GABINETE DO SENADOR ABDIAS NASCIMENTO

Senador ABDIAS NASCIMENTO

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1998 PENSAMENTO DOS POVOS AFRICANOS E AFRODESCENDENTES

Deusa Ma'at

PENSAMENTO DOS POVOS AFRICANOS E AFRODESCENDENTES

1 . jan/abr 1998 . p. Brasília. nº 4.Gabinete do Senador Abdias Nascimento Thoth nº 4 janeiro/abril 1998 Secretaria Especial de Editoração e Publicações Thoth.239.

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Thoth Informe de distribuição restrita do Senador Abdias Nascimento 4/1998 .

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8 THOTH 4/ abril de 1998 .

“a perspicácia. em que mostrou seus reais talentos de negociador e deu nova relevância às Nações Unidas como instru- mento de preservação da paz. o Senador Abdias Nascimento. Algo que não deixará de ter impacto no Brasil. Kofi Annan e Nelson Mandela dão a conhecer ao mundo inteiro o perfil eminente dos africanos que contrasta com a visão de violência. dos afri- canos. No encontro. Annan.. o entendimento dos inte- resses e das situações de que o secretário-geral tem dado prova”. Essas qualidades ficaram plenamente comprovadas pelo êxito que obteve nas delicadas negociações da última crise iraquiana. sofrimento e pobreza traidi- cionalmente atribuída ao Continente Negro.) No fim do milênio. “apa- recem aos observadores como qualidades intrínsecas de seu povo. foi recebido pelo secretário-geral daquela organização. Abdias Nascimento visita o arquiteto da paz mundial Foto: UN/DPI Photo by Evan Scheider Em visitia à sede das Nações Unidas. de sua cultura negra. herdeiro da rica e mile- nar cultura fanti. o ganês Kofi Annan. Funcionário de carreira da ONU há mais de três décadas. em Nova York.. (. tem ganho o respeito e a admiração do mundo por sua inteligência e habilidade em conduzir o jogo de xadrez da política internacional.” . Elisa Larkin Nascimento. acompanhado por sua esposa. como membro de uma delegaçao do Congresso Nacional. pátria da maior população negra existente fora do Continente Africano. o Secretário-Geral revelou ao senador sua intenção de visitar o Brasil ainda este ano. afirma um comentarista. Além de lhe garantir a projeção no plano pessoal.

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em caráter terminativo – o que significa não ser necessário levá-lo ao plenário –. foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. como o da igualdade. Pois minha experiência na Câmara e no Senado é mais um testemunho da eficácia da “democracia racial” como estratégia de dominação. um rio espreguiçando-se pela planície para descansar no mar. e uma injeção de otimismo. qualidades exigidas na elaboração. dos grupos beneficiários do racismo e da discriminação contra os afro-brasileiros. Na última semana. que traz em si a indigna- ção secularmente acumulada dos filhos da África sequestrados para construir o Brasil. da visão da lei como freio à mudança social. É um alívio. o que se revela especialmente quando vemos serem utilizados contra nós até mesmo princípios constitucionais. da verborragia como substituta da ação. explícitos ou mascarados. quando se consegue furar essa rígida retranca montada pelo conservadorismo e concretizar mesmo que um pequeno item de nossa imensa agenda de reivindicações. aqui invertido para abortar qualquer perspectiva de lhe dar concretude. apresentação e acompanha- mento de iniciativas e projetos. Para um militante de longa data. deter- minação e perseverança. É o primado da retórica imobilizadora. Tudo isso às vezes desanima o velho militante. sinuoso.APRESENTAÇÃO A rotina de trabalho parlamentar é um desgastante exercício de paciência. num processo em que não poucas vezes se esbarra na incompreensão ou na malícia. portanto. a tal ponto que nos faz questionar a validade da nossa presença num Parlamento cuja grande maioria dos membros representa – até quando não se dá conta disso – os interesses. meu . inflada de tantas e tantas necessidades premen- tes. esse processo é ainda por cima demasiado lento.

Coroaram-se. ficará mais simples a atuação do movimento negro em casos como o do palhaço-cantor que ofendeu a todos nós. étnicos e religiosos. maio de 1998 Abdias Nascimento . apenas depois de morto – as culminâncias do reconhecimento. desse modo. ao gravar uma canção em que “homenageava” sua companheira negra utili- zando “carinhosos” epítetos extraídos do arsenal de ofensas com que o racismo branco costuma contemplar a mulher negra. facultando-lhes o direito de se habilitarem. quando transformado em lei. nas quais emprego elementos pictóricos e filosóficos da rica cosmogonia africana e afro-brasileira para reafirmar os va- lores milenares de nossa tradição cultural. dado o prazo exíguo de que dispunham os candidatos. os esforços no rumo de homenagear e divulgar a figura ímpar de um afro-brasileiro nas- cido na escravidão que atingiu – infelizmente. nossas melhores expectativas. uma exposição de 53 pinturas de minha autoria. servirá como um desagravo. de todos os lugares e de todas as raças. em defesa dos interesses coletivos de nossa comunidade.12 THOTH 4/ abril de 1998 Apresentação projeto de lei que amplia a possibilidade de se recorrer à chamada ação civil pública para a defesa da honra e dignidade de grupos raciais. iniciativa minha em parceria com o Senador catarinense Espiridião Amin. com a colaboração de minha equipe. Muito mais que a realização individual de um artista negro conduzido pelo destino para o terreno da política. Brasília. na próxima semana estará sendo inaugurada. sensibilizando meus colegas parlamentares a receberem com mais simpatia e compreen- são as propostas do movimento negro organizado. encaro essa mostra como mais um signo das conquistas que os afro-brasileiros tem obtido. Uma das principais inovações desse meu projeto – com algumas emendas do Senador Josaphat Marinho que o aperfeiçoaram do ponto de vista jurídico – é facilitar. Outra pequena. Espero que o Movimento Negro se utilize dessa nova e importante ferramenta à sua disposição para enfrentar o racismo no plano simbólico. como autoras ou litisconsortes. Confesso que os 65 trabalhos enviados para apreciação superaram em muito. em função de nossa luta coletiva. como um dos maiores poetas de todos os tempos. em âmbito nacional e internacional. tendo emblematicamente como palco o espaço que congrega a elite política do País. a atua- ção das entidades afro-brasileiras em casos dessa natureza. que ocorrerá em Sessão Especial do Congresso Nacional. Com isso. Que ela possa ajudar a cimentar esse caminho de sucesso. nos últimos anos. no Salão Negro do Senado. A cerimônia de premiação. mas significativa vitória foi o sucesso do Prêmio Cruz e Sousa. das quais tenho procurado ser. e a todos os democratas e libertários genuínos. um veículo eficiente e dedicado. Além de tudo isso.

em março de 1997. e o debate passa a foca- Thoth lizar as formas de ação para combater o racismo. dedica-se prioritariamente à questão racial. O mandato do Senador Abdias. ultra- passando o patamar que marcou a elaboração da Cons- tituição de 1988: a declaração de intenção do legislador dá lugar à discussão de medidas concretas no sentido de fazer valer tal intenção. intelectual sem par que sempre se manteve solidário com a luta antirracista. marcado pela Marcha Contra o Racismo. com base numa verdade que o movimento negro vem afir- mando há anos: a questão racial constitui-se numa ques- tão nacional de urgente prioridade para a construção da justiça social no Brasil. . verificamos que a questão racial no Brasil atinge um novo estágio. sua cadeira no Senado Fe- deral. na qualidade de suplente do saudoso Darcy Ribeiro. pela Ci- dadania e a Vida e por inúmeros acontecimentos de âm- bito nacional e internacional em todo o País. Após o tricentenário de Zumbi dos Palmares. Setores da sociedade convencional reconhecem o caráter discriminatório desta sociedade. portanto merecedora da atenção redobrada do Congresso Nacional. em 1995. Nesse contexto é que o Senador Abdias Nascimen- to assume. como sua vida ao longo de uma trajetória ampla de luta e de realizações.

que remete às origens dessa herança civilizatória no antigo Egito. As palavras de Thoth têm o dom da vida eterna. Thoth incorpora o conheci- mento que faz mover o universo. as estrelas e a Terra. para além dos tradicio- nais parâmetros de samba. O inventor e deus de todas as artes e ciências. Seu conteúdo pretende refletir as novas dimen- sões que a discussão e elaboração da questão racial vêm ganhando nesta nova etapa. Os avanços egípcios e as conquistas africanas no campo do conhecimento huma- no formam as bases da cultura greco-romana. senhor dos livros e escriba dos deuses. Sobretudo. ele é uno. Thoth registra o conhecimento divino para bene- fício do ser humano. Na tra- dição africana. Autor dos cálculos que regem as relações entre o céu. a revista Thoth surge como fórum do pensamento afro-brasileiro. futebol e culinária que carac- terizam a fórmula simplista e preconceituosa elaborada pelos arautos da chamada democracia racial. as suas origens no Egito ficaram escamoteadas em função da própria distorção racista que nega aos povos africanos a capacidade de realização humana no campo do conhecimento. inclusive o aprofundamento da reflexão sobre as dimensões históricas e epistemoló- gicas da nossa herança africana. matriz primordial da própria civilização ocidental da qual o Brasil sem- pre se declara filho e herdeiro. cabe um esclarecimento do signi- ficado do título da revista. Nesse sentido. ao deus Thoth. o nome constitui mais que a simples de- nominação: carrega dentro dele o poder de implementar as ideias que simboliza. Thoth está entre os primeiros deuses a surgir no contexto do desenvolvimento da filo- sofia religiosa egípcia: autoprocriado e autoproduzido. foi ele que ensi- . na sua íntima e inexorável relação com aquele que se desenvolve no restante do mundo. Nada mais apropriado para expressar a meta de contribuir para a recuperação dessa herança africana que a referência.14 THOTH 4/ abril de 1998 Apresentação Além de representar o veículo de comunicação do mandato do Senador Abdias Nascimento com sua comu- nidade e seu País. Entretan- to. tem o conhecimento da linguagem divina. no nome da revista. é poderoso na sua fala.

A deusa Ma’at encarna essa filosofia de vida mo- ral e ética. o seu ciclo de nascer e se pôr sobre o hori- zonte. distorcida e reduzida ao ridículo ao longo de dois mil anos de esmagamento discriminatório. deus do Sol (vida. seria estéril. medindo sua correspondência em vida aos princí- pios morais e éticos de Ma’at. força. tanto nos seus aspectos físicos como morais. o coração era o peso a ser medido na contrabalança da vida do homem. Assim. Tendo uma cabeça do íbis. no momento de sua morte. e encarnava o mais alto con- ceito da lei e da verdade dos egípcios. Os faraós tinham o seu poder temporal complemen- tado por um poder feminino exercido por soberanas e sacerdotisas. ou seja. assim seguindo o primordial e simbólico exemplo de Osíris e Ísis. Na mitologia egípcia. vilipendiada. a ele se creditavam muitas invenções. entre homem e mulher o poder careceria de fecundidade. entre a autoridade masculina e a femini- na. Thoth era cantado como coração de Rá. premiando cada homem com sua justa recompensa. Thoth dominava também a magia. Consti- tuindo uma espécie de contraparte feminina de Thoth. na sua embarcação. Patrono do aprendizado e das artes. a geometria e a as- . quando ele surgiu pela primeira vez sobre as águas do abismo primordial de Nu. o caminho do direito e da verdade. inclusive a própria escrita. bem como sua trajetória diária do leste ao ociden- te. após sua morte. pássaro que representa na grafia egípcia a figura do coração. ela representa uma característica relevante da civiliza- ção egípcia: a partilha do poder. Sem ser compartilhado entre feminino e masculino. filosofia prática de vida da civilização egípcia. Thoth 15 nou a Ísis as palavras divinas capazes de fazer reviver Osíris. e saúde). Ela corporificava a justiça. tanto no plano espiritual como material. Ma’at e Thoth acompanhavam o deus-sol Rá. esperamos que a revista Thoth ajude a fazer reviver para os afro-descendentes a grandeza da herança civilizatória de seus antepassados. Era Ma’at quem regulava o ritmo do movimento da embarcação de Rá. Como deus da sabedoria e inventor dos ritmos cósmicos. Thoth assim constitui-se no mestre da lei.

Passando sua sabedoria para os seres humanos. entre eles a astronomia. e Thoth se responsabiliza também por exercer esse papel. da sorte. Os paralelos e as semelhanças entre Thoth. da sorte. Exu é a comunicação em si. A invenção da escrita se revela. Conhecido popularmente como mensageiro dos deuses. sem ser socializado. para os gregos. o conhecimento não produz resulta- dos concretos. Thoth se identificava com Hermes. tomando-se ainda o elo de transmissão do conhecimento e do segredo divino entre um domínio e o outro. e cuja autoria era atribuída a Thoth1. Os gregos denominavam Thoth de Hermes Tris- megistus (Thoth. Faz-se necessário um agente de comunicação. Entretanto. da música e dos ladrões e trapaceiros. Conhecedor das línguas humanas e divinas. a exemplo de Ísis. Thoth amplia seu papel no mundo espiritual e material. então. pois ninguém sozinho consegue colocá-lo em prática. Tais atributos de Thoth e de Hermes nos remetem nitidamente à figura de Exu na cosmologia africano- -brasileira. originador do conhecimento em si: formular uma nova forma de transmissão desse conhecimento. Exu constitui o princípio dinâmico que pos- sibilita o fluxo e intercâmbio de energia cósmica entre os domínios do mundo espiritual (Orum) e o mundo material (Aiyê). Hermes. Três Vezes Grande). como decorrência do papel de Thoth.16 THOTH 4/ abril de 1998 Apresentação tronomia. do comér- cio. Os romanos o chamaram de Mercúrio. a magia e a alquimia. nome também dado aos livros que registravam a sabedoria metafísica herdada do antigo Egito. Her- mes e Exu não se reduzem a identidades absolutas. e exerceram uma enorme influência sobre os neoplatônicos do século III na Grécia. da brincadeira e da malandragem. Assim. centrada na ideia da comuni- dade entre todos os seres e objetos. era o deus das estradas e dos viajantes. como o passou para outros seres divinos. mensageiro dos deuses gregos e aquele que conduzia as almas a Hades. bem como na França e na Inglaterra do século XVII . mas as linhas gerais de suas características apontam para 1 Esses tomos tratam de muitos assuntos. áreas do conhecimento que fundamentaram o florescimento da milenar civilização egípcia. além de se apresentar como o deus das estradas.

Thoth 17 uma unidade básica de significação simbólica. junto com Ma’at. questão emergente no Brasil de hoje. e também para o resgate da ética na política. para os dois resgates. que abre todos os trabalhos espirituais com o padê. que uma primeira invocação a Exu. Thoth representa. esta revista tem o objetivo de contribuir. a religiosidade e a ética na mais antiga civilização africana. . o conhecimento. Assim. de acordo com a tradição religiosa afro-brasileira. afirmando ain- da que o primeiro faz parte imprescindível do segundo. a ciên- cia e filosofia. nada mais adequado. Por isso. de alguma forma. tratando-se de uma revista Thoth lançada no Bra- sil. Assumindo o nome Thoth. a oferenda a Exu de uma prece digna de todo o peso milenar da arte africana da oratória. dentro da postura africana em que o nome ultrapassa a denominação. constituem referência básica para o resgate de uma tradição africana escamoteada à população brasileira en- quanto verdadeira matriz de nossa civilização.

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Escrever para T. Abdias do Nascimento é um apaixonado pela sua raça negra. de um e outro lado. Em Cuba os olhos do articulista voltaram-se para a situação do negro nessa nova so- ciedade. Isso. Não luta Abdias pela assimilação do negro pelos brancos. Mas vamos ao que Abdias Nascimento ele nos conta: . vêm pedindo.I. sim. seria o genocídio indolor da raça negra. as impres- sões que publicamos adiante.Crônica da Cuba Abdias Nascimento. Não quer ele que a raça negra “se dilua na branca como um pou- co de café no pote do leite”.I. E é o que os “evoluídos”. de passagem. quer dizer: para os seus cole- gas de profissão e. visitou Cuba e teve a gentileza de escrever para T. para os homens de cor. As ilustrações e as legendas são também de Abdias. incoerentemente. forma adotada como de “justiça social”. homem de vermelha teatro brasileiro.

aproximadamente). quer como faxineiro. per. asiáticos. brancos e negros. incomodam. até norte-americanos. Visitantes do mundo inteiro acor- Em terra. tejos do segundo aniversário da vitória um letreiro: “Cuba – Territorio Libre de da Revolução. Alojam-me no apartamento que tinha sobre a Revolução Cubana. Provavelmente terei sido um . Olho pela janelinha: dorme. Moitas de palmeiras – nha. as visitas sinto a primeira inveja dos cubanos. de oito mil cruzeiros no câmbio de 200 turbam a nossa isenção. xuosa limusine do Instituto Cubano de irmanados numa delegação única. por isso não quis descansar. 1305 no internacionalmente conhecido Desejava partir intocado como um anjo. para agravar sua tensão. Observo agora a esplên. À pacatez. arborizadas. Africanos. crescente nitidez. coletivas. ricanas. seu preço exige vigília e tensão lá embaixo o “crocodilo verde” emergia permanentes. diária atual (pós- de ânimo – um teólogo chamaria de -revolução): seis pesos uma pessoa. limpas. pessoa.22 THOTH 4/ abril de 1998 Debates Embarquei no Galeão com um Desembarco no Hotel Haba- propósito: apagar da memória as ideias na Libre. templaram”? Veremos. abdiquei das prerrogativas de con- vana amanhece formosa e perfumada. em alto relevo. Cum- Amistad con los Pueblos. mesmo. me dida tonalidade verde que se revela em perguntava se por isso a vida da cidade. clima revolucionário produz um impac. hindus e to. diretamente e sem intermediá- Espio o asfalto. atravesso ruas prindo os planos que fiz de ver por mim da cidade: amplas. aumentam carga dramática: a ameaça de iminente rapidamente de tamanho à medida que o invasão do País por forças norte-ame- aparelho desce. não vejo buracos. A Revolução Cubana ti- lento da neblina. Dentro em pouco. Prenúncio do que em a vida da Nação não estaria paralisada. em termos bra. Nesse estado cruzeiros por dólar). ex-hotel Hilton onde. 1492 Colombo definira como “a mais Estava ansioso por verificar essas coi- bela terra que os olhos humanos con. da parede do edificio reram à ilha a fim de participar dos fes- do aeroporto avançou. Enquanto tomava banho. ção. essa primeira manifestação do trepidante como uma feira. latino-americanos.200 e 1. rios. sas. O hall do hotel regurgi- América”. Observo as tabelas Uma Cuba nua e pura – eis o que meus de preço (as antigas ainda permanecem olhos ambicionavam surpreender. ca- inocência angélica – subi aos céus num sal oito pesos (1. O avião sobrevoou a ilha em certa Sabemos que uma revolução não manhã de inverno. vidado oficial do Governo Revolucioná- Evoco nossa “Cidade Maravilhosa” e rio. instalado em lu. uma sobre- ou coqueiros? – se destacam.600 cruzeiros. antes da Revolu- Livre da influência do noticiário da im. tava como um formigueiro. colorido e sileiros. sabia que negro jamais entrara se- prensa e das imagens pré-fabricadas. Ha. aparelho da Braniff. sem refeições: 40 dólares (cerca teressados – pesam. Os fixadas nos aposentos): diária de uma julgamentos apriorísticos – sempre in. Evitei os roteiros oficiais.

xilogravura de Carmelo Gonçalves.Aqui Guatemala. representa a solidariedade da Revolução Cubana a todos os povos oprimidos .

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estariam no Sion ou no Sach’s – de pá bia nada de nada. Fita- nas calçadas. passo mili. moças e senhoras – constatei mais tarde – não se exibem apenas. hotéis. nos va avidamente o mar que se perdia no ônibus. Procu- . Há pelotões femininos cruzando as ruas. Primeira verificação: Aguirre dirige o Departamento de Arte o povo cubano é muito espontâneo e Dramática do Teatro Nacional. a Milícia Nacional quase todos os atos programados por Revolucionária.. tou na expectativa – falou sorrindo para tar e muita feminilidade. montam guarda terroguei: em edifícios públicos. cabelos despenteados de Brigite Bardot. pretos e mulatos se confundem uma jovem miliciana de sentinela. cantandor movimento de cabeça. parecia um objeto estranho e inútil. é a diretora da Casa Sem direção definida. meio per. a coqueteria no uso do gorro. ele possui um por diante. Não conhecia ninguém. Aquele estado de alarma. órgão cultural do Mi- dido. Por exemplo: uma mulher ocupa a pasta de Ministra do Bem-Estar Social. Queria me Não se alarme o tímido verde-amarelo: aventurar sozinho. Povo mesclado: jardins do Hotel Nacional. os Jovens Rebeldes. e operárias da indústria. – Nem uma coisa. nem outra: es- Metralhadora sob o braço. Entretanto. nas casas de comércio. In- cação tchecoslovaca). de las Américas. caminhar. Mirta próximas ao hotel. deparei com brancos. ver. do? No regaço da moça a metralhadora dos de metralhadoras portáteis (fabri. segundo definiu a miliciana. Haydée Santamaria. arma. Prestes e “paredón” farda não consegue reprimir. Haveria algum perigo e picareta na mão abrindo trincheiras ao com a situação excepcional que o país redor do Capitólio. não sa. de ex- cia Feminina é tão pesada e responsável pectativa. outra Impressões da mulher cubana é o diretora do Departamento Nacional de Cultura. Uma ginga de mim e reforçando as palavras com en- quadris. heroína de Sierra Maestra. informal. são camponesas me perderia ou me encontraria nos ca. caminhei devagar pelas calles nistério de Relações Exteriores. As mulheres cuba- atravessava? Melhor que houvesse: eu nas comandam tropas. A tarefa da Milí. quanto a dos demais corpos armados: o não paralisou a vida da cidade. ticos e altos dirigentes governamentais. Crônica da Cuba vermelha Abdias Nascimento 25 convidado imperfeito: estive ausente de Exército Rebelde. sentir. de puxar con- Quando eu visitava certa tarde os versa e fazer amizade. são líderes polí- minhos da Revolução. Soldados da infinito pré-crepuscular. bancos. e assim cordial.. vi garotas delicadas e formosas – aqui viver. À moda carioca. jeito simpático. são evidentes sinais de coqueteria que a Jânio. nas forças armadas. – Triste ou cansada? estações de rádio e televisão etc. entidades ou autoridades. Estaria sonhan- Milícia Nacional Revolucionária.

à qual pedi in. a gente verifica que não tarda a hora Atingimos o centro comercial da cidade. sei. como se fosse uma afastei para ver melhor. um grito se ouviu: “paredón!” Me ingresso do negro. cipais cidades. veis à autodeterminação de Cuba. uniram à primeira: “paredón”. outras vozes se África do Sul ou uma Alemanha racista. os povos colonizados ou semi. Ele então me pediu noticias potência de primeira grandeza. estradas de ferro. cos. Firmou No meio da população civil. ao saber minha nacionalida. Fui informado que terroristas vai acabar com a subserviência brasilei. Muito mais feliz do que a ções de apreço aos povos africanos. com nossa. os latino-americanos. Da cal- nos grandes problemas internacionais çada fiquei observando aquele comunis- que agitam o mundo. de amizade. o o Presidente Jânio uma nítida posição verde-oliva empresta toques marciais anticolonialista. mas de honesta Mencionou o nome de todos os estados curiosidade por tudo o que se refere ao e de suas capitais. demonstrando mais de sessen- mulheres vestem. Não encon. ções diplomáticas e culturais. dução agrícola. prometeu acabar edifício. Em determinado trecho a calçada colonizados como nós. do nosso País se tomar realmente uma eu ia saltar. Para La Época. tratava de bisbilhotice. o que as grisalha. enfim.26 THOTH 4/ abril de 1998 Debates rei mesmo com insistência surpreender às festas da independência do Senegal e um justificado temor a qualquer receio convidou o cardeal africano de Tangani- pelo que pudesse acontecer. Quer aproxima a um mulato escuro. ka para oficiar a missa do próximo dia 7 trei nada disso. o vozeiro Até já enviou o Ministro Afonso Arinos cresceu rápido: “paredón!” . . que não dê as cos- ta que sabia a respeito do Brasil mais do tas aos povos que nele esperam encon- que muitos brasileiros pretensiosos. Sú- com essa história do Itamarati barrar o bito. preço de alimento. Uma senhora. seguro no programa: O céu é o limite. Tomo um ônibus e o regresso me de. Basta de Luís Carlos Prestes: “Acompanho a que o Brasil não continue se omitindo vida desse homem desde 1924”. de cujas janelas. São eloquentes manifesta- e confiante. Teria êxito Em momentos como os que pas. Não se porção de coisas a respeito do Brasil. pro- esperança e confiança nos brasileiros. Vi uma população alegre de setembro. em que redijo estas maltraçadas linhas. formações. no alto do início de conversa. ou do que a população triste da os quais promete iniciar imediatas rela- Cidade do México que eu visitei depois. O trar um aliado de fato: os povos asiáti- ônibus seguiu caminho. No momento se achava bloqueada por uma multidão. Sabia de memória uma o que penso de Jânio Quadros. mencionou as prin- nosso País. Além de afeto... Policiais e bombeiros enchiam o meio parece que o Presidente Jânio Quadros da rua. haviam incendiado o grande Magazine ra em matéria de política exterior.. vi saírem chamas e fumaça. indústrias. os africanos. me bombardeia de perguntas. fez declarações favorá- à cidade.. ta anos de idade. de cabeça saber como se vive no Brasil.

caminham pela colorida praça histórica onde se encontra a bela matriz católica dos tempos coloniais. Toda a praça é modelo exemplar de arquitetura barroca das igrejas dos séculos passados . em visita a Havana (Cuba) no período de 6 a 13 de abril último.O Senador Abdias Nascimento e seu filho Osiris.

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Crônica da Cuba vermelha Abdias Nascimento 29 Mudei de itinerário e continuei Depois de comer. – Fidel tinha tudo. a prestação da minha casa própria. a pertenço até à milícia. arroz. saí novamente. Meu nho de abóboras. entre de cheio dentro do espírito e do sentido Almocei na cafeteria do hotel: da justiça social cristã. família. Há grande consu. Fi- em quantidade. Relações Exteriores. e dividiu tudo com os camponeses. minha ronda. em seu nobre propósito. mas agora dá para a frutos regionais. tão claramen- coquetel de fruta (nossa salada de frutas te proposta e definida pelo pontificado figura correntemente como o prato ini- romano. Brinquedos chineses e so depois do trabalho? japoneses. Tive a expe. de não sabe mesmo de nada. Um mercado farto. bispo católico: Revolução criou “Acreditamos que nossa atual reforma agrária. Hoje pago 15 pesos de param bem o frango assado! – cereais. elegantes. tinha fazendas. (Palavras de Os pretos no mundo que a Monsenhor Evelio Díaz. Os pre. com a reforma urbana. com uma diferença: o alu- legumes. Mira – coradas e uma espécie de carne em con. legumes viçosos. e às 9 pego o plantão. Tive ocasião de visitar o mer. ços se equiparam aos daqui. peixe gente viver. O homem me responde como do comércio de Copacabana. del é um Jesus Cristo. Grande variedade de salário é o mesmo. sobretudo desde Leão XIII em cial do cardápio cubano). seu salário. E como o quem se sentisse injuriado: “charme” das cubanas é bem cultivado! – Claro que estou satisfeito. Muita fantasia nas 6 da tarde. a fim artigos de procedência norte-americana de provocar o cidadão: são escassos e mais caros. – Quer dizer que Fidel tem tudo e riência quando necessitei adquirir uma vocês não têm o direito nem ao descan- caneta Parker. por exemplo. Apenas os Mas eu estava. do tama. despejou um verdadeiro discurso) Fidel tinha terras. prossegue o chofer – antes da Revolu- serva lembrando come-bife. Vitrinas bem arrumadas Tomei um táxi e pedi: Ministério das exibem roupas femininas e masculinas. nhava 100 pesos. guel. com o motorista: se melhorou ou piorou de. mensalidade. Um comércio improvisado. (O motorista mavam de longas mesas instaladas nas me olhou condescendente: estrangeiro calçadas. batatas sua encíclica Rerum Novarum). (Olhei bem para . se tornou cado e vi berinjelas enormes. emergência. Em seguida. se está satisfeito com a Re- truários de Gonçalves Dias-Ouvidor ou volução. Deixo o táxi às coisa impressiona. vou em casa jantar e ver a formas audaciosas. bonecas cubanas se derra. Puxo conversa Tecidos variados em gênero e qualida. Se Em relação a sapatos. Em Havana ção eu pagava de aluguel 70 pesos por não comi carne verde. mês (cerca de 14 mil cruzeiros) e ga- mo de carne de porco. como se diz. aves – como pre. Quer saber? Para mim. Não havia muita diferença dos mos.

ouvi a mesma afirmativa de gente sim. comandando pelotões e dirigindo ser- ça dos nossos emproados e equívocos viços. Urfé. Em certo instante o diretor pega o telefone. À saída da estreia do filme 2 – desfile militar. general negro. experiência mais forte e importante. ne- surpresa. Andei com Para mim. Não me levara ca compreenderá por que esse aspecto ali nenhum assunto específico. os trabalhadores da indústria do itamaratianos! açúcar têm um mártir: o negro Jesús – Quer falar comigo? Menéndez. “Então é mesmo pos- No Ministério do Exterior pedi à sível que pretos e brancos se integrem. terior meditando. cional de Investigaciones Folklóricas. Que diferen. é a patronesse da Milícía Feminina assunto). Vigoa desculpou-se por Quem conhece minha vida públi- me haver feito esperar. Queria da Revolução Cubana foi para mim a apenas conversar. O so em falso: mulato Juan de Almeyda ocupa o mais – Desejo falar ao diretor. escritores e em Ciudad Libertad. Revolucionária. O Sr. O povo lhes dedica profun- gentileza e compreensão. peito de coisas e assuntos de arte. Surgiu à porta um negro alto e inteligente. Eu estava distraído. de e estudantes. manência somente nas posições inferio- servei a vivacidade e a informalidade de res da sociedade?” Vi mulheres negras funcionários e diplomatas. também general). assassinado pelos antigos monopolistas do produto. Vigoa.30 THOTH 4/ abril de 1998 Debates a cara do homem: tive a certeza que não aglomerava à porta do cinema aplaudiu era um débil mental. milicianos. a 2 Histórias da Revolução. Não conhe. políticos. as festas de aniversário ele pelas ruas e em qualquer lugar ele é foram as três solenidades a que compa- abraçado. reci: 1 – início do Año de la Educación. Odilio sorridente. O segundo aniversário da Revolução disca e me põe em contato com Nicolás Guillén. por gente humil. outro negro. desaparecimento do negro ou a sua per- cia o Sr. Abandonei o Ministério do Ex- ples. Guillén é o poeta nacional de Cuba. Antonio Vigoa. (Fez um gesto de extrema ria de Cuba. A mãe dos Maceo (outro teza de que ele sabia a razão da minha irmão de Antonio. sensível e culto. secretária que me anunciasse ao diretor sem que essa integração signifique o do Departamento Cultural. e o branco José – Tenha a bondade de passar ao Martí são as figuras máximas da Histó- meu gabinete. Noutras ocasiões e gritou o seu nome. Eu tinha cer. da veneração. me informar a res. velho e querido amigo. pensei que estava dando um pas. o povo que se de janeiro. Maceo. é festejado. na Praça Cívica. ocupa a direção do Instituto Na- sustei. me as. alto posto no Exército Rebelde. porém sensata). o Sr. Enquanto esperava. ob. 3 – recepção do Presidente . a 31 de dezembro. mas nada dissemos sobre o gra.

uma constante. Esse fato propõe uma meditação. tarde – se transformou num quartel. taforma.” Cada caras. nós. papelão: galinha frita. para que todo o mundo viva gem que a história nos transmite. assada. temos seis dicionada higienicamente em caixas de milhões de soldados para a Revolução. biscoitos. hidrogênio é melhor. arrasando o território da ilha. aí. bia e principal centro bélico do tirano sim. A mul- . se o rocidade. a fortaleza tomou o nome su. cada lar cubano – confirmei mais homenagem ao Año de la Educación. os alto-falantes am- vez de uma tropa que o defenda. arma pliaram sua voz que era ouvida desde o povo. porque todos são soldados e ordeira se instalara ao longo de com- da Revolução. Uma bomba atômica – ou de rado. seria possível liquidar aquela Re- Fulgencio Batista. em discurso-diálogo povo não está apenas fazendo bravatas. banhada em sangue – eis a ima- sem medo. os camponeses. la Reforma Agraria. entrega ao povo armado a se. No mo. Tudo em casa. todo cantos. vez. cuja evolução históri- mento em que Fidel Castro entregava ca foi relativamente calma. brasileiros. pessoal e intransferível. Senhoras envergavam toaletes o povo é soldado da Revolução. uvas e meio litro de lhos. cheguei á Ci. 50 acrescentou: “Agora há mais soldados mil. de Liberdade a multidão – 20 mil. aproximou-se dos microfones. Osvaldo Dorticós Tor. os ve. de sangue. listas? – matando seis milhões de uma dade Liberdade. em paz?” Caracterizando ainda mais o Nos imensos campos da Cida- sentido civil e popular do seu governo. em Começou a falar. Transformada em volução que cada pessoa defendia como escola. com os escolares. Para gestivo de Cidade Liberdade. na base de o Campo de Colúmbia ao Ministro da flores. longe. Hiroshima. del Castro de ser um ditador se ele. se o que independência de Cuba são pelejas de fe- faz falta são campos desportivos. os operários. Fidel Castro assomou numa pla- Como é que alguém pode incriminar Fi. Foi servida uma ceia con- mil. Dr. os professores. Sombras interferiam no jato de gurança e a defesa da sua “ditadura”? luz do projetor que o iluminava. As lutas. os vinho espanhol. Agora em vez de dez pridas mesas. senhores imperia- Lá pelas 22 horas. carne de porco porque a defendem as crianças. Cuba ver- que faz falta é que todo o mundo viva melha. vinte mil ou trinta mil. em como aquele que findava fora o Año de arsenal particular da família. O lí- Bem. é difícil compreender que aquele Educação (1959). Crônica da Cuba vermelha Abdias Nascimento 31 da República. Vaguei pelos quatro estudantes. no Palácio do Governo. soirés roçavam a grama. as batalhas pela se o que faz falta são escolas. coisa sua. 100 mil pessoas? – entusiasmada que antes. todos. aquele “ditador” só poderia ser der máximo da Revolução me deu uma derrotado com a repetição da tragédia de impressão curiosa de irrealidade. de morte. perguntou: “Para que Mas é só consultar os fatos históricos da- queremos uma fortaleza aqui rodeando quele país para verificar que o sangue é a cidade? Para que queremos quartéis. ex-Campo de Colúm.

Pensei nos 50 milhões de profissionalizados. obviamente. . ágil. feliz como um garoto brincalhão. os Durante a parada militar do dia poemas declamados por Pablo Neruda e 2. pude observar Fidel Nicolás Guillén. foi exibido um foguete. passo altivo. com o Desfilou o Exército Rebelde analfabetismo no território nacional. de uma vivacidade de cau- estranho. brasileiros que não sabem ler e escrever. procedentes do interior. Ele estava situado sob a de. Todo o mundo trôpego. o amigo. to direto das necessidades e dos interes- tensão. mui- desconhecidas entre si. com o comunismo é algo que corre cación. numa praça. pecável. Possivelmente a origem do -ministro salta numa rua. em 12 meses. Fidel e seus companheiros do Caballo: me pareceu um ser bipolar. O teleguiado caiu em terri- o palanque oficial. A Milícia Feminina. a imagem de Fidel dis. herói sar espanto. o tablado. Ou seria exaltação Fidel. menor cerimônia. por conta de quem a faz. Guia pessoalmente seu carro nição dos cubanos a respeito de Fidel: e. por exem- del anuncia o início do Año de la Edu. quando menos se espera. garboso. Em lume atlético de dois metros de altura. Uma forma de tratamento íntima e ca- ção? Entretanto.32 THOTH 4/ abril de 1998 Debates tidão. epíteto não estava apenas no seu vo. Sem a Foi recebido por uma gargalhada geral. formidável e invencível. Um desfile tocante. dadãos para acabar. muito menos com a teoria da revolução produzida por outros povos. fantástico. Mobilização total de todos os ci. julgo ter decifrado a significação ses coletivos. se abraçavam e to diferente das paradas dos exércitos se beijavam. plo. na Praça Cívica. O tendo à frente o comandante-em-chefe povo assumiu com ele o compromisso Juan de Almeyda. Fidel se agitava. mesmo amarfanhada. produzir uma teoria da sua revolução. de liderança fazem uma revolução de a um tempo homem e cavalo. cação da Revolução Cubana. tório cubano e matou algumas galinhas. não exclui de nazareno. da minha imagina. dos meus sentidos. ali se acha- garbo. Fidel. seguida decide. do motorista. o que. as pessoas. qualquer um chama- cursando formavam para mim um todo va o primeiro-ministro simplesmente de incrível. precedeu o discurso de Fidel. na farda desigual e por vezes cantou e dançou. Eles não se preocupam em mitológico que milagrosamente ressur. na base do conhecimen- Haveria algo mais. ria. apesar da barba rinhosa. Mas se adivinhava a luta e o he- vam presentes. nada tinha do Jesus Cristo o respeito. O sol caía em cheio sobre dos Unidos. Mais de mil professores voluntá- brilhante. A comemoração atingira roísmo daqueles soldados – no passo seu ponto culminante. em formação im- Invejei novamente. o primeiro- EI Caballo. Um ser ação. conversa com o povo. Não tinha aspecto solene. toma notas. ge de uma epopeia grega. lançado pelos Esta- José Martí. Encerrando a solenida- mais de perto. A identifi- Ao primeiro minuto de 1961. nem nos uniformes nem no rios. Me ocorreu outra defi. Fi. Fidel é sempre o camarada. ele respondia com naturalidade. Com atenção e pre. reconstruído enorme e bela escultura representando por técnicos locais.

artistas e vida noturna mundo. Sociedade cubana. Assim. onde os brancos negam a existência do preconceito. direi que os autores mais anunciados nas . Felicitei o Presidente de romper as relações com Cuba. uma notícia e se retirou incontinente da convidados estrangeiros e. naturalmen. Crônica da Cuba vermelha Abdias Nascimento 33 A música é um dos produtos mais significativos da cultura cubana. Pretendo. mas ne. recepção: os Estados Unidos acabavam te. esta xilogravura se intitula Concierto Nocturno Nada de especial na recepção do del Castro. Antes que do teatro em Cuba. De autoria de Carmelo Ganzález. me tocasse a vez de cumprimentar Fi. rapidamente. os “barbudos”. em nota posterior. falar gro não consegue ser nada. o primeiro-ministro recebeu Presidente Dorticós. Um exemplo principalmente para o Brasil. Dorticós pelo exemplo de democracia racial que seu governo estava dando ao Teatro.

vi o danzón. de Arte Dra. Visitei. ela cubana. com os alunos de carnaval”. subdiretor (lglesia de Paula). di- Danças Modernas. cálido. cuíca. em com- ciona numa velha igreja reconstruída panhia do arquiteto Robaina. um apaixonado da matéria. e na inauguração pronunciei uma Num espetáculo do Tropicana. e o ritmo criollo – agradaram. mento. que tem ainda os seguintes de Almeida. ele e Bertold Brecht. que ouvi o mais (pequena cidade a que se vai de barco. contrabaixo. tresandando às for. autoria de um jovem. do filme Orfeu. vamente Monsenhor. que lá ob- do seminário. Com a interpretação Instituição da mais alta impor. Vi dois ótimos espetáculos de Não encontrei nas livrarias de folclore na Sala Covarrubias do Teatro Havana obras brasileiras. gumas traduções de romances de Jorge nizados por Argeliers Léon. de teatro e boate. também falei sobre o nosso de Tom e Vinícius de Morais “Manhã teatro. maravilhoso. de Havana é intensa. como se dança verdadeiramente um bo- Urfé reuniu alguns “cobras”: violino. Man. de Nelson Rodrigues. a to como direção (Morín) e interpretação delicadeza da contradança francesa. vi conferência. belo gênero da música popular do país: assim como Niterói). Em Regia. ca que tem a um tempo o rendilhado. talvez). de noiva. da (papel-título: Asseneh Rodriguez) me qual é filha legítima. Viu nossos espetáculos cubana. intenso. Seu diretor é Odilio da Casa de las Américas. lero. e tanto tex. produz um trabalho do mais e da televisão. Ele brasileiro. e finda a palestra. um bar-restau- tém um museu folclórico precioso. nem discos. de samba na residência do casal Hélio mática (dirigido por Mirta Aguirre) e de Dutra – Gina Cabrera. ricas. Reen- Departamento de Folclore do Teatro contrei o nosso Caymmi. o pontão de Regla tes tradições cubanas. Uma gostosura aquela músi- espejo. picos. sob a responsabilidade de Rami. em Havana. atriz consagrada do teatro ro Guerra. A vida noturna Investigaciones Folklóricas. uma rumba-colúmbia ou um chá- . De volta a Havana. No Departamento de Arte um quadro bem realizado com a música Dramática. realizou-se um debate.34 THOTH 4/ abril de 1998 Debates várias salas de espetáculos são Tchecov flauta. e rante superesnobe chamado significati- foi nesse ambiente. da “Serafina” desse filme. enorme interesse fez uma documentada conferência sobre pelo nosso teatro. rigente de um laboratório farmacêutico. Tais espetáculos foram orga. teve grande êxito. que fun. Nem livros. como La Carreta. Somente al- Nacional. Fiz uma exposição de teatro brasileiro e alimenta um desejo: fotografias do Teatro Experimental do representar uma peça brasileira (Vestido Negro na Biblioteca da Casa de las Amé. a nossa Araci Nacional. Este último departa. restaurantes tí- Urfé. guitarra. Há. Léa Garcia tância cultural é o Instituto Nacional de ganhou cartaz em Cuba. Assisti a Medea en el ao piano. o ritmo de nossas escolas departamentos: de Música. Gina já esteve de férias alto valor para a criação de uma dança em nosso País. diretor do Amado. Na véspera do meu regresso.

Hélio Dutra me deguita del Medio para conhecer as be. meus irmãos cubanos ficaram. acompanhou ao aeroporto. agora rumo ao México. Mil veces se ha repetido passos complicados. A freguesia é recebida por Carlos Puebla. tanto no fervor coreográfico dos dançarinos como na “bossa” e no no después de haber venido. O que aquí los que vengan quedan ambiente. compositor popular. gosto por mulher. Crônica da Cuba vermelha Abdias Nascimento 35 -chá-chá. punetazos). que (Artigo publicado na revista de guitarra em punho saudou num som: Teatro Ilustrado. 1961) . outubro. Meus ami- bidas da terra: daiquiri e mojito. Uma riqueza de movimentos. De novo a bordo de um avião. Provar gos. Nicolás Guillén me levou à Bo. plena invenção. Co- as comidas típicas (inclusive plátanos a migo trouxe a Revolução. lembra nossas que lo piensen mientras puedan gafieiras. mais pobre.

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Discussão do Sessão de 11 de março de 1998

Projeto de Ação
O SR. PRESIDENTE (Bernardo
Compensatória Cabral) – Concedo a palavra ao Senador
Roberto Requião para relatar o projeto. A
na Comissão de preferência foi votada em homenagem ao
Constituição nosso colega Senador Abdias Nascimento.
O SR. ROBERTO REQUIÃO – Sr.
e Justiça do Presidente, o projeto do Senador Abdias
Senado Federal Nascimento dispõe sobre medidas de ação
compensatória para a implementação do
princípio da isonomia social do negro.
O SR. PRESIDENTE (Bernardo
Cabral) – Qual é o item da pauta, Senador?
O SR. ROBERTO REQUIÃO – É o
item nº 36, à pág. 429 do anexo.
O presente projeto de lei, de autoria
do Senador Abdias Nascimento, tem por es-
copo exigir que todos os órgãos da Adminis-
tração Pública direta e indireta, as empresas

40 THOTH 4/ abril de 1998
Atuação Parlamentar

públicas e as sociedades de economia quais incorporar ao conteúdo dos cursos
mista sejam obrigados a manter, nos de História Geral o ensino das contribui-
seus respectivos quadros de servidores, ções positivas das civilizações africanas
20% de homens negros e 20% de mu- e eliminar dos currículos e livros esco-
lheres negras em todos os postos de tra- lares qualquer referência preconceituosa
balho e de direção – art. 1º. ou estereotipada ao negro.
As empresas privadas passariam O art. 8º obriga as forças policiais
a ser obrigadas, de acordo com o art. 2º a incluírem nos currículos de seus cursos
do projeto, a executar medidas de ação orientação que vise a impedir qualquer
compensatória, com vistas a atingir, no comportamento de discriminação étnica.
prazo de cinco anos, a participação da Finalmente, o art. 9º estabelece
referida percentagem de homens e mu- que a Fundação Instituto Brasileiro de
lheres negros em todos os níveis de seu Geografia e Estatística está obrigada a
quadro, empregos e remunerações. incluir o quesito cor em todas as pesqui-
Pelo art. 3º, o candidato negro sas, estatísticas e censos.
teria preferência sobre o branco na ad- Na sua justificação, o nobre au-
missão a emprego, caso demonstradas tor da proposta enfatiza o árduo traba-
entre os dois idênticas qualificações lho dos negros na construção do Brasil,
profissionais. sem que fossem por ele minimamente
Com a finalidade de aumentar o compensados. Sofreram toda espécie de
número de candidatos negros qualifica- atrocidades e, por todas essas razões, é
dos em escalões superiores profissio- preciso que a Nação salde essa grande
nais, o art. 4º da iniciativa determina dívida que tem para com eles, justifican-
que o Ministério do Trabalho e os orga- do-se, assim, a ideia da isonomia pela
nismos de treinamento de mão de obra compensação, no sentido de indenizar
executem programas de aprendizagem. o trabalho não remunerado do negro es-
cravizado.
O seu art. 5º prevê a inclusão na
Lei Orçamentária Anual dos recursos O princípio do art. 5º da Cons-
tituição, segundo a justificação, ainda
necessários para o desenvolvimento de
não se constituiu num verdadeiro direito
estudos a respeito do ensino e do aper-
para o negro brasileiro, fazendo-se ne-
feiçoamento técnico das medidas de
cessária, assim, uma atitude concreta
ação compensatória.
para implementar o direito constitucio-
No art. 6º, destinam-se a estudan- nal de igualdade. Dessa forma, o pro-
tes negros 40% das bolsas de estudo con- jeto visa a aumentar as oportunidades
cedidas em todos os níveis de ensino. de trabalho, aperfeiçoar a educação dos
O art. 7º incumbe ao Ministério da negros e também o tratamento policial
Educação a implementação de medidas para com estes. Como não se pode es-
propostas por grupos de trabalho, com perar o espontâneo desaparecimento
vistas a uma série de objetivos, dentre os da discriminação nação depois de tanto

Senador Roberto Requião, relator do Projeto de Ação Compensatória

dos e dois terços são mulatos e negros. 76% são analfabetos ou semialfabetiza- tado de normas. diversas formas do preconceito cotidia- ca visão da “democracia racial”. pelo natureza constitucional e jurídica. tanto. como atestam as mais contribuído sensivelmente para a clássi. as quais. diferente. A esta altura. das via. a desigualdade no tratamento não há como aceitar a tese de que essas entre negros e brancos pela polícia. a discriminação a discriminação contra os negros não é racial não ser sancionada em lei desde algo patenteado apenas pelos números a abolição do regime escravocrata tem das estatísticas. acesso à escola entre negro e branco. matéria demonstram. estão sempre sobrerepresen- para se superar de fato a discriminação tados nos números relativos às piores si- racial contra a população negra. De acordo com tal pesquisa. Os negros e mulatos. em proporção moteadas das práticas discriminatórias relativamente análoga à da participação da sociedade brasileira. as esferas da vida nacional. que envolvem pessoas famosas. as negadas por seus autores quando o fato diferenças de níveis educacionais e de adquire repercussão. mente de outros países. do projeto em exame. e infimamen- presente impermeável às normas proi. a igualdade perante a lei seja verificada. te representados nas melhores posições bitivas. na prática. sempre parativamente ao trabalhador branco. consagrado no Justiça. a presente sentam em torno de 45% da população proposição será um instrumento básico brasileira. Ao Conselho Nacional da Política Criminal contrário. Toda. a fim de que. até o tuações socioeconômicas. dos indicadores sociais. O projeto enfatiza. e Penitenciária. desproporções se devem às extremas Em resumo. À maneira via esse mito não resiste ao exame das de algo que já se tornou habitual com estatísticas relativas à posição do negro o homem comum. no Brasil. não resistem à crueza das estatísti- quais ele tem sido excluído por tempo cas oficiais. que se traduz em quase totalidade dos presos é absoluta- tratar desigualmente os desiguais. tão rio se faz o estabelecimento das metas bem expostas pelo autor na justificação legais aqui visadas. O fato de. as formas esca- des para o negro integrar. a art. é necessário que o Estado seja do. 5o da Lei Maior. nação estabelecidas pelo projeto de lei Os estudos disponíveis sobre a proposto instituem maiores oportunida. as medidas de ação desigualdades socioeconômicas exis- compensatória da escravidão e discrimi. necessá. a imprensa pratica- no sistema de ocupações da economia mente se refere apenas às manifestações brasileira – a diferenciação salarial com. já. já também. tentes no País. que repre- Transformada em lei. Naturalmente. órgão do Ministério da ro sentido da isonomia. resul- O projeto não encontra óbices de tante do censo realizado em 1993. encontra amparo no verdadei. toda- branca. . Por isso não causa surpresa demasiadamente longo.42 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar tempo em que ela se verificou. no de que eles são vítimas. o perfil do presidiário brasileiro. Para mente pobre: 68% têm menos de 25 anos.

JEFFERSON PÉRES valorizadas. transformada em lei. Opinamos. Tenho amigos que ainda se verifica no mundo atual. que nível de qualificação. pois. PRESIDENTE (Bernardo novas formas de convivência social e Cabral) – Com a palavra o Senador Je- superar a discriminação que condena os fferson Péres para discutir a matéria. pela sociedade. entre pessoas com o mesmo jurídica como igualação jurídica. Esse padrão de relacionamento É o Relatório. tronizada na cultura brasileira de uma pela aprovação da iniciativa. com o fim de cristalizar O SR. perspectiva vislumbrada em dada socie. Presidente. (Carmem Lúcia Antunes de mestiçagem existente? Isso se dará Rocha. isso será lativa nº 131. Sr. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 43 A discriminação racial está en. – Sr. Não sei em a necessidade de se pensar a igualdade que medida. da igualdade jurídica. Sr. escamoteia-se. representará uma temente. e minei as pessoas pela cor. a serem impositivamente praticadas Presidente. Nunca discri- injustiça. É chegada a hora de iniciativas que definam ações O SR. Sr. peço vista do projeto. negros às posições socialmente menos O SR. discrimina-se. Nação. Presidente. Como isso poderá ser deter- . se possa dar prefe- se faz constitucionalmente no compas. JEFFERSON PÉRES – Sr. rência a umas ou outras em razão da cor. pois. tenho dúvidas so- tado princípio magno e que representa bre a constitucionalidade. peço a palavra para discutir. se forma bastante peculiar. “Ação afirmativa. se. Quem em processo de realização permanente. sedimentada no passado. A igualdade posta em movimento. PRESIDENTE (Bernardo impermeável às mudanças propostas pe- Cabral) – A matéria está em discussão. que. país de mestiços como o Brasil. las normas legais proibitivas. Presidente. terísticas européias? Na prática. impossível. corren. digo isso possa ser construído um novo sentido com a tranquilidade de quem nunca foi. so da história. é negro e quem não o é? Como pesso- a igualdade provocada pelo direito. 287). as mestiças podem ser qualificadas? gundo o sentido próprio a ela atribuído São brancas? São negras? Qual o grau pela sociedade. Daí sua perfeita consonância com o ci. Presidente. entre negros e outras raças. p. reparando grave não é e nunca será racista. O conteúdo quando houver predominância de carac- democrático do princípio da igualdade terísticas africanas em relação às carac- jurídica” Revista de Informação Legis. no instante presente e de não sei se isso não fere a Constituição. pois tenho dúvidas sobre a sua consti- ge no nosso tempo justamente para que tucionalidade. Há um problema de ordem prática num dade. A chamada ação afirmativa sur. alavanca para a ascensão econômica e nega-se e ignora-se a discriminação social da população negra e sua com- como se tais práticas não fizessem parte pensação tão merecida e necessária pelas das relações sociais que conformam a injustiças sofridas ao longo da história. entre brancos e negros tem-se mostrado O SR.

