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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a
um novo nível."

J. M. COETZEE

Homem lento

Oito palestras

Tradução
José Rubens Siqueira

uma bicicleta pode desaparecer num relâmpago. (N. oco. tão pesado que não consegue levantar nem um dedo. * “He flies through the air with the greatest of ease. até se sentir quase embalado pelo deslizar. já que. “Minha bicicleta”. esperar a força voltar. O corpo que voou tão leve no ar ficou pesado. Quer perguntar o que aconteceu com sua bicicleta. Relaxe!. Fecha os olhos. Por um momento. enunciando a palavra difícil sílaba por sílaba. sem parar. e levanta seu corpo da bicicleta. Há coisas piores do que largar o corpo. Mas não é bem assim que as coisas acontecem. volta a si. T. ele absolutamente não se levanta. pronto para o que vier em seguida. ele apaga. distante. como é bem sabido. o mundo oscila debaixo dele. mas antes de chegarem essas palavras ele apaga de novo. roda. T.) ** Maleável. (N. como um golpe de marreta). Como um gato. E alguém está parado em cima dele. breve. O toque do sol é suave. 1. um jovem de cabelo arrepiado e espinhas na testa. O choque o colhe pela direita. o impacto do crânio no asfalto. como uma faísca elétrica. ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar (voa pelo ar tão cheio de graça!)* e de fato sente os membros obedientemente moles. mais do que sente. duro. depois se ponha de pé. o ousado rapaz do trapézio voador”]: verso de uma conhecida canção norte-americana. desliza metro após metro. Na verdade. A palavra pouco usual limber ou limbre** também está à vista. Fica esticado no chão. ao contrário. surpreendente e doloroso.) . É uma manhã gloriosa. this daring young man on his flying trapeze” [“Ele voa pelo ar tão cheio de graça. seja porque de momento está tonto (ouve. Seja porque suas pernas desobedecem. em paz. pode haver coisas piores do que tirar uma soneca rápida. tirando-lhe o ar. diz a si mesmo: role. se cuidaram dela. ele diz ao rapaz.

Em sua confusão mental. portanto. Uma letra de cada vez. de forma que não consegue pensar direito e se desespera. ele tenta criar uma interrogativa. Alguma coisa está vindo até ele. Se retorce. Frivole. uma mensagem sendo datilografada em uma tela rosada que treme como água cada vez que ele pisca e é. é como se estivesse revestido de concreto. Ainda mais urgente. claque claque claque. ela segue seu rumo. “Dói muito?”. dizem as letras. faz uma pausa. a pergunta deverá ser essa. chegam-lhe vozes. Em torno dele. Está sendo embalado de um lado para outro. Tarde demais! Com um sorriso e um tapinha tranqüilizador no braço que ele parece estranhamente ouvir. “O que é isso?”. Isto é grave?: se houver tempo para uma pergunta apenas. depois F-T-I-V-O-L. depois a consciência em si. mas não sentir. também uma brancura granulosa como pasta de dentes velha em que sua mente parece envolta.” A picada de uma agulha. querendo dizer O que é isto que está acontecendo comigo? ou Que lugar é este onde eu me encontro? ou mesmo Que destino é esse que me coube? Aparece do nada uma garota de branco.* É tomado por algo como pânico. Tenta sentar-se. O que está acontecendo? Se abrisse os olhos. Um instante depois. “Calma. um tumulto que sobe e desce com ritmo próprio. pronuncia ou talvez grite mesmo. depois o pânico. transportado. mas não consegue. E-R-T-Y. . saberia. muito provavelmente. depois um tremor. Mas não consegue ainda. 2. da caverna interior um gemido cresce e explode de sua garganta. embora ele prefira não se deter no que a palavra grave possa significar. depois Q-W-E-R-T-Y. uma brancura inexorável: teto branco. Desperta em um casulo de ar morto. a dor é lavada. De longe. olha para ele vigilante. e assim por diante. diz uma voz. luz branca. depois E. lençóis brancos. a parte interna de sua própria pálpebra.

ele pisca os olhos. com um imenso esforço. Paul”.” Uma pausa. diz a garota e dá-lhe a bênção de mais um de seus sorrisos. Estende a mão para tocar seu rosto e deixa a mão pousada ali. uma mulher com uma pessoa que amasse. “Vai confiar em mim?”. mas por educação não pode recuar. diz ele. ele responde com cuidado. É porque tomou uma dose de morfina. porque o jovem faz uma coisa surpreendente. “Bom dia. e a sua perna ficou muito comprometida. “Não temos escolha. “Roupa”.porém. “Ótimo. Tenta tocar a perna direita. “Está tudo certo. Vamos dar uma olhada e ver quanto podemos salvar. “Hora de ir. não sei dizer agora se vamos conseguir salvar o joelho. ele diz. como se essas terríveis palavras a acordassem de um sono inquieto. Vamos entrar em cirurgia daqui a pouquinho.” Algo deve acontecer com o rosto dele nesse momento. diz o jovem. Você levou uma trombada. “Salvar sua perna”. Tonto. mais urgente que a espreita da pergunta do que realmente aconteceu na rua Magill para atirá-lo nesse lugar morto.” Como se soubesse que estão falando a respeito dela. seus sorrisos positivamente angélicos. Paul. tenta dizer.” Ele arqueia as sobrancelhas de novo. por exemplo. tudo sob controle. é a necessidade de encontrar seu rumo para casa. sentar-se em ambiente familiar. O joelho foi quase completamente esmagado e uma parte da tíbia também. recuperar-se. não sei até que ponto se lembra. O gesto o deixa constrangido. Você entende? Dá sua permissão? Não vou pedir que assine nada.” E. mas vamos salvar o que for possível. “Paul?”. diz o jovem médico. fechar a porta. antes que se passe um minuto um jovem que deve ser o médico mencionado se materializa ao lado da garota e murmura no ouvido dela. “Certo”. e dá-lhe um tapinha no rosto. Paul Rayment?” “É”. mas temos o seu consentimento para prosseguir? Vamos salvar o que for possível. repete o médico. Deve estar se sentindo um pouco tonto agora.” . diz o médico. Onde está minha roupa? Onde está minha roupa e até que ponto é grave a minha situação? A garota flutua de novo para seu campo de visão. “Vamos ter de amputar. mas você levou uma pancada e tanto. levantando o mais que pode as sobrancelhas para indicar urgência. o dano foi muito grande. nada sai do lugar. aninhando sua cabeça de velho. “Salvar?”. de fato. “Este não é um daqueles casos em que temos escolha. É o tipo de coisa que uma mulher poderia fazer. “Está me ouvindo? É esse mesmo o seu nome. a perna que manda obscuros sinais de que agora é a perna errada. a perna direita emite uma pontada de dor branca e aguda. Minha roupa: talvez essa deva ser a inócua questão preparatória. Ele ouve a própria respiração entrecortada e depois o sangue latejando nos ouvidos. O médico vem falar com o senhor daqui a pouquinho. “Não se preocupe”. mas sua mão não sai do lugar. que a questão da gravidade.

sim. ao chegar. em parte não tão boas. mas não há dor. mas isso foi substituído. O que o jovem dr. então. Enquanto isso. deixando um bom pedaço de osso para uma prótese. acharam melhor remover a perna exatamente acima do joelho. A abrasão das costas e dos braços parece pior do que é. Isso que dá ficar desatento um minuto que seja! E a bicicleta: o que aconteceu com a bicicleta? Como é que eu vou fazer compras agora? Culpa minha ter ido pela rua Magill! E amaldiçoa a rua Magill. de forma que. embora. ele é o seu velho eu (cheio de energia!. abençoado. Voltando à perna. Acorda muito mais tranqüilo consigo mesmo. diante do que pode acontecer e do que efetivamente acontece com o corpo humano quando é atingido por um carro em alta velocidade. realmente elefantina. A cabeça está clara. quanto ao estado geral. é primeiro um rápido panorama geral de seu caso.. para mantê-lo atualizado. Na verdade. Hansen) e seus colegas. ralha consigo mesmo. o maxilar não quebrou. afinal. Quanto às funções motoras. e depois notícias mais específicas sobre a perna. É isso que dá!. embora ao mesmo tempo agradavelmente letárgico. Perdeu algum sangue. O monitoramento vai continuar.. Hansen) espera que ele (Paul Rayment) aceite o . está apenas ferido. uma depois da outra. O dr. com uma porcentagem de sucesso de menos de cinqüenta por cento. Ele (o dr. é a tal ponto o contrário de grave que ele pode se considerar um felizardo. A batida provocou uma concussão. Primeiro. talvez dois. de forma que a junta foi esmagada e torcida ao mesmo tempo. ao longo de um ano. Hansen vai chegar daqui a um minuto para conversar. vai cicatrizar dentro de uma ou duas semanas. mas ele foi salvo pelo capacete que estava usando. precisamos fazer uma coisa. no fim das contas. em parte boas. pensa). considerando a idade dele. A perna que levou a pancada dá a sensação de ser enorme. Hansen quer apresentar a ele. não conseguiram salvar o joelho. na verdade. andasse de bicicleta pela rua Magill havia anos sem que tivesse acontecido nenhum acidente. É uma coisa desagradável de ser feita. Tiveram uma discussão rigorosa e a decisão foi unânime. Fica evidente que o que ela precisa fazer enquanto ele fica tranqüilo é inserir um cateter. uma cara nova. seria capaz de escorregar para uma soneca a qualquer momento. O impacto — ele mostrará depois o raio X — foi diretamente no joelho e houve mais um componente de rotação. “Está melhor?”. poderiam talvez ter optado por uma reconstrução. mas uma reconstrução dessa ordem exigiria uma série toda de operações. A porta se abre e uma enfermeira aparece. mas não há sinal de sangramento intracraniano. Então vou pedir que o senhor fique bem tranqüilo enquanto eu.”. fresca. os indícios preliminares são de que não foram afetadas. ele fica contente que seja com uma estranha. ele (o dr. pergunta e acrescenta depressa: “Não tente falar ainda. Em uma pessoa mais jovem. Se está preocupado com a rigidez do maxilar. ele está de parabéns por não ter sido nada grave. a perna foi que recebeu a pancada. protegido.

e como deve ser informada? E seguro-saúde. e traça uma linha nas outras perguntas. depois o consentimento à violação. sente menos vergonha da dificuldade com as palavras. A família. se quiser. depois que você dormir um pouco. mas talvez não agora. ele gostaria de informar a quem formulou a pergunta. conclui ele. Um membro artificial. Antes do que você espera vai estar andando de novo. solteiro. portanto. Primeiro a violação. que ele raramente vai visitar. a enfermeira supervisionando. apenas machucado. Quem é sua família? Qual a resposta correta? Tem uma irmã. Foi casado uma vez. Família: NINGUÉM. Porém pode ser mais assertivo sobre o fato de não ter esposa nem filhos. Funções motoras não afetadas. melhor de manhã. Para todas as razões práticas. perguntam os papéis. talvez menos. Alguma pergunta mais?” Ele sacode a cabeça. Ele escreve a data. assim como tem uma mãe que. diz ele. diz o dr. Quatro semanas. deve estar cheio de perguntas”. É só treinar um pouco. solitário. Por que não me perguntou primeiro?. no cemitério de Pau. Está coberto de cabo a rabo. Mas o formulário não tem espaço para respostas extensas. Há papéis a assinar antes de ser deixado em paz. assina os formulários. espera a trombeta dos anjos em seu jazigo no cemitério de Ballarat. vai começar a gritar. assim como espera ser levado por aqueles que vêm depois de você. outra palavra difícil. diz ela. mas se pronunciar as palavras vai perder o controle. Serão sua família. escapou-lhe inteiramente. claro.equilíbrio dessa decisão. com certeza. Um pai também.” “Prótese”. onde está a roupa?). nos momentos em que não está nele ou com ele. tem na carteira um cartão para provar isso. pergunta à enfermeira. “Você. ele não é casado: não casado. ele é acima de tudo prudente (mas onde está a carteira. sabendo que o queixo não está quebrado. mas é assim que é: ela escapou para uma vida própria. Qual é a sua seguradora? Que cobertura o seu plano proporciona? O seguro não é problema. Ela morreu há doze anos. Não é o fim. escreve em letras de fôrma. De bicicleta também. Assim que a cirurgia estiver cicatrizada vamos adaptar uma prótese. sozinho. mas a parceira nesse empreendimento não faz mais parte dele. e os papéis resultam surpreendentemente difíceis. “e vou gostar de responder a todas. mas ainda vive nele ou com ele. Hansen. mas ele . porém. Como ela conseguiu esse truque. Você leva esses com você. ele não faz ainda nenhuma idéia. Escapou dele. “Cabeça erguida!” Isso não é tudo. os dois. A família é uma questão menos direta. se bem que agora. “2 de julho”. “Uma prótese. e certamente para os propósitos do formulário. “Data?”. ele quer dizer. “Então converso com você de manhã”. mais distante em sua espera. por exemplo. os três? Aqueles de cuja vida se nasce não morrem. Quem é e onde está a família dele. Os comprimidos que aceita são destinados a amortecer a dor e fazê-lo dormir.

diz o dr. só alguns passos para ver como se sente. “e suturamos aqui. os molares daquele lado também estão moles.” “Tudo bem”. Hansen. ao mesmo tempo. agora é apenas reabilitação. “Não é da prótese que estamos falando mesmo. Não uma caminhada longa.” “Tudo bem. este objeto monstruoso enfaixado de branco e ligado a seu quadril. “Não quero que me apressem. diz a si mesmo e cai em sono muito profundo. assunto encerrado. dá a sensação de um sonho.” Acena com a cabeça para a enfermeira.” O dr. Durante os próximos dias. diz o dr. isso ainda está bem mais para a frente. este quarto nu. Hansen. o primeiro passo da reabilitação. diz ele. vem direto da terra dos sonhos. Estende a mão (os três dedos do meio estão enfaixados juntos. de vaga urina — isto tudo não é um sonho.” “Vou repetir: não quero prótese. vai preferir o quê?” “Prefiro me virar sozinho. usando as mãos em concha para demonstrar como fizeram. A imagem que vem à mente é a de um bastão de madeira com uma farpa na ponta como um arpão e ventosas de borracha nos três pezinhos. A enfermeira Elaine. Hansen. Elaine e eu vamos ajudar. este cheiro de antisséptico e. É só um sonho. vai haver uma . Hansen e a enfermeira Elaine trocam olhares. Como pode se pôr aqui na minha frente e falar de cuidados com a minha perna? “Estendemos o músculo remanescente por cima da ponta do osso”. a coisa de que o jovem com aqueles óculos brilhando loucamente falou com tamanho entusiasmo — quando é que aquilo vai aparecer? Nunca em toda a vida viu uma prótese nua. Está aprendendo a falar entre dentes cerrados. No entanto. Só para você ver que não é o fim do mundo perder uma perna. diz o jovem dr. Saído de Dalí. É como um toco de madeira. todo o dia de hoje. devido ao trauma e ao repouso no leito. Assim que a ferida cicatrizar. que agora ele inspeciona pela primeira vez debaixo do lençol. Agora posso falar da sua perna? Posso falar sobre os cuidados com a perna?” Cuidados com a minha perna? Ele está fervendo de raiva — será que não percebem? Você me anestesiou. não vamos apressar você para nada. se tudo é o mesmo dia. o que nós queremos é que o músculo forme uma almofada em cima do osso. se o tempo ainda significa alguma coisa. “Hoje à tarde. você pode marcar com a ortopedia?” “Não quero andar hoje”. “Hoje vamos fazer você andar”. “Se não quer uma prótese. Decerto esta coisa. a realidade real mesmo. não consegue mastigar. Não é só o maxilar que está machucado. “Elaine. Mas podemos começar amanhã ou depois de amanhã. prometo. arrancou fora minha perna e jogou no lixo para alguém recolher e atirar no fogo. só agora ele nota) e aperta a coisa branca. é a coisa real.não dorme. Isto tudo — esta cama estranha. Não tem nenhuma sensação. Não quero uma prótese. E aquela outra coisa. É surrealista.

Noite ou dia. A dor não é mais real que uma chapa de raio X. O tempo o mastiga. Suas células estão se apagando como luzes.tendência a edema e inchaço. pode sentir o tempo agindo sobre ele como uma doença mortal. com os sonhos ruins. A Elaine vai mostrar para você alguns exercícios de alongamento e. conveniente para sua raiva de dentes cerrados. coça e não dá para alcançá-la. não tem de pressionar muito para convencê-lo disso. depois disso ele logo se contenta com a confusão. um grilo canta para si mesmo. o que é melhor. Vai haver também uma tendência do músculo de se retrair para o quadril. um homem mais velho que ele. e às vezes o fazem dormir. não tem de pressionar nada. consegue escutar o fantasmagórico arrepio da carne tentando cicatrizar de novo. discretamente. A dor é a coisa pra valer. fechada em suas bandagens. como se rajadas de restos de anestésico subissem de seus pulmões para dominá-lo. nas abelhas entre as flores. grava a posição dos ponteiros na cabeça. É como se tivessem de abrir caminho através de cola. De vez em quando. só um alerta do corpo para o cérebro. Ele sente calor. Há um aparelho de televisão na frente da cama. Depois fecha os olhos. mas o tempo não. voltando de uma cirurgia no quadril. mas também deixam sua cabeça confusa e introduzem tamanho pânico e terror em seus sonhos que ele resiste a tomá-los. As enfermeiras são boas. sente frio. é súbito e breve. Do lado de fora da janela fechada. “Quem fez isto comigo?”. . tenta pensar em outras coisas — na própria respiração. Os comprimidos que lhe dão a cada seis horas varrem o pior da dor. “Quem me acertou?” Há lágrimas em seus olhos. Quando prende a respiração. Abre os olhos. Os ponteiros não se mexeram. em sua avó sentada à mesa da cozinha depenando um frango. nem pelas revistas que alguma agência gentil providenciou (Who. como a cal viva que despejam em cima de cadáveres. se precisar. Dois velhotes. a perna. atende às necessidades corporais dele. Mas é claro que está errado. o que é bom.” Ele se põe de lado. mas ele não se interessa pela televisão. meramente enviar uma ou duas faíscas. uma dupla de enfermeiras fecha as cortinas em torno da cama e. dois idosos no mesmo barco. são gentis e alegres. As noites não terminam nunca. em qualquer coisa. O relógio está parado. ele pergunta. cutuca o traseiro. Olha o mostrador do relógio. O homem fica o dia inteiro de olhos fechados. diz a si mesmo. Mesmo parado ali. Temos de cuidar disso. Vanity Fair. mas isso é conveniente. Quando o sono vem. Alongamento é muito importante.” A enfermeira Elaine assente com a cabeça. “Vamos combater isso com alongamento. Mudaram alguém para seu quarto. A dor não é nada. Não pode gritar porque não consegue abrir os maxilares. o tempo se arrasta. ela pode ajudar. devorando uma a uma as células que o constituem. Australian Homes & Gardens). assim.

vai começar a feder. engole os comprimidos que reservou para a ocasião. diz ela. “O senhor não tem família?”. como se ele estivesse pregando uma peça em todo mundo. depois de um ou dois dias. podiam pegar um táxi para o crematório. se instalar na frente da porta fatídica. Mas. infernizam-no para que saia da cama. sem nenhum lugar para se esconder do olhar impiedoso dos jovens. Estou decidido a não dar trabalho. portanto.” “Vou receber visitas quando sentir vontade. sem mais delongas. que o fazem desejar a morte. “Não tem amigos?” Ela torce o nariz ao falar. No final da segunda semana de sua estada na terra da brancura.” “Ver os amigos podia fazer o senhor se sentir melhor”. insones. Está com a cabeça cheia de histórias de gente que busca o próprio fim — que metodicamente paga contas. o seu e o de seu companheiro. quando está tudo em ordem. solitário e sozinho. escreve cartas de despedida. Tão jovens e tão desalmados!. quase sem peso. pergunta a enfermeira da noite. os moribundos dos moribundos! E que loucura ser sozinho no mundo! Falam de seu futuro. “Não sou Robinson Crusoé. se instala direitinho na cama arrumada e compõe as feições para o esquecimento. Hansen. apertar o botão que os precipitaria nas chamas e permitiria que saíssem do outro lado como nada além de uma pazada de cinza. obrigado”. neste hospital. já viu isso muitas vezes antes — uma indiferença real por seu destino. o monte de carne que. uma vez que isso parece tornar mais fácil para seus tratadores . por baixo da gentil consideração. ninguém louva. toma consciência mais agudamente das implicações de ser solteiro. identifica chaves e depois. e depois. a porta para o futuro foi fechada e trancada. Não é irascível por natureza. ele responde. não contam. ele grita para si mesmo. insistem com ele para fazer exercícios que vão prepará-lo para esse futuro. sente a mesma indiferença. Se houvesse um jeito de dar um fim a si mesmo por meio de alguma atitude puramente mental ele daria fim a si mesmo imediatamente. sabe que não faria nada disso. No dr. diz ele. antes que a consciência se apagasse. se ao menos fosse permitido. A única coisa de que não podem cuidar é o corpo que deixam. Tenho certeza. Só não quero ver nenhum deles. Se ao menos fosse possível. Janet. Todos heróis que ninguém canta. veste a melhor roupa de domingo. mas nesse lugar ele se permite crises de mau humor. Está convencido de que acabaria consigo se pudesse. agora. aquela que se permite brincar com ele. mas para ele não há futuro. “Daria uma levantada.mas por baixo de sua alegre eficiência ele consegue detectar — não está errado. É como se em algum nível inconsciente esses jovens que foram destacados para cuidar deles soubessem que eles não têm mais nada para dar à tribo e. de rabugice. ao mesmo tempo que pensa nisso. de irascibilidade. Como é que eu fui cair nas mãos deles? Melhor os velhos cuidarem dos velhos. nesta zona de humilhação. queima velhas cartas de amor. É apenas a dor e as noites arrastadas. já. “Tenho todos os amigos que podia desejar”. engolir a dose.

desejos que os pacientes homens. Margaret está incomodada por ter demorado tanto para ficar sabendo e cheia de virtuosa indignação contra quem quer que tenha feito isso com ele. Os McCord são seus amigos mais antigos em Adelaide. diz ela. indiferentes jovens desempenhando as ações de cuidar dele. nem ele espera que venha a valer. com um ronco de desdém.” Margaret sacode a . Hoje em dia fazem próteses tão maravilhosas que você logo vai estar andando de bicicleta outra vez. Hansen. essa pureza de coração. “as pessoas que dirigem sem cuidado têm de aprender uma lição. depois com uma prótese. perder uma perna não é mais que um ensaio para perder tudo. um jogo que ele prefere não jogar. Ser um velho lascivo faz parte do jogo. as pessoas vão saber o que aconteceu. Com quem irá gritar quando esse dia chegar? A quem vai culpar? Margaret McCord faz uma visita. Fica morrendo de vergonha quando se lembra de que gritou Quem fez isto comigo? para o sem dúvida perfeitamente competente. Aquele velho peidorreiro!. Mandam bons votos. Foi-lhe apresentada a oportunidade de ouro de dar um exemplo daquele que aceita de bom grado um dos golpes amargos do destino. espera-se dele que experimente vulgares desejos por essas mulheres jovens. parecendo querer dizer Quem passou por cima de mim?. imagina os colegas respondendo. diz ele. diz ela. uma vez que a abominação pelo coto que terá de arrastar consigo de agora em diante está muito claramente escrita em seu rosto. Acredito que vão colocar uma prótese. Uma perna perdida: o que é perder uma perna.. do incidente na rua Magill até o presente momento. Seu coração é tão puro como o de um bebê. humilhante e humilhado. No fundo ele não é tão mau. não é o primeiro velho a se ver no hospital com bem-intencionados. Em pessoa. mas afirmando de fato Quem teve o descaramento de cortar fora minha perna? Ele não é a primeira pessoa no mundo a sofrer um acidente desagradável. em última análise. ele não se comportou bem. Pelo telefone é fácil inventar uma história. imagina Janet dizendo aos colegas. “Essa parte da minha vida acabou. ele responde. Se recusa contato com amigos. e ele rejeitou. ele responde. não esteve à altura da situação: isso está claro. “Espero que você processe”. claro. Desde a abertura do capítulo. mas. É só uma perna. “Não tenho nenhuma intenção de processar”. é simplesmente porque não quer ser visto nesse novo estado restrito. com uma amargura que espera que não passe pela linha. até o visitam. agora que está melhorando. senão.” “Acho que não”. A verdade é que ele não tem esses desejos. “Muitas possibilidades cômicas. embora bem comum dr.. de uma forma ou de outra. Mas evidentemente. Deixo esse lado para o pessoal da companhia de seguro. Ele sabe que. Vou andar de muleta durante algum tempo. não conseguem evitar e que por isso emergirão em momentos inconvenientes e deverão ser eliminados tão depressa e decididamente quanto possível.deixá-lo em paz. Isso não lhe vale nenhum crédito entre as enfermeiras.” “Está cometendo um erro”. Quero minha perna de volta. independentemente da idade. a cena é mais difícil de desempenhar. numa perspectiva mais ampla? Numa perspectiva ampla.

ela vai se sentir na obrigação de. ele não é o tipo de amputado que domina seu novo estado transformado e geralmente se vira. Tenho pensado muito em me virar. é muito bom. na ausência de apoio profissional. ele teria sido sincero com ela. de uma enfermeira especializada. Hansen. é claro. A longo prazo. diz o dr. no panorama que está traçando para si em seus momentos mais serenos. diz. limpeza etc. de alguma forma.”) para a questão de como ele irá (palavras deles) se virar quando for solto no mundo de novo. se virar no mundo. O senhor logo vai se sentir inteiro de novo. Indecentemente cedo. ninguém”. Putts da caixa de Somnex no armário do banheiro de seu apartamento. e sim do tipo crepuscular. sua comida. sacode a cabeça. O que o surpreende em toda a história do hospital é a velocidade com que a preocupação passa de consertar a perna (“Excelente!”. Putts ou Putz. mrs. nós todos temos de enfrentar alguma coisa desse tipo. acabará em uma instituição de velhos e enfermos. Se contar para mrs. talvez. que nós podemos ajudar a arrumar. ele pensa depois. Putts. uma assistente social. ou pelo menos lhe parece. coitado. De seu próprio ponto de vista. Rayment. ele gostaria de lembrar a ela. “Na sua opinião. mrs. com o que quer dizer — e acha que mrs. segundo as regras do jogo. mas o que importa agora se lento ou rápido? Mas essa não parece ser a opinião deles. cozinhar. diria a ela. No fim. ao que parece. Na visão deles. mas por que se enganar?) irá. entra em cena. “O senhor ainda é moço. “Não. Dessas conversas mais diretas ele evidentemente concluiu que mesmo a longo prazo não vai poder passar sem uma mão. que difícil o que você está tendo de passar!: era isso que ela queria dizer. na opinião de uma profissional. Se mrs. vai precisar de alguém à sua disposição. para dar uma mão. do tipo que. mesmo que o ruim fique ainda pior. O que lhe interessa na questão é o que ela revela de seu estado do ponto de vista de mrs. fazer as compras. Mas as regras do jogo tornam difícil para ambos ser sincero. Ele suspira. Tem alguém para isso?” Ele pensa um pouco. por exemplo. Há muito tempo me preparei para isso. Dorianne”. sua pessoa aleijada (palavra dura. “Está cicatrizando muito bem. mesmo quando estiver se movimentando. mr. mais devagar que antes. que deve ser mais franca com o pessoal médico do que foi com ele. diz. fazer a limpeza etc. mas durante um bom tempo vai precisar de cuidados. com a ajuda de muletas ou de algum outro suporte. diz . Putts estivesse preparada para ser sincera. apalpando o coto com um dedo lindamente manicurado. “Vai continuar querendo ser independente e isso. ela o informa com as maneiras alegres que deve ter aprendido a usar para tratar com os velhos. Paul”. Putts entende — que não há ninguém que venha a considerar seu dever confuciano devotar-se a cuidar de suas necessidades. confiá-lo a uma profissional para protegê-lo de si mesmo. “Que pena!” Bondade dela dizer isso. mais franca e mais direta. Putts. que ela sabia que ele entenderia que era o que queria dizer. Pobre Paul. vou ser capaz de me cuidar sozinho.cabeça. “Que pena!”.

Quanto mais alto. R! “Não. diz mrs. Putts. Não que o senhor seja frágil. “O senhor sabe. T. Fragilizado. então o senhor vai ter de arcar com isso. com toda certeza”. alguém com experiência em cuidar de fragilizados. “que atitudes a senhora sugere?” “Vai ter de contratar alguém para tomar conta do senhor. não é mesmo?” “Não. Alto demais para má sorte sua. Putts. mais uma enfermeira. Ele nunca havia pensado em si mesmo como frágil até ver os raios X. * Em francês. diz mrs. não vamos querer nos arriscar.ele. mr. dissera o dr. Mas até poder se movimentar de novo. (N. acho que meu seguro não cobre isso. E em seguida corou com a gafe. mais frágil. claro. . assim de improviso”. dizendo em tom alegre Hora do comprimido. com pernas tão compridas. não é?”. diz ele. ele responde. “de preferência uma enfermeira particular. Uma mulher com um chapeuzinho branco e sapatos confortáveis andando por seu apartamento. diz mrs. “Bom. não”. Putts. “se o seu seguro cobre cuidados com fragilizados?” Uma enfermeira. que pudesse cambalear por aí sem que se quebrassem. Cuidar de fragilizados. Hansen. Nunca operei um homem tão alto. Achou difícil acreditar que aqueles ossinhos de aranha revelados nas chapas pudessem sustentá-lo de pé. “frívolo”. não vamos”.

se o Maior Juiz de Todos desistiu de julgar e se retirou para aparar as unhas. na pilhagem de tesouros. abram alas para o novo! O que poderia ser mais egoísta. furtando-se à grande obra da geração? Pior que miserável. que definitivamente antiquado. em toda essa descuidada destruição. 3. Se no curso de uma vida ele não praticou nenhum mal significativo. De passagem pelo mundo — era assim. Quais seres poderiam restar. mas ali em sua cama de hospital. Que estranho. para colocar a alma em ordem. frívolo não é uma má palavra para resumi-lo. não atrair nenhuma atenção. como se em seu nível mais profundo a História soubesse o que está fazendo. Não vai deixar nenhum traço de sua passagem. ele recebe uma visita-surpresa: o rapaz que se chocou com ele. créditos na outra? No entanto. Se não restar ninguém para julgar uma vida dessas. quando chegar o momento. ele começa a detectar uma certa sabedoria. aquele dia na rua Magill. Nunca pensou que um dia teria boas coisas a dizer da guerra. também não praticou nenhum bem. de fato: antinatural. No arrasar de cidades. ele parece estar revendo suas opiniões. na matança de inocentes. à maneira como era antes do evento e pode ser ainda. terminando uma linhagem. Abaixo o velho. interessados em conferir toda a contabilidade do leito de morte que ascende aos céus. nem mesmo um herdeiro para levar seu nome. ele só pôde sorrir. Bright ou Blight. Na véspera da alta. embora . Frívolo. datilografada na máquina de escrever oculta deles! Relembrando. então ele julgará a si mesmo: uma oportunidade perdida. em qual canto do universo. Wayne veio ver como ele está passando. débitos numa coluna. prosperar tranqüilamente. Como ele se esforçou. para respeitar a palavra dos deuses. Wayne alguma coisa. acreditar que a gente será avisada. numa época anterior. mais miserável — é isso especificamente que o atormenta — do que morrer sem filhos. consumindo tempo e sendo consumido. que costumavam designar as vidas como a dele: cuidar de seus interesses.

E. desejando que Wayne vá embora. ele. a começar por Não tem nada a ver com azar.” . Há um leque de respostas que ele consegue imaginar. Por essa definição. até logo. Que alívio deve ter sido para Wayne quando finalmente se viu livre da escola. mas seu pronunciamento é cautelosamente evasivo. mr.” Não é nenhum artista com as palavras. Foi muito azar. Rayment”. mas em hipótese alguma admita que fez alguma coisa errada”. de caçar palavras que soem como desculpas. como se tivesse sido alertado de que o quarto tem escuta. rapaz”. Wayne. pai e filho. Devem estar tremendo com a idéia de um processo. Um acidente: algo que cabe a alguém. baixar o vidro e sentir o vento no rosto. de fato. gotas de suor no lábio superior. gritar “Foda-se. algo não intencional. no instante em que o míssil que estava pilotando em uma névoa de música alta mergulhou na doce maciez de carne humana? Uma surpresa. aumentar o volume o mais alto que quisesse. Ele abre os olhos. Mas lei é lei: mesmo velhos burros filhos-da-mãe em bicicletas têm o direito de não ser atropelados e Wayne e o pai sabem disso. Deve ser por isso que Wayne escolhe as palavras tão judiciosamente. “Sinto muito pelo que aconteceu. constrangido outra vez. o pai de Wayne estava no corredor durante toda a visita. Mas de que adianta marcar pontos com um rapaz que não tem o poder de consertar o que foi esmagado? Vá e não peque mais: é o melhor em que ele consegue pensar agora.revele que não veio admitir erro nenhum. Então a charada se resolve. E Wayne Blight? Será que Wayne também teve um acidente? O que terá Wayne sentido. foi. diga que sente muito. Claro! Na escola. não esperado. Sem dúvida instruiu Wayne antes: “Seja respeitoso com o velho filho-da-mãe. Será que se pode dizer que o que ocorreu no malfadado cruzamento se abateu sobre Wayne? Se alguma coisa se abateu. da parte dele ou da companhia de seguros. como ele fica sabendo depois. tendo de mostrar uma cara submissa. de que os Blight. Muito azar. não intencional. à sua maneira. diz Wayne. “Bondade sua ter vindo. decerto sofreu um acidente. cara!” aos velhos esquisitos ao passar correndo por eles! E agora ali está ele. O que pai e filho dizem um para o outro em particular a respeito de andar de bicicleta em ruas movimentadas. “mas estou com dor de cabeça e preciso dormir. Ele fecha os olhos. “Resolvi vir ver como o senhor está passando. haveriam de caçoar a caminho de casa. Wayne que se abateu sobre ele. O tipo de pronunciamento sentencioso. porém não desagradável. Paul Rayment. quando conseguiu pisar direto no acelerador. mascar chiclete. ele pode imaginar muito bem. só com dirigir muito mal mesmo. sem dúvida. em sua opinião. esquisito. inesperada. dos professores e tudo. Então. o jovem Wayne. devem ter martelado em cima de Wayne que não se sai da sala enquanto o professor não der um sinal de que a aula acabou. escutando. diz. Wayne está esperando um sinal e ele quer ver Wayne fora da sua vida. Wayne ainda está ao lado da cama.

Em troca. Putts porque faz o que julga ser uma idéia precisa dos poderes de mrs. quase com certeza. que esteja superestimando a preocupação de mrs. eles que façam isso: eles que se embrulhem bem e. “É trabalho especializado. 4. Putts não se veja nem como sua mantenedora. contanto que se inscreva em um serviço de emergência e mantenha um pager sempre à mão. Putts vier a decidir que ele é incapaz de cuidar de si mesmo. Ela faz parte do sistema de saúde social. não a quer. Putts. Só tem a si mesmo. Sheena parece ter dezenove anos. os sem-teto querem comer da lata do lixo e estender seus colchonetes na entrada de prédio mais próxima.” Então ele cede. Putts. confiante. Putts. mas seus documentos comprovam vinte e nove. quando se trata de cuidados e das profissões que lidam com cuidados. de uma gordura dura. e sob todos os aspectos inabalavelmente bem- humorada. claro. mrs. “Sheena já trabalhou com amputados. se acordarem vivos na manhã seguinte. mas mrs. Ele tem o cuidado de não contrariar mrs. sorte deles. Ela é gorda. Seria bobagem sua dispensar a moça. Putts chama-se Sheena. desatualizado. ele está. Se. supervisiona a faxineira. Ele desgosta dela imediatamente. Quando se trata de saúde social. Putts insiste. Putts renasceram. ou de qualquer um. É ela quem reorganiza o quarto para ele. em algum momento. diz mrs. de toucinho. os indigentes. que precisa ser protegido da própria incompetência. nem como guarda de seu irmão. cuja divisa é Laissez faire!. Putts concorda que ele não precisa contratar uma enfermeira noturna. determina onde os pedreiros . Sheena está pronta à espera. É possível. enfermeira particular”. que recurso ele teria? Não tem aliados para batalhar em seu favor. Se neste novo mundo os aleijados ou enfermos. A enfermeira do dia recomendada por mrs. mrs. Saúde social significa cuidar de pessoas que não podem cuidar de si mesmas. talvez mrs. No admirável mundo novo em que tanto ele como mrs. Quando os homens da ambulância o levam para casa.

uma perna nova. Cai em um mau humor e esse estado de espírito não vai embora. “Tão melhor que muleta. A senhora vai ter de me arrumar outra. faz uma pausa e assume uma voz de bebê. ele consegue ouvir. É derrotado pela manobra de sentar: a perna esquerda. “Agora se ele quiser que a Sheena lave o piupiu dele vai ter de pedir com muito jeitinho”. Quando ele lhe pede que abaixe o volume. durante o qual ela se retira à cozinha para relaxar. “Não pode me arrumar alguém fixo?”. alegres. depois telefona para mrs. o senhor está na minha lista A. verdade mesmo. dizem. Para não morrer de tédio. a perna que lhe restou. mesmo quando ele não se dá ao trabalho de responder.” De irascível. tem ataques do que considera choro seco. dizem. não quer falar com ninguém. exercícios e o que ela chama de SC. Se ao menos viessem lágrimas de . com Sheena dando apoio a seu cotovelo. há três intervalos.” Ela chama o penico de troninho. “Muito bem”. saúde do coto. “Como está hoje?”. mesmo assim. que elas fingem para ele. sem nenhum esforço. enfermeiras que se chamam de temps e vêm um ou dois dias de cada vez. mantém ligado o rádio na cozinha. Para conseguir abrandar o orgulho profissional dela. outro ao meio-dia.” Livrar-se de Sheena acaba não sendo assim tão fácil. um à tarde. Talvez o rádio tenha sido apenas um golpe para enlouquecê-lo e o tatibitate também. Não gosta de nenhuma das temporárias — não gosta de ser tratado como criança ou como idiota. Ela já elaborou para eles um horário dia a dia abrangendo refeições. “Está havendo uma grande demanda por tratamento de fragilizados.devem instalar as alças de apoio e assume o comando geral. “Vou pedir a Sheena que não volte”. diz ela. Na metade de um banho de esponja.” E dá-lhe um tapa de brincadeira no braço para mostrar que é só uma piada. Ele suporta Sheena até o final da semana. um no meio da manhã. diz ele. O senhor vai ver. Sheena aperta os lábios. diz mrs. em uma estação que alterna clamorosos anúncios com música bate- estaca.” Sua animação por ter escapado do hospital não dura muito. Quer que o deixem em paz. Putts pelo telefone. O primeiro teste de suas capacidades físicas vem quando. ele tenta usar o banheiro. chama seu pênis de piupiu. Seja paciente. “De volta para a cama já”. Imagina quantas vezes em sua carreira de enfermeira ela já aprontou golpes nessa mesma escala. Depois de Sheena. “Quando vamos colocar a perna?”. rotulados de SD TEMPO LIVRE. “Senão ele vai pensar que Sheena é uma daquelas meninas sapecas. não gosta das vozes animadas. ela abaixa o volume. antes de lidar com o coto. “Estou no meu limite”. “Vou trazer o troninho. tem de desembolsar o salário de dois meses. quando se pega o jeito. elas dizem. está fraca como uma pasta. ele passa a taciturno. diz ela. tudo pregado com fita na parede acima da cabeça dele. Daquelas meninas sapecas. Inclusos. ele é assistido por uma seqüência de enfermeiras da agência. Guarda seus suprimentos na geladeira em uma prateleira que rotula como SD PARTICULAR. “Não agüento essa moça. Putts. Putts. ele pergunta a mrs.

Putts. o ele que ele às vezes chama de você. o corte parece ter distinguido o passado do futuro com uma clareza de tal forma incomum que dá um novo sentido à palavra novo. Tirava livros da biblioteca. até fazia o próprio pão. Se esse modo de vida fazia dele um excêntrico. incorporadas em sras. O que é pior: a nuvem de melancolia na cabeça ou a dor no osso que o mantém acordado a noite inteira? Tenta passar sem os comprimidos e ignorar a dor. mesmo que isso signifique ter de passar a bolachas e suco de laranja. havia preservado uma certa energia rija. O que Sócrates diria disso? Pode uma vida vir a ser tão circunscrita a ponto de não valer mais a pena ser vivida? Homens saem da prisão. com excentricidades e tudo. a zelar por seu bem-estar. ele. Se . É isso que quer dizer estar melancólico: num nível muito abaixo do jogo tremeluzente do intelecto (Por que não isto? Por que não aquilo?). a imobilidade. Antigamente. era o tipo de homem que podia durar até os noventa anos. ia ao cinema. cozinhava para si mesmo. Culpa os analgésicos pela melancolia. mas andava de bicicleta ou caminhava. mas aquele que tem dor a noite inteira. Se ao menos eu pudesse me desaguar em lágrimas! Agradece por aqueles dias em que por uma ou outra razão ninguém aparece para tomar conta dele. Ele: não aquele cuja mente costumava voar para cá e para lá. Perdeu a liberdade de movimentos e seria ingênuo pensar que ela algum dia lhe será restaurada. nunca mais irá pedalando ao mercado para fazer as compras. A melancolia parece ter se instalado. Por que ele não haveria de se conformar com uma modesta vida circunscrita em uma cidade que não é inóspita com os idosos frágeis? Não consegue responder a perguntas como essas. Havia sempre mais que o suficiente para mantê-lo ocupado. no caso dele. mas girafas não têm as agências do Estado moderno. Uma vida circunscrita. antes do acidente. não tinha carro. sem que a melancolia tome posse de suas almas. com ou sem membros artificiais. fazer parte do clima. era uma excentricidade que ficava dentro dos limites australianos. muito menos descer depressa de bicicleta pelas curvas do Montacute. Mas a melancolia não desaparece. depois de anos olhando a mesma parede vazia. Sob o signo desse corte. ele ainda pode viver até os noventa. Nunca mais vai passear pela Black Hill. e não vai se expandir de novo. Mas. está inteiramente disposto a abraçar a escuridão. mas se isso acontecer não será por escolha. Podia ter sido solitário. O que há de tão especial em perder um membro? Uma girafa que perde uma perna certamente perecerá. A História está cheia de marinheiros de um braço só e de inventores em cadeiras de rodas. não tinha o que se poderia chamar de temperamento melancólico. Claro que ele não é um caso especial. O universo contraiu-se a esse apartamento e a um ou dois quarteirões em torno. Não consegue dar respostas porque não está com vontade de dar respostas. Bem. pensa. que uma nova vida comece. Tem gente perdendo membros ou o uso de membros todos os dias. Era alto. mas só do jeito que certos animais machos são solitários. ele.verdade!. às vezes de eu. bom de corpo. a extinção. de poetas cegos e reis malucos também.

Marijana Jokić é uma mulher de rosto pálido que. vivem em Munno Para. Jokić — Marijana — parece capaz de intuir as coisas para as quais ele está pronto e para as quais não está. se não exatamente de meia-idade. Se tiver um último pensamento. ele não tem grandes esperanças com a senhora dos Bálcãs. os membros se desatam. cozinhar e fazer a limpeza mais leve. ela é faxineira para. cheio de consoantes eslavas. É uma variante de língua com a qual ele não está familiarizado. o sangue jorra. é que ela trabalhará seis dias por semana. De origem. Trata-o não como um velho idiota e senil. uma terceira que ainda não está em idade escolar. Nada de rolar com o golpe. e de que gosta bastante. Aos domingos. mas cuidará também das necessidades do dia-a-dia. porém. nada de se pôr de pé. A lança espatifa o esterno. ao norte de Elizabeth. se acontecer de Wayne Blight o atropelar uma segunda vez e jogá-lo voando pelo ar tão cheio de graça. Desatado: essa é a palavra que lhe volta de Homero. com manchas de umidade debaixo dos braços. o que quer dizer sair para as compras. não quer se atirar da sacada. a meia hora da cidade. a voz que sai da nuvem escura. Jokić. É isso que a voz diz. de carro. Ele desistiu? Quer morrer? É a isso que se resume? Não. coloridos por gíria que ela deve captar dos filhos. Veste um uniforme azul-celeste que ele acha um alívio depois de toda aquela brancura. ela o atenderá não só como enfermeira. Putts para tempo integral chama-se Marijana. Estudou na Alemanha. pode daqui por diante ser um cão. A questão é falsa. descobre-se relutantemente agradecido pela chegada dela. Putts. fala um inglês australiano aproximado. Têm um filho no colegial. Não quer a morte porque não quer nada. com uma vida de cão. de segunda a sábado. “ganhar um extra”. o corpo cai como um boneco de madeira. A segunda candidata de mrs. Mas. Enquanto sua capacidade de deslocamento estiver restrita. não quer engolir quatro ou vinte Somnex. com a mediação de mrs. será simplesmente: Então é assim que é um último pensamento. Deixou para trás a terra de seu nascimento faz doze anos. conforme diz. quando veio para a Austrália obteve um diploma da Austrália do Sul. O arranjo feito entre ele e mrs.você até agora foi um homem. Nos dias seguintes. Bem. Seu espírito está pronto para tombar. Além de enfermeira particular. com uma vida de homem. informa durante a entrevista. em Bielefeld. exibe na cintura um engrossamento que é bem matronal. se houver tempo para um último pensamento. O marido trabalha em uma montadora de automóveis. ele tomará o cuidado de não se salvar. ele terá de contar com o serviço de emergência. dedicando a ele nesses dias todo o âmbito de seus conhecimentos de cuidados pessoais. mas como um . é croata. Depois das desventuras com Sheena. os membros se desataram e agora seu espírito também está desatado. Mrs. Ele não quer cortar os pulsos. uma filha na escola secundária. que devem captar dos colegas de classe. e tem um domínio incerto dos artigos definidos e indefinidos.

Gostaria de não chamar de nome nenhum. quando tem de mudar. pergunta. ela sai.. Da tempestade de sua atividade na cozinha emergem refeições que são invariavelmente apetitosas. anotados em sua boa caligrafia de Velho Mundo com os números 1 farpados. muito difícil. Para si mesmo. podiam ter tentado reconstruir. “cirurgia muito difícil. Parece-lhe uma pena que Marijana deva cair tão cedo e tão decididamente na primeira categoria. Ela aperta os lábios. separa as mãos em um gesto que lembra a mãe dele. Não conheço Hansen. Quando ele diz que quer ficar sozinho. Aos amigos que telefonam para saber como está indo. “Osso cresce. ele se refere a Marijana simplesmente como a enfermeira diurna. e passa um dedo por aquela face nua. ele reclama com ela.” Ela avalia o peso do coto judiciosamente com uma mão. o coto. ele desvia os olhos. é le jambon. Hansen. mais velho. “Quem fez suturas?” “O dr. os nem tão jovens. sabe.homem de movimentos limitados por uma mutilação. nem tão velhos?.” Ensaboa-o. “Ela faz as compras e cozinha também. Anos e anos entra e sai de hospital. Para quê. Onde. Mas é bom. “Claro. ela desenrola a coisa. “Reconstrução”. gostaria de não pensar naquilo. como se fosse uma melancia. “Não entendi por que não puderam deixar o joelho”. não chama aquilo de coto.” Marijana sacode a cabeça. A água morna faz surgir um enrubescimento. os 7 cruzados e os 9 pernudos. toca muito de leve a si mesmo.” Não se refere a ela como . entre os não velhos?. “Você vê muitas operações malfeitas?”. Só para moço. Se tem um nome para aquilo. Ele reclina. hã? Para quê?” Ela o coloca entre os velhos. diz ele. ela o ajuda em suas abluções. “Vê muita coisa. salvar a vida. entre aqueles que não vale a pena salvar — salvar a junta do joelho. A lista com que sai às compras volta com os recibos de caixa nela pregados. aqueles que agradecidamente nunca o verão. Não me disseram nada. os que nunca envelhecem? Raramente viu alguém se dedicar tão completamente a seus deveres como Marijana. “Boas suturas”.” Ele fica interessado em observar até que ponto a conversa é desprovida de duplo sentido. diz o gesto dela. mas não é possível. sem fala de bebê. Talvez. Pacientemente. lava-o. Se eu soubesse a diferença que faz perder o joelho nunca teria dado consentimento. Mesmo que a junta estivesse quebrada. cada item riscado ou.” “Hansen. “Bem-feito. diz ela. Está começando a parecer menos como um presunto defumado do que algo como um peixe cego de água profundas. assim?” Com as pontas dos dedos. depende.. ele imagina. eles não gostam de reconstrução. diz.* Le jambon mantém uma boa distância desdenhosa. ela encaixaria a si mesma: entre os jovens?. Ele divide as pessoas com quem tem contato em duas categorias: os poucos que viram o coto e o resto. Para paciente. “Contratei uma enfermeira diurna muito competente”. Bom cirurgião.

ela é. O filho dela. Orgulhosa. ela traz com ela a filha mais nova. Ele está em processo de revisar sua estima por ela. sólida. intransigentes. é eficiente. Marijana vai chegar de manhã. de geração em geração. lyubov quer dizer amor. Algumas manhãs. Lado a lado as duas fazem uma bela figura. Quanto à menina. Os dentes. que é a cara pela qual ele paga e com que deve se contentar. pele perfeita e olhos que cintilam com o que só pode ser inteligência. de Amour. E se dão bem também. aprova-o. É rápida. seu patrão. embora por causa dele se retire para a sacada. tanto quanto gosta do nome dela. com suas quatro sílabas cheias. Rayment. Enquanto está cozinhando. Se ela não flerta. Embora nascida na Austrália. Em russo. amarelados de nicotina. continua a chamá-la de mrs. pele cor de oliva mais que pálida. melhor ainda. assim como ela o chama de mr. o primeiro. caçando uma palavra em inglês que capte o que ela é. uma mulher de bom porte. o nome da menina é Ljuba. Dezesseis: ela deve ter se casado jovem. “o presunto”. seios para a frente. Gosta do nome dela. de boa constituição. é uma beleza. Ele gosta do nome. Mas na companhia dele ela parece ter a capacidade de anular o sexo. nas conversas com ela. Objetivamente. Gostaria que ela pensasse bem dele em todos os aspectos. às vezes. ela informa. Mais que não desprovida de atrativos. ela não é atraente. ombros retos. (N. de cachos escuros. T. a mulher. olhos escuros. Ljubica. uma mulher positivamente bonita. É melhor que a menção engraçadinha ao piupiu dele. * Em francês.) . Da cozinha vem o murmúrio constante de suas vozes. é alegre: essa é a cara que ela mostra a ele. Controle-se! Ainda não sabe se gosta de Marijana. Ela fuma à maneira da velha Europa não reconstruída.Marijana para que não soe muito familiar. diz a si mesmo quando sente a nuvem de melancolia baixando de novo. Marijana ajuda a filha a assar bolinhos ou biscoitos de gengibre. se não se engana. são sua única falha objetiva. É como chamar uma menina de Aimée ou. ele não se importa. acabou de completar dezesseis anos. Jokić. Então. ele pensa. Mãe e filha: os protocolos da feminilidade passando adiante. com cabelo castanho. ele desiste de ser irascível e se esforça por encontrá-la com um sorriso. a que ainda não está na escola.

é tentador abandonar todo decoro. Quando não dá para evitar a nudez. Nesse estado. ele desvia os olhos para ela ver que ele não está vendo quando ela o vê. sobre sua experiência na Austrália. Mas nunca dói. se dói. como o corpo dele irá reagir. mesmo que um homem diminuído. quanto ao resto. Por intuição. ou. Uma intuitiva. Ainda tem a sensação de ser uma alma com uma vida anímica não diminuída. e não podia estar mais claro que Marijana entende e concorda. inteiramente decente. pura e simples. Passam as semanas. Mas ele resiste à tentação. Faz o que pode para manter a decência e Marijana o apóia. e uma lembrança que depressa se apaga. Quando ele se cala. no que nunca aprenderá a fazer sem ajuda. a dor é tão parecida com prazer que ele não consegue identificar a diferença. Toda manhã ela o orienta nos exercícios. ele pensa. ele se acomoda ao regime de cuidados de Marijana. Quando ele está a fim de ouvir. “Me diga se dói”. Onde ela adquiriu essa delicadeza. 5. pensa consigo. O amor que ele pudesse ter tido pelo próprio corpo há muito desapareceu. Não tem interesse em consertá-lo. O que tem de ser feito em particular. ele é apenas um saco de sangue e ossos que é forçado a carregar. Marijana Jokić ter entrado em sua vida. discretamente o ajuda naquilo que ele não pode fazer sem uma ajuda. Ele está procurando ser um homem nisso tudo. ela faz o possível para garantir que seja feito em particular. massageia os músculos debilitados e debilitantes. fazer com que volte a alguma eficiência ideal. Uma das melhores coisas que aconteceram com ele. O homem que era é apenas uma lembrança. ela se contenta em ficar quieta também. ela está pronta a falar — sobre o trabalho. ele imagina. diz ela quando aperta com os polegares os músculos das coxas obscenamente reduzidos. ela parece saber o que ele sente. mas ele desconfia que venha de fontes mais profundas. . Uma mulher decente. na escola de enfermagem? Talvez. uma delicadeza que suas predecessoras tão claramente não tinham? Em Bielefeld.

amor materno. uma loucura de manada. se ele tivesse encontrado Marijana a tempo. Do ventre de dois. o maior dom de todos?” “Quando eu estava vivo eu não entendi. ainda não é nenhum ser espiritual. o fantasma de um homem que olha para trás e lamenta o tempo mal utilizado. Um dos mistérios. explicando como será além da vida. mas agora entendo. ele dirá.” Marijana podia tê-lo endireitado. agora que é tarde demais. Costumava pensar que fazia sentido: em um mundo superpovoado. apenas não tão feroz. a não ser mostrar as mãos vazias. Uma mulher construída para a maternidade. Ele não tem nenhum. dois. um pós-homem.. Seus avós Rayment tiveram seis filhos. como o amor de Deus. Mas o quê — o que seremos quando estivermos além de homem e mulher? Impossível para a mente mortal conceber. Uma frase da aula de catecismo de meio século atrás flutua em sua mente: não haverá mais homem e mulher. Não entendeu por que lhe foi dada a vida. seu santo padroeiro. disso ele tem certeza — são Paulo. e amargamente. Que bem maior pode existir além de mais vida. na alegoria ou talvez na analogia desenvolvida por irmão Aloísio. seu xará. penetrá-la e abençoá-la com sua semente — semente que. doze e ainda ter amor sobrando. como a serenidade. pai. e dará um passo de lado: “na casa de nosso Pai há lugar para todos. pai. portanto: um meio-homem. que pena! . triste. vê a miserável seqüência repetida. Seus pais tiveram dois. sim. nasceram três — três almas para o céu. dez. apenas cuidados. a ausência de filhos lhe parece loucura. Marijana e seu esposo. um ou nenhum: a toda a sua volta. Seis. mas um homem de algum tipo. quando todos amarão a todos com um amor puro. Ele. porque pequei”. Agora. pai. ai. Marijana podia ser mãe de seis.. meu filho?” Ele então não terá palavras a dizer. ela é da Croácia católica. ao contrário. Mas é tarde demais agora: que triste. Podiam estar realizando um ato sexual. Paulo dirá. representa a palavra de Deus. “Que sujeito triste”. mas.” “Então passe”. Marijana o teria auxiliado a sair da falta de filhos. ele esquece qual. “E como pecou. “Me abençoe. e acredite. me arrependo de mim. a ausência de filhos certamente era uma virtude. mais almas? Como o céu vai se encher se a terra pára de mandar suas cargas? Quando chegar ao portão. mas para ele será Paulo) estará esperando. Um homem não inteiramente homem. As palavras são de são Paulo. do tipo que fracassa ao realizar aquilo que o homem é trazido ao mundo para realizar: procurar sua metade. por trás de portas fechadas. Um homem e uma mulher em uma tarde quente. É apenas enfermagem. como uma pós-imagem. Mas não é nada disso. je me repens. um pecado mesmo. mesmo para a ovelha estupidamente solitária. “você é um sujeito triste. eu me arrependo. não tão consumidor. como a paciência. Paulo dirá. são Paulo (para outras almas novas poderá ser Pedro.

