GABINETE DO SENADOR ABDIAS NASCIMENTO

Senador ABDIAS NASCIMENTO

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1998 PENSAMENTO DOS POVOS AFRICANOS E AFRODESCENDENTES

Deusa Ma'at

PENSAMENTO DOS POVOS AFRICANOS E AFRODESCENDENTES

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Brasília. 1 – 136. no 6. p. set/dez 1998 .Gabinete do Senador Abdias Nascimento Thoth no 6 setembro/dezembro 1998 Secretaria Especial de Editoração e Publicações Thoth.

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Thoth Informe de distribuição restrita do Senador Abdias Nascimento 6/1998 .

Coerente com a proposta parlamentar do senador. I. ressaltando-se que os temas emergentes dessa população interessam ao País como um todo. a revista não poderia deixar de divulgar informações e debates sobre temas de interesse à população afro-descendente. Brasil. 1998 Quadrimestral (setembro – outubro – novembro – dezembro) V. 25 cm ISSN: 1415-0182 1. permitindo a expressão das diversas correntes de pensamento.. a convergência de ideias. Thoth quer o debate. constituindo uma questão nacional de alta relevância. Endereço para correspondência: Revista Thoth Gabinete do Senador Abdias Nascimento Senado Federal – Anexo II – Gabinete 11 Brasília – DF – Brasil CEP 70165-900 Thoth/ informe de distribuição restrita do senador Abdias Nascimento / Abdias Nascimento nº 6 (1998) – Brasília: Gabinete do Senador Abdias Nascimento.45196081 . Abdias. Os textos assinados não representam necessariamente a opinião editorial da revista. Responsável: Abdias Nascimento Editores: Elisa Larkin Nascimento Carlos Alberto Medeiros Theresa Martha de Sá Teixeira Redatores: Celso Luiz Ramos de Medeiros Éle Semog Paulo Roberto dos Santos Oswaldo Barbosa Silva Computação: Honorato da Silva Soares Neto Sandra Moura Lago Teresa Emília Wall de Carvalho Viana Revisão: Gilson Cintra Carlos Alberto Medeiros Impresso na Secretaria Especial de Editoração e Publicações Diretor Executivo: Claudionor Moura Nunes Capa: Theresa Martha de Sá Teixeira sobre desenho do deus Thoth do livro de Champollion – Le Panthéon Égyptien Contracapa: deusa Ma’at do livro de E. Negros.A Wallis Budge – The Gods of the Egyptians. Nascimento.Thoth é prioritariamente um veículo de divulgação das atividades parlamentares do Senador Abdias Nascimento. CDD 301.

89 A luta afro-brasileira no Senado .. de 1997 – Garantia às comunidades rema- nescentes dos quilombos dos direitos assegurados às populações indígenas ....................... 69 Proposta de Emenda à Constituição no 38............ 55 Projeto de Lei no 234 de 1997 – Inscrição dos líderes da Conjuração Baiana de 1798 no Livro dos Heróis da Pátria ................................................................................................................................................... 13 ATUAÇÃO PARLAMENTAR Projetos de Lei Crime do racismo ........................... que trata do ensino religioso nas escolas públicas de ensino fundamental ........... 115 .......................... 77 SANKOFA: MEMÓRIA E RESGATE Dia Nacional da Consciência Negra.................... 21 Sanções contra o racismo ............................................................................ 41 Emenda ao Projeto de Lei da Câmara no 25.............................. 11 Thoth .............................................................................................................................. aniversário de Zumbi (Câmara dos Deputados) ........................................................................ étnicos e religiosos ............... de 1997............................... de 1997 – Institui o Prêmio Cruz e Sousa .... 51 Projeto de Resolução no 126.................................................................. 73 Pronunciamentos Discurso em Homenagem a Zumbi dos Palmares ............................................. 25 Ação compensatória ................ SUMÁRIO Apresentação ...................................................................................... 31 Ação civil pela dignidade dos grupos raciais...................................................

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Eles também tornaram possível produzir esta revista. secretário parlamentar. Celso Luiz Ramos de Medeiros. O gabinete do Senador Da esquerda para a direita: Elisa Larkin Nascimento. senador Abdias Nas- cimento. . Éle Semog. Carlos Alberto Medeiros. Paulo Roberto dos Santos. N. Esta foto é um registro e uma homenagem que a eles presta A. secretário parlamentar. Oswaldo Barbosa Silva. chefe de gabinete. assessor técnico. assessor téc- nico. co-editora de Thoth. assessor técnico. Esses foram os competentes e dedicados colaboradores do senador Abdias Nascimento durante o exercício do seu mandato. Theresa Martha de Sá Teixeira.

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“merece todo o nosso respeito e gratidão” por ter desempenhado “um papel histórico fundamental em nossa luta coletiva por liber- dade. Pelas páginas desta revista. enriquecer os currículos escolares com a história dos africanos na África e na diáspora. Coerente com essa história e com esses princípios. respeito e cidadania”. contudo. cuja história “se resume a uma peripécia de acidentes e pobreza de recursos”. estabelecer medidas compensatórias capazes de garantir a igualdade de oportunidades – esses foram os temas em que busquei concentrar minha atuação. tal como expressos na plataforma do movimento negro. os leitores puderam acompanhar minha trajetória nesta Casa Legislativa. não obstante. encerrando-se juntamente com meu mandato de Senador da República. procurei refletir os anseios e aspirações dos afro-brasileiros. que procurei transformar em mais uma trincheira de nossa luta. Pelo contrário. ampliar os recursos jurídicos das vítimas de ofensas raciais. um momento de lamentação ou melancolia. correspondente aos meses de janei- ro a abril de 1997. bem como nos quase sessenta discursos que proferi. Aperfeiçoar a legislação antidiscriminatória. Não é este. Thoth chega agora ao seu sexto e último número. APRESENTAÇÃO Na apresentação do primeiro número de Thoth. Nos sete pro- jetos de lei que apresentei. mas que. . na certeza de constituírem a espinha dorsal na solução da questão racial em nosso País. situei esta revista no quadro de referência de uma imprensa negra ao mesmo tempo “frágil e valente”.

Sei que tudo isso pode parecer um testamento.12 THOTH 6/ dezembro de 1998 Apresentação Mas Thoth não foi apenas um registro de minha atuação parlamentar. desse modo. de palestras e conferências em foros nacionais e internacionais. procuramos. na pregação do evangelho da libertação de nosso povo. sobretudo por provir de um ativista – um agitador. produto de nossos jovens militantes na arena intelectual. de minha pintura. É essa a missão que recebi dos orixás. dezembro de 1998 AN . oferecer um amplo panorama da luta negra no Brasil e na diáspora. por meio de meus textos. É o que continuarei fazendo. publicar uma variedade de textos de autores negros do passado. Essa não é. Creio termos conseguido. Em suas pági- nas. e que pretendo continuar cumprindo enquanto eles me derem força e lucidez. assim. abrindo espaço a uma gama de assuntos que abrangem desde a história das civilizações africanas até as manifestações mais atuais da rebeldia negra. Axé! Brasília. nem tampouco se deixado seduzir pelo canto da sereia de ideologias melífluas como a “democracia racial”. porém. Pudemos. Depois de todas essas décadas. já não sei viver sem lutar. como gosto de me definir – com tanto tempo de existência e de dedicação à causa. minha intenção. minha equipe e eu. dar ao menos uma ideia da riqueza de um pensamento africano que não tem se dobrado às imposições de seus poderosos adversários. tanto quanto ma- térias mais frescas.

. pela Ci- dadania e a Vida e por inúmeros acontecimentos de âm- bito nacional e internacional em todo o País. dedica-se prioritariamente à ques- tão racial. em março de 1997. sua cadeira no Sena- do Federal. marcado pela Marcha contra o Racismo. e o debate passa a foca- Thoth lizar as formas de ação para combater o racismo. com base numa verdade que o movimento negro vem afirmando há anos: a questão racial constitui- -se numa questão nacional de urgente prioridade para a construção da justiça social no Brasil. intelectual sem par que sempre se manteve soli- dário com a luta antirracista. O mandato do Senador Ab- dias. Nesse contexto é que o Senador Abdias Nasci- mento assume. na qualidade de suplente do saudoso Darcy Ribeiro. Setores da sociedade convencional reconhecem o caráter discriminatório desta sociedade. Após o tricentenário de Zumbi dos Palmares. como sua vida ao longo de uma trajetória ampla de luta e de realizações. verificamos que a questão racial no Brasil atinge um novo estágio. em 1995. portanto merece- dora da atenção redobrada do Congresso Nacional. ultra- passando o patamar que marcou a elaboração da Cons- tituição de 1988: a declaração de intenção do legislador dá lugar à discussão de medidas concretas no sentido de fazer valer tal intenção.

14 THOTH 6/ dezembro de 1998 Além de representar o veículo de comunicação do mandato do Senador Abdias Nascimento com sua comunidade e seu País. Autor dos cálculos que re- gem as relações entre o céu. Os avanços egípcios e as conquistas africanas no campo do conhecimento huma- no formam as bases da cultura greco-romana. inclusive o aprofundamento da reflexão sobre as dimensões histó- ricas e epistemológicas da nossa herança africana. matriz primordial da própria civilização ocidental da qual o Brasil sempre se declara filho e herdeiro. o nome constitui mais que a simples denominação: carrega dentro dele o poder de implementar as ideias que simboliza. O inventor e deus de todas as artes e ciências. no nome da revista. So- bretudo. ao deus Tho- th. as suas origens no Egito ficaram escamoteadas em função da própria distorção racista que nega aos povos africanos a capacidade de realização humana no campo do conhecimento. Na tradição africana. ele é uno. a revista Thoth surge como fórum do pensamento afro-brasileiro. Entretan- to. para além dos tradicionais parâmetros de samba. que remete às origens dessa herança civilizatória no antigo Egito. senhor dos livros e escriba dos deuses. futebol e culinária que caracterizam a fórmula simplista e pre- conceituosa elaborada pelos arautos da chamada demo- cracia racial. é poderoso na sua fala. tem o conhecimento da . na sua íntima e inexorável relação com aquele que se desenvolve no restante do mundo. as estrelas e a terra. Nada mais apropriado para expressar a meta de contribuir para a recuperação dessa herança africana que a referência. cabe um esclarecimento do signi- ficado do título da revista. Seu conteúdo pretende refletir as novas dimensões que a discussão e elaboração da ques- tão racial vêm ganhando nesta nova etapa. Nesse sentido. Thoth está entre os primeiros deuses a surgir no contexto do desenvol- vimento da filosofia religiosa egípcia: autoprocriado e autoproduzido. Thoth incorpora o conhecimento que faz mover o universo. Thoth registra o co- nhecimento divino para benefício do ser humano.

medindo sua correspondência em vida aos princípios morais e éticos de Ma’at. Consti- tuindo uma espécie de contraparte feminina de Thoth. Thoth assim constitui-se no mestre da lei. o seu ciclo de nascer e se pôr sobre o hori- zonte. Sem ser compartilhado entre feminino e masculino. assim seguindo o primordial e simbólico exemplo de Osíris e Ísis. Tendo uma cabeça do íbis. no momento de sua morte. Era Ma’at quem regulava o ritmo do movimento da embarcação de Ra. Na mitologia egípcia. e encarnava o mais alto con- ceito da lei e da verdade dos egípcios. tanto no plano espiritual como material. quando ele surgiu pela primeira vez sobre as águas do abismo primordial de Nu. . Thoth 15 linguagem divina. deus do sol (vida. foi ele que ensinou a Ísis as palavras divinas capazes de fazer reviver Osíris. força e saúde). o caminho do direito e da verdade. vilipendiada. Ela corporificava a justiça. As palavras de Thoth têm o dom da vida eterna. filoso- fia prática de vida da civilização egípcia. ou seja. tanto nos seus aspectos físicos como morais. o poder careceria de fecundidade. bem como sua trajetória diária do leste ao ociden- te. pássaro que repre- senta na grafia egípcia a figura do coração. premiando cada homem com sua justa recompensa. distorcida e reduzida ao ridículo ao longo de dois mil anos de esmagamento discriminatório. A deusa Ma’at encarna essa filosofia de vida mo- ral e ética. Ma’at e Thoth acompanhavam o deus-sol Ra. na sua embarcação. após sua morte. Assim. entre homem e mulher. seria estéril. Thoth era cantado como coração de Ra. esperamos que a revista Thoth ajude a fazer reviver para os afrodescendentes a grandeza da herança civilizatória de seus antepassados. o coração era o peso a ser medido na contrabalança da vida do homem. Os faraós tinham o seu poder temporal complemen- tado por um poder feminino exercido por soberanas e sacerdotisas. entre a autoridade masculina e a femini- na. ela representa uma característica relevante da civiliza- ção egípcia: a partilha do poder.

Entretanto. nome também dado aos livros que registravam a sabedoria metafísica herdada do antigo Egito. e cuja autoria era atribuída a Thoth¹. Tais atributos de Thoth e de Hermes nos re- metem nitidamente à figura de Exu na cosmologia africano-brasileira. mensageiro dos deuses gregos e aquele que conduzia as almas a Hades. como o passou para outros se- res divinos. Thoth se identificava com Hermes. Três Vezes Grande). pois ninguém sozinho consegue colocá-lo em prática. Passando sua sabedoria para os seres humanos. originador do conhecimento em si: formular uma nova forma de transmissão desse conhecimento. A invenção da escrita se revela. então. e Thoth se responsabiliza tam- bém por exercer esse papel. Assim. a magia e a alquimia. bem como na França e na Inglaterra do século XVII .16 THOTH 6/ dezembro de 1998 Como deus da sabedoria e inventor dos ritmos cósmicos. a ele se creditavam muitas invenções. Hermes. Exu constitui o princípio dinâ- mico que possibilita o fluxo e intercâmbio de energia cósmica entre os domínios do mundo espiritual (orum) e o mundo material (aiyê). era o deus das estradas e dos viajantes. a geometria e a astronomia. o conhecimento não produz resultados concretos. a exemplo de Ísis. Conhecedor das línguas hu- 1 Esses tomos tratam de muitos assuntos. e exerceram uma enorme influência sobre neoplatônicos do século III na Grécia. Faz-se necessário um agente de comunicação. Thoth amplia seu papel no mundo espiritual e material. Os gregos denominavam Thoth de Hermes Tris- megistus (Thoth. sem ser socializado. para os gregos. como decorrência do papel de Thoth. da sorte. Patrono do aprendizado e das artes. áreas do conhecimento que fundamen- taram o florescimento da milenar civilização egípcia. da música e dos ladrões e trapaceiros. entre eles a astronomia. inclusive a própria escrita. do comércio. Thoth dominava também a magia. Os romanos o chamaram de Mercúrio. centrada na ideia da comuni- dade entre todos os seres e objetos. tornando-se ainda o elo de transmissão do conhecimento e do segredo divino entre um domínio e o outro. Conhecido popularmente como mensageiro dos deuses.

Por isso. para os dois resgates. a ciência e filosofia. e também para o resgate da ética na política. Assumindo o nome Thoth. Thoth representa. tratando-se de uma revista Thoth lançada no Brasil. nada mais adequado. Assim. a religiosidade e a ética na mais antiga civilização africana. que uma primeira invocação a Exu. de alguma forma. constituem re- ferência básica para o resgate de uma tradição africana escamoteada à população brasileira enquanto verdadeira matriz de nossa civilização. o conheci- mento. questão emergente no Brasil de hoje. mas as linhas gerais de suas características apontam para uma unidade básica de significação simbólica. Thoth 17 manas e divinas. Os paralelos e as semelhanças entre Thoth. da sorte. a oferenda a Exu de uma prece digna de todo o peso milenar da arte africana da oratória. esta revista tem o objetivo de contribuir. de acordo com a tradição religiosa afro-brasileira. Her- mes e Exu não se reduzem a identidades absolutas. além de se apresentar como o deus das estradas. junto com Ma’at. Exu é a comunicação em si. que abre todos os trabalhos espirituais com o padê. dentro da postura africana em que o nome ultrapassa a denominação. afirmando ainda que o primeiro faz parte im- prescindível do segundo. da brinca- deira e da malandragem. .

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Pena – reclusão. para fins de dis- seminação da prática do nazismo. e multa. ornamentos. 1o Considera-se crime de práti- ca de racismo. de dois a cinco anos. para efeito desta lei. prati- car tratamento distinto. distribuir ou vei- cular símbolos. a pessoas ou grupos de pessoas. de Projetos de Lei 1997 Define os crimes de prática de racismo e discriminação. . em razão de etnia. distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada. § 1o Incorre na mesma pena quem fabricar. O Congresso Nacional decreta: Art. emblemas. Projeto de Lei do Senado no 52. comercializar.

..de 1994. de aulas escolares.. Pena – reclusão. como expectativa de de raça.. sexo. Art. lecimento de tratamento prejudicial a Art.... alizada com o propósito de implementar mas também aponta o racismo como o uma ação compensatória em função de principal responsável por sua existência. religião ou outro si...... mortalidade infantil.... pesqui- garantia fundamental.. orientação sexual. de dois a oito JUSTIFICAÇÃO anos.. passa a vigorar nesse campo das relações humanas. canos (chamados “pretos” e “pardos”) Parágrafo único. Art...22 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar § 2o Também incorre na mesma situações discriminatórias históricas ou pena quem induzir ou estimular.. portanto – apontam uma enorme distância entre os descendentes de afri- .. ciais... e aqueles considerados “brancos” em metido mediante paga ou promessa de nosso País.. parágrafo úni.. . 5o Esta lei entra em vigor na nação... sas quantitativas realizadas nas últimas II – se o crime é praticado por décadas têm revelado uma realidade de funcionário público no desempenho de desigualdade e discriminação pelo me- sua função.. nos tão grave quanto –e frequentemente III – se o crime é praticado contra pior que – a de países como os Estados menor de dezoito anos. por in... vida. A análise dos indicadores recompensa ou em razão de preconceito sociais pertinentes... reconhecidos Art........ 141...081...... idade.” colaridade. 4o Não é crime a distinção re. o estabe. . 141... 3o O art. passadas. religião.... Com efeito. do Código Penal. para efeito desta lei. 6o Revogam-se as disposi- pessoas ou grupo de pessoas em razão ções em contrário.. com a seguinte redação: Dados estatísticos do IBGE – ofi- “Art. 2o Considera-se discrimi. Se o crime é co. e 8. ideias......... Embora goste de se autoprocla- § 1o As penas aumentam-se da mar uma “democracia racial”.. aplica-se a pena em dobro.. na qual se baseia a distinção e o propó- ceitos ou imagens pejorativas em razão sito dessa distinção...... tência desse fosso em nossa sociedade. não apenas comprova a exis- Art. cional ou outra caracteristica similar...882. lógica necessária entre a característica de livros e de outros meios. por todos como exemplos negativos co. data de sua publicação.. especialmente as de sexo. e multa. 8.716.. procedência na.. ou quando existe uma relação termédio da mídia.. de 1990.. salários e es- milar.. de 1989.... ou ainda por previ- de etnia ou cor da pele.. são legal... o Brasil metade: está longe de ser o paraíso das relações I – se o crime pretende dificultar raciais que o discurso oficial ainda tei- ou impedir o exercício de um direito ou ma em apresentar... Unidos e a África do Sul. con. Leis nos 7. cor... deficiência...

das Nações inexistência de um fato concreto que de. e foi rejeitada sob a alegação da da Discriminação Racial. que ganhou o mulheres. tipificando tais crimes. XLII). juízes e promotores dispensam a brancos dependendo de uma enumeração casuísti- e negros. do Teatro Experimental do Negro.716/89) também além das antigas Iugoslávia e União So- não avançou nesse sentido. depois. às boas intenções de seus autores. porque esses crimes discriminação racial datam da década de constituem a forma mais insidiosa de vio- 40. para os crimes de racismo e discriminação. que o Brasil é signatário – como a Con- criminação como crime de lesa-humani. boa técnica do Direito Penal. distorcendo a natureza da pelo nome genérico de “ação afirmati- proposta de 1945 ao definir o racismo va”. Em que pese como Estados Unidos. Índia. Projetos de Lei Crime do racismo 23 No campo jurídico. Alemanha. em desacordo com a ser presos em maior proporção. 5o. à Assembleia Nacional Constituinte. – por exemplo. pelo Senador Ha. realizada em put) e. delegados. este projeto reza. pelo que estes últimos costumam ca de circunstâncias. em proposta público. daí a inefi- dos mais vezes e a penas mais longas. foi a Além de estabelecer os tipos genéricos aprovação de uma proposta dessa natu. Nigéria. ainda não dispõe de uma definição geral to diferenciado que policiais. O Deputado Afonso Arinos criminação historicamente sofrida por aproveitou a oportunidade para propor determinados grupos de pessoas. político. venção Internacional pela Eliminação dade. bou vindo com um incidente de grande também vinculada à ONU. para racismo e discriminação. mada Lei Caó (Lei no 7. Conhecidas seu nome. Este aca. negros e índios. necessariamente. zação Internacional do Trabalho (OIT). Canadá. da UDN. O principal resultado da I Conven. em 1945. Desse modo. a cha. tais medidas têm sido adotadas por como contravenção penal. Este projeto abre a possibilidade . ca- ção Nacional do Negro. no ano seguinte. cado de trabalho – preveem a adoção de sa coreógrafa afro-americana Katherine medidas destinadas a compensar a dis- Dunham.390. Unidas. social. sua presença nas estatísticas penitenciárias. sob o patrocínio a condenação do racismo (art. que trata da repercussão: a discriminação sofrida discriminação de raça e gênero no mer- em um hotel de São Paulo pela famo. por exemplo. a legislação brasileira recentes pesquisas desnudam o tratamen. viética. condena. o que cácia da atual legislação nessa área. pelo futo de ser específica São Paulo. como a Lei no 1. as constitucio- uma legislação para coibir a prática da nais: primeiramente. ainda determina circunstâncias agravantes da. e ao estabelecer penalidades ir. e não como países tão diversos do ponto de vista crime. Convenções internacionais de Essa proposta definia o racismo e a dis. econômico e cultural risórias para os infratores. Este explica ser desproporcionalmente maior projeto pretende criar essa definição legal. se o agente é funcionário milton Nogueira. lação do princípio da liberdade (art. e a Convenção 111 da Organi- monstrasse a sua necessidade. a qual acabaria sendo transforma. 5o. As orientações bá- As primeiras tentativas de criar sicas são. Israel e Malásia. de 1951.

3 de abril de Finalmente. genéricas do Código Penal para nele incluir os preconceitos de raça. Situação atual do projeto: Comissão de Cons- ca que. sexo e Publicado no Diário do Senado Federal de 9-4-97. Sala das Sessões. Com essa sistemática. arena internacional. o projeto amplia o 1997. outros. colocando o país abre grandes espaços pelos quais esca- em dia com as obrigações assumidas na pam os agentes do crime. elenco de circunstâncias agravantes Senador ABDIAS NASCIMENTO. tituição. aguar- dando parecer do relator. desde 17 de abril de 1997. Justiça e Cidadania do Senado.24 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar de adotá-las no Brasil. afasta-se a necessidade de uma previsão casuísti. Senador Pedro Simon. . enumerando em detalhes as cir. cunstâncias de prática da discriminação.

Projeto de Lei do Senado no 73. no Brasil de monopólio ou à eliminação da ou no exterior. fornecida por organismos nacionais ou internacionais de reconhe- cida reputação e idoneidade. crimes contra a ordem por ação ou omissão ou. que trata este artigo será feita. notoriamente. presas públicas e sociedades de econo- empresas públicas e sociedades de mia mista. pela Proíbe a contratação. concorrência e dano ambiental não § lo A comprovação dos atos de reparado. de pessoas físicas que. ou jurídicas que tenham cometi. fundações. e dá outras providências. pela União. por do- cumentação. suas autarquias. acionista majoritário ou do atos ou omissões favoráveis a empresa coligada. suas autarquias. participado ção racial. e encami- nhada por: . diretamente ou por associado. incentivado. contribuído. controlador. sob qualquer modalidade. 1o Fica proibida a contra- tação. O Congresso Nacional decreta: de 1997 Art. apoiado ou estimulado regime ou visem ou possam levar à formação ações de discriminação racial. fundações. atos que forma. de pessoa física ou jurídica economia mista. tenha regime ou ações de discrimina. em- União. perante o responsável pelo contratante. de qualquer econômica ou tributária.

cedimento previsto no artigo anterior. no que couber. 2o Fica proibida a contra- nal. diretamente envolvidos. demonstração da adoção. tado dano ambiental grave. di- mandato eletivo. ou limitação da livre concorrência. e persiste. Art. civil e criminal da auto. V – Mesas do Congresso Nacio. pela União e demais entidades Deputados. somente sendo vencível pela regular há pelo menos um ano. tir da data de recebimento. Art. razão social ou mente constituída e em funcionamento atividade. definidas no artigo anterior. administrativa. o procedimento previsto no art. picidade da conduta. a que configurem crime contra a ordem partir da identificação e confirmação da econômica ou tributária ou que visem sua origem e da reputação e idoneidade ou possam levar à criação de monopólio do órgão emissor. previstas nesta lei que tenham cometi- nidos nesta lei cabe recurso à instância do ato ou omissão de que tenha resul- administrativa superior. de forma definitiva. de medida efe- sentação no Congresso Nacional. defesa. da Câmara dos tação. acionistas majoritários se presuma comprobatório dos atos de. 1o. outra situação jurídica. nos tos administrativos de contratação a par. pela União e demais enti- dam os procedimentos administrativos dades definidas no art. retamente ou por preposto. 1o desta lei. não completamente re- § 4o O descumprimento do pro.26 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar I – cidadão brasileiro. tempo necessário à completa reparação § 5o A proibição de que trata este ambiental ou. subsistindo esta proibição pelo período assegurados o contraditório e a ampla de vinte anos a contar da data do fato. cedimento previsto neste artigo leva à § 1o Aplica-se.associação ou entidade legal. contra os de de fazê-lo. termos da legislação brasileira. o pro- para processamento e julgamento da ti. para os fins deste nulidade do ato e à responsabilização artigo. do Senado Federal. mesmo sob II. cometido atos finidos no caput deste artigo suspende. subsistindo a proibição pelo ridade responsável. ou no exterior. associados. de suas Comissões ou depu. ou empresas coligadas. das pessoas de contratação e que julguem a pessoa físicas ou jurídicas e demais entidades física ou jurídica incursa nos atos defi. 3o Fica também proibida a § 3o Das decisões que suspen. contratação. no caso de ato ou omissão que não tenha sido de sua III – partido político com repre- responsabilidade direta. no caso da impossibilida- artigo é definitiva. no instaurado procedimento administrativo caso deste artigo. § 2o A entrega de documento que controladores. devendo ser Parágrafo único. sem efeito sus. . no Brasil pensivo. Aplica-se. em face desta lei. efeitos e de punição dos responsáveis. parado. de pesso- tado federal ou senador em exercício de as físicas ou jurídicas que tenham. tiva de superação ou reparação dos seus IV – Ministério Público da União. todos os procedimen.

à homo. a necessária resposta à repulsa e condenações mundiais que Ao meio ambiente foi dedicado ca- vinha e vem sofrendo. As práticas desleais. XLII). onde. meio ambiente (art. 5o. (art. a livre concorrên- alterações posteriores. o combate ao assegurado a “todos” o direito ao meio preconceito de origem. 4o As proibições previstas conhecem condenação expressa no ca- nesta Lei são extensíveis a todas as mo. A dignidade da pítulo especial – o Capítulo VI do Título pessoa humana. à responsabilização por atos A Constituição Federal em vigor praticados contra a ordem econômica e trouxe. à eliminação da concorrência ções em contrário. mercados. 3o. pítulo referente aos princípios gerais da dalidades operacionais de desestatiza. . sem prejuízo JUSTIFICAÇÃO da responsabilidade individual dos seus dirigentes. vigorosas disposições sobre o racis. sendo imposto ao poder público e à coleti- o racismo é repudiado na ordem inter. § 4o) que vise à dominação dos Art. é preliminarmente erigida tar sujeita ao princípio da defesa do meio como fundamento da República Federa. da atividade econômica. 173. sa Carta Política. 6o Revogam-se as disposi. sujeito do no Brasil será feita pelo órgão federal à pena de reclusão (art. a relevante e indispensável. 5o Esta lei entra em vigor na condenados o abuso do poder econômico data de sua publicação. sujeita. se não concluídas. além de sujeitar a pessoa jurídica. III). conforme já demonstramos. fiscalizando e incentivando para todo o setor e plane- O racismo encontrou. idoneidade. caput). 5o. 170). O art. a justiça social. como funda- ção. 1o. sobre o exercício pernicioso da ativida. (art. Projetos de Lei Sanções contra o racismo 27 § 2o A determinação da extensão e prática do racismo foi firmada como cri- reparabilidade do dano ambiental ocorri. predatórias logação pelo órgão federal competente. financeira e contra a economia popular quistas. de que a discriminação VIII. pelo Nesse universo. a função estatal é princípio da isonomia (art. inclusive as vei. ou ultrapassadas de gestão empresarial Art. no caudal de suas expressivas con. além competente para assuntos documentação de permear outros tantos dispositivos de organismo de reconhecida reputação e constitucionais. ambiente. como objetivo fundamental (art.031. de 12 de abril de 1990. § 5o). o poder de agente normativo e regulador de empresarial e sobre o meio ambiente. cia. é tiva do Brasil (art. VIII). qualquer natureza” são proibidas. me inafiançável e imprescritível. atividade econômica. vidade o dever de defendê-lo e preservá-lo nacional (art. a defesa do consumidor e a defesa do culadas por medida provisória. raça e cor é dado ambiente ecologicamente equilibrado. Também são Art. IV). na nos- jando para o setor público. 4o. previstas pela mentais do País. as distinções “de para as presentes e futuras gerações. e ciativa. 173. despontam a livre ini- Lei no 8. Além de a atividade empresarial es- racial é algoz. 174 dá ao Estado mo. neste caso. e ao aumento arbitrário dos lucros.

mas tam. se simbólico. ou ligadas a elas. que tem de desrespeito aos princípios fundamen- no topo a estrutura federal. que ela favoreça empresas ou grupos de outro modo. com sede ele. Com tinacional Anglo American. Doce. desrespeitando Constituição. em nacional. de pessoas físicas ou jurí. cional do Trabalho. a todos os mode. fundações. E aqui pretendemos atingir. é signatário – e que por isso têm força diretamente. que tenham. em especial a Convenção In- poderá ocorrer no processo de privati. forma balizador das condutas das de. no momento em que o minação no mercado de trabalho. que trata da discri- zem com que. Além Governo se prepara para implementar disso. o boicote internacional decretado pelas Essa proibição é extensível. em ra- empresas públicas e sociedades de eco. porém. em Londres. uma espécie de pária inter- dicas. suas autarquias. Afinal. O principal motivo disso foi sua atuação nacional ou internacional. como estados. zão de sua atuação no campo político e nomia mista. vencê-la. econômico. mas também con- los operacionais do programa de deses. é a mul- pondo o presente projeto de lei. olhares mais atentos cordo com diversas cláusulas de nossa se detenham nesse processo. não seria possível. não faz sentido racista sul-africano uma sobrevida que. quais sejam os ar- vista suas consequências não apenas no tigos que citamos acima.28 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar Como o aparelho estatal. tem se tomado nos últimos anos. determinada situação que de lei –. Ocorre que essa empresa pela União. seu apoio inconteste ao regime do apar- ferido esses relevantes valores de nossa theid na África do Sul. Longe de ser um ato meramente bém do ponto de vista social. e com grandes possibilidades de Nessa linha é que estamos pro. minação Racial. por ação ou por omissão. di-lo Nações Unidas e violando não somente o art. tes e mais significativas da decisão go. venções internacionais de que o Brasil tatização. o apoio da poderosa Anglo a justificativa para a sua alienação se faz American e de outras empresas de mes- sob a égide da modernização de nossas mo porte foi o que permitiu ao governo estruturas produtivas. as relações entre os homens. ameaças de que isso possa ocorrer no bem à União as ações mais contunden. sobretudo. e a A importância estratégica e o Convenção 111 da Organização Interna- enorme patrimônio dessa empresa fa. são concretas as Distrito Federal e municípios. caso da CVRD. visamos a impedir a contratação. Uma das empresas concorrentes vernamental de cumprir e fazer cumprir na licitação da Companhia Vale do Rio tais princípios constitucionais. Pode- internacionais com notória ficha corrida -se medir a consequência pelo número . Infelizmente. ternacional pela Eliminação da Discri- zação da Companhia Vale do Rio Doce. tendo em Constituição Federal. das Nações Unidas. 4o da proposição. tal atuação também está em desa- a sua privatização. é de certa tais que regem as relações comerciais e. resoluções da ONU. dado o seu poderio. incum. plano político e econômico. mais entidades políticas.

sempre se lucrativa um grupo internacional que se posicionaram em favor da manutenção comprometeu ativamente com o mais da supremacia branca. grupos historicamente discriminados. Por esse motivo. visando a favorável do relator. é deria ter acabado muito antes. Num momento em que a socieda. em território norte-americano. pratican. Projetos de Lei Sanções contra o racismo 29 de casos de assassinatos. rosa que carrega a mancha indelével da do o monopólio da produção e comércio atuação racista e contrária aos direitos de ouro e diamantes. sob pena Senador ABDIAS NASCIMENTO. direta de assegurarmos respeito a fun- mamentos e infraestrutura bélica. há muitos anos não pode pisar 1997. Ao mesmo tempo. Publicado no Diário do Senado Federal de 24-4-97. no mínimo um contrassenso permitir- se a criminosa cumplicidade de grupos mos que se aposse de nossa estatal mais que. a condenação trições a essa empresa. aguardando inclusão em pauta. inclusive discutindo a refor. Econômicos do Senado. humanos e indireta de expurgarmos da siderada culpada. desde tornar mais eficientes os mecanismos de 16-6-97. não fos. humanos. suficiente para tornar indesejável a sua -africano na desestabilização política presença em nosso País. râneo. Sala das Sessões. 24 de abril de nheimer. de estabelecer compensações para os te os últimos anos de um regime que po. Angola e Moçambique –. por atuação no Brasil uma empresa pode- infringir a legislação antitruste. como a Anglo American. Como damentais princípios constitucionais e não bastasse. Além de apoiar o de que tal grupo foi objeto no mais alto apartheid. permitimo-nos – dentre eles. enfrentamento do racismo e do precon- tras atrocidades sofridas pelos negros e ceito racial. em diversos países. de brasileira começa a tomar consciên- cia crescente de seus problemas sociais Situação atual do projeto: Comissão de Assuntos e raciais. de ser imediatamente preso. to de lei neste Parlamento. execrado regime do mundo contempo- Mas não se resumem a isso as res. a Anglo American é suspeita foro do comércio internacional é motivo de ter colaborado com o governo sul. bem como a possibilidade opositores políticos naquele país duran. torturas e ou. confiar na aprovação do presente proje- dando apoio financeiro à guerrilha con. . uma forma trarrevolucionária para a aquisição de ar. a Anglo American foi con. seu principal dirigente. com minuta de relatório mulação de sua legislação. Senador Ney Suassuna. Nicholas Oppe. dos países da chamada “linha de frente” Por tudo isso.

