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OLIVEIRA VIANNA E OS DILEMAS DA AÇÃO

COLETIVA NO BRASIL

Antonio BRASIL JUNIOR

 RESUMO: O artigo analisa as continuidades e descontinuidades
do pensamento de Oliveira Vianna a respeito da ação coletiva
no Brasil. Em particular, busca-se enfatizar as tensões de sua
formação intelectual, assim como as conseqüências destas tensões
no processo de escrita de Populações Meridionais do Brasil. Além
disto, argumenta-se que Instituições Políticas Brasileiras sinaliza
uma mudança significativa na perspectiva de Oliveira Vianna,
questionando a imagem de uma obra homogênea e unitária.
 PALAVRAS-CHAVE: Pensamento social brasileiro. Oliveira Vianna.
Ação coletiva.

O objetivo deste artigo é reconstruir um momento significativo
no interior do debate intelectual acerca da obra de Francisco
José Oliveira Vianna (1883-1951). Nessa obra, se encontra, em
certa medida, um primeiro esforço sistemático de se pensar os
constrangimentos à ação coletiva a partir de uma análise da
conformação histórica da estrutura social brasileira. Não obstante
o pensamento imperial já assinalasse a rarefação das esferas
de organização autônoma na sociedade brasileira, assim como
alguns textos de Silvio Romero – dentre outros –, pode-se afirmar
que Oliveira Vianna foi um dos primeiros a dar consistência à tese
de que as formas sociais assumidas pela propriedade fundiária
configuram-se como o elemento decisivo para a compreensão 

Este trabalho é uma versão condensada e modificada dos capítulos 1 e 3 de minha dissertação de
mestrado, intitulada Uma Sociologia Brasileira da Ação Coletiva: Oliveira Vianna e Evaristo de Moraes
Filho, defendida no PPGSA / IFCS / UFRJ, em 2007. 

Doutorando em Sociologia. UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia
e Ciências Sociais. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Rio de Janeiro – RJ –
Brasil – 20051-070 – vlad.br@terra.com.br

Perspectivas, São Paulo, v. 31, p. 65-83, jan./jun. 2007 65

cada qual possuindo a sua sensibilidade processo de elaboração intelectual de seu livro de estréia. metodológica e tematicamente inteiriça. “[. 2007 Perspectivas. as realidades sociais e políticas tornariam importantes personagens nos anos seguintes. São Paulo.. Estas diferentes modulações incidem brasileira. O.1). publicado em Vassouras – que fora outrora importante me parece um fato inegável. Ao invés de uma pátria una e se refere a esta questão. formulado em Populações.]. publicado pela primeira vez em 1920. p. v. no quebra-cabeça. a regressão foi patente. se colocaram sucessivamente na agenda pública de debates ao assim. O Autor abre o artigo do seguinte modo: especialmente no modo pelo qual o Autor entende ser possível Com a federação. – do Maranhão ao Espírito Santo. era uma pluralidade destacados dois períodos: a) a década de 1910.. consideravelmente diferente em cada núcleo. nele contribuíram nomes que se e inteira imparcialidade e isenção com que venho analisando. jan. 31. longe de se apresentar análise. em parte. superficialmente. foi. paulatina e. por isso. (VIANNA. pesquisas feitas a partir de associativa na sociedade fluminense. que. Como  Embora se tratasse de um jornal provinciano. Em outras palavras. a tese da “ausência” de uma unidade social na sociedade longo dos anos 1910-1940./jun. como Gilberto Amado. Este artigo é significativo material primário ainda pouco explorado – artigos de jornal posto que antecipa uma série de características da reflexão da década de 1910 e a correspondência privada do Autor. este particular. o “insolidarismo” na construção de um desenho institucional voltado à regulação brasileiro. com uma só raça.] Nós. p. sobre nossa nenhuma capacidade de iniciativa individual em que os estudos se encaixam. São Paulo. viu-se. A maneira por que reagiram às solicitações Populações Meridionais do Brasil – terminado em 1918. uniforme. mais tarde. Em primeiro lugar. com um design sistêmico nós. específica e original. jan. revelou diferentes “prognósticos” elaborados por Oliveira Vianna no que a sua intensa heterogeneidade.” recai a culpa dessa estagnação [. não comportando fases. Os termos do título se referem. a eficácia do prognóstico autoritário cresceu desordenadamente [. antecipando igualmente. 2007 67 .. dir-se-ia homogênea e idêntica.. os fluminenses. em que os investimos em 89. Ronald de Carvalho. nem procurada. 31.. etc. ao espírito de rigorosa objetividade centro da lavoura cafeeira escravagista no Vale do Paraíba fluminense –. um artigo intitulado “Democracia e solidariedade tensionada. inclusive  Arno Wehling (1993. A contrapelo da fortuna crítica referida à obra de (Estado do Rio)”. uma só A fim de se reconstruir as diferentes facetas do pensamento mentalidade.63). autor – e não apenas as continuidades comumente salientadas 1910. vista “superar” o histórico “insolidarismo” brasileiro. peça por peça. p. O. que inclui o de grupos regionais. isto é. Oliveira Vianna – bem como da própria auto-imagem construída ao regime republicano – recém implantado no país – e à capacidade pelo sociólogo de Saquarema –. por de Oliveira Vianna que iriam ganhar. neste sistemático e desdobramentos decisivos. o “jovem” Oliveira Vianna publica. Carneiro do nosso povo. um só espírito. A escolha destes dois “extremos” na corda vastíssima dos litorais. a obra de Oliveira os múltiplos efeitos operados pelo regime de descentralização Vianna interage contextualmente com as diferentes questões que federativa nos diferentes estados do país.. até agora. uma só índole. no jornal Vianna.  O próprio Oliveira Vianna (1974. e b) a década de 1940. p. Alberto Torres. é diversificada e apresenta diferentes modulações artigo já coloca a questão da livre associação no centro de sua ao longo do tempo.19) parece se “surpreender” com a sua coerência: “Esta unidade de pensamento. que o que havia. [. de Oliveira Vianna a respeito da ação coletiva no Brasil. não será possível reconstruir o período intermediário dos anos A que Oliveira Vianna atribui esta “inegável decadência”.1).. da ação coletiva no âmbito sindical. mas da autonomia local. com surpresa. por exemplo. ao analisar “O Estado colonial na obra de Oliveira Vianna”.. Nem fases nem setores. Se o extremo norte onde o Autor revê. tratamento exemplo – evidenciam que a reflexão de Oliveira Vianna./jun. 65-83. internamente Vassourense.. nas interpretações de sua obra. e inegável se justifica na medida em que se permite melhor visualizar a decadência. em Oliveira Em 1910. respectivamente. estamos neste caso.]” (VIANNA. ao contrário. É a partir deste ângulo que Oliveira Vianna compara como uma unidade compacta ou homogênea. 65-83. p. v. que atingiria parte considerável da sociedade brasileira. 1910.dos limites crônicos da ação coletiva na sociedade brasileira – ou. Dados os limites deste artigo. assim mantida por tão largo espaço de tempo. p. a nossa nacionalidade.. 66 Perspectivas. serão debaixo daquela aparência de uniformidade. o Estado do Rio de Janeiro? Nos termos do Autor. como será visto mais adiante. A construção intelectual desta problemática foi. e a República. eu só a atribuo à metodologia empregada.] sobre acrescentaríamos: ela é também teórica. nos de fora. Há as diversas descontinuidades na elaboração intelectual do vinte anos que tateamos na confusão e na desordem. intencional. afirma: “Já se disse que sua obra é inteiriça. não é pois. 1920-1930 – período no qual Oliveira Vianna se engaja diretamente utilizando o termo cunhado pelo próprio autor.” Leão.

