) que se submeterem aos arranjos que o legislador determinou para o território todo inclusive a cidade. e estar privados de ouro e das outras coisas em relação às quais o legislador está claramente obrigado por nossas regras a proibir.quase como se ele estivesse contando meramente sonhos ou modelando. . outros por causa simplesmente dos produtos do solo. explica a utilidade geral da matemática e afirma que o legislador deverá ter isso em mente e prescrever esse conhecimento aos cidadãos: “nenhum ramo isolado da educação detém uma influência tão grande quanto o estudo dos números”. a saúde do corpo. o que requereria que todos os cidadãos não apresentassem objeções a um tal modo de vida conjunta e tolerassem estar restritos a vida inteira a quantidades fixas e limitadas de bens e ao tipo de estrutura familiar que mencionamos. a vida digna e propõe uma organização social com uma distribuição de rendas a fim de diminuir as desigualdades em uma clara possibilidade de se denotar um pensamento embrionário do comunismo. que alguns locais são naturalmente superiores a outros para gerarem indivíduos humanos de uma índole boa ou má. por exemplo. outros devido às suas águas. sendo igualmente capazes de provocar resultados similares também nas almas. como a do artesão.

discorre sobre a importância de que os primeiros oficiais a ocuparem os magistrados. 109 6. se essas leis puderem ser preservadas incólumes até que aqueles que as assimilaram na infância e que foram educados segundo elas e se tornaram plenamente habituados a elas participem das eleições às magistraturas em todas as partes do Estado – então. porém. que para ter legítimo acesso aos cargos oficiais os candidatos deverão em todos os casos ser completamente testados – tanto eles como suas famílias – desde sua infância até a data de sua eleição. em 752b- c. Pensam que essa aceitação não será imediata. que seus eleitores tenham sido educados segundo o acato à lei (…). “os guardiões das leis”. ao menos. nessa tentativa. então. a procriação O Livro VI propõe a discussão de como deverá o Estado ser organizado e. escravo. a meu ver. deixa claro que se faz necessário que os magistrados devem ser definidos juntamente com suas funções especificas e também que se estruture as leis diante desses magistrados. A seleção dos demais será uma tarefa menos séria.6 Livro VI – A escolha. o estrangeiro ateniense e Clínias se expressam quanto à aceitação da sociedade diante das novas leis propostas e seus magistrados. o Estado se manterá firme. casamento. que não acolherão prontamente nenhuma dessas leis no início. evidente. uma sólida certeza de que após esse período de transição de disciplinada adolescência. equiparação da mulher face ao homem.167 “Clínias”. ou seja. os tipos e a importância do magistrado. Clínias. Percebe-se a preocupação tomando forma em 751c- d: O ateniense: Percebes que é necessário. mas que se a partir do momento que forem criadas as novas crianças incorporarem essa nova organização e passarem à frente. Uma coisa é. em primeiro lugar. votações para os cargos da nova constituição. teremos. mas é imperioso que escolheis vossos guardiões da lei em primeiro lugar mediante extremado cuidado. 167 O ateniense: O fato de estarmos legislando para homens inexperientes sem recear se aceitarão as leis agora promulgadas. sejam escolhidos com a máxima atenção e excelência. Logo depois. o Estado será algo criado com bases sólidas e se manterá assim. .2. em segundo lugar. quando isso tiver ocorrido (na hipótese de se encontrar algum meio ou método para fazer com que ocorra acertadamente). Nota-se em 752d-e: Clínias: (…) como deveis também tomar o máximo cuidado para que os primeiros a ocuparem os cargos oficiais sejam nomeados do modo melhor e mais seguro possível. Estado e Religião. para todos – mesmo para a mente menos brilhante – ou seja.

como diz o provérbio. como ficarão delineados os papéis dos hoplitas (soldado da infantaria pesada). e do Conselho. a seleção dos magistrados ocorrerá da seguinte forma: da seleção irão participar todos aqueles que portam armas como integrantes da cavalaria ou infantaria ou aqueles que serviram na guerra se sua idade e capacidade o permitirem. o jovem Estado devendo empreender seus próprios esforços para assegurar-se segurança e sucesso. deverá se comportar. dos cavaleiros e dos hiparcas (general da cavalaria). incluirá seu próprio nome da mesma maneira. em 754d. desta vez até o número de cem. “um bom começo já é a metade ela operação”. incluindo o nome do pai deste. além de como será a eleição dos prítanes. 169 O ateniense: Isto feito. Os magistrados. pelo que me parece. isto é. além disso.169 Quanto aos estrategos. o estrangeiro observa como o novo Cnossos. Estado de Clínias. tanto agora quanto no porvir que nós os elejamos pura as seguintes atribuições: em primeiro lugar deverão atuar como guardiões das leis e em segundo lugar como guardiões dos documentos onde cada um deverá fazer constar para os magistrados o montante de seus bens (…). Ainda. magistrados supremos. pois. “O ateniense” dispõe sobre as formalidades que serão seguidas na nova Constituição. mais uma vez.170 Há ainda a necessidade de se estabelecer. na configuração das funções dos guardiões das leis. (…) além disso homens de modo algum medíocres. que é aliás o próprio nome que muitos lhes dão. 170 O ateniense: Os estrategos devem ser selecionados na sequência e como seus subordinados para fins militares os hiparcas. Quanto aos que integram os trinta e sete. “O ateniense” fala sobre como serão selecionados. os comandantes dos exércitos. exibirão publicamente os nomes dos primeiros indicados. uma assembleia será provisoriamente convocada pelos guardiões das 168 Aqui fica clara a ideia de buscar a inspiração divina para organizar a cidade. o nome de seu candidato. 110 Mais tarde. Nota-se em 755e. no caso da permanência da constituição. escrito numa tabuinha. os filarcas e os oficiais-ordenadores das fileiras de infantaria recrutadas nas tribos. eles realizarão a eleição no santuário que o Estado considerará o mais sagrado e cada um levará ao altar do deus168. mas do maior mérito possível. aí reside mais do que a metade e um bom começo nunca recebeu suficientes elogios (…). seria particularmente apropriada. Pode-se observar em 753b-e: O ateniense: Posteriormente. (…) Em seguida os cidadãos votarão novamente de maneira idêntica nos trezentos indicados de acordo com suas preferências. o de sua tribo e do demo a que pertence e. em 755c. para os quais a designação de taxiarcas. deverão os cnossianos voltar a viver em Cnossos. . ou seja. e todos os bons começo atraem a unanimidade dos elogios. em verdade. 756a: O ateniense: Antes da eleição dos prítanes e do conselho.

encontra-se a maneira como a manutenção dos templos deverá ser alcançada e de como a prevenção dos delitos dos seres humanos. confiaremos ao próprio deus (assegurando o próprio prazer deste) a escolha. em relação aos templos. a prevenção de atos danosos de seres humanos e animais selvagens e a preservação da devida ordem a ser observada nos limites da cidade e nos subúrbios teremos que selecionar três tipos de magistrados. sacerdotes e sacerdotisas. desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”. pois entre escravos e senhores jamais haverá amizade e nem entre patifes e homens honestos. a preservação das vias e edifícios.) Quanto aos sacerdotes. chamaremos de astínomos aqueles que se ocuparão das tarefas que acabamos de mencionar e de agorânomos aqueles que cuidarão da manutenção da ordem na ágora os sacerdotes ou sacerdotisas dos templos que detêm sacerdócios hereditários não serão afetados por nossas disposições. estabelecer um corpo sacerdotal composto de sacerdotes e sacerdotisas que serão guardiões dos templos para os deuses. teremos que. os cavaleiros e. (…) Só nos resta a indicação dos hiparcas.. que serão indicados pelas mesmas pessoas que indicaram os estrategos. 111 leis no sítio mais sagrado e mais espaçoso possível para aí acomodar. 1137b). .. em 756e. mesmo optando ocuparem posições com direito de igualdade visto que quando se concede a igualdade às coisas desiguais. Depois. do outro. sendo idênticos aos dos estrategos (…). Tal questão foi tratada posteriormente por Aristóteles com relação a equidade e a metáfora da régua de Lesbos (Ética a Nicômaco. “O ateniense” conclui. os astínomos e os agorânomos: O ateniense: Digamos agora que. e da ordem nos limites das cidades se estabelecerão. mas se – como muito provavelmente é o caso no que se refere a isso com um povo que está sendo organizado pela primeira vez – inexistir um corpo sacerdotal ou houver apenas alguns sacerdotes. para a manutenção da ordem das vias e edifícios. 757a que tal sistema: “(. teremos que contar com guardiões. No estabelecimento de todas essas magistraturas.. e é por causa dessas duas condições que as cisões estão maciçamente presentes nos regimes políticos. o sistema de eleição e a contra indicação. há um longo discurso sobre a forma que será adotada a respeito das votações para os cargos da nova Constituição e.”171 Em 759a. os hoplitas. o resultado será desigual a não ser que se aplique a devida medida.) de seleção dos magistrados consistirá num meio termo entre as constituições monárquica e democrática e a meio caminho entre estas deve estar sempre nossa constituição. efetuando a seleção por sorteio e assim 171 Daqui podemos inferir a máxima “tratar igualmente os iguais. (. aparecem mais funções para os específicos ofícios. então. de um lado.. Então. numa terceira posição. próxima a estes últimos. todos aqueles que pertencem às tropas militares.

dos exercícios físicos. os das mercadorias (os agorânomos). e dos edifícios. em 764c. de qualquer modo submeteremos o eleito do deus ao devido teste (exame) (. que suas qualidades devem ser primorosas. Vê-se em 765d: O ateniense: No setor de que estamos nos ocupando resta ainda um magistrado a ser definido. Percebe-se em 763c-d: O ateniense: A próxima etapa na nossa seleção de magistrados se refere aos agorânomos e astínomos. que estão encarregados tanto da disciplina e do ensino quanto do controle dos comparecimentos e da acomodação de meninos e meninas. principalmente sua oratória. Depois de tantas configurações em relação aos cargos dos magistrados.172 Os pensadores continuam na mesma seara.). 112 deixando a sua indicação a critério da sorte divina. ou seja. “O ateniense” retoma a discussão sobre os agorânomos e os astínomos.. que não deverá ter menos de cinquenta anos e que terá que ser pai de filhos legítimos de um sexo ou outro. Posteriormente. discutindo sobre as formalidades aplicadas à nova Constituição e sobre os cargos dos magistrados. os da cidade (os astínomos) e dos templos dos deuses (sacerdotes). surge uma nova questão. Aos sessenta agorânomos (guardiões do campo) corresponderão três astínomos. A lei entende por magistrados educadores os supervisores dos ginásios e escolas. Neste caso haverá um magistrado legalmente selecionado. Em 766d: 172 Essa proposta visa criar três tipos de guardas. o cargo de diretor geral da educação. que serão de dois tipos para cada setor – o magistrado educador e o magistrado controlador das competições. o diretor geral de toda a educação de membros dos dois sexos. que dividirão as doze porções da cidade em três partes e imitarão os agrônomos no cuidado das ruas da cidade e das várias estradas que penetram na cidade vindo do campo.173 Segue-se a conversa no sentido de dar corpo à Constituição. tão prezados em um Estado bélico. “O ateniense” atenta para um importante conceito em relação a um juiz virtuoso ou não. Mais à frente. de maneira que tudo isso se conforme às exigências da lei (…). Então. mas. ou seja.. ou de preferência de ambos. . 173 O ateniense: Será conveniente indicar a seguir os magistrados que se incumbirão da música e da ginástica. o estrangeiro salienta a importância da boa escolha dos magistrados da área da educação da música e para aqueles que serão responsáveis pelo ensino da ginástica. ainda resta o que estabelecer.

foi afirmado anteriormente. em 772d-e: O ateniense: Quando um homem de vinte e cinco anos de idade. Tem-se em 771d-e: O ateniense: O objetivo em pauta será. No que diz respeito à atenção religiosa. não seria um Estado se não possuísse tribunais adequadamente organizados. mas um juiz que fosse mudo ou que dissesse tão pouco quanto partes em litígio numa instrução preliminar. que um intercâmbio igualitário consiste em nem dar nem receber qualquer presente. ou as tenham consagrado com maior felicidade. A discussão de desenrola em 774c: O ateniense: No que concerne ao dote. a proibição do dote. será necessário eliminar a ignorância tanto da parte do marido em referência à mulher que desposa e a família da qual ele provém como da parte do pai com referência ao homem ao qual está dando sua filha em casamento. o estrangeiro ateniense assevera. nunca estará qualificado para distribuir justiça. e em segundo lugar. o estrangeiro acha de suma importância preservar a religiosidade na feitura das bases constitucionais. sempre antes de completar trinta e cinco anos (…). por conseguinte. a mútua familiarização e todas as formas de relacionamento pois. de fato. não será fácil para uma grande ou pequena equipe de homens julgar bem se forem pouco capacitados. surge mais um tema para análise. embora algumas pessoas tenham possivelmente feito suas divisões mais corretamente que outras. Analisando a pauta do matrimônio. primeiramente. (…) todo Estado é guiado pelo seu instinto a preservar a sacralidade dessas divisões. Recorda mais uma vez o número ideal de habitantes para designar conceitos. após observação dos outros e depois de ter sido objeto da observação dos outros. nem é provável que dentre os cidadãos os pobres permaneçam nessa condição solteiros 174 O ateniense: Como ponto de partida das leis que se seguem devemos nos ocupar das coisas sagradas.174 Preocupado com o espírito de confraternização na sociedade. ele se casará. Em relação à legislação do casamento. visando à camaradagem e às uniões matrimoniais. fomentar entre nós a camaradagem. e será afirmado novamente. Tomemos novamente o número 5040 e o número de subdivisões convenientes que descobrimos que ele contém tanto como inteiro quanto quando dividido em tribos. oferecer ação de graças aos deuses e servi-los. como fazem os responsáveis pela arbitragem. acredita ter encontrado em algum lugar uma companheira do seu gosto e adequada para a procriação de filhos. “O ateniense” enfatiza o sentido da atmosfera religiosa. . 113 O ateniense: Um Estado. Nota-se em 771a-b.

em 776d. Em 780e. e salvaram seus senhores e os bens destes. o segundo consiste em dar-lhes tratamento adequado. 114 até a velhice por falta de recursos. Posteriormente. de nossa unanimidade quanto a achar que se deve possuir escravos os mais dóceis e excelentes possíveis. Então. o ninho e lar de seus filhotes. após a decisão do matrimônio. pois no passado muitos escravos se revelaram a si mesmos superiores em todos os aspectos a irmãos e filhos. na medida do possível. 781a-b: 175 O ateniense: O homem que se casa tem que se separar de seu pai e sua mãe. 776a. se quisermos que tolerem a escravidão sem rebeldia. “O ateniense” aplica uma análise rígida sobre como esse assunto foi negligenciado até então. Encontra-se em 775e. terem que se separar dos pais. a escravidão. é claro. em 777b-d: O ateniense: O escravo não é uma propriedade nada fácil de se lidar. tê-los de diferentes raças. sobre a condição da mulher diante da nova Constituição. não tanto em benefício deles. (…) todos esses fatos o e como lidar com todas essas matérias se torna um quebra-cabeças. o estrangeiro propõe: O ateniense: (…) o que deveremos fazer quanto a essa questão de possuir servos? (…) Estamos cientes. A realidade demonstra quantos males resultam da escravidão (…). mas em benefício de nós mesmos. realizar aí seu casamento e constituir a morada de si mesmo e de seus filhos. mais um desafio vem à tona. tanto quanto suas habitações inteiras. e tomar uma das duas habitações de seu lote para ser. como a posse de servos deve ser tratada. pertençam ao mesmo país. e o resultado dessa regra será menos insolência por parte das esposas e menos humilhação e servilismo da parte do marido por causa de dinheiro. E ainda conclui. por assim dizer.175 A discussão tem continuidade e os dialogantes vislumbram um novo assunto a ser tratado. mas sim. a questão de os filhos. pois cm nosso Estado todos terão o necessário para a vida. Só nos restam dois recursos a ser experimentados: o primeiro consiste em não permitir que todos os escravos. E assevera que o papel da mulher deve ser revisto na nova Constituição. . Como já disposto na República.

