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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DA UFBA – FACOM


Adalton dos Anjos
Adriele Bandeira
Karina Costa
Laís Ferreira
Matheus Sampaio

EAD NA ERA DA
CIBERCULTURA

Trabalho proposto para conclusão da


disciplina Comunicação e Tecnologia
no curso de Comunicação Social com
habilitação em Jornalismo da UFBA.
Salvador,
2009
Adalton dos Anjos
Adriele Bandeira
Karina Costa
Laís Ferreira
Matheus Sampaio

EAD NA ERA DA
CIBERCULTURA
Resumo: A EaD encontrou na cibercultura seu lugar ideal, apesar de existir desde os
cursos de correspondência. Com a adaptação e os usos que a sociedade atual faz com a
grande rede, associada a outros aparelhos, foi possível reconfigurar a modalidade de
ensino a distância, a partir do momento em que as salas foram virtualizadas e as
explanações e consultas ao professor passaram a ser transmitidas ao vivo. A relação do
homem com o ciberespaço é bastante interessante; ao mesmo tempo em que isola
indivíduos, coloca-o em contato com outros, encurta distâncias, modifica nossa relação
com o tempo e revoluciona as formas de acesso ao conhecimento.
Palavras chave: cibercultura, EaD, novas tecnologias, internet,

Resumo: Distance education find with cyberculture its better place, although it has
existed since the correspondence courses. With the adaptation and uses that current
society makes with internet, associated with others devices, it was possible to
reconfigure the modality of distance education, from the moment that the classrooms
were virtualised and the explanations e consultations to the professor were transmitted
live. The relation of the man with cyberspace is very interesting; at the same time that
isolates individuals, keep them in touch with others, shortens distances, modifies our
relations with the time and revolutionizes the forms of access to the knowledge.
Key Words: cyberculture, Distance education, new technologies, internet,

Orientador: André Lemos

Salvador,
2009

Portanto, para mim cada vez mais haverá uma mistura, uma
mixagem entre a educação à distância e a educação clássica.
Cada vez mais as escolas estarão em relação umas com as
outras, quando houver um curso interativo muito bom pela
internet, sobre uma determinada matéria várias escolas vão se
conectar, os alunos vão navegar, etc. Essa mistura é algo muito
favorável à evolução da escola em direção a uma adaptação à
nova relação que está sendo instaurada com o saber. (LÉVY,
entrevista postada em agosto de 2007 no Youtube)
Portanto, para mim cada vez mais haverá uma mistura,
uma mixagem entre a educação à distância e a
educação clássica. Cada vez mais as escolas estarão
em relação umas com as outras, quando houver um
curso interativo muito bom pela internet, sobre uma
determinada matéria várias escolas vão se conectar, os
alunos vão navegar, etc. Essa mistura é algo muito
favorável à evolução da escola em direção a uma
adaptação à nova relação que está sendo instaurada
com o saber. (LÉVY, entrevista postada em agosto de
2007 no Youtube)
SUMÁRIO

Introdução ..............................................................................................................................p.5

Breve evolução histórica do EaD no Brasil ...........................................................................p.6

Confrontos com o ensino tradicional e as limitações da modalidade a distância ..................p.8

EaD no contexto brasileiro ....................................................................................................p.10

EaD na era da cibercultura ....................................................................................................p.12

Considerações finais .............................................................................................................p.14

Referências bibliográficas ....................................................................................................p.15


O Decreto 5.622, de 19 de dezembro de 2005, caracteriza a educação a distância como
“modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e
aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação,
com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos
diversos”.

