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[Recensão a] HOMERO, Odisseia.

Introdução e tradução de Frederico Lourenço
Autor(es): Ferreira, José Ribeiro
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos
Publicado por: Clássicos
URL URI:http://hdl.handle.net/10316.2/39458
persistente:
Accessed : 10-Apr-2017 06:57:53

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pensada para um público generalizado e não apenas para especialistas e filólogos. no entanto. Os vários estudos são também acompanhados de várias ilustrações. em excelente papel e boa qualidade gráfica. O estudo final. Livros Cotovia. de H. da autoria de Frederico Lourenço. Apesar de citado. ritmado e de fôlego amplo é convite à leitura e leva-nos embalados na fruição ritmada do texto e das descri­ ções e episódios do poema. de um verso isossilábico. o artigo de Connelly salienta-se pela ausência nesta colectânea. A nova tradução -. da autoria do Padre Alves Correia e depois significativamente melhorada pelo Padre Dias Palmeira. Odisseia. opta pela utilização do verso. afirmando que dificilmente se tratará de outra representação que não da pompe ateniense. que não merece confiança.502 Recensões alusão ao mito de Erecteu (p. foi realizada directamente do texto grego. marca de forma determinante a tradução. em vez de ser uma versão em prosa.publicada pelos Livros Cotovia. a outra. Harrison critica a posição de Connelly. O livro editado por J. quanto a nós convincentemente. tendo como referência temporal principal o tempo de Péricles (pp. feita a partir de uma tradução francesa. Talvez. 4). mas de versos abertos e flexí- Humanitas 56 (2004) . visto que dois dos textos o criticam e que ele se torna desse modo referencial. De igual modo. Introdução e tradução de Frederico Lourenço (Lisboa. A Odisseia nesta nova roupagem de verso solto. o que torna o próprio livro num objecto estético —. alguns deles com avanços importantes para a sua compreensão. Nuno Simões Rodrigues HOMERO. uma publicada pela Europa- -América. 215-225). onde se podem ver exemplos de frisos arquitectónicos e de cerâmica grega relacionada com as Panateneias. Daí que seja de saudar a nova versão da Odisseia. Neils. De forma efusiva o faço e explico de seguida as minhas razões. Por isso mesmo. devesse ter sido aqui incluído. Não se trata. mas sobre ela passaram já cerca de cinquenta anos. portanto. em obras como os Poemas Homéricos a respeito dos quais são publicados anualmente dezenas de estudos. Corriam em Portugal duas versões da Odisseia. Shapiro. 2003) 399 p. E esse tempo. é enri­ quecido com índices de passos citados e temático e bibliografia actualizada. que tem como principal mérito o estudo de um acto sócio-religioso de importância primordial para se compreender a cultura grega e a organização e mentalidades dos Gregos no seu período clássico. E. funciona como enquadramento histórico das Panateneias. como as anteriores. deveria talvez ter aberto este conjunto de estudos.