“[. Populações Meridionais do Brasil já estava pronto desde 1918. Superiores a Sergipe. jan.. O. A análise dos apontamentos feitos na marginalia dos livros lidos por Oliveira Vianna também corrobora a hipótese de que o Autor se pautava. a “dependência” dos particulares Percebe-se. 68 Perspectivas. existentes até 1908 no Brasil.. um pai providente.. Em contraponto a esta falta de iniciativa particular associações... do nosso Pernambuco. longe de ter um “coração ibérico”.. premuniu [. o Autor polemiza longamente com os defensores dos governos centrais o milagre da salvação” (VIANNA. 65-83. São Paulo. inserido.]. neste contexto. com vantagem admirável.. que São Paulo. mais do que pela ação dos governos. 19 para São Paulo...1). pela ação. os argumentos mobilizados frente às iniciativas governamentais. 1910. só descobrimos para o nosso Estado o número reduzido de 6 O. dos valores constitutivos aos demais estados da federação: da experiência anglo-saxônica. 2007 Perspectivas. 1910. portanto.. Neste contexto.] o apostolado ao governo – o que contrasta vivamente com o prognóstico da solidariedade e da iniciativa privada como únicas formas de centralizador e autoritário presente ao fim de Populações. Primeiramente. para o para esta situação de falta de densidade dos atores coletivos Autor. Em segundo lugar.4).]” (VIANNA. Para tal. associativos: é o “estatismo”. pela ação da iniciativa e da previdência particulares. conseguido paulatinamente se libertar do estado de dependência Comparando-se. Oliveira Vianna faz um amplo elogio do Tal situação seria explicativa do baixo número de associações de self-government anglo-saxão e de sua orientação prática. a avaliação de que o “estatismo” e a falta de iniciativas autônomas. em 1912. que teriam 1910. p.. completa coletiva no Brasil? O que teria levado um crítico contundente Vianna. as razões consciência de si mesmo. p.4). p. dois artigos intitulados “O neo-monroismo cedo [. no diagrama que temos sob ‘estatismo’. Assim.3). assim. Manuel Ugarte e Eduardo Prado. por uma atitude de Tomemos um exemplo expressivo. desses males se 1910. 2007 69 . mineiros e gaúchos. (VIANNA. fluminenses. no Estado do Rio de Janeiro seria o estímulo à auto-organização Duas dimensões saltam à vista. dos seus deveres. p. para empregar uma frase predileta de Le Bon. Criticando explicitamente Enrique Rodó.. organizado pela Sociedade Nacional de Agricultura. o Autor “diagnóstico” de “insolidarismo” distribuir-se-ia desigualmente apela à mocidade fluminense um esforço pela “[. salvação e renovamento nos regimes livres [.]. especialmente para o leitor privada – e não a centralização do governo../jun. 1910. 22 para Minas. O. o que só reforçaria o de Populações Meridionais. o único prognóstico possível iniciativa particular também começaria a ser assinala. v. para os fluminenses. À mocidade do Estado do Rio de Janeiro caberia numa visão claramente liberal. 65-83. (VIANNA. valores “latinos” vis-à-vis os valores anglo-saxões. Esta tendência de organização da num horizonte normativo liberal. que começavam a se impor pelo mundo. contamos 26 para  Embora tenha sido publicado em 1920. contudo. não seria uma característica cívica do seu povo. que.2). 16 para indolente esperança na ação providencial dos governos.. iguais à Bahia.” Para o “jovem” Oliveira Vianna.2). p... é-lhes uma sorte de divindade milagreira.] de nos salvar a nós mesmos. por parte das sociedades latino-americanas.. como visto acima. deste modo. p. pela pena.. nem pensaremos tão  Oliveira Vianna também publicou no Vassourense. 1910. O. da nossa o Rio Grande do Sul.. dos seus direitos.. “[. de corte anglo-saxão. pelos nossos próprios do “estatismo” a adotar um prognóstico de centralização e esforços. p. mas. p... em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. jan.] por Oliveira Vianna neste artigo de 1910 com os posicionamentos o governo é-lhes mais que um tutor solícito. pela palavra. [. O. cabe-se perguntar: o que teria acarretado uma mudança tão possuindo simultaneamente os dons maravilhosos da ubiqüidade pronunciada na forma de equacionamento da questão da ação e da onisciência [. “[. neste período. em questões de solidariedade. Oliveira Vianna destaca inferiores ao Paraná. O. 1910. da tutela indefinida em relação “resgatar.. 31.]” (VIANNA. isto é. mobilizadas por Oliveira Vianna a fim de dar conta dos impasses dos seus destinos na federação [. é-lhes mais que assumidos oito anos mais tarde em Populações Meridionais. especialmente a gravidade da nossa situação atual” (VIANNA. posto que “adaptamos a cômoda política de esperar dos e a teoria antropológica de Lapouge”. à formação no seu espírito de uma nova da sociedade brasileira in toto. Dentre as associações agrícolas franca adesão a uma proposta liberal. e industriais. [. São Paulo./jun.]”. O.] em condições iguais à nossa.. Neste sentido. Oliveira Vianna não frente à ação do Estado o que explicaria a ausência de organizações critica a organização federativa e a autonomia estadual – como sociais autônomas. somos. mas.]” (VIANNA. 31. característica da sociedade fluminense.. Nestes artigos.. 12 para o Paraná. previa a necessidade de uma rápida adoção. objetiva – em oposição ao “idealismo fatalista” interesse coletivo no Estado do Rio de Janeiro quando comparado dos “povos latinos”. deriva as vistas. nisto é que não temos pensado.. Oliveira Vianna.E completa: “Da nossa imprevidência já proverbial.] reabilitação pelo território nacional. Ao contrário dos paulistas.1). p.. v.. os limites à ação coletiva será o caso posteriormente – mas o mau uso que dela fizeram os não adviriam propriamente da estrutura do mundo social.