6.

Ele saiu do hospital com um par de muletas de antebraço e uma coisa chamada andador
Zimmer, um suporte de alumínio de quatro pés para usar no apartamento. O equipamento
é emprestado, deve ser devolvido quando não mais necessário, quer dizer, quando ele se
diplomar em formas superiores de mobilidade ou morrer.
Há outras ajudas que se podem obter (ele descobre no folheto), que vão desde um
aparelho que acrescenta rodas e um freio de segurança ao suporte quadrangular Zimmer
até um veículo propulsionado a motor de bateria, com barra de direção e uma capota de
chuva conversível, destinada a aleijados avançados. Se quiser um desses aparelhos mais
luxuosos, porém, terá de adquirir por conta própria.
Com os cuidados de Marijana, aquilo que ela gosta de chamar de perna vai, dia a dia,
perdendo a cor furiosa e o ar congestionado. As muletas estão se transformando em uma
segunda natureza, embora ele se sinta mais seguro apoiado no andador. Quando está
sozinho, vaga de cômodo em cômodo com as muletas, pensando que se trata de exercício,
quando na verdade é apenas inquietação.
Visita o hospital para checkups semanais. Em uma dessas visitas, sobe no elevador com
uma velha, curvada, com nariz de gavião e pele escura, mediterrânea. Pela mão leva uma
versão mais jovem de si mesma, de ossos pequenos, quase tão morena, usando chapéu de
abas largas e óculos escuros tão grandes que escondem a parte superior de seu rosto.
Apertado contra a mulher mais jovem, ele tem tempo, antes de sair, de aspirar o perfume
bastante sufocante de gardênia e de notar que, estranhamente, ela está usando o vestido
pelo avesso, com as instruções de lavagem a seco à mostra como uma ousada bandeirinha.
Uma hora depois, ao sair do hospital, observa a dupla de novo, enfrentando dificuldades
com a porta giratória. Quando chega à rua, só consegue enxergar o grande chapéu preto
oscilando na multidão.

A imagem delas permanece dentro dele: a megera levando a princesa vestida às pressas
em um sonâmbulo passeio enfeitiçado. Não tão jovem para ser princesa, talvez, mas
atraente mesmo assim: de carne macia, mignon, seios fartos, o tipo de mulher que ele
imagina que dorme até o meio-dia e como café-da-manhã come bombons servidos em uma
bandeja de prata por um menino escravo de turbante. O que será que fez para precisar
esconder o rosto?
É a primeira mulher a despertar seu interesse sexual desde o acidente. Ele tem um sonho
no qual ela está de alguma forma presente embora não se revele. Em absoluto silêncio,
uma rachadura se abre no chão e avança para ele. Duas vastas ondas de poeira sobem no ar.
Ele tenta correr, mas as pernas não se movem. Socorro!, sussurra. Com cegos olhos negros,
a velha, a megera, olha fixamente para ele e através dele. Murmura insistentemente uma
palavra que ele não consegue captar, algo como Toomderoom. A terra debaixo de seus pés
cede, ele afunda.
Margaret McCord telefona. Sente muito não ter mantido contato, está fora da cidade.
Pode levá-lo para almoçar, talvez, no domingo? Podiam dar um passeio de carro pelo vale
Barossa. Infelizmente, o marido dela não poderá ir junto: está fora do país.
Ele adoraria ir, responde, mas, ai, acha que a viagem longa de carro seria como um
calvário.
“Então quer que eu só apareça aí?”, ela pergunta.
Anos atrás, depois do divórcio, ele teve um breve relacionamento com Margaret.
Segundo ela, em quem ele não confia necessariamente, o marido nada sabe dessas
intimidades.
“Por que não?”, diz ele. “Venha no domingo. Venha jantar. Tenho um canelone
excelente que minha enfermeira preparou.”
Eles comem na sacada, numa noite bastante fresca, em meio aos chamados de despedida
dos pássaros, com velas de citronela piscando em cima da mesa. Há um certo
constrangimento: o que aconteceu um dia entre eles não está de forma alguma esquecido.
Margaret não menciona o marido ausente.
Ele conta a Margaret como foi o período sob as ordens de Sheena; conta de mrs. Putts, a
assistente social, que o preparou para a vida após a morte em todos os aspectos, menos sexo,
tópico que ela se sente modesta demais para abordar, ou talvez considere inadequado para
um homem de sua idade.
“E é inadequado?”, pergunta Margaret. “Sinceramente?”
Sinceramente, ele responde, ainda não sabe dizer. Não está incapacitado, se é isso que
ela está perguntando. Sua coluna está intacta, assim como as ligações nervosas relevantes. A
pergunta ainda não respondida é se ele será capaz de realizar os movimentos necessários ao
participante ativo de um par sexual. Uma segunda questão, correlata, é se a vergonha e o
embaraço não vão suplantar o prazer.
“Eu pensei”, diz Margaret, “que dadas as circunstâncias você poderia ser dispensado de

desempenhar o papel ativo. Quanto à segunda questão, como é que você vai descobrir se
não tentar? Mas por que você ficaria envergonhado? Não é assim como se você tivesse
lepra. Você só sofreu uma amputação. Amputados podem ser bem românticos. Pense em
todos aqueles filmes de guerra: homens que voltam da guerra com tapa-olhos, ou com a
manga vazia presa com alfinete no peito, ou de muletas. As mulheres caíam em cima
deles.”
“Um amputado apenas”, diz ele.
“É. Você foi vítima de um acidente, de uma colisão. Não é vergonha nenhuma, nada
censurável. Depois disso, você teve uma perna amputada. Parte da perna. Parte de uma
estúpida parte do corpo. Só isso. Você ainda tem saúde. Ainda é você mesmo. É o mesmo
homem bonito, saudável que sempre foi.” Ela lhe dá um sorriso.
Eles podem testar no quarto agora mesmo, os dois, testar se ele ainda é o homem que
sempre foi, testar se mesmo com uma parte do corpo faltando o prazer pode superar seu
oposto. Margaret não seria avessa, disso ele tem certeza. Mas o momento passa e eles não
aproveitam, coisa que, depois, olhando em retrospecto, ele agradece. Não quer se tornar
objeto da caridade sexual de mulher nenhuma, por mais bem-intencionada. Nem gostaria
de se expor ao olhar de alguém de fora, mesmo que seja uma amiga de outros tempos,
mesmo que ela afirme que acha amputados românticos, este novo corpo não amável dele,
isto é, não apenas a coxa brutalmente encurtada, mas os músculos flácidos e a obscena
barriguinha que inchou feito um balão. Se ele algum dia for para a cama com uma mulher,
vai ter o cuidado de que seja no escuro.
“Recebi uma visita”, ele conta a Marijana no dia seguinte.
“É?”, diz Marijana.
“Talvez haja outras visitas”, continua, sombrio. “Mulheres, quero dizer.”
“Para morar com senhor?”, diz Marijana.
Para viver com ele? A idéia nunca lhe ocorrera. “Claro que não”, diz. “Amigas apenas,
mulheres amigas.”
“Muito bom”, diz ela e liga o aspirador.
Marijana, ao que parece, pouco se importa se ele recebe mulheres no apartamento. Não
tem nada a ver com o que ele apronta com o tempo dele. E o que tanto poderia aprontar
afinal?
Ao contrário de Margaret, Marijana nunca o viu como era antes. Para ela, ele é
simplesmente o cliente mais recente, um velho de pele clara, de músculos frouxos e
muletas. Mesmo assim, sente vergonha de Marijana, e de sua filha também, como se a
corada boa saúde da mãe e a angélica clareza da menina estivessem fazendo um duplo
julgamento dele. Vê-se evitando o olhar da menina, se escondendo na poltrona em um
canto da sala como se o apartamento pertencesse às duas mulheres e ele fosse algum tipo de
praga, algum roedor que conseguiu entrar.
A visita de Margaret deflagra uma série de devaneios sobre mulheres. Todos de colorido

a mulher que viu no elevador. Tudo bem. em alguns. aquela de óculos escuros e roupa pelo avesso. os olhos. nem visto.sexual. Ela levanta a mão para tirar os óculos. seu corpo novo e alterado não é mencionado em palavras. diz para ela. . ele e a mulher chegam a ir para a cama. piscinas escuras nas quais ele mergulha. na maioria das vezes. está tudo bem. Nesses devaneios. É. Seu vestido. diz ela. A voz é grave. é tudo como antes. deixe eu ajudar a arrumar. Mas a mulher com quem ele está não é Margaret.

No trabalho. Querem ser os mais fortes. Querem ser admirados. Onde é que Marijana se encaixa no quadro iugoslavo. Para o recente aniversário de dezesseis anos dele. Não se pode impedir rapazes de explorar seus limites. os croatas são gente desconhecida para ele. Ele e os amigos ficam nas ruas laterais. mas um lenço de cabeça como qualquer boa dona-de-casa dos Bálcãs. Deve ter cruzado com dezenas de iugoslavos na época em que ainda existiam iugoslavos. Querem ser os mais rápidos. praticando derrapagens e sabe Deus o que mais. ele diz a Marijana. mais pacífica. mas evidentemente nunca lhe ocorreu perguntar a eles que tipo de iugoslavo eram. 7. Sem falar de criminosos de guerra diversos e do jogador de tênis alto com o saque forte cujo nome lhe escapa (Ilja? Ilić? Roman Ilić?). Mas gosta da atitude de Marijana. o marido comprou para Drago uma motocicleta. provavelmente nunca conhecerá. eles terem empacotado suas coisas e atravessado a fronteira em busca de uma vida melhor. onde a encontrarão? Marijana conta-lhe sobre o filho. em vez disso ela . cansados e enjoados de tanto conflito. Um grande erro. cujo nome é Drago. na Austrália.” Não conhece Drago. mas que é conhecido pelos amigos como Jag. Marijana usa não uma touca de enfermeira. “Seu filho já é um rapaz”. Ele aprova o lenço. Ela tem medo de que ele quebre algum membro ou coisa pior. mais pacífica? E se não encontraram uma vida melhor. Iugoslavos são outra coisa. Marijana e seu marido que monta carros? De que estavam fugindo quando fugiram do velho país? Ou seria simplesmente o caso de. apostando corrida. Agora Drago sai toda noite. não faz a lição de casa. “Está se experimentando. na opinião de Marijana. como aprova qualquer demonstração de que ela não se livrou do Velho Mundo em favor do Novo. pula refeições. gosta dessa transparência: bem-educada demais para se vangloriar do filho.

Ele guardou a lata como lembrança. Eu mostro a perna para ele. as varetas enroladas nos suportes. ai. não inteiramente a sério. embora tenha ficado na sarjeta até a noite. da temeridade dele. quem é ele. uma mulher que por . Minha ex-mulher. principalmente quando fiquei mais velho. complicadas. em que todo mundo chama todo mundo pelo primeiro nome. Um pão. “Ele quer Academia da Força de Defesa. pensei cada vez mais. “Senhor não tem filhos. Tínhamos outras coisas na cabeça. a roda de trás dobrada em duas. Recolheram também a caixa de plástico que estava amarrada ao bagageiro. diz a Marijana. que levou um tempo surpreendentemente longo para chegar. Ninguém se deu ao trabalho de roubá-la afinal. Vai mostrar a lata para Drago.” “E senhor nunca pensa nisso depois?” “Ao contrário. E depois: Pense um pouco na sua mãe. Consegue bolsa de estudos para isso. É uma boa mulher. para dizer? Na manhã seguinte. mr. não.reclama da rebeldia. Marijana traz uma fotografia: Drago de pé ao lado da motocicleta em questão. em eu não ter filhos.” Ele ainda tem a bicicleta no depósito do andar de baixo.” “E esposa? Ela pensa nisso?” “Minha esposa casou de novo. aquele dia na rua Magill. eu e minha esposa. Rayment? Ele diz não é nada. um estranho. “Que planos tem o seu filho?”. “traga ele aqui um dia. Rayment?” “Não. Sem dúvida vai partir muitos corações. de botas e jeans apertados. de sua joie de vivre. como costumavam dizer as moças antigamente. Não foi um casamento feliz. assim como para sua mãe devia ter sido um broto. nos divorciamos. sugere. junto com uma parte das compras matinais: uma lata de grão-de-bico com um afundamento. um memento mori. o que está se passando entre eles. Não chegamos a isso. Está numa prateleira da cozinha. Então.” “Acha que ele escuta. Ela se preocupa com você. de que ele será a ruína dela. debaixo do braço um capacete com um raio pintado. Ou talvez não diga que ela é uma boa mulher coisa nenhuma. mr. só acidente de bicicleta. Quer que você tenha uma vida longa e feliz. Casou com um divorciado que tinha filhos. Uma conversa entre um homem e uma mulher. Tiveram um filho juntos e viraram uma dessas famílias modernas. duzentos e cinqüenta gramas de brie que derreteu ao sol e depois endureceu.” “E sua filha. Imagine se fosse sua cabeça. dentro dos limites do pessoal impessoal. dirá a ele. Depois a polícia a levou.” Está tudo dentro dos limites. cabeça nas nuvens. Se o filho não sabe. Quer ser marinheiro. “Se quer dar um susto em Drago”. Não tenho muito contato com ela. ele pergunta. sem a gente perceber.” Agora ela tem uma pergunta para ele. não. sua filha mais velha?” “Ah. ela muito nova para planos. ai. minha esposa não pensa em nós não termos filhos. E depois.” “Mostro para ele o que sobrou da bicicleta também. outras ambições.

ou se importavam um com o outro. com uma arma. talvez. e acabou-se. Marijana pode não aprovar pessoas que casam e descasam e nunca chegam a ter filhos. Seria bom ter uma filha. Cinco minutos depois. eu me cuido sozinho”. ou estavam enamorados um do outro. acho. Mas a pergunta dela fica ressoando na cabeça dele: Quem vai tomar conta do senhor? Quanto mais encara as palavras tomar conta de. deitado em seu cestinho nos últimos estágios da cinomose. os dois se conhecendo melhor em um país em que todas as pessoas são iguais. Marijana é católica. você vai tomar conta de mim no futuro imediato. Tenho família na Europa.” “Tem família em Adelaide?” “Não. o tomar conta de que ele falou compreende vestir seu melhor terno e engolir a caixa de comprimidos. Ele não é mais nada. Morreu cedo. Mesmo assim. ganindo sem parar. “Não espero uma velhice longa. então. Je m’en occupe: eu cuido disso. Eu tinha seis anos. mas ela é esperta o suficiente para calar sua reprovação. Mas provavelmente existe uma forma mais caritativa de interpretar a pergunta — como Quem vai ser seu apoio e suporte?. em Adelaide não. minha mãe e meu padrasto. mas o filho que ele não tem é de quem realmente sente falta. saindo para um passeio. não era decerto o que Marijana tinha em mente. meninas têm um encanto próprio. esse filho agora teria trinta anos. está cheio de arrependimentos. e todas as crenças. conversa de homens. A resposta óbvia é: Você. pai e filho. Inimaginável. Então. Durante uma . mais inescrutáveis parecem. não tenho família para cuidar de mim. catolicismo ou nada. Não contei? Me trouxeram para a Austrália quando era criança. “Então quem vai tomar conta de senhor?” Uma estranha pergunta. um homem independente. a conversa de particularidades. e saiu da casa. nunca mais viu o cachorro. je m’en occupe”. faxineira e empregada geral do homem. de câncer. o focinho quente e seco. com um copo de leite quente. Se assim é. esperando vazar. mas perdi o contato com eles há muito tempo. por exemplo. disse seu pai a certo momento e pegou o cachorro.” E deixam as coisas assim. Minha irmã tinha nove. conversando disto e daquilo. Mas neste país uma coisa é tão boa quanto outra. Imagine os dois. mas o inimaginável está aí para ser imaginado. enquanto ainda se amavam. com cesto e tudo. ele ouviu na floresta o estampido chato de uma espingarda. você ou qualquer outra pessoa que eu empregue para esse fim. eles voltam toda noite como lembretes. Ela já morreu. os membros trêmulos. Eu e minha irmã. “Bon. “Ah. Lembra-se de um cachorro que tinham quando era criança. ajudante de compras. eu cuido disso. ficou englobado naquela frase. em Lourdes. eu faço o que tem de ser feito. Se ele e Henriette tivessem tido um filho logo. Eu nasci na França. e deitar na cama com as mãos cruzadas no peito? Ele tem muitos arrependimentos. Esse tipo de cuidado. ele e Marijana.acaso é a enfermeira. dois de cada vez. nada sério. não. ele responde. então o que significa sua resposta: Eu me cuido sozinho? Será que tomar conta. O principal deles é o arrependimento de não ter tido um filho.

uma versão mais jovem. encerrar o expediente. mas adequada. Você já fez o seu dever. Não está fora dos limites do possível adquirir um filho. ou tentasse gerar. entregar a sucessão. O que ele quer é um filho. mesmo tão tarde na vida. que se espera sofrer ainda jovem. ou aprovou isso. menos devastadoras. Se quiser que lave seu piupiu. sorriso infeliz na cara. A história parece indicar que manifestações apaixonadas não fazem parte de sua natureza. uma aflição cômica. como caxumba. vai ter de pedir. casar com ela. . uma branda. dissera Sheena no tempo que passara a seu lado. filho e herdeiro. ou pagar a ela. ou qualquer coisa. diria o filho. cuidou de mim. Ele não tem certeza se jamais gostou de paixão. Mas não é um bebê que ele quer. Cachorros dominados pela paixão copulando. por exemplo. um filho homem em seu útero. Será que seu piupiu. William. se gratificante. eu aceito. para não pegar com maior seriedade depois. menos que zero. o tipo de amigo com quem se vai distraidamente para a cama. Um homem bom para se aconchegar em uma noite fria. confiar uma criança aos cuidados de um velho aleijado e solitário sejam zero. Como amante. “Hum”. Eu cuido de você. entenderia de imediato: entregar o encargo. seu filho imaginário mas imaginado. Ou podia localizar (mas como?) alguma jovem fértil. um filho de verdade. por exemplo. não um homem de paixão. O piupiu. se oferecer para adotá-lo e esperar ser aceito. sensualidade — isso é o que Margaret McCord lembrará dele. mas inevitável. sobre ser hora de entregar os pontos. ela e meia dúzia de mulheres.dessas conversas ele deixaria escorregar uma observação. Paixão: um território estrangeiro. na verdade: não uma palavra de que goste. Podia. suas entranhas têm a capacidade de gerar um filho? Terá a semente e a paixão animal suficiente para levar a semente ao lugar certo? A história não parece indicar que sim. representado por mrs. Putts. a língua pendurada para fora. excluindo sua esposa. algum embrião de Wayne Blight. O filho. querendo dizer Sim. depois se tenta lembrar se realmente aconteceu. mais forte e melhor de si mesmo. em uma das suas variedades mais brandas. localizar (mas como?) algum órfão rebelde. Robert. ou induzi-la de algum outro jeito a permitir que ele gerasse. embora as possibilidades de o sistema de bem-estar social. uma dessas observações indiretas que as pessoas fazem nos momentos em que as palavras verdadeiras são difíceis demais de pronunciar. Uma afeição agradável. um tanto canino. Em resumo. agora é minha vez.

se eu guardei alguma coisa foram fotografias. quando ainda dava para comprar fotografias de primeira geração. os mineiros vestiram suas melhores roupas. são uma coleção propriamente dita. não porque não valham a pena ler. “Senhor quer que eu espano os livros?” Onze da manhã e Marijana parece ter ficado sem nada para fazer. “Comecei a guardar nos anos 1970. eu limpa bem limpo. não é?” Guardador-de-livros: é assim que chamam gente como ele na Croácia? O que será que quer dizer guardador-de-livros? Um homem que protege os livros do esquecimento? Um homem que se apega a livros que nunca lê? Seu escritório está forrado do chão ao teto de livros que nunca abrirá de novo. se quiser.” Ela sacode a cabeça. 8. Guardo naqueles armários. Ia me deprimir demais agora. “Não. dali até ali. de cedro. Guardador-de-livro. Aqueles são meus livros sobre fotografia. Para a visita do fotógrafo. Como esse campo de estudo não é popular nem propriamente definido. Outros se contentam com uma camisa limpa. O resto é de livros comuns ou de jardinagem. Não. “Colecionador de livros. é assim que se chama aqui. Senhor guardador-de-livro.” Para ela ver. não livros. sua coleção pode ser a melhor do país. Pode passar o aspirador em cima deles com aquele bico especial. Espólios de falecidos. ele tira o grupo de fotografias que é o cerne da coleção. ele tem centenas de fotografias e cartões-postais da vida nos primeiros campos de mineração de Victoria e Nova Gales do Sul. até mesmo do mundo. não quer poeira nos livros. E quando eu ainda tinha ânimo para ir a leilões. as mangas arregaçadas até o alto para mostrar os braços morenos e talvez um . Só essas três estantes. mas porque ele não terá mais tempo. Quer ver?” Em dois armários antiquados. “Tudo bem. Há um punhado da Austrália do Sul também.

Coleção Rayment. Como nós. “É bom.” “Senhor não vende elas?” “Não. É igual ir para deserto. Como eu. na Europa inteira. só mato e bando de imigrante. “Olhe estas”. É bom guardar história.” “Então. Por que quer ir para Austrália?. “Então é isso que senhor faz”. para que se dar ao . entende? Isso que dizem na minha terra. “Na Europa. Se nomes valem tanto quanto imagens. cheios de dinheiro. Só se vai por dinheiro. não vou vender. senão podia ter se tornado um dos grandes fotógrafos. saindo das escavações. Está tudo arranjado. Não interessa se a pessoa vem com esta história ou aquela história. dizem que Austrália não tem história porque na Austrália todo mundo novo. Fotografia não é mesma coisa que só nome. diz Marijana quando termina a exibição. é bom. Povo aborígine. depois capitão Cook.lenço de pescoço limpo. Garotas que Tom e Jack. Flora. Quem são esses nós? Marijana e a família Jokić. diz. para que guarda fotografias?” Sem dúvida. Para que no futuro crianças cochichem umas com as outras: ‘Quem era esse Rayment da Coleção Rayment? Era alguém famoso?’. ela está certa. onde estão os castelos e catedrais? Imigrantes não têm uma história própria? Você deixa de ter uma história quando muda de um ponto do globo para outro?” Ela descarta a censura. sorrindo timidamente por cima de um roliço ombro nu. Mas eu fala da Europa. ou Marijana e ele? “Não é só mato. A Biblioteca Estadual aqui em Adelaide. quem fica com elas. talvez. hã. Senão. para países árabes. arruma atrás. países de petróleo. Ele morreu jovem.” Ao lado delas. dá um sorriso para ele. “São de Antoine Fauchery. depois imigrantes — onde está história. se é isso que é.” Ela tira o lenço da cabeça. iriam visitar nas noites de sábado em busca de você sabe o quê. Rayment. Então muito bom alguém guarda fotografias velhas. não?” “Colocam meu nome na coleção. sim. eles fala. claro. expõe alguns cartões-postais marotos: Lil mostrando um pedaço de coxa ao estalar uma liga. Mato. Confrontam a câmera com o ar de grave segurança que vinha naturalmente para os homens dos tempos vitorianos. cauteloso. sacode os cabelos soltos.” “Mas fotografia também. ele diz. dizem?” “Quer dizer. você está dizendo? Elas vão para a Biblioteca Estadual. mostra que Austrália tem história também. dizem.” “Mas eles bota seu nome. para Qatar. Marijana”. essas fotografias. Assim as pessoas não pensa que Austrália país sem história. será um legado. o que dizem na Europa. não só mato. “Não. mas que agora parece ter desaparecido da face da Terra. não só nome? Fotografia de mr. Zero história. valem dinheiro. em déshabillé. Como nós. sabe. mais vivo. depois de senhor?” “Quando eu morrer. não?” “É. na Austrália começa do zero. Ele mostra duas de Fauchery. na Alemanha também. Mas elas vale muito dinheiro.

Uma coleção de fotografias. “Só tome o cuidado”. mais trabalho do que . que estava flutuando no ar nessas semanas passadas começou a assentar. “para os livros voltarem na mesma ordem. Jokić. imagens dos mortos. com uma mulher que principalmente se admira? Não apenas uma mulher: mas uma mulher casada. ou são as duas coisas de espécies bem diferentes? Como seria deitar lado a lado. metade de uma estante por vez. Será que mr.a em Marijana? E qual é o nome desse sedimento. nervoso. Mas não uma foto de mim como sou hoje. Pode o desejo brotar da admiração.trabalho de guardar imagens? Por que guardar as imagens de luz desses mineiros. peito a peito. De onde essa mulher tira energia? Será que toca sua própria casa nos mesmos moldes? Como mr. olhando as panturrilhas sólidas e as ancas apertadas que ondulam quando ela se estica para as prateleiras mais altas. desse sentimento? Não dá a sensação de desejo. explodiria de raiva se soubesse que o patrão de sua mulher se abandona a devaneios de deitar peito a peito com ela — explodiria em uma daquelas raivas elementares balcânicas que dão origem a choques entre clãs e a poemas épicos? Será que mr. para seu patrão australiano: mostrar o quanto de si mesma está disposta a doar a seu novo país? É no dia da limpeza dos livros que aquilo que havia sido apenas um tênue interesse em Marijana. Jokić tem não apenas a mulher. coisa que faxineiras anteriores realizavam passando um espanador de penas por cima das lombadas. é tarefa atacada por Marijana como uma grande operação. diz ele. as prateleiras vazias imaculadamente limpas. Será que algo. Se tivesse de escolher uma palavra para isso. Forte como uma égua. Ele começa a ver nela se não beleza. Jokić tem todos e ele tem — o quê? Um apartamento cheio de livros e móveis. diria que é admiração. mas sem dúvida igualmente bonita filha do meio. seja o que for. Forte como um cavalo. Deus me livre. ele pensa. Jokić viria atrás dele com uma faca? Ele faz piadas com Jokić porque tem inveja dele.” Ela lhe dá um olhar de tamanho desdém que ele se retrai. que saíram de dentro dela: Ljubica. ou qualquer nome que use. ou pan Jokić.” Tirar o pó dos livros. os livros são levados para a sacada e espanados individualmente. e o rapaz altivo com a motocicleta. a filha querida. Como eu era antes. Escrivaninha e armários são cobertos com jornal. nu. Não muito longe dali vive e respira um mr. se transforma em uma outra coisa. cujo nome ele não lembra. a distraída. ou gospodinb Jokić. mas também os filhos que vieram com ela. que depois de sua morte ficarão juntando poeira no porão de uma biblioteca junto com outros legados menores. faute de mieux. um interesse que não ia muito além de curiosidade. J reage a isso? Ou será para ele apenas. por que não apenas digitar seus nomes e expor a lista em uma vitrine? “Vou perguntar ao pessoal da biblioteca”. pelo menos a perfeição de um certo tipo feminino. depois. No final das contas. Jokić tem essa mulher admirável e ele não. não pode se esquecer disso. ele intervém. Marijana Jokić. “Vamos ver o que eles acham da idéia.

Dentre as fotos de Fauchery. uma segunda esposa. nos Pireneus franceses. Mas será verdade? A mulher da foto o aceitaria como um membro de sua tribo — um menino de Lourdes. Prefere não pensar que vêm de dentro dele e são dele. com a mãe que tocava Fauré no piano? Será que a história que ele quer chamar de sua não é. Mostrava uma carruagem puxada por dois corcéis. Essa. da fumaça dessa pobre cabana. proibida a entrada de estrangeiros? Apesar da presença estimulante de Marijana. depois na sala de operações. exausta de corpo. ou a garota mais velha podia ser não uma filha. mas é mais provável que seja lama. uma edição popular de Platão. Quer dizer. apenas uma questão de ingleses e irlandeses. não mostrou para Marijana uma que o fascina mais profundamente. Nunca mais será o que foi antes. agora querem descansar. afinal. como bois na porta do matadouro. capta cada marca da pele e das roupas. trazida para tomar o lugar da primeira. um passado. um corcel negro de olhos brilhantes e narinas dilatadas representando os apetites baixos e um corcel branco de índole mais calma . ele gostaria de dizer a Marijana. é daqui que nós viemos: do frio. uma das suas crises de lúgubre autopiedade que se transformam em negra melancolia. Não apenas gente escura. o coração. são parte dele. dessa pobreza e desse trabalho triturante de barriga vazia. os pulmões. mas amedrontada. também. dessas mulheres com seus olhos negros desamparados. Na mão que a criança menor leva à boca. primeiro na rua. Vem-lhe à lembrança a capa de um livro que tinha. poderia ser uma mulher e seis filhos. Nunca mais terá sua velha capacidade de recuperação. a luz expõe o que pode ser geléia. mas uma segunda mulher. E a mesma coisa vale para o resto da equipe. Olhe. Um povo com uma história própria. o cérebro. era a sua filosofia. Todos têm a mesma expressão: não hostil ao estranho com a máquina fotográfica último modelo que um momento antes desse momento enfiou a cabeça debaixo do pano preto. Não só mato. os músculos. Não zero história. A luz os banha direto no rosto. ele costumava pensar. nosso passado. Ele não consegue imaginar como essa coisa toda pôde ser realizada com as longas exposições que eram necessárias naquela época. sobrecarregado demais. Gosta de pensar que isso vem de outro lugar. Fizeram por ele o que puderam enquanto puderam. O destino dá as cartas e você joga a mão que recebeu. não reclama. Por que então não consegue resistir a esses mergulhos na escuridão? A resposta é que está decaindo. da umidade.valem para os catalogadores. está cansado demais para a tarefa. Não choraminga. Nossa história. ele parece estar à beira de um de seus maus momentos de novo. congelada. Seja o que for que dentro dele recebeu a tarefa de consertar seu organismo depois de tão terrivelmente atacado. episódios de mau tempo que cruzam o céu e passam. É de uma mulher e seis crianças agrupadas na porta de uma cabana de barro e sapé. que parece esgotada de vida.

apenas mais cinzento e lúgubre. acho que não. bem. hora de sair para o pasto. transformou-o em um prisioneiro. parece gostar. que zuna. é a mesma perna que eu sempre tive. o atingir. ele de pé ao lado dela. Ljuba. a imagem será mais sem graça que no de Platão. Termine amanhã”.” “Flash. mijar e cagar. Ele está preso no mesmo velho eu de antes. aberto janelas dentro dele. receber os arreios para puxar a carga do dia. Devia dar alguma coisa para Ljuba comer. representando possivelmente o eu.representando as menos identificáveis paixões mais nobres. só que um pouco mais curta. diz ele. Não fez nada disso. Às vezes. geralmente uma boa menina — se ainda é permitido dividir as crianças em boas e más —. Encolheu seu mundo. Você tem uma perna artificial no armário?” “Não. cansado de si mesmo — cansado mesmo antes de a ira de Deus. estará sentado em uma carroça arrastada por uma junta de pangarés e rocins que bufam e chiam. “Não sei o que faria sem ela. e. Uma da tarde e Marijana ainda não terminou os livros. que mal se agüentam com o próprio peso. A flash of lightning. a colisão. não tem nada assim no meu armário. um jovem de torso nu e nariz grego.c Fleshd é do que nós somos feitos. Depois de sessenta anos de acordar toda bendita manhã. cansado até os ossos. segurando as rédeas. Ela senta-se à mesa da cozinha. cansado de cabeça.” “Mas no armário do banheiro. De pé na carruagem. ela responde. renovado sua sensação da preciosidade da vida. dirá a parelha. Wayne Blight. “Largue a limpeza. É o que basta para levar uma pessoa à bebida. eles simplesmente dobrarão as pernas e se acomodarão em seus arreios. coisas que ele não tem na despensa? Tenta misturar uma colher de geléia de ameixa em um pote de iogurte. ele diz a Marijana. “Termino num flesh of lightning. no livro dele. está começando a choramingar. como se a usasse todo dia. E se o descanso lhes for negado. Bem. Ele jamais diminuiria esse evento. “Não. bolachas e cereal tostado incrustado com açúcar. Cansado de coração.” “Tem um parafuso na sua perna?” . mas o quê? O que crianças pequenas comem além de pipoca. uma fita amarrada na testa. apoiado na invenção de Zimmer. ele acha que ela não se dá ao trabalho de ouvir o que ele diz. se um dia for escrito. “Quem sabe senhor dava alguma coisa para ela comer.” “Verdade que você tem uma perna artificial?” Ela pronuncia a palavra comprida com naturalidade. Hora de descansar. verdade seja dita. em seu livro. o livro de sua vida. mastigar a ração de aveia. Ljuba aceita. Mas escapar da morte devia tê-lo abalado. carne e ossos. e se o chicote começar a zunir em volta de seus quartos.” Ela não responde. “Sua mãe é uma grande ajuda para mim”. Foi nada menos que uma calamidade. a junta de Paul Rayment estará farta. transmitida por intermédio de seu anjo. aquilo que chama a si mesmo de eu. esse que se chama Paul Rayment. Ele próprio.

” E não diz mais nada. mas em retrospecto parece mais um conto de fadas.” Mas Ljuba perdeu interesse na perna que não é uma perna mecânica. o que ela permite. T. Sem que ninguém percebesse. a Em francês.) b Em tcheco ou eslovaco (pan) e em croata (gospodin). Por que está perguntando?” “Porque sim. No momento. (N. ele repete. Com um estalar de lábios. Se tivesse parafusos eu seria um homem mecânico. T. para parafusar a sua perna artificial?” “Não. tão nova como no dia da criação. parafusos e porcas. Marijana tenha cuidado de um homem com parafusos nas pernas. Cada novo nascimento um novo milagre. que eu saiba não. com membros esquisitos ou um cérebro que solta faíscas. termina o iogurte e leva a manga do macacão à boca. T. tudo feito de ouro ou titânio — um homem com uma perna reconstruída. Talvez seja essa a explicação. passar adiante sua críptica sabedoria. (N. cada célula é tão fresca. ele limpa também a manga. Perfeito: nenhuma outra palavra servirá.) . Em criança. o pulso dela está abandonado na mão dele. Minha perna é toda natural. tão limpa. Tem um osso dentro. não valia a pena nem o esforço.) d Carne. E não sou. É a primeira vez que toca um dedo em uma criança. nem a despesa.” “Não tem um parafuso. do tipo que não foi dado a ele porque era velho demais para isso. ele se lembra. nenhum parafuso. fosse qual fosse? “Não”. Ele pega um guardanapo e limpa os lábios dela. “senhor”. contornando a curva axilar. “Um parafuso? Não. no passado. A história foi-lhe apresentada como alerta para não tratar agulhas com descuido. igual às suas pernas e às pernas da sua mãe. e indo para o sul em busca de sua desamparada e pulsante presa? Será que deveria contar a história para Ljuba.) c Um relâmpago. Mesmo nas que chegam danificadas. em direção à axila. Elas chegam do útero com tudo novo. (N. Um parafuso na perna. T. pinos e suportes. “na falta de coisa melhor”. tudo em perfeita ordem. Talvez. correias. “não tenho nenhum parafuso em mim. Será que o aço é realmente contrário à vida? Agulhas podem realmente entrar na corrente sangüínea? Como poderia a mulher da história não ter notado a minúscula arma metálica viajando por seu braço acima. a agulha subiu pelas veias da mulher e com o tempo perfurou o coração dela e a matou. contaram-lhe a história de uma mulher que num momento de distração enfiou uma minúscula agulha de costura na palma da mão. Depois. Porque eu não tenho nenhuma perna artificial. (N.

ele está sozinho no apartamento. “me dê um tempo. É um domingo. de agora em diante me trate como um eunuco? Como pode dizer isso se talvez nem seja verdade? Porém. 9. “Como estão se dando você e sua ajudante diarista?” “Minha ajudante e eu nos damos bem. para eu saber como me comportar no futuro. Perna amputada não mata ninguém. Paul. “Acabou o quê?” “Você sabe do que estou falando. “Então acabou. eu cheguei ao fim da minha vida sexual. chega por trás até onde ele está sentado. Ele fica imóvel como uma pedra. Não fosse por ela eu podia acabar como um daqueles casos que se lêem no jornal. Oferece chá.” “Então sua ajudante diarista salvou sua vida. em que os vizinhos sentem um cheiro ruim e chamam a polícia para arrombar a porta. desta vez sem avisar. eu estou tentando .” “E a sua ajudante diarista?”. Margaret. ele diz.” “Não.” “Não seja melodramático. Paul?”. Que ótimo. acaricia a cadeira. Você fez uma pergunta. mas que alívio também! “Margaret”. Margaret faz uma segunda visita. Margaret. Mas como deve responder? É. Ela merece uma medalha. Ela gira pela sala. e se for mesmo verdade? E se o resfolegante corcel negro da paixão tiver entregado os pontos? O crepúsculo de sua virilidade. Que decepção.” Não é de ficar dando voltas no assunto. Você resolveu que acabou a sua vida sexual? Me diga francamente. mas as pessoas morrem de indiferença pelo futuro. Merece um prêmio. que ela recusa. ela pergunta. pergunta Margaret. obrigado. Não fosse por ela eu não me daria ao trabalho de sair da cama de manhã. Ele sempre gostou disso nela. indo direto ao ponto fraco. Quando vou conhecer essa pessoa?” “Não leve para o lado pessoal.

responder com sinceridade.”
Mas Margaret leva para o lado pessoal. “Eu já vou indo”, diz ela. “Não levante, eu saio
sozinha. Me telefone quando estiver pronto para a sociedade humana de novo.”

Nas sessões com o fisioterapeuta, foi alertado sobre a tendência de os músculos
seccionados se retraírem, puxando para trás o quadril e a pelve. Ele se apóia no andador e
com a mão livre explora a parte baixa das costas. Estará sentindo o começo de uma
protuberância para trás? Será que esse feio meio-membro está ficando ainda mais feio?
Se ele fosse ceder e aceitar uma prótese, haveria uma razão mais forte para exercitar o
coto. Na situação presente, o coto não lhe serve para nada. Tudo o que pode fazer é levá-lo
de um lado para outro como uma criança enjeitada. Não é de admirar que ele queira
encolher, se retrair, recuar.
Mas se esse objeto carnoso é repulsivo, muito mais ainda seria uma perna moldada em
plástico rosa com uma dobradiça no alto e um sapato embaixo, um aparelho que você
amarra no corpo de manhã e desamarra à noite, derruba no chão, com sapato e tudo!
Estremece ao pensar nisso; não quer saber disso. Muleta é melhor. Muleta pelo menos é
honesta.
Mesmo assim, uma vez por semana ele permite que um carro de aluguel venha buscá-lo
para ir à rua George em Norwood, para uma aula de reabilitação, dada por uma mulher
chamada Madeleine Martin. Há meia dúzia de amputados na classe, todos eles do lado
errado dos sessenta anos. Ele não é o único que não usa prótese, mas é o único que recusou
a prótese.
Madeleine não consegue entender o que chama de atitude dele. “Tem uma porção de
gente pela rua”, diz ela, “que ninguém diria que está usando próteses, de tão natural o jeito
como andam.”
“Não quero parecer natural”, diz ele. “Prefiro me sentir natural.”
Ela sacode a cabeça com risonha incredulidade. “É um novo capítulo na sua vida”, diz
ela. “O capítulo velho se encerrou, tem de se despedir dele e aceitar o novo. Aceite: é só isso
que precisa fazer. Então todas as portas que o senhor acha que estão fechadas se abrirão.
Vai ver só.”
Ele não responde.
Será que realmente se sente natural? Sente-se natural diante da ocorrência da rua
Magill? Não faz a menor idéia. Mas talvez seja isso que quer dizer natural: não fazer idéia.
Será que a Vênus de Milo se sente natural? Apesar de não ter braços, a Vênus de Milo é
tida como ideal da beleza feminina. Um dia ela teve braços, conta a história, mas seus
braços foram quebrados; a perda deles só faz sua beleza mais pungente. No entanto, se
descobrissem amanhã que a Vênus foi de fato feita a partir de uma modelo amputada, ela
seria imediatamente removida para um depósito no porão. Por quê? Por que a imagem

fragmentada de uma mulher pode ser admirada, mas não a imagem de uma mulher
fragmentada, independentemente de os cotos terem sido bem costurados?
Ele daria quase tudo para estar pedalando sua bicicleta pela rua Magill de novo, com o
vento no rosto. Daria tudo para abrir de novo um capítulo que está encerrado. Queria que
Wayne Blight não tivesse nascido nunca. Só isso. Fácil de dizer. Mas fica de boca fechada.
Membros têm lembranças, Madeleine diz à classe e tem razão. Quando ele dá um passo
com as muletas, o lado direito de seu corpo ainda gira no arco pelo qual a velha perna teria
girado; à noite, seu pé frio ainda procura o fantasma de seu gêmeo frio.
Sua missão, diz Madeleine, é reprogramar os sistemas de memória velhos e agora
obsoletos que nos ditam como nos equilibrar, como andar, como correr. “Claro que
queremos nos apegar a nossos velhos sistemas de memória”, diz ela. “Senão não seríamos
humanos. Mas não devemos nos apegar a eles quando atrapalham nosso progresso. Nem
quando se põem no nosso caminho. Estão me acompanhando? Claro que estão.”
Como todos os profissionais de saúde que ele encontrou ultimamente, Madeleine trata
os velhos confiados a seus cuidados como se fossem crianças — não muito inteligentes, um
tanto morosas, um tanto preguiçosas, que precisam de um empurrão. A própria Madeleine
está do lado certo dos sessenta, do lado certo dos cinqüenta, até mesmo do lado certo dos
quarenta e cinco; ela sem dúvida corre como uma gazela.
Para reprogramar as memórias do corpo, Madeleine usa a dança. Mostra vídeos de
patinadores com roupas justas escarlates ou douradas deslizando no gelo em curvas e
círculos, primeiro o pé esquerdo, depois o direito; ao fundo, Delibes. “Escutem e deixem o
ritmo tomar conta de vocês”, diz Madeleine. “Deixem a música correr pelo corpo de vocês,
deixem que dance dentro de vocês.” Em torno dele, os colegas que já adquiriram seus
membros artificiais imitam o melhor que podem os movimentos dos patinadores. Como
não consegue fazer isso — não consegue patinar, não consegue dançar, não consegue andar,
não consegue nem ficar em pé direito sem ajuda —, ele fecha os olhos, agarra-se nas barras
e oscila o corpo ao ritmo da música. Em algum lugar, em um mundo ideal, desliza pelo
gelo de mãos dadas com sua atraente instrutora. Hipnotismo, é só isso!, ele pensa consigo.
Que estranho; que antiquado!
Seu programa pessoal (cada um tem um programa pessoal) consiste em grande parte em
exercícios de equilíbrio. “Vamos ter de aprender a nos equilibrar de novo”, Madeleine
explica, “com nosso novo corpo.” É assim que ela chama: nosso novo corpo, não nosso
velho corpo truncado.
Há também o que no hospital era chamado de hidroterapia, e que Madeleine chama de
trabalho aquático. Na piscina escura na sala escura, ele segura a borda e caminha na água.
“Fique com as pernas retas”, diz Madeleine. “As duas. Como uma tesoura. Snip snip snip.”
Antigamente, ele seria cético com gente como Madeleine Martin. Mas, por enquanto,
Madeleine é o que tem à disposição para acreditar. Então, em casa, às vezes diante do olhar
de Marijana, às vezes não, repassa o programa de exercícios, até mesmo a parte de oscilar

ao ritmo da música.
“É bom, bom para senhor”, diz Marijana, concordando com a cabeça. “É bom senhor ter
ritmo.” Mas ela não se dá ao trabalho de esconder a nota de desdém profissional da voz.
Bom?, ele gostaria de dizer a ela. É mesmo? Não tenho tanta certeza de que seja bom para
mim. Como pode ser, se eu acho humilhante tudo isso, essa história toda do começo ao fim?
Mas não pronuncia as palavras. Se contém. Entrou na zona da humilhação; é o seu novo
lar; nunca mais o deixará; melhor calar a boca, melhor aceitar.
Marijana junta todas as calças dele e leva para a casa dela. Traz todas de volta dois dias
depois com as pernas direitas bem dobradinhas e costuradas. “Não cortei”, diz ela. “Senhor
muda de idéia e usa, sabe, o próstese. Vamos ver.”
Próstese: ela pronuncia como se fosse uma palavra alemã. Tese, antítese, e próstese.
A ferida cirúrgica, que não tinha dado nenhum trabalho até agora e que ele achou que
havia cicatrizado definitivamente, começa a coçar. Marijana a cobre com pó antibiótico e
enrola com bandagens novas, mas a coceira continua. De noite, piora. Ele tem de ficar
acordado para se impedir de coçar. A ferida lhe parece uma grande jóia inflamada
brilhando no escuro; ao mesmo tempo guarda e prisioneiro, ele está condenado a se
agachar em cima dela, para protegê-la.
A coceira diminui, mas Marijana continua a lavar o coto com particular cuidado, coloca
pó, enfaixa.
“Acha que perna cresce de novo, mr. Rayment?”, ela pergunta um dia, assim, do nada.
“Não, nunca pensei nisso.”
“Mesmo assim, quem sabe senhor pensa às vezes. Que nem bebê. Pensamento de bebê,
senhor corta, ela cresce de novo. Sabe como? Mas senhor não é bebê, mr. Rayment. Então
por que senhor não quer essa próstese? Quem sabe senhor tímido igual mocinha, hã? Quem
sabe, senhor pensa, anda na rua, todo mundo olha. Esse mr. Rayment, tem uma perna só!
Não é verdade. Não é verdade. Ninguém olha senhor. Senhor usa próstese, ninguém olha.
Ninguém sabe. Ninguém liga.”
“Vou pensar nisso”, ele diz. “Tem muito tempo. Todo o tempo do mundo.”
Depois de seis semanas de trabalho aquático e oscilação, de ser reprogramado, ele desiste
de Madeleine Martin. Telefona para a sua clínica fora do horário e deixa um recado na
secretária eletrônica. Telefona para o serviço de transporte e fala para não virem mais.
Pensa até em telefonar para mrs. Putts. Mas o que diria para mrs. Putts? Durante seis
semanas, esteve disposto a acreditar em Madeleine Martin e na cura que ela oferecia, a
cura para os velhos sistemas de memória. Agora parou de acreditar nela. Só isso, não se
trata de mais nada. Se resta ainda algum resíduo de convicção nele, mudou para Marijana
Jokić, que não tem estúdio e não promete nenhuma cura, só cuidados.
Curvada ao lado de sua cama, apertando sua virilha com a mão esquerda, Marijana
observa, balançando a cabeça, enquanto ele flexiona, estende e gira o coto. Com uma
ligeira pressão ela o ajuda a expandir a flexão. Massageia o músculo dolorido; vira-o de lado

Não porque imagens não possam mentir. mas porque. uma dupla de garotas camponesas com lenço na cabeça conduz um burro carregado de lenha por um atalho de uma montanha rochosa. encontra dois livros sobre a Croácia: um guia da Ilíria e da costa dalmática e um guia de Zagreb e suas igrejas. os Jokić trouxeram com eles do velho país a sua própria coleção de fotografias: batizados. imutáveis. Não é uma cura. diz quando acaba o tempo. “Não preocupe”. onde Oriente e Ocidente têm sentidos bem diferentes? O livro tem páginas com fotos em preto-e-branco. A garota mais nova sorri timidamente para a câmera.e massageia a parte inferior das costas. como se sentem na Austrália. crismas. que ela está preparada. por exemplo. porém — o caráter da Croácia e de seu povo —. Sua tendência é confiar nas imagens mais do que confia nas palavras. se puder e se ele permitir. O burro também. antes de Marijana ter sido concebida. ele aprende tudo o que precisa saber: que Marijana não acha desagradável esse corpo desgastado e cada vez mais frouxo. As fotos datam sabe-se lá de quando. “Obrigado”. Tira um livro chamado Povos dos Bálcãs. não há nada. suando de medo de que uma muleta possa escorregar. ou será ela filha do paraíso operário? Muito provavelmente. com tamanho sentimento que ela olha para ele intrigada. galinhas e baldes de água com uma crosta de gelo de manhã. a lhe transmitir através de seus dedos uma boa porção de sua própria boa saúde corada. não é feito com amor. segurando firme no corrimão. Em uma delas. uma vez que deixam a câmara escura. Todo o amor que existe na coisa fica do lado dele. reuniões familiares. Enquanto as histórias — a história da agulha na corrente sangüínea. Quando o táxi chega de volta ele está pronto. Uma pena que ele não possa ver isso. No toque da mão dela. Uma noite. ela replica. casamentos. é provavelmente nada mais que prática de enfermagem ortodoxa. cabras. Povos dos Bálcãs é de 1962. depois que Marijana sai. podiam estar mortas e enterradas. Sobre aquilo que veio procurar iluminar-se. ele chama um táxi e embarca sozinho na lenta descida de lado da escada. um mundo imemorial de burros. também diversos livros sobre a Federação Iugoslava e sobre as recentes guerras balcânicas. ou a história do encontro dele com Wayne Blight na rua Magill — parecem . Será esse o mundo em que Marijana nasceu. Povos dos Bálcãs: entre o Ocidente e o Oriente é o título inteiro. As duas meninas podiam ser avós agora. ele chegou à rua. mas é o que basta. revelando uma falha nos dentes. Na biblioteca pública — onde felizmente não tem de sair do andar térreo —. esperando. Será que era assim que os Jokić se sentiam em sua terra: presos entre o Oriente ortodoxo e o Ocidente católico? Se assim for. são fixas. Quando o táxi estaciona.

depois quando ficou claro que a velha magia das emulsões sensíveis à luz estava se acabando. as cópias em papel. Seu primeiro trabalho de verdade foi como técnico de câmara escura. O holandês que casou com sua mãe e a trouxe com os filhos de Lourdes para Ballarat mantinha uma fotografia da rainha Guilhermina lado a lado com uma estatueta de gesso da Virgem Maria na sala de estar. que para a nova geração o encanto estava em uma techne de imagens sem substância. se ficavam em silêncio na presença deles. mais tarde. No aniversário da monarca. Será que isso revela alguma coisa sobre ele. Quanto à política da família Jokić. Infidèle Europe. quanto ao nicho que eles podiam ocupar no mosaico das lealdades e inimizades balcânicas. essa preferência natural por preto-e-branco e tons de cinza. uma palavra aqui. na medida de suas possibilidades. tentando captar. fidelidade. falsificadas.mudar de forma o tempo todo. no meio da estática. sempre lhe pareceu mais um aparelho metafísico do que mecânico. mulheres e crianças que ofereceram seu corpo à lente do estranho. Dá-lhes um bom lar e cuida para que. os homens. como se fosse uma santa. ou caçoavam de seu inglês errado. seu maior prazer estava sempre no trabalho no escuro. À noite. como se estivesse presenciando o dia da criação. Mas isso não é inteiramente verdade. a Austrália tinha de ser a terra ensolarada da oportunidade. Diante de uma esposa dúbia e dois enteados infelizes. únicas. Ele as guarda também por fidelidade às próprias fotografias. ele se encolhia diante do rádio de ondas curtas. ele às vezes experimentava um pequeno arrepio de êxtase. sua esposa em particular: de cor. quando veias escuras no papel começavam a se juntar e ficar visíveis. da rádio de Hilversum. Ao mesmo tempo. algum estranho ainda não nascido se volte para o passado e guarde uma foto dele. começou a perder o interesse pela fotografia: primeiro quando a cor dominou. A câmera. na medida das possibilidades de qualquer um. com seu poder de captar luz e transformá-la em substância. fé. que podiam ser sugadas para dentro de uma máquina e emergir dela retocadas. Por isso é que. de abertura? A história que contou a Marijana foi que guardava velhas fotografias por fidelidade a seus personagens. Quando a imagem fantasmagórica aparecia debaixo da superfície do líquido. Se os nativos não eram receptivos. em troca. Como a maioria dos imigrantes. estava desesperado para que o país de sua nova devoção se mantivesse à altura da idéia que havia feito dele à distância. outra ali. do extinto Rayment da Coleção Rayment. os sentimentos que têm pelo velho país provavelmente são mistos. venham a ter um bom lar depois que ele for embora. não importava: tempo e trabalho duro . imagens que podiam espoucar no éter sem residir em parte alguma. Talvez. nunca interrogou Marijana e não tem intenção de fazê-lo. Ele desistiu de registrar o mundo em fotografias então e transferiu suas energias para a conservação do passado. ele acendia uma vela diante da imagem dela. a maioria delas últimas sobreviventes. ele costumava dizer da Europa. essa falta de interesse pelo novo? Será disso que as mulheres sentem falta nele. o retrato da rainha trazia a divisa Trouw.