INTRODUÇÃO
A característica fundamental do ensino a distância é que professor e aluno não se
encontram no mesmo espaço físico durante um determinado período de tempo, como ocorre
no ensino presencial. Embora a Internet seja a tecnologia imediatamente lembrada quando se
fala em EaD, ela não é a única. Considerando como educação a distância a transmissão de
conhecimento de uma pessoa para a outra, estando essas pessoas separadas pelo espaço e pelo
tempo, e utilizando tecnologia para mediar o contato, pode-se dizer que a EaD começa com a
invenção da própria escrita.
A escrita possibilitou que as pessoas registrassem num suporte físico – o papel –
aquilo que antes só podia ser transmitido oralmente. Este é o primeiro estágio da EaD. As
epístolas do Novo Testamento – por exemplo, as cartas do apóstolo Paulo aos Coríntios, entre
outras – podem ser consideradas EaD, pois apresentam um caráter claramente didático, com
orientações aos destinatários sobre diversas questões. Quando se inicia a prática do ensino a
distância ela é feita deste modo, através de cartas.
Com um alcance maior que o das cartas, o livro é o segundo estágio. A princípio era
manuscrito, mas o surgimento da imprensa aumentou sua produção, ampliando seu alcance. O
livro impresso representa a primeira forma de EAD de massa. Depois dele temos o rádio, a
televisão e, mais recentemente, o computador e a Internet, esta última capaz de compilar todas
as tecnologias anteriores.
Neste trabalho, pretendemos fazer uma reflexão sobre como a educação a distância é
influenciada com as mudanças culturais provocadas, sobretudo pela cibercultura. Para
resolver essa questão se faz necessário entender o contexto dessas transformações que
reconfigurou os modos de viver e pensar da sociedade moderna. Destarte, iremos traçar um
breve panorama histórico a fim de entender como a chegada de técnicas anteriores a internet
influenciou a modalidade de ensino à distância. Em seguida, a EaD será confrontada com a
educação formal e por fim faremos uma análise no contexto da sociedade brasileira e da
cibercultura. Para este trabalho utilizamos autores da bibliografia básica da disciplina,
Comunicação e tecnologia, como Pierre Lévy, Guillermo Orozco Gómez, André Lemos entre
outros das áreas de educação.
BREVE EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO EAD NO BRASIL
Uma das primeiras experiências brasileiras do ensino à distância foi em 1904 com os
cursos por correspondência. Dessa forma era possível através da tecnologia da época, a carta,
desenvolver atividades educativas em locais diferentes, sem a presença física do professor e
em tempos distintos. No contexto da origem do ensino à distância no país, não era exigida
escolaridade anterior pelas instituições que ofereciam os cursos técnicos.
A carta seria utilizada no ensino à distância no Brasil até meados do século XX,
quando uma nova tecnologia que possibilita uma comunicação à distância é apropriada para o
fim educacional. Ao longo da evolução histórica da EaD é possível observar que essa
modalidade de ensino está sempre ligada a um meio de comunicação. Para cada nova
tecnologia que surge, há uma apropriação dos usuários, nesse caso, daqueles que oferecem o
ensino a distância; já que os instrumentos como a carta, rádio, TV e internet não foram
imaginados inicialmente para serem usados na EaD.
Ferreira (2007) explica que a chegada de uma nova técnica deve ser entendida com
uma negociação que ocorre em vários níveis: desde a justificativa do investimento de uma
nova criação, que se situa no nível estratégico e é decidido pelo governo ou pelo sistema
econômico; passando pela concepção, que articula a invenção com objetos próximos e desta
forma utiliza a retórica para estimular o uso e por fim o nível tático, que é a apropriação do
público daquele novo invento. Neste último nível a EaD desenvolve novos usos das técnicas
inventadas para comunicação a distância para cumprir o seu objetivo.
Até a metade do século XX, a oferta dos cursos por correspondência era a única
possível na modalidade à distância. Entretanto, a partir da estabilização de outro meio de
comunicação que tinha chegado ao país na década de 30 era possível inovar a EaD. Através
do rádio, o acesso à educação tornava-se mais popular, já que era um meio massivo e tinha a
possibilidade de atingir milhões de brasileiros. A primeira iniciativa foi em 1947 com a união
do Senac São Paulo com o Sesc da região, era a Universidade no Ar, que durou até 1962.
Os programas, gravados em discos de vinil, eram repassados às emissoras
que programavam as emissões das aulas nos radiopostos três vezes por semana. Nos
dias alternados, os alunos estudavam nas apostilas e corrigiam exercícios, com o
auxílio dos monitores. Na década de 1950, a Universidade do Ar chegou a atingir
318 localidades e oitenta mil alunos. (MARQUES, 2004)