chamar a atenção do mundo político e intelectual Vianna: “Creia. cabe destacar o papel sociedade brasileira. que V. Oliveira Vianna nestes livros”. São Paulo. Neste livro. em carta enviada por Oliveira Vianna ao Poder Coordenador – ponto máximo do projeto centralizador a 23 de abril de 1914. esta mudança de orientação normativa por parte de Oliveira Vianna não se operou sem tensões. procurar pessoalmente Vianna diga que não possa fazer uma análise dos “dois volumes Oliveira Vianna.fortalecimento do Estado? A análise da correspondência privada filosofia. “no qual. em favor da predicação patriótica que V. São Paulo. A auxilie na ‘obra de tornar brasileiro este povo’”. Como será sugerido adiante. então. Ex.] na imprensa periódica”. p. posicionamento político. múltiplas idéias e dos múltiplos problemas. 31. a partir desta data.. 65-83. já que revela uma postura nacionalista que não sobre o mesmo para as colunas d’O Paiz. sobre a obra admirável de V.” Algumas linhas abaixo. partir de um artigo que este último havia publicado justamente com muita generosidade”. O trecho é o seguinte: Contudo. Oliveira Vianna chega a se referir No ano seguinte. espera de mim eu somente poderei infidelidade ao resumir as idéias de V. de Alberto Vianna e Alberto Torres demonstrava certo desconhecimento do primeiro em relação ao trabalho do Torres. de Torres – como a “peça [. com as idéias de Torres. podem ser delineados prognósticos alternativos e conflitantes entre si no que se refere  Cabe lembrar que esta passagem de uma perspectiva liberal para uma visão autoritária e nacionalista não às possibilidades de superação dilemas da ação coletiva na é uma idiossincrasia de Oliveira Vianna. a caráter profundamente prático a que V. 12 De acordo com Vasconcelos Torres (1956).. assim. ao que da sua lavra recém-publicados11 [. Ex. cuja data não está legível.. Segundo seu biógrafo. sua obra de estréia12. com a sua maravilhosa tensões são visíveis principalmente em Populações Meridionais inteligência da alma humana. que ilumina. com esse dever e infiltrante oportunismo. está fazendo ao país com alto nossa reorganização nacional.. o que chamou a atenção se encontrava em suas formulações anteriores. da minha obscuridade provinciana. Em outra os nossos destinos. discute Em carta enviada a Torres em 191310. na sua mínima parte. tudo indica. com a feição cordial e amável de sua do Brasil. com de Oliveira Vianna corrobora a hipótese de que foi o seu contato um tão brando clarão.. perdura até a morte do antigo presidente do Estado dada a estreiteza das colunas de O Paiz para fazer a “crítica das do Rio de Janeiro. ambigüidades Creia V. com a obra de Alberto Torres que propiciou esta mudança de posição. v. Ex. Além do impacto causado pela Primeira Guerra Mundial. V. Ex. 65-83. Completa a carta sublinhando que. Este resolve. para as lúcidas conclusões de acompanharei. Ex. 2007 Perspectivas. 70 Perspectivas. Ex. Oliveira Vianna enviou uma resenha é significativa. central de Alberto Torres para a convergência dos intelectuais em torno do tema da “organização nacional” (BOTELHO. pede para que Oliveira Vianna “o no Vassourense. jan. foi Alberto Torres quem incentivou Oliveira Vianna a 10 Informações obtidas no Arquivo da Casa de Oliveira Vianna. chega./jun. 2005).] forçar os nossos políticos a pensarem com mais privada de Oliveira Vianna. será Percebe-se. jan. que para essa obra de conversão não poderia eu encontrar e contradições internas. Oliveira Em outra carta. Ex. 2007 71 .. último. especialmente nos anos 1920 e 1930. que a obra de Alberto Torres começa sinceridade na nossa pátria e a compreenderem mais lucidamente a exercer uma grande influência em suas reflexões. Vasconcelos Torres (1956). intitulado “Nacionalismo” e publicado em 1912. escrever Populações Meridionais do Brasil. que. a primeira conversa travada entre Oliveira 11 Tudo indica que se trata das obras “Organização Nacional” e “Problema Nacional Brasileiro”. Ex. Esta passagem partir da leitura deste artigo. e é. por agora.] mais perfeita e excelente do parecendo indicar que.  De acordo com as informações de Vasconcelos Torres (1956). todos os ensaios e meditações de V. começando uma relação pessoal que. com a maior simpatia e o maior entusiasmo. Embora Oliveira de Alberto Torres. a partir da análise da correspondência possível “[. este já fala em “obra de conversão”. redigida no dia 27 de janeiro de 1915. realmente mudara de sistema” elaborado pelo autor de A Organização Nacional. Ex.. correspondência ativa./jun. estas melhor guia e inspirador do que V. este não deixa de cumprir o pedido de Torres para oferece-lhe um número d’O Paiz onde faz “uma rápida apreciação” a divulgação de seus argumentos: da obra de seu interlocutor e lhe pede escusas por “alguma De modo que o auxílio que V. sentimento [.. Oliveira Vianna tomara conhecimento dos escritos de Alberto Torres a Vianna agradece um cartão que lhe mandara Torres.. p. dar. 31.. em todas as ocasiões que já transparece uma grande admiração por parte de Oliveira se me ofereçam. mas uma situação recorrente entre os intelectuais. v. Ex.] e uma admirável inteligência das nossas coisas”.” carta.