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Projeto de Lei do Senado no 75. 1o Todos os órgãos da admi- nistração pública direta e indireta. com vistas a comprovar os resultados das medidas de ação com- pensatória preconizadas. as empresas públicas e as sociedades de economia mista são obrigados a manter. . O Congresso Nacional decreta: de 1997 Art. 20% (vinte por cento) de homens Dispõe sobre medidas de ação negros e 20% (vinte por cento) de mu- compensatória para a implementa- lheres negras. § 1o As entidades mencionadas estão obrigadas a comprovar anualmen- te. as determina- ções constantes do caput. o órgão citado no parágrafo anterior ou o Minis- tério do Trabalho desenvolverão pesqui- sa estatística. nos seus respectivos quadros de servi- dores. perante o órgão que responde pela administração pública. do negro. § 2o A cada cinco anos. em todos os postos de tra- ção do princípio da isonomia social balho e de direção.

treinamento e aperfeiço. dos os níveis de ensino. tério do Trabalho fará pesquisa estatísti.32 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar § 3o As entidades citadas no caput candidatos negros qualificados em esca- estão obrigadas a executar programas de lões superiores profissionais. necessários para o desenvolvimento de gras em todos os níveis de seu quadro de estudos a respeito do ensino e do aper- empregos e remunerações. sem. 2o Toda empresa privada ou o material técnico produzido. cento) para candidatas negras. § 2o Os cursos de formação da ca para avaliar a aplicação das medidas Marinha. 1o satória com vistas a atingir. no Instituto Rio no valor de 20% da folha bruta mensal Branco. cinco anos. I – incorporar ao conteúdo dos mento e aperfeiçoamento técnico para cursos de história brasileira o ensino das negros. Art. 4o O Ministério do Trabalho tudar modificações nos currículos esco- e os organismos de treinamento de mão lares de todos os níveis de ensino. 7o O Ministério da Educação ficações profissionais às de candidato implementará medidas propostas por branco. ação compensatória. pre que ele demonstrar idênticas quali. com de obra estão obrigados à execução de vistas a: programas de aprendizagem. dantes negros 40% (quarenta por cento) as medidas preconizadas no caput. O órgão do Po- amento técnico. mentos que não cumprirem as medidas § 1o O Ministério das Relações referidas no caput estão sujeitas a multa Exteriores reservará. no prazo de desta Lei e às empresas privadas. bem como estabelecimento de serviços são obriga. por cento) para candidatas negras. tos mencionados comprovarão. Exército e Aeronáutica reser- compensatórias de que trata o caput. treina. grupo de trabalho constituído para es- Art. junto ao Ministério do Trabalho. 6o Serão destinadas a estu- mente. Art. gará as atividades a serem executadas e Art. 20% (vinte por cento) das vagas de salário. com vistas a qualificar der Público encarregado de supervisio- empregados negros para a promoção nar ou desenvolver os programas divul- funcional. a participação de ao menos Art. varão 20% (vinte por cento) de suas va- Art. 5o O Poder Executivo inclui- 20% (vinte por cento) de homens negros rá na lei orçamentária anual recursos e 20% (vinte por cento) de mulheres ne. das bolsas de estudo concedidas em to- § 2o As empresas e estabeleci. o Minis. a fim de aumentar o número de contribuições positivas dos africanos e . nistrados às entidades citadas no art. anual. para candidatos negros e 20% (vinte por § 3o A cada cinco anos. oferecerá vagas nos cursos por ele mi- dos a executar medidas de ação compen. Parágrafo único. 3o Assegura-se a preferência gas para candidatos negros e 20% (vinte na admissão do candidato negro. feiçoamento técnico das medidas de § 1o As empresas e estabelecimen. aprendizagem.

§ 1o O grupo de trabalho incluirá JUSTIFICAÇÃO entre seus membros representantes das organizações negras e intelectuais ne. to a forma como são retratadas a criança Art. obrigadas a incluir nos currículos de seus cursos e em seus programas de IV – eliminar dos currículos e li- treinamento conteúdos de orientação vros escolares qualquer referência pre- que visem a impedir qualquer compor- conceituosa ou estereotipada ao negro. estatísticas e retratados de maneira tão positiva quan. de maneira obrigada a incluir o quesito “cor” em que a criança veja o negro e sua família todas as suas pesquisas. filosó- ficos e epistemológicos das religiões de Art. Esta lei entra em vigor na branca e sua família. V – incorporar ao material de en- Art. dos. ções em contrário. data de sua publicação. 8o As forças policiais estão origem africana. Os africanos não vieram para o gros dedicados ao estudo da matéria. 10. Projetos de Lei Ação compensatória 33 seus descendentes à civilização brasilei. tamento de discriminação étnica. sileiro de Geografia e Estatística está ção gráfica da família negra. e morais. no en- . contribuições positivas das civilizações § 4o O Ministério da Educação africanas. as língua iorubá e kiswahili. particularmente seus avanços e as reitorias das universidades públi- tecnológicos e culturais antes da inva. sob toda sorte de violências físicas mente às escolas públicas e particulares. sua própria decisão. 11. Vieram acorrenta- res aprovadas aplicar-se-ão obrigatoria. Brasil livremente. cas incentivarão a criação e apoiarão o são europeia do continente africano. e as secretarias estaduais e municipais sua organização e ação nos quilombos de educação farão relatórios anuais pú- e sua luta contra o racismo no período blicos. Revogam-se as disposi- mas estrangeiros. como resultado de § 2o As modificações curricula. § 3o O Ministério da Educação ra. 9o A Fundação Instituto Bra- sino primário e secundário a apresenta. VI – incluir no ensino dos idio- Art. dando conta dos resultados da pós-abolição. Não tiveram. III – incorporar ao conteúdo dos como parte integrante da estrutura uni- cursos optativos de estudos religiosos versitária. truindo este País. a partir do ano letivo correspondente Eles e seus descendentes traba- ao segundo ano civil após a publicação lharam por mais de quatro séculos cons- desta lei. ensino dos conceitos espirituais. funcionamento de centros de estudos ou pesquisas africanos e afrobrasileiros. sua resistência contra a escravidão. fiscalização efetuada com o fim de ve- II – incorporar ao conteúdo dos rificar o cumprimento do disposto neste cursos sobre história geral o ensino das artigo. censos. em regime opcional.

que os escravos deviam ser cor que se encontra em primeiro lugar indenizados. embo... É tempo de a Nação brasileira sal- dar essa dívida fundamental para com os O presente projeto de lei atinge edificadores deste País. o trabalho não remune. 5o Todos são iguais perante gigantesco trabalho..34 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar tanto.. ção do Ministério do Trabalho. algumas patrocinadas e realizadas por rado do negro escravizado e o trabalho órgãos internacionais. justifi........ pesquisa feita no mercado de trabalho ordenara a incineração dos documen. da sociedade e do Estado.. O princípio da apenas três dimensões da discriminação isonomia na compensação do trabalho racial contra o negro no Brasil: as opor- torna moral e juridicamente imperativa tunidades e a remuneração do trabalho..] à igualdade cidades. foi vítima de toda espécie de atro. torturas e degradações. cujo caput As estatísticas existentes confir- assegura: mam o quadro inegável de desigual- ... que. O mesmo concretizar essa exigência da justiça e foi constatado em relação a Porto Ale- da consciência cívica.. Sra Vera cravidão. garantindo-se aos brasileiros e aos toda a América onde a escravidão exis... sem distinção de qualquer nature- O escravo. em pesquisa realizada pelo Sistema A Constituição brasileira garan... merados no seu artigo 5o.. Sem o esforço do tas para implementar o direito constitu- seu trabalho.. a lei. destinada a indenizar.... libertado a 13 de maio de 1888.. branco-europeu como uma necessidade.. Nacional de Emprego –SINE. a educação e o tratamento policial. Entretanto nada fez para como fator de desemprego”... a chefe de Coloca- tos relativos ao tráfico escravo e à es. no Brasil como em za.. na qualidade no mercado de trabalho. perguntamos... portanto. afirmou que “é o preconceito de ticamente. Em 1959. estrangeiros residentes no país a invio- tiu. garantida aos brasi- leiros negros pela Constituição.. ainda Necessidade de quem.. não se constituiu num verdadeiro direito Obviamente. que nunca discriminado em todos os aspectos de foram indenizados pela espoliação do sua vida em nossa sociedade. 14-6-59). o qual continua descendentes escravizados. no Rio de Janeiro. medidas concre- a edificação do Brasil.. no entanto. gre.” cadas pela ideologia da supremacia do . do Minis- te a inviolabilidade dos direitos enu... [. labilidade do direito [. tério do Trabalho (O Jornal. este País não existiria.... Fazem-se sangue e suor que verteram. cional da igualdade.. uma ação compensatória. a mínima compensação por esse “Art.. Esse princípio... certa vez mencionou. após de Ministro da Fazenda da República.... Inúmeras pesquisas científicas.... Neves..].... com- provam a discriminação contra o negro Rui Barbosa. roman. como a Organiza- sub-remunerado do negro supostamente ção das Nações Unidas para a Educação. não dos africanos e seus para o negro brasileiro. ra tardiamente. a Ciência e a Cultura – UNESCO.. cimentando necessárias..

muito mais baixa do que a verdadeira 2) mesmo com maior nível de participação do negro na nossa popu. Os dados da Pesquisa Nacional resultantes da discriminação. como grupo. encontram-se proporção do rendimento alocada aos apenas 12.4% de mulheres negras.4% de homens negros e. mesmo com esses números su. instrução. de que é objeto o negro. da intemalização do preconceito de cor. negra”. 4) os brancos detêm proporcio- bestimados. é gritante a discriminação nalmente maior parcela de rendimento. Sabemos que tal proporção que o trabalbo exige mais estatística representa uma porcentagem qualificação.9% 39% do que auferem os 10% mais bem das pessoas economicamente ativas. conforme cebe menor remuneração. Isso 6) mesmo os 10% dos negros que significa que o negro. a força de trabalho negra re- lação. negros. nham mais. 1) as desigualdades de rendimen- tos” e ‘’pardos’’) representa 42. situação se tenha modificado desde a . . pela Fundação Institu- Amostra de Domicílios – PNAD. enquanto os brancos situa.0%. somente 2. a de 10 salários-mínimos. dos nessa faixa de rendimento somam Sem dúvida.8% da população brasileira e 41. o rendimento médio dos negros que ga- Por outro lado. tendem a negar sua condição dade igual à do branco. nada indica que a 27.3% percebem até um salário negra” ou numa mitológica “burguesia mínimo. 44. Projetos de Lei Ação compensatória 35 dades raciais no mercado de trabalho. exatamente como resultado rendimentos inferiores. o negro tende de negros. pois os entrevistados. o brancos. cionais em que os brancos representam balho: entre aqueles que ganham mais parcela menor da força de trabalho. dos negros inclu. classificando-se em outras a preencher posições ocupacionais com categorias. o rendimento cebe 5. re. pagos entre os brancos. Em contraste com a sua partici- pação acentuada na população. denunciam os próprios técnicos em de- 3) mesmo dispondo de escolari- mografia. de to Brasileiro de Geografia e Estatística 1987. Todavia. por Amostra de Domicílios _ PNAD. é superior à dos que constitui um verdadeiro escândalo. vejamos 5) mesmo nas categorias ocupa- a participação do negro na força de tra. que pesquisou a cor da popula. independentemente das categorias ocu- pacionais em que estejam. só como retórica ídos entre as pessoas economicamente vazia pode-se falar em “classe média ativas. representando mais ganham não chegam a perceber 42.6 vezes menos que os brancos médio destes é seis vezes maior do que nos empregos mais bem remunerados.IBGE. re- Segundo a Pesquisa Nacional por alizada em 1976. o negro (soma das categorias “pre. mostram que: ção. Ou seja.8% da to entre brancos e negros aumentam à população brasileira.

8%. A concessão legais e a obrigatoriedade de medidas de bolsas compensatórias a estudantes para implementá-las. em projeto define como meta uma partici. lização e a história dos povos africanos. decorrência da importância da educação pação de 40% de negros em todos os para a qualificação do trabalhador. o número de ne- gros com 12 anos ou mais de instrução Seria absurdo. o oportunidades de trabalho ao negro. Outra vez podemos constatar que esperar que tal discriminação desapare- tais diferenças não seriam sustentáveis cesse espontaneamente.7%). dobro.1 vezes menos o va- culo durante o qual o negro permaneceu lor relativo de brancos (7. por 1987. . na esfera da educação. níveis e escalões ocupacionais. Entretanto a civi- 20% para as mulheres negras. De acordo com a Pnad de tituição. O conteúdo da educação recebida tando a elevada intensidade da discrimi. igualmente. visa à instrução ou possuem menos de um ano aplicação desse princípio constitucional de escolaridade.1 % dos brancos carecem de intermédio de seus artigos lo a 6o. 13. trabalho negra feminina. O presente projeto de lei. estuda tendo por base um currículo em ficar as metas relacionadas à força de que a história e a civilização européias. negros visa à correção de tais distor- Baseado na porcentagem oficial ções. então. o estabelecimento de metas gurada pela Constituição. Tal medida contribui- negros na população global brasileira rá. mais que o ração do trabalho em relação ao negro.0%. segundo a Pnad de 1987). Esse quadro Quadro semelhante ao constata- de desigualdade não poderia existir se do no mercado de trabalho encontramos se tivesse efetivado a implementação do no que diz respeito ao acesso do negro direito à isonomia garantida pela Cons. comprovada nas estatísticas da desigualdade racial anticonstitucional e também em outros tipos de pesquisa. A criança branca percebemos a necessidade de especi.36 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar publicação dos resultados da pesquisa Cremos que as medidas de ação mencionada. à educação. pelas crianças negras que têm oportuni- nação contra a mulher negra no mercado dade de estudar representa outro aspecto de trabalho. a pro- nas esferas da oportunidade e remune. no texto do Projeto de forma autoexpli- dade e de remuneração do trabalho entre cativa. fica nítida a carac. porção é de 29. ou seja. para conferir melhores (42. após quase um sé- (1. Daí a especifi. são rigo- cidade de 20% para os homens negros e rosamente abordadas. De outra parte. criadas por seus antepassados.5%) constitui 5. tivo e obrigatoriedade estão definidas terização da desigualdade de oportuni. do direito à isonomia relativa ao aces- lidade demográfica) da proporção de so à educação. compensatória e as formas de seu incen- Na realidade. pela implementação do princípio (embora inferior à que refletiria a rea. discriminado no mercado de trabalho. Consta. entre os negros. Faz-se impera- caso vigorasse a igualdade racial asse- tivo. negros e brancos no Brasil.

leira (1929-1937. Projetos de Lei Ação compensatória 37 dos quais descendem as crianças negras. Da mes.” Os avós foram escravos. na criança branca. são Em resumo. o ensi. Muitas vezes. vai preso apenas 1944-68). 1950). Desde o período imediata- matérias de estudos religiosos. Fazem-se necessárias tais medi- O artigo 7o deste projeto de lei das compensatórias em função da pró- objetiva a correção dessa anomalia e a pria história e características específi- implementação do direito à isonomia cas da sociedade brasileira. a mentalidade policial ainda é marcada estão ausentes do currículo escolar. necessária a referência a experiências ma forma. do Movimento Negro Unifi- por não ter documento em seu poder. as realizações tec. suspeito. tes. qualquer nação estabelecidas pelo projeto de lei referência à história da heróica luta dos proposto instituem maiores oportunida- afrobrasileiros contra a escravidão e o des para o negro integrar. Por intermédio da gião da comunidade negra seja retratada imprensa negra (existente desde 1915. do Teatro Ex- polícia. da Frente Negra Brasi- denominações pejorativas inferiorizan. o o que ocasiona efeitos psicológicos ne. tanto nos quilombos como por relativamente análoga à da participação intermédio de outros meios de resistên. Dessa forma. do I Congresso do Negro tamento entre negros e brancos pela Brasileiro (Rio. como “animismo” ou conforme outras em São Paulo). O negro é sempre o primeiro perimental do Negro (Rio e São Paulo. temporânea. Paulo. as medidas de ação omitidas. de âmbito nacional). igualmente. do Instituto de Pesquisas . com a mesma freqüên. mente pós-abolição da escravatura. a justiça racial em nosso País. Comumente o negro é retratado de quais ele tem sido excluídos por tempo forma pejorativa nos textos escolares. programas de orientação anti-racista nológicas e culturais africanas. branca. relativamente aos brancos. amplamente estabelecer. tomando opcional. o no dos conceitos espirituais da religião negro livre reclama medidas antidiscri- de origem africana. 1946). embora com bastante atra- documentados. o cado (desde 1978). evita-se que a reli. que não ocorre. Badauê. preto correndo é ladrão. demasiadamente longo. do Ilê-Aiyê. para policiais visam à eliminação dessa tudo nos períodos anteriores à invasão desigualdade anticonstitucional. entre as exógenas. sobre. presente projeto visa a contribuir para gativos na criança negra. A pela seguinte atitude: “Branco correndo criança negra aprende apenas que seus é atleta. Enfim. um sen. minatórias no Brasil. em proporção racismo. e colonização européias da África. Malê Debalê e Olodum da Bahia con- cia. O mesmo quadro tende so. da Convenção Nacional do Negro (São É notória a desigualdade de tra. negro. de a encorajar. acordo com o espírito do artigo 5o da timento de superioridade em relação ao Constituição. as esferas da vida nacional das cia. compensatória da escravidão e discrimi- Omite-se. não sendo assegurado pela Constituição.

a necessi. a Declaração Final da públicas. o pesquisa. no Emprego e na Ocupação – GTEDEO frutar de oportunidades iguais no cam. mercado de traba- diferenciados por categoria racial. Direitos Humanos. relevância para a população negra foi 1980. educação.38 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar das Culturas Negras (IPCN) do Rio de IBGE. 1940. Trata-se. mo: o papel da Ação Afirmativa nos Es- o quesito cor foi consignado. que seja efetivado o compro. o que lho e meios de comunicação. e de muitos outros movi. para o interior do Estado. do Programa Nacional de a necessidade de medidas complemen. promovida pelo Ministério da Justiça. a recente criação. constan. da nas nossas tradições censitárias e de No discurso de abertura desse evento. O primeiro de fato. Nos censos demográficos Outro acontecimento de grande brasileiros de 1872. de uma prática bem enraiza. Esse fato traduz arbitrariedade Janeiro. nas áreas -se a necessidade de dados estatísticos de saúde. direitos iguais. lho para a Eliminação da Discriminação para que o negro pudesse realmente des. lidade de dados para a análise da exis- misso constitucional que lhe assegura tência ou não da discriminação racial. de forma sistemáti. portanto. no suplemento da Pnad de 1976 o seminário Multiculturalismo e Racis- e na Pnad _ Cor da População de 1987. do Ipeafro de São Paulo e do no critério utilizado para se decidir se o Rio de Janeiro. deixando- mentos. preconceito e a discriminação raciais e ca. . uma modificação significativa possui entre suas metas a formulação de no existente quadro de desigualdades no políticas para a redução das desigualda- mercado de trabalho. para Valorização da População Negra Sem essas medidas complementares. concitou seus participantes a usar a cria- dade de se estabelecer a obrigatoriedade tividade para buscar soluções contra o legal dessa prática. des- constitucional à isonomia racial. 1950. pois nos censos de 1960 e 1970 e em afirmou expressamente ser necessário algumas edições da Pnad o quesito cor “desmascarar” a forma como se pratica não constou dos dados publicados pelo a discriminação racial no Brasil. No plano da ação das autoridades Em 1946. e do Grupo de Trabalho lnterministerial po do trabalho e da sociedade em geral. -nos sem qualquer certeza da disponibi- temente. impõe- tinadas aos negros brasileiros. traz a inovação de levar a discussão de uma legislação tratando meramente de assuntos tão caros aos negros brasileiros emprego não teria condições de efetivar. pelo Gover- Convenção Nacional do Negro enfatizou no Federal. item cor deve constar ou não. O Gtedeo e o grupo de va- Para que se possa avaliar a imple- lorização da população negra tratariam mentação ou não do princípio do direito de propor medidas compensatórias. des no Brasil. o negro vem exigindo. entretanto. Presidente Fernando Henrique Cardoso Verifica-se. se tem convencionalmente chamado de “quesito cor”. tados Democráticos Contemporâneos. 1890. do Grupo de Traba- tares nas áreas da educação e economia.

O presente projeto de lei traduz Sala das Sessões. Lucia Alcântara e Pedro Simon. Senador Roberto Requião. em que se consigna a são decidiu. . como nenhum necessidade de medidas concretas para outro. numa 1997. 24 de abril de os anseios de justiça e igualdade. Esperamos que o Congresso Nacional blicas deste País estão conscientes do seja sensível a essa aspiração do negro preconceito e da discriminação prati. cartas de desde 16-6-97. criar uma Subcomissão composta pelos Senadores Roberto Requião. com relatório arquivo de pronunciamentos. para reexame do projeto. milhões e milhões de brasileiros de ori- Publicado no Diário do Senado Federal. manifes. a Comis- reivindicações. Je- impaciência que aguilhoa o povo negro fferson Peres. tos. que se têm manifestado por intermédio das várias organizações Situação atual do projeto: Comissão de Constitui- negras e afro-brasileiras. Projetos de Lei Ação compensatória 39 Como se vê. Justiça e Cidadania do Senado. Lido o parecer do relator. Há um farto ção. as autoridades pú. de Senador ABDIAS NASCIMENTO. sociedade efetivamente democrática. de 25-4-97 gem africana. dou a construir. favorável do relator. em 18-3-98. a presidência deste último. tem o direito de afirmar que aju- superá-los. sob deste País. sequioso de justiça racial. por uma verdadeira democracia racial cados contra os negros brasileiros e da no seio da Nação que ele. declarações de princípios.

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O Congresso Nacional decreta: de 1997 Art. ou II – inclua entre as suas finalida- des institucionais a proteção ou defesa dos interesses de grupos raciais. étnicos e religiosos. étnicos ou religiosos. . 1o O Ministério Público pro- moverá ação civil com o objetivo de im- Dispõe sobre a ação civil des. II – obter a reparação dos mes- mos atos. em caso de omissão do Ministério Público.Projeto de Lei do Senado no 114. com as finalidades de: tinada ao cumprimento da obrigação de fazer ou de não fazer. à socie- dade civil que: I – esteja constituída há pelo me- nos um ano nos termos da lei civil. e dignidade de grupos raciais. Parágrafo único. por obrigação de fazer. ou de não fazer. étnicos ou religiosos. quando não evitados. Confere-se legitimidade subsidiária. I – evitar ou interromper atos da- nosos à honra ou à dignidade de grupos para a preservação da honra e raciais.

o Código de Processo Penal e a Lei no 7. do réu. 6o O juiz. Art. Revogam-se as disposi- certidões e informações que julgar ne. 3o Qualquer pessoa poderá. o Ministério Públi. reverterão a fundo de defesa e combate ao racismo. independentemente de pessoa de qualquer outro. o juiz determinará o cumprimento Kant como princípio de máxima impe- da prestação de atividade. ído em até doze meses a contar da data e o servidor público deverá. provocar a de publicação desta lei. Esse princípio de or- do dia em que se configurar o descum. cetuados os honorários advocatícios e co a substituirá processualmente. fixará o valor da reparação. de peritos. sob cominação manidade. cipação total ou parcial da tutela. requerido na inicial da ação civil. 9o Esta lei entra em vigor na Art. O fundo de de- fesa e combate ao racismo será institu- Art. na define-se na exigência expressa por zer. rativa: “Age de forma que trates a hu- ção da atividade nociva. Art. de 24 de julho de 1985. bém como um fim e nunca unicamente § 1o A multa será devida a partir como um meio”. Parágrafo Único. iniciaI da ação civil. tanto na tua pessoa como na de multa diária. 8o Aplicam-se subsidiaria- objeto da ação civil prevista nesta lei e mente ao disposto nesta lei o Código indicando-lhe os respectivos elementos Penal. antes de ouvir a outra parte. 4o Para instruir a petição data de sua publicação. cessárias. consi- -se como litisconsortes de qualquer das derada a extensão dos danos. 5o Na ação civil que tenha por O preceito da dignidade huma- objeto a obrigação de fazer ou de não fa.347. de convicção. concederá a ante- nos. autor. ex- sociação legitimada. decorrentes de sucumbência. desde que partes. a ser criado pela Art. rito. ximo. dades civis ou associações. de mesma Art. o autor poderá re- querer às autoridades competentes as Art. 10. 7o Os créditos favoráveis ao abandono da ação por sociedade ou as. minis- trando-lhe informações sobre os fatos Art. iniciativa do Ministério Público. ou da cessa. ao examinar o mé- natureza das legitimadas. na relação de que todo homem possui . se não § 2o O valor da multa poderá ser intervier no processo como parte. § 3o Em caso de desistência ou Art. fixado pelo má- obrigatoriamente como fiscal da lei. que lhe serão fornecidas no JUSTIFICAÇÃO prazo máximo de quinze dias. sempre tam- requerimento do autor. 2o Convencendo-se o juiz da Secretaria Nacional de Direitos Huma- procedência da ação. habilitarem. atuará elevado até ao triplo se. não se alterar o comportamento § 2o É facultado a outras socie. ções em contrário.42 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar § 1o O Ministério Público. dem moral indica a condição humana primento da determinação judicial.

347. ao consumidor. lei visou. aumentando dia a dia as mo- silógica dignidade do homem – dignida. cumpre ao homem esse maior vítima. serem eles os discriminados preceito constante do art. assim insti. superior a tudo. no seu art. até mesmo carente da No Brasil. imposta ao negro brasileiro. 129. qual seja a condição social. a extrema A Lei no 7. que se. religião e outros. Nesta última nos ao meio ambiente. dessa in. co. A Constituição da para da minoria próspera a maior parte República. a divíduo e sociedade. de um lado e a grande maioria muito po- Como forma desse princípio. de outro. adequado para reprimir ou impedir da- ria de extrema pobreza. deverá obedecer a princípios de ção na sociedade. não restritamente de valor. estéti- na raça para. É a preexistência do equidade social para o cometimento de racismo o fato gerador da divisão social justiça. te raras as exceções. mente impossível. na relação mais ampla entre in. não se lhe permitindo a devida integra- tuída. inafiançável e imprescritível. gra. ma. o exemplo é totalmen. é o negro a dade absoluta. fusos da sociedade. . de maioria ne- mesmo. O Direito é universal. inciso III. definida na Carta Política como em que vivemos nos revela uma socie. independen. O Brasil é o maior país negro fora cia é a dignidade. considera-se que a lei. O seqüência. histórico. a vasta maio. Da moradia das favelas valor moral. lação pressupõe sempre equivalência e Deve ser compreensível para todos os traz em si de maneira permanente a no. ção de preço. turístico e paisagístico. O que não permite qualquer equivalên. discriminados bens e direitos de valor artístico. são negados os direitos essenciais O que se caracteriza substituível na re. veio disciplinar a ação civil Noam Chomsky em uma de suas obras pública como instrumento processual sobre o injusto. Projetos de Lei Ação civil pela dignidade dos grupos raciais 43 um valor não relativo como fim em si da população brasileira. preconceito e da discriminação racial. radas debaixo das pontes e dos viadutos. Contudo. de 24 de julho minoria próspera. pondo o país na liderança da dignidade do homem. pertença ele a qual. 10 da referida sociais. proteger os interesses di- E nessa discriminação. pois. tipificação criminal da “prática do ra- te diverso. minoria muito próspera que não seja instituída por ele próprio. Sempre vítimas do Na resposta preceitual a essa nor. com O acesso às escolas é quase inevitavel- respeito a todos os homens. O desequilíbrio na sociedade cismo”. a incluem-se os negros. de da lei – dignidade da sociedade. bre de outro. pois da África. legislação ainda peca pela precariedade quer classe ou condição econômica. é a moralidade a condição pleta miséria. qual seja a raça. tantos em estado de com- dependência. cor. homens. sobre a matéria. posteriormente e em con. inerente: a dignidade. como bem adverte de 1985. qual seja a cor. próprio. De um lado. à pessoa humana. são proporcionalmen- te de raça. em concentração de rendas. com os extremos não dispõe o homem a obediência à lei bem desiguais. Sendo a digni. do que se conclui a relação para as ruas. Entretanto. dade desigual.

716. instaurada pelo Ministério Público ou Três meses após promulgada a por entidades da sociedade civil orga- atual Constituição da República. surge nizada com as finalidades de evitar ou a Lei no 7. portanto. Sala das Sessões. interromper atos danosos à honra ou de autoria do Deputado Carlos Alberto dignidade de grupos raciais. e de obter a reparação de tais resultantes de preconceitos de raça ou de atos. dotar os grupos recusa ou impedimentos de acesso a ser. de manifestações de racismo e discrimina- 21 de setembro de 1990. infelizmente. . decorrente instituição de ação civil que pode ser de preconceito e discriminação racial. locais públicos e privados. eficaz que lhes possibilite enfrentar as pregos e transportes. sa sociedade em vergonhosa proporção. que teve como ção que. tra a integridade física ou moral de al. cometido “pelos meios de comunicação social ou por publicação de qualquer na. assim. O presente projeto destina-se à guém. 1997 ceituoso ali definido só se configura se Senador ABDIAS NASCIMENTO. 20 à Lei no 7. a dispersão difusos e coletivos.44 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar estendeu essa proteção aos interesses tureza”. Objetiva. quando não seja possível evitá- cor”. em questão de um instrumento ágil e viços.716/89. a matéria. incluindo aí os bens e precariedade da legislação atual sobre jurídicos a serem tutelados pelo Estado. A Lei no 8081. çoamento para uma aplicação eficaz. ocorrem em nos- autor o então deputado Ibsen Pinheiro. Inegável. a qual exige imediato aperfei- quando existente o dano praticado con. que prevê punição para “os crimes religiosos. de 5 de janeiro de 1989. a em. em ofensa ao direito. étnicos ou Caó. 17 de junho de mas o ato discriminatório ou precon. mas tão-somente no que se refere a -los. Publicado no Diário do Senado Federal de 18-6-97. acrescentou o art.

para a preser. mas o ato possibilite enfrentar as manifestações discriminatório ou preconceituoso ali de racismo e discriminação que. atual Constituição da República. portanto. decorrente de fazer ou de não fazer. locais públicos a privados. de preconceito e discriminação racial. para a preservação da honra e co. autor o ex- assim. para decisão terminativa. no seu art.716/89. Caó. de 21 de setembro de 1990. O dignidade de grupos raciais. surge 2. de 1997. a lei nº 7. quando existente o dano praticado con- de 1997. estéti- não fazer. Projetos de Lei Ação civil pela dignidade dos grupos raciais 45 Parecer no 505. A Lei no 8 . étnicos ou religiosos. nesse senti- do. e prevê punição para “os crimes re- des de sociedade civil organizada com sultantes de preconceitos de raça ou de as finalidades de evitar ou interromper cor”. 129. preceito constante do art. infeliz. que “dispõe sobre a ação civil tra a integridade fisica ou moral de al- destinada ao cumprimento da obrigação guém. vação da honra e dignidade de grupos Três meses após promulgada a raciais. Submete-se a esta Comissão. proteger os interesses Relator: Senador Josaphat Marinho difusos da sociedade. “Inegável. quan. pois. Destina-se. à institui. que: Da Comissão de Constituição. Relatório estendeu esta proteção aos interesses di- fusos e coletivos. histórico. 20 à Lei no 7. “A Lei no 7. empregos e transportes. mas tão-somente no que se refere atos danosos à honra ou dignidade de a recusa ou impedimentos de acesso a grupos raciais. acrescentou um instrumento ágil e eficaz que lhes o art.347. inciso m. jurídicos a serem tutelados pelo Estado. do não seja possível evitá-los. étnicos e re. 3. Objetiva. que adequado para reprimir ou impedir da- “dispõe sobre a ação civil destinada ao nos ao meio ambiente. de 5 de janeiro de 1989. a dispersão e preca- posta para suprir lacunas dos diplomas riedade da legislação atual sobre a ma- .081. veio disciplinar a ação civil Lei do Senado no 114. ao consumidor. 1o da referida ligiosos”. ção de ação civil que pode ser instaurada de autoria do Deputado Carlos Alberto pelo Ministério Público ou por entida. o PLS no 114. “dotar os grupos em questão de -Deputado Ibsen Pinheiro. étnicos e religiosos”. a de obter a reparação de tais atos. definido só se configura se cometido mente. pública como instrumento processual ria do Senador Abdias Nascimento. de 1998 legais existentes. Pondera. ocorrem em nossa sociedade em “pelos meios de comunicação social ou vergonhosa proporção”. por publicação de qualquer natureza. turístico e paisagístico. lei visou. A Constituição da República. e serviços. de 24 de julho Justiça e Cidadania sobre o Projeto de de 1985. incluindo aí os bens 1. portanto. em ofensa ao direito. a cumprimento da obrigação de fazer ou de bens e direitos de valor artístico.716. Justifica a necessidade da pro. de auto.