Paralelamente as iniciativas de educação que aproveitavam o meio radiofônico havia


os institutos, que ainda usavam o serviço da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos para
o envio do material didático. O Instituto Monitor e o Instituto Universal Brasileiro são
exemplos que existem até hoje e ainda usam como veículo as correspondências.
Em 1950, aconteceu a primeira transmissão de TV no Brasil, mas apenas dezoito anos
depois, em novembro de 1968, foi inaugurada a primeira emissora de televisão universitária,
na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), que tinha a função de educar e formar uma
parcela da sociedade que estava distante dos centros de educação, principalmente na região
Nordeste. Dez anos depois, a Fundação Roberto Marinho e a Fundação Padre Anchieta
assinaram um convênio para realização de um projeto de teleducação. Através da TV, seria
possível atingir uma parcela igual ou superior a do rádio no processo de educação a distância
e com o recurso da imagem em movimento. O projeto de teleducação para pessoas que não
terminaram o 1º e 2º graus e que desejavam fazer um curso profissionalizante evoluiu ao
longo dos anos, e, ao se unir com a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo),
MEC e Universidade de Brasília, Fundação Bradesco, se consolidou e beneficiou cerca de 5,5
milhões de pessoas. O sucesso do Telecurso 2000 ainda continuava a depender do envio do
material didático pelos Correios, como nos cursos à correspondência, e da presença periódica
dos alunos nas chamadas telessalas. Com o advento da internet, o Telecurso 2000 passou por
reformulações e agora utiliza a grande rede como canal de comunicação com os alunos.
A apropriação da internet pela sociedade vai ser responsável por uma grande
diversidade de mudanças culturais em quase todo o mundo. Na educação, ela está em combate
direto com as metodologias tradicionais aplicadas em sala de aula. As escolas ainda não
aprenderam a utilizar essa ferramenta em vantagem própria, e por isso preferem ignorá-la,
mas os alunos já utilizam largamente a internet como um auxílio no processo de
aprendizagem. A grande rede fez com que o conhecimento viesse não pela imitação e sim
pela descoberta. Essa mudança de paradigma não é nova, mas foi intensificada com a
possibilidade de acesso a várias fontes através da internet (GÓMEZ, 2006). Goméz argumenta
que o aprendizado descentralizado em rede é muitas vezes mais relevante do que o
institucionalizado e transmitido pela educação formal. Assim é possível um acesso aos
conhecimentos por parte dos sujeitos, antes mesmo do contato com o ensino das instituições
escolares. Emerge, desse modo, um cenário que proporciona a contestação dos saberes
instituídos, mais plural, democrático e anti-hierárquico. Por isso Goméz vai propor “Antes, o
livro que o professor trabalhava na sala de aula tinha a 'última palavra'. Agora, a última
palavra quem tem são os sujeitos da audiência, e seus olhos...”. A interferência do paradigma
da descoberta e do reconhecimento do processo de auto aprendizagem de um aluno na EaD
ajudam a intensificar a procura e aceitação dessa modalidade de ensino na sociedade.
Enquanto a internet possibilitou a transmissão da aula ao vivo e tornou o EaD mais
interativo, já que os alunos agora podem interferir na aula como fariam no ensino tradicional,
mudanças nas Leis de Diretrizes Básicas, em 1996, também foram responsáveis por
consolidar e fortalecer o ensino a distância no país e abriu caminho para que as instituições de
ensino superior passassem a oferecer cursos a distância1 nos anos seguintes. No decreto nº
5.622 de 20 de dezembro de 2005 ficaram estabelecidas outras normas para os cursos em EaD
como a obrigação de momentos presenciais para avaliações, estágios, trabalhos para
conclusão de curso, mesma duração que os cursos presenciais, possibilidade de intercâmbio
entre as modalidades presenciais e a distância e a classificação dos níveis em educação básica,
de jovens e adultos, especial, profissional e superior.

CONFRONTO COM O ENSINO TRADICIONAL E AS LIMITAÇÕES DA MODALIDADE À


DISTÂNCIA

Considerando que a educação é um fluxo que acompanha as mudanças sociais


(Brigges e Burke, 2004 apud. Gouvêa e Oliveira), não seria indiferente com as mudanças nas
Tecnologias de Informação e Comunicação.

