Brasília/DF, 31 de maio de 2017.

Of. nº 74/2017 GAB 571

Ao Excelentíssimo Senhor,
RODRIGO JANOT
Procurador-Geral da República
BRASÍLIA – BA

Assunto: Pedido de Abertura de Procedimento Preparatório de Inquérito Civil

Excelentíssimo Senhor Procurador-Geral,

Ao cumprimentá-lo cordialmente, solicito de Vossa Excelência apuração de
graves fatos ocorridos relacionados à produção e distribuição do medicamento
ALFAPOETINA, nos termos a seguir.

Doutor Procurador-Geral, o Ministério da Saúde realizou junto à empresa BLAU
FARMACÊUTICA a aquisição de 3.900.000 frascos de ALFAEPOETINA HUMANA
RECOMBINANTE HUMANA 4.000 UI, mediante o processo administrativo
nº 25000041077/2017-17. Este trata da dispensa de licitação nº 245/2017, com
fundamento no artigo 24, inciso IV, da Lei nº 8.666/93 (compra emergencial). Conforme
se verifica em anexo, o extrato da dispensa fora publicado no Diário Oficial da União em
27/04/2017.

No dia 03 de maio do corrente ano, foi realizada uma audiência pública na
Comissão de Gestão Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, para a qual foram
convidados a prestar esclarecimentos alguns gestores e, dentre eles, o Diretor-Presidente
do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), do Instituto Oswaldo
Cruz (Fiocruz), Artur Roberto Couto.

Ocorre que, no evento acima referido foram obtidas informações de que o
Ministério da Saúde adquiriu o medicamento da iniciativa privada mesmo tendo
conhecimento do vasto estoque mantido pela FIOCRUZ (4.000.000 frascos) para pronta
entrega.
Conforme se verifica em anexo, em comunicado interno aos funcionários da
FIOCRUZ, Artur Couto detalhou no dia 19 de maio um longo processo iniciado em 2004,
quando o governo brasileiro tomou a decisão estratégica de assinar um acordo de
transferência de tecnologia com o laboratório Cimab, sediado em Cuba, para produzirmos
no Brasil o medicamento Alfaepoetina. Este acordo, segue o comunicado, resultou numa
gradual execução das etapas de fabricação do medicamento nos laboratórios da Bio-
manguinhos/Fiocruz.

O diretor da entidade destacou que a etapa final desta transferência tecnológica se
concretiza com a inauguração de planta industrial de produção do ingrediente
farmacêutico ativo (IFA) da Alfaepoetina, realizada em solenidade oficial em dezembro
de 2016. A referida unidade custou R$ 478 milhões e está em fase de certificações para
iniciar neste ano a fabricação da matéria-prima do medicamento. Conforme afirmou a
diretoria da Bio-manguinhos na já referida audiência pública da Câmara de Deputados, a
produção da IFA em indústria própria reduzirá os custos de produção do medicamento
em ao menos 40% – atualmente, a IFA utilizada é importada do laboratório Cimab,
conforme previsto no acordo de cooperação internacional.

“É importante ressaltar que antes da assinatura do acordo de transferência de
tecnologia entre Bio-Manguinhos/Fiocruz e CIMAB, o preço médio da Alfaepoetina 2 e
4MUI pago pelo Ministério da Saúde era 400% mais elevado que o preço médio praticado
após o acordo firmado. Assim, em 2006, após a centralização da compra pelo Ministério
da Saúde (MS) e fornecimento por Bio-Manguinhos, as aquisições se revelaram bem
menos onerosas aos cofres públicos, se comparadas ao ano anterior, gerando uma
economia de aproximadamente R$ 6 bilhões ao longo dos últimos anos”, observa o
comunicado interno.

No mesmo documento, o diretor Artur Couto detalha que informou ao Ministério
da Saúde, através dos ofícios n° 194/2017-PR e 222/DIBIO/17, a existência de estoque
suficiente do medicamento para atender a demanda do Ministério da Saúde. Visita
realizada por este parlamentar à Bio-manguinhos no dia 29 de maio deste ano, conforme
se verifica em anexo, atestou a existência do referido estoque, bem como a capacidade de
produção diária de 140.000 doses. Os fatos ora expostos deslegitimam o argumento do
Ministério da Saúde para a compra emergencial do medicamento.

Em comunicado à imprensa no dia 15 de maio, o Ministério da Saúde alegou que
a compra emergencial da Alfaepoetina da Blau Farmacêutica ocasionou numa economia
de R$ 128 milhões anuais, num estranho cálculo, já que o valor total do contrato é de R$
63.509.560,80. Mesmo o argumento econômico não se sustenta neste caso, posto que,
além de abandonar projeto estratégico que em curto prazo ocasionará na redução do valor
em mais de 40%, a Fiocruz é uma fundação estatal subordinada ao Ministério da Saúde e
sem fins lucrativos, em que os preços são definidos em reunião entre o ministério e a
entidade.