fora dos domínios rurais. O. 65-83. 1982a. especialmente liberal – que prevê indivíduos livres e autônomos se associando pela necessária atrofia dos demais setores da economia. ou meras entidades artificiais e exógenas. O. O. São Paulo.164) não deixa de para a reflexão acerca dos limites crônicos à livre associação reconhecer a existência de uma forma específica de associação: no Brasil. O âmbito da solidariedade social é nós..135). grosso modo. “só se compram ferro. pólvora e chumbo” (VIANNA. a propriedade fundiária seriam a chave analítica central utilizada única forma “militante” de solidariedade desenvolvida no Brasil. cabe completa insolidariedade seria o caráter distintivo e único da aqui averiguar as inovações trazidas por esta obra para a análise da formação social brasileira. 1982a. O.. as primeiras que “somos o latifúndio”. 2007 Perspectivas. e sim uma associação o comércio.. p. constituiria.. por Oliveira Vianna na compreensão dos limites à ação coletiva A solidariedade própria ao clã rural não seria dada por relações na sociedade brasileira. religiosas ou militares – relações que o latifúndio Isto posto.. Em paradoxo.238. Antes de se destacar as tensões inscritas em Populações. em relação às “arbitrariedades” na aplicação da lei e da justiça. 1982a.163).] – são. do seu próprio domínio extrairia ele o bastante para lhe dá amparo e segurança. p. jan. no Brasil. econômicas. Num aparente um lugar decisivo na estrutura argumentativa de Populações. ou simples aspirações restritíssimo” (VIANNA. sem realidade efetiva na psicologia subconsciente do formas de solidariedade vicinal trazidas pelos portugueses teriam povo./jun. Neste meio social de conformação as suas necessidades fundamentais [. as “associações” [. clânica.. os mesmos processos que concorreriam para diminuir que medida o latifúndio teria afetado a dinâmica social brasileira? o vigor e a coesão social nos diversos planos da vida social Em primeiro lugar. reunindo numa estrutura vertical e uma investigação histórica da formação social do mundo rural assimétrica o senhor de terras e os homens livres que viviam nas brasileiro. da sociedade colonial” (VIANNA. entre ou do seu círculo familiar. o que levou Oliveira Vianna a dizer dinâmica associativa no Brasil. grifo do autor): grande domínio.]” (VIANNA.. Dito de outro privada. O clã rural. lealdade mesmo a afirmar que. 1982a. o clã rural se caráter autonômico. dado que o “homem vive isolado dentro dos latifúndios “corporações”. as formas sociais assumidas pela dependências do grande domínio. 31. “são escassíssimas as instituições torno do grande senhor de terras. 65-83../jun. Oliveira Vianna (1982a. estas populações fornecem apoio. sal. a existência privados e primordiais da existência social em nome dos valores social dentro de um latifúndio. Ultrapassando.. Todas essas outras formas de de solidariedade social em nosso povo” (VIANNA. Dado o seu Atuando como uma rede de reciprocidades. p. p. Neste novo registro. v. O. Nos termos de poder. Tal traço de quase 72 Perspectivas.165).135). a indústria e as atividades urbanas. 31. como entre si a partir de interesses comuns –.] se toda a sociedade se extinguisse em e submissão às vontades particulares do “senhor territorial” que derredor dele. único “centro de gravitação terra” e o “baixo campônio dos campos” para fins políticos. mas por relações políticas. para o Autor.163). 1982a. solidariedade social e política – os “partidos”. particularista. que “somos completamente outros” formulações do artigo “Democracia e solidariedade” – que (VIANNA. o latifúndio monocultor e auto-suficiente ocupa enfraquece e asfixia –. p. jan. São Paulo. a existência social no Brasil era. por exemplo. a “insolidariedade ao Estado –. sido enfraquecidas em virtude da força “centrípeta” exercida pelos grandes domínios aqui estabelecidos.] o povo brasileiro só organiza aquela solidariedade que lhe era Diante de tal conformação histórica. na experiência brasileira. Populações traz novos elementos sociológicos é completa”. Vianna chega Em troca de proteção. por aquilo que o Autor chama de “função terminariam por fortalecer a solidariedade entre os “senhores de simplificadora” deste grande domínio.137. as p. p. grifo do autor). p. p. incapaz de se elevar dos domínios modo. Tal fato seria prenhe de conseqüências. os velhos fazendeiros se compraziam ao configura como uma forma de abrigo utilizado pela “plebe rural” afirmar que.. Até mesmo as inúmeras doutrinárias. equacionava falta de ação coletiva com dependência em relação Mesmo acentuando que. Que elementos novos são estes? Primordialmente. 1982a.. “[. dentro de uma estrutura privada abstratos da classe ou da nacionalidade.. o clã rural. Oliveira Vianna aponta estritamente necessária e útil: – a solidariedade do clã rural em que. sem a possibilidade de ações conjuntas para além do de Oliveira Vianna (1982a. 2007 73 . [. O. assim. o pacto político possível não é o da filosofia política p.. os “sindicatos”. as “seitas”.. v.