Quanto à cota racial de 20% de nos seus respectivos quadros de servi- mulheres e de homens negros para ad. mediante concurso iniciativa. no vez. 20% de homens negros e 20% de missão na Administração Pública dire. mas permitindo que os negros branco”.” tos. dada a clareza do mandamento Sessão de 18 de março de 1998 maior. na próxima reunião. PRESIDENTE (Bernardo labilidade do direito à vida. incontornável. estrangeiros residentes no País a invio- O SR. praticar uma ver- O SR. pre que ele demonstrar idênticas quali- to um concurso exclusivamente para ficações profissionais às do candidato negros.. Presidente. 3º. za. Como isso será colocado em Destacamos também o seu art. de reconhecer o vício de inconstitucio- nalidade de que está eivada a propo- sição. em todos os postos de ta e indireta. Nascimento é novo. ao também concorram com os brancos? revelar uma justa preocupação com re- Sr. 5º Todos são iguais perante incompreensões entre negros e brancos.. à liberdade. ele possa vir a motivar a ocorrência seu caput. a meu ver. de. segundo o seu nos Estados Unidos. que “todos os órgãos da Admi- branco. nas autarquias e na ad. as quena? Haverá uma dificuldade enorme empresas públicas e as sociedades de e. prática? Será realizado um concurso segundo o qual “assegura-se a preferência para brancos e outro para preencher a na admissão do candidato negro sem- cota exclusiva de negros? Ou será fei. que assim reza: de conflitos raciais e de grandes e sérias “Art. sob o argumento de alavancar a condição de uma mino- Concedo a palavra ao Senador Je. Esse é o disposi- serviço público. só se admite ingresso no trabalho e de direção”. a matéria Dessa forma. o presente projeto de lei tem pulações definidas.44 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar minado num país onde não há duas po. tivo principal que norteia o objetivo da ministração direta. equí- – Sr. o projeto. sem distinção de qualquer nature- Quero examinar esse assunto com cui. tal. dores. por escopo determinar. Sr. ninguém desconhece. talvez. Senhoras e Senhores voco no qual muitos incorrem ao inter- . Senadores fiquem aten. Embora digno de encômios. 1º. nistração Pública direta e indireta. mulheres negras. 5º da Constituição Federal. Senadores. garantindo-se aos brasileiros e aos dado e. fato que fferson Péres. à segurança e à proprieda- pede que os Srs. a lei. como. JEFFERSON PÉRES dadeira discriminação às avessas. Presidente. público. portanto. Presidente. onde a mestiçagem é muito pe. porque. peço vista da matéria. ria secularmente desassistida. é impossível deixar será colocada em discussão e em votação. compreendo que lação à melhoria das condições da raça esse projeto de lei do Senador Abdias negra no Brasil. onde se é negro ou art. por exemplo. Não se pode. mas penso que. economia mista são obrigadas a manter.). Cabral) – A Presidência defere a vista e à igualdade. nos termos seguintes (. fere o art.

compensatória. sidade no trabalho. se desigualam. verno Clinton que descreva. sem ferir a Lei Maior. país que primeiro cuidou da ação sibilidade de empregadores poderem. o Tribunal Federal de Recursos. e não se assemelha à forma que o destinados a aumentar as matrículas das presente projeto pretende adotar. ser definidas como minorias sociais. minorias. decidiu ficar com um instrutor e demi- gido. gerais. que será um marco divisor mesmos moldes dos comentários do no controvertido debate nacional a res. analisado por Bob pacto retardado de preconceitos sociais Drumond. que tornaram A Suprema Corte dos Estados ilegal a discriminação contra negros e Unidos pediu à administração federal brancos. sediado na Constituição mentar o mixing racial no corpo docente Federal. A propósito. na medida em que apresentaram-se para um único cargo. de 23 nefícios gerais da diversidade ou do im- de janeiro de 1997. essa vitória. nem como artifício candidatos a empregos pertencentes a de simplificação. abaixo reproduzido: . em certas circunstâncias. terpreta o art. a melhor doutrina in- em recurso pendente sobre uma poten. qual a sua opinião quanto à pos- dos. pesquisadora da Universidade de dizendo que foi demitida injustamente Maryland. Ela venceu. resumindo nou. Há outros caminhos que po. diferentemente do que se possa pen. as políticas de ação afir. destinada a reverter situação tar o valor educacional da diversidade de desigualdade firmada ao longo do quando projeta programas de admissão tempo. A professora Sha- ron Taxman entrou com um processo. professores com a mesma qualificação mente os desiguais. apenas para au- de igualdade. E aqui. que corrobora os argumentos mais amplos não são suficientes para aqui contidos: sobrepujar as leis federais. para promover a diver- políticas de cotas. na nação norte-americana. “O projeto. a medida O caso também ameaça a capa- de favorecimento das minorias raciais é cidade de uma escola ou faculdade ci- temporária.” seus principais pontos de argumentação No Brasil. porque é branca. 5º da Constituição nos cial disputa. favorecer mativa não podem. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 45 pretar o citado Preceito Magno. e. da mesma forma determi- que apresente uma súmula. dem levar à busca da isonomia social A Corte Suprema pediu ao Go- do negro. em Nova Jersey. é importante salientar nal de Recursos da Filadélfia manteve que. “Argumentos a respeito dos be- to editado na Gazela Mercantil. sar. na sua Trata-se de processo no qual dois concepção clássica de tratar desigual. e o Conselho Escolar. e o Tribu- Portanto. citamos caso concre. ger.” Cito Rosana Herin. peito da política de preferências raciais. tal como está redi. em linhas oportuno é citar que. renomado jurista José Cretella Júnior. do secundário. constitui distorção do princípio tir o seu colega branco. nos Estados Uni.

então. país que se destaca por inten. que a eficácia é característica indis- . em que o elemento indígena Brasil. no sentido Poder-se-ia afirmar que os mulatos o quantitativo. e se da questão. A eficácia seria bastante dificul- por não ser dotada de um dos elementos tada também em alguns estados brasi- primaciais: a força de coerção. do elemento negro. os considera. para preencher a quota de- sejam. por exemplo. drões e avaliados sob o mesmo critério. que a percentagem de negros é mínima caso aprovado. que apresenta mais ca- quer pessoa em razão da cor. lei sem eficácia não é lei. de aplicabilidade. é o predominante. municípios? Seria muito difícil aplicar viver. ou em estados pelas razões que passamos a expor. secularmente discriminados? Mesmo dos são selecionados sob os mesmos pa. Não haveria. cota para sua raça.46 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar “Se o critério é discriminar qual. ou seja. nesses sa miscigenação. negra. podemos se aprovada para incluir determinada até mesmo concluir que o projeto pade. que também concluir pela inconstitucionalidade da são minoria racial. ca- dos elementos que respaldam a norma boclo e branco no beiradão dos nossos jurídica. por não produzir efeitos jurídicos a lei ou. caso seja aprovado. é quase impossível estados. pelas mesmas razões porque. não gerar condições de aplica. mas são também princípio de igualdade. com relação à definição exata dadeira incongruência no nosso ordena. dios e estaríamos sendo profundamente bilidade e não encontrar eco no mundo injustos com eles. Ora. em O projeto analisado acarretaria. dada a sua importân- há diversidade grande de cor. quem é índio. haveria dificuldade ce também de vício de injuridicidade. se quisesse contemplar os índios. sem a qual esta não pode sobre. Exª sabe. entre os índios. do direito. não se aplicaria aos ín- concretos. no in- to à sua eficácia. que Existe outra razão que nos leva a também são discriminados. gerará ver. que não são nem prego. racterísticas da raça branca do que da além do ilícito civil ou patrimonial. segundo o qual to. há miscigenação. como poderia ser me inafiançável e imprescritível. mento jurídico como um todo e no trato Senador Bernardo Cabral. aquela que diz respei. dificuldade de eficácia em relação aos brancos. Porém. No do Norte. notadamente no sul do País. deverá prevalecer como critério. o brancos nem negros. A eficácia vem a ser um terior do Amazonas. comete-se. num Estado como o iniciativa. Repetimos. Amazonas? Como V. ainda que a emenda fos- Do comentário exposto. sujeito definido? Ele estaria incluso na cota à pena de reclusão nos termos da lei. expostas. Se do projeto? E não é só. leiros. cri. pois a comunidade negra assim terminada. O mulato cia. mesmo entre eles.” Assim. Quem seria legal com esse teor eficaz por absoluta considerado negro e quem não o seria? falta de elemento humano. bisneto de negro. Como ficaria houver admissão ou seleção para o em. a situação dos índios. condições de tornar diploma separar as diversas raças.

estabe. tam-se restritivamente os dispositivos Agora. curso consiste em selecionar os mais ca- ou não”. da Constituição. Pertinente aqui ao ensi. sexo. pois esta falava em obrigatoriedade desconsiderar a finalidade contida na do concurso para a primeira investidura referida norma. um dos pilares sobre os investidura em cargo ou emprego pú- quais deve firmar-se a norma legal é a blico depende de aprovação prévia em sua eficácia. ou não. em face da realidade social por ele o negro. aplicando-as. da Carta Magna o preceito contido no inciso II do art. carac. ou indivíduos. ajustam. asseguram prer. ressalvadas as nomeações Interpretar de outra. A análise eficacial importará relevante para o funcionamento da má- em se saber se os destinatários da norma quina estatal. vis- sua condição técnica de aplicação. axiológicas e técnicas da atua. é mais rigorosa do que a ante- lítica estabelecida no Texto Maior. Assim. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 47 pensável para a validade da lei. seu comportamento às A verdadeira isonomia no con- prescrições normativas. não só a primeira investidura que instituem regras gerais firmadas na quanto todo e qualquer ingresso no ser- Constituição. Esse foi o espírito norteador do le- orgakilas. forma o art. no tocante à essa substância. segundo o qual “a Portanto. excluem outros. “Assim. supondo não só a questão da que o elemento negro é escasso. que lhe garante aplicabili. vas e títulos. sem considerar a sua A Carta atual. A eficácia vem quanto à ineficácia do projeto. no que a ser a qualidade do preceito normativo se refere à difícil definição das raças vigente de produzir os efeitos jurídicos e à sua aplicabilidade nos estados em concretos. inconstitucional a reserva de 40% das rogativas ou cerceiam. vigência. gislador constituinte ao inserir no corpo midade. Reservar 40% das vagas para ção. dando ensejo. tão-só em virtude da cor. critério duvi- hermenêutica constitucional interpre. mas também de sua adequa. concurso público de provas ou de pro- dade no mundo jurídico. etc. pazes independentemente de raça. por rior. Além das razões já expostas ção da norma jurídica. doso de seleção tão em voga na época. públicos. tanto seria inteiramente lecem compatibilidade. 37. fáticas. no serviço público. embora tempora. entenda-se os que viço público dar-se-á somente mediante favorecem algumas profissões. namento de Carlos Maximiliano sobre para a ascensão funcional. vagas para candidatos negros aprovados . questão. classes concurso público. riamente. (Tércio Sampaio Ferraz Júnior. em Constituição 1989 – legiti. tão sociedade. então. seria vulnerar a ordem po. lumbramos também embaraços no que servância ou não pelas pessoas a quem diz respeito à realização de concursos se dirige. eficácia e supremacia. a liberdade e as garantias de terística que “diz respeito às condições propriedade”. 5º para cargos de comissão”. Maria Helena Diniz e Rita Stevenson Ge. seria disciplinada e aos valores vigentes nessa desprezar a avaliação da capacidade. ob.

que a apreciação dessas desigual. firmada no próprio corpo da Lei situações que não são desiguais. O imperativo do tra. rias. por exemplo. os in. mas projeto. constitucionalmente estabelecido no um desvio. cer tratamento desigual para situações cos. a sua também. neces- tamento desigual dos que estão em si. ao le. que em mil se atinja um. evitaria. houvesse obtido classificação inferior.” “A necessidade de desigualar os homens em certos momentos para es. se impõe trabalho. perdesse sua vaga para um candidato ne- ciais que protejam determinadas catego. tivessem que ser preenchidas que. mente fortes se avantajam. mas. gro. branco muito pobre e. sem dúvida. criando-se. se transformado igualdade cria problemas delicados. Está nisso. que em lei. O Sr. gislador o estabelecimento de leis espe. rém. já que a condição de deficientes por “Por outro lado. Ocorre. desigualam. Se pudesse evi- Desse modo. É diferente o caso do percentual te privilegiadas. na medida em que se desigua. não apenas regras que seria se essas vagas. portanto. na medida em que se habilitou por meio de concurso público. que. certas minorias politica. o princípio da si só dificulta o ingresso no mercado de igualdade que. classificando-se nos primeiros lugares. O SR. Da consagração cons- constitucional da isonomia. independentemen. Imagi- nem sempre a razão humana resolve nemos a situação em que um candidato adequadamente. sitado daquele emprego para o qual se tuação desigual. como também o em seu benefício. no plano fundamental. po. que repro. mas não gosto de injustiça. lam. os trabalhadores. de boas condições financeiras. passam a beneficiá- independentemente de concurso pú.48 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar em concurso público. Finalmente. para se aplicar o ponham termo a uma desigualdade. 1% dos casos. resulta a regra duzimos aqui por oportuno e pertinente hermenêutica de que sempre se deverá ao assunto sob comenta: preferir interpretação que iguale não a que discrimine. em inconstitucionalidade. editam-se leis destinadas embora aprovado no mesmo concurso. Pedro Simon – O que seria quilinos e assim por diante. Além de constituir exceção à regra desiguais. dada a sua inferioridade física. temos a observar. como se viu. que o projeto. tabelecer. . impõe. te de sua classificação. os mal-alojados. pode vir a gerar injustiça. o que Maior. tar injustiça. O legislador há de estabele- serviço público para os deficientes físi. Para isso. a amparar os economicamente fracos. JEFFERSON PÉRES – dades que devem ser comparadas ou Sim. ao próprio legislador a fortiori obriga o Manoel Gonçalves Ferreira Filho Judiciário e a administração na aplica- tece brilhante comentário ao princípio ção que dão à lei. -las de modo a torná-las verdadeiramen- blico. se tratar desigualmente geral. muitas vezes. titucional e de isonomia. tal percentual encontra amparo sucede é que beneficia desarrazoada- no princípio de tratar desigualmente os mente determinadas categorias e incide desiguais. mesmo reparadas é sujeita a critérios políticos.

relação à inconstitucionalidade e inju- O Sr. Exª haverá de di- que estou citando não é de 1%. que tenho por V. de classe média. Exª sabe saber se a lei. o que sentimos no do projeto. Pedro Simon – Digo que. JEFFERSON PÉRES – gumentos expostos neste parecer com É recíproco. Seria uma discrimi- Meus cumprimentos ao parecer nação às avessas e injusta não apenas de V. divergindo. ele matéria. não tenho de . mas. não há o que mudar. Para concluir. pela de V. Exª. Exª. a indagação Permito. O SR. que obteve nota creio ser ele um pouco diferente do que inferior. porque o O SR. Presidente. Pedro Simon – Permite-me O SR. em pode até ser irretocável juridicamente. assim. com toda a sinceridade. por desconhecer o sistema de mérito. PRESIDENTE (Bernardo branco. tem que o negro. o um desempenho melhor. na realidade em cer apresentado pelo ilustre relator da que estamos vivendo hoje no Brasil. Exª um aparte? Levando-se em conta que uma das fi- nalidades da norma jurídica é realizar O SR. mui. com respeito e carinho. do respeito e da admiração satisfatoriamente essa finalidade. fato de ser branco. no caso. resolvemos ela- sob o ponto de vista jurídico. o parecer borar o presente voto. neste caso seria óbvia. Exª está afirmando. punido pelo meu aparte. na verdade. no sentido de se O Sr. do pare- respeito por ele. bem ou mal. em separado. era mais pobre do Cabral) – Senador Jefferson Péres. que pese aos bons propósitos do autor mas. farei um comentá. Presidente. Pedro Simon – V. Sr. Já encontramos. detrimento desse candidato que mostrou Receba. embora discutir o assunto? com muito atraso. JEFFERSON PÉRES – a justiça e o bem comum. O parecer de V. os ar- O SR. Exª. portanto. Juridicamente tenho que tas famílias de classe média. O exemplo votar com V. ridicidade da iniciativa. seis ou sete. JEFFERSON PÉRES – extraparecer. olhando oito em um concurso e um candidato o Brasil afora. uma ascensão social O Sr. V. hoje. porque terá oportunidade para rio à parte. Exª. a palavra V. ser aproveitado em possamos imaginar. Pode zer que esta é a Comissão de Constitui- acontecer de um estudante branco da ção e Justiça. estaria a cumprir do carinho. ser breve. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 49 Sr. o não menos ilustre Senador Brasil é totalmente contrário àquilo Abdias Nascimento. Existe. meio segundo. Exª é nota periferia ser aprovado com nota sete ou dez. como socialmente também. O Sr. E V. Senador Roberto Requião. Considerando-se. Exª poderia te insuspeito para opinar. como sou absolutamen- Senador Pedro Simon. que V. Tenho o maior rejeição. Exª é irretocável. negro. JEFFERSON PÉRES – V. mas. Pedro Simon – Somente dos negros. neste caso.

encerro a discussão. desrespeito a essas normas. . em E. sem se lembre de mim. Não posso. minação atentatória dos direitos e liber- ração pela luta do Senador Abdias Nas. porque – Sr. de dizer o que entre as pessoas por efeito de raça ou cor. sobreveio a Lei nº 7. ria. abusos. cor. já mesmo art. fica aí a exigência constitucional. Vale dizer que a Constituição pro- vra. de julho de 1951. 5º. já há pelo com votação nominal. inciso XLI. independentemente ou aluno. pessoas da melhor catego. É que devo respeito à Constituição. visem a garantir a exata igualdade entre atender ou receber clientes. JOSAPHAT MARINHO alcance relativamente limitado. Sempre tive admi. haja colegas que o processo é terminativo. No onde S.50 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar longe nem remotamente resquícios de ção. Não havendo quem peça a pala. por preconceito de raça ou de dessas condições. em que pese à sua alta inten. ções ou empresas é fazer discriminação. Exª aparecia frequentemente. nador Josaphat Marinho. de janeiro votar o projeto nos termos em que está de 1989. naquela época era distinção de qualquer natureza”. Mas não poderia deixar. Há a Lei Afonso Arinos. tes de preconceitos de raça ou de cor. Como essa lei tem um O SR. Presidente. porém. porque sempre tive entre meus Estabelecer a obrigatoriedade do apro- companheiros de infância e de juventu.390. fiançável e imprescritível sujeito à pena (Pausa. embora S.716. ao Senador Abdias Nascimento ao final. sou contra todo o pre. Por outro lado. para não permitir o uso de artifí- hipótese alguma. veitamento de determinado número de de e colegas de trabalho na universidade pessoas por serem negras em reparti- negros. para evitar que. servir. Exª talvez não que “todos são iguais perante a lei. a consciência me está recomendando. De maneira belecimento comercial ou de ensino de que sou favorável às providências que qualquer natureza de hospedar. que define os crimes resultan- elaborado. ela estabele- desde então cuidando do Teatro Expe. expressamente. nos termos da lei”. Chamo a atenção dos eminentes apesar da proibição constitucional. dades fundamentais”. menos duas leis destinadas a coibir tais Concedo a palavra ao nobre Se. declara Nascimento. ce: “XLI – A lei punirá qualquer discri- rimental do Negro. Quando conheci o Senador Abdias A Constituição. nem mesmo em home- cios ou de outras medidas que possam de nagem ao Senador Abdias Nascimento e qualquer modo conduzir à diferenciação aos meus amigos negros. íbe que se possam adotar medidas como A Presidência assegurará a palavra as previstas no projeto de lei. nº 1. E não estudante no ISEB*. aliás.) de reclusão. a Constituição ainda declara: “XLII – a O SR. prática do racismo constitui crime ina- do Cabral) – Em discussão a matéria. racismo. comprador os seres humanos. se refere mais à recusa por parte de esta- conceito de raça e de cor. PRESIDENTE (Bernar. no Rio de Janeiro. cimento.

formação de chapa eleitoral. Exª. mulheres? Mas o legislador foi adiante. dissidente do nobre Senador Jefferson O SR. Portanto. 1º: “Serão nalidade do projeto. a determinado número de mulheres na co anos”. na forma desta lei. mento para impedir qualquer discrimi. Se- de ampliar essa legislação que proí. voto do ilustre Senador Jefferson Péres. Presidente. sim. Aqui. a legislação já estabe. aplicando-se pena a quem fizer a discri. O Sr. bem como das conces. Pena de reclusão de dois a cin. No art. e deve receber uma remuneração que . Art. em seu art. completa e o nobre autor do projeto tiver forma perfeita exposição do nosso mestre. tado a qualquer cargo da Administração O Sr. implica no que diz respeito à cota reservada às pena de reclusão de dois a cinco anos”. – Com prazer. O SR. para dar exata segurança O SR. Há um outro artigo na Constituição terminado número de pessoas negras que diz que todo cidadão tem direito à na repartição ou em estabelecimentos saúde. a legislação está assegurando Cabral) – Concedo a palavra ao Senador a igualdade de tratamento das pessoas. O SR. também não vou deixar de nação por efeito de raça ou de cor. JOSAPHAT MARINHO alcançar as empresas privadas. JOSAPHAT MARINHO Péres para reconhecer a inconstitucio- – Essa lei declara. Josaphat Marinho – Sim. a obrigatoriedade tar um fato: “todos são iguais perante a de número. Se concordar com a brilhante. porém. 3º: “impedir ou obstar O SR. PRESIDENTE (Bernardo à proibição constitucional de se fazer Cabral) – Votamos contra. temos que consta- Estabelecer. comerciais parece-me uma violação do Há outro artigo na Constituição que diz princípio da igualdade estabelecido na que todo cidadão tem direito ao trabalho Constituição. Exª um aparte? de cor”. minou Senador Josaphat Marinho? lece as medidas adequadas. Lúcio Alcântara – Qual é direta ou indireta. V. aprovo o voto Cabral) – A chamada Lei Caó. PRESIDENTE (Bernardo Por essas razões. que é uma obrigação do Estado. exatamente por achar “Negar ou obstar emprego em empresa inconstitucional que se desse privilégio privada. 4º: – Eu votei contra. a opinião de V. PRESIDENTE (Bernardo minação. Sr. lei”. Essas são as normas capazes de Presidente. be a discriminação. Exª sobre a lei eleitoral sionárias de serviços públicos. Pedro Simon. Lúcio Alcântara – Permite resultantes de preconceito de raça ou V. terá o meu apoio. já havia concordado com o garantir a regra da igualdade de trata. PEDRO SIMON – Sr. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 51 O SR. nador Josaphat Marinho. independentemente de raça ou de cor. Exª já ter- discriminação. de aproveitamento de de. os crimes O Sr. Assim. punidos. JOSAPHAT MARINHO o acesso de alguém devidamente habili. para O SR. ouço V.

Mas há uma realidade da qual não de nós. o são – e vejo esta Constituição ser silencioso. um requerimento perguntando a V. Penso que. PEDRO SIMON – Como estão necessitando do sistema de saú. carmos nesta tese de que o artigo. em diferentes momentos. contra proje- dices de injustiças sociais. compatibilizando sua proposta com a tação dessa matéria. como se o nobre autor do projeto encontrar está. que são praticadas dia- riamente. embora a Constituição diga que de voto em separado. Exª. Eu o te- numa favela. Justiça e Cidadania saúde etc. Exª O SR. rasgada todos os dias. tos que violam a Constituição. são dessa votação a fim de debatermos. num presídio. temos votado. so do meu modesto voto. me permite um aparte? Há pessoas que trabalham e não ganham o salário que deveriam ganhar.52 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar dê condições mínimas de alimentação. a de rejeitou projeto de um senador que dava sua mulher e a de seus filhos. phat Marinho poderiam pedir a suspen. acentuei que. é uma vez só. são de Constituição. inclusive com ro lugar. no campo social ocorrem com a minha . Os percentuais nas universida. Jeffer- são cumpridos. o seu Relator. Exª cobrar o cumprimento da Constituição. no cur- último lugar. Exª que. Josaphat Marinho – V. as vio- Agora. relembro a V. de. dizer. as coisas que estou vendo. e o Senador Josa. garantido pela Constituição. Senador Bernardo Cabral. sou um simples advogado. Porém todos são iguais perante a ro apenas acentuar a V. Sr. inclusive V. em vez de fi. para a sua sobrevivência. os negros estão em primei. podemos fugir: ao compararmos os ín. pediria que se suspendesse a vo. inclusive com a nossa son Péres e também V. quer discutirmos e analisarmos essa matéria. no que tange a artigos impor. dade porque é inconstitucional. te. é muito difícil! É inconstitucional. relação às mensagens presidenciais. Presiden- omissão e com o nosso consentimento te. o Senador Josaphat Marinho sidente desta Comissão. tantes e de grande significado que não os Senadores Josaphat Marinho. outras O SR. É muito difícil votar esse projeto. Mas visória pode ser repetida quantas vezes penso que o seu autor. sim ou não – como não à Constituição. o que não pode é amanhã sair lências brutais que estão acontecendo nas manchetes dos jornais que a Comis. o ilustre Senador Jefferson Péres. nho feito repetidamente. mas não está sen. Exª. vejo o Supremo Tribunal Federal dizer que medida pro- Concordo com este projeto. Por des demonstram que os negros estão em outro lado. Aqui não vejo ninguém O Sr. não poderia permitir? Claro que sim. do cumprido. é inconstitucional – reconheço que forma de ampliar a legislação já existen- é –. autor quiser. que é o pre- Presidente. porque vou fazer Constituição. sou jurista. Josaphat Marinho – Que- tem. PEDRO SIMON – Sr. o que temos propõe o mesmo que eu: em vez de de- feito no sentido de impedir as violações cidirmos aqui. tem o meu apoio. Tudo isso direitos e preferências a negros na facul- está na Constituição. Exª que muitos lei. e não o O Sr.

que é pobre. Mas podemos resolver essa inscrito. em sepa- . JOSÉ EDUARDO DU- terá 25%. pode-se encontrar uma saída. à miséria. Senador Bernardo Cabral. estou fazendo é jurídica. A Constituição diz que todos Presidência acolhe a proposta de V. fórmula para solucionarmos o proble- porque é um grande jurista. É a pro- Portanto. o processo e debatermos inclusive uma Enquanto V. não entrar? Não Lá. aqui. às injustiças sociais. nos diretórios e nas candida- à fome. turas inclusive a ilustre Deputada Marta Não creio que seja este o momento de se Suplicy –. mas a lei tenho de do Cabral) – Senador Pedro Simon. creio que essa proposta. porque é Lembro a V. e o Senador ma. seria a grande saída. “Mas V. E acompanho mais ou menos a linha da ainda acrescentei: não só a proposta que proposta do Senador Pedro Simon. PRESIDENTE (Bernar- “Admiração tenho. Vamos debater. pois milhões de brasileiros vivem com que tem uma admiração tão grande pelo fome e na miséria. omissão. do Pedro Si. Exª disse: O SR. Presidente. vamos analisar. um branco. acordo. Como? Votando que cada sexo O SR. Eu disse: discussão. Exª. ao Senador Bello Parga. quando as mulheres pediram para advogado sério. Elas da classe média. dissemos que estávamos de dizer “cumpra-se a Constituição aqui”. questão. mulheres tenham direito a 25%. a cumprir. “Tem razão!” E até a Deputada Marta Concedo a palavra ao nobre Se- Suplicy disse: “O Senador Cabral tem nador José Eduardo Dutra. responsável. Srs. são iguais perante a lei”. Presidente. entrar na faculdade. Exª votar “não”. no sentido de se desenvolver um estudo Lembra-se V. um grande jurista. não teremos que mon. se pobre. Foram falar com V. ser contra”? V. porque. porque V. mas vota- votarmos o texto da lei. Estou vendo a Constituição que 25% seriam vagas garantidas às ser rasgada todos os dias no que tange mulheres. Josaphat Marinho votar “não”. Exª. Exª foi contra. eu me considero um que. quando as mulheres tomarem sua totalidade e de um voto. Exª que apresentei maior sobre a matéria. posta que faço. e já estarão garantidas. dica. mas a coloca em uma proposta como solução. Sr. cada sexo terá direito a 25% das vagas. Senadores. Exª. Em vez de determinar que as TRA – Sr. Exª e se sur- preenderam. a proposta era uma saída jurí- pode! A imensa maioria é negra na clas. em vez de resumirmos no sentido de concordarmos em sustar em “sim” ou “não”. daqui de um parecer que aprova o projeto na a 30 anos. sexo feminino. no sentido de rei “sim”. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 53 omissão – com a minha. uma minoria é branca. conta deste Congresso. devidamente razão”. mas já estamos O problema é que estamos diante votando em causa própria. quando ninguém se preocupa com isso. apresentar uma proposta solicitando que Como é que um negro pode ser 25% das vagas sejam para homens. depois.

. no art. em função da miscigenação. algum tipo de cota nas universidades a fim de que pudéssemos encontrar uma públicas. Ramez Tebet – Creio que de pontos que. Na prática. Exª um aparte? pensatória seja possível fazer no Brasil. não se tem V. no que gros e brancos. mentar a renda do negro. Exª aborda muito bem a questão. por muito forte. diz respeito a esse argumento. como universidades públicas. como está. Mas O Sr. coloca as quotas numa série O Sr. porque os casos. até porque a substituição não acesso às universidades públicas de que é tão simples. regras trabalhistas diferenciadas. Falou-se agora mesmo sobre a Tendo a ser simpático a algum tipo cota reservada às mulheres para a dis- de ação compensatória do ponto de vista puta dos cargos eletivos. um projeto que estabelecesse tender.54 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar rado. versidades. vão-se estabelecer muito maior do que o de homens. há gatoriamente. para diminuir fferson Péres. Com relação às universidades. de- muito ligada à questão racial. Se- nador José Eduardo Dutra. por exemplo. momento em que houvesse um maior lidade. a exames vestibulares estão demonstrando obrigatoriedade de as empresas privadas estabelecerem quotas para a população que o número de mulheres aprovadas é negra. a empresa deverá ter um uma grande contradição: o rico. Nas universidades públicas. Lembrei-me social. como. que rejeita o projeto na sua tota. no meu en- exemplo. Obri. Ramez Tebet – Permite-me entendo que algum tipo de ação com. tem mais essa quota. da própria dificuldade da a discriminação. res na sociedade mundial e na socieda- sobre o número de presos nas cadeias. Exª tenha razão. a questão social está de um artigo que li recentemente. vez pudéssemos iniciar mesmo pelas zer com que venham a ter eficácia. 2°. Tal- instrumentos de cultura e prática para fa. isso iria contribuir para au- gumento levantado pelo Senador Je. Brasil. V. vai-se constatar que são de pessoas po- bres e que a grande maioria é negra. que é desprotegido. Se se fizer monstrando o avanço social das mulhe- uma pesquisa sobre os menores salários. número de negros formados pelas uni- Concordo plenamente com o ar. em vir- grau de estabilidade para poder manter tude das suas condições sociais. a partir do tucional. vamos ter regras o pobre. de estabilidade diferenciadas para ne. da forma TRA – Pois não. não é preci- Vejo muita dificuldade em alguns so reservar nada às mulheres. político e social. do ponto de vista consti- um passo no sentido de que. Assim. Não votaríamos a matéria hoje. disse o Senador Jefferson Péres. O SR. Sr. Creio que estaríamos dando solução ideal. de brasileira. Presidente. que é Eu veria com muita simpatia. para possibilitar maior aplicação de quotas em relação à raça no aprovação de negros nos concursos. concretamente. desnutrido. Talvez V. JOSÉ EDUARDO DU- Creio que o projeto. No Brasil.

maneira seria amenizada. no sentido de re. Exª um aparte? autor. que gera um problema concre. Para concluir. tamente jurídico. em função desses pontos. mostrando. a Folha de juridicamente. E não tendo a votar da forma como cotas para trabalhadores da iniciativa está. O SR. já estou pen- o relator. essa discriminação de alguma TRA – Muito obrigado. porque O Sr.. mez Tebet. Simon. o gros- Senador Jefferson Péres têm inteira ra. Porque as estatísticas estão do Senador Roberto Requião. O SR. do relator. concluindo agora. aceita a sugestão. Exª. con. PRESIDENTE (Bernardo guma ação compensatória. JOSÉ EDUARDO DU.Paulo fez um amplo levantamento. JOSÉ EDUARDO DU. talvez. para alunos egressos da escola pública. função dessas sugestões: não quero me eu não teria nenhuma obrigação de votar abster em um projeto como este. no sentido de algum O SR. aí. eu não vota. mas teoricamente do ponto de vista jurídico. se fosse dada uma cota política e social. racial. não quero votar do ponto de vista estri- Do ponto de vista político. nem advogado. que combine Cabral) – Com a palavra o Senador José inclusive o caráter social com o caráter Eduardo Dutra. um caminho para liticamente. o debate é tão dependeria de uma concordância entre salutar que. É uma ideia. no sentido de que se tente encontrar al. é dar uma cota que falou o Senador Pedro Simon – e nas universidades públicas para a esco- acredito que assim foi também o parecer la pública. Não estou dizendo que. se houver concordância do V. O SR. Recentemente. embora concorde com ria no projeto como está em função des. como levantou o Senador Pedro to. nesse sentido. Lúcio Alcântara – Permite volto a dizer. lítico. Exª me tirou a dúvida. Lúcio Alcântara – Se for eu estava disposto a julgar a matéria po. tipo de ação afirmativa que comece aos TRA – Eu já vou concluir. os argumentos do Senador Jefferson Pé- se aspecto que levantei da questão das res. JOSÉ EDUARDO DU- a questão das universidades públicas. de que o Senador Josaphat Marinho e o mostrando que. por exemplo. A sugestão que dou é projeto de lei. . Isso poderá ser tratado junto com O SR. em minha opinião. o autor do projeto e o autor do sando em encomendar e apresentar um voto em separado. não há dúvida nenhuma S. nos precisos termos daquilo trabalhar. RAMEZ TEBET – Se- forçar minha sugestão: é lógico que isso nador Lúcio Alcântara. O Sr. Então. esse problema. em Como não sou jurista. Concedo o poucos. Se suspendêssemos por hoje. em São Paulo. acho que se poderia contornar aparte a V. meramente do ponto de vista po- privada. so dos alunos que ingressam na univer- zão. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 55 V. Senador Ra. sidade pública veio da escola primária ciliaríamos a parte jurídica com a parte particular.. Então. Todavia. TRA – Bom.

timento do povo nesse processo. V. PRESIDENTE (Bernardo frequência. retirando ou não. Exª esse O SR. Quando dei o nas minhas mãos por alguns meses. tentando interpretar o sen- poderia. Esse projeto ficou – Para um esclarecimento. Inconstitucional é o projeto Cabral) – Senador Bello Parga. Presidente. É a proposta inconstitucional – é o projeto que deu no sentido de que possa ser adiada. Está V. procedi sugeri que o próprio autor da proposição como jurado. Um meu voto. Cabral) – Concedo a palavra. a ponto . – Sr. é um projeto absolutamente defensável. PRESIDENTE (Bernardo Inconstitucional – absolutamente Cabral) – Não é a matéria. O SR. projeto polêmico. O SR. se caracteriza como ação positiva. tomou uma iniciativa que – . O SR. dentro das sugestões pas dos partidos políticos. O projeto é bom. Do quer discutir a proposta Pedro Simon? ponto de vista ético e moral. BELLO PARGA (Inaudí. Senador Roberto Requião. líder e militante do Movimento Negro O SR.716. JOSAPHAT MARINHO projeto para relatar.. cordo. PRESIDENTE (Bernardo lidade de Relator. O SR. há a considerar in- xar de reconhecer a inconstitucionalida. PRESIDENTE (Bernardo O SR... Exª inscrito. Cabral) – Ampliar. JOSAPHAT MARINHO há décadas. Mas procedi mui- de do projeto. positiva da melhor qualidade. ação teúdo de sua ideia. ter a iniciativa de modificar o con. pela or. Fora do microfone.. para 25% de vagas para as mulheres nas cha- melhor estudo. ao Senador Josaphat Marinho.56 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar O SR. no entanto. assinalei que não poderia dei. ampliar a lei. de inconstitucionalidades com enorme O SR. PRESIDENTE (Bernardo O Senador Abdias Nascimento. recebi de V. a sua ideia seria titucionalidade. JOSAPHAT MARI. peço a palavra adiamento. afirmativa contra as discriminações ra- do a Lei nº 7. pela ordem. que é a que define os ciais. do Cabral) – V. tem a palavra. mas é um projeto bom. BELLO PARGA – Con- Cabral) – Continua em discussão a pro. Presidente. O SR.. Exª que privilegia os deficientes físicos. PRESIDENTE (Bernar- O SR. na qua- O SR.. ROBERTO REQUIÃO dem. constitucionalidades.) cientes faz parte da legislação brasileira. É discutível sob crimes resultantes de preconceitos de o ponto de vista das filigranas e da cons- raça e de cor. Assim. No entanto apresentadas pelos Senadores Josaphat constituiu-se numa ação afirmativa e Marinho. uma vez que a preconceitos de raça e de cor no Brasil e minha formação é de advogado. talvez até modifican. Mas reconhecia que há to menos como jurista. tanto que foi aprovado e a cota dos defi- vel. posta do eminente Senador Pedro Simon. aproveitada sem que se lhe retirasse a E o Senado tem passado por cima iniciativa da medida. Exª concorda com o NHO – Sr.

Concluí que deveria discriminação racial. é a reeleição. numa rápida vo- Absolutamente inconstitucional. racial no País. uma ação afirmativa que cul- candidatarem a cargos executivos sem mina a carreira de um militante de dé- se licenciarem ou se desincompatibili. É dar um passo a mais. na ponto de vista da igualdade de direitos. Então. mas que Congresso Nacional. utilizando as facilidades do gabinete. do tação numa manhã de quarta-feira. inclusive. Abdias Nascimento. pudéssemos chegar das minorias e tentasse viabilizar o pro- a um consenso. se atenuássemos o mos uma subcomissão que encarasse o rigor lógico do tratamento dado pelo problema do racismo. nós. nas últimas eleições munici. começa com o primeiro passo. . Comissão de Constituição. vantada pelo Senador Simon e comple- mativa. como os índios. Não é uma homenagem que que- de locomoção e as próprias imunida- ro prestar ao Senador Abdias Nascimen- des parlamentares. Por exemplo. Toda caminhada manifestar-me a favor das suas razões. que abrangesse a questão de outras quando o presidente se candidata a ela minorias. absolutamente in. mais do que dobrado o número de mulheres nos partidos. Não vamos que foram aprovados pelo Congresso Nacional. que se Gostaria que o Senador Abdias opuseram à aprovação do projeto. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 57 de haver. Essa declaração é de todos no plenário do Senado. no projeto não fosse permanente. e o pri- Continuo com a mesma posição. positiva. da discriminação Senador Abdias. fosse como o projeto da participação das pais. brasileira. Vamos procurar um consenso e dar o passo que for pos- Estudei o projeto do Senador Ab- sível no sentido de reprimir e evitar a dias com carinho. para não corrermos patibilizar. ainda mais de. no sentido de criar- Penso que. o risco de soterrarmos. mas não precisamos afirmar uma posição ou meiro passo será sempre o possível. talvez. que esse jeto possível neste momento político. um projeto para vereadoras e de mulheres na chefia de dar um start no aumento da participação prefeituras municipais. dos negros na vida política e econômica Inconstitucional. e que fosse no exercício do cargo. mas uma servente melhor estudado por uma comissão de de escola que pretender candidatar-se ao senadores. encabeçada pelo Senador cargo de vereadora tem que se desincom. Justiça e Ci- é a possibilidade de os parlamentares se dadania. essa questão to. cadas em favor do fim da discriminação zarem do mandato que estão exercendo. se manifestasse a respeito dessa tese le- O que nos interessa é a ação afir. mentada por mim. Que atingisse a universida- constitucional. via- fazer uma declaração pública de horror bilizado pelo consenso na Comissão e ao racismo. mas é uma visão pragmática e que. enterrar esse projeto. da inconstitucionalidade do projeto é na verdade. é dos senadores. traduz-se concretamente semelhante à de tantos outros projetos como uma ação afirmativa.

as leis que punem discrimina.. inclusive pelos emi. ta Presidência. Simon a reunião sob a coordenação de de também de ações afirmativas. TO – Sr. concedo Cabral) – Senador Jefferson Péres.. antes de conce. . que são tenho consciência do problema da po. e Roberto Requião O Senador Abdias Nascimento para coordenar o projeto. acha mas acontece que o Senador Lúcio Al- que interpreta o pensamento do plená. Peço a rio. na semana seguinte a um mês. eu phat Marinho.. concordo inteiramente vel. seu próprio projeto. desde que. PRESIDENTE (Bernardo Constituída a Comissão. a palavra ao eminente Senador. ABDIAS NASCIMEN- nentes Senadores Jefferson Péres e Josa. Exª quer ainda usar da manifestação política e a fez.58 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar O SR. Senadores. Presidente. que nador Pedro Simon. Exª a palavra. diu preferência para os itens 23 e 28. der a palavra ao Senador Abdias. Acho que seria uma berto Requião. O SR. falou-me da O SR.. cântara já havia pedido antes. V. voto discordante.. cobre do Senador Pedro ção ou preconceito racial. que não bastam as ações gentileza. Presidente. palavra o Senador Lúcio Alcântara. Presidente. coordenador e Sr. Exª pe- Cabral) – A Presidência. cimento não é membro da Comissão. JEFFERSON PÉRES – O Sr. com as achegas já aguardemos um pouco mais. por perfeitamente. já por delegação também des- negativas. Senador Abdias Nascimento. (Não Identificado) (Inaudí- Sr. já que não temos número. O SR. Exª que não podemos desperdiçar a ideia do sem dúvida nenhuma. O SR. Fora do microfone.) com a proposta que acaba de ser feita O SR. Exª. O plenário acolhe a sugestão do Se. Há necessida. já a integraria. Exª. Senador Pedro Simon. O SR. ROBERTO REQUIÃO – Senadores Pedro Simon. su- O SR.. 21 dias. Sei também. devo estava inscrito para se manifestar sobre esclarecer que o eminente Senador Ro. PRESIDENTE (Bernardo pelo Senador Roberto Requião. manifestadas pelos Senadores Jefferson Senador Lúcio Alcântara. De logo. de resto. ações V. pela ordem. V. PRESIDENTE (Bernar- sua inquietação porque queria fazer sua do Cabral) – V. seu voto antes de trazê-lo. autor da proposta. Josaphat Marinho e Roberto Re. autor da proposta. Em seguida terá a Senador Abdias Nascimento.. Se- nador Jefferson Péres. Porque o Senador Abdias Nas- positivas. porque Cabral) – Prazo de três reuniões. e designa uma subcomissão. pulação negra no Brasil. Srs. seguida por todos. composta pelos Senadores Ab- breve. fosse membro. mostrando palavra? A Presidência garante a V. se não firam a Constituição Federal. tenho que confessar. tem Péres. dias Nascimento. quião. evidentemente. antes de relatar e serei Requião. LÚCIO ALCÂNTARA gerida pelo eminente Senador Roberto – Sr. que me havia antecipado deselegância negar a palavra a ele. Presidente. PRESIDENTE (Bernardo Senador Pedro Simon. V.

Exª citou o art. não está. e. porque dizendo que o negro. O SR. TO – Eu desejo manifestar. tomaria o lugar do branco. Exª colocou. um concur- durante a exposição de V. quando da vida pública brasileira assumir a dis. em negro ou em raça. a fim de serem . O Sr. 3º do meu projeto. de muitos subterfúgios. socioló- porque até hoje este País se tem recusa. Exª acaba de anunciar. o de que este assunto não morra nesta única reunião do Sena. está-se falando O SR. Exª fez crer surpresa. como S. Exª. Exª. As- Queria. dizer que a proposta do Senador te. que foi classificado em primeiro lugar blema racial. uma: ou tegridade. transmite uma o Presidente desta Comissão me con- ideia falsa do meu projeto. Assim. cisiva para a nossa própria identidade. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 59 O SR. este alto órgão to correta e honesta de V. Exª no ISEB. que do a assumir essa identidade por meio está morta e enterrada há muito tempo. PRESIDENTE (Bernardo a distorção ou a colocação equivocada Cabral) – Peço atenção para o Senador do assunto sob um prisma racial. desejo. Primeiro. acordo com a expressão do meu proje- Na verdade. de uma porção Também me causou estranheza. é exatamente o con- trário do que está no meu projeto. so apenas para negros. Não esperava Pedro Simon vem ao encontro de um isso de V. ou seja. realmen- cedeu. nesta TO – Ouço V. não a minha e nunca biológico. uma surpresa colheu-me se realizam dois concursos. há uma conotação histórica. to de lei. me permite um aparte? ções do Senador Josaphat Marinho me. vocado: eu ou V. Exª do. cussão desse tema é um avanço. sempre num conceito histórico cultural. Exª. Jefferson Péres – V. absolutamente. conotação biológica. Isso. Na palavra negro. quando se fala microfone. O Sr. Exª com muito prazer. Queria dizer também que as avalia. de para o futuro deste País. dada de máscaras. ABDIAS NASCIMEN. e nunca biológica. ob- a admirá-lo pela sua competência e in. ABDIAS NASCIMEN- recem todo o acato e respeito. já se sabe. no concurso. O que eu disse é Gostaria de dizer ao Senador Je. que num concurso público. inclusive a chamada “de. alguém está equi- aproveitadas. Exª. quando se fala são sobre problema tão fundamental em negro. exatamente essa conduta sempre mui- mocracia racial”. colocado em se- jamais se quis discutir esse assunto. gica e cultural. Ora. um tabu no Brasil a discussão do pro. Abdias Nascimento e som para o seu no Brasil ou no mundo. para se pre- fferson Péres que não me recordava de encherem obrigatoriamente 40% das V. nesta oportunidade que sim como V. Daí. Assim. causou-me estranheza. viamente vai ocorrer das duas. mas nesta Casa aprendi vagas com candidatos da raça negra. Ora. Jefferson Péres – Senador naturalmente elas serão estudadas e Abdias Nascimento. Comissão que V. V. a questão racial é de. É gundo lugar. mas o meu contentamento de durante a sua exposição. essa ver aberta aqui no Senado uma discus.

O projeto tem o propósito de convencer –. Foram elaboradas for um único concurso. que eram exatamente os escravos re- que não pode alimentar esta desigualda. o que e do Senador Pedro Simon para dizer o representou outro crime cometido neste seguinte: está-se aqui raciocinando em País. sim. Depois da Abolição da Escrava- O SR. Exª continua com a palavra. houve TO – Alguns brancos com notas infe. este não vo- O SR. o analfabeto V. Primeiramente. Exª está preconizan. As- esta. aqui. Até mesmo o Código Penal insti- res Josaphat Marinho e Jefferson Pé. uma série de rabugices. Durante todo o Império. se sempre escravizado. os afrodescen- mas se for realizado um único concur. taria mais. 5º diz: “É um direito inalienável juridicidade. se V. Os negros. tuía a lei da vadiagem para aqueles que res. Exª me contestar. cada vez mais. preenchidas obrigatoriamente 40% das inscrita no art. por meio dessas chicanas da nossa o art. antigamente. o negro. estou dizendo que pode vir a a raça negra. há igualdade. a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Se- Veja bem. cém-libertos. estou de acordo com os Senado. Assim. já que estes não encontra- de cruel. o vir a ser deste País. Cabral) – Senador Abdias Nascimento. O vagas com candidatos negros. eles continuaram prisionei- termos de uma justiça formal. ABDIAS NASCIMEN. Jefferson Péres – Sim. para serem efetivar o princípio da isonomia social. é anticonstitucional. manter a dominação escravagista sobre do isso. e o negro ficou O Sr. a partir dali. vam emprego no tal mercado livre. devido à cota. Mas. gritante e anticonstitucional. Aí.60 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar preenchidas todas as vagas com can. Presidente. foi dito que. Só espero que os enredos jurí- cos com notas inferiores às do negro não dicos não continuem enredando a vida sejam aproveitados. Sr. dentes. eles tinham suas lín- palavras do Senador Roberto Requião guas. foi feito o mesmo. poderá projeto é constitucional. neste País. buscando o futuro. cia africana. mas aqui não didatos negros – seria uma solução –. nesse ros desse tipo de legislação. acontecer. e evidente que. hoje. uma igualdade morar e como alimentar a sua família. acontecer que muitos candidatos bran. mas estas foram esmagadas. não exercem a cidadania plena so – veja bem. xagenários. . como tem acontecido até O SR. riores às do negro? de aspectos jurídicos. ponto. de leguleios. do brasileiro a igualdade”. mas tudo isso serviu para eu não disse que V. Só quem não quer não per- ficarei muito satisfeito se conseguir me cebe isso. porque sim. PRESIDENTE (Bernardo tura. É claro que os afrodescen- TO – Para concluir. 5º da Constituição. o que dentes tiveram de aprender a falar uma eu gostaria de dizer é que me apoio nas língua estrangeira. votava e que. Senador Abdias Nascimento. Ou não acontecerá de milhões de brasileiros de ascendên- isso? Parece-me que sim. ABDIAS NASCIMEN. está-se procurando uma não tinham emprego e não tinham onde igualdade substancial.

Exª todas as modificações e discussões. criminoso Muito obrigado. para que conste fazermos o projeto de acordo com o pa. Reunião da Comissão de Constituição soa impermeável à discussão e ao avan. este é um apelo esta discussão. Senadores. Projeto de Ação Compensatória Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal 61 tornou-se marginal. O SR. sessão ço. PRESIDENTE (Bernardo mos um passo à frente. dos Anais da Casa. Presidente. Não tenho nada contra isso. ladar do Senado. Sr. e Justiça do Senado Federal. Espero que esta Comissão faça um de 18 de março de 1998. absolutamente. e pária da sociedade. projeto que atenda a essas exigências dos Srs. favelado. Agradeço a todos que contribuíram para Sr. . Não sou uma pes. para será registrado em Ata. que faço ao Senado para ajudar a dar. Estou aberto a Cabral) – O pronunciamento de V. Presidente.

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como observador parlamentar junto às Nações denuncia posição Unidas. um repre- sentante brasileiro declarou: “De sua parte. Nascimento Em recente visita a Nova York. Na abertura dos trabalhos. abordando assuntos relacionados aos itens 110 e 111: “Eliminação do Racis- mo e da Discriminação Racial” e “Direitos dos Povos à Autodeterminação”. 83 anos de idade. o Brasil está inequivocamente comprometi- do a contribuir com a luta [pela erradicação do racismo] como condição prévia de igual Lula Strickland acesso a todos os benefícios da cidadania. Nascimento. . Nações Unidas e suas declarações “hipócritas” sobre a eli- minação do racismo e da discriminação ra- cial no Brasil. a delegação brasileira. e sua esposa Elisa protestaram perante sessão do Conselho Econômico e Social. totalmente composta por brancos. líder dos direitos civis no Brasil há mais de ses- senta anos. durante a 52ª Assem- brasileira nas bleia Geral das Nações Unidas. o Senador afro-brasileiro Abdias Nascimento criticou.

que discorreu entusiasticamente Nascimento esteve em Nova York sobre a pretensa igualdade de direitos por duas semanas. Assembleia Geral. “ao testemunhar totalmente por descendentes dos fazen- mais um show de hipocrisia e ambigui. Durante a reunião da linha a declaração de que a “discrimina. teatrólogo e artista Ouvindo essa declaração. Está nessa Nações Unidas. mas não mencionaram que essa ainda afetam nossa sociedade estão sen- lei foi promulgada em 1988. A lei é fruto tais como emprego. bem plástico – ressaltou que. deiros e dos proprietários de escravos do dade da elite governante brasileira. saúde. a conferên- cionaram a lei e o artigo da Constitui. se verdadeiramente democrático. que ela seja implementada. enquanto a comunidade nisterial que tem definido e implemen- afro-brasileira continua lutando para tado políticas públicas em muitas áreas. se o Brasil fos- como as dos representantes de 16 ou. de reuniões. “é somente a tem mantido os afrobrasileiros no fundo versão distorcida veiculada pelos mes- do poço desde a escravidão!” mos setores da classe governante que O Senador Nascimento observou têm explorado os africanos no Brasil que. descendentes de africanos escravizados dade multirracial onde diferentes raças e que poderiam falar de suas próprias ex- identidades étnicas coexistem [em harmo. ele se recusou a se ção racial é considerada um crime pela sentar com a delegação brasileira e. A sociedade brasileira não a dádiva benevolente de uma classe está fundamentada em uma genuína di. versidade de raças e origens étnicas que O indignado Senador – que é tam- contribui para o seu enriquecimento. . O que nia racial de que falam no Brasil”. “em vez de ser composta indignação”. portanto do administrados por um grupo intermi- recentemente. ção Brasileira contra a discriminação “Os desafios e problemas que racial. “Minha reação foi de justa internacional. como observador do para os negros e outros cidadãos nos Congresso brasileiro. leiros têm sido historicamente relegados “Essa democracia e essa harmo- à base de nossa pirâmide social. a delegação brasileira dar procedimentos internacionais nas repetiu as mesmas falsidades. periências como negros em nossa socie- nia].64 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar assim como ao pleno gozo dos valores de uma longa luta dos afro-brasileiros. mas não disseram que os afro-brasi. cana. desde que existe este País”. governante democrática”.” bém notável escritor. disse ele. cia continuava. pros- [a delegação] não disse é que o Brasil seguiu o político negro. a fim de estu- Estados Unidos. educação. e democráticos. dade racista”. optou por observar os proce- Em uma entrevista. o Senador dimentos de outro local na grande sala desmentiu essa afirmativa: “Eles men. em Constituição Brasileira”. vez disso. Enquanto isso. tal como a delegação norte-ameri. pois Brasil. Nascimento mostrou-se se estava postulando perante aquele foro consternado. a delegação brasileira incluiria eles disseram que o Brasil é uma socie. como tras nações.

disse o re. fato grupo de trabalho foi constituído em re. Abdias. O Senador Abdias Nascimento presentante brasileiro. do”. bem Daily Challenge. embora tenha feito gua. na realidade. ele não tem meios quanto ao relatório da delegação brasi- de executar nenhuma política e. demonstração de desprezo e desrespeito fraestrutura”. Tradução de Gilson Cintra e Carlos Alberto Medeiros. rebateu mais sença negra é desproporcionalmente pe- tarde essa declaração. Denúncia à posição brasileira nas Nações Unidas Abdias Nascimento 65 informação e comunicações”. de um leira: “Fiquei extremamente indigna- modo geral. opinando: “Esse quena na arena política brasileira. como por seu papel na luta pelos direi. embora o Brasil seja um Mas a Srª Elisa Larkin Nascimen. quando. país predominantemente negro. . sem papas na lín- contra o racismo e. tornou a enfatizar seus sentimentos algumas sugestões. tem sido usado para apre. edição de 10 de dezembro de 1997. de Nova York. A impetuosa Srª Nascimento é conhecida por seu trabalho na área da Publicado originalmente no jornal História Africana e da Diáspora. que ele atribui ao racismo. “por ver a represen- sentar uma falsa imagem de combate ao tação totalmente branca de um País de racismo. ela própria uma ativista. a pre- to. afirmou que. Ao final da sultado da luta do povo afro-brasileiro entrevista. pelos africanos no Brasil”. tos da população afro-brasileira. se trata maioria africana dando sua costumeira de um órgão impotente. pois não tem in. reafirmou ele.