7o remete à criação do 11. emenda modificativa ao parágra- mas processuais a serem atendidas pela fo único do art. “o Ministério Público ou outro 7. Acatamos. de 24 de julho de 1985”. para a cominação de penalidade diária. também. Associação Nacional dos Procuradores 4. nas mes- . sendo a competência concor- rente. Ministério Público. para restrição configurada no art. subsidia- legitimado assumirá a titularidade ati- riamente ao disposto na lei. emenda tisconsortes de qualquer das partes. É a regra. nor. Com efeito. 2o). Entretanto. o “Código va. A proposta examinada é com. por restrição segundo a qual o ingresso da sociedade ou associação legitimada pelo ação subordina-se a eventual inação do Ministério Público. 1o. segundo a qual a iniciativa preencha os requisitos enumerados nos in. 8o faz aplicar. do Ministério Público que: titucionais em vigor. Propõe-se. go não impede a de terceiros. Já o art. 8. e defere. algu. O § 2º faculta outras sociedades civis que a iniciativa seja concorrente e não ou associações e habilitarem-se como li. para tanto. no art. inde- conformá-lo à aludida regra da iniciati- pendentemente de requerimento do autor.347. § 1o A legitimação do Ministério mas modificações ou reparos devem para as ações civis previstas neste arti- ser feitos ao texto proposto. Para tal fim. à sociedade civil que sição original. a qual exige imediato aperfeiçoa. 1o da propo- o mesmo propósito. para tanto. o art. o Código de Processo Penal e a se afasta a restrição de somente o Mi- Lei no 7. propondo-se. blico. Estipula. deve fundo de defesa e combate ao racismo à ser ajustado a esta regra. para 5. Há que se afastar. nistério Público poder dar seguimento à É o relatório. 6. Discussão A norma constitucional (art. 129. em caso 10. tigo. ação civil cabível. sucessiva. legitimidade subsidiária. cabe privativamente ao Ministério Pú- cisos I e II do parágrafo único daquele ar. sugestões apresentadas pela mento para uma aplicação eficaz”. O art. §1º) diz quanto às funções institucionais patível com os novos parâmetros cons. va concorrente. no prazo de 12 meses a contar da data da publicação da presente lei.” Amplia-se essa possibilidade. lo do proje. caput do artigo seguinte (art. que se transforma no ação civil pública.46 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar téria. 5o. te”. a de desistência ou abandono da ação. nos demais artigos. neste tipo de legislação. da República. tanto. subscritas pela Subprocu- to confere privativamente ao Ministério radora-Geral da República. ação. Prevê. Dra Ela Cas- Público a iniciativa para a proposição da tilho. no seu pará. 1o. Presidente da ANPR. prevê a substituição processual. no caso de desistência ou abando- no por parte do autor original. há que se afastar a grafo único. pois Penal. Modifica-se a Secretaria Nacional de Direitos Huma- expressão “substituirá processualmen- nos. O § 3o modificativa ao caput desse artigo. 9. pois. Também o § 3o do art.

........ caben- ção do art.... de 1997.... telar poderão ser propostas pelo Minis- 12. a ser instituído no prazo de um ..” Emenda no 2 _ CCJ Dê-se ao art.. da mesma natureza das legitimadas..... Dê-se ao § 3o do art.. há ou religiosos. o artigo remete à criação I – esteia constituída há pelo me- do fundo de defesa e combate ao racis.. o Ministério Públi- “Art. nos um ano nos termos da lei civil..... de 5-1-89 e a de no 8. Propõe-se. penal e o processo penal.... de 21-9.. § 3o Em caso de desistência ou Dê-se ao caput do art.. habilitarem-se Voto como litisconsortes de qualquer das par- tes.. 1o É cabível ação civil tendo co ou outro legitimado assumirá a titu- por objeto impor obrigação de fazer... quando estes podem apenas des institucionais a proteção ou defesa ser criados através de lei. segundo o disposto nesta “Art. 7o do projeto a se- guinte redação: Dê-se ao parágrafo único do art... dos interesses de grupos raciais. abandono da ação por sociedade ou as- te redação: sociação legitimada. 1o .. 1o a seguin... 7o do projeto.... Nessas condições.. 2o)... a indenização pelo dano rever- em caput do artigo subsequente (art.. ainda.... Por ser tratar de ação civil. aplicável subsidiariamente.. “Art.. 2o A ação principal e a cau- Constituição e na lei. com a finalidade de: Emenda no 4 _ CCJ .. I o (renume- 90. como consta § 2o É facultado a outras socie- da relação original..081. 14..... dades civis ou associações.... étnicos 13. votamos pela aprovação do PLS no 114.. ou laridade ativa.. tério Público ou sociedade civil... não fazer.... Às § 1o O Ministério Público.. atuará da lei civil e processo civil e não a lei obrigatoriamente como fiscal da lei. pois tal como do a esta quando: está redigido. 2o) a seguinte redação: Emenda no 1 _ CCJ Art. Projetos de Lei Ação civil pela dignidade dos grupos raciais 47 mas hipóteses. se não ações civis aplicam-se os dispositivos intervier no processo como parte...... 7o Havendo condenação em o 1 a seguinte redação.. em verdade complementa a Lei no ..716.. terá a um fundo de defesa e combate ao renumerando-se os demais artigos: racismo. que se ajustar o art..... ou mo à Secretaria Nacional de Direitos II – inclua entre as suas finalida- Humanos.. modifica. 8o à legislação apro- priada... transformando-o dinheiro... com as seguintes emendas: rado para art. Emenda no 3 _ CCJ que..

de convicção. 5o Para instruir a petição in raciais. AO PROJETO DE LEI DO SE. e icial da ação civil. 8o Aplicam-se. da mesma Péres – José E. com a finalidade de: indicando-lhe os respectivos elementos I – evitar ou interromper atos da. atuará te – José Fogaça – Relator – Josaphat obrigatoriamente como fiscal da lei. habilitarem- los Valadares – Romeu Tuma – Djal. concederá a ante- ou de não fazer. o Ministério Públi- NADO No 114. O Congresso Nacional decreta: e o servidor público deverá. Marinho – Arlindo Porto – Leomar § 2o É facultado a outras socie- Quintanilha – Levy Dias – Jefferson dades civis ou associações. partes. requerer às autoridades competentes as mos atos. -se como litisconsortes de qualquer das ma Bessa – Lúcio Alcântara. o Código de Processo Civil e a dos interesses de grupos raciais. quando não evitados. § 3o Em caso de desistência ou TEXTO FINAL APROVADO PELA abandono da ação por sociedade ou as- CCJ. Dispõe sobre a ação civil destinada ao Art. minis- Art. étnicos ou religiosos. DE 1997 co ou outro legitimado assumirá a titu- laridade ativa. Dutra – Antonio Car. de 24 de julho de 1985. 20 de maio § 1o O Ministério Público. 2o A ação principal e a caute- lei”. menos um ano nos termos da lei ci- guinte redação: vil. cabendo Emenda no 5 _ CCJ a esta quando: I – esteja constituída há pelo Dê-se ao art. de ouvir a outra parte. o autor poderá II – obter a reparação dos mes. étnicos Lei no 7. certidões e informações que julgar ne- . subsidiaria. o Código des institucionais a proteção ou defesa Civil. ou objeto da ação civil prevista nesta lei e não fazer.” ou religiosos. se não de 1998 – Bernado Cabral – Presiden. nosos à honra ou à dignidade de grupos Art. sociação legitimada. étnicos e religiosos.347. 1o É cabível ação civil tendo trando-lhe informações sobre os fatos por objeto impor obrigação de fazer. II – inclua entre as suas finalida- mente ao disposto nesta lei. ciais. lar poderão ser propostas pelo Ministé- rio Público ou sociedade civil. ou “Art. 4o Qualquer pessoa poderá. para a preservação cipação total ou parcial da tutela.48 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar ano a contar da data da publicação desta Art. 8o do projeto a se. Sala das Comissões. Art. intervier no processo como parte. provocar a iniciativa do Ministério Público. antes da honra e dignidade de grupos ra. 3o Convencendo-se o juiz da cumprimento da obrigação de fazer procedência da ação. natureza das legitimadas.

§ 1o A multa será devida a partir Nos termos regimentais. derada a extensão dos danos. Art. A pe- fesa e combate ao racismo será ins. grupos raciais. Justiça e Cidadania. consi. tiça e Cidadania. para a Art. – Senador Bernar- requerido na inicial da ação civil. inde- pendentemente de requerimento do Senhor Presidente. No 291/1998/CCJ não fazer. nico a V. sob cominação de multa diária. Presi- . Sala da Comissão. Art. fixado pelo má. Em 10-11- lei. desde que Cordialmente. 6 o Na ação civil que tenha por objeto a obrigação de fazer ou de OF. ao examinar o mé. não se alterar o comportamento Civil destinada ao cumprimento da obri- do réu. Meio Ambiente e Minorias e Constituição e Art. o juiz determinará o cum- primento da prestação de atividade. Brasília. subsidiaria. do Cabral. do Projeto de Lei do Senado no elevado até ao triplo se. com as emendas de nos I a § 2o O valor da multa poderá ser 5 CCJ. o Código Civil. o requerimento foi tituído em até doze meses a contar da retirado da pauta do Plenário . Jus- prazo máximo de quinze dias. 7o O juiz. dido da liderança do Governo. a ser instituído no prazo de um 98. que “Dispõe sobre a Ação ximo. 20 de maio de 1998 ou da cessação da atividade nociva. a indenização pelo dano rever- terá a um fundo de defesa e combate ao Situação atual do projeto: tendo sido considerado aprovado definitivamente pelo Senado em 13-10- racismo. 98 foi apresentado à Mesa da Câmara requerimen- to solicitando urgência para tramitação do projeto.347. 9o Aplicam-se. preservação da honra e dignidade de rito. comu- do dia em que se configurar descumpri. dinheiro. de pareceres das Comissões de: Defesa do Consu- midor. de 24 de julho de 1985. foi encaminhado à Câmara dos Deputados. nesta data esta Comissão deliberou pela aprovação. de 1997. étnicos e religiosos”. 10. que lhe serão fornecidas no dente da Comissão de Constituição. ano a contar da data da publicação desta onde recebeu o número PLno 4. mente ao disposto nesta Lei.800/98. Justiça e de Redação. Projetos de Lei Ação civil pela dignidade dos grupos raciais 49 cessárias. 114. 20 de maio de 1998._ Senador Bernardo Cabral. Presidente da Comissão de Art. gação de fazer ou de não fazer. O projeto depende data de publicação desta Lei. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Exa que em reunião realizada mento da determinação judicial. autor. Parágrafo único. o Código de Processo Civil e a Lei no 7. O fundo de de- assinado pelos líderes de todos os partidos. fixará o valor da reparação. 8o Havendo condenação em Constituição.

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394. para estabelece as diretrizes e bases da se dar aos parágrafos 1o e 2o do art. II – as normas para a habilitação e admissão dos professores.394. 1o do Projeto da Lei no 9. incluindo sempre mecanis- mos para se ouvir as diferentes denomi- nações religiosas. a seguinte redação: “Parágrafo único. de 1997. 33 educação nacional da Lei no 9. de 20-12-96 que de Lei da Câmara no 25. Os sistemas de ensino estabelecerão: I – os objetivos do ensino religio- so e seus respectivos conteúdos progra- máticos. de 20 de dezembro de 1996.Emenda ao Projeto de Lei da Câ.” . EMENDA No I _ PLEN mara no 25. de 1997 Do Senador ABDIAS NASCIMENTO Dá nova redação ao art. III – a regulamentação dos proce- dimentos para a definição dos objetivos e conteúdos previstos no inciso I deste parágrafo. 33 Altere-se a redação do art.

devem ser definidos os objetivos entidade civil para todo o território na- educacionais. pois ele man. primeiro os fins que ensino. mas quadrarem dentro do espírito descentra- que salta aos olhos dos pedagogos. em algumas intromissão indevida no Estado na vida unidades da Federação. de acordo com a moderna Pedagogia e Além disso. o que justi. ensino. além de se en- não é especialista em Educação. constituída pelas diferentes instituições e grupos religiosos de cria- denominações religiosas”. a redação do Projeto as Ciências da Educação. portanto. para opinarem em relação a a incumbências que são estabelecidas assuntos relacionados com o ensino re. para. rem uma entidade civil para represen- tá-los pode ser interpretada como uma A prática da criação. de Comissões. em primeiro dá a entender que haveria apenas uma lugar. se tem em vista. o que dificultaria as gramáticos pois estes são meios para as decisões. como estão permanente. poderia gerar questionamentos no Poder da os sistemas de ensino ouvirem “en. acreditamos que a aprovação da redação dada pelo Projeto Quando ao parágrafo segundo temos outra observação. pois. os comportamen- cional. nação dos dois dispositivos. sentantes das diferentes denominações Os dois parágrafos referem-se religiosas. que fossem regu- é que se selecionam os conteúdos pro- lamentar a matéria. que de- mentação da matéria pelos sistemas de vem ser definidos. lado constitucional. lizador da LDB. formadas com a participação de repre. só então. sobrecarregaria a citada enti- mudanças comportamentais. e. maior flexibilidade e mais facilidade Trata-se. . quando comissões tempo- redigidos no Projeto da Câmara. federal. de um deslize para o diálogo e o trabalho conjunto das que pode passar despercebido por quem denominações religiosas. ou seja. Judiciário. pois a obrigatoriedade das tidade civil. das instituições privadas. ou reafirmados pelo educando. Analisando-se esta matéria pelo fica a aprovação desta Emenda. dade e inviabilizaria a imediata regula- Consideramos. portanto. Só então estadual ou municipal. tem sido uma experiência posi. mudados quaisquer sistemas de ensino. as regras da boa téc- tiva pois todas elas cumpriram bem suas nica legislativa aconselham uma agluti- funções.52 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar JUSTIFICAÇÃO Tal fato nos parece um indica- dor seguro de que seria desnecessária Tanto o parágrafo 1o quanto o a constituição de uma entidade civil parágrafo 2o do artigo 33. como responsabilidades dos sistemas de ligioso. falam rárias regulamentadas e criadas pelos em “definição dos conteúdos do ensino próprios sistemas de ensino oferecem religioso”. portanto. tratar dos meios para se atingi-los. a qual deveria ser ouvida por tos que devem ser adquiridos.

de 9-7-97 . Publicado no Diário do Senado Federal. Sala das Sessões. justifica-se a apro- vação desta Emenda Aglutinativa e de Redação. 8 de julho de 1997. Projetos de Lei Ensino religioso nas escolas públicas 53 Assim sendo. Senador ABDIAS NASCIMENTO.

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a ser celebrado em março de O projeto foi aprovado no 1998. dos trabalhos concorrentes será consti- tados. de 1998-CN. destinado a agraciar au- tores de trabalhos alusivos à comemo- sa e dá outras providências. por meio da Resolução e por seu Presidente que. Art. no 1. de O Congresso Nacional resolve: 1997 Art. Cruz e Sousa. A prerrogativa da escolha do Presidente do Conselho caberá aos seus próprios membros. ração do centenário de morte do poeta brasileiro. Projeto de Resolução no 126. 2o Para proceder à apreciação bro de 1997. logo após a aprovação deste Projeto de Resolução. Senado na sessão de 10 de dezem. fará a indicação desses parlamentares. Parágrafo único. 1o Fica instituído o Prêmio Institui o Prêmio Cruz e Sou. por sua vez. na Câmara dos Depu. . na sessão de 22 de janeiro de tuído um Conselho a ser integrado por 1998 e promulgado em 29 de janei. que o elegerão entre seus integrantes. cinco membros do Congresso Nacional ro de 1998.

Cruz e Permitimo-nos lembrar. 5o O Prêmio será conferido nomeado. aos 36 anos. particularmente dos cemente. dirigida. quando ainda os critérios que presidirão à elaboração vivia em Santa Catarina. serão suge. em sessão do Congresso Nacional espe- cialmente convocada para este fim. as regras e filho de escravos negros. obra poética. bandeira de luta em favor dos espolia- Minado pela tuberculose. ain- Sousa viveu boa parte de sua vida no da. dia consagrado ao ção dessa bandeira de luta. 6o A Diretoria Geral ofere. bolista brasileiro. para justa homenagem àquele que constitui as novas gerações. expoente maior. Sousa. 7o Esta resolução entra em importantes historiadores da literatura vigor na data de sua publicação. in- centenário de morte do escritor Cruz e clusive. contra a escravidão e o preconceito ra- Art. em Santa Catarina. prestar proposta. a dívida que a sociedade brasileira Rio de Janeiro. Foi a partir de sua mento do Conselho. além retora do Congresso Nacional até o dia do fato de ser negro. morreu preco. atual Flo. Nesse panorama. brasileira. principalmente. 4o Os trabalhos concorrentes cial. sumariamente discriminados por moti- Minas Gerais. justificam a ado- 19 de março de 1998. foi pontuada dos trabalhos concorrentes. deverão ser encaminhados à Mesa Di. vos raciais. metros cívicos e culturais: o resgate da Nascido em 24 de novembro de figura e da postura exemplar de Cruz e 1861. a se Foi após a sua mudança para o realizar até o mês de junho seguinte. na cidade de Desterro. em 1890. Em boa hora vem o Congresso É intenção precípua da presente Nacional. para o qual fora Art. bem como o formato. Houve. rianópolis. por via legislativa. por páginas sentimentais e textos de ridos pelo Conselho à Mesa Diretora do cunho libertário.56 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar Art. 3o O teor do Prêmio Cruz e O início da carreira literária desse Sousa. contraiu com aqueles que abraçaram a la mais importante de sua extensa obra. destaca- . Rio de Janeiro. em Laguna. ceito o impediu de assumir o cargo de promotor. um momento em que o precon- Sousa. Eventos de sua biografia. foi profundamente marcada pela luta vulgados. onde produziu a parce. que Cruz e Sousa integrou o primeiro grupo sim- Art. com a JUSTIFICAÇÃO incorporação de um código verbal pra- ticamente novo. em Juiz de Fora. do qual se tomou cerá apoio administrativo ao funciona. que se renovou a expressão poética em língua portuguesa. nessa quadra em que um dos marcos da literatura e da cultura a juventude mostra-se carente de parâ- brasileiras: o poeta Cruz e Sousa. segundo juízo dos mais Art. dos e excluídos.já que toda a sua obra Congresso Nacional e publicamente di. em 19 de março de 1898.

esse grande nome. o homem e a Publicado no Diário do Senado Federal. nas nossas letras”. Projetos de Lei Prêmio Cruz e Sousa 57 -se Cruz e Sousa. em que as de 1997. . reivindicações dos movimentos negros têm redundado em consideráveis avan. Nas palavras de Alceu É. Sala das Sessões. É para a meritória iniciati- milde filho de uma raça que. portanto. a figura de Cruz e Sousa. até então. va que encarecemos o acolhimento pe- não produzira nenhuma figura marcante los ilustres pares. 25 de setembro Nesse final de século. que o obra chamou a atenção para “esse hu. presente projeto de resolução pretende homenagear. é importante trazer à baila Senador ESPERIDIÃO AMIN. a grandiosidade de sua merecedor de nossa reverência. de 26-9-97 obra. Senador ABDIAS NASCIMENTO ços sociais. Amoroso Lima.

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Parecer no 778, de 1997 Da Comissão de Educação, sobre o Pro-
jeto de Resolução do Senado no 126, de
1997.

1. Relatório

O Projeto de Resolução no 126, de
1997, apresentado pelos senhores Sena-
dores Abdias Nascimento e Esperidião
Amin, institui o Prêmio Cruz e Sousa
destinado a agraciar trabalhos alusivos
à comemoração do centenário da morte
do poeta brasileiro, que será celebrado
em março de 1998.
O projeto em tela prevê a cons-
tituição de um Conselho que se in-
cumbirá da apreciação e seleção dos
trabalhos, bem como da definição do
formato, das regras e dos critérios que

60 THOTH 6/ dezembro de 1998
Atuação Parlamentar

nortearão a apresentação dos concor- muita batalha, seu próprio espaço
rentes, devendo contar com ampla di- na sociedade e nas letras brasileiras,
vulgação pública. conforme atestam passagens de sua
biografia. Essa luta foi traduzida em
O art. 4o do presente projeto fixa
páginas que refletem seu espírito li-
a data de 19 de março de 1998, cente-
bertário e sua competente combativi-
nário da morte do escritor Cruz e Sou-
dade.
sa, como prazo para a apresentação dos
trabalhos à Mesa Diretora do Congresso Por tais méritos, o poeta já se faz
Nacional. merecedor da importante homenagem
proposta pelo Projeto em análise.
A láurea será conferida em sessão
do Congresso Nacional convocada es- No entanto, a relevância dessa
pecialmente para este fim até junho de iniciativa reside, de igual modo, no
1998, conforme dispõe o art. 5o. imperativo de os poderes constituídos
tomarem a dianteira no processo de
O projeto estipula, ainda, que a resgate das figuras importantes da nos-
Diretoria-Geral do Senado Federal ofe- sa história e da nossa tradição política,
recerá suporte administrativo ao traba- para que possam ocupar o seu lugar
lho do Conselho. de referência da sociedade brasileira,
Em exame na Comissão de Edu- particularmente para as gerações mais
cação do Senado Federal, o projeto jovens.
não recebeu emendas no prazo regi- Um país define sua identidade
mental. quando se reconhece em suas desta-
cadas figuras históricas, que, no de-
2. Análise sempenho de diferentes atividades,
contribuíram para a consolidação dos
É bastante oportuna a iniciativa princípios democráticos. Trazer à luz
do Congresso Nacional de se adian- o exemplo das referidas figuras é uma
tar às comemorações do centenário prática que merece inteiro respaldo,
de morte daquele que foi o maior dos pois é por seu intermédio que pode-
nossos poetas simbolistas. Além de sua mos exercer plenamente a nossa cida-
importante obra literária -assim reco- dania. O presente projeto cumpre esse·
nhecida por destacados historiadores propósito.
da literatura brasileira-, merece desta-
3. Voto
que sua trajetória de engajamento con-
tra as perversas consequências do pre-
Nesse sentido, por considerar-
conceito racial.
mos que a meritória proposta em exa-
Filho de escravos, como bem me se encontra em perfeita consonân-
informa a justificação do Projeto, cia com os ditames constitucionais,
Cruz e Sousa teve que buscar, com além de não apresentar óbices de na-

Projetos de Lei
Prêmio Cruz e Sousa 61

tureza jurídica, pronunciamo-nos favo-
ravelmente à aprovação do Projeto de
Resolução no 126, de 1997.
Senador OTONIEL MACHADO
Relator.

Publicado no Diário do Senado Federal, de 28·11-97

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de autoria dos nobres Senadores Abdias Nascimento e Espiridião Amin. que transcorrerá no mês de março de 1998.Parecer no 779. destinado a agraciar au- tores de trabalhos alusivos à comemora- ção do centenário da morte desse gran- de poeta simbolista. sobre o Proje- to de Resolução do Senado no 126. 1. O projeto estabelece: . de 1997 Da Comissão Diretora. Relatório Vem ao exame desta Comissão Diretora o Projeto de Resolução do Se- nado no 126 de 1997. CN. instituindo o Prêmio Cruz e Sousa. de 1997.

o econômicas e sociais que marcaram sua teor do Prêmio. sidirão a elaboração dos trabalhos um lugar de destaque no panteão dos concorrentes. cerá o apoio administrativo necessário na oportunidade do centenário de sua ao funcionamento do Conselho. repletas. nosso apoio. 1861. mediante a instituição do prê- O projeto foi submetido à Comis. ser encaminhados à Mesa Diretora Infelizmente. ao qual A proposta sob exame se inse- incumbirá: re nas comemorações do centenário da morte do grande poeta simbolista brasi- a) eleger seu Presidente. b) apreciar os trabalhos concorren. a se realizar até o mês de junho o ser humano já pôde perpetrar contra seguinte.64 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar I – que o Presidente do Congres. as regras e os critérios que pre- lento e de sua brilhante criação literária. povo. erigindo-se em exemplo a ser perenizado na lembrança de nosso É o relatório. jurídico e constitu. de que sua vida e sua obra estão sua aprovação. seus semelhantes. certa- além de meritório. mio proposto. considerando-o. c) sugerir à Mesa Diretora do Con- conseguiu sobrepujar as dificuldades gresso. 2. bem como o forma- vida e conquistar. representante do em sessão do Congresso Nacional de uma raça submetida a uma das mais especialmente convocada para este odiosas e indignas discriminações que fim. data em que se comemora o co e cultural é um costume que não tem centenário da morte do escritor Cruz sido cultivado com a intensidade que a e Sousa. Tanto mais III – que o prêmio será conferi. Parecer so Nacional indicará cinco parlamenta- res para compor um Conselho. leiro João de Cruz e Sousa. no caso de Cruz e Sousa. a iniciativa de IV – que a Diretoria-Geral ofere- resgatar a memória de Cruz e Sousa. homenagear os do Congresso até o dia 19 de março grandes vultos de nosso passado históri- de 1998. Nascido em 24 de novembro de tes. filho de escravos. para divulgação pública. Por isso tudo. morte. só pode merecer todo o são de Educação que. pois irá redundar. mente. Cruz e Sousa. manifestou-se favoravelmente à dade. nossa nacionalidade merece. grandes escritores brasileiros de todos II – que os trabalhos deverão os tempos. . em lições de civismo e digni- cional. sofrendo toda espécie de preconceitos. por meio de seu ta- to.

Abdias pela raça. que homenageia de forma em “Tropas e fantasias’. e vai ter muito discurso O poeta simbolista na sua terra natal. “Faróis “. não hesitamos em A obra de Cruz e Sousa propor a aprovação do presente projeto imensamente repousa de resolução. não satisfeita. Tem uma história bonita. merecida esta figura ímpar de nossas le- Em “Missal” e “Evocações “. de um mundo de poesias. Senador RONALDO CUNHA LIMA E a morte. Emoções O resgate da memória. é mérito para o Senado Será um belo concurso é honra que nos pertence. ante tudo que sofreu. preto e pobre. da vida. belezas sentimentais. O meu voto é favorável que morreu tuberculosa. da trajetória Acato o requerimento do vate catarinense e lhe dou deferimento é gesto para ser louvado por seu aspecto legal. como o poeta morreu. de ser da mesma praça mas. de 28-11-97 . tras nacionais. revelam identidade é triste. Relator ainda ficou na espreita e em breve levou os dois. e um outro morreu depois. Pois: “Broquéis “. Casou com Gavita Rosa. mas não evita que cada história projeta. Projetos de Lei Prêmio Cruz e Sousa 65 Assim sendo. E Amin por ter graça Era filho de um escravo. integra pequena lista de poetas geniais. Os autores. Publicado no Diário do Senado Federal. foi bravo onde nasceu o poeta. na verdade. Que nosso plenário acate essa homenagem ao vate Sua esposa enlouqueceu que vai servir de resgate depois que um filho morreu duma história e duma vida. a essa justa medida.

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52 do Regimento Comum. DE 1998-CN Institui o Prêmio Cruz e Sousa e dá outras providências. e eu. de deral. . Antonio Carlos Magalhães. que institui o art. promul- Prêmio Cruz e Sousa go a seguinte RESOLUÇÃO No 1. nos termos do parágrafo único do 1998-CN. 1o É instituído o Prêmio Cruz e Sousa. Presidente do Senado Fe- Promulga a Resolução no 1. O Congresso Nacional resolve: Art. destinado a agraciar autores de trabalhos alusivos à comemoração do centenário de morte do poeta brasileiro. a ser celebrado em março de 1998.Ato do Congresso Nacional Faço saber que o Congresso Na- cional aprovou.

a se fará a indicação desses parlamentares. 6o A Diretoria-Geral do Se- nado Federal oferecerá o apoio adminis- Parágrafo único. Publicado no Diário Oficial da União. cialmente convocada para este fim. Presidente do Senado Federal. A prerrogativa trativo ao funcionamento do Conselho. 7o As despesas decorrentes da aplicação desta Resolução correrão à o elegerão entre seus integrantes. 3o O teor do Prêmio Cruz e Art. conta do orçamento do Senado Federal. as regras e vigor na data de sua publicação. da escolha do Presidente do Conselho caberá aos seus próprios membros. Art. Art. que Art. 8o Esta resolução entra em Sousa. de 30-1-98 . Art. serão suge. logo após a aprovação desta Resolução. dia consagrado ao centená- dos trabalhos concorrentes será consti. bem como o formato. realizar até o mês de junho seguinte. por sua vez. Senado Federal. os critérios que presidirão a elaboração dos trabalhos concorrentes. 2o Para proceder à apreciação ço de 1998. rio de morte do escritor Cruz e Sousa. tuído um Conselho a ser integrado por Art. 29 de janeiro de 1998 ridos pelo Conselho à Mesa do Congres- Senador ANTONIO CARLOS MAGALHÃES so Nacional e publicamente divulgados.68 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar Art. 4o Os trabalhos concorrentes deverão ser encaminhados à Mesa do Congresso Nacional até o dia 19 de mar. 5o O Prêmio será conferido cinco membros do Congresso Nacional em sessão do Congresso Nacional espe- e por seu Presidente que.

Manuel Faustino dos Santos Lira. Art. no “Livro dos. Art. líderes da Conjuração Baiana de Pátria”. 2o Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Manuel Faustino dos Santos Lira. que se encontra no Panteão da 1798. Liberdade e da Democracia. padece de um esquecimento que merece reparação. em 1798. de 1997 decreta: Inscreve os nomes de João de Deus Nasci. conhecida como revolta dos Alfaiates. JUSTIFICAÇÃO A Conjuração Baiana. e um dos mais impor- tantes movimentos sociais de contesta- ção do Brasil Colônia contra a Metró- pole. Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas serão inscritos no “Livro dos Heróis da Torres. Heróis da Pátria”. 1o Em memória aos duzen- mento. Projeto de Lei do Senado no O CONGRESSO NACIONAL 234. tos anos da Conjuração Baiana de 1798. ocorrida na Bahia. os nomes de seus líderes: João de Deus Nascimento. Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas Torres. .

tanto a Inconfidência proclamações. os líderes João de Deus Nascimento. sacerdotes e abonados A intenção da presente iniciativa. permanentemente depositado movimento baiano teve o objetivo de no Panteão da Liberdade e da Democra- propiciar aos homens do povo acesso cia. . uma caracterís- tica que precisa ser resgatada e que Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas é fundamental para a compreensão. Torres foram executados e tiveram seus tanto daquele período. o movimento revolucionário foi tuguesa.70 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar A história oficial tem dedicado rios baianos. simbolizam o povo. sem nenhuma perso- terializam a luta contra o preconceito nagem de destacada situação na escala racial e o lançamento das bases de uma social. te. declarava: “Quer o povo que foram movimentos que contribuíram todos os membros militares de linha. operários e agricultores. Luís Há. história nacional. ma- mulatos e pobres. no entanto. homens brancos. dade popular. a insurreição assumiu um ca. tem sido conferida à figura de seu líder máximo. ráter social e foi liderada por gente do tanto quanto Tiradentes. Uma das suas Contudo. País. acontecida de um governo competente que não nove anos antes. todos espírito republicano. divulgada em plena re- Mineira quanto a Conjuração Baiana volução. e fizesse distinção de raça entre os ci- perpetuada graças à justa magnitude que dadãos. no resgate contrário. promove o justo resgate. quanto do pa. proprietários de terras. sobretudo. no momento em que Em última instância. sociedade democrática. abrindo caminho para o grito da Independência e os primeiros passos da pardos e pretos concorram para a liber- República. corpos esquartejados. para a cena aos postos de trabalho que lhes eram brasileira. o Pátria”. ao portanto. que. Mais que isso. pel desempenhado pela Conjuração foram marcados para o sacrifício. reside. como Baiana na história brasileira. desses humildes heróis brasileiros. Como Tiradentes. todos mulatos e pardos. em Minas Gerais. soldados e ração Baiana no “Livro dos Heróis da artífices. ele completa duzentos anos. lutaram pela emancipação dos escra- do de esclarecer e difundir a relevância vos. perseguindo o ideal de instalação da Inconfidência Mineira.” Revolução articulada nas ruas A inscrição dos líderes da Conju- entre escravos e libertos. e demonstraram a bravura dos eminentemente político e conduzido mártires. muito de seu tempo e empenho no senti. por intelectuais. Em Mi. Na Bahia. de um importante episódio da negados por mero preconceito de cor. Joaquim José da Silva Xavier. os revolucioná. forma de aplacar a fúria da Coroa por- nas. de modo definitivo para a liberdade do milícia e ordenanças. Manuel Faustino dos Santos Lira. como alfaiates e soldados. Sentenciados com a pena de mor- o Tiradentes.