2. não prescrita pela lei. o estrangeiro propõe normas para estabelecer como tal assunto será tratado pela Constituição. 6. e então observa em 785b: “Para as moças a faixa etária para o casamento será entre dezesseis e vinte anos. mas para as mulheres essa instituição foi mantida. e se divorciarão. (…) O período de procriação e supervisão deverá ser de dez anos e não superior quando houver um alto índice de procriação. o resultado corresponde ao contrário quando lhes falta a atenção ou não sabem aplicá-la. muito dissimulada e intrigante (…). esta própria porção da humanidade que. limite máximo. se não conseguirmos persuadi-los. devido à sua fraqueza é. a procriação. 784b: O ateniense: Voltemos então aos recém-casados para os ensinarmos como e de que maneira devem gerar filhos e. não se efetivando para elas. Todas as pessoas que são parceiras em qualquer ação produzem resultados belos e bons quando estão atentas a si mesmas e à ação. mas se no término desse período nem sequer um filho tiver sido gerado. intimidá-los mediante certas leis. (…) Esposa e esposo devem ter em vista gerar para o Estado crianças da maior excelência e beleza possíveis. Ainda há uma questão a ser discutida. “O ateniense” acha conveniente que seja fixada uma idade apropriada para a procriação. discutem sobre a possibilidade de adultério e as penalidades que serão aplicadas.7 Livro VII – A educação física e mental dos jovens O livro se concentra em como deveria ser a educação dos jovens e começa com uma exposição sobre as dificuldades de se impor leis e fiscalizar sobre a vida . Dessa vez. para os rapazes de trinta a trinta e cinco anos”. (…) É melhor. o sexo feminino. portanto. estabelecidos correta e admiravelmente por uma necessidade divina. Depois. regulamentando-se todas as instituições indistintamente para homens e mulheres. para o bem-estar do Estado que tal instituição seja revista e reformada. Em 783d-e. Posteriormente. os repastos públicos para homens foram. em outros aspectos. 115 O ateniense: Em vosso caso. esposa e esposo procurarão aconselhamento em comum para decidir quanto aos termos mais vantajosos para ambos junto aos seus parentes próximos e aos magistrados femininos. caso ocorra. Clínias e Megilo. como eu afirmei. de modo inteiramente incorreto. contudo. em lugar disso.

. e o fazendo e assim ordenando corretamente tanto sua casa quanto seu Estado lhe será possível atingir a felicidade. por outro a autoridade da lei escrita é solapada na medida em que os seres humanos. ainda tenra... reconhece que legislar com tanta minúcia seria ridículo. Consequentemente. e afirma que a educação ideal evitaria tanto “a indolência” quanto “o rigor extremo.. De fato.. . se habituam a ser infratores.. 116 privada. 790a:176 Mas conclui em 790b que as leis devem ser formuladas tendo em mente que o cidadão.) Um tal procedimento está fora de questão pois levaria a uma grau desmedido (. Porém. e propõe em 792c-d que ela deveria buscar “estado intermediário” ou. Discorre então sobre os tratamentos que se pode dar a uma criança e o resultado de tais no indivíduo adulto. o homem livre. como se vê em 788b-c: O ateniense: Se por um lado não é conveniente nem decente submeter tais práticas a penalidades determinadas pela lei em função de sua trivialidade e assiduidade.). no entanto. rude”. entenderá que elas são feitas para o bem geral. e quando o perceberem. deverá ser modelada como cera e mantida nas fraldas até os dois anos de idade? (. em 789d-e. e aplicá- las em seus assuntos privados. por outro é difícil legislar no que concerne a elas. devendo sim encerrar aquele estado 176 O ateniense: Iremos nos arriscar a ser ridicularizados promulgando uma lei segundo a qual a mulher grávida será obrigada a caminhar e a criança. o cidadão particular poderá por si adotar como leis as regras que formularemos agora. entendendo que as esferas pública e particular dependem uma da outra para o bem-estar social e consequentemente atingir a felicidade.) do enorme ridículo ao qual nos exporíamos. o meio termo: O ateniense: O que sustento é isto: que a vida acertada não deve nem visar [exclusivamente] os prazeres nem se esquivar inteiramente às dores. salienta a importância de que não haja infrações. além de defrontarmos com a franca recusa em obedecer por parte das amas de leite (.. propõe prescrever exercícios às gestantes. se por um lado é impossível silenciarmos diante de tais práticas. O ateniense: (.) a menos que os assuntos privados num Estado sejam acertadamente administrados será vão supor que qualquer código legal que assuma vigência exista para os assuntos públicos.. O ateniense em seguida discorre sobre a importância de exercitar os corpos e as mentes das crianças desde cedo. mediante essas trivialidades reiteradas. em chaves aristotélicas.

é uma fonte do Direito. que os mestres transmitam suas lições de modo gentil. mesmo os jogos infantis têm de ser prescritos de determinada forma. O estrangeiro de As Leis considera que. Os magistrados. em 796b. e que os discípulos as recebam com muita gratidão.. Apresenta uma visão conservadora. portanto. com muito zelo. não seriam admitidas inovações.. seriam responsáveis por isso. por não ser concebível que de crianças rebeldes e jogos ilegais saiam cidadãos obedientes e de conduta exemplar”. e a forma de ensino deve ser rigorosamente uniforme para garantir a continuidade da sociedade como é. sem omitir nada grande ou pequeno do ponto de vista das leis. ao chegarmos no modelo esperado.) é a própria condição da divindade mesma. as mulheres supervisionarem os jogos e a alimentação das crianças e os homens a sua instrução visando que todos os meninos e todas as meninas possam “não ter. para a educação. como dissemos antes. 117 intermediário de leveza. dizendo que temos que impor a discípulos e mestres. pois é graças a todos esses meios que um Estado adquire coesão. Há. Em 797c-d expõe que: O ateniense: E eu reitero que um Estado não pode ser vítima de dano pior do que o causado por uma tal sentença e doutrina. e. pois o estrangeiro ateniense prossegue descrevendo em minúcias o procedimento pelo qual se devem educar as crianças. através de todo meio possível. segundo 795d. Simplesmente escutai enquanto vos falo de que magnitude é esse mal. .. que equivalem a “costumes ancestrais”. insistindo que o que detalha são “leis não escritas”. então. suas naturezas distorcidas por seus hábitos”. e nenhuma espécie de lei é permanente sem os outros. em 793c-d: O ateniense: É preciso que conectemos este vosso Estado. 177 A República. afirma-se isso. em 425a: “Então. Estes devem ser preservados. que é novo. costumes e instituições. (. de modo a perpetuar a sociedade como é. matérias que devem ser ensinadas às crianças. Valoriza o papel do educador. Platão considera que o costume. que corrobora com a tese exposta por Sócrates no Livro IV.177 Sócrates afirma que os jogos e brincadeiras de crianças podem ser censuradas.. pois.) o qual (. devendo. A República. de modo algum. desde o principio os próprios jogos das crianças ficarão regulados por lei.

Essa conformidade tem objetivo claro. Ele detalha também o tipo de música que deve ser feito. em 802b. e que esses se tornem “leis que não se possam violar nem por um som vocal nem por um passo de dança”. E o ateniense vai mais longe. corroborando com a tese de censura apresentada em A República. É necessário. . nem mostrara ele suas composições a nenhuma pessoa privada enquanto não tiverem sido primeiramente mostradas aos juízes designados para lidar com esses assuntos e aos guardiões das leis. então. Para que seja assegurado que não haja inovação. Diz que cumpriria ao cidadão. em 377c. que sendo buscado os leva a desejar outras instituições e leis (. E continua criticando a produção da poesia em 801c-d: O ateniense: A lei segundo a segundo a qual o poeta não comporá nada que ultrapasse os limites daquilo que o Estado tem como legal e correto. que o legislador conceba a todo preço um meio pelo qual possa assegurar ao Estado esse benefício.)”. 178 O ateniense: (…) se existem leis sob as quais a humanidade foi formada e que pela providência divina permaneceram inalteradas por muitos séculos a ponto de não existir qualquer memória ou registro de jamais terem sido diferentes do que são agora. e aos sacerdotes expulsarem qualquer um que proponha novos hinos e danças além dos previamente estipulados. 118 Clínias: Estás te referindo ao modo como as pessoas reprovam o que é antigo nos Estados? O ateniense: Exatamente. O ateniense pressupõe que eles já estejam vivendo sob as leis divinas. a seleção das músicas. impedir que as crianças desejem imitar modelos diferentes de dança e canto. e tendo estes as aprovado. belo e bom.178 Além disso.. como visto em 798a-b. então a alma na sua totalidade está proibida pela reverência e o temor a alterar qualquer uma das coisas instauradas outrora. em 804a-b: O ateniense: Nossos lactentes deverão compartilhar de mentalidade idêntica e acreditar que o que lhe dissermos basta e que seus dáimons e a Divindade lhes sugerirão tudo o mais no que tange aos sacrifícios e às danças.. considera o ateniense que a alteração dos jogos desviá-los-ia levando-os a “adultos diferentes de seus pais. e o sendo buscam um sistema diferente de vida. portanto. danças e hinos será feita por “homens de idade não inferior a cinquenta anos”. em 800a. o que seria nocivo para a proposta que vem se construindo. sobre o qual os legisladores deverão determinar ao menos um esboço. em 798c.

incluindo ao ensino relativo à guerra para o caso que expõe em 814a que se em algum dia for necessário que os homens deixem o Estado em nome de uma guerra. de forma que sou levado a afirmar que uma ampla dama de aprendizado envolve perigo para as crianças”. da administração doméstica e da administração da cidade. O estrangeiro ateniense continua com detalhes a respeito do ensino das letras. caso contrário. ao luxo e aos modos desregrados de vida”. Também acerca da censura. O ateniense: (…) se algum dia for necessário que os guardiões das crianças e o resto do Estado deixem a cidade e marchem na totalidade das tropas. e conservando também a convicção de que enquanto os jovens forem bem educados.) todo poeta proferiu muito de bom e muito também que é mau.. o Estado navegará [em águas tranquilas] como é preciso. capazes de tomar seus lugares. que em 813c-d.. 119 Nas instituições de ensino serão ensinadas “todas as matérias que se relacionem com a guerra e a música”. como não o faremos ao nos ocuparmos com um novo Estado (. diz: O ateniense: (…) pois a lei lhe concede e continuará a conceder o direito de se associar a todos os homens e mulheres que desejar que o apóiem nessa direção e supervisão. teme o ensino demasiado da poesia.”.). em 811b. “de modo a suprir os objetivos da guerra. e se manterá ansioso para não cometer deslizes nesses assuntos. pelo menos. para que não “cedam à indolência. A idade avançada dos magistrados não constitui empecilho para o bom funcionamento das instituições educacionais. as consequências serão tais que seria proibitivo a nós a elas nos referirmos. essas mulheres sejam. mesmo a contragosto dos pais. reconhecendo a grandeza de seu cargo e sabiamente o tendo em elevado respeito. Ainda que tenha o dito a respeito de rapazes. E sugere que o estudo seja obrigatório. será preciso que as mulheres sejam capazes de tomar os seus lugares. . em 804d. pois “(. em 809c.. em 806c. Ele saberá quais as pessoas certas a serem escolhidas. pois os rapazes “mais do que filhos de seus pais eles são filhos do Estado”. “O ateniense” acredita que o mesmo tenha que ser imposto às meninas. ao ver do ateniense. da lira e da aritmética..

amor e riquezas. e todo o exposto no livro VII. de sorte que a cidade e seu corpo de cidadãos prossiga de uma e mesma maneira. as leis e toda a constituição estiverem assim escritas. 829a: 179 O ateniense: E quando tiver consagrado assim todas essas coisas na devida ordem. como por exemplo em conexão com a alimentação dos bebês – tais matérias. “O ateniense” termina também sua exposição sobre as leis relativas à educação. mas também requer observância as regras e costumes que são apontados pelo legislador que podem vir de forma mais brandas.179 Após discorrer sobre o ensino do cálculo. comércio e economia coletiva Condizendo com a visão platônica de que o Estado deve servir aos deuses. e sobre seus regulamentos.2. relações entre vizinhos. entende o ateniense que ao atingir o que se espera como ideal. em 822d-e diz: A obrigação que compete ao legislador. há algo mais que cai naturalmente entre o conselho e a lei – algo em que esbarramos várias vezes ao longo de nosso discurso. as questões da agricultura. não podem ficar sem regulamentação. desfrutando os mesmos prazeres e vivendo semelhantemente de todos os modos possíveis. dizemos. o livro começa tratando da legislação das festividades e sacrifícios às divindades. provavelmente vai além da simples tarefa de promulgar leis. nosso louvor do cidadão que é pré-eminente pela virtude não será completo quando dizemos que o homem virtuoso é aquele que passa através da vida obedecendo coerentemente às regras escritas do legislador tal como dadas em sua legislação. Com relação ao legislador. os jogos militares. deixa claro que a virtude perfeita não requer apenas o acatamento das leis positivadas. mas seria contudo. deverá doravante não fazer qualquer alteração em tudo que se refira à dança e ao canto. Ao concluir suas observações quanto à caça. demasiado tolo considerar esses regras como leis promulgadas. e os relaciona diretamente ao bem-estar público em 828d-e. o amor.8 Livro VIII – Legislação das festividades e sacrifícios às divindades. faz algumas considerações. e assim passar suas vidas felizes e bem. como se percebe em 816c-d. Quando então. além das leis. “O ateniense” passa à caça. Essa fala do “ateniense”. como uma admoestação. das medidas e da astronomia. 120 Após todo o exposto. 6. . deverá permanecer imutável para preservar a uniformidade da sociedade. perversões amorosas. aprovação e reprovação.

. por um grande número de dias que antecedessem a competição.180 Entretanto. A outra causa seria a má vontade dos governantes das formas de governo da época em relação ao bem de seus súditos. ao 180 O ateniense: Assim sendo. Se por um lado ele acredita na importância de promulgar leis que coíbam as práticas sexuais indevidas. mesmo que isso pareça ridículo aos olhos de outros Estados. o que será feito por meio de competições em tais festivais. 121 O ateniense: Ademais. em 829a-b e 830a. o estrangeiro discorre sobre os pormenores das competições. e aponta como uma das causas o desvio das pessoas da virtude para acumular riqueza.. que causam males tanto para o indivíduo quanto para o Estado. deve levar uma boa vida. em 839b “mas é possível que algum jovem dotado de extrema virilidade. sempre deixando claro que elas servem como treino para a guerra. todos deverão treinar para a guerra e não em tempo de guerra. E acrescenta com uma visão dualista “Um Estado poderá obter uma vida pacífica se se tornar bom. de todo o tipo de alimento. Ele antecipa certa manifestação dos jovens. não destinadas à reprodução. bebida e sexo”. como um animal selvagem. deveríamos estar aprendendo como lutar. e disposição de certos indivíduos a se submeter a trabalho árduos.. em 831c. como no livro anterior. mas em tempo de paz. mas se for mau. essas pessoas terão que acreditar que não há nenhum outro Estado que possa se comparar ao nosso relativamente ao grau de lazer e controle quanto às necessidades da vida. “contanto que ele seja capaz de saciar-se ao extremo. observa que tais medidas não são tomadas atualmente. como indivíduo. (…) Se fôssemos pugilistas. a importância de se treinar para a guerra. em 831d-e. salienta.). por outro reconhece que sua realização será difícil. se pretendem estabelecer essas matérias adequadamente. A seguir. amor e desejo para que seja mais claro o modo de reprimir esse obstáculo. Apesar de valorizar a paz. nas suas palavras: “Um amor pela riqueza que não permite que a pessoa disponha de tempo para se dedicar a outra coisa exceto aos seus próprios bens pessoais”. Um dos obstáculos observados pelo ateniense para o bom funcionamento do Estado é o desejo sexual entre os jovens. e trabalhando duro (. e acreditar que ele. ou seja. tudo que obterá será uma vida de guerra tanto no estrangeiro quanto domesticamente”. “O ateniense” define então os conceitos de amizade.

segundo 842d: O ateniense: (…) o legislador de nosso Estado está majoritariamente livre de negócios marítimos. empréstimos. e do transporte das colheitas. questões de tributos alfandegários. enfatizando que se deve importar apenas o estritamente necessário. mas não o estimula. problemas de alojamentos e estalejarias. o que facilitaria a legislação. Leis semelhantes são propostas para artífices. haveria de se promulgar uma segunda lei com o intuito de. nos denuncie por produzir regras tolas e impossíveis cobrindo-nos de injúrias e vociferando por todo o lugar (…)”. e propriedades nelas contidas. Como visto no Livro VII.. questões financeiras envolvendo juros. A distribuição de alimentos prevê o comércio. O ateniense passa então a falar sobre a alimentação.) E esta terceira parcela de todas as mercadorias necessárias ao consumo será a . a caça deveria limitar-se aos animais terrestres. Aos que não a acatassem. pastores e apicultores e a respeito dos instrumentos utilizados nessas ocupações. pois. E sustenta que os que sentirem tal ímpeto serão coagidos por três ideias: “O temor aos deuses. em 841a. operações mercantis. poderá dizer adeus a tudo isso e legislar para fazendeiros e agricultores. da utilização da água. e exportar apenas o que não se faz necessário no próprio Estado. em 841c. o amor à honra e a aquisição do hábito de desejar em lugar das belas formas do corpo. Ele expõe em seguida as leis que julga serem necessários no “código agrícola”. “privar o máximo possível esses prazeres da força que adquirem por sua atividade natural desviando seu curso e desenvolvimento mediante trabalhos duros para outra parte do corpo”. Mas assegura que os bons cidadãos acatarão as regras por entenderem seus benefícios.. Logo após o estrangeiro ateniense sugere as leis que concernem a importação e exportação. as belas formas da alma”. que considera sagrada. 122 nos ouvir promulgar tal lei. a respeito da demarcação de terras. usura e mil outras matérias de feitio semelhante. da época certa das colheitas. Em todas elas regulamentam-se punições para atos de má-fé. antevendo em 848a a divisão em três parcelas: O ateniense: (…) das quais a primeira será para os cidadãos nascidos livres e a segunda para seus servos. A terceira parte caberá aos artífices e estrangeiros em geral (.