“Houve mais mudanças que continuidade na educação e no entretenimento


durante o século XIX e XX. A maior delas é explicável em termos
econômicos e sociais, desde que se incorpore na analise a tecnologia, tratada
como atividade social envolvendo pessoas, produtos e patentes” (Briggs e
Burkes, 2004. apud. Gouvêa e Oliveira)

No entanto, é importante compreender como a sociedade vai se apropriando dessas


técnicas para o uso da educação a distancia, de modo que essa modalidade de ensino tenha se
difundido e alcançado as potencialidades atuais. Fatores econômicos, sociais e culturais têm
somado para essa efetivação e consolidação do EaD. Em Gomez (2006), é apresentado
algumas barreiras que as novas tecnologias enfrentam até se consolidarem nos grupos
culturais. Segundo ele, o tempo de aprendizagem, de assimilação, os reajustes que uma nova
tecnologia sugere a tecnologia anterior, a diversidade de interesse e necessidades, o poder
aquisitivo se mostram como aspectos que precisam ser vencidos para a devida apropriação e
uso da técnica. No caso, especialmente da educação a distância o computador ou a televisão

1
Entre 2001 e 2004 o número de cursos a distância no Brasil cresceu 600%.
são os principais suportes tecnológicos, com a contribuição principal da internet e da
transmissão televisiva, respectivamente.
Por conta das mudanças sociais, como a necessidade cada vez maior de formação
superior e a necessidade de inserção no mercado de trabalho, a EaD se mostra uma alternativa
cada vez mais procurada. É de fundamental importância compreender os limites e
potencialidades da educação presencial e a distância, de modo que estabelecendo
comparações poderá se compreender o real alcance da educação a distância.
O primeiro aspecto apontado como desvantagem para a educação tradicional é a
relação espaço-tempo, nesse caso, o horário escolar influi de forma direta ou indireta nos
processos de ensino e aprendizagem. Isso significa delimitação de espaço e tempo. A segunda
desvantagem apontada é a questão da criação de referenciais. Na escola, o professor e a
instituição são as referências, são eles os transmissores e detentores de conhecimento e o
aluno está ali para aprender, o que gera uma clara delimitação de funções e atuações. Em
terceiro é relatado a relação face a face que pode ocasionar constrangimentos por
comparações de níveis de aprendizagem (Voigt).
Todavia não há dúvidas que o modelo de educação presencial tem obtido sucesso e
oferece vantagens que não se encontram na educação a distância. Esse modelo clássico de
educação tem vários benefícios: a reação imediata à dúvida, ou seja, o aluno pergunta o
professor responde, por exemplo. Na EaD, muitas vezes, as respostas às perguntas dos
estudantes chegam descontextualizadas e desprovidas de significado. As teleaulas
transmitidas para todo Brasil acabam intimidando os alunos a fazerem perguntas, como
acontece numa aula tradicional. Sem falar das relações afetivas, “a relação face a face reforça
o sentimento de grupo e o desenvolvimento de responsabilidades mútuas”(Voigt).
Outro aspecto negativo apontado na EAD é o distanciamento da cultura escolar.
Elementos dessa cultura, como conversas paralelas, encontros nos corredores e ambientes que
fazem parte da instituição de ensino, mas que não pertencem ao currículo acadêmico e que,
entretanto, colaboram na formação da identidade do estudante. Além dessas limitações
citadas, há um questionamento sobre a profundidade do conhecimento desse estudante em
determinados assuntos, tendo em vista que nas faculdades convencionais existe o uso de
laboratórios e, em alguns casos, atividades de extensão. As atividades de pesquisa e extensão
incluem saída de campo e são essenciais, sobretudo nos bacharelados. Esse é o grande
problema das faculdades EaD, a maioria delas ainda não oferecem atividades que extrapolam
o ensino, e por isso, essa modalidade ainda é mais comum em cursos de licenciatura. Isso quer
dizer que apropriação da linguagem feita na educação a distância ainda encontra dificuldades
e deverá sofrer processo de negociação, ainda futuramente de modo que possa atender as
demandas sociais. De modo, também que a mixagem de técnicas e usos das linguagens seja
maior e mais abrangente. Atualmente a linguagem mais utilizada é linguagem digital, através
da internet. Segundo Lévy (1993), “a linguagem digital é mais uma categoria para aquisição
do conhecimento e esta dar-se-á no espaço das novas tecnologias eletrônicas de comunicação
e informação”.
Como já foi dito que a educação é um fluxo, é possível compreender que linguagem
digital é produto dessas inovações tecnológicas que são acompanhadas no âmbito
educacional.
A educação à distância, responde a necessidade de uma sociedade intitulada sociedade
do conhecimento, que por conta de diversas mudanças em sua estrutura exige cada vez mais o
ensino superior. Uma das vantagens apresentadas pelos defensores do EaD é a economia de
tempo no deslocamento dos estudantes de casa para o curso, já que esses não enfrentariam os
grandes engarrafamentos dos horários de pico, ou a possibilidade para aquelas pessoas que
residem longe de faculdades.
Outra interferência do fator tempo na educação distância é que o estudante necessita
geri-lo autonomamente, pois é ele quem acessa o material e realiza suas atividades quando
quer e deseja. Neste caso o conceito de participação se ajusta ao conceito de atuação e
produção, não necessariamente ao tempo dedicado ao estudo. Além disso, a educação a
distância permite uma maior adequação ao ritmo individual. Assim, o estudante pode definir
melhor seus objetivos individuais de acordo com as próprias necessidades. No que tange as
questões econômicas a EaD, não se encaixa necessariamente como proposta mais rentável,
apesar das mensalidades das faculdades serem em geral muito menores. O acesso à educação
exige um investimento para obter uma boa conexão à rede para receber as informações. Ainda
há muito para compreender sobre educação à distancia que apesar de ter um longo histórico
tem ganhando corpo, realmente, com o advento dos computadores e da internet.