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ao lado da senadora Emília Fernandes. RS . em Porto Alegre. ouve atentamente o discurso do ex-Governador Leonel Brizola na cerimônia de filiação da aguerrida Parlamentar gaúcha ao Partido Democrático Trabalhista (22-9-97).O Senador Abdias Nascimento.

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em Washington. de 170 páginas.Pronunciamentos Discurso proferido no Senado Federal em 6 de fevereiro de 1991 Relatório Especial da ONU sobre Direitos Humanos no Brasil. Senhor Presidente. Sob a proteção de Olorum. Uma das principais manchetes dos grandes jornais brasileiros nas últimas se- manas do ano passado foi aquela referente ao relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. a respeito da situação dos direitos humanos no Bra- sil. Publicado no dia 9 de dezembro último. sede da Organização. inicio este pronunciamento. Senhoras e Senhores Senadores. preparado por uma comissão que percorreu o País com autori- . vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA). o in- forme.

apresenta um Brasil co em que se desenvolveram as relações muito diferente da imagem edulcorada raciais no Brasil. no emprego. como membro da delegação do cismo e discriminação racial são fenô- Congresso brasileiro em visita àquela menos “presentes nos campos político. que nos foi apresentado em claramente que. devendo-se atribuir médios entre pessoas de origem africana as desigualdades existentes unicamente e europeia. político e econômi. to racial. que vi- Na verdade. Maurice Glèlè-Ahanhanzo. Também se acresce a outro oficiais. bem como de ve. na moradia o Brasil em 1995. o que se o contexto histórico. emprego. pode perceber relatório. à denúncia são ensinadas a reconhecer e respeitar feita cinco anos atrás pela Organização a população afro-brasileira – que nem Internacional do Trabalho (OIT).. Mas o Relator Especial da ONU nação de raça e de gênero no mercado não se deixou iludir pelas declarações de trabalho. Para nós. Soma-se. as populações indígenas e para as comu- ção de origem africana. gido por um relator especial da ONU. – “são considerados livres de preconcei- moradia e meios de comunicação. o Relator apresenta a tradicionalmente apresentada por nossa versão oficial. referente à discrimi. com a população branca. Esse documento foi redi. gras e brancas – dos mundos político. por brancos. acadêmico e científico”. embora se faça questão nossa recente passagem pelas Nações de mantê-los “invisíveis” no Brasil. econômico. esse relatório da vemos essa questão no dia a dia. “Os brasileiros” – diz o relatório re principalmente a educação. pelo Brasil. Organização.. Ao contrário. assim como por parlamentares é responsável. em comparação nidades descendentes de quilombos. reflete numa atitude ambivalente em re- . chega OEA é apenas mais um documento pre. que visitou na educação. tes e o problema do acesso à terra para rificar as condições de vida da popula. e na administração da justiça. que lhe foi repassada por diplomacia: um país desigual. onde a discriminação racial Governo. a problemas de classe. entre outras coisas. quando teve a oportu. e de que as crianças sociedade. Em espe- nidade de travar contato com uma série cial. a violência contra crianças e adolescen- intelectual e artístico. embora aparentemente tenham Após uma introdução que fornece uma aguda consciência de cor. ra- Unidas. violento diversos funcionários de agências do e racista. assim. policial. no que se refe. da Convenção 111. a situação das mulheres negras. que se sequer aparece nas ilustrações dos livros referia ao descumprimento. cuja manifestação se dá na vida diária. chamaram-lhe a atenção a violência de organizações e personalidades – ne.70 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar zação do Governo. a ser patética a afirmação de um fun- parado por organismos internacionais a cionário do Ministério da Educação de denunciar a realidade do racismo e da que a expressão “negro” não tem cono- discriminação prevalecentes em nossa tações negativas. de que a discriminação racial uma significativa diferença de salários inexiste neste País. didáticos .

roubo. de inevitabilidade fatal. (. e as periferias (.. ser-lhe-ão exigidos mais e aceitaram como contendo uma espécie talento e esforço do que se sua pele fos. o relator es- por outros agentes da lei.. Se uma patrulha da polícia surpre- cumento –. o que é em 513) e na Fundação Cultural Palmares.) Tais prá- pecial não haver encontrado negros ou ticas podem ser explicadas pela imagem mestiços em posições de responsabili- geralmente negativa dos negros na so- dade. “a correlação entre estratifi- ende um negro numa área residencial. tensão da negação da presença negra. A sutil natureza dos métodos de parece não haver dúvida de que uma subordinação e controle social também cor muito escura constitui um obstácu. são frequentemente suspeitos de “Além disso” – prossegue o do.) Negros são frequentemente moles- géria’. em supermerca- sileiras (. num país supõe que os negros vivam apenas nas cujas autoridades afirmam ser ‘o segun- favelas e áreas periféricas das cidades. A miscigenação. usem as entradas e saídas de serviço.) Negros e mulatos são virtualmente acesso negado a lugares públicos como ausentes da iconografia e da mídia bra. exceto no Parlamento (há um total ciedade brasileira.. “Há no Brasil” – continua o do... os brancos. que contém acentuam a inferioridade dos negros. dos.. (.. mostra como os negros podem ter seu (. e pacial. A disparidade cujo propósito é exatamente restaurar a entre os centros das cidades.)”. Ser negro é sinônimo de 11 deputados afro-brasileiros entre de ser pobre ou criminoso. Comunidade Negra do Estado da Bahia sem mais brancas do que realmente são. boates ‘de alta classe’. As Uma revista em quadrinhos produzida palavras ‘negro’ ou ‘preto’ são ofensivas pelo Conselho de Desenvolvimento da e é cortês tratar as pessoas como se fos. como justificar sua presença no local.. aparece como uma ex... podem ser barrados em hotéis de luxo.) O racismo e a discri. em prédios e condomí- constitui ao mesmo tempo uma base nios de luxo.. do país negro do mundo.) e Por exemplo. depois da Ni- (. exige-se dos negros que para a exclusão. si mesmo discriminatório. cação social e diferentes tonalidades de imediatamente lhe pede para apresentar pele é tão estreita que não pode deixar de seus documentos de identidade e para ser significativa. O fato de não se mais clara. uma mensagem integracionista (.. terem acesso à moderna educação os . atesta um certo tipo de segregação es- cumento – “uma hierarquia de cor. De outro modo.. É difícil para um ciais desiguais que as populações margi- negro tornar-se um servidor público de nalizadas aparentemente interiorizaram nível superior. Pronunciamentos Relatório Especial da ONU sobre Direitos Humanos no Brasil 71 lação à miscigenação e apenas esconde minação racial do dia a dia assumem uma certa preferência ideológica pela a forma de atos de molestamento que brancura. pois se se poderia avaliar o fato de..) e favelas minação por estes sofrida?” onde a maioria dos habitantes é negra. permite a preservação de relações so- lo à mobilidade social. e no qual as pessoas de origem tados por policiais militares e civis ou mista constituem a maioria. onde vivem imagem dos negros e combater a discri.

caixas. maioria deles está envolvida e que assu. A sa. ao ganha 2. Há homens brancos. Em resultado. Em resultado.) [Sua área em que a discriminação racial é os. os quais. fracasso es- cação de um branco.). as posições superiores e intermediárias As desigualdades raciais no se.. “são empregadas nos uma tendência a prepará-las para o fu- locais mais insalubres. negro [de sexo masculino] e quatro vezes tarem os afro-brasileiros de maneira fa. em parte. vorável: estes são apenas mencionados A condição das mulheres afro- como escravos.) da prática de certas profissões.. as crianças cumento do Relator Especial: além de negras não conseguem identificar-se receberem salários médios equivalentes com a educação que recebem e não têm a um quarto daqueles que são pagos aos satisfação em frequentar a escola.. ais com os quais poderiam afirmar-se”. tripla jornada de trabalho e são três ve- somos prontamente informados. ta ou jogador de futebol. Sendo assim. baixos exigência de ‘boa aparência’ em anún- salários (.. serviçais ou trabalha- -brasileiras mereceu destaque no do- dores braçais. empregados domés- me a seguinte forma: pobreza material ticos. (... elas se zes mais discriminadas... constituem a maioria no setor informal bedoria popular sustenta que um negro (. Há virtualmente uma divisão mésticas (. nas empresas privadas) são ocupadas te percebidas pelo Relator Especial da por brancos. a formas indiretas de excluir afro-brasi- história e a cultura dos afro-brasileiros leiros de certas funções.. recepcionistas. expressões como a ou trabalho não especializado. em e tende a lhes passar um sentido de in- termos de salários. gem mista e de negros.72 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar tem privado de instrumentos intelectu. enfermeiras e dançarinas racial do trabalho que afasta os negros de samba empregadas em boates. Além disso.. por que tentar zões. a música e as artes. o trabalhador branco ferioridade. Atribui-se isso.5 vezes mais que um trabalhador fato de os materiais didáticos não retra. Por essas ra- distinguem. mais que uma trabalhadora negra”. depen- los afro-brasileiros na educação é parte dendo do grau de clareza de sua pele.. seguidos de pessoas de ori- ONU: “A discriminação vivenciada pe. desemprego será discriminado. maltratadas por seus patrões e sofrem . as mulheres negras são um barô- prepará-las para qualquer outra coisa?” metro da sociedade brasileira: o grau de Não escapou ao Relator Especial evolução política [dessa sociedade] está a grave situação dos afro-brasileiros no diretamente relacionado às conquistas mercado de trabalho: “O emprego é uma políticas das mulheres negras. ampla maioria] é de empregadas do- tensiva. garçons. do círculo vicioso de pobreza em que a são gerentes. motoristas de ônibus ou taxistas. falta de treinamento. zeladores. um afro-brasileiro colar. enfrentam uma tebol. o sistema brasileiro de edu- cios de emprego também constituem cação não leva em conta a presença.). áreas em que. Muitas empregadas domésticas são só pode ser bem-sucedido como sambis. (. Elas (.. (tanto na administração pública quanto tor educacional foram adequadamen.).) Ainda que tenha a mesma qualifi- – baixo nível educacional.

mas também da discriminação o bem-estar de todos. apontan. Constituição de 1988. dos Unidos. com o País tra crianças e adolescentes. cor. atenção. em face de toda segmento afro-brasileiro. em ção no mercado de trabalho. Senado- raciais no Brasil desde os anos oitenta. res para que os examinem com muita Dentre elas. nica – o que constitui o exato oposto de do que as vítimas desses males sociais nossa realidade. com base na origem. existência de racismo neste País –. que água corrente ou eletricidade” – e na mí- chegou a criar grupos de trabalho. Alguns acreditam que esse mé. a am- ção negra e a eliminação da discrimina- pla maioria dos jornalistas é branca.. Faço um apelo aos Srs. quer no plano prático. a publicidade e a mídia âmbito dos Ministérios da Justiça e do apresentam e mostram apenas pessoas Trabalho. no dia: “Em regra. os mesmos argumentos em favor de O documento dedica uma ênfa. porque é uma forma de colabo- portância de nossa diversidade étnico. Também idade ou qualquer outra forma de discri- se descobriu que as mulheres negras são minação”. em “promover ficação.. As mulheres -racial. disfarçados sob novas plumagens. sem preconceito racial no mercado de trabalho. bem como sendo apresentado como uma nação que à exploração do trabalho infantil e ao reconhece e valoriza sua diversidade ét- problema das crianças de rua. Em resultado de sua falta de quali. sexo. expressa na ção. vestigadores da Organização dos Esta- pecial das Nações Unidas menciona dos Americanos e das Nações Unidas como promissoras as mudanças que é que apresentei vários projetos a esta têm sido observadas na área de relações Casa. onde os canais de TV têm quer no simbólico. multicultural”. uma suposta singularidade brasileira em se especial à questão da violência con. Que é longo o caminho a ser esterilizadas em número maior que as percorrido nesse sentido. atesta-o outro brancas. para a derro- . essa situação real exposta por esses in- Em sua conclusão. documento. estão longe contraste com a Grã-Bretanha e os Esta- de se concretizar. brasileira sobre a “Eliminação do Racis- O relatório menciona a desigual. (. Pois ali se encon- a prática da participação multiétnica e tram. bleia Geral: a declaração da delegação quecimento da população brasileira”. Presidente. pertencem desproporcionalmente ao Sr. rarmos para a extirpação. autoridades brasileiras. apresentado às Nações Uni- todo de contracepção ou planejamento das por ocasião de sua última Assem- familiar contribui para o gradual embran.) mui. Nos canais de televisão. tanto quanto a preocupação das negras têm o mais baixo nível de instru. tas delas se tomam prostitutas. o Relator Es. Nesta dade racial na questão da moradia – “a se percebe nitidamente que os propósi- tos declarados do atual Governo – indis- maioria dos afro-brasileiros vive em cutivelmente o primeiro a reconhecer a áreas e distritos insalubres. Pronunciamentos Relatório Especial da ONU sobre Direitos Humanos no Brasil 73 violência física e moral. matéria de relações raciais. mo e da Discriminação Racial”. raça. o reconhecimento da im. para a promoção da popula- brancas. sem esgoto.

que é constituída de descendentes africanos.74 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar gação total dessa grande injustiça social e desse fato muito desabonador à ima- gem do Brasil no estrangeiro e à grande maioria da população brasileira. Axé! .

o pesar e as ho- cultural de São Paulo ao pintor menagens do mundo artístico e cultural Nelson Nóbrega de São Paulo ao grande pintor Nelson Nóbrega. Pronunciamentos Homenagem ao pintor Nelson Nóbrega 75 Discurso proferido no Senado Federal Senhor Presidente. seu com- panheiro de estudos e de aventuras plás- ticas. Os que frequen- tam o mundo das artes neste País sabem que com ele perderam não apenas um dos maiores pintores brasileiros. venerado. em 11 de fevereiro de 1998 Senhoras e Senhores Senadores. conhecido e consa- grado pelos nomes mais altos da pintura brasileira. Sob a proteção de Olorum. inicio este pronunciamento. desaparecido na última sema- na. para Homenagens do mundo artístico e que conste dos Anais. Morreu no ano em que alcançaria seu centenário de vida. Desejo trazer a esta Casa. Dele dizia Portinari. mas também o mestre consumado das artes plásticas. que era o único mestre-pintor do .

aparelhar foi distinguida pelo Estado de São Pau. Creio significativo seus amigos e admiradores acabam de informar aqui que era ele o último so- sepultar no cemitério de São Paulo. que fazia lembrar as reconduzir a nosso campo. esta Casa. nente do Exército Sílvio Fleming. que levou às trincheiras a artes neste País. no exército da Revolução Cons. oficinas de pintura de Michelangelo. Viveu e morreu modes- da do tribuno Ibrahim Nobre arrastou os tamente. lhe ofereciam os nomes mais ilustres Seu colega na devoção às artes da pintura brasileira. Como Tivemos a felicidade de sobre. Pelo simbolismo da homenagem do Mello Mourão e o poeta Paulo Bon. sobretu- lo. na história das titucionalista. para da fidelidade aos que souberam honrar empunhar um fuzil em defesa de São o espírito cívico da gente de Piratininga. o poeta Gerar. Poucos eleitos. como um testemunho vez. viver aos sangrentos entreveros da luta extraordinária Lúcia Gouveia de Barros armada a que nos lançamos. Deles só se desembaraçou uma Nelson Nóbrega. então. também pintora. siste- plásticas. devotado apenas à perfeição da liberdade. um deles valho. sua admirável mulher. guns combatentes da heróica Revolução Do pintor quase centenário que Constitucionalista. transformou sua residência. e à beleza de sua obra plástica. mo comercial.76 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar País cuja opinião se habituara a solicitar ra de uma pensão simbólica dada a al- e respeitar. Carvalho – Suané no meio artístico –. fora das luzes da grande pu- jovens de nossa geração para a defesa blicidade. num verdadeiro corpo ensanguentado e agonizante pude ateliê renascentista. trabalho com o exercício do imediatis- lista e nas batalhas a que a voz inflama. talvez milhares de . a toldar a pureza de seu de armas na Revolução Constituciona. vilegiada. ca esquecemos os jovens heróis que irmã do saudoso Senador Barros Car- vimos morrer ao nosso lado. pintar. do. as telas. a qual assegurou ao País a restau. Paulo. na Academia Paulista de Letras: sugiro ao Governador daquele Estado “Passou a vida inteira com seus pincéis que a mantenha. na luta gloriosa de exemplar no culto de sua vocação pri- 1932. com a hon. como o A bravura daquele pequeno rapaz artista-artesão do grande século floren- que era. Centenas. mas nun. de ceber a honra dos clarins fúnebres de Leonardo ou de Cimabue. fui também seu companheiro maticamente. ocasião de seus funerais. nossa tropa. de passagem tão marcante por em meus próprios braços. brevivente entre os pensionistas da in- pode-se repetir o que dele disseram. recusou-se. em favor da viúva de na mão. para ali re. Sabia tudo de pintura. armar as esquadrias e. Cercado do prestígio que ração do Estado de Direito”. cujo no centro de São Paulo. o jovem te. ao longo de seus 99 anos. o pintor Nelson Nóbrega tino: sabia fabricar as tintas. prestada aos combatentes de São Paulo. fim. por surreição de 32. até o dia de sua morte. mantiveram vida tão juventude paulista.

com grande êxito de crítica e demanda feição suprema que desejava. Nóbrega e Portinari. Nóbrega. com um gru. melhor retrato de Mário é o que foi pin- po de pintores. em 1925. o Senador Barros Carvalho. vares Penteado. Pronunciamentos Homenagem ao pintor Nelson Nóbrega 77 vezes. Mário de Andrade. Sua ami- dias. o grande Pedro Nava concluiu: “o dos os dois em Brodowski. onde foram disputados e vendidos à formação de pintores. com surpreenden- Portinari. único período em foi particularmente atendo às escrituras que viveu fora de São Paulo. tempos depois. até chegar aos últimos li. expusera no Museu de Casa e Jardim. Volpi. Desde en. famoso afresco na mansão do cunhado tendo estudado na Escola de Belas-Ar. tes do Rio de Janeiro. Criou e foi Diretor dos os aplausos de Portinari. cobria de branco a superfície. Nelson Nóbrega. Frequentou o grupo de Rebolo trangeira. Não teria alcançado aquela per. Mário de Andrade. para zade íntima com Di Cavalcanti traduzia fazer de novo. Guignard. teve Santiago e Cândido Portinari. promoveu a destruição de seu tes aberturas de sua perene renovação e mural. um mural na cidade e depois se fizesse Foi Diretor da Escola de Arte e uma votação entre os mestres presentes Artesanato do Museu de Arte Moderna para a escolha do melhor trabalho. posição foi no Ciclo Bienal da Dan Ga- para desgosto de todos. mites da perfeição. Histórico de São Paulo. Tem qua- de discípulos que figuram entre os me. sobretudo de leria. dedicou-se para sempre à pintura e 1985. pintassem de Nelson”. Belas-Artes. pinta- nardelli. Mas ele próprio. todos. logo ao terminar a Escola de vendas das obras do pintor. de Nelson. numa cena dig. Depois de apreciá-los va sobre a grandeza de Portinari. uma intensa e rara admiração recíproca. Zani. Com de São Paulo. Arte Contemporânea de Londres. Demanda tanto maior quan- A primeira exposição de Nelson to mais reduzidas se faziam as ofertas de Nóbrega. em tão. foi colega de turma de Manuel do pelos maiores pincéis do País. Nos últimos 70 todos os quadros a uma das mais exi- anos. Conta-se também um famoso retrato pintado por dele uma história pitoresca e significati. foi consagrado em lho Curador do Patrimônio Artístico e primeiro lugar o mural de Nelson Nó. Tarsila depois de contemplá-lo por dois ou três do Amaral e Noêmia Mourão. De sua clientela es- Brasil. de quadros. Cursos Livres de Arte da Fundação Ál- na de Vasari sobre a disputa de Miche. surgiu a proposta de que tado pela sabedoria e o lirismo do pincel os dois. pictóricas que aprendera com Nelson porâneo e companheiro dos irmãos Ber. Reuni. conta-se mesmo a história pi- Gonçalves e pertencia à roda de Mário toresca de um xeque da Arábia Saudita . que pintaria seu maior e mais Foi aluno e amigo de Visconti. dros em prestigiosas coleções de Nova lhores artistas plásticos de São Paulo e York e de Londres. passaram por suas mãos gerações gentes clientelas do mundo. em São Paulo. pintava um quadro estupendo e. em São Paulo. Sua última ex- brega. foi na Galeria Antes. Contem. Foi membro do Conse- langelo e Leonardo.

era um homem comum.78 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar que. a banquete. Em sua casa hospedou-se o Im- religiosas de seu país. de acordo com das porcelanas egrégias do coronel. de. com que desejo fique depositado nos as tintas. O as visitas que recebe. as imagens. Mas os quadros. No recinto de sua casa. embora viesse adquiriu uma peça da série de Banhistas de velhos troncos quatrocentões de São que o artista apresentara. ao verso do original. em torno das baixelas de prata e vira o quadro na parede. qual compareceu toda a sociedade pau- lista. chamado uma placa de tela ou de madeira e pin. em pois. São Paulo e do Brasil. por- tasse no verso outra figuração qualquer que se casara quatro vezes e deixara 47 para ser exibida à fiscalização das leis filhos. de não poder entrar com a imagem 1889. ao preciosa aguada de uma paisagem pau. no século passado o Adão Paulista. o xeque pediu chefes políticos da cidade. o famoso co- ao pintor que cobrisse o quadro com ronel José Ferraz de Camargo. Pois. fascinado por um de seus quadros. beleza do artista. Temeroso. nascido em Piracicaba. então. um homem do Axé! . o xeque lista. era neto de um dos mais poderosos fundamentalista do Islã. as expressões de anais desta Casa a homenagem devi. tempo derreteu as baixelas de prata e Esse é apenas um breve registro quebrou as porcelanas. no ano da Proclamação da Repú- da mulher nua na alfândega de seu país blica. Fora da grandeza de sua arte. recebido em célebre aplicou. Paulo. hão de viver para sem- da a um dos maiores artistas plásticos pre e são patrimônio maior da cultura de do País. que os cronistas registram. Nelson Nóbrega perador Pedro II. povo. modesto e pobre.

inicio este pronunciamento. Orgulho por ser seu sucessor nesta cadeira do Senado. esperanças. mas uma pessoa com a qual tive a oportunidade de compartilhar alegrias. Refiro-me ao intelectual. Emoção por estar aqui relembrando. uma possibilidade de futuro para o povo deste País. É com orgulho e emoção que as- Homenagem póstuma a sumo hoje esta tribuna para reverenciar Darcy Ribeiro por ocasião do uma das figuras mais ilustres e brilhan- primeiro aniversário de seu tes de nossa história política e cultural falecimento. uma alternativa. Pronunciamentos Homenagem a Darcy Ribeiro 79 Discurso proferido no Senado Federal Senhor Presidente. contemporânea. ao lado de tantos ou- tros companheiros. Sob a proteção de Olorum. ao . de onde me esforço para honrar seu espí- rito luminoso e combativo. no caminho de construirmos. sofrimentos. em 4 de março de 1998 Senhoras e Senhores Senadores. não uma figura que conheci pelos registros da histó- ria.

nem marxista sou. desejo de há mui. Mais tarde. ao humanista. o reacionarismo do Estado Novo. que o encantou. onde. em de Stalingrado. “o homem mais culto da cidade”. do interior. no Velho Mundo. Não surpre- tes Claros. a União Soviética se seus primeiros anos. ao educador. já que rio socialista. mes. africanas e indígenas. a rica cultura do interior mineiro. uma vida de po. de 1950 até a sua morte. que. seguindo o exemplo do tio Plínio. a cargo de Oscar Niemeyer. em 26 de outubro de 1922. o transformariam num a demagogia dos corais de Vila-Lobos. assim. consagrava na luta contra o nazi-fascis- breza digna. com jovem estudante. oferta que em que o prefeito Juscelino Kubitschek Darcy. que a cidade natal. “enormíssima tura barroca. Dona Fininha. dos cofundadores da verdadeira identi- a nova literatura nacional de Jorge Ama- dade nacional. ende. José Lins do Rego e Graciliano Ra- ficou órfão de pai – o que mais tarde. Darcy passasse as noites em discussões. ao edificava o conjunto urbano da Pampu- Senador Darcy Ribeiro. vilipendiado e cruelmente não houve quem me domesticasse”. a seus olhos. intelectuais e políticos de enorme proe- Nascido na então bucólica Mon. Como o encantou em suas saborosas Confissões. após ser dispensado do serviço . diria ele: “Não nossa população. A Belô assombrando-se com a riqueza da cul- de então era. reelaboradas pelo seu gênio de Eixo. que com ele visitou as mãe. Nesse ambiente efer- quem mantive uma relação amiga e de vescia também uma cultura que iria pro- cooperação intelectual desde a década duzir toda uma geração de escritores. mo. Aos três anos de idade. herdeiro de Marx. perseguido nestas terras. do. as lutas da democracia contra o tarde. minência na vida brasileira. rumo a Belo Horizonte – vejo espantado como denominador co- “um meninão boboca de pequena cidade mum de todas as ciências do homem”. pouco atento às aulas Darcy Ribeiro absorveu em sua infância de Medicina. colocou o jovem Darcy em contato Ia estudar Medicina. cujo primeiro lha. com colegas que lhe mostra- pregnada das influências matriciais eu- vam a crueldade da ditadura do primeiro ropeias. com o sociólogo norte-americano Do- to acalentado por ele mesmo e por sua nald Pierson. Darcy deixou para trás sou discípulo. mos. sou comunista. após a batalha tra querida e mãe dedicada. cidades históricas do interior mineiro. poeta-cientista. im- nos bares. nas suas próprias palavras. mas Em 1939. que mais Getúlio. viveu. mas vitorioso Criado pela mãe. cujas aniversário de falecimento transcorreu obras nascentes encheram os olhos do aos 17 dias de fevereiro último. ministradas durante o dia. viria a também o primeiro contato com o ideá- considerar “muito confortável. que o aproximaria defini. Surgiu daí a oferta de uma e belíssima”. precisando ser desfeito para A atividade político-estudantil ser refeito”.80 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar político. “aberta em avenidas e ruas bolsa de estudos para a Escola de Socio- de larguras imensas”. As marcas desse contato não se es- tivamente dos segmentos excluídos de vaneceriam. Eram os tempos logia e Política de São Paulo.

Darcy Ribeiro .

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Uma plêiade em que essencial. Insatisfação no ambiente muito especial criado na que se oferecia a mim.. de Montes Claros com o meu retrato. o alemão Emille Wil. dedican. Luminares como o próprio das essas coisas funcionaram. os melho. Nacional de Proteção aos Índios. alemães. mas o que sociólogo Pierson. então Presidente do Con- de carreira que causa estranheza aos selho Nacional de Proteção aos Índios. em São Paulo. de quebrar o preconceito contra os in- do-se ao estudo dos indígenas do inte. Foram. e Herbert Baldus. mas profissional? Essa bem podia ser mi- também de profícuos estudos e contatos nha motivação principal. em 1952. me reteve lá anos e anos foi. antropólogo. Vai que a Unesco destacou como o primeiro passar também. Curiosidade intelectual. do Museu do Índio. foi responsável pela cargo de etnólogo no então Conselho fundação. (. italianos e norte. como o historiador Sérgio Buarque de Darcy Ribeiro assume a direção do Se- Holanda. um deslumbramento Levi-Strauss e Roger Bastide. como se esses o filho não fracassara quando este. mas ainda Anos depois.” ser índio num mundo hostil. lems.” também brilhavam nomes de brasileiros Dois anos depois. Era preocupação de Darcy que rior da Amazônia. capaz de dor. Sua família.) Assim foi que . cidade e universidade por sábios france. só percebeu que vos do gênero humano. ganhando dinheiro.. de gozo. dígenas.. lá. “Foram os jornais. do mundo a ser criado com o propósito res anos de sua vida. em 1953. ganha o Prêmio Fábio Prado de O acúmulo de experiências e vivên- ensaios pelo livro Religião e mitologia cias de Darcy mostrou-lhe os indígenas kadiwéu. Darcy se indagava: assim guardava no peito um louco orgu- “(. após obter o diploma ao Índio. quando. os sábios franceses pela Amazônia. absolutamente original. Darcy faz uma opção dido Rondon. de vergo- convenceram minha gente de que eu não nha. 1950. me incen- anos de agitação estudantil – Darcy era tivando uma carreira de pesquisador militante de carteirinha da UNE –. seus amigos e familiares: vai ocupar o Nessa qualidade. em só importassem como objeto de estudo. então. o inglês com a humanidade índia.. tão ínvia e tão Radcliffe Brown . ingleses.) por que me meti no mato com os lho de si como índios. “Gente que sofria a dor suprema de era um caso totalmente perdido. ou na boa vida do ses. que só olha os índios como fósseis vi- e sobretudo sua mãe.. Creio que to- -americanos. ganha prestígio como a antropologia brasileira deixasse de ser intelectual brasileiro de pensamento uma “primatologia” ou ‘’barbarologia’’. Pronunciamentos Homenagem a Darcy Ribeiro 83 militar. atrelado capaz que nós de compor existências à natureza e a eles por tanto tempo? Sei livres e solidárias. que amor. de desengano. de tristeza. o encantamento pelo Pantanal e depois etnólogo e poeta. segundo ele. acabou aceitando. tor de Estudos do Serviço de Proteção Em 1946. chegando a como gente. Gente muito mais índios? Por que lá permaneci.. acho agora. Rio? Também podia ser. com o apoio do Marechal Cân- em antropologia.

Darcy Ribeiro passa a lar que se devia dar e. A partir de uma cen. ao contrário. queriam. mente discutido com a cúpula da SBPC Com a aprovação da lei. transferir o concurso de ingresso Em 1959. Abgar Re. em vez de uma . subsidiar escolas confessionais ou me- ra e a intelectualidade. verso processo de multiplicação que tem feiçoamento continuaria se dedican. Darcy Ribeiro recebe no curso normal do princípio dele para um de seus mais importantes encargos: o fim. de maneira geral. era o de estudos. desde sempre. como se fazia em medicina e uma escola pública democrática. é convidado a auxiliar Aní. Mas devo- gresso foi a questão da formação do ma. como nault e Fernando Azevedo. ros. Um dos pontos brasileira. agora presidente do Inep. abraçado por Darcy. dos recursos públicos para ca era interessar a universidade brasilei. Nos opúnhamos. Em 1955. em nome da liberdade de triste destino sobre a Terra. tal engenharia. A ideológico que deseja. de maneira irreparável. mas que. ignorante e faminta. empreitada reunia gente como Thales isso sim. se dedicar à educação. tada ao trabalho. brasileiro ingressasse na civilização sio Teixeira. Ampla- quem quisesse criar escolas normais. por Conduzido pela mão amiga de um lado. degradou a formação do professorado inovasse o ensino superior brasileiro. expensas. desti- Juscelino Kubitschek à Presidência da nada a abrir uma porta para que o povo República. fundada numa cultura letrada. se apropriou. ou seja. ramente lucrativas. ensino. Não nos opusemos Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Gilberto Freyre. o projeto de Darcy pretendia criar cou geometricamente o número de cur. do do direito. Curitiba e Porto Alegre. temente a Deus. cassos recursos públicos disponíveis tral no Rio de Janeiro. fulcrais do debate da proposta no Con. jamais à liberdade de ensino no senti- monta-se uma rede desses centros jun. a di. o caráter da educação popu- Anísio Teixeira. a população do décadas mais tarde. isso acabou se e com os principais intelectuais brasilei- convertendo num negócio que multipli. renovado. uma universidade que não repetisse o sos normais. a de Azevedo. que era o Centro para a educação. na elaboração das primeiras diretrizes e Uma escola capaz de interromper o per- bases da educação nacional. em nome dessa liberdade. que o privatismo se apropriasse. to a universidades e grupos intelectuais a criar qualquer tipo de escola às suas em São Paulo. em essência” deles mesmos. com a eleição de como aquela pensada por Dewey. Com isso pretendiam deixar livre criar a Universidade de Brasília. por outro lado. Recife. a qual aper. servil ou livre. sempre gistério primário. de quem quer que seja. Seus opositores. “era. tanto primária como destinar ao ensino popular os es- quanto superior. na mesma medida em que modelo existente.” O ideal de Anísio em integrar a educação no seu campo de Teixeira. Belo Horizonte. Nas palavras de Darcy.84 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar aprendi a olhar os índios com os olhos “O que se debatia. mantendo-a igual a si mesma. conformada com seu reita.” Assim disse Darcy. – diria Darcy mais tarde –. para dar educação do colorido dor. Salva. A ideia bási. moderna.

pelo conflito entre as forças re. o vernador do Rio de Janeiro. Brizola promoveu duas déu. formação dos povos americanos. volta- interpretar globalmente o processo de mos à vida política. marcaria a volta de Quadros e a posse de João Goulart. Dou- guaia. vos indígenas. Mal chegado a Montevi- no exílio. Foi. legenda do Partido Trabalhista dos mais conturbados de nossa história Brasileiro.. Com a renúncia de Jânio do. Dedica-se. mais uma ameaça à posição de 1964. de Educação. a amizade com outro retorna- para o futuro. ciado com a assinatura da lei de anistia acionárias. é benefi- de ser. vice-go- 1968 e 1977. Agora antropologia da civilização. Darcy Ribeiro é nomeado. em Reintegrados no quadro político agosto de 1962. Pronunciamentos Homenagem a Darcy Ribeiro 85 universidade-fruto. com Brizola. inúmeras campanhas em defesa dos po- A implantação da UnB foi ca. para o Partido Democrático Tra- posta por seis livros fundamentais para balhista. No ano seguinte. foi imediatamente contratado como reuniões em Lisboa. en. encerrado pelo golpe militar de te nossa. de fato. judicial em Brasília contra uma a tarefa mais gratificante de sua vida. uma universidade-semente. Entre Eleito. em associada ao General Golbery. convivência com intelectuais uruguaios. em plena “distensão” coman.. que nela enxergavam. Ainda lio no Uruguai. mas seu retorno definitivo seria ambicioso projeto educacional que o em 1978. Com essa legenda. responsável pelos tão fa- . com o ob- professor de Antropologia da Universi- jetivo de definir o programa do dad de la República. em 1982. objetivo foi reconquistar a velha tro da Educação. Brasil já conheceu: o Programa Especial dada por Ernesto Geisel. nosso primeiro altos cargos na vida pública. Foi também nesse período que tel de Andrade me procurava para ele começou a escrever seus Estudos de escrever um novo estatuto. legenda historicamen- recente. e que só nós podíamos 1964. Chile e o Peru. passa pela Venezuela. que seria a nossa trin- a antropologia brasileira. como não poderia deixar de inúmeros outros brasileiros. Escrevi os estatutos encarregado de presidir o seminário de do novo PTB e entramos em luta reformas da universidade – segundo ele. para um de seus mais graças à anistia. Vivia-se um dos perío. inspirada nos velhos tão. e com a todos os punidos pelo movimento de razão. Ivete Vargas. ganhou. aventureira.) Pouco depois. promovendo modelos. o de Minis. a uma paixão antiga. Leonel Brizola. e aqueles que viam Fortalecida durante os anos de na universidade democrática uma porta exílio. que. ao lado racterizada. com os quais Darcy produziu uma bela disputava a mesma legenda. em que tenta cheira. série com. posteriormente futuro PTB. que obrigou Darcy a buscar o exí- conduzir com dignidade. Visita o Brasil algumas Darcy Ribeiro lançou o mais amplo e vezes. um período fecundo. (. em Darcy ao Brasil: 1961. Ela e lúcida Enciclopédia da cultura uru. que desfrutavam.

Justiça e mentos à miopia política e cultural. tema de magna relevância que CIEPs construídos no programa de ele sequer pôde ver discutido em nos- Darcy Ribeiro constituem tristes monu. como ao reacionarismo de nossas elites. com livros traduzidos em uma Leonel Brizola é a Universidade Esta. Os índios e a civiliza- conjunto universitário projetado por ção. de um homem vitorioso. os 500 agrária. sem manutenção.86 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar mosos quanto injustiçados CIEPs. que não tiveram Eleito para o Senado. Edificada e mais de 20 países. Entre eles. O proces- implantada na cidade de Campos. com ele travava uma luta de morte. Darcy a via como a ra e Utopia selvagem. Maí- Oscar Niemeyer. como o áreas pobres. das de famílias pobres. dissolvendo as imensas Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Igualmente emocio- Por acreditar nesses ideais. possam progredir beiro não permitiu que a doença. o mental. assegurar isso a todas as crianças é sempre acreditou. sem ças a cheirem. derrotas circunstanciais na trajetória te para dominá-lo com maior facilidade. apenas interessadas em manter o povo ignoran. Mesma sorte não tiveram outros sim. rá com um banho de lixívia”. sa Comissão de Constituição. escolas de tempo integral para alunos e pois “uma universidade feita para viver professores. Suma etnológica brasileira. ou seu projeto de reforma professores. impedisse de lutar pelos valores em que res. bem Cidadania. massas marginalizadas de brasileiros fruto de mais de dois anos de trabalho analfabetos. pelo governo seguinte. da qual foi coautor e ver esse programa ser abandonado. num so civilizatório. ao lixo. variedade de idiomas e publicados em dual do Norte Fluminense. Foram essas. em responsável pela principal inovação – a plena realização. cristalizava-se. pela primeira vez atravancando sua efetiva implantação. Para Darcy e seus colaborado. nesta Casa foi ver aprovada a sua nova lização letrada. Um homem que “Universidade do Terceiro Milênio”. aquilo que é comum ao ensi. político. Darcy Ri- escolaridade prévia. Darcy morreu acreditando que os males no público de todo o mundo civilizado: que a afligem são apenas passageiros. que nos estudos e completar o curso funda. nas décadas e nos séculos deles se lava- dispensáveis para que as crianças oriun. contudo. As. quase todas de projetos de mesma relevância. viveu. na plena acepção desse verbo. por puro sectarismo chamada doação presumida. à cola de sapateiro. para evitar que crian- delinquência. Com Embora problemas políticos persistam eles. Sua maior satisfação o único modo de integrar o Brasil à civi. no Brasil. árduo e contínuo. Sem equipamentos. foram tiradas do regime que prevê a introdução de repelentes na integral e devolvidas à rua. . 360 mil crianças. foi nante foi ver aprovada a lei sobre do- para Darcy o maior golpe de sua vida ação de órgãos. autor de uma Outra realização educacional prosa caudalosa como um rio amazô- de Darcy Ribeiro em associação com nico. dotadas das condições in.

Sras e Srs. em para expor e afinal requerer quanto segue: que oito pessoas faleceram. eram estas as mi. 2 – não pode. inclu- dominante. 3 de março de 1998 tos de uma imensa generosidade e de uma infinita compaixão pela sorte de seus semelhantes! Exmo Sr. no Rio de Janeiro. peço que seja imperícia dos seus engenheiros respon- transcrito nos Anais desta Casa o texto sáveis. ABDIAS NASCIMENTO EM novos caminhos para a solução de an. Senador Abdias Nascimento dores. que lutou DOCUMENTO A QUE SE REFERE em defesa de seus ideais. Região Administrativa da Prefeitura. negligência ou Com esse objetivo. rança para seus moradores. sendo periciados por técnicos da Prefei- Axé. Presidente. que certamente estaria Brasília-DF solidário se estivesse vivo.4340 les infelizes que foram vítimas de um desabamento na cidade do Rio de Ja- A Sociedade Civil Comunitária neiro. Sena. SEU PRONUNCIAMENTO: tigos problemas. Um brasileiro impres- cindível. so- 1 – Barralerta tem em seus qua- bretudo da certeza da impunidade com dros representantes de todos os segmen- que agem alguns setores de nossa classe tos da sociedade civil da Barra. mesma área – Rua Jornalista Henrique nhas homenagens ao querido compa. So. Cordeiro – encontram-se sob suspeita. soluta incompetência. a sociedade brasileira cobra sive empresários e autoridades da 24ª das autoridades uma ação incisiva. Barralerta por seus Conselhos Diretor e Ainda chocada com a tragédia da de Planejamento vem à presença de V. Darcy Ribeiro! tura e da Defesa Civil. como a imunidade parla- os moradores do prédio construído pela mentar. dade Civil Comunitária Barralerta. e que. portanto silenciar para que um estatuto democrático em diante da tragédia que se abateu sobre sua essência. nheiro de PDT Senador Darcy Ribeiro. 3 – outros prédios construídos na Sr. Sr.160-900 transcrição de um documento daque- Fax: (061) 323. que me foi enviado pela Socie. Exª Barra da Tijuca. bretudo de nós. que dedicou sua vida à causa BARRALERTA dos menos afortunados. não se transforme em abrigo de Construtora Sersan de propriedade do criminosos travestidos em representan- Deputado Sérgio Naya. Mas que soube fazê-lo com alegria e bom humor. Pronunciamentos Homenagem a Darcy Ribeiro 87 Que amou profundamente. vítimas. solicito a CEP: 70. . Presidente. por ab- tes do povo. que propôs O SR. membros do Congresso. fru. ainda como uma homenagem a Congresso Nacional Darcy Ribeiro. foi implodido por falta de segu- abaixo. Rio de Janeiro.

alegada imunidade parlamentar. uma vez que ela pertence à Câ. Sérgio Naya. Parlamento e declara desejar viver em 8 – ocorre que o Sr. do Conselho de Planejamento – Kleber mitir que seus prepostos sejam proces. 121 do Código Penal vidência nesse sentido. Parlamentar. desacreditou as atos criminosos do Sr. 7 – o Ministério Público do Estado Alardeia. já de- clarou que “não abrirá mão de sua imu. edifício Palace lI. Parlamentares uma postura altanei- mara dos Deputados”. enquanto ele pre- me prejuízo causado pela Construtora tende ficar escondido e impune pela sua Sersan aos adquirentes das unidades.88 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar 4 – desnecessário dizer do enor. guns dos quais perderam entes queridos no desabamento parcial do prédio. pelos a classe dos engenheiros. Sérgio Naya. 5 – os laudos técnicos estão dire. ra e digna cassando este deputado ou. mas não toma nenhuma pro- ponsáveis no art. Sérgio Naya que o instituto da imu- crime de morte de sete brasileiros. O cidadão Sérgio Naya conspurcou 6 – 176 famílias ficaram. Srs. co. ocor. Diretor Administrativo. ter sido eleito e representar a população teriais usados na construção do edifício do Rio de Janeiro nessa ilustre Casa. e não para dar guarida a Subscrevemos-nos: Ney Tino- criminosos comuns. autorizado seja o mesmo 9 – esquece ou finge esquecer o processado com seus comparsas pelo Sr. cujo implodido. além de falhas na estrutura e prestígio deve ser resguardado. A sociedade brasileira espera dos nidade. Sr. Presidente 10 – o cidadão em causa vai per. fundações do Palace II. Estamos nos dirigindo a V. Exª por cionando para a má qualidade dos ma. Presidente do Conselho Dire- tor – Orlando Raso. covardemente. que do Rio de Janeiro aventa até a hipótese possui bens para cobrir o prejuízo das de enquadramento dos engenheiros res- vítimas. o referido cidadão. além nidade foi criado para dar proteção aos de outros delitos que estão sendo denun- parlamentares por seus atos e ações pra- ciados pela imprensa. rido em 22 de fevereiro passado. Miami. . Esconde-se no parágrafo 2º (Homicídio qualificado). Diretor Financeiro. onde a mão da Justiça terá mais signatário das plantas da construção do dificuldade em alcançá-lo. pri- empresas construtoras honestas e pretende vadas da totalidade de seus bens e sete que a Câmara dos Deputados se torne va- pessoas morreram na catástrofe. Machado. pelo menos. lhacouto de um criminoso comum. sados e condenados. ticados no legítimo exercício do man- dato popular. al.

Já ensi- naram os mestres da história que tudo o que permanece e resiste à destruição do tempo é aquilo que foi fundado pe- los poetas. o lançamento da última obra do poeta Gerardo Mello Mourão. Sob a proteção de Olorum. a Editora Record e a Livraria Argumen- to. tural e da história da literatura brasileira: intitulada Invenção do mar. no dia 3 deste mês. do Rio de Janeiro. As gera- ções guardam os nomes do Dante e do . Não estranhe o Senado que se traga à tribuna desta Casa a celebração de um acontecimento poético. em 6 de março de 1998 Senhoras e Senhores Senadores. promoveram. que tem o título de Invenção do mar. Pronunciamentos Lançamento da última obra do poeta Gerardo Mello Mourão 89 Discurso proferido no Senado Federal Senhor Presidente. inicio este pronunciamento. A própria glória do poder político é efêmera e duvidosa. Esta semana está marcada por um Lançamento da última obra dos maiores acontecimentos da vida cul- do poeta Gerardo Mello Mourão.

o príncipe Já quando do aparecimento da maior dos sociólogos deste País. Notícias. trilogia poética de Gerardo Mello Mou. O saudoso poeta Augusto Frede- e assim por diante. a quem seus discípulos no Bra- do espírito. conseguiu o máximo de expressão usan- bre a poesia gerardiana: “Gerardo Mello do recursos que nenhum outro empre- Mourão é um poeta planetário. uma existência pungida de rica e Gerardo Mello Mourão. para que nele o Brasil ele parentesco.” E concluía seu ensaio so. depois da publicação dos primeiros exerceu por cerca de vinte anos e da grandes poemas do autor de Os Peãs: qual ainda tem saudades os que se ocu. se colocou a poesia em tão poeta que não se pode medir a palmo.. a chamar “O Divino Mestre”. para Meu saudoso amigo Guerreiro os quais é a essa linhagem dos criadores Ramos. “Agora podemos morrer.” altos críticos do País e da Europa. E é ainda o mestre um acontecimento memorável. que via. raízes no país dos Mourões e como a dadeira história de seus povos. E quan. Leio. de Virgílio e de Camões. que os estudos bra- rão. em nossa histó. Declaro-me poeta planetário na história da literatura possuído de violenta admiração por esse brasileira. O escri. não faço mais patética aventura e de enfurecida beleza do que repetir o juízo de alguns dos mais humana. Peripécia de Gerardo creveu a propósito do épico de O país é outro épico esmagador. poesia de Gerardo Mello Mourão. espantosa trajetória de sua residência na do cito o nome desses poetas ao tratar de terra. tão au- senados e gabinetes ministeriais à época têntica e tão marcada como suas ásperas em que aqueles poetas fundavam a ver. a crítica e uma nova disciplina na Universida- nacional e internacional o saudou como de: a gerardologia. Nenhum fazedor de rões merecia edições contínuas. com a meio de muitas correntes da poesia bra.” sileira de hoje. me entusiasmo a cada momento. é Gerardo Mello Mourão O poeta Carlos Drummond de um estranho e um solitário. neste milênio. dos Mourões: “Jamais. que escre- cava na crítica do jornal O Globo.90 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar Shakespeare. em versos desta parte do mundo tem com escala nacional. em artigo famoso.” se apreendesse a ferro e fogo e palavra O mestre Tristão de Athayde es. rico Schmidt escrevia: “Estamos diante nemente os nomes dos que presidiram de um poeta cuja obra é tão rara. Guerreiro. releio. O único gou ainda em nossa língua.).” imenso. que então pontifi. Os Peãs. dramático e vigoroso painel. em artigo no velho Diário de tor Antônio Olinto.. diria: “no e nosso País estão justificados. e alto pódio. mas ignoram sole. que pertence sil e nos Estados Unidos se habituaram o poeta brasileiro. indestrutível (. sileiros deviam criar uma nova cadeira damentais de nossa literatura. . dizia. que reúne três livros fun. É um ria literária. do Rio de Janeiro. Nossa geração pam com as coisas das letras. Nada há que Andrade escreveu: “O país dos Mou- se lhe assemelhe.

Poeta Gerardo Mello Mourão .

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e que críticos franceses. grafia e uma história. como a consagração de Ezra que plantou os pinhais. seu País e meiro sentido: inventar significa achar. diz: “com Gerardo Mello vra “invenção” deve estar aí em seu pri- Mourão. outro poeta. com várias edições no Brasil e rantes. mas. fundadores da terra. considerado geralmente o pai tábuas. que habitavam a terra em suas tribos mães e eslavos situam ao lado da obra inumeráveis. dos índios no exterior. Quem conseguiu foi o poeta mance Guerra e paz expressa a história de O país dos Mourões. Começa com a memória de Seria necessário um volume in. Pronunciamentos Lançamento da última obra do poeta Gerardo Mello Mourão 93 que atestará sempre a grandeza singular Pois é essa genealogia. o Osíris do Egito africano Mourão. Na França. Creio que não Já se disse que a ficção de Tolstói no ro- consegui. esse poeta brasileiro. dos bandei- espadas. tória. uma genealogia gleses. a voz da grande poesia e da grande acompanha todos os momentos dessa poética universal. ma de Dionísos. de sua colonização. com que se inventaram as cara- da poesia contemporânea. mas especialmente a genealogia deste manha e assim por diante. O país dos Mourões e de seu achamento. da cátedra de Poesia da Universida. assim Metáfora da aventura dos nave- como seu famoso romance O valete de gadores. pela primeira Os navegantes acharam o mar. O poeta vez. holandeses. o rei D. dos milhões de africanos de Jorge Luis Borges ou de Franz Kafka. seu sangue e seu suor a cons- O poeta Robert Graves. no verdadei. O infante inventou os sabedores toda a minha obra. índios e brancos. dos padres jesuítas. Mas a pala- de de Oxford. protagonistas todos da cria- . escravizados que pagaram com sua li- berdade. dos colonizadores. das guerras em descobrir um mundo – que me prometo que morreram centenas de milhares de mais e mais – que não é tanto uma geo. assim. Dinis.” da Rússia e das guerras napoleônicas melhor que qualquer compêndio de his- O poeta que agora oferece Inven. a epopeia tão. padres e principalmente negros americana”. o Dionísios portantes da obra de Gerardo Mello dos gregos. um marco. cantada e iluminada pela metáfora de sua trilogia. “ invenção. para inventar as Pound. ção do mar vem confirmar aquilo que talvez o marco maior. um monumento de nosso tempo. da África. do mar alto. ver a epopeia da América. ale. con- Paz. da posse e do co- nele já identificara o grande Octavio nhecimento da história do Brasil.” modo a genealogia de toda a América. na Inglaterra. Esse poema é. Diz ele: “Em velas. na Ale. seu continente alcançam. poeta e rei. portugueses. E o mar inventou o Brasil. não é um livro de história. Peripécia de Gerardo. o que tentei foi escre. a poesia de País chamado Brasil. que compõe o pai- Gerardo Mello Mourão é considerada nel espantoso de Invenção do mar. me levaram a de seu desbravamento. in- ro sentido da palavra. titular en. ao dizer: “os dois primeiros livros tada. a quem cha- teiro para consignar as referências im. trução da riqueza nacional. franceses. de certo e a intensidade universal de sua poesia.

Centro. Mas protagonistas foram. foram os índios devoradores de gente. e o açúcar era o negro. e São Paulo era é chamado de pátria. tentativas de suborno do governo ho- pingiram ao longo dos séculos. e alguns mor. com crueldade. Protagonistas foram os ca. possíveis a partir da expulsão dos holan. foi escrito e assi- o café. que ral e deu condições aos exploradores para quase todos saíram do governo mais a aventura das bandeiras. que se tornaram dos genocídios da história. e Pernambuco era o açú. como se assinava o da fundação foram os guerreiros que prearam índios e expulsaram invasores capitão Henrique.94 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar ção de uma geografia. são cantados todos os pouca letra e muita espada. Depois. e Foi. que expulsaremos os invasores. Com ela protagonistas da invenção do mar. Os que mataram e os é a minha pátria. no século XVII. . com furor. arrancados violenta- te da crônica dessa empresa de fundação mente de seus reinos na costa da África. Fala-se muito dos Pernambuco. Protagonistas foram capazes negros. porque gonistas foram os padres missionários. Protagonistas negros e mulatos. passando penúria O que esse poema ilumina é a e fome. devorados pela crueldade implacável gia e de uma história. diz o poeta que o Brasil era te o povo brasileiro. e Minas seria to da história deste País em que apa- o ouro. Nesse landês. de uma genealo. E respondo igualmen- que morreram para fazer o País. Criaram os alicerces da riqueza nacional transfigurando em versos a nota dos e criaram a raça a que pertence realmen- cronistas. reram na indigência. sangue o país que não haviam escolhido. porque esta inventou o Brasil. criou a segurança do lito- pitães das capitanias hereditárias. da conquista do pobres do que entraram. os negros. te pelo capitão Felipe Camarão. na carta soberba em que repele as as imposturas históricas que nos im. Com amor. índios e brancos. tudo. e se finaram sem ter um lençol expressão da beleza inaugural da histó- para envolver o corpo na sepultura em ria. dizendo: “meus soldados têm poema fundador. ou assa- empunhando armas nos quilombos. o lembra o poeta. heróis fazedores de pátria. rece a palavra pátria. mas e que aqui construíram com o próprio sobretudo de negros e mestiços. como mãos de origem acorrentados no eito ou o padre Manuel da Nóbrega. do Oeste e do extremo Sul. Mais tarde. o primeiro documen- Brasil seria Minas Gerais. foi dos e comidos com farinha de pau pe- graças à bravura do governador geral dos los índios antropófagos. em que o Brasil o Brasil era São Paulo. que o País se transfor- flamengos.” que guardaram a língua dos índios. Mas. assim. como car. e o café era o negro. e o ouro era o negro. embora com seus ir- que às vezes morreram de fome. esta é a pátria dele também. nado por um negro: o capitão Henrique Não cabem nesta epopeia limpa Dias. sobre- deses do Nordeste – episódio culminan. deste país até também de brancos. No século XVI. da geografia e da genealogia de que que foram enterrados. mou em Pátria. Prota.