conclui o livro. que: O ateniense: (…) nosso próximo passo consistirá em enunciar [as matérias que envolvem os procedimentos judiciais] na totalidade. e “O ateniense” logo indica. onde se presumiria que os cidadãos buscam a virtude. reconhecendo que. a perpetração de alguma falta gravíssima e infame contra os deuses. e também que há certos homens que “não recebem a influência das leis. mas via de regra produz um destes dois efeitos: ou torna a pessoa que sofreu a punição melhor ou a torna menos má. em 853a-b.9 Livro IX – O direito criminal O livro trata das questões judiciais acarretadas pelas leis sugeridas até então. Em que se pressupõe também a divisão entre os doze distritos. 123 única passível de ser levada obrigatoriamente ao mercado para venda. como vemos em 854d-e: O ateniense: Entendemos que toda punição legalmente aplicada não visa ao mal. os pais ou o Estado. Após estabelecer as regras sobre o comércio e à estada de estrangeiros no país (onde não poderiam ficar mais do que vinte anos). o juiz o considerará como já incurável. sendo proibido vender qualquer parte das outras duas parcelas. apesar de todo o treinamento que recebeu 181 Essa observação muito se relaciona com o capítulo anterior em que mostramos a necessidade de leis justas coercíveis. e perante que tribunal deverá ser julgada. ou seja.2. Ele admite também a possibilidade da advertência antes do crime ser cometido. apelando para a razão de quem sente ímpeto criminoso. por mais enérgicas que sejam”. reconhece a fraqueza humana. cada um consagrado a um deus. vergonhoso” que se faça necessário promulgar leis para prevenir o crime num Estado como o que ele propõe. 6. ao mesmo tempo igualando reincidência a incorrigibilidade. porém. Para ele. indicando minuciosamente que penalidade corresponderá a cada ofensa. num certo sentido.181 “O ateniense” acredita no poder de regeneração da punição. . que incorrerá em pena de morte. “é. Mas qualquer cidadão é reiteradamente condenado por esse ato.

os guardiões farão votação e darão fim ao julgamento. No caso de roubo de patrimônio do Estado ou de outrem. que “serão honrados e citados honrosamente”. para que a falta de recursos não faça com que seu lote de terra se torne improdutivo.. voluntários ou não. Ele também prevê. e penas mais leves para os outros? Ou promulgaremos penas iguais para todos achando que não há o ato voluntário de injustiça? Entende “O ateniense” que há diferença entre crime voluntário e involuntário. Procedimento semelhante é imposto aos que cometem crimes contra a constituição do Estado. E no caso de crimes afiançáveis. seguindo-se pelo discurso do acusado”. e também a pena de morte aos incorrigíveis. açoitamento e humilhações. Para ele a pena será a morte (. e sobre a divergência de opiniões quando paixões estão envolvidas. a multa não deve ultrapassar o excedente de produção do criminoso. o ateniense propõe que como pena o ladrão seja aprisionado até que pague o dobro do que roubou ou seja perdoado por quem foi roubado. entre más ações voluntárias e más ações involuntárias. a ponto de cometer a pior das iniquidades. do belo e do justo. 124 desde a infância. apena de morte é aplicada a todos aqueles que cometem crimes que sejam um desrespeito aos deuses. “Um discurso será feito primeiramente pelo reclamante. “O ateniense” prossegue numa discussão sobre a natureza do bem. não se conteve.). a resposta seria a compensação no caso de danos. 861a. na seguinte pergunta: O ateniense: Fareis uma distinção. como veremos mais à frente. salienta.. Caso não possa pagar. então. . e iremos promulgar penas mais pesadas para os crimes e más ações que são voluntários. Essa pena é diversa da pena do assassinato. E acrescenta que os crimes do pai não se estenderão aos filhos e à família. caso seu comportamento seja virtuoso. além de instrução caso seja voluntário. Ou seja. Após exame cuidadoso e interrogatório. razão pela qual também os bens de tal pessoa não serão confiscados.182 votação entre os guardiões da lei. ou de desonra aos pais. no caso da pena de morte. prevendo também o crime de omissão. “Mas ninguém ficará absolutamente à margem da lei”. ele prevê outras punições como prisão. mas que nem sempre se pode dizer a diferença. uma vez que se alguém 182 A pena de morte é aplicada no caso de roubo ou profanação de templos. que culmina em 860e. Portanto.

Nota-se em 873d: 183 864d-e até 869e. portanto é incorrigível e pode-se aplicar a pena de morte. tendo-se que reparar o dono do escravo. “movidos pelo prazer. nas guerras ou nos treinos para ela. Os pormenores de cada tipo de assassinato são propostos como no caso dos involuntários. será exilado por um ano. O estrangeiro passa a sugerir leis para o assassinato. e passa a discorrer sobre assassinatos voluntários. este será isento. encobertos pelas sombras e pela fraude. ou contra um homem livre.183 No caso de alguém matar um amigo durante os jogos. Após discutir a respeito dos motivos das injustiças. certamente não o faz involuntariamente. Reincidentes sofrerão exílio perpétuo. É o caso também dos suicidas. não ocorrerá processo. e às vezes até se pune o cadáver. Os assassinatos involuntários têm punição diferente se cometidos contra um escravo. Os intencionados terão exílio maior como punição. muitas das punições propostas vão além da vida e se baseiam em castigos dos deuses e das reencarnações. Como as leis e a religião não se separam para o estrangeiro. Caso o insano mate alguém. em 870a-e até 873d. caso em que o assassino deve desterrar-se por um ano para não sofrer processo. e o assassino aguarda o julgamento em ostracismo. “O ateniense” então declara as punições para diversos casos mais específicos. ele propõe. os apetites ou a inveja” e também a covardia. As penas para tal também incluem a pena de morte ou o exílio. o outro diz respeito aos atos cometidos privadamente. e o dano deverá ser reparado na medida exata. em 864 c. Em todos os casos deve-se haver purificação. A insanidade também é prevista. diferenciando os casos. 125 reincide. . Também fazem parte desse caso os crimes passionais sem intenção. ou às vezes aos atos cometidos dessas duas maneiras – e para atos desse último tipo as leis serão mais severas se quisermos que se revelem adequadas. assim como quando o paciente morre contra a vontade do médico. a criação de dois tipos de leis distintas para atos públicos e privados: O ateniense: Um concerne aos atos cometidos ocasionalmente através de meios violentos e abertamente.

875a. enquanto os outros terão a punição decidida em tribunal. 126 O ateniense: (…) os túmulos serão.. 184 Hodiernamente. O estrangeiro ateniense conclui então as leis sobre o homicídio e passa a discorrer sobre os casos em que o assassino será absolvido. Ele torna então à punição de ferimentos. pela infinidade de casos em que ela pode ocorrer. nem sequer um outro túmulo adjacente. e em parte também por causa daqueles que se furtaram à educação e que. sem qualquer lápide nem nome que indiquem seus túmulos. e neste último caso os parentes também podem exercer a vingança. e em segundo lugar. que servirão de exemplos para “impedi-los de ultrapassar os limites da justiça”. sem qualquer menção. sendo donos de um temperamento obstinado. o que nos diferencia dos animais: O ateniense: (…) é realmente necessário aos seres humanos fazerem eles mesmos leis e viver de acordo com as leis. numa posição isolada. para propiciar-lhes instrução quanto ao relacionamento que será mais seguro na sua amistosa associação entre is. .184 Após o preâmbulo.) são feitas em parte para a segurança dos homens de bem. “O ateniense”. e reitera a importância de se promulgar leis. exílio e açoites. isso pode ser visto como a discricionariedade do juiz. A respeito dos homicídios de autor desconhecido. ou como a possibilidade da criação de uma jurisprudência. somente alguns serão legislados. As punições incluem reparações. afirmando que. E que “a verdadeira arte política necessariamente zela pelo interesse público”. deverão ser enterrados naqueles limites dos doze distritos que são desérticos e inominados. Os animais assassinos também são mortos. em 874e. novamente discorre acerca dos pormenores de cada caso. O propósito de tais leis e sua relação com a educação são explicitados em 880d-e: O ateniense: As leis (.. em primeiro lugar. Os casos incluem legítima defesa contra ladrões e estupradores. o homicida será morto e seu corpo exilado caso seja descoberto. não contaram com um tratamento atenuador que impedisse que cedessem a todo tipo de perversidade. sem o que a humanidade não diferirá em absoluto das bestas mais selvagens.

à perfeição e à supremacia dos seres divinos. por princípio. Esclarecedora a nota de Vasconcelos Diniz: l No Livro X das Leis. dá conta de postular as penas contra os ultrajes aos deuses.186 ã A Professora Rachel Gazolla de Andrade assim se manifesta: o No livro X das Leis. à natureza e à arte. além das suas penas. mostra que a alma é anterior ao corpo e. aos diversos t movimentos que regem as relações divinas e humanas. lista as recompensas para as testemunhas que i prestarem socorro. A teologia de Platão. p. Além disso. uma causa inteligente e imaterial. Op. ao corpo. suas formas e hierarquias. a discussão de que se ocupa Platão gira em a torno de refutar o materialismo como princípio que se encontra na d origem da Natureza. é o espiritual e não o n físico que comanda a origem e a evolução da Natureza. e. cit. “O ateniense” n conclui o livro. todas as coisas torna-as belas.O 127 a t e O estrangeiro ateniense dá atenção especial ao crime de lesão aos pais ou n avós. Além disso. ordenadas e mensuradas e. Márcio Augusto de. o Platão mostra que nada existe sem que tenha.10 Livro X – A impiedade. e outras coisas que circundam a principal o temática. um comentário s sobre a alma é apresentado tendo como pano de fundo a visão dos ‘físicos’. Alysson Leandro. assim como as punições para aquelas que se omitirem. portanto. Acesso em 14 abril 2011. s e : 6. talvez a última obra de Platão.. portanto. ao o homem na ordenação do Universo. a alma P O Livro X traz um grande diálogo a respeito da religiosidade como algo o primordial a ser adotado no governo.br/revistas/index. às inúmeras espécies de r ímpios. 61.ufsc.185 Os debatedores levantam importantes questionamentos em relação aos deuses. r 185 MASCARO.2. onde a alma é compreendida a partir das noções de e geração e corrupção de todas as coisas da physis. novamente às virtudes e vícios. e Após listar mais algumas punições em caso de agressão. à u alma.php/buscalegis/article/viewDownloadInterstitial/25297/24 860>. Disponível em: <http://www. o m . à superioridade da alma ao corpo. á 186 VASCONCELOS DINIZ. em 876e até 882c. Ao contrário dos que afirmam que o acaso e o movimento desordenado constituem a Causa Primeira do Ser.buscalegis. A presença de Deus (parousia) em . visão que. uma espécie de caráter religioso do direito toma um maior relevo”. Nas palavras de Alysson Mascaro: “Em As r Leis. tudo que existe participa da Divindade.

(…) as pessoas que foram convertidas por esses sábios sustentarão que essas coisas são simplesmente terra e pedra. . fora rejeitada por Sócrates por ter sido pensada como forma elementar. 1993. estrangeiro. em 885 e. 188 Clara referência ao posicionamento de Glauco. Platão.) deveríeis primeiramente tentar nos convencer e nos ensinar pela apresentação de provas adequadas que os deuses existem e que são bons demais para se deixarem seduzir por presentes e se voltarem contra a justiça. No Livro X. Ao afirmar que é possível comprar os deuses com presentes e com isso não ser penalizado por atos injustos. (…) Tais narrativas antigas. corpórea. Dessa forma. Platão: o cosmo. Vozes. os dialogantes começam a arquitetar o que deverá ser feito para que consigam atingir a meta de levar aqueles que não acreditam nas divindades ao caminho da crença. 128 utilizada também no Fédon com o sentido de mostrar a mortalidade da quando da fala de Cebes. São mais as novas doutrinas de nossos sábios modernos que nos é imperioso apontar como responsáveis como causa dos males. utilizando-se da figura interminada de um ateniense como fez no Sofista com o estrangeiro. o estrangeiro ateniense observa que as doutrinas modernas podem ser causa da descrença das pessoas. p. o homem e a cidade – Um estudo sobre a alma. “O ateniense” vislumbra como será o enfrentamento àqueles que não acreditam nos deuses e demonstra a “Clínias” o sentimento dos ateus: O ateniense: Em tom cínico e de chacota diriam provavelmente o seguinte “(. Petrópolis: Ed.. semelhante ao fogo ou à água. “Clínias” ainda argumenta em 887b-c: 187 ANDRADE Rachel Gazolla de.187 Em 885 d. em 886b-e: O ateniense: Nós atenienses dispomos de narrativas preservadas por escrito. entretanto.. com a narrativa do Mito de Er. 886a: “Certamente não parece fácil. 30. ou seja. incapazes de prestar a menor atenção aos assuntos humanos e que essas nossas crenças são sutilmente forjadas com argumentos para se tornarem plausíveis. do bem e do belo. “O ateniense” continua a expor seus pensamentos e conclui que um grande poder de persuasão se fará necessário para que os homens que desejam ser ímpios se convertam ao temor aos deuses. Já de princípio. podemos passar de lado e descartá-las – que sejam narradas da maneira que mais agradar aos deuses. afirmar com base na verdade que os deuses existem?”. estabelece uma visão da alma na perspectiva do movimento de todas as coisas. em A República.188 Ao que “Clínias” indaga.

Mais tarde aparece um importante assunto. ou o oposto (…). Nota-se em 889e. lhes falemos suavemente como se iniciássemos a conversação com uma pessoa em particular desse tipo. te fará alterar muitas das opiniões que agora sustentas: assim aguarda até então antes de emitires juízos sobre matérias de suma gravidade e importância. embora deva sua existência [e vigência] à arte e às leis. 129 Clínias: E é da maior importância que nossos argumentos. pois um tal prelúdio é o melhor que poderíamos ter em defesa. estas não existem em absoluto por natureza. meu caro senhor. e. ademais. o ser sem limitação ou restrição. demonstrando que os deuses existem e que são bons e que honram a justiça mais do que o fazem os seres humanos. de todas as nossas leis. como se poderia dizer. e de modo algum à natureza. à medida que avançar. és ainda jovem e o tempo. de acordo com o consenso de cada tribo ao formarem suas leis. que esses senhores fazem sobre os deuses é que eles existem pela arte e não pela natureza através de certas convenções legais que diferem de um lugar para outro. em lugar de ser seus servos de acordo com a convenção legal. que há uma classe de coisas que são belas por natureza. e seja qual for a alteração que façam em qualquer oportunidade. “O ateniense” diz em 888a-b: O ateniense: Desta feita. que seja nosso prelúdio de abordagem a tais indivíduos de mente corrompida em tom desapaixonado e atenuando o fogo de nossa paixão. na voz do estrangeiro ateniense. o que consiste em ser senhor sobre os outros em termos reais. aquele que possui em si plenitude e totalidade. então. e uma outra classe que é bela por convenção. “O ateniense” dá forma à sua explicação mostrando o ponto de vista dos ateus. nos seguintes termos. deveriam contar absolutamente com certo grau de persuasão. convencidos de que os deuses não são em absoluto deuses como os que as leis nos orientam a concebê-los. os seres humanos estando em constante polêmica a respeito delas e também continuamente as alterando. é de caráter puramente autoritário. reserva boa parte de seu discurso. . e destas a mais grave de todas – embora presentemente a consideres como nada – é a questão de sustentar uma opinião correta sobre os deuses e assim viver bem. quanto às coisas justas. (…) E disso resulta que os jovens estão tomados por uma epidemia de impiedade. ao qual Platão. em consequência disso. "Meu filho. 890a: O ateniense: A primeira afirmação. é a origem do ser superior. Decidem. qual será a forma de abordagem para com os descrentes. surgem também facções quando esses mestres os atraem rumo à vida que é correta de acordo com a natureza. Asseveram.