EAD NO CONTEXTO BRASILEIRO


No Brasil, a EaD sempre foi vista como uma alternativa para resolver carências
educacionais acumuladas durante anos. O modelo foi pensado para atender aqueles que não
tiveram oportunidade de fazer uma graduação logo quando concluíram o ensino médio. Na
maioria das vezes, estas pessoas já estão inseridas no mercado de trabalho, por isso os cursos
possuem caráter profissionalizante. Não se trata propriamente de ensinar uma profissão, mas
de oferecer ao profissional um certificado que aumente suas chances de crescer na carreira.
O curso a distância também é uma opção interessante para aqueles que vivem em
regiões onde a oferta de cursos de qualidade é pequena, ou ainda para pessoas que têm uma
longa jornada de trabalho. Em todos estes casos, o perfil é de pessoas para quem o ensino a
distância é o ideal, seja por questões financeiras – as mensalidades do curso não-presencial
são em média 60% mais baratas que o presencial – ou geográficas – afinal, não é necessário o
deslocamento diário até a instituição de ensino.
Hoje são oferecidos diversos cursos desde a graduação, pós-graduação, cursos de
idiomas, técnicos entre outros. As instituições de ensino que disponibilizam esses cursos são
na maioria privadas2 - com custo relativamente baixo das mensalidades -, mas algumas
universidades públicas também oferecem essa modalidade de ensino, aqui na Bahia a UFBA,
UNEB e UESC já são credenciadas junto ao MEC (Ministério da Educação) na oferta dos
cursos a distância.
Mesmo assim ainda é comum o mercado de trabalho e a sociedade enxergarem a EaD
como uma educação inferior à presencial, já que nela o aluno é o maior responsável pelo
processo. Esse ponto de vista justifica-se pela desconfiança do modelo de aprendizagem que
depende em grande parte da autonomia e da disciplina do aluno ao propor metas a si mesmo,
determinar horários de estudo e cumpri-los, enfim, seguir seu próprio ritmo.
Os defensores da EaD não negam que esta modalidade de ensino pode ser uma
“educação de segunda classe”, mas argumentam que, se isto acontece, não é devido à natureza
não presencial do processo, mas a falhas do sistema institucional. Segundo Demo (apud
Benakouche 1998, p. 13), "quando falamos de 'teleducação', a questão mais embaraçosa não
está na 'tele', mas na 'educação'". Eles defendem, por exemplo, que uma avaliação coerente
com o caráter dos cursos a distância seria a auto-avaliação. No entanto, esta prática não atende
aos critérios institucionais, e por esta razão a certificação é feita com base em avaliações
muito semelhantes àquelas aplicadas nos cursos presenciais.