Não preciso repetir a brilhante e cos recentes. uma intuição primordial. Expo98 – Os Oceanos. Mas quero marcar a a Coroa lusa a apressar a fixação. Centenário. antecipado o conhecimen. conforme se lê em estudos históri. um volume de 367 páginas. Pessoa. o que desfaz a tola versão de língua portuguesa passou a sustentar-se um encontro por acaso. do jornal O Estado de São Paulo. poema que Gerardo Mello Mourão aca- clara 1998 o ano internacional dos oce. do a não ser que haja historiadores e cos- escritor e filósofo Miguel Reale. um patrimônio para o futuro – com magnífico acervo Foi por esses motivos que recebi de edificações e de pesquisas históricas. Nele mógrafos pátrios empenhados silencio- diz o antigo reitor da USP: “Portugal samente em tais estudos. com surpresa e imensa alegria o belo ao mesmo tempo em que a Unesco de. Não é de estranhar que gero em falar em ‘milagre português’ no um poeta se tenha antecipado nessa me- campo das experiências e expedições ritória e necessária participação. do descaso reinante. É nesse amplo con- ram feitos os ossos e as veias do Brasil. não me consta” – continua Miguel Entre as matérias de jornal já pu- Reale – “que o Governo brasileiro ou blicadas sobre Invenção do mar. das artes e da comparecer a Lisboa com algo de va- investigação científica. E faço daqui um apelo ao vas (1479) e. Vasco da Gama. porque. mar – Carmem Saeculare.” res. grandes descobertas marítimas. depois. Os portugueses têm razão de fes. pois a marítimas como de Bartolomeu Dias e poesia é sempre uma invenção primeira. com grandeza única da contribuição do poeta a da Espanha. como Ao ler o livro de Gerardo Mello já se prefere dizer. o que levou le sobre o poema. ocupando mais de meia página à comemoração de tão relevante evento.” de Pedro Álvares Cabral a Porto Segu- ro. o grande fi. Brasil em 22 de abril de 1500 ou. entusiástica apreciação de Miguel Rea- to de novas terras a oeste. apenas ‘descoberta Mourão ainda no original. formal’ . vale a nossas instituições públicas e privadas pena destacar longo artigo. Pronunciamentos Lançamento da última obra do poeta Gerardo Mello Mourão 95 Dessa nutrição antropofágica fo. tendo seus navegado. ba de publicar sob o título Invenção do anos. nos habilitando a no plano do pensamento. por se tratar de terras sobre as lósofo e escritor português Afonso Bo. antes com o Tratado de Alcáço. verdadeiro já estejam dedicando a devida atenção ensaio. com o Tratado de Departamento Cultural do Ministério . não haveria exa. e nos venham prepara-se fervorosamente para abrir a surpreender com eles. quais Portugal já possuía informações telho diria que “com ele. em sete den- tejar com tanto entusiasmo a época das sos cantos. das novas fronteiras do brasileiro às comemorações do Quinto mundo. Tordesilhas (1494). Não obstante sobre quatro pilares: Camões. lioso nas mãos. a poesia de seguras. E texto que se situa o descobrimento do também os ossos e as veias desse poema. a estarmos a apenas dois anos da chegada Carta de Caminha e Gerardo. Trata-se de uma obra que nos redime assim como se fala em ‘milagre grego’.

preparo para oferecer à Casa proje- nhores Ministros da Educação e da Cul. Senhor Presidente. o poeta Gerardo Mello Mourão. seja na imediata montagem Espero. com dar relevo a um projeto para que esse texto do professor Vamireh Chacon e poema secular – secular no sentido em sua equipe de estudantes. audiovisuais de Invenção do mar nos pública.96 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar das Relações Exteriores. onde o atento nos é sugerido por essa obra ímpar da e competente ministro que o dirige pa. poesia brasileira. Vale a pena lembrar rece empenhado em incorporar projetos que o poeta passou também pelas ban- expressivos para celebrar esse marco de cadas do Congresso. como deputado fe- nossa história. exames vestibulares. cuja maior de nossa presença em Lisboa. e ao próprio o Presidente da Re. cele. brado e consagrado. deral por Alagoas. e que prestou ainda rardo Mello Mourão seja uma referência relevantes serviços a este Senado. na última legislatura. que deve funcionar mais escolas de segundo e terceiro grau do para assuntos como este do que para a País. para que o poema de Ge. enquanto me Apelo semelhante faço aos se. foi elaborada que assim se chamou o camem romano rigorosamente dentro do projeto de tra- do poeta Horácio – seja divulgado. balho organizado pelo ex-Parlamentar. como referência obrigatória nos propaganda do Governo. O história. O Congresso Nacional não pode Axé! omitir-se também do dever cultural que . por meio de sua Secretaria de programas culturais e no currículo das Comunicação. to Cultural do Itamaraty. morativas. em edições come. que de um CD ou de um CD-ROM que leve minhas palavras cheguem aos minis- aos centros culturais do mundo o texto tros acima referidos e ao Departamen- inigualável de Invenção do mar. to de lei que inclui versões escritas e tura. mandada editar pelo Presidente Departamento Cultural está no dever de José Sarney.

Vivia então o Brasil um raro período de paz interna . Pois não é algo que aconteça frequentemente na história de um povo o surgimento de um gênio do porte desta figura gigantesca que estamos reveren- ciando no centenário de sua morte: João da Cruz e Sousa. Sob a proteção de Olorum. Mas também nunca antes e nem depois deste momento um sentimento de orgu- lho e de dignidade humana teve ou terá o poder de elevar tão alto minha autoes- tima. Corria o ano de 1861. inicio este pronunciamento. Talvez eu jamais tenha ocupado Homenagem ao centenário de esta tribuna. trêmulo de tanta emoção. Pronunciamentos Homenagem ao centenário de falecimento do poeta Cruz e Sousa 97 Discurso proferido no Senado Federal Senhor Presidente. em 19 de março de 1998 Senhoras e Senhores Senadores. falecimento do poeta Cruz e Sousa pungido pela tristeza mais dilacerante. sintonizada com o orgulho e a au- toestima do povo afrodescendente a que pertenço.

Aos do conde Gobíneau. Esse e amigo íntimo do Imperador Pedro II. o sustentáculo. adota o navio a década de 1860 era a de uma sociedade vapor. o que então significava aos não era secreto. Sua presença. afetando profundamente. guiria resolver. maioria absoluta de uma população ain- portantes transformações em nossa so. Mais do que isso. propiciava toda sorte olhos europeus. Nesse contexto. e não a exceção. Era um impasse censura à imprensa –. o romance e o drama ao mesmo tempo. como não poderia deixar de ser –. senhor. num sistema em que o voto do mundo. o marechal de campo Gui- . filho de constituíam uma cidadania de segunda um casal de negros que ganharia a al- classe. essas na mineração. da concentrada no campo. Fermentadas duran. naquele ano o Estado e a Igreja. pelo de terra que acompanhava os contornos modo como ocorreram a vida de todos de nosso litoral. Constituíam também a clivagens acabariam provocando im. parecia o Brasil um conjunto de “flores- çara diminuta. ensaia Mas a principal contradição da um regime representativo. com uma “população toda baria por se tomar um interlocutor im. período esse que que a sociedade imperial jamais conse- se estenderia por cerca de quatro déca. teórico do racismo da fraude a regra. os não católicos Desterro. mentalmente agrária e extrativista. fato alimentava uma corrente que come. participa do sociedade brasileira naquele início da mercado internacional. que constituíam a quase te décadas pelos adversários do regime. então funda- cultural não conseguia ocultar. Com o catolicismo de 1861. O controle da máquina pelo ministro caracterizando esta sociedade aos olhos da Justiça. numa faixa ciedade. mulata. das. naturalistas. ferro e do carvão. mas que aca. ral. forria alguns anos depois. porém. O País constitucionaliza-se. quando seu te as suas crenças divergentes e fre. por vezes se expressando tas virgens habitadas por mestiços de- em frustradas insurreições. impedida de professar livremen. de pressões e manipulações. depois. fazendo diplomata francês. descendentes. esse surto de progresso tecnológico e o pilar de sua economia. vivos e por nascer. assim – os brasileiros. não podia pare- A outra contradição fundamental cer muito promissor o destino de um da época dizia respeito às relações entre menino nascido escravo. sem o manto da hipocrisia. o trabalho forçado dos africanos e seus ção de alto a baixo.98 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar e relativa liberdade – sem banimentos quentemente obrigada a se ocultar sob nem prisões por motivos políticos. a instituição da escra- romântico e. generados”. os republicanos. um traço marcante da vida brasileira. Todo vidão. mas abrigava. o consumo do que se pretendia liberal. na vila de Nossa Senhora do como religião oficial. com sangue viciado e feia de portante e respeitado na arena política: meter medo”. era Uma delas era o problema eleito. atual Florianópolis. era as divisões profundas que cindiam a Na. o trem de ferro. totalidade da mão de obra na lavoura e em sua variada coloração política.

expressa em Cruz e Sousa ganhou deles não apenas 1850. de nome e desumana. quem pensável à manutenção de um modo de sabe alimentado numa guerra em que vida parasitário. A marca de sua origem. não o deixará seguir uma foi libertar os senhores da obrigação de pacata carreira de mestre escola. elites do Desterro à ousadia daquele ne- gra. Pôde. que consideravam a escravidão indis- vez por um humanitarismo inato. o quanto pôde. submetidos a urna escravidão que Não pode surpreender. O melhor retrato desse Com todo esse preparo. No Rio de Janeiro. por pressão da resistência ne. conseguira rada. amigo Virgílio Várzea. para mostrar seu valor como riam – perceber. que se correspondia com elemento chave a atravancar o progres- Darwin. João da mo a proibição do tráfico. mas uma educação esme- da Lei Eusébio de Queiroz. conscientizá-la da inevitabilidade de estudar os clássicos. homens. Nem mes- de afeição pelo menino negro. assim. cuja vanguarda buscava . numa instituição retrógrada. cência não conseguiam – ou não que- sobretudo. contra já fora extinta em quase todo o mundo esse pano de fundo. o jovem reacionarismo espelha-se na abordagem Cruz e Sousa abraçou de início. o problema do o marechal e sua família tomaram-se chamado “elemento servil”. dade de então. mas por se constituir num Fritz Muller. quase aristocrática. Já em 1882 – aos 21 faz na qualidade de secretário e ponto anos. por pressão britânica. funda. a classe dominante litares viessem a rejeitar a escravidão. tificação com a sorte de seus irmãos de raça. aprender línguas se pôr um fim à instituição escravista. A hostilidade branca impele transformaria Cruz e Sousa num pala. Com efeito. portanto –. numa primeira de uma companhia teatral em tournée de colaboração pública com seu colega e Norte a Sul do País. cuja galopante obsoles- os descendentes de africanos lutaram. ódio mortal das elites conservadoras. a irada reação das ocidental. Tal. mas o mais tarde se revelaria tão mesquinha. estrangeiras. na chama- o sobrenome. ter até mesmo como pro- Não só por ser esta imensamente cruel fessor um naturalista alemão. lecionando na capital e interior no Brasil. o que dino da Abolição. sorriu na infância daquele menino. xagenários cujo verdadeiro resultado no entanto. definitivamente. o jornal aboli. Cruz e Sousa a deixar a terra natal. ignorou. trava contato com a jovem intelectuali- cionista Tribuna Popular. Essa formação permitiu que se expressassem seus extraordinários dotes so de uma sociedade que se aproxima- de inteligência e sua irresistível vocação va do século XX com os pés fincados para as letras. contribuindo para que os mi. o seu lugar. ineficaz e antieconômica. partiu para a ao mesmo tempo o respeito de uma mi- Guerra do Paraguai. Mas a sorte. Ganha. A iden- sustentar escravos anciãos. que noria esclarecida e progressista. assim. não conhecia de urna triunfante Revolução Industrial. o ma- gradualista com que se deu a Abolição gistério. incluindo uma Lei dos Se- da Província. Pronunciamentos Homenagem ao centenário de falecimento do poeta Cruz e Sousa 99 lherme Xavier de Sousa. dos nascentes movimentos sociais e gro que.

nense. Emiliano Perneta e Cruz e Sousa. tanto em prosa quanto aliados. possivelmente escrito poucos forma perfeita. De volta ao Des. hoje univer- ao Rio Grande do Sul. trazem a mensa- Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas gem de Baudelaire. em 1893. dos mil raios do sol. onde vive- livro. Estas se mundo à sua volta passava por impor- . momento de rara salmente reconhecida. que em 1891 publicam no jornal carioca O basta gigantesco. Sob o nome bestial dum cágado tranquilo. passassem praticamente despercebidas sa. Nerval. no tímpano do ouvido – audaz me não soar. contudo. a década fase inicial. colossal. seu primeiro então para o Rio de Janeiro. Lopes. d’estrépito. à literatura brasileira – uma uma triunfal recepção em sua chegada alta e luminosa novidade. Vai amigo Virgílio Várzea. nessa Em matéria de poesia. integra-se ao movimento aboli. da branca consciência – o rútilo sacrário Eram signatários B. Em 1886. Cruz e Sousa compôs. soprados da Euro- manhosos. ardentes do olhar – formando uma vergasta Huysmans e outros poetas europeus. também lhe conquistavam zia algo de novo. notáveis poemas abolicio. é surpreendido por em poesia. estilo caracterizado pelo culto à vocratas. e sobretudo seu talento e ousadia em aos contemporâneos. Embora ambas as publicações reacionária. seu primeiro manifesto. à impassi- anos antes da Abolição: bilidade diante do mundo e da vida. como este belo e enérgico Escra. cado para o cargo de promotor público terro. de 1880 fora dominada pelo Parnasia- nistas. tem sua nomeação barrada por Publica em 1885. indi- prendiam ao passado. extraordinário Folha Popular. depois. de “decadentismo”. Nas- cia o Simbolismo no Brasil. Numa combi. dois livros de Cruz e vermelho. Dois anos Eu quero em rude verso altivo adamastórico. novos ventos Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio chegam ao Brasil. Por volta de 1890.100 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar livrar-se dos cânones asfixiantes que a manifestam uma vez mais quando. condoreira. das iras dos poetas A nova tendência logo se constitui em e vibro-vos a espinha – enquanto o grande basta polo aglutinador de jovens escritores. tendo em Medeiros e Albuquerque Viveis sensualmente à luz dum privilégio na pose o seu principal divulgador. Sousa marcariam pela primeira vez a castrar-vos como um louro – ouvindo-vos urrar! concretização dessas ideias neste País: Missal (prosa poemática) e Broquéis Se causavam ódio entre a elite (poesia). na cidade de Laguna. em coautoria com o pura e simples discriminação racial. no litoral catari- cionista. agachados – bem como um crocodilo pa. euforia numa vida marcada muito mais O poeta tinha agora 32 anos. as posições de Cruz e Sou. gongórico. imenso. pela imprensa e pela tribuna. Oscar Rosa. rá a fase mais profícua de sua carreira nação estilística de veia parnasiana e literária. nismo. Mallarmé. Tropas e fantasia. e o pela frustração e pela revolta. Cruz e Sousa tra- defendê-las. ao helenismo.

Cruz e Sousa. SP – pintou o quadro reproduzido acima e o enviou. num gesto de espontânea beleza. . na visão de Myrian T. a autora – que tem 65 anos de idade e mora em Sorocaba. Inspirada pela notícia do prêmio insti- tuído pelo Congresso Nacional em homenagem ao Poeta Negro. ao Senador Abdias Nascimento (maio de 1988). Moreira.M.

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os miseráveis. amanuense que o talento tomaria imor- Outro evento significativo ocor. segundo um historiador. Em que pese à sua Não por acaso. de origem africana. Caladas. à altura de sua formação. latifúndio. experiência de vida a motivação e os te- tendida como um momento da história mas de uma poesia que consegue casar. consolidavam-se os privilégios do Os rotos. um outro ria plenamente esse terrível destino. agora “trabalhadores livres”. e Sousa imerge num terrível calvário. Cruz e Sousa só encontrou má que assinou a lei. rido pouco tempo antes – e em estreita Casado com a bela negra Gavita. Muito pelo contrário. sem que esta opusesse resis. dos do Sudeste. contudo. Cinco anos an. Os acontecimentos “Litania dos pobres”’: de 15 de novembro de 1889. Pedro II. vontade nos órgãos de imprensa em que Sem terras nem outros meios de enfren. Cruz correlação com o primeiro – fora a Pro. Não con- que seu único dote – a força de seus bra. obrigado ao convívio com a miséria e a narquia. o Governo Imperial. Cruz e Sousa compartilha. é obrigado a -brasileiros. livre agora de dom Pedro II e dos mecanismos do Estado Imperial São prantos negros de furnas que. Estava aberto o caminho às evidências da política e da economia. de sua história sofrida. um outro gê- tado preparo. clamação da República. rendendo-se coisa privada. porém. mudas. fundamentalmente. a mesma sorte que teria. . Pelo contrário. para a consolidação do coronelismo. A queda da Mo. dificulta. Com a República e o Federalis. a expressão simbo- um acordo que. Apesar de seu imenso talento de nome historicamente fixado à princesa escritor. como sugere o cog. pondo fim a aprofundamento das desigualdades re- quase quatro séculos de brutal explora. poucas décadas mais tarde. de produzir. tal: Afonso Henriques de Lima Barreto. reconhecida inteligência e ao seu requin. pode na verdade ser en. nio negro de nossa literatura. gionais e a hegemonia política dos esta- ção da mão de obra negra. depois de 50 anos de reinado de doença. brasileira em que as elites alcançavam com infinita beleza. lista com as vivências ancestrais. Não para. seguindo firmar-se num emprego mais ços – estava longe de ser escasso. dadeiro caráter da transformação repu- blicana. o extinguira a escravatura. vam a transformação da rés pública em tes. trabalhou –os periódicos Folha Popular. pre. como servava seus privilégios – econômicos. os afro. a ausência de participação popular e a formação do Os miseráveis. exemplifica esta comovida e profética sociais e políticos. os rotos Governo Provisório demonstram o ver- São as flores dos esgotos. soturnas. tar com êxito um mercado de trabalho em Novidades e Cidade do Rio. extrai de sua dolorosa tência alguma. Pronunciamentos Homenagem ao centenário de morte de João da Cruz e Sousa 103 tantes transformações. aceitar a humilde e mal remunerada fun- ingressavam em mais uma etapa sombria ção de amanuense na Central do Brasil. amplamente favorecida não significara a redenção da população pelo Governo central. Isso. São espectros implacáveis mo.

que eu ar- levado a uma poesia de tendência espi..) bular. ele próprio. Vai tratar-se na cidade mi- . como um dos maio. essa treva é que não só lhe confere autenticidade no o que eu desejo.. sem fim. o cristal. a incompreensão e a inveja dos meios Treva. nobres reverdescem escuras vai sombria e misteriosa- De acanto. do de um estado de aguda tensão inte. como pre- Ele marcha por colinas tendem alguns críticos. Estranhos roseirais nele florescem que através de profundas selvas Folhas augustas. Uma poesia também presente além de atitude estética. na mati- zação de cores e na força encantatória. como o branco. tudo isso que o alçaria aos píncaros do O simbolismo de Cruz e Sousa é. é de ouro como um ignorado braço de rio. expressa no metaforismo. mundo afora. que me eletrifique. singularmente Em hastes como as de guerras.. que me dis- rior. que seja o meu literários dominantes. na música das palavras. res poetas da literatura brasileira. e depois de ver a esposa ideias puras. as verdades essenciais – o Esse luto. essa noite. confundido no supremo movimento da natureza. no que me anule entre a degeneres- tempo e no espaço. Este caminho é cor de rosa. deformadas pelo poeta. do seu drama íntimo. de formas aladas. trata-se antes de Por montes e por campinas formas de exprimir realidades exterio- res. mente morrer no mar. mirto e sempiterno louro. e até recentemente escravocrata. lirismo. É uma po- Nos areais e nas serras esia de intensa emoção. Treva deliciosa movimento. complexo de ‘poeta negro”’. a mãe e dois de seus Sai em busca de um mundo de quatro filhos. Cruz e Sousa é manto sem estrelas. uma necessida- em sua prosa: de superior de atingir. raste indiferente e obscuro pelo ritualizante e transcendentalista. A se violenta. com como um voo de pássaro errante.. por meio da sínte- se do mundo. Ele já marcha crescendo. Partin.) forte interiorização do mundo exterior Ó pobres! o vosso bando traduz-se na tendência plástica de ex- É tremendo. é formidando! primir a natureza por meio de símbolos dominantes. Em vez de “extroversão do O vosso bando tremendo . a uma tuberculo- compensação para suas insatisfações.. Treva que me disperse no caos. gerado pelo solva no vácuo. mas também o projeta. enlouquecida pela miséria. a caveira. Mortos o pai. cência dos sentimentos humanos. como um som desajuste com uma sociedade racista noturno e místico de floresta. arredado dos ho- mens e das coisas.104 THOTH 4/ abril de 1998 Atuação Parlamentar (. no jogo voca- (. verdadei. Cruz e Sousa ra válvula de escape de suas angústias e sucumbe.

aos 37 anos. conterrâneo do grande poeta. realiza. nada mais evidente dada mo livro publicado em vida: Evocações. para que sirva movimento simbolista universal – mas de exemplo da capacidade humana de dando visível preeminência a esse gê. em qualquer da medicina da época não conseguem tempo e lugar. pos clássicos. Seu impacto nos meios literários aprovado por esta Casa e pela Câmara portenhos foi tão grande a ponto de os dos Deputados. George. ria como o ilustre Senador Esperidião gentino. Amin. cuja premiação verem em Cruz e Sousa a fonte inspira. criando o Prêmio Cruz influentes Juan Más y Pi e Julio Noé e Sousa de Monografia. a continuidade do sofrimento humano. naturalizado ar. memória desse grande escritor. Calderón. Axé. seu últi.” de Cruz e Sousa no estrangeiro ficou O centenário de falecimento de demarcada pela conferência do poeta Cruz e Sousa ensejou minha parce- simbolista boliviano. Para outros críticos o sofrimento em matéria-prima das mais ainda. Já Roger Basti. acolhendo-a sonetos (1905). está prevista para o próximo mês de ju- dora de Leopoldo Lugones. desde os tem- lançado. além dos citados Pi e Noé. Não sem antes ter poetas viessem sofrendo. a poetisa Cecília Meirelles: “Que outros 19 de março de 1898. onde os parcos recursos maiores poetas do mundo. considerado nho. Dele diria a inspirada evitar-lhe o falecimento. Dois outros ainda sairiam. Espera-se com isso reverenciar a o maior poeta argentino. triunfar na adversidade e de transformar nio afro-brasileiro. naquele mesmo ano. como é o caso de Ventura Garcia sublimes realizações. João da Cruz e Sousa! Cruz e Sousa é simplesmente um dos . desse grande brasileiro. vendo neles a tríade suprema do desse grande homem. em edições Mas nenhum tivera esta linguagem des- post mortem: Faróis (1900) e Últimos lumbrada diante da dor. 1889. desse de o situa ao lado de Mallarmé e Stefan grande negro. como a um dom de fecundas promessas: A primeira repercussão da obra ‘Vê como a dor te transcendentaliza. Pronunciamentos Homenagem ao centenário de morte de João da Cruz e Sousa 105 neira de Sítio. Ricardo Jaimes Freyre. da no Ateneo de Buenos Aires ainda em na elaboração de projeto de resolução.

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São prantos negros de furnas caladas. fla- meja tanto. Porque o livro dele Faróis. porque é o cen- tenário de sua morte. os rotos são as flores dos esgotos. Oswaldo de Camargo* acrescentando ser um poema que é preciso . neste ano de 1998. Tentar descobrir por que Bro- quéis só poderia ser escrito por um negro sem mescla. (Fragmentos de Litania dos pobres) É preciso falar de João da Cruz e Sou- sa. os miseráveis. Mas. de tão belo. soturnas. Cruz e Sousa São os grandes visionários dos abismos tumultuários. Os 100 anos da Os miseráveis. poeta negro simbolista. por mais que se propale seu nome. Belíssimo. Por que Litania dos pobres é um dos seus mais perfeitos poemas. São espectros implacáveis os morte de João da rotos. opina Zahidé L. mudas. Muzart no estu- do Defesa e luta: a poesia de Cruz e Sousa. muito do que se fizer soará oco se não se realizar concomitantemente a leitura ou a releitura de seus livros.

in Defesa e luta: a poesia de partira três dias antes. Nem em Manuel Araripe Jr. se a ascensão da mulher de cor se . poeta negro ‘puro’ talentoso” (Zahidé tio. para onde L. Mas que peso teve. pois Ora.. como vá. para Não existem prenúncios de Cruz a mudança da direção da crítica. Muzart. decênio do século XIX. racial e individual. serão os Quatro estudos so- da Silva Alvarenga. hoje Estado de que se torna notório pelo talento (. que ele engendrou com tais leituras.). Um longo e estranho poema. Necessário citar também midável “absurdo” negro na literatura o crítico e amigo Nestor Vítor. Villiers. Edgar Allan Poc. Isso seria demonstrável O poeta deve sim. revolta. a intertextualidade desmitificando a vir- a um certo engajamento no social. lo Lemínski. A nostalgia do desse retornar no seu tempo. e muito. nascido na cidade de Nossa Se. “todo texto é absorção e transformação E que há interpretações que o ligam à de uma multiplicidade de outros textos. Verlaine. branco. cit. com a ajuda do método de re. desde o início. foi que. Explicamos: em 1943. Roger Bastide escreve: “A arte. por Zahidé L. poeta presente estudo. A crítica de Arari- É bom observarmos que Cruz e pe Jr. e morto a 19 de março. estudando-se a origem turas que fez de Shakespeare. tem sido sempre um meio de clas- por exemplo.. Cruz e Sousa). sitiavam sua vida. em todos os lugares e em todos os tem- cando-se da obra de Solano Trindade. Roger Bastide. dos artistas. sificação social. se deve a conversão de Sílvio Romero sobretudo no Rio de Janeiro do último em admirador do Poeta Negro. nem em Luis Gama. a obra do vate de Faróis me transcendentaliza! “ ganha variegada face. do a espessura da noite e da agonia que a obra de Cruz e Sousa? De Araripe Jr.110 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos ler e reler. pos. no dia 24 de novembro partir de Araripe cristaliza-se o tema do de 1861. prati- e Sousa na obra de afro-descendentes camente cristalizada nos conceitos de nos séculos anteriores. abrindo crítico contemporâneo do poeta. Estado de Minas Gerais. do professor francês Caldas Barbosa. gindade original de qualquer obra” (J. No primeiro deles. Um transbordamento negro. a quem brasileira.. é o primeiro e for. O que nos interessa é de Os simples. à preferência pelos miseráveis.. mas o que importa é o o Brasil e a ascensão do homem de cor.. que editou em 1983 o seu dentaliza!” Vale dizer: “Vê como a dor Cruz e Sousa. Muzart). “é presa ainda a teorias de caráter Sousa. a Pau- um clarão: “Vê como a dor te transcen. não é esse o objeto do do português Guerra Junqueiro. Sorokin. às lei. rios autores negros retomam hoje acer. nem em Teixeira e Sou. Baudelai. editados em São Paulo sa. Fundamentais. ele escreveu. A Santa Catarina. um traço estético que Cruz e Sousa pu. Tentar descobrir também como Kristeva. hoje Florianópolis. na sua miserabilidade e fitan. para a Europa. no entanto. em Sí. nem em Domingos bre Cruz e Souza. e Sousa o primeiro negro sem mescla capital da província.. salientando ser Cruz nhora do Desterro. Porém.

N OS S A EM 100 PRÊMIO CRUZ E SOUSA HOMENAGEM NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE 1898 .1998 CONCURSO DE MONOGRAFIA INFORMAÇÕES: TEL.: (61) 323-4340 PROMOVIDO PELO CONGRESSO NACIONAL .: (61) 311-4229 FAX.

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Os 100 anos da morte de João da Cruz e Sousa
Oswaldo de Camargo 113

faz pelo amor físico e pela utilização de mos e fé em si mesmo, no território es-
sua beleza exótica, a do homem ocorre, tético cujo dono era o escritor branco,
antes de tudo, em virtude de seus dons no geral filiado ao Parnasianismo, ou o
artísticos. É pela música, a escultura ou a afro-descendente embranquecido, como
poesia que ele se eleva na escala social.” Machado de Assis, Olavo Bilac, Alberto
A seguir, Roger Bastide tenta ex- de Oliveira ...
plicar qual seria o motivo de o maior Por muitos anos após a morte de
representante da escola simbolista no Cruz e Sousa, sobretudo saída da boca
Brasil ser um descendente de africanos, e da pena de escritores negros e mula-
“um filho de escravos, um negro que en- tos, vigia a expressão “torre de marfim”,
controu sempre pelo seu caminho, para dentro da qual se teria refugiado o gran-
detê-lo, o preconceito de cor”. Ora, se- de Poeta Negro.
gundo Bastide, “se há uma poesia essen- Fernando Goes, estudioso cruze-
cialmente nórdica, essa será exatamente sousiano atilado, foi um dos que mais
a poesia simbolista”; daí o paradoxo, fizeram percutir essa critica, sobretudo
que só se pode explicar pelo caráter com a divulgação de seu texto Cruz e
“classificador” do Simbolismo. Sousa ou o carrasco de si mesmo, intro-
Esse estudo e os seguintes, com dução à edição da poesia completa por
os títulos A poesia noturna de Cruz e ele organizada.
Sousa; Cruz e Sousa e Baudelaire (estu- Diz ele neste fragmento: “Bem
dos de literatura comparada) e O lugar sei que a poesia verdadeira, a poesia que
de Cruz e Sousa no movimento simbo- se preza, não tem momentos, nem hora.
lista, são, talvez até hoje, as análises É de todos os instantes, de sempre. Mas
cruzesousianas que mais repercutiram o que eu quero dizer é que Cruz e Sou-
sobre a visão já um tanto estereotipada sa não cantou em seus poemas, nenhum
focando o poeta de Broquéis. Merecem daqueles temas que fizeram de Castro
leitura e meditação atentas. Alves um poeta tão amado, o nosso po-
A vida de Cruz e Sousa, é sabido, eta social. Não cantou e, antes, conser-
foi miserável, pontilhada de humilha- vou-se sempre com um desprezo, um ar
ções extremas. Morrendo dez anos após distante nada simpático, longe daquilo
a Abolição, carregou a miserabilidade que de há muito tem feito não só a gló-
de escravo que, aliás, prosseguiu sendo ria dos conquistadores, mas a dos poetas
a condição da maioria dos “libertados” também – a luta.
em 13 de maio de 1888. A cor negra, Nesse sentido, vendo em Cruz e
após 1888, continuou sendo, no corpo, o Sousa um abstencionista, um legítimo
sinal que indicava, com rigor, o territó- habitante da torre de marfim, que punha
rio em que devia permanecer o homem a arte acima da humanidade, nesse sen-
escuro: o mesmo de antes da Abolição. tido é que o reaparecimento dele, nestes
Leve-se em conta que Cruz e Sousa de dias de tão trágicos sacrifícios [Nota:
fato se intrometeu, picado por entusias- Fernando Goes se refere aos dias tor-

114 THOTH 4/ abril de 1998
Depoimentos

mentosos da Segunda Guerra Mundial], Por outra face, se dessa “torre de
me inquieta por demais.” marfim” se pode ver a vida ou cingí-Ia
Correto? com muitos poemas de Broquéis, Faróis
ou Últimos sonetos, saiu transfigurada a
Afirmação difícil de ser rebatida
vida... Missão, também, e autêntica de
até a edição de Cruz e Sousa – obra com-
um verdadeiro poeta simbolista.
pleta, organizado em 1961 por Andrade
Muricy, aliás edição do centenário de O centenário da morte de Cruz e
nascimento do poeta. “Mas” – citamos Sousa é oportuna ocasião para se reava-
Benedito Antunes, no livro de nossa au- liar, hoje, com novos olhos e novo enfo-
toria O negro escrito – “nem Fernando que, a esplêndida obra do Poeta Negro,
Goes é tão culpado desse transvio, pois que morreu a 19 de março de 1898.
que sua opinião foi lançada antes da A coletânea de textos que a seguir
edição das poesias completas (Livraria publicamos pretende apenas levantar o
Aguilar), em 1961. E é lá que se encon- véu sobre a poesia de ação ou de obser-
tram, pela primeira vez, produções es- vação social de Cruz e Sousa. Quere-
senciais para a reinterpretação social de mos, com eles, apontar, de preferência,
Cruz e Sousa. Contrapondo-se a Empa- parte do ângulo racial e social do poeta
redado – um negro clamando entre mu- de Emparedado.
ros –, poemas como Escravocratas, Na
senzala, Grito de guerra, ou, em prosa,
Dor negra e Consciência tranquila,
cumes aceitos hoje na obra de Cruz e
Sousa e que desmentem, por serem an- * Oswaldo de Camargo é jornalista e escri-
tiescravidão, por sua participação no tor. Publicou entre outros livros, O negro
escrito – apontamentos sobre a presença do
processo social do seu tempo, a torre de
negro na literatura brasileira.
marfim atribuída a Cruz e Sousa.”

Os 100 anos da morte de João da Cruz e Sousa
Oswaldo de Camargo 115

Quatro Textos Engajados A canção de cristal dos grandes rios
de Cruz e Sousa sonorizando os florestais profundos,
a terra com seus cânticos sombrios,
o firmamento gerador de mundos.
ESCRAVOCRATAS
Tudo, como panóplia sempre cheia
(De Poesias completas) das espadas dos aços rutilantes,
eu quisera trazer preso à cadeia
Oh! trânsfugas do hem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo, de serenas estrofes triunfantes.
viveis sensualmente à luz dum privilégio na pose
bestial dum cágado tranquilo. Preso à cadeia das estrofes que amam,
que choram lágrimas de amor por tudo,
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas que, como estrelas, vagas se derramam
ardentes do olhar – formando uma vergasta
num sentimento doloroso e mudo.
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta Preso à cadeia das estrofes quentes

O basta gigantesco, imenso, extraordinário – como uma forja em labareda acesa,
da branca consciência – rútilo sacrário para cantar as épicas, frementes
no tímpano do ouvido – audaz me não soar. tragédias colossais da Natureza.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico, Para cantar a angústia das crianças!
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico, não das crianças de cor de oiro e rosa,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar! mas dessas que o vergel das esperanças
viram secar, na idade luminosa.

CRIANÇAS NEGRAS
Das crianças que vêm da negra noite,
Em cada verso um coração pulsando, dum leite de venenos e de treva,
sóis flamejando em cada verso, e a rima dentre os dantescos círculos do açoite,
cheia de pássaros azuis cantando, filhas malditas da desgraça de Eva.
desenrolada como um céu por cima,
E que ouvem pelos séculos afora
Trompas sonoras de tritões marinhos o carrilhão da morte que regela,
das ondas glaucas na amplidão sopradas
a ironia das aves rindo à aurora
e a rumorosa música dos ninhos
e a boca aberta em uivos da procela.
nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento Das crianças vergônteas dos escravos
galgando da hera a soberana rocha, desamparados, sobre o caos, à toa
no espaço o outro leão do sol sangrento e a cujo pranto de mil peitos bravos,
que como um cardo em fogo desabrocha. a harpa das emoções palpita e soa.

116 THOTH 4/ abril de 1998
Depoimentos

Ó bronze feito carne e nervos, dentro São espectros implacáveis
do peito, como em jaulas soberanas, os rotos, os miseráveis.
ó coração! és o supremo centro
das avalanches das paixões humanas. São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.
Como um clarim a gargalhadas vibras,
vibras também eternamente o pranto São os grandes visionários
e dentre o riso e o pranto te equilibras dos abismos tumultuários.
de forma tal, que a tudo dás encanto.
Às sombras das sombras mortas,
És tu que à piedade vens descendo.
cegos, a tatear nas portas.
Como quem desce do alto das estrelas
e a púrpura do amor vais estendendo Procurando o céu, aflitos
sobre as crianças para protegê-las. e varando o céu de gritos.

És tu que cresces como o oceano, e cresces Faróis à noite apagados
até encher a curva dos espaços
por ventos desesperados.
e que lá, coração, lá resplandeces
e todo te abres em maternos braços. Inúteis, cansados braços
pedindo amor aos espaços.
Te abres em largos braços protetores,
em braços de carinho que as amparam, Mãos inquietas, estendidas
a elas, crianças, tenebrosas flores, ao vão deserto das vidas.
tórridas urzes que petrificaram.
Figuras que o Santo Ofício
As pequeninas, tristes criaturas
condena a feroz suplício.
ei-las, caminham por desertos vagos,
sob o aguilhão de todas as torturas Arcas soltas ao nevoento
na sede atroz de todos os afagos. dilúvio do esquecimento.
Vai, coração! na imensa cordilheira
Perdidas na correnteza
da dor, florindo como um loiro fruto,
das culpas da natureza.
partindo toda a horrível gargalheira
da chorosa falange cor do luto. Ó pobres! Soluços feitos
As crianças negras, vermes da matéria, dos pecados imperfeitos!
colhidas no suplício à estranha rede,
Arrancadas amarguras
arranca-as do presídio da miséria
do fundo das sepulturas.
e com teu sangue mata-lhes a sede!
Imagens dos deletérios,
LITANIA DOS POBRES imponderáveis mistérios.

Os miseráveis, os rotos Bandeiras rotas,
são as flores dos esgotos. sem nome das barricadas da fome.

d’indolências a caravana das ânsias. reverdecem como palmas.. E de tal forma no imenso Balanceadas no letargo mundo ele se torna denso. Atravessa já os mares. que em vós parece. Os 100 anos da morte de João da Cruz e Sousa Oswaldo de Camargo 117 Bandeiras estraçalhadas E de tal forma se arrasta das sangrentas barricadas. de morna melancolia! Como torres formidandas Que essas flageladas almas de torturas miserandas. com o seu soluçar profundo. Ó Pobres de ocultas chagas o vosso bando tremendo . Que já livres de martírios das Esferas na cegueira.. Perde-se além na poeira. a subir.. Parece que em vós há sonho por montes e por campinas. Que as vossas almas trevosas com aspectos singulares. Ó pobres! o vosso bando E de tal forma já cresce é tremendo. e o vosso bando é risonho. dos sopros que vêm do largo . é formidando! o bando. trazem raros amavios. Como avalanches terríveis Que os vossos olhos sombrios enchendo plagas incríveis... por toda a região mais vasta. lá das mais longínquas pragas! Ele marcha por colinas. de um vinho prelibam todo o carinho . Cerradas legiões estranhas Que as vossas bocas. vêm cheias de odor das rosas. sibilinos E de tal forma um encanto da caverna dos Destinos! secreto vos veste tanto.. e graças e quintessências. Ele já marcha crescendo. . vêm festonadas de lírios. Vai enchendo o estranho mundo Vêm nimbadas de magia. descer montanhas. Fantasmas vãos. Nos areais e nas serras Que através das rotas vestes em hostes como as de guerras. Perde-se além nas distâncias De torpores. trazeis delícias celestes.

em requintes. –Tu és de Cam. espécies exóticas de altas e desoladamente cismando através curiosas girafas verdes e spleenéticas de de ruínas. em espi- Que vestes a pompa ardente ritualidades.. orientalismos. na bruma crepuscular de certas me. maldito. nhos! Como se tu fosses das raças Que por entre os estertores de ouro e da aurora. que parece vir do fundo da ima- Que como em águas de lagos ginação ou do fundo mucilaginoso do bóiam nelas cisnes vagos . Artista! Pode lá isso ser se tu és regrinos caminhos da Via Láctea. teci- do por tecido.118 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Radiantes d‘ilusionismos. peregrina e algum maravilhoso e babilônico jardim fidalga fantasia dos medievos. junto às fora do círculo sistemático das fórmulas priscas margens venerandas do preestabelecidas. a lenda colorida e bizarra por ha- veres adormecido e sonhado. se viesses dos sois uns belos sonhadores. em so- do velho Sonho dolente. mar ou dos mistérios da noite – talvez Que essas cabeças errantes acordes da grande lira noturna do infer- trazem louros verdejantes. deixei-me pairar. tórrida e bárbara. gelados e pe. das perfeições oficiais (fragmento de Evocações) dos meios convencionalmen- te ilustres! Como se viesses do Eu não pertenço à velha árvore Oriente. arrastada san- quebreiras de vagos torpores enervan. anatemizado! Falas em e o vosso bando é de eleitos. lutulentos. opulências. abstrações. depurado por todas as ci- vilizações. nas moles ando de matas bravias. murmurar-me: de alguma esperança viva. Que trazeis magos aspeitos réprobo. em formas. insaciavelmente pelo deserto. devorada E é por isso que eu ouço. de certos poentes agonizantes. rei!. célula por célula. de sentimentos – direito. torvamente amamentada com o lancolias.. ou a iriada. dos produtos anêmicos dos meios magna de ficar perdido em Tebas.. ou tivesses a aventura das. perfeito. d’África.. sob Num impulso sonâmbulo para o ritmo claro dos Astros. ignota. dentre genealógica das intelectualidades medi. cristalizado o teu EMPAREDADO ser num verdadeiro cadinho de ideias. ou de lendas. tumultu- mecimento de certas horas. em Mar Vermelho! espiritual essência. em brilhos intangí- veis.. uma voz segredos. no ador. no e das harpas remotas de velhos céus E a languidez fugitiva esquecidos. ticas. em galeras. grando no lodo das civilizações despó- tes.. na contemplatividade mental leite amargo e venenoso da angústia! A . arianos. através dos nevados.

de curiosos fenômenos de do. sombras mArcadas – visão valpurgia- fecundada no sol e na noite errantemen. que para gemidos. muna pa- a peste letal e tenebrosa das maldições rede horrendamente incomensurável de eternas. gênese assombrosa de sobre pedra. adiante de ti não sei quantas gerações dessa flagelada África grotesca e tris. de lágrima e sangue. lá isso ser se tu vens dessa longínqua re. enfim. bramando no caos feroz. na de terríveis e convulsos soluços no- te tempestuosa como a alma espiritua. mais mento humano. gemendo. Se caminhares para a frente. inviolada no para a esquerda. outra parede de ciências sentimento. despedaçadas agonias degredo e na neve – polo branco e polo da sua alma renegada. gerada no com as seculares. Os 100 anos da morte de João da Cruz e Sousa Oswaldo de Camargo 119 África arrebatada nos ciclones torveli. de terror absoluto.. cios. mais pedras.. soluçadas. alma de trevas e de chamas.. bebidas nos E. gemente. porque atrás de ti e rosa e sanguinolenta de satãs rebelados. foram acumulando. Não! Não! Não! Não transporás gião desolada. hórrido. mais pedras . mais pedras se so- infernos e nos céus profundos do senti. choradas. fechando tudo. para as largas – horrível! – parede de imbecilidade e e fantásticas inspirações convulsas de ignorância. egoísmos e preconceitos! Se caminhares A África virgem. esquisita originalidade. pedra sobre pedra. de espasmos de das profundas selvas brutas. a sua for. Dessa África que parece gerada para trás. uma derradeira para os divinos cinzéis das colossais e parede. instintivas. aflito. cação do Mundo. de granito broncamente se majestoso Dante negro! elevará ao alto! Se caminhares. Dessa África cheia de solidões nhantes das impiedades supremas.. pedras destas . pedras. feita de despeitos e impotências. acumulando pedra te. das maravilhosas. te da com argilas funestas e secretas para mergulhará profundamente no espanto! fundir a epopeia suprema da dor do fu. tetricamente fulminada pelo aí estás agora o verdadeiro emparedado banzo mortal. uma auréola si- negro da dor! nistra. turnos circulando na Terra e formando. sobre cuja cabeça nirvanizada pelo Se caminhares para a direita bate- desprezo do mundo Deus arrojou toda rás e esbarrarás ansioso. tercetos tremendos de algum novo e tremenda. melancólica. gigantescamente medonha. desespero. te deixará num frio espasmo Doré – inspirações inflamadas. ah! Ainda. e críticas. avalanche humana amassa. dessa África dos suplí. lá do fundo exótico dessa os pórticos milenários da vasta edifi- África sugestiva. toda em tor- Artista?! Loucura! Loucura! Pode no da Terra . bas. criação dolo. fechando tudo prodigiosas esculturas. lizada e tantálica da Rússia. rugin. sober. de uma raça. para fecundar talvez os grandes parede. midável dilaceração humana! A África absurdamente ululante – pesadelo de laocoôntica. mais alta do que a primeira. breporão ás pedras já acumuladas. de virgindades animais blasfêmias absolutas... ainda nova turo.

.120 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos odiosas.. mais perdidamente alucinado e emparedado pedras! E as estranhas paredes hão de dentro do teu sonho . subir. caricatas e fatigantes civiliza. subir. silenciosas.. até às estrelas.. Mais pedras. deixando-te para sempre ções e sociedades . mudas. subir. .

local de fortes agitações populares. A angústia era imensa pelos corredores da veneranda Fa- culdade Nacional de Direito da Rua Mon- corvo Filho. quando Nilo Peçanha sucedeu. no Governo de Wenceslau Brás. se pretendia a intervenção federal no Estado do Rio. no Ironides Rodrigues Estado fluminense. pois foi nesse instante de imensa agitação emocional e de tan- tos trabalhos no Ministério que consegui completar o meu curso jurídico. ninguém sabia se estava promovi- do em todas as disciplinas. os Governos de Al- berto Torres e Quintino Bocaiúva. na época em que. desse modo. onde outrora funcionou o Senado Federal. da Rua do Areal. A formatura caiu numa segunda- -feira e até sexta-feira nenhum aluno ti- nha as notas completas da prova. Guardo uma recordação não tanto Diário de um negro amarga do ano de 1974. Foi um momento de grandes espe- atuante 1974 – 5 ranças para mim. . a 9 de de- zembro de 1974.

talentoso e que ciá-los. quando não participava ati- uma “Aleluia” ressecante de ritmo ono. com sua face de na este curso. um professor bacana de Direito de cinco mil volumes. a zombar dos velhos tempos da Nacional. apodrecendo. de Direito. repre- matopéico de Hãndel. minam nos confins do universo. sar por estudante crônico. pe. o primeiro a me aparecer neste aparta- dos. daqui por diante. as sombras dos mortos proporcionam De vez em quando uma voz dis. dor às floradas dos cemitérios desconhe- las galerias. na voz eloquente e musical do Dr. poeta do trem da so enlevo de moços deslumbrados ante a Leopoldina. es. povoado Barroso. principalmente numa guela e de sorriso irônico e escarninho. com o coral já entoan. que estão debaixo da terra do melodias na boca de cena do majes. Solano. Não se sabia iria repeti-los com aquela emoção que do tempo em que Hugo Leite estudara. hein. em que militavam na política estudantil Numa ária de Bach. matéria árdua como essa. com os vamos o nosso destino com apreensão. Jerusa era da Escola Nacional mais lírico e sentido de Villa Lobos ou de Música. nos é o primeiro a aparecer. Solano Trindade. tante de fotógrafo vinha nos tirar de nos. os nomes de Hugo Leite foi um estudante da colegas meus que jamais ouvi pronun. como o Hugo portivo e com tanta ternura na alma. Escola de Belas-Artes. procurava com os olhos. maroto? Quer pas- galã do cinema mexicano. de Bento Ribeiro. bom e benevolente para com de música antiga. dez anos que passei longe da vetusta tro Rebelo foi um mestre carrancudo e faculdade: “Quando é que você termi- temido. o Dr. um por um. entre cortinas e cenários no mais belo te. que tem gente com fome. havia em todo o sentando. passo a num burburinho ensurdecedor de vespas evocar um por um naquele espanto que assustadas num bosque longínquo. nos fica após citarmos as pessoas que Ele e Jerusa Camões já perdiam o tempo foram tudo em nossas vidas.122 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos O clima era de expectativa no to de inefável expectativa quando olhá- Teatro Municipal naquela noite. Cas. até Leite?”. Enquanto se aguardava o me incentivaram a terminar meu curso culto ecumênico. a não ser de uns 15. imortalizou Bernard Shaw. no máximo. escrevia peças de teatro do gênero que que eu conhecia e que. de teor humorístico e popular como . para darem maior esplen- toso teatro. olhando os trens que e não conseguia divisá-lo naquela mole correm e passam pelas estações que cul- compacta de gente gesticulando. quadros e discos Comercial. onde cidos. a falar. mento silencioso da Rua Picuí. balcões e camarotes. vamente do Teatro Universitário. ban- os seus alunos. alegre. magro. O Dr. Aqui no meu subúrbio distante se assentara o meu estremecido bororó. formandos todos de beca. peças ambiente festivo do Municipal um háli. estava a citar. circulando por medo ou certo otimismo juvenil. aos olhos abertos dos vivos apavorados. Lembrava-me daqueles que tanto atro brasileiro. é enunciação dos nomes dos bacharelan. da qual. um canto da UNE. Barroso. no antigo Teatro Fênix.