O clã rural – assim como o correspondente florescente e progressiva. nos últimos capítulos do livro. essas duas culturas. jan.. p. é possível identificar um prognóstico Nesta direção. como os 74 Perspectivas. produção não tem condições de prosperar em virtude de uma Mas que via alternativa seria esta? Uma experiência social questão essencial: a ausência de mercados.] o nosso pequeno alternativo. produto de uma longa traço como uma das grandes “falhas” da sociedade brasileira: gestação de quatro séculos.] o nosso pequeno lavrador não autoritário e centralizador. grifo do autor). jan. “[. continua Vianna. É principalmente na pequena propriedade rural. p. “nada valem como mercados” desenvolvimento do comércio. classe média próspera. v. Dentre as causas de natureza econômica. continua Oliveira impedindo. “[. concebido como princípio fundamental de a) de serem altamente rendosas em pequenos espaços.. no sentido europeu da dissolvente. a única possibilidade de organizá-la seria ou seja. Em outros termos. “espírito de clã” – evidenciaria. por sua vez. Se a sociedade prosperidade e da riqueza das classes médias européias [. embaraçaram aqui. O Autor chega a assinalar tal populações rurais.. esta alternativa e não a desenvolve em suas últimas conseqüências. várias causas... do exclusivismo agrário. que essa classe tem a sua melhor base. não teriam frutificado no Brasil: “durante o período à ação coletiva no âmbito societal corresponderia uma visão colonial. a diferenciação e a complexificação da Vianna (1982a.]”. das indústrias e das cidades. O.] essas vilas e cidades sociedade – também seria a grande força responsável pela não não são núcleos urbanos enfezados e mesquinhos. 1982a. (VIANNA. b) de coordenação da vida social.. 31.. de conformação de uma classe média autônoma e independente..] os nossos núcleos urbanos do auto-suficiente – cuja força centrípeta teria atrofiado o interior rural [. Nos termos de Oliveira Vianna.279... O.143)... na Europa ou na América. capazes de servir de base a uma voluntarista no âmbito da ação estatal.. durante todo o brasileira. deste modo.. No entanto. capaz de refundá-la pelo alto. É claro que. os pequenos proprietários encontram Segundo Oliveira Vianna (1982a). grifo desenvolver o regime de pequena propriedade. O.142). uma espécie de “potência” externa trabalha em certas culturas.] instituição de um Estado aparelhos de beneficiamento [. acordo com Oliveira Vianna (1982a). encaminhamento político. centralizado. o latifúndio facilidades de mercados. ao lado deste cedo abandonadas” (VIANNA. 1982a... complicados e dispendiosos isto seria possível através da “[. O..]” (VIANNA. como o café e a cana. p. 2007 75 . para o Autor. 1982a. com um governo nacional poderoso. não-autoritário. Os tipos de cultura mais aptos.]”. [. associação coletiva. na economia interna do feijão e da mandioca. enfraquecendo as instâncias autônomas de expressão. no entender do Autor. 31. Enquanto que.. depois de uma exploração irregular. “[. p.] culturas que apresentam a dupla particularidade: através do Estado. Contudo../jun. são.. p. 65-83.143./jun. Esta conformação clânica do mundo rural brasileiro. Ora. p. não afetaria apenas as baseada na pequena propriedade.142. “Na América”. 65-83.. umas de natureza econômica. dominador..]” (VIANNA. incontrastável [. São Paulo. não exigirem. 1982a.. é fragmentada. Brasil. “[.. O. incapaz de se auto-organizar e de levar a cabo um período da nossa evolução histórica. 1982a. a saída autoritária ocupa o auferir os lucros com que amealhe o seu pecúlio e assegure sua lugar central e decisivo. outras de natureza “ganglionar”. amparado na revisão do estatuto proprietário limita a sua atividade às culturas tropicais do milho. o Autor elabora. que são o principal fundamento da à sociedade. “fragmentado” e “dispersivo” da sociedade social e jurídica..” (VIANNA. O “espírito de clã”.. ao ceticismo do Autor em relação a vinha. O. p. grifo nosso).. sugere-se aqui que. 1982a. São Paulo. v. a constituição de uma classe projeto de reordenamento e fortalecimento do Estado-nação no próspera e ativa de pequenos proprietários rurais (VIANNA. Oliveira Vianna um prognóstico claramente favorável à idéia de um Estado põe em relevo o fato de que “[.143). para unitário. p. como o trigo e do autor). de mil modos. Só da safra desses produtos pode ele dos argumentos de Populações.142). 2007 Perspectivas. p. atingindo a dinâmica por uma das falhas mais graves da nossa organização coletiva: associativa nas cidades através de sua marca privatista e a inexistência de uma classe média.] amparada no predomínio da pequena propriedade rural.. Diante de tal diagnóstico. o caráter “amorfo”. já que o Autor apenas sugere esta via independência. construído ao longo de Populações. tenderia a se espraiar e a redefinir Essa simplificação de estrutura da sociedade rural é acentuada o próprio mundo urbano emergente.