23 de outubro de 1997. Sala das Sessões. desde 26-11-97. Projetos de Lei Conjuração Baiana 71 Nesse sentido. de 24-10-97 Situação atual do projeto: Comissão de Educação do Senado com minuta de relatório favorável do relator. esperamos a acolhida do presente Projeto de Lei pelos ilustres pares. Senador ABDIAS NASCIMENTO Publicado no Diário do Senado Federal. considerando sua oportunidade. . Senador Lúcio Alcântara. aguardando inclusão em pauta.

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1o O inciso XVI do art......49 .... 60 da Constituição Federal.... 129 da Constituição Federal passa a vigorar com a seguinte redação: “Art.... 129 e 176 e tucional: acrescenta o art. 2o O inciso V do art.... direitos assegurados às populações XVI – autorizar. 129...................” . em terras indí- indígenas........ genas ou ocupadas pelos remanescentes dos quilombos.. 49........ promul- gam a seguinte emenda ao texto consti- Altera os arts.......Proposta de Emenda à Constituição As Mesas da Câmara dos Deputa- no 38...” Art.......... 49 VIII do Título VIII da Constituição da Constituição Federal passa a vigorar Federal...... 233 ao Capítulo Art. nos termos do art.. para garantir às comunida com a seguinte redação: des remanescentes dos quilombos os “Art... a exploração e o apro- veitamento de recursos hídricos e a pes- quisa e lavra de riquezas minerais. V – defender judicialmente os di- reitos e interesses das populações indí- genas e das comunidades remanescentes dos quilombos. de 1997 dos e do Senado Federal..

subsequentes: anos do ordenamento constitucional.. Entretanto.. Aplicam-se às comu.... manescentes. terras indíge.. 6o Esta emenda entra em vi.. Em obediência às determinações cursos minerais e o aproveitamento dos da Lei Maior. madeireiros e mine- radoras retratam a dimensão dos riscos que ameaçam aquelas comunidades. nistração no País.. disposições constantes dos arts.. organismos gover- VIII da Constituição Federal passa a de.” títulos de propriedade. 233.74 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar Art. a propósito.. namentais vêm desenvolvendo progra- nominar-se “Dos Índios e Das Comuni.... em 1995.. com a seguinte redação. Nesse mesmo Estado. pouco se fez para efetivar os direitos ter- nidades remanescentes dos quilombos ritoriais reconhecidos aos mais de 600 que ocupam suas terras tradicionais as grupos remanescentes dos quilombos.... de Art. Art... propriedade definitiva das terras ocupa- tituição Federal passa a vigorar com a das pelos remanescentes das comunida- seguinte redação: des dos quilombos e determinou que o “Art. 231 e existentes em dezessete estados brasi- 232. sua identidade cultural. por brasi. “Art. os inúmeros conflitos Art. § Io A pesquisa e a lavra de re. que às Constitucionais Transitórias. 4o O Capítulo VIII do Título Além disso. direitos outorgados pela Lei Magna.. que estabelecerá as condições específicas Em São Paulo e no Maranhão. tamento fundiário de comunidades re- nas ou terras ocupadas pelas comunida... 3o O § 1o do art. no Pará... Estado emitisse os títulos respectivos.. grileiros.” leiros. Título VIII da Constituição Fede. na forma da lei.. concedeu a garantias constitucionais conferidas aos .. 176 da Cons. mas voltados para essas comunidades dades Remanescentes dos Quilombos”. quando essas atividades se desenvolve. títulos de pro- mediante autorização ou concessão da priedade a três comunidades localizadas União. realizam-se a identificação e o levan- rem em faixa de fronteira. negras.. os JUSTIFICAÇÃO quais poderão impedir a consecução dos A Constituição Federal de 1988... ral o art. no interesse nacional.. com o fim de lhes garantir a exploração agronômica do território.. zendeiros. entre comunidades quilombolas e fa- gor na data de sua publicação... o Instituto Nacional de potenciais a que se refere o caput deste Colonização e Reforma Agrária (IN- artigo somente poderão ser efetuados CRA) outorgou. passados quase dez renumerando-se os arts... no artigo 68 do Ato das Disposições Observe-se. 233.. 5o Adicione-se ao Capítulo forma compatível com a preservação de VlII. com vistas à concessão de des remanescentes dos quilombos. Ademais. 176. estão em leiros ou empresa constituída sob as leis curso levantamentos para a titulação de mais cinco áreas destinadas a herdeiros brasileiras e que tenha sua sede e admi- dos quilombos.

com vistas à Publicado no Diário do Senado Federal. Com essa nheiro – Ademir Andrade – Epitácio finalidade. a declaração de nulidade dos atos Sala das Sessões. de 25-10-97 sua preservação física e cultural. Cafeteira – Pedro Simon – José Alves das comunidades os direitos concedidos – Ramez Tebet – Osmar Dias – Elcio Al- aos índios. Senador Lúcio Alcântara. é alia. Estamos convencidos de que os Situação atual do projeto: Comissão de Constitui- membros das Casas que compõem o ção. Proposta de emenda à Constituição Garantia às comunidades remanescentes dos quilombos dos direitos assegurados às populações indígenas 75 remanescentes dos quilombos não se se. em razão do não cum. heróica dos quilombos brasileiros. Senadores ABDIAS NASCIMENTO primento imediato da Carta Magna. mínio ou a posse de suas terras. tratamento das questões que envolvem as populações indígenas. Justiça e Cidadania do Senado. o do- 1997. Assim. – Romero Jucá – João França – João Ro- A presente Proposta de Emenda à cha – Esperidião Amin – Roberto Requião Constituição tem o objetivo de impedir – Benedita da Silva – Gerson Camata – que se concretizem os obstáculos apos. Marise – Roberto Freire – Antonio Carlos cionais conferidas às comunidades re. genas. Valadares – Sebastião Rocha – Jonas Pi- manescentes dos quilombos. desde necessidade de garantir efetivamente os 11-3-98. aguardando Congresso Nacional serão sensíveis à parecer do relator. 24 de outubro de que tenham por objeto a ocupação. propomos estender às cita. (1o Signatário) (PDT-RJ) – Emília Fernan- do daqueles que obstam a efetivação dos des – Joel de Hollanda – Waldeck Ornelas direitos assegurados aos quilombolas. como no caso das populações indí. o decurso do tempo. Nabor Júnior – Eduardo Suplicy – Júnia tos à efetivação das garantias constitu. bem como assegurar-lhes as varez – Frencelino Pereira – Levy Dias – cautelas prescritas pela Lei Maior no Lauro Campos – José Eduardo Dutra. . direitos dos remanescentes da resistência guiu.

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Refiro-me ao gran- . determi- nação e sacrifício o transformou no para- digma de todos os brasileiros que. Senhoras e Senhores Senadores. inicio este pronunciamento. embora compondo a imensa legião dos excluídos. Ao ho- mem cuja trajetória de coragem. assumo hoje esta tribuna para prestar minha homenagem ao maior herói da luta pela justiça e a liberdade neste País. Tomado de emoção e orgulho cívi- co. dos destituídos. Discurso proferido em 18 de novembro de 1998 Homenagem a Zumbi dos Palmares Pronunciamentos Senhor Presidente. não obstante se recusam a assumir o papel de inferiores a eles destinado por uma elite parasitária e insensível. dos discriminados. Sob a proteção de Olorum.

de cidades fabulosas em que se contra a escravidão imposta aos africa. Contribuiu-se. Mali. desse modo e de- ferência forçada para o Novo Mundo cisivamente. de fantasioso e irreal demonstra o sucesso conhecer não apenas a figura heróica de desse infame empreendimento. Sabia. era comum exercida em nome da civilização e do encontrar. referências a uma suposta “docilidade” Na verdade. sofrimento todo mundo o tempo todo. reis poderosos comandando exércitos 20 de novembro é o Dia da Cons. dêmicos. iniciado em cruéis instrumentos de tortura emprega- fins do século XVIII. com o propósito dos pelos escravagistas para garantir tal de justificar a escravização de africa. suplício e redenção. limitando-se a descrever os civilização africana do Egito jamais se quilombos como “valhacouto de negros poderá quitar. cujo imenso débito secular- nem sequer mencionava a epopeia de mente acumulado em seu contato com a Palmares. a história da nos e a transformação de seu continente presença africana no Brasil é uma histó- numa colcha de retalhos a ser pilhada e ria marcada. como seria possível explicar os plo de perversão intelectual. vendiam livros a peso de ouro e sal. Songhai. pela saqueada pelos cúpidos interesses eu. Mas. travestidos de cientistas e conformados – e quem sabe até agra- abrigados sob pomposos títulos aca- decidos – ante a dominação europeia.78 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar de Zumbi dos Palmares. na expressão até hoje registra- os próprios fundamentos científicos. desse modo. em nossos livros didáticos. de todas as cores e origens. líder de uma mão ou graças ao relato de fascinados comunidade guerreira que se constituiu cronistas árabes. de um processo mais am. pois que nele se incluem fugidos”. como conti. a Europa conhecia a todas as formas possíveis: desde o suicí- história da África. que teriam aceito quase tória do Brasil fazia parte. Ainda ontem. losóficos e religiosos da civilização oci- Privava-se. Zumbi. não é possível enganar revolta. de maneira indelével. cristianismo. dos africanos. Se isso fosse nua fazendo. “docilidade”? Na verdade. irresistíveis. A educorada História sentimentos experimentados. Ka- ciência Negra. cobiça e medo. O fato de tudo isso parecer hoje sileiras. resistência ao escravismo. de seus reinos e im- no mais dignificante exemplo da luta périos. Até então. nos pri- do Brasil que se ensinava nas escolas mórdios da história. Gana. e bravura que se desenrolou nos quase A redução de africanos à con- quatro séculos de escravidão negra no dição de escravos e sua maciça trans- Brasil. de nos nas Américas. Os mesmos tantas décadas. supostamente da história. a falsificação da his. na construção do mito da constitui terreno fértil para os falsários docilidade dos negros. pelos hebreus e pe- los gregos. Minha consciência evoca nem-Bomu – nomes que despertavam minha infância e juventude – e lá se vão curiosidade. fi- da em nosso mais importante dicionário. mas toda a saga de crueldade e como já se disse. em primeira dio e o infanticídio – pessoas matavam . manifesta de ropeus. as crianças bra- dental. verdade. passivamente a escravidão.

Tão orga. esti- em meio à fome e à miséria. apenas cana de açúcar ram arrancados à força de sua terra natal para atender à demanda externa. os povos um dia se viram submetidos. o es- o continente. trazidos para as lavouras de cana a Colônia – dependia da exploração da de açúcar que começavam a pontilhar mão de obra africana. nizado que conseguiu derrotar os solda. Desse modo. tros. que goas. portanto. é necessário enten- onde quer que tenha havido africanos der o que representava a escravidão na escravizados. porém. em que faziam parte das tripulações dos que essa mesma riqueza se concentrava navios exploradores europeus. teve vida da Colônia. desde São Vicente (atual São lado produzia grande fausto e riqueza. zada. Não se tratava da es- no Brasil os seus exemplos mais bri. da qual os quilombos constituem A nova escravidão. os excluídos de qualquer origem. É significativo. Afinal. Ao primeiro contato militar com dos portugueses. aos quais sequer reconhe- interior da Capitania de Pernambuco. ciam a humanidade – ficaria marcado na área que hoje pertence ao Estado de Ala. Refiro-me à resistência organi. Pernambuco – como. sob o cos não se importavam com isso. mentalidade das elites brasileiras. se por um o litoral. Não se está falan. dos muitos africanos profundamente desigual e injusto. até a revolta organizada pesadelos se haviam concretizado. Quase todas Para apreendermos plenamente o essas formas de resistência ocorreram que isso significava. Isso. Os ri- e trazidos para uma terra estranha. O em princípios do século XVI um desta- camento do Exército colonial português descaso que manifestavam quanto à sor- tenha descoberto na região que chama. enquanto até co daqueles que. Pronunciamentos Homenagem a Zumbi dos Palmares 79 os filhos para que estes não crescessem do provocou calafrios na elite fundiária como escravos –. uma jugo do crudelíssimo imperialismo por- vez que consumiam alimentos importa- tuguês. que já dos de Portugal e de outras colônias. Mais de 30. a que todos lhantes. ao mesmo tempo sustentava um sistema do. Uma delas. introduzida com o a mais relevante manifestação em todo mercantilismo. assinalam os registros . contra todo um sistema. um agrupamento organizado de desde então se acostumaram a desprezar negros fugidos da escravidão. te de seus compatriotas – para não falar ram de Palmares. dos africanos. segundo nos mostram mesmo os brancos pobres sobreviviam numerosos registros arqueológicos. Falamos somente dos que fo- sua população. seguiram-se dezenas de ou- salvar a pele. constituía a base. a veram na futura América muito antes de região sequer produzia alimentos para Colombo. evidentemente. Seus piores simples fuga. Paulo) até o Recife. toda a economia de décadas iniciais da colonização portu. passando pela pura e que governava a Colônia. cravidão do mundo antigo. na Serra da Barriga. obrigados a fugir para Palmares. O relato por estes produzi. tampou- nas mãos de pouquíssimos. de toda guesa. teio de todo um modo de produção que Reza a história que os primeiros se estava implantando no Novo Mun- africanos chegaram ao Brasil já nas do. de resto.

. palmarinos. tante. Fugir antes da che. em meio a uma guer. que. Muito melhor. em cerca de 90 anos. A agricultura. embrenhar. posto de oficial do Exército português. cial em que os não negros representa- ra constante. Como explicar essa resistên.. do que a maioria dos Zumba. melhor condição de derrotá-los –. os brancos. ele e seus homens se ção de culturas. violência institucional que marcavam a vida na Colônia. Muitos guerreiros consideraram seu não praticava a monocultura de expor. estes últimos refugiados as mulheres. mas digna. no seu apogeu. povo guerreiro indica que vivia uma em 1678. Ganga Zumba . cuja “ferocidade” provoca- dos maus tratos e da fome a eles reser- va surpresa entre os portugueses. Na Embora forçada pelas circunstân- maioria deles. da guerra”. sidera o autoritarismo exacerbado e a gada de seus perseguidores. acos. dividido entre mares e a aparente impossibilidade de os diferentes “mocambos” que o consti. enfrentando portugueses e vam cerca de 20 por cento da população.80 THOTH 6/ dezembro de 1998 Atuação Parlamentar históricos. que incluíam a rota. os portugueses foram re. descrita como uma sociedade multirra- Foi assim. jovem de nome Zumbi. Em contrapartida. mestre. Prova disso é a atração -se no mato e emboscá-los. muitas vezes os escravos fugidos e entregá-los aos comercializados com fazendeiros vizi- antigos donos. inclusive sobre brancos. verduras e frutas. terizada por uma convivência extraordi- zação militar de seu povo? Sua tática nariamente democrática para os padrões era a mesma dos resistentes de todos os da época – em especial. produzia uma fartura de comprometeriam a caçar pessoalmente legumes. segundo cia dos palmarinos. à frente deles um tação. quando se con- tempos: a guerrilha. a propor um pacto com os vida simples. holandeses – que chegaram a celebrar Não consta que fossem desprezados ou uma trégua apenas para poderem ter discriminados. Aceitando a paz com ticada com as técnicas milenarmente co. que O crescimento do que viria a ser os palmarinos conseguiram prosperar conhecido como a República de Pal- e expandir seu território. derrotá-Ia militarmente acabou levan- tuíam. senão reconhecendo os parcos relatos disponíveis. para depois que Palmares exercia não apenas sobre desaparecer na selva. uma divisão irreconciliável no quilom- Lembremo-nos de que Palmares bo. Ganga Zumba receberia o nhecidas na África. então liderados por Ganga com toda a certeza. Registra-se tumados a relegar suas mulheres às tare. mas também sobre índios e até rio. era carac- a extraordinária capacidade de organi. vados pelo sistema colonial. Palmares podia ser fas domésticas. O pouco que se sabe sobre esse do o Governador Pedro de Almeida. cias a viver num clima de guerra cons- chaçados. pra. a sociedade palmarina. Quando necessá- negros. todos eram mobilizados. O “sim” de Ganga Zum- nhos – o que motivou a promulgação de ba ao governador português provocou um decreto proibindo esse comércio. conhecido como o “mestre dos súditos portugueses. gesto uma traição.

tratou de Ganga Zumba: “perdão” e liberdade. Enquanto reunia o maior exérci- vernador da Capitania. dedicavam-se à ignóbil ativi- inatingíveis para alguém de sua origem dade de “prear” – que significa caçar – – ainda mais se considerarmos que qua. revelara dotes de grande in. Foi nessa condi. Domingos Jorge Velho. aos 15 portanto. graças aos recursos ção à causa. que servia Apenas parte disso é verdade. do colonialismo português. os Zumbi viera à luz em Palmares. a trai. dável para a época. Aires de Sousa to que o Brasil já conhecera. O governador enviou as Américas. os bandeirantes eram uma gente rude bo. onde haveria de fazer mui. to. Com efei- de base de operações contra o quilom. bandeirantes são apresentados como no ano de 1655. ainda bebê. admiração e respeito. na vila de Porto Calvo. Morria Domingos Jorge Velho era. tal- Francisco e nascia Zumbi. Desde cedo. Cap. mas sim temor e teligência. o menino. os quilombolas. seus emissários em busca do paulista tas vítimas entre os senhores de escra. jovem Zumbi se viu guindado à posição portanto. Em nossos livros de história. e portanto mamelucos. recebeu do novo Go. Tudo isso. O mais indicado. atendendo aos apelos mais fortes tarde apresentado como o ideal de uma de seu coração africano. montar uma infraestrutura bélica formi- para ele e para os seus. do tipo de miscigenação mais anos. batizado de e sanguinária. para a difícil tarefa de derrotar de líder do quilombo. Melo. vez. o pécie de lixo humano. fugiu de Porto suposta civilização luso-tropical. tempo. constituído e Castro. em 1670. forma de dobrar Zumbi: derrotando- outra técnica milenarmente desenvolvi. logo após a expulsão figuras respeitáveis. desprezo. se todos os senhores de escravos eram Filhos de homens portugueses e mulhe- analfabetos. por uma expedição quem devemos a expansão do território enviada pelo Governador Francisco brasileiro para muito além dos limites Barreto. Pronunciamentos Homenagem a Zumbi dos Palmares 81 acabaria morrendo por envenenamento. Aceita a empreitada. Calvo em demanda de Palmares. o mais acabado protótipo dessa es- Com a morte de Ganga Zumba. Po. cuja menção não evocava Francisco. Em troca. de longas barbas. Modelos. disponibilizados por um governo que toriamente recusada. privilégios quase andrajos. Sujos. descalços e cobertos de e se tomou coroinha. botas de cano alto. cumpriam fielmente o papel de sabujos de-se imaginar a surpresa do benevolen. E só um homem seria da em solo africano e transplantada para capaz de fazê-lo. confirmando . suficiente para lhe comprar a alma. não foi res indígenas. a turado. o governador foi sabia estar jogando uma cartada decisi- obrigado a reconhecer que só havia uma va. Aprendeu a ler e a escrever. em trajes vistosos. porém. a mesma oferta antes feita a principalmente de mamelucos. não perdeu ção que. te padre Melo quando Francisco. índios e negros fugidos da escravidão. Vendo sua oferta peremp. fora entregue ao padre Antônio definidos pelo Tratado de Tordesilhas. -o militarmente. Zumbi. vos e suas famílias. Ainda. dos holandeses de Pernambuco.

82 THOTH 6/ dezembro de 1998
Atuação Parlamentar

sua tradição guerreira, souberam vender vieram a ser conhecidas como Revoltas
caro a derrota. Foram necessárias mui- dos Malês, assim como motivou a cha-
tas investidas, e algumas derrotas, para mada Revolta dos Búzios, ou Conjura-
que o exército de Domingos Jorge Velho ção Baiana, movimento popular, a ferro
conseguisse penetrar no quilombo do e fogo reprimido, que – diferentemente
Macaco, maior e mais importante mo- da Conjuração Mineira – associava as
cambo, impregnando o solo da serra de bandeiras da independência e da aboli-
sangue africano. Era setembro de 1694. ção da escravatura.
Zumbi, contudo, não fora captu- Hoje, 303 anos transcorridos des-
rado. Junto com um punhado de seus de o assassinato de Zumbi, os descen-
homens, embrenhara-se no mato, em dentes de africanos no Brasil continu-
refúgio seguro, buscando recobrar as am subjugados por um sistema que os
forças, reorganizar-se e contra-atacar. oprime, humilha e exclui. Ainda esta
E talvez conseguisse fazê-lo, não fosse semana, a Folha de São Paulo publica-
um capricho da sorte. Um ano depois, va reportagem, baseada em dados do
em setembro de 1695, o mulato Antônio IBGE, mostrando, entre outros índices
Soares, que chefiava um destacamento de desigualdade racial, que a mortalida-
de Zumbi, foi capturado e, submetido às de infantil é muito maior para negros do
mais cruéis torturas, obrigado a trair seu que para brancos no Brasil. Isso, infe-
chefe, escondido numa garganta próxi- lizmente, apenas reitera e quantifica as
ma à cachoeira do rio Paraíbas, na Serra denúncias do Movimento Negro – en-
dos Dois Irmãos. A brava resistência foi grossadas nos últimos anos pelos mais
inútil diante de um inimigo muito su- renomados organismos internacionais,
perior em número e armas. A 20 de no- como a ONU e a OEA – que apontam
vembro de 1695, Zumbi dos Palmares este País como um dos campeões do
foi decapitado e esquartejado, num ri- racismo e da discriminação em nível
tual sangrento característico da civiliza- mundial. Muito longe, como se vê, da
ção que os portugueses implantaram nos fantasiosa imagem, construída durante
trópicos, cujas memórias se reavivam a décadas por ideólogos oficiais – todos
cada chacina policial de nossos dias. brancos –, que pintavam o Brasil nas
A derrota de Palmares não foi, cores triunfalistas de uma “democracia
porém, o fim dos quilombos, que se racial”.
multiplicaram como cogumelos por to- O trabalho de denúncia e cons-
das as regiões do Brasil, onde quer que cientização realizado pelo Movimento
houvesse negros em número suficiente Negro tem tido eco neste Congresso,
para se organizar e lutar por sua liber- graças à atuação de uns poucos parla-
dade. O mesmo espírito dos quilombos mentares negros – dentre os quais tenho
esteve presente também nas várias in- a honra de me incluir – cuja atuação re-
surreições ocorridas na Bahia, lidera- vela seu compromisso com a causa de
das por africanos de origem nagô, que Zumbi. No meu caso, trata-se esse de

Pronunciamentos
Homenagem a Zumbi dos Palmares 83

um compromisso assumido ainda nas perto do fim desse mandato, considero
primeiras décadas deste século, e que ter cumprido minha missão. Conquanto
se transformaria na verdadeira bússola não tenha conseguido romper definiti-
que tem orientado, desde então, toda a vamente as barreiras que se interpõem
minha existência. Em função dele, par- ao avanço dos afro-brasileiros na mais
ticipei, nos anos 30, da gloriosa Frente alta Casa Legislativa do País, pude com
Negra Brasileira, maior e mais impor- certeza abrir caminhos, dobrar intran-
tante organização afro-brasileira deste sigências, esclarecer incompreensões e
século. Foi também ele que me orientou multiplicar alianças para a causa negra,
na criação, em 1944, do Teatro Experi- facilitando a tarefa de meus companhei-
mental do Negro, que buscava o resgate ros e sucessores.
do legado africano no Brasil, montando Foi nessa visão que apresentei,
peças de conscientização e organizando logo após assumir definitivamente a
eventos históricos como a Convenção vaga deixada no Senado com o faleci-
Nacional do Negro, em 1945, e o I Con- mento do saudoso Darcy Ribeiro, minha
gresso Afro-Brasileiro, ern 1950. primeira iniciativa nesta Casa, o Pro-
Obrigado a deixar o País, em jeto de Lei do Senado no 52, de 1997,
1968, devido à perseguição movida pelo que definia e tipificava a prática do
regime militar, pude constatar, em mais racismo e da discriminação e punia os
de uma década de exílio nos Estados crimes dela resultantes. O objetivo era
Unidos e na África, o quanto prosse- substituir a Lei no 7.716, que havia re-
guiam válidas aquelas ideias que sem- gulamentado o princípio constitucional
pre me haviam norteado. Assim, se o da Carta de 1988, definindo o crime de
exílio me enriqueceu no contato direto racismo como inafiançável e imprescri-
com novas teorias e estratégias da luta tível. Nesse caso, não fui movido, como
negra, em plano internacional, também imaginaram alguns, pelo motivo fútil de
me serviu para reafirmar a certeza do ver meu nome associado a algum ins-
papel preponderante a ser desempenha- trumento legal, mas sincera intenção de
do, nesse contexto, pelo povo e a cultura aperfeiçoar uma legislação cujas defici-
afro-brasileiros. ências podem ser dolorosamente consta-
Ao assumir pela primeira vez tadas, na prática, por quem a ela recorre.
uma cadeira neste Senado, substituindo O projeto está aguardando parecer do
o Senador Darcy Ribeiro, então convo- relator, mas espero que, no pior dos ca-
cado pelo Governador Leonel Brizola a sos, possa ser útil a futuros legisladores
conduzir o pioneiro Programa de Edu- interessados no assunto.
cação Especial no Rio de Janeiro, pro- O Projeto de Lei do Senado que
punha-me cumprir meu mandato “com apresentei a seguir, o de no 75, de 1997
honradez e dignidade, lutando pelas – e que, oficialmente, ainda tramita nes-
causas do meu povo afro-brasileiro, que ta Casa –, visa promover e valorizar a
são as causas da nossa Nação”. Hoje, população afro-brasileira, por meio do

84 THOTH 6/ dezembro de 1998
Atuação Parlamentar

que chamo de “ação compensatória” – pósito específico de examinar o projeto
medidas destinadas a compensar a dis- e propor uma alternativa. Até o momen-
criminação historicamente sofrida pelos to, contudo, essa subcomissão tem sido
descendentes de africanos neste País, a atropelada, primeiro pelo calendário
exemplo do que se tem feito em países eleitoral, depois pela pesada pauta das
tão diversos, do ponto de vista políti- reformas e do ajuste fiscal, razões pelas
co, social, econômico e cultural, como quais não concluiu seu trabalho.
Estados Unidos, Índia, Israel, Canadá, Preocupado com a precariedade
Nigéria, Malásia, Alemanha e África do de acesso dos afro-brasileiros aos ins-
Sul, sem esquecer as antigas Iugoslávia trumentos de defesa legal, apresentei
e União Soviética. Trata-se este de um o Projeto de Lei do Senado no 114, de
tema que tem sido muito discutido nos 1997, que tem como propósito facilitar
últimos tempos, mas, em geral, por pes- o recurso à chamada ação civil pública,
soas desinformadas ou comprometidas a qual, atualmente, só pode ser inicia-
– embora nunca o declarem – com os
da pelo Ministério Público. Por esse
interesses do status quo. Fundamental-
projeto, indivíduos ou entidades da so-
mente, o objetivo desse projeto de lei é
ciedade civil organizada também po-
implementar o princípio constitucional
derão instaurar ação civil pública com
da isonomia, aplicando-o nas áreas do
as finalidades de evitar ou interromper
mercado de trabalho e da educação. De
atos danosos à honra ou dignidade de
que maneira? Obrigando as empresas
grupos étnicos ou religiosos, e de ob-
públicas e privadas a reservarem 20 por
ter a reparação de tais atos, quando não
cento das vagas em seus quadros funcio-
seja possível evitá-los. Dessa maneira,
nais para homens negros e 20 por cento
pretende-se dotar esses grupos de um
para mulheres negras; reservando para
instrumento ágil e eficaz que lhes pos-
alunos negros 40 por cento das bolsas
sibilite enfrentar as manifestações de
de estudo em todos os níveis escolares;
racismo e discriminação, quer sejam de
e alterando os currículos escolares, em
todos os graus, para que estes incorpo- caráter individual ou coletivo. Outro as-
rem explicitamente as contribuições dos pecto importante desse projeto de lei é a
africanos e seus descendentes em termos criação de um fundo de defesa e comba-
de história, ciência, cultura e religião, te ao racismo, sustentado pelas indeni-
eliminando ao mesmo tempo as refe- zações a que possam fazer jus os autores
rências preconceituosas e estereotipa- das ações, a ser instituído, até 12 meses
das aos negros nos livros didáticos, bem após a aprovação e publicação dessa lei.
como sua invisibilização. As discussões Aprovado em caráter terminativo pela
suscitadas com a apresentação desse Comissão de Constituição e Justiça do
projeto de lei na Comissão de Consti- Senado, esse projeto de lei tramita agora
tuição e Justiça desta Casa motivaram o na Câmara dos Deputados.
ilustre Senador Pedro Simon a propor a O último dos projetos de lei que
criação de uma subcomissão com o pro- apresentei no Senado foi o de no 234,

Em última Ao apresentar essas iniciativas instância. que acabou apro- dentes e Zumbi – os nomes de João de vado. no de 1798 teve o objetivo de propiciar o Prêmio Cruz e Sousa de Monografia aos homens do povo acesso aos postos obteve pleno êxito. não tive a pretensão de ser lutaram pela emancipação dos escravos. neste história nacional. re. mero preconceito de cor. no justo momento em momento em que se aproxima o fim de que ele comemora 200 anos. no “Livro exemplo do gênio e da determinação dos Heróis da Pátria”. um governo que não fizesse distinção nelas utilizei o acúmulo de experiên- de raça entre os cidadãos. desse modo. tuído nas categorias geral e estudante. ser considerado e demonstraram a bravura dos mártires. o preconceito e a discriminação. foram grande parte dos intelectuais e ativistas marcados para o sacrifício. líderes da universal. o movimento baia. para a cena com ela iluminar novos caminhos para brasileira. Zumbi! . Como Tira- contato com as pessoas e as obras de dentes. Revolução articu. um veículo. quero deixar registrada a cer favorável do ilustre Senador Lúcio prestação de contas deste filho de Zum- Alcântara. ra. que inscreve – ao lado de Tira. atraindo uma parti- de trabalho que lhes eram negados por cipação numerosa e qualificada. Insti- soldados e artífices. xás na tarefa de manter acesa a chama e promovendo o justo resgate. e também como Zumbi. um cavalo dos nossos ori- parar uma imensa injustiça histórica. de um importante episódio da a redenção de nosso povo. O propósito dessa iniciativa é. Projeto de Resolução instituindo o Prêmio Cruz e Axé. de meus esforços e concentrado o que me resta de energias no propósito de Além dos supracitados projetos concretizar os generosos ideais de nosso de lei. aqui. Prefiro. maiores nomes da poesia simbolista gens e Lucas Dantas Torres. original. Sousa de Monografia. Manuel Faustino aquele que muitos consideram um dos dos Santos Lira. dos afro-brasileiros em sua luta contra lada nas ruas. Tratava-se. os revolucionários baianos no Senado. cuja biografia constitui um Conjuração Baiana de 1798. Assim. tre Senador Esperidião Amin. Ao contrário. pois. Sentencia- cias pessoais e coletivas propiciado por dos com a pena de morte. os líderes do uma militância de quase sete décadas movimento foram executados e tiveram em que tive a oportunidade de travar seus corpos esquartejados. de homenagear Deus do Nascimento. esse projeto de lei ainda tra. meu mandato. como forma da causa negra na África e na Diáspo- de aplacar a fúria da Coroa portuguesa. bi. entre escravos e libertos. Com pare. Luís Gonzaga das Vir. apresentei em parceria com o ilus- herói maior. na certeza de ter envidado o melhor mita nesta Casa. nem me travesti com as rou- perseguindo o ideal da instalação de pagens de um iluminado. Pronunciamentos Homenagem a Zumbi dos Palmares 85 de 1997.