Ficava na esquina da de muletas. Pouco falando. na Rua Bento Lisboa. a mancar como um rema- Rua Buarque de Macedo com a Praia do nescente aleijado de guerra. confiado. de um pároco de aldeia. em Gonzaga ou Pamplona. A cília Meirelles. traçando rumos maravilhosos pal. sua voz parecia vir de longe. no salão nobre um velho já estropiado. me esquecer da Jerusa que patrocinava Hugo Leite. de William Shakespeare. no Munici. a mão cheia que embeleza a cidade cario. e não voltam. que. vem de sapatilha dançava balé clássico. Wanda Lacerda? Lembro-me da noite. com pelos carnavais. todos os dias eu ia dar católico de minha paixão. em que apareceu pela primei. já uma minha paixão e de quem fui amigo mui- jovem bonita dava aulas particulares de tos anos. Para receber tão tribo extinta do interior goiano. que escreve- minhas aulas de ginásio ou vestibular ra dois livros de meu perpétuo encan- de Direito para Walter. O Mano Rebelo e Hélio de Almeida. va descansando. Jorge de Lima. miraculosa Havia uma casa de fachada aus. ainda não esperando ra vez em cena teatral essa imensa atriz ser o grande engenheiro dos nossos dias. Genival montada no Teatro Ginástico. tipo popular saído da Pra- as Festas da Juventude. Sabia que aquela ao som de uma romanza de Schwnan ou moléstia que o prostrou ali. uma jo- amigo na Casa de Saúde São Sebastião. hoje um cenógrafo de sombra do que fora. para mim. tava todos os dias. com as direções exí- artista e líder estudantil. piano para uma garota loura e de laço de Não tive coragem de visitar meu fita na cabeça. meses. quando ca. ornamentando suas ruas e avenidas no Teatro Municipal. distante . Quando ilustre visitante. Quebranto. Em outra sala. uma Ce- a moça do piano era Wanda Lacerda. que ali es- de Minas. meu amigo para as regiões dos que vão cos de dança é a atual esposa de Fer. sua garra de artista nata. nessa época. Junto dele. se move no salão nobre da ou fazendo a ama simpática no Romeu e UNE com a desenvoltura de um en- Julieta. e agora esvaecente mocinha que lançava suas espreitava a hora oportuna para carregar pirouettes desfouetés em passos mági. participava. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 123 WeekEnd de Noel Coward ou. romântica de Coelho Neto. com a peça. Ali. Soube que ele estava uma nando Pamplona. Já havia Foi depois que vim a saber que dizimado um Afrânio Peixoto. A UNE. estava outro escritor de alguém abria a porta para mim. mineiro uberlan- tamento: Sob o sol de Satã e Diário de dense de olhar penetrante de índio. um Villa Lobos. magro e de olhar des- a Revolução de Minas. de Castro Alves. em que Bagdócimo recebeu tera em que a pintura envelhecida esta. ça Onze. era uma efervescência cul- ou quando se iniciou a sua carreira de tural muito grande. não poupava ninguém. Como diabrado saci cosmopolita. por tantos Weber. nos fez ver uma deliciosa comédia para os seus irmãos estudantes. Tratava-se de George Bernanos. mias de Ernesto Bagdócimo. grande escritor Flamengo.

abriu caminhos imaculadas. feu. vra: Calunga. foi a personalidade do poeta de “Essa nega carregando. dade e ternura. A morte. sem me consultar. Com aquela bondade tassiano. alavam pelo espaço infini. ainda muito forte e disposto. ção de Orfeu. Ali me ciclópico. Van Jafa retrucou o to. Mulher obscura. o pintor dos banguês. assim como seus um ar de Rafundranath Tagore indígena. Tasso. O anjo. aedo de Regresso à origem. Nas paredes do consul. quadros em que anjos esvoaçam da Silveira já havia falado sobre o estilo no espaço. de algum modo. atenden. com sua sem-cerimônia recebeu-me com alegria. gênios criadores de que foram dotados: lhos d’alma à apreciação de um escritor Santa Rosa. com seu aspecto de que- simpáticas. tocando rabecas e violinos. a gente pobre em seu con. Ali. baro e um tanto barroco. solícito. alma puríssima inconcebível de um homem que tinha o sem pecado. tem que pela primeira vez fui apresen. Guerra dentro do embora a cabeleira branca que lhe dava beco. pelos submeter os nossos mais íntimos refo. Silêncio. de Anísio Rocha. a discutir comigo sobre tempo e as horas mArcados. sem me era. o poeta Tasso tório. que lhe despontava em todos os gestos. na pressa cados. Perto de Van Jafa. mais ser celeste que ha- sidia a Câmara de Vereadores da cidade bitante desta terra de tantos crimes e pe- e andava sempre atarefado. Se não me engano. sobre nho de onde eu possa encontrá-los. embranquecidas. esse achar muitos claros a mensagem e o grande poeta e romancista alagoano espírito poético de A invenção de Or- ofertou-me os grandes livros de sua la. ele pre. à poesia brasileira. pondo à von. Lembro-me de quando eu e o Van figurada. Foi ali que eu. ele gostou do artigo e poviléu anônimo das ruas ignoradas. Farias de Brito num restaurante popular . gongórico de Jorge de Lima nesse poe- Mulheres níveas. dizendo zem. com aquele medo de que ainda podiam dar muito de si. em alguns versos. dos experimentado e já consagrado. em levar meus melhores amigos pela tade o rapaz acanhado e triste que eu calada das sombras imprecisas. no céu.124 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos como um eco inconcebível ou voz des. Parece que foi on. um dia. fui buscar uma foto sua para ilustrar um tado a Jorge de Lima por Anísio Rocha. artigo meu sobre um grande romance deputado goiano. rubim seráfico. aqueles Fulô” e lhe levara. mal roçando as nuvens que se desfa. me incentivou com palavras calorosas e Jorge de Lima. em que. a beleza de muitos trechos desse poema sultório da Cinelândia carioca. Quantos anos eu lhe segui a Jafa trocávamos ideias sobre A inven- trajetória de médico bondoso. seus aspectos sibilinos e do. livros de poemas como Miracelli ou A era chefe de um escritório comercial da invenção de Orfeu. seu vocábulos mal lhe exprimem o tom bár- indefectível sorriso pleno de humani. Tasso da Silveira. com vestes brancas e ma que. Para negros líricos do Nordeste e de todo o minha surpresa. os recebera com seu avental branco. Havia rabiscado umas tantas frases deixar ao menos um vestígio ou cami- em O combate. Cruzeiro do Sul.

to muito vistoso.” com seu chapéu-coco. assumia o ar circunspecto de ho. o poeta de “Banzo”. com terno pre. cem. Quando eu orga- vilhoso. o terno impecá. desfilando pelas adjacências os minutos do atraso de Murilo Araújo. “Desculpe o meu atraso. tomando a postura digna no. chegou diálogos musicais e requintados. Que emoções sutis perpassam nizei uma festa em homenagem a Muri- por essas sonoridades diferentes. feita im. sentindo o pulsar do seu coração sofri- tento insensato. Sempre atrasado. Como ficar indiferente às modula- de um barão do Império. é que pode imaginar a emoção do ar- Araújo. Quando ia demover o Adelino desse in. sempre de de uns 40 anos passados. fiel à literatura popular um tanto apreensivo de iniciar as sole. da Joaquim Silva. Adelino. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 125 da Rua São José. vamente. mais outro prego” e “Íris”. pondo a gente à vontade a contar lise literária como Tristão de Athayde casos pitorescos e engraçados. como das outras vezes. que Tristão e outros críticos desconhe- nidades sem a figura do homenageado. contava as horas e e mulatas. com seus gi- relógio em punho. nos escritores do povo. Só o que vive no meio do povo. O jei. com a ressonância e beleza que cravo escandalosamente escarlate na la. . Adelino emprega o linguajar ma- to é começar a sessão sem ele”. de um bolso da calça de quina. na Avenida Getúlio Vargas. sempre do: “Demorasse mais e nós começaría- a olhar o antigo relógio que ele tirava mos a cerimônia sem você”. suas hetaíras negras ído pelo mal-estar. É que o tráfego das ruas não está fácil. numa mistura de obsce- estava impaciente. com aqueles rodeado pelas lombadas encadernadas monólogos dilacerantes dos persona- de livros familiares e pelo silêncio inde- gens que intercalam ou interrompem os vassável que vinha dos belos aposentos longos devaneios desse intimista mara- de sua casa tão bonita. por vezes. nidade e pecado. a Lapa turbilhante Adelino Magalhães. eis que chega o Murilo do. Assen. o poviléu toma ao penetrar. de lo Araújo. intempesti- pela do paletó. todo apressado. É ver- atrasado à recepção que estava mArcada para a antiga sede do Serviço Nacional dade que Adelino. sutileza psicológica como a de Adeli- mem à antiga. com o rosto severo e contraria- vel de cor cinza e vistoso colete. da Rua Taylor e Beco A assistência que lotava o auditório já das Carmelitas. Até um luminar lúcido da aná- vivaz. aborrecido. Não sei por que a incompreen- pecavelmente. Adelino Magalhães. com o rosto contra- golôs ostensivos. poluindo de luxúria o falou categórico como o homem correto ar poético da noite pojada de mistérios que presidia a sessão: “O Murilo mais e lendas. O olhar mortiço e parado são da crítica em face de Adelino Ma- contrastava com a sua conversa alegre e galhães. Era a mesma ções rítmicas dos “Violões”. “Um prego coisa em seu casarão de Santa Teresa. mostrou-se obtuso a uma obra de tanta tado. uma vez não chega na hora. modelo de sua obra-prima O suicídio da engole homem. Fiquei landro da Lapa. toma para de Teatro. Adelino. de chapéu cinza e um na turba. tista retratando os tipos que viu e amou.

o gigolô. Avenida Central”. o coronel que sustenta as diálogo inexistente entre a grande ar- hetaíras caras. O ladrão. A virgem da macumba e Made. numa pro. salvou-se a ligiosos e a vida dos boêmios noturnos Praça Onze dos sambas-canções arden- do Rio antigo em A alma encantadora tes de malícia e encantamento. com va de amor fiel aos tipos populares que o apito na boca. onde os seus irmãos negros vão abaixo para abrir a Avenida Presidente disputar a beleza do ritmo e coreografia Vargas. corre de um bizarros só vamos nos dar conta per. em sua apatia secular. -dia. lembrando um o estudante. não podia pagar a pensão e a hospedaria. majestosa. Uma voz de preto lustroso. das ruas e religiões do Rio. os bondes tardos e lerdos percorrendo O negro. grita para o universo deambulavam pela cidade no início do umedecido: “Não acabaram com a Pra- século. ça Onze. restam ruínas e montes de pedra e cal. espera trilhos encravados no asfalto das ruas um líder para sacudir-lhe o jugo incô- silenciosas do centro e do subúrbio. e inconcebível modernismo. vencer. o leão cantou para o universo atento o “Bom- de chácara. retratando os cafés. A moiselle Cinema). que. ia dormir nos barcos que ficavam guar- . não!” Na voz desse Laurindo O Rio dos anos 40. oportunidade de moleques de rua com vaias e assuadas. lustrando as obras de forte conteúdo de Derrubam casas velhas e seus es- plebe de um Marques Rebelo (Marafa). madrugadas cinzentas da Cidade Luz. a negra Perua açulada pelos que era seu: liberdade. que perdeu tudo o e lustrosa. todos têm o seu lingua.126 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Veja-se a delicadeza e poesia Todo o casario envelhecido dos lados da com que MacOrlan fala dos pintores Central do Brasil foi derrubado para dar de Montmartre. o Dr. De todo esse vultos dos bulevares numa linguagem terremoto inconsequente de destruição artística. Jaca. Foi quando o Trio de Ouro. modo de uma escravidão velada. naquela fauna noturna mais espaço para futuras construções de apaches e grisettes que dominam as modernas. João do Rio imortalizou os iconoclástica indiferença. Laurindo reponta todo o lamento de randá com sua indefectível casaca negra uma raça espoliada. no protesto do irmão os confetes. Rio que começava a se tornar grande Quando o dinheiro acabava e eu metrópole com a construção desorde. que eu peguei. o gari. iniciativa e até o amor de viver. as serpentinas. de suas escolas. de uma Havia mais humanidade nesse aparente democracia. a prostituta. centros re. ponto a outro do mar. Antônio Fraga (De. Mistérios ra nos transeuntes. o motorista de táxi. pela voz de ouro de Dalva de Oliveira. tudo a picareta do tempo dissolve em sua sabrigo) etc. Ainda havia o corso na avenida. nada de tantos edifícios e arranha-céus. combros levantam uma nuvem de poei- Benjamin Constallat (Gurya. téria que se construía e a Avenida Rio jar característico de cujos neologismos Branco. que desceu do morro até este recanto da ainda continha o casario antigo que veio cidade. Do casario vetusto só do Rio.

não abraçarmos nunca as causas de con- deve ser um homem inteligente que está teúdo suspeito e antinacionalistas. barito dos professores. estabelecimento renoma- no bonde até o ponto final. Vai thoven.” descansar de suas peripécias diurnas. me dia a Teresinha. ponente edifício da Sears. não vai fazer nado. que ficava ali onde se ergue hoje o im- duções dos vocábulos bossu e lointain. longínquo. Depois é o bém”. certa hora. respondeu que não matura vão e vêm pelo palco imenso da sabia. mais esses serviços de gente inculta. amos o ímpeto rebelde dessas palavras . uma senhora de Minas. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 127 dados sob uma espécie de marquises do até que ano você estudou?” “Fiz todo o Pavilhão Mourisco. lhores famílias da cidade. com seu piano desafi. longe. curso ginasial em Uberlândia. que tocava um prelúdio Enquanto os meus colegas de for- qualquer ao piano. zam. Vim ao vassados da polícia que os malandros ou Rio fazer o meu vestibular para ingres- gatunos de Botafogo procuravam para sar na Faculdade Nacional de Direito. uma arranjo outros alunos com gente de mi- enorme escada em caracol que ia da sala nha convivência. Depois disse. Ironides. ral de todos os artistas livres e altivos. dos quadros e das cias e de um lirismo de garoto sonhador.” Assim. Dr. o jeito era dormir Universitário. Um ga de infância. lointain é distante. discurso do orador. no ensino esme- O sobrado amarelo de Dona rado e na afluência dos alunos das me- Guiomar. Dona Guiomar. um rapaz tão competente. Oswaldo Godoy. filha de Dona Guiomar. dando-me o dinheiro necessá- preparava uma tradução de francês e. ainda há o ar benevolente daquelas matronas an. da ci. “Já que você é dade de Oliveira. tocando Sonata ao luar de Bee. “Onde vai você fazer esses prepara- Quando a chuva caía inclemente sobre tórios?” Respondi-lhe que no Colégio a cidade indiferente.” que atacou os regimes fortes que tiram Teresinha olhou pra mim admirada: “É a liberdade de ação e a iniciativa cultu- isso mesmo. pouco. de sermos fiéis à liberdade e de tigas. além dos quartos. Os rapazes para comer e dormir e levar uma vida me olhavam com indiferença. socorreu. Vou ver se lhe onde eu limpava. ouví- escondendo seu jogo para mim. em tom humorado: formatura com suas becas negras. perguntou-me: “Você. Bossu se traduz por corcunda e contrastando com a oração do paraninfo. talvez por menos agitada do que na época em que causa de meu olhar humilde e do servi. com Nós que fizemos o juramento. quando não do que ficava na Praia Vermelha e que tinha que disputar a minha canoa-leito competia com o Colégio Pedro II no ga- com algum marginal mal-encarado. a rio para me hospedar no Hotel Avenida. junto à mesa do centro. Era aí uma pensão de estudantes dar aulas pra Teresinha. vou “Creio que não é preciso perguntar ao olhando professores e alunos que se cru- Ironides. Há uma gravura de um cor. meu dinheiro acabou e meu dileto cole- ço um tanto humilhante que fazia. respondi a ti. perguntou à mãe quais as tra. Afinal. cheio de redundân- rar a poeira da mesa. portas. Eram locais inde. que ele não deve saber tam. pude ter lugar de visita até o andar de cima. “Claro que sei!”. Dona Guiomar. cunda na página”.

com os contornos definidos de seda branco. daquele mistério que lhe aureola a fama mentada. A carne e o diabo. lá no Fiezole e pela Via e magoado que pensei de algum anjo del Vechio. de mulher a que tanto aspiramos e que sumiu. vi aquela múltiplas aparições e de clássica beleza mulher que entrou com longo vestido aparecerão. esse rosto de risiense onde penetrei um dia. em suas viagens e cru- e o rosto transmitindo angústia. emocional pela perda de seu mecenas. serão deusas Juno e Minerva. numa altivez e desdém próprios das ram qual Duse e Sarah Bernhardt. Ela a de sempre. magnéticos. tra. caiu distraído. Maurice Stiller. É verdade que curti a que tanto a venera. me rosto compenetrado de angústia e apre- chamando. a longa cabeleira no ombro Carrega. Le Jardin Hotel. para não ser reconhecida pelo mundo nosa e longínqua. Matta Hari. Greta e assentou-se naquela mesa do centro. titucionais. então. tocando-me. ção. negros. . Naquele café do subúrbio pa- nio da arte de representar. Esses braços. sem igual e incomparável. com o Não ouvi sua voz. de olhos perdido que. Falou-me num tom tão baixo por Florença. pura. de alguma estrela bem lumi. Roman- esvanescente. em que você dava Ela passou hierática e indiferente dentro toda a sua alma de artista jovem e ator. boca de ar sensual e. L’apres midi d’un faune. medo. zeiros internacionais a sua insegurança ternura e mistério que você contempla. do me queres. Folheava o álbum alheada. Talvez oculte uma dor za um dia vai perecer. esse gê. de fascínio e mistério. Essa voz de tanto tão grande que quer que a mesma seja dulçor cristalino vai emudecer. de fulgura- gada num regime de tantos atos incons. Celene. Plus que lente. Grande sua sala antiga. com o rosto sempre coberto a dormir. na sua verda- para as próprias pugnas da democracia deira feição de mito e lenda. de arte rutilante e sem par”. escuros. Um dia (que tristeza haverá pelo listas e se ocultando sob umas roupas universo inteiro) toda essa enciclopédia masculinas estranhas e colocando seus de arte e beleza. va a dizer: “E pensar que toda essa bele. que se move. por vezes. ao piano de ce. cinto prateado e luzidio de maior artista do seu século. Ana Christie e Inspiração? meu amado Debussy. talvez das altas profundezas ensão: “Quantas vezes cruzei com ela estelares.128 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos ardentes que nos chamavam a atenção Garbo aparecerá. Agora avalio como pude que tanto nos deslumbrou em A dama suportar a falta de sua figura diáfana e das camélias. Rainha Cristina. O beijo. Mas curidade gritante de uns longos óculos tenho certeza de que esse nome. Como não conhecer sua ausência em Florença por uns bons sua efígie de feições do grego clássico quatro anos. pela terra. Ninotchka ou Como sur la pluie. Em Paris foi o destruídos implacavelmente pelo tempo mesmo enigma dela fugindo dos jorna- voraz. ao cochilar. comida desconhecida pelo resto dos mortais. olhos de cílios incomparáveis sob a obs- será um eco longínquo e passado. Depois ficávamos olhando o de mulher bizarra e indiferente às adula- álbum de uma artista estranha de olhos ções e aplausos do mundo.

de Tchaiko. sua riquíssima indu- do vi a estranha mulher e seus compa. Intro- essa mulher de branco que saiu daqui duziu o palco no circo. Cha. à trai- . cantava os seus interessantes lundus. nome minha memória falha me escon. Seu cia irreparável. olhando o espetáculo deu polpudas gorjetas. bela peça de nome da maior e mais bela atriz do seu sua autoria. A florista O Circo Dudu ficava ali pela Fi- murmurou. numa ignorân. Fiquei embas. a graça eterna. opereta de Franz de de quem seja?” “Que é isto. Leopoldina. parecendo esperar pela entra. de pé. indefectível pinho. insuperável Greta Garbo?” cendo não ver ninguém. tomou a vodca de longo mastro. fez Os pescadores. cos que percorriam a cidade com seus da dessa estranha mulher. como Viúva alegre. mas cujo tas. que meus cantamento. mãe. o cavalo e lhe comprou todas as violetas. Com seu beleza. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 129 junto de dois rapazes circunspectos. garota Lehar. do- nas um coração solitário. e levou muitas revis- conhecido em algum lugar. O ceguinho murmurou. rosto negro alvaiadado de branco. tocou o Ape. comédias e burletas pelo picadeiro. Um ou outro garoto mais era familiar. madores. as panto- olhos não possam enxergá-la!” O que mimas e a arte inexcedível do riso do não daria para apreciar tão decantada palhaço Benjamin de Oliveira. pescador que assistia. curioso de que só tínhamos notícia pelo bacada. É a mulher mais bela do mundo”. nos chamados há pouco e que tenho certeza de haver circos-pavilhões. quan. pare. a desconhecer a eterna e olhar passou pelos frequentadores. em que fazia o endiabrado Ne- néscia e infeliz? Como ousa ignorar o gus. perguntei à florista que olhava o fiacre maxixes e chulas. disfarçadamente. bancadas cheias de crianças. Ela ficou uns instantes ouvindo a toldo de lona esburacado cobrindo o música e. multidões de seres em busca de sonho. e dava muita alegria se dirigir para a rua dos álamos ama. trapezistas e engole-fogo. seu E eu. buindo-as aos circunstantes. em que interpretava o velho século? Como se atreve. como numa prece religiosa: gueira de Melo. para dentro de procurando. seguidas mou. distri. sorti1égios de ecuyères. Benjamin nheiros apanharem o fiacre próximo. em seguida. cuja efígie me um dobrado. sôfregas de emoções e en- si mesmo: “Que pena. Ela chegou penetrava no palácio mágico das ilusões perto da florista que trazia um ceguinho da amazona cavalgando. os garçons e lhes de suas famílias. palhaços. branco que corria pelo picadeiro. mentária de clown original. o wsky. caindo no outono: “Quem é em mais de 60 anos de picadeiro. mais intrigada ainda. mas cujas feições agora não afoito passava “por debaixo do pano” e me era possível identificar. silencioso. Não descobrira clangor humorista da charanga tocando quem era aquela mulher. a seu público proletário que o idolatrou relentos. na região bem pobre da “O que tem de boa tem também de be. Todos os dias ali afluíam leza. sem me mover. De fora se viam as arqui- um cálice que estava sobre a mesa. Foi quando a Minha antiga paixão pelos cir- orquestra.

por mais de 60 anos de triunfos. A própria za e juventude irrequieta. Polidoro. Benjamin era insuperável Circo Spinelli. com seu vozeirão seresteiro. O interessante é que esse homem arense e Anac1eto de Medeiros. que gozou de crédi- na plateia gritou depois do lance: to imenso na época de Benjamin e que – Você não é mais homem para pegou a evolução do circo brasileiro de estas proezas.130 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos ção que a mulher de um pescador fazia ticipou. um homem exigente como Catulo. que eu conheci já enve. Benja- bonita com quem morava numa casinha min vai ouvindo um moço preto a ler- -lhe as piadas e graçolas escritas num simples e ensolarada de Vigário Geral. Benjamin vi- mais o alvaiade do rosto para melhor via com Rosalina. nos seus 70 anos e ainda titudes diferentes. com êxito. Um palhaço. moçoila mulata bem enfrentar as luzes dos refletores. -se num verdadeiro paraíso. sempre de mérito. e a viscondessa. voz belíssima. a acompanhá-lo no Circo Dudu. pintando as no teatrinho ao ar livre do Passeio Pú- pálpebras de tinta branca. Contra que não sabia ler ditava peças de alto a vontade dos filhos. no imenso picadeiro da mais sentidas de Catulo da Paixão Ce- vida. da vida . de Franz Lehar. das – Bananeira velha também dá canções brejeiras de Ernesto Nazareth e bom cacho. de Portugal. cantava Em seu camarim. A ela Benjamin ensinava as modinhas recriando-as. como Catu. do Boulevard disse a Benjamin. quando jovem. caderno. Rosa- esposa de Benjamin. com uma voz inconfundível. mem atormentado em Remorso vivo ou sem conhecer decadência. certa vez: “Arranjaste de São Cristóvão. Havia um outro grande palhaço e imenso ator negro. fazendo telini ou o consagrado Grock. com a aplaudida atriz A vida de Benjamin transmudou- Lili Cardona. Este levando ao Circo Spinelli. Um dia. o palhaço o público delirar com a força física do do Porto. o que havia de mais um canário. carregando blico. meu nobre palhaço. daquelas melodias de Catulo que o Baia- no. Dona Vitória. de muitas peças do ao marido. dando- a gorjear as mais belas árias da opereta -lhe um certo apoio moral com sua bele- Viúva alegre. par. morreu. Lá por 1940 e tanto. nessas interpretações de padre velho e Olhando-se a trajetória de Ben- guloso em Diabo no convento. lina desaparece. um ver- requintado para se aplaudir: O chofer dadeiro canário”. Benjamin uniu-se conteúdo dramático. O circo da Belle Époque era quebrar-se. vê-se a sua quando dançava a chula de modo ir. sem explicação. numa chula de letra maliciosa: povoado de cançonetas francesas. superioridade sobre outros clowns de la- repreensível. que Benjamin depois repetia. Benjamin! 1890 e tanto até perto de 1950. como os irmãos Fra- carregando Cacilda Gonçalves. com Rosa- lhecida e que. do ho. quando Ao que ele retrucou de pronto a re. era respeitado por a essa mulata sedutora que cantava com grandes literatos da cidade. era artista lina incentivando-lhe a carreira. jamin. contagiando até mesmo lo da Paixão Cearense e Artur Azevedo.

Mas preferia o universal. obra que retrata os circos de artística não se alterou. o qual. que. circo dimensões novas. deram ao guerras e misérias. esse clown excepcional. era o povo triste”. grandes glorificando tudo que os Grocks. pois. no primeiro ano. sacudido na de 60 anos. ou esta cornucópia de ale. renovare do larem infandum?”. Pela manhã. as aulas de latim de da interpretação de Benjamin. alegrou a criançada deste País. deu o seu parecer lapidar: “Ele tigado pela irada Juno. tanto nas aulas da humano. os alunos. quando. do tributa às grandes criações do espírito Aos sábados. apoiado por Vênus. veria dar ou não uma pensão vitalícia a regina. de vários circos com a mesma um elefante. Marcos Leite eram apreciadas por todos pela arte imensa. fez uma preleção de grande consagração dos outros tempos. pois o mestre tinha um méto- bito do circo para atingir os limites da do de ensino que penetrava na cabeça do grande interpretação dramática do teatro mais renitente discípulo. o circo é encarado com apareceu lirialmente branca e de nudez o respeito que o povo mais culto do mun. um marechal Hermes ou Guilherme de Azevedo dar essas aulas. manhã como nas da tarde. literárias. com Sema. os Gu- clowns que alegraram toda a criançada gusses e os irmãos Fratelini fizeram pela de São Paulo. No Colégio Universitá- Dudu. inflamando-se ante os trechos mais indo sempre abraçá-lo no camarim com sugestivos da Eneida de Virgílio. pírito aberto como Ramón Gomes de La min foi o que era antes. havia sessões recebendo até homenagens de Jean Coc. em cima de sucesso. ins- gaceira. O circo. com aquele seu entusiasmo tão conheci- po para aplaudir o inspirado ator negro. Lá o Cirque d’Hiver é vitalício. mas nenhum de. sempre repetia um verso que tanto en- Discutiu-se na Câmara se se de. em que palavras do mais lisonjeiro respeito. assim. cansada de tantas gria geral que é Carequinha. alegria da humanidade. combalido de tantos so- o Brasil saldaria uma dívida de honra a frimentos na peregrinação dos mares.. em mais toda a sua odisseia marítima. em seu picadeiro. que não gostava merece esta pensão porque fez rir a todo de Enéias. do. se beleza plástica e musical que vem publi- o sentimento do homem mudara com cada num livro ilustrado do mestre espa- recente caso passional. um Floriano Peixoto sempre ter um tem. Participava. em compensação. Benjamin de Oliveira. com o que. pelo muito que relata à rainha Dido. cantava sua seleta sensibilidade: “Tubes. deixando-lhe mágoa imensa teau. nem mesmo o interessante palhaço reito como podia. agitado por Netuno. que certa feita lhe Em Paris. atenta e amorosa. mar enfurecido. o estilista de A ba. teve aquele gênio da inventiva e rio.. a sensibilida. O pio Enéias. Daí. Nunca mais Benja. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 131 do palhaço. Dona Maria de . ultrapassava o âm. frágil nau pelo vento encapelado e pelo José Américo. Max Jacob e de um escritor de es- no coração sofrido. porte de Chicharrão e Piolim. Fui fazendo meu vestibular de Di- les. nhol. Palhaços do ou pavilhões de lona através dos tempos. casta e indevassável.

que sempre recebiam os visitantes com um delicioso vinho es. ilustre Uma tristeza imensa dimana: progenitora do crítico musical Eurico Viver a gente assim. declama- sobradinho em que morava na Rua Ben. Um poema de Dona respeitado e a saudade de quantos con. mas de nobre e bondoso co- maior poetisa da Hélade. No mar. numa explanação es. seu Declamávamos nossos poemas nessas irmão. Maria Rita se impunha como uma mes- goa a quem te adora! A quem te implora tra exigente e de muito amor a seus alu- favor e paz!” nos. demorava-se em da Drª Maria Rita. que era também poe. que gozou de intensa influência cultural Subindo enorme e fluídica serpente. va-se ao falar da genial George Sand. após longa vida de alemão arrogante: “É aqui dentro. apegada à terra. dois professores. Dona Maria de Lourdes. te alsaciano. Sua tese de professoranda foi so- em “Filha de Jove. deixando um nome que está a França”. é aqui magistério. senciadas por um jornalista ou escritor também fizeram uma elogiável gramática de renome. A rolar. O reio da Manhã. festa. além das preleções eruditas dos irmãos Ser como a águia. Na literatura francesa. o obscurantismo político fechou. sem nada que a atornente. revista da Faculdade Nacional de Direito. pre relatando o enredo de Atala e Renée. Eu sempre era o pão de ló da latina. com trechos selecionados de Eutró. com meu indefectível O estudan- pio e de Júlio César. a bela acolhida da mãe e avó dos Livre. depois. teligência. com sua voz mansa e de ter- na musicalidade. dava aula de Literatu. eterno refrão do francês insultado pelo Leônidas. Drª cem lugares. que falavam ração. sem- lhava. eram pre- bem didática gramática do castelhano. Leônidas Porto Sobrinho aí bri.132 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Lourdes Nogueira. quando o vôo alteia Porto. com seu . novo ambiente. Nogueira França. a bater sempre no peito o correita dos grandes mestres que são. a rolar na água corrente. Pela Renée Chateau- ensaios. arrebata- tisa. Quisera novos ares. Leônidas e Vicente Porto. muitas vezes. briand tinha uma certa predileção. Quando argumentava Pela manhã era a sessão literária sobre literatura grega. diva falaz! Ah! Poupa má. repetindo os versos da cunspecta. do em todas as tertúlias da cidade: to Lisboa. Maria de Lourdes. no mundo universitário brasileiro e que. reproduzido no Cor- viveram com sua fúlgida inteligência. que tem altares! Em bre a mulher na literatura universal. hoje uma juíza cir- Safo e em Alceu. correu mundo. Ser neblina que fulge e se engazeia. Vicente depois dirigiu A Época. além de escreverem depois uma tertúlias que. sem leis. morreu. rem seus poemas ou lerem seus contos e de Victor Hugo. na serra Dona Maria de Lourdes. Quisera ser apenas um grão de areia panhol. com seus escritos de penetrante in. convidava os alunos para declama. era uma verdadeira meca “Minh’alma inquieta anseia de mestres e alunos que ali iam buscar. No prosaísmo da existência humana. 131. no ar. ra Geral.

O o negro de raça inferior. Por vezes parte do problema com muita acuidade vinha o professor Delaura. foi obtuso em perceber soral. per. porque o branco num livro quase definitivo que deixou fez a sua abolição. contra as asseverações racistas de Síl- sistir a ela. De- falsa ciência de um Charcot e da pior pois foi a vez do cientista Carver. Nina. sões reacionárias tão semelhantes às do fessor de Psicologia. Neto. o fraque que ta. taxando nambucano. quando se insurgiu sobre Joaquim Nabuco. Sílvio Romero. vio Romero e Nina Rodrigues. luvas. que escola de antropologia do tempo. Na Améri- de de Nina Rodrigues. douto Sílvio Romero. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 133 chapéu. de polainas. pelo ensino. As aulas Ramos puderam colocar em seu devido de História da Filosofia do Professor lugar o conceito justo de que não se deu Nelson Romero. O pro. também pensou em elevar a sua gente cebendo inferioridade racial onde ha. pelo reacionarismo da ciência lhe dava um ar majestosamente profes. colar de pérola. filho do grande críti- a devida importância do nosso racismo co de nossa literatura. dava as vatura. um Florestan Fer. Lecionava Literatura Geral. Foi por essa falsa visão de Nina Rodrigues que seus dis. Afrânio Pei- . um Guerreiro um padrão do ensino geral. assim viu. em que olha o ca do Norte ainda houve um Booker T. a verdade. o Colégio Pedro lI. meios de educar e evoluir. em Cartilha de um apren- palavras! Ao fazer uma conferência diz de sociologia. suas opiniões facciosas sobre Coelho ção adequada após a abolição da escra. passamos para um Roger Bastide. Atualida. Dr. levou. disfarçado. desvirtuaram toda uma aná. como se pode ver sar o seu status social. para as. Lins e Silva. mas não lhe deu os publicado na Edição Leitura. atraiu a gente negra para os sileiros e do estudioso preconceituoso estudos culturais e para aprender um do negro no Brasil. do Rio em seu gênero –. não vendo aí professor Lins e Silva era um escritor uma falta de oportunidade de ultrapas- correto e modelar. como Afrânio Peixoto e Edson versitário – não sei que inveja ou es- Carneiro.. Tasso da Silveira. Dona Carolina Nabuco. que tolheu os movimentos Álvaro Lins. sen. por mais humilde que fosse. de modo imperceptí. pelo trabalho. Só um Artur Ramos. apesar de iconoclasta em da gente negra. fundando colégios em iniciador dos nossos estudos afro-bra. mas que grande sabedoria em suas za mental. africanista maranhense sob o ângulo de Washington que. Após um ano no Colégio Uni- cípulos. Joaquim Nabuco encarou essa suas aulas de modo solene. tranha politicagem conseguiu fechar lise lúcida que deveriam ter os estudos esse grande estabelecimento. a filha do abolicionista per. do seu tempo. Guerreiro Ramos falava baixinho. a fim de que via falta de oportunidade de ascensão o branco americano a respeitasse mais. vendo tudo com a ofício. e visão sociológica em O abolicionis- nos sapatos impecáveis. além de produzir conclu- do até o catedrático da matéria. social para o negro. Tuskegee. num lance de grande destre- vel. o melhor afro-brasileiros.. não lhe dando a educa. mais que eles. que era também nandes e.

como Jornal de crítica ou alunos. João Gonzaga. Bernardo Guima. Síl. Paulo! Lia! Expedito! Dacle! Mafran! sultassem compêndios: que fizessem a Regina!. mo.134 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos xoto ou Ribeiro Couto. da celeuma que se levantou em torno da desajudado por pronúncia defeituosa. ali fundou o novel sociólogo negro. lho. Álvaro tentava supervalorizá-lo. Cônego nunca.. Mário. Alfredo de Frei- traçou o perfil estão mais vivos do que tas Macedo. amigos gritam por seus ideário político e sociológico de Alberto nomes. buiu para o engrandecimento cultural vio crispava-se de fagulhas divinas.. acima de Sílvio Romero. contendo um professorado que que faltava a José Veríssimo. as aulas eram ministradas notas ruins. galerias e do sociologia. Lembro-me nal. aceitando. ensinan. foi consumado prova tirando todo o assunto das pró- mestre de Literatura nas aulas da tarde. Os volumes do des Gentil não dava aula que atraísse os nosso mestre. sem notar o meio e a formação Rocha. es. de minha Uberlândia. longínquas. prias ideias. os que vinham das vilas mais analisado. Domingos Pimentel de Ulhoa. homem que escreveu um livro sobre o companheiros. além bravejava de entusiasmo e beleza. psicológica do autor. Este olha. nos idos de 1928 a excelente bagagem cultural e científica 1933. conferência de Álvaro Lins sobre um As aulas de Geografia eram dadas pelo crítico frio e rígido como José Veríssi. Todos os escritores José Aparecido Teixeira. aliado ao fato de que Alci- por Manuel Bandeira. Mário Porto. Ao traçar a análise sobre Cruz e Eduardo. que Sílvio Romero elogiou ou de que Nelson Cupertino. arrebatado pela mágoa do cidade. Luís em si. Tito Lívio de Castro. O Professor Milton rães. de renome brasileiro e internacio- andavam de mão em mão. O seu discurso de recepção na Essas as reminiscências que vou Academia a Euclides da Cunha honra o relatando. Sílvio tinha uma Ginásio Mineiro. O próprio Delgado de Carva- a História literária de Eça de Queiroz. Luís Delfino. e Elisa Marquês. deve cumprir. Daí o alarmante número de Pela manhã. depois nos deu aulas de Sociologia. Uberlândia. irmão do Dr. Ainda não pode dizer que conhece Martins Pena se iniciou a entrega simbólica dos di- sem ler o ensaio penetrante e exato de plomas e nem um colega leu o jura- Sílvio sobre o fundador do teatro popu. lá do alto do teatro: Teresinha! Torres. deixou um nome respeitá- em excesso. Ninguém mais tejos de minha formatura. vel pela efervescência cultural no seu quando é o contrário. Nos balcões. Tobias Barreto. Não gostava que os alunos con. como dos alunos que moravam no centro da um possesso. enquanto se passam os fes- pensamento brasileiro. Alcides Gentil. Eurico Silva. as mães de alguns colegas. Pedro Bernardo Guimarães Sousa. mento que todo advogado de vergonha lar no Brasil. precocemente Liceu Osvaldo Cruz. que muito contri- desaparecido. Dr. estava muito aquém do poltronas. Nestor Vitor ou o Porto. numa euforia que dá bem . que na minha terra. faria o orgulho de qualquer estabele- va o fato literário pela própria criação cimento de ensino do Brasil: Dr.

me arguiu. que é uma de minador de português. minhas matérias preferidas. uma imensa vulga- to de Nelson Romero. do mesmo Kant. mas depois vi que ele análise e a interpretação de “Metade de nada conseguiria. de bre o padre Antonio Vieira. nheiro do aluguel do quarto não podiam esperar. de São Cristóvão. O mestre ficou uma onça: da História. de O banquete e da Apologia vermelhos de insônia e cansaço. minh’alma”. peculações filosóficas. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 135 ideia do que foi aquela efeméride de 9 nas falar com tanta segurança sobre o de novembro de 1974. ao ver um preto lá dos rincões de Mi. eterno Horácio: “Ad navem qua veheba- Tenho a impressão de que mestre tur Virgilius Athenas proficiscens” (Ao Raja deve ter ficado um tanto surpreso navio que levava Virgílio para Atenas).. tudo isso de permeio à zenta Albion. outro de gongórico. com os olhos República. O tom do poema é sentido e lírico. jun. Dis. o seu Virgílio pelo oceano afora simpatizando comigo. Ia lá todos os dias à O examinador pegou a frase demidium procura de mestre Clóvis. ao conhecimento por estudos e altas es- reito não foram fáceis em 1943. depois de estudar a vez do divino Platão. pela gio Pedro II e no Colégio Universitário. perigo. mas acontece na como os vagalumes cintilantes pelos que eu gostava demais da matéria. quando falei da pelas madrugadas afora. Quem foi que disse que há. O exame de latim. Raja Gabaglia. de Virgílio. com ela. fragmento de Horácio em que ele pede górico? Não há escritor mais puro e cris. ao chamá-lo Cícero. própria inteligência. possível. pessoa aprender tudo por si mesma. de Tito Lívio. Clóvis Monteiro. Um trecho das Catilinárias. Bergson leção toda especial ao sentido canto do e Platão. em busca de paz e reconhecimento. O ponto que caiu não era de se ou poemas satíricos a futilidade domi- deslindar imediatamente. A intuição faz a para quem cursou o vestibular no Colé. tentou arranjar. intuição bergsoniana. II. Eu. sobre História da ridade? Que nos assuntos de suas odes Filosofia. sem que tenha cur- nada havia a temer. um da Eneida. incólume e sem talino em todo o nosso idioma”. de Sócrates. apa- -me algum emprego no Externato Pedro rentemente numa jornada sem retorno. Um pequeno incidente com o exa. com seu vozei. que se contrapõe Os exames na Nacional de Di. Mas.. na rão meio enrouquecido. Depois foi a cara e a coragem. pediu-me a suas promessas. pois prados mineiros ao entardecer? só tirava 100 com Nelson Romero. pare- . tenho uma predi- sertei como pude sobre Kant. poesia de Horácio. ao mar Jônio que leve. embalado por meae animae e. filho? O padre Vieira gon. Fiz as provas com sado altos estudos para isso. Depois. foi o melhor quando lhe expus meu ponto de vista so. Minha fome e o di. por mim. que caiu numa imperativo categórico da moral kan- segunda-feira ensolarada e com uma tiana e sobre a crítica da razão prática noite de estrelas de fazer inveja à cin. sem contar o “Que é isto.

falando assim de Ovídio como de pastores. o vento gílio que até esqueceram o belo poeta brando que nem aura bonançosa. lamentando. um soluço dorido tos (pater ventarum) aí é Éolio que. precor (devolva incólume. porque vem de dentro invocação de Vênus como a deusa ou d’alma de Ovídio. O exílio silves trem te nui avena (modulas uma de Ovídio. proeter imagem) illius noctis (daquela noite). na que a sensibilidade genial do poeta não Eneida de Virgílio. tu deitado à som- vel tirado de mim e exposto aos olha. na. (na cidade – em Roma). do algo de indecoroso e impublicável cio extravasa seu medo de que Virgílio acontecido com Augusto. cre. comentando avena: “Tityre. peço) em que deixei) tot cara mihi (tantas coi- et serves demidium meae animae (e con. sic fratres além do Danúbio.136 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos cendo uma elegia tristonha. provocando-lhe uma diva poderosa de Chipre. Nele Horá. num recanto ignorado. de estudaram tanto a parte épica de Vir- Horácio apela para o Iapyge. sas caras a mim). em meio a canto mundo. si. (uma lágrima dos meus olhos)”. tão venerada. Daí. cum repeto noc- ditum tibi (confiado a ti). nes. bra de frondosa faia) meditaris musam res indiferentes do universo. que foram amigos inseparáveis pestre. Como um mimo de pulcritude cam- e Pólux. “Melibeu e Títiro” é dos poemas até a morte. o desterro inconce- Helenae (oxalá os irmãos de Helena). sonorizado por soluçante um contemporâneo meu. nas mãos fechadas em con- Pareço até um homem fora do cha. red das inco. cantiga rústica com a pequena flauta). que são Cástor rou. . Invoca a Vênus. labitur quoque nunc serva a metade de minh’alma). país. É uma elegia bem diferente das de Propércio A mitologia está presente aí na ou Anacreonte. num vale perdido. gutta ex meis oculis at ticis (até os confins da Ática)”. quae fuit mihi supremum tempus (que vis (te dirija ó nau). comoção dolorosa. finibus (corre ainda agora). que talvez tenha presencia. Yapyga (exceto o Iapige). tem qua reliqui (quando recordo a noite lumen. bível que recebeu por parte do amado dera lucida (astros brilhantes) que pater Augusto: “Cum subit tristissima imago ventorum (e pai dos ventos). dá o ar de sua graça pôde sublimar. a ponto de não regressasse da longa viagem que esse mecenas das letras ter de bani-lo do encetara. tu recubans sub tegmine um poema dos Tristia como algo sensí. Para chamar um Os críticos e filólogos da latinida- vento favorável à viagem virgiliana. a sua louca amizade cas e lê-lo é como tomar água fresca que por Virgílio. Horácio quis significar. patulae fagi (Títiro. Ao fa- bucólico que tantas poesias belas inspi- lar nos irmãos de Helena. a deusa poderosa de Chipre). alvoroçada e temível. regat te. obstrictis (Quando me vem à mente a tristíssima a liis (encarcerados os outros). O pai dos ven. um lamento de elegia chorosa em Chipre para cuidar do feliz itinerário que vem dos versos sublimes de Oví- do poeta: “Sic diva potens Cypri (Oxalá dio. quae (nobis) debes foi para mim o último instante) in urbe Virgilius (que (nos) deves Virgílio). cai da fonte. ou églogas mais sugestivos das Bucóli- sa alegoria fraterna.

Títiro convi. possível para prejudicar certo professor cantador. por outro é um acusativo. como carioca pelo menos era um benemérito em toda poesia bucólica que se preza. os olhos arregalados tos anos. numa prova de da-o para repousar em sua casa. situada no Catete.. na Faculdade de Direito do Rio de Ja- Em 1941. esses contratempos. ensinar as florestas a repe. a tal ponto que fez o Gonzaga. Mesmo com tria e os (seus) campos amenos)”. Jacarandá. pois não foi banido dos ao me comparar com o Dr. libertando tantos presos que. que. lembro-me que à sombra de opulenta faia. para ingressar na minha Faculdade ou milhante. na época. Política. expulso de suas terras. de revalidar o seu diploma no Brasil. mas. Na segunda série. Respondi-lhe. ainda tirei notas Esse diálogo de dois pastores. História da Filosofia ou História . Títi. deitado a sonhar. pois esse preto velho e rábula do fórum sam Amaryllida). foi buscar motivo para Marí. folha inconsciente que o vento leva. deitado professor negro merecia. Tanta luta e sacrifícios anônimos para Mas este acabou dando a nota que o tal um fim mesquinho e inglório. e o aluno pobre que porventu. a Faculdade Nacional neiro. prestar outro curso. tranquilo e calmo. em sua Arcádia de efeito en. Títiro Direito Civil. Muitos anos depois descobri que da Costa foi buscar inspiração para sua esse mestre de Direito Civil não supor- Nize e também onde Tomás Antônio tava pessoa de cor. não poderia fazer um curso regular. doces silvas resonare formo. distintas em Teoria do Estado. mofariam nos distritos e nos pre- pastoral onde nosso Cláudio Manuel sídios. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 137 nos linquimus fines patriae et arva dul. em seu epílogo inesperado e hu. Ao Fazemos tantos planos para de. Latim. Vê-se nesse diálogo de modo. ríspido. Introdu- um. os braços Abandonei a Nacional por mui- cruzados ao peito. “tranquilo à sombra da faia (lentus in soltava muitos réus presos incorrigíveis. Jacarandá. O interessante é que por esse de espanto ante o último fracasso de um tempo eu preparava legiões de alunos drama. Amaryllida aí. tal qual a reito. ro. Foi cia (nós deixamos os territórios da pá. Em face da tive uma forte turra com o professor adversidade de Melibeu. encontrava uma barreira intransponível. formado em Direito na Itália e que teve lia de Dirceu. tentou amesquinhar-me é mais feliz. num caixão de ínfima classe. na Nacional de Di- pois tudo terminar em nada. trava: Francês. pátrios lares e por isso tem tempo de. umbra fagi). Todos foram de Direito tinha apenas aulas de manhã aprovados nas matérias que lhes minis- e à tarde. ao quando chegava à vez daquele mestre. Melibeu. in umbra. teve notas de bom a ótimo. o que aconteceu comigo. ção à Ciência do Direito e Economia que se encontra com outro pastor. um famoso rábula negro que. Amoldo Medeiros. que era muita tir (o nome da) bela Amarilis” (lentus honra parecer-me com o Dr. léu do mistério indecifrável do destino. Literatura Uni- ra ali ingressasse e tivesse que trabalhar versal..

Pestalozis ou Dons Boscos. agindo de modo a con. A República. conversando ama. cursos que consegui fazer deram-me Em Críton. fia eivada de orientalismo. o misticismo poético como desumanos. a fim de Sarmientos. A concepção nietzschezia- Muitos alunos deixaram os estudos. decepções. sob pena de ção definida. mergulhar no mais profundo atro de trariarem essas inclinações poderosas. pois os universal. Empédocles com uma forte dor na alma. desiludido e mesmo os eleatas. carne e osso. junto de meus livros inse- fazendo-os ver os erros dos sofistas. escritos. ante a férula de professo. tiana tão bem expressa em sua Crítica ras primárias de gestos tão histéricos da razão pura. na da atitude dos seres. mArcando o ver- Os professores irreverentes não sabem dadeiro homem dentro de uma ética de o mal que podem causar a uma voca. fui apenas um mestre que que Sócrates dava. que ele não podia fugir. ora paráveis. ora fazendo-os cair em contradição humanos não pode dar. Estudei tanto essas caminhar (perípare) por Aristóteles e disciplinas que acabei por lhes conhe. lade. a moral kan- desiludidos. anos a fio. Fiquei existência. discutindo com vida banal que passei. conceitos de uma vida harmonio- Aqueles professores irascíveis sa e sadia que dava aos gregos uma ine- e iconoclastas em suas atitudes dúbias fável e deliciosa postura humana diante e deselegantes privaram-me um pouco dos fatos e de todos os contratempos da do meu entusiasmo costumeiro. Os sá. Pegando Tales e sua filoso- anos com minha matrícula trancada. de Jean conferências. que tanto modificaram o pensamento cer o mais íntimo conteúdo. que os nossos sonhos e pensamentos A História da Educação está eivada des- não caiam no mais nefando báratro do ses professores que erraram a vocação. Como estamos longe do nada mais fui que um professor. la “fetícia” inefável que o contato dos mos. o muito me ajudou no meu ganha-pão que vemos é o espírito luminoso da Hé- cotidiano. niilismo vital. Na escola superior é e ingênuo do positivismo de Augus- a mesma incongruência pedagógica que to Comte. ou das aulas amenas particulares. Só os livros me deram aque- conseguindo que pensassem por si mes. por mais de 50 eles os problemas mais transcendentes. Apolo- uma ampla visão de cultura geral que gia de Sócrates ou As leis de Platão. o que vemos é um ante tantas incompreensões humanas. orientou tantas gerações jovens. tudo é forte coerção moral nada tem dos ensinamentos divinos dos sobre os habitantes da Terra. Em ensino da natureza do Emílio. encontro aquela segurança e o esplêndi- bios ensinamentos de Rodó à juventude do encantamento de quem me dá tudo americana no Ariel ou as aulas dadas a de venturoso e não me decepciona com .138 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Geral e Sociologia. Uma velmente com os alunos. forte conteúdo moral. Só junto deles para melhor esclarecer a verdade. aulas e conversas Jacques Rousseau. que nasceram para domar potros e éguas bravias e não para lidar com alunos de Em toda a minha vida humilde.

ou entabularão o diá- manejado de forma escorreita e pura. da Somente a Beleza. que é uma invenção Rotisserie de la reine pédauque e do Sr. distribuídos. Mário de Alencar de minha terra. levando. multo de ideias pagãs que culminariam Ler Montaigne. onde descansará agora. Augusto. parti- intenções. brasileiro do nosso Machado de Assis Siá Perciliana. nos Essais. mas que por após lecionar durante toda a vida a tan- tas gerações de crianças da antiga São trás apresentam tanta facilidade esti- Pedro de Uberabinha? E Honório Gui- lística quanto profundidade de ideias e marães. no breviário de estética clás- leno. Ariel: “O mundo existe porque é belo. Moedeiros falsos. que isso é um atenta- pessimismo de muitas páginas é um epi. como o con- e cristalino. en- noite de insônia. A própria negatividade ou selheiro Acácio. justifica o minuto de Bergeret em Paris e mesmo do Eça de sofrimento que vivemos sobre a Terra. Alta râneos do Vaticano e O imoralista. ou devorá-los pela diabolismos da iconoclastia gideana. Só a fealdade é imo- Mendes. tudo borbulha num tu- ardentes do mundo. o que responderei como curismo que vai modelar as páginas sa. no que a Hélade tinha de mais puro sica Corydon. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 139 promessas falazes. Pega-se um Tristão da Cunha cipante do movimento inicial de cultura em A beira do Stix. ros rudimentos de cultura popular à mi- São escritores de aparência serena e de nha Uberlândia. gosto de apalpá-los. do à natureza. mo em face da queda do homem pelo pecado original ou até sua descrença em mais exclusivista que todos os amores relação ao amor. O idioma é ai do silêncio eterno. de Apolo. como um córrego cristalino humilde do Universo? Sempre a deusa correndo por entre os cerrados mineiros. quantas primeiro mestre de meu pai. verdades vêm à tona na limpidez diáfa. num convívio mais a vacilação da fé em Deus. o pessimis- puro e ardente que o amor corporal. será que se encontraram. de mulheres. desordenada. . que deu os primei- em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ronald de Carvalho em O espelho de tíricas do Voltaire de O ingênuo. contramos uma clareza que pode enga- amorosamente. generosa de Ariel. A Queirós mais diabólico e negador de Os moralidade das coisas é uma resultante Maias e Correspondência de Fradique da sua formosura. é numa profissão de fé à beleza masculina mergulhar no mais límpido passado he. lá no mundo na de um estilo fluente. quer na Escola mil volumes. São mais de quatro Em André Gide. Objetarão. como se faz à pessoa nar o leitor menos atento às sutilezas e de nossos anelos. sisudo. por que vale de estrelas em Contos e impressões. dos olhos velados. frágeis vidas deambularam num recanto avemente. indiferente. Aí madrugada adentro. o Ana. sábio e generoso. tole France do Jardim de Epicuro. um Álvaro luminosas andará agora? Ele que foi o Moreira em As amargas não. assim como o diabolismo bem ral”. estilo ameno e melodioso. Subter- mente na biblioteca improvisada. logo sem fim que iniciaram quando suas com o pensamento do autor fluindo su.

o homem que oferece livro de olhar humilde como de cão espanca- de modinhas e que canta melodias de do. mas que os anos humilde rapaz do Senac. mães carrega. trocando ideias sobre seus pontos e moças do Brasil. pelos trens suburbanos. es. ou quando é um inglórias que travaram. aquelas pes. São só casas condução penosa e fatigante.140 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos os talentos mais capazes. pagando uma mensalidade irrisória?” fenha de um cego. velhinha que está de pé. furiosos. vem cantando em sua São Francisco Xavier pararam no tempo viola de corda “Se você jurar”. Riachuelo e de pé no chão. enriquecendo les. os cadernos de aula. tão esforçada e dedicada ao ensino. sendo. aloucados. na Dona Maria de Lourdes Noguei. mestre devotado de tantos rapazes Filho. abismo oscilante. com seu maca- mostraram serem obras de grandes idea- cão azulado. E a calma e paciência da descansa num túmulo branco do Cemi. Um velho que lê O Dia. Lavadei- baixas. mas olhando-se bem se vê mael Silva. amendoins. para a todos os dias. empurrando a mente de tantos discípulos que não e lançando-se em fúria por portas e ja- dão o valor devido ao impulsionador de nelas. andar veloz do trem. Descansam das lides de Direito e Medicina. leitura e olha desalentado para Quinti- olhar essa gente pobre que enfrenta uma no: “Isto não vai pra frente. ensurdecedor. vê-se gente correndo. pavoridas ante o ribombar de um trovão orientadora segura de todos os alunos. um certo pulsar de desenvolvimento em Se os nossos ministros viajassem suas casas de pequena altura. primeira pessoa em frente. guiado por menino Aparentemente. na Central mesmas para o maior aperfeiçoamento e na Leopoldina. sumo da pequena população de traba- das de filhos. enquanto a voz rou. velhos. retruca: “O subúrbio também conhe- Roberto Carlos e Waldick Soriano. Veja o conjunto residen- até os pingentes que enfrentam a morte cial que construíram em Osvaldo Cruz. do velho que se- tério São João Batista. até meu Bento Ribeiro. jornalista e poeta. Subir. Sampaio. agradecidas. O professor sempre aglomeração de amedrontar um Hércu- morre pobre e esquecido. Graças a de trem e conhecessem o sofrimento Deus os edifícios lá do centro não nos . quando es- ra. Mário Porto. acima de che de estudantes do Piedade e da Gama tudo. uma ou outra casa comercial para o con- tudantes. moços. oscilando pelas portas escancaradas. numa ânsia incontida de animais suas inteligências. que se investem. e no espaço. numa ético dos homens. Um outro senhor. que lança um olhar triste listas. que foi advo. de Is. cujos feitos as gerações vindouras à paisagem suburbana que passa ante o reconhecerão. assim como o gura a pasta e da mocinha que empunha mestre Dr. aquele coreto velho na praça e ras com trouxas de roupa à cabeça. e ce o progresso. no Quanta gente sem recursos foi morar ali. baleiros. À hora do rush. Quando vou para Bento Ribeiro é quando o trem se en- gado. da gente anônima que afronta a condu- soas de fibra que deram o melhor de si ção das seis horas da tarde. vendedores de lhadores anônimos”.

Limitando-se com Bento parte do muro das estações de Bento Ri. mobília simples e nova. mo. em épocas de à parede. A poluição darem uma boa sombra acolhedora nos dos numerosos carros. Isso alegre para uma viagem quimérica à Ci- é acontecimento esdrúxulo. pulando por cima de trilhos e lhos perigosíssimos separa o meu bairro mata-burros. verde que cobre uma parte da rua. próxima. de que eles devem manter o rio levanta o conjunto residencial em que sempre limpo. Um lindo curso de tri- sa a gare. para viajar nos trens subur. ele transborda pelas quanto James Brown berra a todos os casas circunvizinhas. enquanto na . numa vitrola portátil. hortas e mangueiras. passeios. Por falta de educação popular. Portela. domésticas. lixo e outros apetrechos em suas águas. ticas conversam com rapazes sonhado- toristas de táxi. sem jogarem colchões. só no Méier ou dias de estios insuportáveis. Urubus mão armada escapa à vigília de uma es. pedras preciosas e pássaros. res. derrubou uma moradores. em busca de carniça tatística severa e atenta. acácias amareladas caem em frente etc. como rio de boa pulmões. nas confluências da Estrada do mente e ocasionando no rio. por vezes. que é bem populoso banos. com suas linhas nobres de gran. Ribeiro está outro subúrbio promissor: beiro e Osvaldo Cruz e por ele atraves. en- chuvas torrenciais. cuí é habitada por gente da camada mais Nessas casinhas de quintais. onde se veem quadros meio da Picuí. em saber que houve um de Gauguin pasta tranquilamente. larga e curiosa se vê na viagem que se to residencial é que se inauguraram as faz de ônibus até a cidade: Avenida dos padarias e os armazéns. de graça. Hoje. não sem enfrentarem e progressista e cujas ruas têm nomes de uma morte imprevista e repentina. Estão plantando amen. com pobre e trabalhadora. Madureira. Tijuca ou Ipanema De um lado a outro do rio. que em Copacabana. vidando algum bêbado ou mulher mais em pleno dia. jovens cabeludos e de black- doeiras no trajeto da via a fim de nos -power estão assentados. de beleza. Italianos. Um riacho de águas turvas corre no a saletas antigas. moro. Nos estirpe que é. Esta rua que vai dar na estação já ainda não convenceram os moradores foi esburacada e poeirenta. voejam em bando. assaltos e morte à monas. um tado. ma- o número de roubos. e vai terminar perto inundações danosas às casas limítrofes. que causam certo pânico aos humildes monioso meio aquisitivo. encontrando-se portões semiabertos. em seu parci. Uma artéria Só com a inauguração do conjun. no Banco Boa Vista. O povo. Na grama na portentosa Madureira. da linha férrea. A Rua Picuí sai do Largo do entupindo a corrente que corria livre- Sapê. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 141 vieram tapar o sol do dia. sabendo-se térea de Wateau e Beaudelaire. sendo que. militares. de Rocha Miranda. mocinhas român- também nela estudantes. já que a Rua Pi. con- assalto na padaria da Rua Picuí e outro. lavadeiras. ante a quietude quase bucólica de cavalo branco saído da pintura bizarra Bento Ribeiro. nela se adjuntos. Rocha Miranda. Fiquei espan.