Ljuba e a outra. eles deviam ter formado sua própria imagem da Austrália. Quanto a seus filhos. mais clara e mais distanciada. arrastando os pés entre os vasos de plantas de sua estufa caindo aos pedaços. A fé desse homem ainda resistia quando o viu pela última vez.esgotariam essa hostilidade. . marido e mulher. pálido como um cogumelo. aos noventa anos. deviam se apegar a uma variante da fé do holandês. Drago. Os Jokić.

o suficiente para uma boa bicicleta de segunda mão.” Pesca a chave do depósito de uma confusão de chaves numa gaveta e entrega ao rapaz. Ele e seus amigos. “Sua mãe me disse que você gosta de . A possibilidade de os canos estarem rachados é de dez para um. com roda. diz ele. Rayment tem uma bicicleta que quer consertar para poder vender. um dos quais tem acesso a uma loja de peças. Uma manhã. eixo do cubo. “Quem sabe conserta. claro. Marijana aparece em companhia de um rapaz alto.” Como ele disse? O que pode ter dito? Que podia dar a Drago uma lição de segurança no trânsito? A história que Marijana inventou para fazer o filho desistir da própria manhã aparece só pouco a pouco: que mr.” “O. Na minha opinião. Se a estrutura está rachada ou não. mas que. “Obrigado por ter dado uma olhada nisso”.k. renderia a ele. prazer em conhecer você. A estrutura entortou. diz o rapaz. Mas dê uma olhada. sendo não só aleijado. É um conselho absolutamente razoável. “Eu traz ele para conversa com senhor”. é o que ele próprio diria. mr. diz Marijana.” (Mas ele se pergunta o que deu a ela a idéia de que quer que consertem os restos de uma bicicleta.) “Olá. obrigado por ter vindo. mas desajeitado também. não consegue fazer o conserto sozinho. é impossível dizer de imediato. Drago. 10. não tem mais jeito.” “Claro. Mas mesmo assim. “Veja o que acha. Drago volta da inspeção e faz o relatório.”. inconfundível: Drago. Rayment. diz Marijana quando estão sozinhos. podem provavelmente desentortar o cano e repintar com spray. câmbio e freios novos. Provavelmente. É o rapaz da fotografia. “Como senhor disse. “Meu filho vem olhar sua bicicleta”.

ansioso para o velhote acabar logo. poderia acontecer com você da mesma forma. Ele pigarreia. pode crer. Fiquei um tempo no hospital. Tenho de depender de outras pessoas para as menores coisas. “Drago. Será que o rapaz está absorvendo a lição que deve absorver? Marijana está recebendo o que quer? Ele desconfia que não.” Ele dá uma olhada para Marijana que o rapaz finge não perceber. Mas a sensação que ele tem é que esse jovem prefere o laconismo. Mas ela me pediu que falasse com você e eu concordei. Disse que estava com o sol contra. eu voltava. do motociclismo. diria que o jovem Drago iria ficar sentado ao longo de um sermão desses com os olhos baixos. passe as noites em casa curvado em cima de um livro enquanto os amigos estão na rua se divertindo? Que deixe a Yamaha nova e cintilante na garagem e pegue um ônibus? Drago Jokić: nome de um épico folclórico. Bom. amaldiçoando a mãe por tê-lo trazido ali. do nada. Ao longo de seu discurso. sou só o homem de que sua mãe cuida e muito grato a ela por isso. beliscando as cutículas. Olhando para mim você pode achar que não. O que mais ela quer que ele diga? “Minha mãe disse que o senhor teve um acidente muito sério”. filho. “Olhe.” “Que ótimo. meu pai comprou para mim uma Yamaha de duzentas e cinqüenta cilindradas.” “É. Na verdade. um ligeiro mas nada agressivo sorriso nos . mas eu tinha uma vida bem movimentada. Agora não posso nem sair para fazer compras. por analogia. o rapaz propõe. que faça o rapaz entender as agonias da mutilação e as humilhações do estado de aleijado. Entende?” Se lhe pedissem para prever. E tudo aconteceu em uma fração de segundo. Sua mãe é uma boa pessoa. O que eu quero dizer é o seguinte: se eu pudesse voltar o relógio para antes do acidente. Não arrisque sua vida.motocicletas. “É. E que profunda transformação Marijana quer que ele produza afinal? Será que realmente espera que esse belo rapaz. Acho que devia ouvir o que ela diz. do que de Paul Rayment. Ela quer que ele seja mais eloqüente — que alerte o rapaz sobre os perigos do ciclismo e. Disse que eu não dei sinal. se Drago tivesse de ficar do lado de alguém na história do choque da rua Magill. O motorista disse que não me viu. É só isso que eu vou dizer. Mas não é nada assim. Sua mãe quer que você seja cuidadoso com a moto. explodindo de saúde. não vale a pena. A balada de Drago Jokić.” Marijana sai da sala. eu não significo nada para você.” “Mau. sua mãe me pediu que trocasse uma palavra com você em particular. um jovem rápido por trás da direção. o mais provável é que fosse do lado de Wayne Blight. ela ama você. Ele se volta para o rapaz. um velho esquisito e distraído de bicicleta.” Um silêncio.” “O que aconteceu?” “Um carro me pegou quando eu estava virando. que não vai receber bem um sermão. Drago olha para ele com franqueza.

diz a si mesmo. Mas isso pode ajudar sua mãe. por trás. espanando as cordinhas das palavras como se fossem teias de aranha. mas agora exprime pura alegria: apesar do fato de ele ser inútil com as mãos e um aleijado na expressão da palavra. “Minha querida Marijana”. mas o movimento basta por enquanto.” Dá um pálido sorriso. “Mensagem recebida. em um momento de alta emoção a pessoa é desculpada por deslizar em alguma expressão de carinho —. “O. que vai chegar a almirante. “tenho certeza de que ele vai se cuidar bem. que dê uma palavrinha com você. Ao falar. Sinto muito pela bicicleta. Como uma agulha no coração. Muito bom em tudo. eu a amo!: são essas as palavras que estão a ponto de explodir de dentro dele. curva-se e encosta os lábios na testa dela. Marijana volta. ele tem consciência de que o rapaz está observando seus lábios. crescendo aos saltos e pulos.”. em torno ou por baixo das palavras. ela acredita que ele tem o poder de predizer o futuro.” . ou uma espada. “Só estou tentando ajudar. já que uma coisa destas” — dá um tapa de leve no quadril ruim. mãe. “Tchau. Certo?” Existem as palavras em si e depois.” “Acha mesmo?”. Muito inteligente. diz Marijana. se é isso que ele quer. “Ela gosta do senhor também. O primogênito dela.k. Não é de admirar que a mãe esteja temerosa. O respeito dele pelo rapaz está crescendo.” E vai embora. não dá para evitar. “Eu já vou indo”. diz ele — alta emoção. Pode ajudar sua mãe a saber que você sabe que ela te ama e que quer o seu bem. jocosamente — “simplesmente acontece. Vou tomar cuidado.” Ela gosta dele também. “Por isso falei com você.lábios bem desenhados. “Muito bom na natação. a ponto de pedir a um estranho. Um telefonema nas primeiras horas da manhã: “É mrs. Não porque eu ache que possa salvar você falando. não dá para prever. não gosta?”. Rayment. Podia dizer mais. diz ele ao final. existe a intenção. Drago se levanta. só isso”. A balada de Drago Jokić. Seu coração incha desmesuradamente. mr.” Do alto de sua estatura. esse rapaz! Deve ser a inveja dos deuses. focalizando o ouvido na intenção. “É muito bom no tênis”.” E depois de uma pausa: “O senhor gosta da minha mãe. diz ele. Jokić? A senhora tem um filho chamado Dragon? É do hospital de Gumeracha”. Nada comum. é o que diz apenas. eu. Eu não gosto dela apenas. o sorriso não sumiu dos lábios dela. “Que ótimo. “Tchau. Tenho certeza de que vai ter uma vida longa e feliz. Ele faz que sim com a cabeça.

não tendo parido filhos nunca. porém antes de ela chegar no dia seguinte ele se agita no apartamento. o patrão dela. todas as nuvens escuras. Ele é como uma mulher que. Fome suficiente para roubar o filho de outra: é uma coisa louca assim. Drago. demorando em sua memória. Chega a pedir que entreguem flores para alegrar a insipidez. agora repentina e urgentemente tem fome de maternidade. quer. há muito necessária. ardentemente. Ljuba e a terceira. que provoca a mudança há muito esperada. não tem a menor das más intenções em relação a ele. em certo sentido. protegê-los. Quer amar e agradar a Marijana e seus filhos. 11. que sorria para ele. por pequeno que seja. velha demais para isso. O que ele quer da mulher? Quer que ela sorria de novo. claro. e marido de Marijana — co-pai se for preciso. de todos eles. De imediato a melancolia desaparece. fazendo o possível para deixar as coisas brilhando para ela. excelentes. sim. Ele é o empregador de Marijana. Mas Drago acima de tudo ele quer salvar. Quanto ao marido. platônico se for preciso. É o sorriso de Marijana. Está pronto a se interpor entre Drago e o raio dos deuses invejosos. pode jurar. aquele cujos desejos ela é paga para satisfazer. salvá-los. Será que quer virar amante dela também? Quer. A situação é absurda. Quer tomar conta deles. não ainda. Quer um lugar no coração dela. Salvá-los de quê? Não sabe dizer. Deseja ao marido toda a felicidade e boa sorte. Mesmo assim. aquela em quem ele ainda tem de pousar os olhos. . co-marido se for preciso. daria tudo para ser o pai daqueles filhos belos. pronto a desnudar o próprio peito.

“Esse fim de semana ele vai com os amigos para praia de Tunkalulu. Provavelmente é diferente lá na sua terra. desanimada.” Lá na sua terra. Fiquei contente que senhor fala com ele semana passada.” É a primeira crítica que ela formula ao marido ausente. “Existe um clima de machismo. Para ser ousado. elas soam condescendentes. mas não há mais. É assim que diz — Tunkalulu?” “Tunkalilla.” “Vão de moto. Falou. esse o problema. ou nos melhores colégios internos. Meninas também. Ele espera mais. Ela dá de ombros. 12. Acho também que é um erro. achar que num colégio interno os jovens são vigiados dia e noite para garantir que não sofram nenhum acidente. meninos malucos. ele não tem muito palavras paternas. “Como vai o Drago?”. Rayment?” “O que eu acho de colégio interno? Acho que pode ser muito caro. cauteloso. como senhor diz. É igual gangue. Mas pode-se receber uma boa educação em um colégio interno. “O que senhor acha de colégio interno. É isso que está pensando para Drago? Já se informou da mensalidade? Deve fazer isso primeiro. Amigos malucos.” “É. ele responde. ele pergunta a Marijana o mais despreocupadamente possível. em esportes masculinos. disso não há dúvida. Por que os rapazes não haverão também de ser rapazes lá na terra dos Jokić? O que ele sabe sobre as formas que a virilidade assume no sudeste da Europa? Espera que Marijana o corrija. não dá para acreditar. um erro grave. mr. tão novinhas. Agora que ele escuta as palavras. “Este país não é fácil para um rapaz crescer”. Muita pressão para o rapaz se superar em atitudes masculinas. Assumir riscos. A . Mas ela está pensando em outra coisa. Só umas palavras paternas.” “Não foi nada. Estou com medo.

mr. talvez até que seus lábios se curvaram de desdém enquanto os olhos cintilavam de secreto triunfo. Ou cujas mães são enfermeiras de idosos. ele sussurra. fosse contra o calor ou contra o frio. Deixe. não fossem os olhos pretos atentos. pulando as palavras que não conhecia. “Uma mulher. Rayment?” “Posso fazer um empréstimo.” Agora o eco das palavras dele parece ter chegado a ela. sem dúvida. que chegavam em pacotes de papelão pardo com o timbre da Librairie Hachette e uma fileira de selos com a cabeça da severa Marianne envergando seu barrete frígio.” Há um momento de silêncio. “e se o próprio Drago quer mesmo ir. “Mas se você está falando sério”. que franze a testa. com as pernas uma de meia escarlate.” É um dos dias em que trouxe Ljuba com ela. “Agora diga. e que ele leria secretamente depois dela. “Por quê?”. Parece genuinamente perplexa. No futuro de todos nós. absurdamente alta.” “Por quê?” “É um investimento no futuro dele. vocês podem investigar isso. “Nós pensamos. sempre sabe. Então. “Senhor empresta dinheiro para nós. deve saber. Marijana”. Sem juros. Amo você e quero te dar alguma coisa.” O que ele se controla para não dizer é: Alta a ponto de excluir filhos cujos pais trabalham em montadoras de carros para ganhar a vida. “Você. que talvez não tenha assimilado as palavras dele e o que possa haver por trás delas.” Ela sacode a cabeça. ele investe. Podemos pensar nisso como um empréstimo. Obedientemente.” Ela murmura alguma coisa para a menina. a menina podia ser tomada por uma boneca. . Ljuba pega sua mochilinha pink e vai para a cozinha. eu poderia ajudar financeiramente. “Não entendo. com o tênis e tudo”. o coração batendo forte. e ao falar sente a precipitação do que está dizendo. Vocês podem me pagar quando Drago começar a ganhar. astronômica mesmo.” “Eu conto. mas não consegue se controlar. livros sobre os quais sua mãe suspirava na sala de estar de Ballarat onde as venezianas estavam sempre fechadas. De jardineira escarlate.” “Eu te amo. “Não entendo. em particular. uma bolsa sem dúvida é uma possibilidade. estaria escrito que os lábios de Marijana se curvaram de desdém. “Pronto”. como parte de sua sempiterna busca de descobrir o que lhe agradava. Não dá para voltar atrás. Está com a boca seca. pensa ele. Só isso. “Claro. os braços largados ao longo do corpo. não quer se controlar.” Nos livros que sua mãe costumava encomendar em Paris quando ele era criança. diz Marijana. repete. é tão horrível e tão emocionante como quando tinha dezesseis anos. falei. outra de meia roxa. quem sabe ele consegue bolsa de estudos. sem dúvida. estendida no sofá.” Ela sacode a cabeça de novo. diz Marijana.” “Ou a gente arruma empréstimo.mensalidade pode ser alta.

Marijana sacode a mão como se estivesse limpando um vidro ou sacudindo um pano de prato. vê sentido em uma perna artificial. quando deixou a infância para trás. Marijana diz. venha a amá-lo de volta? . Peito contra peito. Ele. Pelo que pagará qualquer coisa. era abraçar a mulher. vira- se e o inspeciona curiosamente. Se o lábio dela se curva ou não. Sobre toda a prole ele quer estender o escudo de sua benevolente proteção. ela diz. talvez cair. por um momento que seja. ela não poderia escapar. Mas será que ousa. Então. Ele quer que Ljuba e a irmã mais velha cresçam felizes também e alcancem o desejo de seus corações. Se algum dia existiu — coisa de que duvidava — um código de olhares que. Ele agiu. “Temos de ir embora”.” Ela enfrenta o olhar dele francamente. E quer o amor dessa excelente mulher. no outro a mochila pink. acredita que Marijana corou. Quer que Drago tenha uma boa educação e. sem nenhuma hesitação. “É isso que estou oferecendo. se o mar realmente ainda for o desejo de seu coração.” E num rápido movimento desaparecem. Cai um silêncio. claro. confessou seu amor. uma perna com um mecanismo que trava no joelho e assim libera os braços. A menina. Pela primeira vez. qualificar-se como oficial naval. despejou todas as suas esperanças. Isso acima de tudo. rapidamente. de polegar na boca.Mas. parece efetivamente preparada para ouvir mais dessa extraordinária e irregular declaração. um velho de dedos nodosos. Embora ele não possa jurar. o cabelo está solto. O lenço vermelho desapareceu. Mas ao menos não vira as costas. Marijana nada faz para ajudar. e o encanto se quebra. esperar que essa mulher. em quem. Está murmurando no ouvido da menina. sem previsão. “Senhor paga para Drago ir para colégio interno?”. levado pelo vento. O que ele devia fazer. “Obrigada. diz ele. se ainda tiver a ambição. ele perdeu a fé no mundo da Hachette. permitiria que se lessem infalivelmente os movimentos transitórios de lábios e olhos humanos. ela sai da sala. É isso que ele quer? Pagar pela educação de Drago? É. uma vez dominado. mãe deles. depois disso. Traz num braço Ljuba. Um momento depois está de volta. esse código teria desaparecido agora. Mas para abraçá-la teria de pôr de lado as absurdas muletas que lhe permitem ficar em pé. e se fizer isso poderá se desequilibrar. “É”.

13.

No dia seguinte, Marijana não vem. Também não vem na sexta-feira. As sombras que ele
achou que tinham ido embora para sempre retornam. Telefona para a casa dos Jokić,
atende uma voz feminina, não a de Marijana (de quem?, da outra filha?), na gravação de
uma secretária eletrônica. “Aqui é Paul Rayment, para Marijana”, diz ele. “Pode me
telefonar, por favor?” Ela não telefona.
Ele se senta para escrever uma carta. Cara Marijana, escreve, temo que tenha me
entendido mal. Deleta o me e escreve minhas intenções. Mas o que ela pode ter entendido
mal? Quando a conheci, escreve, começando um parágrafo novo, eu estava num estado
dilacerado. O que não é verdade. O joelho podia estar dilacerado, e seus projetos, mas não
seu estado. Se ele soubesse a palavra para descrever o estado em que estava ao conhecer
Marijana, saberia também o que quer dizer, no dia de hoje. Deleta dilacerado. Mas o que
colocar no lugar?
Enquanto está nessa hesitação, a campainha da porta toca. O coração dele dá um salto.
Será que, afinal, não vai precisar da palavra perturbadora, e da carta perturbadora?
“Mr. Rayment?”, diz a voz no interfone. “Aqui é Elizabeth Costello. Posso falar com o
senhor?”
Elizabeth Costello, seja ela quem for, demora bastante para subir a escada. Quando
chega à porta, está ofegante: é uma mulher de seus sessenta e tantos anos, ele diria, os
últimos mais que os primeiros sessenta, com um vestido estampado de flores decotado
revelando ombros não atraentes, sardentos, um tanto carnudos.
“Coração ruim”, diz ela, se abanando. “Impedimento quase tão grande quanto” (ela faz
uma pausa para recuperar o fôlego) “uma perna ruim.”
Vinda de uma estranha, a observação parece a ele inadequada, imprópria.
Ele a convida para entrar, para sentar no sofá. Ela aceita um copo de água.

“Eu ia dizer que era da Biblioteca Estadual”, diz ela. “Ia me apresentar como uma
voluntária da Biblioteca, que vim avaliar o porte de sua doação, o porte físico eu quero
dizer, as dimensões, para podermos planejar com antecedência. Depois eu revelaria quem
sou de verdade.”
“Não é da biblioteca?”
“Não. Isso ia ser uma desculpa.”
“Então, a senhora é...?”
Ela dá uma olhada pela sala com algo que parece aprovação. “Meu nome é Elizabeth
Costello”, diz ela. “Como eu já disse.”
“Ah, a senhora é aquela Elizabeth Costello? Desculpe, eu não imaginei. Me perdoe.”
“Não tem de quê.” Das profundezas do sofá ela luta para se levantar. “Vamos direto ao
assunto? Nunca fiz isto antes, mr. Rayment. Pode me dar sua mão?”
Por um momento, ele fica confuso. Dar a mão? Ela estende a mão direita e ele a pega.
Durante um momento, a mão feminina, roliça e bastante fresca repousa na sua, que ele
nota, desgostoso, ter assumido o tom lívido que assume quando ele fica muito tempo
inativo.
“Então”, diz ela. “Eu sou como são Tomé, como pode ver.” E quando ele se mostra
perplexo: “Quero dizer, por querer descobrir por mim mesma que tipo de ser é o senhor.
Por querer ter certeza”, continua ela, e agora ele realmente não entende nada, “de que
nossos corpos não iam atravessar um ao outro. Ingênuo, claro. Não somos fantasmas,
nenhum de nós dois — por que eu haveria de pensar isso? Podemos continuar?”.
Ela torna a se sentar, pesadamente, endireita os ombros, e começa a recitar. “O choque o
colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faísca elétrica, e levanta seu
corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar, e assim por diante.”
Ela faz uma pausa e inspeciona o rosto dele, como se quisesse medir o efeito que está
obtendo.
“Sabe o que eu perguntei a mim mesma quando ouvi essas palavras pela primeira vez,
mr. Rayment? Eu me perguntei Por que eu preciso desse homem? Por que não esquecer dele,
pedalando tranqüilamente a sua bicicleta, inconsciente de Wayne Bright ou Blight, vamos
chamar de Blight, vindo com estrondo por trás dele para arruinar* sua vida e jogá-lo
primeiro no hospital, depois de volta a seu apartamento com essa escada inconveniente?
Quem é Paul Rayment para mim?”
Quem é essa maluca que eu botei pra dentro de casa? Como vou me livrar dela?
“E qual a resposta para sua pergunta?”, ele replica, cautelosamente. “Quem sou eu para a
senhora?”
“Você veio a mim”, ela diz. “Sob certos aspectos, eu não controlo o que me vem. Você
veio, junto com a palidez, as costas curvas, as muletas, o apartamento ao qual se apega tão
obstinadamente, a coleção de fotografias e todo o resto. Junto também com Miroslav Jokić,
o refugiado croata — é, é esse o nome dele, Miroslav, os amigos o chamam de Mel —, e

seu vago envolvimento com a mulher dele.”
“Não é vago.”
“É, sim. A quem você expôs seus sentimentos, em vez de guardar para si mesmo, mesmo
não fazendo idéia, e você sabe que não faz a menor idéia, das conseqüências. Pense um
pouco, Paul. Está pensando seriamente em seduzir sua funcionária a abandonar a família e
vir morar com você? Acha que vai trazer felicidade para ela? Os filhos dela vão ficar bravos
e confusos; vão parar de falar com ela; ela vai ficar deitada na sua cama o dia inteiro,
chorando, inconsolável. Você vai gostar disso? Ou tem outros planos? Planeja que Mel se
jogue no mar e desapareça, deixando esposa e filhos para você?
“Volto à minha primeira pergunta. Quem é você, Paul Rayment, e o que há de tão
especial em suas inclinações amorosas? Acha que é o único homem que no outono de seus
anos, no fim do outono, posso dizer, pensa ter encontrado o que nunca conheceu até então,
o amor verdadeiro? Mr. Rayment, histórias assim existem aos montes. Vai ter de achar uma
desculpa melhor para o seu caso.”
Elizabeth Costello: está começando a lembrar quem é ela. Tentou ler um livro dela uma
vez, um romance, mas desistiu, não prendeu sua atenção. De vez em quando, topava com
artigos dela na imprensa, sobre economia, ecologia ou direitos dos animais, que deixou
para trás porque os assuntos não o interessavam. Houve tempo (ele agora está varrendo a
própria memória) em que ela foi famosa por uma coisa ou outra, mas isso parece ter
acabado, ou talvez tenha sido só outra tempestade da mídia. Cabelo cinzento; cara cinzenta
também, com um coração ruim, como ela disse. Respiração acelerada. E aqui está ela
pregando para ele, dizendo como deve levar a vida!
“Que rumo a senhora preferiria que eu tomasse?”, ele diz. “Que história me tornaria
digno de sua atenção?”
“Como é que eu vou saber? Pense em alguma coisa.”
Mulher idiota! Devia jogá-la para fora.
“Força!”, diz ela.
Força? Forçar o quê? Força! é o que se diz para uma mulher em trabalho de parto.
“Invente diante da morte”, diz ela. “Rua Magill, o próprio portão da morada dos mortos:
como você se sentiu quando rolou pelo ar? A sua vida inteira passou diante dos seus olhos?
Como lhe pareceu em retrospecto a vida que estava a ponto de deixar?”
Será verdade? Será que ele quase morreu? Sem dúvida existe uma distinção entre estar
correndo risco de morrer e estar às portas da morte. Será que essa mulher sabe alguma coisa
que ele não sabe? Voando pelo ar aquele dia, ele pensou — em quê? Que não se sentia tão
livre desde que era menino, quando podia saltar sem medo de árvores, uma vez até de um
telhado. E depois a exalação quando atingiu a rua, a respiração saindo de dentro dele num
chiado. Poderia uma mera exalação ser interpretada como um último pensamento, uma
última palavra?
“Fiquei triste”, ele diz. “Minha vida pareceu frívola. Que desperdício, eu pensei.”

tanto quanto o senhor. não. Não pedi para passar uma tarde perfeitamente boa neste triste apartamento seu. ele olha de novo. mr. O que essa mulher está querendo fisgar? Mas a mulher parece ter perdido o interesse em sua questão. pergunta. ele nota as panturrilhas gastas.” “Ah. fazendo força para se levantar. do calor.” “Acho que não. “Deixe ajudar. “não é assim. “Quando estiver se sentindo melhor.” “Então vá! Saia do apartamento. “Não ligue para mim”. olha pela janela. com veias azuis. Ele tenta voltar para o livro que estava lendo. “No banheiro. os hóspedes não convidados? Faça de conta que não estou aqui. “Gostaria de deitar? Tenho uma cama no escritório. “Agüente”. Há uma tosse. O que quer de mim?” . o ousado rapaz do trapézio voador. Rayment”. “Tem uma aspirina?”. sai do fundo de sua garganta. um braço sobre os olhos. diz ela.” “Pedir o quê?” Não consegue evitar a irritação na voz. Melancolicamente. “Não pedi o senhor. pega o braço dela. Apesar das meias de náilon. de subir a escada. não”. Que mais?” Que mais? Nada mais. ele replica. ela tira os sapatos e se estende. resmungando. “Desculpe. apoiado em uma muleta. sim. eu acho. obrigada. É só isso que eu tenho. Eu ainda não faço a menor idéia de por que a senhora veio. vai encontrar paracetamol. de fato. Ela está parada na porta. como cascalho mexido. A pele dela está perceptivelmente pegajosa. dentro do armário. Rayment. acho que sim. “Triste. A cama no escritório é de fato bem confortável. diz ela. Ele faz o que pode para remover a bagunça de cima dela. mas não consegue se concentrar. Ainda vou ficar com você um pouco. está nauseada.” Ele se levanta e. Posso oferecer uma xícara de chá?” Ela abana a mão. Ele voa pelo ar tão cheio de graça. de repente não estou me sentindo bem”. de sabe-se lá que mais. O futuro previsível é que vou acompanhar o senhor. Não soa saudável.” Ela levanta o braço que estivera protegendo os olhos e ele vê que ela sorri ligeiramente. “Não é o fim do mundo. Ela está dormindo. quero deitar um pouquinho. “Eu não pedi por isto. A dentadura de baixo faz um volume para fora. em retrospecto. eu telefono pedindo um táxi. E. pensa. mr. A vida dele parece frívola.” Meia hora depois. de meias. se é tão ofensivo para a senhora.” “Não. diz ela.” Ela faz um gesto para empurrar as almofadas do sofá. O coxo carregando o aleijado. “Não é isso que nós dizemos. nós. “É só uma tontura. não. diz ela. diz ela. e fica triste.” “Não adianta fazer cara feia para mim. um som ligeiramente raspado.” “Vou deixar a senhora descansar”. Quero.

E ela é casta. O senhor tem alguma proposta?” Ele fica quieto. não faço a menor idéia. especializado em tecnologia de antigüidades. Foi lá que se conheceram. “Pode não ver razão para isto. Mas ser amado tem um preço. os vizinhos vão pensar que está me batendo. Como você disse. Quer dar. sem futuro e com uma paixão inadequada. “O que sabe sobre eles?” “Marijana Jokić. “A senhora mencionou os Jokić”. “O senhor me veio. ele diz. Nunca caiu em tentação. eu sei.” Ela se deixa cair em uma poltrona. Marijana não vai pagar o preço. Daí o trabalho na fábrica de carros.. Agora vou ter de encontrar outro trabalho: é isso que ela pensa consigo mesma. Para onde vamos daqui. não grite. Ela já esteve nessa situação antes. Ela acha isso cansativo. a menos que a gente seja inteiramente sem consciência.” Seguir intuições: o que será que isso quer dizer. Estou invadindo. Ele era um técnico. como um velho casal de marido e mulher que declara uma trégua.” “Eu entendo. aquelas que de início não consigo entender. Estou sendo clara?” . bota ovos. é uma moça urbana. o pato mecânico que havia ficado duzentos anos aos pedaços no porão do instituto. diz ele. para a busca de intuições. Foi assim que construí minha vida: seguindo intuições. Foi ele quem remontou. que não conseguem se segurar. diz ela. Aqui não temos patos mecânicos. O senhor. “Está só arriscando. “Gostaria que fosse assim tão simples”. É uma das pièces de résistance da coleção deles. O sol está se pondo. O senhor me veio. O senhor me ocorreu — um homem com uma perna ruim. afinal. “Desculpe. alguém em quem nunca botou os olhos? “A senhora pegou meu nome da lista telefônica”. Não faz a menor idéia de quem eu sou de verdade. tão baixinho que ele mal capta as palavras. que cuida de você. ele grasna como um pato comum.” “Não estou tentando ninguém. com pacientes que ficaram caídos por ela. inclusive aquelas que de início não consigo entender. Agora. por exemplo. só posso dizer isso. ficam um momento sentados ouvindo os pássaros guinchar suas vésperas nas árvores. quer simplesmente despejar seu amor sobre ela. O marido dela também trabalhava no instituto. Pena que na Austrália não haja demanda para os conhecimentos que ele domina. mr. no concreto? Como ela pode ter intuições sobre um estranho total. Rayment. Em todos os seus anos de casamento nunca foi infiel.” “Eu vim até a senhora? A senhora é que veio a mim!” “Sh. nada. “O que mais posso dizer que você ache interessante? Marijana nasceu em Zadar. pelo que dizem. Eles se aquietam e. Foi aí que começou. não distingue a cabeça do rabo de um burrico.” Ela sacode a cabeça. Acima de tudo.. enferrujando. mas é isso que eu faço. Ela não contou? Passou dois anos no Instituto de Artes de Dubrovnik e diplomou-se em restauração. é uma mulher educada.

para manter você no rumo.” Devagar. Luminoso demais. de vez em quando. Você quase nem vai notar que estou aqui. porém o rapaz tem a marca da morte nele.” “E por que tenho de aceitar isso? E se eu recusar?” “Vai ter de aceitar. então não vou dar. Queira ou não. de ricota e espinafre”. de manhã vai ter de ir embora. Elizabeth Costello sacode a cabeça. a expansividade de uma fruta plenamente madura. para a esquerda. Não vou deixar minhas calcinhas penduradas no banheiro.) . “Você está fisgado por alguma coisa. decidida..” * Jogo de palavras intraduzível: blight. “Alguma qualidade dela atrai você. Para eles. “Não é possível. (N. vou ficar com você um bom tempo. prometo. mas vamos só até aí. diz ela. lúgubres e sonolentos. Deixe eu sugerir por que Marijana deixa essa impressão. “Ainda tem um resto de canelone de Marijana no freezer. não está?”. Não vou ficar no seu caminho. Só um toque no ombro. “Aceita? Depois disso não sei quais são seus planos. Ele fica quieto. Ela se expande porque é amada. Não depende de você. sinto muito. Nós dois vemos isso. Se sentem à vontade no mundo.” “Dá vontade de chorar. Paul. Bonito demais.. Mas a razão por que os filhos dela tanto impressionaram você. essa qualidade é a expansividade dela. o verbo aqui usado para “arruinar”. é que eles cresceram encharcados de amor. Serei uma hóspede-modelo.” Estão ficando lúgubres. T. Ele reage. o rapaz e a menina pequena. os dois. para a direita. em você e em outros homens também.” “Porém.” “É. diz ele. Você não vai querer ouvir os detalhes. Como muito pouco. Se quiser passar a noite aqui. esteja à vontade. tão amada quanto se pode esperar neste mundo. é um bom lugar. No meu entender. é também o sobrenome do personagem.

Com toda a certeza não precisaria vir morar com você. “Antes fosse assim tão simples. mas não consegue encontrar. simplesmente iria em frente. mr. Se afaste. Mudaria seu nome. como eu disse: o homem com a perna ruim. “Devo concluir”. Não. e por que não acha que precisa de meu consentimento antes?” Ela suspira. Rayment. Ele não lhe oferece refeições e ela não pede isso. Elizabeth Costello é uma hóspede-modelo. Não vou deter você. Não sou uma pessoa afável. É verdade mesmo. diz ele no domingo à noite. ele observa.” “Por que não é simples? Me parece bem simples.” Ele está ficando cansado de ouvir que veio a essa mulher. o mais seco que pode. ele caça o texto. Está escrevendo um livro e vai me colocar nele? É isso que está fazendo? Se for. uma ou duas circunstâncias da sua vida. “Desista de mim. passa o fim de semana absorta em um volumoso texto datilografado. Durante uma dessas ausências. sem dizer uma palavra. E vice-versa. “Você não acharia mais fácil usar alguém que venha a você de mais boa vontade?”. você veio a mim. “Se eu fosse colocar você num livro. que tipo de livro é. O que faz consigo mesma ele só pode adivinhar: talvez fique vagando pelas ruas de North Adelaide. você não vai demorar para descobrir. apenas para ver o que é. como diz. “que você veio bater na minha porta para me estudar e me usar em um livro?” Ela sorri. e pronto.” “E a sua paixão inadequada? Onde é que eu vou achar outra assim?” . desaparece do apartamento. no qual parece estar fazendo anotações. Curvada em cima da mesinha de centro no canto da sala de estar que ela anexou para si. talvez se sente em um café e mordisque um croissant olhando o trânsito. Vai achar um alívio se ver livre de mim. para evitar a lei de difamação. 14. De vez em quando.

” Ela dá um sorriso invernal. Carreiras em negócios.* Por causa de Dubrovnik.. Formulário de inscrição. com aroma de eucalipto —. “Não leve as coisas tão a sério. diz Marijana. em vez de ser de alumínio. dão-lhe um susto. em um boxe. Espero que esteja se sentindo melhor. É food school da Academia da Força de Defesa. Tem.k. o sangue empapando o tapete. o. “E onde você ouviu falar do Wellington College?” “Drago sabe tudo. Não vou incomodar. não é da sua conta. bate na mesa um folheto de papel brilhante.” Ele volta ao folheto. “Instituição irmã do Wellington College de Pembrokeshire”. A mão dele se aperta na muleta. uma chuva pesada e fumarenta. Ela dá um sorriso que não é nada menos que alegre. diante de um teclado de computador. sabe. “Preparando jovens para os desafios do novo século. Se fosse uma muleta antiga de verdade. Como vai senhor? Desculpa eu falta meus dias. “Não é você quem resolve o que é da minha conta”. “Tudo bem. Em Canberra ele encontrou outros amigos. mrs. Costello.” “Feeder school. os valores. com algum peso. prédios imitando gótico em extensos gramados. Antes mesmo de tirar a capa — está chovendo. e que fizessem com ela depois o que bem entendessem. Tabela de preços. até ela cair morta a seus pés. Wellington College: Cinco Décadas de Excelência.?” Então é esse que vai ser o faz-de-conta entre eles: ela estava doente. “Minha paixão. Até amanhã. O telefone toca. que rima com spider.” A razão de Marijana resolver voltar vem à tona assim que ela entra pela porta. Ele nunca ouviu falar do Wellington College. como você diz. só puxavam ele para baixo. como sempre. lê em voz alta. preto no branco. Os amigos de Adelaide não bons. Marijana. “Mr. com um colega igualmente bem-arrumado olhando por cima de seu ombro. ele informa à hóspede. forças armadas. Rayment? Aqui é Marijana.” Ela pronuncia Adelaide à maneira italiana. tão secamente quanto consegue. Hora de você se mandar: espera que ela entenda o recado. “Quantos anos ele vai ficar lá?” . tantos quantos fossem necessários. Onde fica esse lugar? Como você ficou sabendo?” “Em Canberra. Estava doente. senhor não acha?” Ele folheia o prospecto... de madeira de freixo ou eucalipto australiano. claro que está o. ele desceria na cabeça da velha megera. responde baixinho. Sabe que as mensalidades em escolas internas é alta: mesmo assim. “Drago diz que quer ir para lá”. pertinho de Veneza. Vem amanhã.” E quando ele lhe dá um olhar zangado: “Está preocupado de ela pensar que eu seja uma das suas amigas de antes?”.” “Marijana volta ao trabalho amanhã”. golpe após golpe. Paul. ciência e tecnologia. Na capa. preferência. sacode a cabeça.k. um menino bem-arrumado em mangas de camisa e gravata. “Sei.”** “Feeder school. “Parece escola boa.

O que ele não diz é: Mas por que você abandonou o emprego. dois anos. “Na Croácia. Quer ir. “Acha que Wellington College quer que mr. da Suécia. Vou fazer um cheque agora mesmo para a taxa de inscrição. Mas aqui” — ela levanta os olhos para o céu — “quem liga? Na Austrália ninguém fala de pato mecânico. Ninguém é nada. Transformou-se em padrinho. Senhor deixa ele muito feliz. diz ela.” “Não sei se concordo”. Putz ficasse sabendo. avermelhada. Tem certeza de que você. não é? Aposto que não ia gostar que mrs. pronto. Ao mesmo tempo. excitado também por causa do dinheiro que está a ponto de dar. Ele ainda está todo ofendido. meu marido era homem famoso. Não acredita? Tem foto dele em todos jornais. está embriagado do prazer de tê-la de volta. Ninguém conserta. se vocês são de Munno Para ou de Timbuktu. Se alguém está embaraçado. “Um montador de carro não é um nada. Sem nenhum traço de tensão por causa do último encontro com ele. Rayment. Da Suécia. Miroslav Jokić. Eu pago. “Eu conto para Drago. Em dois anos. Então Miroslav Jokić conserta perfeito. Está com a pele quente. seu marido e Drago não gostariam de primeiro visitar o Wellington College?” Marijana tira a capa — é feita de algum material plástico transparente. Uma semana. montador de carro. quer algum sinal de contrição de Marijana. mais ou menos. Vá em frente e inscreva o rapaz.” Uma pausa. É só mensalidade de dois anos que precisa. “Se ele começa em janeiro. ninguém fala. absolutamente prático — e pendura nas costas de uma cadeira. comer” — ela bate no peito — “e outras coisas também. Será que vai ter de levar Drago a Deus? “Está bom”. fazer barulho assim como quem diz quack. isso ele sabe sobre si próprio. aí pode ter bolsa de estudo. ele é homem famoso na Croácia.” “É normal. diz ele. Padrinho: aquele que leva um filho a Deus. Não é nada. os pais darem uma olhada na escola antes de se comprometerem.” “E Drago está entusiasmado com a escola? Concordou em ir?” “Muito entusiasmado. sabe. conversar com o diretor. Só montador de carro. ele passa a ano doze. sabe. é ele. Simples assim. Ele está comprometido. Pato velho. Único homem que faz pato mecânico andar. De qualquer forma. sentir o lugar. e mrs. Miroslav Jokić e pato mecânico. diz Marijana. Anima-o a dar . Na televisão” — com dois dedos ela faz movimento de caminhar no ar — “fotos de pato mecânico.” Então. ver se Wellington College é bom para filho deles?” Seu tom é bem-humorado. o que eu sei é que o Wellington College vai ficar bem contente de receber seu dinheiro. “Wellington College”. Dar sempre o anima. Marijana? Por que me abandonou? Não é uma conduta muito profissional. se você vai visitar ou não. diz ele. Chegou em Dubrovnik em 1680. Jokić de Munno Para visita. duas semanas. velho. mr. sem dor”. Dar uma volta pelas instalações. Não sabe o que é. “E senhor? Perna tudo bem? Sem dor? Fez exercício?” “A perna está boa.

Começa pelo quarto. vai ficar aqui enquanto isso. Mas impossível. os seios. aproveitar a maré enquanto está alta. “Comprei frutas”. Ele a apresenta displicentemente. Acha que Marijana vai se sair bem?” “Entrevista?” “Para essa escola.mais. nesse estado de espírito. Não devia nem pensar nisso. Está na cidade a negócios. Então a porta do banheiro se abre e a mulher.” “E se perguntarem diretamente aos pais como vão fazer para pagar essas mensalidades . tem de pegar Ljubica no jardim-de-infância”. “Prometo não atrapalhar”. “Vai haver uma entrevista. esta é mrs. ele corrige. nem um pouco. “Uma coisinha”. acariciando as coxas dela. Da bolsa. Pela janela. Mas sente os olhos dele em cima dela. um chapéu seu que não usa há anos. Costello. Onde ela encontrou? Será que andou fuçando os armários? “Bonita senhora”.” “Uma coisinha”. A queda descuidada.” “É o Drago que vai se inscrever. eu acredito. dia especial. Vão querer entrevistar o rapaz e os pais. diz ela. claro. “Não preocupe. Está secando o cabelo com uma toalha. Marijana já está trabalhando. A emoção de perder. Imprudente. diz. Está usando um chapéu de palha que ele reconhece.” Minutos depois. Eu deixo nota. Eros sempre foi forte com ele de manhã. Coloca um saco plástico em cima da mesa. “Marijana. parece. “Ela amiga?” “Amiga? Não. anuncia. diz. Perda sobre perda. para ter certeza de que são do tipo certo. Normalmente. Vai ficar um pouco aqui. mas principalmente os pais. a chave gira na fechadura e Elizabeth Costello está de volta. Mal ela vai embora. entra em cena de camisola e chinelos. Mrs. Colega apenas.” Marijana estende a mão para ela e com uma solenidade apalhaçada Costello a aperta. Costello. negligente. revelando retalhos do couro cabeludo rosado. “Tenho de ir embora. diz Marijana.” “É bom. a primeira coisa que faz de manhã é cuidar da perna e conduzi-lo nos exercícios. vê Costello descer a rua na direção do rio. ele superaria toda a retidão dela. não os pais. Mas hoje ela não menciona exercícios. está disposto a apostar. Jokić. tira uma quiche congelada. Pior que imprudente. À sua maneira ocupada de sempre. ele ouve a porta da frente fechar. senhor paga depois. Se o pessoal do Wellington College tiver algum juízo. disso ele tem certeza. talvez. pode sentir o calor que vem dele. vai aceitar Drago imediatamente. despe a cama e arruma-a com lençóis limpos. Como no jogo. maluco. Aqui tem uma coisa pequena que eu compra para almoço. “Eu volta de tarde.” Marijana está com pressa. Se por algum milagre pudesse abraçar Marijana agora mesmo.

Só a verdade vai bastar. Tem a ver com o filho dele. Miroslav não vai ser tolerante com você. Não. Não deve levar a sério o que eu disse a respeito de você e de mrs. até os três. Até eu vejo isso.” “Alternativa a quê?” “Uma alternativa a todo esse imbróglio seu com a família Jokić. “Porém”. ela diz baixinho. Você toca o orgulho dele. sem ironia. Mais cedo ou mais tarde vai ter de encarar Miroslav. Dou garantias. Não devia. É uma das lições que as histórias nos contam. Pense no passado.” Ela está construindo uma pequena pirâmide de frutas — abricós. Paul. nectarinas. verdadeiro. afastar as crianças dele e transformar em suas. continua. na companhia de uma mulher mais velha? Claro que lembra. Jokić. É que é constrangedor. Você me dá confiança. isso qualquer criança pode dizer. Paul. no fim das contas. dois.” Com a ponta do dedo ela toca a testa dele. “Admirável”. “Fico tão contente de ter a oportunidade de conhecer você melhor. se ver na presença de um amor antigo. Não tem nada a ver com ele. uma de muitas lições. J. Ao contrário. E também seduzir os filhos de mrs. o homem que não tem uma perna. Não é o que eu chamaria de um panorama amigável. E a verdade é que você não está tentando ajudar. Você não deve confiar que Miroslav vá aceitar que o filho entre numa escola de luxo a mil e quinhentos quilômetros de distância.” “Não. está tentando travar o funcionamento da família Jokić.” Ela faz uma pausa no que está fazendo e. Ou que vá querer que suas obrigações pecuniárias sejam assumidas por um homem que a mulher dele visita seis dias por semana. e será que está errado? Portanto. inclina muito ligeiramente a cabeça. diz ela. ou seja. você não é amigo de Miroslav. uvas — na tigela da mesinha de centro. um. Está tentando ficar íntimo de mrs. “não esqueça que resta ainda a barreira de Miroslav a superar. Esqueça mrs. . Faço o que for preciso. só isso. não está certo”. a honra masculina dele.absurdas?” “Eu escrevo uma carta para eles. eu tenho uma alternativa a propor. Eu me curvo a você. Jokić e a sua fixação nela. J. Tem de pensar. Lembra quando foi a última vez que visitou o departamento de osteopatia do hospital? Lembra da mulher de óculos escuros no elevador. O que vai dizer quando esse dia chegar? ‘Só estou querendo ajudar’? É isso que vai dizer? Isso não basta. o que você vai fazer com Miroslav? Tem de pensar. “E se seu pensamento levar aonde eu acho que vai levar.” “Eu dou confiança? Nunca ninguém me disse isso antes. com o futuro do filho. “Do filho para a mulher. Desistiu de ler histórias? Um erro. Já pensou no que vai fazer com Miroslav?” “Seria burrice dele recusar. a um muro em branco. “Nada que acontece na vida da gente deixa de ter um sentido. Ficou impressionado com ela. você me devolve minha fé. da mulher para ele: é assim que o fio corre. de jeito nenhum que eu consiga ver.” “É.

“Deixe eu informar você sobre a mulher de óculos escuros. muito menos adoração. Está no calor de sua vida de mulher. Este mundo aparentemente tranqüilo que habitamos contém horrores. evidentemente. removido cirurgicamente.” . a fonte da imagem. Então. no hospital. Marianna conhece você. a menos que ele escreva durante o sono. Como se ele tivesse um diário e essa mulher se infiltrasse toda noite no apartamento para ler seus segredos. repugnada. Você era fotógrafo profissional. não era? Talvez. uma pena!. você viu com seus próprios olhos. dia após dia. mrs. o nome dela é Marianna. ou pelo menos altamente atraente. não pode me conhecer. Em questão de meses se transformou em um objeto de horror. você e Marianna. Talvez Marianna pertença a uma parte mais antiga da sua vida. Ela quer se esconder. Perdeu um olho inteiro. como resultado de um tumor maligno. Ela é. hoje.” “É. Tem consciência do olhar dos outros como de dedos que a toquem. Essa repulsão é. Mas não tem nada errado com a minha memória e não me lembro dessa experiência. ela geme alto de luxúria. É preferível não olhar para o rosto dela. E ao mesmo tempo — não consegue evitar — está cheia de luxúria infeliz. A mulher existe. Perdeu a visão há um ano. e você tenha simplesmente esquecido disso. Sabia disso?” É como se ela tivesse lido o diário dele. “Ser cega é pior do que disseram que seria. não nela. é possível. o fundo do mar — o que acontece lá vai além de qualquer imaginação. Antes da tragédia ela era bonita.” “Talvez. como você à sua maneira quer ser como era antes. em que vocês dois eram jovens. “Você se surpreende com o que eu estou dizendo? Acha que é só uma história que estou inventando? Não é. nem mesmo no sentido mais trivial. Você e ela são conhecidos. coitada. como era antes. Mas não existe diário. apalpando e recuando. ela conhece você. Ela está desesperada. invisível para ela. não importa se brevemente. e o uso do outro também. cega. “Está enganada. um dia. tenha tirado a fotografia dela. inteiros e bonitos de se olhar. Ela quer ser. por definição. onde pode ser vista. As profundezas do oceano. Paul. que você não seria capaz de conceber sozinho nem num mês todo de domingos. pior do que ela jamais imaginou. “A mulher a que se refere. talvez eu esteja enganada. Quer morrer. Costello”. onde ela não pode ter me visto. Não consegue suportar o ar livre. como uma vaca ou uma porca no cio. mas ela sente isso mesmo assim. “O que Marianna quer não é consolação. Vou dizer uma coisa: por que não ver o que vocês podem conseguir juntos. Ou então a pessoa se vê encarando e desvia os olhos. É. mas amor em sua expressão mais física. a quem chama de Marianna — só encontrei com ela uma vez. Ou talvez você é que esteja enganado. você coxo? “Vou dizer mais uma coisa sobre Marianna. diz ele. ela cega. por exemplo. não é bonita do jeito que cegos não são bonitos. e aconteceu de estar com toda a atenção concentrada na imagem que estava fazendo.

É melhor você também estar bem limpo para ela. Não está em meu poder mudar nomes. Ao contrário.. “Fique sabendo de uma coisa. E livre-se dessa cara triste. Desde a cirurgia. o que vai nascer? Paixão na maior escala? Uma grande conflagração outonal? Vamos ver. E assim por diante. quem não comete esse erro ocasional ao se vestir no escuro? “Agitada. por que não tentar descobrir o que vocês podem conseguir juntos. seja o que for que você e ela resolvam fazer. a matrona. Dois enes. mas não consegue. bem ao contrário da grosseira carnificina da amputação. você e Marianna? Dadas as circunstâncias especiais do caso. diga sim. mora com a mãe. Então aproveite enquanto ainda está com saúde. Minha proposta é aceitável? Se for. O velho perneta na esquina parado/ Pedindo esmola com o chapéu virado. A roupa dela está em desordem. continua Costello. “Basta de informações por enquanto. Pode ter certeza. um apelido. Uma tempestade está em curso. Vai poder recolher o resto dos próprios lábios dela. a sua. Paul: os anos passam num piscar de olhos. Me permita sugerir que. velhos amigos ou não. A questão está em suas mãos. Sim? “O nome dela é Marianna. Ou. querida. E assim por diante. como todo o resto acabou. assim como tudo na vida dela. é como se estivesse drogado ou tonto. Perder qualquer parte do corpo que se espeta para fora é cômico. como eu disse. se houver alguma proposta eu coloco para ela de um jeito que permita a ela vir até aqui sem perder o auto-respeito. eu diria apenas que tenha um pouco menos de segurança. Era uma vez a filha de um criador de porcos. se estiver muito envergonhado. Pode dar para ela algum nome provisório. perder uma perna é cômico. Ela foi casada. mas depois do golpe do destino que descrevi o casamento acabou. nas suas e nas dela. só responda com a cabeça. Como uma gentileza a ela. Perder uma perna não é uma tragédia. Mas não quero pressionar. Se não fosse. No momento. eu me encarrego pessoalmente de arranjar um encontro. ela passou a ser morbidamente escrupulosa com a limpeza. Isso acontece com alguns cegos.. Revire a sua memória e vai ficar surpreso com as imagens que vêm à superfície. me perdoe. Não há como evitar. Lave tudo. Do seu desejo e da necessidade dela. Vamos construir o nosso lado da história partindo do fato de que você só viu essa mulher de relance. com os cheiros dela mesma. Se estou falando com crueldade. Você só precisa esperar e se preparar. A vida dela está em desordem. gatinha. a cirurgia extremamente delicada. Ela estende a mão e encontra outra mão. Só viu de relance. que seja no escuro. É sempre mais tarde do que se pensa. mas foi o bastante para incendiar seu desejo. “Bom. mas limpa. no elevador. “Sobre o episódio que você diz não ter lembrança”. “Uma última coisa. mas isso pode ser perdoado. se quiser. não haveria tantas piadas sobre o assunto. “. Lave-se bem. . uma caçadora virgem entra procurando abrigo.” Ele tem de dizer alguma coisa perspicaz. com dois enes. do dia em que você pode ou não ter tirado a foto dela. Pense em sua cama como uma caverna. qualquer coisa. aquela mulher que você viu com ela.

eu desapareço. podia já ter caído no mar. “Você não consegue me entender. preso dentro de um apartamento abafado com uma enfermeira que não podia ligar menos para você. A Marijana de Dubrovnik. Vou me retirar. “alimentadora” (feeder) de alunos para determinadas escolas de elite. cuja pronúncia em inglês australiano soa semelhante a “spaide”. Mas não desanime. eu sou um dos seus sofrimentos não merecidos. Não tem nada a ver comigo. voando como um gato? Que triste declínio desde então! Cada vez mais devagar. Na verdade. Não vai mais ouvir falar de mim. você e ela vão ter liberdade para trabalhar as respectivas salvações. com seu rosto devastado e a luxúria cheia de remorso em que está presa. Paul. levado para cá e para lá pelas correntes das profundezas. Porém você ainda não se rebelou. A questão é a seguinte: você é homem que baste para ela? “Me responda.) ** Jogo de palavras intraduzível: food school. inventando as coisas na hora. pelo que vejo. Eu repito: esta história é sua. a mulher que insiste e insiste. Putts. a outra Marijana. Diga alguma coisa. Você é Jó. “escola de comida”. é fornecedora. blá-blá-blá. não é? Acha que eu sou uma prova. coral em vez de ossos. chegou via sua amiga mrs. a enfermeira. T. não foi idéia minha. “E não. Marianna é uma mulher e tanto. Não negue. para todo mundo ver. em seu entender.” É como um mar batendo na cabeça dele. está escrito na sua cara. Marianna tem possibilidades. (N. cheia de planos de salvar você de você mesmo. nos sistemas educacionais de língua inglesa. escola que. quando o jovem Wayne colidiu com você e te jogou no ar. Essa promessa eu estendo à sua nova amiga Marianna também. “Não precisa ser assim. vai ser como se eu nunca tivesse existido. se é isso que está pensando. sua paixão inadequada. Essas coisas não têm método. Pérolas no lugar de olhos. não minha. quando tudo o que você deseja é paz. “Pense como você começou bem. Na hora em que você decidir assumir o comando. Quase o tempo todo acha que estou falando bobagem. até agora você estar quase parado. não ainda. Paul. feeder school. O que poderia ser mais bem calculado para captar a atenção de alguém do que o acidente na rua Magill.) .(N. * “Aranha”. T. Você me tolera com a esperança de que eu desista e vá embora. O bater da água que com o tempo despirá seus ossos do último fiapo de carne.

Marianna. Não me pergunte como eu faço essas coisas. Não pisque. Ela insiste. ninguém pode ajudar. Está sendo” — dá um ronco exasperado —.k. “Marianna está aí embaixo. “Então. mesmo ela não podendo ver. com certeza. Aqui. eu trago a mulher para conhecer você. reflete Elizabeth Costello. E para segurar as folhas no lugar. abaixe. uma meia de náilon. Às quatro e meia. Não tenha medo. Não sabe o que fazer consigo mesma. não mesmo. a cega — não consegue tirar ela da cabeça. Acontece que Marianna está perdida hoje. não é? Não finja. “Imagino que problema poderia ser. não há nuvem sem sol por trás. eu simplesmente faço. Paul.?” “Problema com a filha”. diz ela. Eu trago a mulher. não é mágica. Pode tirar a hora que quiser. 15. Por que tem de usar isso? Porque Marianna não quer que você olhe para ela. acho que é esse o nome. . o. Alfredo’s. “Não. que não pode vir hoje. sinceramente.” Costello fica fora a tarde toda. Marijana telefona. ele sabe o que vai dizer: que sente muito. às cinco da tarde hoje. dá para ler você como um livro. e dou o meu adeus. sem fôlego. Tudo pronto. “Posso ajudar?”. Não. “Vou amanhã. Para colocar nos olhos. ele pergunta. ela reaparece. não Ljubica: com Blanka. uma folha de limoeiro em cima de cada olho. Um problema com a filha. Posso usar sua cozinha?” Volta da cozinha trazendo uma tigelinha de algo que parece creme. Mas eu não recomendaria. Vista-se bem. “Mudança de planos”. quando ele está a ponto de sair do apartamento. Para segurar no lugar. lavadinha. Desculpe ser tão complicado. Esteja no café da esquina. Mesmo assim. “está sendo difícil. Ela não gosta da idéia do Alfredo’s.” Ela suspira. A mulher de que falei. amarrada atrás da cabeça. “É só uma pasta de farinha e água. não vai machucar. Mesmo antes de ela falar. Fique quieto. seres humanos. mas é assim que nós. prometo.