depois do grande esforço para escapar à tempestade: Assim falou. ritmado. 217-226. opto pelos versos 451-463 do Canto 5 que descrevem a chegada de Ulisses exausto à Esquéria. E. A "Introdução" (pp. 2. por outro lado. É evidente que essa busca de correspondência exige esforço. mas sim da categoria "ritmo". Quando voltou a si e ao peito regressou o alento. Dos muitos passos que poderia escolher de boa cadência e adequado balanceamento do texto da tradução (e. E afastando-se do rio. metro em que estão compostos os Poemas Homéricos. Então deram de si os joelhos e as possantes mãos de Ulisses. g. incapaz de falar. relação dessa composição com a introdução da escrita alfabética na Grécia. incentivou-me a cultivar um tipo de verso de extensão moldável. Jazia sem fôlego.224. 344-360. Não foram. Todo o corpo estava dorido e água salgada corria-lhe da boca e das narinas. cadenciado. O mar esmagara-o. manutenção das fórmulas e epítetos que são característica do estilo homérico. que do original retivesse alguns ecos da caracterís­ tica "pulsação das sílabas" (no sugestivo dizer de Eugênio de Andrade em O Sal da Língua)». contributo de somenos a sua boa formação em crítica textual e métrica grega. assim o trouxe a salvo até à embocadura do rio. incapaz de se mexer. argúcia e sensibilidade literária e implica bom conhecimento da língua do original e da língua para que se verte. sua datação e composição. com vincados contornos rítmicos. as que podem ter um hexámetro. Assim conseguiu Frederico Lourenço transmitir algo do andamento estilístico homérico e dar a ideia de repetição e de língua formular que é a da Ilíada e da Odisseia. trabalho. o herói do poema. desprendeu do corpo o véu da deusa marinha e deixou que caísse no rio que fluía em direcção ao mar. como é o caso de Frederico Lourenço. assonâncias. 215. 11-22) foca os problemas essenciais relativos à Odisseia e dá ao leitor os instrumentos fundamentais para melhor apreciar o poema: recepção do poema ao longo dos tempos. no prefácio (p. Justifica assim Frederico Lourenço a sua opção. 13. Humanitas 56 (2004) . 16. 267- 274.146-176. Desse modo obteve um verso solto. De imediato o deus fluvial fez cessar a corrente. 291-423. Recensões 503 veis. Uma onda forte levou-o na corrente e de imediato Ino recebeu o véu nas mãos. Considero uma opção acertada que valorizou muito a cadência do texto da tradução. reteve as ondas e espalhou a acalmia. Apoderara-se dele um cansaço ingente. 237-249.135-145). 194-199. que procuram manter-se entre as doze e as dezassete sílabas. 8): «o facto de o hexámetro clássico não derivar a sua cadência da categoria "rima". Ulisses ajoelhou-se num canavial e beijou a terra dadora de cereais. sem o interromper com notas e explicações. deixou que o ritmo desse verso aberto vivesse e respirasse na leitura. 5. valorizando-o com o recurso a rimas internas.

em obra desta extensão. direi também que a teoria da composição oral de Milman Parry. Sempre pergunto. a forma encontrada . ainda que. os cantos relativos aos episódios fantásticos (9-12) e significado dessas histórias. embora os seus ensaios tenham sido reunidos em volume em 1971 pelo filho Adam Parry. actualmente.ou melhor. no entanto. cerca de 12 000. se bem que não deixe de reconhecer que 'retorno' apresenta o timbre o que se encontra no termo grego. Não vou. g. Essai sur un problème de style homérique. No entanto.504 Recensões seu nome e significado ou simbolismo. 'estudos de género'. em 5. com o título The Making of Homerie Verse. apesar de tudo.a edição da Odisseia de Helmut van Thiel (Hildesheim. já que a cnémide é mais do que uma simples joelheira. Telémaco. que ao longo do poema faz a transição da adolescência para a idade adulta. controvérsia sobre as possíveis interpolações. pessoalmente preferia a palavra 'regresso' (que aliás utiliza. insistir nessas discordâncias nem as valorizo demasiado. possam exis­ tir imprecisões ou passos.pareça menos conseguida ou nos agrade menos: por exemplo. nas páginas 8-9. episódios mais belos e comoventes. o encontro de Ulisses e Penèlope em que esta não se mostra menos astuta do que o marido. que vai sendo considerada. a recepção do poema. por considerar que podem cair dentro da franja cinza da sensibilidade literária e cadência rítmicas pessoais. cuja tradução . 1991). 220) a 'retorno' para traduzir nóstos.pelo menos não aparece referida . em Paris. The collected papers of Milman Parry (Oxford). 15): «um pouco à semelhança do que sucedeu na sequência da publi­ cação. ao verter por «palavras apetrechadas de asas». narratologia. E compreensível que. por exemplo. nem me parece «belas joelheiras» a melhor solução para traduzir euknêmides. e. facto que foi aproveitado por muitos educadores que com o nome do filho de Ulisses publicaram obras que visam oferecer o príncipe de ítaca como modelo a educandos e discípulos. «que sois para sempre» para aién eóntes. como estruturalismo. não me parece a mais adequada a formulação encontrada para épea pteróenta. conteúdo e incongruências do poema e suas diversas partes (Telemaquia. procure explicar e Humanitas 56 (2004) . vingança do Cefalénio). em 1970. Também não é muito do agrado da minha sensibilidade a tradução de «nunca vindimado» para o epíteto atrúgetos aplicado ao mar. a existência de uma personagem em formação. algumas são felizes. de L' Épithète tradi- tionelle dans Homère. como a Telemaquia. Talvez Frederico Lou­ renço esteja consciente disso. diversas teorias que o procuram explicar. apesar da seguinte formulação que surge na "Intro­ dução" (p. a melhor do poema. começou a ser divulgada em 1928 com a publicação. Por outro lado as correspondências portuguesas para as fórmulas e epítetos homéricos têm de modo geral a minha concordância. mesmo: destaco. nostos de Ulisses. relação da Odisseia com narrativas orien­ tais.. porque não foi considerada . como o reencontro do herói disfarçado de mendigo com o seu velho cão. dos ensaios de Milman Parry concernentes à técnica oral nos poemas homéricos».