Saímos de em frente ao botequim do Toninho. O público ia contemplar. empinando as mais “O que é que a baiana tem?”. diante. no Picuí. ao som de soltas pelas relvas. num chilrar me. sendo entrevista- simples e boas que sobem e descem ao da por Eneida. recebe a cigarras gritando de melancolia nas acá. Meus olhos. às cigarras cantadeiras de Anacreonte. de agora em ca e ética da pátria brasileira. em flor. com delírio. D. De lá até aqui rubra em suas pétalas de um vermelho houve notável evolução em nossos pen- vivo. No Teatro Carlos Gomes. demorada com elas? Daqui a muitos como se tivesse medo de algo impre- anos não estarei aqui para contemplar visível. com dores. num rio inefável. meio apavorada. Aquelas imagens ainda me fica- ca de jornal. quase humano. até que me veja prostrado num Dando um balanço nas lembran- caixão incolor e triste. os ritmos bra- estações suburbanas. a ponto de O Rio estava chuvoso para rece- inspirarem quadros de funda beleza ber os despojos da Princesa Isabel que . não ouvirei o zinir lírico destas Delfino. homenagem sincera de Renata Fronzi. Ela tremia. olhando esses trens que passam saguão principal da Câmara dos Verea- correndo. a fazerem inveja sical. com Salomé. com crianças bem ritmados e brasileiros. bem cedo no seu lugar de honra. e fico a me- ditar: até quando terei uma convivência jornalistas. Depois a vi sair. triunfante. todos. oferecendo aos fregueses ram na memória. Aurora Miranda e outros longo da rua cheia de sol. do este flamboyant de vermelho crispante Teatro Dulcina. é esta pai- vejo o povo. com sucesso. O Brasil Suas flores escandalosamente escarlates lutou contra a aliança suicida dos países lançam no espaço um vivo protesto de totalitários. perscrutam essas pessoas sorriso triste. que também é outro encantado da a mãe do jornaleiro da esquina. quando ela no palco fazia Meu Bento Ribeiro acorda sempre cheio aqueles gestos espalhafatosos. No Teatro Serrador. Maia. uma guerra mundial tremenda. o povo ovacionou-a. Nessas três décadas Como floresceu o flamboyant que fica muitos fatos se passaram. após 1943. através destes anos os matutinos mais em voga no bairro. mas tão da mais plena alegria. re- tantas mágoas e dissabores. vistosas e multicores pipas. a face bela e emotiva daquela nelas a paisagem efêmera e rápida das que levou. em massa. na revista mu- lancólico e magoado. samentos políticos e na vida e econômi- O meu universo. descansado de ças mais destacadas de minha vida. Vejo Carmen aguardam a próxima jornada do misté- cheia de pedrarias pelo cabelo. junto de Marlene e Luís ao sol. pela última vez. cias amarelas. com as nações aliadas ven- perfume olorante e de viva policromia cemos os países do Eixo. na ABI. pela úl- esses passageiros que espreitam das ja- tima vez.142 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos vitrola a voz de Roberto Carlos é um do pintor e poeta suburbano Iolandino convite ao amor e poesia. que sileiros mais excitantes. Neném. já está pureza poética de Bento Ribeiro. olhando o corpo sagem calma e compensadora da Rua de Carmen Miranda. correndo para o sem fim. na ban.

e do conde D’ Eu. da minha princesa. na Lei Áurea.. publicanos. dava duro nos que como está o nosso Brasil?”. o grande itinerário do fé.. recebendo. que por direito era seu. encontrou vários bilhetes da princesa de D’Eu. A frase de Pa- em longa procissão. a quem chamava de Gaston. para sempre em terras brasileiras. Por essas provas de cari- quando fazia suas experiências no espa. toda uma raça oprimida. sem recursos. penso um dia. regente morar em Paris a família imperial. acompanhando. da Aviação em seu castelo e lhe deu um Não recusavam nenhum auxílio à gente São Benedito para protegê-lo lá nos ares. já não há retro da princesa. o povo todo se aglo. As Pedro II. ria banida da pátria. em todos os semblantes. e a feia da Monarquia lhe retirariam o apoio no . A lei emancipadora de caleidoscópio de múltiplas sensações. com pretas velhas em princesa Isabel assinou a lei que redimiu seus trajes típicos africano. com a voz atrasavam o pagamento da moradia. em suas biografias blime. que ele vinha recentemente de viagem nas casas que alugavam para os lados de sua pátria até a França: “Visconde. uma peita. debandando para o lado dos re- irmandades negras. lá mais de uma vez de um grande Império. Enquanto a ideia precisa e sincera daquela grande banda toca a “Marcha fúnebre” de Cho- mulher. desfilaram. que os fazendeiros -o de braços abertos no palácio. semeou em todos da minha princesa. Sua frase propalavam sobre o esposo de Isabel. uma raça. quando mandou chamar o Pai que lhes dirigissem pedidos de esmolas. grande Império: “Meu Deus. O seu espírito ficaria sorrindo ao Quer Dinah Silveira de Queiroz ver a semente suprema que seu gesto su- ou Hermes Vieira. sucessora o negro genial. merando na Avenida Rio Branco. Embora sabendo que se- imperial tinha a Patrocínio. ao saber de que era um refinado pão-duro e que. dando ordens para seu cuidado para com Santos Dumont. de São Cristóvão. celente coração. mais escravo no Brasil”. chorando com perdoando um vintém sequer que faltas- saudade da sua terra que a exilou. à espe. eles mal dão uma os corações da negritude. dade nos recusamos a acreditar no que ço com seus balões lendários. Nesse se no contrato. sua ternura comovida para com o con. em trocínio reboou por toda a vastidão do passos lentos. a quem minha raça venera e res- pin e se lê. Conta-se que Assis Chateaubriand tristeza profunda e indisfarçável. Resta o gesto discutível de Pa- ra da urna funerária que trazia as cinzas trocínio. ofertar certas quantias a todos os pobres em Paris. O carinho que a família de D. beijando os pés da Redentora. Pedro II. ao visitar o castelo em que foi nessa boa filha dos Braganças. não embargada pelos soluços. para o visconde de Ouro Preto. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 143 vinham da Europa para descansarem ingratidão que o tribuno negro fez a D. ela o fez levada pelo seu ex- vejo-a dançando com André Rebouças. Até os escravos com na tarde luminosa e profética em que a mais de cem anos. Ninguém a obrigou ou quando as moças racistas do Cassino coagiu a reforçar uma lei que lhe tirou o Fluminense recusaram-se a dançar com trono.

sua mulher. irmão de Grande Otelo. falar em nome de seus colegas de tur. A Raça. já pensava num de. se reunia para traçar programas das as representações teatrais da cidade. com a classe de um ver- organizando seus famosos préstitos dadeiro show-man. pessoas gradas que aportavam à minha ne. Mais de trinta artis- vem de muitos anos atrás. não ouvindo nem os conselhos do seções culturais. operário humil- já no fim de meu curso ginasial. desde os tempos de D.144 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos próximo reinado que não chegou a reali. que dirigiu bonitos es- eles com carinho e amor. na- do-me que fosse eleito. com essa peça musical e bela- não dar importância ao episódio racista. Isso me entristeceu a tal ponto que das as reações inimagináveis. Chico sua formação liberal aconselharam-me a mostrou. . carnavalescos com Diná. É verdade branca”. Chico Pinto. numa época em que que só um negro tinha competência para era difícil fazer até o teatro usual. Uberlândia não estava ele está mergulhado é a educação. com Chico Pinto cantando. esqueciam seus problemas domésticos até a fase áurea desse grande estabele- para pensarem na desgraça nacional de cimento. Relembro todos Judite Moreira. a eterna porta- zar-se. tínhamos um de sua ilha e levam para a escravidão da jornalzinho. para que a cida. Anísio. esses fins. Um ainda preparada para tão tremendo im- pugilo de homens de cor. mas reacionários. que de que junto de Doca. de Cotegipe. com decisão e pacto. dire- dade diurna. todos se todos estejam dormindo profunda. em sua entidade an- sensatos. Alice Pais. não pensasse teatro só de negros. -estandarte da cidade. com artistas negros e brancos. Alceu Marcelino. até onde se podia contar mas aquele episódio me ficou gravado com o poder de interpretação espontâ- n’alma. dizendo textos. tirracista. conse- me recusei a participar das festividades guiu montar “Kalu – o príncipe de alma “bacharelícias”. Esses negros admiráveis tora do Grupo Escolar Bueno Brandão. Lembro-me de que certa vez soube. Chico já havia trabalhado em to- denodo. O efeito do espetácu- que a única esperança para tirar o negro da miséria econômica e cultural em que lo foi de espanto. ofe- certo professor teve que imiscuir-se na recia a casa simples e hospitaleira para eleição para orador da turma. quando não homenageava as Tenho o preconceito racial na car. impedin. até Chico Pinto. que muitos professores que honram a Levada no Cine Teatro Avenida. ela ficou do lado dos negros opri. em 1942. com engodo e evasivas. quele longínquo 1933. depois que saía cansado da longa ativi. retiram to. embora qua. “com a minha eleição. Bené organizan- midos. dançando e mente. Esta minha índole combativa a todos os preconceitos do mundo me nea do artista negro. mente plástica. tas passando e representando pelo palco a história de um príncipe negro que os Em Uberlândia. com a inolvidável mestra D. lutando contra to- ma”. João Benedito Brasil (o Bené). em que debatíamos cidade tentacular. petáculos no Cine Teatro Avenida. seus irmãos de raça. terra. eu e o Chico Pin- brancos.

. multicores. os sacudida. que foi mAr- estava a Igreja de Nossa Senhora do Car. que gostava de uma “birita”. ra do Rosário na ponta. com chapéus de arminho e espelhos crioulo dançar o Shimmy ou o charleston. mexendo nas fitas São Pedro de Uberabinha. que vem lá do sempre chamada às casas grã-finas para Fundinho. onde ele fazia os papéis mais biques vão desenrolando e traçando. sempre seguidas de um refrão intermi- que cantava nesses espetáculos com seu nável: “ó Senhora do Rosário”. Nossa Senhora do Rosário. minha mãe de fitas longas e multicores que os moçam- criação. povo religioso no templo para depois panhado da Tia Silvana. Sempre esses pretos com indu- bordel movimentado da Rua Cesário Al. plícia. A Congada agora sai na festa de mes da Vitagrapho. padroeira da cidade. da orelha. Lá na Pensão da Cobra. onde música lenta e sincopada. atabaque e até os Com tão elevada veia artística. ao cômicos no picadeiro de farelo. Trazem um longo Otelo às vezes trabalhava nos circos mastro com a imagem de Nossa Senho- improvisados lá no Hotel do Comércio. com compras e vivas festivas. No Largo da Matriz. pequenos no centro. mentos rítmicos e de sons estranhos? É a lo. com instrumentos típicos que engraçadíssimos. Dançam vozeirão espantoso. Diário de um negro atuante Ironides Rodrigues 145 Grande Otelo saía sempre acom. meu tio Evaristo assistia a todos os fil. com ressonâncias de instru- comandar os grandes banquetes. viola. A cidade era ainda em volta do mastro. negra forte e animar. pequena Zulmira e do seresteiro Babá. Era cozinheira de mão cheia. em que os mo. cada para o mês de outubro. do Custódio Pereira. eu o via sempre cantando e dançando. Nas novenas negros locais também festejam o outro rezadas pelo padre Albino. ressonantes bombos. vêm cantando pelas o que ele fazia com propriedade e gestos ruas afora. mentária de seda cor de rosa ou esverde- vim. Que zoada é esta. A diversão era o Cinema baros instrumentos que acompanham a São Pedro. as raparigas mandavam o engraçado ada. de onde descem de Dona Sinhá de Abreu. que se traçam. enquanto re- A cidade vivia mais para os lados quebram e gesticulam ao som dos bár- do Patrimônio. vão do pandeiro. concorridos leilões ou ficarem admiran- sempre trazendo um galho de arruda atrás do os rojões subindo coloridos no céu. congada ou moçambique que vem lá da revirando os olhos de um modo cômico casa da preta Doca ou da casa da Sim- e irresistível. reunia-se o padroeiro da negritude: São Benedito. O Ote. junto da som de músicas nostálgicas e tristonhas.

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A outra atividade do evento foi uma conferência proferida pelo pro- fessor Milton Santos. Além do lançamento de vários títulos de autores afrodescendentes. ou sobre a questão negra. ocasião em que este abordou temas contemporâneos de fundamental importância no pro- cesso de organização e avanço da Milton Santos comunidade afro-brasileira. A revista Thoth esteve presente ao aconteci- . o Centro Cultural José Bonifácio. o evento teve ainda a participação da poetisa Elisa Lucin- da. Como parte das celebrações do As exclusões da Dia Nacional da Consciência Negra e da imortalidade de Zumbi dos Palma- globalização: res. pobres e negros situado na cidade do Rio de Janeiro. que apresentou seu espetáculo “O semelhante”. promoveu nos dias 17 e 18 de novem- bro passado a Kilunge – Primeira Feira do Livro Afro-Brasileiro.

Sobretudo porque essa expansão da . Quando o Hilton ca se realizou completamente. tímida. o Brasil. inclusive grupo de inte. ao mais um depoimento de um negro. ses médias recentemente expandidas não participo de nenhuma militância. Países como o nosso. pa. ame- convenceu. eu perguntei: “Mas vemos até o fim da guerra até 30 anos o que é que eu posso dizer?” Porque eu atrás. dania –. O que ti- Cobra me chamou. insistiu e me realização completa do indivíduo. não respondo a nenhum credo. se. De tal no Brasil?” E finalmente: “Negros são forma que a expansão da classe média cidadãos?”. no Brasil acabou por ser uma condição O que é ser cidadão? A cidadania para que a cidadania não se estabeleces- é uma conquista lenta. médias sempre desejaram reter privilé- tas: “O que é ser cidadão? O que é ser gios – e o privilégio é inimigo da cida- um indivíduo completo? Ser classe mé. com a genti. não tenho estudos sis. A cidada. nia é esse conceito produzido na Euro- ferência do professor Milton Santos. Então. ao mesmo tempo em que de no Brasil ou em qualquer outro lugar. e ações políticas. de um lado e do outro ta dissimulada. dota- esta casa. eu lhe disse: “Não estará sendo facilitando a expansão do capitalismo. Unidos. Eu gosto de nenhum grupo. em primeiro lugar. que mesmo tempo. um equívoco seu convidar-me a vir fa. se gesta na Europa o progresso técnico. As classes Queria começar com algumas pergun. surgem ideias filosóficas viveu sempre cada vez mais sabendo o que as transformaram depois em ideias que é ser um negro e com uma propos.148 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos mento e reproduz na íntegra a con. na Inglaterra e na França. e depois pelo inalienáveis. dura. enquanto os pobres e todas as dia é ser cidadão? O que é ser cidadão minorias jamais tiveram direitos. aperfeiçoado durante séculos e que Eu estou muito envaidecido por redundou na produção da democracia e este convite e pela gentileza do dire. que me considero um intelectual outsi. que é um exemplo de algo que do pelas leis de um conjunto de direitos nós temos que preservar. coisa que é rara no Brasil. Perdão: a democracia nun- prazer de falar aqui. não pertenço a um arremedo de cidadão. jamais fizeram cidadãos. como uma espécie de opositor natural Primeiro pelo prazer de poder conhecer e eficaz do Estado – o cidadão –. Então. o que eu vou trazer é aça essa que não se cumpre porque. Assim. temáticos sobre o problema da negritu. o progresso técnico aparece lar no seu Centro?” E ele. Queria dizer. jamais conheceram a figura do cidadão. der. Não per. na questão negra. insistir no fato de que no Brasil as clas- lectuais. no estabelecimento de cada indivíduo tor do Centro Cultural José Bonifácio. como uma possibilidade de ameaça à leza que lhe é conhecida. O que aqui se chama por esse nome é tenço a nenhum partido. foi uma quase democracia. de enxergar essa do Atlântico: é a revolução nos Estados problemática. curiosamente. Essa ideia de cidadania surge. dentro não sou propriamente um especialista da qual viviam quase cidadãos.

Professor Milton Santos proferindo palestra no Centro Cultural José Bonifácio sobre As Exclusões da Globalização: Pobres e Negros. em 18 de novembro de 1997 .

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pois ideia de cidadania se afirmasse. que as convoca do mundo deve participar ativamente da para o gosto pelos objetos. apontando o des- ca. Ora. É que eu posso ser um invasão do consumo. a partir. que as aprisiona na to. gime autoritário indivíduos fortes. porque aqui. e do que é cada um diante do mundo. certamente o foram durante o re- na busca da defesa contra o consumo. o indivíduo forte é obrigatoriamente ção da ideia de consumo e da vontade de crítico – crítico dele mesmo. mas é uma conquista a partir da compreensão do que é o todo que substitui a noção de cidadania. do entorno. louvam o Código do é o indivíduo forte? Indivíduo forte é Consumidor. volvidos as pessoas consomem. produzir a democracia. que é excepcionalmen. dos anos cinquenta. Quando era possível que essa um dado do trabalho intelectual. crítico da história que se te grande no Brasil. certamente o maior deles. Eles seriam con. pois a cidadania necessi- que perfeitos. esse indivíduo forte é contra- os resultados. ou seja. que uma história como a brasileira se A ausência dessa multiplicação desenvolve a partir da não existência da de indivíduos fortes oficialmente seria cidadania. o grande fundamenta. crítico ser consumidor. como muitos que estão sumidores menos que perfeitos. cidadão pela ideia de consumidor. indivíduos fortes. e que assegure que a todos somos reverentes e obedientes ao sociedade seja feita de indivíduos do- consumo. ta de formas jurídicas de leis. muito mais que às religiões. mas tino. Mas há fendem a posição do cidadão. riado na sua produção. E o consumo é. esse indivíduo forte. As exclusões da globalização Milton Santos 151 classe média vem paralela à explosão em relação à libertação do espírito e à do consumo e à substituição da ideia de ampliação da consciência. indivíduo forte. pelo fato de mais O que eu quero dizer com isso é forte ser a produção do consumidor. indivídu- tamento com que até pessoas aparente. porque não nos defende. forte a expansão da sua fortaleza. cracia é a crítica permanente. é uma conquista. no constituição que assegure ao indivíduo mundo de hoje. é futuro. da lismo. está fazendo. e que glorifi- produção desse futuro. nos Es. ao mesmo uma diferença entre um indivíduo forte tempo em que se defendem contra essa e um cidadão. tem a condição de sobretudo. te se criam. a afirma. O indivíduo dentro era antiga das coisas. Ora. pois a demo- tados Unidos um pouco antes. Nos países desen. os completos. mas de. em países assim. . O Código do Consumidor aquele fortalecido dentro de si mesmo. Nós É dessa maneira que dificilmen- podemos ver hoje a alegria. o consumo é um emoliente. O que mente esclarecidas. de uma mos do consumo. o conten. é algo que da ciência de que o mundo é movimen- amolece as pessoas. é devir. pois sua completude. não propriamente os princípios. o que houve foi o contrário. Esse indivíduo completo. tados de direitos que lhes permitam ser Ele também traz consigo a dificuldade ainda mais fortes. mas enquanto nós somos consumidores mais não cidadãos.

A tal ponto que a discussão sobre que aceitam a ideia de se apresentar a pobreza no Brasil é uma discussão re. pois. dos maiores problemas dos negros no E quem sabe isso tem a ver com Brasil é que os primos dos negros não o nível da intelectualidade brasileira. não há ci- história do Brasil. ao médico. . foram comportamento dos parentes. Do ponto de vista políti- no caso brasileiro. sociedade como um todo. porque de Ora. com as o carimbo aí. mas políticos coerentes. demArcaria o rompimento geral da que uma das razões do atraso político sociedade. Da história do Brasil dadãos. pela sua instrução. O intelectual vem da mundo é. ao funcionário: “Olha os pobres. pois a história e a vida de de ver as coisas como uma totalidade. para poder localizar a frente época de se entender a sociedade como desse mundo tal como ele é. dentro dessas condições. indivíduo forte. não o querem to a cidadania era derrotada. com os oprimidos. como algo decorativo. com numa enorme parcela do discurso da uma carta ou um telefonema de apre- esquerda. Os pobres aparecem. É evidente que ser intelec- cotidianamente repetida. Creio co. Deve haver na sala algumas pesso- tornava-se vitorioso –. Um minorias. ser outra maneira esse pensamento não classe média não significa ser cidadão – seria eficaz. Mas a defesa dos pobres pleto. mas também tual significa também uma vontade modificada. ou qualquer sidual. fulano é meu primo”. das dificuldades em matéria conhecimento do movimento da socie- de partidos políticos e de termos progra. dias. menos ainda. ser. e tam- regimes comandados pelas classes mé. como um sentação. dade como um todo. sem antes dizer ao di- uma autêntica preocupação central com retor. esse indivíduo tem “Bagdá” dos pobres não era da época de estar cotidianamente atento ao que o do intelectual. em to o “Bagdá” dos poderosos como o seu exercício crítico. de produzirmos um projeto nacional. e a partir daí ele toma partido tenho de mudar como indivíduo com. preocupar-se com os que estão Ser um indivíduo forte é uma produção embaixo. lugar. E é dessa maneira não pode antecipar o entendimento da que as sociedades evoluem e melhoram. Não há posto de saúde. o consumo ser. que seja o lugar da postulação. bém da classe média como um todo. cada um de nós se processam num mun. de tal maneira que tan- do em mudança. depois se comportam assim. Por conseguinte. pelos pobres. repito. já que aqueles que o poderiam do consumidor e seu triunfo – enquan. Quem vai a um hospital. e do fato de que as da classe média que certamente não os regimes políticos brasileiros. inclusive. entre ser Porque ser intelectual é. Eu também um todo. mas que viram o que se quis instalar a democracia. vem também da Para o Brasil. em primeiro um indivíduo forte e ser um cidadão. um conjunto.152 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Há uma diferença. têm um telefonema útil. como um enfeite. Minha crítica é baseada no brasileiro. a um adereço. a uma repartição pública.

Mas isso já está dito e redito. A par. do próprio desemprego. E a saúde? É uma vergonha pois estou convencido de que isso vale no Brasil. ele es. Poderia co. ou melhorou. seja das minoridades. os negros também diferen. mas na socieda. têm dificulda. Então. quando sabemos que a cício da individualidade. que muito pouco. no lá embaixo. o sistema educacional é ini. eles nos dizem assim: é cada vez menos capaz de produzir um “Vamos estudar. nas oportunidades de cada localização. porque das mesmas oportunidades de promo. profissional. Assim. como ela se constitui. e pensamento. Os há séculos – e que se toma cada vez negros também deslocalizados. econômica. pelo processo educacional. com remuneração. das universidades. talvez. vamos melhorar”. Nada disso! Se o A universidade é cada vez mais repeti- Dr. o que há realmente educação é uma saída para os negros e é a inexistência do direito ao livre exer- para os pobres. pedir a uma sociedade insensibilizada ção social. . Haveria que lembrar. eu quero dizer é que esse discurso já meçar com uma listagem de situações não é eficaz. Aliás. como es- na cidade tem a ver com o preço do ses novos direitos que se criam a partir deslocamento. mais pró- oportunidades de emprego. não está aí. de como ela pode constituir-se. como o direito da lugares criminalizados. maior eficácia. mas tico equivocado. incompetente para cuidar. Fulano estudou. naquilo que muitos É curioso ouvir ainda hoje que a veem falta de estima. com mais força. ou de uma condição vimentação espontânea dos de baixo a social que lhe permitiu fazê-lo. Fulano. Uma medicina elitizada. colo. bém é um problema. apontam: “Olha o Dr. Os artistas des- educação. eu trouxe séries. tudou e melhorou”. é ini. mas não inspiração para renovar o seu trabalho. A questão Também não vou dar números. em sua base mesma. da menor ximos da história contemporânea. imagem e o direito do livre exercício des em ascender a lugares que para eles da individualidade. e os negros. não só em uma perda de tempo. cobriram isso antes dos formuladores gualitária. eu quero fazer mento do discurso dos negros. Creio que esse tam- se tornam proibidos. não sei por que continua sendo um ele- tir dessa ideia central. As exclusões da globalização Milton Santos 153 De maneira que os negros ficam tem desprezo pelos homens e que. vivendo em da era da informação. será tiva e pobre. Há que se inventar outros da cidadania mutilada dos negros: das discursos mais imaginativos. não apenas nesta sociedade caso dos negros. mais insensível com a expansão da cados em posição inferior na tipologia ideia de consumo – que seja sensível a dos lugares. O que algumas considerações. Creio que isso é do País e dentro da cidade. ou- Porque a minha localização no País ou tras coisas do mundo de hoje. a universidade gualitário. um caminho polí- função do preço da circulação. os trata como coisas. Ela teria de buscar na mo- produto do acaso. seja dos pobres. uma camada da população considerada ciados para baixo na circulação dentro naturalmente inferior.

e não sendo tratado como cidadão que eu vou propor agora. de base que permitem trabalhar a nossa mos extenuadamente no conhecimento questão. de dados políticos. que é também a ex- interferir na história concreta. cidadão se não sou tratado como cida- te desse problema central do Brasil. às vezes. É assim que nos promovemos. ta por Marx. imagino essa literatura. a começar pela minha casa. de atitude dian. Haveria três dados de brasileira? Não é hora de nos gastar. de dados sub- são gramatical entre o que é precon. tenho certeza de que neste País não sou te mude. Mas eu uso tranquilamente indagamos sobre que sociabilidade e a série nos meus trabalhos – todos nós que “socialidade” existem nessas casas usamos. se eu não for capaz de nha experiência. é assim que nos tomamos a nossa questão. “socialidade”. e que vai ser raramente serei tratado como uma indi- o centro do que vou dizer depois. mas isso? O que estou querendo é que a gen. de estatísticas. A “corporidade” é feita de dados obje- se vou me preocupar com essa discus. Essa categoria de formação so- Isto é: como as pessoas vivem juntas em cial foi proposta de forma incomple- sociedade. mas nos ca diferente. inclusive sobre a questão E o que estou trazendo é fruto da mi- negra no Brasil. Não va. Rios de tinta correram pessoal. ceito. Mas especialista. não que é que eu posso fazer com uma série tenho formação adequada para propor. junto com os homens. porque ninguém negros separadamente. o que está em questão é a “socialidade”. que estou chamando de individualida- te às outras presenças dentro de um País de e o terceiro é o que chamamos de que se chama Brasil. não dos periência dos outros. outro é o é de levar em conta a sua presença fren. O que exatamente buscamos Racismo. O que posso fazer com que sou uma individualidade forte. Ora. cidadania. pelo espaço. Objeto de 40 mil colóquios. jetivos. Tenho instrução superior e pos- e a universidade sorriu contente ao ler so apresentar um documento. lem para nada. definir na introdução dessas palavras? nação. eu pro- é assim que conseguimos empregos nas poria três dados de base para estudar universidades. e as Desculpem evocar o meu caso suas diferenças. a cidadania. Eu disse que não sou conhecidos e. e cada não apenas nos defrontamos com casas coluna se insere uma realidade históri. Eu não posso ser que é a universidade. que também é demArca- ses de mestrado e doutorado. é que vidualidade forte. Um dado de base é o que estou exclusivo da condição do negro. O dão. discriminação ou racismo. as formas de viverem juntas. famosos. se eu não for capaz de Quando chegamos nessa área. tivos. dar valor histórico a cada coluna. que têm uma cara parecida. aperfeiçoada por Lenin. vive isoladamente. Então. A hora chamando de “corporidade”. da pelo território. um cidadão completo. preconceito. a individualidade.154 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos As séries são muito frequentes nas te. a sociabilidade para correr junto dessa adormecida pelo Partido Comunista da . mas da socieda. não sou antropólogo. discrimi.

pobres. cultural – modelo cívico. Esse debate se empobreceu no que o marxismo brasileiro é um mar. segundo a qual temos que ajudar estuda a maneira como cada país se o modelo. ordem. o debate em cada lugar e em cada época. Brasil porque se pede aos velhos que xismo do modo de produção e não da cuidem de si próprios. quando o modelo econômico subordina O mo- marxismo era uma doutrina em voga. As exclusões da globalização Milton Santos 155 União Soviética e renascida a partir dos A herança nos traz. assim como Ainda assim. um modelo cívico su- ceses e de alguns latino-americanos. segundo a qual E era no México e na Venezuela que quem não está de acordo está contra havia esses estudiosos. basta ver agora as crises o México não estava tão potente – e da economia brasileira e a palavra de o México fica na América do Norte. cegamente. Em todos os tempos. O modo de produção aceita essa demanda hedionda. que aceitam o debate nos termos em como perspectiva. balterno ao modelo econômico. De inscritos no processo político atual e modo que a análise deveria ser feita em para o qual as vozes dos partidos de três tempos: o passado. negros teria muito a lucrar se fosse re- cionais. por exemplo. que está colocado. e a sociedade formação social. estudadas em conjunto e tendo escrita a partir de uma visão que pro- a referência do tempo. fomos prejudicados atrofia o debate da questão da função na análise da realidade brasileira. Isso está ligado a esse peso forma a partir do seu território. Um mundo datado porque A subalternidade do modelo cí- o mundo é que é a razão do que se faz vico atrofiou. não o mundo tomado questão do modelo cívico. o mundo. para ci. Sem- notadamente do norte da América do pre foi assim. são teorias do modo de negros são três genocídios que estão produção e não da formação social. o abandono programado dos tar apenas esta. como herança. da previdência no Brasil. parando. como a situação e o futuro. facili- é uma realidade histórica. o abandono programado dos famosa teoria da dependência. da sua do modelo econômico em oposição ao histórica econômica. como o Brasil. Creio que a história dos mas sem esquecer as relações interna. delo cívico. As teorias que na América Latina lação – porque é isso que se está pre- e no Brasil tentaram explicar a realida. . oposição são praticamente nulas. isto é. por- o presente. A formação o Brasil. Porque naquele tempo. como a velhos. social. A realidade segundo o qual os brasileiros assistirão geográfica é a formação econômica e tranquilamente ao genocídio da popu- social. pusesse uma nova escrita com base na O mundo datado. num País estudos de marxistas italianos e fran. o Sul. pública. mas não é tando a instalação entre nós do projeto uma realidade geográfica. e a frase. dita de cima. por. dita até nas oposi- econômico-social é uma categoria que ções. O abandono programado dos de latino-americana e brasileira.

Eu já não falo em dia. como são escritos e como são aceito essa comparação entre as duas utilizados. no territó- ameaça de que todas essas diferenças rio local. é um fato comum no mundo pobres. A política é feita pelos que. e esse é um dado vernadas. Falo da morte da política. Os pobres fazem política todos inteiro. Mas a luta nível dos municípios. nem do Es- educação que preparam para o mundo tado. . Essa ingovernabilidade veio central na sociedade brasileira. pações coletivas. Hoje minoridades. e essa é a grande sorte do Brasil. Depois a imprensa e Desorganizar em todos os sentidos. os negros estarão numa posi. dos negros. As mulheres tiveram enormes da federação. mas que Tudo isso se agrava hoje com a esmaga as outras equações de emprego democracia de mercado. pior ain. presas. classe dominante. e a fazem fora da desorganizar a vida em cada um deles. porque o mundo que se está instalando Felizmente. Em todos os níveis: no nível coisas.156 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos É por isso que se torna pobre a que mencionei. conforto. mas é um dado das grandes em- que se está instalando. e pior. batalha entre os municípios para atrair nante. no nível dos estados e no progressos. É por isso que o Brasil se a crescer. os negros ordem indispensável à sua prosperidade não têm de esperar uma possível volta ao e introduzem um fermento de desordem crescimento no Brasil. adquire enorme impor- discussão. Por conseguinte. quando minorias que devem ser estudadas à da se instalam. Não públicos. sobretudo. Buscam uma se ampliem. esquecidos ainda que retorica- Falarei agora de outro elemento mente digamos o contrário – de preocu- que é central na sociedade brasileira. todos merecidos. na história local. mas em nosso lugar da classe média que se prefere concentrá-lo em certas partes da faz política. ela é feita pelas grandes empre- a sua luta de dentro da classe social do. Há diferentes concessões para se instalar e. Os negros sequer têm os meios empresas de grande porte e que vem de fazer a sua luta. das tância. a partir de uma equação de emprego que lhes é peculiar. Pri- certo tipo de intelectual vêm nos falar de meiro. Não existe isso. porque não têm acesso às fontes de mais um dado dos políticos. a respeito dos pobres. mas que no Brasil. pelas razões os dias. porque as mulheres fazem política. porque não que as nossas cidades não são mais go- têm o famoso telefone. também se faz política no Brasil. aliás. cialidade”. tornou um país ingovernável. Se o Brasil voltar em tudo mais. há outro lugar onde não se preocupa com a difusão do bem. exatamente do fato de a política não ser da. Não é o caso dos negros. não são os governos que fazem das mulheres. Basta ver essa que fazem é de dentro da classe domi. Esta traz a que têm base na cultura local. pois estamos buscando to- sociedade e convidar as demais a aceitar dos os dias um pouco mais para o nosso o peso da propaganda. porque elas chegam exigindo minorias. Não é -estar da sociedade como um todo. Estas decidem sobre os orçamentos minante. mudam a natureza da “so- luz da história. sas. É por isso ção ainda pior: de um lado.

enquanto outras são atreladas nessa atmosfera mercantil. que é o úni- . De tal E por outro lado ver como os negros. manifesta cujo comportamento um dia ou outro se uma diversão em relação aos objetivos distingue do comportamento dos lidera. e não vou me referir particularmente a Eu ando pensando que. agravado pelo fato de a geopolítica ter Quero lembrar também que uma deixado de ser um dado dos generais e boa parcela das organizações negras de diplomatas. organizações. outra. É o marke. mas muito ligado à maneira como elas são. mas também classificá-las. De tal maneira que eu imagino – e tir sobre a necessidade de incorporar ao esta é uma proposta de conversa com os nosso trabalho intelectual. Evidente que pólis aparece como mercado e a ágora é as respostas serão diferentes em cida- desprovida de projeto. Paulo. por definição. São meno geral no mundo inteiro. não vou esconder. por defini. pois a orga. passando a ser confiada no Brasil é atrelada ao aparelho de Es- a economistas e publicitários. se movem. o progresso na produção da cons. estimular as -se com os pobres deste País. mas agu. Es. Eu me refiro de forma indicado para a solução das crises. de uma forma ou de indivíduo nas classes médias. o que é uma dificuldade no seu maneira que se fragiliza o indivíduo manejo. isto é. Belo Horizonte. que aparece como um remédio bal do mundo. ademais dos movimentos negros. Rio de Janeiro. ao mesmo tempo. As exclusões da globalização Milton Santos 157 que será ampliada quando os intelectu. As organizações são. Isso é um fenô. mas também a partir certo pendor de uma certa liderança a das manifestações desorganizadas. ou ting. um lugar do consumo eleitoral. são limitantes de qualquer movi. ciência vai se dar mediante a ampliação Quero referir-me também a um das organizações. não são a mesma coisa. E a reces. as conheço bem. com a produção da sua própria consci- nização começa por eleger seus líderes. que nheiro para fazer o fazem. por conseguinte. maneira que os candidatos que têm di. É dessa tado. porque claramente pelo fato de as eleições não o comportamento das organizações está serem um exercício democrático. mas creio que dizado em países como o Brasil. a instituições que têm uma visão glo- são. em que os mais fracos Fundação Ford e que têm unidade de são colocados em posição ainda mais movimento. ência e que. sua inclusão numa parcela da sociedade mento. pois é indispensável fazer Essa morte da política se mostra isso. mas não projeto. é clara. zão para. Estou fazendo uma análise frágil. sobretudo porque não atual. que. não está preocupada ção. no mundo nenhuma delas. Isso é isso é importante. buscar as formas de sua inclusão como sas organizações. De modo que a gostariam de mover-se. des como Salvador. Estou dizendo isso para insis- dos. centrais. negros do Brasil – se não haveria ra- ais descobrirem que devem preocupar. a todas as or- por natureza um lugar de gravação das ganizações que são subsidiadas pela desigualdades. um freio às inovações.

me enriqueceria se o resultado dessa Quando me convidaram para fazer parte análise pudesse ser orientado na condu. e mas não se deve ter nenhuma ilusão. A África é uma referência. agora tão de flor que conhecemos dentro do País fortemente estimuladas. tembro?” “Isso não! Queremos você ca- contro que reuniu tantos dos nossos lado. Que lição tenho cipar dessas coisas. globalização da luta negra. Mas os que estão ali são a grande cluímos e que vamos refazer. ca. o entendimento do que é o (N.. isto é. Não Trata-se de um processo de água acredito que as comparações. antes de tudo. porque aí estão as cia ao Seminário Superando o Racismo soluções. e antes havia me recusado seu. A história na qual nos in. Eu sei perfeitamente como porque somos. em que convidam para falar uma referência. consciência para ser cidadão. A América do Norte é -moderno. em relação a e que agora se completa fora dele. mas a reunindo figuras eminentes do Brasil. dotado de – Brasil.E. inquieto do ponto de vista histórico. É a razão pela reunião que vai se fazer no Brasil em se- qual não aceitei estar aqui nesse en. porque faz Creio que o convite a fazermos parte da pós-modernidade.. porque lhes apare- eu da África do Sul? Que lição tenho eu ce uma oportunidade de contribuir. te ainda –. Eu outros países antinegros. eu lhes disse: “Ora. sobretudo no período pós- somos africanos. entendo que as pessoas aceitem parti- lor que lhes é atribuído. África do Sul e Estados Uni. No máximo. tenham o va. é que se organizam coisas no nível in- ros. decide”. enquanto os de maneira diferente é um convite di. é a história maioria que quer outra coisa. mas não vamos repetir o sujeito que pensa diferente. mas que do Brasil. recursos vão para as organizações que versionista. Mas a política só pode como funcionam hoje e as relações in- ser feita a partir da realidade brasileira. na direção da política. quanto inúteis. Janeiro de 2 a 4 de setembro de 1997. [Referên. reduz os itens do reproduzem o que a inteligência central conhecimento da problemática e pro. fala. O indivíduo forte. e tudo que fizermos tem que ser feito para produzir mais um livro. realizado no Rio de esse trabalho fosse feito por mais gen.158 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos co que eu posso fazer – e gostaria que dos no Século XXI. nossa questão central é a questão políti- da África do Sul. de dos Estados Unidos? Sem dúvida me conhecer melhor a problemática global. Há uma um ano se criou nos Estados Unidos. disso. Ele vem e a sua história.)] Brasil e do que é o negro no Brasil. mas não ternacional. Mas esse a participar como membro importante é um problema dessa chamada globali- do comitê dessa organização que há zação da luta negra brasileira. Então eu lhes disse: “Vocês me duz mais alguns autores. assim mesmo bate palmas. ternacionais. dos Estados Unidos. brasilei. necessita .” Não preciso mais disso. publicamos um artigo camaradas. aos quais são dariam meios para eu poder conversar pagas viagens para comparecer a esses com os movimentos negros? Teria eu famosos congressos internacionais tão alguma participação na organização da caros. eu conheço ção da política. sim.

custe o que custar. meio da política. os outros trabalham e o negro é preguiçoso. mas para mostrar as minhas ideias e defendê-las. O intelectual não é ção da condição de inferior: um artista de vaudeville. nos últimos seis séculos se fez em torno do discurso. Agradeço a Milton Cobra ter me convi. numa coisa ou em ou- tra. indolente. vou dizer não tem nada de pessoal. mas ritária. por enquanto. da produção de leis na construção da democracia. mas não que garantem a sua força. e estarei outras coisa: o papel do discurso na produção vezes para discutir questões como esta. . eu jamais vou dizer MILTON SANTOS que os negros aceitam. pois esta. O que eu autoritário que não acabou. Eu não estou certo de que os ne- Mas tampouco quero estar certo. Ele é forte dentro de si. por mos vivendo ainda numa situação auto. dificuldades de exprimir a sua incon- dito. Sobre os negros aceitarem a cristaliza- esse é o meu papel. favor. Então. a Não sei por que vocês tiveram expansão do crédito. Eu creio que a classe média tem ser forte em face da sociedade se faz por tido um papel negativo. É um equí- estou certo de estar certo. creio que o terial para a Valorização da População atraso na construção da democracia se Negra: deve ao fato da construção dessa clas- se média urbana. Sei que ela desagradou a todo mundo. da história é extraordinário. É aquela velha história. e agora ela se faz em tor- no desse discurso único. Acho que é preciso mudar oportunidade que eu desejava há muito o discurso. As exclusões da globalização Milton Santos 159 da política. faz muito tempo que eu queria ter forma.. eu vou parar aqui. Sobre a contribuição da classe média para a democracia: Sobre o Grupo de Trabalho Interminis- Nas condições atuais. não vim aqui para mostrar as minhas pernas. tínhamos o regime tanta esperança nesse GTI. não aguento mais. A história Muito obrigado. é insuportável. nessa ela teve um papel central. o discurso do OPINIÕES DO PROFESSOR mercado. mas não tem a menor importância.. Estou aqui hoje. essa conversa. Não gros aceitam essa condição. cado. essa é a minha forma de engaja. Ao mesmo tempo em que tínhamos á expansão do consumo. O discurso da lamúria eu tempo. Outra mento. mas tenho o voco! Não aceitam! Eles sabem das dever de exprimir aquilo em que acre. Esta é uma formidade. Refiro-me à democracia vista de outra dado. na construção da democracia de mer- Pois bem.

160 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Na primeira grande manifesta.. vocês mesmos”. . eu não entendo por que da República vem tranquilamente e diz. faz ção pública desse grupo – formado por dois anos. o presidente foi lá proferida no Centro Cultural José dizer “não contem comigo.) Então. (. não tem respeito por essa coletividade): “Virem-se. num discurso que não preparou (e um não entendo! Estou seguro de que os lí- homem de Estado que vem falar de uma deres e intelectuais dos Estados Unidos coletividade sem preparar o discurso não iriam. em novembro de 1997. creio que falta pessoas agradáveis. Ora.. o Presidente negra. vocês vão a essa reunião. que a gente gosta seriedade. Agora. Francamente. falta respeito à comunidade de tomar café com elas –. contem com Bonifácio. Espero que vocês tenham •  Palestra do professor Milton Santos imaginação”. E a prova está aí.

como assinala Aries (1977). tinham oportunidade de viver e expressar seus processos de luto. a morte se ergueu como marco da falta de onipotência dessa mesma ciência. figura que realça a possibilidade. enquan- to membros de famílias e comunidades. pois a Elisa Larkin Nascimento cada descoberta de novas técnicas e tec- nologias ela verifica que sobre a morte . mArca sua evolução desde a época me- dieval. O legado de Osíris* O processo de ocultamento e dis- tanciamento da morte na modernidade ocidental. com seu objetivo de dominar o universo por meio de métodos precisos de cálculo e controle. e as pessoas. Para a ciência moderna. em que a morte fazia parte da vida familiar e comunal. não de dominar. A imagem é de uma “morte domada”. mas de elaborar formas de convivência com essa realidade inerente à vida humana que é a morte.

Deixando-a escondida ras sobre o tema. sofrem até hoje a falta da referência dagar a utilidade de considerar a figura que lhes permita construir uma auto- 1 A Aids nos aparece como exemplo contundente. 2 Ziegler (1977) aponta. vale observar progressiva expulsa da realidade vivida que.. 3 Ver os ensaios reunidos por Maria Kovács (1992. de mais um fenômeno relegado à mar- zado: “criar-se uma verdade para essas gem da realidade. a construção de novas formas de lidar Prole de tal processo. passamos matriz4. desreali. e Ziegler (1977) dedica urna parte de seu livro à entu- siasmada exposição de suas impressões sobre o culto aos eguns e o axexé no Brasil. os autores tendem a não se dar tudo aquilo a que não se atribui a gran. 4 Chamado Livro Egípcio dos Mortos merece menção esporádica. Significando fra.) que permite a todos. estampava-se nida ou não. ao estudo daquelas elabo. uma “tanatocracia” presidida pelos médicos. a tentativa. com ela convivemos ine. no esforço vilizatória milenar de todo um conti- de identificar possíveis alternativas para nente6. 5 Centenas de milhões de almas assassinadas e torturadas. as comu- com a morte. Esse fato nos lembra o processo Nesse como em outros contex- identificado pela fenomenologia em que tos.. ver as de Chancellor Williams. magistralmente demons- xoravelmente3. ba. vimento. no contexto das discussões e leitu- socialmente2. europeia realizada na África trouxe Implica um dilema sério tal mo. longa duração5. De início.162 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos não consegue vitória1. ricas. nidades de origem africana nas Amé- radas em outras sociedades. Essa situação nos leva a trada por Cheikh Anta Diop. por esta. do mapa da humanidade a herança ci- cado da morte e nos remete. às mitologias “primitivas” como catego- ção do luto e da dor. Martm Bernal e Molefi Asante. e. em condições das mais hediondas conhecidas pela história humana. A escravatura mercantilista blica” (Critelli. Nesse sentido. 6 Além das obras de Diop.1996). 1996: 85). que exercem um poder quase absoluto sobre o processo da morte. conta da existência de uma matriz deza e dignidade da relevância pública africana (fala-se apenas em civiliza- está sujeito a ser posto à margem da vida ção ocidental ou oriental). Nestas. sem esfera pública por meio de processos culpa. bem como a evolução de mutações de microorganismos. ria mais ou menos genérica. . pouco se refere a essa nos recantos das instituições. com exemplos contundentes. da morte no contexto da matriz civiliza- casso e vergonha. consequências trágicas imediatas e de vimento em relação à morte. banir tais acontecimentos ou fe. as referências sendo geralmente a tentar ignorá-la e a reprimir a elabora. possibilitando sua resistência aos medicamentos e antibióticos. pois. nos propomos in. a morte foi de forma tória africana. banido para fora da situações (. há séculos deflagrados e ainda em mo- nômenos para fora da esfera da vida pú. o moribundo e sua família. pois se trata coletiva cotidiana e. sobretudo na América Latina. de apagar uma série de reflexões sobre o signifi.

O legado de Osíris Elisa Larkin Nascimento 163 -imagem digna de respeito e auto-esti. que ela. 1988a. sem distinção. afeta a visão que ma7. da hoje continua majoritário não apenas Veicula-se constantemente. quartos de sua existência constituiu a política. entretanto. 1978. revelará a imensa amplidão de seus aspectos que têm matrizes nas religiões e tradições seculares de origem africana. científica. é notória a distorção desses dados. sa “cultura negra” limita-se à esfera cultural. algo fundamental para a compreensão dos saem prejudicados. com preferência para a mais clara. na O resgate das tradições intelec- acepção coletiva. uma forma de morte tuais dos povos africanos em contextos em vida imposta. e ain- lógica. morte ajuda a reconstruir a história de mento humano de indivíduos e comuni. à procura de uma identidade nacional. a ampla e profunda presença africana na formação da língua brasileira passeia por seu vocabulário. Poderíamos dizer que esse pro- cesso de inferiorizarão constitui. ou a cultura chamada erudita. mas como di- do sistema de ensino. por meio no sentido demográfico8. sem rosto e sem identidade. econômica. econômico. Julgamos. A inferiori- próprio a essa identidade o protago. Na formação do de modo geral pelas desgastadas ca. (Mortara. e na própria perso- do lúdico. Tentando fundamentar tal imagem uma nação constrói de si mesma. Esse fato resulta da ideologia de embranquecimento. na sua especificidade. 1992. 9 A observação atenta daquilo que compõe a cultura brasileira. sempre problemático. 1988. 1996. . To. definida gente e de sua cultura. esporte. como a de “não-brancos”. agregando-os numa categoria só. Lopes. linguistico. 1970: Nascimento. Não figura como atributo nalidade. que traz consequên. 1988. da mídia e das mensão específica da cultura brasileira9. de sua na chama “identidade negra”. verificam que o papel des. dada a tendência à sua minimização resultante da preferência das pessoas pardas em se identificarem como brancas. 1980). por exemplo. demográfico. 1995. zação do grupo étnico que durante três nismo na área intelectual. sua participação digna e ativa em todas dades. o ethos nacional. noções popularmente difundidas. entre as mais nocivas formas de discriminação eurocentrista a tendência a tratar todos juntos. segundo as classifi- cações desse Instituto). histórico. na medida em equilibrada das heranças civilizatórias 7 O mesmo vale para os povos indígenas e ex-colonizados em todo o mundo. a origem africana tegorias do ritmo. debate. Brasil. que valoriza os grupos étnicos de acordo com as gradações de sua cor. vestuário e sobressai em quase todos os sentidos: culinária. Luz. Não apenas os afro-descendentes as dimensões da experiência humana. técnica e tecno. 8 Embora as estatísticas oficiais falam em 45% de afro-descendentes no Brasil (“pretos” e “pardos”. grande maioria de sua população. a distorção. como a discussão atual sobre o tema da cias bastante sérias para o desenvolvi. sintaxe e expressão verbal (Sodré. a gera um complexo de inferioridade que imagem do africano selvagem inca- contribui para a persistência de um certo paz de engendrar uma civilização hu- mana: o eterno escravo construído à sentimento de frustração com o perene base da distorção do registro histórico. sofrem os prejuízos dessa distorção.

linguagem litúrgica das religiões afro-brasileiras. donas de tradições O grande número e variedade tecnológicas e intelectuais altamente dos povos e culturas encontrados no avançadas. das Américas. Théophile Oben- cio de reflexão nesse sentido.164 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos que compõem as sociedades e culturas semitas ou asiáticos. tinham seu esteio original continente africano induzem frequente- em Kemet. então. pois a diversidade separando o Egito (Kemet) do restan. e (Kemet) foi construída por africanos de algumas práticas relativas à morte e seus antecedentes encontram-se na identificadas em diferentes tradições África Central. . localizando-o no Oriente cia. pois as ga. sa civilização. e França nunca desmentiu a existência vilização à obra de povos imigrantes. Terceiro: as posteriores civi- lizações africanas. que norteiam o presente trabalho. além de comprovada o princípio fundador edinamizador da cientificamente. historicamente comprovados. para designar fenômenos comuns a muitas tradições africanas. este úl- um ethos cultural especificamente afri- cano. está registrada no seu linguagem (Exu) e o sacrifício como nome Kemet. Molefi K. Partin. 10 Utilizamos. Pri- do. pretendemos realçar três negro-africana dos construtores des- temas relevantes: a força vital (axé). da língua brasileira. Ademais. mas apenas tribos isoladas com timo exemplo ilustra que a pluralidade suas culturas específicas. de uma civilização ocidental europeia. de etnias e nações entre Sérvia e Sué- te da África. Alemanha Médio e creditando sua avançada ci. Segundo: a identidade da África. estabelece alguns elaboração do vasto tema da morte nas pontos. noção. Diante da persistência desse tipo de Neste pequeno ensaio. foi de culturas não impede a existência de construído todo um elenco de teorias uma matriz africana. Grécia e Grã-Bretanha. Asante e Ivan van Ser- limitações de espaço não permitem a tima. que significa “terra dos elo entre as diferentes ordens do cosmo (ebó)10. em particular do Brasil. da mesma forma que a ci- mente à noção de que não existem ma- vilização ocidental tem suas raízes nas trizes culturais em comum compondo antigas Grécia e Roma. cumpre observar que o trabalho demos apenas contribuir para um iní. entre outros. na ortografia brasileira. Aliás. preten. Não os italicizamos por entender que fazem parte. como tantos outros vocábulos africanos. negros”. filosofias e culturas africanas. da referência à civilização meiro: a civilização antiga do Egito africana clássica do Egito (Kemet). de Cheikh Anta Diop. e não africanos. os termos derivadas do iorubá.

apenas era Ísis recolheu os pedaços. verificando se viveu de acordo mais destacada durante milênios. caso con- deus do sol (Budge. o dono ganha- melhando-se a Rá chegando. nem do inferno. Osíris preside o julgamento do tigo11. instruída pelo deus além. e o Li. que a concepção de todo o local partiu 11 O conjunto de estudos que estabelecem esse fato reúne todo um elenco de classicistas europeus do século passado com pesquisadores mais recentes (Van Sertima. Sua história é o mito fundador cumprir corretamente essa passagem da morte. onde se processou a reconstituição do corpo desmembrado de Osíris. na balança divina com a pena de Ma’at. Parece mais da palavra e do intelecto). Para uma breve referência em português. insuflou-lhe urna espécie de extensão dela. Não havia a figura do casti- cantos do mundo12. Osíris tem sua origem perdi. Esse além não se localizava abai- Thoth (dono do sopro divino e do dom xo nem acima da terra13. como fez Ísis com o de nismo e o budismo indiano têm raízes Osíris. verdade e direito da qual Osí- presidia atos rituais e liturgias comuns a ris era guardião e que fundamentava a faraós e plebeus. seu irmão. 1985. asse. O Uma das divindades mais antigas Livro dos Mortos reúne hinos. O legado de Osíris Elisa Larkin Nascimento 165 1. Budge. ressurreição e vida eterna não e alcançar a vida eterna. reconstruiu o vedado o acesso do falecido à vida no corpo de Osíris e. Osíris pas- sou a presidir os caminhos da passagem dos mortos para o mundo do além. no esforço dos egípcios de remotos. . e procedimentos acumulados ao longo da nas culturas pré-dinásticas de tempos de milênios. as só das tradições africanas. Sua irmã e esposa go eterno. 1993: 38. há diversas versões em que os detalhes diferem. Mais matriz ética da nação. mas de várias ações indicadas visam reconstruir o cor- religiões ocidentais e orientais. 12 Como todos os mitos. 13 Parece que era localizado ao norte do país. estabelecendo inúmeros paralelos. ressuscitando-o por vida aqui levada pelo falecido sugere meio de preces e cantos. e (. po do falecido. 1985).. Osíris era a divindade falecido. cações e hinos em que os vivos podem Osíris teve corpo retalhado em inúme. Van Sertima e Rashidi. ver Larkm Nascimento. preces da África. Osíris e o Livro Egípcio dos Mortos Uma vez ressuscitado. sua morte seria definitiva nos dois mundos. talvez em Busíris. Em Kemet. Por demais detalhados para serem atribuídos à mera coincidência. trário. 1994. e verificado o peso igual. com os princípios de Ma’at. e onde era executada todos os anos a cerimônia solene da montagem da coluna vertebral desse deus. entre a VI va vida eterna na terra dos deuses e se- e a XVIII dinastias. nos ecos de sua influência no mundo an. 1969: 148). Posto o coração que o rei do submundo ou dos mortos. e estes espalhados quatro favorável.. o cristia. a se fundir com esse guia viagem no barco divino. suplicar a Osíris. a filosofia vro dos Mortos comprova que sua figura de justiça. O Livro dos Mortos traz invo- Assassinado por Set. rainhas e servas. Em parte. pedindo o julgamento ros pedaços. Osíris era também um deus solar.) a de novo a vida.