“Estamos em cena. ele tem certeza disso. É esse o arranjo. uma depois da outra? “É uma estrutura de alumínio. colados”. pequena. Há um murmúrio de vozes no poço da escada. um farfalhar. Que mundo atrapalhado. ele pensa: volta-se para a mão e a beija. diz a voz leve. mais uma criatura do ar. “Se você cantar. diz ele. pode sentir na nuca. nem inglês. leve. num certo sentido.” Ela vai embora. conhecida no dia-a-dia como andador. Mas em certo sentido estão sendo observados. com certeza os croatas não são assim tão numerosos ali. Acho o andador menos cansativo que as muletas. é assim que ela mantém o auto-respeito. Dedos exploram seus lábios. me fez usar. seria o melhor de tudo”. A fechadura da porta soa de novo.” Então lhe ocorre que o andador pode ser tomado como uma barreira. não é? Mas é o único que temos. Mal consegue acreditar. ele diz. mas ainda não vai tirá-la. Além disso. passam pela venda. “Assim que ela estiver entregue. correm por seus cabelos. Através do véu do limão ele sente o cheiro tênue de lã. Não se preocupe comigo. toca seu rosto e fica pousada nele. você se acomode e espere. Agora. “O que é isto?”. mrs. Ela pigarreia e pelo tom agudo. Ele fica de frente para a porta. “Quer sentar ao meu lado? É um sofá. diz. Lembre-se. complicados. e ele sente o andador oscilar ligeiramente. mas seu coração parece estar martelando. Ela tem de explicar muita coisa. seja tolerante. as unhas cortadas curtas. “Estou de olhos fechados. que ele sente nas mãos. ele já pode ouvir que não é Marijana Jokić: mais leve. claro. “Deixe eu largar isto aqui.somos. Croata? Outra croata? Com certeza não. mrs. Desculpe eu não poder ajudar. Vamos jogar até o fim. que eu vou buscar Marianna. Que se dane. apoiado no andador. Com um farfalhar (o que ela pode estar vestindo que faz tanto barulho?) a mulher senta- .” Coloca o andador de lado e senta-se no sofá. por causa da venda que nossa amiga comum. Até logo. Não volto até amanhã ou depois.” Mesmo não tendo espectadores. não vai despir sua visão até a nudez.” Uma mão. vou-me embora e deixo vocês dois se conhecerem melhor. Costello. tem de pagar a ela. Um deslizar. “Estou aqui”. O aroma das folhas úmidas sobre seus olhos domina qualquer outro cheiro. ele diz. Costello pela venda e por muita coisa mais. “Deixe eu ouvir sua voz”. Uma pressão no andador. que sentido poderia ter uma fileira de croatas. Sente que já está pronto? Quer mesmo isso? Sim? Ótimo. Costello. Sou dura na queda. “Não estou acostumado a ser cego. Eu perdi uma perna. no escuro. cada um à sua maneira única. Os dedos traçam a linha de seu queixo. aqui um ou dois passos à frente. mesmo não tendo espectadores. O sotaque não é australiano.” Ele culpa mrs.

está em um mundo de absoluta escuridão. “Mrs. mas que os dedos relatam. contas. Mesmo que esteja com as pupilas dilatadas ao máximo. Costello me contou dos seus problemas. Costello me disse. mas como água corrente. o . Centímetros acima. Alguém pode se horrorizar com algo que não pode ver. O que é preciso. Mas é isso que quer fazer? Quer explorar aqueles olhos ou algum ponto perto deles? Quer ficar — como é a palavra? — horrorizado? O horror. ser cego: ter de pesar cada palavra na mão. Sinto muito. ele pode tocá-la como ela o toca. prateado: não tão rápido quanto mercúrio.” “Marianna.” Não. depois uma coisa dura.” Ela não diz nada. não. grandes e macias. dois nós que mantêm o peito dela afastado do dele. e o começo de penugem ou cabelo que ele tem a sensação de ser escuro. Agora que está com as mãos livres. mas não sabe o que fazer em seguida. Ela está de óculos. Sente um cacho duro de alguma coisa. Ele sente um ligeiro tremor percorrê-la. deixa pálido e trêmulo. O Marianna dele ainda está colorido de Marijana: é mais pesado que o dela. como um cobertor para estender em cima deles dois. até ela se levantar e ele poder tirá-la. um brinco. na verdade. Do Marianna dela só pode dizer que é líquido. ele continua.se a seu lado — senta em cima de sua mão. Francês. ele diz. pontudo. desumaniza. mesmo os dedos de alguém como ele. Durante um momento. não andam. frutinhas bordadas numa bainha. um regato murmurante. a mão fica debaixo de suas nádegas de um jeito muito vulgar. ela diz Marianna. “Seu nome é Marianna. os óculos escuros também. embora seus punhos estejam levantados. e ela vem. Não é de admirar que ela seja inquieta. mrs. “Obrigado pela visita”. buscar equivalentes que soam demais (regato murmurante) como má poesia? “Não o Marianne francês?” “Não. ele estende a mão. Porque os cegos são inativos. Um queixo firme. pesar cada tom. Uma pena. E é assim. não andam de bicicleta. óculos que se curvam para trás por cima das maçãs do rosto. algo que revira o estômago. “Não é preciso”. mas tem nádegas grandes. mais sólido. novato na terra dos cegos? Hesitante. O rosto colado ao dele. Francês teria sido alguma coisa em comum. Não é uma mulher grande. ele a puxa para si. Não é de admirar que esteja pronta a visitar sozinha um homem estranho. decerto. A pasta de água e farinha funciona surpreendentemente bem. bolas. o queixo. Toda aquela energia acumulada sem nenhuma via de expressão. assim como a pele dá a sensação de ser escura. depois uma mandíbula curta. mas não é o mesmo nome. não correm. talvez os mesmos óculos escuros que usava no elevador.” Ele diz Marianna. A gola ou o corpete dela. De onde Costello tirou essa idéia? De um livro? Uma receita herdada dos antigos? Com os dedos ainda nos cabelos um tanto encaracolados dela.

do rosto devastado. é? Ele duvida profundamente que jamais tenha fotografado essa mulher sozinha. Um homem de uma perna só e uma mulher parcialmente despida esperando o quê? O clique do obturador da câmera? Gótico . Deve ser difícil para ela. mas esguia no resto. luxúria. tem uma coisa que preciso mencionar. mas por si mesma. os dedos teriam se aquecido. tremendo ou vibrando. ele diz. frutinhas e bolas no pescoço dela acabam sendo puramente decorativas. Seios grandes. Os dedos dele são lentos e desajeitados. diz ele. Talvez ela fizesse parte de um grupo. dentro de um envelope. como um pássaro.” É? O que quer dizer isso. A imagem que tem dela vem apenas do elevador e do que seus dedos lhe dizem agora. a aspereza da pele. “seguir nenhum esquema. “Sugiro que a gente não fale muito”. Quatrocentos e cinqüenta dólares. não teria se esquecido dela.” “Eu sei disso. não por solicitude a ele. e o exercício da luxúria abre-se um verdadeiro abismo. o tipo de coisa que ele imagina as carmelitas usando. raposa e baleia. ele começa de novo. “Não é preciso”. Por causa do rosto dela. Porque há nela uma sede que não pode ser saciada. na época em que ele visitava escolas para tirar fotos de grupos. Ele tem de ajudá-la. estão nisso juntos. Não tive nenhuma experiência desse tipo desde o meu acidente. grilo e sagüi. porque o transformaria em gelo. e um cheiro provavelmente desagradável para as narinas supersensíveis dela. Que está aqui. Se ela tivesse ficado sentada em cima de sua mão um pouquinho mais. Ela não pode saber o que eu não sei. alguma coisa a ver com ceder à. Posso precisar de ajuda. “Estou colocando na mesinha lateral. diz ele. mas não sozinha.” “É. sólido. é bem construído. Somos livres.” “Mrs. homem e mulher. Será que isso basta para ela construir a imagem de um homem? É uma imagem à qual ela esteja preparada para se entregar? Por que concordou em vir. diz a mulher Costello. Marianna. “Seu dinheiro”. ele deve ser uma mixórdia ainda maior de dados sensoriais: a frieza das mãos. bunda grande. Mrs. isso é possível. Quanto ao sutiã. que ele foi alertado a não olhar e talvez nem tocar. Mas entre o que eles são. desliza para mais perto. Costello me disse. As contas. Calor animal. para usar o termo de Costello. “Chegue mais perto”. o raspar da voz.que não é preciso? Alguma coisa a ver com o fato de serem homem e mulher.” Ela ainda está tremendo. por questões práticas. que felizmente vai até a cintura. visão não vista? É como um experimento primitivo de biologia — como colocar juntas espécies diferentes para ver se se cruzam. Para ela. Está bom?” Ele sente que ela concorda com a cabeça. Não é preciso fazer nada que a gente não queira. Costello não sabe tudo. e ela. Se tivesse. Passa-se um minuto. O vestido se abre com um zíper atrás. “Mesmo assim. Nada acontece. obediente.

desajeitados. um ato que embora não o ato de sexo conforme entendido no geral é assim . Quanto tempo faz que ela perdeu a visão? Será decente perguntar? E será decente passar para a próxima pergunta: se fez amor desde que aconteceu? Foi a experiência que ensinou a ela que seus olhos devastados aniquilarão o desejo de um homem? Eros. que começou a sufocá-lo (por que está de gravata?) —. ele terá problemas próprios a enfrentar. ou será abraçando os doentes. Talvez entre os cegos se desenvolvam intuições de beleza baseadas apenas no toque. envergonhados. A beleza sem visão da beleza ainda não é. mas é. No reino do não-visto. ela tem de superar seu atual constrangimento e dar o próximo passo. durante o qual sua atenção foi despertada tanto pela mulher mais velha como por ela. Enquanto ela está negociando essa passagem. uma coisa imaginável. como volumes de líquido presos em balões de seda ao chapéu de palha de abas largas. seja porque não quer ceder os lábios. não consegue fazer as partes combinarem. para ele. O episódio no elevador. o amor e a bondade? E. uma vez removida a questão sexual. tenta puxar a mulher para ele. Embora não resista.* cansados de uma vida inteira de dançar valsa. outra coisa. Por que a visão do belo chama Eros à vida? Por que o espetáculo do horrendo estrangula o desejo? Será que a relação com o belo nos eleva. mas não tão desajeitados quanto poderiam ser. seja porque não quer dar a ele a possibilidade de levantar os óculos e explorar o que há por baixo — não quer porque no tocante a mutilações os homens são incrivelmente enjoados. problemas de ordem muito diferente. macias de um modo não natural. em meio a tudo isso — o constrangimento. aos óculos escuros e à curva de um rosto escondido. ele ainda está tateando. o melhor seria ela ficar por cima dele. de uma forma ou de outra. deitados um nos braços do outro discursando sobre a beleza. Matilda e seu parceiro. Como pode ao menos ter certeza de que pertencem à mesma mulher? Suavemente. mas a fim de. mas não tão envergonhados a ponto de se paralisarem. o evitar. Como ele iria achar difícil ficar por cima de uma mulher. O tremor da mulher não passou. eles conseguem deslizar para o ato físico ao qual se comprometeram vacilantes. porém. para o qual aceitou pagamento. o filosofar. os repulsivos que melhoramos a nós mesmos? Que perguntas! Será por isso que Costello juntou os dois: não pela comédia vulgar de um homem e uma mulher com partes do corpo ausentes fazendo o possível para se encaixar. deixou em sua memória apenas um vago esboço. nos torna pessoas melhores. para não falar de uma tentativa dele de desatar o nó da gravata. de fato. Ele pode jurar que se contaminou também: uma leve vibração da mão que pode ser atribuída à idade. enfrentam o fotógrafo uma última vez. Foi avisada com antecedência da perna ruim dele. Quando ele tenta acrescentar seios pesados e nádegas largas. de alguma forma. poderem ter uma aula de filosofia. medo ou apreensão (mas qual?).australiano. Se vão prosseguir com o ato para o qual ela foi paga. os mutilados. ela vira o rosto. partes do corpo despencando ou caindo. de sua estrutura geral pouco confiável.

Embora o sofá não tenha sido construído nem para o acasalamento sexual. Você tirou minha fotografia. Andamos juntos de elevador no Royal Hospital. e. O único sinal que ele tem de uma sede feroz ou fome feroz vem na forma de um desusado. “Marianna. nem para o langor filosófico subseqüente.” “E onde era esse estúdio?” Ela se cala. Só isso. Costello falou disso?” “Falou. Ele a acaricia por cima da roupa. Ele nunca apreciou imoderação. em todas as suas partes naturais. O que mais o inquietou na descrição que Costello fez de Marianna foi o que ela disse sobre a fome ou sede que assolava o corpo dela. Era para o meu aniversário. “Sei que é o seu nome. movimentos loucos.” “Muito bem”. No elevador. mas é assim que as pessoas chamam você? Não usa nenhum outro nome?” “Marianna. gemidos. E não pode ser por você se lembrar de mim porque não sabe como eu sou. coxa.” “O quê. Onde isso aconteceu. ter a liberdade de um corpo de mulher outra vez. lado. ela rapidamente faz tudo decente de novo. Mas Marianna parece saber como se conter. Que prazer.” “Por outro lado. seios. Não se lembra?” “Não e não consigo lembrar porque não sei como você é. diz ele. Mrs. e quão inesperado. nossos caminhos realmente se cruzaram muito mais recentemente. mesmo que a mulher seja invisível. Costello disse que nós nos encontramos antes. Quando foi?” “Faz muito tempo. imodéstia. saboreando os dois enes. calor no cerne do corpo dela. É isso. Costello é muito amiga sua?” “Não.” “O que mais ela disse?” “Só que você estava solitário. Mrs. quer dizer. Interessante. “Foi há muito tempo”. experimentando o nome na língua. . como se seu útero ou talvez seu coração estivesse brilhando com fogo próprio. ela guarda para si. Seja o que for que está acontecendo dentro dela. subindo e descendo. berros e gritos. mas não desagradável. não se trata ainda de procurar o rumo de uma cama de fato em um quarto de fato. essa sessão de retrato?” “No seu estúdio. ele diz. Mrs. os dois logo estejam sentindo frio. “Marianna”. uma vez terminado. e embora. sem coberta.” “Solitário. apesar do membro truncado de um lado e do olho perdido do outro. então?” Há um longo silêncio. se desenrola com alguma prontidão do começo para o meio e para o fim. mais ou menos. não é próxima. diz por fim. “Não consigo lembrar.mesmo um ato de sexo e que.

“não tem ninguém aqui. incapaz de crescer. para ela própria ou para Marianna. Mesmo assim. “A menos”. ele prossegue.” Ver.” Ele está apenas falando. tentando animar . Ela se senta ao lado dele. Elizabeth Costello nunca usou a palavra crescer. ouve quando engole em seco e. Mas se nós somos adultos. Ouve quando ela abre os lábios. sinceramente. o momento de tirar a venda. nós obedecemos. Deus sabe o que acontecerá em seguida. a idéia veio de nossa amiga Elizabeth. pigarreia. Ela assoa o nariz em um lenço de papel que deve ter trazido consigo. Deus sabe a qual teoria da vida ou do amor ela realmente se apega. ela deve ter razão. Crescimento é coisa que sai dos manuais de auto-ajuda. não pense que não. “Pensei”. uma vez atravessado o limiar. Ela é da opinião de que enquanto eu não atravessar um certo limiar estarei preso em um limbo. “Ela simplesmente me abordou.” Ela aspira com ruído no que talvez seja uma risada. “Desculpe”. “Desculpe. Marianna diz. nós obedecemos. Estende a mão para tocar seu rosto. sacudindo a cabeça de um lado para o outro. “que ela ainda esteja na sala.” Ele sente que ela mexe a cabeça de um lado para o outro. mas ele sente que ela enrijece. por que estamos permitindo que alguém que mal conhecemos dite a nossa vida? É isso que eu me pergunto. diz ela. diz ele. talvez? O coxo guiando a cega?” A observação era para ser leve. sobraram os ductos lacrimais. era transformar você e a mim em um casal? Só para se divertir. Como cega e.” Antes mesmo de terminar. de limpar a pasta dos olhos. Ela dá instruções. observando. “De qualquer modo. mas ele deixa. Mesmo não havendo ninguém para ver. Mesmo assim. Retarda. ele sabe que é mentira. pensa ele. “Nossa amiga advogou isto aqui” — ele acena uma mão vaga — “porque aos olhos dela isto representa atravessar um limiar. portanto. meio vestida. “Será que a intenção dela. Está banhado de umidade. O primeiro impulso. e o riso provoca soluços. fazendo o possível em uma situação incômoda. soluçando abertamente. “Ela simplesmente abordou você?”. agora somos livres para prosseguir para coisas mais elevadas e melhores.” Não tem ninguém aqui. conferindo. Agora é. sem dúvida. você acha.” “E é. Ela já deve estar acostumada com as pessoas dizerem “ver” quando querem dizer outra coisa. Essa é a hipótese que ela está testando no meu caso. ela está chorando. de repente. de olhar para ela como é. Fica. Mas ele não faz isso. observando e esperando. Pelo menos. ele não perdeu a sensação de que basta apenas estender a mão e seus dedos encontrarão Elizabeth Costello estendida no tapete como um cachorro. para ele. pelo que ele saiba. ele diz. Ele espera. “que era isso que você queria. Não é a palavra certa. Provavelmente ela tem outras hipóteses a seu respeito. Deus sabe o que Elizabeth Costello quer de fato. sintonizada com as emanações mais sutis de seres vivos.” “Não”. é.

está começando a irritar seus olhos ao secar: como ela pode ter imaginado que ser cegado com farinha e água transformaria seu caráter. apenas solitário. também no caso dela deve ter havido um prelúdio começando com o vírus. assim como um homem com uma perna só é um homem menor. Essa pobre mulher que ela mandou para ele é uma mulher menor também. o que pode estar se passando em sua cabeça? Que tipo de conversa fiada deve ter ouvido para ser convencida a vir bater na porta de um homem estranho e se oferecer para ele! Assim como no caso dele houve um longo preâmbulo a esse lamentável encontro. sem desistir ainda da esperança de formar uma imagem dela. e esperar que se comportem como Romeu e Julieta? Que ingenuidade! E trata-se de uma conhecida literata! E essa maldita pasta que. por que ele confiou em Costello a ponto de embarcar nessa performance. ou qualquer coisa que seja culpada por sua cegueira. diz a mulher. diminuídos: como ela pode ter imaginado que uma fagulha do divino espoucaria entre eles. velho e frio. não um novo homem. protegendo vocês — se você se orienta apenas pela voz e não pode ver o brilho louco do olhar. vai tratar você como uma garota de programa e pagar pelo seu tempo. e eu vou estar lá. ele a seu modo. em North Adelaide. Um homem sem visão é um homem menor. começando por Wayne Blight e Paul Rayment saindo de suas respectivas casas naquela fatídica manhã de inverno. limitados. ambos. Grilo com sagüi. é só isso que é. e no ato mergulha em um golfo escuro próprio. Do envoltório de escuridão. Toda a sua animação o abandona. ou a agulha. faria dele um novo homem? Cegueira é uma limitação pura e simples. que agora lhe parece menos que precipitada. menor do que devia ter sido antes. volte para liberá-la? Será que Costello realmente acredita que poucos minutos de inflamado congresso físico podem se expandir como um gás para preencher toda uma noite? Será que acredita que podia juntar dois estranhos. ele estende a mão de novo para tocar seu rosto. estou colocando em sua mão. e prosseguindo passo a passo até seu encontro com a velha plausível (ainda mais plausível se você tem só a voz para se basear) dizendo que tem os meios para saciar sua sede abrasadora se você concordar em tomar um táxi até um café chamado Alfredo’s. embora ela tenha jurado ser inofensiva.uma mulher que sofre a tristesse que baixa depois do coito com um estranho. o homem em questão é bem inofensivo.” “Se acha que sim”. E eles caíram nisso. ou o mau gene. um positivamente velho. “Como sabe do táxi?” . afinal. Dois seres menores. ela ao dela! “Tenho de ir embora”. aqui está o dinheiro para pagar a corrida. ou a mancha solar. Por que. um preâmbulo que se estende tanto no passado a ponto de constituir um livro independente. Um experimento. um inútil experimento biológico-literário. em sua misericórdia. não precisa ficar nervosa. simplesmente estúpida? E o que essa pobre mulher cega e infeliz vai fazer consigo mesma neste ambiente menos que acolhedor enquanto espera que sua mentora. “O táxi deve estar esperando. diz ele. esfriando minuto a minuto a seu lado. nenhum dos dois jovem. ou uma fagulha qualquer? Quanto à mulher em si. pairando ao fundo. um sem saber da existência do outro. a sagüi.

então. No instante em que a porta se fecha depois de ela sair. (N. mrs. enquanto ela se veste. Costello. Mas a pasta virou uma placa e endureceu. Se puxar muito forte vai perder os cílios. T. dê os meus cumprimentos a mrs. porém. Posso pagar o táxi?” “Não. Ele xinga: vai ter de lavar com água. * Menção à canção folclórica Waltzing Matilda. que é o hino nacional nãooficial da Austrália. não. Costello. “Bom. Costello cuida bem de você. “Mrs. mrs. E cuidado ao descer. se controlando. Costello ia mandar.” “Como mrs.” “Mrs. Costello?” “É. ele arranca a venda e arranha os olhos. Costello sabe quando você vai precisar de um táxi?” Ela dá de ombros.” “Bom. A escada pode estar escorregadia.) . está tudo incluído.” Ele fica sentado imóvel.

e de forma indireta me pediu para lhe comunicar.” Repetir a visita. usando certos complementos ou objetos que eu vou fornecer. nas Páginas Amarelas. Por telefone. também. Não é isso que ele quer. “Uma mulher das trevas. “tem certas excentricidades. Se quer que ela repita a visita. Sempre tratei com ela pelo telefone. qual homem não tem as suas pequenas excentricidades. a sua Marianna. ele perdeu a cabeça por uma mulher chamada Marianna. “Meu cunhado. Prefere o reino do imaginário. Mas. e para . 16. Uma vez. uma mulher em trevas. não faço idéia de onde ela mora. que ele acha bem fácil de inventar sozinho. Esse é o seu papel. Em algum momento futuro. via Dubai e Nicósia. que ela realmente vive com a mãe corcunda. mas não agora. O que ele quer de você. uma atriz. senão achar um jeito de satisfazer essas excentricidades? A principal excentricidade do meu cunhado é que ele prefere não ver a mulher com quem está. não. Porque existe uma alternativa para a história. teria dito a ela. se ela quer se virar. a teria envolvido em uma charada. conhecida também por Tanya. “Ela veio a mim do mesmo jeito que você veio a mim”. posso dar o número do telefone. Pegue a história dessa aí: as palavras no meu ouvido adormecido. a atriz. Portanto. tendo sido abandonada pelo marido por causa de sua perda. é que você se apresente como Marianna. e o que uma mulher pode fazer. você precisa saber”. talvez. que o nome dela é realmente Marianna. prefere ficar com a cabeça nas nuvens. conhecida por Natasha. Na história alternativa. originária da Moldávia. pronunciadas por aquilo que antigamente seria chamado de anjo me chamando para uma luta corporal. O que ele quer mesmo agora é uma garantia de que a história que lhe foi contada é a história verdadeira: que a mulher que veio a seu apartamento é realmente a mulher que viu no elevador. O que ele quer é a garantia de que não foi enganado. e assim por diante. diz Costello. Costello teria localizado a bunduda Marianna.

e não é mais o mesmo de antes. eu suplico. Perder uma perna não é nem trágico. ele reclama. Marianna era Marianna ou Marianna era Natasha? É isso que ele precisa descobrir em primeiro lugar. Dá para ouvir na sua voz. veio a você no transcorrer de sua carreira de mentirosa e fabuladora.* E assim por diante. Marianna Popova: pseudocaeca (migratória). mrs. talvez faça. poderia ser essa a verdadeira história por trás da visita da pretensa Marianna? Os óculos escuros foram usados para esconder o fato não de que ela era cega. diz. ou um zoológico. “vou ter o cuidado de não o deixar se esquecer disso. e quem pode censurar alguém que enfrentou tudo o que enfrentou?” Ele pega as muletas. Não sou um herói. mas sem dúvida há prazer em se permitir falar —. esperando que ela morda a isca.desempenhar esse papel ele vai pagar.” Com algum detalhe a mais ou a menos aqui e ali. isso que ele tem de arrancar de Costello. apenas falta de sorte. Me esqueça. Podia cobrar entrada. Costello teria concordado. Natasha ou Tanya teria dito. em um acidente de trânsito. Escreva sobre essa sua Marianna cega no meu lugar. Perder uma perna não qualifica ninguém para um papel dramático. “o que eu não entendo é. “Trata todo mundo como fantoche. Que tolo solene! Ela deve ter ido embora para casa dando risada no táxi. como você diz. Você está amargo. Ela fica calada. foi menos de nervoso do que pelo esforço para segurar o riso enquanto o homem com a meia amarrada na cabeça lutava com sua roupa de baixo? Atravessamos um limiar. Paul. nem cômico. Deve haver muitos velhos zoológicos para vender. Só quando tiver essa resposta poderá se voltar para a questão mais profunda: o que importa quem era a mulher de fato.” “Não estou sendo amargo. Fileiras e fileiras de jaulas com gente que. uma vez que sou tão sem graça. não está zangado agora.” Ele faz uma pausa. Podia ganhar a vida com isso. “mas chamado externo é extra. tão imune a seus esquemas. Compre um e nos ponha em jaulas com os nossos nomes: Paul Rayment: canis infelix. o que importa se foi enganado? “Você me trata como um fantoche”. Quem sabe a que se pode ser levado.” “Claro que está. Ele acabou de perder uma perna. me deixe prosseguir minha vida. mas o fato de que ela não era cega? Quando ela estremeceu. “Vou sair agora. Seja boazinha com ele. Deixar você. . Uma última palavra. pegar Marianna: talvez eu não faça isso. “Posso passar sem a sua comiseração”. Ela tem mais potencial do que eu jamais terei. Mais fácil que escrever livros que ninguém lê. Pais podiam trazer os filhos nos fins de semana para nos olhar de boca aberta e atirar amendoim. ele prossegue — não estava zangado ao começar sua tirada. Agora podemos prosseguir para coisas mais elevadas e melhores. Entende?” “Claro”.” “Não seja amargo. Devia abrir um teatro de fantoches.” “Chamado externo é extra”. agora que ficaram fora de moda. “O que eu não entendo”. seco. por que insiste comigo. Costello. Inventa histórias e nos força a representar as histórias para você.

pega A fornalha feroz. de sua última meia de Natal. com certeza vou trancar a porta. mas isso não soa implausível. teriam sido os dois encontros. além de um volume azul-escuro bem severo com o título Uma chama constante: intenção e determinação nos romances de Elizabeth Costello. Hugh Boylan. Leopold Bloom. como um experimento ou mesmo como uma espécie de piada profissional. coloca as figuras num semicírculo. episódios da vida não de Paul Rayment. Tango com mr. e. Ele enrola a massinha na palma das mãos até ficar quente e mole. acabará sendo a escolhida? Deixando de lado a fantasmagórica sessão de retrato. depois repuxa a massa em figurinhas de animais: pássaros. Folheia A casa da rua Eccles. Em cima da mesa. Na biblioteca pública. A casa da rua Eccles em vários exemplares muito manuseados. Hoje em dia. sob o número A823. Será assim tão passageiro o interesse dela por ele? Será que Marianna. Qual é o problema dela? Não consegue inventar personagens próprios? Devolve o livro. latindo ou coaxando. assim como Marianna e todo o resto do mundo são personagens passageiros na vida dele. encontra toda uma fileira de livros de Elizabeth Costello: A fornalha feroz. em vez dele. Mas não acho que seja isso que vou fazer. o primeiro no elevador. ou de qualquer outra pessoa cujo caminho venha a cruzar.Não sei quando volto. Mas sua última evasão o irrita e ao mesmo tempo perturba.” Não é a primeira vez que Costello se recusa a se explicar. Nem dá para dizer o quanto estou querendo um banho quente. Mas será que ele é um personagem passageiro em um sentido mais fundamental também: alguém sobre quem a luz se apaga muito rapidamente antes de seguir em frente? Será que aquilo que aconteceu entre ele e Marianna vai resultar em apenas uma passagem entre muitas da busca de amor de Marianna? Ou será que Costello pode estar escrevendo duas histórias ao mesmo tempo. tranque a porta. Polidez. a locomoção em outro) com a qual têm de aprender a conviver. verde- folha. o segundo no sofá. As raízes do tempo. Os blocos de puro vermelho-tijolo. Às ilhas amigas. Por quê. talvez faça. cachorros de orelhas em pé. Então é isso que vou me dar de presente. Marion Bloom. sapos.914. isso é um luxo. Talvez eu não faça isso. pensa ele — por que o brilhante fica apagado e o apagado nunca fica brilhante? O que seria preciso para fazer o .” “Se eu sair. ela pode ter ajeitado para essas duas linhas de vida se cruzarem? Ele não tem nenhuma experiência com romancistas e como eles trabalham. gatos. azul-céu se misturaram e viraram agora um roxo pesado. nenhum item cegueira. Examina o índice: nenhuma menção a Marianna ou Marijana. se você não se importa. É massinha velha. histórias sobre personagens que sofrem uma perda (a visão em um caso. lê a esmo. Dunbar. mas de Marianna Popova? Claro que em certo sentido ele é um personagem passageiro na vida dessa Marianna. Quando sair. da qual ele nada se lembra. inclina os pescoços delas para trás como se estivessem uivando para a lua.

é um peixe? Não exatamente bonita. Fecha A fornalha feroz com uma batida. sem cheiro. Lista de prêmios. Se ele der uma olhada será mais uma vitória dela. mas na mesinha de centro está o caderno dela. nenhum amputado. até apagado. Bibliografia. o azul e o verde não vão voltar nunca por causa da entropia. talvez. Estou quase fora de mim. venham imediatamente. como pintinhos de uma casca de ovo? Por quê. sem cheiro. tem uma biografia ao lado da mesma foto náutica. Não vai se expor mais a nenhum gás sem cor. Muito possivelmente ela o deixou ali de propósito. regras do universo. Eles vão todos para os espaços interlunares vazios. Não o tipo de homem nenhum. 1957. Não o tipo dele. Prolongada residência na Europa. Austrália.roxo apagar e o vermelho. um certo ar comum. poucas palavras por linha. inerte. por quê? Por que ela faz uma pergunta e não consegue responder? A resposta é simples: o vermelho. façam o que for necessário para me libertar. até onde pode ver. um estranho total. Como é que Elizabeth Costello pode ser uma escritora popular. Folheia para trás. Primeiro livro. Os olhos dela estão apertados por causa da luz. Bastava se estender ao lado dele na cama tão conhecida para sentir o esgotamento começar a verter dele e inundá-la em uma maré sem cor. até mesmo uma mulher romancista. dormindo em bancos de praça? Será que a cabeça dela começou a fraquejar? Estará caduca? Será que isso explica tudo? Será que o filho e a filha deviam ser chamados à cena? É dever dele encontrar os dois? Por favor. Tinha de escapar! Agora! Uma Marion. que é irreversível e irrevogável. Do múltiplo para o uniforme e nunca de volta. Levem sua mãe embora. o azul. mas provavelmente mais bonita na meia-idade do que na juventude. O Autores mundiais contemporâneos. Nenhum cego. Casada duas vezes. honrarias. mas nenhuma Marianna. Ela escreve com ponta grossa e tinta preta. lê. assim como um cavalo-marinho. nela. mas nenhum resumo de enredos. Sua mãe passou a morar comigo. Mesmo assim. Do pintinho animado para a velha galinha caída na poeira. se é que é popular? Há uma foto dela na sobrecapa: uma Elizabeth Costello mais jovem. Costello não está. Uma mulher do mar? Existe essa expressão ou uma mulher do mar tem de ser uma sereia. Um filho e uma filha. Ele procura o registro mais recente. Ela não conseguia ficar com um homem que estava o tempo todo cansado. internem. Setenta e dois anos! Tão velha assim! O que anda fazendo. . escuros. o verde surgirem de novo. inerte e depressivo que emana de suas páginas. e se recusa a ir embora. Escuro escuro escuro. em uma caligrafia grande e solta. Até mesmo um literato deveria saber disso. a pele profundamente bronzeada. em 1928. de pé diante do que parece ser o casco de um iate. Nascida em Melbourne. Ele volta ao apartamento. na seção de referência da biblioteca. vestindo blusão esportivo. Já era difícil controlar o próprio cansaço. cheval marin. Folheia até o meio do livro. Enfim.

comprimindo a narrativa. o que constitui? O maior de todos os segredos pode ter acabado de se revelar para ele. Na Alemanha. como se tivesse medo de perder o momento em que. E em seguida. não consegue juntar os itens. pronto. cores malucas. cada vírgula. as que pulam por cima da lua. cortando o diálogo. até a estratosfera e além. entre os vagalhões de dor. Mas então uma frase capta o seu olhar: Uma perna azul. tomando nota. uma afronta à decência? Folheia cautelosamente desde o começo. Arlequim. Ljuba? Só pode ser Ljuba. Maldita seja! O tempo todo que achou ser senhor de si mesmo estava em uma gaiola como um rato. Ela está trancada no ritmo de sua dor como uma corredora de longa distância. Oscilando rígida para a frente e para trás na beira da cama. Tragam um cachorro. E o cachorrinho ri. sol. cada ponto. Então. insuspeitado. com aquela mulher infernal em cima dele. Se não está com as orelhas queimando. correndo para lá e para cá. a pessoa cai por um buraco escuro. Se ele ler mais para trás o bastante. Mas o diabrete da curiosidade parece estar a desertá-lo. as mãos nas orelhas. o corpo dele).. palavras sublinhadas. então o anjo da morte chega na pessoa de Wayne Blight ou de alguém como ele. A pessoa se move no primeiro durante certo período de tempo. deveria estar. Durante um instante. Será o caderno inteiro assim: uma provocação. Uma maratona de tristeza. ela tenha se endurecido para não tentar retê-lo. No correr de longos trechos. a alma deixa o corpo e sobe pelas camadas de ar. como uma erupção de gás. observando. mas não a esse ponto. onde o tempo é retomado e a ação prossegue — . saltando impacientemente de uma cena para outra. emerge em um segundo mundo idêntico ao primeiro. Porém.. Orando em hebraico. louco para agradar? Reação de PR: “Posso ser canino. sem dúvida ficará mais claro quem é a mulher que chora. tão pior que a mente ameaça dobrar-se? É isso que significa ser traduzido para o que no presente ele só pode chamar o outro lado? Foi isso o que aconteceu com ele?. Se isto não constitui um grande momento. incomparavelmente pior. ele lê. as lunáticas. choramingando consigo mesmo. Lá fora. com certeza!”. um éon. uma vermelha. um momento copernicano. Se ninguém vier falar com ela. Por que não? O horror da carne fria? Será o horror afinal mais forte que o amor? Ou quem sabe. vai continuar assim o dia inteiro. de quem é o corpo. em cima da página: Escuro escuro escuro. algo ímpio. não o toca nem uma única vez (a “ele”. Ela disse seus adeuses. Mutt e Jeff. os adeuses estão encerrados. acomoda-se numa poltrona. latindo. desvendando o que não pertence à luz do dia. um vira-latinha que abane o rabo para todo mundo. Há algo improvável nessa escrita. Ela escreve como se estivesse passando depressa por alguma história que ouviu escondida. uma depois da outra. É o que ele temia: ela sabe tudo. os olhos arregalados. vacas malhadas são as vacas loucas. Ou será pior que isso. o tempo pára.** Ele fecha o caderno batendo as partes. Há um segundo mundo que existe lado a lado com o primeiro. como sempre. provocador. ouvindo. sem piscar. Adeus: Deus esteja com você. registrando seu progresso. Chorando em cima do corpo. canto de pássaros. a tinta grossa espalhada descuidadamente sobre as pautas. isso o que acontece com todo mundo? Cautelosamente.

sua cabeça está muito confusa). Meu marido. no escuro. farejando. as costas duras. Ele não está o. Sente um gosto ruim na boca. “E a educação de Drago?” “Drago pode ir para escola igual antes. diz Elizabeth Costello. “Que horas são?” Marijana ignora a pergunta. Mas não quer estar ali deitado inerte e exposto quando Costello voltar. “Bom. de alguma forma (de momento. Hansen. mais que canina. Diante dele está não a vulpina mrs. distraída. basta fechar os olhos e vai afundar no sono.k. da palavra D-O-G escrita em um caderno para a vida depois da morte. o bando de observadores curiosos. Ljuba”. mas eu sou . Claro que estou o. Pode muito facilmente imaginá-la espreitando de cômodo em cômodo. chupando o polegar. só que agora a pessoa tem Elizabeth Costello pendurada no pescoço. Rayment. está o. vulpina. a mulher de lenço de cabeça vermelho que é. sim. origem ou fonte de todas essas complicações. o dr. mas que o deixa nervoso e em que ele não confia nada. Tem de começar a tomar consciência de uma certa qualidade dela. Estava no apartamento enquanto ele dormia? “Gostaria que eu falasse com seu marido?”. “Seu cheque”. “E o Drago?”. mas Marijana Jokić. diz ele.” A menina Ljuba brinca com a saia da mãe. o hospital. a ambulância. o primeiro epíteto que lhe ocorre. Quem sabe mrs. Um louco resumo. ou alguém como ela. “Mr.” Dinheiro. não precisa escola interna. Se a morte se revela nada mais que um truque que poderia ser muito bem um truque com palavras. Costello tem uma palavrinha para nos aconselhar. Mas se está certo ou errado. Costello desliza discretamente para a sala. vamos pensar um pouco no que se pode fazer agora. Não pode imaginar nada pior. Marijana.?” “Marijana! Estou. devolva. esse destino insignificante? Quero a minha velha vida de volta. se aquilo que com a maior das hesitações chama de o outro lado é verdade ou ilusão. “Ele diz. Diz que não aceita dinheiro de outro homem. ele não se lembra como. Um salto e tanto. por que tanto agito? Será permitido recusar isso — recusar a imortalidade. caçando. nada mais burro.k. “sou amiga da sua mãe. ele pergunta. pode me chamar de Elizabeth ou de tia Elizabeth. a raiz.” Mas não é verdade. Desculpe ter ouvido seus problemas. et cetera —. Coloca um envelope na mesinha ao lado dele. que nada tem a ver com a aparência dela. Tem de organizar as idéias. se a morte é um mero soluço no tempo depois do qual a vida continua como antes. Atrás dela. meu marido diz. Costello. Ele podia estar errado. Ele está exausto. a cabeça rodando.voando no ar como um gato. é insignificante. nós não aceitamos dinheiro. Outro universo de discurso. Marijana sacode a cabeça vigorosamente.” “Olá. datilografado letra a letra por dentro de suas pálpebras pela máquina de escrever celestial. e detesta ser surpreendido. aquela que se encerrou na rua Magill. Drago. Ele ainda está sentado na poltrona quando é sacudido de leve.k. diz ela. Mais que provável que esteja errado.

juro. ele pensa. Nada mais simples. Esconde os olhos. as lágrimas estão vindo agora. ele continua. você e Drago juntos. Vá embora e nos deixe em paz!” .” Marijana encolhe os ombros. vêem que bem lá no fundo esse primeiro lampejo de uma rixa entre marido e mulher o faz exultar. Costello sacode a cabeça. até o dia em que eu morrer! Os olhos escuros da menina estão pregados nele. Mrs. “Não vejo nenhum dificuldade prática”. diz ele. O que você fez com minha mãe?. vêem o desejo secreto. “Acho que eu não posso interferir”. Desculpe. Aqueles olhos escuros enxergam dentro de seu coração. ela parece perguntar. vou pedir a meu advogado que escreva uma carta dando a garantia para a escola. acho que não devo interferir. muco. olhando direto nos olhos da menina.” Você interfere o tempo todo. Tudo culpa sua! É. culpa dele. um mundo em que ele era jovem. Me perdoe também!. Eu garanto as mensalidades. como disse. ela repete.nova em cena. “Tão bom rapaz”. A filha assume o posto ao lado dela. naquele mesmo sofá onde está sentada? Será que sente? “Ou então”. ele diria. assim não parece tão pessoal. a interferir. Marijana assoa o nariz ruidosamente. Lágrimas. ele pergunta. Fale com seu marido de novo. talvez mrs.” Os soluços a dominam. a criança trota para fora da sala e volta com um punhado de lenços de papel. estou nas garras de uma força que é maior que eu! “Temos muito tempo”. ele diz. Será que ela sabe o que aconteceu ali. se seu marido acha impossível aceitar um empréstimo de outro homem. se se recusar. diz ele com sua voz mais sóbria. desculpe. não sei por quê! Aconteceu só uma vez e não vai acontecer de novo! Me admita em seu coração e eu tomo conta de você. Se não quiser fazer isso. ele pegaria Marijana nos braços. “Tão bom rapaz. Sente uma onda de perverso triunfo. venenoso. “Falta ainda uma semana para o encerramento da inscrição para o ano que vem.” É a primeira vez que ele coloca Costello em cena. não lamentar. cheiros. Fui infiel a você. quando ele se acalmar. “Que eu prefiro não mencionar”. há algumas dificuldades práticas que eu prefiro não mencionar. beijaria as lágrimas até secarem. o lado inferior. então simplesmente vá embora. Por que está aqui senão para interferir? Com um suspiro que é quase um grito. diz ela. inteiro e seu hálito era doce. “Além disso.” “Como o quê?”. Tenho certeza de que vai conseguir convencer seu marido. desesperançada. ranho: o lado menos romântico da tristeza. Como o lado inferior do sexo: manchas. “Quer tanto ir!” Em outro mundo. Fala para a menina alguma coisa que ele não entende. “se é de uma questão de honra que se trata. Marijana se joga no sofá. “Eu faço o cheque para você e você faz um cheque para a escola. Não desejo nenhum mal. de fato. diz ela. mudo. Costello possa se dispor a preencher o cheque e servir de intermediária nessa boa causa.

os olhos dela ainda estão vermelhos. acho que não. A luz brilhante da clarabóia a revela cruelmente. a pele áspera sem maquiagem. Mas ela não fica nada abalada. protagonistas daquela que é considerada a primeira história em quadrinhos a aparecer diariamente em jornais. criada em 1907 pelo norte-americano Bud Fisher. “Deixar vocês em paz?”. “Por favor.” Está tentando dominar a minha vida. “Estou do seu lado”. não é uma amiga. “Vou ajudar você. Quem é essa mulher. “Se eu deixar vocês em paz” — os olhos dela meneiam na direção de Marijana —. ele pensa. romances. enfia o lenço de papel na manga. e se vai. Na verdade.) ** Mutt (vira-lata) e Jeff. nem amiga próxima. Não uma grande amiga. Me salve. diz. Mas parece injusto fazer um apelo a Marijana em seu atual estado. está caçando personagens para colocar em um livro que está planejando. diz. “Elizabeth — ela grande amiga?” “Grande? Não. tão baixinho que ele mal escuta. Ele pega a mão dela. a quem eu anseio me entregar? Um mistério. Escreve livros. * Em latim. ela olha para ele. Parece que está colocando as esperanças em mim. Marijana”. T. diz. Tentando me fazer encaixar. assoa o nariz de novo. (N.” “Mama!”.) . prometo. Marijana lhe dá um tênue sorriso. Não conhecia até pouco tempo atrás. choraminga a menina. “Temos de ir embora”. Mas eu não me encaixo. “se eu deixar vocês dois em paz. Embora as lágrimas tenham secado. É isso que ele gostaria de dizer. canis infelix: “cão infeliz”. (N. baixinho. Marijana retira a mão. ele diz. longe dos ouvidos de Costello. pseudocaeca: “pseudocega”. “Temos de ir embora”. os dentes descoloridos. diz. “Me ajude a levantar. Atualmente. decidida. Vou ajudar Drago. o que vai ser de vocês?” Marijana levanta o rosto. T. de certa forma. tudo um mistério.” No patamar. Elizabeth é escritora profissional. Em você também. Por isso ela está me infernizando. o nariz inchado. Ele espera que essa grosseria vá abalá-la.

diz o velho. Ele se lembra vivamente da ilustração: um velho magrinho só de tanga. talvez. O que aconteceu com o livro? O que aconteceu com o baú de livros e outros remanescentes de uma infância francesa que atravessou o oceano . as pernas finas em volta do pescoço do herói. diz ela. “Simbad encontra um velho. Está em um livro chamado Légendes dorées. em seu baú de livros em Lourdes.” “Claro.’” Ele se lembra da história. Quando eu digo fazer outro arranjo.” Há um silêncio. Mas quando chegam do outro lado o velho se recusa a descer. Paul. enquanto o herói passa pela torrente com água até a cintura. você sabe?” “Eu não estou sendo claro. diz o velho. “Pelo menos você é franco. ‘Me carregue até o outro lado e Alá há de te abençoar. Deixe eu pensar.. “Acho que não vai ser uma noite do seu tipo. “Bom”. ele anuncia a Costello. “À margem de um riacho cheio”. “Estou esperando visitas”. O que vou fazer? Talvez eu vá ao cinema. Ele não responde. quero dizer fazer arranjo para dormir em outro lugar. da história de Simbad e o velho?”. Lendas douradas. Talvez queira fazer outro arranjo. ‘tem de fazer tudo o que eu mandar.” “Ah! E onde acha que eu devia ficar?” “Eu não sei. Está passando alguma coisa que valha a pena. aperta as pernas em torno do pescoço de Simbad até ele sentir que está sufocando. diz ela. Na verdade. Simbad levanta o velho nos ombros e atravessa o riacho..’ Como tem bom coração. De volta para o lugar de onde veio.” E depois: “Você lembra. ‘Agora você é meu escravo’. 17. Não é da minha conta dizer para onde vai quando sair daqui. ‘Estou velho e fraco’. Fico contente de ver que está voltando à atividade social.

com eles até o novo país? Se voltasse para a casa do holandês em Ballarat, encontraria os
livros no porão, Simbad e a raposa e o corvo e Joana d’Arc e o resto de suas histórias
companheiras, fechados em caixas de papelão, esperando pacientemente seu dono voltar e
resgatá-los; ou será que o holandês os jogou fora há muito tempo, depois de ter ficado
viúvo?
“É, eu me lembro”, diz ele. “Devo entender que eu sou o Simbad da história e você o
velho? Nesse caso, vai enfrentar uma certa dificuldade. Você não tem meios de — como
dizer isso delicadamente? — subir nos meus ombros. E eu não vou ajudar.”
Costello dá um sorriso cheio de segredos. “Talvez eu já esteja aí”, diz ela, “e você não
saiba.”
“Não, não está, mrs. Costello. Não estou sob seu controle, em nenhum sentido da
palavra, e vou provar isso. Peço, por gentileza, que me devolva minha chave — a chave que
pegou sem minha permissão —, que deixe meu apartamento e não volte.”
“É uma coisa dura de dizer para uma velha, mr. Rayment. Tem certeza de que é isso que
quer?”
“Isto não é uma comédia, mrs. Costello. Estou pedindo que vá embora.”
Ela suspira. “Muito bem, então. Mas o que eu sei é que não faço idéia do que vai
acontecer comigo, com a chuva caindo desse jeito e o escuro chegando e tudo.”
Não está chovendo, não está escurecendo. É uma tarde agradável, quente e parada, o tipo
de tarde que devia dar alegria de viver.
“Aqui está”, diz ela, “a sua chave.” Com cuidado exagerado coloca a chave em cima da
mesinha de centro. “Vou precisar de uma pequena tolerância, para pegar minhas coisas e
dar um jeito no rosto. Depois vou-me embora, e você vai ficar sozinho de novo. Tenho
certeza de que está querendo muito isso.”
Impacientemente ele vira as costas. Minutos depois, ela volta.
“Adeus.” Transfere a sacola plástica de compras da mão direita para a esquerda, estende-
lhe a mão direita. “Vou deixar uma maleta pequena. Mando buscar dentro de um ou dois
dias, quando tiver encontrado outro lugar para ficar.”
“Gostaria que levasse a mala com você.”
“Não é possível.”
“É possível e prefiro que faça assim.”
Nenhuma palavra mais trocada entre eles. Da porta, ele fica olhando ela descer a escada
oscilando, degrau a degrau, levando a mala. Se fosse um cavalheiro, se ofereceria para
ajudar, com perna ou sem perna. Mas nesse caso não é cavalheiro. Só quer que ela saia de
sua vida.

18.

É verdade: ele está mesmo querendo ficar sozinho. De fato, anseia por solidão. Mas,
assim que Elizabeth Costello sai, Drago Jokić, com uma volumosa mochila no ombro,
aparece na porta.
“Oi”, Drago saúda. “Como vai a bicicleta?”
“Não fiz nada com a bicicleta, não. Tive de cuidar de outras coisas. Em que posso ajudar
você? Quer entrar?”
Drago entra, larga a mochila no chão. O ar de segurança não é mais tão intenso; na
verdade, ele parece constrangido.
“Veio falar do Wellington College?”, ele pergunta. “Quer falar disso?”
O rapaz faz que sim.
“Bom, mande. Qual é o problema?”
“Minha mãe disse que o senhor vai pagar as mensalidades.”
“Isso mesmo. Garanto as mensalidades durante dois anos. Pode considerar como um
empréstimo, se preferir, um empréstimo a longo prazo. Para mim não importa como você
vai chamar isso.”
“Minha mãe contou quanto dá. Eu não sabia que era tanto dinheiro.”
“Não tenho nada para fazer com esse dinheiro, Drago. Se a gente não gastar na sua
educação, vai ficar simplesmente parado no banco, sem fazer nada.”
“É”, diz o rapaz, insistente, “mas por que eu?”
Por que eu? — a pergunta que está na boca de todo mundo, ao que parece. Podia
impingir a Drago alguma fórmula polida, mas não, o rapaz veio perguntar pessoalmente,
então vai lhe dar uma resposta, a resposta verdadeira ou parte da resposta verdadeira.
“Nesse tempo em que sua mãe está trabalhando aqui, acabei ficando com um fraco por
ela, Drago. Ela fez uma grande mudança na minha vida. Para ela não é nada fácil, nós dois

sabemos disso. Eu quero ajudar no que eu puder.”
Agora, o ar evasivo desapareceu. O rapaz está olhando para ele direto nos olhos,
desafiando: É só isso que vai dizer? Vai só até esse ponto? E a resposta: É, só vou até esse
ponto, neste momento.
“Meu pai não vai deixar”, diz Drago.
“Eu soube. Para seu pai, provavelmente é uma questão de orgulho. Eu entendo. Mas
você devia conversar com ele, não é vergonha nenhuma aceitar um empréstimo de um
amigo. Porque é assim que eu gostaria que pensassem em mim: como um amigo.”
Drago está sacudindo a cabeça. “Não é isso. Eles tiveram uma briga por causa disso, meu
pai e minha mãe.” O lábio dele começa a tremer. Dezesseis anos: ainda uma criança.
“Tiveram uma briga ontem de noite”, continua, baixinho. “Mamãe foi embora. Foi ficar na
casa da tia Lidie.”
“E onde é isso? Onde mora a tia Lidie?”
“No fim da rua, em Elizabeth. Em North Elizabeth.”
“Drago”, diz ele, “vamos falar francamente. Você não teria vindo até aqui hoje, eu sei, se
não tivesse idéias perturbadoras sobre sua mãe e eu. Então deixe eu tranqüilizar você. Não
tem nada de vergonhoso acontecendo entre sua mãe e eu. Não tem nada de vergonhoso no
que eu sinto por ela. Respeito sua mãe tanto quanto respeito qualquer mulher na Terra.”
Nada vergonhoso. Que estranha fórmula! Será que não é apenas uma folha de parreira
para esconder uma coisa muito mais grosseira, uma coisa indizível: Não estou trepando com
sua mãe? Se é de trepar que se trata, se é trepar que lança Miroslav Jokić em um ataque de
ciúme e leva seu filho próximo das lágrimas, por que ele está fazendo um discurso sobre
honra? Não estou trepando com sua mãe, nem pedi isso: vá e diga isso para seu pai. Porém,
se não está planejando propor nada a Marijana, se não pretende trepar com ela, o que, em
nome de Deus, está planejando ou pretende fazer, em palavras que façam sentido para um
rapaz nascido nos anos 1980?
“Sinto muito ser uma fonte de problemas entre seus pais. É a última coisa que eu quero.
Seu pai está fazendo uma idéia errada de mim. Se me conhecesse pessoalmente não faria
isso.”
“Ele bateu nela”, diz Drago, e agora o controle está começando a ceder — o controle da
voz, o controle sobre as lágrimas, talvez o controle sobre os movimentos de seu coração.
“Odeio ele. Bateu na minha irmã também.”
“Bateu em Blanka?”
“Não, na minha irmãzinha. Blanka fica do lado dele. Diz que mamãe tem casos. Disse
que mamãe está tendo um caso com o senhor.”
Mamãe tem casos. Costello disse que ela era uma esposa fiel. Que ele não devia perder
tempo tentando a sorte com Marijana Jokić, disse ela, porque Marijana Jokić era uma
esposa fiel. Quem tem razão, a filha desprezível ou a velha maluca? E que quadro
horrendo! Miroslav, sem dúvida um homem grande como um urso, enfurecido e bêbado,

Como ela está?” “Ela está o. Tenho certeza de que ele está arrependido do que fez. Ele nunca se arrepende. quando abre a porta.”* “Achei que você disse que ia ficar com um amigo”.” “Não está. insiste. não vou tentar convencer você. “Não deu certo. Tudo bem.” “Não estou perguntando de você. “Não vou voltar. Contei que não vou voltar.” “Não sei. Falei que ia ficar na casa deles. ele diz a Drago. batendo também em sua filha de traços de porcelana. subam. que uma bebedeira não pode ter ajudado. Mas só no dia seguinte é que Drago volta. Na companhia de uns sujeitos.” Pelo aspecto da mochila. Vá. “Não é provável que o pai de Drago se . Faça as pazes com seu pai. estou perguntando dela. se quiser.” “Tome um banho. Ao lado de um sujo Drago de ar cansado está Elizabeth Costello. imediatamente? Vai ficar na sua casa ou com sua mãe?” Drago sacode a cabeça.batendo em Marijana com os punhos. diz Elizabeth Costello. eu não sonharia com isso. fervendo! Paixões balcânicas! Como pôde ter se envolvido com balcânicos.” Dá um chute na mochila. quase dá um grito de exasperação. trouxe muita coisa. “Encontrei com Drago na praça Victoria”. Depois vá para casa. um mecânico balcânico e seu pato mecânico! “Sua mãe e eu não estamos tendo um caso”. “Uma amiga está comigo aqui embaixo”. “Ela nem sonharia com isso. Limpe-se.” Mas. “Era lá que ele ia passar a noite. O que você vai fazer agora. esperando Drago. ele anuncia pelo interfone.” “Posso dizer uma coisa?”. Tem uma cama extra no meu escritório. não se fala mais nisso. enquanto o filho assiste. ele repete. “Falou com sua mãe?” O rapaz faz que sim. Será que nunca vai se livrar dessa mulher? Ele e ela trocam um olhar arisco. Drago. Posso telefonar mais tarde? Posso deixar minha mochila aqui?” “Esteja à vontade. Ele parece mergulhado em desânimo. “Pode dormir aqui. Durma um pouco.” Que mentira! Sonho com isso diariamente. como cães rivais.” Ele fica acordado até meia-noite. uma namorada: então foi aí que passou a noite! “Pode. Claramente não está nada bem com o rapaz. “Se não acredita. Que estavam apresentando a ele os frutos da Barossa. “Ela pode subir?” Uma amiga.k.” Tudo bem. “Trouxe as minhas coisas. “E?” “Telefonei para ela. Vou dormir com meus amigos. diz ela.