resolver os dilemas da ação coletiva no Brasil é abandonada por às grandes capitais”. capitaliza. grifo do autor). são aglomerações numerosas. o Autor coloca claramente que. A tarefa de forjar. 31. supostamente singular e nacional – o que significa sociedade brasileira.. Oliveira Vianna (1982a. p.46). e conjura contra a subconsciência jurídica. política” (VIANNA. tudo trama. 31. entendeu isso melhor do que ninguém. p. p. Esta classe média assentada na pequena propriedade.” grandes proprietários rurais.. O. ele se identifica com a contingência ibérica”.. grifo do autor). que estatal e autoritária – no controle do poderio e dos “excessos” dos teria sido a de construir a unidade nacional. 1998. destarte. 1982a. v. então. defronte da grande propriedade. São Paulo. assegurada por uma clientela farta. instintos viscerais da obediência à autoridade e à lei. 1982a. a colocação seio da própria vida social... “[. na acepção de Santos (1998.. grifo do autor) também chama a atenção para esta escolha exercício contra-factual de pensamento.] só da vitalidade dos pequenos domínios. caso a formação Torres14. social13. p. porque traria consigo a revolução democrática e. “é na obra de Oliveira Vianna [.. da multiplicidade ordem em detrimento ao conflito e à transformação da estrutura deles. “o pequeno cultivador americano Oliveira Vianna já em Populações.nossos. A possibilidade de o pensar e o agir convergirem residia na questão agrária. já que “no plano da observação e a revisão do estatuto do exclusivismo agrário. Reserva. uma fragmentação política em escala mais grave que a como uma força propriamente social e democrática – e não do período da Regência. aparece mais claramente” (SANTOS.] que o caráter instrumental da política autoritária. o que ressalta uma avaliação positiva do dos autoritários tout court. atuando em torno de uma reforma agrária radical. Segundo o Autor. jan. Dela o que até agora existe não tem valor O. o milagre de dar a essa nacionalidade em formação uma Em nossa economia social. Analisando os posicionamentos de Oliveira Vianna anteriores à escrita de Populações Meridionais. medra” (VIANNA. contrabalançando o poder dos latifundiários rurais. É claro que tal prognóstico favorável 14 Cabe ressaltar que o elogio de Oliveira Vianna à auto-organização autônoma da iniciativa privada é um traço recorrente em sua obra. da maneira em que ele a concebeu. principalmente.] do problema da nossa organização vislumbráveis entre a espessa florescência dos grandes domínios.. nem valor histórico assinalável. da solidariedade deles. a sua prosperidade. importando o abandono e a perda da grande obra do pensamento do Império. de formação intelectual do Autor. independente.. A constante referência ao mundo anglo-saxão como exemplo de “boa à pequena propriedade teria como corolário fundamental o conflito sociedade” foi tratada por Werneck Vianna (1993.. quanto pela proposta autoritária e centralizadora de Alberto Neste sentido. forte. resultaria a constituição.. 65-83. ligadas por linhas férreas.. entre nós.373) como um “enigma”. criando-lhe a medula da legalidade. em 1918. abastada. Assim. os pequena propriedade. histórica brasileira tivesse favorecido a pequena propriedade. p. uma escolha conservadora. como um elemento central dos Santos de modo a qualificar uma linhagem intelectual distinta tanto dos liberais doutrinários quanto em sua educação cívica.. no tem.145) Oliveira Vianna propõe a ação pedagógica e autoritária de um conclui nestes termos: Estado centralizador. o próprio do real. no entanto.. “[. em Populações Meridionais./jun. ao estilo das sociedades anglo-saxãs que tanto admirava. a coexistência destes prognósticos conflitantes [.80-81. jan. posto que privilegia a unidade e a 145). que a em virtude das tensões da dupla vinculação do Autor às posições liberal e autoritária. Como acrescenta Oliveira Vianna (1982a. Ao invés de buscar libertar. p. idéia que lhe parecia extraordinariamente ameaçadora. neste sentido.143. A partir destes argumentos. orgânica [. mal solução racional. Estes desníveis de Populações Meridionais.. v. sentido tocquevilleano do termo – e impulsionador de mudanças. p.] afirmam que o exercício autoritário do poder é a maneira mais rápida de se conseguir edificar uma sociedade liberal. esta forma “não-autoritária” de e.. Assim. 2007 Perspectivas. seriam menos um traço de autoritarismo instrumental15 do que uma outra dinâmica social e política teria sido forjada..] pela ação racional do Estado. o interesse bem-compreendido – no dos seus produtos a preços remuneradores. a sua preponderância.. Num 13 Luiz Werneck Vianna (2006. poderia “[. “[. ainda em Populações. com intensa vida comercial Como é sabido. p. p. Oliveira Vianna (1982a) conservadora de Oliveira Vianna: “Oliveira Viana.]”. capazes e rápidas.” (VIANNA.. p. 2007 77 . o seu desenvolvimento. prestigiosa Contudo. 279). São esboços apenas. Entre outras dimensões.. conflito de interesses na construção da vida política. A percepção 76 Perspectivas. após o que o caráter autoritário do Estado pode ser questionado e abolido. p. pondera Oliveira Vianna.. marcada tanto pelo elogio da a ação admirável dos yomen saxônios ou dos burgueses da Idade iniciativa particular e da auto-organização autônoma da sociedade Média [. seria “a social. pode-se afirmar que o “enigma” se configura exatamente Oliveira Vianna (1982a) esclarece. 1982a.. na diz que o pequeno domínio impulsionaria a complexificação da possibilidade de os intelectuais do liberalismo democrático e dos matutos do Centro-sul se encontrarem sociedade e o adensamento dos interesses coletivos. 65-83./jun. São Paulo. O. luta de classes não só é uma das maiores forças de aglutinação 15 O termo “autoritarismo instrumental” foi introduzido no debate acadêmico por Wanderley Guilherme e solidariedade nos povos ocidentais. o Autor afasta a Esta atrofia da pequena propriedade teria sido deletéria para via “anglo-saxã” de reordenamento político em prol de uma via a educação cívica e para a capacidade de agência coletiva na autoritária.46).]”.279.] exercer. com ela. de uma classe media. os “autoritários instrumentais”. Contudo. caso pode ser indicativa da ambigüidade que se operou no processo existisse.

jan.. se ao “ceticismo” quanto à livre organização da sociedade sociedade brasileira e de suas instituições políticas sob o prisma se opunha o “voluntarismo” da ação estatal. Em particular. é possível identificar Pode-se dizer. [. 2007 79 . conseqüentemente. p.. por Oliveira Vianna16. sensibilidade./jun. associado não deixa claro quais seriam os seus portadores concretos. nos destes traços é que podemos nos certificar de como é ingênuo meus escritos. neste outro da noção de “cultura” – o que não havia sido feito. há apenas a constatação da invariabilidade fundamental de maneira sistemática. a se Trabalho.] é por isso que a da vida social. embora racionalize a não utilização deste termo em outras obras no sentido de evitar “tecnicismos”: “Nunca empreguei esta expressão senão agora.. o próprio prognóstico anunciado por parte da cultura inviabilizaria. pelo menos registro.] Daí a tendência dos corporativa destinada à regulação jurídica dos atores coletivos complexos à estabilidade e. 300). que a utilização uma clara inflexão nas formulações de Oliveira Vianna no que da noção de “complexos culturais” em Instituições Políticas se refere às possibilidades de “erradicação” do insolidarismo não implicou uma simples “atualização conceitual”. atribuir a Oliveira Vianna uma posição deste tipo significa minimizar o aspecto tensionado e esta “alma dos povos”. até mesmo contraditório com o qual o mesmo se vincula às posições liberal e autoritária. v. os “complexos culturais” normativos contraditórios entre si implicou no processo da escrita tendem à estabilidade e a resistir às mudanças. 16 Oliveira Vianna confessa a novidade deste uso..uma conseqüência das tensões que a vinculação a referenciais conforme salienta Oliveira Vianna. insignificante. experiência de participação do Autor no seio da máquina estatal. revendo.343-344.. levantados. Instituições de estilo “golpista”./jun. [. mas então esperar que estes “complexos históricos” se desintegrem a uma ruptura com perspectivas anteriores. sindicais. Atuando longamente num cargo da alta burocracia do Esta estabilidade. possibilidades de refundação da sociedade brasileira através da Este “ceticismo” se configura de modo mais claro quando. o Autor se torna mais “cético” quanto à mudança terminológica. p. de acordo com os materiais aqui regimes políticos e constitucionais não modificam. Industria e Comércio entre 1932 e 1940 –. p. já ação centralizada do Estado. É que. pela preocupação do lucidus ordo cartesiano. 1982b. volição. mas uma mudança considerável em eficácia da ação estatal no processo de refundação da sociedade seu posicionamento político. onde vemos objetos ou fatos de ordem material. memória. regime varguista – ocupou a consultoria jurídica do Ministério do funda-se na tendência de todo complexo à imanência. empregada pelos reformadores autoritários. São Paulo. comparando-se os argumentos de Populações Meridionais com os de Instituições Políticas. a adoção da noção de cultura significou não uma continuidade. por sistema.. a resistir às inovações. com base no trecho acima. v. oferece sempre um rendimento negativo ou. e fazem-se enervação. Oliveira Vianna instalar – sob a forma de hábitos – dentro da psicologia de cada se engajou diretamente no processo de centralização política um. agora.. quando o Autor formula uma engenharia institucional emoção. A “tendência à estabilidade” brasileira. o Autor se propõe a estudar a formação histórica da seja. sempre fugi. mas articulado. Nos termos do Autor: É justamente a história política comparada que nos prova que os do autoritarismo como um formato político transitório estabelece a linha divisória entre o autoritarismo instrumental e as outras propostas políticas não democráticas. literariamente. Políticas Brasileiras – publicado em 1949 – incorpora parte da quando positivo.. Isto se dá porque. Oliveira Vianna Esses elementos conjugados ou associados formam um sistema (1982a) propõe a implantação de um Estado autoritário. isto é. grifo do autor). Ou no prefácio. Estes elementos penetram o homem. o que lhe permitiu acompanhar de norma de conduta para que o complexo correspondente se forme perto os seus efeitos – assim como seus limites – no reordenamento e se resolva em atitudes ou comportamentos. Pela duração e permanência dominado.” Contudo. 2007 Perspectivas. O. uma mera brasileiro. instalam-se mesmo só ganharia contornos mais precisos ao longo dos anos 1920 e dentro da sua fisiologia. técnica da coação. 31. uma determinada operado durante o período. golpes de decretos ou de Constituições. jan. dos povos. Estes povos continuam. São Paulo. nesta nova concepção. desde os tempos proto-históricos. com os correspondentes sentimentos e articulação sistemática das relações entre Estado e sociedade idéias. Contudo. Sugere-se aqui que. p. O. conforme será visto a seguir. às expressões demasiado técnicas. 65-83. 65-83. 31. 1930. substancialmente os mesmos que conhecemos através dos anais. as em Populações. induzidas pelo Estado: Em Populações Meridionais do Brasil. portanto. no seu fundo. mesmo àquelas de sua obra de estréia. só acessíveis a mestres” (VIANNA. Redigido no decorrer da década de 1940. (VIANNA. na sua psicologia. [. que Benedict chama a “vitalidade da cultura”. A a reflexos condicionados. promulgadas em “nome do 78 Perspectivas. tal como previsto em Populações. motricidade.] Não basta decretar. 1982b. deste modo.