1993: 32. rizonte oriental. Ver acima. 14 “Os mortos se levantam para ver-te. seus corações estão em paz. Buda e Cristo milênios depois. assim garantindo a continuidade fa o trigo. o que gera um movimen- to linear. atravessando as ge- comida. que és Eternidade e Perpetuidade. de cular da vida da espécie. assim como a morte bioló- O ciclo da morte e vida eterna re. a novas braços sustentam o Disco do Sol. cujos cedem lugar. mortalidade. o indivíduo humano tem uma as mesmas roupas e vivia como eles”. A imagem do nascer do sol nas te. saudando a luz do dia e sua chegada ao reino eterno. no 14. visto que te contemplam. símbolo da vida. bebia a mesma bebida. 15 Da mesma forma que Krishna. ó tu. vestia rações.40). respiram o ar e olham para o teu rosto quando o Disco se ergue no horizonte. Do Tet.” In Budge. O morto. noite e se levantava no outro horizon. por meio da morte. ao nascer do dia. que encerra o corpo do defunto Osíris. gica dos indivíduos garante a imortali- produzia. se move numa viaja na noite de sua morte. a morte e a ressur- título correto do conjunto dos principais reição de Osíris15 vieram garantir ao ser humano a possibilidade de superar essa textos é “Capítulos do sair à luz do dia”. o O sacrifício. ele cei. vidas. Ou seja. Por isso. recortando o movimento cir- A viagem do morto reproduz. 1958: 19). o além reproduzia Entretanto. ordem cíclica” do14 no momento em que surge no ho- (Arendt. história de vida confinada à progressão não havia hierarquia entre seres eternos do espaço do tempo entre seu nascimen- (Budge. As gerações procede o ankh. to e sua morte. 1993: 39. O morto lá atinge essa imortalidade na sua conti- vivia como os deuses: “comia a mesma nuidade biológica. então. e é louva. “A mortalidade forma alegórica e metafórica. . se a espécie humana exatamente a vida terrestre. por sua vez. ara a terra.166 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos de uma nação de agricultores. alimenta. vinhetas dos papiros constitui uma elo- Incorporando o ciclo agrícola. embArca e move de alguma forma. num universo em que tudo. a vida base da morte. da espécie. colhe cereais. lidade inerente à natureza. o ciclo do dia terrestre: dade da espécie no movimento cíclico o morto se punha com o sol. se é que se identificado ao deus Osíris. tange os bois. em que quente expressão desse fato de se erguer a morte alicerça e alimenta a vida nova a imortalidade – a luz do dia – sobre a que surge e. viajava na da natureza. tronco de árvore eterna dos egípcios espelhava a imorta. junto aos deuses. o ciclo é isto: deslocar-se numa linha retilínea do sol no seu morrer e nascer.

Os seis macacos representam os espíritos da aurora. postado entre Ísis e Néftis. 1993: 166). ajoelhadas em postura de adoração. uma de cada lado. que encerrava o corpo de Osíris. (Esta ceba é di Papiro de Ani. ou tronco de árvo- re. cujos braços sustentam o Disco do Sol. . O Tet. estampa 2) (Budge.O NASCER DO SOL. Do Tet procede o emblema da vida.

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concebida dois mundos. A oratura da liba- palavras ou frases que conotam uma ação ção. pessoa (Santos. que permite às coisas terem orientação. Expres- Quando morre uma pessoa. seu são nítida disso está no universo iorubá. 1996). a força vital que potencializa toda a Esse fato corresponde ao conceito de dinâmica do cosmo. no invisível. terem direção ou terem obje- tivo num sentido preciso). o visível e o invisível. 1977: 221). 1975: 113). ca no aiyê (universo físico concreto)19. juntar-se aos reserva um pouco de comida para os ancestrais) (Mbiti. axé. as línguas16 africanas usam dos egungun iorubá18. existem sença mantida próxima durante três ou muitos aspectos que lembram o mito de quatro gerações. em todos os aspectos da vida cósmica. juntos compondo um cosmo povoado de compondo-se esta de seus fluxos e inter. axé de pessoa física termina. axé (princípio da realização) e àbà (“princípio que induz. o culto aos egungun é presidido pelo Alaapini Deoscóredes Maximiliano dos Santos. sua pre- Nas tradições africanas. as criaturas vivas e. que de forma extremamente complexa17. constitui uma das mais ricas uma mudança de plano de existência. Tal força. no contexto banto. a existência físi- falecido mantém o seu axé. inclusive na forma de Osíris. Nele habitam os orixás. para o buzima (princípio da vida biológica) e o magara (princípio da vida espiritual). três aspectos: iwà (principio da existência). 19 O orun “é o doble abstrato de todo o aiyê” (Santos. é consultado em momentos difíceis e é sempre lembrado. para onde vão os ancestrais. como no princípio fundador da filosofia africana: modelo kemético acima mencionado. não uma destruição total (partir. desaparecer. kintu. a começar pela universalidade da convivência direta em visitas realizadas ideia da vida após a morte. para Santos (1976). e os ancestrais. onde o no plano espiritual. Para expres- mediante cerimônias e festivais como o sar o morrer. fortalecendo-os. força vital continua no além. ela expressa um produz o mundo dos vivos. chamar atenção para o fato de que na África se falam línguas. O legado de Osíris Elisa Larkin Nascimento 169 2. hantu e kuntu. mutado. e fontes da tradição intelectual africana nunca da extinção ou aniquilamento da (Asante e Abany. 18 No Brasil. O an- na África cestral preocupa-se com seus familia- res vivos. mas sua onde o orun (mundo invisível) espelha. pois é impressionante a ubiqui- dade do hábito de se referir aos “dialetos” africanos. perder a batalha. 1977: 56). se derrama um pouco de bebida. trata-se de ancestrais. dentro de um sistema de quatro conceitos básicos de classificação linguística: muntu. atender ao chamado. . já trans. Ideias e práticas relativas à morte deixaram atrás. Jahn (1975) aponta. ou se afundar. ainda. 17 O que aqui tratamos como conceito do axé envolve. que permite o balanço eterno do universo. cerimônia de homenagem em que ou um evento. divindades ligadas às forças da natureza. podendo dividi-lo com os que Não nos cabe enveredar pelos detalhes 16 No Brasil é preciso. re- uma crença primitiva. seres portadores de axé: no mundo ter- câmbios a manter o equilíbrio essencial restre. o Mestre Didi. as divindades e os ancestrais. Mbiti observa que a terra do Longe de se reduzir essa ideia a além. está se complementam e interagem entre si.

bara-orun. no espelhamen. o princípio 110. o da interação e intermediação algumas gerações.170 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos desse processo dinâmico de duplicida. mundos. Khaibit. ele passa a encarnar um segundo criado imortal. comumente associada à poder da comunicação (Santos. Griaule. . mas não identificadas no texto. entre a visão iorubá e mento do destino do indivíduo (Santos. agressão contra ele (Mbiti. com ção divina ou humana. oriinu. Existem em todas as culturas afri- Ka. 1993: 34-16). As divindades e os ancestrais são interme- diários entre Deus e o ser humano. exu-bara). te como algo natural. ao interagir com os vi- ou natural. categorias de duplicidade do ser (Khat. morto. que e pertence ao mundo invisível. Thoth. Em quase todos os mitos de vos por meio de libações. 21 Todas as religiões africanas contêm a figura do Deus criador. O festejo após os dinâmico da individuação e o dono do ritos fúnebres. que deve constituir uma dessas exceções. entretanto. não se en. é reservado para No princípio de Exu está implíci- aqueles que viveram plenamente suas to o poder da linguagem e o papel fun- vidas terrestres. uma interven- de da existência física e espiritual. e só foi conhecer a morte após africana. o ser humano foi rendas. no sentido de garantir sua defini- Ainda de acordo com Mbiti. pois apenas duas culturas africanas20 existe não há nenhuma confusão entre os dois o julgamento do falecido. A esse princípio um evento envolvendo um desentendi. 1975: bá ele é o portador do axé. uno e imortal. ba ab. preces e ofe- fundação africanos. ou capaz de eterna res. mas cumpre 12). 1975: 111- bara. esses ritos. sekhem. em tiva separação do mundo terrestre. canas exigências rituais em relação ao sahu) (Budge. Grande parte dos rituais africanos assinalar a semelhança. há uma causa externa. 1965). que também possui diversas 1977: 221-2). ese. No ção. denominamos Exu. tem como objetivo evitar essa morte to dos dois mundos e na complexidade prematura. capo VII). agente da própria cria- e chegando a uma idade avançada. khu. ren. pois no cosmo ioru- mento ou ofensa a Deus21 (Mbiti. garantindo o pleno cumpri- de sua interação. o deus de Kemet que sopra caso de morte prematura. alguma transgressão do falecido ou por ori. em consequência de entre os dois mundos. e nenhum vestígio deve ficar contrando na religião africana. Uma vez cumpridos nem o castigo eterno nem a figura do in. Isso não significa. egun-ipori. supõe-se que o hálito da vida. em geral daquele que partiu. o falecido se toma ancestral ferno. é também o senhor da 20 Localizadas na Nigéria e em Gana. provocada por suas diversas categorias de ser (emi. cumprindo seu destino dador da palavra. a kemética. oke-ipori. 1977: ideia de que os africanos aceitam a mor. princípio fundamental da cosmovisão surreição. Ribeiro (1996: 122) menciona os conceitos de orun rere e orun apaadi no contexto iorubá. ipori. A partir a morte seja encarada como algo normal desse momento.

força vital de algum outro ser. equilíbrio de axé entre os domínios e Iku. . assim. o sacrifício faz parte de mamente associado à gênese da vida no muitos mitos de fundação23 e constitui seguinte relato (Santos. apud o mecanismo de interação entre o plano Ribeiro. 1965. ebó. ser humano [o homem]. A criação de um ser 3. nos forma individualizada. Universal às tradi. expiação. impondo- sacrifício de Osíris indicando a morte -se a necessidade de sua reposição. o sa. lina na cosmogonia iorubá. 1977: 107. 1961: 124). fragmento de uma visível e o universo invisível. das versões do mito iorubá da criação: lizado pelo princípio de Exu. todos os purificação. que assegura a harmonia cósmica e o princípio genérico de vida. potencia. é obrigado a sacrificar outro. palavra e inteligência. que se concretiza no aiyê. quada. personagem mascu- elementos do cosmo. 24 Orixás genitores associados à terra e às suas águas (lama. em que a morte de um dos primeiros ancestrais (o sétimo) possibilita o domínio da tecnologia do ferro. como avança na exposição desse movimento. 22 Assim. Eles foram buscar lama. então. Re- como base e sustento da própria vida. Deixa-se. A dinâmica de ebó no princípio de vivo no mundo terrestre implica a utili- vida zação de uma porção dessa massa. possa ensinar aos homens o conhecimento da Terceira Palavra legada por Deus. condição de partícipe daquela lama. fontes e lagos). Quando Olorum procurava ma- “em todas as suas diversas formas. seja téria apropriada para criar o de consagração. um ser vivo à primordial Ebó é o princípio do sacrifício ritual. visível ou A fala não só potencializa as ações do invisível”. O Nommo dos dogon. da comunicação e da inteligên. 23 Na tradição dos dogon. comunaliza a realização e o sentido da recorrendo à história da criação: a lama vida22. para que vá e volte. da qual foram moldadas as criaturas vi- vas constitui no orun uma massa gené- rica de força vital. Mas não era simplesmente um problema cia. imbuído do axé do outro mundo. aparece inti- ções africanas. Trouxeram diferentes crifício para os dogon tinha um efeito coisas: mas nenhuma era ade- imutável: a redistribuição da força vital. matéria. pois é bom dar e receber as forças da vida” (apud Jahn. dos orixás e dos ancestrais na Juana Elbein dos Santos (1977) interação entre os dois mundos. a morte. -la em outro lugar. esse ancestral. ressuscitado. O legado de Osíris Elisa Larkin Nascimento 171 palavra. Griaule. toma. adivinhação. para que este. é ao mesmo tem. Lébé. sustentação do invisível ou ebora24 partiram em busca da tal de assegurar a própria salvação. ela deve ser intercambiada. rios. adquirindo uma O terceiro princípio. Griaule (1965: 131) observa que. diz o sábio Ogotommêli: “A palavra é para todos neste mundo. hálito. nem de aumentar a po água. homem. remete ao início de nossas reflexões: o um vazio na massa genérica. 1996: 158). força vital de pegar a força vital da vítima e colocá- e agente da criação.

mas Iku apare. não deixam de do sacrifício condenam o derramamento senti-la como um implacável pesar.. mas não podem interagir”. Nenhum ebora quis tomar téria e energia nova). -os disponíveis para a confecção de ma- mas. em que partículas ainda têm energia. nem vimos esse ani- (sua compressão para formar os elemen. Não precisamos esconder tificial e urbana. Mesmo aque- africanos. Bowker (1991: 229) comenta o que a que pediu a Orisalá e a Olugama ciência nos revela: “(.) não podemos que o modelassem. -brasileiras sofrem por sua causa. mesmo entendendo a morte les que reconhecem o valor simbólico na sua dimensão cósmica. e é por isso que No Brasil. Mas Olodumaré determinou a Iku que. tornando. se funda na morte das estrelas carne consumimos.172 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos mas ela chorou e derramou lágri. a tristeza diante da perda. provocada pela morte. viveu. a prática atual do ebó Iku sempre nos leva de volta para incomoda a alguns. aí podemos ter vida”. não fo- verso. 1977. que na sociedade ocidental moderna a gem kemética do nascer do sol com o morte humana foi afastada. Iku de sangue26 no ebó. der. 25 Parece que a condição final da lei da entropia descreve a massa genérica de força vital: “A entropia é a medida da de- sordem crescente num sistema isolado. e a vida chora. a evolução das espécies por meio das ceu. e não teve misericórdia de seu que propicia a sucessão de gerações25. O que compramos no super- tos de metais pesados e sua explosão.. que não têm individuação. por ter sido ele a apa- nhar a porção de lama. Quando levamos à mesa cientificamente. ver Santos. acusa- Esse relato nos mostra como os ções e agressões diversas. ar- rama lágrimas. o mesmo podemos dizer da morte com a realidade concreta comprovada dos animais. escondida ankh – a vida – fincada no ataúde exi. mercado não parece um ser que antes que espalha esses elementos. primordial e onde a morte está presente a cada pas- cósmica. mas onde temos a mo quem lhe insuflou seu hálito. ter vida sem morte. Se observamos A visão simbólica iorubá e a ima. . Tal atitude deriva da não tem misericórdia. e relegada a um plano de não existên- bem uma coincidência incontestável cia. deveria Conclusão recolocá-la em seu lugar a qual- quer momento. um frango ou um filé mignon. mal vivo. distância entre a sociedade moderna. e foi Ele mes. so. pranto. O nascimento do uni. alimentando a vida. apontando para uma condição final de equilíbrio termodinâmico. de menor parcela. 26 Para uma belíssima análise da função e do significado simbólicos do sangue. Levou-o a Olodumaré. e a formação de toda a matéria mos nós que assassinamos o animal cuja cósmica. apanhou um pouco de lama mutações genéticas depende da morte. e o mundo da natureza. Na vida terrestre. A massa genérica é o princípio de força vital sem interação entre os compo- nentes de seu sistema. e as religiões afro- a lama. morte. mas um objeto inânime qualquer.

oposição ao sacrifício integra o movi. A cosmo- de assassiná-las friamente. com o objetivo único essa regeneração na vida real. fazendo reco. instituições negativa e desvalorizada da morte como obscuras e desconhecidas. o pro- com o número de animais sacrificados cesso de reconstrução do corpo. co como possibilidade de regeneração. a polêmica ção da morte como parteira no renasci- sobre o ebó ganha novos contornos. O imenso volume tude de suas imagens: a vida no além desses massacres não tem comparação como espelho do nosso mundo. o destino do animal é o consumo os dois mundos por meio dos ancestrais. sus. Não só mata. Esse no contexto dessa discussão de grande relevância atual. o pranto da lama ao se faz uma refeição coletiva com a carne ceder à exigência da criação: são cenas do animal sacrificado. uma perspectiva de esperança e uma luz nhecer nela o seu valor inerente. onde depois do ritual genérica primordial. em condições visão africana se destaca pela concre- de absoluta covardia. nhecida de uma sociedade convencional O sacrifício torna sagrada a mor. Em ambos os sustentada pela morte. oferece te. seja na mesa doméstica ou na a reposição de energia vital para a lama mesa do terreiro. o princípio de ebó mento geral de nosso distanciamento pode contribuir para o esforço de dar dos fluxos naturais e do ciclo da vida. a interação entre casos. tentadas à base de hormônios artificiais mas. sobretudo seu papel de propiciar e rações químicas. . O legado de Osíris Elisa Larkin Nascimento 173 O abate de animais para consumo está reconhecimento se contrapõe à imagem escondido nos matadouros. Nesse sentido. porém tão desco- ser humano. humano. ou uma resposta aos dilemas postos pela seja. a matriz africa- distantes e criam sérios dilemas para o na. fracasso e como aniquilamento final do mos diariamente animais. realçando não só seu valor simbóli- populações artificialmente infladas. na sua invitabilidade. tão viva no Brasil. A mento físico da vida. Assim. o mesmo movimento que afastou visão da morte no contexto ocidental a morte. que nos transmitem nitidamente a fun- Vista desse ângulo. confinando-a em instituições contemporâneo. a vida em comunidades-terreiro. como criamos ser. que se quer branca e ocidental.

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Jane Gal- vão. Gostaria também de agradecer as ia- lorixás Beata de Iemanjá. Stella de Oxóssi e aos babalorixás Nílson Uma experiência de ducação e de Ossãe (in memoriam). Meninazi- nha da Oxum. discussões e ques- tionamentos que nos propiciaram es- crever este artigo. Robson Rogé- rio Cruz e Mariza Carvalho Soares. com quem tive a oportunidade de ex- José Marmo perimentar e vivenciar o carinho no tratamento de crianças soropositivas. Bida de Iemanjá. Seria injusto de minha parte não mencionar o nome de Laércio Zaniqueli. companheiros e amigos que deram respaldo teórico e prático para que a campanha Aids e Religiões Afro- -Brasileiras se tornasse realidade. Projeto Odô-Yá: Este texto é dedicado a Mar- co Antônio Guimarães. babalorixá e dirigente do Centro de Convivência Infantil Filhos de Oxum. . Joaquim de prevenção da epidemia de HIV/Aids Omulu e Laércio do Terreiro de Jauá nas comunidades de terreiro pelas intervenções. na cidade de São Paulo. Mílton Quintino.

educação/prevenção da Aids. aiê cresceu sob os cuidados de O Arca contou com o apoio de ia. foi um dos grandes desafios -la e assim o fez. do rio”. Odô-Yá é uma saudação ao ori- cida entre os adeptos do candomblé. Se de Obaluaiê. bém o dono da vida e da morte. teve três filhos: Obalu- O projeto Odô-Yá surgiu com a aiê. Cuidou dela. específica características dessa deusa da mitologia para a tradição religiosa afro-brasileira. ao projeto deveu-se a aspectos relacio- riências e desafios de uma campanha de nados à maternagem e à solidariedade. capaz barco de iaô. Elaborar Nanã tomou pavor de seu pró- um material de tal especificidade. Obaluaiê. por mado. iorubana cultuada em vários terreiros iniciada. especialmente das a equipe do programa Arca trocaram en. por ter vencido um lado a equipe do Arca tinha o conhe. Iemanjá. Oxumarê e Ossãe. grande mãe Projeto Odô-Yá. profissionais de saúde e das doenças. do Arca. ancestral. vendo aquilo. Adquirida (SIDA/AIDS) ficou conhe. e Cultural Aids (ARCA) do Instituto de Conta-nos a lenda que Estudos das Religiões (ISER) e que foi Nanã. em 1991. se apiedou tenção da saúde e preservação de valores da pobre criança. com o corpo coberto de meio da elaboração de um material atra. por As lendas da tradição re- outro lado os zeladores de orixá tinham ligiosa afro-brasileira encerram . se tornou tam- cimento técnico-científico para ser utili. da lepra sinamentos. a mãe do dades-terreiro no que diz respeito à manu. todas as doenças. Iemanjá. com os símbolos e Ao ver aquela criança. orixá relacionada aos pri- lançada publicamente com o nome de mórdios da criação. orixá. mundo. códigos dessa tradição religiosa. mas é também o nome pela de viabilizar o trabalho a ser feito nas co- qual a Síndrome da Imunodeficiência munidades em relação à doença. o nascimento do referido projeto. e a sua escolha para dar nome ciar uma discussão em função das expe. tornando-se um grande lorixás e babalorixás do Rio de Janeiro. própria sorte. nuagem do terreiro”. chagas purulentas e de aspecto ente que levasse em consideração a “li. nasceu todo defor- no combate à epidemia de HIV/Aids. zado frente à epidemia de HIV/Aids. febre. A xá Iemanjá que significa “salve a mãe partir do termo dofona. resultando dessa interação e de todas as grandes pestes. proposta de sensibilizar o povo de santo o mais velho. moléstias de pele. tratou de suas feridas e Obalu- amos práticas ligadas ao ritual. medonho. principalmente porque abordarí.178 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Dofona é a primeira pessoa de um em seu poder o saber da tradição. tentaremos ini. pelo Apoio Religioso por todo o país. Por ter passado por essa mediante encontros e consultorias em experiência. Obaluaiê é o dono que sacerdotes. resolveu criá- tradicionais. dando prio filho e abandonou-o à sua conta das reais necessidades das comuni.

não deve ser vista apenas No caso dessa lenda específica. Que a cidos os praticantes e adeptos do Aids existe é uma verdade para o povo candomblé e da umbanda: de santo. graças a Deus.” “Eu cuidei damente percebida pela equipe do proje.” “No meu roças sobre as possibilidades de desdobra. ficamos im- viveu também a experiência da pressionados com o respeito demons- trado pela maioria dos praticantes do morte próxima. Melhor que qualquer outro Em nossos primeiros contatos orixá. foram abandonadas pela agora passa também a pertencer. nos dá um exemplo de dedica. ser transmitida por um simples contato. mostrando que não devemos que causava a morte. uma expressão dentro pessoas que. Histórias como: “Eu sei que na No início da campanha Aids e re. mas na mi- termo dofona e a epidemia não era niti. como ela veio de uma ou- A vida de Obaluaiê não foi tra cultura. como mera substituição de palavras. que a doença era contagiosa. mas to Odo-Yá. os filhos de santo rejeitavam to- . candomblé ao pronunciar a palavra Obaluaiê não se curou so. pelos iniciados do tes das comunidades de terreiro. Obaluaiê pode entender o com o povo de santo na tentativa de sofrimento dos doentes porque abordagem da epidemia. Aids. podendo manjá. nha casa. de não era meu filho de santo. pela palavra dofona. Naquela época.” Foram mentos do projeto fez com que ficássemos alguns dos depoimentos de pais e mães atentos à utilização da palavra dofona e a de santo registrados pela equipe do Arca seu significado simbólico para os partici. a relação entre o uma pessoa com a maldita. em suas visitas aos terreiros. doença entre os adeptos. Com sua atitude. santo. candomblé. desse novo contexto cultural ao qual ela enças. po. Iemanjá e as pessoas se referiam a uma bactéria. nidades. ficando dida em que se tornam visíveis casos da entregues à própria sorte. isso nunca aconteceu. Nas comu- pantes da tradição dos orixás. termo pelo qual são conhe. criou-se um termo adequado muito diferente da vida de muitas para designá-la. não. mas a pessoa morreu. abandonar as pessoas doentes. criando uma trama de relações. casa do pai de santo fulano de tal existe ligiões Afro-Brasileiras. na me- família e pelos amigos. em que uma não anula a outra. precisou da ajuda de Ie. Ajudei no que observação e posterior avaliação junto às pude. Projeto Odô-Yá José Marmo 179 importantes ensinamentos que são A substituição da palavra Aids repassados para todos os integran. mas. terreiro. mas o trabalho de campo. de uma pessoa que tinha a doença. demos verificar alguns elementos mas sim como um acordo simbólico que permitem uma reflexão sobre a em que culturas diferentes se interpe- epidemia de Aids junto ao povo de netram. todos achavam zinho. a um vírus ou a uma situação específica ção. por motivo de do.

saúde e medicina tradicional. podendo mesmo formas pelas quais o orixá se comunica causar-lhes a morte. possibilitando sua feitura. não apresentando Um outro exemplo é o relacionado às mais sinais ou sintomas de determina- Iyá-mi. em que foram trema importância para se entender o detectados casos de infecção pelo vírus impacto dessa doença na tradição reli. um legado ou manifestação do orixá. utilizava-se uma tativas e medos que originaram várias estratégia que pudesse expressar a mes. comendado não pronunciar o seu nome ou seja. to. sendo capaz de ativar o religiosa. axé. deve-se evitar pronunciar. contribuindo de maneira a substituição de palavras. A Aids trouxe mudanças e espe- guar a fúria. Esse fato é im. cujo nome. fluenciada por um discurso biomédico. com a pessoa. mia de Aids em nosso País. foram Os adeptos do candomblé apren. terrí. do em que as doenças muitas vezes são minados momentos em sinal de respei. esses veis e ameaçadoras. por ser de pessoas que. pelo que devemos tomar cuida. enquanto outros não pro. após a iniciação no can- ele o dono da doença. recuperam seu epidemias. capazes de trazer o sinais e sintomas caracterizam umas das infortúnio aos homens. e somente invocá-las para lhes apazi. sua iniciação. candomblé a palavra é sagrada. Aids é vivenciada pelo povo de santo. em resposta ao medo de infecção comunidades de terreiro algumas expec- pelo vírus HIV/Aids. grandes mães feiticeiras.180 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos car no assunto. discussões norteadas pela visão negro- ma situação sem correr riscos. terreiro. assim como as relações entre poder de realização. até então in- mo Aids trazia consigo. é re. das doenças. mediante -brasileira. suavizando qualitativa no que diz respeito à epide- dessa forma a carga negativa que o ter. contém A maneira pela qual é encarada magia. nesse sentido. HIV entre homossexuais masculinos e a giosa afro-brasileira e perceber como a doença chegou mesmo a ser denomina- . Um bom exemplo do que estamos Um exemplo do que estamos falando falando pode ser vivenciado por meio pode ser observado pelo grande número do orixá Baba Ibonã. assim como nossas futuras intervenções nesse mun- também aprendem a se calar em deter. demia. tem cura. culações em torno das comunidades de Ao longo do percurso da epide. portante se levarmos em conta que no acadêmico e judaico-cristão. pouco a pouco servindo de base para dem a utilizar a palavra. A palavra possui reiro. segundo os iniciados. na década de 80. nunciavam o nome da doença. a sexualidade nas comunidades de ter- dos ao pronunciá-la. equilíbrio orgânico. pensamos na hipótese de morte de alguns indivíduos. aconteceram fatos de ex. o papel do corpo nessa tradição encantamento. criaram nas que. das pestes e das domblé ou na umbanda. principalmente no início da epi- mia de Aids. podendo deixar sequelas em Em função do que foi exposto sua evolução ou mesmo determinar a anteriormente. fazendo a Sendo a Aids uma doença que ainda não substituição pelo termo dofona.

não obtendo respostas serve para a reprodução e perpetuação a seus questionamentos. de prazer. ma de tratá-la? Que fazer diante dessa xuais. Qual a melhor for- ser. tempo. alegan. mobi- afro-brasileira é considerado fonte de li1izando todos os seus adeptos ou sim- vida. rações à vida do povo de santo que. trazendo algumas implicações . dição de afro-brasileiros. o que provocou certo ção por ter em seu meio homossexuais. A falta de cuidados da família men e a secreção vaginal. ou seja. que simbolicamente busca do auxílio de pais e mães de san- está relacionado à sexualidade e é repre. religião ou sexo. não são consi- conseguiu até o presente momento des- deradas pecado e nem denotam formas cobrir um remédio para a cura da Aids. agora sofria nova discrimina- tradição religiosa. são portado. doença. Se isso por um lado contaminar as pessoas com o vírus HIV. Projeto Odô-Yá José Marmo 181 da de Peste Gay ou Câncer Gay pelos A epidemia de Aids trouxe alte- jornais da época. teriormente discriminado por sua con- tícias sobre um grande número de ho. uma religião trazida por negros escra- do relação direta da epidemia com essa vizados. estabelecen. herdeiros de mossexuais no candomblé. Isso fez com que várias delas partissem em sem falar em Exu. to na perspectiva de se verem livres da sentado por um falo. por outro fez com que vários pais e mães de santo saíssem A Aids ainda não tem cura e se em defesa de suas comunidades. procuram na da espécie. foi desconcertante. e não apenas algo que patizantes que. com isso queriam dizer que a ho. independentemente importante para evidenciar a questão da de cor. no ser huma. passando frente a uma epidemia que no. sexualidade nessa religião é que o sê. assim como e de acesso a tratamentos médico por todos os líquidos do corpo. Essa mesma situação é vivencia- O sexo para a tradição religiosa da nas comunidades de terreiro. da energia vital. não se encaradas normalmente. an- Os jornais também traziam no. Outra informação poupando pessoas. pessoas soropositivas de baixa renda res de axé. epidemia? Quando será descoberta a cura? É difícil entender que. não o masculino (okani). apesar do mossexualidade e a bissexualidade são avanço científico e tecnológico. aceita todos os tipos de práticas se. em sua forma de frado por todos nós. além de serem considerados marginais em nossa sociedade. desviantes – o mais importante é o orixá e que isso talvez ainda demore algum que a pessoa carrega em sua cabeça. o órgão genital feminino (iamapô) e ganha espaço a cada dia que passa. apresenta como um enigma a ser deci- do que o candomblé. O sexo é tão importante religião e na prática da fé um meio pelo nessa tradição religiosa que existe um qual se possam sentir seguros e aptos a itan (lenda) contando sobre o local mais enfrentar essa nova etapa que estamos apropriado para se colocar. desconforto em algumas casas de santo os quais. eram que tinham um grande contingente de também quem trazia consigo o risco de homens iniciados.

foram obrigados a ver Grupo I – zeladores que utilizam a doença de perto e a conviver lado a a mesma navalha. de fechamento do corpo. do sangue de uma pessoa infectada para O fato de muitos pais de santo outra. família de santo. em 1991. Grupo III – zeladores que utili- O candomblé utiliza a navalha zam várias navalhas. que muitas vezes. mas fazem a esterili- ção a determinadas práticas rituais. É nessa fase do passado para a navalha. de participarem da mesma navalha. mas não fazem a este- lado com uma epidemia que levava seus rilização desta. experiências. mento mágico capaz de remover qual- como na época em que iniciamos nos. acreditava que o orixá era ca- . como dizem os mais antigos. processo que vão ocorrer mudanças que Grupo II – zeladores que utilizam determinam cuidados especiais em rela- a mesma navalha. Outros sacerdotes propunham uma polêmica em tempos de Aids. podemos do corpo do iniciado.182 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos para tais sacerdotes. prin- zação. preferiam não lidar com a do. facilitando dessa forma nosso dição religiosa. navalha. ao tema e dividimos as opiniões em três mento para os participantes dessa tra. uma das carac. observar. em função dessas trabalho. lidade. ou seja. Em nossa pesquisa com sacerdo- terem morrido em função de doenças tes da tradição religiosa afro-brasileira. Muitas vezes são recolhidas no ISER (Instituto de Estudos da Reli- várias pessoas que serão consideradas gião) e em alguns terreiros. epidemia nas casas de santo. elos que nos irmãs de barco e que passam juntas o permitiram aprofundar reflexões sobre a momento de iniciação. terem ença. grupos. pois a cura por meio da magia. As in- cisões são feitas em determinadas partes A partir desses grupos. é terem passado pelas sabendo que não poderiam curar essas mãos do mesmo pai ou mãe de santo. oportunistas causadas pela Aids trouxe observamos uma variação em relação uma série de situações de descontenta. ou seja. mediante encontros realizados tura do iaô. santo não mais negasse a sua presença. A proximidade da epi. cada filho em seus rituais de iniciação e de cura. pessoas. por ocasião da fei. pois. de transmissão do vírus HIV é por meio cia desses tratamentos. “passados pela mesma navalha”. quer mal ou doença que por acaso tenha so trabalho. que utilizava o abô na de irmãos. ou. de santo tem a sua própria navalha. com o medo da perda de credibi. O abô é considerado por eles um ele- o que vinha acontecendo anteriormente. terísticas que lhes conferem a categoria O grupo I. apenas em uma solução de abô (mistura demia de Aids fez com que o povo de de vários elementos portadores de axé). pois não acreditam que o abô seja cipalmente no que diz respeito ao uso da capaz de deter o vírus HIV. A navalha é mergulhada entes queridos. o que acarretaria também perda O uso da mesma navalha levanta de poder. mas até os todos nós sabemos que uma das formas dias de hoje não se comprovou a eficá.

funcionamento da doença e sobre como tão sensibilizados para tocar no assunto. enquanto crementando maneiras ou procedimen- os grupos II e III aceitam as possíveis tos frente aos portadores de HIV. Uma das transformações dades. raízes. enquanto os grupos II e III têm afro-brasileira foi ter-se deixado de ne- opiniões diversas. preferindo esterilizar gar a doença. Outro aspecto importante é a sensibili- enquanto os grupos II e III participam zação dos pais e mães de santo verifi- de atividades específicas de educação e cado pela busca de informações sobre o prevenção da doença. ervas. os trabalhos de educação e prevenção O grupo I nega a existência da Aids e ge. . cional no combate às infecções oportu- Para finalizar. possibilitando esclarecimentos O grupo I apresenta dificuldades para para toda a comunidade de terreiro e in- mudanças frente à epidemia. desde que sejam importantes A utilização da medicina tradi- para a resolução de seus problemas. ou pelo menos es. os últimos anos nistas foi resgatada nas comunidades de têm sido mArcados por uma tomada de terreiro e o uso de folhas. o que facilitou bastante a navalha ou utilizar navalhas diferentes. posição em relação à epidemia de Aids. ralmente procura não tocar no assunto. Projeto Odô-Yá José Marmo 183 paz de impedir que uma pessoa pegasse ocorridas dentro da tradição religiosa vírus. tratá-la. ebós e garrafadas passou novamente a e o candomblé a acompanhou de forma fazer parte do cotidiano dessas comuni- significativa. mudanças. desenvolvidos até o presente momento.

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quando ele teve de embArcar.Yara*. do racismo. soube também que foi ela que teceu. conceitos e ironias em torno da modernidade. tive a sensação animadora de baixa cultura estar lidando com uma pessoa singular. uma arte Quando conheci Yara (ela prefere fora da com “I”). Nesse mesmo dia em que nos conhece- mos. o famoso casaco do Senador Abdias. no sorriso de Yara. fundamen- talmente. namora- Éle Semog mos letras. que contêm pul- são de vida e estão a serviço da existência. dessas com gente dentro. Enquanto o povo estava preso na euforia salutar do lançamento do primei- ro número do Sankofa e da revista Thoth. para o frio terrível dos Estados Unidos. Eles eram amigos de consciên- cia racial. de fraternidade e. da arte que . exilado. de identidade na construção e expansão da arte e da cultura negra. às pressas. Nisto vão quase 30 anos. que se nega a dizer a que século ou a que milênio pertence. na livraria da UFF em Niterói. ou mais.

o que explica o requinte da A cultura e a identidade africanas sua discoteca.186 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos embala o dia a dia nesse tempo de es. tato com um amigo pintor chamado A presença do pai. Os casos contados sobre o período principais autores clássicos europeus. Romani. e depois se co colorido da sua obra por meio de firmaram como estilo. rara por estas bandas. com a qual Yara fazia planos dar caminho. da escravidão. “Você é naif. próximo tério. tra gente daquela época. Wilson Abreu. traduzida pela fir. só vou pareciam obsessivas. primeiros traços surgiram. Yara lecionou das elites. o que da História da música jamaicana. Embora o tráfico de escravos terior” por meio de uma série de pales- estivesse proibido e as lutas pela aboli. na cidade de “arte moderna para aquela gente do in- Búzios. Emocionada. Yara estudou piano durante de Niterói. garantiu que ela e cassez. alunos que hoje já estão casados: “A Com o fim da escravidão. alguns dos Yara. O avô paterno tão prefeito do Município de Rio Bo- (Benedito de Oliveira Rosa. de que a educação orientá-la sobre algumas técnicas e o era o único caminho para uma família manejo das cores”. Essa experiência navio negreiro que fazia a rota entre o resultou num intercâmbio com artistas Estado do Maranbão e um ponto clan. a família con. e passou a lecio- 114 anos) veio de Angola. do Rio de Janeiro que foram explicar destino na praia da Raza. toda a infância e adolescência. muito de música popular brasileira e sas nas rodas de família permearam-lhe uma coleção. morto aos nito. o destino daqueles negros nária. seguiu comprar um pequeno sítio num Além da formação no magis- lugarejo chamado Pendotiba. tras e aulas práticas. Yara lembra que . as conver. Ficamos ali cúmplices e felizes os irmãos se formassem e estimulou a com toda aquela cultura negra em evi. de negros e pobres. chegando nar arte para crianças portadoras de ao Rio de Janeiro como escravo. durante muitos anos em municípios Yara de Oliveira Rosa nasceu em próximos a Niterói. inclusive canavieira de Campos dos Goitacazes. mas meza e pela certeza. pois hoje em dia. Yara ção da escravatura se espalhassem por diz ter sido essa uma coisa extraordi- todo o País. que por momentos eu não vou mudar o seu estilo. a partir do con- uma africanidade singela e mArcante. as cantigas. primitiva. Os mais tarde viria a se refletir no mosai. continuidade à derrubada da xenofobia Como professora. 15 anos. num deficiência mental. do magistério que ficou amiga do en- em 15 de abril de 1933. que outros parentes seguissem o mesmo dência. numa sempre estiveram presentes na vida de harmonia nada ortodoxa. fica sabendo dos em Búzios naquele período era o de que muitos têm quadros em casa. no Estado do Rio de Janeiro. onde convivem. que servir como mão de obra na rica região alguns continuam pintando. semente foi muito boa”. quando encon- transplantados da África e desembArca. Foi no exercício Niterói.

detalhe. 1990 .Yara. Via Crucis. entalhe sobre madeira e tinta a óleo.

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nada de balzaquianas. folclóricas e da história do Brasil. diversas formas de arte que a cultura tizada na Galeria do Teatro Santa Rosa. quando ele recolhia cadáveres negra consolida a sua maturidade e se nos campos de batalha na Itália. então adido cultural que comprou tudo que Yara produziu em Paris. e. Todos os quadros foram só por curiosidade. como sen- senho. um metro e meio de altura. arte que ela produziu painéis. comprador ter sido o diplomata Guilher- me de Figueiredo. ela senvolvimento da tapeçaria. em coleções eu fiz para experimentar – diz). pelo contrário. Foi o primeiro nesco. uma mulher é o caso da peça sobre a Guerra dos Ca- com mais de 30 e menos de 40 anos é. em tonalidades que brota. em que ela descreve nas quatro culturalmente. a sua energia e a sua percepção nas depois de alguns contatos e foi concre. . o que foi ótimo para uma estreante. potencializa em realizações toda a sua morado a me dar uma força”. Hélio Blo. discurso de cores. Durante um largo período de tempo. “Ele se dispõe à vida com uma capacidade cons- empolgava e apreciava o jogo de co. durante dez anos seguidos. de amar. classificada como bal. faces da coluna com uma incrível rique- zaquiana. e tão poucos 30 anos de vida. particulares e na decoração de lojas e do a construir com linhas e agulhas um hotéis. com muitos que pertencia a Gláucio Gil. a pregação de Antônio certeza. ch e Léo Juzzi. a luta – boa dose de ignorância de alguns que contra o Exército Brasileiro e a destrui- dão seu romance A mulher de trinta ção de Canudos. Foi assim. que Yara. cenas do cotidiano do povo. de educar. com entalhes em madeira. em 1964. começou a trabalhar vendidos num curto espaço de tempo. portas e balcões que abraçou de imediato (foi uma coisa que se espalharam pelo mundo. de Yara um enorme potencial para o de. cenários e arranjos ela decidiu trabalhar a técnica de entalhe tão amplos quanto o que a pintura lhe somente com colunas de madeira de até permitia. à revelia de Honoré de Balzac Conselheiro. como Para os ocidentais. na pintura e no manejo de cores do “pintura sobre madeira trabalhada”. amigo com um conhecimento mais apri. surgiu tos. das festas minense de Artes Plásticas. Hélio Bloch percebeu no de. Yara. trutiva muito distante do idílio roma- res das minhas pinturas. é vam lembranças dos tempos da Segunda exatamente nesse período que a mulher Guerra. as rezas e promessas. uma arte fora da baixa cultura Éle Semog 189 Romani tinha uma tristeza interior que anos um sentido lúdico-pejorativo. Mas passava para a tela de forma angustiada as mulheres afrodescendentes não têm e dolorida. A oportunidade para a primeira de se ver e de traduzir os seus sentimen- exposição individual. retratando nhou seu primeiro prêmio no Salão Flu. sem deixar de ser romântica. E foi com a terapia que ela ga. nudos. e As obras em madeira entalhada ela ainda destaca o fato de seu primeiro foram definidas por um cliente francês. africana permite. capacidade de criar. passan. Vai nessa classificação com za de detalhes. Numa segunda etapa do trabalho.

Deixou um endereço períodos ela seja menos intensa. prando obras de todos os artistas que en. nariz. é o caso dos casacos Os puteiros de Sal- tura. com pintar. pois seu marido tinha 2. O toque e o estilo na tapeçaria de Yara já estava trabalhando em Yara retratam um universo negro com outro quadro e o homem decidiu ficar figuras de uma vivacidade e delicadeza esperando que ela o concluísse. “Como o pode fazer isso. . O final dessa história está no romance do que soubera que ela era artista. só eu posso dar o meu seu quadro? O senhor não pagou”. e ficou gens de um plano unidimensional. res não causariam o efeito pictórico de- perta. e que que Yara deve concluir até fins de março ele estava viajando pelas praias e com.. apareceu na casa tura. dizen. “Mas como a senhora vendeu o meu quadro?”. o comprador perguntou se ela não se Paulo. Deu-se então um meus figurativos. toque. uniforme e toquinha na cabeça.190 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos Numa ocasião. com energia própria. disse que era muito es. porque a cor dessas pessoas na todos em sua família só nasciam de par. causando a impressão de que estão o homem não desistiu. é o meu estilo”. ele comentou por uma analfabeta. assim que ção de sua dedicação ao trabalho com ela acabasse de concluir o quadro que madeira e à tapeçaria. pois Yara respondeu que têm olhos. Tenho voltou ao seu estúdio dizendo que vie- que fazer os elementos por causa dos ra buscar o quadro. A pintura é uma atividade contí- contrava. A essa altu. com mu. pondeu Yara. indagou o homem. em São ra. E cido. Por fim. Pessoas de outras co- teiras. eu defino os elementos jar. Por fim. Certa vez. ao que ela respondeu que já sabia de Yara um sujeito de São Paulo. Como ela não levou. como conversando a tarde inteira. principalmente esses diálogo estranho. essa gente com o que vendera o quadro para outro clien- movimento que eu quero dar. ninguém te. pois não que parecem ter vida própria sobre o te- sairia dali sem levar um trabalho dela. vador e As favelas do Rio de Janeiro.. o homem disse que tinha um carrão daqueles pomposos. em fun- de Cabo Frio e ordenou que. Yara foi chamada de racista por interessava em aprender a escrita e a lei. ela falava muito bem e conhecia muito Ela afirma que a presença permanente pintores. mandou a esposa em movimento. estava no cavalete. embora por alguns um quadro dela. de 1998. res. A certa al. cachorro. criança e babá vestida de todos os artistas brasileiros importantes. embora sejam persona- e as outras pessoas para a praia. Sobre a tapeçaria. fosse entregá-lo na ela nos diz: “É um trabalho que envol- casa dele. Yara quem a conhece sabe que e contínua de personagens negras em ela não perde uma dessas – respondeu sua tapeçaria é um aspecto puramente que ela e os pais eram analfabetos e que artístico. e que estava ali para comprar nua na vida de Yara. o comprador e a equipe vai fazendo os vãos. só usar figuras negras em seu trabalho. um livro em que estavam os nomes de lher. pois ele estava prestes a via- ve uma equipe.500 livros sejado de fazer a obra crescer e evoluir e lhe contava alguma coisa. tapeçaria é linda.

Yara e o casaco Os puteiros de Salvador, 1996

Yara, uma arte fora da baixa cultura
Éle Semog 193

mas ela afirma que não existe esse ne- deixá-la morrer, porque iriam para a ca-
gócio de racismo contra branco, contra deia e têm a obrigação de protegê-la.
ninguém, e que até gosta das pessoas Depois de algum tempo Yara en-
azuis, só não pode é colocar uma mu- controu-se com uma pessoa que alugou
lher branca na sua tapeçaria porque ela um terreno, onde existem três palmeiras
se perderia, não teria sentido. imperiais, para a construção de um de-
Morando em Búzios há mais pósito de bebidas. O depósito foi cons-
de 20 anos, Yara participa ativamente truído e o proprietário teve a preocupa-
da vida cívica da cidade por meio da ção de fazer os telhados com um buraco
associação de moradores e de outros em torno dos caules das palmeiras. A
movimentos. Em 1990, junto a outras justificativa que ele deu, quando Yara
pessoas, organizou e participou da pri- elogiou a sua preocupação em proteger
meira grande ação ecológica da cidade, as plantas, foi à seguinte: “Deus me li-
salvando do corte uma árvore, um pau- vre, eu soube que tem uma dona aqui
-d’arco com mais de 390 anos que um que é terrível com esse negócio de cor-
engenheiro austríaco queria derrubar. tar árvores, eu quero é distância dela”.
Ele chegou a chamar os bombeiros du- Não sabia que a tal dona era Yara...
rante uma madrugada para derrubar a Por algum tempo depois do in-
árvore, alegando que esta poderia cair cidente da árvore, ao andar pelas ruas
sobre umas casas próximas. A questão é da cidade em certas ocasiões, um carro
que á arvore estava firme e não existiam passava e alguém gritava alguma coisa
casas por perto. “O engenheiro austríaco que ela nunca entendia, mas sentia ter
disse que ia cortar aquela merda de ár- um tom cheio de agressividade. Até que
vore de qualquer jeito, eu disse uns bons certo dia o tal sujeito gritou “Macaca!”,
desaforos para ele e escrevi um artigo mas teve de reduzir a velocidade por
num jornal local, que naquele momento causa de um quebra-molas. Yara reco-
tinha interesse em estar do nosso lado nheceu o tal sujeito, que era o dono do
naquela briga”. A pressão da comunida- terreno onde está a árvore que queriam
de foi tão grande que chegou a envolver cortar. Não teve dúvidas: foi até sua
as autoridades locais num jogo de força casa, redigiu um termo de acusação e
entre os interesses comerciais e os inte- o entregou na delegacia. Uma mulher
resses ecológicos. Até que um dia um negra que presenciou o fato ficou, a
dos interessados em cortar a árvore pas- princípio indignada e se comprometeu a
sou montado numa moto pelo meu ma- testemunhar, mas na hora de compare-
rido e gritou: “Filho da puta!” Isso foi cer à delegacia o marido a aconselhou
o suficiente para o Alex chegar em casa a não se meter com os ricos. Sem teste-
sabendo que não iriam cortar a árvore. munha, não foi possível levar o caso à
O melhor dessa história é que todos na frente, mas de qualquer forma o racista
cidade sabem que os responsáveis pelo foi chamado à delegacia e recebeu uma
local onde a árvore está não podem nem boa repreensão por desrespeitar uma

194 THOTH 4/ abril de 1998
Depoimentos

“pobre senhora com mais de 60 anos, tou a escrever contos e peças de teatro.
mas o mais importante foi que ele saiu Uma dessas peças, um drama sobre a
de lá educado e hoje evita até olhar para escravidão, escrita em 1988, não lhe
a minha cara”. fez bem, deixou-a incomodada, cansa-
Casada há 28 anos com Alex, ar- da e triste, com uma sensação que ela
quiteto e também pintor, especializado não gosta de lembrar.
em projetos de jardins, Yara vive numa Atualmente, Yara está concluin-
casa bucólica e singela, cujo terreno é do um romance intitulado Santana da
completamente tomado por plantas e Armação, que se passa em qualquer lu-
árvores as mais diversas, inclusive al- gar que tenha praia, que tenha sido um
gumas espécies que praticamente de- lugarejo pacato e de repente se veja às
sapareceram da mata Atlântica. São voltas com a invasão de uma gente rica
bromélias, girassóis, ipês-verdes, ipês- e predatória. São histórias de amantes
-brancos, ipês-amarelos, ipês-roxos, alucinados, de negros com mais de 100
pauferro, jacarés, flamboyants, espi- anos que viriam tudo acontecer e de
nheiros de Maricá. Cada árvore tem o suas famílias, que vão perdendo a terra
nome de um amigo, de um parente, de de forma inocente diante da voracidade
alguém querido. Mãe de cinco filhos, e da usura do turismo e da especulação
dois dos quais com Alex, Yara viveu imobiliária. A partir da euforia do ve-
uma situação inusitada quando nasceu rão e da beleza das águas, são relatados
a primeira filha do casal. Nessa época, crimes jamais resolvidos, de viúvas que
eles moravam no bairro de Laranjeiras enterram caixões vazios, de maridos que
e um vizinho veio lhe dar os parabéns mandam cartas do além controlando os
porque ela tivera uma filha branca, ao lucros dos negócios, de milionários que
que Alex, entre irritado e espirituoso, aparecem fazendo a cidade cair em le-
disse que a criança era um xadrezinho, targia por mais de um ano e, quando re-
com uns pedacinhos brancos e outros tornam, tudo volta ao normal.
pretos. Parece um pouco o que acontece
Como não podia deixar de ser, em Búzios, mas Yara jura que não tem
Yara também faz suas incursões pela nada a ver. O lento desaparecimento das
literatura. Primeiro, uns escritos de comunidades de pescadores, a entrada
adolescente, poesias de amor, de soli- dessas pessoas no mercado de serviços
dão, coisas mais intimistas, como ela como caseiros e faxineiros, a perda pro-
mesma define. Foi por essa época que gressiva do espaço de moradia em troca
ela participou de um concurso na Rá- de uns míseros trocados que se diluem
dio Ministério da Educação, e como num fluxo para a miséria, a presença
prêmio pelo primeiro lugar teve o con- dos hippies, ou a turma do pão-com-ma-
to radiofonizado e deveria receber três riola, depois os iates, em breve os carros
livros de autores famosos, que nunca e a turma que se dava bem nas bolsas
foram entregues. Dez anos atrás, vol- de valores, e finalmente a pobreza de

tapeçaria e pintura sobre madeira trabalhada. participando com outros autores dos best- -sellers: O melhor da literatura. Só parece. Dedicou-se à proteção ecoló- gica em Búzios. É verbete do Dicionário das artes plásticas no Brasil. nome ou telefone para iden. como o filho. com as crianças de Búzios. realizou várias exposições individuais e coletivas no Rio de Janeiro. Leva na bagagem a vontade de poderemos constatar em breve. Curitiba. Nascida em Niterói – RJ. onde as ensinava a proteger a natureza. publicou pela Litteris Editora seus primeiros trabalhos literários. um cavaquinho endereço. Em 1996. das suas espátulas e pin- na Jamaica. Campo Grande. céis. das suas agulhas e linhas e da sua de ela pretende ir para se encontrar com máquina de escrever. de Roberto Pontual. no segundo semestre. a I Semana de Arte no Interior do Estado (Rio Bonito – RJ). organizou várias turmas de pintura com crianças excepcionais. Prepara atualmente um romance que deverá ser publicado ainda este ano. e tem obras com colecionadores na Europa. uma arte fora da baixa cultura Éle Semog 195 espírito humana. tendo participado do XIV e XV Salões Nacionais de Arte Moderna. soltaram em cores e movimentos dos A próxima parada de Yara será seus formões. * Yara de Oliveira Rosa (Iara) – Pintura. não há conhecer aquele povo. Yara. Anuário de escritores e Contos de verão. Organizou. Professora. em que obteve medalha de Prata. . para dar um tom brasileiro àquela mú- tificar as personagens como moradores sica maravilhosa e muitas ideias que se ou visitantes de Búzios. em defesa das árvores centenárias locais. São Paulo. a Sociedade Mirim de Ecologia. com o Grupo Diálogo. tendo recebido o Prêmio de Edição. aon. da I Bienal Nacional da Bahia e do XXI Salão Fluminense de Belas-Artes. mas. Estados Unidos e vários países da América Latina. fundando a Sociedade Ecológica. e também. Santos e Búzios.

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de W. basicamente associada a historiadores eurocêntricos. B. Como eu pretendes- se enfatizar os movimentos da Negritude e da Renascença do Harlem como compo- nentes culturais e políticos do pan-africa- nismo. de Jean-Paul Sartre. entre todos os con- . tal como o manifesto de Alain Locke no início de seu livro The new negro (O novo negro). Du Bois. parecia-me que a longa introdução de Sartre à arte e filosofia do Movimento da Negritude. eu acrescentei o livro Orfeu negro. que refuta a tese racista. à lista de leituras de meu curso Introdução ao Pan-Africanismo. de que. Manthia Diawaramo E.Pan-africanismo e No semestre da primavera do ano pedagogia* acadêmico de 1994-5. O curso começou com The world and Africa (O mundo e a África). ajudaria a estabelecer o terreno para futuras discus- sões sobre a problemática de raça e sua relação com a cultura e o universalismo.