é dono do seu nariz. como pode um observador de fora ter certeza da verdade do que está acontecendo? Do que podemos ter muito mais certeza é que murmúrios foram soltos no ar. ‘Onde há fumaça. Preste atenção. Se eu soubesse o que vai acontecer em seguida. já que ela parece ser a luz da sua vida — quanto mais cedo decidir por uma linha de ação e se comprometer com essa linha. A cunhada não dá nenhum apoio a ela.” “E como é que você sabe dessas coisas? Como sabe o que Lidie diz?” Costello ignora a pergunta. o que Marijana está recebendo não é nada mais do que ela merece. não entorte a boca com desprezo. Rayment. ou mesmo no que diz respeito a mrs. pelo menos quando Drago não está por perto. Fofoca. há fogo’. quer se livrar de mim. como diz o ditado. Se foi se refugiar com a cunhada. McCord. mais cedo você e eu. quanto mais forte a negativa dos rumores. posso lhe garantir. fama. Mas o que um ato sexual conta hoje em dia? E que peso nós atribuímos a um encontro rápido num canto escuro diante de meses de ardente desejo? Quando se trata de amor. quem sabe por quem. com ele vivemos. não importa se na verdade Marijana está tendo um caso extraconjugal. Não faz nenhum sentido. ou no que diz respeito à dama de negro que visitou você outro dia. “Para Lidie. mr. poderemos nos separar. Você diz que está apaixonado pela mrs. “Não entendo o que quer dizer. Qual viria a ser essa linha de ação eu não posso aconselhar. que nunca mencionou em minha presença. seja como for. posso lhe garantir. Mas até que escolha agir tenho de atender você. Drago) um ato sexual.arrependa enquanto estiver convencido de que tem razão.” “É essa Lidie? Lidie é irmã de Jokić?” “Lidija Karadzić. diz Lidie. para nosso mútuo alívio. não haveria necessidade de estar aqui. eu poderia voltar para a minha vida. Você nos diz que de verdade não está tendo um caso com a mãe de Drago porque você e ela de verdade não praticaram (desculpe. independentemente do que possa dizer ao filho pelo telefone. mas principalmente no que diz respeito à mãe de Drago. Provérbio croata. mais eles estão no ar. que é bastante mais confortável. com toda a certeza não está bem. opinião pública. não é preciso entender antes de agir. nunca se deram. a menos que a pessoa seja excessivamente filosófica. Você. Na opinião de Lidie. E. ela deve vir de você. Quanto mais cedo decidir por uma linha de ação no que diz respeito à mãe de Drago.” “Claro que entende. “Você não gosta de mim. Pelo menos. e satisfatória do que o que tenho de agüentar aqui. E o ar é comum a todos. Paul. Quanto a Marijana. Lidija e Marijana não se dão bem. não a verdade. Jokić. tia de Drago. ou. Permita lembrar que existe uma coisa que se chama agir por impulso e eu sem dúvida aconselharia isso se tivesse permissão. é só porque não tem nenhum outro lugar para onde ir. o ar é o que nós respiramos. Irmã de Miroslav. de me ver de volta a este horrendo apartamento. é o que move o mundo — fofoca. como chamaram os romanos. E eu própria não estou nada exultante. é isso que . é assim que eu vejo a coisa. O que interessa é que estão correndo histórias no círculo bastante estreito da comunidade croata.” Ele sacode a cabeça. deixa isso bem claro.

Rayment. não tem. O Cruzeiro do Sul. brotado do amor. Eu tenho dezesseis anos. um meio-irmãozinho para você). “Algumas pessoas dizem que o amor faz a gente ficar jovem de novo. Bom. acorda perdidamente apaixonado por uma mulher que não só é vinte e cinco anos mais nova como é também casada. Faz o coração bater mais depressa. Mr. talvez. Vamos concordar que é assim. Mas o quê? “Deixe eu perguntar uma coisa. conclui que jogar-se de corpo e alma em um caso amoroso com uma mulher casada seria imprudente e então se recolhe à sua concha?” “Eu não sei. diante da situação que eu descrevi. a propósito. é verdade. Rayment tem um acidente e a conseqüência é que perde uma perna. é a seguinte: o que mr. Faz correr os fluidos. só está disposto a se arriscar no hipotético até esse ponto. mas o sorriso não desaparece de seus lábios. Rayment. Costello. já tem idade para ter paixões. “Então. Imagine: você tem sessenta anos e. ou. não é? Como é que eu posso ser mr. Drago?” Drago fica em silêncio. Sagitário e assim por diante. Deve haver alguma coisa entre a mulher e o rapaz. esperando mais. Rayment que a gente está falando. um pouco mais de franqueza na frente de Drago não vai fazer nenhum mal — não é. Você tem paixões. Mas parece que o rapaz. fantasia de um velho caduco? Então a questão em que temos de pensar. Drago?” Drago dá um sorriso torto.. faz agora? Obedece cegamente às imposições do desejo. só para poder continuar a discussão. bem casada. “Parte da educação de um rapaz em crescimento. Ele já deve ter alguma paixão dele agora. pesando os prós e os contras. deixe eu colocar a pergunta de outro jeito”. Rayment. Rayment?” “O que eu faria?” “É. E. Drago: o que você faria se estivesse no lugar de mr. e vamos examinar o caso de mr. Rayment. de repente. Deixe que ele veja como uma pessoa navega as paixões. mais ou menos. Permitir que ele tenha um relance das praias mais loucas do amor. faça alguma coisa com o seu amor. como vou saber como é ter sessenta? Quando a pessoa tem sessenta é outra coisa — ela pode lembrar. que apesar da ressaca tem ainda a aparência de um anjo do Senhor. uma manhã. pois seu desejo anseia por se saciar. “Não é uma boa pergunta. se fosse mr. pode estar ali na esquina.. Mas será que ele pode confiar nessa sensação? Será. Contrata uma enfermeira para tomar conta dele e bem depressa se apaixona por ela. ele até sonha em fazer um filho (é. Mas. diz mrs. Melhor que mandar o rapaz para esse colégio pretensioso em Canberra. Não sei o que ele faz. Tem a sensação de que um miraculoso reflorescimento da juventude. Rayment se não posso entrar dentro dele?” Ficam em silêncio. O que você faria?” Drago sacode a cabeça devagar. como se pilota pelas estrelas — a Ursa Maior e a Menor. ou alguém como mr. É de mr.diz. O que a senhora acha?” . Põe música em nossa voz e balanço em nosso andar.

Primeiro. Ele vai continuar sendo como ele era antes. ele resolve refrear a paixão. nos aconselhe. Vamos fazer uma hipótese. quando a gente era. E pare de falar de mim como se eu não estivesse na sala. Uma bela confusão.k.. Eu preferia um personagem mais interessante. Drago? Vamos lá. Rayment não sei. se ele ficar sentado aqui no apartamento dele e não fizer nada. não ainda. Mas por que ninguém pergunta para minha mãe o que ela quer? Quem sabe ela gostaria de nunca ter vindo trabalhar para mr. desperta sentimentos. Antes que Drago possa responder. uma sombra de si mesmo. Ah. alguém que eu espero nunca mais ver na minha frente.” “Só que. Rayment.. o que ele deve fazer para não morrer cheio de arrependimento?” Para ele. levantando uma sobrancelha. ele intervém. vamos pensar que mr. À noite. Você é uma estranha para mim. estranho. Rayment não age. “Eu também não sei o que ele faz. Quem sabe ela gostaria que fosse tudo como era antes. Não sou. a paixão extraconjugal. ele vai se arrepender. a memória da própria pusilanimidade.. nenhum estranho tem nada a ver com isso. basta. é nisso que ele vai se transformar. Quando ela sai. Se vocês não gostam um do outro. Mas vamos examinar a questão metodicamente. só Deus sabe. Os dias dele vão ficar nublados com uma monotonia cinzenta. Qual você acha que é a conseqüência?” “Se ele não fizer nada?” “É.” “O. não acha. Como foi que eu e você nos vimos ligados. “É.. desejos brotam no coração de estranhos. se ao menos! A memória vai roê-lo por dentro como um ácido.. Chato. Pense na situação do ponto de vista . Marijana!. logo o arrependimento vai começar a tomar conta de você.” “E Paul e sua mãe? Deviam se separar também?” “Do mr. ajude a gente. como a senhora diz. uma família. Mas aqui estamos. Não sei.” “Então. Elizabeth. “Pare de arrastar o rapaz para os seus jogos. Você quer ficar com Marijana. Por alguma razão.” “Então você é contra a paixão. Você principalmente. Dizer adeus. Paul. ele vai acordar assustado. Drago..” “Estranho?”. diz Elizabeth Costello.” “Igualmente.. rilhando os dentes e resmungando para si mesmo Se ao menos. porque nós dois realmente não temos nada a ver um com o outro. Se ao menos eu não tivesse deixado Marijana ir embora! Um homem triste. Até morrer. igualmente. o homem de uma perna só que não consegue se decidir.” “Então vai ficar tudo como antes.” “Mas sua mãe é uma mulher bonita.” “Não. ele vai lamentar. mas em vez disso está atrelado a mim.” “Só que o quê?” “Só que logo. contra a paixão. recebe olhares. O que você faria?” “Eu acho que vocês deviam se separar. eu não disse isso. mas estou atrelada a você. Mas. e num piscar de olhos se acendem paixões imprevistas com que a pessoa tem de se haver. O jeito como eu levo a minha vida é assunto meu.

perdendo tempo. “E eu?”. O Paul aqui está infeliz porque a infelicidade é sua segunda natureza. Posso sentir muito até pelo pai de Drago.” Drago parece a ponto de dizer alguma coisa. talvez bárbara — “com todo homem que — sabe como é — que bate os olhos nela. mas muda de idéia. enxugando o rosto. pergunta Elizabeth Costello. Sua mãe está infeliz porque tem de se hospedar entre parentes que não aprovam o comportamento dela.” Ficam em silêncio. Seu envolvimento. e pelas irmãs dele também. Sinto por Drago. abra os ouvidos para o que estou dizendo. se é isso que está pensando. é uma coisa que. Não está em cena. seus pais vão ficar horrorizados se souberem. Vou te dar uma chave. mas talvez ela não tenha vontade de ter um caso” — ele ronca ao pronunciar a frase. O que está acontecendo entre a família de Drago e eu não é da sua conta. em quatro cantos. Então por que ele fica tão notavelmente impassível? “Mrs. diz ele. É isso que eu estou dizendo: por que ninguém pergunta para ela?” “Eu perguntaria a ela agora mesmo se pudesse”. deliciada. Sinto por Marijana. não nos ajuda em nada. Dá para entender isso? Será que não consigo convencer você a nos deixar em paz para resolver nossa salvação à nossa maneira?” Há um longo e incômodo silêncio. por mais bem-intencionado que seja. diz ele. “Devo ser jogada na rua para sofrer o calor do sol e . É perigoso. por assim dizer. tem uma cama no meu escritório. como vagabundos de Beckett. como você gostaria que sua mãe se comportasse? Devia se trancar em casa? Usar um véu?” Drago dá uma estranha risada latida. Estamos todos infelizes. Não é seu lugar. A senhora não tem nada o que fazer aqui. Mas ceder e ter um caso com um homem de sessenta anos que ela está contratada para ver seis dias por semana. mas principalmente porque não faz a menor idéia de como realizar os desejos de seu coração. “Não. eu diria. É fácil resistir a esses estranhos cheios de paixão quando eles se declaram. simplesmente nos confunde. de outro jeito. diz Drago. como se pertencesse a alguma curiosa língua estrangeira. Paul?” “Bem longe mesmo.” “Então é isso. sendo perdida pelo tempo. Tem comida na geladeira. Mas não sinto nada por você. faça chuva ou faça sol. Só podemos adivinhar. Seu pai está infeliz porque acha que as pessoas estão rindo dele. “Mas ela não está disponível. Costello”. “Obrigado”. Pode entrar e sair quando quiser. Diante de homens estranhos e seus desejos. Sendo perdida pelo tempo: é uma espécie de argumento que a mulher está fazendo. porque a confusão na sua casa obrigou você a armar sua barraca na praça Victoria no meio dos bebuns. todos. “Você não pode voltar para o parque. E eu estou infeliz porque nada está acontecendo. parece. O mais longe possível. Dentro do razoável. Nenhum de nós sente por você. diz. e eu no meio. está bem longe das preocupações dela. Quatro pessoas. “Não”. Você está infeliz. diz Elizabeth Costello. Eu não permito. Drago. “por favor. Você é a única estranha entre nós.de sua mãe. Para isso é preciso ter gelo nas veias. “Tenho de ir embora”. mas é menos fácil ignorar isso. O que você diria. nem sua esfera.

Pode se cuidar sozinha.a fúria do inverno. enquanto o jovem Drago é alojado como um príncipe?” “Você é uma mulher adulta. T.” * Região produtora de vinhos da Austrália. (N.) .

“Posso ir direto ao assunto? Você quer saber por que estou me oferecendo para ajudar na . e quase a mesma coisa para atravessar a rua. Jokić não é a criatura corpulenta. Saltando o mais depressa que consegue. Dedos longos com tufos de pêlos pretos. Ao contrário. 19. de boca fechada. Está espionando a esposa? Está tentando intimidar o casal culpado? Com as muletas.” Jokić sai do carro. Há um carro parado do outro lado da rua em frente a seu apartamento. ele indica o caminho. Tem quadris tão estreitos que parece quase não ter nádegas. Está lá desde o meio-dia. blusão de couro preto. que ele imaginava. é alto e esguio. cobrindo-a. Será que Marijana gosta de todo aquele pêlo. uma velha perua vermelha Commodore. calça jeans. ele leva quase dez minutos para navegar pela escada e pelo saguão. mas só pode ser Miroslav Jokić. com um rosto estreito e escuro. Ele escorrega para uma baia e Jokić o acompanha. o homem ali dentro desce o vidro da janela e deixa sair uma nuvem de fumaça de cigarro envelhecida. ele pensa. O que é menos certo é o que Miroslav pretende. Involuntária. Podemos dar uma volta? Posso convidar para uma cerveja? Há um pub virando a esquina. unhas cortadas rentes. agressiva. lhe vem uma visão daquele corpo em cima de Marijana. “Mr. Ao se aproximar do carro. Está com botas de trabalho. Um corpo como um chicote. Pêlos na gola da camiseta também. camiseta preta. Ele dá uma olhada nas mãos de Jokić. “Eu sou Paul Rayment. Jokić?”. nariz aquilino. O pub está quase vazio. se pressionando para dentro dela. ele pergunta. O vulto atrás da direção é indistinto. aquela pele de urso? Ele não tem nenhuma experiência de confronto com maridos ofendidos à qual recorrer. Deveria sentir pena do homem? Não sente nenhuma.

depois arrumei emprego na academia.educação de seu filho. Os olhos do homem são como a boca de uma arma voltada para ele. Muito duro para mulher. “Porque ela parece conhecer você. mas ele me disse que tem boa reputação e eu aceito isso. Essa parte de minha vida ficou para trás. mas minha situação é confortável e não tenho filhos. Três anos a gente fica em Coober Pedy. vive pobre — entende o que digo? — e se inscreve para vir para Austrália. Ele é muito promissor. Jokić. Eu — sem sorte. é ridículo que seja odiado em retribuição. Não sou um homem rico.” Ele pousa o copo vazio. por . economiza dinheiro. escritora profissional?” Jokić sacode a cabeça. Drago ainda pequeno. Devia ter falado com você além de sua mulher. Ofereci um empréstimo ao seu filho porque gostaria que ele se desse bem. É quando a gente se conhece. Opalas. trabalha duro. Primeiro. eu estava no Exército federal. não mais. Ele devolve o olhar tão direto quanto pode. Coniston Terrace! “Você por acaso conhece uma mulher chamada Elizabeth Costello. como se colocasse as cartas na mesa. pelo menos isso ele tem. que ele não esqueceu. Apesar das panturrilhas dela. casa boa. Quatro juntos. Nada sobre Melbourne ou Coober Pedy. Se ainda praticasse o amor. Então eu consigo emprego com Holden e a gente vem para Elizabeth. “Quanto a sua mulher. mr. Uma voz profunda. naquele momento ama Marijana de coração puro e benevolente. por esse homem ou por qualquer um. “Eu e minha mulher estamos casados desde 82”. Fiquei impressionado com Drago. diz Jokić. Depois eu vou para Coober Pedy com colegas. precisa ter sorte. apesar dos seios. Depois nós vamos para Alemanha. e assim por diante. Quando me conhecer melhor. “Sinto muito que meu oferecimento tenha perturbado a sua família. Bom emprego. em que ele daria tudo para afundar o rosto.” “Lugar muito quente. eu trabalho na oficina de solda. Ela é estudante na Academia de Belas-Artes de Dubrovnik quando eu conheci. ele parece estar dizendo. Me contou uma parte dessa mesma história que você acabou de me contar — como você e Marijana se conheceram. agora me dou conta disso. nunca ouvi falar. mr. entende o que digo? Mas meus colegas. a gente se ajuda. voz de urso.” Está mentindo? Poderia estar. Essa é minha história. Minha irmã também. eles ajudam. o que vocês dois faziam em Dubrovnik. como soldador. vai entender. “Dezoito anos.” Ele hesita. Marijana vem. Primeiro a gente mora em Melbourne. Afinal. “Eu não me envolvo com mulheres. mr.” “Muito duro para mulher com filhos. Jokić. Elizabeth Costello está trabalhando num novo livro e parece estar me usando como personagem. Fim do recital.” “Entendo. mas não se sente assim. uma mulher mais velha. tenta a sorte com opalas. Silêncio. praticaria de outro jeito. Bata essa. Depois. Quanto à escola que escolheu. me permita dizer simplesmente que minhas relações com ela foram sempre corretas. Conhece Coober Pedy?” “Conheço Coober Pedy. como Deus a ama.

não consegue sentir nenhuma curiosidade por ele. Mas não oferece. da qual participou tão relutantemente. Elizabeth Costello é uma intrigante. agora é a vez de Jokić — a vez de Jokić pagar a bebida. Ele faz que sim. talvez até três. Você fala de confortável. mesmo relutante. Significa que tenho o suficiente para minhas necessidades e para sobrar um pouco. Podemos firmar documentos ou dispensar os documentos. num camarada. Mas se é para lá que Drago quer ir. Confortável o apartamento. significa que recebo uma renda confortável. Não tem nada a ver com meu apartamento. “Talvez”.” “Meu filho vai para escola chique.” Jokić espera que ele complete o parágrafo. Embora esse homem tenha gerado em Marijana dois filhos angelicais. Depois disso. aceite o empréstimo. estará terminada. ela andou desencavando o seu passado. arruma amigos chiques.” Nesse ponto.assim dizer. Além disso. não sou fã de escolas chiques. soaria ridículo demais. Isso não se pode negar. se interessou por Marijana e você. coloque nela. mr. uma vez que Jokić nunca esteve no apartamento. Evidentemente. Podemos fazer esse empréstimo ser tão formal ou informal quanto você quiser.” “Minha situação é confortável. Seu interesse é por Marijana: Marijana e tudo de Marijana que tiver passado para seus filhos.” Uma pergunta? Uma afirmação? Deve ser uma pergunta. dou meu apoio a ele. Por causa do interesse dela em mim. No meu caso. ele espera. a vez de Jokić dizer o que pensa.” Jokić fica pensando. A questão é abstrata demais para seu estado de espírito atual. “Confortável. Não fui eu que sugeri o nome do Wellington. O que eu desconfio é que o Wellington não é tão chique quanto pretende ser. ele devia oferecer outra cerveja a Jokić. isso que eu disse. Drago colocou todas as esperanças no Wellington College. para o bem de Drago. Uma escola chique pode ensinar seu filho a desprezar a própria origem. Já disse o bastante. ou posso fazer uma boa ação mandando seu filho para a faculdade. O que ele hesita dizer é: Essa confusão em que você e eu estamos envolvidos é obra de Elizabeth Costello. diz. qualquer um percebe. ele continua. por favor. vai querer tudo que é coisa chique. ‘Situação confortável’ é uma expressão usada por gente que acha embaraçoso falar de dinheiro. essa cena. Se quer colocar a culpa em alguém. Jokić. Seu interesse por Marijana é um interesse interessado ou desinteressado? O Deus com cujo amor por Marijana ele compara o próprio amor é um Deus interessado ou desinteressado? Ele não sabe. esse encontro. para mim não faz diferença. mas ele não consegue ainda. “talvez a gente pode fazer um fundo de previdência . Não me entenda mal. Uma faculdade chique de verdade não precisa anunciar. “Você tem apartamento bom. Posso fazer a caridade que eu quiser. “Devia fazer as pazes com Marijana. “Não se ofenda com o que vou dizer”. Ela está por trás de tudo isso. entende o que digo?” “Entendo. Devia facilitar ao máximo para Jokić engolir o orgulho e se transformar. Jokić irrompe em suas idéias.

sabe. conhece mr.” “Minhas conversas com Marijana têm sido bem limitadas”. profissionalmente. cauteloso.” “Desculpe. “Eu. sessenta horas.” No caso de quê? No caso de ele. Marijana. sabe.” “Ou com banco”. sabe. Há alguma coisa que ele não está percebendo? “Vou sentir falta dela se sair”. mrs. uma conta de previdência. mais serviço doméstico. “A gente pode abrir conta para Drago. diz ele. Só recentemente fiquei sabendo da formação dela em arte. Diploma de restauração — ela contou? Não tem trabalho de restauração na Austrália. Aí é seguro.. por causa da enfermagem. Aí.. tão pessoal. Ela volta para casa cansada todo tempo. dois pacientes. Em Munno Para. embora seja uma solução cara para um problema simples. está no processo de ser atraída para fora de seu lar por um . cinqüenta horas por semana. por mrs.” “É”. Dois trabalhos ela tem. e dirige carro. Costello. embora cada vez mais receoso. Será a ficção de um fundo de previdência o que basta para preservar o orgulho de Jokić? “E Marijana. a mulher de quem falei. tenha ou não tenha caído. Podemos falar com um advogado.. Rayment. muito garantido legalmente. nem na Austrália.” Jokić está olhando para ele cheio de intenções. nem na Croácia. Mecânico não é nada. com quem ela pode conversa? O. No caso de. diz ele. está disposto a tirar um dia de folga no trabalho e ficar sentado dentro de um carro em Coniston Terrace. Drago está interessado em porção de coisa.” Lentamente está começando a ficar claro para ele por que Jokić. Nunca mencionou um segundo emprego para mim. quem sabe ela pára de ser enfermeira. Aí não fica. você e essa outra velha. Não enfermagem mesmo. Então a gente pensa. mas mesmo assim. Eu não sabia que Marijana tinha dois empregos.” “É. “Se quiser fazer tudo legalmente. para pessoa culta.” Um fundo de previdência? Não é uma má idéia. Mas Marijana é pessoa culta. Muito limitada. diz ele. serviço doméstico.para Drago. Paul Rayment. Mas o que esse refugiado do socialismo estatal pode saber sobre fundos de previdência? “Podemos pensar nisso”. Somando. depois de espancar a mulher e expulsá-la de casa. podemos fazer isso”. no sentido absoluto. eu sou só mecânico. “Assim como o resto da minha relação com ela. Aiello. ele responde. todo dia dirige carro. Você deposita dinheiro numa conta de previdência. ela conversa com ele. Jokić deve achar que sua mulher. Isso não é bom. Uma pessoa culta. O que você quer dizer de Marijana?” “Marijana está sempre cansada. diz Jokić. encontra outro tipo de trabalho. “É uma mulher muito capacitada. diz Jokić.k. mudar de idéia e deixar Drago desamparado? No caso de ele morrer? No caso de deixar de amar a esposa de Miroslav Jokić? “É.

rival odiado. mijo no chão! Não conseguiria seduzir sua mulher a abandonar você mesmo que tentasse. onde pode ficar acordado a noite inteira se quiser. Jokić está fazendo um apelo. Mutt e Jeff. pro forma. Se seu amor por Marijana é puro mesmo.cliente cheio de dinheiro e com fácil familiaridade com o mundo da arte e dos artistas. pernas torneadas têm a ver com amor. ou com desejo? Ou se trata apenas da natureza da natureza. para uma cama vazia em Coniston Terrace. um apelo ao melhor em sua natureza. Para onde têm de ir. ele gostaria de protestar. ele pergunta. no mesmo momento a memória emite de novo a imagem de Marijana se esticando para tirar o pó das estantes. . sobre a qual não se fazem perguntas? Como funciona o amor entre os animais? Entre raposas? Entre aranhas? Existem coisas como pernas torneadas entre senhoras aranhas. os dois? Um para uma cama vazia em Munno Para. tenho de ir embora. e a sua força atrativa intriga o macho no mesmo momento em que o atrai? Ele imagina se Jokić tem alguma opinião a respeito. não em qualquer sentido da palavra! Porém. “Quer outra cerveja?”. Ele tem de ir embora. E se esse apelo falhar — o quê? Será que Jokić está planejando bater nele também? Olhe para mim. Podiam até montar casa juntos. “Não. enquanto eu tenho de arrastar comigo esta obscena monstruosidade! Metade do tempo eu mijo. já está farto dele. precisa do espetáculo da beleza para ser trazido à vida? O que. Você ainda tem os membros que Deus lhe deu. ouvindo o tiquetaque do relógio da sala. Mas certamente não vai perguntar. também o ambiente elegante de Coniston Terrace a está ensinando a desprezar o Munno da classe operária. ele suspeita. por que esperou para se instalar em seu coração até o instante em que ela mostrou as pernas para ele? Por que o amor. em abstrato. Marijana com sua pernas longas e torneadas.” Jokić tem de ir embora. o outro. Já basta de Jokić por um dia e Jokić. mesmo o amor que ele afirma praticar.

você quer dizer.” “Absurdo? Devíamos perguntar a Marijana a respeito. “Estou procurando Drago”. “Acabo de ter um encontro com o marido de Marijana. Não vai perguntar de mim? Não está curioso para saber onde eu passei a noite depois que você me expulsou tão rudemente?” Ele ignora a pergunta. os vínculos de afeição?” “Vínculos afetivos não entram em jogo.” “Não seja obscena.” “Bom. sentada em um banco.” “Nenhum vínculo visível. Para cada mão há outra mão. confesso que ainda estou para entender o que você vê na sua dama balcânica. para localizar Elizabeth Costello. O dinheiro é para a educação de Drago. “Sabe onde posso encontrar?” “Drago? Não faço idéia. Primeiro por seu próprio ciúme. Achei que ele estava na sua casa. Uma mão lava a outra. Ela pode pensar diferente. está tão humilhado.” “E os vínculos do coração. Você ofereceu uma mão. e agora por descobrir que tipo de homem é o rival. É. diz ele. Pedi que colocasse os interesses de Drago em primeiro lugar. É absurdo sugerir que estou tentando comprar a mãe dele. Agora é dela o ônus de aparecer com a mão certa. Paul. 20. mas ainda dá para sentir o peso do sol de verão. a mão adequada. os patos se espalham alarmados e deslizam clamorosamente de volta para a água. a encontra à margem do rio. Ele se finca na grama diante dela.” “Nenhum vínculo absolutamente. Passa das seis da tarde. cambaleando para cá e para lá pelo parque. Aos . cercada de patos que parece estar alimentando. Leva quase uma hora inteira. Repeti que não havia nenhum vínculo em meu oferecimento. coitado. Quando ele se aproxima. Por fim.” “Miroslav. O que disse para ele?” “Pedi para ele repensar.

Dispenso aventureiras. mas também não tão velha. Um sujeito como você podia conseguir coisa melhor. porém. velhos como nós. “Ou por que incomodar mrs. Mas ela não se consola. tem muito peixe no mar. paternidade espiritual. por menos valor que tenha. está profundamente ofendida pela maneira como foi tratada. vigoroso embora com mobilidade reduzida. eu cedo. Ou talvez sua busca de amor seja um disfarce para uma busca por alguma coisa bem diferente. Putts? Diga a ela que você está em busca de uma nova enfermeira. ela geme. “Mas talvez eu tenha interpretado completamente errado. Devo informar. como se guarda um resfriado para si mesmo. estou só brincando. Você tem de se acostumar a pagar. por que não telefonar para mrs. Jokić. Bobagem. Nós não precisamos de amor. Se já resolveu que ninguém consegue substituir Marijana em seus afetos. Putts? Por que se submeter à trapalhada de contratar enfermeiras e se apaixonar por elas? Coloque um anúncio no Advertiser. a pobre Marianna. “É. se seu veredicto for que Marianna não se encaixa. que. independente. Mas chacun ses goûts. 60. Que mais? De temperamento impetuoso. ‘Cavalheiro. Homem alto e mulher corpulenta: uma dupla de comédia. impetuoso e fácil de agradar. procura companheira. de amor recompensado. eu digo — o coração dele é que está em outro lugar. O que nós precisamos é de cuidados: . afinal. só isso. regalos. uma tarde por semana. de preferência não fumante. presentes. Belos seios. alimentando a conversa. panturrilhas bem torneadas. eu digo a ela. Nada de amor grátis mais. Paul. eu aceito. sem filhos. é que. que tem de ser Marijana ou nada. 35-45.* acho. alguém que em troca de favores dispensados concordaria em aceitar um presentinho uma vez ou outra.” “Não posso amar quem eu escolher?” “Claro que pode amar quem escolher. devia desistir de mrs. Ele me acha muito gorda!. Paul. filhos não são obstáculo. Paul. Mas talvez de agora em diante deva guardar o amor para si mesmo. Ela não é para você. que Marianna. com vistas a amor. uma amiga discreta como Marianna. não gosta de aparecer em público. com bons peitos. a outra. Nada de servir de cupido. “Porém. se é de recompensa que você está atrás. devido a sua limitação. Absolutamente nada. Diga que quer alguém não tão nova. ou um ataque de herpes. o orgulho dela levou um choque e tanto. Aceite. seria bem adequado receber em casa. Sua melhor opção continua sendo Marianna. objetivamente falando? Ou alguém como eu? De nada. Talvez não seja a recompensa do amor que você está buscando. por consideração com os vizinhos. et cetera.’ “Não me olhe assim. Soluços no lenço. ou com alguém como ela. quem sou eu para protestar? Nesse caso. prometo. “Minha opinião. a Marianna dos dois enes. De quanto amor uma pessoa como você precisa. Depois de tudo o que fez por você. Pode ter certeza de que aprendi a lição.meus olhos ela é um tanto atarracada e bastante acabada. Não pensei que você gostasse das suas mulheres desse jeito. Para um cavalheiro solteiro de sua idade. funcionaria muito bem. Um arranjo com Marianna.

Não.alguém para segurar nossa mão e depois. Costello? Eu sou arraia-miúda. E ali está. para nos fazer uma xícara de chá. como um cavalheiro sessentão. você pode estar certo. Paul. é simplesmente fazer o bem que eu puder por ela e pelos filhos dela. Seria um golpe muito grande para o meu orgulho. você é arraia-miúda. Costello. de verdade. eu digo para mim mesma: talvez ainda haja alguma coisa a espremer dele. “Uma palavra mais.” Ela faz uma pausa para respirar. E claro que. topei com uma hipótese depois da outra.” Chega de falar. em cada um de nós.” “Em cada um de nós?” “É. meus sentimentos são assunto meu. Nunca esperei que Marijana me amasse. Não subestime o desejo em cada um de nós. A primeira e ainda a mais plausível é que me quer como modelo . por fim ele tem a chance de falar. A questão é: para quais padrões? A questão é: miúda quanto? Paciência. “Por que colocar todo esse esforço em mim. tenho de continuar até o fim. Minha esperança. mas digo que nenhuma é muito elogiosa a você. Se você for humana. Mas. “Afinal”. Mas ela cala a boca. quando ficamos trêmulos. Espera ouvir qual será o fim. se fosse se acomodar ao lado de mrs. Fico porque não sei o que fazer com você. Cuidado é um serviço que qualquer enfermeira que valha o que ganha pode fornecer. Cuidado não é amor. sorrindo alegremente. o desejo humano. Muitas vezes.” Ele espera ouvir mais. “ao tentar entender o que você está fazendo na minha vida. gostaria de sentar. vou concordar com isso. uma última coisa a dizer. mrs. prossegue ele. de estender uma asa protetora. contanto que você não peça mais. “Vim aqui procurar Drago”. você pode ter sido um erro. Não vou expor todas elas. Nunca se perguntou se me pegar não seria um erro — se eu não seria um erro do começo ao fim?” Um jovem casal em um pedalinho com a forma de um cisne gigante passa por eles. Ele está com os braços doendo. Quanto a meus sentimentos. diz ele. até o duro fim. pareceriam demais com algo que não são: um velho casal que saiu para respirar um pouco. em Adelaide. Mas não posso. já que você está decidida a ser cética. Mas. desvia dele os olhos. Entendo perfeitamente bem a diferença entre amor e cuidados. eu provavelmente não estaria mais aqui. Se você não fosse um erro. Decerto não vou jogar meus sentimentos em cima de Marijana de novo. ou como sangue de pedra. claro. como a última gota de suco de um limão. para nos ajudar a descer a escada. Até em você. Alguém para fechar nossos olhos quando chegar a hora. “não ouvir você afiando seus argumentos em cima de mim. para alguns padrões. “Claro que me perguntei isso. “Deveria então admitir a derrota? Deveria abandonar você e começar de novo em algum outro lugar? Tenho certeza de que você ficaria contente. sentindo calor.” “Até o fim?” “É. afinal.

uma Costello de Northcote. estritamente falando. Meu coração sangra por isso o tempo inteiro. Desde o dia do meu acidente. Entendo muito bem. O decoro me retinha. Por que falo nisso: porque não quero mais ferir Jesus com minhas ações. Não tão escrupulosamente quanto deveria. Antes de o holandês nos desenraizar e trazer para os confins da Terra eu estudava com as boas irmãs de Lourdes. Costello. não posso esquecer. Mas Marijana e os filhos dela — quero estender uma mão protetora sobre eles. deixe eu repetir o que estava dizendo há um minuto e que você parece achar difícil de aceitar. vai ter de entender isso. eu disse a mim mesmo. independentemente do que Jesus possa dizer. porque não tenho filhos para abençoar. É esse o padrão que tento seguir. uma bênção. por exemplo: não tenho nenhuma intenção de perdoar o rapaz que bateu em mim com o carro. acho fascinante.” “Ou um padre. isso eu lhe digo. na minha vida. como faz um pai. eu não falava de mim mesmo com tanta liberdade como falo hoje. E assim que chegamos a Ballarat fui entregue aos cuidados da Irmandade Cristã. Uma performance inteiramente profissional da parte . Mas você é uma profissional. quero abençoar essas pessoas e permitir o progresso delas. Antes que seja tarde demais eu gostaria de praticar algum ato que seja — desculpe a palavra —. Por quê.” O que disse sobre deixar de lado a reticência. eu mesma sou uma correta menina irlandesa católica. Costello. você pergunta? Em última análise. continue. em Melbourne.” “Um perfeito menininho católico. “Sorria se quiser. De qualquer forma. mas parece que fui poupado. Perdão. Não ter filhos foi o grande erro da minha vida. Paul. me persegue a idéia de fazer o bem.” “Antes. Se não falar agora. Mesmo para Marijana não abriu de fato o coração. acho isso tudo muito rico. Se quer ser a cronista da minha vida. Isso é uma coisa que você devia levar em conta em mim e acho que não leva. não é verdade. um contador. Paul.para um personagem de um livro. Não esqueça dos padres. Por que se desnuda diante de Costello. Não quero fazer o coração dele sangrar. Mas deixe eu lembrar que houve tempo em que fui um perfeito menininho católico. sobre falar com franqueza. Por que iria querer fazer isso. Não esqueça. por modesta que seja. um advogado. Nesse caso. mesmo eu tendo há muito tempo deixado para trás a Igreja. continuamente. Entendo isso. depois do meu acidente comecei a deixar de lado uma parte dessa reticência. vai falar quando? Então: Jesus aprovaria? Essa é a questão que coloco para mim mesmo hoje. Mas continue. Meu coração tem uma blessure** por isso. no negócio de confidência. desde que eu podia ter morrido. menino? Por que iria querer cometer um pecado? Não está vendo como o coração de Nosso Senhor sangra por causa do seu pecado? Jesus e seu coração sangrando nunca se apagaram da minha memória. na vida de outros. que com toda a certeza não é nada sua amiga? Só pode haver uma resposta: porque ela o esgotou.” “Ou um padre. o decoro ou a vergonha. admito. mrs. como um médico. mrs.

Principalmente quando vamos chegando perto do fim. A luz com uma certa intensidade. O que disse mesmo aquele poeta americano? Sempre se tece uma cobertura de algo para algo. el oscuro corazón. Uma velha que por acaso está ficando sem roupa de baixo limpa para vestir. Mas agora se vê inundado de novo pela velha irritação. “Seu coração sangrando”. O tipo de coisa que todo padre sabe. Na verdade. você vê muito mais — vê e bloqueia. gelado. Paul. por exemplo. “cada um de nós. Siga por elas até o fim. Paul. expirar. Evidentemente ele. A pessoa toma posição ao lado da presa.” Ele se deixa cair pesadamente ao lado dela. Uma figura envolta por essa luz ao lado da água que corre mansamente. Mas somos criaturas complicadas. Como respirar. Minha memória está indo . ele responde. nós. acredite. seres humanos. e a presa acaba por ceder. Uma expansão. diz ela. os seus esforços de se desnudar. Escuro. esmigalha um pedaço de pão e joga para os patos. Costello remexe na sacola plástica que tem no colo. Paul”. Ou todo abutre. o clã dos patos. Está dentro da gente ser uma pessoa mais plena. Expandir. mais nu. o coração simples que você tanto deseja. “Mas a realidade é mais complicada que isso. O que você vê?” Ele fica quieto. Bom. Você próprio quer ser mais simples. maior e mais expansiva. O ritmo da vida. alimentando os patos. Olhe para mim. Siga até o fim e você vai crescer com eles. meu coração sangrando. Paul. mais que uma família. o coração e seus movimentos. Folclore de abutre. Há uma imensa comoção enquanto eles convergem para essa bênção. “Sente. Lanças de luz que ferem essa mulher. “É. Paul”. Você quer que eu seja mais simples. “Não consigo mais ficar apertando os olhos para olhar para você.dela. Eu insisto: não elimine essas vertentes do seu pensamento. ela murmura. Uma velha que irrita você com o que você considera insinuações maliciosas. Mas isso tem um preço. Seus pensamentos e seus sentimentos. “Nós todos gostaríamos de ser mais simples. mas você não admite isso. está se reunindo para mais um assalto à terra. É a nossa natureza. contrair. foi avaliado e considerado inofensivo. ou o que você diz a si mesmo que está vendo. Inspirar. “de que não está vendo complicações onde elas não existem. dizem os espanhóis. “E tem certeza”. o jeito simples de ver o mundo. apesar de tantas boas intenções?” Ele pensara em fazer uma oferta de paz. Tem certeza de que não está com o coração um pouco escuro. “Deixe eu dizer o que você vê. pensara em oferecer à mulher se não abrigo para a noite. eu fico olhando fascinada. espera. apenas em função das lúgubres histórias que escreve?” Mrs. O sol que se põe olha tão ferozmente da superfície da água que ela tem de proteger os olhos com a mão. “Complicação desnecessária? Acho que não. diz ela. o intruso.” “O coração pode ser um órgão misterioso. O escuro coração. A família de patos. pelo menos a passagem aérea de volta para Melbourne. Uma velha sentada à margem do rio Torrens. que ameaçam perfurar o corpo dela.

juro. A gente é o que é. Não me traz à vida. posso estar chegando ao meu limite. Podia ter pegado o avião de volta para Melbourne ou qualquer outro lugar que quisesse. mas não basta.” “A que modo de vida está se referindo?” “A vida em público. pare de confundir. pronta para o sono facilitador. diria? Ou que não como nada há dias. em tudo o que eu digo. desatada. É elementar assim. Em parte. O cansaço a que me refiro passou a fazer parte do meu ser. Daí essa pequena lição que estou tentando dar a você. quando não estou com você. E não apenas o eu corpóreo. Eu empresto o dinheiro. Mas agora volta para ela sua total e deliberada atenção e . o que nós costumamos chamar de vagabundos.embora. você podia fazer isso. Paul Rayment não pediu para você abaixar em cima dos ombros dele. não de fato. e ela trará você à vida. para usar a palavra de Homero.” “É. Além de uma ou outra uva. porque acha que ela é tão descolorida. A mente também: frouxa. Traga Marijana à vida. Nenhuma força tensorial mais. Isto. intempestivos Jokić. Ou os patos até. Nem dá para dizer o quanto estou cansada. Me trazer à vida pode não ser importante para você. E não do tipo de cansaço que pode se resolver com uma boa noite de sono em uma cama de verdade. Uma pena. Eu fiquei incrivelmente bem nessa nova vida. Como eu fico dizendo para mim mesma. A vida na companhia de bêbados e pessoas sem teto. Eu me sinto. Mas por favor.” “Está falando bobagem. Quando estou com você. tenho um teto. É como uma tintura que começou a se infiltrar em tudo o que eu faço. você não diria que eu vivo com uma maleta. e temos de viver essa vida. Palavra com a qual você tem familiaridade. Assim como podia se livrar dos problemáticos. Olhando para mim. Porém seria um grande favor se Paul Rayment se apressasse. Mas não se castigue. se você prefere que eu não esteja no centro do quadro. sou uma sem-teto. basta isso a meu respeito. como um relato. dependendo das instalações públicas. assim como acha suas roupas tão absolutamente sem personalidade. Podia ter alugado um quarto em um hotel. cercada de patos que parece estar alimentando — pode ser simples. Paul. tão sem feições. Não se lembra? Eu avisei que não tinha para onde ir. Tenha paciência. parece que me lembro. vender seu apartamento e se mudar para um bem organizado asilo de velhos. Fica mais vaga a cada dia que passa. Foi assim que os dados resolveram. “Enfim. como um favor a mim. Não sei por quanto tempo mais sou capaz de suportar meu modo de vida atual. por enquanto. Está surpreso de me ouvir falar assim? Não devia. Traga esses humildes patos à vida e eles trarão você à vida. sentada em um banco. se tem de ser Marijana. A vida em praças públicas. mas tem a desvantagem de não trazer você à vida também.” Ele não olha para Elizabeth Costello há um bom tempo. é a vida que nos foi dado viver. Mas não faz isso. O arco que costumava ser tenso ficou frouxo e seco como um fiapo de algodão. Como já disse. essa simplicidade pode até enganar.” Ele fica quieto. Ele a encontra à margem do rio.

só Deus sabe. deviam ter? Do que faria uma mulher feliz? O que faz uma mulher feliz é um enigma tão velho quanto a Esfinge. o nariz parece um bico. diz ele. Mas quanto ao resto” — ele dá de ombros — “não estou fazendo confusão. ela diz. Tentei explicar o melhor que pude. expirar. repetir. quando encontrar com ela de novo. uma penitência incompreensível que ela está condenada a dizer. recitar. nem francês . não sem dificuldade. ele dirá. com um sorriso. Durante muito tempo depois de ela ir embora. Quem é Marijana? Uma enfermeira de Dubrovnik de cintura grossa. em termos práticos. Inspirar. O olhar amoroso não se ilude. com o olhar amoroso. ele tentou entender essas palavras. Vai comprar a passagem. mas ele não lhes dá atenção. se é que chega a ser dita. mas você não entende nada. Como pode ser chamado de frio alguém que de coração deseja o bem. vai com ela ao aeroporto. olhando o rio com olhos apertados. mesmo quando o melhor no amado acha difícil emergir para a luz. chegam quase a seus pés. Ela olha para ele com desgosto.” Ele vai ajudá-la. O amor vê o que é melhor no amado. acenar adeus para ela. Não sou uma pessoa excepcional. mrs. Fala a palavra condenatória com leveza. ele vai lhe dar uma lição. Frio: será mesmo essa a impressão que dá a desconhecidos? Ele quer protestar. Alguma idéia de quê? Durante anos. Costello. “Que homem frio”. dentes amarelos e pernas nada más. com exasperação. Vou tentar não apressá-lo mais. que quando age. diz ela. Desculpe. quer sempre o melhor. depois que ela o deixou. vê a tímida gazela de olhos negros escondida dentro dela? É isso que Elizabeth Costello não entende. Não frio. “Se tivesse pedido”. o rosto pálido. Elizabeth Costello pensa nele como um castigo que veio infernizar os últimos dias de sua vida. pelo menos não aos meus próprios olhos. Ele não aceita o encargo. com tudo menos amor. acostumados a ser alimentados. muito menos um francês imaginário como ele? Frio. O que ela dizia era bem diferente: Achei que você era francês. ele fica ali.de fato é como ela diz: perdeu peso. “eu teria ajudado. em amor. “Adeus”.” Ela se põe de pé. Você me foi enviado. Vai pagar uma refeição para ela. A verdade é dita. mesmo que apenas os franceses da lenda. Por que isso. Os patos. dobra a sacola vazia. Bem. Estou agindo num ritmo que é natural para mim. “Pobre homem frio. A verdade não é dita em raiva. Estou pronto a ajudar agora. De verdade. com desânimo. dizia. É bem- intencionado. age de coração? Frio não era uma palavra que sua esposa usasse. abalado. Agora você tem de se curar o melhor possível. Até mesmo a mulher que foi sua esposa concorda: ele é bem-intencionado. não acredita na sua verdade. Quem a não ser ele. a pele dos braços está pendurada. eu fui enviada a você. estimulados por sua imobilidade. Idéia do que os franceses. Por que um francês haveria de ter o poder de desamarrar isso. com o coração pesado. cego. e não posso me tornar excepcional só para você. achei que faria alguma idéia. Seus amigos podem comprovar isso — gente que o conhece bem melhor que Costello.

literalmente. “cada um com seus gostos”.) . T. E um homem que não há muito tempo perdeu uma parte do próprio corpo: não esqueça isso. Então talvez possa encontrar em você a força de escrever. ele dirá. (N. “ferida”. Tenha um pouco de caridade.tampouco. T. * Em francês.) ** Em francês. Um homem que vê o mundo à sua maneira e que ama à sua maneira. “gosto não se discute”. (N.

Uma das coisas mais irritantes que Costello fez durante sua estada foi tirar o pano. 21. Não: o gêmeo aprisionado atrás do vidro ele acha. acima de tudo. o gêmeo se dissolvia em fantasmagóricas ondas. a irmã. a seu modo. considerando que no passado sempre se apaixonou por mulheres que amavam a própria imagem. ele o colocou de volta. Ele cobre o espelho do banheiro não só para se poupar da imagem de um eu feio. talvez nunca. o gêmeo sorria de volta. Porém cada vez que se curvava para beijar aqueles lábios atraentes. diz para si mesmo. Nenhum narcisismo em Marijana tampouco. Desde que Marijana parou de vir. Graças a Deus virá o dia. não tem comido adequadamente. envelhecido. Ele próprio nunca se sentiu à vontade com espelhos. em que não terei mais de ver esse aí! Quatro meses se passaram desde que teve alta no hospital e permissão para voltar à vida de antes. Por outro lado. A maior parte desse tempo passou enclausurado em seu apartamento. não ainda. Nada narcisista. O rosto que ameaça confrontá-lo no espelho é o de um vagabundo magro. Não tem apetite. Na verdade. Em uma banca . pior que isso. não se dá ao trabalho de cuidar de si mesmo. enrolou um pano no espelho do banheiro e aprendeu a se barbear às cegas. daquele olhar de guerreiro. Existe um equivalente feminino à candura dragoniana? A pureza amazônica? Blanka. Continua sendo intrigante para ele o quanto Drago é pouco consciente da própria beleza. se tivesse consciência de si mesmo perderia parte daquele ar de destemida candura. mal vendo a luz do sol. Toda vez que sorria. Drago. Muito tempo atrás. Um traço admirável. chato. Quando ela foi embora. nada reflexivo. É curioso que ele tenha se apaixonado por Marijana. barbudo. Nenhum narcisismo em Drago. a parte desconhecida: como ela é? Nunca a conhecerá? Narciso descobriu no tanque de água um gêmeo de quem não conseguiu se soltar.

claro. que seu trabalho dali em diante seria demonstrar caridade com as pessoas ou cuidar das pessoas. Você cuidou de mim. Desculpe a lição de . Seu coração não é mais o que era. nada mais. no caso de cardíacos. Então conheceu Marijana e seu coração passou por uma mudança. muito mais do que o dever exige. uma palavra de um nativo da língua.do Sena ele um dia pegou um texto médico com fotografias de pacientes do Salpêtrière: casos de mania.* No entanto. se permitir. ou para a casa dela. o serviria fielmente até o fim. cérebro —. O que ofereço a Drago. E está pensando em espelhos por causa da história de mrs. depois na mesa de operações. ele imediatamente reconheceu neles irmãos de alma. resistiu aos esquemas dela. Você e os seus. não foi exatamente nisso que ele se transformou — em um paciente de coração. depois de uma noite passada no apartamento. Mrs. fazer dela seu discurso. prometo nunca repetir. a não ser. nunca cometi a tolice de confundir sua gentileza com amor. mas ficaria acanhado demais para pronunciá- la. doença de Huntingdon. melancolia. e a você através de Drago. Cara: ele pode colocar a palavra no papel. a forma de uma megera desgrenhada. Qualquer um de seus órgãos irmãos podia falhar — bexiga. Devia escrever uma carta a Marijana. é uma mostra de gratidão. mas seu coração. de cuidados. Assim como ela deu a ele. Mesmo tendo feito por mim muito. você me é muito cara. também seu coração quer retribuir. apesar das camisolas do hospital. de seios nus. agora quero lhe dar alguma coisa em troca. Apesar das barbas desgrenhadas. Ou talvez não. Foi um erro. Retribuir não é a mesma coisa que pagar o devido. Ele agora anseia por servir Marijana. desde o episódio de Marianna. forçada. Talvez ela tenha aceitado sem pensar o que lhe disseram na junta de credenciamento: que a profissão em que estava se iniciando era conhecida no mundo de língua inglesa como uma profissão de caridade. Me ofereço para cuidar de você. Não vou mais tentar atrair você para nenhuma intimidade. a manteve à distância. Por favor aceite assim. agarrada à sua garganta. demência. não corte o contato comigo. Uma palavra inglesa demais. ou para onde quer que ela esteja. profissional da caridade. Marijana e todos os que pertencem a ela. Seja o que for que eu disse. Está pensando em Drago porque. e que esse cuidar não devia ser entendido como nada relativo ao coração. Costello sobre o velho que transformou Simbad em escravo. testado e provado primeiro na rua Magill. muito mais do que ele. também se sinta acanhada. a viver a vida em uma língua estrangeira. para a casa da cunhada. ele devia acrescentar numa nota de rodapé. primos que tinham ido adiante na estrada que ele um dia seguiria. Talvez a Marijana dos Bálcãs. Mas terá razão? Treme ao pensar no que um mero olhar de relance no espelho possa revelar: rindo por cima de seu ombro. brandindo um chicote. com a coisa em si. Drago não retornou nem mandou nenhum recado. nos últimos meses. Por favor. Ele gostaria de acreditar que. baço. un cardiaque? Houve tempo em que o coração era seu órgão mais forte. Me ofereço a isso porque em meu coração. ou pelo menos para aliviar parte de sua carga. Costello quer sujeitá-lo a alguma ficção que tem na cabeça. no fundo de mim.

de qualquer forma. Eu concordo plenamente com ela.) . ele escreve. nem em sonho. “exercer cuidados com alguém”. Paul Rayment * Todo o parágrafo usa variações intraduzíveis do verbo to care. também estou em solo estrangeiro. Será que você. e. T. É tanto “gostar de” (no sentido de preocupar-se com alguém. é apenas como uma maneira de pagar essa dívida. nenhum vínculo. Sinceramente. Você teve de conviver muito comigo por dever profissional. Miroslav e eu discutimos a possibilidade de um fundo de previdência. por favor. eu providenciarei a abertura disso — para Drago. diz mrs. Se me ofereço para me encarregar da educação de Drago. demais talvez. eu também estou tateando meu rumo. desta vez com caneta de verdade e papel de verdade. Consegui seu endereço com mrs.língua. Costello. “Nenhuma mulher com dois olhos na cara aceitaria uma pessoa como você”. Querida Marijana. reconsiderar e me dar a grande honra de aceitar um presente que não terá. Deixe que eu simplesmente diga estas palavras: pelo cuidado imparcial que me dedicou eu serei grato enquanto viver. Costello. garantindo que eu me mantenha na linha. como se diz em inglês. Se for preciso um fundo de previdência para tranqüilizar Miroslav. tê-lo como pessoa “cara”) como “cuidar de”. acha realmente que em troca das mensalidades escolares de Drago eu iria me impor a você? Eu jamais faria isso. (N. Você e Miroslav poderiam. mrs. ou seu marido. que parece saber tudo. na verdade para seus três filhos. que tem sentido múltiplo em inglês. zelar por ele. Costello está sempre por perto.

uma corrente que nem é de prata de verdade. mas não deu tempo. só dizer. Rayment”. à justiça juvenil. A carta a Marijana é endereçada aos cuidados de mrs. que se pode comprar por um dólar e cinqüenta no mercado chinês. Para que eu estou no mundo senão . que algum comerciante. Claro que quero ajudar.” E vem à tona uma longa história sobre uma corrente de prata. Paul Rayment. mas de um telefonema. E Mel não sabe o que fazer e ela não sabe o que fazer. não importa. na forma não de uma carta — ele nunca esperou uma. acaba conversa. mr.k. ele espera ter acertado os acentos. ela se complica. ele pergunta.k. “mas nós estamos com muitos problemas. judeu. e o judeu diz que a corrente que nem é de prata de verdade custa quarenta e nove e noventa e nove e quer levar Blanka à justiça por causa disso. diz ela. Tem certeza de que eu não sou judeu?” “O. uma amiga dela pegou e passou para ela e ela queria devolver. algum judeu. não-judeu. “O.” “Claro que quero conversar. conhece alguém com quem possa falar a respeito de Blanka. embora falte apenas uma semana para os exames. Esqueça.. Então será que ele. alguém que possa falar também com o judeu e retirar a queixa? “Como sabe que ele é judeu. é capaz de imaginar o problema que seria para ela escrever em inglês —. Lidija Karadzić em North Elizabeth. acusa Blanka de ter pegado. está se recusando a ir à escola. agora Blanka está se recusando a comer. Então. “Desculpe eu não vem ver senhor. Marijana?”. embora Blanka não tenha pegado. Falei sem querer. A resposta de Marijana vem dois dias depois. 22. fica no quarto o dia inteiro a não ser ontem de noite que se vestiu e saiu sem dizer para onde. Não quer falar comigo.” “Talvez eu seja judeu. Blanka — sabe Blanka? —. Não é nada.

diz Marijana por fim. essa história da corrente de prata. Mr. Então o que ele tem de dizer a mr. “Acabou tudo”. Blanka Jokić. e que foi todo afabilidade até agora. essa que estava com ela na loja. Matthews?”. Será que Marijana está errada. “Sexta-feira passada. que sem dúvida deve ter aprendido a lição agora — ou seja. E me conte mais sobre essa amiga de Blanka.” “Telefonar para sua casa? Achei que estava com sua cunhada. endurece visivelmente. Me conte quando e onde aconteceu. tem sobrancelhas grossas. Escrevi para você aos cuidados de sua cunhada. ele insiste.” “Deixe eu ver o que posso fazer. “Uma garota foi detida aqui por roubo”. Talvez Tracy. Matthews.” “E quando foi isso. cinco metros quadrados. Não sou a melhor pessoa para esse tipo de coisa. que é judeu ou não. Não sei. então por Marijana e pela infeliz filha dela. diz ele. Tem. escuras. “Sim. mas vou ver o que posso fazer. tem meu número. Matthews tem de ser dito ali mesmo. “Pode telefonar. ter mais cuidado ao roubar coisas —. afinal. “no Shopping Rundle. “Sou amigo da família Jokić. porém. e mr. no máximo.para ajudar? Me dê os detalhes.” “Tenho aqui. e cabelo descolorido espetado em pontas. Onde posso encontrar você?” “Pode telefonar. ele está disposto a tentar. Sexta de tarde. Mas é assim que as coisas são feitas na Croácia. o tipo de estabelecimento em que se pode trocar uma palavra em particular. Lembra desse caso?” Mr. ele nem tem certeza se aprova o fenômeno do homem influente.” “Podemos conversar em particular?” Happenstance — que vende o que chama de acessórios — não é. Matthews gerente. diz ele. Loja é Happenstance” — ela soletra a palavra —. é alto e magro. essa história com a Happenstance?” “Sexta-feira. Posso lhe contar . Matthews tem seus vinte e poucos anos.” “E a amiga dela?” “Blanka não diz nome de amiga. há um balcão e um caixa. Marijana. em pensar que um homem com um nome bacana como Rayment e uma casa confortável em uma parte eminentemente confortável da cidade e dinheiro para distribuir pode fazer as coisas acontecerem de um jeito que um mecânico de automóveis com o nome esquisito de Jokić não pode? “Mr. “Meu nome é Paul Rayment”. Há prateleiras abarrotadas de roupas.” *** O que Marijana quer é um homem influente e ele não é um homem influente. há música vibrando em algum lugar acima deles e isso é tudo. Não recebeu minha carta?” Há um longo silêncio.