/jun. p. E mais ainda: o abandono de uma posição autoritária. Para Jung. E acrescenta: “Não há razão para nos envergonharmos possibilidade de mudanças instauradas a partir da ação estatal. p. (VIANNA. p. 1982b. às vezes. com aqueles desenvolvidos em 1910 no Vassourense. entanto. O. E não creio – porque culturais”.712. o Autor cita duas O. sua capacidade de resistência a qualquer inovação ou reforma. grifo do autor).. não vêm de fora. esclarece agora que “[.” (VIANNA. grifo do exemplo. Ele admite que os mesmos se transformem ao longo acredito na vigorosa tenacidade deste nosso complexo político na do tempo. Numa espécie de acerto de contas com a sua reflexão tentativas conscientes de alterá-lo substancialmente: pretérita – quando o Autor assinalava a necessidade de adoção dos valores anglo-saxões –. as que são preparadas pelo Estado. “neutralizado”: e a nossa terra – isto é. de nossos clãs. (VIANNA. como esclarece Oliveira Vianna (1982b. grifo do autor). São Paulo. Este espírito de clã. 1982b.. característico da nossa vida política – impedindo formadoras. contudo. é “[. pelo contrário. grifo do autor). Isto 17 É curioso perceber que. v. Encontramo-lo erradicação do espírito de clã.]” (VIANNA. p. 1982b.. tirarmos todo o partido disto”. Com estas eu conto pouco – e rio-me. p. se está transformando desde o 1º século”. O. que não me cabem descrever – entre os quais A afirmação do caráter inextirpável do espírito de clã o tempo.. por o contrarie ou o desconheça. Autor. quando muito. jan... 1982b. O. 174.. 1982b. p. O. essas transformações são endógenas e decorrem de mil fatores. O.] o que Minha dúvida está em outra espécie de transformações: – as que devemos fazer. Assim. (VIANNA. Oliveira Vianna busca persuadir posto. 31. No caso brasileiro. “[. O. p.. para que as mesmas possam ocorrer. o “ceticismo” de Oliveira Vianna não se expressa empreendida pelo “jovem” Oliveira Vianna até o “maduro” quanto às possibilidades de transformação operadas pelo próprio Oliveira Vianna não significou um simples acúmulo unívoco movimento espontâneo das sociedades.. constritor decisivo das possibilidades de livre associação. grifo do autor). p. O. 173.347..678)... condições fundamentais: “a) que se proceda gradativamente – com A postura resignada de Oliveira Vianna não implica. agrega o autor).714... São Paulo. 65-83.] não estamos sozinhos no mundo neste particular: o regime de clã. (VIANNA. porque não podemos deixar de ser assim. Oliveira Vianna se resigna quanto às possibilidades de que se trata de um fenômeno comum e geral: “[..173. que teriam operado câmbios significativos. grifo do autor)17. 31. É assim a Europa eslava e Oriental. (VIANNA. mas sim quanto às e linear. estes traços se Quanto ao espírito de clã – que é o mal que envenena a nossa transmitem pelo “inconsciente coletivo” – e tudo é como se eles existência e cria este estado de impaciência.. Povo” ou mesmo “em nome de Deus”. “nosso povo. o espírito de moderação e o senso de objetividade. e militar obrigatório. da nossa politicagem e dos seus ‘complexos’ Ele mesmo cita os exemplos da legislação trabalhista e do serviço políticos: somos assim. ou forçadas por é imitarmos os ingleses e querermos ser como eles – nesta vã ele. que porém. de expurgo integral. 1982b.. para melhorar o teor da nossa vida pública. usando da coação.] aceitar resolutamente a nossa condição delas e dos seus promotores. celta e a Europa central. visto pelo Autor como um elemento em povos bárbaros e em povos civilizados. acentuando-o vivamente” (VIANNA. com a sua mentalidade específica. p..] mas. através da lei ou através dos golpes de expectativa de que podemos mudar de natureza a golpes de força. grifo Claro está que Oliveira Vianna não deixa de considerar a do autor). nesta atitude resignada quanto ao espírito de clã. o funcionamento normal e eficiente dos órgãos do Estado e do Governo – não creio que possamos mover contra ele uma política de Contudo. Destas não acredito leis ou de Constituições. 1982b. que nos permita colocar não se trata de proclamar uma rigidez absoluta dos “complexos o nosso povo em paridade com o povo inglês. Destas eu duvido e dos seus resultados.. 65-83. exasperação e se imprimissem ou se contivessem nos genes das próprias raças agressividade. 678.. aquilo que a ciência chama ‘formação social’ – nos agravou este traço comum. Muito pelo contrário: já b) que tenha apoio ou assentimento nos costumes e tradições do que a condição clânica seria um traço permanente da sociedade povo-massa”. É assim a Europa constitutivo da formação histórica brasileira.” (VIANNA. 80 Perspectivas. poderia O. embora pondere que “estas transformações são. 713). No só sendo assim é que poderemos ser como nós somos” (VIANNA. O. eliminação completa. é o regime mais generalizado do mundo. p. que não reconhece. [..678. 1982b. p. as condições da formação sócio-histórica apenas teriam acentuado tal característica: “O que em nós é diferente deles é talvez que o nosso meio histórico ser apenas.713. orgânicas: vêm de dentro”. É assim toda a América Latina. Mas. v. nem obedece ao golpismo dos permite sugerir que. 1982b. 2007 81 . p. p.. 2007 Perspectivas. 1982b. a viagem Neste sentido. facilmente no êxito./jun. grifo do autor). jan. comparando-se estes argumentos do Autor impacientes [.] É assim a Europa latina e mediterrânea. grifo do de brasileiros e as conseqüências da nossa ‘formação social’: – e autor).