enfatiza que um legislador digno de sua função jamais deverá desistir de reforçar a importância da existência dos deuses. assim. E se é esta realmente a situação. em 890d. ignorância que não se restringe a outros fatos a seu respeito. percebe-se a conclusão: 189 O ateniense: Do nosso total de dez movimentos. e que todos lhe são secundários. visto que segundo a razão são produtos do espírito (…)”. a partir de 893b até 895b há uma grande exposição sobre os movimentos que existem no Universo. E. especialmente à sua origem – de como é uma das primeiras existências e anterior a todos os corpos. Vê-se em 892a-c: O ateniense: Relativamente à alma. a uma busca pela explicação da origem da alma. então. “devendo também encarar a lei e a arte como coisas que existem por natureza ou por uma causa não inferior à natureza. de sua relação intimamente ligada ao corpo e de sua superioridade. percebendo-se que a alma é mais velha do que o corpo? (…) Pela palavra natureza pretendem designar aquilo que gerou as primeiras existências.189 Tal descoberta instiga os dialogantes a definirem. percebe-se uma descoberta que existem dez movimentos e que o superior desses seria o movimento que é capaz de mover a sim mesmo. e que é ela mais do que qualquer outra coisa o que governa todas as alterações e modificações do corpo. mas se ficar demonstrado que a alma foi produzida em primeiro lugar (e não o fogo ou o ar) ela poderia muito verdadeiramente ser descrita como uma existência superlativamente natural. em 895a-b. aquele que dá a origem a todos os outros. o primeiro a existir. Chegam. . qual a relação que eles possuem com as coisas da alma e as coisas do corpo. 130 “Clínias”. mas que se refere. quase todas as pessoas parecem ignorar qual seja sua real natureza e potência. portanto. Em 894d. qual ainda a relação dos movimentos com os Astros e com os elementos fundamentais e destes últimos com a superioridade divina. qual estimaríamos com maior rigor como sendo o mais poderoso de todos e o superior a todos em eficiência? Clínias: Somos forçados a afirmar que o movimento que é capaz de mover a si mesmo é infinitamente superior aos demais. não deverão ser as coisas que têm afinidade com a alma necessariamente anteriores (do ponto de vista da origem) às coisas que se referem ao corpo. meu amigo. qual seria o movimento primordial. Então. sendo os demais secundários.

o amargor e a doçura. deliberação. Em 896a: O ateniense: Qual é a definição daquele objeto que tem por nome alma? Será que podemos dar-lhe outra definição além dessa indicada há pouco: o movimento capaz de mover a si mesmo. opinião verdadeira ou falsa.190 Voltam. reflexão. a brancura e o negrume. e todas essas qualidades que a alma emprega. em 896e. os impelem a todos ao crescimento e ao decrescimento. afirmaremos que visto que o movimento automotivo é o ponto de partida de todos os movimentos e o primeiro a surgir nas coisas em repouso e a existir nas coisas em movimento. Portanto. é claro. 897a-c: O ateniense: A alma impulsiona todas as coisas no céu. e o 190 Na mesma linha de pensamento Aristóteles proporá a ideia de motor imóvel como ponto inicial do movimento do universo. nomeadamente. visto que não existe nenhuma força de mutação nas coisas antecipadamente. pesar. à separação e à combinação. qual é a natureza do movimento da razão. os pensadores querem desvendar. que é automotor pois não será jamais mudado antecipadamente por uma outra coisa. Na mesma atmosfera. júbilo. amor e todos os movimentos que são afins a esses ou são movimentos primários. mais à frente. previdência. ele é necessariamente a mais antiga e a mais poderosa das mutações. Clínias: O que desejas afirmar é que o automovimento é a definição daquela mesmíssima substância que possui alma como o nome que universalmente lhe aplicamos? E. mais uma vez à discussão sobre a alma. a dureza e a maciez. quando assumem os movimentos secundários dos corpos. concluem. ódio. de acordo com uma única regra e sistema – a razão. estes. na Terra e no mar por meio de seus próprios movimentos. medo. ao calor e o frio. . na tentativa de definirem com clareza tudo o que ela comporta. confiança. e ao que se segue a estes. 131 O ateniense: (…) supondo-se que a totalidade das coisas se combinaram e se imobilizaram – como ousam pretender a maioria desses pensadores – qual dos movimentos mencionados surgiria necessariamente no todo primeiramente? O movimento. E em tal busca. em 898b-c: O ateniense: Se descrevermos ambos (movimento das coisas em um único lugar e o movimento das coisas em vários lugares) como movendo regular e uniformemente num lugar idêntico. tanto quando associada à razão ela guia com retidão e sempre governa a tudo para sua justeza e felicidade (…). cujos nomes são desejo. o peso e a leveza. enquanto que o movimento que é alterado por uma outra coisa e ele mesmo move outras vem em segundo lugar. em torno das mesmas coisas e relacionados às mesmas coisas. então.

seja porque alojadas nos corpos. não só na poesia como também em narrativas de toda espécie (…). mas as fortunas dos seres humanos maus e injustos. em 901a: . Em 899d-e: O ateniense: Entretanto. porém ignoram certos assuntos humanos? E acham uma maneira de falar a essas pessoas. enquanto que a covardia. negue que "tudo está repleto de deuses"? Agora os dialogantes observam uma nova preocupação. tanto privadas quanto públicas – fortunas que embora na verdade não sejam realmente venturosas. todavia. e no que tange aos anos. Como abordar aqueles que acreditam e temem os deuses. a negligência. eles chegam à conclusão que prudência. ou em torno ou em relação às mesmas coisas. inteligência e coragem compõem a virtude e são características muito nobres. organizam todo o céu. meses e todas as estações o que nos caberia fazer senão essa mesma afirmativa. como seres vivos que são. "Meu bom senhor. Será possível encontrar alguém que admita essa causalidade e. ou no mesmo lugar. este nós temos que advertir. Clínias: Dizes algo inteiramente verdadeiro. quanto ao homem que sustenta a existência dos deuses mas que não cuida dos assuntos humanos. a ociosidade e a indolência são vícios. a saber. Em 899b: O ateniense: No que diz respeito a todos os astros e a Lua. seja porque atuam de qualquer outra forma que se o queira. O estrangeiro e “Clínias” entendem. que são dotadas de todas as virtudes. então. Novamente “O ateniense” atenta para a relação dos Astros com as almas. levando-te a honrá-los e reconhecer sua existência. 132 movimento revolvente em um lugar (assemelhado ao revolver de um globo giratório) – jamais nos arriscaremos a nos condenarmos à inabilidade para construir belas figuras de linguagem. são excessiva e impropriamente louvadas como tais pela opinião pública te conduzem à impiedade pela maneira errada em que são celebradas. O ateniense: Por outro lado não será o movimento que nunca é uniforme." nós lhe diremos. Sobre as virtudes e vícios da alma. declararemos que essas almas são deuses. e que os deuses não podem possuir tais características tão vis. que já que ficou demonstrado que são todos movidos por uma ou mais almas. não se movendo num único ponto nem em qualquer ordem ou sistema ou regra – não será este movimento aparentado à absoluta desrazão? Clínias: Será verdadeiramente. "o fato de acreditares em deuses é devido provavelmente a uma divina afinidade que te atrai para o que é de natureza semelhante.

por possuírem muitas virtudes. e os primeiros magistrados a serem informados conduzirão a pessoa ao tribunal designado para decidir esses casos em conformidade com a lei.. aquele que o encontrar em seu caminho defenderá a lei comunicando o fato aos magistrados. Dando continuidade ao assunto.. aquelas que não são boas são as mais numerosas. e tampouco é cabível que permitamos que alguém tente afirmá-lo. Tem-se em 906a-c: O ateniense: (…) o céu está repleto de coisas que são boas. 133 O ateniense: E então? Aquele que é indolente. e que. em 908b informa que os infratores da lei precisarão ser distinguidos em categorias e que. a extorsão ou ganho excessivo é o que é chamado no caso dos corpos de carne de doença. Como última pauta do Livro. e também do tipo oposto. é imortal e requer uma vigilância excepcional – os deuses e os dáimons sendo nossos aliados e nós a propriedade deles. e o que nos salva.. e assim o faz em 907d-e: O ateniense: Para aqueles que desobedecem esta será a lei relativa à impiedade: se alguém cometer impiedade quer por palavras quer por ações. negligente e ocioso será aos nossos olhos o que o poeta descrevia como "um homem muito semelhante a zangões destituídos de aguilhões"? Clínias: Uma descrição deveras justa.) que os deuses existem. Clínias: Seguramente não poderíamos tolerá-lo. nós o afirmamos. (…) Mas asseveramos que a falta aqui mencionada. Ainda argumenta que. o que nos destrói é a iniquidade e a insolência combinadas com a loucura. Em 907b: “(.. e das quais alguma partícula pode ser claramente vista aqui também residindo dentro de nós. que se importam [com os assuntos humanos] e que são inteiramente incapazes de serem vítimas da sedução que visa a transgredir a justiça (. os deuses jamais seriam vítimas das seduções humanas. a justiça e temperança combinadas com a sabedoria. no caso das estações e dos anos de pestilência e no caso dos Estados e formas de governo. recebe o nome de injustiça. uma pena específica será . o ateniense discorre adiante sobre os abismos do homem e a providência divina. de acordo com cada infração. Ainda. O ateniense: Que os deuses possuam tal caráter temos certamente que negar.)”. o estrangeiro acha devido postular as leis e as penalidades contra os vários tipos de impiedade. constatando que eles o abominam. as quais habitam nos poderes animados dos deuses. tal batalha.

unir-se-á nas orações.) já que requerem penas que são tanto diferentes quanto dessemelhantes”. a contestação da propriedade de um objeto legitimamente adquirido de terceiro.. as testemunhas e. desavenças familiares entre pais e filhos e entre mulher e marido. Dessa forma. a mendicância. Assim. aí ele mesmo. Situações que devem ser regulamentadas por leis para que o novo governo tenha eficácia. em companhia daqueles que escolher. “O ateniense” discorre precisamente sobre cada caso e sua penalidade. será promulgada a seguinte lei: ninguém possuirá um santuário em sua própria casa. sobre a atividade da advocacia. Especificamente. finalmente. O estrangeiro dá início ao diálogo.11 Livro XI – O direito civil e o direito comercial O Livro XI trata de vários assuntos pertinentes à vida em sociedade. 134 aplicada: “(. em 909d-e: O ateniense: De maneira a abarcar todos esses casos sem exceção. 6. o Livro X traz um grande diálogo a respeito da religiosidade como algo primordial a ser adotado no governo. as obrigações legais em relação aos pais. O seguinte servirá de regra geral: na . as falsificações e declarações mentirosas. o trabalho dos artífices. Por fim. a condição do filho no caso de os pais se divorciarem ou falecerem. quando alguém estiver motivado em espírito a realizar um sacrifício.2. as injúrias e o sarcasmo.. deverá dirigir-se aos locais públicos para sacrificar e apresentará suas oblações aos sacerdotes e sacerdotisas aos quais diz respeito a sua consagração. a probidade nas relações comerciais. a posse de bens. na tentativa de regulamentar a questão da posse de bens em 913a: O ateniense: Devemos nos ocupar agora da regulamentação de nossas transações mútuas. a propriedade de escravos. a tutela dos órfãos. o direito ao testamento. termina seu discurso salientando a proibição do culto privado. o envenenamento e malefícios. “O ateniense” vai falar sobre: a atividade do comércio. do parágrafo 908c ao 909d.

tendo eu que agir de maneira idêntica com relação aos bens das outras pessoas. 135 medida do possível ninguém locará meus bens nem os moverá no menor grau. em 913b-c: “e preferindo ganhar em justiça em minha alma do que em dinheiro em minha bolsa. Percebe-se em 915d-e: O ateniense: E quando alguém realizar uma transação comercial com outra pessoa mediante um ato de compra ou venda. mantendo-me prudente.” Logo após. não será possível para ele conseguir restituição do valor. faz um longo esclarecimento de como a lei para tal matéria deverá ser delineada. no caso de o comprador ser um médico. inclusive. a transação será feita por uma transferência da mercadoria para o lugar apontado no mercado. cálculo renal. Surge. ou qualquer de seus bens. E lembra de um importante valor. sendo seu proprietário substancial e legal. o estrangeiro dá importância à forma como deverão ser feitas as relações de compra e venda e desaprova totalmente tal relação realizada sob crédito. . em 915c-d: O ateniense: Se alguém reivindicar como de sua propriedade o animal de qualquer outra pessoa. e isto. estrangúria ou da doença sagrada como é chamada. do parágrafo 913c ao 915c. trocando um maior bem por um menor. ou de qualquer outro mal mental ou corporal. entretanto. o comprador reclamará restituição. Assim. numa parte melhor de mim. aquele que faz a reivindicação deverá comunicar a matéria à pessoa que. Quanto à posse de escravos e a compra e venda deles. “O ateniense” assevera em 916a-b que se um homem vende um escravo que está sofrendo de tuberculose pulmonar. se não tiver. então. que as pessoas em geral não conseguem perceber. e em nenhum outro lugar mais. obtido meu consentimento. “O ateniense” explica a “Clínias”. deverá indicar para quem o vendeu ou o deu. de modo algum. a preocupação a respeito da contestação da propriedade de um objeto legitimamente adquirido de terceiro. ou o transferiu sob qualquer outra forma válida (…). se qualquer profissional vender um escravo a uma pessoa leiga. Logo mais. ou um treinador. e por pagamento do preço na praça e nenhuma compra ou venda será feita sob crédito.

quando desejam. tem-se a regulamentação da lei que visa à prática do varejo. fraude ou adulteração. 918a. o quando c o onde não são nem prescritos nem definidos. Explica. 136 O estrangeiro passa agora a discorrer sobre a probidade na atividade comercial e acha necessário se expressar a respeito da falsificação. regulamenta a lei que será aplicada às mencionadas infrações): O ateniense: (…) no tocante a toda falsificação dessa ordem (que aqui possa ocorrer]. é errado que um artífice tente. haverá uma lei promulgada de modo a enquadrar esse caso (…). A adulteração deve ser classificada por todos na mesma categoria da mentira e do embuste – uma classe de ações em relação à qual o vulgo costuma dizer que é. em 918e. então.191 E conclui que se tais atividades fossem regulamentadas com norma que impedisse a corrupção. por meio de 191 O ateniense: A disposição da massa da humanidade é exatamente o contrário disso. Assim. cometerá por palavras ou ações qualquer falsidade. preferem se empenhar ilimitadamente em obter ganhos enormes. correta. de modo que baseado nessa fórmula acarreta perdas para si e para os outros. Do parágrafo 919c-e. em segundo lugar. como também no caso de outras leis. os une) começará por ser punido pelo deus e. porém a devida oportunidade. se executada oportunamente. seriam bem vistas. julgar o deus indulgente devido à afinidade que. de duas matérias que estão relacionadas ao comércio. ninguém. a saber. 920d. postulando suas funções e deveres: O ateniense: Se um artífice deixar de executar seu trabalho dentro do prazo estabelecido por vileza (faltando ao respeito pelo deus a quem deve sua existência. convocando aos deuses como testemunhas. e isto será feito agora. desejam ilimitadamente. transações comerciais em geral e estalagens são alvo de depreciação e submetidas até ao opróbrio. (e depois em 917a-e. informa em 918d-e. e quando podem obter ganhos moderados. Mas não convém ao legislador deixar esse assunto indefinido. seriam honradas com a honra que se dedica a uma mãe ou uma ama de leite”. e é devido a isso que todas as classes envolvidas no comércio varejista. 917a. máximas ou mínimas. no seu em bota monto de espírito. geralmente. Em 921a-b. adulteração ou declarações mentirosas nas relações comerciais. em 916d-e. 919a: “(…) se todas essas atividades pudessem ser praticadas em conformidade com uma regra que impedisse a corrupção. Lembra. a prática do varejo e os serviços de estalagem. escutemos um prelúdio. preferindo. o estrangeiro fala a respeito do trabalho dos artífices. Este deverá sempre declarar claramente as limitações. a não ser que queira tornar-se sumamente odioso aos deuses (…). . Numa cidade de homens livres.