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O Presidente Sarney assinará decreto de tombamento da Ser- ra da Barriga. Estado de Alagoas. Dia Nacional da Senhor Presidente. aniversário de Estamos a uma semana do próxi- mo Dia Nacional da Consciência Negra. Consciência Negra. Sessão de 13 de no- vembro de 1985. Pronunciamento feito na Câmara dos Deputados. aniversário da morte do herói e mártir nacional afro-brasi- leiro Zumbi dos Palmares. a Re- pública dos Palmares. Agregando popu- lações de vários quilombos. Zumbi 20 de novembro. Senhores Deputados. E para essa data está marcado um acontecimento de suma importância para a comunida- de afro-brasileira. Palmares . local onde se fundou a primeira nação livre criada em todo este continente após a agressão colonizadora da Europa.

o resultado desse da população afro-brasileira a criação do ato poderá significar um avanço ou um Dia Nacional da Consciência Negra a 20 . pois jetivo requer a mobilização de recursos é uma aspiração para a qual está mobi. materiais e financeiros que lizada desde o final da década passada. que nem por isso deixam nifica apenas o começo. distorcido. nos interpelar Dr. para Memorial Zumbi. Holanda e do Brasil. não negros. não podem ser desviados para a constru- quando foi idealizado o Memorial Zum. Para Senhores deputados. ciência e identidade histórica. O que importa não é o proclamá-las apenas e exclusivamente tombamento em si. Essa organização. um local onde a vivo da luta pela emancipação do povo comunidade possa fortalecer sua cons- negro.” Concluindo tes têm possibilitado o êxito do nosso esse raciocínio. cultural e Senhores deputados. à guerra colonial de Por. conforme o destino que se que resistiram durante um século. folclorizado ou reduzido à Quero aqui registrar minha homenagem condição de mercadoria. pioneira na his. ou seja. o País está repleto de tombamento. ção faraônica de atração turística inaces- bi. Carlos Moura e com um slogan já tradicional: “Mas nós o historiador Joel Rufino dos somos brasileiros. o Memorial Zumbi é o de criar um último de seus reis eleitos. tombamento. Especificamente. Tal ob- uma vitória da comunidade negra. nem cultivem qualquer respeito a ela. igrejas. um patrimônio nacional. objeto de uma a todos os responsáveis pela criação e exploração comercial cujos beneficiá- consolidação do Memorial Zumbi e às rios não pertençam à nossa comunidade organizações e indivíduos que o inte. Pois o compromisso do tugal. A persistência e dedicação des. foi iniciativa a comunidade negra. locais históricos e mo- Devo dizer ao mesmo tempo. museus. evoco o caboclo Os maliciosos oponentes da nossa guerreiro Olympio Serra. e não o fim. Por que então negar à história e cultu- pulação afro-brasileira no que tange ao ras negras seu conteúdo africano. e esse é Santos. embora este consti. Não podemos correr o risco Movimento Negro Nacional e órgãos de mais um aspecto da cultura negra ser oficiais como a Fundação Pró-Memória. sobretudo nesse particular do às avessas. retrocesso. portugueses. o tomba. artística de coletividade negra com suas mento da Serra da Barriga representa raízes e personalidade própria. nossa responsabilidade para com a po. nos rotularão de racistas projeto. tombou na polo de cultura de libertação do povo luta armada e constitui hoje um símbolo afro-brasileiro. humanos. “brasileiras”? tua importante conquista histórica. que numentos celebrando os feitos e heróis o tombamento da Serra da Barriga sig. naturalmente. Ora.90 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate contava com mais de 30 mil habitantes. da de constituir-se em patrimônio nacional. o Exu mineiro luta virão. de dê ao espaço histórico recuperado pelo 1595 a 1696. gram. sível aos verdadeiros herdeiros daquele tória brasileira. congrega entidades do patrimônio. Zumbi.

mas também em Cultura. um projeto. mente igualitário. já aprovado por esta Casa. Nada mais oportuno. de luta afro-brasileira que denomi- Vossa Excelência se tem revelado um no de quilombismo e que vem sendo bravo lutador. versado dência do povo negro num Brasil real- da tribuna desta Casa. colegas desta Casa as bases teóricas zação do tombamento em homenagem dessa filosofia de organização social e . O SENHOR ABDIAS NASCI- MENTO – Agradeço a Vossa Excelên- O SENHOR CELSO PEÇANHA cia o testemunho que dá neste instante – Nobre Deputado Abdias Nascimento. para todas as outras. como também outras con- no combate – verberando com todo ardor quistas da comunidade negra. Vossa Excelência tem sido um dos Continuo. Não há como ne. inclusi- a segregação racial que procura afastar ve a criação da Assessoria para Assun- os homens de cor da nossa comunidade. e firme de Vossa Excelência. quando telegrafava ao presiden. frutos de uma prática e teoria conferências. criada. formando-se aqui uma civili- vimento Negro Nacional. que a obra que se há de inaugurar e ins- promisso deste Congresso com a demo. já agora. Concedo o aparte ao nobre depu- tado Celso Peçanha. manhã. há de ficar com seu nome marcado. e da Barriga. então. tornado-o lei da raça branca e também. no Brasil ou no exterior. democrata e justo. declarando esse dia feriado nacional. Vossa Excelência onde tenho certeza de que será aprovado. por várias vezes. pela negro no Brasil. brasileiros hão de reconhecer que esta gra no Congresso Nacional. líderes mais destemidos na campanha que visa apontar à civilização brasileira Considero a realização desse os valores do negro ao longo da sua his. amarela. apresentei Nação foi embalada. alimentada. que a história há de regis. símbolo e exemplo projeto ainda espera votação no Senado. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 91 de novembro. o serviço que ele prestou ao País. da luta que vimos sustentando há mais estou ouvindo com muita atenção o dis. do que expor para meus ilustres te da comissão responsável pela reali. articulada durante toda a história do trar como dos mais arrojados. Presidente. taurar dentro em breve tem o dedo forte cracia em todas as suas dimensões. Sr. amamentada pelos negros. ao lado daqueles outros integrantes mesmo dia 20 esse projeto. sonho. gar. Se. Eles empurraram esta Nação para fren- ria uma grande alegria ver assinado no te. Todos os levar adiante as lutas da comunidade ne. gate da dignidade e da plena indepen- sunto que tem. o zação esplêndida. sustentada. por- concretizando simbolicamente o com. Cumprindo meu compromisso de Casa em favor da raça negra. Dia Nacional da Consciência Negra. que é o tombamento da Serra tória. Infelizmente. de 60 anos pela recuperação e pelo res- curso de Vossa Excelência sobre o as. Hoje. eu recordava o destemor com símbolo da luta de libertação do nosso que Vossa Excelência tem agido nesta povo. data que realmente é um a Zumbi. da e configurando mais uma vitória do Mo. tos Afro-Brasil eiros do Ministério da Não só desta tribuna.

função de recente interesse do expan- que elaborei por ocasião do Segundo sionismo industrial manipulado pela Congresso de Cultura Negra das Amé. pátria. elite econômica. no sis- gro brasileiro recuperar sua memória. com essa profunda erosão e irreparável descré- operação tentando seccioná-Io do seu dito.92 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate política. após a chamada abolição da As estratégias e os expedientes escravatura (1888). Memória: a antiguidade do sa. qualquer disciplina ensinando apreço. nunca houve sistematicamente agredida pela estrutu. ra de dominação ocidental-europeia há interesse ou respeito às culturas. religiões. A imigração massiva de eu- ropeus. ignorou o continente e publicado no Brasil no meu livro O africano. Por isso. continente e na diáspora foi continua- ao contrário do que afirmam certos his. cana imposta pela Inglaterra. da nossa lembrança a presença viva da ços para evitar ou impedir que o negro mãe África. mente impedido ou dificultado entre toriadores convencionais de visão curta outros obstáculos. 1980). ocorrida daquela data em diante. como também no propósito de erradi- ber negro-africano car da mente e do afeto dos descen- dentes de escravos a imagem da África como lembrança positiva de nação. subsidiada pelos cofres públi- O QUILOMBISMO: UMA cos. Entretanto ne- mórdios da escravização dos africanos nhum empecilho teve o poder de obli- no século XV. logo que não conseguiu mais burlar a litância pan-africana (Petrópolis: Vo. econômicos ou sociais de origem no continente e de seus descendentes es. por volta de 1850. o Brasil. utilizados contra a memória do negro car-se e ativamente assumir suas raízes africano ultimamente vêm sofrendo étnicas. históricas e culturais. ALTERNATIVA POLÍTICA AFRO- fundamentou-se não só na intenção das -BRASILEIRA classes dominantes em tornar a popu- lação do País cada vez mais branca. sistemas políti- se registra com a história dos africanos cos. do afro-brasileiro com seus irmãos no A memória dos afro-brasileiros. africana. A não ser em mento. E o próprio contato direto palhados pelas Américas. ma tradicional. línguas. não se ini. pudesse identifi. Esse fato se deve à dedicação e . Voltou suas costas à África quilombismo: documentos de uma mi. Como parte deste pronuncia. realizado no Panamá em 1980. lerei um texto sobre o assunto. ar- quase 500 anos. pela negação de e superficial entendimento. viajar para fora do País. de É urgente a necessidade de o ne. Em nosso País. tronco familiar africano. Um processo análogo tes. brasileiro. proibição do comércio de carne afri- zes. como nor- ricas. meios econômicos que lhe permitissem cia com o tráfico negreiro nem nos pri. de terra nativa. a elite terar completamente de nosso espírito e dominante sempre desenvolveu esfor. tema educativo brasileiro.

Em vez de se cidadãos genuínos do Brasil. A memória do negro brasilei. além – todos estão produzindo obras funda- de egiptólogo. há longo tempo obnu- falsidades. Molefi uma confrontação radical e um desa- K. dos Estados Unidos. São os bens de cultura apagar a memória do saber. há tanto tempo se vêm tecendo em tor. OJa carbono do IFAN (Instituto Fundamen- Balogun e Wande Abimbola. George desonestidade científica e carência ética no tratamento dispensado aos povos. ou vermelho escura. Esses egípcios eram ne- realizações dos povos de origem negro gros. a um mente a seu livro The African origin of tempo estudiosos. e não um povo de origem branca africana. versão em inglês de e criadores de arte e literatura. Ter um passado é ter uma con. Utilizando-se dos recursos futura. mental de Cheikh Anta Diop. Quero mencionar alguns ginalmente publicados em francês. Théophi le Obenga. da Etiópia. em Dacar. Karenga. Yosef BenJochan- vilizações e culturas da África. das Egito antigo. apresentar à história como um de- . ori- pora africana. ci- M. distorções e negações que biladas pelas manipulações. Considero oportuno fazer algu- cupados com a destituição que a nação mas considerações. da Guiana. resgatando a significação e os valores ses eminentes irmãos africanos se funde das antigas civilizações erigidas pelos e se canaliza rumo à exorcização das negros africanos. criados pelos nossos antepassados no mento científico e filosófico. o esforço des. Eis como a esse respeito se ligados. Anteriorité des civilisations negres. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 93 competência de alguns africanos preo. do dito de início que o volume apresenta Senegal. negros. Asante. da Nigéria tal da África Negra). do conheci. filósofos civilization (J 974). Chancellor Williams. linguista e mentais para a África contemporânea e antropólogo. ainda que breves. Dia Nacional da Consciência Negra. Esse grupo de africanos. do químico. manifesta Diop: sequente responsabilidade nos destinos Os egípcios antigos foram e no futuro da nação negro africana. diretor do laboratório de radio- Congo-Brazzaville. fio irrespondível ao mundo acadêmico ore. principal- ricana. falsidades. enfim. a negro africana tem sofrido de parte da respeito de certos trechos da obra funda- civilização capitalista euro norte ame. conforme estudio- ro é parte e partícipe nesse gigantesco sos europeus do século XIX proclama- esforço de reconstrução de um passado vam com ênfase tão mentirosa quanto ao qual todos os afro-brasileiros estão interessada. Shawna Maglangbayan Mo. James. Haki Madhubuti e Maulana Ron ocidental e à sua arrogância intelectual. Wole Soyinka. esse sábio está sob perspectivas diversas. O fruto moral da sua civili- mesmo enquanto preservando a nossa zação está para ser contado entre os condição de edificadores deste País e de bens do mundo negro. Atuando em campos diferentes e científicos ocidentais. cientistas. distorções e roubos dos chamados cien- no da África com o intuito de velar e/ou tistas ocidentais. engloba seleções de Nations negres et culture e personalidades do continente e da diás. Diop é nan. Seja desses nomes: Cheikh Anta Diop. historiador.

plagiou do Egito negro) e era espe- (1974: 45) cialista em dialética. a teoria dos quatro ele. os egiptó- mentos de Tales de Mileto. pollion. Ele demonstra que. e a ciência moderna estão enraiza- dos na cosmogonia e nas ciências Eles geralmente a reconhece- egípcias.) quatro séculos antes da tativa desesperada de refutar essa publicação de A mentalidade pri. Gostem o denominador comum de todas as ou não gostem. teses dos egiptólogos. sua relação gar verdades como esta: íntima e profunda afinidade. por teorias nos fatos históricos. esse mundo negro logos ocidentais. Só temos de meditar sobre ram como a mais antiga civilização. uma o que é. egiptólogos prosseguiram obstinada- cia quase 500 anos antes do nascimento mente no vão esforço de provar “cien- de Hegel ou Marx. Quase mitiva. os ocidentais têm de tra. não esqueçamos. de Levy-Bruhl. Mas o imperialismo sendo crifica. O nascimento da egip- As afirmações de Diop se ba. da antiguidade egípcia e grega. Daí em diante. a África ne. a qualquer custo. do conhecimento “universal” a respeito em todas as mentes. tificamente” uma origem branca para a Diop revolve toda a mistificação antiga civilização do Egito negro. se tornou crescentemente figura essencialmente identificável “inadmissível” continuar aceitando a Cristo. que se sa. A matemática hieróglifos da Pedra Rosetta por Cham- pitagórica. o judaísmo. tologia foi assim marcado pela ne- seiam em rigorosa pesquisa. o islamismo ladas. logos se desarticularam atônitos diante terialismo epicureano.. o jovem. opinião [de um Egito negro]. elas eram artes da magia europeia dos egiptó. o ma. a que tinha engendrado todas as outras. e a decifração dos te dos nossos olhos. em 1822. todos os egiptólogos enfatizaram gra muçulmana comentava a lógica sua falsidade como uma questão formal de Aristóteles (a qual ele fechada. isso aconte. no Egito.. o idealismo da grandiosidade das descobertas reve- platônico.94 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate vedor insolvente. mais precária que fosse a base dessas talmente negro em país branco.. Por que transformou um Egito fundamen. Osíris. pode ser caracterizado como uma ten- (. em 1799. o deus redentor. ( Diop 1963:212) A pretensão eurocentrista nesse episódio se expõe de corpo inteiro: os E. aceitas pelo mundo “civilizado” como . é o próprio iniciador da civilização após a campanha militar de Bonaparte “ocidental” ostentada hoje dian. derruindo cessidade de destruir a memória de as estruturas supostamente definitivas um Egito negro. a teoria evidente até então: de um (1974:XIV) Egito negro. morre e é ressuscitado..

dos no esforço de atender uma carên- mo branco. afro-brasileira. A invenção da geometria nasceu do futuro complementar os detalhes da necessidade da divisão geográfica. o qual traça os laços egípcios do seu sintegração francamente retrocessivo. b) uma similaridade ou identidade de cia. Lucas. as inun. para a edificação da civilização egíp. Parece que tais rela- quela constatação científica de que a ções foram tão íntimas a ponto de se civilização do Egito antigo fora erigi- poder “considerar como um fato his- da e governada por um povo negro. humano diante do feroz dogmatismo Há um pormenor que interessa desses egiptólogos ocidentais. c) uma similarida- tes: resultados de acidente geográfico de ou identidade de ideias e práticas que condicionou o desenvolvimento religiosas. O tórico a possessão conjunta do mes- sucesso devia-se a fatores históricos. quisadores africanos e afro-brasileiros mum. Será tarefa para os pes- dora da vida e das atividades em co. particularmente à memória do negro monstrou paciência e gentileza expli. povo iorubá. The religion of lhe Yorubas. lugares. tenha resultado no ape- expandido. histórica. que a latinização de Hórus. objetos etc. Olumi- outras influências e diversa situação de Lucas. Seguindo essa pista de do centro e do oeste do continente. por toda a África negra. Dia Nacional da Consciência Negra. especificamente com quer gênio especificamente negro na. devia-se a con- dições mesológicas (clima. nomes de pessoas. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 95 uma pedra fundamental do supremacis. Mesmo tendo-se Osíris e Ísis. coletivas de defesa e sobrevivência. brasileiro: aquele ern que Diop men- cando-Ihes que ele.). . crenças religiosas. ao embate de outras disciplinas. estudo comparativo em linguística e a civilização egípcia. Diop levanta a hipótese de naturais etc. às margens do vale do Nilo. dentre os quais Diop enumera es. dações que forçavam providências 1978: 18). de. desse ponto fundamental de nossa his- e todos os demais avanços foram obti. o povo iorubá. filho de mentos não raciais. Diop cita J. (Diop. cia requerida pela edificação de uma Quanto a Diop. a África negra. d) uma sobrevivência de político-social dos povos que viviam costumes. Diop. tória. compassivo e sociedade viável. não alegava ciona as relações do antigo Egito com nenhuma superioridade racial ou qual. lativo Orixá. surgiu a necessidade dimensão da antiguidade da memória de uma autoridade central coordena. 1974: 184. mo habitat primitivo pelos iorubás e explicou-lhes Diop. mar a atenção para essa significativa Nesse contexto. situação que favorecia a unidade e ex. entrou num processo de de. somadas a outros ele. concluindo que tudo leva O importante é conhecermos alguns à verificação do seguinte: a) uma simi- daqueles fatores que contribuíram laridade ou identidade de linguagem. recursos egípcios”. Meu objetivo aqui é apenas cha- cluía o egoísmo individual ou pessoal.

Em seu livro Pan-aifrica. Diver. olmeca. várias culturas pré-colombianas. Além do extraordinário processo citemos para ilustrar o historiador me. identidades importante nesse sentido é a de Ivan linguísticas incontáveis. Outros autores. caracteres somáticos africanos em obras canos em várias partes das Américas plásticas de cerca de 600 anos antes de muito antes da chegada de Colombo. e das civiliza- raízes e marcas indeléveis no rosto de ções inca. (1880: 109). de retratar faces e figuras em cerâmica xicano Orozco y Berra. estabeleceu uma relação ampla e legí- nismo na América do Sul: emergência tima entre povos africanos e povos in- . que em 1862 já e esculturas. têm e construtores das formidáveis cidades contribuído para a recomposição da pre. na Co- tramos os antecedentes históricos do lômbia. Ela sugere a relação entre as esculturas tigo ou na África Ocidental que encon. Andrezej Wiercinski desenho e engenharia dos povos origi- (in Sertima 1976). referido a esse fenômeno. sença dos africanos nas Américas antes Esse intercâmbio afro-americano de Colombo. cujo livro They came be. Jairazbboy (1974). A. da Colômbia. e tolteca. pré-colombianas (1981: 139). sível testemunho do ativo intercâmbio nitiva contribuição africana às culturas que existiu entre a América e as civiliza- pré-colombianas das Américas. que foram os autores especialidade e época respectivas. visitantes e imigran. subestima as enormes capacidades de thenau (1975). conforme palmente no México. assinalar tais como Leo Wainer (1922). de uma rebelião negra (1981). ções africanas da época. Cristo com a sua contraparte egípcia e E não se deve considerar esse um fenô. afro-brasileiro. assim como outros símbolos. Lopes nos nas Américas de nenhuma forma de Gomara (1954). Alexander Von Wu. nos adverte Elisa Nascimento. Nicolas a presença pré-colombiana dos africa- Leon. de San Agustín e Tierradentro. J. no mundo tilham também técnicas de mumifica- antigo. símbolos como exemplifi- Atualmente. Mas. elementos compõem um eloquente e vi- fore Columbus (1976) registra a defi. trata-se podem ser observadas a respeito da cul- de uma presença profunda que deixou tura taína. engenharia e com os africanos. construção de pirâmides. Todos esses Van Sertima. Dr. de nossa memória na presença de afri. Elisa -colombiana Larkin Nascimento também assinala o desenvolvimento dessas investigações.96 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate Memória: A Afro-América pré. Existe outra dimensão traços. Tais comparações meno passageiro e superficial. temas míticos tes. do Peru. princi. Bolívia e Equador. cada qual em sua nais americanos. e artísticos. que os mexicanos cultivavam ção. técnicas artísticas e funerárias. africano-ocidental. asteca e maia do Mé- sos historiadores e pesquisadores têm-se xico. Entretanto não é só no Egito an. Entre outros. essas civilizações compar- mencionava a relação íntima. tradições funerárias. a contribuição mais ca a serpente emplumada.

e meio. bem estar e da renda nacional. o negro é o próprio corpo e alma populares ou “residenciais”. nutridos do moradia os guetos de várias denomina- sangue martirizado do escravo. gados. bismo busca no presente o futuro. ala- de ser um arrivista ou um corpo estra. e atua Porções significativas da popu- por um mundo melhor para os africanos lação brasileira de origem europeia co- nas Américas. Imediatamente. com deste País. ele reconhece e proclama meçaram a chegar ao Brasil nos fins do que sua luta não pode separar-se da li. se memória do negro brasileiro atinge uma beneficiando deles e preenchendo as etapa histórica decisiva no período es- vagas no mercado de trabalho que se cravocrata iniciado de forma sistemática negavam aos ex-escravos e seus descen- por volta de 1500. e necessitados. destinando-lhe como áreas de res da economia nacional. se o quilom. conside- . porões. o estrutura de produção à medida que se africano escravizado foi o primeiro e o aproximava a data “abolicionista” de 13 único trabalhador. do reconhecido. logo após a chamada “descoberta” do território e o início da dentes. entretanto. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 97 dígenas americanos que pré-data. A base histórica para a solidarie. o histórica. Excetuando os ín. Dia Nacional da Consciência Negra. mocambos. Longe ções: favelas. pobreza. A despeito dessa realidade uma anterioridade de vários séculos. invasões. cista. Creio atual do negro à margem do sistema em- ser dispensável evocar neste instante o pregatício ou degradado no semi-empre- chão regado pelo suor do africano. Estes foram literalmente expul- colonização do País. sos do sistema de trabalho “livre” e da dios. a erguer as estruturas econômi. diamante e prata. lhes concedeu como parceiros de raça e do supremacismo eurocentrista. progressivamente exterminados. os cafezais é imposta pelo duplo motivo de raça e e todos os demais elementos formado. tendo-se em vista canaviais. durante três séculos de maio de 1888. os africanos e seus tráfico negreiro estabelecido pelos euro. passa- ras. Consciência negra e sentimento Tais imigrantes não demostraram nem quilombista escrúpulo nem dificuldades em assumir os preconceitos raciais vigentes aqui e Numa perspectiva mais restrita. os algodoais. século passado como imigrantes pobres bertação dos povos indígenas destas ter. a mineração a segregação residencial urbana que lhe de ouro. essencialmente ra- introduzida pelos europeus. descendentes nunca foram e não são tra- peus. Levando-se em conta a condição cas deste gigante chamado Brasil. vilas e/ou conjuntos nho. os go e no subemprego. tados como iguais pelos segmentos mi- dade entre os povos originais de ambos noritários brancos que complementam o os continentes foi muito mais profunda quadro demográfico nacional e que têm e autêntica do que tem sido geralmente mantido a exclusividade do poder. Assim sendo. que foram e são igualmente vítimas ram a desfrutar de privilégios que a so- do racismo e da destruição desumana ciedade dominante. a na Europa contra o negro africano.

tódica e constante vivência das massas Importante é destacar que essa africanas que se recusavam à submissão. cultural. a rentemente acidental e esporádico no essa práxis afro-brasileira de resistência começo. uma situação mais grave. nante. mitidos ou tolerados pela classe domi- nidade afro-brasileira. eu denomino de quilombismo. continuidade africana.98 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate rando-se a permanente brutalidade po. afoxés. Do outro lado da lei se er- rar a própria existência do negro como gueram e se erguem os quilombos radi- ser humano. Mas os quilombos “le- dignidade. frequentemente com ostensivas ao redor de 95% da população favelada finalidades religiosas (católicas). de improvisação de emergência em me. estruturava-se em formas associativas licial e as prisões arbitrárias motivadas que tanto podiam estar localizadas no pelo fato de ser negro. a um tempo integrando bos no espaço e no tempo fez deles um uma prática de libertação e assumindo autêntico movimento sociopolítico e o comando da própria história. cultu- que caracteriza uma irrefutável segrega. da opressão sistemática praticada pelas cravizados. compreende-se seio de florestas de difícil acesso. Isso no que concerne as aparências e os objetivos declarados: à população negra urbana. vamente. Detalhe ativas. tradição de luta quilombista existiu e à exploração. recre- do País é de origem africana. A esse econômico amplo e permanente. essa rede de associações. gafieiras foram e são os nossa história. étnica. Não importam ção racial de fato. fugindo ao cativeiro e orga. beneficentes. No entanto fundamentalmente. rapidamente transformou-se à opressão e de autoafirmação política. De modo geral. galizados” e os fora da Iei formam uma nizando sociedades livres no território unidade. complexo de situações e significações. Dessa realidade é que quilombos “legalizados” pela sociedade nasce a necessidade urgente de assegu. desempenhando escravos ainda vegeta uma existência um papel relevante na sustentação da parasitária e trágica no seu total desam. . Apa. uma única afirmação humana. ir- Esse é o esboço imperfeito de mandades. Objeti- vida de seres humanos. Pode-se dizer que não vivem uma de resistência física e cultural. ram uma importante função social para rais que a maioria dos descendentes de a comunidade negra. do sistema escravista. de resgatar sua liberdade e elites no poder. A multiplicação dos quilom. esportivas. como também mudança progressista possa ocorrer es. o que por que todo afro-brasileiro consciente facilitava sua defesa e organização eco- não tem a menor esperança de que uma nômico-social própria. clubes. esco- sido realidade em todo o decorrer de las de samba. à humilhação e à violência existe através de todas as Américas. Genuínos focos paro. a qual tem terreiros. tendas. centros. confrarias. O quilombismo Desde as primeiras décadas de 1500. todas elas preenche- cumpre ressaltar que é nas zonas ru. rais ou de auxílio mútuo. Os quilombos resultaram calmente confrontadores e desafiadores dessa exigência vital dos africanos es. brasileiro. assumiam modelos de organização per- pontaneamente em benefício da comu. grêmios. dominante.

na Jamaica e Estados Uni. livre. que existiu no Es- palenques. -realizaram um grande avanço polí- ganização política popular das massas tico. A essas sangue e na vivência dos afrobrasileiros. idéiaforça. O dinãmico na estratégia e na tática de modelo qt. na Venezuela denominavam. número de organizações afro-brasileiras que se intitularam no passado e se in. energia que inspira mode- dades de origem africana. todos os Estados onde existe significa- plo quilombista significa como valor tiva população de origem ~. Zumbi. Dia rais. cujas raízes estão às exigências do tempo histórico e às entranhadas na história.ilombista vem atuando como sobrevivência e progresso das coletivi. essas sociedades gulhosos por descendermos de africanas livres se chamaram cimarro. nos reunimos hoje. econômicas. ou seja. Dia Nacional da Consciência Negra. nacional. o quilombismo se mantém as massas negras devido ao seu profun. em Cuba e Colômbia seu nome foi dos Palmares. econômico e social. na cultura. Pesquisando a história des. tado de Alagoas. no situações do meio geográfico. O quilombismo e primeira e única tentativa brasilei- seus vários equivalentes em todas as ra de estabelecer uma sociedade Américas -cimarronismo. esta que sempre esteve presente em A constatação fácil do enorme todos os quilombos. Discriminação Racial assim registra seu meter aos horrores da escravização conceito quilombola ao definir o Dia da européia. e efetiva data: 20 de novembro. até holandês. responsável pela dade e luta comum. para declarar a todo sas comunidades africanas livres nas o povo brasileiro nossa verdadeira Américas. de 1595 a 1695. por exemplo. Nessa dinâmica repleta de capaz de mobilizar disciplinadamente heroísmo. palenquismo. No Nós. os Nacional da Consciência Negra! afro-americanos de todo o hemisfério Dia da morte do grande líder negro consolidarão sua herança de solidarie. o los de organização dinâmica desde o quilombismo tem-se revelado um fator século XV. e em cumbismo. Consciência Negra. desafiando o domínio português e dos. -se cumbes. Com efeito. circunstâncias se devem as diferenças O Movimento Negro Unificado contra a nas formas superficiais das organiza- . após 283 anos. or- México. atendendo do apelo psicossocial. líder da República Negra nes. bem como suas bases cultu. negros brasileiros.liicana. A continuidade dessa consciência titulam no presente de quilombo e/ou de luta político-social estende-se por Palmares testemunha quanto o exem. isso durante séculos. democrática. maroonismo significam hoje que todos -negros. políticas e sociais. em manifesto públi- munidades que desataram contínuas e co de 1978: vitoriosas lutas armadas contra os co- lonizadores. Price 1973). Tentativa negras. índios e brancos uma alternativa internacional para a or. em constante atualização. e formaram compactas co. sociedades maroons (Moura 1977. Zumbi. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 99 africanos livres recusaram-se a se sub.

condi- mília quilombista faleceu recentemente. (1978:87-8) las estruturas dominantes.) A posição do Quilombo é vida negra. um imperativo da libertação mundial. sexo ou ideologia. Sendo o apropria às vezes d(‘o mecanismos que a sociedade dominante maliciosamente quilombismo uma luta anti-imperialis- lhe concedeu com o propósito oculto de ta. sustenta uma radicaI solidariedade com são do alvo. as raízes da arte negra brasileira. mento. conseqüentemente ele vê redenção do seu povo. nos subúrbios do nacionais e integridade política. Ele organizou a Escola respeitando suas respectivas culturas de Samba Quilombo. Essa mulher Quilombo . transformando-os numa es. linha de interesse das lutas de libertação . “unidade” ou da “solidariedade”. No livro que ele e Isnard es- Nascimento. exemplo ilustre. o negro utiliza habilmente todos os povos em luta contra a explora- esses propósitos não confessados de do. Nessa rever. fundo senso do valor político-social do Uniformidade sem rosto em nome da samba. obedecendo a um pro.. há trechos como este: era praticada.. a opressão. infiltrando-se até os mais principalmente contrária à impor- íntimos refolhos da personalidade afro. religião. não está na uma lúcida visão dos objetivos da esco.. rante. e interesses mais legítimos do povo afro- são. porém consistente e perseve. o racismo e as desigual- mesticação. pécie de bumerangue étnico. Pretendemos chamar Percebe-se o ideal quilombista a atenção do povo brasileiro para difuso. manteve político-social do Ocidente. cessidade de se preservar toda damental na consciência histórica dos a influência do afro na cultura negros” (1979: 17-17). outras vezes Nesse último trecho. nos deixou um a luta de libertação de todos os povos. ) nasceu da ne- ter o quilombo exercido “um papel fun. Um ideal forte e denso que tos e acabados produzidos no ex- normalmente perman~cereprimido pe. O na- de estratégia. onde os laços étnicos e an- cestrais eram revigorados”. até o instante derradeiro. permeando todos os níveis da ( . No essencial todos la que fundou e presidiu. Nacionalismo aqui não deve ser Mas também acontece que o negro se confundido com xenofobismo.Grêmio Recreativo negra estudiosa do nosso passado afmna Arte Negra ( . Nesse tipo cor. Candeia. “um local onde a liberdade creveram. dades moti vadas em função de raça. terior. cionada ao ditado de qualquer modelo mas. Foram. ção. tação de produtos culturais pron- -brasileira.100 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate ções quilombistas. os autores ele é sublimado por meio dos vários tocam num ponto básico do quilom- mecanismos de defesa fornecidos pelo bismo: o caráter nacionalista do movi- inconsciente individual ou coletivo. Como Rio de Janeiro. brasileira. Esse importante membro da fa. o compositor de cionalismo negro é universalista e inter- sambas e negro inteligente dedicado à nacionalista. ele se articula ao pan-africanismo e assim melhor controlá-lo.. no rumo dos os quilombos se igualaram. nas palavras da historiadora Beatriz -brasileiro.