“Seiscentos dólares. Têm mais o que fazer com o tempo deles. Não vai roubar de novo. visivelmente. Mas Blanka não é uma ladra. Quero pagar a peça que ela pegou.” O jovem mr. não vai acontecer comigo. Resolva essa questão. “É política da empresa”. Vou falar com o gerente. Matthews sacode a cabeça. e por um aleijado . pensando como pensa uma criança. eu pago a corrente e além disso compro quinhentos dólares em mercadorias. acredito que não se vai ganhar nada processando a menina. Vou falar com ele.” “Quarenta e nove e noventa e nove. apenas apontando um fato. Telefone para ele. A polícia não gosta de levar esses casos adiante. Se quer dar uma lição. retira a queixa.” “Vocês perdem cinco por cento. Está relutante em se mostrar em público. Aqui está meu cartão. O jovem mr. Como sinal de boa vontade. Matthews está a ponto de ver seu dia estragado. quinhentos dólares. se concordar em retirar a queixa. Essa é a nossa política. Matthews retira-se para trás do caixa.” “Mr. não vale a pena. ficou muito arrasada com isso. que acredito ser uma corrente de prata vendida pelo preço de cinqüenta dólares. Volta na segunda-feira. diz ele. Matthews está hesitante. unilateralmente. a política da empresa é dar queixa. É o único jeito de mostrar que somos sérios. Temos de mostrar uma atitude para os ladrões: se roubar de nós. Tolerância zero. boba. Não estou criticando vocês. “Blanka nunca fez nada assim antes. Desculpe.” “Você é o gerente. mas recuperam esses cinco por cento aumentando os preços. Como eu disse. Ela não vai esquecer. Mas não posso prometer nada. tormento pessoal.” “Eu sou só o gerente deste outlet.alguma coisa sobre Blanka?” O rapaz — o que ele é senão um rapaz? — assente com a cabeça. E tudo absolutamente honesto. É justo. Bom. O peso total da lei. digamos. Desde sexta-feira passada está num grande tormento. vira as costas para ele e pega o celular. cauteloso. ela acha.” “Mr. Com vergonha do que fez. voltando à minha proposta. Não passa de uma criança. aqui e agora. É só uma criança. já deu a lição. Tem o nosso gerente de área. vai ser processado. Você faz um telefonema.” O jovem mr.” Mr.” “Fale com seu gerente de área agora. Eu espero. Vocês têm uma política voltada para ladrões. Telefone para ele. Então. mas não impossível de contatar. “Todo ano perdemos cinco por cento do estoque. estou disposto a comprar aqui peças no valor de. as filiais todas. agora ela sabe que está exposta ao azar também. Azar acontece para os outros. Arriscaria dizer que ela aprendeu a lição. DeVito está fora da cidade. DeVito pode estar fora da cidade.” “Não posso tomar essa decisão.” “Além disso. Então vim fazer uma proposta. por causa de roubos. tipo.

há já algum tempo — por mais tempo do que duram muitos casos amorosos. de um homem engaiolado sozinho por tempo demais. A assistente. . Nada de errado. E é verdade. no fim das contas. mas procurar a fraqueza do rapaz e depois fazer pressão em cima dele. ele e Marijana. Irritante. Para uma menina de catorze anos. do começo ao fim. não uma coisa real. toda a nudez. agarra as muletas e desencosta do latão de lixo onde estava apoiado. Eu te amo. um entusiasmo. é assim que a Happenstance o vê: como um cavalheiro mais velho. A fantasia. nos olhos inteiramente gentis. outros velhos apaixonados? Sem dúvida você deve saber. Por que não estaria?” Ela dá uma olhada para o homem a seu lado. ou não é apenas. de cabeça erguida. uma mulher sempre sabe. induz e paga por coisas de que não precisa. pergunta uma voz. pela garota que nunca viu na vida. que Deus sabe por que razão escolhe zelar pelo bem-estar de uma garota com um nome esquisito. nem mesmo um beijo — nem um simples selinho no rosto. Mas toda a intimidade. Ele faz sinal para ela se aproximar. “Tudo. apertá-lo.ainda por cima. Sem dizer uma palavra. Em Coniston Terrace. Dois ex-europeus! “Tudo bem?”. aquele benfeitor de bom coração. outro policial. com uma deficiência. Como isso deve ter incomodado e irritado a ela: palavras de amor vindas de um objeto de mera enfermagem. É assim que ele se apresenta à Happenstance. meros cuidados. uma garota de horrenda maquiagem branca e lábios violeta. Verdade. “Me ajude a escolher umas coisas”. mas não toda a verdade. todo o desamparo têm sido unilaterais. O que seria preciso para Marijana vê-lo como a coisa real? O que é a coisa real? Desejo físico? Intimidade sexual? Eles são íntimos. diz ele. de uma garota de farda azul. “Onde o senhor mora?” “Em North Adelaide. Ele está olhando nos olhos.” “E como vai voltar para casa?” “Vou andar até a rua Pulteney e pegar um táxi.” Um amigo da família. Algo errado nisso?” “Nada. Ele não é brigão de natureza. nenhuma troca. não sério. vai abrindo caminho na multidão. Como Marijana verá essa vontade de dar com que ele tão insistentemente a persegue? Ela já teve outros clientes como ele. não foi uma experiência desagradável. ficou olhando os dois disfarçadamente. Tráfego de mão única. mas.” Ele engancha as sacolas da Happenstance no braço. Blanka Jokić: Matthews não vai esquecer esse nome tão cedo. não é. conseguindo aflorar à superfície. “Da última moda. se ele barganha. Se ele combate a multidão no Shopping Rundle. Ele é de fato um cavalheiro mais velho. Sem dúvida. Uma policial.

Para lá e para cá. que passou um ano de sua vida montando um pato com engrenagens e molas e apareceu com esse bicho de estimação na televisão croata. Ele e ela no telefone outra vez. velhos fofoqueiros. Um bom jogador de tênis. Drago. RAN. “Eu faria isso. Ele está animado. Gracejo. se ela concordar em ir para a escola. certamente deve ter senso de humor. Mas vai ter de ir depressa. Vai estar tudo fora de moda dentro de um mês. não mais prata do que se pode comprar na lojinha chinesa por um dólar e cinqüenta.” Ele concorda plenamente.” Marijana não responde. objetiva. peça por peça. não exige que se altere a alma. Miroslav. ou em Bálcãs? “Muitos croatas”. Ia dando como incentivo. a ovelha negra da família. Drago se debatendo entre pai e mãe. e o que acontece? A pessoa é recompensada com seiscentos dólares de acessórios. como velhos amigos. Você devia aderir. “Ela não pode aceitar”. Não consegue se lembrar de ela ter jamais correspondido a suas brincadeiras. brincalhão demais? Ou simplesmente não tem segurança suficiente com o inglês para brincar com as palavras? É só uma brincadeira. Comandante Drago Jokić. se chama em alguns ambientes. a luz refulgente. diz ele a Marijana. Alguém é pego roubando uma corrente de prata que nem é de prata. Drago também. defensor da honra familiar. Impossível. Três tipos balcânicos. “Não. essas coisas. Não é difícil de brincar.* “Esconda isso tudo num armário”. É impossível. diz o . Miroslav é menos preso à terra. contida. com sua risada bravia. 23. A alma de Marijana: sólida. Marijana diz. Três almas balcânicas. ele devia dizer para ela. o anjo com a espada. Será que é frívolo demais para o gosto dela? Ela o acha leve demais. diz Marijana. Mas desde quando ele é perito em leveza. Onde fica a justiça nesse caso? O que Drago vai dizer se ficar sabendo? Blanka. peso- pluma demais.

quer dizer. mais luminosa? Por causa da profundidade do revestimento de albumina. e se você permitir.” “No meu depósito?” “Eu digo não. A Croácia faz parte do Ocidente católico. em pessoa. não era. Mas se as relações entre ele e o pai estão abaladas. Está em idade de crescimento. diga que ele é bem-vindo. Drago diz que quer ficar no seu quarto depósito. sobre papel que foi mergulhado. registrando o milímetro de ovo de galinha seco que dizem fazer uma grande diferença. “Brigando? Quem está brigando?” “Drago e pai. ele conta a Drago. Depois. Olhe. “O senhor era fotógrafo. Dê uma olhada com o microscópio. compare com esta cópia pré-albumina. Depois. só está tentando ajudar. Em resumo. “negam que a Croácia pertença aos Bálcãs. também dei aula de fotografia à noite. mr. Marijana está dizendo ao telefone. “O papel é revestido com clara de ovo diluída na qual há cristais de cloreto de prata em suspensão. Um membro truncado. O que tem a oferecer? Uma bicicleta quebrada.” “Mr. mas esse milímetro faz toda a diferença. Eu digo. Menos de um milímetro de profundidade. “Estas são chamadas de cópias de albumina”. elas se dissiparam. não é nada menos que polido. O que ele gosta de comer no jantar? Pizza? Diga que eu mando entregar uma pizza gigante toda noite.” E é isso que acontece. Percebe como a de Fauchery é mais cheia. Eu tinha um estúdio em Unley. Rayment?” “Era. só para ele. fixado quimicamente. dizem eles.** Se havia nuvens no horizonte. E um armário cheio de fotografias velhas. Mas Drago. para um representante inteligente da nova era.” “Sempre brigando”. Sempre . Obedientemente espia pelo microscópio.Povos dos Bálcãs. isso é bobagem. excelente filho de uma excelente mãe e — quem pode dizer? — de um excelente pai também. Num relâmpago. Rayment homem bom. não revestido — mergulhado em uma solução de sais de prata. Muito pouco para atrair um rapaz para ser seu afilhado espiritual. Drago não pode vir morar no meu depósito. Mas nunca fui — como posso dizer? — um artista da câmera. Duas pizzas gigantes se ele quiser. mas não é fácil. mr.” Ele quer se tornar interessante para Drago. muito pouco. É um jeito de imprimir que tinham acabado de inventar na época de Fauchery. Rayment não é um homem bom. já teve muito problema com família Jokić. Durante algum tempo. provavelmente mais repulsivo que atraente. o papel é exposto à luz embaixo de um negativo de vidro. pode voltar e ficar aqui uns dias. nem ninguém pode.

seu e meu. mr. Primeira regra da restauração: obedecer à intenção do artista. Nosso registro. Parte do nosso registro histórico.fui mais um técnico. comprei caixas cheias de fotografias antigas. não participou e da qual Drago. está quase em lágrimas. Espero que você saiba disso.” E levanta as mãos em um gesto estranho. Não é tão difícil quanto restaurar afrescos. Mas o mais provável é que seja por causa do nosso.” Drago concorda com a cabeça. para pegar um gostinho. Honra a profissão. Como qualquer fotógrafo tem de ter. cujo objetivo na vida é ser um técnico de guerra? “O próprio Fauchery não era um artista”. Nunca tentar melhorar. Ela ainda pinta?” “Ela ainda tem.” “Minha mãe queria ser pintora. mas é um trabalho especializado mesmo assim. em um dia de 1855. Restauração é uma profissão especializada. os rostos de duas irlandesas há muito desaparecidas.” Aponta um grupo de mulheres na porta de uma cabana de pau-a-pique. Rayment?’ “Fui colecionando ao longo de muitos anos. também não participou. os pincéis. Ele veio de Paris durante a corrida do ouro dos anos 1850. depois da escola de arte. diz ele. . “Foi quando descobriu que tinha talento. eu mesmo fazia a restauração. essas coisas. Aí. Surpreendentemente. mas principalmente tirou fotografias. Vai virar propriedade pública. Ela foi para a escola de arte. involuntário. Era o que eu dizia para mim mesmo. mas de vez em quando havia alguma coisa que valia a pena guardar. Por quê? Porque ousa mencionar a própria morte a esse rapaz. Sua mãe deve ter achado difícil desistir da pintura e passar para a enfermagem. quase tudo lixo. Pode até ser considerada uma arte. vou doar a coleção. Mas não tem mais tempo. pelo menos pode ser dedicado a alguma coisa útil. sabe.” É algo por que deva se desculpar. ter o poder de aproximar os dois.” “É mesmo?” “É. Era assim que eu passava as horas livres. “Onde conseguiu essas fotos. para restaurar afrescos antigos. entrou na de restauração. filho de Dubrovnik. Quando uma foto estava em más condições. não deve ter mesmo. Passou a ter domínio total do meio. Simplesmente porque a imagem diante deles. “pelo menos não até chegar à Austrália.” “Não. E aperfeiçoou a técnica também. essas partículas de prata distribuídas que registram a forma como a luz do sol banhou. o equipamento e tudo. Foi o meu hobby durante anos. Se o seu tempo já não vale muito mesmo. sofri —. não ser um artista? Por que se desculparia? Por que o jovem Drago haveria de esperar que ele fosse um artista — o jovem Drago. esse precursor da geração que vai assumir o mundo e pisar em cima dele? Talvez. ia a leilões. Minerou um pouco como amador em Victoria. Mas é uma enfermeira de primeira classe. Procurava em lojas de antigüidades.” “Que interessante! Não sabia disso. na Croácia. só não pode pretender ser original. vivi. sabe. o menininho de Lourdes. comprava velhos álbuns. como um amuleto místico — eu estive aqui. pode. Quando morrer. uma imagem de cuja confecção ele.

diz ele. Se você precisa de alguma coisa mais avançada. Em vez disso. com um gesto de mão igual ao de Drago. cozinhou um belo risoto. se viver bastante. indica o espaço com um gesto de mão ao dizer tudo.” Drago não deixa o assunto morrer aí. Rayment. e tudo o que existe dentro dele. Não uso muito. era exatamente o que ele. “Tem computador. Só perguntei. não é esse tipo de computador. do nada. “Não estou achando o cabo. mr. mr. “se estiver aborrecido. E tome o cuidado de colocar de volta na ordem. era ficar com a mobília do dono anterior.” “A conexão. Por que se zangar com isso? “Isto tudo um dia foi novo”. “O senhor não gosta de coisas novas. jantando. Por que essas palavras duras? O que o coitado do rapaz fez para merecer isso? O senhor não gosta de coisas novas? Uma pergunta normal de se fazer para um velho. Ele não pediu pizza. mas não grande demais. sempre quis trocá-la. Ele o comprou depois do divórcio. com cogumelos e vinho branco. tem toda a liberdade de olhar o resto das fotos. Vai acontecer com você também. como prometeu. ficou ele próprio um pouco mais pesado. Nada de estranho nisso — em ser ultrapassado pelo tempo. “Vou dar uma resposta direta. E ele de fato surpreende a si mesmo. “Enfim”. Por que está perguntando?” “Não estou reclamando. se não tiver mais nada para fazer. Agora me diga: do que é que você está falando de verdade? É sobre o computador que não está à altura do que você espera?” Drago olha para ele chocado.” Uma hora depois. quando está se preparando para ir para a cama. Só não tire de dentro das capas. não era de seu gosto. ao longo dos anos se acomodou ao ambiente. queria. mas nunca sentiu ânimo para isso.” Recosta-se na cadeira. O que você quer fazer? Para que precisa disso?” Drago lhe dá um sorriso de incredulidade. diz Drago. Tem pé-direito alto.” “Desculpe. O senhor não tem um fio que liga com a net?” “Não. mr. “Para tudo. Mora ali desde então. quando comprou o apartamento. Está no chão. É só o estilo. Para o modem. a cabeça de Drago aparece na porta. Não é moderno. como solteiro redescoberto. Parte do negócio.” Drago logo volta. mas não quero que dê risada de mim. pela história. não entendi. reformado. embaixo da mesa. o estilo de tudo. é espaçoso. Tem alguma coisa nova de que o senhor goste?” O apartamento de Coniston Terrace faz parte de um quarteirão pré-guerra. perplexo. “Não. “É legal. Quando o senhor comprou esse computador?” “Não me lembro. Drago. eu não tenho como ajudar. foi ultrapassado. A mobília era pesada e escura. “Tudo no . Rayment?”. Mil novecentos e oitenta e pouco. Este apartamento. Rayment?” “Tenho. Eu usava para escrever cartas de vez em quando. Ao contrário. Eu fui ultrapassado pelo tempo. diz ele. Faz anos. sabe. um pouco mais sombrio. Estão na cozinha na noite seguinte.

“Nós fomos para a Croácia no Natal passado”. como o senhor diz. ultrapassados pelo tempo. (N. “carne. Eles gostam.) . nós podemos mandar fotos. T. (N. São bem velhos agora. mais nova da face da Terra. “Eu. Um dia.) ** In a flash. Marinha Real Australiana. diz Drago.” “E daí?” “Daí que dá para escolher”. in a flesh. Então eles agora podem fazer compras pela internet. minha mãe e minhas irmãs. O tempo vai te engolir. “relâmpago”. Eles também foram. “Só isso. você vai estar sentado na sua bela casa nova com sua bela esposa nova e seu filho vai virar para vocês dois e dizer Por que vocês são tão antiquados? Quando esse dia chegar.” * Royal Australian Navy. Aí o tempo foi agindo sobre mim. E são bem velhos.mundo um dia foi novo.” Drago come uma última garfada de risoto. diz. espero que você se lembre desta nossa conversa. É lá que moram os parentes da minha mãe. Na hora em que eu nasci. flesh. que já ocorreu antes: flash. jogo de palavras intraduzível com a pronúncia equivocada de Marijana. Minha mãe comprou um computador para eles e nós mostramos como se usa. Para Zadar. corpo do ser humano”. podem mandar e-mails. eu era a coisa mais moderna. uma última garfada de salada. T. Até eu era novo. Drago. Do mesmo jeito que vai agir sobre você.

nada que considerasse — ele pega a afetada palavra reprobatória moderna. A música e o murmúrio da voz deles o mantêm acordado até de madrugada. Gosta de Drago com um carinho comedido. Um amigo vem me buscar. ficam na rua até tarde. “Vou sair. A convivência que previra para ambos seria da mais branda escala: algumas noites de companhia recíproca. que qualquer homem pode sentir por um filho adotado. A gente vai comer alguma coisa. “Vou fazer uma omelete para o jantar”. Na verdade. enquanto esperam os ânimos esfriarem na casa dos Jokić. Nada do tranqüilo aumento de intimidade que ele esperava acontece. A cozinha vira uma bagunça de embalagens de comida para viagem e pratos sujos. o banheiro está sempre ocupado. testa — inadequado. Irritado . Depois da noite do risoto de cogumelos. logo o apartamento está tão barulhento e confuso como uma estação de trens. por trás do convite. Seu coração. “Quer que faça para você também? Presunto e tomate?” “Para mim não precisa”. com quem ele antipatizou à primeira vista. sente que Drago o está afastando. ele numa poltrona com um livro. diz Drago. segundo Drago. ele anuncia o mais casualmente possível. 24. pondera.” O amigo em questão é um ruivo cheio de espinhas chamado Shaun. não vai muito à escola porque toca numa banda. obrigado. que virou o quarto de Drago. Drago traz amigos. não havia. ou um futuro filho. adequado. nem comem mais juntos. minha mãe me deu dinheiro. que.” “Tem dinheiro?” “Tenho. Shaun. Drago curvado sobre a lição de casa na mesa da sala. suas motivações inocentes. assombra o apartamento. até onde consegue enxergar seu coração. depois voltam e se trancam no ex-escritório dele. Mas não é assim que acontece. Quando convidou Drago para ficar em sua casa. Ele e Drago saem depois que anoitece. era e é puro.

Eu sei para que servem os filhos.” Depois das palavras frias que ela disse à margem do rio. Perdeu peso. diz ela. Marijana diz que ele e o pai vivem às turras. não espirituais. Não dá para amar por um ato de vontade. Mas não.e infeliz. Não é tarde demais.” Falar por imagens. como você diz. tão monástico. talvez você devesse desistir. ele fica no escuro. mas os fatos da vida estão atrapalhando. Quanto ao contrato solenemente celebrado entre Marijana e ele. tão acomodado no seu ritmo. estou começando a entender por quê. Estou começando a simpatizar com o pai dele. tem uma tosse insistente. ao crescer em nossa companhia. “Você acha que eu estou louca. Drago se manteve em contato com sua origem no além por mais tempo que a maioria das crianças. “Drago está acostumado com uma família grande. e a energia. Paul. talvez porque não possa desistir dele. e agora tão ranzinza também! Que impensada aventura na criação de filhos! Em teoria.” “Como ele reage?” “Fecha uma cortina. Pergunte a si mesmo se você tem as reservas de fortaleza de que vai precisar para a viagem. Será que está com a cabeça atrapalhada porque está em jejum? Será que está querendo fazê-lo de bobo outra vez? Será que deveria oferecer a ela mais que uma xícara de chá? Dá um olhar duro para ela. eu criei dois filhos. Mas ela não vacila. Se não. Não me enxerga mais. Supere a sua decepção. ele achou que não veria mais Elizabeth Costello. sem uma palavra de explicação. isso parece ter virado fumaça. Eu podia ser uma peça de mobília. parece mais que um pouco frágil. O filho. Nós temos de aprender. Bom. o que me incomoda é o jeito como ele reage quando eu ouso pedir um pouco de consideração. nós nos tornamos servos do tempo. não é. ouvindo a BBC. tenho certeza de que você adoraria gostar do jovem Drago. por . É o discurso mais mistificador que ela fez desde a confusão sobre a mulher de óculos escuros. Por isso é que as almas descem do seu reino lá em cima e se submetem a nascer de novo: para que. mesmo que eu fale por imagens. Dia após dia ela se mantém distante. “No fim da vida. Não. “Pobre Paul!”. Nós temos filhos para aprender a amar e servir. o mais duro que consegue. ou iludida? Mas lembre de uma coisa. Aprenda com Drago enquanto pode. Um dia desses. sua irritação. possam nos conduzir pela dura estrada do amor. ela está de volta. os últimos vestígios da glória que ele deixa atrás de si vão desaparecer no ar e ele será simplesmente um de nós. você não criou nenhum. Por meio dos nossos filhos. Então preste atenção quando eu falo. Olhe dentro do seu coração. filhos da vida real. não espero dele um silêncio de monge. ao que parece. Anjos do céu. Desde o começo você vislumbrou alguma coisa angélica em Drago e tenho certeza de que não está errado. reclama com Elizabeth Costello. mas também talvez porque não esteja bem. Ela acredita no que está dizendo. você ainda é ignorante. “Não é só o barulho”.

é abençoado com freqüentes telefonemas. Não arroz. Marijana aparece. Ele tem de se adaptar.” O humor de Marijana. como qualquer pessoa com olhos na cara consegue perceber. flor de limão. Costello usou para vendar seus olhos.” Pergunta idiota. ele está tirando uma soneca. Drago ainda não voltou da escola. Marijana abre caminho pela bagunça do chão e apóia-se no pé da cama. ele escuta apenas um monossílabo aqui. diz ela. A ausência de minha perna deixou um buraco em minha vida. sabe. ele tenta esconder a irritação.” “Senhor e ele ficaram amigos. Nada sutil. que é em croata. a gente joga flor de limão na mulher e no homem quando eles casam na igreja. Para terem muitos filhos. boa e sossegada”. filhinha do papai. Por causa da louca paixão por sua faxineira que foi tolo a ponto de declarar. “Muito bom! Sua amiga gosta de limão. banhado em pétalas de limão. pfu!. acordei senhor? Desculpa. “Bom! Senhor tem visita nova!” Durante um momento. Como vai a ausência de sua perna?. “Aí.” “Blanka um dia vem dizer obrigada em pessoa. Paul Rayment.outro lado.” O que ele entende como: ainda existem dois campos na família Jokić. A perna em questão foi arrancada faz tempo e incinerada. “Senhor tem vida boa. se aspira ser um dia seu noivo espiritual. hã? Bom. Me faz bem. Costume antigo. resposta idiota. o campo do pai e o campo da mãe. Então. obrigado. família Jokić pega senhor. E tudo por sua causa. estar com gente jovem. Como a perna pode ir bem? Não existe perna. Mas não hoje. hã? Na Croácia. isso é que ela devia perguntar. carro pega senhor. A gente até que se dá bem. pfu!.” “Não foi nada. a meia que por alguma razão ele amarrou na base do abajur de cabeceira e esqueceu. hã? Desculpe? Não quer chá? Certeza? Como senhor e Drago se dão?” “Nenhuma reclamação. se quer a verdade. outro ali.” Ele está zangado de ter sido pego dormindo. Da ponta de Drago na conversa. uma tarde. . eu bati e não veio ninguém. ele não consegue entender o que ela quer dizer. quando ele menos espera. A ausência de minha perna não vai bem. “Flor de limão!”. tenho certeza. Marijana trouxe Ljuba com ela. Me anima. Por causa da criança. Marijana leva a meia delicadamente ao alcance do nariz. Por causa da tempestade que você provocou. Rayment. “Mr. sabe. Aí. Depois reconhece o que ela está segurando para inspecionar: a meia de náilon que mrs. “Como vai a perna?” “A perna? A perna vai bem. Não muito boa mais. Ela ainda. diz ela. Blanka diz obrigada. Quer que eu faz chá?” “Não.

.. “Deite”. nem agora. depois fazemos exercício como sempre. diz ele. Está tudo bem. Ljuba continua olhando para ele com os grandes olhos negros que ele acha cada vez mais impressionantes. mr. da cor de uma batida forte.k.” O termo carinhoso soa estranho em sua boca. diz ela. “Mais barato. O assunto está encerrado. Estende uma toalha discreta sobre o meio do corpo dele. Depois da primeira massagem. Está atrasado com exercício. dá um tapinha de aprovação na coisa nua. Por favor. ele nota que seus pés são largos e chatos. exercícios de alongamento. ele pensa consigo mesmo.” Marijana sai da sala. pare. tão .” Marijana segura a meia com o braço estendido e ostensivamente deixa que caia no chão. Já tivemos essa conversa antes. Tem certeza que não quer próstese?” “Não quero a prótese. Depois do alongamento. ela pergunta. Adorada.. diz Marijana. começa a primeira massagem. O mau humor dele está evaporando como névoa matinal. Marijana e eu. toda enfermeira deve estar acostumada: homens sob seus cuidados ficarem fisicamente excitados. Pensa na idéia com tamanho fervor que é impossível que ela não se comunique para Marijana. “Oi. “Precisa ajuda?”.. não fale nisso.” Desliza o polegar pela cicatriz. Mas o rosto de Marijana fica impassível. Ljuba”. Rayment? Só bebezinho acha isso — corta. habilmente desenrola a bandagem. amigas vem visitar. nem nunca. fecha a porta. “Bom”. ele diz a si mesmo. enxuga com pancadinhas da toalha. levanta o coto no colo.” “Marijana. Qualquer coisa.” “O. Que isso não acabe nunca! Ela deve estar acostumada. Marijana volta com uma grande bacia. Só aceite o que eu digo. “Hora de privacidade para mr. e começa a ensaboar o coto. diz ela.. “Agora. “Nada de próstese. cresce de novo. ele pensa consigo mesmo. hã? Talvez senhor não faz exercício tão bem quando fica sozinho. “Quer saber o que eu acho? Não acho nada. para ter nosso pequeno contretemps. pela primeira vez. de encerramento. melhor assim. é? Acha que perna cresce de novo. diz ele.k. ver sua perna e dar banho. Adoro esta mulher! Apesar de tudo! E também: Ela me tem na palma da mão! Marijana termina de lavar o coto. Ele sacode a cabeça. “Não vou explicar. nós já nos conhecemos o suficiente agora. Tirou as sandálias. Nada. o. por favor.k. Deve ser por isso que é sempre tão rápida.” Ela conduz a menina para fora. Não quero falar. tira a calça. Senhor fica em casa. “Ljubica. A menina não responde. Não é o que você pensa.. presunçoso. eu daria qualquer coisa para.” Cai um silêncio.”. as unhas estão pintadas com um surpreendente vermelho-escuro. “Não é o que parece”. não falo mais da próstese. diz ela. quase roxo. Não dói? Não coça?” Ele sacode a cabeça. “O. “Vá fazer desenho para mama. Rayment”. a segunda massagem.

frente. É importante compreender.. que partilha a essência de Deus. se hoje nos encontramos à mercê dos movimentos caprichosos de partes corporais.prática. números que descem. Tão perto e tão longe! Peito contra peito poderiam muito bem estar os dois. isso é conseqüência de nossa natureza decaída. “Agora o lado esquerdo. Antes da Queda. apoiando o peso contra ele... ou pelo menos não o considerava assim ao sair de casa. lisas: Qualquer coisa!.* Tudo é para o bem. que o fez dormir antes e que não foi desligado. Se não fosse Wayne Blight ele nunca teria sentido essa pressão. um homem está falando da indústria automobilística coreana. esse amor. ele agarrado à beira da cama. No rádio. felix. que ele acha irresistivelmente atraente. pelo menos preenche o que de outro modo seria um vasto e devorador buraco vazio. Provavelmente é assim que são treinadas a lidar com a excitação masculina. os polegares encontram um nódulo dolorido no alto de uma nádega e começam a desmanchá- lo.. Agora. se não existe. “Sto to radis.k. porque ela evita olhar nos olhos dele. caída para longe de Deus. ele pensa... afinal. agora relaxe”. o inchar do desejo. as pernas morenas. Felix. diz Agostinho. essa urgência. Se Wayne ouvisse isso. juntos: ela apertando a coxa encurtada com ambas as mãos. “O. um movimento único: o inchar da alma. contrabalançando. diz Marijana.. Números que sobem. Tão longe!. Felix lapsus. resistindo.. ele tem de fazer pressão para a frente. Momentos animados em uma palestra sob outros aspectos maçante. não são diferentes de seu amor por Deus. o inchar do coração. o que ele haveria de dizer! Se não fosse Wayne Blight ele nunca teria conhecido Marijana Jokić. apertando seus seres decaídos um contra o outro. Deus. o que quer dizer que não considera o dia de hoje um dia de trabalho.” Ela aperta o coto para trás. Os dois mantêm a posição brevemente. O melhor é. Isso às vezes acontecerá. E graças a Deus Costello não está ali para observar e comentar. Esses movimentos são involuntários e são embaraçosos tanto para o paciente como para a enfermeira.” Ela arruma a toalha para mantê-lo composto. Não consegue imaginar como amar a Deus mais do que ama a Marijana neste momento. que. Está usando um vestido verde-oliva com cinto preto e uma pequena abertura do lado esquerdo que revela um joelho e um vislumbre da coxa. “Agora: encoste em mim. ele pensa. As mãos de Marijana deslizam por baixo da camisa dele.. Os braços morenos. Obrigado. mama?”** . Eu daria qualquer coisa! E de alguma forma essa qualquer coisa! e a sua admiração pela roupa verde-oliva. Mas o abençoado Agostinho tinha razão? Os movimentos das partes corporais dele próprio eram caprichosos? Tudo lhe parece uno. “Bom. Portanto. Marijana não está usando o uniforme azul. todos os movimentos do corpo estavam sob a direção da alma. ele pensa de novo. nus.” Ela ergue o vestido e monta em cima dele.

peludo. “O que você está fazendo.” Marijana sai da cama. Por um momento. seminu e sem dúvida malcheiroso para aquelas narinas angélicas. “É feio. apressando-se em cobrir o corpo. Rayment. feio. Ela agora retoma o ritmo da massagem. À distância de um braço Ljuba está olhando diretamente para ele. Rayment está com dor”.) ** Em croata. velho. “Mama enfermeira. mr. quando a menina falou. pega Ljuba pela mão. calça as sandálias. Talvez dor vá embora agora. diz ela. Ali está ele. “Não chupe o dedo”. diz. “Obrigado. T.k. Marijana”. lutando com a mãe dela. os dois travados em uma postura que não tem nem a repulsiva majestade do ato sexual. Não há como não perceber a severidade daquele olhar. ele sentiu Marijana se imobilizar. (N. ele diz. T. “momento feliz”. (N. mamãe?”. Ele abre os olhos num sobressalto.) .. O. “Mr. lembra?” “Já basta por hoje.” * Em latim.

Em troca desse dinheiro. “Ljuba!”. em troca do lar postiço que fornece a Drago. É sábado. “Tudo bem se eu deixo Ljuba aqui? Ela fica com Drago. saltando para cima e para baixo dos degraus. se ele quer ser pai. 25. “Espero que não se importe de a gente ir entrando. os dois estão tendo o que soa muito parecido com uma briga. sobe de vez em quando acima da voz do filho. Marijana trancou-se no escritório com Drago. Marijana sai do escritório. talvez até outra sessão de cuidados corporais. “Venha tomar um iogurte!” A menina o ignora. querida. rápida e insistente. a paternidade não do tipo espiritual.” Ele estava esperando receber de Marijana um pouco mais do que aquilo que paga para ela fazer. diz Costello. Volto depois para pegar. fazendo barulho. “Olá. Paul”. diz Costello. Shaun hoje vestido com camiseta solta e bermudas até as panturrilhas. “Não é bem da mesma classe de Drago. os dois mais velhos. “Mas é assim que deuses e anjos parecem ser: escolhem os mortais mais perturbadoramente . como um relógio. Duas vezes por mês. o melhor seria ele descobrir a paternidade como ela é de fato. o amigo de Drago. infreqüentes aplicações de cuidados de saúde do tipo profissional. Uma troca não desvantajosa. Marijana mal acabou de sair quando se ouvem vozes na escada e Ljuba reaparece com Costello e Shaun. dominando-a. o nosso amigo Shaun”. a tiracolo. é?. mas evidentemente isso não vai acontecer. ele chama. como Costello está sempre a lhe dizer. ele recebe — o quê? Serviços de compras. diga para Drago que Shaun está aqui. mais e mais irregulares. um pequeno mecanismo do banco transfere dinheiro da conta Rayment para a conta Jokić. Ljuba. Ljuba está na escada.” Ele e ela ficam sozinhos por um momento. do ponto de vista de Marijana. Sem problema. A voz dela. Porém.

Achei esquisito no começo. Uma antigüidade. “Vem do passado distante. mas talvez não seja tão esquisito afinal. Rayment?” “Podem. Uma Hasselblad é igual a um veleiro para ele. Ele deve estar tentando . Pode até escolher o ramo dos imóveis. “Tem uma história que sempre penso contar que acho que vai ser divertida para você”. Nem o menino. até amigável. os mesmos cílios. Os mesmos olhos.” “Não têm tempo nem para Drago Jokić? É essa a moral de sua história?” “Não têm tempo nem para Drago Jokić. Seria esta a verdadeira explicação de por que a mulher apareceu para ele do nada: não para introduzi-lo num livro. funileiro ou alfaiate. ou um trirreme. Então. ela. ele era um pouco mais velho. Drago enfia a cabeça pela porta. Ele nunca viu nada igual às minhas. “Shaun e eu podemos dar uma olhada nas suas câmeras. a mesma beleza não inteiramente humana. mas talvez eles trabalhassem juntos. ela continua. estão os dois do mesmo lado: dois velhos se juntando contra a juventude. onde está ganhando fortunas no ramo imobiliário. do tempo de minha juventude. “Por câmeras. Eles já têm problemas suficientes em sua comunidade fechada. Temo que os deuses não tenham mais tempo para nós. Naquele tempo. eu ainda rezava. Para variar. Ele também passa horas olhando minhas fotografias. ‘Deus’. Meus anseios de donzela nunca foram satisfeitos. Jokić no centro.” É a primeira conversa que ele tem com Costello que chamaria de cordial. Wayne e Drago. com sua imprudente e até esse momento infrutífera paixão por mrs.’” “E aí?” “Deus não prestou nenhuma atenção. Devia ter uns catorze anos na época. as do século XIX.” “Como nós todos.” Ele fica quieto. Eu era apaixonada por ele.” “Drago se interessa por fotografia?”.comuns para consorciar com eles. não virei nunca uma filha de Deus. mr. como escolher. Um dos meninos da nossa rua era muito parecido com Drago. Só conhece as novas. Elizabeth Costello murmura. ‘permita que ele me dê um só dos sorrisos dele que serei sua para sempre. Pode ser marinheiro ou soldado. Ele pode relaxar. eu dizia.” “Então é tudo mentira: quem os deuses amam morre cedo?” “Temo que sim. Não há nenhuma ruína espetacular pendendo em cima da cabeça dele. ai. mas para induzi-lo à companhia dos mais velhos? Poderá afinal toda a história dos Jokić. Mas cuidado e coloque de volta nos estojos depois que acabarem. Drago está por sua própria conta.” “Como nós todos. do tipo eletrônico. Cílios foi que havia se casado e mudado para a Costa Dourada. seja para nos amar por um lado ou nos castigar por outro. não ser mais que um complicado rito de passagem para o qual Elizabeth Costello lhe foi enviada como guia? Ele pensara que Wayne Blight era o anjo designado para esse caso. A última notícia que tive de mr.

não estou aquecido aqui. não existe home. tem de me contar mais sobre esse período da sua vida.” “É isso que ele diz para você?” “Não. Um dia. aonde se vai para se aquecer. Posso ficar do lado dele. Para eles. depois. fazendo um zumbido igual ao de um aeroplano. Um cavalheiro anglo-adelaideano tão perfeito que esqueço que você não é inglês. home é um lugar onde o fogo queima na hearth.” “Claro. E não vai se deixar levar adiante. de lamentar a própria sorte. esses jovens. Drago amarrou com elástico uma boneca nas costas da irmã. Mas eu posso adivinhar. no meio da nossa gente. “Eu pareço ser frio em todo lugar aonde vou. Shaun trouxe alguma espécie de jogo eletrônico. Mas qual é a resposta para sua pergunta? Aqui é o seu verdadeiro lar?” Ela acena com a mão em um gesto que abrange não só a sala em que estão sentados. Os dois rapazes estão sentados na frente da tela da televisão. “Entre os franceses. Entre os franceses estar em casa é estar entre os nossos. Eu sempre esqueço. uma sugestão jogada ali. que emite apitos e zumbidos baixos. montanhas e desertos do continente. Rayment. ela trota de cômodo em cômodo. em quem você nunca pousou um olho?” “Isso é outra questão”. A experiência imigrante não me é estranha. eu perguntava a cada movimento.”a “Que rima com vraiment. e ele segue atrás feito um carneiro. É este o meu verdadeiro lar?” “Você voltou para a França — eu tinha esquecido disso. que rima com payment. Mr.descobrir como é ter um passado australiano. O lugar onde não se é abandonado no frio. “Sempre achei esse conceito muito inglês. os braços esticados.” É o mais próximo que chegou.” Ele acena com a mão em um gesto que imita o dela. voltar para o parque. e isso o deixa ligeiramente enjoado. . com Costello. lar. Nós podemos sair quietinhos. “Você sabe que não precisamos agüentar isso”. Isso é transparente.c dizem os ingleses. ele nunca me diria uma coisa dessas. quando declarei minha independência e voltei para a França. numa paródia. depois. quando fui desenraizado em criança e trazido para a Austrália. O meio-dia passa e Marijana não aparece. não só uma. Eu não sou o nós de ninguém.b Tive três doses da experiência imigrante. Não foi isso que você disse de mim? Você é um homem frio?” A mulher fica calada. Primeiro. os montes. uma ascendência australiana. ele retruca. como sabe. “Eles não precisam de babá. Ele encolhe os ombros. Não sou o nós de ninguém: como ela consegue arrancar dele palavras assim? Uma pista jogada aqui. mas também a cidade e. quando desisti da França e voltei para a Austrália. de forma que ficou bem profundamente gravada em mim. além da cidade. Hearth and home. Será este o meu lugar?. Não me sinto em casa na França. antepassados australianos do tipo espiritual. diz Elizabeth Costello. Em vez de ser apenas um rapaz refugiado com um nome de piada. “E Marijana? Não tem vontade de se juntar ao nós de Marijana e Drago? E Ljuba? E Blanka. Não.

não uma ou a outra. Ele a cumprimenta com a cabeça. Ciências parecia uma boa escolha naquela época. Auto- suficiência. Elizabeth suporta bem a investigação. mas não de uma mulher mais velha que ele próprio. onde o homem que ela havia acompanhado. Manda Costello esperar no saguão de entrada enquanto batalha com a escada em suas muletas. saiba melhor. estava se recolhendo cada vez mais em si mesmo. muito mutável. é ultrapassado por uma vizinha. Não contei? Meu primeiro casamento. Paixão. diz ela. que era um jeito de ter segurança. por outra mulher. Parecia prometer segurança e era isso que minha mãe queria acima de tudo para mim e minha irmã: que encontrássemos para nós um nicho seguro nesta terra estrangeira. não era excepcional em nada.Podemos sentar na sombra e ficar ouvindo os passarinhos. para ele e vira-se para ela. Nunca sabia onde estava pisando comigo. Na escola eu era bom em ciências. silenciosas como ratinhos. Estávamos falando de você. altiva. complexos? Ele sempre pensou em Elizabeth como um ser assexuado. que ocupa junto om suas duas irmãs. Sempre embaraçoso quando um cachorro enfia o focinho nos fundilhos de uma mulher. Ele e Costello encontram um banco vazio. Enquanto desce. que afinal de contas é uma enfermeira paga. mas talvez um cachorro. bem-humorada.” “Não é uma longa história. “Paixão e ordem. De forma que quando fui para a universidade me matriculei em ciências. Me contando da França. não ordem. os franceses. Me deixou com um filho nas mãos. de óculos. o que em inglês era mais uma addere do que uma víbora. de Cingapura. Estará se lembrando de sexo. onde ela se debatia com a língua e não conseguia captar o jeito local de fazer as coisas. Vipèred era outro termo que ele aplicava a mim. Cada um por si: isso é que devem ter ensinado a elas em sua nação-ilha. . apenas bom. Ótimos para saber onde estão pisando com você. e eu fui para as ciências. ou apenas saboreando os cheiros novos.. Minha irmã foi ser professora. de sexo canino. Uma época inesquecível. Ele me deixou.” “O que eu estava contando?” “Estava me contando a história de sua vida. sabe Deus por quê. Ótimos para organizar. Em todo o tempo em que moram em Coniston Terrace.. As duas coisas. nossa pequena aventura. segundo ele. confiando em seu nariz. Um cachorro passa trotando: dá uma rápida olhada. depois o empurra. “Você estava me contando.f era o que ele dizia. Podemos considerar isso nossa pequena excursão de fim de semana. uma garota esguia. deixa o cachorro fazer o que quer com ela. Mas continue com a história de seu caso amoroso com a França. onde não tínhamos família com que contar. as garotas nunca registraram sua existência. Paul. Mas chega disso. ela não corresponde à saudação. Eu era. o apartamento em cima do seu. Não excepcionalmente bom. “Bom”.” Ela volta para ele um olhar reflexivo. Sale vipère.” “Achei que você achava que os franceses eram ótimos na paixão. no fim.” Ele está preparado para aceitar uma ajuda de Marijana. Eu fui casada com um francês.

Paul. sabiam que métier iam seguir. Nunca dissemos muito um para o outro. Não fui recebido. nunca nem tinha ido lá. inclusive amizades jovens. Eu era sempre o que sobrava. a família é tudo. me chamavam de l’anglais. Sua vida anterior era território virgem. até Oust ou Aulus-les-Bains. transplantados para o fim do mundo. de repente. Roger. me envolvi com uma garota e. que fazia entregas para o estúdio onde eu trabalhava. repolho cozido e tudo. Não conseguiam entender o que eu estava fazendo lá. pessoas da minha idade. eu e ele arrumávamos as mochilas e partíamos de bicicleta para Saint- Girons ou Tarascon. onde iam viver. É diferente hoje. Mas você não sabe disso tudo? Achei que sabia tudo sobre mim. aquele sujeito magrelo de sotaque engraçado e ar perplexo. A primeira de minhas paixões . distantes apenas uma geração do pão preto e do esterco de vaca. digamos. o estranho no canto nas reuniões familiares. “Depois.” “Isso é novidade para mim. Entre eles. vasculhar o campo de bicicleta não era uma coisa tão estranha assim. e eu não podia dizer a eles. Fiquei com minha avó em Toulouse e arrumei trabalho em um laboratório fotográfico. juro.” “Fiquei com minha avó e tentei me aproximar. “Mas então minha mãe morreu e parecia não haver mais sentido em usar um avental branco e espiar dentro de um tubo de ensaio. voltávamos domingo à tarde exaustos e cheios de vida. Mas a Austrália estava além do horizonte deles. Foi assim que começou minha carreira em fotografia. a primeira vez que ouvi isso. Então larguei a universidade e comprei uma passagem para a Europa. “Eu tinha um amigo. só isso. Mesmo antes de sair da escola. Estou falando dos anos 1960. lutando pela vida no meio dos kangourous. mas no fundo ainda eram camponeses. Você me veio sem nenhuma história. Um homem com uma perna só e uma paixão infeliz pela enfermeira. da família de minha mãe. Aos olhos deles.” “E aí?” “Não me saí bem. ou mais longe nos Pireneus. australianos eram simplesmente ingleses. já estavam assentados na vida. Ela era do Marrocos: isso realmente me isolou. que podem ser tão intensas quanto o amor. já que não tinha nenhuma ligação com a Inglaterra. porque na França de onde viemos. “Foi naqueles dias antes do romance dos franceses com o automóvel se firmar de verdade. Meus primos podiam ser mecânicos de automóvel e chefes de estação. tinha outros usos para meus fins de semana. até onde pude. pedalávamos o dia inteiro. com que rapaz ou garota iam casar.g Para mim foi um choque. As estradas eram mais vazias. Meus primos e as pessoas que conheci por intermédio deles. ele e eu. a França camponesa. Mudou tudo. Tinha perdido muito daquilo que deveria ter sido a minha formação: não só uma educação escolar adequadamente francesa. e tão duradouras quanto. o melhor copain. de braços abertos. porém agora ele me parece o melhor amigo que eu tive. uma era passada. porque também não sabia. passávamos as noites ao ar livre. Comíamos em cafés. capas de chuva. mas uma juventude francesa. claro. Nas tardes de sábado.

Elizabeth”. pousando ali. a pessoa se destaca. criaturas da luz e do ar. ela obedeceu.” “Lar. estava a ponto de dizer.” “Atingido pelo raio da paixão! E por uma donzela exótica além do mais! Material para um livro inteiro! Que magnífico! Que extravagante! Você me surpreende. quer ser uma borboleta. e quando se levanta descobre que não pode mais voar como um ser etéreo. depois. pousando aqui. Não sou eu que falo a língua. Sou perfeitamente fluente. ao contrário. é a língua que se fala por meu intermédio. Uma lição. Lar é místico demais para mim. mrs. como dizem os ingleses. em vez disso. Esta é a minha residência. muito respeitável. os que ficam com os pés plantados na sua terra natal. Ela e eu podíamos ter casado. Um pombo tem lar.” “Mas você é australiano. não é nada mais que uma massa de carne muito sólida. Não veio junto com o leite materno.” “Realmente. até ser chamada para casa. Não posso passar por francês. Sem dúvida uma lição se apresenta aí. diz ele. Você diz ser uma borboleta. Quanto à língua. mon coeur. uma lição para a qual você não pode ficar cego e surdo.” Ele hesita. Este é o meu apartamento. Paul!” “Não caçoe.. Sou vazio no cerne. Fiquei em Toulouse mais seis meses. existem as borboletas. Minha cidade. Mas o inglês me veio tarde. dá para arrancar uma lição da seqüência de acontecimentos mais fortuita. Em particular. mas aí. Eu tenho um domicílio. Está tentando me dizer que Deus tinha algum plano em mente quando me jogou no chão na rua Magill e me . Até eu vejo isso.inadequadas. onde. não veio de jeito nenhum. Costello. uma residência. se a família dela não tivesse tornado isso impossível.” “Posso passar por australiano. e onde não. ou como uma mancha. Ela estava estudando para ser bibliotecária. O pai dela mandou chamar. “Não tente carregar esta conversa com mais sentidos do que ela é capaz de suportar. acabou o caso.. Com um pouquinho de engenho. Meu país. é só uma biografia do tipo incoerente. um dia. não pode nem mesmo andar. me parece. de verdade que é! Sabe. Um inglês tem lar.” “De volta ao lar. Não vem do meu cerne. uma mancha no imaculado lençol doméstico.” “Mas é significativo. Na verdade. uma queda calamitosa. e desisti. se arrebenta no chão. você sofre uma queda. “Não é significativo. como dizem os franceses. como você pode ver. como tenho certeza de que pode perceber. No que me diz respeito. O que quer dizer isso? Já disse o que acho de lar. é só disso que se trata na questão da identidade nacional: onde passar por. talvez. Não é francês. uma abelha tem lar. eu sempre me senti uma espécie de boneco de ventríloquo. Não tem nada a ver com fluência. o inglês nunca foi a minha língua do jeito que é a sua. Paul. residentes temporários.” “E aí?” “Só isso. corrige-se. Foi tudo muito decoroso. Como um dedão machucado. tem gente que eu chamo de ctônicos.

Uma garota perfeitamente inteligente. deixando a tarde passar. de rosto fresco. se não se importa que eu diga.transformou em um aleijado? E você? Você me disse que sofria do coração.” Ele dá de ombros. olhando as aves da água se divertirem. Eles podiam atravessar a ponte até a casa de chá na outra margem. Estou velha demais para saltar.” “Tudo bem. “Eu posso ser caprichosa. Você pode usar para ilustrar meu personagem ou não. eu sofro mesmo do coração. não foi para descobrir como um homem anda de bicicleta com uma perna só. “Você quase nunca menciona sua mulher. Mas não vai discutir com ela. você até agora está sendo uma triste decepção. . Minha mulher não iria me agradecer por oferecer a pessoa dela como um personagem menor em uma das suas obras literárias. diz Elizabeth Costello. Se quer se divertir” — ele acena a mão para os corredores. Que lição Deus tinha em mente quando atingiu você no coração?” “É verdade. não vê Costello muito melhor. Você é a minha rocha.” Ele dá de ombros de novo. “Não fui posto no mundo para divertir você. “Seria impróprio. “mas não a esse ponto. Ou podiam esquecer o chá e continuar vadiando ali à margem do rio.” “É de uma época em que eu ainda tinha o estúdio em Unley. Mas não sou a única que sofre disso. Está com sede também. Paul”. não. Ela não tinha nenhuma expectativa comigo. Como eu disse — lembra? —. Para ser preciso. não estava inventando história. Paul. Eu fui para descobrir o que acontece quando um homem de sessenta anos compromete seu coração com a pessoa errada. Mas se é história que você quer. Traduza o seu problema de coração para mim. os ciclistas. Por que perder seu tempo com alguém que tanto exaspera você com seu embotamento e está sempre decepcionando? Desista de mim como um trabalho que não deu certo. “tem uma ampla gama a explorar. Eu tinha duas assistentes e uma delas acabou se apaixonando por mim. Se ele é um bebê ignorante quando se trata das dores do amor. vou contar uma história da época do meu casamento que não envolve minha mulher. Pode-se igualmente dizer que o amor é um raio que cai onde bem quer. Uma garota de vinte anos. E. Uma xícara de chá desceria muito bem. como quiser. Qual? “Me conte do seu casamento”. diz ela. Mande.” “Melhor não”. saltando de uma pedra para outra. Caprichosa: caprina. até onde ele pode perceber.” Ela se vira e lhe dá um sorriso desprovido. O amor é uma fixação. não era amor. diz ele. Vá visitar outro candidato. de qualquer malícia. o amor é uma fixação. Vou ficar com você por enquanto. Está cansado de discutir. Por isso podia ser tão aberta a respeito. era adoração. Podiam voltar para o apartamento ruidoso e desarrumado. Você também sofre do coração a seu modo — não sabe mesmo disso? Quando fui bater na sua porta. E bonita. a boa gente que leva os cachorros a passear —.

eu disse para ela. disse a mãe. minha outra assistente. Princípios de fotografia. ‘É a minha única chance’. Não podia fazer nada a respeito.bonita. eu disse. manteve uma distância correta porque era isso que eu parecia querer. Eu fiquei bem chateado: ao lado da lição de amor. Desobedeci à regra. Ela foi e fomos para a cama. Você é escritora. Não estava sabendo?.. a mãe perguntou.” Costello fica silenciosa. para absorver essa lição. “Eu estava dando aulas num curso noturno nessa época. obrigada. especialista em coração. Essa garota tinha amor suficiente para dois. nada mais. “Ela me agradeceu. chorando e ofegando ‘Obrigada. Uma vez bastou. Ah. Ficou em meus braços. um lugar. Mas nesse caso cometi um deslize. simplesmente parou de vir trabalhar. mas sabia disso? Se você ama muito profundamente. essa garota ia à minha aula. Ela nunca ficava vermelha. Sem ficar vermelha. Fim da história. Nenhum regime podia salvar aquele corpo.. ‘Tudo bem’. Não anotava nada. assistir. corpo de jogador de rúgbi. Ela não avisara? Não. ela respondeu. Falei com a colega dela. não precisa ser amado de volta. obrigada!’. Deixei um recado para ela: um horário. ela nos disse que tinha conversado com o senhor e que o senhor tinha ficado bem chateado. mas ela não sabia de nada. Mas não telefonei mais para ela. Depois.’ Era assim que ela definia ficar a sós comigo: ter a liberdade de sentar na classe. no que era a politécnica. “Você provavelmente está esperando que eu diga que foi uma experiência humilhante.” “E aí?” “Só isso. Sem lágrimas. Será que a garota realmente pensou que eu ficaria chateado porque ela deixou o emprego? Ou a história de o patrão ficar chateado era só alguma coisa que ela contou à mãe para não ficar parecendo muito abjeta?” “Está perguntando a minha opinião? Eu não sei a resposta. Três noites por semana. Mas não foi nada humilhante. Porque eu não fiquei chateado. eu disse. ouvir. Eu chegaria mesmo a dizer que foi alegre. Dizer que você. Ellen?’. contanto que haja amor suficiente no quarto. atarracado. ‘Sua única chance de quê?’ ‘De ficar sozinha com você. Sentava no fundo e ficava olhando para mim. patrão . para ela e conseqüentemente para mim. sem censuras. “Eu tinha uma regra: nunca me envolver com funcionários. Ellen tinha arrumado um emprego novo e mudado para Brisbane como representante de uma companhia farmacêutica. ‘Ninguém tem de agradecer a ninguém. “Ela trabalhou para mim mais dois anos. nada chateado. Paul. essa foi a parte que mais me interessou. “‘Não acha que isso está ficando excessivo. transfigurar a garota em uma sílfide. estou sabendo agora. havia um recado na minha mesa: ‘Toda vez que precisar de mim. com um corpo sólido.’ “No dia seguinte. desapareceu. não tentei repetir a experiência.’. Telefonei para a mãe dela. E aprendi uma lição: que o amor não precisa ser recíproco. Sem uma palavra.