agir artificiosamente com as pessoas leigas. Vê- se em 926d-e. do parágrafo 921c-e. é essencialmente verdadeira e sincera). filho ou filha. de uma maneira irracional. apontaremos legalmente os guardiões das leis para desempenharem o papel de seus pais. E continua a postular as especificidades concernentes à matéria. caso em que a pessoa prejudicada gozará do recurso de processar aquele que o prejudicou (…). Em primeiro lugar. a propósito nada inferiores [aos seus pais naturais]. 137 sua arte (que. “O ateniense” organiza a forma como o novo governo tratará o assunto. (…) sua condição de órfãos possa ser a mais livre possível de uma impiedosa e vil miséria. já tendo nós . E continua sua exposição da lei que dará conta de tal assunto. condição a que podem ficar expostos os órfãos. Assim. todos os outros assuntos estarão submetidos à prévia lei (…)”. pois vê que. encarregaremos três dos guardiões das leis para anualmente cuidar dos órfãos como se fossem seus próprios filhos. “O ateniense” entende prudente normatizar tal assunto. O próximo assunto a ser abordado será a questão do direito ao testamento. à beira da morte. até contrários às suas próprias disposições antigas na época antes de se proporem a fazer um testamento (se é que qualquer testamento que alguém faça mereça receber validade absoluta e incondicional) independentemente de sua condição mental ao fim da vida. do parágrafo 923a-e até o 925c. segue-se um longo discurso. muitas vezes. 927a: O ateniense: (…) crianças órfãs serão submetidas a uma espécie de segundo nascimento. diante da morte e da transmissão de seus bens. faz-se necessário prestar atenção às crianças órfãs. 922a. Dessa forma. pois a maioria de nós nos encontramos numa condição mental mais ou menos embotada e debilitada quando imaginamos que nossa morte está próxima. mesmo. Nota-se em 922b-c: O ateniense: E é de fato impossível deixá-los sem regulamentação pois aos indivíduos é possível indicar os mais diversos desejos tanto contraditórios entre si quanto contrários às leis e às disposições dos vivo se. perde as habilidades cognitivas e tende a agir. no qual o estrangeiro estabelece como a lei se comportará em todos os aspectos do testamento. Posteriormente. o homem se desespera. Em 925c aponta uma nova questão: “No caso de morte sem testamento e sem nenhum descendente.

o respeito que os filhos devem ter para com seus pais e com os ascendentes mais velhos. vê-se que o estrangeiro toca num tema que julga muito importante para a base de uma sociedade sadia. será conveniente que fiquem sob o constante controle de dez membros do corpo dos guardiões das leis. Logo após a explanação sobre as desavenças entre pais e filhos. são passíveis de supor que o legislador lhes facultasse permissão legal para proclamar publicamente mediante arauto. Em 928d-e: O ateniense: Entre pais e seus filhos. Esse respeito agrada aos deuses e deverá ser premissa no desenvolvimento dos valores mais nobres do homem. Depois. reivindicam a permissão de indiciar seus pais por insanidade quando se encontram numa condição vergonhosa em função da doença e da senilidade. Tais fatos ocorrem ordinariamente entre homens que têm um caráter inteiramente mau. que seus filhos cessaram legalmente de ser seus filhos. ou vice-versa – uma tal inimizade não produz consequências calamitosas. segue-se uma grande narrativa que dá vida à normatização dos deveres para com os órfãos. A lei que vinculará esta pauta será descrita no parágrafo 929a-e. E tal norma será explicada no parágrafo 929b-e. associados a dez das mulheres encarregadas do casamento. por um lado. 931a: O ateniense: A negligência com os pais é algo que nenhum deus e nenhum ser humano sensato jamais recomendariam a alguém (…). irrompem desentendimentos mais graves do que o que se poderia esperar. e filhos e seus pais. não conseguem de modo algum entrar em acordo. se o desejarem. 138 fornecido tanto a estes quanto aos tutores um adequado prelúdio de instruções referentes à formação dos órfãos. Os variados tipos de desentendimentos entre pais e filhos também é motivo de exame minucioso e pede cuidado da lei na nova Constituição. Observa-se em 929e. enquanto os filhos. de idade média. 930a: O ateniense: Se um marido e a esposa. que vai do parágrafo 927a-e ao 928d. Nota- se em 929e. por outro lado. em meio aos quais os pais. os pensadores decidem regulamentar a lei para os casos de brigas entre marido e mulher. visto que quando apenas a metade deles é má – o filho sendo mau e o pai não. E. mais uma vez. por discórdia gerada por diferença de temperamentos. .

pois a partir dessas coisas leves. teremos esta única lei para cobrir todos os casos: ninguém agredirá abusivamente ninguém. 935a-d. como também convence suas vítimas que estão de fato sendo atingidas por aqueles que possuiriam o poder mágico. O tipo que mencionamos agora explicitamente é aquele no qual o dano provocado é realizado contra os corpos por corpos conforme as leis naturais. 139 Assim. sem agressões verbais mútuas [e descontrole emocional] e mesmo em relação às eventuais pessoas presentes. alternando-se. e além disso. “O ateniense” explica em 933e. pertencem a dois tipos distintos. que nunca suponha que enquanto tiver uma tal figura junto ao seu fogo doméstico terá qualquer está tua de maior poder. Atos de violência ou roubo serão tratados do parágrafo 933e ao 934d. uma delas falará e a outra escutará. Desse modo. Já os tratamentos abusivos e as injúrias serão refutados a partir do que regula o estrangeiro nos parágrafos 934e. em função da natureza da raça humana. Em 932e. entende-se sua declaração: O ateniense: No que tange ao tratamento abusivo. realmente. Nessa passagem. 934a: O ateniense: Em todos os casos em que alguém causa danos a outrem mediante atos de violência ou roubo. Distinto é o tipo que utilizando sortilégios. o agressor pagará uma larga soma a título de compensação à parte lesada e uma pequena soma se o dano for pequeno: corno regra geral. Para clarear seus pensamentos. o envenenamento e seus malefícios serão colocados em pauta pelos dialogantes. desde que dela cuide e lhe renda verdadeiramente o devido culto. ou um avô ou uma avó em sua casa reduzidos à incapacidade num leito em função da velhice. a lei que cuidará de tamanha importância estará retratada em 931e. se o dano for grande. palavras. situações quase insustentáveis e . o estrangeiro diz: O ateniense: Faz-se necessária uma subdivisão em nosso tratamento dos casos de envenenamento porquanto. toda pessoa arcará com a penalidade vinculada ao seu crime mediante um corretivo. isto é. encantamentos e enfeitiçamentos (como são chamados) não apenas convence aqueles que tentam causar dano que eles têm o poder de fazê-lo. 932a-d. toda pessoa devera em todos os casos pagar uma soma correspondente ao dano provocado até que a perda seja ressarcida. brotam. Mais tarde. 933a. Se duas pessoas estão discutindo. que deixarão registrada a lei responsável por tal fato no parágrafo 933a-e. se qualquer indivíduo tem um pai ou uma mãe.

é hora de discutir o sarcasmo. Ninguém. Para “O ateniense” não há que se ter compaixão com os “que padecem de fome ou outra privação semelhante”. o último assunto que vem à luz é a atividade da advocacia. “O ateniense” desaprova o ofício. quais serão suas punições. ao contrário. Em 937e: O ateniense: E se a justiça é bela. dando continuidade à matéria em 936b-d. tais palavras em qualquer lugar sagrado. Regulamenta como crianças e escravos poderão servir como testemunhas e mais coisas que permeiam essa matéria. 937a-d. portanto. Para ilustrar: “Mas e quanto ao humor dos cômicos. o estrangeiro aborda a questão da testemunha. 140 mesmo ódios e rixas quando as pessoas principiam a proferir imprecações. Mais adiante. ao falso testemunho. também diz que a mulher poderá testemunhar. Determina quais as penas serão aplicadas àquele que se negar a testemunhar em momentos que seu testemunho for necessário. nós o toleraremos na sua linguagem por ser destituído de cólera?”. Quase ao fim do Livro XI. jamais proferirá. ou na ágora ou num tribunal ou qualquer assembleia pública. 936a-e. sob qualquer molde. seja importunado por tal atividade. quem poderá se valer dele e em quais determinadas situações. supondo que esse Estado fosse moderadamente bem organizado. mas. Encontra-se tal matéria discutida e regulamentada em 935d-e. em qualquer sacrifício público ou jogos públicos. sempre pronto a expor as pessoas ao ridículo. uma tal pessoa (escravo ou homem livre) fosse tão cabalmente abandonada a ponto de ser reduzida à completa indigência. Pode-se notar em 936e. uma vez que acha que as habilidades da oratória e performance de um advogado podem levá-lo a cometer erros nocivos. fica definida a lei pertinente. como negar que a profissão de advogá-la também não o é? Mas estas belas coisas estão perdendo . desvirtuosos. E. Sobre a mendicância. Finalmente. os pensadores atentarão para como os homens deverão se comportar diante de outrem que se encontra em tal situação. será diferente com aquele que. Vê-se em 936b: O ateniense: Diante disto seria espantoso realmente que no seio de um Estado e de acordo com sua constituição. se xingando entre si mediante termos vergonhosos e difamatórios como mulheres desbocadas (…). apesar de praticar virtudes.

então. 141 a boa reputação devido a uma espécie de arte nociva. 6. surgir no nosso Estado. Em relação aos bens. em 938a-c. (…) e quem quer que assim agir ilegalmente não é. 942a. corrupção dos servidores. receptação. administração da justiça.2. Em 941b-c: O ateniense: O furto de bens não é civilizado. de sua parte.. dessa vez para discorrer sobre o furto. o bom juiz. a lei se pronunciará (…). oferenda aos deuses.. E dá contorno à lei que assegurará a punição de quem praticar tal ato. se possível.). a lei. mas se eles não atenderem. que se disfarçando sob um belo nome sustenta (…). o Livro XI. o roubo escancarado é vergonhoso. viagens ao estrangeiro. violência ao direito. jamais. “O ateniense” retoma o assunto já tratado em outros Livros. legislação militar. nem um nem outro dos filhos de Zeus os praticaram extraindo prazer na fraude ou na violência. proibição dos juramentos. se eles atenderem a isso. se manterá em silêncio. Propriamente fala sobre a probidade no exercício dos cargos públicos. em absoluto. o conselho noturno e sua importante função e a unidade da virtude. cerimônias fúnebres. o papel do Estado quando se faz paz em tempo de guerra. ou o afastamento de tais artistas para um outro Estado.12 Livro XII – A proposta sobre o justo e outras questões O Livro XII dá continuidade à regulamentação das leis pertinentes aos assuntos mais importantes do novo governo. impostos. . dizendo como o Estado deverá agir com os advogados. relações com estrangeiros e sua recepção no Estado. Termina. E acrescenta em 938a: O ateniense: Essa arte – quer seja realmente uma arte ou um ardil artificioso aprendido pela experiência e prática regular – não deverá. nos parágrafos 941d-e. reparadores dos magistrados. sequestro de bens e busca. e quando o legislador exigir o acatamento e o não afrontar da justiça. um deus nem um filho de deus (.

então todo o Estado e território floresce e é feliz. que as opiniões dos seres humanos acerca dos deuses mudaram. Tudo o que tiver relação com a lide terá que ser escrito e entregado ao magistrado competente para análise. Em 942c-d: O ateniense: Este hábito de comandar e ser comandado por outros tem que ser praticado pacificamente desde a mais tenra infância. e o acusado de maneira análoga deverá registrar por escrito sua negativa e entregá-la aos magistrados sem um juramento. o cargo de reparador representa um tal fator crítico. porém. pois se aqueles que atuam como reparadores dos magistrados são melhores homens do que eles. Vê-se em 948c-d: O ateniense: Considerando-se. (…) Diante disto. Para isso. Assim. Fica proibido o juramento. mas não prestar qualquer juramento. no que se refere à preservação ou a dissolução e o desaparecimento de uma constituição política. estabelecem-se as normas que abarcarão toda a matéria citada acima. passa a organizar as ideias sobre como se dará a organização militar na nova sociedade (do parágrafo 942a-e ao 945b). A questão dos reparadores dos magistrados deverá ser analisada com cuidado. leis elaboradas inteligentemente devem impedir que as partes em litígio façam juramentos. e dos mais sérios. Assim. (…) de qualquer modo é preciso tentar descobrir alguns reparadores ele uma qualidade divina. assim também deverão suas leis ações legais. por conseguinte. Em 945b-e: O ateniense: Falemos agora dos reparadores que examinarão a gestão dos diversos magistrados. os dialogantes reservam bastante atenção ao tema. a anarquia precisará ser inteiramente eliminada das vidas de toda a humanidade. (…) Ora. Aquele que está movendo uma ação contra alguém deve registrar suas acusações por escrito. indica um ponto fundamental para que essa organização dê certo. “O ateniense” fala sobre como o homem deverá agir quando mover uma ação contra outrem e como a resposta a tal ação prosseguirá. e inclusive das vidas dos animais que estão submetidos ao ser humano. visto que cabe a eles a honrosa tarefa de reparar o funcionamento dos magistrados de acordo com a virtude. 142 Posteriormente. uns eleitos pelo acaso do sorteio para um ano de mandato. outros para vários anos e escolhidos a partir de um elenco de pessoas já seletas. é absolutamente imperioso que os reparadores sejam homens da mais rematada virtude. e se agem irrepreensivelmente mediante justiça irrepreensível. ao longo dos parágrafos 945e ao 948b. . Adiante.

O ateniense: Portanto. 953a. do parágrafo 950a- e ao 953e. para outras terras e lugares e a admissão de estrangeiros no Estado temos que agir da seguinte maneira: em primeiro lugar. os dialogantes traçam um longo discurso a fim de que a lei proposta seja muito clara e não negligencie em nenhum aspecto. em segundo lugar. quanto à questão de ir para o estrangeiro. constitui uma política inconcebível proibir terminantemente aos estrangeiros que visitem o Estado ou aos cidadãos que visitem outros Estados. 952d-e. se é que algum dia o faz (…). O primeiro e inevitável visitante é aquele que escolhe o verão. pode-se notar os postulados. Dessa forma. a viagem ao estrangeiro e quem tem competência tanto para entrar no território quanto para sair dele. Desse modo propõe em 954a: O ateniense: O corretor do bem em garantia numa venda atuará como fiador do vendedor caso este último não detenha efetivo . dessa vez. parecendo ademais. não será permitido que um homem se dirija ao estrangeiro na qualidade de indivíduo particular. O ateniense: O terceiro tipo de visitante estrangeiro que exige uma recepção pública é aquele que provém de um outro país para o trato de algum negócio público (…). O ateniense: O segundo tipo de estrangeiro é o inspetor no sentido literal da palavra. nenhum homem com menos de quarenta anos terá a permissão de ir para o estrangeiro. embaixadores e certas comissões de inspeção. que com seus olhos e seus ouvidos inspecionará tudo que diz respeito às exibições musicais (…). uma postura insociável e rude (…). 143 Para regularizar a questão das visitas de estrangeiros ao território. para suas visitas anuais. e tal resultado provocaria um imenso dano aos povos que desfrutam de uma boa forma de governo e uma boa legislação. Agora o estrangeiro ateniense acha prudente voltar à questão dos bens e. 950d-e. O ateniense: Há quatro tipos de estrangeiros visitantes que requerem menção. de ordinário. para nenhum sítio. aos olhos do resto do mundo. O ateniense: Ora. 950a-b. mas a permissão na qualidade de representante público será concedida a arautos. 953b e 953c: O ateniense: O intercâmbio entre Estados naturalmente resulta numa mistura de caráteres de todo tipo. semelhante a aves migratórias (…). Algumas passagens sobre o assunto: respectivamente em 950a. discorrer sobre o sequestro deles e o direito à sua busca. O ateniense: O quarto tipo de estrangeiro nos visita esporadicamente. na medida em que estrangeiros importam entre estrangeiros costumes novos.

deverá colocar-se nu da cintura para cima e não usar cinto. os estrategos convocarão os autores de tal ação perante a corte e a pena para aquele que for condenado será a morte”. Em 955d-e: O ateniense: Quanto às contribuições em dinheiro feitas ao tesouro público. quer seja o demandista ou suas testemunhas. ele fará a busca. e dar abrigo a um exilado constituirá um crime a ser punido com a morte”. por muitos motivos. Em 954a: O ateniense: Se alguém impedir pela força que alguma pessoa compareça a uma corte. quem se defrontou com a recusa tomará medidas legais. diz sobre a possibilidade de alguém ser impedido de comparecer à corte sob a força da violência. E desenvolve sua lei no parágrafo 954b-e. e depois de ter feito um juramento pelos deuses designados [pela lei] de que verdadeiramente espera encontrar seu bem nessa residência. Em 955c: “Se qualquer porção do Estado celebrar a paz ou fazer a guerra por sua própria decisão contra este ou aquele partido. 144 direito sobre os bens vendidos ou seja completamente incapaz de garantir sua posse. Mais tarde. e possa determinar ano a ano se . Deixa claro de 954e a 955a como seguirá a sanção à infração a qual se refere. de modo que o tesouro possa optar pelo método de contribuição existente que preferir. sendo a pessoa seu escravo ou escravo de outro senhor. vê-se na obrigação de discorrer sobre o tema “recepção”. a ação será anulada e invalidada (…). receber qualquer objeto furtado estará sujeito à mesma penalidade do ladrão. Logo após. Ainda haverá mais uma infração que será punida com a privação da própria vida. “O ateniense” deixa registrada a forma como se dará tal contribuição. aquele cuja residência for objeto da busca lhe concederá o direito de vasculhar sua casa. que cada propriedade particular seja avaliada e também que o cômputo da renda anual seja entregue por escrito aos agorânomos pelos comissários das tribos. será necessário. conscientemente. aquele que decidir por si só celebrar a paz ou fazer a guerra sofrerá a maior sanção que há. declarando o valor estimado do bem que é objeto de busca. incluindo tanto coisas seladas quanto não seladas. tanto o corretor como o vendedor assumirão responsabilidade legal. em 955b: “Aquele que. Se alguém quiser fazer uma busca na residência de uma outra pessoa. E assevera. Quanto aos impostos que deverão ser pagos ao Estado. Mas se alguém pretender executar a busca e a outra parte lhe recusar a permissão de fazê-lo.