“Vale ainda informar que o preço praticado no “processo de aquisição anterior”
por Bio-Manguinhos considerava os valores pactuados em contrato e discutido com o MS
anualmente, conforme consta no oficio 5555/2015/DAF/SCTIE/MS. Em momento
algum, durante o processo de discussão dos preços no MS, ocorrido em novembro/16, foi
discutido a necessidade de avaliação e redução do preço da Alfaepoetina, diferentemente
do que ocorreu com outros produtos”, completou o comunicado.

Diante de tais afirmações, é imperativo salientar que alguns lotes do medicamento
em estoque foram fabricados em julho de 2016, cujo vencimento apenas se dará no
mesmo mês do ano de 2018. Há, em verdade, um verdadeiro “esquecimento propositado”
deste material em estoque.

Dessa forma, resta evidenciado que a compra por DISPENSA DE LICITAÇÃO
com base no artigo 24, inciso IV, conforme disposto acima, fora, efetivamente, uma burla
aos princípios da Administração Pública, uma vez que o Ministério da Saúde conhece a
realidade da FIOCRUZ, e de seus estoques, estes mais do que suficientes para atender a
demanda da população. Todo esse medicamento, vale salientar, produzido com dinheiro
público.
No mínimo contraditório sustentar o caráter emergencial da compra do produto
sem licitação e, ato contínuo, alegar publicamente que a dispensa de licitação foi benéfica
aos cofres da União por representar economia. Questiona-se, por outro lado, os motivos
de não ser cancelada essa aquisição em benefício de utilizar o estoque da FIOCRUZ, já
que existem 4.000.000 de doses prontas para distribuição imediata.

Todos os produtos que estão no estoque da Bio-manguinhos têm data de validade.
Comprar de um laboratório privado tendo o governo produto em seu próprio estoque,
expondo esse produto ao risco de perda, gerando sérios e irreversíveis danos ao erário.
Houve, dolosamente, o favorecimento direcionado da dispensa de licitação em favor da
empresa BLAU FARMACÊUTICA.

Lei nº 8.429/92

Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão
ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje
perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou
dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º
desta lei, e notadamente: (...)

I - facilitar ou concorrer por qualquer forma para a incorporação ao
patrimônio particular, de pessoa física ou jurídica, de bens, rendas,
verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades
mencionadas no art. 1º desta lei;
II - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada
utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo
patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei, sem a
observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à
espécie;
VI - realizar operação financeira sem observância das normas legais
e regulamentares ou aceitar garantia insuficiente ou inidônea;
VIII - frustrar a licitude de processo licitatório ou de processo
seletivo para celebração de parcerias com entidades sem fins
lucrativos, ou dispensá-los indevidamente;

A prática de crimes contra a Lei de Licitações, contra os princípios da
Administração Pública e prejuízos aos cofres federais estão evidentes, e devem ser
punidos na forma prevista pela Carta Magna.

Constituição Federal

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos
Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
(...)
§ 4º. Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão
dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade
dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas
em lei, sem prejuízo da ação penal cabível

A referida empresa forneceu neste ano ao Ministério da Saúde outro
medicamento também produzido pela Fiocruz, a Ribavirina, medicamento utilizado para
o tratamento da Hepatite C. A Farmaguinhos/Fiocruz fornece ao SUS o medicamento
desde 2008, com as últimas aquisições com preço unitário de R$ 0,17. A atual gestão do
Ministério da Saúde não realiza compras do medicamento desde o primeiro semestre de
2016. Em dezembro daquele ano, com estoque reduzido, realizou pregão e contratou a
empresa Blau Farmacêutica no valor total R$ 109.598.164,20 com o custo unitário de R$
5,19, 3.000% mais caro. O primeiro empenho no valor de R$ 50,9 milhões foi liberado
pelo Ministério ao laboratório Blau em 21 de fevereiro.

Por todo exposto, requer apuração urgente dos referidos ilícitos mediante
abertura de procedimento preparatório de inquérito civil, para instruir necessária
proposição de Ação Civil Pública que defenda direitos individuais homogêneos, com
reflexos em interesses sociais dos cidadãos brasileiros.

Agradeço a vossa atenção e coloco-me à disposição para as informações
adicionais que forem necessárias.

Atenciosamente,

JORGE SOLLA
Deputado Federal (PT-BA)
Fotos 1: Sala refrigerada de armazenamento de doses não rotuladas
Fotos 2: Processo de rotulagem e embalagem
Fotos 3: Armazenamento do medicamento encaixotado