forças repressivas do supremacismo e não do movimento abolicio. possuírem o sangue do branco opressor. no Es- A citação do capitão do mato é tado de São Paulo. de cultural e experiência histórica. nhor.. estropiado. traduzem em lucro social e lucro pe- (1978:7)” cuniário. na grande imprensa. que se desenvolveu a luta serviços que se prestam à repressão se dos negros contra a escravatura. estilos e hábitos de existência africana. as terras do . existem inalterada. Ocasionalmente. Os membros dessa pertinente e oportuna: em geral. ainda se pela força do governo. porém assim mes- no lucro que teriam devolvendo mo uma linguagem africana mantida e os fugitivos a seus donos. O quilombismo. Dia Nacional da Consciência Negra. essas fugidos ganharam o nome de comunidades ganham notícias externas triste memória: capitão do mato. Candeia registra: distanciam das realidades do seu povo e se prestam ao papel de auxiliares das “Foi através do Quilombo. morenos. de negros africanos no passado. internalizando como positi- Num folheto intitulado 90 anos va a ideologia do embranquecimento (o de abolição. destituição das camadas negras continua Neste Brasil tão vasto. E tanto ontem quanto hoje os nista. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 101 dos povos oprimidos. Não pelo fato de deve enraizar-se na sua própria identida. Nas últimas décadas. Em nossos dias não devemos permitir que nos dividam em categorias A luta contra os escravocratas pigmentocráticas adversas de negros. ainda não terminou e o movimento mulatos. trigueiros. se Samba Quilombo. não só ou quase. grande extensão deixada pelo antigo se- ra. publicado pela Escola de branco é superior e o negro inferior). pois a situação de penúria e na diáspora. isto é. ou com mínimas alterações inúmeras comunidades negras vivendo de superfície. etc. isto é. situada nas imediações do salto de Pirapora. O sentido do nossa identidade fundamentaI de afro- quilombismo está tão vivo hoje quanto -brasileiros. branco. divisão concebida para enfraquecer tado seu papel histórico. Ainda podemos encontrar centenas. como aconteceu à (1978:5)“ com unidade do Cafundó. Esses conservada na espécie de quilombismo especialistas em caçar escravos em que vivem. lentamente reprimidos. utilizando do idioma original trazido da bém por indivíduos interessados África. nos ensina milhares desses negros que vivem uma que a luta de qualquer e todos os povos existência ambígua. foram comunidade herdaram uma fazenda de eles mulatos. como filosofia nacionalista. assimilados pela classe dominante. Em alguns casos. Mais uma transcrição de isoladas. que denominamos de quilom- Candeia: bos contemporâneos. negros de pele cla. Desligadas do flu- xo da vida do País. muitas delas mantêm “Os quilombos eram vio. mas tam. mas porque. crioulos quilombista está longe de haver esgo.

com a exploração do turismo fo- . des. tigação mais ampla e profunda. proteger esse reduto da cultura editada pelo Instituto. esses latifundiários de tomamos conhecimento de outras pes- mentalidade escravocrata não podem quisas documentando a mesma realida- aceitar que um grupo de descendentes de. evocamos nossas visitas a Ja. 52: existência de muitas outras espalhadas pelo País afora. Entretanto a revista Afrodiáspora. de da situação genérica dessas comunida- Renato S. ências Sociais da USP. Rio de Janeiro. restrições policiais. E. Campinho. Ipeafro iniciou sua pesquisa. foram sur.102 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate Cafundó começaram a ser invadidas por Registre-se que. É um gando essa realidade. 10 de dezembro de 1975. constantemente ameaçadas pela violência dos poderosos que cobiçam O avanço de latifundiários e de suas terras. por meio do pro- truir o Cafundó. mente fortalecido por um podero- gindo notícias de outros quilombos. 1983). pelo menos pírito Santo. os terreiros do candomblé fo- no Maranhão. quase todos os Estados e Territórios do que se estendeu às áreas distantes Brasil. depois que o latifundiários das vizinhanças. comunidades negras. vai dedicar um afro-brasileira _ embora a capital número aos resultados desse começo de baiana arrecadasse gordas divisas pesquisa. Entre os exemplos estão os trabalhos de africanos possua uma propriedade incentivados pelo Departamento de Ci- imobiliária e estão determinados a des. Obvia. Vale a sável pela execução da pesquisa. À medida que movido pela polícia foi sensivel- desenvolvíamos a pesquisa. O Instituto de Pesquisas e especuladores de imóveis nas terras da Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) gente negra está pedindo uma inves- está engajado numa pesquisa investi. O número enorme de exemplos do centro da cidade onde resso- aumentou tanto o universo de pesquisa avam os atabaques. Queiroz (USP. Município de nos últimos vinte anos. o quilombo do Marmelo ram sempre fustigados por severas em Goiás. rurais quanto nas zonas urbanas. Droga e São Mateus no Es. há quase dois sécu- caraí dos Pretos. em 1981. blicados nos livros Negros de cedro. o cerco Parati. pu- mente em suas terras. em Salvador. ra esboçou barricadas legais para te. tive pena transcrever a esse respeito trechos de uma nota estampada em Veja. O caso do Cafundó é ilustrativo e Caipiras negros no vale do ribeira. Mais ainda. 1983). que o Ipeafro se encontrou sem os meios em nenhum momento a Prefeitu- adequados para cobri-lo suficientemen. seção oportunidade de visitar várias dessas “Cidades”. em so aliado _ a expansão imobiliária. fessor João Baptista Borges Pereira. avançando criminosa. Na qualidade de fenômeno frequente tanto nas zonas diretor do Ipeafro e professor respon. de Mari de Nasaré Baiocchi (Ática. Citando apenas alguns Desde sua remota aparição exemplos. mente brancos. e de constatar a pág. Cajueiros e Bom Jesus los.

mentores europeus e norte-americanos. biossocial. da teorização. ou terras do negro. vivendo de pequenos cachês. a Sociedade quais de uma hora para outra veem seu São Bartolomeu do Engenho Ve. acabou go. no âmbito da dominante socie- denunciou numa mesa-redonda patroci. aliada a de. a fome.. cia racial”. À destituição das São José do Engenho Velho. que a sua oposição ao que aí está vigente não se esgota com pequenas reivindica- Com todo fundamento nesses an. ções de caráter empregatício ou de direi- tecedentes. Terão de derrocar todas as componentes do sistema social Quanto foi roubado dos ne. os africanos e seus descendentes. Não escapam perdendo metade de sua antiga à destruição implacável nem mesmo área de 7. inclusive a sua intelligentsia. Conscientes da extensão e pro- dida por um vizinho que insiste fundidade dos problemas que têm de em podar seus galhos mais fron. seja de sua inferioridade Jurandir Santos Melo era pro. dade capitalista-burguesa e sua classe nada pelo Pasquim (14-9-79. A coisa foi mais séria do que ficando esse crime por meio de sua de- .) E nunca se soube da aplicação que o negro tinha representativi- de sanções para os inescrupulosos dade e uma força econômica. em poucos sociedade dominante em torno do des- anos. do cerco de destituições levantado pela reiros. existente. a Sociedade Beneficente cendente de africanos. porque houve época em (. as Mais infeliz ainda. justi- zie. ou Candomblé representantes das elites dominantes.500 metros quadrados. de Bogum. espaço sagrado invadido e usurpado por lho da Federação. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 103 mentado pela magia dos orixás. as instituições religiosas seculares. A fabricou uma “ciência” histórica ou hu- família de Ofélia Pttman possuía mana que ajudou a massacrar e explorar toda a parte que hoje é o Macken. seguem-se o desempre- terreiro da Casa Branca. o genocídio. Essa “inteligência”. que se apossam Temos aqui uma pequena amostra impunemente de áreas dos ter. p. Hoje é um simples motorista. Dia Nacional da Consciência Negra. da miscigenação sutilmente prietário das terras desde o atual compulsória ou do mito da “democra- aeroporto de Salvador até a cida. enfrentar diariamente. o cineasta Rubem Confete tos civis. gros! Conheço cinco famílias que responsável pela cobertura ideológica perderam todas suas terras para o da opressão do afro-brasileiro por meio Governo e para a Igreja Católica. proprietários de terrenos vizinhos às casas de culto. Foi assim que. se pensa.4): média organizada. os negros sabem dosos. assiste impotente à veloz redução do terreno sagrado Quilombismo: um conceito onde se ergue a mítica ‘árvore de científico-histórico-social Azaudonou’ _ trazida da África há 150 anos e periodicamente agre..

Proclamando a falência da colonização Como poderiam as chamadas mental eurocentrista. que ainda for útil e positivo no acervo mento “branco” da sociedade brasileira do nosso passado. mas levando em conta aquilo Agora devolvemos ao obstinado seg. na socioeconômicos diferentes. a nos- necessidades históricas do povo ao qual sa dignidade. Enfim. Confiamos de forma sistemática e consistente _ sua na idoneidade mental do povo negro e experiência de cinco séculos de opres- acreditamos na reinvenção de nós mes- são. de nossa emancipação total. golpeadas pelo colo- erros do eurocentrismo “científico”. uma sociedade fundada na li- problemas. antropologia. cuja natureza intrínseca torne ria a ciência social elaborada na Euro. prestar útil igualdade e no respeito a todos os seres colaboração ao povo negro-africano. que exige los científicos responsáveis europeus ou a transformação radical das estruturas norte-americanos. Prova-se dessa forma que as suas mentiras. Reinvenção erros e equívocos inevitáveis em nossa de um caminho afro-brasileiro de vida busca de sistematização dos nossos va- fundado em sua experiência histórica. reconstruir seus dogmas impostos sobre nós como no presente uma sociedade dirigida ao marcas ígneas da verdade definitiva. se refere nega-se a si mesma. “ciência” eurocentrista. pa ou nos Estados Unidos tão universal Uma democracia autêntica. até mesmo nos círcu. mia. aspirações e projetos? Se. em sua realização existencial. sociologia. em seus humanos.104 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate sumanização. Não nos interessa a proposta que os negros necessitam é aquele capaz de uma adaptação aos moldes da socie- de ajudá-los a formular teoricamente _ dade capitalista e de classes. ce na própria carne a falaciosidade do Não nos interessa a restauração de for- “universalismo” e da “isenção” dessa mas caducas de instituições políticas. Aliás. a lavagem cere- não é apropriada para o povo negro. a nossa identidade. os nialismo e o racismo. lores. celebramos o ad- ciências humanas (etnologia. los destituídos e deserdados deste País. O conhecimento de vigentes. futuro. Durante séculos inventivo de nossas próprias instituições temos carregado o peso dos crimes e dos socioeconômicas. bral com que pretendia roubar a nossa Uma ciência histórica que não serve às humanidade. história. te- psicologia etc) nascidas. vento da libertação quilombista. econo. isso serviria uni- uma ciência histórica pura e universal camente para procrastinar o advento está ultrapassada. erigida pe- em sua aplicação? A raça negra conhe. cultivadas e mos como projeto coletivo a ereção de definidas por e para povos e contextos uma sociedade fundada na justiça. resistência e luta criativa. liberdade e autoestima. os negros brasileiros. a ideia de sociais e econômicas. a sua ideologia de su- a ciência europeia e/ou euro-brasileira premacismo europeu. Não importa. . berdade. Haverá mos e de nossa história. em nosso esforço de autodefini- ção e autogoverno rumo aos caminhos na utilização do conhecimento crítico e do futuro. Nós. impossível a exploração e o racismo.

em nosso tempo histó- trimônio de prática quilombista. a so- termos de igualitarismo econômico. enriquecendo e aumentando nossa pre aos negros contemporâneos manter capacidade de luta. Cum- rico. opressão ou exploração. cultura da coletividade negra. Os ciedade afro-brasileira é o fundamento precedentes históricos conhecidos con. lização completa do ser humano. Significa reunião uma teoria científica inextricavelmente fraterna e livre. fun- dada na razão do lucro a qualquer custo. de e uso coletivos. Nem tampouco trabalho não se define como uma forma pode ser um elenco de princípios impor. ético do quilombismo. o quilom- suor e o sangue do africano escraviza. encontro em solidarie- fundida à nossa prática histórica. O quilombismo articula os diversos Tentaremos resumi-las num ABC fun- níveis da vida comunitária e na dialética damental que nos ensina que: . do. elaborados a partir de contextos é primariamente uma forma de liberta- e de realidades diferentes. o quilombismo tem sido a humano. do comu. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 105 Um instrumento conceitual ope. ele tados. ção humana da qual todo cidadão des- ção dos nossos conceitos. todos os fatores e elementos brasileira. e ampliar essa cultura afro-brasileira Onde poderemos encontrar essa de resistência e de afirmação da nossa vivência de cultura coletiva? Nos qui. Condenada a sobreviver cercada bista representa uma etapa avançada no e permeada pela hostilidade oculta ou progresso humano e sociopolítico em mascarada das classes dominantes. convivência. verdade. Como sistema tem seu ponto focal e seu pivô no ser econômico. interação social propõe e assegura a rea- rativo se coloca. Na trajetória histórica que esque- principalmente no lucro obtido com o matizamos nestas páginas. Ele não deve e não pode ser básicos da economia são de proprieda- o fruto de uma maquinação cerebral ar. Disso resulta que o bitrária. dade. uma visão de mundo em que a ciência nitarismo e/ ou ujamaaísmo da tradição constitui apenas uma entre outras vias africana. produção diferem basicamente daquelas prevalecentes na economia espoliativa ABC do quilombismo de degradação social do trabalho. conforme nos ensinam as defini- ência concreta. como ator e sujeito. ao meio brasileiro. lombos. de castigo. A cristaliza. Nessa cessidades imediatas da gente negra dinâmica. Quilombo não significa escravo compreensão e definição de uma experi- fugido. definições e fruta como um direito e uma obrigação princípios deve exprimir a vivência de social. o quilombismo expressa ções convencionais. estaremos incorporando nossa integri- XVII. falsa e abstrata. bismo tem-nos fornecido várias lições. dentro de adequação. Um método de análise social. comunhão existen- cial. Em tal sistema. Dia Nacional da Consciência Negra. O quilombismo firmam essa afirmação. na pauta das ne. Só assim Os quilombolas dos séculos XVI. pois. A sociedade quilomba ou quilom. XVIII e XIX nos legaram um pa- dade de ser total. as relações de de conhecimento.

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Sankofa: Memória e Resgate

a) Afro-brasileiro é o termo que c) Comunalismo africano, a
devemos adotar para evitar a exploração exemplo do Ujamaa exposto pelo gran-
das diferenças de cor, feita com o intuito de líder Julius Nyerere, da Tanzânia, é
de dividir a população negra em cate- um elemento inspirador do quilombis-
gorias como “mulato”, “cafuso”, “mo- mo. Não devemos aceitar certas defini-
reno”, “escurinho” e assim por diante. ções “científicas” sobre o comunalismo
Esses eufemismos, sempre valorizando africano e o ujamaaísmo como formas
o que está mais próximo do ideal racista arcaicas e obsoletas de organização so-
da beleza, isto é, o modelo louro euro- cioeconômica. Refletindo a arrogância
eurocentrista, essa posição implicita-
peu, só servem para confundir nossa co-
mente nega às instituições nascidas da
munidade, que precisa de unidade para
realidade histórica africana sua capa-
enfrentar o racismo que discrimina tanto
cidade intrínseca de desenvolvimento
o mulato quanto o mais retinto.
autônomo relativo de progresso e atu-
Autoritarismo de quase 500 anos alização. Assim, essa teoria endossa o
já basta. Não podemos, não devemos e pressuposto de que a ocupação colonial
não queremos tolerá-lo por mais tempo. da África determinasse o desapareci-
Uma das práticas básicas desse autori- mento dos valores e instituições africa-
tarismo é o desrespeito brutal da polí- nas, marcando o ponto de partida do seu
cia às famílias negras. Toda sorte de “desenvolvimento”, isto é, de sua oci-
arbitrariedade policial aciona as batidas dentalização. Na perspectiva da arro-
que a polícia faz rotineiramente para gância mencionada, as formas de vida
manter aterrorizada e desmoralizada a africanas são vistas como não dinâmi-
comunidade afro-brasileira. Assim, fica cas, quietistas e imobilizadas diante da
confirmada para os próprios negros sua história. Tal visão petrificada da África
condição de impotência: são incapazes e suas culturas não passa de uma ficção.
até mesmo de defender suas famílias e O quilombismo se propõe resgatar o
sentido de organização socioeconômi-
os membros de sua comunidade. Trata-
ca concebida para servir e enriquecer
-se de manter os afro-brasileiros num
a existência humana, organização que
estado de permanente frustração e hu-
existiu na Áfríca e veio para o Brasil
milhação.
com os africanos escravizados. A socie-
b) Banto denomina-se um povo dade brasileira contemporânea pode be-
ao qual pertenceram os primeiros afri- neficiar-se com o modelo quilombista,
canos escravizados que vieram para o uma alternativa nacional que se oferece
Brasil, procedentes de países que hoje em substituição ao desumano sistema
se chamam Angola, Congo, Zaire, Mo- do capitalismo selvagem.
çambique e outros. Foram os bantos Cuidar de organizar nossa luta
os primeiros quilombolas a confrontar por nós mesmos é um imperativo de
em terras brasileiras o poder militar do nossa sobrevivência como povo. Deve-
branco escravizador. mos, por isso, ser muito criteriosos ao

Dia Nacional da Consciência Negra, Aniversário de Zumbi
Abdias Nascimento 107

fazer alianças com outras forças políti- g) Garantir à nossa gente o seu
cas. Toda aliança deve obedecer a um lugar na hierarquia de poder e decisão,
propósito tático ou estratégico, e o ne- mantendo sua integridade etnocultural,
gro precisa ter poder de decisão, a fim é a motivação básica do quilombismo.
de não permitir que nosso povo seja ma- h) Humilhados que fomos e so-
nipulado por interesses estranhos à sua mos todos nós, negro-africanos, com
causa própria. todos eles devemos manter íntimo con-
d) Devemos ampliar sempre nossa tato e relação. Assim também com as
frente de luta, tendo em vista: 1. o obje- organizações africanas independentes,
tivo de longo alcance da transformação tanto da diáspora quanto do continente,
radicaI das estruturas socioeconômicas desenvolvendo instrumentos de aliança
e culturais da sociedade brasileira; 2. os e solidariedade. Ao mesmo tempo, de-
alvos táticos imediatos. Nessa categoria senvolver relações estreitas com a ONU
se incluem ampla campanha de registro e seus órgãos engajados no combate ao
do analfabeto para votar e a anistia aos racismo.
prisioneiros políticos negros. Desde a i) Infalível como um fenômeno
proclamação da República, em 1889, da natureza será a perseguição do poder
tem-se negado o direito de voto ao anal- branco ao quilombismo. Está na lógica
fabeto como meio de excluir o negro inflexível do racismo brasileiro jamais
do processo político do País. Agora que permitir a existência de qualquer movi-
finalmente se estabeleceu esse direito, mento político-libertário dos negros, a
precisamos organizar nossa gente para força popular majoritária.
votar. Os prisioneiros políticos negros j) Jamais as organizações polí-
são maliciosamente fichados pela polí- ticas afro-brasileiras devem permitir o
cia como desocupados, vadios, malan- acesso a brancos ou negros não quilom-
dros, marginais, e seus lares frequente- bistas a posição de poder e com autori-
mente invadidos. Uma vez fichados na dade para obstruir a ação ou influenciar
polícia, esses cidadãos afro-brasileiros os posicionamentos teóricos e práticos
ficam à mercê de toda e qualquer arbi- em face da luta.
trariedade policial. k) Kimbundo, língua do povo ban-
e) Ewe ou Gêge, povo africano to, chegou ao Brasil com os escravos de
de Gana, Togo e Daomé (Benim), de Angola, Congo e Zaire, principalmente.
onde vieram milhões de africanos es- Essa língua exerceu notável influência
cravizados para o Brasil. Os Ewes são sobre o português falado no País.
parte do nosso povo e de nossa herança l) Livrar o Brasil dessa industria-
afro-brasileira. lização artificial, tipo “milagre econô-
f) Formar os quadros do quilom- mico”, está nas metas do quilombismo.
bismo é fundamental, isso significando Nesse esquema o negro é explorado ao
a mobilização e a organização do povo mesmo tempo pelo capitalista e pela
negro. classe trabalhadora “qualificada”. O ne-

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Sankofa: Memória e Resgate

gro como trabalhador “desqualificado” gantes, aos maliciosos, aos apressados
é duplamente vítima: da raça (branca) de julgamento: o vocábulo raça, no sen-
e da classe (trabalhadora “qualifica- tido aqui empregado, define-se em ter-
da” e burguesia de qualquer raça). O mos de história e cultura, e não de pure-
quilombismo propõe para o Brasil um za biológica, que nunca existiu.)
conhecimento científico e técnico que n) Nada de mais confusões: se no
possibilite uma genuína industrializa- Brasil efetivamente houvesse igualdade
ção, dinamizando um novo avanço da de tratamento, de oportunidades concre-
autonomia nacional. O quilombismo tas, de respeito, de poder político e eco-
condena a entrega da nossa reserva nômico; se o encontro entre pessoas de
mineral e da nossa economia às cor- raças diferentes ocorresse espontanea-
porações monopolistas internacionais; mente e livre da pressão do status socio-
porém tampouco defende os interesses econômico do branco; se não houvesse
de uma elite nacional. O negro-africano outros condicionamentos repressivos,
foi o primeiro e o principal artífice da embora sutis, de caráter moral, estético,
formação econômica do País: a riqueza religioso etc., então, sim, a miscigena-
nacional pertence a ele e a todo o povo ção seria um acontecimento positivo,
brasileiro que a produz. capaz de enriquecer a sociedade brasi-
m) Miscigenação é uma balela leira, a cultura e a humanidade.
da “democracia racial”, a maior mentira o) Obstar o ensinamento e a prá-
nacional do Brasil. A miscigenação e a tica genocidas do supremacismo branco
política imigratória proibindo a radica- é o fator substantivo do quilombismo.
ção de africanos no Brasil foram pro-
movidas como meio de embranquecer p) Poder quilombista quer dizer:
o povo brasileiro, eliminando dele o a raça negra no poder. Os descendentes
elemento negro (inferior) para atender de africanos somam a maioria de nossa
ao critério racista de “preservar” a as- população. Portanto, o poder negro será
cendência europeia, tida como superior. um poder essencialmente democráti-
A miscigenação nunca se deu massiva- co. (Reitero mais uma vez a advertên-
mente à base do intercasamento, e sim cia aos intrigantes, aos maliciosos, aos
da exploração sexual da mulher negra. ignorantes, aos racistas: neste texto a
O intercasamento foi promovido na me- palavra raça tem uma acepção histórico-
dida em que existe socialmente como -cultural. Raça biologicamente pura não
fruto de uma compulsão social racista existe e nunca existiu.)
de “melhorar a raça”, isto é, torná-Ia q) Quebrar a eficácia de certos
mais branca, numa nítida expressão de slogans que atravessam a história de
cultura racista. A miscigenação, ou mis- nossa luta contra o racismo é um dever
tura de raças, quando ocorre espontane- do quilombista. Entre esses slogans está
amente, e não como imposição social de aquele dizendo que a única luta legíti-
valores racistas, é dos mais louváveis ma é a de todo o proletariado, de todo
fenômenos humanos. (Aviso aos intri- o povo ou de todos os oprimidos. Os

volvamos uma construtiva autocrítica zação. do povo afro-brasileiro ao poder . da sociedade. desumanização e inferiorização para ampliar nossa consciência quilom- dos povos africanos constitui um nível bista rumo ao objetivo final: a ascensão de racismo depravado e cruel jamais co. que se somam e se complementam. Os afro-brasileiros ência da cultura. banto. cana. que gia com as críticas vindas de fora do focalizam a cor epidérmica. entre de caráter e emotividade sofrem a influ. r) Raça: acreditamos que todos especialmente o árabe. do traços psicológicos. dos ao branco em detrimento do negro O racismo é a primeira contradição que desde o mundo antigo. do espanhol. necessitam aprender o swahili com ur- tica. do Zaire etc. os povos africanos. raça sig. nos da Tanzânia. da gené. A luta “única” o negro enfrenta na moderna sociedade ou “unida” que pregam não consegue industrial multiétnica. como a de classe respeitando nossa identidade nem a es. meio de transcender as barreiras Tanto a aparência física como os coloniais criadas pelo uso do francês. movimento quilombista. isto é. do português. O t) Todo negro ou mulato (afro- cruzamento de grupos raciais diferentes -brasileiro) que aceita a “democracia e/ou de pessoas de identidades raciais diversas está na linha dos mais legítimos racial” como uma realidade e consi- e nobres interesses de sobrevivência da dera positiva a miscigenação na forma espécie humana. pecificidade da nossa luta e da opressão s) Swahili é uma língua de origem que nos atinge. de personalidade. como a língua franca internacional afri- rais e ambientais. Por malmente negligenciado ou omitido nas isso não devemos perder tempo e ener- definições tradicionais do racismo. mas sobretudo um ternacionais de professores e escritores complexo de fatores históricos. uma compulsão social branqueadora ditada pela sociedade do- Racismo: é a crença na inerente minante. cultu. Esse é um aspecto nor. sido escolhido em várias reuniões in- rísticas somáticas. Tal superioridade é concebida em ter- mos biológicos e na dimensão psico. influenciada por outros idiomas. não ção se juntam outras. e de sexo. inglês. de Uganda. está traindo a si mesmo e se superioridade de uma raça sobre outra. Dia Nacional da Consciência Negra. considerando inferior. do Quênia. nifica um grupo humano que possui em do Burundi. O swahili tem comum não somente algumas caracte. u) Unanimidade é algo impos- -sócio-cultural. sível na dinâmica social e política. vigente. A dialética do ção teórico-científica produzida pela nosso progresso aconselha que desen- cultura europeia justificando a escravi. A essa contradi- ocultar o desprezo que nos votam. A elabora. do meio geográfico e da história. nhecido na história dos seres humanos. Para o quilombismo. Atualmente é fa- os seres humanos pertencem à mesma lada por mais de 20 milhões de africa- espécie. gência. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 109 privilégios raciais vêm sendo conferi.

Precisamos 2. tura. no quadrado. política. amparada nesse dispositivo organização política e social inspirada legal. coletivo. principalmente das crianças negras der e de instituições públicas e privadas. de um do durante toda a nossa história. revogá-lo imediatamente. de nossa luta e de nosso de produção. 4. assassínio policial e miséria vida em sociedade. Organizar nossa gente para exer. Desde o sé. sobre as famílias negras. sociedade. rismo se aplica a todos os níveis de po- ros. veis desse poder. equívoco de algumas pessoas. Os a felicidade do ser humano. democrático. As fábricas e outras instala- . luta antiga energicamente. A finalidade básica do Esta- y) Yornba (nagô) somos também do Nacional Quilombista é promover em nossa africanidade brasileira. mantendo a ta tem sua base numa sociedade livre. justiça. Sem emprego visando à implantação de um Estado e muitas vezes sem moradia. economia. o negro Nacional Quilombista. O mesmo igualita- dos nossos irmãos e irmãs afro-brasilei. lombismo culo passado. em todas as expressões da moléstia. Alguns princípios e propósitos do qui- gundo nosso Código Penal. zê. x) Xingar não basta. e em outros quilombos que ato criminoso. bismo acredita numa economia de base so povo. O quilombismo considera a bismo. vamos continuar assistindo impotentes à religião. Apenas constitui uma conquista do povo brasi. o qui- e violenta as comunidades negras im- lombismo representa uma proposta de punemente. cul- nossa própria exterminação pela fome. Dessa forma. justa e soberana. enfim.110 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate v) Vadiagem. O igualitário democrá- so e sem pausa. z) Zumbi: o fundador do quilom. conforme o entendimento w) Voto ao analfabeto. riqueza nacional. educação. A polícia invade os lares existiram e existem. O quilom- yornbas são parte fundamental do nos. sexo. contravenção se. nega. Até que ponto cante a raça. Não se trata. essa configuração visa a 1. O quilombismo é um movi- impor um estado de terror permanente mento político dos negros brasileiros. inspirado no está automaticamente sujeito a ser en- modelo da República dos Palmares. mesmo sem cometer nenhum século XVI. a tico quilombista é compreendido no to- humilhação e a pobreza. que implica a presença da cer esse direito e votar constitui uma maioria afro-brasileira em todos os ní- tarefa urgente do quilombismo. terra uma propriedade nacional de uso nite deste povo afro-brasileiro. agora separatismo do negro brasileiro. deste País? 3. sem descan. É uma prioridade do quilombismo na experiência histórica afro-brasileira. distribuição e divisão da futuro. contra as destituições. o zênite desta hora histórica. advoga-se o poder político realmente leiro. da religião comunitário-cooperativista nos setores afro-brasileira. da nossa cultura. O Estado Nacional Quilombis- é mobilizar a gente negra.

-racista. merece igual respeito e tratamento pelas ro à maternidade. é um ponto fundamental da cos responsáveis pela orientação e ge. alimentação autoridades públicas. não haverá os trabalhadores. relação e comunicação direta com os dos os graus _ elementar. e as religiões do povo balho. a todos os tituições repousa o sentido progressista membros da sociedade quilombista. moradia higiênica e huma. e toda manifestação cultural quilombismo. Em todos os órgãos de poder realização do programa quilombista. médio e su. 11. camponeses trabalham a terra e são di. história da África. desprezadas e ridicularizadas. afro-brasileira é uma necessidade para a 12.anticapitalista. pela mecanização da existência e pela rigentes das instituições agropecuárias. executivo e judiciário _. Dia Nacional da Consciência Negra. Por isso. ampa. Criar uma universidade e antineocolonialista. política quilombista. antilatifundiária culos escolares. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 111 ções industriais. ela constitui a religiões merecem as mesmas garantias preocupação urgente e prioritária do de culto. os bens e instrumentos procurará estimular todas as potencia- de produção. dirigentes. sem distinção. O Estado Quilombista proí- na são alguns dos itens relacionados à be a existência de um aparato burocrá- criança negra dentro do programa de tico estatal que perturbe ou interfira na ação do movimento quilombista. é um direito e uma obrigação social. Todas as afro-brasileira. Cuidado pré-natal. 10. No quilombismo. As artes em geral rência de suas respectivas unidades de ocuparão um espaço básico no sistema produção. como verdadeiras. são de propriedade e uso coletivo da lização. suas culturas. as religiões das elites endossadas os únicos donos do produto do seu tra. 9. a metade dos dação de uma sociedade criativa. mobilidade vertical das massas em sua 7. burocratização das relações humanas Os operários de modo geral são os úni. impostos pela miséria. Os trabalhadores rurais ou a apatia forçada. uma elevada e outra material e moral imposta à comunidade folc1orizada e menosprezada. adequada. e sociais. A proposta quilom- zações. Da mes- 6. A e dinâmico do quilombismo. ele cargos eletivos. do Estado Quilombista _ legislativo. Nessa relação dialética dos perior _ serão completamente gratuitos membros da sociedade com as suas ins- e abertos. creches. agrícola e industrial da sociedade. 8. sistemas político-econômicos e bista é fundamentalmente anti- artes terão um lugar eminente nos currí. Visando o quilombismo à fun. de confiança ou nome- . A educação e o ensino em to. lidades do ser humano à sua plena rea- ra. educativo e no contexto de atividades 5. da mesma forma que a ter. não existirá “cultura erudita” vítima predileta e indefesa da miséria e “cultura popular”. são isto é. que criam a riqueza religiões cultas e religiões populares. No quilombismo. civili. Combater o embrutecimento e sociedade. A criança negra tem sido a ma forma. o trabalho sociais da coletividade quilombola.

o passado e o presente da população de ção de um relatório bianual. afim de auxiliar bismo em sua filosofia teórica e prática. abrangendo origem africana no Brasil. 13.112 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate ados deverá ser ocupada por mulheres. o quilombismo tante pesquisa. de cooperar para a concretização de ob. A Semana da Memória Afro-Brasi- natureza. . os 300 milhões de africanos retirados. 9o. su- 14. Por intermédio dessas ce- 15. uma Semana da Memória Afro-Brasilei- tuição econômico-financeira em moldes ra. cravos africanos na construção do nosso as pedras e todas as manifestações da País. por meios Em 1980. a comunidade negra é um defensor da existência humana e não só honraria os seus antepassados como tal ele se coloca contra a poluição como reforçaria a sua própria coesão e ambiental e favorece todas as formas de identidade. Basicamente. autorrespeito coletivo. o quilombismo lebrações anuais. tituição privada ou de serviço público. atender à urgente necessidade do negro de recuperar sua memória histórica. transmitindo às novas gera- melhoramento do meio ambiente que ções um exemplo de amor à nossa histó- possam assegurar uma vida saudável ria e uma percepção mais clara do papel para as crianças. É matéria urgente para o qui- geri à comunidade negra a instituição de lombismo a organização de uma insti. o trabalho do Comitê para a Eliminação como norma constitucional. as selvas. tóricos que tiveram como protagonistas nutenção e a expansão da luta quilom. leira infundiria aos jovens um merecido 16. órgão das Na- se aplica a todo e qualquer setor ou ins. capaz de assegurar a ma. Isso contri- todos os fatos relativos à discriminação buirá para ampliar e fortalecer o quilom- racial ocorridos no País. uma via política do quilombismo. bista a salvo das interferências contro. os adultos. O Brasil é signatário da Con. das Américas. ao formular a proposta não violentos e democráticos. sob violência hedionda. ções Unidas. No sentido deixada por seus ancestrais. os animais. Nela seriam focalizados os fatos his- cooperativos. crítica e reflexão sobre con1ribuirá para a pesquisa e a elabora. 1980. adotada pela Assembleia Geral ciência dos negros como única herança das Nações Unidas em 1965. e ten. O quilombismo considera a Semana da Memória Afro-Brasileira transformação das relações de produção e da sociedade de modo geral. e no intuito de possível. de suas terras e ladoras do paternalismo ou das pressões trazidos acorrentados para o continente do poder econômico. a Semana deve aliar aos aspectos do em vista o art. Segundo a proposta feita em jetivos tão elevados e generosos. as plantas. O mesmo da Discriminação Racial. parágrafos 1o e 2o celebrativos o exercício de uma cons- da referida Convenção. substituindo o venção Internacional para a Eliminação sentimento de vergonha e frustração que de Todas as Formas de Discriminação a sociedade dominante instila na cons- Racial. fundamental desempenhado pelos es- as criaturas do mar.

pioneiro dentro dos propósitos dessa Se- lados ou distorcidos. engaja- para impedir que os fatos históricos e os do no desenvolvimento de um trabalho sucessos da vida negra sejam manipu. mana de Memória. seja por malícia. Dia Nacional da Consciência Negra. ao redor do qual a comunida- armadilhas da negação e do esqueci. Dia Nacio- cício de emancipação. Entretanto ela po. igualadas no de seus realizadores. em retórica. interesse básico de melhorar o destino A proposta original. Hoje tenho a memoração convencional. especifica inserem na perspectiva quilombista que para a realização da Semana um calen- estamos sistematizando. Estudar os feitos dos antepas. fato que ilustra o êxito que públicas ou privadas com interesse no o movimento negro alcançou na impo- progresso cívico da comunidade afro. Nesse caso. passado. propondo unicamente a evoca. Essas comemorações em seres humanos. publicada no da família afro-brasileira. cele- . dário começando no dia 14 de novem- Essa Semana deve ser um exer. Todas elas se livro O quilombismo (1980). Dia Nacional da Consciência a ação transformadora do presente. de negra se está esforçando para pôr em mento: significa estarmos reafirmando prática uma celebração de sua experiên- a nossa presença ativa na história pan. estática e grande satisfação de constatar que. levando-se em Negra como fato cultural nacional. por de cultura e/ou de educação. quase todo o País. ao Negra. te não pode mais ignorar a importância nifica resgatarmos a nós mesmos das desse dia. nunca uma co. muitos casos são realizadas com o apoio A Semana deve ser promovida. res. insinuando ou cultivando a coletividade afro-brasileira durante as autoflagelação coletiva. os afro-brasi. contexto democrático da chamada Nova derá também ser realizada por escolas República. bro e culminando no dia 20. as famí- ou beneficentes quanto às de caráter lias negras deverão preencher a função cultural. Um conta que de modo geral as escolas não exemplo é o Projeto Zumbi dos Palma- são dirigidas por negros. Na serra da Barriga. existem programa- ção de fatos. A sociedade dominan- Resgatar a nossa memória sig. ignorância ou negligência. Onde não no dia 20 de novembro deste ano. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 113 A Semana implica também um estímulo existir organização afro-brasileira ou tanto às organizações negras recreativas escola interessada na Semana. nal da Consciência Negra. social ou político. sição do Dia Nacional da Consciência -brasileira. Considero esse fato uma vitória contrário da contemplação saudosista da luta quilombista desenvolvida pela do pretérito. dentro do organização negra. nomes e coisas do ções da mesma natureza dessa Semana. em torno exatamente do dia 20 de no- sados deverá estimular a imaginação e vembro. cia no passado e de sua movimentação -africana e na realidade universal dos no presente. últimas décadas. datas. de secretarias estaduais ou municipais ainda segundo a proposta original. da Secretaria de Educação e Cultura leiros presentes devem estar bem alertas do Município do Rio de Janeiro.