quais ações os parentes e próximos deverão ter. que chamamos de alma imortal parte para prestar contas perante outros deuses (…). enquanto o corpo é para nós a imagem concomitante. é o que será mais eficiente em fazer daquele que a ele se devota um ser humano melhor visto que. de como as virtudes dessa figura deverão prevalecer para que esse título tenha valor diante dos homens e dos deuses. então. 145 exigirá uma proporção rio valor estimado na totalidade. que: “Quanto às oferendas votivas aos deuses. ou uma proporção da renda anual atual. pois entre todos os estudos. Conclui. os pensadores se veem na obrigação de dar mais profundidade ao assunto. o das regulamentações legais. ou seja. sem incluir os tributos pagos relativos aos repastos comuns. o estrangeiro. Passada tal fase. Em 959a-b: O ateniense: Como em outras matérias. tendo. . e em parte serão formuladas antes que encerremos nossos discursos. argumenta sobre as oferendas aos deuses. também que estudar a exposição escrita delas que tiver em mãos. No que diz respeito à questão da organização do Estado. estando certo quem diz que o corpo sem vida não é senão a imagem do morto e que o eu real de cada um de nós. é mister confiar no legislador. é conveniente a um homem moderado apresentar oferendas de valor moderado”. Percebe-se em 957b-c: O ateniense: Todas as regras relativas no silêncio e discurso discreto e o oposto destes da parte dos juízes e tudo o mais que diferir das regras vigentes em outros Estados concernentes à justiça. o que nos induz também a nele acreditar quando nos sustenta que a alma é plenamente superior ao corpo e que nesta própria vida o que faz com que cada um de nós seja o que é nada mais é do que a alma. Todo aquele que se propõe a ser um juiz correto e imparcial terá que atender a todas essas matérias. Assim. à bondade e à beleza – todas essas regras foram formuladas em parte. no Livro XII. diante dessa celebração. a matéria volta à pauta para que sua real significação e seus acessórios sejam mais explorados. contanto que seja corretamente estruturado. A morte é um assunto já abordado em outros Livros e aqui. seria em vão que nossa lei divina e admirável ostentasse um nome aparentado à razão. se assim não fosse. do novo governo. e do parágrafo 956c-e ao 957b desenvolvem leis que darão respaldo a determinações suplementares sobre a administração da justiça. se concentra na figura do 'bom juiz'. os dialogantes estabelecerão o modo como ela deve ser celebrada e. com minúcia. Logo em seguida. em 955e.

Platão. na voz dos dialogantes. o qual. aquele de suma relevância na ordem do Estado. tem-se em 966b: O ateniense: (…) verdadeiros guardiões das leis devem conhecer efetivamente a verdadeira natureza delas. é denominado virtude com absoluta propriedade. de sorte a manter a guarda do Estado e assegurar sua preservação”. Já se referindo ao conselho noturno. mais adiante. segundo nosso consenso. como se realmente não constituíssem uma pluralidade. pode-se notar em 963a: Clínias: E não seria. ela é primordial na atmosfera do novo Estado. Ainda. justiça e sabedoria – possa com justeza ser denominado. de 959d-e a 960c encontra-se toda a lei pertinente ao caso. novamente. Mais que necessária. estrangeiro. enfatiza numerosas vezes tamanha importância na vida do homem. e que – considerando-se que existe como uma unidade na coragem. no entanto. Assim. julgando boas e más ações de acordo com sua verdadeira natureza? Clínias: Certamente. temperança. E. pelo único nome de virtude. além de serem capazes tanto de expô-la pelo discurso quanto agir em conformidade com ela em suas ações. as chamamos todas por um único nome: afirmamos que a coragem é virtude. ou seja. qual é o elemento idêntico que permeia todas as quatro virtudes. em primeiro lugar. uma vez que compete a eles a fiscalização e a boa manutenção dos magistrados e da sociedade. em 963c-d: O ateniense: E. o parecer que expressamos já há muito tempo atrás o acertado? Dissemos que todas nossas leis devem sempre visar um único objetivo. mas tão-só esta coisa única. À frente. em 968a-b: “(…) o conselho noturno dos magistrados será legalmente instaurado e participará de toda a educação que descrevemos. Depois. virtude. há um breve momento de filosofia sobre a virtude. 146 Então. como o afirmamos. . em 965d: O ateniense: Naturalmente nos será forçoso obrigar os guardiões de nossa constituição divina a observarem meticulosamente. que a sabedoria é virtude e as duas outras o mesmo.

Megilo e Clínias. mais uma vez o estrangeiro discorre sobre a supremacia do conselho noturno e deixa claro que o Estado. Isto feito. e desta feita finalmente constituídos como guardiões semelhantes aos quais em nossas vidas jamais vimos outros no que diz respeito à excelência na tarefa de preservar. É preciso que seja antes devidamente organizado. quando construímos uma espécie de imagem da união da razão com a cabeça. Para finalizar o Livro. “O ateniense” expressa em 968c: O ateniense: Não é possível neste estágio. é o ensino por meio de contínuas conferências. . uma vez estabelecido tal conselho. após seu treinamento. meus caros colegas. promulgar leis para esse conselho. nos será necessário confiar a ele o Estado. Em 969b-c:192 192 O ateniense: Se chegarmos de fato a formar esse divino conselho. se o pretendermos corretamente formado. colocados na acrópole do país. se tivermos os membros cuidadosamente selecionados e apropriadamente treinados e. com o que praticamente todos os legisladores amais concordam sem contestá-lo. Assim teremos na conta de fato consumado e realidade de vigília o que há pouco abordamos em nosso discurso como um mero sonho. estará em suas mãos. Mas já se mostra evidente que o que é necessário para formar um tal conselho. seus membros deverão eles mesmos determinar de que autoridade se revestirão. 147 Para que o conselho noturno seja formado adequadamente.

uma noção de lei superior a ser procurada.. contudo. Dicionário de política. 2001. enquanto a mutabilidade nasce da contingência histórica. considerando o Direito Natural e o Direito Positivo. cit. PASQUINO. Norberto. deve prevalecer. o Direito Positivo e o Jusnaturalismo na Antiguidade. devendo ser este último um reflexo do anterior. o estabelecido pelo Estado. ou seja. é o sistema jurídico de caráter intersubjetivo. p. sendo este de natureza imutável. caso isso ocorra. Tem validade em si. Entende-se por Jusnaturalismo a doutrina segundo a qual existe – e pode ser conhecido – um “Direito Natural” (ius naturale). um sistema de normas de conduta intersubjetivas diverso do sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado (Direito Positivo). então. Gianfranco. A observação de tal mutabilidade introduz a concepção de um direito natural (por comparação). o Jusnaturalismo. portanto. Nicola. Op. os jusnaturalistas entendem que o Direito Natural deve prevalecer. É antitética à doutrina do Positivismo Jurídico.1 Considerações iniciais A fim de apontarmos o direito natural de Platão em A República e sua positivação em As Leis. Espera-se que não exista conflito entre o Direito Positivo e o Direito Natural. a escola que estuda o Direito Natural e defende a lei natural como superior a qualquer lei. em caso de conflito. p.194 O Direito Natural. faremos neste capítulo um breve estudo a respeito do Direito Natural. cuja validade independe de qualquer referência a valores éticos. DIREITO NATURAL E DIREITO POSITIVO NA ANTIGUIDADE Todos os povos iniciam sua trajetória com a idéia da sacralidade da moral e do direito. 48. Cláudio. 656. .193 7. Como afirma Norberto Bobbio: 193 Sobre a ideia de direito natural na Grécia: DE CICCO. é anterior e superior ao Direito Positivo e. segundo a qual há apenas um Direito. 194 BOBBIO. o direito dualisticamente. O Jusnaturalismo concebe. MATTEUCCI. 148 7. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

196 cuja concepção monista admite apenas uma forma de Direito. uma lei “natural”. fisicamente co-natural a todos os seres animados à luz de instintos. reconheceriam tal dispositivo como justo. Todas as variantes. específica. uma lei com escopo de garantir a dignidade da pessoa humana. Norberto. 2. Não acredita que possa existir um jusnaturalismo que justifique o Direito. mas a forma. . Note-se que Positivismo Jurídico é o nome da escola. mesmo que exista um dispositivo futuro contrário a este ditame natural. o conteúdo da regra. não há que se falar em conflito entre Direito Natural e Direito Positivo. o Jusnaturalismo aparece em. O que muda na passagem não é a substância. do homem que a encontra autonomamente dentro de si. mas de integração. mas o modo de fazê-la valer. e que Direito posto ou Direito positivo significa o Direito escrito. a cujo poder fixam um limite intransponível. uma lei estabelecida por vontade da divindade e por esta revelada aos homens. pelo menos. 2000. ao longo da História. quatro versões fundamentais. em sentido estrito. é possível afirmar que os conceitos de Direito Natural e de Jusnaturalismo são análogos. o Direito Positivo. mas para possibilitar seu exercício através da coação. 196 Positivismo Jurídico é o nome da escola que estuda apenas o direito posto.195 A título de exemplo de um direito natural positivado. que prevê a vida como uma garantia fundamental do ser humano: os jusnaturalistas. Na história da filosofia jurídico-política. comportam a ideia comum de que o Direito Natural é um sistema de normas logicamente anteriores e eticamente superiores às do Estado. porém. 149 O estado civil nasce não para anular o direito natural. portanto. A doutrina teórica do Jusnaturalismo se opõe à doutrina da escola conhecida como Positivismo Jurídico. 192. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant. São Paulo: Mandarim. 3. 195 BOBBIO. cite-se o caput do artigo 5º da Constituição Federal brasileira. O direito estatal e o direito natural não estão numa relação de antítese. 4. portanto. Deste modo. parcialmente iguais e parcialmente diferentes. não é. a lei ditada pela razão. Sendo assim. p. em qualquer tempo. também com suas variantes: 1.

pois a alma não faria a transição adequada ao mundo dos mortos. Deveria eu. 186. Heródoto (a eficácia da norma) e Eurípedes (a legalidade). fizeram inferir 197 SÓFOCLES. que atentou contra a cidade de Tebas. Jean Melville da versão inglesa de Sir Richard Jebbs. Antígona.C. nem a justiça. Em Antígona. Antígona. por temor de tuas ordens. dos deuses. que elas existem. mas havia uma lei promulgada por Creonte. Sófocles (a lei natural).. que consideravam a natureza governada por uma lei universal racional e imanente. Hesíodo (o trabalho humano). p. foi elaborado principalmente pelos estoicos.2 O jusnaturalismo na Antiguidade O Jusnaturalismo tem suas primeiras manifestações na Grécia Antiga. dirá quando começaram.C. seu irmão. Trad. Presente em Platão e. são de todos os tempos e ninguém. expor-me a merecer o castigo dos deuses?197 Foi com os sofistas que o Jusnaturalismo começou a ser esboçado. o promulgou. Sófocles (V a. o que constituía uma grande ofensa para o morto e sua família. Entre os pensadores desse período que formularam noções de justiça estão Homero (discutindo a necessidade humana). Antígona deseja cremar Polinice. nem de ontem. Justiça e Direito. Em época anterior ao século VI a. é capturada e sentenciada por Creonte à morte. faz o funeral do irmão. 150 A seguir.) contrapõe o ‘justo por natureza’ ao ‘justo por lei’. Não é de hoje. irmã dos Deuses. que a impedia: a lei proibia o funeral dos mortos que transgrediram as normas da cidade. o tirano. já se admitia na Grécia uma justiça natural. 2005. em verdade. São Paulo: Martin Claret. sendo inseparáveis Natureza. incidentalmente. 7. emanada da ordem cósmica. em Aristóteles. Sólon (a igualdade). faremos breves considerações sobre o jusnaturalismo na história do pensamento antigo. Édipo Rei. Ao sustentar que o ser humano não estava apto a alcançar a verdade. . enfurecida e entendendo que as ordens de uma autoridade política não podem sobrepor as leis eternas. Antígona reflete sobre a lei de Creonte: Nem Zeus. Não creio que teu édito derrogue as leis não escritas e imutáveis dos Deuses. pois não passa de simples mortal. assim.

p. Platão inclui na estrutura de seu pensamento a necessidade de normas coercíveis para que a justiça consubstancie a lei suprema da sociedade ou do Estado. os guardas. aduz: Como se vê. o que reflete a impossibilidade de se praticar plenamente a justiça. dos quais a justiça reclama a coragem. 2006. São Paulo: Ícone. O positivismo jurídico. 151 que consequentemente as instituições político-jurídicas da pólis grega também não o poderiam fazer. Norberto Bobbio. thimós e logos. em sentido contrário. pois não possibilitava o entendimento correto sobre o sentido da ética e do bem. Em A República. mas da linguagem: esta traz para si o problema (que já encontramos nas disputas entre Sócrates e os sofistas) da distinção entre aquilo que é por natureza (physis) e aquilo que é por convenção ou posto pelos homens (thésis). Platão. bem como está presente nas virtudes particulares – a temperança. . responde pela Teoria das Ideias.198 198 BOBBIO. Apenas rememorando. estaria a justiça. Sócrates preleciona que a virtude deveria ser o vínculo entre o indivíduo e a sociedade. os sábios. Em A Política e em As Leis. de quem a justiça exige a temperança. Diante da virtude. enquanto discípulo de Sócrates. portanto. Portanto. Norberto. e só é justa a cidade em que todos exerçam seus papéis. O problema que se põe pela linguagem. A justiça ideal expressa a harmonia das três partes da alma – epitimia. De acordo com o idealismo platônico. Sócrates considera temerária a visão sofista quanto à vulnerabilidade das leis no tempo e no espaço. dos quais a justiça demanda sabedoria. a justiça política apresenta-se semelhante à justiça do indivíduo. independentemente do julgamento humano. Essa relativização da justiça ocasionaria certo desprezo às leis. 15. ao comentar uma passagem de Aulo Gellio. Noções de filosofia do direito. se algo é ‘natural’ ou ‘convencional’. No que diz respeito ao entendimento sobre o que é ‘positivo’ e o que é natural. põe-se analogamente também para o direito. isto é. Platão expressa uma sociedade na seguinte dinâmica: os artesãos. como já foi visto. o mundo sensível constitui a sombra da verdade perfeita e imutável do mundo das ideias. nesta passagem a contraposição entre ‘positivo’ e ‘natural’ é feita relativamente à natureza não do direito. a coragem e a sabedoria.

a justiça não se dissocia da pólis ou da sociedade: o homem como animal político necessita de convivência e da promoção do bem comum. Capítulo VII: Da justiça civil uma parte é de origem natural.199 Os critérios usados por Aristóteles que possibilitam a distinção entre Direito Natural e Direito Positivo são: i) quanto à eficácia. devemos apelar para a lei universal e insistir em sua maior equidade e justiça”. A distinção conceitual entre Direito Natural e Direito Positivo pode ser vista em Ética a Nicômaco. 1: “se a lei escrita dispõe contra nós. Conforme o pensamento aristotélico. p. Natural é aquela justiça que mantém em toda parte o mesmo efeito e não depende do fato de que pareça boa a alguém ou não. portanto. adquirida pelo hábito. o foco da filosofia grega passa a ser o problema ético-moral. Admite que a lei positiva pode carecer de correção. O justo natural expressa uma justiça objetiva imutável e que não sofre a interferência humana. mas sim como é. cit. a menos por abstração. outra se funda na lei. com a reiteração de ações num determinado sentido. Op. cap. o direito natural independe deste (existe anteriormente à conduta) enquanto o direito positivo requer que a lei seja cumprida.. o direito natural mantém-se o mesmo em toda parte. No período pós-socrático. ao passo que o direito positivo tem eficácia somente para a comunidade abrangida por aquele determinado direito posto. Por sua vez. 16. Conforme sua obra Retórica no Livro II. de que não importa se suas origens são estas ou aquelas. não importando a multiplicidade das condutas possíveis (apenas uma é regulada e. Mesmo sendo discípulo de Platão. o que se realiza pela observância do justo natural e pela aplicação da equidade. discorda do idealismo platônico ao entender que a matéria não poderia se dissociar da forma. esta deve ser seguida). o justo legal é a lei positiva. Livro V. . ii) quanto ao juízo de valor. A justiça é vista como uma virtude. 152 Aristóteles também subordina o conceito de justiça à ordem universal. emanada do legislador e que sofre a variação espaço- temporal. uma vez sancionada. 199 ARISTÓTELES. discutido no Epicurismo e no Estoicismo. No seu entendimento. essas premissas fundamentam a importância da lei para regular a vida social. consoante os parâmetros da justiça. A justiça política subdivide-se em: natural e legal. fundada na lei é aquela. ao contrário.