EDUCAÇÃO E CIBERCULTURA
2
De acordo com a Secretária de Educação a distância 187 instituições de ensino superior oferecem EaD
no país, destas 86 são instituições públicas.
As abordagens que privilegiam a história pelo viés tecnicista seriam insuficientes para
compreensão dos fenômenos sócio-técnicos. A questão da emergência das tecnologias de
comunicação social influencia decisivamente na circulação e construção do saber na
sociedade. A transmissão do conhecimento que, tempos atrás, dependia da oralidade, tem suas
possibilidades grandemente ampliadas com o advento do livro, que pode ser considerado uma
mídia portátil. Dessa forma a imprensa condicionou a construção do ensino básico e foi uma
mola propulsora das revoluções na ciência, por meio das revistas; os meios de comunicação
de massa, através dos jornais e folhetos, e até a religião, através da Bíblia, que foi o primeiro
livro impresso. (GIOVANNINNI, 1987)
A partir de uma economia baseada na concentração dos modos de produção, na
urbanização crescente, aliada à invenção da prensa de Gutenberg, a modernidade promoveu o
advento de uma sociedade massiva, calcada na concentração dos meios de comunicação. É
esse cenário que possibilita as transformações sociais condicionadas pela revolução
tecnológica. As incessantes mudanças nas organizações e no pensamento humano passam,
então, a ser conduzidos pelos processos de avanço tecnológico e de difusão da informação que
geram e descortinam um novo universo no cotidiano das pessoas.
Grande parte da produção intelectual que pretendia compreender esse período se
manteve em duas tradições que se opõem e podem ser classificadas: uma tecnocêntrica e outra
como sociocêntrica, classificação proposta por Orozco Goméz, mas abordada com mais
profundidade por Giovandro Ferreira. Para Ferreira “ambas abordagens nutrem-se de
elementos comuns, mesmo chegando a visões aparentemente antagônicas. Ambas são
colocadas numa perspectiva globalizante, ancoradas em questionamentos que buscam explicar
as mudanças e os movimentos da história, sucumbindo numa visão geral (ensaística),
fortemente marcada pelo determinismo...”. No argumento de Ferreira, essa duas tradições são
construídas uma por McLuhan e outra pelos teóricos de Frankfurt. O reducionismo dos
mcluhanianos se apresenta pela monocausalidade histórica, de considerar os meios de
comunicação a força motriz da história. Os frankfurtianos, a partir dos conceitos de Razão
Instrumental vão considerar que “A indústria cultural encarna e difunde um ambiente em que
a técnica arremata poder sobre a sociedade, reproduzindo e assumindo o poder econômico
daqueles que já dominam sobre a sociedade”.
Tendo em vista os méritos e os limites desses recortes teóricos, devemos, novamente,
adotar as perspectivas dos autores contemporâneos como Pierre Lévy e André Lemos,
levando em consideração as complexidades que envolvem a apropriação social das
tecnologias. A própria história da cibercultura, que veremos a seguir, comprova a adequação
do exame que fazem esses autores.
A difusão e popularização da rede mundial de computadores, a Internet, é devedora
dos movimentos de contra-cultura. Definida pela enciclopédia colaborativa Wikipédia como
“A Internet é um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores
interligados pelo TCP/IP (conjunto de protocolos de comunicação entre computadores em
rede) que permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados”. Os jovens da
contra-cultura, engajados na democratização das comunicações, se apropriaram dos
equipamentos e das redes desenvolvidas pelas pesquisas militares na época da Guerra Fria,
para construir computadores pessoais e uma rede mais aberta para conexões globais. Vivemos
a intensificação do que David Harvey concebeu como compressão do espaço-tempo.
O desenvolvimento tecnológico atual permite uma revolução sem precedentes. Ao
disporem de uma série de equipamentos digitais como câmeras de vídeo, câmeras digitais,
gravadores de áudio os indivíduos contemporâneos estão construindo uma sociedade pós-
massiva, que descentraliza e rompe com as hierarquias das grandes mídias. A
descentralização permite que se supere a dicotomia produtor-receptor ao proporcionar
equitativas chances de publicação de conteúdos.
A conexão global permite uma difusão das informações e do conhecimento jamais
alcançado. Multiplicam-se as formas de interação social a partir das relações virtuais do
ciberespaço. Surgem redes colaborativas, fóruns de discussão de todos os tipos, publicação de
livros on-line, etc.
Entretanto, uma série de patologias sociais, resultantes das utopias modernas começa a