Mas o que interessa se é verdade? Sem dúvida não cabe a mim fazer papel de Deus e separar o joio do trigo. Eu simplesmente peguei a sua pista. Será que você é mesmo tão patético?” Ele enrijece.” “Bobagem. Foi porque pagou para ela. Você selecionou a moça no elevador do hospital. ela retoma. de coração vazio? Obrigado. Será que não podemos ir além dessas explosões? Não temos mais muito tempo. essa entre todas as outras?” “Porque é verdade. “Não. por me deixar amar você. “Você percebe.dela.” . Mas a pergunta que está me infernizando é a seguinte: por que ele escolhe essa história para me contar. Sinto muito se não gosta dela. contanto que você leve uma embalagem. Marijana (Marijana com j desta vez). Paul”. É a vez dele? Ele não tem mais nada a dizer. eu te dei uma história. igual a cerveja? Que. você podia acrescentar. Obrigado por me deixar amar seus filhos. a história de você com sua jogadora de rúgbi. você disse. nenhum de nós. Você teve sonhos com ela. preservar as verdadeiras. Acha mesmo que amor pode ser medido? Acha que amor vem por volume. Disse que quer ouvir histórias. o famoso. Foi você que trouxe a mulher para mim. sai furioso ou me pede que vá embora. ficou chateado pode ser a parte da história que você acha interessante. eu ofereço histórias e não recebo nada em troca além de escárnio e desprezo. obrigada! É o obrigado. então discurso e silêncio podem ser a mesma coisa também. mas não é o que me interessa. Que tipo de troca é essa?” “Que tipo de amor?. o francês. obrigado! para a mulher que arrumei para você. não é Deus. O que me interessa é o Obrigada. Paul. “Você me pediu uma história. aquele que disse para os soldados que estavam sob seus cuidados pastorais: Matem todos — Deus vai saber quais são Dele. levanta uma sobrancelha para ele.” “Claro que é verdade.” Ela faz uma pausa. Eu não disse que não gostei da sua história. Achei interessante. aquela que você selecionou para suas atenções porque ela não seria capaz de enxergar você em seu estado tristemente reduzido?” “Eu não selecionei ninguém. Depois eu digo alguma coisa que você não quer ouvir e você imediatamente se fecha. a outra parte tem permissão de ir de mãos vazias — de mãos vazias. eu estou pouco me importando se você me conta histórias inventadas. Se eu tenho um modelo. e bem contada também. Obrigado por me deixar dar dinheiro para você. Por que não agradeceu a ela?. Se verdade e mentira são a mesma coisa. descartar as histórias falsas. é o Abbéh de Cîteaux. Até a interpretação que você faz é interessante. “como as conversas entre eu e você acabam caindo sempre no mesmo padrão? Durante algum tempo tudo corre muito bem. repito. e pagando você não precisa dizer obrigado? Sua jogadora de rúgbi tinha amor suficiente para dois. obrigado! que você planeja dizer para Marijana se e quando ela ceder a você? Por que você não disse Obrigado. Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades.

) . T. “verdadeiramente”.) h Em francês. entre bêbados.) c Hearth. maledicente. home. aos olhos frios de Deus. (N. Aos olhos do céu. “sinceramente”. É uma profissional próspera. T. (N. está tão bem de dinheiro quanto eu. indica mais uma pessoa maldosa.) e Adder refere-se à cobra da família Viperidae. T. “mensalidade”.” “Você pensa que eu acho esta existência menos difícil do que você? Acha que eu quero dormir ao ar livre. condizente com a minha condição. “o fogo em torno do qual se reúne a família”. Paul. não temos. ela diz. Pode ver como estou declinando. T. T. porém estou aqui. “lar”.” “Pode ser. matando tempo. debaixo de um arbusto no parque.” Ele sacode a cabeça. “víbora”. Conforme estou tentando fazer você entender. não precisa dormir debaixo dos arbustos. “Não sei o que você quer”. os seus e os meus. T. mas é uma história condizente.) f Em francês. Continue.) d Em francês.” Ele dá uma olhada dura nela. “o inglês”. (N. T.” “Não. esperando — esperando você.(N. T.” “É verdade. (N. “víbora imunda”. diz. desamparado. sendo morta pelo tempo. embora também signifique “cobra”. “Você está inventando história. nossos dias estão contados. “lareira”. viper (“víbora”). a “Pagamento”.) g Em francês. (N. e fazer minhas abluções no rio Torrens? Você não é cego. perversa. “abade”. Posso estar exagerando um pouco.) b Em francês. (N. (N. “Força!”. “Não temos.

e. avaliar o que fez nas costas. P. mãe ou filho. profundamente. tenta mexer os membros. se desembaraçar do andador. às quais ele acrescenta uma cueca que encontra entre os lençóis. sempre inquietação quando dois machos ocupam o mesmo território. quarto. No chuveiro. Um tremor de dor aguda percorre suas costas e desce pela perna boa. um recado rabiscado: TCHAU. e não consegue sentar sem gemer de dor. que sempre traz para o boxe. vão. Sempre tensão. Além disso. Ele perde o equilíbrio e cai. OBRIGADO POR TUDO. coisa bem diferente é repartir a própria casa com um rapaz desordeiro e imperfeitamente atencioso. O problema está entre o primeiro e o segundo.S. depois. Ele passa a tarde arrumando o escritório. Uma escorregada no banheiro. Fique calmo. bate a cabeça na parede. . Acertar as coisas (tenta ficar calmo e lúcido) significará. terceiro. PEGO AMANHÃ. o andador. Não consegue se desembaraçar do andador Zimmer sem se colocar sentado. Ele respira devagar. não explicam nada: era melhor acostumar-se com isso. Ao se abaixar para pegá-lo. nada para se alarmar. MR. acontece com muita gente. diz a si mesmo. Na mesa do hall. escorrega de lado. Enrolado no andador. RAYMENT. manobrar para sair do boxe. DEIXEI UMAS COISAS. nem sinal dos Jokić. segundo. AS FOTOS TODAS EM ORDEM. muito tempo para acertar as coisas. 26. primeiro. colocando as coisas onde costumavam ficar. Eles vêm. DRAGO. No entanto. Muito tempo para pensar. que alívio ficar sozinho de novo! Uma coisa é viver com uma mulher. pode ser que ainda dê tudo certo. haver-se com o que vier em seguida. depois toma uma ducha. Que não tenha quebrado nada: é sua primeira prece. As “coisas” a que Drago se refere revelam-se um saco de lixo cheio de roupas. por acidente deixa cair o frasco de xampu.

espasmos o dominam durante os quais fica rígido demais até para tremer. por fim rilha os dentes e força a porta do boxe para fora. imóvel. um tipo especial de dor. Não há calor suficiente nas veias. “Que acidente?” “Tive uma queda. Que confusão!. Toda a vergonha já desapareceu agora. enquanto a água continua a jorrar. mas você pode vir imediatamente?”. porém. como a própria barriga e o coração estão tomados de frio. o xampu que vaza cresce em espuma à sua volta e o coto.k. filho de camponeses austríacos. não só o couro cabeludo e o nariz. pensa. . enquanto no estábulo atrás da casa a vaca leiteira geme no sono. consegue um posto de cirurgião do Exército. Arrasta-se pelo chão até o telefone. vestido com colarinho alto e gravata larga dos anos 1830. atende uma voz de criança. Old blood. no chão de ladrilhos. Ali tem a inspiração de adaptar para as mais frágeis entre suas pacientes um aparelho que lá na Caríntia vem sendo usado há séculos para ensinar crianças a andar.” Agarra e puxa as cobertas da cama e se enrola nelas. depois de diversos passos errados. aterrissa em Bad Schwanensee. até que as dobradiças estalam. Graças a Deus Drago não está aqui para ver isto! E graças a Deus Costello não está aqui para fazer piadinhas! Há desvantagens. Johann August Zimmer. mas ao amanhecer terá morrido congelado. começa a latejar. para tratar de mulheres de classe alta com artrite. Fiz alguma coisa nas costas. nu. Agora ali está. Não consigo me mexer. Ninguém se deu ao trabalho de informá-lo e ele não pensou em perguntar quem é ou foi esse Zimmer que veio a desempenhar tal papel em sua vida. em não ter nem Drago. que levou uma batida na extremidade mole. Estou o. Para si próprio. conquistando assim uma modesta imortalidade. Os vinte anos seguintes passa tratando ferimentos e amputando membros em nome de Sua Serena Majestade Imperial Carl Joseph August. cold blood. Uma delas é que. decidido a escapar do tedioso trabalho na fazenda da família. imaginou Zimmer como uma figura de homem de rosto magro. ele se vê debaixo de uma ducha fria. As torneiras estão além de seu alcance. Incapaz de se levantar. um dos spas menos importantes da Boêmia. “Mrs. com a invenção de Zimmer em cima dele bloqueando a porta do boxe. nem Costello. Jokić.* as palavras martelam sua cabeça. liga para o número de Marijana.. Boceja até estar com a cabeça leve de bocejar. Depois de passar raspando nos exames (não é um estudante dotado). Certamente poderá ficar caído ali a noite inteira sem correr nenhum risco de ninguém caçoar dele. Leva uma boa meia hora para escapar da prisão que armou para si mesmo. ao acabar a reserva de água quente.” “Venho. se empenha à luz de velas em cima dos livros de anatomia. diz por entre dentes que batem. nem ninguém ao alcance de um grito. mas não consegue se aquecer. apelidado O Bom. Quando se aposenta do serviço. por favor”. lábios apertados. tive um acidente. Não só as mãos e pés. incapaz de empurrar o andador Zimmer para longe. e depois: “Marijana.

eminentemente feminina. Cai numa espécie de sonolência. O que ele precisa nesse momento. nenhuma reprimenda de mrs. Pronto. depois. tenta formar um sorriso. eu entendo. Então. Como aconteceu deve estar muito claro pelo caos do banheiro. nenhuma gozação de mrs. pergunta ela. porém. Sou muito instável para o seu gosto. pelo chiado do chuveiro frio. fica enfermeira de senhor? Então não fala essas coisas como” — acena com o cigarro — “senhor sabe o quê. “Minhas costas”. O que senhor quer de mim? Senhor quer que eu pego no trabalho. Que é mercê dos sentimentos?” “Não importa. Falo demais. consoladora.” “Não posso falar dos meus sentimentos por você. Tem uma visão de si mesmo pendurado pelos tornozelos em uma câmara fria em meio a uma floresta de carcaças congeladas. Marijana está curvada em cima dele.k. não precisa explicar como aconteceu. Eu acho que entendo você. Na verdade. “Nós tem de conversar. Senhor tem sentimento. sentimento de homem. “Não pode dormir aqui?” Ela se senta de novo na cama. outros humilhantes pedidos de ajuda.k. Não há mais chá. se eu fumo?”. Falo o que sinto muito abertamente. fala coisa. Sem dúvida. “Senhor tem sentimento. ele ainda não consegue sentar. “O. deitado de costas. senhor perde a perna e tudo. não é dessa desanimadora e deprimente perspectiva. o futuro reserva outros acidentes para um aleijado idoso.” “Instável. pergunta.k. “Cuidado. ele tem um súbito sentimento de aflição. coloca um comprimido entre os lábios dele.” Embora a dor pareça estar diminuindo. solta a fumaça para longe dele. mr. Sofro um acidente e fico profundamente . “É. “Não pode ficar mais um pouco?”. Não pelo fogo. pronto. é o.” “Mercê. é natural. Costello. ajuda-o a beber. Sob os cuidados dessa excelente mulher e soberba enfermeira. Muito à mercê dos sentimentos a que você se refere. tenho sentimentos”. formar palavras. Então. outras quebras. consegue sentir o gelo dentro dele começar a derreter. mas pelo gelo. tudo o. fique calmo. diz ela. quando Marijana se levanta e agilmente veste o casaco e pega as chaves. É essa a palavra que você está procurando. Rayment. acabou: é isso que quer ouvir. fecha os olhos. geme.” Ele concorda com a cabeça. volta. “Agora quem sabe pára com essa história de chuveiro sozinho. Mas.” “Senhor passa momento ruim. Com os lábios congelados. Nenhum osso quebrado. de repente. hã?”.” Graças a Deus. mas essa presença macia. acertar as coisas. dá uma tragada. Putts. eu entendo. “Senhor fica com medo. E também: Vou ficar ao seu lado enquanto dorme. mas Marijana faz café. diz ele. obediente. com força surpreendente levanta-o do chão para a cama. a presença tranqüilizadora de um anjo que deixou de lado tudo o mais para vir em seu socorro. “Só esta vez?” Ela acende um cigarro.

Qual mulher não desejaria uma torrente de palavras de amor jorrando sobre ela de vez em quando. Ele não tem certeza. tremendo intermitentemente. Fala de amor. portanto esta cena passa a ser possível: um homem de sessenta anos preso mais ou menos rígido ao leito. mesmo que não se goste do que se vê. Fico. Não é isso que você está me dizendo?” Ela dá de ombros. mas ser instável não é uma aberração. e assim por diante — subindo-lhe pela garganta como bile. Meu humor melhora. Não está acostumado com café à noite. Que torrente de palavras! Tão estranha a ele! Marijana deve estar surpresa. Estou me referindo à criatura presa por trás do vidro cujo olhar tomamos sempre tanto cuidado em evitar. não está de óculos. ou mesmo do café? Não devia ter tomado o café.” Ele se detém. Devíamos todos ser mais instáveis. mas que tolice. Daí este atrito de agora entre você e eu. por mais questionável que seja sua origem? Marijana está corando e pela simples razão de que ela também é instável. que passa as noites comigo. Eu. Fala de amor. poderia ser simplesmente efeito do comprimido que Marijana lhe deu (que comprimido seria?). Posso ser instável. de um outro jeito. Olhe este ser que come comigo. Essa é a minha nova opinião. neste momento. Através de mim. A rua Magill me abalou a tal ponto que até hoje deixo jorrar meus sentimentos sem avaliar as conseqüências. aspira a fumaça gulosamente. o coto sensível. E então? O que vem depois? E portanto tudo efetivamente se encaixa! Portanto. o choque posterior ao recente acidente — a batida na cabeça. deixa que ele prossiga.abalado. “Bom. Pela primeira vez. que diz ‘eu’ em meu lugar! Se me acha instável. Não estou confuso. Não estou me referindo à devastação do tempo. E a origem de tudo isso pode ser encontrada no meu esbarrão com a morte na rua Magill. por trás do caos da aparência. Devíamos nos abalar mais vezes. as costas doloridas. Há mesmo. meu humor piora. ele percebe o prazer sensual que pode haver em fumar. Marijana. Eu não sou nada assim. Fala esta noite. Marijana. vertendo filosofia à enfermeira. Devíamos também nos fortalecer e dar uma olhada no espelho. É porque de vez em quando o estranho que diz ‘eu’ quebra o espelho e fala dentro de mim. como vômito? Na verdade. me ligo à primeira mulher que aparece na minha frente. sopra para fora. assumindo a voz dele (mas qual espelho?). mas parece haver um rubor subindo pelo pescoço de Marijana. o chuveiro gelado. uma lógica divina está efetivamente se operando! Wayne Blight aparece do nada para esmagar a perna dele até virar papa. desculpe a palavra. nós todos. algum estranho falando através de um espelho. que fui sempre sem filhos. a primeira mulher atenciosa. não é porque eu sofri um choque. revisada. Em vez disso. . mas não desmente. Marijana diz que quer que ele se controle. Fala agora. me apaixono por seus filhos também. apaixonado por ela. ela não pode estar dizendo uma coisa dessas. de repente quero filhos meus. ou é o presente que está vertendo mais um surto de instabilidade. portanto meses depois ele cai no chuveiro. não está mais sob meu controle. você está errada. Como resultado.

eu quero fazer meu trabalho. mais quente. “Não exige? Acha que não sei nada de homem? Homem sempre exige. eu cuido velhas. vem segurar minha mão.” “É?” Ela inclina a cabeça. traz cobertor. Emergência.” Ela pega outro cigarro. traz copo de água. fecha janela. é isso que senhor diz. olha para ele. reflexiva.k. E o sangue se move dentro dela.. Meu trabalho na Austrália é enfermeira. Durante um momento. eu não conheço amigas suas. Minutos atrás ela estava corando. “esta história de chuveiro não é emergência. senhor quer mais. Acha que isso não conta — ser a primeira?” . Marijana deixa a mão debaixo da dele. na língua das profissões de cuidados. não preciso dizer. muda de idéia.”. ele já sabia disso. troco lençol. Mas isto aqui” — ela acena com a mão —. Ao discar o número dos Jokić.’” “Eu não estava só com medo. traz comprimido. Seu nome. apaga o cigarro. faz aquilo. seu rosto. Mas chamou mesmo assim. chamou pelo espaço sul-australiano. Senhor cai no banheiro. Eu me machuquei. traz xícara de chá. Agora é ele quem tem de corar. de noite: Emergência. não estou sentindo bem. abre janela. Se tem coração solitário. dá-lhe um olhar matreiro. pode vir? Claro. “Marijana”. qualquer hora.” Ela faz uma pausa. então quem sabe senhor fica sócio clube dos corações solitários. não estou dizendo não pode telefonar. Eu quero. Volto para casa cansada até a alma. não emergência médica. limpo a sujeira deles.” “Espasmo. isso não contaria como emergência. o.vertendo amor. não gosto daquilo. tal (parece-lhe) fúria. senhor telefona. “não exijo nada. Eu deixo comprimido para isso. traz aquilo. mr. vem. diz ele. Ninguém morre de frio em um apartamento com ar-condicionado em Coniston Terrace. North Adelaide. por favor’. venha. ela diz. telefone toca. como diz. por favor. correspondendo! Exultante. isso que eu exijo. a coisa pra valer. ‘Estou com medo. e é bom que senhor telefona. levanta-se e começa a abotoar o casaco de novo. ele estende a mão (Ignore a dor. velhos. “Ou então.” Ela faz uma pausa. nem agora. Uma emergência. menor. “Senhor telefona. “Seu nome foi o primeiro que me veio. “Senhor chama Elizabeth ou chama outra amiga mulher. só vem por favor segurar minha mão. Só espasmo.” Ela respira. “Senhor acha que sabe como é ser enfermeira. Depois se liberta. devolve ao maço. não gosto disto. Venha. quem liga para a dor!) e coloca a sua grande e (observa) muito pouco atraente mão lívida em cima da mão de Marijana. limpo eles. senhor quer. “Elizabeth”. Espasmo nas costas não é emergência. Você pode ver isso. ‘Estou com medo.. Não conseguia me mexer.. de manhã. eu quero. Sempre estou ouvindo Faz isto. Nunca se dirigiu a ele com tal força. me salve!. Nenhuma emergência médica. Rayment? Todo dia. Eu. traz isto. senhor chama algum amigo. segundo sua avó de Toulouse. troco roupa. ele diz. indicam um temperamento sensual. não só segura mão. nem no futuro. “Você foi a primeira pessoa em quem eu pensei”.. com dedos cônicos que. eu quero.

diz. insiste. vêm a ele. assim. como essas que mencionou: que vocês estão atendendo a um chamado. Até logo. de baixo até em cima. É assim quando a pessoa é instável: as palavras simplesmente vêm? “Sempre pensei”. uma palavra sufocante para receber assim: primeira. Evidentemente é uma grande palavra. cheio de remorso. Vamos tomar alguma coisa. uma enfermeira de verdade. angústia humana. por vergonha. “Hora de ir embora”. Seu nome. mas talvez o sermão seja o jeito de. diz. Ela aceita bem o golpe desta vez. Pensei que o que caracteriza a enfermagem. ela diz. Ela dá de ombros. nesta noite em particular. metade para fora. nem pisca. indisposto. Marijana”. gelado. Você veio a mim. álcool e comprimido não é bom. o que se chama de pânico. tenta desajeitadamente engatinhar para fora da cama. ele repete com alguma amargura. É só parte da vida. diz Marijana.k. vamos socá-la com isso.” Amor: a maior das grandes palavras. Mesmo que seja apenas angústia. Mesmo que não seja uma emergência real. Não quero sentir que nunca mais posso chamar você de novo. Bom. “Cinco minutos.” Com considerável esforço. Mas sem bebida para mim que dirige e sem bebida para senhor. Seu nome me veio. É nessa posição que Drago — que deveria estar na escola. Mesmo assim. rende-se e urina no chão. ele controla uma nova crise de tremores.” Um tanto rígida. . quando uma enfermeira é chamada. ele fica acordado a noite inteira. ela não faz perguntas. parte de envelhecer. ela vem. Os comprimidos que Marijana disse que ia deixar não estão em parte alguma. nos acalmar e ser normais. claro que não.” Ele nunca fez sermão para Marijana. “Não ainda. “Só amor”. a ingratidão e as indignidades. “Mesmo que seja só amor. Três minutos. Um dos três minutos passa. Chega o amanhecer. ele pergunta. Faz-se um silêncio entre eles. Como precisa ir ao banheiro. Palavras que afloram dentro dele sem pensar. Incomodado. Dor nas costas não é emergência. Certo?” “O. que ele contratou para salvá-lo de degradações exatamente como essa. os ganhos baixos. que justifica os horários prolongados. “Agora eu vou”. Três minutos. Será que não conseguir controlar a bexiga conta como emergência? Não. “É longe de carro até Munno Para. A meio caminho a dor ataca de novo e o imobiliza. a verdade escolher se revelar. do nada. “que enfermagem era uma vocação. mas que por razões pessoais parece não estar — o encontra quando chega para pegar a mala com suas coisas: metade na cama. ela retoma seu lugar. Por favor. Os botões do casaco estão todos abotoados agora. enrijecido. Mas não é a palavra que o faz pausar. Miseravelmente. a perna presa entre as cobertas amassadas. Ela se levanta. dolorido. “O que exatamente seu marido sabe?”.

relaxe e a gente cuida do senhor num minuto” — e tira as roupas de cama. Posso descer até a farmácia.. volta.” “Obrigado. Agora ali está. mr. diz ele. Você não precisa ficar. Tem um esfregão em algum lugar?” “Atrás da porta da cozinha. Muito obrigado por tudo. Mas não. pai e mãe. Ela disse que ia deixar alguns. “Minha mãe disse que eu tenho de ir buscar comprimido para dor para o senhor. choro de velho que não conta porque vem muito fácil e que ele esconde com as mãos porque deixa os dois embaraçados. Se ao menos! . Costello. Tem um momento de choro. é porque não pode ser mais abjeto diante dela do que já foi. se algum estranho descuidado se chocasse com ele em sua motocicleta. e quando ele tenta se explicar. é Drago que o faz calar — “Não esquenta. até o filho que eu nunca tive. O dia inteiro.. como por exemplo: Sua mãe me abandonou. filho. ficaria vermelho. bondade sua”. me abandonou. Drago faz um telefonema.. se tiver. mas toma o cuidado de não estar por perto quando se precisa de cuidados. moveria céus e terras. Paul Rayment. na gaveta da escrivaninha. ele. Drago?” “Hã?” “Eu fico bem agora. um velho desamparado de pijama urinado arrastando atrás de si um obsceno coto cor-de-rosa do qual estão escorregando as bandagens encharcadas. desviando os olhos como exige o pudor.” “Tudo bem. Se ele não esconde mais nada de Marijana. todo mundo me abandonou. essa objetividade com o corpo? Assim como a mãe de Drago o ajudou a ir para cama. E é verdade! Se algum cataclismo se abatesse sobre Drago. vira o colchão e (um tanto desajeitadamente. gastaria cada centavo que tem para salvá-lo.” “Isso não é nada. ficaria ao lado da cama dele. E o senhor devia comer antes. “Mamãe falou para tomar um a cada quatro horas. E Drago não se abala! Será que é de família. ao fim de tudo. fez o possível para não se expor diante de Drago. mas.” O comprimido mágico acaba sendo nada mais que ibuprofeno. porque seu coração está repleto. Se não estivesse com tanto frio. Estou com o nome aqui. mas esqueceu. Rayment. É só um minutinho. mr. é Drago quem encontra um pijama limpo e pacientemente. Rayment. afinal de contas é apenas um rapaz) estende lençóis limpos. Drago teria de dizer: Tudo bem. também Drago agora o ajuda. Daria ao mundo uma lição de como cuidar de um filho amado. a noite inteira.” Para completar a passagem. Com Drago é outra história. que fala e fala sobre cuidados. “Obrigado. você! Mas controla-se.” “Tem dinheiro na minha carteira.. Até então. desculpar sua fraqueza. Queria dizer mais. aí. você chegou. ajuda-o a se trocar. o senhor faria o mesmo por mim. Seria tudo para ele. mrs. Quer que eu pegue alguma coisa na cozinha?” “Me pegue uma maçã ou uma banana.

Na porta.) . (N. “Até mais!” * “Sangue velho. sangue frio”. T. acena e dá-lhe um de seus sorrisos angelicais que deve deixar as meninas tontas. Drago se volta.

” Nenhuma menção ao traiçoeiro Johann August. ele é capaz de fornecer o mais breve. Bom rapaz. O que tem nas mãos é uma cópia. já consegue se movimentar. Chamei Marijana. “Escorreguei no banheiro e torci as costas. nenhuma menção aos tremores e às lágrimas. assim que ele tira a foto da capa plástica para a luz. mais objetivo dos relatos dos acontecimentos. Nada está faltando de fato. mais calmo. tudo misturado e transformado em um comprimido numa fábrica em Bangcoc e o monstro da dor se reduz a um camundongo.” “Estou.” “E você está bem. feita numa copiadora eletrônica em papel semibrilhante. de fato. Mais maduro que a idade que tem. ela veio e deu um jeito em mim. agora estou bom de novo. De forma que.” Não que nenhuma das fotos esteja realmente faltando. é capaz de se vestir. 27. quando Elizabeth Costello chega. você disse. No meio da tarde. Por que não estaria?” “Talvez seja melhor dar uma olhada. como Marijana disse. nenhuma menção ao pijama no cesto de roupa suja. É a grossura a mais . A contusão nas costas. está bom de novo. em tons de marrom que imitam o sépia original. “Drago apareceu de manhã para conferir. Na noite passada. achou que estava às portas da morte. embora cuidadoso. mais ou menos. O papelão da montagem é novo e ligeiramente mais grosso que o original. não é grande coisa. Milagroso. hoje. Mas um dos Fauchery dá uma sensação errada e. um tantinho de outra coisa.” “E suas fotografias? Sua coleção de fotografias?” “O que tem?” “A sua coleção de fotografias está bem também?” “Acho que sim. a aparência errada também. Um traço disto. de fazer um sanduíche. um toque daquilo.

“Não fui eu que recebi Drago em minha casa e mostrei minha preciosa coleção de fotografias. Talvez Drago e o amigo tenham achado que .” Ela segura a cópia. Se não fosse Costello falar. estava apenas desconfiada. Ele nunca teria conseguido uma montagem tão convincente numa câmera escura convencional. Não: em vez disso se trancam horas e horas no seu escritório. Você é que vai ter de descobrir. Não jogando futebol. exibindo um bigode também. “Não me pergunte. toda a agitação de planos e desejos na cabeça deles. lado a lado com aqueles mineiros da Cornualha e da Irlanda de uma era passada. O tempo está se acelerando à nossa volta toda. “Como eu sabia que Drago e o amigo estavam aprontando alguma? Eu não sabia. “O que aconteceu com o original?”. “Ele não é a cara de Miroslav Jokić?” Ele arranca a foto da mão dela. diz ela. Por que se dar a todo esse trabalho de fabricar” — ele apóia a ponta da muleta na foto e amassa no tapete — “uma fraude?” “Aí. senão a sua coleção de fotografia. Garotas têm filhos com dez anos de idade. Sorri para a cópia no chão. mas não se importa. você particularmente tem poucos livros sujos. Meninos — meninos levam meia hora para aprender uma habilidade que nós levamos meia vida para aprender. “Sabe o que aconteceu com ele?” Ouve a própria voz se descontrolar. “Eu não ia ficar surpresa se um desses mineradores fosse o bisavô Costello de Kerry. Devem ter feito aquilo com algum tipo de técnica digital. Vira-se para Costello.” “Então como você sabia desse. uma coleção que segundo você é tão preciosa que tem de ser doada à nação?” “Mas não vejo que motivos possam ter. Como já disse. e como é que eles passam as horas livres? Não correndo de motocicleta. Simplesmente desconfiei. “Como você sabia?”. se entediam com aquilo e seguem em frente para alguma outra coisa. Eles aprendem. Debruçados em cima de sacanagem? Não: a menos que eu esteja errada. Paul”. Miroslav Jokić: é ele mesmo. “Menino burro. Paul. ela bate num rosto na segunda fila. Mas tenha em mente uma coisa: trata-se de rapazes jovens e vivos em uma cidade sonolenta que não fornece vias de escape para toda a inquietação que têm nos ossos.. burro! O que ele fez com o original?” Elizabeth Costello lhe dá um olhar arregalado de perplexidade. dois saudáveis rapazes australianos. Pense.” “Mas por que desconfiou? O que está deixando de me contar?” “Controle-se. Não beijando as meninas. desse vandalismo?” “Eu não sabia. não tenho como ajudar. não é um mau trabalho. pergunta. É o desrespeito que ele sente mais: os mortos desrespeitados por uma dupla de jovens arrogantes e irreverentes. Shaun. E olhe — olhe este sujeito. O que então pode absorver a atenção deles.. Não surfando.” Com a unha. ele nunca teria notado. pergunta a ela. Paul. Não fui eu que abri caminho para a mãe através do filho.que primeiro entrega a falsificação. Temos aqui Drago e o amigo dele. Fora isso. usando chapéu e colarinho aberto.

não esqueça. Pode achar que foi vítima de uma piada.” “E daí?” “Não sei. Existem croatas e croatas. entre os jovens indisciplinados. “Não. sussurra. mesmo que um tanto prematuramente — vovô Jokić.” “Qualquer coisa?” “Vai assumir a culpa. a restauradora da família. seu precioso original de Fauchery.” Ele sacode a cabeça. Ou talvez ele e Shaun tenham passado para um comerciante. um pouco rústicos de coração. em inserir um Jokić na memória nacional. talvez. pode armar a cena. não. Nem afeto. Ele vai simplesmente se assustar e queimar a foto. um ou outro figurão chato desvendando a Coleção Rayment e — opa. afinal de contas. Bom. Que mal há. esses ciganos croatas?” “Não seja melodramático. O que acontece depois depende de você. por outro lado. quem sabe onde estará? Talvez ainda esteja debaixo da cama de Drago. você sabe disso. nada está perdido. Deixe eu lembrar uma coisa: você mesmo disse a ele. Se não. porém. se você tiver sorte. apenas uma exsudação de água. quantos avaliam as conseqüências de seus atos?” “Vovô Jokić?” “É. Se quiser ir em frente e armar uma cena. mas nenhuma malevolência também. cujas conseqüências ele pode não ter avaliado. Fale com Marijana. por exemplo? Só uma brincadeira. opa! — quem é esse no meio da pièce de résistance da coleção senão um membro do clã dos Jokić da Croácia! Grande truque — é o que Billy Bunter* teria dito. E ela é. Vai fazer qualquer coisa para proteger o primogênito. Talvez seja apenas isso: uma gozação elaborada e de bastante mau gosto que deve ter custado a eles um pouco de tempo e talvez alguma orientação especializada também. pensa Drago. Paul. Ela vai ficar envergonhada. Você não achou que era o próprio Miroslav na foto. que você estava simplesmente guardando as fotos pela história da nação.” Sem afeto. mas sem força por trás delas. Drago faz parte dessa história também. achou? Mas pense bem. “Ciganos? O que mais eles roubaram de mim. Inclusive Drago. É dez vezes mais provável que o seu querido Fauchery ainda esteja nas mãos de Drago. Será tão claro assim. Mas não havia malevolência por trás disso.” . Vêm lágrimas aos seus olhos de novo. nem tudo está perdido. e tem toda a razão. Um punhado de bons croatas e um punhado de maus croatas com milhões de croatas pelo meio. “É isso que eles são então?”. O pai de Miroslav. tão claro para todo mundo? É como se o coração no peito dele de repente ficasse cansado demais para bater. Drago não é um mau rapaz. que as fotos não eram suas. Diga para ele que vai chamar a polícia se não for devolvido imediatamente. Na verdade. Console-se. apenas um pouco empedernidos. Você sabe muito bem disso. eu achei. bem sublime. Os Jokić não são croatas particularmente maus.seria divertido: a Biblioteca Estadual. juvenil. um bando de cavalheiros importantes e senhoras de idade se abanando contra o calor. “Quanto ao original. uma piada impensada. Só uma piada.” “Então fale com a mãe dele.

Eu me recuso. Paul. a mulher cigana esperta e o belo jovem cigano. Faça comigo o que quiser. como estou cansado de levar esses seus cutucões e isso tudo para alimentar essas histórias malucas na sua cabeça! Eu entendo o que você quer. ele não deve acusar. não é? Sexo. De quem foi a idéia. como cliente. Mais que telefonar a Marijana. não quero ouvir mais.” *** Falar com Marijana. tomando o máximo cuidado com as palavras. batendo em alguém e matando com tiro. Não fale com Drago. Só quero saber a verdade. Se eu não consigo convencer você. Shaun. em relação à fotografia desaparecida. Elizabeth. Até você é capaz de admitir isso. de Drago ou daquele. Talvez Marijana se prostre na sua frente. os Jokić vão negar e isso será o fim de qualquer tênue posição que possa gozar entre eles — como paciente. fornecendo uma exposição fria.” “Não. em relação a Drago. Mas quem escreve cartas hoje em dia? Quem as lê? Será que Marijana leu a primeira carta dele? Será até que a recebeu? Ela não deu nem um sinal. Não gostaria de ouvir mais?” “Não. espera que o marido descubra e me dê um tiro. da coisa distinta. . que seja. Se você se contenta em perder sua preciosa fotografia. Não fale com a mãe dele. na noite em que eu escorreguei no chuveiro. Então. não sei o que me deu. A propósito. Mas o que poderia dizer? Marijana? Olá. Não se resolve uma crise como essa de agora. Mas se minha sugestão te ofende. Não consigo te convencer? Senão. decerto que não posso forçar nada. Se acusar. Mas talvez não haja golpe nenhum. você vai acabar com o quê? Com uma história inconseqüente sobre um rolo com os ciganos. ação do tipo mais vulgar. Você gostaria que eu — qual é a palavra? — explorasse Marijana. eu retiro a sugestão. ou uma surra. Absolutamente.” “Pobre Paul. ou de Marijana?” “Eu diria que esse é um âmbito bastante modesto da verdade. Mea-culpa. Se você soubesse. violência. suprimindo a instabilidade desta vez. como vai? Quero me desculpar pelo que eu disse na outra noite. “Não quero nenhuma cena. sensata de sua situação em relação a ela. Você nunca terá certeza enquanto não fizer a cena com ela. como chama mesmo?. como pato?” “Não. Você já se encolhe antes mesmo do golpe. Sem ameaças. Sem cenas. Esse é o tipo de coisa principal que você espera provocar. E assim por diante. Será que poderia pedir para Drago olhar na mochila dele e ver se não levou por engano? Acima de tudo. ciúme.” “Não gostaria de saber por que você foi escolhido como vítima. lhe diz Costello. cuja essência é moral. Devo ter perdido a cabeça. notei que está faltando uma foto da minha coleção. Não chega nem perto da coisa principal.” “Não seja ridículo. talvez devesse escrever outra carta.

amor. além da raiva e do desejo. O padrinho é o homem que fica ao lado do pai na pia batismal. no ritual do batismo. é assim que eu entendo. e o pai é. Ofereço também certas impalpabilidades. para fazer revestimento de bombas ou de mísseis teleguiados. então você sem dúvida acha que eu devia calar a boca e aceitar todo e qualquer castigo que os deuses me enviarem. ele escreve. evidentemente. Caro Miroslav. você. Empreguei a palavra padrinho. Os livros que consultei não dizem. Um sistema de comunicação desaparecido. olhando as folhas de papel enroladas dentro de cartouches e disparadas de um departamento para outro por tubos pneumáticos. Não é só dinheiro que ofereço. Tem razão. em princípio. Talvez sim. Sinceramente. que colocam selos nelas e jogam em caixas de correio: Ivanka ganhou o prêmio de declamação. além talvez de uma chave da porta dos fundos. Tentei invadir o seu lar. Mas talvez com os croatas seja diferente. Pelo menos. Uma rara fotografia pertencente a mim desapareceu e eu gostaria de recebê-la de volta. ou acima da cabeça da criança. Escrevo para fazer uma proposta. pergunte a seu filho. em meu estado de limitação. Quando a portinhola do tubo era aberta.) Se não sabe do que estou falando. nada palpável. Um mundo desaparecido. Uma lembrança retorna: uma visita de infância a Paris. principalmente. provavelmente. Minha proposta é a seguinte. Mas não tire conclusões precipitadas sobre qual o tipo dessas intenções. Um personagem sem substância. poderia encontrar um lugar para um padrinho em seu lar e em sua morada. espiritual. impalpabilidades humanas. Mesmo assim. para cobrir a educação de Drago e talvez de outro filho seu. no Brasil. Em troca de um substancial empréstimo a prazo indefinido. o padre é a personificação do Filho e intercessor. com Marijana. em seu coração e em seu lar?** Não sei se na Croácia católica vocês têm a instituição do padrinho. para dar a sua bênção e jurar apoio pela vida toda. mas apenas pensado nela. não alimento nenhum plano de tirar de você sua esposa e filhos. Mas não é por isso que escrevo. racionalizado até desaparecer. Peço apenas para observar. vinha das entranhas do aparelho um rugido abafado de ar. se não com você. Assim como. pergunte a sua mulher. Mas você deve conhecer o conceito. a peça é muito conhecida no mercado. todos aqueles cartouches prateados? Derretidos. bastante longe da cidade. talvez os Jokić não achem tão estranho receber comunicações pelo correio. Bem. quando vamos nos ver outra vez? Então. fazer uma visita. às Galeries Lafayette. lembra-se. O que aconteceu com aquelas coisas. (Permita que eu acrescente que Drago não vai conseguir vendê-la. Para mim não é nada fácil. não vou me calar. o padrinho é a personificação do Espírito Santo. talvez não. e com isso quero dizer. Você vive em Munno Para. para abrir meu peito. nos momentos em que você estiver ocupado em . Talvez no velho país ainda existam tias e avós que escrevem cartas para a família distante no Canadá. o Pai. abriria seu lar para mim? Não quero nada em troca. Ou talvez não tenha pronunciado a palavra. Você desconfia que tenho intenções quanto a sua mulher. como vai você. a vaca cega teve cria. na Austrália.

outro lugar. Vou fechar e selar esta carta agora e. O silêncio pode significar muita coisa. Não. Eu costumava hesitar muito. por fim. heart. estou apenas usando a abertura criada por esse desagradável incidente para deixar minha caneta correr e meu coração falar (além disso. Não sei o que você acha de cartas. por outro lado. talvez não ache estranho tomar da caneta por sua vez. Sei que uma proposta deste tipo não era o que você esperava ao começar a ler esta carta. Ou Marijana pode trazer um recado. para despejar as bênçãos de meu coração sobre a sua família.. Se preferir não dizer nada a elas por enquanto. As crianças menores talvez achem mais difícil. “coração” e home. “lar”: a place in your hearth and in your home. sempre existe o silêncio. e ela sugeriu que eu chamasse a polícia. longe disso: por favor. Drago não deve ter mais nenhuma dúvida quanto ao lugar que aspiro na família. Se. (N. eu compreenderei. Ou Blanka. T.. Mas nada poderia estar mais distante de minha intenção. Falei com uma conhecida minha sobre o que aconteceu em meu apartamento — o desaparecimento de um exemplar da minha coleção de fotografias e tudo —.) . sob alguns aspectos. sempre se pode usar o telefone (8332-1445).) ** Há aqui um jogo de palavras intraduzível com hearth.T. ou Drago (não voltei as costas a Drago. E. in your heart and home. fazer a viagem até a caixa de correio mais próxima. “lareira”. mas agora abomino hesitações. Sinceramente. hesitava sempre. diga a ele). (N. antes que eu mude de idéia. quantas cartas se tem hoje a oportunidade de escrever?). Paul Rayment * Personagem central de uma série popular de livros infanto-juvenis sobre a vida num colégio interno. cartas são estranhas a seu uso. melhor que o nosso. Uma vez que vem de um mundo mais antigo e.

“Você não disse que está dormindo debaixo dos arbustos no parque?” “Ah. Ela olha. “Não acha que devia procurar um médico?”. . como se os pulmões estivessem tentando expelir. Está escuro. faz sentido. diz ele. sopra uma brisa forte. só um resfriado. ela pergunta.” Ele pegaria o óleo de eucalipto para ela.” “Eu recomendo óleo de eucalipto”. 28. Tenho uma na bolsa. ela chamou ontem — e ele não é responsável por ela.” “Óleo de eucalipto!”. Estão sentados na sacada com uma garrafa de vinho. mas não consigo mais encontrar nas lojas. É uma tosse e tem uma característica úmida. diz ele a Costello.” “É mesmo? Como dizem nossos amigos americanos. Até reviraria o armarinho de remédio para ver se tem Bálsamo do Frade. Vai passar. Pode encontrar aqui em Adelaide. sim. sem entender. era melhor ficar dentro de casa. Basta ela pedir. diz ele. um punhado de cada vez. Se ela está realmente doente. As pessoas usam bombinhas agora. “Não ouço falar de óleo de eucalipto há séculos. Mas ela não pede. Mas ela não faz o menor esforço para disfarçar o quanto desgosta do apartamento — “sua casa funerária bávara”. ela diz. Inútil. Ela sacode a cabeça. Você inala o vapor. Ferveria uma panela de água. “Você deve ter pegado debaixo dos arbustos”. uma camada de muco profunda.” Não soa como resfriado coisa nenhuma. “Uma colher de chá de óleo de eucalipto em uma panela de água fervendo. É uma maravilha para os brônquios. “Nenhuma notícia de Drago? Nenhuma notícia dos Jokić?”. “Não é nada.” “Nas lojas do interior se consegue. Minha garantia antes era Bálsamo do Frade.

Porque cada bendito passo que dá custa um esforço. três. Escrever não é justamente uma questão de reconsiderar — duas. você. de uma imensa tirada contra outra.” “Uma carta! Outra carta! O que é isso. se uma carta não parece certa. Dom Quixote não é um livro sobre um homem sentado numa cadeira de balanço reclamando da chatice de La Mancha. Sem dúvida. Sem dúvida você espera as reconsiderações. diz ele. A vida não é uma troca de mensagens diplomáticas. de fato. vida é drama. É sobre um homem que mete uma bacia na cabeça. Só nos resta agüentar e ver para onde os ventos nos levam. Sem dúvida você revisa. sim: reconsiderar até a potência n. Você não é nenhum analfabeto. é a paixão que faz o mundo girar. muitas vezes?” “É. sabe disso. Pense no teatro francês. se tivesse esperado a vinda de reconsiderações. você não rabisca a primeira coisa que vem na sua cabeça e manda para seus editores. pessoas como Marijana e Miroslav. Escrever é isto. de acelerar essa sedução de Marijana — se é realmente sua intenção continuar a seduzir Marijana. Au contraire. “Lembre-se. Mas quem é você para pregar reconsideração para mim? Se você tivesse sido fiel à sua personalidade de tartaruga. Escrevi uma carta.” “Por que me chama de tartaruga?” “Porque você fica séculos farejando o ar antes de espetar a cabeça para fora. mas não às custas das paixões. ação e paixão! Sem dúvida. calculando. Pelo menos. que são irrecuperáveis. Paul. Vá lá na casa dela! Confronte Marijana! Faça uma cena como tem de ser! Bata o pé! (Estou falando metaforicamente. você e eu. Mas é tarde demais para isso agora. Não se pode ser mais francês que Racine. pode-se rasgar e começar de novo. Seja polido. Você mais do que ninguém devia saber disso. Você podia estar bem acomodado no seu belo apartamento. Paul. que ainda tenho de pôr no correio. Simplesmente gostaria que procurasse em seu coração para ver se não consegue encontrar meios dentro da sua personalidade de tartaruga. Pense em Dom Quixote. Pense em Racine.” Ela está febril? O que provocou essa explosão? “Se existe um espaço no mundo para Bálsamo do Frade”. “existe um espaço para cartas antiquadas. se não tivesse tola e irrecuperavelmente declarado sua paixão pela faxineira. se quiser. Não estamos na era de romances epistolares. nada de errado com a polidez. Racine não trata de gente enrolada pelos cantos arquitetando. não estaríamos neste aperto agora. Ao contrário de explosões de paixão. É desse jeito que pessoas normais se portam. com sua formação francesa. dentro da sua variante de paixão de tartaruga. você. um jogo de xadrez postal? Dois dias para suas palavras chegarem a Marijana.) Grite! Diga: ‘Não admito ser tratado assim!’. Racine trata de confronto. deve saber disso. Ao contrário de um discurso. Não estou pedindo que seja uma lebre. Sem paixão o mundo seria vazio e sem forma. e eu podia estar de volta a Melbourne. vida é ação. esperando as visitas da dama de óculos escuros. “Nenhuma notícia. Paul. dois dias para ela responder: vamos todos morrer de tédio antes de chegar a uma solução. .” “Eu?” “É.

Ele consegue perceber que alguém poderia querer transformar a ele e Marijana. para que vale a vida? “Vamos lá. Meus amigos me abandonam como uma lembrança perdida. Ser um personagem principal. Porque ninguém mais. Agüenta bem os ingleses. como John Clare. Só eu me consumo no que me angustia. pode ter certeza.” “Ver o que eu consigo inventar para você poder me colocar em um livro. nós todos perdemos uma perna. não-sei-quê. tão pouco aventureiro como você? Pode me explicar? Será que tudo isso se deve à língua inglesa. Quando foi a última vez que saiu para dar um passeio debaixo do céu estrelado? Você perdeu uma perna. e andar não é brincadeira. “Não ainda. mesmo sem fazer a menor idéia de como vai pagar por elas.monta em cima do seu fiel cavalo de arado e parte para realizar grandes feitos. Os irlandeses é que sempre lhe criaram problemas. único consumidor de suas próprias angústias.. alguém talvez colocar você num livro. diz Alonso. não é bem comédia que Costello parece ter em mente para ele. não me lembro qual é qual. Como veio a acontecer. um tigre neste exato momento está abrindo os olhos cor de âmbar e não está absolutamente pensando em você! Pouco importam a ele você ou qualquer outro habitante estrangeiro de Coniston Terrace. e isso é que o deixa intrigado. sai e compra roupas elegantes. velho e desinteressante. De forma que o que adianta reclamar? Escute! Eu sou. com Costello. Só se vive uma vez. Para alguém talvez querer colocar você num livro. você acha. quando está sendo levado a sério e quando está sendo alvo de gozação.. mais ou menos. mas. Emma Rouault. e a marca irlandesa na Austrália. Paul: é assim que você vai terminar. vai ligar a mínima. o homem com o coto e a mutável dama balcânica. “Nós devíamos entrar”. Me surpreenda. Alguém. ou sintoma. Senão. Paul. Faça alguma coisa. mas o que sou ninguém sabe. eu sei. ó não-sei-quê. diz ele. Viva como herói. Cresça. Como continua?” “Não sei. numa comédia. Já te ocorreu que se a sua vida parece repetitiva. diz Emma. Mas. Emma Bovary. quer dizer. “Conhece esses versos? John Clare. É isso que os clássicos nos ensinam. Veja o que você consegue inventar. ou símbolo. Para valer a pena colocar você num livro. Sua perna perdida é só um sinal. isso é o que ele chama de elemento irlandês. Ó céu estrelado. de ficar velho.” “Para alguém. depois de certa idade. qualquer um — não só eu. apesar de toda a gozação. Faça alguma coisa. então vamos agitar! Agitar.” “Ó céu estrelado. de eu me ver atada a um homem tão pouco curioso.” Ele nunca sabe. limitada e cada dia mais chata é porque você quase nunca sai deste maldito apartamento? Pense um pouco: em algum lugar em uma selva no estado de Maharashtra. Tome cuidado. Ao lado de Alonso e de Emma. ou avalia. os anglo-australianos. ao fato de você não ter segurança . Paul.

Você fala como um livro. Limpos como anjos abençoados nós seremos. parte de seu casco de tartaruga. mesmo que um pouco subdesenvolvida. Quando o dia chegar. estou ouvindo com as orelhas em pé. E. mais convencida fico de que a chave para o seu caráter está no seu discurso. que levava os livros muito a sério. Tudo o que eu digo é que você fala inglês como estrangeiro. você tem razão: você fala inglês.” “Falo inglês como estrangeiro porque sou estrangeiro. e que são encaixadas no lugar. Não é assim que um falante nativo de verdade fala. provavelmente pensa em inglês.” “Ainda sou o quê? Pálido? Bem-comportado? Subdesenvolvido?” “Um menininho que tem medo de soar engraçado quando abre a boca. Sou estrangeiro por natureza e fui estrangeiro a minha vida inteira. não é assim. Paul. Ou vice-versa. Tranque este apartamento. Você perdeu contato com o francês há muito tempo. Está sugerindo que eu volte para o francês? Está sugerindo que eu cante Frère Jacques?” “Não caçoe de mim. uma depois da outra. sabe. ou uma máscara. Por assim dizer. Se não existissem estrangeiros. mas bem aceitável. Eu não disse nada de voltar para o francês. Não. pode até sonhar em inglês. Sob todos os outros aspectos. Não tem mais vida nenhuma para você aqui. eu cuido de você. não ponha a culpa na sua natureza. no sétimo dia. Eu diria mesmo que o inglês é um disfarce para você. Quando você fala.” “Como é que fala um nativo?” “Do coração. bem-comportado — posso ver isso —. de uma caixa de palavras que você leva sempre com você. Adelaide parece demais com um cemitério. Você tem uma natureza perfeitamente boa. não existiriam os nativos. se eu for a que sobrar. E ainda é isso. quanto mais escuto você. você é que fechará meus olhos e encherá de algodão minhas narinas.suficiente para agir em uma língua que não é a sua? “Desde que você me lembrou do seu passado francês. seis dias por semana. que eu depois conto de volta para você em uma forma tão acelerada e melhorada que você não vai nem reconhecer.” “Entendo. juro que consigo ouvir palavras sendo selecionadas. As palavras brotam de dentro e ele canta as palavras. Eu até cozinho para você. Houve um tempo em que você era um menininho pálido. canta junto com elas. Deixe eu fazer uma proposta. depois do jantar. Que mais? Nada de prazeres arrebatados — você vai ficar aliviado de ouvir isso. recitará uma breve oração para mim. e talvez em troca você aprenda a cuidar de mim. Não tão bem como Marijana. alguém que nasceu na língua. Paul. Uma aula de duas horas por dia. pode me contar mais histórias do seu tesouro escondido. Ensino você a falar com o coração. no entanto o inglês não é a sua verdadeira língua. Venha morar comigo em Carlton. E não vejo por que eu deveria me desculpar por isso. se você ficar inspirado.” “Um estrangeiro por natureza? Não. não. O que lhe parece?” . diga adeus a Adelaide. claro. podemos descansar. Eu te dou aulas de inglês. Aí.