das paixões e da própria dor. Neste enfoque. o prazer da dor. No campo da ética. diferindo do racionalismo estoico. do prazer. dos prazeres. Consoante Epicuro: Exatamente porque é um bem primitivo e natural. Epicuro: as luzes da ética. como força universal. a felicidade não depende da nobreza.200 Posto isso. A razão. 92. 153 No Epicurismo. podemos mesmo deixar de lado muitos prazeres quando é maior o incômodo que os segue. posto que o homem só é feliz quando é autônomo e independente de condicionantes exteriores. São Paulo: Ed. o natural e o não natural. Para o Estoicismo. o Epicurismo propõe que o homem experimente o mundo a partir das sensações. . Carta a Menequeu. era considerada pelos estoicos a base do Direito e da Justiça. dos deuses. 200 EPICURO. Muitas das formulações encontradas entre os estoicos são semelhantes às estabelecidas por Platão e Aristóteles. escola para a qual a realidade é plenamente penetrável e compreensível pela inteligência do homem. In: MORAES. o conceito de Natureza era o centro do sistema filosófico. As leis consistem em um mero acordo entre os cidadãos. e consideramos que muitas dores são melhores do que os prazeres quando conseguimos. sendo o homem uma criação basicamente racional. existe um Direito Natural comum. p. João Quartim de. ou das conquistas exteriores. O Direito Natural correspondia à lei da razão. Moderna. a justiça estabelece-se como mecanismo para a busca do bem-estar pessoal. baseado na razão. o homem precisa apenas de si mesmo. formatando um conhecimento a partir de suas experiências. um prazer ainda maior. De acordo com essa escola. universalmente válido. da riqueza. escola fundada por Zenon de Citio (350-250 a. Tais experiências propõem um arcabouço para que o homem consiga distinguir o que é bom e o que é ruim. após suportá-las. Para atingir a paz e a felicidade.C). o Epicurismo enfoca a busca da felicidade com prudência para discernir e conquistar a ataraxia. não escolhemos todo e qualquer prazer. seus postulados são indistintamente obrigatórios. não há que se falar em um Direito Natural pré-determinante do que é justo ou injusto. que consiste na estabilidade de ânimo diante das coisas. 1998. em diversas situações o homem pode construir sua felicidade.

oposto à fundamentação metafísica da antiga tradição pré-socrática. e que o homem deve viver conforme sua natureza racional.. Ela não prescreve uma norma em Roma. cit. em Roma. Norberto Bobbio nos adverte que mesmo este existindo. Limitando-nos a algumas indicações a respeito diremos que na época clássica o direito natural não era considerado superior ao 201 CÍCERO. imutável e eterno. os homens nasceram para a Justiça. O Estoicismo foi revisitado por Cícero. Ainda. é imutável e eterna. inovando. p. nem uma regra hoje e outra diferente amanhã. Cícero prenuncia um direito natural racionalista. que é conforme a natureza. Essa lei eterna e imutável abrange todos os povos e todos os tempos. aplica-se a todos os homens. a conexão intrínseca entre a natureza e a razão. 224. o Direito Natural é universal. ao Direito Positivo. 1978. 202 BOBBIO. o jus gentium equivale ao Direito Natural e o jus civile.. Conforme sua obra De Officis: (. imutável e estabelece aquilo que é bom (bonum et aequum). Norberto.. outra em Atenas. o Direito Positivo é particular no tempo e no espaço. São Paulo: Nova Cultural.. sob o postulado básico de que a natureza e a razão compõem um todo. . que diverge do Direito posto. Entre as categorias previstas nas Instituições de Justiniano. fundando-se o Direito na natureza e não no arbítrio. O primeiro não tem limites e é posto pela naturalis ratio. o segundo limita-se a um determinado povo e é posto pelas entidades sociais que o representam.) há de fato uma verdadeira lei denominada reta razão.202 Entre as categorias previstas nas Instituições. manifestação da lei universal. Os pensadores.. portanto. 19. bem como estabelece aquilo que é útil (segundo o critério econômico ou utilitário). o jus gentium equivale ao Direito Natural e o jus civile ao Direito Positivo. Sobre o Direito Natural na antiguidade.201 Para o jusfilósofo. O positivismo jurídico. pressupondo um direito natural universalmente válido e baseado na razão. p. 154 A concepção jusnaturalista dos estoicos reassume o conceito de logos. era o Direito Positivo que prevalecia: O exame das diversas concepções sobre a diversidade de planos em que se colocam o direito natural e o positivo nos levaria muito longe. a partir do conceito da naturalis ratio. A razão universal está em cada indivíduo. sem violá- la.

baseando-se no princípio pelo qual o direito particular prevalece sobre o geral ("lex specialis derogat generali"). tradicional das famílias gregas do culto dos antepassados. 204 BOBBIO. Decorreu das crenças religiosas universalmente aceitas na idade primitiva desses povos e reinando sobre as inteligências e as vontades”.. em que o direito positivo o decreto de Creonte prevalece sobre o direito natural – o "direito não escrito" posto pelos próprios deuses. 2004. entre poder potestas. assim. evoluindo economicamente. achou esse direito já estabelecido. (. vivendo enraizado nos costumes.. cit. 8 do livro II – Autoridade na família: “A família não recebeu da cidade as suas leis.) O direito privado existiu antes dela (a cidade).... e FUSTEL DE COULANGES. 203 O Direito natural era considerado comum. 5. cumpre observar que Platão constrói boa parte de sua doutrina política como proposta de negar o modelo. p. Entende-se ai a diferença estabelecida por Hanna Arendt no Entre o passado e o futuro. Op. cit.. poder é força. formado pelos antigos princípios que a constituíram. que.204 Concordamos com a posição supramencionada. ed..) O direito antigo não é obra de um legislador: pelo contrário. É nesse diapasão que Platão busca propor uma teoria do Direito Natural superior ao Direito Positivo. Nesse sentido DE CICCO. A medida que a pólis grega aumenta populacionalmente. Ou seja. Seu berço está na família Nasceu ali espontaneamente. Ao nosso objeto de estudo. e autoridade auctoritas. o direito positivo prevalecia sobre o natural sempre que entre ambos ocorresse um conflito (basta lembrar o caso da Antígona. 25. Essa proposta é o que veremos no próximo capítulo. há uma desconcentração do poder que vai perdendo cada vez mais o seu caráter primitivo sacral. Cláudio. A cidade antiga. 155 positivo: do fato o direito natural era concebido como "direito comum"203 (koinós nómos conforme o designa Aristóteles) e o positivo como direito especial ou particular de uma dada civitas. O positivismo jurídico. Cap. 92-93. autoridade é consentimento baseado no respeito. pois este se contrapunha ao direito Sacro. São Paulo: Martins Fontes. impôs-se ao legislador. a quem a protagonista da tragédia apela).. a seu juízo. fortalecido pela unânime adesão. 70 e ss. Norberto. p. ligado ao culto dos antepassado se vai se tornando cada vez mais um problema de força. assassinou seu grande mestre. Quando a cidade começou a escrever suas leis. . Numa Denis. (. p. Acrescemos ao exemplo de Antígona o aceite de Sócrates às Leis positivas do Estado com sua pena de morte.

respondeu. algumas bases sobre o que não é justo. 8. uma vez que não define seu lugar tampouco seu objeto. favorecendo os amigos e prejudicando os inimigos não é aceita por Sócrates. Protágoras e na própria As Leis. .2 Trasímaco e o positivismo jurídico Logo no Livro I de A República. Ou seja. O DIREITO NATURAL DE PLATÃO NA REPÚBLICA E SUA POSITIVAÇÃO NAS LEIS 8. 156 8. Antes de chegar à síntese deste conceito temos alguns debates no Livro I e uma longa exposição sobre a teoria da justiça nos demais livros. Platão entendia como cidade justa aquela em que cada um exercesse seu papel. a questão da justiça é discutida em Górgias. tal justiça tem o papel de ser um modelo. se não um paradigma para todos na pólis.1 Considerações iniciais A partir das considerações feitas anteriormente.205 Vimos que nessa obra a justiça é apresentada como sendo uma ordenação da alma identificada com a essência inteligível. máxima que se me afigura bem enunciada” é rebatida por Sócrates que assevera que é muito difícil definir justiça por essa afirmação. objetivamos nesse capítulo criar o elo necessário para a compreensão dos elementos do direito natural na República e sua positivação nas Leis. 205 Não obstante. dar a cada um o que lhe é devido. por exemplo. Sócrates apresenta. proposta por Polemarco de que a especificidade da Justiça é fazer o bem. A segunda máxima. É na obra A República que Platão expõe sua teoria da justiça com fundamentação no Direito Natural. A assertiva de Céfalo ao dizer que “por ser justo. por meio de rejeições. o bom jardineiro não poderia querer ser governante e um governante não pode querer ser guerreiro.

Essa primeira visão de Trasímaco nos leva a crer que as leis são justas à medida que os governos se impõem.207 Para isso relembramos novamente a fala de Trasímaco em 338-e a 339-a. é muito semelhante a dos pensadores que baseiam a aplicação da justiça no uso do poder. de eu afirmar que em todas as cidades o principio da justiça é sempre o mesmo: o que é vantajoso para o governo constituído. 207 Sócrates refuta tal ideia ao afirmar que tal visão pode levar a pleonexia e que o justo não deve buscar seu próprio interesse.206 sendo que o mais forte é aquele que promulga as leis. necessariamente. Exemplo: são justas as leis tirânicas em um governo tirânico. de forma que. Este. bem considerado. A posição de Trasímaco. mas que certamente o exclui de uma visão estritamente legalista. 206 483-c-e e 484-a-c em Górgias. Desse modo. a tirania. Cálicles defende a ideia de que a natureza criou fortes e fracos e que estes devem governar e os fracos devem sucumbir. leis tirânicas. . não há nada que seja naturalmente justo existindo apenas o legal. e assim com as demais formas de governo. A primeira definição que oferece para a justiça. em um jusnaturalista. declaram ser de justiça fazerem os governados o que é vantajoso para os outros e punem os que as violam. como transgressores da lei e praticantes de ato injusto. leis democráticas. o que é contraditório. Uma vez promulgadas as leis. ao fazer esta afirmação revela-se um dos precursores do positivismo jurídico. como já dito. que consideram justo tudo o que está de acordo com a vontade do legislador que tem poder para legislar e para julgar. 157 pois se assim fosse. implicaria na possibilidade de que uma pessoa justa utilizasse tanto a justiça quanto a injustiça para realizar seus fins. Trasímaco surge e centra algumas definições de justiça que são rebatidas por Sócrates. porem. rebatida por Sócrates. será certo concluir que o justo é sempre e em toda parte a vantagem do mais forte. em 338-c é “justo não é mais nem menos do que a vantagem do mais forte”. meu caro. a justiça nada mais é do que a aplicação da lei. em última análise. Nessa perspectiva. Cada governo promulga leis com vistas à vantagem próprias: a democracia. independente do governo que a estabeleça. a oposição oferecida por Sócrates é interessante. pois mostra que este se opõe a uma visão positivista. Eis a razão. Após esses debates. detém o poder. e. Podemos dizer que Trasímaco. o que não o transforma.

o que a entidade divina faz? Para essa questão Platão busca a resposta na observação da natureza. de possuir a inteligência como potência é o homem. com isso. Tal potência pode se desenvolver de maneira adequada. partes integrantes da natureza e não criadores desta. A ideia que se busca passar com essa assertiva é que o intelecto consiste em um atributo do ser humano. os seres humanos. ou seja. observa as realidades do mundo. devendo ser justo os atos guiados pela razão. 158 Após a refutação de Sócrates. Essa semelhança do homem com o divino consiste em uma imitação sendo a busca pela plenitude (télos). tirar vantagens de seu semelhante. para fins da definição de justiça. o único ser capaz. Então é a partir dessas afirmações que Sócrates. Desse primeiro livro da obra A República. em 349b – 350c. portanto. é essencial delimitar o lugar e o objeto da mesma. assim. para imitar o divino é preciso que o homem saiba o que o ser supremo faz. para que dessa maneira possa conhecer minimamente essa ação divina e. Aliás. somente o ignorante e injusto faria isso e contanto não definiríamos a justiça. Entretanto. podemos observar que. não foram sequer criadores de sua 208 A justiça tem como lugar a cidade e como objeto a alma. Trasímaco não se verga aos seus argumentos e aponta que o justo sempre sai em desvantagem do injusto. fazer mimeses da perfeição. diz que não é interesse do homem justo galgar. com isso. para Platão. Assim brota a indagação. Por consequência. Ressalta ainda o filósofo que o mais forte necessariamente não é o mais justo e que não se pode conceituar justiça como a vantagem do que se impõe. por meio de uma rigorosa educação à luz das virtudes e com isso o homem se torna semelhante ou próximo ao ser divino. é impossível imitar o desconhecido. entre todos os seres vivos. sendo.3 O divino e o direito natural para Platão A síntese da teoria do direito natural em Platão está em Filebo quando Sócrates afirma em 28c “o intelecto é o rei de nosso céu e de nossa terra”. mas sim a injustiça. e que este que compartilha com a divindade a capacidade de convertê-lo de alguma maneira também em um ser divino. . Entende que os seres humanos convivem em uma natureza que não criaram. para a qual devem mirar todos os esforços humanos.208 8.

Toda essa ordenação que existe no Universo não pode ser fruto do acaso. pois caso isso não ocorra tal lei não será justa. sendo que a lei eterna determina a ordenação. 159 própria espécie ou do curso dos astros e da vida. anterior à própria sociedade. e que não devido à energia mental da vontade que colima o cumprimento do bem. que conduzem à crença nos deuses? Clínias: Quais duas? O ateniense: Uma é que asseveramos acerca da alma. No mesmo diapasão de Platão. Santo Agostinho. que ela é a mais antiga e mais divina de todas as coisas cujo movimento. crescem e morrem. ou seja. que é a razão suprema de tudo. embora todas as coisas do mundo não tenham sido feitas pela ação humana. pois por pouco que se observe diferentemente de uma maneira descuidada e amadorística. considera que existem as leis humanas e a lei divina. 966e. ou então os astros que sempre seguem a mesma órbita nas várias estações do ano. 209 Embora Aristóteles parta das reflexões de Platão. significa em sua gênese “belo”. . estão marcadas por uma certa ordenação. que há duas provas. Assim. e por conta disso o direito positivo (no caso a lei temporal) deve-se basear no direito natural (manifestação da lei eterna). como vimos em Pitágoras. tal como os seres vivos. 210 Cosmo (Universo). todo Universo é uma bela ordenação210. o homem convive e existe com outros homens em um mundo que não criou. de As Leis: O ateniense: Está patente para nós. Com isso. Platão. como a legislação como a justiça se fundamentam no principio eterno.209 Como dissemos. Sobre as crenças nos deuses destacamos o seguinte trecho. jamais foi o ser humano tão natamente desprovido do senso do divino a ponto de não experimentar o oposto daquilo que é a expectativa da maioria dos indivíduos humanos. mas certamente de uma inteligência que criou e ordenou todas as coisas. embora possa criar a partir dos elementos que são dados nesse mundo. ou eterna. lembrando que em grego cosmos é harmonia. Isto se dá porque Aristóteles acredita que o direito natural é parte do direito político e que é possível verificar tal direito natural como consequência das interpretações da sociedade. Como já dissemos no capítulo II. que nascem. dentre aquelas que discutimos anteriormente. o dinamismo universal é constantemente marcado por um principio de ordem. de que todas as coisas vêm a ser devido a forças necessárias. então. em especial sobre Heráclito de Éfeso. como vimos. organizador do universo. estes divergem. quando desenvolvido em mudança produz uma fonte incessante de ser. e a outra é o que asseveramos no que concerne à ordenação dos movimentos dos astros e todos os demais corpos sob o controle do intelecto. tanto a política. que imaginam que aqueles que estudam esses objetos na astronomia e demais artes correlatas necessárias se tornam ateus pela observação. supõem eles.

a divina. a epitimia. e a compreensão do Universo como sendo uma obra da inteligência divina. em A República. Por conta disso. Platão oferece uma teoria da Justiça que se apresenta na tripartição da organização social e na tripartição da alma. pois isto o distanciaria do divino e consequentemente da inteligência. que em algum grau compartilha da inteligência divina. percebidas pela própria inteligência humana são derivadas de outra inteligência. o thimós e o logos. na política. Com esse exemplo. harmonizando elementos dos mais diversos com sua inteligência. é sim. do material.211 Ocorre. 212 Como já vimos. da ordem da construção. em sua imitação de Deus. que a inteligência humana não está restrita apenas à ordenação de objetos materiais: o homem. deve a inteligência humana. com o cosmo e seu todo? A resposta para essa pergunta. Isso não ocorre com uma ordem muito maior. mas sim da ação ordenadora guiada pela inteligência de alguém. temos a prova da existência de um Ser Supremo. . desde que seja pela ação divina que é uma inteligência superior que produz a ordem do universo. cabe ao homem imitar a divindade auto-ordenando sua alma e a cidade. a estrutura social disposta em A República e reiterada em As Leis. 211 Para construir uma cadeira é preciso do projeto. e nesse caso. isso não nasceu de um mero acaso. segundo Platão. no caso.212 Se o divino ordenou o universo. recordando que a beleza não decorre de um ato criador humano. Se a inteligência divina produz ordem. chegamos à imitação que o homem deve buscar fazer. Temos nas classes sociais os homens de ouro. guardas e produtores respectivamente. prata e bronze. a divindade. Daí se extrai que organização e ordenação. A dúvida que surge poderia ser: quais são as obras humanas? Em um primeiro momento são os atos que visam inserir ordem nas matérias da natureza como a construção de uma cadeira por exemplo. entretanto. é a mais possível acertada. À guisa de exemplificar. do carpinteiro. Importante destacar que o ser humano que conhece a divindade e sua ação ordenadora não poderia permanecer com a alma desagregada sendo suscetível a um conflito da alma. produzir belas obras que tem também como marca a ordem. o homem deve ordenar imitando o divino. 160 Por conta do argumento da beleza do Universo. e temos nas partes da alma. à luz do pensamento platônico. sábios. enfim. pode e deve buscar ordenar a si mesmo e também as relações que trava com os seus pares. citemos uma cidade organizada. é preciso uma ordenação.