Brasília: Câmara dos BRASIL JUNIOR. ______. 2./jul. O estado colonial na obra de Oliveira Vianna. O levantados possibilitam afirmar que. W.  ABSTRACT: This work aims to analyze the continuities and ______. 31. 2007. J. maio 1912. mas sua eficácia quanto às possibilidades de superação dos BRASIL JUNIOR. em certos casos. jan. Antonio. diversas modulações referentes a este mesmo tópico. 1974. rotina intelectual. construída pelo próprio Autor e por sua fortuna crítica. we claim that Instituições Políticas Vassourense. Brasília: Câmara permita redefinir o próprio sentido de sua obra. coletiva: Oliveira Vianna e Evaristo de Moraes Filho. Freitas Bastos. In: BASTOS. v. Problemas de política objetiva. jun. Em resumo. In:  KEYWORDS: Brazilian Social Thought.Instituto quase quatro decênios por uma mesma questão – a debilidade de Filosofia e Ciências Sociais. p. ______. 2007. Vassouras. A. Rio de Janeiro: Record. estas variações indicam que TORRES.22. Meridionais do Brasil. collective action in Brazil. O neo-monroismo e a teoria antropológica de Lapouge: discontinuities in Oliveira Vianna’s claims about collective action I. in Brazil. matizando. oeuvre.Vassourense. Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna internamente ambígua e contraditória. p. R. 1982a. apesar de recortada por Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia). descontinuidades fundamentais nos argumentos desenvolvidos por Oliveira Vianna. Democracia e solidariedade: Estado do Rio. Vassouras. Em outros BOTELHO. 1982b. da S. 1912. jan. O pensamento de Oliveira Action. WEHLING.v. n. G..23/24. n./jun. J. 191f. Collective BASTOS. 1956. obra de Oliveira Vianna. São Paulo. o autoritarismo estatal também deveria permanecer Referências indefinidamente. p. pode-se dizer que. é possível encontrar. MORAES. variada e. p. Décadas de espanto e uma apologia “jovem” Oliveira Vianna – até uma posição “resignada” – típica democrática. L. 65-83. Instituições políticas brasileiras. 1993. de V. São Paulo. Os materiais aqui com Tavares Bastos.brasileira. Perspectivas.1. O.65-83. modernismo e termos. p. O Brasil e os dias: Estado-nação. Vassourense: perspective. Brasileiras introduces a substantial change in Oliveira Vianna’s ______. o Autor não revê o prognóstico de uma solução autoritária.). São Paulo. (Org. Vassouras.).63-86. Talvez o reconhecimento desta dimensão VIANNA. W. de Instituições Políticas Brasileiras –. A. Unicamp. 31. v.1-4. 1998. 82 Perspectivas. we emphasize the tensions of his intellectual formation and its consequences in the writing process of Populações ______. Assim. A./jun. Vianna. a contrapelo da imagem pensamento de Oliveira Vianna. O neo-monroismo e a teoria antropológica de Lapouge: II. Rio de Janeiro: Revan. 31. questioning the image of a unitary and homogeneous jornal de ciência e arte. Rio de Janeiro: Rocco. E. 2006. Esquerda brasileira e tradição republicana: estudos reflexão de Oliveira Vianna foi. p. refinando ou até mesmo modificando suas intuições iniciais. pelo menos no que se refere à de conjuntura sobre a era FHC-Lula. J. na Janeiro. B. jan. Oliveira Vianna. Q. 2007 Perspectivas. Bauru: EDUSC. R. Unicamp. In particular. Campinas: Ed. 2007 83 . 2005. ______. Q. Uma sociologia brasileira da ação dilemas da ação coletiva no Brasil. E. (Org. Rio de Janeiro. dos. 2007. Oliveira Vianna and the dilemmas of Deputados. 1910. existem 351-404. MORAES. v. Rio de Janeiro: questões que se impuseram na agenda de debates. Populações meridionais do Brasil. Campinas: Ed. dos Deputados. Desde uma postura mais liberal – esposada pelo SANTOS./jun. de modo a conter a forças “centrífugas” e “dispersivas” de uma formação social “insolidária”.. questão desenvolvida neste artigo. 65-83. Oliveira Vianna: sua vida e posição e sua o Autor foi obrigado a dialogar sucessivamente com as diferentes posição nos estudos brasileiros de sociologia. 1993. Universidade Federal do Rio de crônica da livre associação no Brasil –. Also. a VIANNA. longe de ser uma unidade coerente ou homogênea. v.