Kenyon publica a editio princeps da Constituição dos Atenien­ ses. Blass edita os dois fragmentos de papiro do Aegyptisches Museum. Recensões 505 justificar essa sua opção. g. 139. Gulbenkian. Delfim Leão interessa-se pela teoria política há vários anos. de que sairiam mais Humanitas 56 (2004) . F.algo como «Assim falou e dis­ solveu a assembleia bascamente» -. defendida em Coimbra. em 1891. no verso 2. como também e sobretudo ficamos com uma expressão portuguesa extensa e pesada. fico à espera da prometida tradução da Ilíada. Pessoalmente sou um entusiasta do produto final. 153). 11). Também me pergunto o porquê das traduções diferentes para o epíteto de Zeus nephelegeréta: «que comanda as nuvens» (e. g. não só não obtemos uma correspondência consonántica total. 2003 e 2004). Gulbenquian . de Berlim. baseada num manuscrito existente no British Museum. a todos. e publicada pela Fundação C.a primeira que dessa obra. pelo seu relevante interesse como fonte para o estudo da democracia ateniense e também por ser da única politela que nos chegou. a ideia de proceder à tradução da Constituição dos Atenienses de Aristóteles. Prova-o a tese de Doutoramento sobre Sólon. naturalmente. Com as minhas sinceras felicitações. a tradução mantivesse a dupla acção ligada por copulativa . que. 13. 1-3): em 1879. 257. tal como nos chegou às mãos. Temos que saudar esta tradução. Desse interesse nasceu. por outro lado. Duas obras de Aristóteles traduzidas e comentadas por Delfim Ferreira Leão. Ética e Política. precisamente intitulada Sólon. Gostaria mais. 5. 21) e «que amontoa as nuvens» (e.a perfeição é própria dos deuses e nós somos humanos . quase completa. de forma sucinta. publicada na colecção "Textos Clássi­ cos" da mesma Fundação C. e aconselho a sua leitura. na íntegra. dissolvendo rapida­ mente a assembleia». Apesar de discordâncias que sempre existem e de possíveis imperfeições que sempre será possível apontar . vivamente. em Portugal se apresenta. das 158 compostas na escola do Estagirita e preparadas sob e sua orientação.é evidente a mestria.G. em vez «Assim falou. a descoberta do texto e sua publicação (pp. competência. em 2001. em 2000. Na breve introdução que precede a tradução. em que não sinto traduzido o voo do sintagma grego. sensibilidade estética demonstrada por Frederico Lourenço. Delfim Leão começa por abordar. José Ribeiro Ferreira Constituição dos Atenienses e Os Económicos (Lisboa. Não considero «morte escarpada» a interpretação mais feliz para aipún ólethron (1. na colecção "Manuais Universitários".