Com isso. sendo que todos os demais213 os devem seguir. 161 Ocorre. desorganizadas e suscetíveis a conflitos. 8. cujos desejos obedecem à razão e. Ocorre que a punição da alma não alcança o corpo. que alguns homens não conseguiriam aflorar a parte da alma mais ligada ao logos ou a inteligência. e nos guardas e produtores que são governados (o segundo tipo de homem). que Platão oferece sua organização social pautada nos Sábios que governam (primeiro tipo de homem). dotados de almas vulneráveis. ou ainda. da existência. de alma organizada. qual seja. e com isso. ao contrário do conhecimento dos governantes que é sempre verdadeiro. Tais falhas levariam esses homens a possíveis atos desprovidos de justiça e guiados por opiniões verdadeiras ou falsas. É por conta dessa problemática. nesse diapasão que Platão entende que o corpo deve ser punido. aqueles que podem ser injustos. uma cópia da inteligência divina? Essa pergunta precisa ser compreendida com a conjugação do capítulo V deste trabalho no sentido de que a punição da alma está ligada aos Deuses que aplicarão penas àqueles que praticarem atos injustos.4 O direito natural em A República e sua positivação em As Leis Dessa exposição podem surgir algumas perguntas como: A obra As Leis. temos dois tipos de homens. de homens justos e possíveis homens injustos. inteligentes e ordenadas dos sábios o que fazer? Devemos aplicar qual lei? É nessa perspectiva. por conseguinte se governam pelo conhecimento verdadeiro. ao governarem. como vimos no Mito de Er. da necessidade de coercibilidade para aqueles que não participam agindo de maneira justa na pólis que se apresenta a obra As Leis. não seria algo imperfeito por tratar-se de uma cópia da natureza. e o segundo tipo de homens. na cidade. Surge uma pergunta: E caso estes não sigam as determinações justas. mas como fazê-lo se qualquer cópia será imperfeita? 213 Estes possuem opiniões que podem ser verdadeiras ou falsas. . Os sábios jamais serão suscetíveis a conflitos da inteligência ordenadora com qualquer parte da alma. quais sejam: os homens justos. proporão uma organização justa baseada na natureza dos Deuses. porém.

162 Tal punição do corpo acontece da melhor maneira no plano sensível. cujos fundamentos naturais se 214 VILLEY. na República Platão opta por seguir um caminho claramente oposto a esse. É de se esperar. O direito deveria emanar apenas do filósofo. entrega-se o direito à ditadura do príncipe”. numa espécie de positivismo jurídico bastante grosseiro. Outra questão que poderia surgir seria: As Leis não revela um Platão Positivista que abandona o fenômeno moral da justiça e desliga sua visão de encontrar na organização da natureza a resposta para pólis ideal. Platão continua se valendo da justificativa jusnaturalista para fundamentar suas Leis.215 mas sim surgem para possibilitar seu exercício através da coação. 215 LUCCIONI. como afirmou Michel Villey?214 Para essa questão a resposta é completamente negativa. O direito estatal e o direito natural não estão numa relação de antítese. La pensée politique de Platon. no fim das contas. e. ideal demais. 2005. mas que certamente visam a essa perfeição ou participam do conceito de lei ideal. São Paulo: Martins Fontes. Tal posição muito se assemelha com a perspectiva trabalhada no capítulo anterior com relação ao jusnaturalismo que se considera uma doutrina imutável e superior e anterior ao direito positivo. Além do que. Michel. 1958. Jean. As Leis Platônicas não nascem para anular o direito natural Platônico exposto em A República. ser compreendida como um valor em si. organizarão as melhores leis a serem aplicadas na pólis que poderão até não serem perfeitas. com efeito. mas de integração. em polêmica deliberada contra os sofistas. Por ter mirado alto demais. mas deve. pois Platão não abandona sua estrutura de cidade justa disposta em A República. tenta demonstrar que a justiça não pode ser reduzida à mera legalidade ou ao simples conjunto exterior e convencional das normas jurídicas. antes. o defeito dessa doutrina ambiciosa demais. acabe terminando. ele não está no governo. por possuírem uma alma destacadamente racional. tendo partido de tão alto. É este. Como observa Richard R. como não há filósofo. Platão é um jusnaturalista que positiva suas leis naturais. acaba caindo muito abaixo. ou. Oliveira: Todavia. 37: “É digno de nota que Platão. Paris: Presses Universitaires de France. . p. pois os sábios organizarão As Leis à luz da perfeita organização dos deuses e do engendramento natural do cosmos. que os sábios. se o filósofo existe. Em outras palavras. independente da lei. A formação do pensamento jurídico moderno.

isto é. por uma conversão realista que Platão teve no fim da sua vida.. certamente está ligada à ideia do direito Natural que pode ser positivado por sábios. A cidade justa em A República é uma utopia: consiste em uma ideia inteligível do que seria uma cidade ideal. tal cidade pode ser o modelo ao qual as cidades devem buscar se aproximar. é traçado um diálogo em que Platão tenta traçar a “segunda melhor cidade” (739-e). 61. Op. Alysson Leandro. e que deve ser copiada por aqueles que detêm a razão como parte mais forte da alma a fim de se organizar uma cidade justa. De. propõe a imitação de um modelo celeste. p. 163 encontram assentados na nas profundezas da psyché humana. O que podemos compreender é que Platão. cit. na busca de não oferecer um modelo irrealizável.218 note que rebaixar exigências não significa abandoná-las. 217 No mesmo sentido. a cidade em que as leis se baseiam no conhecimento verdadeiro do direito natural. Em 713-e Platão mostra não abandonar sua ideia de cidade ideal em As Leis. que essa busca da inteligência divina que se manifesta na natureza. Richard R. Op. 216 OLIVEIRA. 1971.216- 217 Disso podemos perceber que a obra As Leis não consiste em um “desencantamento com o ideal”. nas palavras de Alysson Mascaro: “Nessa obra Platão rebaixa as exigências ideais propostas em A República”. J. E em As Leis.. Não obstante. 218 MASCARO. Des origines à Aristote. ROMILLY. Com isso. 79. . La loi dans La penseé Grecque. cit. Paris: Les Belles Lettres. p. concluímos. como afirmou Luccioni. por todo o exposto nesse capítulo.

Com relação aos sofistas. apresentados ou refutados pela doutrina platônica. As notas sobre Sócrates reforçam o que é cediço nos estudos filosóficos. da forma mais elucidativa possível. pois são estes que. tem-se o nascedouro da filosofia ocidental. é impossível estudarmos o pensamento platônico apartado deles. Muitos diálogos têm na figura do sofista a possibilidade de exposição e organização do método dialético socrático ou a possibilidade de exposição da própria doutrina platônica. dão forma ao modelo dialógico das obras. ficou demonstrado que o melhor estudo de Platão se faz compreendendo aqueles que o antecedem ou viveram contemporaneamente à sua época. Com os pré-socráticos. Com isso. com esse estudo compreendemos melhor a democracia ateniense e seus centros de poder e corrupção que eram financiadas também pelos valores financeiros advindo das cidades ligadas a Confederação de Delos. e muitos dos temas abordados por eles são recuperados. o estudo histórico nos leva a uma compreensão do homem enquanto ser político e seu papel na pólis. O estudo do contexto de Platão no Estado Grego faz-se necessário para a compreensão de qual momento se posiciona sua proposta filosófica. já no segundo capítulo. além da compreensão dos conflitos entre as cidades-estados gregas e as causas e consequências das guerras que geraram grandes desigualdades. Sobre os precursores do pensamento Platônico. em especial suas obras A República e As Leis. quer seja. 164 CONCLUSÃO Visando encaminhar nossas últimas considerações. Com essas considerações fica mais compreensível o tempo e o espaço dos diálogos platônicos. refutando-a ou não. como vimos. assim. analisamos de acordo com a sequência expositiva ao longo do trabalho os aspectos mais relevantes para que possamos chegar à comprovação de nossa tese. que este pensador exerce grande importância na formação e organização do .

percebendo o fracasso desta ideia e começando a pensar o fenômeno moral através da tripartição da alma. mas criou em Platão uma verdadeira repulsa ao modelo democrático com se apresentou em Atenas. O desfecho de nosso referencial teórico se deu com atenção para a teoria e a ação de Platão. Já no desenvolvimento. Nesta exposição observamos quais são as quatro Virtudes Cardinais apresentadas por Sócrates: Temperança. vimos que Platão não se vale mais do fenômeno moral das virtudes. Sobre a interpretação da concepção da inseparabilidade das virtudes verificamos que existem duas posições. no quarto capítulo. mostrou não apenas as questões relacionadas às virtudes cardinais ou ao seu método dialético e maiêutico de ensinar e aprender. A fim de provar essa tese. Como verificamos. o diálogo jovem de Platão conhecido por Protágoras. O grande mestre de Platão. estudamos. dentre outros motivos. Platão muda sua postura. a da bicondicionalidade ou da reciprocidade e a da unidade ou da identidade. Platão chega a uma proposta de homem justo. Sabedoria e Justiça. Partindo da proposta de uma cidade ideal e justa. Ainda nesse capítulo. Vimos ainda que a teoria socrática das virtudes considera que estas só podem ser verificadas conjuntamente. sendo que apenas um foi rebatido e deflagrado como falso por Protágoras. já esta considera que as quatro virtudes cardinais são nomes diferentes para uma mesma coisa. Coragem. verificamos que já nos diálogos médios (que representam a doutrina efetivamente platônica). jamais se podendo encontrar alguém que possua separadamente as virtudes. Aquela considera que quem tem uma virtude tem todas. Com a exposição dos elementos históricos e os pensadores precedentes e contemporâneos pudemos compreender melhor as tramas históricas e filosóficas que envolveram a vida e a divisão doutrinária de sua obra. 165 pensamento platônico. a Cidade ideal é dividida em três . o que é perceptível quando a forma elêntica ou refutativa de Sócrates dá lugar a um Sócrates porta-voz de Platão no que tange a Teoria da Justiça. e isso certamente. Na obra A República ou Da Justiça. Sócrates apresentou quatro argumentos. apresentado em sua doutrina nas obras de primeira fase. gerou a vontade em Platão a vontade de elaborar uma proposta política para uma cidade ideal. qual seja a Virtude.

Com a necessidade da coercibilidade no plano sensível. Ao expormos o Mito de Giges e o Mito de Er. verificamos que Platão ligou-as a um tipo de motivação. Trata-se da questão da coercibilidade. a proposta política jurídica de Platão discorre dentre outras coisas. Isso denota muita fragilidade na possibilidade de aplicar sua teoria de justiça em qualquer tempo ou lugar. Platão. Além disso. a embriaguez. as virtudes. A partir dessas observações chegamos a uma conclusão. ou parte da alma. os produtores são temperantes. os corajosos (guardiões) foram ligados com o thimós. a frustração de aplicação desta teoria se mostra com a questão biográfica de que Platão tentou aplicar seu sistema de justiça ideal na Sicilia e não obteve êxito. corajosos e sábios. e os sábios foram ligados ao logos. Os temperantes (produtores) foram ligados com a parte da alma conhecida como a epitimia ou apetite. cada um exercer o seu papel social. Platão busca apresentar preceitos para que possam ser positivados a fim de construir-se uma cidade justa. existindo apenas no plano inteligível da alma. O capítulo subsequente ao desenvolvimento desta tese demonstrou um problema na teoria platônica da República. os guardiões ligam-se principalmente à Coragem e os sábios que se ligam principalmente à Sabedoria. sobre a guerra e seus problemas. Com relação ao indivíduo e às virtudes cardinais. Organizado em doze livros. Os produtores ligam-se à virtude cardinal conhecida como Temperança. os guardiões e os sábios. e com isso encontramos o equilíbrio das virtudes e das partes da alma a fim de não verificarmos contradições. ou a parte racional da alma. Conclui que a virtude “Justiça” na cidade reside em cada um cuidar do que lhe diz respeito. isso porque. os guardiões são temperantes e corajosos e os governantes são temperantes. a . Nesta obra. como vimos no extenso capítulo VI. Assim. apresentou seu segundo melhor modelo de cidade em As Leis. não sã verificadas no plano sensível. ou parte iraciva da alma. verificamos que as leis coercitivas pensadas por Platão. Tal tese demonstrou como Platão abandonou a Teoria da Unidade das Virtudes supracitada. qual seja: Os governos devem ser exercidos por pessoas sábias. ao terem uma alma governada pelo logos jamais deixar-se-ão guiar pela epitimia ou pelo thimós. 166 grupos: os produtores. ou em outras palavras.

No capítulo sétimo. no Livro V. ou seja. e propostas sobre o justo e demais questões no Livro XII. a definição de direito natural é dada com clareza. a arte. no Livro VI. a alma. como também se verificou a preocupação de propor uma organização legislativa positiva a fim de coagir aquele que viva na égide do signo da injustiça. a educação política e a escolha dos magistrados. no Livro X. o amor. o casamento e suas questões relativas. as vicissitudes das sociedades políticas. o Direito Natural é um sistema de normas logicamente anteriores e eticamente superiores às do Estado. o direito civil e comercial. O direito natural de Platão na República e sua positivação nas Leis. a hierarquia dos deveres perante nossa alma. Nesses doze livros ficou demonstrada não só a manutenção da proposta de organização social da República. não por coincidência. no Livro IV. no livro III. de alma ordenada guiada pelo logos. harmonizando elementos dos mais diversos com sua inteligência. o comércio junto ao mar e a corrupção. os deveres em geral e com os pais. cumpriu imitar a divindade auto- . suas formas e hierarquias. os jogos militares. o papel dos guardiões da lei e da cidade. no Livro XI. Com tal definição. a educação do magistrado. estudamos a visão jusnaturalista de Platão que está muito ligada a manifestação divina com o engendramento da natureza. no Livro I. a hierarquia das formas de governo. o preâmbulo das leis e seu papel se comparado com os prelúdios na música. origem das legislações e primeiros grupos sociais. o Deus legislador. a cujo poder fixam um limite intransponível. perversões amorosas. comércio e economia coletiva. a natureza da justiça. os eleitores e as medidas transitórias necessárias. No capítulo oitavo. Vimos que o divino ordenou o universo. Ao homem. no Livro VII. os modelos de Estado e modelo de segundo Estado. 167 educação e os efeitos do vinho. relações entre vizinhos. amor e riquezas. bem como com o referencial histórico do Direito natural na Antiguidade chegamos ao próximo capítulo que. no Livro II. as festas e os sacrifícios. o novo Estado. elogios aos anciões. as diversas questões ligadas ao direito criminal no Livro IX. no Livro VIII. as questões da agricultura. possui o mesmo titulo da tese. a impiedade. o papel da música do canto e da dança na educação. o retorno à questão da educação para diversas áreas tanto para os homens quanto para as mulheres.

buscamos criar o elo entre a história grega. 168 ordenando sua alma e a cidade com leis que governem os homens que podem cometer atos injustos por terem almas que podem ser alvo de akrasia. . a biografia e a bibliografia platônica a fim de compreender seu amadurecimento doutrinário em sua teoria jurídico-política. em especial na positivação de sua visão jusnaturalista da República em As Leis. Portanto. como queríamos demonstrar nesta tese.

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