) de sua origem histórica. . Brasil. 13 de novembro de bamento como Patrimônio Nacional do 1985. no próprio local mas. Axé. Axé. Zumbi! (Pal- da Consciência Negra. com a feliz di- mensão adicional de seu histórico tom.114 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate braremos mais uma vez o Dia Nacional Brasil. Sala das Sessões.

Senado Senhores Senadores. 1991. Senhores Representantes Diplomá- ticos. ou o faxineiro que estudava à noite. autor de obras sociológicas . -brasileira no Senhor Presidente. Sessão de 14 de novembro de A luta afro. neste momento. apenas um senador do Partido Democrático Trabalhista. Pronunciamento feito no Senado Fe- deral. nem tampouco o economista ou o teatró- logo. Senhores Embaixadores. re- presentante do Estado do Rio de Janeiro. antes entregador de doces que sua mãe fazia. a esta tribuna não ascen- de. Senhores e Senhoras: Sob a proteção de Olorum e de nossos orixás. nem o professor universitário e ar- tista plástico. Meus companheiros e companhei- ras do Movimento Negro.

responsáveis no fazer do PDT o legíti- dição africana que remonta à linha das mo representante do socialismo demo- rainhas-mães e guerreiras Kentake da crático do Brasil. na. Aqualtune e lista. uma incontida palavra de sauda. que lecionou e trabalhou nos saudosa mãe Georgina Ferreira do Nas- Estados Unidos e na África. ainda que cimento. todos. mais que um xou um vazio impreenchível com a per- tributo. difícil e dura. brilho de sua aguda inteligência. da de sua personalidade magnética e do de e de respeito aos meus pais. consciente de sua origem africana como entregador de doces e me mostrou e que jamais abdicou dos seus direitos o caminho do estudo como instrumento de cidadão brasileiro. integrante também do antiga Núbia. um homem co. Evoco aqueles que me deixou. cas. Estão ouvin- No contexto desta tradicional do. cultivava na música a doçura de uma greiros e as Américas. digna de todo o alto rigor da exilado e perseguido. escravi. tradição africana relativa à figura mater- na um afro-brasileiro. Hoje. que há pouco nos neste momento. deveria estar esse político e figura . seguindo a longa tra. Na presidência nacional batalham e batalharam por amor a seu do Partido. na condição de Luísa Mahin. foi Doutel um dos grandes povo e ao Brasil. contemporâneo. Foi ela quem me iniciou no trabalho mum. Cofundador e líder do antigo antecederam nesta luta que me traz hoje PTB. São quinhentos vida simples. de defesa intransigente da justiça para Fala aqui. a Internacional Socia- sil nas pessoas de Dandara. mas trans- anos de escravidão no Brasil. À minha aqui. Meu pai. José Ferreira Nasci- um sobrevivente do maior holocausto mento. ao mesmo tempo em que que na África. um filho desse evocação dos ancestrais. presto ainda povo heróico construtor de civilizações uma homenagem muito especial à figu- milenares. Yaa Asaantewa de Gana mais avançado fórum político do mundo e Nzinga de Angola. sapateiro de Franca. chegando ao Bra. senhores senadores. Quando faleceu. que veio acorrentado para as ra singular. nos dei- Em segundo lugar. os porões dos navios ne. dão que ainda perdura nas formas ver- Tributo a Doutel de Andrade gonhosas da opressão. bordante de carinho e calor humano. rendo minhas homenagens a construção do nosso PDT. cujos filhos já vivido por um povo na História da andavam descalços. Senhor Presidente. da humilhação e da discriminação racial.116 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate e políticas. inteiriça e honrada do depu- terras “recém-descobertas” das Améri- tado e líder do PDT na Câmara Federal. ensinou-nos a ho- Humanidade: mais de 200 milhões de nestidade e a humildade como virtudes assassinatos entre os portos de embar. ambos fi. Ocupa esta tribu. lhos de africanos escravizados. de autoestima. foi o infatigável e precioso colabo- a esta tribuna: na pessoa de Zumbi dos rador do Governador Leonel Brizola na Palmares. E é em nome dele que estou aqui Doutel de Andrade. Axé Babá! primeiro suplente de senador. desde os tem- todos os africanos e afro-brasileiros que pos do exílio.

João Calmon. que. cuja donar por um instante a luta a que me luta em prol da educação foi inesquecí. me acompanhava Para chegar até aqui. la pública. Sr. pelo último no presidente desta Casa. Exa. nas e. entreguei desde a infância que não tive. sua quero corresponder com um desempe. e Chagas Rodrigues. já me mais alta instância do Parlamento do recebia no Palácio dos Martírios junto meu País sem execrar uma só palavra. cuja companhia me honra cívico-sociológica desde minha passagem pela Câmara dos Deputados. Afastou-se do Senado para auxiliar Doutel. com meus companheiros quilombo las sem extirpar um só gesto. povo negro. também inédito. de deputado afro-bra- Senhor Presidente e Senhores sileiro. através desses setenta guir. o Centro Integrado de Educa- registrar meus agradecimentos tanto a ção Pública. Parece demonstrou compreender o significado um fato inédito: muitos já me saudaram profundamente democrático do nosso como o primeiro senador negro na his- engajamento na luta pelos direitos hu- tória da política brasileira. Senhor Presidente. que samente urdidas e praticadas. vel quando. Aos que Talvez seja o primeiro. cultura e religião. Dia Nacional da Consciência Negra. eminente líder do meu partido nesta Casa. Chego. Senador Mauro Benevides. na V. repetindo nesta Casa a vanguar- anos em que tenho empunhado a espada da que desempenhou no seu mandato. sem aban- do Memorial Zumbi. rêa. chego ao Senado para subs. incúria e na incompetência. a luta coletiva do povo na linha dos libertadores africanos que africano em nosso País. Se é gran- aos ilustres senadores que me saudaram de a minha responsabilidade ao assumir por ocasião da minha investidura como esta cadeira. algumas até crimino- tado federal. a tão generosamente me recepcionaram. honesto e desassombrado. sim. justiceira. ao enfrentar este desafio. merecia a o Governador Leonel Brizola no prosse- honra de ser ouvida desta tribuna. assumir orgulhosamente sua etnia. maior é o meu entusiasmo Senador da República: Mauricio Cor. Sem dúvida. uma das poucas que são do povo e da Nação brasileira. a voz de hoje. . guimento da implantação da nova esco- Permita-me agora. Presidente. Será essa a manos dos afro-brasileiros _ compre- verdade? ensão esta ainda bastante escassa no meio da elite política nacional. mais do que a minha. a esta ainda Governador do seu Estado. E nela prosse- me têm inspirado. sobretudo. também. tive de superar no desempenho do mandato de depu- muitas barreiras. destacando-as como causas tituir Darcy Ribeiro. o combativo Eduardo Mattara. Divaldo Suruagy. “Democracia racial”: uma impostura zzo Suplicy. dig. comprometido com as causas do Senadores. assim como governo do Rio de Janeiro. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 117 humana cuja grandeza e generosidade inteligências privilegiadas do mundo de se completavam. programa interrompido. suas origens africa- nho eficaz. O agadá de Ogum.

seguindo a tradição de lítica ou econômica. num país onde a marginalizando milhões de patrícios e grande maioria da população descende tentando encobrir mais um complicador de africanos. sileiros que ocuparam estas cadeiras no alegando como fator determinante da Império e na República. o racismo sob o emblema da pobreza. 165 anos após a vidado. antes de mim. dissimular traços e carac- dificada. mulatos. um terísticas étnicas de muitos parlamenta- . nacionais. Após uma viagem pela história mocracia racial brasileira”. Isso porque aqueles 22 sena- quantos negros estão nas universidades. filhos de senvolvimento da nossa economia eoo o primeira e segunda geração – cumpri- fato de eles serem maioria entre os po- ram mandatos no Senado. Trata-se de uma estratégia. driblar genealogias. econômica e política. cruzando vários dados. organização das instituições legislativas que quer ser europeu a todo custo. número. Senhor Presi. se manter uma “conveniência social” periores da Justiça brasileira? – na verdade. e historiadores. eficaz instrumento de poder. o fato também é surpreenden. Biógrafos Quantos estão nos cargos de decisão po. muitas informações. representando os anseios des- sa imensa população. tidade. A resposta a essa pergunta destrói o mito da mentirosa e demagógica “de. pois. no Itamaraty.118 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate Por ser inédito. belo e doente. grande e faminto. Tive de usar bres e miseráveis. condição de afro-brasileiros. nas contradições de um país rico e endi- lo que somente agora. a discriminação não co. dissimular dente. Negam essas elites o de uma sagacidade de pesquisador à fato de nossa origem africana constituir beira da astúcia. um homem de ascendência africana. um olhar perquiridor sobre elites usaram e continuam usando para as origens raciais dos milhares de bra- negar a existência do racismo entre nós. te e assustador. omitir questão racial. não constitui um escânda. pardos. Por um pro- Forças Armadas? Qual a percentagem cesso de autorrejeição da própria iden- de afro-brasileiros que recebem salá. dores não assumiram etnicamente a sua nos altos cargos públicos dos Três Pode. consegui con- baixa condição social e econômica dos cluir que. mais de duas dezenas de filhos de africanos – aí inclu- afro-brasileiros apenas o relativo subde- ídos pretos. nas altas patentes das nos as causas da negritude. expressão de um racis- Tem sido uma perversidade útil mo envergonhado – tentaram mascarar às elites dirigentes deste País ignorar a identidades. chegue ao Senado Esta compulsão patológica de ser Federal? branca e europeia está plenamente retra- tada na elite política do nosso País. muito me- res. para chegar a esse Neste país majoritariamente africano. cotejando mobilidade social. filão que as desta Casa. nos Tribunais Su. indo a dezenas de fon- invisível e resistente barreira à nossa tes. consciente e orgulhoso dessa A “mancha negra” no Senado condição. ascendências. omitiram-na em seus currículos rio digno para sustentar suas famílias? e assentamentos no Senado.

Embora Jequitinhonha. pintores e fotógrafos. médico. Durante a discussão O baiano João Maurício Wander- da Lei do Ventre Livre. Os evadidos da “Bodorrada” cravidão como sistema desumano. ta e advogado. da mesma projetos de Lei do Ventre Livre. de várias províncias. considerando-a uma tistas. por questão mera- senador por 19 anos. O primei. nistro de Estado. além de pre- mentação dos escravagistas sobre a pro. Um dos primeiros mente partidária. Foi cogno- canos São Vitor I. É escondendo a sua identidade de origem. grande tribuno e propagandista das convenções diplomáticas em vigor. concelos. Miltíades e Gelásio I. da República. vo é fundar a República. Para fazer jus aos senadores Outros senadores afro-brasileiros afro-brasileiros que me antecederam. escritor. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 119 res que passaram por esta Casa. inju- rídico e anticristão. era não libertar os escravos. mata. por ordem “doutrina absurda e execrável”. sente na conspiração da manhã de 15 de licionista. de declarar. minado “A Pena de Ouro” da imprensa e aos inúmeros faraós do Egito antigo. Visconde de Partido Liberal por 13 anos. Sales Torres Homem. o carioca Francisco dade cívica durante a Convenção de Itu. num ato de vergonhosa indigni- Por sua vez. fluindo decisivamente na aprovação dos ma” africano dos retratados. presidente do Banco do Brasil. . foi o único paulista pre- sendo um precursor da propaganda abo. novembro. ou O carioca Francisco Otaviano de mesmo por moto-próprio. conselheiro e ministro da campanha abolicionista: “Nosso objeti- Coroa. deputado e senador por seis anos. ley. poeta e diplo- europeizaram fisionomias. Retra. procurando esconder o “estig. filho de uma quitandeira negra. xagenários e da Lei Áurea. Almeida Rosa. diversas vezes mi- ro dos senadores de sangue africano. bens semoventes. foi senador por 33 anos. presidente do Gabine- por exemplo. in- beleiras. foi o baiano Francisco Gê te do Império. constituinte de 1823 e negro e abolicionista. fato social”. dos Se- forma que outros fizeram aos papas afri. diploma. dos senadores ou de seus familiares. independente Leite. deputado e senador pelo Acaiaba de Montezuma. brasileira. Desta tribuna. o caso do baiano Zacarias de Góis e Vas- lutaram pelo fim do abominável regi. demoliu a argu. Barão de Cotegipe. referindo-se à crescente. foram abolicionista militante. de africanos escravizados. daquela época mostraram-se ambíguos é preciso destacar aqueles que. sidir o Banco do Brasil e o Conselho priedade dos africanos na condição de de Ministros. Dia Nacional da Consciência Negra. ele combateu o projeto parlamentares a condenar a importação da Lei do Ventre Livre. Foi presidente me de escravidão no Brasil. ele propôs o Francisco Glicério Cerqueira fim do tráfico negreiro. Senador durante 13 anos. mesmo ou francamente contrários à abolição. Torres Homem condenou a es. por exemplo. foi capaz. fato político. falsificaram. criaram ca.

. Belas damas emproadas... Quando chefiou o gabinete.. tória o episódio em que a princesa lhe comunicou que iria realizar a abolição e (.. Gentis-homens. coronéis...... azular o sangue e jaspear a tez Cesse. Ficou nos Anais da His- Fanfarrões imperiais..... governou seu Estado e.. lutando tenazmente contra a abolição e procurando retardá-la ao máximo.120 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate presidindo o Senado durante três deles.. continuou. sistiu até a sanção da Lei Áurea na in. caso de Manoel Victorino Aqui nesta boa terra. defendendo projeto de sua autoria para Frades. da qual não resisto a magistrado e diplomata.. cabos. Repimpados principotes... forriéis.. De nobreza empantufadas. cardeais. Nobres condes e duquesas substituiu Prudente de Morais no seu impedimento de 1894. não ganhei a partida?” Cotegipe retru- cou: “Ganhou.... clamador da República. denização aos senhores escravocratas.... médico e professor baiano que Marram todos... haja alegria da Rainha Pomaré.. No dia 14 de maio de 1888.. vocrata que o Parlamento conheceu.. tudo berra. foi o maior escra. a matinada. Porque tudo é ‘bodorrada’!” Para figuras tipo Barão de Co. bispos.. .. apontando para a barra Fulge e brilha alta “bodança”! da baía de Guanabara: “E a Vossa Alteza Guardas. Cotegipe indi- cou a porta dizendo: “A mim só me resta Entre brava “militância” isto”.. a Brigadeiros.. “o desertor Haja paz... além de senadores... ganhei ou Destemidos generais. mas perdeu a Coroa”. In... Barbosa o chamou de “mulato envergo.tudo marra... que supõe filiar-se à Folgue e brinque a bodaria.) abolicionistas o identificavam como “o circassiano de lusco-fusco”. senadores Mesmo sendo negro. essa finalidade. O próprio Pro- Ricas damas e marquesas. alugando-se aos senhores de seus pais como algoz de seus parentes”... “Se negro sou ou sou bode Já a República teve vários que. Rui Capitães de mar e guerra. princesa provocou-o: “Então... o Marechal ala- .. pois. que foi sena- transcrever estes versos: dor por 17 anos no Segundo Reinado.... Teutônia. tal “Bodorrada”.. Pereira. O que isto pode? da Nação.. Outros afro-brasileiros chegaram tegipe... tudo berra – nhado”.... o satírico poeta e tribuno aboli- ao Senado no tempo do Império.. Orgulhosos fidalgotes. os (.... como cionista Luís Gama escreveu sua imor- o goiano Manuel de Assis Mascarenhas... viadores. aquilo”. exerceram o cargo de chefe Pouco importa... Deputados. Vice-Presidente..) quis saber a sua opinião..

mentada”. Um terceiro fala do “menino O paulista Francisco de Paula pobre do Morro do Coco”. fectado”. três Senhor Presidente. era filho de ve com “um homem simples. numa literária e afetu. saúda o seu nascimento ríssimo exultou: “A mistura de raças é com a constatação: “moreninho como o facilitada pela prevalência do elemento pai”. um descendente de Nilo Peçanha. pro. em que a intelectualidade e a Isabel Perpétua. de tez pig- uma afro-brasileira. ministro um livro sobre os grandes africanos que da República e conselheiro do Império. Rodrigues Alves se penduram na nacio- nalidade portuguesa. uma preocupação constante. Por isso mesmo. bro da família. com o cordavam em que a massiva imigração falecimento de Afonso Pena. tingida pela motor público. do seu A atitude desse familiar de Nilo pai. com o espectro da maioria africana que presentou a Bahia nesta Casa por nove naquele momento ganhava. conhecida como “Nhá liderança política do País cultivavam Bela”. mais cedo ou . à qual se não é de estranhar. Outro perfilador de Nilo o descre. “contribuir para elevar Brígido Tinoco. segundo Arthur de Gobi- do Rio de Janeiro por dois períodos e neau. Rosa da Fonseca. horrorizados cia africana no início da República. Re. o teor ariano do nosso sangue”. Foi eleito três ve. sendo o quarto cidadão a cialmente compulsória iriam. ministro de “mancha negra” do sangue africano “in- Estado. beirando a histeria. foi outro senador de ascendên. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 121 goano Deodoro da Fonseca. a cidadania. assumiu europeia e a política da mestiçagem so- a presidência. legado de sua mãe afro-brasileira. ajudaram a construir este País e procurei duas vezes eleito presidente da Repú. são deste último. trataram de cassar o voto desse segmento por meio da restri- O embranquecimento “científico” ção do analfabetismo e de embranquecer o País. não cumpriu o segundo mandato sultado: fui repreendido por esse mem- por motivo de doença. “minhota”. remota. promotor público. Foi Vianna até Joaquim Nabuco. considerando tal versão uma in- ta Casa por seis anos. Certa vez. planejei escrever vezes governador de São Paulo. com a suposta inferioridade da Severino dos Santos Vieira. Dia Nacional da Consciência Negra. Rodrigues Alves. na expres- fazê-lo sem se assumir afro-brasileiro. todos con- vice-presidente da República e. superior. brasileira precisava “fortalecer-se com a çanha. “limpar o sangue”. mos que ele viveu uma época. José Ve- osa biografia. mente. deputado. quando considera- referem eufemisticamente como “more. Re- blica. não tão nice”. Após a abolição. A população O fluminense Nilo Procópio Pe. Deputado Constituinte em 1890 ajuda dos valores mais altos das raças e Deputado Federal. Desde Sylvio Romero e Oliveira recebeu três mandatos de senador. governou o Estado europeias”. juridica- anos. nossa população “mestiça”. que não admitia sequer a mestiçagem do “menino do Morro do zes senador da República e esteve nes- Coco”. Os biógrafos de fâmia. para ignorar sua negritude.

nador da Bahia. devendo ainda era o tempo que levaria para eliminar de ser mencionados outros dois cearenses nosso meio o elemento africano: cem afro-brasileiros no Senado: Manuel do anos. duzentos. inseriram no artigo 138. governador do seu Estado e seus familiares. Governador de Minas Gerais e depois gem à regra. ela vai eliminar a raça negra Outro baiano de sangue africano daqui”. nheiro de bancada. alínea b da atuação parlamentar na vida política e Constituição. esteve por presentante do Distrito Federal nesta três anos no Senado. ministro de Estado. conforme testemunha vice-presidente da República. e presidente da Assembleia Nacional cardeal primaz do Brasil. escondiam sua ascendência africana. aTeoria Europeia da Euge- jurídica brasileira. gover- tende a desaparecer num tempo relati. ambos senadores o Papa João Paulo lI. por mais de três anos a partir de 1982. eliminar os tipos genéticos indesejáveis. amigo íntimo de Sua Santidade e Otávio Mangabeira. foi senador na década de sessenta: An- va por volta de 1930: “A mancha negra tonio Balbino de Carvalho Filho. também não fo. dono de uma profícua tros. trezentos? O delegado Nascimento Fernandes Távora e seu brasileiro ao Congresso Universal de filho Virgílio Távora. A maior preocupação gislatura de 1975 a 1983. O vamente curto em virtude do influxo da cearense Valdon Varjão assumiu uma imigração branca em que a herança de vaga no Senado por Mato Grosso na le- Cam se dissolve”. Felizmente. antes de ser eleito Casa de 1951 a 1955. credo de Almeida Neves corria também preender a atitude dos políticos que o nobre sangue africano? Creio que não. Os irmãos João Bahia. arcebispo da Constituinte de 1946. Presidente da República. Senhor Presidente. Laélia Angra Contreiras de Alcântara que até o final deste século lograríamos representou o Estado do Acre nesta Casa acabar de uma vez com o sangue infec. re. entre ou- Sousa Carneiro. na Alemanha daquela época. João Pandiá Calógeras declara. levando em consideração seus traços fi- a exemplo do mineiro Fernando Melo sionômicos. com lugar nesta Casa nia: a engenharia biológica objetivando há cerca de vinte anos.122 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate mais tarde. A médica baiana Raças declarou em Londres. não chega a sur. o baiano Nelson de lideradas por Miguel Couto. senador seu primo Dom Lucas Moreira Neves. frustrado com a sua morte. sonho tragicamente Mozart Brasileiro Pereira do Lago. em 1934. O idealizador da nessa época. em 1911. assim como de muitos de Viana. o 21o senador afro- A teoria da inferioridade africana -brasileiro desta leitura étnico-política “cientificamente comprovada” perme- que faço da história desta Câmara ainda ava as bases da formação política das está entre nós: trata-se do meu compa- nossas elites a tal ponto que. bem como o fluminense Nova República. afirmar que nas veias do mineiro Tan- Nesse contexto. que foi levada às últimas consequências Seria leviano. . tado.

regiões mais pobres. das Não quero julgar ninguém. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 123 O “apartheid” à moda brasileira em média. meus pares. mas é epidemias de doenças evitáveis. tura de poder público omissa. o afro-brasileiro e senadores. inclusi- meu dever como homem público denun. 35 por cento do que ganha o branco por trabalho equivalente. o corone- o mundo. Que o trabalho que o Poder Legislativo bra. no Conselho de Segurança Nacional dos A concentração da população ne- Estados Unidos. A esterilização das mulheres lismo e o regime de trabalho escravo e brasileiras. da Baixada Fluminense. cia cotidiana e da fome? A esmagadora zado no racismo encoberto. como população afro-brasileira a maior vítima é o caso de qualquer favela. altas taxas de mortalidade infantil. atinge principalmente gra nesses bolsões de miséria caracteriza as mulheres negras. ro a ser despedido e último a ser pro- ros na vida do Senado brasileiro. metade de um salário mínimo. A Anistia Internacional afir. “bantustão” do Brasil. Se a Baixada e seus pares nos cen- sinato de seus filhos diante de uma estru. império sobretudo da violên- ciar a hipocrisia desse genocídio enrai. Dia Nacional da Consciência Negra. as mais indefesas. “cabeça-de-porco” neste País. formados em mendigos ou párias. a população afro- tenta por cento das vítimas desse quadro -brasileira sofre desproporcionalmente de massacre da infância que escandaliza a miséria. semiescravo que ainda vigoram no meio ca racista. que faz da maioria de sua população é negra. e que Outro pesquisador mais arguto e 23 por cento das mulheres afro-brasilei- competente do que eu mergulharia na ras chefes de família ganham menos da História e concluiria com maior segu. então. que é -africana como império da miséria. sileiro tem desenvolvido em favor da que ultrapassa qualquer township sul- maioria da população brasileira. Ultimamente. dade negra assiste diariamente ao assas. Outros movido no emprego. Concentrada nas ma serem de ascendência africana oi. ve a lepra. comprovadamente concebida rural do nosso País. palafita ou da miséria que assola o País. ção jurídica. as estruturas to de genocídio quando consideramos do poder sul-africano vêm descobrindo. poderão se pro. meiro ou o 23o afro-brasileiro a chegar a O Brasil condena o apartheid e se esta Casa. dizer. nossos grandes centros urbanos. corrupta e o campo pode ser chamado o grande criminosa. tros urbanos se comparam às townships. como já o fizeram os norte-americanos. consequência de uma políti. . que o trabalhador afro-brasileiro ganha. das pobre e africana de raiz. A indagação apenas provoca solidariza com Nelson Mandela na sua a consciência de cada um de nós sobre incomparável luta contra o racismo. a violência. Primei- rança por descobrir outros afro-brasilei. A comuni. O uma segregação racial no Brasil que só arrocho salarial que submete e avilta os difere do apartheid pela falta de defini- trabalhadores torna-se outro instrumen. contra. trans- riando a indicação de que eu seja o pri. sua família passam a habitar as ruas dos clamar descendentes da África. a fome.

diretor do periódico Clarim da Os afro-brasileiros também foram Alvorada. nheiros organizamos o Congresso Afro- na Cabanagem do Pará. São Paulo. te se imoloram pela liberdade. Entretanto. Arauto de uma luta por justiça. Quariterê em Mato essa imprensa testemunhou entre outros Grosso. um cada de trinta. eu e outros compa- de libertação. mártires e heróis de outros movimentos Em 1938. liderou friam das injustiças e dos crimes perpe- a revolta dos marinheiros e peregrinou. chefia. da luta anticolonialista para onde acor- Já neste século. liderada por José Correia dos maiores e mais duradouros. no Pará. sobretudo em São do por Felipa Maria Aranha. em Canudos. A consciência de luta afro-brasi- mos apenas alguns: o de Ambrósio na leira se afirmou durante a primeira me- Comarca do Rio das Mortes. a história testemunha libertou mais de quinhentos irmãos de a proliferação dos quilombos. na Sabinada na Bahia. pela sua indomável vocação. na Guerra do Paraguai. injustiçado e dis- dos Palmares. alizados por estudiosos sinceros. No Brasil. líder femi. protagonistas . Jabaquara em Santos. criminado pela História oficial. de São Paulo. o de Alcobaça. Tendo nascido livre. sujeitos e não temários. o talento e a cora- direito nos negam. senhores senado. precursor da negritude entre nós. Chibata. na Revolta do Equador. Na campanha abolicionista. Leite. o “Dragão do Mar” tar. Luís Gama dação do Brasil. pelo contrário. o “Almirante Negro”. feitos a Frente Negra Brasileira da dé- rê. nista do século XIX. Malês e na Revolta dos Farrapos no Rio evento em que. ta tese da democracia racial. foram os líderes. por meio de uma Gerais. Além da famosa República pelo resto de sua vida. na Revolta da riam não apenas africanos escravizados. postulando a hipócri. universos sua raça. Luís Gama. no levante dos -Campineiro. foi res. além de José do Patro- gem enorme sobre nós afro-brasileiros: cínio: o genial André Rebouças. liderada por Zumbi. Fran- o mundo lhes reconhece o direito de lu. cisco Nascimento. São Paulo.124 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate a não necessidade de leis para esse fim. em Campinas. ao contrário de outros re- Grande do Sul. fomos os afro-brasileiros ba. ativa imprensa negra. o afro-brasileiro nunca deixou de vendido como escravo pelo próprio pai. lutar pelos seus direitos. porém na Revolta do Quebra-Quilos da Paraí. ve inúmeros outros quilombos. em Minas tade do nosso século. “O escravo que mata o seu senhor Uma luta que vem de longe pratica um legítimo ato de autodefe- sa”. até esse de Fortaleza. hou. afora quando a sociedade racista se incumbe os milhões de vidas que anonimamen- de segregar informalmente. a figura ímpar do gaúcho João como também brancos e índios que so- Cândido. equivocados. Ceará. dezenas os negros sul-africanos têm uma vanta. anunciou Luís Gama num tribunal Apesar disso. liderado por Teresa do Quarite. gem do supremo tribuno da Liberdade. Paulo. trados pela barbárie ibérico-europeia e brasileira. Lembre. Desde a fun.

a multi- da em São Paulo em 1945. propôs. aniversário do martírio sua atuação. Hoje. visando o resgate da ser. O1inda e Recife. mas das Populações Afro-Brasileiras do Go- para os africanos do mundo inteiro. realizamos um minando ou mesmo destruindo as bases concurso de artes plásticas imaginado de sua vida comunitária. pois tenho notícias de que os quilombos gressos e convenções. mento Negro se refletem no texto da Em 1944. e sim a de todo o País. Extraordinária de Defesa e Promoção ção não apenas para os brasileiros. vários con. Organizamos. verno do Rio de Janeiro. Senhor Presidente. a minha cano no Brasil. organização que reúne entidades fine um militante da nossa causa. para que Cristo Negro e um dos jurados foi o meu o dispositivo constitucional seja respei- amigo e ilustre arcebispo emérito de tado e cumprido. Brizola no engajamento a esta causa. Nesse contexto. Em 1955. A terras ameaçadas. atual Constituição. Dom Hélder Câmara. Senhor Presidente. no Estado do Pará. Brizola e o PDT: cumplicidade com Em 1968. além de profunda preocupação com o cumpri- uma intensa atuação artística protago. Seu cons- ra da Barriga. hoje encabe- . centro de peregrina. realiza. fundamos. para ocupar as terras das comunidades por meio de emenda do senador Hamil. bus. E dele surgiu. sinalar aqui. inaugurado com uma ex- posição no Museu da Imagem e do Som. Conseguimos em 1988 o tante e firme empenho nesta luta cul- tombamento do sítio histórico da Repú. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 125 e não objetos de estudo. Convenção Nacional do Negro. no Rio. minou na recente criação da Secretaria blica de Palmares. contemporâneos continuam tendo suas gresso do Negro Brasileiro em 1950. mento desse dispositivo constitucional. discutindo os Algumas conquistas do Movi- nossos próprios problemas e destinos. não posso deixar Na década dos setenta. Pretendo fazer por Guerreiro Ramos sobre o tema do o possível. sua consciência e a sua ação. que. remanescentes de quilombos. o Museu nossa luta de Arte Negra. ton Nogueira. surge um de mencionar a liderança política de- movimento afro-brasileiro que cresce e sempenhada pelo Governador Leonel conquista cada vez mais o seu espaço. o Memorial pois não é somente a cor da pele que de- Zumbi. com a nossa participação. africanas do Município de Oriximiná. nasceu o Teatro Experi. inclusive o I Con. trou verdadeiramente afro-brasileiro. com a criminaliza- mental do Negro. nizada por afro-brasileiros. Dia Nacional da Consciência Negra. Foi ele o responsável pela instauração Primeiro líder político de destaque na- do Dia Nacional da Consciência Negra a cional a encampá-la como prioridade de 20 de novembro. a tipificação do racismo talvez obtendo o aval do governo local como crime na Constituinte de 1946. pela nacional Alcoa e outras empresas estão primeira vez. além de lutar por ção do racismo e a proteção das terras nossos direitos cívicos e humanos. Quero as- cava o resgate do legado cultural afri. o governador se demons- de Zumbi dos Palmares.