se proliferar nessa sociedade pós-massiva. “O pesadelo tomou o lugar do sonho prometéico:
poluição, desigualdades sociais, econômicas, políticas, caos urbano, violência, drogas, etc.”.
E, ao mesmo tempo, a luta de novos movimentos sociais que contestam as opressões e os
valores da sociedade burguesa vai marcar uma mudança de paradigma estético e cultural no
ocidente, que muitos autores chamam de era pós-moderna.
Novamente Pierre Lévy é importante para compreender essas mudanças. Lévy propõe
que a cultura contemporânea, em virtude das apropriações sociotécnicas proporciona a ruptura
da dicotomia sujeito e objeto do conhecimento. “Ao desenvolver o conceito de ecologia
cognitiva, irei defender a idéia de um coletivo pensante de homens-coisas, coletivo dinâmico
povoado por singularidades atuantes e singularidades mutantes”. São essas condições de
avanço e difusão do conhecimento que permitem a quebra dos paradigmas que vêem na
instituição escolar e na educação presencial os únicos meios de construção dos saberes. Em
meio a esse contexto é que se tornam possíveis as modalidades de Ensino à Distância( EaD),
uma nova modalidade de ensino, instituído, mas que é muito mais flexível quanto à presença
física do aluno na instituição escolar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Várias transformações reconfiguraram os modos de viver e pensar da sociedade
moderna. Uma das características que mais marcam a modernidade é a experiência desta
sociedade com as novas tecnologias de base eletrônica, a cibercultura. As novas tecnologias,
junto com a socialidade contemporânea, segundo Lemos (2002), são responsáveis “por uma
dominação técnica do social, por um individualismo exacerbado, por um constrangimento
social exercido por uma moral burguesa e uma ética da acumulação, por uma abordagem
racionalista do mundo”. Por conta da micro-informática não nos relacionamos do mesmo jeito
com as pessoas, mudamos nossa forma pensar e agir; a nossa relação com espaço-tempo foi
alterada e passa por um processo de compilação; queremos o máximo de conforto e de
informação. Com o desenvolvimento tecnológico é possível a virtualização de ambientes
inteiros, e desta forma, reuniões, conferências, seminários e aulas podem ser transmitidos de
qualquer lugar do mundo, para várias pessoas ao mesmo tempo – sem a necessidade da
presença física do emissor e da audiência - sem grandes prejuízos a interatividade e o contato
entre eles.
A relação do homem com o ciberespaço provoca discussões intermináveis, tanto no
que diz respeito ao enfraquecimento das relações sociais, por conta do isolamento pessoal,
provocado pelo uso contínuo do computador, da perda de espaço do homem para a máquina,
pelas substituições do professor em sala de aula e das relações presenciais pelas virtuais. Com
a educação a distância essas discussões acabam se intensificando, devido a virtualização do
ambiente de ensino e, principalmente, pela ausência física do professor.
Ao contrário do que se costuma pensar, a educação a distância não é um processo de
auto-aprendizagem que independe totalmente da participação do professor. O professor do
ensino a distância tem sim o seu papel garantido e bem definido. Enquanto que, em um
ambiente convencional, o professor tem um número limitado de alunos por sala, na EAD, ele
pode ensinar até para milhares de alunos ao mesmo tempo, sem a necessidade de dividir o
espaço físico com estes. Assim, em um ambiente virtual, o professor passa a desempenhar o
papel de mediador, uma espécie de perito em animar coletividades inteligentes.
“a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos
conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua
competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o
pensamento. O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos
que estão a seu encargo”. (Lévy, 1999, p.171)

O EaD, portanto, se mostra não como um “vilão” que substituirá o ensino tradicional e
junto com a internet acabará com as relações interpessoais e isolará cada vez mais os
indivíduos. Apesar de o nosso país apresentar vários motivos para que isso aconteça; como
por exemplo, a inversão da idéia de prisão, quando cidadãos honestos se trancam em suas
casas para evitar a violência, ou com o trânsito caótico que atrapalha os deslocamentos nas
grandes cidades. Como afirmou Lévy num trecho de uma entrevista transcrita na epígrafe
deste trabalho, o ensino a distância e através da grande rede, que virtualiza as aulas, poderá
servir como uma alternativa para algumas disciplinas escolares, ou mesmo para determinados
cursos de graduação, pós-graduação, técnicos e de idiomas como já acontece.

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