Companheiros. só isso que eu sou. Paul e Elizabeth. fazer sua voz cantar? Fecha os olhos. Não sou redimível. nada diferente de você. não tenho valor. Será que consegue. podíamos comprar uma van de campista e viajar pelo continente para olhar as paisagens. de todas as muitas pessoas no mundo. ou quer que eu entregue tudo a você plenu voce. a plena voz?” “Fale com uma voz tão plena que até um tapado como eu consiga entender.” Ela pigarreia. fique sossegado. meu o de escrever. dia após dia. sofro. Tão de verdade quanto você. de certa forma. “Só para mim Paul Rayment nasceu e eu para ele. uma vez ao menos. Elizabeth Costello fica em silêncio. “Parece casamento. a mesma velha melodia decepcionante. Pego resfriado. dele o de agir. uma espécie de casamento. Elizabeth?”. “Por que eu. muito comum mesmo. Um semfim de opções.” “Por favor. vou ao banheiro. Costello: você existe de verdade?” “Se eu existo de verdade? Eu como. Por favor. Agora é a vez dele. eu?” As mesmas velhas palavras. fale sério pelo menos uma vez. Deus me perdoe se sei por quê. e me dá uma lambada com o chicote. Elizabeth. Ou. Porém. Que tal? Você poderia me mostrar seus velhos locais de passeio. Paul. Podíamos até pegar um avião para a França. como eu fui feita para você. Dele é o poder de liderar. Agora. Não consegue ir além disso. Se existe algum espírito-guia — e eu não acho que exista —. me responda: eu estou vivo ou estou morto? Aconteceu alguma coisa comigo na rua Magill que eu não consegui perceber?” “E eu sou a sombra escolhida para acompanhar você no além — é isso que está perguntando? Não. Continue o trabalho agora! Não. com apenas .” “É. medroso demais. Claro que sou de verdade. se Carlton não for atraente para você. para ninguém. espera as palavras virem. com seu chicote. “Por quê. Isso serve por enquanto. Elizabeth e Paul. Levanta-se e fica apoiado na mesa na frente dela. diz ele. Uma velha que escreve. eu sou uma pobre criatura cindida. Tarascon. o que estiver em seu coração estará embaraçando a melodia. vêm as palavras. “Eu sou rebotalho. Mais?” “Não. Vamos lá. não de você. “Você foi feito para mim. os Pireneus. mas soa sincera. o que me diz?” Ela pode ser irlandesa. muito. página após página. Sem preguiça. enquanto não tiver uma resposta à sua pergunta. ou semi-sincera. mrs. então é em cima de mim que ele paira. as Galeries Lafayette. me deixe perguntar francamente. esvazia a mente. jovem Elizabeth Costello!. Não tenho nenhuma utilidade para você. metal inferior. O que levou você a me escolher? O que lhe deu a idéia de que poderia fazer alguma coisa comigo? Por que fica comigo? Fale!” Ela fala. basta. frio demais. Pálido demais. durmo. isso mesmo. Um casamento compassivo. esta é uma história muito comum. meu o de seguir.

do cheiro. comprimento.” Porém. Nada de prazeres arrebatados. das carícias? Como você pode esperar que alguém como Marijana Jokić possa amar um homem com tamanha aversão pelo físico?” “Não tenho aversão pelo físico”. “Estou certa? Abaixava a cabeça. Mas agora não consegue evitar de imaginar como seria beijar aquela boca. Marijana teria me beijado. “Você não concorda. no mesmíssimo momento. você não tem a menor chance com ela.” Ele esteve olhando os lábios dela enquanto ela fala. Esqueça mrs. com aqueles lábios secos. de sua mãe e do marido novo dela — do hálito. O reino do lar. Deixe eu perguntar uma coisa: acha que sou assim por natureza?” Ele segura a língua. é: Minha aversão é pelo feio. mas não acrescenta. Então teria ficado tudo bem. tem muitas mansões. Vamos repartir nossas migalhas enquanto ainda temos dentes. e é uma proposta bem comum a que estou fazendo para você. Acabar comigo mesmo!. pensa. sem dever nada a ninguém. ela disse. Não é um ser superior. eu ainda estar aqui. frio. Você vai gostar de lá. nos braços um do outro. mas percebe. nem uma palavra atravessada. em vez disso uma porção de piadas e um toque de lisonja irlandesa. E ela percebe isso. “Aposto que quando era pequeno não gostava que sua mãe o beijasse”. está pensando: Se nós tivéssemos tido cinco minutos mais aquela tarde. Será que um casamento compassivo inclui beijos? Ele baixa os olhos. Eu sou a sua melhor copine. fica claro para ele o que a mulher queria dizer com a caixa de palavras. O que quer acrescentar. Que artificial! Que insincero! Como todas as confissões em que ela me atira! E. largura e altura. é um hábito dele: outras pessoas olham os olhos. “que conservei meu humor excepcionalmente bem desde o dia em que apareci na sua porta até agora? Nem um xingamento. e a sombra de penugem em cima. Volte comigo para Melbourne. Eu a teria tomado para mim. um homenzinho independente. Não lhe importa como Elizabeth Costello é por natureza. Teria se curvado e muito suavemente teria tocado os lábios em meu ombro. peito a peito. ele olha a boca. igual à vida real. “No que você acha que consiste a minha vida desde a rua Magill. como você é rápido! Do coração. Paul. senão eu me ver socado no físico dia após dia? É um testemunho de minha fé no físico eu não ter acabado comigo mesmo. tenho certeza.três dimensões. se Ljuba não tivesse entrado como um cachorrinho de guarda. para a minha bela casinha velha em Carlton. Está pensando em outra coisa. Jokić. mais nada? E seu padrasto holandês de jeito nenhum? Queria ser um homenzinho desde o começo. . Isso estava chegando. no momento mesmo em que está falando. aí você me pegou. deixava que ela beijasse a testa. Aproveite a sua chance comigo. ela e eu teríamos descoberto como é deitar lado a lado. ele protesta. Tinha nojo deles. senti nos meus ossos. do toque. estremeceria. Paul” (a mulher ainda está falando). talvez até murchos. respirando o hálito um do outro. se fosse menos polido. a copine de seus últimos dias. self-made man. só para variar. O que me diz?” “O que eu digo com a caixa de palavras que levo comigo ou com o coração?” “Ah. ela diz baixinho.

para falar a verdade. Onde mais no mundo. traiçoeiro Drago —. por mais que a gente queira segurar nos braços a beleza de todo o mundo. Elizabeth Costello está dormindo na mesa de que se apossou. quando uma madrinha bondosa se oferece para nos remover de nosso ambiente deprimente. Paul. cruel. “Vou lhe dar um dia. Se você recusar. Mas no caso dessa . a cabeça aninhada nos braços em cima de uma confusão de papéis. Então temos de nos contentar com menos. Enfim. velhos e feios. sem saber para que lado virar. irrealizáveis. Foi só porque prometi que ia ser boa que fui assim tão fácil de você agüentar. Paul. Se o objeto de seus cuidados fosse uma criança — Ljuba. Três horas ainda para o amanhecer. ao contrário. uma falta de viço. dentro do qual ocorrem atividades de que ele preferia não ter conhecimento. Ele nunca murcha em nós. A última coisa que ele quer é acordá-la e se expor a mais outras de suas farpas. evidentemente. A tendência dele é deixá-la estritamente sozinha. você vai encontrar afeto. muito menos. Enfim. E por baixo do cabelo está o crânio. Desde o aperto de mão exploratório que trocaram ao se conhecerem. De fato. Está cansado das farpas dela. ele e Elizabeth Costello não tiveram nenhum contato físico. seu velho feio? É. Um tanto víbora. se você insistir em manter o seu demorado curso atual. temos de aceitar o que está em oferta ou passar fome. a esta altura. feio. esse desejo. Mas tem sido uma batalha. então vou mostrar a você do que eu sou capaz. ou mesmo o belo. Num conto de fadas. Nós dois somos feios. e não diz nada. de nossos sonhos sem esperança. Você acha que o que eu disse é o pior que se pode dizer de você — que você é lento como uma tartaruga e meticuloso até não se poder agüentar? Tem muito mais coisa além disso. para repensar. A morte dos mil cortes. muito suavemente ele a levanta e enfia uma almofada debaixo de sua cabeça. e dada às mais negras raivas. pode crer. Como vai fazer para matar três horas? Há uma luz acesa na sala. A metade do tempo sente-se como um pobre urso no Coliseu. vinte e quatro horas. Mas não se trata de um conto de fadas. Então. pode crer. O cabelo dela tem uma qualidade sem vida. Paul. Muitas foram as vezes em que tive de me controlar para não explodir. eu conheço essa palavra também.” O relógio dele marca três e quinze. “Eu sou por natureza uma pessoa rabugenta. esse seria o momento em que a megera horrenda se transforma em uma linda princesa. o pior e mais danoso. suprime tudo e continua a sorrir para nós e a fazer piadinhas? Chamamos de afeto. Mas a beleza de todo o mundo não quer saber de nós. por exemplo. devemos pensar duas vezes antes de desdenhar o convite. ele poderia chamar de terno aquele ato. vou mostrar a você como eu posso cuspir. Como é que a gente chama quando alguém conhece o pior de nós. patéticos.

A gélida reprovação dela. orgulhosa de seus rebentos. confiante demais. Usam o jogo para expor suas diferenças. É de se supor que. em uma casa vazia. Parece estar se transformando no tipo de pessoa que dorme cedo e acorda quando ainda está escuro. É meramente o que um velho faria por outro velho que não está bem. relaxada. Uma piada. Sozinha em Melbourne. Em algum lugar distante estão os dois filhos de Costello sobre os quais leu na biblioteca. como ele. a confusão de papéis na mesa. fiando suas fantasias na noite. Se existe uma explicação humana. por vias tão obscuras. ela topou com ele. humanitária. Acabarão sendo uma família. ela parece ser do tipo que fica acordada até tarde. de alguma forma. E. filhos sobre os quais ela não fala. e. estão interligadas. também estejam cansados das farpas de Elizabeth Costello. Como poderiam montar casa juntos? . A cabeça ocupada da escritora repousa tranqüila no travesseiro. E mais: Depois da refeição. Se tivesse uma mãe como ela. porém um homem que sofreu um golpe pessoal e que tem sua própria necessidade de amor. que ridículo. ou não a amam o bastante. Ele não os censura. Marijana sorrindo. deve ser essa. um retratista aposentado. Drago não é bom com as cartas — descuidado demais. assim como todo mundo. Ele dá uma olhada no que ela está escrevendo. e a quem ela se volta em busca de alívio. mas ela mantém distância. entrando em seus últimos dias. manteria distância também. faminta de amor. a necessidade de ser amada e a de contar histórias. quer dizer. Blanka vence. como uma abelha pousa em uma flor ou uma vespa em um verme. provavelmente porque não a amam. procurando coisas com que se ocupar. eles jogam cartas. Em letras gordas: (EC pensa) romancista australiana — que sina! O que esse homem tem correndo nas veias? Debaixo das palavras. Uma inteligência estreita. Humano. Quase ao acaso. como todo mundo. se não a um homem em outro estado. para a situação dela. um estranho total. Do peito dela. PR e Blanka.mulher não é terno. É isso que está procurando nele: seja lá o que for que perdeu? É essa a resposta à pergunta recorrente dele? Se é isso. Ele apaga a luz. PR tenta usar o jogo para fazer amizade com Blanka. uma linha riscada violentamente no papel. o personagem ronda. intensa. É de se supor que. ele com gelo nas veias e os Jokić tão sangüíneos? O que mais Costello está tramando naquela cabeça ocupada dela? A escritora dorme. afinal. Como ele pode ser o elo perdido quando durante toda a sua própria vida ele se perdeu de si mesmo? Homem ao mar! Perdido em um mar agitado num litoral desconhecido. Uma refeição e um jogo de cartas. vem um tênue chocalhar quando o ar entra e sai. só que não há ninguém em torno para entender. enfrenta o fim roída por uma sensação de que perdeu alguma coisa. Elizabeth Costello quer ser amada. se ele ouvir com cuidado. tão labirínticas que a mente resiste em explorá-las.

Era a sua teoria de direção. “Volte domingo que vem. ou ameixas. tomado o suco de framboesa e comido o bolo de amêndoas.” “Mesmo assim”. diz Elizabeth Costello. ele diz. curvado em cima da direção. “Allez. Que tédio! As únicas visitas que ele relembra com algum prazer são as que faziam à pequena propriedade do amigo horticultor de seu padrasto. em quarta marcha. O holandês dirigia em marcha lenta. que ele realizou com Prinny Mittiga suas primeiras ofegantes explorações das diferenças entre macho e fêmea. Foi na propriedade de Mittiga. com o rosto impassível. quando os quatro se enfiavam na van Renault azul do holandês no domingo à tarde e partiam para fazer visitas inesperadas. desviando dos buracos e saliências da estrada dos Mittiga. Quanto ao holandês. Andrea Mittiga.b advertiu a mãe. “Paulie e Prinny estavam brincando de médico de novo”. Quando chegavam às montanhas. estavam voltando para a van. carregados de tomates. embora estivesse queimando por dentro para continuar com as lições. não ouviu nada. o motor da van martelava e . ou laranjas do pomar dos Mittiga. E ele teve de dar de ombros. Prinny Mittiga sussurraria ao terminar a visita. disse. prometa”. chez elle?”a A cabeça dele viaja no passado até sua infância. quando. “Não uma visita inesperada”. para retornar à avenida Wirramunda. “desobedeça às suas regras uma vez só. De que outro jeito você vai conseguir ver a sua noiva espiritual em território doméstico. “Não estava!”. aprendida na Holanda. “Não sei”. 29. “Não gosto que venham me visitar sem avisar e não faço visitas sem avisar. tão mais amistoso. entre as teias de aranha do atravancado espaço atrás da imensa caixa-d’água. ele protestou e deu-lhe uma cotovelada nas costelas. anunciou a irmã do banco improvisado na traseira da van. até a Ballarat nos dias antes da proliferação dos telefones. É tão mais espontâneo que escrever cartas. les enfants. soyez sages!”.

engasgava. Que cansativo deve ser viver com alguém tão resolutamente alegre. assim como os Mittiga. Narrapinga Close. sem faróis. ou.e ele anunciava. continua Elizabeth Costello. diz ele. as pernas brancas e a meia xadrez até o tornozelo no meio dos australianos de verdade. número sete: era esse o endereço nos formulários que teve de assinar . acelerados. A buzina não exercia efeito algum sobre ele. Tenho certeza de que vai arrancar você de dentro de si mesmo. embora de fato houvesse sempre alguma coisa errada com a van. em honra dos velhos tempos? Como os Jokić receberão isso? Baterão a porta na cara dos visitantes- surpresa. “Nem em sonho eu vou sem você”. raspando as consoantes à bárbara maneira holandesa. costumava passar de bicicleta por Munno Para. Será que devia fazer uma última visita inesperada. Nada de van Renault ali em Adelaide. Por que a mãe casou com ele? Será que ela deixava ele fazer aquilo com ela no quarto escuro? Quando pensavam no holandês com o negócio dele fazendo aquilo com a mãe deles. ele pensa. enquanto os carros de verdade. “O continente escuro de Munno Para. pressés!”. os receberão bem. Nada podia ser mais embaraçoso do que o holandês com sua bermuda larga. quase explodiam de vergonha e indignação. Agora.” “Bondade sua me convidar para ir junto”. “Você não preferia ir sozinho?” Sempre alegre. os Chevrolets. para economizar a bateria. sufocando o riso. Então eles se arrastavam. Renault. no escuro. Nada de brincar de médico. estava sempre no mecânico esperando chegar de Melbourne uma peça ou outra. merde!” O holandês tinha resolvido usar bermudas. ele e a irmã cochichavam um para o outro no banco de trás da van. vindos do mesmo mundo. “Ils sont fous! Ils gaspillent de l’essence.c ele dizia com sua dissonante voz holandesa. Só a coisa em si. c’est tout!”d Ele não gaspiller a sua própria essence por ninguém. *** Anos atrás. Nada de Prinny Mittiga. “Merde. “Oh là là. fileiras de novas construções se estendem até onde a vista alcança. merde. “Toujours pressés. A van Renault do holandês era única em Ballarat. com chão de terra nua atrás. diz Elizabeth Costello. rolando de rir. oferecerão chá e bolo e os despacharão de volta para casa carregados de presentes? “Uma verdadeira expedição”. os Studebakers ultrapassavam. os Holdens. ils gaspillent de l’essence!”. eram apenas algumas casas pontilhadas em torno de um posto de gasolina.” “Se nós fizermos uma visita a Munno Para não será para me tirar de mim mesmo”. a caminho de Gawler. em termos gerais. l’auto la plus économique. Ele a havia comprado de segunda mão de um outro holandês. diz ele. outros carros formavam fila atrás e buzinavam. um mundo desaparecido ou desaparecendo. que tinha cheiro de bulbos de dália podres. “Não tem nada em mim de que eu precise escapar. Na época.

“Vou fazer chá. juncos. Querem chá?” “Eu adoraria uma xícara de chá. diz ele. uma argola de prata em uma narina. Então. (“Tão verdadeiro!”. diz ele. Um ventilador gira no teto. “Então. vazia. Elizabeth Costello se entusiasma. É só uma amiga. seixos cinzentos. Blanka. verde-limão e amarelo contra um campo branco. Se há uma coisa de que Paul sente falta no velho jeito de viver é aparecer na casa de amigos para tomar um chá.” “Um passeio no campo”. apático. Mas não. Elizabeth me conhece melhor do que eu mesmo. A suposta Blanka coloca a cabeça pela abertura da porta.” As persianas estão em ângulo contra o sol feroz. diz Elizabeth Costello. mas através das lâminas dá para ver dois altos eucaliptos no quintal e uma rede pendurada entre eles. sem preliminares. de alguma forma. sua protegida involuntária. Ele meio que esperava que ela pudesse ser uma beldade como a irmã. Está de jeans azul e top de algodão branco que não valoriza em nada sua cintura grossa. são inspecionados desconfiadamente por uma garota de rosto pálido. a ladra de lojas. Veio junto comigo porque o dia está bonito. Nós queríamos ver sua mãe. “Tão verdadeiro!”. “Como vai. “Tão autêntico! Você quer que eu te dê uma mão?”) O motorista passa-lhe as muletas. “Acho que a gente entra”. diz Elizabeth Costello afinal.” “Isso é bom”. Mal preciso abrir a boca. senhor traz sua secretária”. dirigidas a ele. de um lado. Marijana?” “Bem. nem nunca foi. um redemoinho de laranja. O táxi os deixa em frente à casa de estilo colonial com gramado verde em torno de um austero jardinzinho japonês retangular: uma pedra de mármore preto com água correndo por cima. sente. e Paul também. Elizabeth não é minha secretária. Eles esperam e esperam na entrada. “Não é assim que chamam hoje em dia? Nossos . diz Marijana. diz Elizabeth Costello de novo. Nada acontece. Costello. Nenhuma boneca em traje típico. Vêem-se em uma sala de estar com mobília de couro branco. pensamos em dar um passeio de carro. “Ela já vem”. diz Elizabeth. nenhum pôr-do-sol sobre o Adriático. O que pretendem dizer. descendo do carro.” Sem uma palavra a garota desaparece. “Estilo de vida”. “Quem haveria de pensar!” Ele pensa que essas observações sobre o verdadeiro são. A porta se abre um palmo. dominada. diz ela. a filha do meio. Esta é mrs. ele acha. acha que são feitas com ironia. ele não faz idéia. “O que senhor quer?” “Isto não pretende ser um confronto”. não é. ele paga a corrida. “Estamos com um pequeno problema nas mãos e achei que o melhor jeito de esclarecer seria ter uma conversa tranqüila. nada que faça pensar no velho país. por um grande aparelho de televisão e do outro por uma imensa pintura abstrata.para Marijana. “Olá”. entoa e se retira. Marijana não fez nenhum esforço de se embelezar.” “É. “Eu sou Paul Rayment.

Não vejo como eu possa me expressar com mais clareza.” Marijana volta com o chá. Não é isso que você estava querendo dizer. Chá. na realidade. Pode dizer para Drago que seria muito bom.. quando eu chegasse em casa. por que vocês vêm?”. “Tenho uma proposta a fazer. “Os jovens são sujeitos a tantas tentações hoje em dia. “Posso falar com Drago.amigos Jokić têm de manter seu estilo de vida.” “Tudo bem”. diz Marijana.. Na América se usa o termo larceny. que atraentes! “Não sei nada de chave”. pegou emprestado um ou dois exemplares que você gostaria que devolvessem?” Ele faz que sim com a cabeça. Marijana acende um cigarro. por exemplo. dos mais inocentes. A palavra ladrão. “Senhora também tem reclamação?”. Paul? Que Drago. pergunta. que orgulhosos os seios dela. Ele pode tirar coisas do apartamento e pode levar de volta. Na terça-feira de manhã. Quero estender uma asa protetora sobre você. só bate na porta igual polícia? O . tão inocente que se confunde com um mero empréstimo. Quero cuidar de você.” “Não sei por que você censura”. “Senhor deu chave para Drago?” “Drago tinha uma chave da porta de entrada enquanto estava morando comigo. estou cheia de admiração. diz ela. A atitude em relação a meu e seu. há um isqueiro de cromo em forma de concha de náutilo. rapidamente?” Ela sacode a cabeça. Por outro lado. Meu palpite é que o que Paul tem em mente é um furto. as pessoas têm o mesmo direito a um estilo de vida em Munno Para como têm em Melbourne. Sandálias azuis e unhas roxas: ele pode ser um ex-fotógrafo de retratos e Marijana pode ser uma ex- restauradora de quadros. furto. azuis. Às nove já terei saído e não volto antes das três. Eu esteja ou não em casa. Você tem uma chave e Drago tem outra chave. Ao contrário. cuidar dela. Usando a chave dele. diz ele. Drago tem a chave do meu apartamento. roubo.. eu vou sair e ficar fora de casa quase o dia inteiro. ou mais provavelmente um dos amigos de Drago. É muito provável que outras coisas entre eles também sejam diametralmente opostas. tão pesada. ele e sua asa protetora? Por outro lado. tão definitiva. “Não telefona. “Senhora também acha meu filho ladrão?” Elizabeth encolhe os ombros teatralmente. “Sem dúvida. Grand larceny. “Não está em casa... Marijana está usando sandálias de plástico. diz ela para Elizabeth. e todas as gradações entre um e outro. Como seria.” Faz-se um longo silêncio. “Eu não saberia o que pensar. Por que teriam deixado a Croácia senão para ter o estilo de vida que escolheram?” “Não estou censurando.” Em cima da mesa. Tão grande. das duas filhas hostis e do filho traiçoeiro? Quanto tempo ele resistiria. mas as estéticas dos dois são diametralmente opostas. com toda a certeza”. petty larceny. “Então. mas sem bolo. diz Marijana. “Para isso que vieram?”. apropriação indébita. A mulher que ele sonhara tirar do marido. Enquanto estava usando meu apartamento. encontrar tudo como antes.. diz ele.

“Original?”. Mas não ofereci uma nova vida. o Wellington College. ele pode passar a noite em minha casa se quiser. Oferece Drago escola nova.” “Eu falo bobagem? Você faz fotografia. uma cópia que foi retocada.” . faz fotografia.” Marijana acena para o telefone. Isso não existe.” “Se não é dinheiro. Não vão aceitar isso nessa nova escola dele. dez vezes original. senhor diz para Drago ele tem de achar original. um novo original. faz cópia. uma cada um.” “Então por que senhor diz Drago rouba?” “Não acredito que eu tenha jamais usado a palavra roubar e se usei retiro o que disse incondicionalmente. Perdi uma foto original que tem valor para mim e quero de volta.” “Isso é só meia verdade. Marijana. escola chique em Canberra. nenhuma cópia? Que que é bobagem agora? Senhor vem aqui. Drago pode ir me visitar. E pago outras coisas também. A polícia não vem de táxi. Rayment ofereceu dinheiro para nós. Dinheiro não é o problema. Foi colocada uma cópia no lugar do original. e essas fotos todas original. Uma de Fauchery. Eu me ofereci para cuidar de você. ou mais provavelmente o amigo de Drago. “Que é isso. Drago.” “Isso é bobagem. “Mr. Não é igual pintura.que ele pega? O que senhor diz que ele pega?” “Uma fotografia. uma coisa verdadeira. Shaun. levou emprestada. Não sou assim tão burro. não é bom para um rapaz em crescimento. Estão sendo dispensados? Ele nem terminou de tomar o chá. esse homem. Discussão inútil. Para quê? Para senhor morrer e deixar original para biblioteca? Para senhor ficar famoso? Famoso mr. uma nova vida. Marijana. Agora eu gostaria que devolvessem o original. você entende dessas coisas melhor do que eu. Fauchery. por que senhor tão zangado? Por que vem bater na porta? Domingo e senhor vem bater na porta igual polícia. Bang bang. os amigos dele podem me visitar. cinco vezes original. diz ela. depois faz cópias. Me ofereci para cuidar das crianças também. Isso é ridículo. fotografia original? Aponta câmera.” “Eu me ofereci para pagar o Wellington. fez uma cópia que retocou. Nós não tem dinheiro para Wellington. click. Ele oferece nós todos vida nova. minha oferta continua de pé. uma duas três quatro cinco. E nós não somos polícia. cem vezes original. Nem uma pintura. adquirir o hábito de pegar emprestado e não devolver. Assim que câmera funciona. Oferece pagamento. Mas isso não faz nenhuma das duas ser cópia. Câmera igual fotocopiadora. Então que é original? Original já é cópia. Agora ele fala nós rouba dele. Uma fotografia não é a coisa em si. da minha coleção. nova no mundo. não pretendo saber como. Não é bom. Nós só temos uma vida. Depois do que não haverá mais nenhuma questão e ficará tudo como antes. Sabia disso? Ele oferece para me tirar da enfermagem. não sei dizer com que finalidade.” “Wellington acabou. Cada uma se torna uma coisa nova. Nada mudou. como senhor diz. retirou uma fotografia da minha coleção. Rayment?” Ela se volta para Elizabeth Costello.

“Queremos”. “Quer ver que tipo de ladrão é Drago. Nós devíamos ter telefonado. “Ninguém está zangado. ele segue atrás. diz Marijana. “Quer que eu chame táxi?” Ele e Costello trocam olhares. despertando. As mulheres. É uma boa prática. “Devíamos ter telefonado. principalmente. Talvez no fundo do coração ela secretamente queira que ele vença. eu mostro. diz a placa brilhante na porta. “Está endereçada a Mel. De fato. diz Elizabeth. “Eu fico aqui e recupero o fôlego antes de começar o próximo ato. “Vem!”.” Marijana levanta-se.” “O Paul aqui não tem mais nada a dizer”. como se costumava fazer antigamente. abstraída. Isso era sem dúvida verdade com sua mulher. honrosamente a ponto de merecer uma revanche ou perdeu abjetamente? “Senhor quer táxi?”. “Vá em frente”. Vou deixar aqui. Elizabeth Costello está recostada. mas ele estava sempre perdendo. Erro nosso. Ele nunca foi bom em discussões.” Coloca a carta em cima da mesinha de centro. agarrado ao corrimão. Pensei também” — dá uma olhada para Elizabeth Costello —. “Único que vem bater na porta é polícia”. diz Marijana. diz Elizabeth Costello. “A menos que o Paul aqui tenha mais alguma coisa a dizer. Talvez se tivesse vencido uma discussão uma vez ou outra. Desculpe. mas ele perdeu honrosamente. Talvez Marijana queira que ele tente mais. de olhos fechados. diz ela. Ele dá uma olhada para Elizabeth Costello. talvez tenha sido por isso que seu casamento terminou: não que tivesse havido muitas discussões. .” “Concordo”. PARTICULAR. ele e Henriette pudessem ter ficado juntos. se senhor diz que vem tomar chá. diz ele. agora que pensa nisso. Marijana. Sei. “Se telefona primeiro. Seria uma pena que morresse. Ljuba não está por perto para lhe dar um dos seus olhares. Um passo por vez. “nós pensamos também que seria gostoso aparecer para tomar um chá e conversar. o enrolavam em argumentos. “O quarto de Drago”. diz Elizabeth Costello. Embora ela veja o esforço que está lhe custando. então eu não assusto igual polícia. diz Marijana e abre a porta.” Ele tenta se levantar do sofá. Que chatice estar amarrada a um homem que não consegue nem enfrentar uma briga! E a mesma coisa com Marijana.” Mas Elizabeth Costello não ajuda em nada. “Paul veio esperando conseguir de volta o que é seu. faz um gesto imperioso.” Silêncio.” Ele batalha para se levantar. ISSO VALE PARA VOCÊ. Eu tenho uma carta para entregar e achei que seria mais rápido entregar pessoalmente. mas a partir deste momento Paul desiste. Ele pode ler quando tiver tempo. sociável. Marijana já está na metade da escada. Isso que nós devíamos ter feito. Graças a Deus. não faz um gesto para ajudar. Se ele conseguir inverter a balança de volta talvez ainda possa se ligar a ela.” “Assustar. É essa a conclusão da peleja? Ele está simplesmente perdido. amigável.

” Ela faz uma pausa. Marijana Jokić.” De repente. Ele se aproxima e examina a segunda fotografia. O encaixe não é perfeito: a posição da cabeça não combina exatamente com o jeito dos ombros. ela sorri. Não é segredo o que Drago faz. como se entendesse de repente que se ele não entende de computadores. nem o conceito de original. pouco me interessa. mas aqui você não fazer bagunça.k. diz Marijana. As que foram tocadas pela mão de Fauchery. Não poderia ser mais despojado e organizado. quem é dono? Senhor quer falar. não precisa. Essas fotografias” — ela acena para as três fotos na parede — “tudo no website. não”. É só um menino.” “Originais. Qualquer um pode ver. Só — como diz? — cartaz. “Quem sabe. eu aponto câmera para senhor” — ela finca um dedo no peito dele —. Ele é jovem. diz Marijana. e não sem gentileza. Senhor quer ver website?” Ela aponta o computador. diz ele. Imagens. Uma presença e tanto para ter em mente no futuro. “Muito arrumado. A terceira. Rayment deixa você fazer bagunça para você gostar dele. Fico surpreso. que tem de ladrão nisso? Coisa moderna isso. Montado no corpo da menina pequena com as mãos sujas de lama está o rosto de Ljuba.” Marijana dá de ombros. “Só brincadeira”. Quem quer viver num submarino tem de ser organizado. “Elizabeth”. “ela vem morar com senhor agora?” . uma opinião que ele não externa. Quando Drago voltar eu falo com ele sobre originais. quando quer. Drago pode fazer todas as cópias que quiser. sua casa aqui. Imagens. colorida. minha imagem. quer viver no submarino. mas porque é um tolo. “Então”.” “Só imagens. diz ele. As fotos originais.” A opinião dele sobre Drago. você quer ir para Marinha. “Muito bom”. Eu falo para ele também. Duas são Fauchery: o grupo de mineiros e as mulheres e crianças na porta da cabana de sapé. “Eu falo para ele. “O. “eu sou ladrão. diz.” “Formas.” “Verdade. workstation de computador. não é por má vontade. nem nada mais. Com as mãos nos quadris espera que ele fale. O quarto é mobiliado funcionalmente em pinho claro: cama. mr. que zune suavemente. “Não coisa séria. “Não entendo de computador. roubo sua imagem? Não: imagem é grátis — sua imagem. mostra oito ágeis corpos masculinos em pleno ar mergulhando numa piscina. Brinca com imagens no computador. estante de livros. Pregadas na parede acima da cama de Drago há três fotografias ampliadas para o tamanho de pôster. Bem intimidante. Drago nunca foi tão ordeiro enquanto ficou comigo. escrivaninha. você aprende a ser arrumado. “Por favor. os olhos escuros fixados nele. É isso que Drago quer fazer: viver em um submarino?” Marijana dá de ombros de novo. é que ele mantém o quarto em ordem provavelmente porque a mãe está sempre buzinando no ouvido dele. Só quero de volta os originais.

que não é verdadeiro. Será tarde demais para aprender? Será que consegue encontrar um professor ali em Adelaide? Lição um: verbo amar.” “Paul. De vocês todos. não é realista. “Elizabeth vem viver com senhor. Você pega.k. talvez para surpresa dela também. Está com a garganta seca. padrinho. não estamos planejando nada disso. Então talvez senhor fica negativo no seu apartamento também. mas não quer dizer melancólico. Porque onde ele mora. Alguma coisa vem. Não é boa idéia. dorme onde? Senhor dorme na cama de Drago. ele sugere. gloom. ninguém. dois homens. Se ele ao menos falasse croata! Em croata. É a primeira sugestão que ela dá de que o inglês improvisado que emprega não lhe é suficiente.” Mais uma vez. “chega de conversa. Então senhor não está sozinho quando acontece. ela faz uma pausa. mr. ljub.” “O.” Ela ainda está sorrindo. só bebê e eu — Ljuba era bebê —. esse padrinho? Senhor quer padrinho vem viver em Narrapinga Close? Não realista — entende?” “Nunca pedi para viver com vocês.” “Melancolia. Mas fica muito sozinho no apartamento — sabe o que quero dizer? Eu fico sozinha também em Coober Pedy. Palavra engraçada. ela se põe na .” “Acaba melancolia. “Mas boa idéia talvez. emergência. negativa. Rayment.” “É. “Quer isso?” Ele não consegue rir. ou seja lá o que for. eu não sei como diz.”. alerta. Elizabeth vem viver com senhor. “Podia morar no quintal”. Paul. “Se apega a ninharias”. você pega. sabe. Esquece padrinho também. Na Croácia a gente diz ovaj glumi. uma mulher?” Ela agora está borbulhando de riso.. hã?” “Não. pessoa fica. onde Drago dorme? Ou senhor quer dormir com Mel e eu. meninos na escola.. acaba melancólico. Podia viver numa cabana no quintal e cuidar de vocês. diz ela. antes de mudar para Adelaide. Mas senhor não está fingindo. não.” “Muito melancólico?” Ela sacode a cabeça. sabe. “Não. “Senhor bom homem. “Enfim”. Sem filhos. Muito. sussurra.” Com uma mão ela mostra a ele como se agarra.” E para surpresa dele. então eu sei.” “Senhor vem viver aqui. eu sei disso. quer dizer que está fingindo. eu sei. “Não. Sentada em casa dia inteiro.” “Senhor bom homem. talvez fosse capaz de cantar do coração. e nessa pausa ele sente que seu objetivo ao levá-lo para o andar de cima podia não ser apenas mostrar as fotos de Drago. diz ela. ela arruma tudo. então senhor esquece Marijana. “Mandava construir uma cabana.

“São loucos. um em cada face. (N. T.) d Em francês. “Sempre apressados. só isso!”. (N. (N. T. T. apressados!”. dois beijos. meninos. “Vamos lá. “na casa dela”. “Renault. sejam bonzinhos”. (N. T. (N.) e Em francês.) b Em francês.) c Em francês. “Vem. o carro mais econômico”.ponta dos pés e lhe dá um beijo. Desperdiçam gasolina.” a Em francês.) . T. a gente desce agora.

Marijana atravessa o piso. ele parece estar de bom humor.” “Meu marido tratador de abelhas”. solta a máscara. diz Marijana. “Mas é bom mel. “Elizabeth. “O pai dele. o riso e a liberdade dos dedos de Marijana no cabelo dele. dos eucaliptos principalmente. e antes dele o avô. Uma relação íntima com uma briga de vez em quando. diz Marijana. Mel. De pé acima dela está uma estranha figura: um homem de macacão branco largo.* ela exclama. Você cuida de abelhas?” “É só tipo um hobby”. agarra-a pelos quadris. diz Mel ou Miroslav. “Seu cabelo está preso! Toda vez que ele veste” — ela aponta com um gesto o estranho chapéu — “o cabelo fica preso. ao estilo balcânico. vira-o e começa a soltar a máscara de seu cabelo comprido. Tem um gostinho de eucalipto. “São as abelhas”.. para acrescentar um certo tempero: . mas nunca nos encontramos em pessoa. Elizabeth Costello não está sozinha.” A soltura entre os dois revela tudo — isso. Miroslav estica as mãos para trás. mas suas palavras são irrecuperavelmente abafadas pela máscara. íntimo. Rapidamente. Um casal nada estremecido. Agarra o homem pelos ombros — é Miroslav —. sabe. “Conhece meu marido? Essa mrs. “Estava mudando as colméias. Então ele trata abelhas também. ele explica. 30. rindo. Ao contrário.” “Como vai. Ela ginga para escapar. “Meu marido. a família dele sempre trata abelhas”.” Ela faz movimentos de girar com os dedos. Ele a levanta: seu rosto está vermelho de calor. a cabeça escondida debaixo do que parece um balde de lona.. O homem parece estar falando. diz Elizabeth Costello. Mel?”. Costello. zar opet!”. por assim dizer. ela é amiga de mr. aí eu tenho de. aqui na Austrália. diz Mel.” “Só umas colméias”. Ouvi falar de você. Rayment. “Zaboga.

E como isso é esperado dele e como é a coisa certa a fazer. uma trama que nem chega a entender? “Muito quente este macacão”. A menos que toda a história da briga e da fuga para a tia Lidie tenha sido uma mentira. ao lado. gira a corrente com as mãos. “Magnífica”. . diz Marijana. Rayment por tudo.” Todos os olhos estão sobre ele. Até Blanka. Mas podem dar olhada. “Talvez senhor pode explicar. um rubor de vergonha. “Não acha. Seguidos de remorsos e lágrimas. Nenhuma beleza. mr.” “Bom. nossa!”. Rayment. “Um presente magnífico. dá um passo para a frente com as muletas e inspeciona o prêmio mais de perto. que não o aprovou desde o início.” Saem da casa em grupo. diz Elizabeth. diz. “Só soldagem fui eu. recriminações.acusações. “Drago parou de trabalhar nela um pouco. alastrando-se para a frente. “Que estranha invenção! Como funciona?” Miroslav roda a máquina para fora da garagem. Soldagem é. tipo. depois. a começar nas orelhas. pode adivinhar quanto Miroslav ganha. sobre o rosto. Na oficina. Ele levanta a porta da garagem. “Paul está querendo muito isso. Ljuba apareceu do nada. seguidos de ardente amor físico. mas algumas mulheres se desenvolvem tarde. Liberdade de sair por aí. uma invenção. “Agradece mr. diz Elizabeth. diz Miroslav. diz Elizabeth. Tem umas coisas que ainda precisa fazer.” “É o que chamam de bicicleta reclinada”. “Não. Que bicicleta?” “Adoraríamos ver a bicicleta”. “Sozinho?” “É”. Encontro vocês lá fora. Não tem vontade nenhuma de que pare. “Neste modelo. com um sorriso. exclama Elizabeth. o que Miroslav chama de bicicleta.” “Adoraríamos”. diz Mel.” Ele faz uma pausa. mas não o faz. “Nossa. Filha do pai. Paul? Vai ser a sua liberdade. Ele sabe o quanto paga a Marijana.” “E Drago que construiu?”. portas batidas. Muito mais do que mereço.” Pródigo também. trabalhando num presente? O que seria? Uma carteira bordada? Uma gravata estampada à mão? Ele pode sentir um rubor se espalhando pelo corpo. Mas para quê? Será que ele pode ser objeto de uma extensa trama.” “Então vão. ele pergunta. Movimentos ágeis.” “Drago quer agradecer”. juntou-se ao grupo. especializado. pratos quebrados. Miroslav vai encontrá-los. poderia acrescentar. repete. a pessoa não pedala. já que vieram aqui tão longe. diz ele. “Vou trocar. sandália e uma camiseta que diz: Equipe Valvoline. Ele não vai ligar. “Vieram ver bicicleta?” “A bicicleta?”. usando bermuda. pergunta Elizabeth. É o que ele merece. “Onde está?” “Não está pronta”. Corpo esguio. Lá está o conhecido Commodore vermelho e. Será que Blanka vai ter a sua vez para agradecer a ele também? Será que está ocupada feito uma abelha. volta-se para ele. diz Mel. que presente esplêndido”. “É magnífica”.

Por um momento.” Nenhum carro em Narrapinga Close.” Os observadores se afastam. “Marijana ajudou com assento”. não tem breque. Ele nunca andou em uma antes. Dias. Devem ter passado semanas naquilo. Então. Voejando acima da cabeça do ciclista. Na rua. “Magnífica”. “Sem cabo”. o. tira o casaco. Miroslav dá um pequeno empurrão. agarra os cabos da manivela. com um conjunto de engrenagens e uma corrente. “Com pé esquerdo. O assento é esquisito. a valente bandeirinha tem por fim alertar os Wayne Blight do mundo. Miroslav o empurra para a entrada pavimentada. Drago ainda não pôs. Vai ficar no quarto de depósito de Coniston Terrace e ali se encherá de pó. mas não vou largar porque. experimenta dar uma girada. Mas já que está aqui. e nós moldamos em fibra de vidro.? Eu empurro. ele pela família. Claro que nunca vai colocá-la em uso. Ele se inclina para a frente. “Sabe — para sua perna. Vou dar empurrada para senhor sentir um pouco. “Não dá para comprar uma dessas em loja de bicicleta. vermelho-vivo. Como os transeuntes vão sorrir! Sorrir e rir e . a bicicleta — na verdade um triciclo — tem menos de um metro de altura. “Sem cabo de marcha. permite-se imaginar que está rodando pela rua Magill.” Não horas apenas. isso é que mais parece: um carrinho de bebê com um bebê grisalho dentro dele. Posso dar uma volta?” Miroslav sacode a cabeça. abaixo da linha de visão de um motorista de automóvel. o ciclista ficará praticamente invisível. O rubor não desapareceu do rosto e ele não quer que desapareça. Ela desenhou. vai pegar jeito. esperando que a máquina se dirija sozinha. filho. então a gente pensou fazer esta especial.” Ele deixa as muletas. “Estou ficando sem palavras. a família por ele? A brisa sopra em seu rosto. a mãe também. Não se preocupa. Está vendo. enquanto estavam construindo aquilo? A lição prática é apenas parte de um ritual que estão celebrando. lembra. assim como não gosta de tudo o que é falsificado. dando uma volta. diz ele. a gente acerta o assento. permite que Miroslav o ajude a montar. Um carrinho de bebê. semanas. ele pergunta.k. sem cabo de breque. as rodas menores de trás simplesmente rodam. Tem uma barra aí — viu? — com mola. Drago montou uma vareta de fibra de vidro com uma flâmula laranja na ponta. A roda da frente é do tamanho-padrão de roda de bicicleta. Pintada a spray. atrás do assento. assim como não gosta de próteses. a flâmula tremulando brilhante acima da cabeça para lembrar ao mundo de ter pena dele. mas instintivamente não gosta de reclinadas. pai. assim senhor pode ajustar para a frente e para trás. diz Miroslav. Todo o tempo e trabalho que os Jokić colocaram naquilo terá sido em vão. “Como dirige?”. montamos o assento num trilho. diz de novo. Uma reclinada. Será que sabem disso? Será que sabiam o tempo todo. de encomenda.

melhor que Elizabeth Costello. Agora. e para Miroslav: “Pode me dar uma mão?”. Só mais umas coisas para arrumar. Agradeçam principalmente ao ausente Drago. então. Ljuba deva saber. “Expresso PR”. obrigado.” Ele se volta para Elizabeth. um dos tipos estranhos que emprestam colorido ao tecido social. por razões que nunca ficaram inteiramente claras para ele. “Quer dizer que eu vou muito depressa”. embora Miroslav deva saber. Marijana segura o queixo. meu cavaleiro”. vovô! Mas talvez. Marijana?”. “O que quer dizer Expresso PR?” E. de fato. Miroslav o ajuda a se levantar. “Bravo. o homem-foguete. então”. é isso que está pintado no tubo do triciclo.” Com a mão esquerda. eu vou dar uma experimentada. de reflexão madura. ele gostaria de dizer. ronda as ruas com seu triciclo feito em casa. Elizabeth aplaude. Muito obrigado. com letras que sugerem artisticamente o vento soprando. “Combina com senhor. Uma das paisagens locais. os outros acompanham. ela falou. toda a minha sincera gratidão. diz ele (ia dizer Bom. O que Marijana acha? Será que ele deve continuar batalhando por dignidade ou já é hora de capitular? “É”. “Vamos colocar no trailer e levar no próximo fim de semana talvez. em termos amplos. mas se contém porque não quer ferir Miroslav. seja exatamente isso que os Jokić querem lhe ensinar: que devia desistir de seus ares solenes e se transformar no que é de fato. cabos e essas coisas. A mulher cujo toque de lábios ele sentiu na face. a mulher que. a cada um de vocês. “Não se preocupe”. “E agora nós temos de ir embora. “O que você acha. meu amor. não temos?”. “bom. “Que eu julguei mal e ofendi”. Miroslav não saiu do lado dele. Com toda a sinceridade. então. diz ele. responde Miroslav. diz ele. PR EXPRESS. pergunta. Marijana o conhece melhor que o marido. “Meu cavaleiro da triste figura. Miroslav vira a máquina em uma grande curva que permite que voltem para a entrada. está escrito na cara dele).” Que eu julguei mal e ofendi. “Acha que eu devia sair por aí de novo?” Porque Marijana até agora não pronunciou nem uma palavra. diz Ljuba.” . É a clássica pose de pensar. detém o coração dele. Acho que devia experimentar. embora de vez em quando tenha um lampejo de esclarecimento. Ela percebeu desde o começo como ele tem batalhado para preservar sua dignidade masculina e nunca caçoou dele por isso. Blanka certamente sabe. quando não está pulando por aí com suas muletas. hein. com a direita apóia o cotovelo esquerdo. uma figura engraçada. “Bom. Ela deu a devida importância à pergunta dele e respondeu. um velho senhor de uma perna só que. diz Marijana devagar.” Ele a ignora.assobiar: Que bom. diz ela. diz ele. “PR. Até o dia em que Wayne Blight disparar sua máquina e partir para cima dele outra vez.

“Uma derrota. o primeiro que lhe dá. Pode perguntar para ele então. não sou a pessoa certa para você perguntar. “Homem-Foguete”. O homem que não consegue aceitar brincadeiras..” “Por favor”. nada menos. ela continua.” “Marijana diz que a história toda da falsificação é só uma brincadeira. de fato.. Aquela fúria toda! Toda aquela indignação!” Fúria? Do que ela está falando? “Imagine”. na privacidade de sua casa. Quem mais? O homem que não ri. abraça as coxas da mãe e esconde o rosto. ter uma relação com o inconsciente. Só isso. em sua forma original e talvez na forma nova. a caminho de casa. Quanto a por que Drago resolveu publicar as fotos assim. meninos. Estão num táxi. uma derrota moral. Olhem aquele sujeito com os bigodes ferozes! E daí?” “Daí vai passar a fazer parte do nosso folclore que os bigodes de brigão estavam na moda na Victoria dos anos 1850. você não se saiu bem.” “Dirigida contra. Mas também: às vezes. O que mais podia ser?” “Brincadeiras têm relação com o inconsciente. “Um fiasco”. nada mais. . não. O que dá a Drago o direito de pegar minhas fotografias eu ainda não entendo. Drago não podia ser mais indiferente ao dinheiro. diz Ljuba. uma brincadeira é só uma brincadeira.” “Brincadeiras podem.” “Dirigida contra você.” “Não é nem uma falsificação. indo para o sul.” “Mas e se eu nunca tivesse descoberto? Se eu fosse para o túmulo em completa ignorância dessa pretensa brincadeira? Se a brincadeira passasse despercebida à Biblioteca Estadual também? Se continuasse despercebida até o fim dos tempos? Dêem uma olhada nestas fotos. “Você não é Homem-Foguete. “por favor. Não é realmente um assunto para continuar discutindo. estar no website?” “Quer dizer que qualquer pessoa no mundo que tiver curiosidade pela vida e época de Drago Jokić pode inspecionar as fotos em questão. Claro que é só uma brincadeira. mais uma discussão. você é Homem Lento!” E cai na risada. O que quer dizer isso. “você estava a ponto de perder um afilhado e por quê? Eu mal podia acreditar no que ouvia. A um menininho francês que não tinha nem nascido ainda. mas vamos deixar passar. Ela dá um sorriso a ele. Uma falsificação é feita para ganhar dinheiro. não agüento mais.” “É. diz ele. Por uma velha fotografia! Uma fotografia de um bando de estranhos que não podiam ser mais indiferentes a você. Marijana me disse que as fotos estão agora no website de Drago. Os mineradores de Ballarat. revisada e aumentada. Ele virá no sábado que vem entregar seu veículo. Nunca senti tanta vergonha. Eu sou tão ignorante. ele diz para Elizabeth.

Embora minhas panturrilhas não estejam. algumas não tão bonitas. com desculpas. Aposto dez contra um que está lá.” “E daí?” “Daí o quê? Depois de domingo? Não tenho certeza de que vá haver mais alguma coisa depois de domingo. Por que pergunta? Está preocupado de ser você a fazer o papel de enfermeiro? Não tenha medo — eu nunca pediria isso a você. Da esplêndida linha do busto. prevejo apenas enfermeiras. ai. Das panturrilhas macias. enquanto está nessa veia profética?” “Quer dizer.Paul. nada mais que lembranças restarão para você. Blanka. do outro lado das grandes ondas. De mrs. inclusive mrs. No mais. Drago. Domingo pode muito bem marcar o seu último contato com os Jokić. Ou então Drago vai encontrar no meio das coisas dele e devolver no domingo que vem. Se vier para Melbourne.” “Sua preciosa fotografia não desapareceu. que desaparecerão com o passar do tempo.” “E quanto ao estado do seu coração?” “Meu coração? Tem altos e baixos. Esse é o único resultado que conta da chamada falsificação. o fiel e velho pangaré. Memórias queridas. Olhe no seu armário outra vez. onde trocou palavras em particular com sua amada Marijana e pôde ver o marido dela com sua roupa de tratador de abelhas e a bicicleta que o filho dela está construindo para você. nenhuma das quais vai chegar perto de tocar seu coração como Marijana Jokić tocou. vai haver alguém para substituir Marijana ou Marijana é o fim da linha para você? Isso depende. ai. algumas bonitas. Dos encantadores erros de linguagem. O que conta é que você saiu do seu apartamento e visitou Munno Para. Ljuba. vai haver eu. que vale mais que dinheiro. Costello. o episódio é da mais absoluta insignificância. Jokić. tocadas de remorso. O tempo. por outro lado.” “Está esquecendo da foto desaparecida. Por que fala dos meus . você pagará. continuarão vindo as contas trimestrais do Wellington College. como homem honrado. Ouso dizer que não vai durar muito mais. como tendem a fazer as memórias. desapareceu. E os cartões de Natal: Desejamos um Feliz Natal e um próspero Ano-Novo — Marijana. Seja qual for a opinião que tem de fotografias e da relação delas com a realidade. Mel. Paul. uma galeria de enfermeiras.” “Então não será hora de telefonar para seus filhos? Não é hora de seus filhos fazerem alguma coisa por você?” “Meus filhos estão longe. Que. Ele martela e ofega como um carro velho quando subo escadas. um genuíno tesouro nacional. não tenho dúvidas. o fato é que uma das minhas Fauchery.” “Entendo. Se você continuar em Adelaide. à altura do seu gosto exigente. mrs.” “E daí?” “Daí encerra-se o assunto. fora de lugar. o grande curador. Porém. Jokić. E o que mais você gostaria de revelar do meu futuro. creio.

Se bem que o tipo de cuidado que eu procuro. Provavelmente um trio de rapazes sem nenhuma relação. Nunca ouviram falar de você. pode se limitar ao caminho da beira do rio. que o de capacete vermelho era Drago. ia querer um veículo meu mesmo. ser padrasto deles? Isso seria uma infinita surpresa para eles. eu vou para um asilo. indo na direção oposta. em resposta à sua pergunta. vou escolher as mãos amorosas sempre.filhos? Quer adotar os dois também. Não. não é?”. “Fim de um longo dia. “sua nova bicicleta. em rápida sucessão. “O de capacete vermelho — não era Drago?” Ela suspira. você acha?” “Espaço para uma criança no banco de trás.” “Então esse seria o seu conselho: me contentar com a enfermagem. em frente ao apartamento dele.” Esse é o momento em que devia convidá-la para entrar. perfeito demais. Eu discordo. Isso existe. boa enfermagem. isso é realmente difícil de encontrar hoje em dia. “Ah. ela repete. Nem mãos amorosas. Se eu resolvesse passear.” “Bom. “Ah. isso é o que eu diria. Mas não. Mas eles que finjam. juventude!” O taxista os deixa em Coniston Terrace. eu nunca sonharia em me impor aos meus filhos. não tem. embora com sangue correndo igualmente quente nas veias. diz Elizabeth Costello. Se todo o resto falhar. não existe em nenhum asilo que eu conheça. Mas ele não diz nem uma palavra. eu não tenho mãos amorosas. zelosa. Vai melhorar seu humor. Tão atencioso de Drago. a juventude! Ah. a imortalidade!” Provavelmente não era Drago.” “É. não quero ser um peso para você. Paul. Como vamos trazer o seu coração para fora do esconderijo? — essa é a questão. “Então”. Será que ainda vendem aqueles motorzinhos que se prendiam na bicicleta e que faziam put-put para ajudar nas subidas? . Coincidência demais. ai. Drago”. Se ainda estiver preocupado com Wayne Blight. diz ela. Elizabeth. “Olhe!” Três figuras de motocicleta passam. sim.” “É. nem coração amoroso.” Ela agarra o braço dele. Pense em Marijana. cuidados amorosos. Se tiver de escolher entre boa enfermagem e um par de mãos amorosas. Tem espaço para passageiro. Vai ficar com os braços fortes bem depressa. para Munno Para. sabe. mesmo assim. Mas não para outro adulto. de preferência com motor. “Ah.” “E que tipo de cuidado seria?” “Cuidados amorosos. Agora você está livre para rodar por onde quiser. Um coração oculto. Dá para ser uma boa enfermeira sem amar os próprios pacientes. oferecer uma refeição e um lugar para dormir.” “Brincadeira. Vai ser um bom exercício. Você talvez tenha de se contentar com mera enfermagem boa. ai.” “Não. “É o presente certo. Um rapaz atencioso.

cada veia.” “Mas o que eu vou fazer sem você?” Ela parece estar sorrindo. leste e oeste.” “Sei do que está falando.) ** O martelo das feiticeiras.” E ele se inclina para a frente e a beija três vezes à maneira formal que aprendeu em criança. tenho certeza de que encontraria uma. Existe mais gente no mundo. “Não”. Elizabeth. “isto não é amor. pelo que sei. norte e sul. Ele coloca os óculos de novo. Quanto a mim. Podíamos viajar pelo país inteiro. Talvez seja isso que eu deva arrumar para mim. com um desenho. Isto é alguma outra coisa. Excelente! Você realmente está ficando muito esperto. dois cavalos. cada fio de cabelo.”** “Malleus maleficarum. ou quase nada. Lembra daquelas cadeiras motorizadas. Deux cheveaux. Podemos pedir para Miroslav fixar uns chevaux nela. Malleus maleficarum para mim e Para frente e para o alto para você. Adelaide é o lugar certo para uma cadeira antiga dessas. esquerda direita esquerda. T. “Meu Deus. Escreveriam artigos sobre nós nos jornais. Mas Marijana ficou no passado agora. você acha? Nenhuma esperança de fazer você mudar?” “Eu temo que não. e lhe restou Elizabeth Costello. Nós nos transformaríamos em uma amada instituição australiana. Você já tem a sua bela flâmula cor de laranja e arrumo outra para mim. Alguma coisa menos. vira-se. Deux cheveaux é outra coisa. Na luz clara do fim da tarde.) . Quem haveria de pensar que você sabia uma coisa dessas. eu me lembro. T. Aí vamos estar prontos para partir para nossas aventuras. “Isso é você quem sabe.” “E essa é sua última palavra. Você podia me ensinar obstinação e eu ensinava você a viver com nada. nós dois. mas seus lábios estão tremendo. Que idéia! Que idéia brilhante! Isso é amor. (N. depois examina o próprio coração. Paul? Nós encontramos o amor afinal?” Meia hora atrás ele estava com Marijana. Ele a examina. (N. quanto a agora: adeus. Mas não se chama deux cheveaux.” “Ou uma cadeira de rodas motorizada. volumoso tratado escrito em 1486 pelos dominicanos James Sprenger e Heinrich Kramer. pode ver cada detalhe. * Em croata. usado durante trezentos anos como fonte de provas e manual de torturas nos processos movidos pela Inquisição contra mulheres acusadas de bruxaria.Tinham disso na França. do tipo que tinha um toldo franjado e uma barra de direção? Podemos vasculhar as lojas de antigüidades. dá uma boa olhada nela. por toda esta vasta terra marrom.” “Que tal uma manopla? Uma manopla em preto sobre fundo branco e embaixo a divisa Malleus maleficarum. Paul. outra vez?”. diz afinal. você e eu.

John Williams e Sharon Zwi. . Nota do autor Pelos generosos conselhos e apoio. Catherine Lauga du Plessis. Peter Rose. Peter Goldsworthy. meus agradecimentos a Arijana Bozović.

A vida dos animais. entre eles o Nobel. e por Desonra.M. e atualmente vive na Austrália. África do Sul. BERT NIENHUIS J. caso único. em 2003. e. por Vida e época de Michael K. É um dos maiores escritores contemporâneos de língua inglesa e já recebeu diversos prêmios por sua obra. Além desses. dois Booker Prize. a Companhia das Letras também publicou O mestre de Petersburgo. em 1999. . Elizabeth Costello. Juventude e À espera dos bárbaros. COETZEE nasceu em 1940 na Cidade do Cabo. em 1983.

551 Fifth Avenue. Estados Unidos. Coetzee) ao redor do mundo. Preparação Cacilda Guerra Revisão Isabel Jorge Cury Cláudia Cantarin ISBN 978-85-438-0291-6 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ LTDA.M. M. Rua Bandeira Paulista. “Todos os direitos são reservados pelo proprietário (J.com. 702.Copyright © 2005 by J. Nova York 10176-10187. Coleção Nilza Micheletto e Rodrigo Naves. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 www. Coetzee Publicado mediante acordo com Peter Lampack Agency.companhiadasletras.br . Inc. Suite 1613.” Título original Slow Man Capa João Baptista da Costa Aguiar sobre Sem título (1996) óleo e cera sobre tela de Fábio Miguez. cj.

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