no Rio Governo brasileiro no decorrer dessa Grande do Sul. estou muito à damente afro-brasileiros e engajados vontade para testemunhar o acerto do à nossa causa: Alceu Collares. A tônica das pelo reconhecimento da SWAPO e do palavras trocadas foi surpreendente. Eu mesmo. boa vontade e respeito mútuos. dente de Angola. expôs. a professora Vanda Maria de dura como senador. mantinha como praxe no trato a Namíbia conquistou. dura militar. Logo após a minha investi- -brasileira. cujas lutas dependência do jugo colonial. afinal. o excelentíssimo se- namento mais adequado nas relações nhor José Eduardo dos Santos. com sua postura europei- me dá enorme satisfação constatar que zada. houve momentos em que Exteriores.O Presidente Collor demons- Espírito Santo. pois contrariava a tradição de sober- gítimos representantes do sofrido povo bia e superioridade diplomática que o da Namíbia e da África do Sul. para orgulho da Nação. Nesta condi- dois governadores de Estado assumi.126 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate çada por uma competente mulher afro. embora parlamentar essa questão. demonstrou uma sensi- pelos próprios afro-brasileiros filiados bilidade inédita nas classes dirigen- ao partido. Durante o diálogo com os estadistas ral e membro da Comissão de Relações africanos. Collor no sentido de integrar à comi- -brasileira e a inaugurar um órgão es. Moçambique Brasil e África e Namíbia. a meu mandato ao esforço de inserir na exemplo do instante quando o Presi- política externa do Brasil um posicio. internacionais. tiva um representante da comunidade tatutário dedicado especificamente a afro-brasileira. em minhas participações . Zimbábue. no viagem. embo. tive a honra de Souza Ferreira. que visitou quatro países africanos. ra agremiação política a inserir como O empenho do Presidente Fernando prioridade programática a causa afro. a situação de relações com regime de apartheid e histórico-social do país. Senhor ra não atingisse o âmbito essencial das Presidente. Congresso Nacional Africano como le. com as naçôes africanas. perseguido pela nefanda dita- também representou uma vitória parcial. num clima de efetiva ami- zade. dentro e fora do Brasil. trou sincero propósito de cooperar com Angola. liderado e organizado da oposição. A imposição de brasileiro de solidariedade nos fóruns algumas sanções à África do Sul. E nas últimas eleições o tes deste país para com os africanos PDT elegeu. na condição de exilado relações econômicas com o apartheid. e Albuíno Azeredo. dediquei grande parte do a rigidez do protocolo se quebrou. a sua in. Na qualidade de deputado fede. com a África. político. ção de oposicionista. Hoje Itamaraty. participar da comitiva presidencial O PDT também foi a primei. Lutei pelo rompimento num longo e franco relato. elegendo de independência mereceram apenas a SWAPO para o primeiro governo do um simbólico e muito tardio apoio mais novo país africano.

sofri infames agressões des- sa diplomacia racista e intolerante. e o já mencionado e sereno bretudo a identidade africana anunciada Presidente José Eduardo dos Santos. negro. elevador de serviço. e a assi. costumam falar da “contribuição” ou foram gestionados acordos nas áreas da “infiltração” do negro a um todo que. A cor da pele. o segmento dominante se recusa a área do desenvolvimento educacional e assumir sua própria face. o bom nacional brasileira também é africana. o inteligente e no emprego ou encaminhados para o enérgico Joaquim Chissano. Muito mais profundo Francisco Rezek. também ra. é o nosso vínculo interno com a África. todos líderes das fusco. Presidente pele provoca a discriminação. bem como os minis. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 127 em congressos e colóquios do mundo África: raiz do Brasil africano. de Moçam. angolana e soviética. Nos outros países. cafuso. houve o acerto para a rea. não apenas a cor da bique. Srs. em todos os Constatei um clima de autentici. Sr. Dia Nacional da Consciência Negra. de transportes e de cooperação técnica. honestidade e igualdade no tra. Presidente. moreno: todos os eufemismos lutas da independência de suas nações. lhe é estranho. seus variados matizes. lembrando o caso hidrelétrica de Capanda por empresas de muitos afro-brasileiros pálidos que brasileira. o jovial Sam Nujoma. Seria impossível relatar todos os fatos e passos dessa viagem de seis A afirmação da nossa origem dias à África. ao definir a participação do soria técnica para a construção de CIAC africano no contexto da Nação brasilei- em Angola. como já o fiz em outras de trabalho com os governos daqueles ocasiões: ser negro não é uma questão países africanos. Senadores. tros das Casas Civil e Militar e todos pois o Brasil tem a segunda maior po- os membros da comitiva. de pela cor. implicitamente. Quando somos barrados sidente do Zimbábue. a Daí minha satisfação em poder lou. pela manei. Mulato. pulação negra do mundo. Angola. lização da Quinta Sessão da Comissão pela simples razão de que a identidade Angolano-Brasileira em 1992. africana não implica nenhuma rejeição Em Angola. mas vale destacar alguns. andamento do projeto de construção da Apenas ocorre que. escurinho. seram renegar. prevendo asses. E para deixar ra como se conduziram nos encontros claro reafirmo. à nossa identidade racional brasileira. cultural e econômica. internalizam os preconceitos antiafrica- natura de um protocolo de intenções na nos. funciona apenas dade. mas so- da Namíbia. tado daqueles países. As elites mi- assistência à infância. convergem para essa identidade que as Homens da envergadura de um Robert elites dominantes no Brasil sempre qui- Mugabe. epidérmica. de “reminiscência” ou da “sobrevivên- . lações exteriores. cana. Falam científica. referência à África é fundamental para var desta tribuna o chefe do Governo o Brasil não apenas no âmbito das re- e o ministro das Relações Exteriores. o combativo e gracioso Pre. como distintivo da nossa origem afri- tamento dispensado aos chefes de Es. noritárias.

junto com a Etiópia. da engenharia e da arquitetura. as- seus integrantes. que a tão decan- meiam a nossa cultura e a nossa história tada civilização greco-romana tem suas e constituem a base integral definidora origens no Egito antigo. dos pensamentos creditados a Platão. sepsia. A verdade é que profun. mitos e dos deuses. o lado da senzala. Zimbábue. maioria de sua população ficará alijada com suas grandes concentrações urba- do conjunto nacional. diagnose. cina. Sudão e Quênia. cirurgia. mandro. hemostasia. Verdadeiro pai da medicina seria dania dessa grande parcela de sua popu. a questão racial como egípcio africano... Athothis. deste pronunciamento os senadores Não é esta a hora de enumerar afro-brasileiros apenas para ilustrar esse todas as grandezas das civilizações afri- fato. nas. por A Abolição da Escravatura pouco sua vez. na ou nada fez para nos devolver a cidada. um “problema” rindo aos conhecimentos e práticas da não só nosso. ginecologia e assim por diante. Basta assinalar que. far- afastou para sempre mais da metade de macología. ou Irnhotep. Anaxágoras e Anaxi- cassação de nossa cidadania. das teorias da maté- na prática. metria. Mencionei no início 3000 a. tido como pai da medi- tratar de recompor a plenitude da cida. O cerne da questão está na iden. Todos O Movimento Negro vem afir. como uma família que perdeu ou conceitos e a prática de anatomia. Estamos evocando a origem submeteram ao mais hediondo regime africana da ciência matemática. Pelo contrário: as condições de vida do sistema filosófico. porque o com a peneira. dos dos afro-brasileiros após a Lei Áurea. beberam nas fontes do conhecimento mando. da geo- escravocrata conhecido pelo ser huma. representaram uma segunda ria de Aristóteles. o Brasil permanecerá fragmen. nasceu do coração da África. dos mistérios. e que a civilização egípcia. no. cio. Poucos sabem. centros de conhecimento tecno- Poucos brasileiros sabem que lógico e filosófico da África na época pelo lado africano. Estamos nos refe- uma questão nacional. oftalmologia. não fosse . que desenvolviam os tado. há anos. distorcido e falsi- das e amplas dimensões africanas per. medieval. a como Mali. ficado durante séculos. africano. Enquanto o Brasil não assumir a canas. desde tidade nacional. filho do primeiro faraó egíp- lação. fato foi escamoteado. Tais africana que deu à luz o chamado mun- eufemismos não conseguem tapar o Sol do ocidental. mas sobretudo das elites medicina existentes dois milênios antes dominantes deste País. vacinação. os avançados estados políticos rica beleza de sua identidade africana. região onde hoje se localizam Uganda. Enquanto não se de Hipócrates. E não esta- nossa própria condição humana. nia que nos foi usurpada.C. um país negro da identidade nacional brasileira.128 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate cia de traços” de uma cultura africana somos os herdeiros de uma civilização supostamente alheia à brasileira. Gana e Songhay. Demócrito e Xenófanes. quando mos falando aqui de cantigas e danças nos arrancaram das nossas terras e nos folclóricas.

dessa herança civilizatória. co da literatura. Srs. Senador Ab- não o primeiro senador afro-brasileiro. em causas da nossa Nação. seguramente sou descen- . que eu nesse extraordinário livro. Dia Nacional da Consciência Negra. para Que vale o ramo de alecrim cheiroso restituir ao contingente majoritário da Que lhe atiras nos braços ao passar? nossa gente o seu autorrespeito. fontes do Vai espantar o bando buliçoso protagonismo e da realização humana. nesse clássi- possa cumprir este mandato com hon. das lições que hauri pouco importa. Importa. lutando pelas causas que é Casa grande e senzala. dizendo – citarei apenas duas estrofes. da cultura brasileira. gulhar nas dimensões mais profundas Seguindo pelo rumo do sertão. MAURÍCIO CORRÊA – na península Ibérica trazemos o sangue Senador Abdias do Nascimento. escolas. Exa africano nas veias. a sua autoestima e a sua dignidade. Para recuperar sua própria iden. “A Cruz da estrada”. Presidente. ABDIAS DO NASCI- desenvolvimento africano autóctone te. Quando vires a cruz abandonada. que são as quecível e saudoso Gilberto Freyre. que durante cinco séculos de mentiras. é um romântico na poesia. sim. Se sou ou sil. urge à Nação brasileira mer. escreveu aquele belo se arrogava como arauto de uma suposta poema. que ele menciona as origens da civiliza- Axé! ção brasileira. esse O SR. E eu. o É o retrato mais evidente. na ver- dade quase todos nós que temos origens O SR. MENTO – Com muito prazer. V. ria seguido o seu curso natural. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 129 o holocausto da invasão europeia. dades têm que ser ensinadas nas nossas Deixa-a dormir em paz na solidão. Exa é um clássi- nidade e o protagonismo do ser humano co. E o gran- africano. Das borboletas que lá vão pousar. Senadores. E eu me recordo aqui. retratou com absoluta precisão a causa des e falsificações do eurocentrismo que negra no Brasil. como um filho me concede um aparte? de português. da nossa etnia. “Caminheiro que passa pela estrada. radez e dignidade. nos CIACs e nos CIEPs. porque S. Essa verdade nos foi negada de poeta brasileiro Castro Alves. tidade nacional e resgatar a dívida que tentarei lembrar-me delas: tem para com seus cidadãos de origem africana. E ele inicia ciência. mais meu trabalho parlamentar nesta Casa puro do tratamento desumano com que dará sequência àquele iniciado em 1983 o negro teve a sua sorte traçada no Bra- na Câmara dos Deputados.” Sr. e diz que pelos sete séculos Apartes de domínio mouro. Essas ver. da sociologia brasileira. frau. do ines- do meu povo afro-brasileiro. em Portugal. MAURÍCIO CORRÊA – É essa herança africana que o Sou muito ligado à poesia do Senador Brasil precisa conhecer e assumir: a dig. O SR. Aureo Mello. dias Nascimento.

V. Quero dizer que V. sapiência. na verdade. Exa é um bravo. que é Abdias do dadeiro que trouxe à cultura brasileira a Nascimento. cultura que esses embaixadores têm no que jorrou na batalha do Paraguai. que. . pela correu do sangue do negro que correu. nos o grande construtor. Exa conhece: “Não basta libertar muita alegria que. da origem dos portugueses no graças. do PDT. Exa do com o nosso líder. a altivez de Joaquim Nabuco. que morreram. na verdade. É com que V. neste instante. expressão absurdo. E o primeiro ato de reconhecimento de. o grande paladino. Exa portanto. e V. supera – e V. Assim. quer pela miscigenação causada na África do Sul. que ouço o discurso de V. Exa traça. estan- todos nós. Na verdade. porque lá eles podem aqui pelos elementos de interligação. à bravura. inclusive. E as. Joaquim Nabuco. O que V. Há pouco tempo. que foi que faz com que todos nós. Os Brasil. faz. o Senador Abdias do Nascimento. É uma das mais excelentes. um excelente dis- seu pronunciamento. ao Brasil. MENTO – Muito obrigado. E cito aqui. V. como não se Angola em nosso País. Se buscarmos as origens com grande orgulho. um baluarte da causa mem que já sofreu na carne a experiên- negra. onde a presença negra é domi. curso. É dele aquele velho pensamento cia do exílio. é do no Brasil. Exa é um intelectual e um ho- na. a presença do nosso o direito de ser libertos. inaugura a sua participação nesta dro realíssimo de como o negro é trata. na verdade. repito. digo a os escravos. Portanto.130 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate dente da raça brava dos africanos. Meus cumprimentos. a Lei Áurea foi um aviltamen. lhe deu a devida atenção. partido. traçando um qua. nós temos do PDT. orgulhemos da sua presença em nosso um homem da aristocracia pernambuca. Vossa Excelência falou nos bolsões de O SR. pelo primor da sua inteligência. um extraordinário monumento com o V. lientou isso muito bem – até a existente sileiro. Exa que todos nós do PDT nos orgu- causa da escravatura”. graças aos sacri- como também pela própria natureza da fícios de muitos mártires. conversávamos sobre to até da questão com que se tratou. um extraordinário discurso a causa negra. Exa tra- lhamos da presença desse negro. não querendo ser in- negros que vieram do Paraguai tiveram justo com os outros. Exa constrói denodado espírito de Nelson Mandela. foi. com a diplomacia africana junto ao Governo que se versou a causa negra no Brasil. Exa sa- sim um grande contingente do povo bra. Exa que tecer um quadro de vergonha para neste instante. Casa de uma forma brilhante. o que foi um querido embaixador Romão. à altivez. desse ça no seu discurso é exatamente a repro- negro paulista. não só porque se o reconheceu de cultura e de sapiência que representa apenas pelo seu sacrifício. brasileiro. que fez nome no Brasil dução desse ditado. combate. ABDIAS DO NASCI- miséria. porque. falar – hoje bem mais -. desse aforisma ver- inteiro e no mundo. aqui em Brasília. é necessário acabar com a V. chegada. Leonel Brizola. Império foi extremamente injusto com no Senado. V. como integrante da Abolição da Escravatura. há uma segregação Maurício Corrêa. Senador nadora.

a bem da verda- canos. EDUARDO SUPLICY – que a tendência de viagens de chefes Permite-me V. Exa mostra a condição dos negros e para dialogar e conhecer a realidade do dos descendentes de escravos que. EDUARDO SUPLICY – ca e da Ásia no mínimo tão importante Nobre Senador Abdias do Nascimento. V. nobre se- necessário que tenhamos uma interação nador Eduardo Suplicy. E ele não é embaixador apenas de pessoas como Zumbi dos Palmares. continuam a sofrer as consequências nador Mauricio Corrêa que tenho uma daquele regime. ABDIAS DO NASCI- países do Primeiro Mundo. Exa traz à sua história. Somente queria lembrar ao Se. porque. mento. porque admiro muito a nando Collor de Mello fez a Angola. Exa é um participante assíduo de to. mas. Exa teve desaparecimento da raça negra no Bra- a oportunidade não apenas de fazer um sil. tiveram ascendência Ele também renegava a participação do negra. pecial no Senado. a alguns países afri- ação jornalística. que também esteve libertação do povo negro e de todos os nessa viagem à África conosco. da França e depois no Senado Federal. a sua Namíbia. da Áfri- O SR. a história desse povo. É com grande dor relatar a viagem que o Presidente Fer- que digo isso. embora crítico do Governo Collor. Além de embaixador. negativo da enorme figura do Sr. pou- nosso povo. ele desejava o reverter as consequências de mais de três séculos de escravidão. vinha sendo mais para os O SR. no mado as providências necessárias para final do seu pensamento. com o descendentes de escravos neste País. à sua ação parlamentar e. mostrando dos os eventos da comunidade negra no a importância dos quilombos e da luta Brasil. é preciso que se registre esse lado que. em es- queria que o Brasil se tornasse branco. inserindo nos da Inglaterra quanto com os Presidentes . com povos da América Latina. por- O SR. mas também histórico de todos aqueles que. apenas a assertividade do combate pela Francisco Romão. os povos do Primeiro Mundo. em especial. Quero registrar de. Mas. para o nosso conheci- S. Presidente Collor. mas também de nalidade brasileira. inclusive do Presidente Fer- nando Collor. Combatia a abolição. Muito obrigado. recentemente. enfim. Joa- avaliei como importante a iniciativa do quim Nabuco. e como marco da sua luta. Seria tão ciamento que V. ele corre o Brasil inteiro V. sobretudo. a sociedade brasileira. Dia Nacional da Consciência Negra. to- mas também uma restrição. desde então. em Brasília. Exa um aparte? de Estado. não nosso querido embaixador de Angola. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 131 Agradeço sobretudo a menção ao Anais. quanto aquela que desenvolvemos com cumprimento-o por mais este pronun. importante dialogar com chefes de Es- primeiro na Câmara dos Deputados e tado dos Estados Unidos. co mais de 100 anos após a Abolição. Considero MENTO – Com muita honra. um trabalho importante para o sangue negro na composição da nacio- nosso conhecimento. presidente brasileiro em ir à África. em função de não ter grande admiração por Joaquim Nabuco.

prezado Senador Abdias O SR. Senador porém. Infelizmente. A Mesa nessa luta. nas Febem. Muito obrigado. bem como com lius Nyerere. Quero dizer ao Também gostaria de sublinhar Senador Abdias do Nascimento que o que há poucos meses passou aqui o ex. discurso. que V. nos mocambos. solicitado um aparte a V. nas desejava assumir esse papel. E eu estarei apoiando V. Exa uma aula preciosa. mica que caracterizou o Governo Collor O SR. para libertar de estar mudando de direção. MENTO – Muito obrigado. bem como toda a população pobre. Insisto. a parti. MENTO – Pois não.132 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate de Angola. Acredito falaremos pelo PMDB. PRESIDENTE (Meira Fi- sentar. como representante do Mas parece-me que o Brasil ainda esta- povo afro-brasileiro no Senado. seguir ao mérito do apelo de V. o Pre- externar ao Presidente medidas que se sidente Fernando Collor demonstrava fazem necessárias. Mundo. Exa me permite um aparte? que existiam ao tempo da escravidão. Exa foram realmente as de quem prisões. nas de S. de S. com muita força. que falou insistentemente os nossos países-irmãos da América da qualificação do nosso País para lide- Latina. Exa. mas gostaria que ficasse regis. ABDIAS DO NASCI. o PMDB. programa do nosso partido. o movimento Sul-Sul. onde muitos negros trabalham em O SR. e ambos da sua condição de miséria. o ouve com imenso prazer e até recebe O SR. a implementação dos resultados dessas muito embora a motivação seja con- primeiras conversações. da Namí. proposições no lho) – Queria em nome da Mesa chamar sentido da libertação dos trabalhadores a atenção dos Senhores Senadores que o em condição de extrema pobreza. Não disse no meu jam breves nos seus apartes. rança que está vazia. tempo reservado para o Senador Abdias no Brasil. . O SR. sonhando com o Primeiro cipar de sua comitiva – de ir à África. CID SABÓIA DE CAR- nos últimos 20 meses não foi consisten. O SR. Exa teve rar o movimento que S. essa lide- palafitas. nobre Senador. Exa em condições de preferiu nesses países africanos. Exa preside nas a oportunidade – bem fez o Presidente Nações Unidas. No entanto. o tipo de política econô. de Moçambique. -Presidente da Tanzânia Mwalimu Ju- bia e de outros países. CID SABÓIA DE CAR- condições não muito distantes daquelas VALHO – V. trária ao que nos pede. Exa está em condições de apre. Exa do Nascimento já foi esgotado. nas Funabem. tentarei Estamos aguardando os atos concretos. que já havia gro. As palavras fato os negros pobres nas favelas.junto aos Senadores para que se- Eduardo Suplicy. CID SABÓIA DE CAR- trado que realmente assisti a intenções. nador Divaldo Suruagy. va reticente. hoje. Exa. no discurso que certamente está V. nas áreas ru. VALHO – Senhor Presidente. em convidá-lo. ABDIAS DO NASCI- do Nascimento. hoje. Na medida em que V. rais. VALHO – Vou apartear antes do Se- te com o objetivo de libertar o povo ne.

Exa tem toda razão um louvor à Assembleia Nacional Cons. Eu só do de Almeida Neves. racismo sempre foi um fato. esperava a trajetória de Nabuco. lado acre da questão. de honradez. não permitir que as pessoas distingam dade. mais Arinos foi algo notável na história da le- como fato do que praticamente como gislação brasileira. Exa uma consideração sobre a Lei sua correspondência. de alguma coisa nova Exa que ouvi a sua palavra com muito sobre o Senador Nelson Carneiro por- carinho e muito respeito. Não sei se V. Dia Nacional da Consciência Negra. Até critico V. Sabemos de como. em nome do PMDB. sempre foi um tituinte. Afonso Arinos. o mais ainda. tou Tobias Barreto. Até esperei de V. Quero dizer a V. não costumamos distin. somos observei isso. pelo tipo costumes. mos com aquele grande cidadão. O que observei foi o seu daqueles que admiram muito o poeta talento. nunca Acostumado à luta abolicionista. cialmente embutido no comportamento cismo no Brasil. a sua conduta. racial. e sim pelas posições de honesti. lei essa que teve uma um ideário. e isso V. nos tra. nador afro. Edson Carneiro. pela ideologia. Acompanhamos so Arinos de Mello Franco. teve um grande irmão. que nos . em condenar. tituinte e uma nota magna para a atual Exa. um acontecimento moral. pelas defesa democrática e por esses princí. Exa nesse notadamente um livro escrito por sua mister. hoje. mas conhecemos mestre da cultura de que fala Exa. Eu nunca notei a cor da que acompanham a história do Brasil. pela as outras pelas condições físicas. mais a cor da pele. sempre foi balhos da Assembleia Nacional Cons. principalmente depois da como um senador negro. Na verdade. é que essas Carta vigente no Brasil. ampla e mais difícil: tirar o racismo dos guir ninguém pelo tipo físico. porque. esteve sempre so- constitucionais que tornam crime o ra. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 133 é tipicamente antirracista. O que eu quero dizer a V. tenha abordado o própria filha. lutou muito pelos dispositivos acontecimento ético. Resta agora uma outra vitória. Exa ci. Exa. Es- a nobreza desse grande brasileiro. Exa brasileiro. talvez. O que sei é que S. o primeiro se- eleição do falecido Presidente Tancre. o seu trabalho profícuo em defesa da notório e tão sentimental pelo Senador mulher brasileira. pele do Senador Nelson Carneiro. o racismo triunfou o Brasil. Aqui. Na verdade. aqui citado de modo tão de. também do nobre Senador uma poderia perfeitamente constar do elenco referência a um ex-colega nosso: Afon- organizado por V. Exa falou. Exa. no en. Mas a Lei Afonso tanto. que perava. Apenas quero que se fizeram vitoriosas ao longo dos dizer que eu não o distinguiria jamais últimos anos. conhecemos a de V. aplicação extraordinária. Isso é que é realmente pios que tanto marcaram a trajétória do deplorável. me apercebi. Quero dizer prio legislador claudicou. tirar o racismo do dia a dia. Isso não é importante. teses antirracistas triunfaram no Bra- nós do PMDB não costumamos olhar sil. a sua biografia. convive- porque houve momento em que o pró. a sua honestida- Castro Alves. que o nosso partido. Exa Maurício Corrêa. não como a lei somente. Acompanhei com entusias- PMDB na defesa de todas essas teses mo o discurso de V. condições raciais. Sou um dos que V.

por exemplo. a Arinos apresentou um outro projeto de essa valorização sociológica da cultura lei. porque pensei que sor declarasse explicitamente que estava V. que tanto lutou. a nesse longo e interessante discurso que lei tomou-se inócua. fez com que de ví- rito da sua palavra. Essa emenda – sim – tem eficácia ção das coisas do negro. ter muitas aqui. Compreendo perfeitamente. Foi uma lei que virou até uma E tantos assuntos que levaram V. ajudou o negro a se defender contra o cial. ABDIAS DO NASCI. como é importante Projeto de Lei Afonso Arinos. mas real- contra o racismo. diz Exa. A Lei Afonso Arinos é De qualquer maneira. tima o negro passasse a ser agressor. exigindo que o agres- me entusiasmaram. como V. Exa. com muito acerto. vítima passava a ser o réu da própria lei. cos que fizeram. foi quem. A Convenção Nacio. Exa. continuamos lutando. não foi Afonso Arinos não tinha como ser apli- mais o negro quem fez. Exa. Exa teria outras mais para nos dizer discriminando por uma questão racial. Naturalmente. à sua luta e. porque não tem esse escape. como Quero reiterar a boa vontade do ela é interessante. E foi isso mes- Arinos. na verdade. esse reparo. V. A lei não funcionou. a matéria não foi aprovada e lei. pela primeira vez. ao mesmo tempo. a lei é fruto daquela MENTO – Ilustre Senador aparteante. é outra usurpa. mas até aquele aspecto meio so. embora estudar. houve uma lei de aparente a grande vitória da consciência nacional controle social da questão. se refere à Lei Afonso que o PMDB apoiou. considera suas que é racista. O SR. Como ela é bela. afro-brasileira. pro- do seu ideário que o levou à propositura pôs uma lei desse tipo.134 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate deixa uma notável saudade. que é o candomblé. Exa à arma contra os próprios negros. nos associamos aos cuida. Salve o velho Afon. agradeço uma delas. que foi Quer dizer. época. inclusive. meio religioso. de so Arinos. não apenas outros aspectos cul. Aqui no Brasil. para que ele se some ao mé. reunida em compensatória. O no Brasil ninguém tem coragem de dizer PMDB abraça V. Por isso. até. Na Constituinte daquele projeto que se transformou em de 1946. . como é agora essa emenda à Constitui- taria também de fazer certos reparos. Mas a Lei quando algo dá certo e é bom. e salve a Constituição brasileira. Exa prestou atenção esse tipo de proposição. a sua declaração de que o PMDB apoia Não sei se V. mo. Obrigado a V. que. gos. Exa. pela for- utilização de determinadas palavras que ma como foi feita. porque em nada turais. tenha sido equivocado. Mas. Sabíamos 1945. Era sinto-me muito honrado com o aparte muito difícil fazer uma lei bem explícita de V. ção que V. mente não a resolveu. Exa. porque era muito ambígua. essa de ação nal do Negro em São Paulo. cada. pois sabemos que nos trouxe hoje ao Senado Federal. inclusive. e algumas vezes. porque vamos ao meu discurso. até que Afonso dos de V. foram os bran. Exa. que realmente discrimina palavras da maior importância e só faz por questão racial. racismo.

que não sinta essa Quero também solidarizar-me com V. Exa: um povo que O SR. em seu falar aqui em igualdade de oportunidade discurso traçou a saga da raça negra no se as classes dominantes têm todas as Brasil. queremos igualdade de fato. muito naturais. à proclamação de direitos constitucionais. V. sua busca pela afirmação da cidadania. aos . ANTÔNIO MARIZ – Per- tem razão nessa observação. do qual se O SR. Senhor Presidente. Exa da tribuna da Câmara Alta do Brasil é coerente com todo o seu desvantagem que o negro sofre em rela- passado. E queremos corrigir apenas leira por seus direitos. V. O SR. ANTÔNIO MARIZ – não sinta essa mágoa. O SR. Exa. Exa um aparte? O SR. Para encer- coloca muito bem essa questão. Divaldo Suruagy _ Senador vantagem de 500 anos. do ressen.. deres mais expressivos. Aniversário de Zumbi Abdias Nascimento 135 Vemos que o negro tem uma des. foi uma diferença imposta ra- cialmente pelo poder econômico. V. maioria de sua população à pobreza. agradeço a pre- essa diferença social não foi natural da sença. sobretudo por alegria em verificar que o discurso de meio da educação. Exa. Como se pode Abdias do Nascimento. Exa é mn dos lí- vantagens e o negro tem todas as des. indignação. coerente com todos os seus conceitos. ABDIAS DO NASCI. MENTO – Com muita honra. CID SABÓIA DE CARVA. que nos faz indignados contra as tância na luta da população afro-brasi- injustiças. DIVALDO SURUAGY – afro-brasileiros confunde-se com a luta Permite-me V. saga da qual V. essa estréia de V. ABDIAS DO NASCI- MENTO – Senador Cid Sabóia de Car. valho. ABDIAS DO NASCI- uma grande razão sócio-política. Exa O SR. V. concedo tizado pela desigualdade que condena à o aparte a V. Exa acaba de citar. É o que no embate constante para dar substância pretendemos. ABDIAS DO NASCI. timento. Exa MENTO – Muito obrigado. digo mais a V. V. da mágoa. maior da sua vida a luta pela correção petir em nível de igualdade? desses desníveis sociais tão injustos Tem que haver uma lei que resta. aos formalismos das leis. Num país estigma- MENTO – Com muito prazer. O Sr. Parabéns. Exa fez razão vantagens? Como é que ele pode com. porque é exatamente a nossa huma. Na verdade. Dia Nacional da Consciência Negra. constitui na maioria. Daí a minha beleça de forma indireta. com todos os seus princípios. sociedade. porque rar. ção aos outros segmentos da sociedade. Exa pelo discurso que pronuncia nesta de. já perdeu a sua humanida. Exa dignifica não apenas a raça negra no LHO – O que V. Exa um aparte? do próprio povo deste País. dentro da nossa sociedade. esse handicap. a luta dos O SR. Exa dignifica a de ter a parte do sentimento. tem O SR. mite-me V. tarde e que se reveste de grande impor- nidade. inteligência brasileira nesta Casa.. V. na as injustiças! Não queremos privilégios. além Senado da República.

Exa assume com justo do Senegal. dos Camarões. É uma afirmação de compromisso Aziz Dawoud. de Angola. representando o adido luta do próprio povo: a luta pela justiça. Senhor Presidente. Muito obri- senhores embaixadores da China. ao embaixador com a raça que V. ao desemprego. Muito obrigado a todos os ami- O SR. aos que deram ao meu discurso. Exa Damasceno. o Martin Mbarga e ministro conselheiro discurso de V.) Oliveira e Silva. que. pelo exercício efetivo Carlos Moura. muito me honraram com a colaboração sentantes diplomáticos da África. muito àqueles que me apartearam. El Hadji Diouf. à professora Benedita dos direitos consagrados na Constitui- ção. Ambroise Mvogo.136 THOTH 6/ dezembro de 1998 Sankofa: Memória e Resgate salários subumanos. Por isso. congratulo-me com V. Nguele . pela igualdade. Senador Antônio Mariz. Exa é um brado de pro. ao conselheiro Abdel testo. Francisco Romão de (Muito bem! Palmas. do Egito. cultural brasileiro em Cabo Yerde. representando a Fundação e trago-lhe essa solidariedade. pois ro agradecer pela presença aos repre. ABDIAS DO NASCI- gos que aqui compareceram e agradeço MENTO – Muito obrigado. Cultural Palmares. Dr. à professo- orgulho e é também um instrumento de ra Glória Moura. Shen gado! YunAo.

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de Abdias Nascimento.AFRO ESTANDARTE Acrílico s/ tela .80 x 150 cm. Rio de Janeiro. 1993 .