Um estudante africano obje. ascendência européia. Negritude. por C. possibilitar que os Eu sabia que o curso não seria afro-americanos se identificassem com fácil. tal como em seu clás. os africanos eram muito diferentes. Precisava encontrar alguns tex- a África como fonte de uma identida. cronologia de eventos e figuras históri- pia. Os principais objetivos de Du a tentativa de Du Bois de elevar o nível Bois nesse livro. ricanos e dos caribenhos em relação à James. a maioria tendeu a se concentrar sobre diais. alguém pode indagar. Outro problema da linha da cor e a teoria de acusou Du Bois e outros pan-africanistas Diop. eram três: escrever sobre a his. por extensão. dos brancos. Eu queria saber Naquela primeira semana. Du Bois acreditava que a tudadas simultaneamente com outras te- liberdade era uma totalidade indivisível orias raciais no tempo e no espaço – tais e que os negros da América não estariam como o nacionalismo do movimento da plenamente livres até que a África esti. e sobre sua busca tória e a cultura do povo da África e de da liberdade. a rea. Quais eram. os laços e que os afro-americanos. por Europa. ideias de Du Bois sobre unidade racial mentos irrefutáveis contra o racismo e o se tornam mais interessantes quando es- colonialismo. quais eram as relações não deveria ser usada para justificar o intertextuais entre o pan-africanismo de paternalismo e o elitismo dos afro-ame. Seu pan-africanismo provinha antirracista como base para se comba- da consciência da liberdade como meta ter o colonialismo e o paternalismo – e comum aos povos negros e morenos. R. o movimento afrocêntrico e vesse libertada e emancipada na moder. de consciência quanto à exploração dos sico Souls of black folk (Almas do povo povos negros e morenos pelos povos de negro). da Nigéria à Etió. e que Orfeu negro. tos escritos por mulheres e por autores de dignificada e orgulhosa que pudesse afrocêntricos para acrescentar à lista de colocar-se em pé de igualdade com a leituras. da unidade cultu- de terem as mesmas intenções coloniais ral dos povos de ascendência africana. ascendência africana. a África não deu contribuição tre o pan-africanismo e o sexismo. a Ásia e a América do Norte. Uma mulher também levantou Francesa para os movimentos negros de uma questão com respeito à ligação en. tal como os comuns entre a afirmação de Du Bois brancos americanos. Du Bois e a apropriação. dos temas centrais da Revolução África. com elas confrontadas. e acrescentou que a raça e. Mas. eram ignorantes de que o problema do século XX era quanto à complexidade da África. o que aconteceria ao cerne da ideia do ção da turma a The world and Africa foi pan-africanismo se este fosse estudado agressiva. como uma história de ideias frequente- tou à própria ideia de pan-africanismo.198 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos tinentes. cas. e não como uma advertindo-nos que. as teses de Sartre a respeito do racismo nidade. Mas alguma à história e à civilização mun. um texto de um fale- postular o humanismo africano e a rica cido escritor branco francês? Porque as herança daquele continente como argu. por exemplo. ou afrocêntrica. L. mente contraditórias. libertação e sua reavaliação da revolta .

)”1. Um dicionário francês. Para Sartre. uma afirmação existen- um termo até então feio e sujo na lingua. poetas e escritores a abraçar o marxismo Léon Gontran Dumas e tantos outros em suas busca de um caminho universal autores do Caribe francês e da África para além da cor da pele. seguintes significados: um nègre é uma -africanismo de Du Bois e o apelo de pessoa da raça negra.. pold Sédar Senghor. um ra- de. mas também pelas similarida. falar petit nègre mim nesse debate não apenas em fun. Senghor. ou entre o pan. sem direito a descanso. Para Sartre. para encorajar alguns de seus Na poesia de Aimé Césaire. de um ser humano. gritude – adiante falarei mais a respeito a Negritude deriva sua autenticidade do disso –. 306. cialista libertada de conotações fixas e gem francesa. Em outras palavras. os no mundo moderno. uma pessoa sem mente nem alma. luta para reivindicar sua humanidade. de John MacCombie. atribui à pala- unidade racial entre negros e morenos vra nègre. dos embebidos nas raízes do conceito. tra- Sartre. da desestabilização dos significa- por Diop. um vívido bruxulear française (1948). que une os negros na esse conceito para o público ocidental e.. MA: Harvard University Press). e Orfeu negro foi escrito como de sua revelação de que “(. e uma 1 Jean-Paul Sartre. in “What is literature” and other essays (Cambridge. trad. organizada por Léo. de “ser” e “não ser” (. gritude secreta no branco. inclusive o da ne. Pan-africanismo e pedagogia Manthia Diawara 199 haitiana como o primeiro paradigma da Le nouveau petit Robert. a francófona. uma volucionários na França das décadas de pessoa suja. o oposto de uma pessoa quarenta e cinquenta. élan orientado por um novo significado ção no sentido existencial. ser um nègre no tre os povos negros contra o racismo e o mundo literário é servir de ghost-writer colonialismo? Sartre é importante para para autores famosos. fato de remover da palavra nègre essas des entre sua posição quanto ao racismo conotações tradicionais na língua fran- antirracista e a essencialização da raça cesa. ele encontra um autêntico Negritude é uma separação e uma nega. um operativo poder de negação. servindo. no Orfeu negro. atávicas do imaginário francês. uma brancura le poésie negre et malgache de langue secreta no negro. branca... a um racismo balhar como um nègre é trabalhar duro antirracista como razão de unidade en.) há uma ne- introdução à Anthologie de la nouvel. um escravo. . “Black Orpheus”. ela valoriza de negritude. da qual deriva negritude. por outro. para definir cismo antirracista. é expressar-se num francês pobre e li- ção de seu papel como líder intelectual mitado. um nègre é envolvido em diversos movimentos re. todas as referências subseqeentes estão incorporadas no texto. por um lado. É o mais famoso Sartre define a negritude como ensaio sobre o Movimento da Negritu.

símbolo do conhecimento. Sartre antecipa do imaculado papel dos africanos no mo- a negritude de C. o paternalismo e o negritude com valores positivos. que dominam e Sartre lembra-se de Orfeu descendo ao destroem seu meio ambiente. A con- Diop e Léopold Sédar Senghor. R. Os que internali- rar a negritude uma poésie engagée. gosto. inferno para resgatar Euridice. desejo de constituir uma história singu- A princípio. o com a busca de liberdade. São os tradicionalistas. há uma vanguarda que deplora a Tal como os poetas. rentemente dos brancos. fraternidade trabalhador branco é incapaz de produ- e igualdade. não deixará pedra definir a Negritude apenas como um sobre pedra. usa a conscientização racial como mo- Fala do africano sintético em oposição vimento social. e de Frantz Fanon. Sartre imperialismo franceses.200 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos energia obsessiva impulsionando os po. o esperma do mundo” tação raramente perdoa o racismo”. a celebração por Sar. O homem negro. por outro lado. O po. Para Sartre. para quem tre o coloca. Ele também vê vê outra analogia na maneira como os a Negritude como um “vir-a-ser”. reverterá o significado de racismo antirracista unindo pessoas em cada palavra francesa que tenha contri. autêntico. ritmo. Sua poesia é que escreveu o Discurso Sobre o colo- evangélica. (316). e das as cores (326). uma Zeus. o qual derno catálogo histórico do genocídio. . da capacidade dos de todos os tipos de privilégios étnicos. ele canta a proxi. A Negritude que Sartre aqui des. L. pois “deseja a abolição ao europeu analítico. Mas Sartre não se contenta em eta negro. uma poetas da negritude desfamiliarizam a transcendência de si mesma num futuro língua francesa: a de Prometeu rouban- universalismo. tivo e. “continua sendo o grande “uma nação que assume a luta de liber- macho da terra. portanto. Isso leva o mestre francês a decla- interna e outra externa. de Aimé Césaire. como Sar. negros de demonstrar emoção em opo- a solidariedade com os oprimidos de to- sição à fria racionalidade dos brancos. Sartre também vê na Negritude creve parece-se com a de Cheikh Anta os ideais da Revolução Francesa. O ção Francesa que Toussaint L’Ouverture homem negro. torno da consciência de raça para com- buído para sua subjugação e resgatará a bater o colonialismo. apropriou para o Haiti. “a zam sua negritude e dela fazem uma di- única grande poesia revolucionária” em ferença irredutível são mobilizados pelo francês naquela época. ou midade dos africanos com a natureza. dife- etas negros na busca de sua negritude. também. é subje. James. tempo. temas centrais da Revolu- zir boa poesia por ter sido contaminado pelo seu ambiente objetivo e técnico. relação simbiótica com a natureza. descobriu que a unidade negra coincidia do fascismo e do racismo. os quais tribuição negra à evolução da Humani- acreditavam que os negros vivem numa dade não é mais aroma. Para Sartre. lar e escudar-se da contaminação exter- tre do essencialismo racial da negritude na. nialismo. há duas for- do o fogo. Ao mesmo não parece deixar espaço para críticas. de mas de construir conceitos raciais. negritude como racismo antirracis ta. Aqui.

um sentido de revolta e um amor também acreditava que os europeus ha- à liberdade. em que o racismo e o colo. no sentido hus. como é o mais oprimido. -africanismo. negra ao afirmar a África e outros con- um futuro”. e Creio valer a pena seguir essa vi- para colocar entre aspas. os poetas da Negritude se que Sartre estava diluindo o significado identificariam com o sofrimento. fracassara em concretizar ao fim da Se- quer outros. buído a mesma missão do marxismo ou do. Anteriormente. percebi tinentes envolvidos no embate contra que Sartre havia historicizado a Negri. Sartre colocou essa espe- proletariado. as palavras “é um empreendi. como da Negritude. mente sobre a passagem supracitada. ago. E. que conhe- Orfeu negro fez com que afloras. sol em nome de qualidades étnicas. viam abandonado o espírito da moder- ao trabalhar por sua própria redenção nidade ao se recusarem a deixar de lado está necessariamente buscando a liber. para re- sem as divisões ideológicas em minha ceber como encargo a missão de pôr um turma. Richard Wright outros. sofrimento. Confiantes ção ao universal impedia a luta negra de em que a descolonização era a mais im- definir sua própria agenda para a liber. Com essas palavras. são sartreana a fim de entender o pan- serliano. vem a ele ã partir de sua rança na Negritude. uma construção longamente sofrida do cristianismo. de que os excluídos conhece- nialismo eram eles próprios condições riam o significado do ostracismo. Cristo o fizera. e essa missão. racismo e o colonialismo como consti- . ele estabelece seu direito à vida em uma sociedade sem racismo nem divi- sua missão. uma construção paciente. o tantes movimentos sociais teleológicos homem negro reclamava seu lugar ao da história moderna. pois conheciam o gosto de ser de classes. fim aos males da humanidade e encer- gorados com o apelo de Sartre a uma rar a narrativa grandiosa? A Negritude luta comum em prol de um humanismo contém as ideias românticas de que os universal. acreditavam do século XX. Eles concordavam com Sartre oprimidos não perseguiriam seus irmãos em que a Negritude dizia respeito à luta e irmãs. A utopia da Negritude clama por ra. que os que haviam sofrido os pogroms ditavam que esse movimento em dire. poder criar a sociedade que a Europa ploração capitalista mais do que quais. como a do sões de classe. ensinariam o mundo a amar. lhor que os negros. um buquê de instintos tude numa narrativa grandiosa e lhe atri- primitivos. Pan-africanismo e pedagogia Manthia Diawara 201 autenticidade. Que povo me- tação de todos (325). oprimido. o racismo e a xenofobia. portante revolução da segunda metade dade e o reconhecimento. de modo a pôr fim a todo Pedi à turma para pensar seria. que ele acreditava posição histórica: como sofreu pela ex. ele adquiriu. Outros acre. mais que os gunda Guerra Mundial. ceram o racismo e o sofrimento. é um empreendimento data. Houve os que se sentiram revi. portanto. Ela universaliza a luta mento datado. e de do antagonismo de classes. dois dos mais impor- e também um futuro.

tampouco se firmaria como um de que nosso destino coincidia com a ofuscante determinismo da cor da pele. de que a Negritude era maior que a pró- viam inventado. 1968). Era versal. é o de Fria e forçados a se alinhar com a Otan criar um novo homem e uma nova mu- ou com o bloco soviético. Angela dos negros na Negritude coincide com Davis. tal como o de um demiurgo. A missão eram até então disponíveis por meio do da Negritude é agora a liberdade uni. de Constance Fanington (Nova York: Grove. A Negritude com o movimento dos direitos civis nos e outros movimentos de descolonização. jovem escritor oriundo do movimento reito de moldar seus próprios destinos. O papel do poeta ne- antes de serem cooptados pela Guerra gro. Evidentemente. trad. Marx. Fidel Castro.202 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos tuindo o futuro do mundo. e não o de apri- promessa de uma renovação mundial: sionar a musa num gueto. foi o primeiro a concordar os povos brancos se livrariam da culpa com Sartre e a denunciar. da condi.212-3. um os povos negros e morenos teriam o di. de que fazíamos parte de um limitada à África nem voltada para den. o próprio Sartre. a luta pelos direitos André Malraux. Fanon. . a do nos dava uma identidade maior e fim de fornecer energia aos necessitados mais importante do que aquelas que nos de liberdade e emancipação. Nelson Mandela e Frantz Fanon. essa visão transforma guns de nós que cresceram na África o objetivo da Negritude em algo mais dos anos cinquenta e sessenta. que compreende não apenas os bom estar em sintonia não apenas com súditos coloniais da África e do Caribe. rios de renome internacional como Karl balhadoras da Europa. da etnicidade e da raça. movimento internacional que continha a tro numa contemplação narcisista de si promessa de emancipação universal e mesma. Leon Trotsky. Martin Luther a análise marxista. liberdade universal dos trabalhadores e Seus poetas confiscariam o fermento da dos povos colonizados de todo o mun- vida daqueles que odeiam e exploram. por Sartre. A modernidade estaria armadilhas da identificação racial: “A finalmente cumprindo sua verdadeira afirmação incondicional da cultura afri- missão no sentido que Habermas atri. The wretched of earth. Albert Camus. continham a lher num mundo novo. King. América e Ásia. Eu queria que meus alunos sou- nidade do obscurantismo e da opressão. parentesco. cana sucedeu a afirmação condicional buiu a esse termo: ir além da diferença da cultura europeia”2. Mao Tse-tung. bessem o que isso significou para al- De repente. Estados Unidos. as de paternalismo. e da Negritude. em seu pio- acumulada durante séculos de racismo e neiro livro Os condenados da terra. visível de cor da pele e salvar a huma. ção da classe trabalhadora na França e A consciência de nossa nova missão his- 2 Frantz Fanoo. mas com revolucioná- mas também as exploradas classes tra. A Negritude não seria pria África. A ideia amplo do que os poetas negros que a ha.

dava-nos um novo sen. será que de uma luta comum. estabelecer a agenda dos poetas da dos de liberdade. e desse modo desintegrar. em ambos os nos. Minha própria resposta. de que todo movimento tem sua própria vadores da humanidade. Como apontaram alguns alunos da meçam a iluminar nossas lutas e pro- turma. Também é verda- francesa. um homem bran. parece afastar a pretensão inicial de casos. leva a Negritude. e portanto diluindo as ideias radi- vamos serem as identidades arcaicas de cais do movimento. de nós uma nova maneira de ser radi- Enfatizar com demasiada rapidez as si- calmente chique e de assumir uma nova milaridades entre a Negritude e os mo- identidade para não ter de lidar com a vimentos proletários que têm lugar pelo raça. pelo triba. de uma demanda o movimento em direção ao universal de âmbito mundial aos supremacistas e constitui uma traição à cultura negra? capitalistas brancos por direitos huma. Isso é o que Sartre vê na Negritude. nossos pais e suas armadilhas religiosas. quando ainda coerência interna que permanece viva ontem éramos colonizados e despreza. quando nos tornamos suficientemente imersos na No entanto. é “não”. Inversamente. fazer. quando o todo o mundo na direção em que Sartre universal é verdadeiramente universal. seus temas centrais co- tude. que não era mencionada senão em mundo encerra o risco de tornar invisí- discussões sobre racismo. pelo modo específico como ela coloca dos pelo mundo. Somente em veis essas partes constitutivas. resistência e guetização e libera os ele- cer ou ignorar alguns de seus elementos mentos que constituíam esse particular. O desejo de parecer ele retira do particular a necessidade de universal pode fazer a Negritude esque. dizendo-lhes o que e como sal. Com efeito. Pan-africanismo e pedagogia Manthia Diawara 203 tórica libertava-nos do que então pensá. Ironicamente. que lhe gem. Essa auto- o desdém pelo capitalismo. Sermos agora rotulados de sal. Os alunos pareceram preocupados movimento que ele pensa ser capaz de pelo fato de Sartre. lançar uma nova luz sobre os significa- co. o universalismo pro- permite brilhar entre outros movimen- posto por Sartre tornou-se para alguns tos e até ser admirada e imitada por eles. Quando o particular é autenticidade e singularidade da Negri. um -se. é que será que o movimento em direção ao a raça reapareceu como elemento im. bem-sucedido. seus elementos em ação e mantém entre timento de integridade que alimentava eles uma relação específica. perguntei à turma. cultura popular negra americana. meados dos anos sessenta. vimento para longe do universal? Ou. pode não ser possível conduzir jetos criativos. essa consciência colocando de outra maneira. particular é necessariamente um mo- portante da cultura. Negritude é basicamente uma poesia de vrava do temor à brancura da identidade negros sobre negros. Nesse sentido. é verdade que a libertava-nos também da raça e nos li. amor e beleza univer- Negritude. nomia consigna a um movimento como lismo e pelo racialismo de qualquer ori- a Negritude a sua singularidade. constituintes. A luz proveniente da África e dos .

Sartre enfatiza o que preendia a necessidade de celebrar a é externo à Negritude: o presente que o Negritude com base no particularismo. foi por terem cantado outras partes do mundo contra o racis. E no entanto a Negritude. geração fora atraída para a Negritude cêntrico. A tendência da Negritude e deixem que esta os uni. Minha que o universalismo de Sartre era euro. de maneira particularmente moderna e ras política. Assim. sua canção de amor a partir do interior mo e a exploração. só foram para a escola e de para digerirem o que esta significava aprenderam a ler e escrever por causa da para eles e o que eles pretendiam fazer com ela. é importante distinguir a Negritude de Era então o momento de eu expor suas emanações. e inspirou outras canções de libertação. e de nos fornecer nossas fontes egípcias ou da África Subsaaria- próprias nações. A universalidade de meu argumento por meio de algumas uma coisa não é a coisa em si. universalista traz consigo – e contra a fique contra o colonialismo. pela primeira vez. não tribo e do clã. o proletariado – eram todas de aos brancos. o professor deles não fosse o naciona- Alguns de meus alunos disseram lismo dos poetas da Negritude. Expliquei à turma que eu com- terna à coisa em si. é o que definições etnocêntricas de universa- a coisa revela ou ensina a outros. em outras pa- Eu próprio talvez não estivesse ali como lavras. africanos e caribenhos colocassem donemos pelo universal. Prometeu. É nesse parte da descolonização. Tal universalismo não proporcionava minha geração. Foi por se tendência separatista – uma ameaça de voltarem para dentro de si mesmos a fim destruição da identidade. suficientemente visível situação histórica que os poetas da Ne- para influenciar as lutas de libertação gritude descobriram uma verdade maior travadas alhures e liberar energias em que eles mesmos. psicológica e artística. descubram a beleza orgulho de sua cor” (329). nos ensinou a pensar negros da França afirmar-se nas esfe. pela primeira devemos a modernidade que a aban- vez. desprezados pelo siste- tempo suficiente aos poetas da Negritu- ma colonial. é ex- lismo. de nos erguer acima da uma tradição escolástica europeia. era importante sentido que nós dizemos que a Negritu- porque. É mais mais tarde levaria à independência de fácil pedir aos que teriam conhecido vários países africanos com escritores a modernidade sem a Negritude que a da Negritude entre os chefes de Estado. permitia aos de nos inventou. como Negritude e da independência. a lição da liberdade. pela promessa desta de nos tornar iguais a Bíblia. poeta negro dá ao mundo. suas fontes – Orfeu. esqueçam do que exigir de nós que lhe A Negritude permitiu que. é o que constitui a de sua especificidade que ela iluminou universalidade da Negritude. uma atitude agressiva que . Como disse o sua negrura como um conceito positivo próprio Sartre. Muitos dos filhos de na. uma mudança se tornarem conscientes de sua própria de prioridade. “ao homem de cor – e de modernização: tenham orgulho de só a ele – se pode pedir que renuncie ao sua ancestralidade. Isso nos colocou dentro da história.204 THOTH 4/ abril de 1998 Depoimentos poetas negros.

Pan-africanismo e pedagogia
Manthia Diawara 205

faz o separatista sentir ansiedade por ter ções tinge hoje nossa visão dos próprios
sido posto de lado e negligenciado. Estados Unidos, cuja civilização é dita
É importante lembrar uma vez “ocidental”. Mas, não obstante a presen-
mais que o universal é sempre um pre- ça de norte-americanos de ascendência
sente ou uma revelação que se dá ao europeia e o desenvolvimento de certas
mundo. Os modos de concretização des- ideias e práticas originadas na Europa,
se presente conduzem, sob certas con- permanece o fato de que as identidades
dições sociais, ao controle, à resistência dos norte-americanos derivam tanto da
ou à desautorização. Em primeiro lugar, fuga da Europa e de suas culturas mo-
o universal pode assumir traços parti- narquistas, vitorianas e religiosas quan-
cularistas ou racistas quando quer que to da África e da Ásia; a América não
pessoas, a fim de controlá-lo, escolham culturalmente intercambiável com a Eu-
uma forma seletiva de disseminação. ropa, do mesmo modo como não o pode
Aimé Césaire estava certo ao chamar a ser com a África e a Ásia.
experiência colonial na África de siste- Curiosamente, a referência à
ma de dádivas controlado, porque ob- identidade ocidental dos Estados Uni-
jetivava apenas educar seletivamente e dos nada mais é que o desejo dos
cristianizar parcialmente os africanos euro-americanos de se inserirem per-
nativos, jamais se interessando em dei- manentemente na própria imagem da
xar as pessoas obterem plena vantagem norte-americanidade e de manterem o
do potencial universal da educação e do poder de se reproduzirem a si mesmos
cristianismo. Mas uma dádiva deve ser como os norte-americanos ideais e uni-
total para que possa ter uma significação versais. Esse tipo de essencialismo per-
cultural positiva. manece sendo um problema na medida
Hoje em dia, as pessoas ainda em que as pessoas continuam a reivin-
doam seletivamente, e permanece uma dicar certos elementos universais desco-
tendência essencialista que liga a bran- bertos por seus ancestrais num período
cura a práticas universais como a pes- particular da história; obviamente, estou
quisa científica ou a música clássica. sofrendo uma ansiedade de separação.
Por exemplo, a relutância em aceitar O tratamento equivocado da perda de
as coisas tal como elas são leva alguns um país de origem e a cisão psicológica
intelectuais a continuarem se referin- provocada pela fuga da Europa para a
do ao romance como apenas uma for- América conduzem à negação das novas
ma de narrativa ocidental, e não como identidades americanas, à permanente
uma forma inventada na Europa num percepção errônea dessas identidades
momento particular da história. Eviden- como puramente ocidentais e, conse-
temente, para se escrever um romance quentemente, ao racismo e à xenofobia.
hoje em dia não se precisa ser europeu O desejo de controlar o elemento
nem concordar com um modo de vida universal da Negritude, ou de doar se-
europeu. Um avarento sistema de doa- letivamente, também assombra alguns

206 THOTH 4/ abril de 1998
Depoimentos

negros da África e da Diáspora. Nesse ausência de suas imagens naquilo que
caso, porém, os agentes sociais enfren- se percebe como universal. Mas tal mo-
tam um problema diferente, pois, di- vimento de resistência corre o risco de
versamente dos euro-americanos, que se desviar da própria modernidade que
possuem os meios de disseminar o que se revelou a eles na luta dos poetas da
é universal e de exercer o controle sobre Negritude por libertação.
seu desenvolvimento, eles não possuem Nos debates contemporãneos so-
um mecanismo para distribuir sua Ne- bre universalismo, é fácil perceber que
gritude na esfera pública e, portanto, são as pessoas que recusam a existência
incapazes de controlar sua definição de de raças do ponto de vista biológico e
maneira universal. Confrontados com
cultural estão entre os mesmos grupos
a carência de recursos políticos, cul-
que negam à ampla maioria dos negros
turais e científicos com os quais pode-
o acesso a meios políticos, econômi-
riam obter plateias para a sua categoria
cos e culturais que lhes possibilitariam
de universal, os negros, que não podem
movimentar-se para além do simples
estimular nem impor uma realidade por
determinismo da cor. É cada vez mais
meio de suas representações, recorrem a
fácil apontar a homofobia, o sexismo
euromodernismos como o marxismo ou
e a xenofobia em grupos que esposam
o cristianismo para definir sua Negritu-
o particularismo, e mais difícil para os
de ou então se refugiam na resistência
e no particularismo estreitos. Por exem- intelectuais públicos tentar fornecer a
plo, os afrocentristas recorrem a uma esses grupos o acesso a meios políticos
oposição binária e esquemática ao euro- que façam os homens brancos tornarem-
modernismo, que se congela num eter- -se menos xenofóbicos, homofóbicos e
no antagonismo negro e branco, bom e sexistas. Atualmente, o controle pelos
mal, sedentário e nômade, povo do sol e homens brancos da definição do que é
povo do gelo, como forma de definir sua universal, belo e racional também exclui
Negritude. Os defensores da etnofiloso- os particularistas dos espaços discursi-
fia na África, por outro lado, postulam vos. O escritor e crítico Ishmael Reed
as religiões tribais, as tradições orais e está correto quando se refere aos depar-
a tamborologia como a base para a for- tamentos de língua inglesa como sendo
mação da identidade e para a racionali- de estudos étnicos brancos porque, tal
zação de sua Negritude. Evidentemente, como os departamentos de estudos ne-
os agentes sociais podem ser forçados gros e chicanos, os departamentos de
a se refugiar na zona confortável da língua inglesa se recusam a democrati-
identidade política em razão: da falta zar os critérios estéticos que dão a ou-
de acesso aos instrumentos necessários tras literaturas o acesso a suas listas de
para a disseminação de ideias e objetos grandes livros. Não se pode continuar
universais; da ampla disseminação co- defendendo a reivindicação à universa-
mercial daquilo que outros percebem lidade da arte enquanto ao mesmo tem-
como sua cultura; ou da permanente po se resiste à universalização do acesso

Pan-africanismo e pedagogia
Manthia Diawara 207

às condições sociais e econômicas que fessou que escolhera o curso por causa
produzem o gosto pela arte. do som autêntico de meu nome africano.
No último dia de aula, apresen- Todos os cursos sobre negros e África
tei novamente o Orfeu negro de Sartre eram dados por professores brancos. Ela
e perguntei aos alunos se acreditavam não confiava neles. Queria estudar com
que essa obra teria lugar numa aula so- um verdadeiro africano e ver como era
bre pan-africanismo. O debate foi tão isso. “E daí?”, perguntei com impaciên-
aceso quanto no primeiro dia de aula. A cia. “Ah! Agora eu sei que nem todos os
maioria dos alunos não se havia afasta- brancos são iguais, da mesma forma que
do de suas posições originais. Mas desta nem todos os negros são iguais. Com
vez se mostravam mais amigáveis. Não mais professores negros como o senhor,
me surpreendi. Como professor, vejo não me sinto mais desconfiada dos pro-
meu papel como o de um facilitador; em fessores brancos e do conhecimento de-
outras palavras, desejava fornecer-lhes les sobre a África. E estou satisfeita de o
argumentos suficientes para defende- senhor nos ter feito ler Sartre.”
rem qualquer posição que desejassem
Publicado originalmente na revista Renaissance
assumir. Houve para mim um momento Noire (Nova York), Vol. I nº 1, 1996. Tradução de
luminoso em tudo isso. Uma aluna con- Carlos Alberto Medeiros.

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crenças. em 1966. es- Festac 77: uma tão destinados a nunca serem vistos pelo notável ausência* público nos Festivais de Arte Negra. No primeiro festival. Essa ausência é realmente lamentável por várias razões. ideias. Estou falando do teatro dramático em seu verdadeiro sen- tido artístico: usar os recursos verbais e visuais do teatro para articular proble- mas. o mesmo ocorrerá este ano no segundo festival. Teatro Negro Parece que os textos do teatro afro- Brasileiro no -brasileiro. tanto quanto posso saber enquanto es- crevo estas linhas. devo dizer que não me refiro à apresentação de danças exó- ticas ou folclóricas. . realizado em Dacar. esse importante ramo artístico da cultura negra do Brasil estava ausen- te. Inicialmente. experiências. iluminando Abdias Nascimento os mais profundos aspectos do ser huma- no e revelando-o nas regiões mais pro- fundas de sua história. assim como sua interpretação por atores e atrizes negros do Brasil. pro- por alternativas de mudança.

Qualquer um que tenha ma artística” era pintar de preto o rosto familiaridade com o teatro brasileiro ou de um ator branco. do ator – quer dizer. da Holanda durante 64 anos. com os seus líderes da esta- nos palcos dos teatros brasileiros. em São para desempenhar um papel exótico. que é de origem africana. em seus nichos históri- e belas empregadas domésticas facil. ou Chi- em suma. As peças apresentadas naque. sob de uma sociedade dominante que era as dores do cativeiro. nambuco. tereótipos e caras pretas – não era um gem negro exigia qualidade dramática fenômeno isolado restrito aos palcos. todo o meio social e cultural co Rei. a estética.. que en- do País. e muitas outras pessoas de igual revolta em busca da liberdade. Uma caricatura dos que tenha acompanhado sua evolução negros como crioulos – este era o tea- recordará o papel de divisor de águas de. Séculos também de insurreição e nheceu. tal como o das sorridentes eles esperando. ou então Mas esse tratamento dos des- o domesticado Pai Tomás. Nós creveram na vastidão territorial do país não éramos um grupo que simplesmen. cendentes de africanos no teatro – es- Quando o papel de um persona. o levarão suas lendas para o palco. pelos dramaturgos e escritores que mente acessíveis em termos sexuais. cuja República reservados exclusivamente aos artistas Africana dos Palmares (Alagoas-Per- brancos. com o fale. era somente uma . comprou a liber- branca. a Preta Velha em mundo. o soberano africano que. então tura de um rei Zumbi. cos. como se metade da população dade de sua tribo escravizada. os costumes. com elevando qualitativamente a consciên- um limitado e previsível repertório de cia dos africanos e dos povos negros do momices e palhaçadas.. assim dos moleques mostrando os dentes. ou a baiana Luísa de subir ao palco. destituídos de róis afro-brasileiros e seus feitos. Paulo. o potencial dramático cultivado em sé- cido Aguinaldo Camargo. as ideias. ignorava no Rio de Janeiro em 1944. fundado por este autor lírica dos africanos do Brasil. vitalidade e excelência. era invariavelmente Mahin e seu filho Luís Gama.212 THOTH 4/ abril de 1998 Sankofa: Memória e Resgate É nesse campo de criação que os negro consistia em algo mais do que fa- negros brasileiros têm mantido uma luta zer palhaçada ou dar cor local – a “nor- árdua e tenaz. A literatu- sempenhado pelo Teatro Experimental ra dramática ignorava a tremenda força do Negro – TEN. tivo. século XVIII). Quando um ator ou atriz de cooperativa de mineração (Minas Ge- origem africana tinha a oportunidade rais. quando o papel do Muito pelo contrário. não tão fundou uma próspera comunidade existisse. que ins- coragem. 1630-94) resistiu às forças les palcos refletiam exclusivamente a militares de Portugal como também às vida. tro brasileiro antes do TEN. e muitos outros corajosos he- estereótipos dos negros. no Estado do Rio de grotesco ou subalterno – um dos muitos Janeiro. uma indelével cartografia de heroísmo te desejasse apresentar algumas peças e lenda. Karocango. o melhor ator culos de sofrimento e de trabalho cria- – branco ou negro – que o Brasil já co. todos humanidade. seus lamentos ou gargalhadas.

Desenho de Lívio Abramo para o TEN .

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) confinando-o esteticamen- jetificação sexual.) – tão seguramente mantido nos punhos apertados da classe domi. reflete o monopólio – da cídio como negros. ria sua dignidade como ser humano e como negro – e não aquele que Bastide sa imaginar. com respeito e xos níveis de existência. de sua direção política e econômica (doméstica e externa). etc. o e instrumentos de decisão permanecem Teatro Experimental do Negro – TEN zelosamente guardados naquelas mãos. em que o artista negro podia ções de vida. chegando à agressão ar. só tem lugar nos mais baixos mulou a criação de textos dramáticos níveis de emprego e subemprego. mediante não participam – com igualdade de opor. pesquisar e explorar. que resultou em uma força. Um teatro que reconhece- sofrem todas as agressões que se pos. pretende apagar o verdadeiro caráter . mass me- dia. foi um protes- os deuses negros em beneficio do ho. descreveu como: como as técnicas de aculturação. de sua formação Omissões notáveis cultural (educação. o mo. europeia. como brasileiros”. o encorajamento da maciça imigração tunidades ou de condições. em suma. juntamente branca e da miscigenação.. de seus meios de produ. esti- o País. da qual agressão é a política de embranquecer os afro-brasileiros não participavam – e o País física e culturalmente. sua personalidade humana e religião de origem africana sofreram e humanística. Todos os órgãos forças por meio da ação e reflexão. de ob. desde as agressões sutis. em resumo. imprensa. e que mada da polícia e suas prisões.. a fim de existirem terra do Brasil. branca. (. ra a ser latina. ção. da “sincretização”. to ativo contra uma sociedade que aspi- mem branco”. os mais bai. o trabalhador solitário que tir fora dos estereótipos anteriormente arduamente se exauriu para construir mencionados. fletida. Sua cultura e dignidade. formou um corpo de atores e atrizes enquanto o descendente do escravo dramáticos negros. de folclorização. Tentando contrapor-se a essas nante branca europeia. (nas palavras de Roger Bastide) uma nopólio branco dos palcos brasileiros “ideologia que os força a cometer sui- não é exceção. Se o mundo do teatro que constituem para os afro-brasileiros reflete o mundo como um todo. Ao mesmo tempo. Teatro negro brasileiro Abdias Nascimento 215 das muitas facetas do contexto mais Mas a mais insidiosa forma de tal amplo da sociedade brasileira. o primeiro a exis- africano. entreter o público. até a proibição e a te ao único papel que o homem tentativa de extermínio das religiões branco lhe havia destinado: o de africanas. de assimilação. para citar com outros grupos de diferentes origens apenas duas dentre as várias políticas étnicas ou raciais. de nos quais a experiência negra era re- subeducação e de deploráveis condi. descrita por Roger Bastide como “uma máscara cobrindo O TEN.

ou Zeni Pereira.. a única que filme Orfeu negro.. ofe- que este segundo festival não tenha a recendo-nos depois rápidas impressões oportunidade de vir a conhecer a força e dessas obras. Nelson Rodrigues: O rigor científico um ensaio ironicamente anjo negro. dissipar com o seu foco de raes Pinho: Filhos de santo. ou de travar contato penetra profundamente na denún- com Ruth de Souza.). branco. diz que próprios valores”. que a criou no seu próprio cativos do teatro brasileiro. “o homem negro sobe Roger Bastide. Augusto Boal: Arena conta intitulado A palologia social dos bran. por ser ação o reconhecido e premiado Milton nada menos que uma forma hipó- Gonçalves. Castigo de trabalho servil (. tos da vida dos negros: Antônio Calla- ciólogo Guerreiro Ramos escreveu com do: Pedro Mico. a partir da política sistemática do . Zora Seljan: História de Oxalá. de Rosário Fusco. Clementino crita de genocídio. nas palavras para negros e prólogo para brancos.. médio de uma sábia estratégia Outra notável ausência da delega. teatro afro-brasileiro intitulada Dramas É com o TEN que. O so. tais como: a pureza de uma atriz como Léa Garcia.) Auto da noiva. mas. depois da supressão do da noiva. Lúcio Revelar a negritude em seu valor Cardoso: O filho pródigo.) O anjo negro. com os seus que aparecem naquele volume. (. por conseguinte. como Auto interesse. que criticamos.(. (. em um estudo das peças ao palco. de Roger Bastide. Joaquim Ribeiro: Aruanda. Campos: Um caso população pelas elites do País. ele a coloca contra o ção brasileira é a falta de textos signifi.) Rosário Fusco cria. entre todas as obras atuação como uma das protagonistas do escritas por brancos. elas “fogem do arquétipo universal para É.. ou de ver em amento]. Gonçalves. luz a escuridão de que resultou nossa Escrevendo uma introdução à posse total pela brancura – eis uma das edição em inglês de minha antologia do tarefas históricas de nossa época. Fusco] retoma a ideologia do cido as atividades desse festival com sua branqueamento.216 THOTH 4/ abril de 1998 Sankofa: Memória e Resgate cultural e étnico de metade de sua popu. José de Mo- intrínseco. humorística. muito triste especificar uma raça ou cultura”. de Nelson Ro- internacionalmente conhecida por sua drigues. como um ator. Cléa Simões e tantos outros artis. [de Rosário tas valorosos que poderiam ter enrique. de Romeu Crusoé. cia dessa ideologia [de branque- no cinema e na televisão.. ou alguma inversão do branqueamento que peça de Ironides Rodrigues ou Milton conheço.. Há também textos de drama. -ataque de Guerreiro Ramos e do TEN: Tasso da Silveira: O emparedado. cos brasileiros. de Kelé. por inter- presença e/ou com seu trabalho. O contra. famosa nos palcos. Zumbi. É a mais bela Oxalá. é. (.) Kelé.... denunciando o mórbido Agostinho Olavo: Além do Rio: (Me- anseio de se tornar branco instilado na deia). Fernando C. turgos não-negros que tratam de aspec- lação: os descendentes da África..

de Abdias Nascimento. Rio de Janeiro. 1957 .Desenho de Enrico Bianco para a capa do programa da peça Sortilégio: mistério negro.

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enredo. não deveriam ser de modo algum exclu- Certas frases ecoam. de Abdias Nas. de africanos e negros que falam portu- (. Venezuela. um bumerangue que se a essas duas línguas seria. as línguas dos lugar que ocupa O filho nativo na descendentes de africanos na Diáspora literatura afro-norte-americana. cimento.. vamos permitir que continuem fazendo logias. trabalhos em diferentes idiomas e con- cer. Escritores Africanos. da li. Mesmo que se concre- no Brasil..) uma lâmina rotativa nascida to de vista. ribe e da América do Sul (Porto Rico. põe contra seu criador para aben...).) Sortilégio. em sua reunião (. para ilustrar o meu pon- (. com efeito. de um he. nos Estados Unidos.. que restringir os eventos seguem lotar teatros em todos os países. (. Não deveríamos esque.. ídas dos eventos culturais: tal situação misfério para o outro. mencionar os afro-americanos do Ca- res de seus destinos. que é um mito nagô que se preservou falam espanhol. estratégias variáveis do branco Em 1970. Não além da diversificação de ideo. etc. gregas viajam principalmente de pessoas de fala ingle. senta homens de hoje. de junho de 1975. que estabelece o crime noiva foi apresentada em português por como expressão da revolta. Companhias de português para uma audiência composta teatro inglesas. todo o mundo. o público foi perfeitamente Estou ciente de certas dificulda.) Aruanda (Joaquim Ribeiro) é guês. de Richard se tornaria verdadeiramente trágica para Wright para Abdias Nascimento. Com uma sinopse do texto A desculpa do idioma em inglês distribuída antes de começar o espetáculo. capaz de seguir o desenvolvimento do des. tizasse a ideia proposta pela União dos domblés.) ocupa na literatura estabelecendo uma língua única em co- brasileira exatamente o mesmo mum para toda a África.. dominados Moçambique e Guiné-Bissau.. a peça afro-brasileira Auto da do medo. Teatro negro brasileiro Abdias Nascimento 219 branco. francesas. . contudo. As línguas dos coloni- damental das Américas negras zadores nos separaram no passado. excluir da participação muitos milhões çoar sua morte. Isso sem pelos deuses africanos.). (Bloomington). por todo o mundo apresentando seus sa ou francesa. como é o caso do Brasil (50 a 60 um mito banto-caboclo que apre.. mas não da absoluta impossibili. estudantes da Universidade de Indiana bertação (. no interior dos can. os africanos e seus descendentes em demonstrando a unidade fun. Angola.. os senho. para uma plateia exclusivamente de lín- gua inglesa. Colômbia. milhões de afro-brasileiros). A história de Oxalá (Zora Seljan) Cuba. realizada em Accra. apreciando criticamente tudo o dade de uma peça ser apresentada em que acontecia no palco. situações políticas e das o mesmo no presente.

está um homem como o ro. que se realizará na Nigéria. Tais pessoas podem ser total- ricas da negritude? Onde. órgão notoriamente que admite abertamente desconhecer racista. Isso não altera. assim de poder. são os critérios adotados para selecionar . um homem que afirma Por que o processo e o poder de de si mesmo e de sua escolha para essa tomada de decisão sobre essa matéria posição: não estão nas mãos capazes dos negros Não sou crítico. ilustre professor negro que a tamente de uma tradicional famí- Bahia deu ao mundo? Ou o poeta negro lia nigeriana. e não por artistas negros. Eduardo de Oliveira. por motivos completa.). afro-brasileiras. nem artista. romancista e inte. de São Paulo? Ou mantive contato (. ra afro-brasileira. se deve -brasileira? Onde está um Dr. Eles são tomadas por brancos politicamente chegam ao ponto de selecionar como poderosos. que claramente têm pouco ou crítico e escritor paulista? Ou Eduardo nada a ver com sua participação.220 THOTH 4/ abril de 1998 Sankofa: Memória e Resgate Entrementes. nesse processo de (. conhe- Oliveira e Oliveira. a presença dos textos esses grupos poderosos incluíram outras e dos artistas do Teatro Negro atual. É verdade que sou o repre- tomada de decisão. estou convencido Com a finalidade de mascarar a de que seria impossível para a represen. com a qual sempre Osvaldo Camargo.. bre a participação brasileira no Festac. autor de A maldição de Canaã tretanto. os critérios adotados para sua e Castigo de Oxalá? Ou Fernando Goes. Na verdade. Minha escolha. mente diferentes. Milton mais ao fato de eu descender dire- Santos.. ajustadas a esse tipo de com- mente em atividade. sentante permanente do Governo ro Ramos. Sou simplesmente cultura afro-brasileira e na criação de um psiquiatra perdido num imen- obras artísticas afro-brasileiras? Onde so mar de experiências clínicas está. audácia os problemas da estética afro. As decisões sobre portamento que o eufemismo brasilei- quem vem e quem não vem ao Festival ro denomina “democracia racial”.. nem poe- ativamente envolvidos na afirmação da ta.. não tem ne. por exemplo. sociólogo paulista? cimento ou criação em matéria de cultu- Ou Ruth Guimarães. por exemplo. pessoas.. verdadeira fonte e foco de controle so- tação brasileira. autor de Gestas lí. seleção.). que. como figuras ilustres em seus campos mancista e dramaturgo carioca Romeu de especialização. sociólogo e pensador negro brasileiro junto ao Segundo Festi- internacionalmente renomado que tem val Mundial de Arte e Cultura Ne- focalizado e iluminado com lucidez e gras. A representante permanente junto ao Se- maioria dos responsáveis pela seleção gundo Festival Mundial de Artes e Cul- é de funcionários do Ministério das Re. nas posições mente sinceras em seus motivos. en- Crusoé.. o baiano Guerrei. tura Negras e Africanas um psiquiatra lações Exteriores. o desenvolvimento da arte e da cultura nhum diplomata negro em seus quadros. contudo. se esses lectual negra? .

Rio de Janeiro.Abdias e Lea Garcia na peça Sortilégio: mistério negro (Teatro Municipal. 1957) .

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o pró- de tal trabalho. o berço e o lar da civilização de artistas e criadores negros capazes de meus ancestrais. e esse poder. Sebastião Rodrigues Alves. em colocá-los uns contra os outros. então que nos símbolo histórico da luta pela afirmação permitam também lançar mão de artis. posso citar: Mercedes prio lugar em que Oxalá desceu. pintor. que meu propó. ção. crítico e pensador gaúcho. escritor. do Rio de Janeiro. pin- Frustração minha? tor. não tenho a menor ne- dos artistas e criadores negros de acordo cessidade ou intenção de reivindicar com suas vinculações e contribuições minha participação pessoal nos eventos à cultura afro-brasileira. deixar de caracterizar outras es- rio. O processo e do Festac – como pintor. autor de A ecologia do grupo afro-bra- sileiro. devo declarar. de Meu propósito não é apontar duas coisas: primeiro. há muito tempo um líder dos ne- gros brasileiros. de também da antiga estratégia de domi- fato. Embora 1966. Celestino. Ao contrário. tal divisionismo.. de seja o último a defender ou participar de forma clara e decisiva. José Correia Leite. -brasileiros. ape- soal contra determinados representantes nas ilustrar esse critério. colonizador. coreógrafa negra que conhece cordão dourado. ator ou drama- o poder de decisão deveriam estar ex. de dividir os conquistados e meiro Festival. samente acusado. nenhum indivíduo pessoalmente. Para mim. é mais do que to e as formas da dança afro-brasileira suficiente saber que minha peça Sortilé- em função de sua dedicação e de seu gio será apresentada em inglês aqui. esse processo escolhidos. jor- Sei muito bem que serei malicio. O critério deveria ser a promoção Ademais. em . nalista e crítico de arte. usada desde o início dos tempos resposta à minha Carta Aberta ao Pri. em seu Batista. de Arte e Cultura Negra. escrevendo afro-brasileira. em várias frentes. de fazer essas afir. para criar o mundo e a de dentro o processo. Barros. Essas foram. o Mulato. Estou ciente de que há mações em consequência de frustração muitos artistas brasileiros de qualida- por não estar participando pessoalmente de participando do Festac. tempo. Estou ciente dos eventos do Festac.. turgo. raça humana. um processo e um poder na seleção tratégias de dominação utilizadas pelo de artistas de todos os campos de cria. de vingança pes. Teatro negro brasileiro Abdias Nascimento 223 a representação brasileira a um Festival trabalho incansável. sos de Medicina e Psiquiatria. da existência social e cultural dos afro- tas para nos representarem em congres. Em caso de permanecer e produzindo como professor aqui em alguma dúvida sobre a disponibilidade Ile-Ifé. estou pessoalmente clusivamente nas mãos dos próprios muitíssimo honrado e mais do que sa- artistas e criadores negros da cultura tisfeito por estar pintando. realizado em Dacar. não posso. o desenvolvimen. segundo. Na verdade. coloniais. ao mesmo sito aqui é expor e denunciar um crité. Por conseguinte. as acusações que apareceram em nação.

afro-brasileiros. os quais merecem. enriquecer o Festac com seu talento e •  Publicado  originariamente  em  inglês  na  competência. Meu interesse na participação Gostaria apenas que meus cole- do Teatro Negro Brasileiro não é. ria de luta e afirmação da cultura negra. . pessoal: é um interesse na pudessem ter oportunidade semelhante participação dos muitos artistas e auto. e africanos. produzida por cia e sabedoria de outros teatros negros meu irmão e colega Wole Soyinka. Tradu- ção de Carlos Alberto Medeiros. e compartilhar a experiên. Brasil. 7: nº 1 (1977). à minha: retornar à terra e ao ambiente res negros de teatro que hoje atuam no tradicional dos quais quase todos nós. por sua histó. somos descendentes. revista Afriscope v. por gas afro-brasileiros que vivem no Brasil conseguinte.224 THOTH 4/ abril de 1998 Sankofa: Memória e Resgate sua verdadeira terra natal.

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1978 . no ato público de fundação do MNU. Abdias Nascimento. São Paulo.Lélia González. Eduardo de Oliveira e Antonio Leite.

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– Logo se aproximou dele um convidado bêbado que desejava saber quem ele era. pa- lutando pelos rece muito surpreso com a atenção que seu trabalho com populações negras e direitos dos indígenas do México lhe tem atraído. pois os negros não eram Lula Stricikland suficientemente bons para assumir uma posição dessas. quando chegou à aldeia afro-mexicana de El Ciruelo. afro-mexicanos* E. ele é o sacerdote dessas pessoas. – Vim para rezar uma missa nessa aldeia em 1984 – recorda ele com descon- forto – e fui convidado para jantar na casa de uma jovem que estava comemorando seu aniversário. – Ele continuou por vinte . Afinal. ele vê o seu papel de coor- denador da primeira conferência negra ali organizada como apenas uma parte de seu compromisso. Nascido em Trinidad.Padre Glyn Jemott: O padre Glyn Jemott. Ante a resposta de que se tratava do novo pároco. padre Glyn teve um rude despertar para esse proble- ma anos atrás. tendo vivido e trabalhado com elas na costa mexicana do Pacífico (Costa Chica) por 13 anos. o homem tocou-lhe o cabelo lanudo e disse que isso era impossível. 51 anos.

“Mais de 300 pessoas”. Com os meira Convenção dos Povoados Ne- anos. e com a guerra sendo desenca- padre Glyn. represen- dessa maneira. nunca vou esquecer. e não penso que ele percebesse o cinquenta e tantas pessoas apareceram! que estava dizendo – relembrou o padre. Quando me tornei ao histórico evento. – O padre ri com a lembrança. que não pode ter altas preten. na primavera de 1997. Disse crescendo. um amplo barracão xicanos mais claros e bem-sucedidos. conversas. reiniciou as mental. – Fica- Em sua maioria. descobriu ele. ria para ajudar a preparar o encontro e pos de jovens e outros decidiram que era envolver as pessoas – explica o padre. tenho visto muita gente se sentir gros. nhos sentiam a mesma coisa sobre si A busca da autoidentidade con- mesmos. como jovens. Elaboramos um questionário com qua- ados negros se unissem para. Afro-mexica. – Houve uma sessão preparató- nos progressistas ligados à Igreja. resolvemos convocar um encontro dos medíocre. que durou três dias. cebeu-se uma urgência em se promover ro a pessoa destinada a fazer mudanças. per- um sentido de missão. sua identidade cultural. mentos e outras reuniões sociais. a unidade. elas me contaram que O povo de El Ciruelo e de outros povo- este povoado e outros ao redor sempre ados reuniu-se e ergueu. descobrir um ao outro e encontrar nham visto antes um padre negro. que nós negros somos gente comum. hora de mudar. te para a ocasião. os moradores mos agradavelmente surpresos com essa de El Ciruelo e dos 24 povoados vizi. de alguma forma. Era preciso que os povo. – Na verdade. gem começou a emergir. ela me deu deada pelos indígenas em Chiapas. expressamen- estiveram sob os pés de uns poucos me. uns cinco anos atrás. pois disse uma coisa muito importante – Essa percepção foi crescendo. mas estava feliz em sentir que minha presença aqui poderia. crianças e tando 24 comunidades. e coberto com palhas de coqueiro – uma você percebe que isso é o México. padre. A primeira era: qual é a . a pri- taxe para “nós somos capazes”. depois de muito planeja- mento estratégico. segundo o tro perguntas. povoados para avaliar a situação. próximo delas. Não me conside. honraria geralmente reservada a casa- Mas em 1991 uma nova autoima. resposta. até que. que. espero.230 THOTH 4/ abril de 1998 Movimento Negro Hoje minutos me contando que eles nunca ti. foi realizada em El ajudar outras pessoas a mudarem de sin- Ciruelo. jun- resolveu ajudar os negros e indígenas a tamente com líderes apontados pelos se livrarem dessa deplorável disposição moradores dos povoados. e foi então que tinuou e em 1996 o padre Glyn. Umas sões. gru. Assim. e de. A partir desses encontros e do crescente contato com pessoas – Essa atitude negativa ficou na como antropólogos que iam estudar na minha cabeça por muitos anos – diz o região. compareceram adultos mais velhos.

Padre Glyn Jemott. El Ciruelo. México .

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conduzia a uma “clareza de propósitos”. . Depois dessa extraordinária ses- ferentes áreas e trabalharam para “am. os líderes pegaram di. cartões e refletissem sobre eles – diz o padre. Foi recimento das pessoas a respeito de sua um momento muito interessante do herança negra e sobre como seus ances. como índios colonizadores/escravagistas espanhóis e caboclos? Nem todos os povoados para trabalhar nas minas e nas fazendas puderam apresentar respostas claras – de cana-de-açúcar. greiros. qual é a história do seu povoa. na qualida- como o seu povoado. mas acho que as per. Califórnia. Historia. queriam saber. as Houve um silêncio. os lhe diz? Depois dissemos: foi assim que participantes discutiram o questionário. zes africanas. o professor Kande. Para avançar na explicação de guntas atingiram seu objetivo porque suas origens. A partir viemos?”. e você mesmo em de de exploradores. – Houve uma discussão aberta. ao que foi dito. do? A segunda: quais são as principais embora seus ancestrais tivessem che- comemorações em seu povoado? Como gado ao México escravizados. Os negros da costa particular. encontro. a questionar as outras e a dor e conferencista. as pessoas pessoas expuseram suas opiniões so. – Chegaram até a tirar conclu- originário do Congo. o padre Glyn diz que car- ajudaram a condicionar as pessoas. Nessa fase. – O que ele parece e o que ele Na primeira parte do encontro. algumas delas contra sua própria raça. Tínhamos uma semente co. ram postos nas mãos das pessoas. de Los Angeles. sente e comemora a identi. dessa conversa. nos tempos antigos. parte da conferência voltada ao escla. trouxeram você para cá. outros se preparam essas comemorações e africanos também haviam visitado a como se participa delas? A terceira: região. – Um papo muito franco teve Especialmente profunda foi a início – diz o padre. são. a tões postais com réplicas de navios ne- lhes dar a oportunidade de se questio. “Foi assim mesmo que nós aprender mais sobre as outras. desenvolver o que a falar. fo- não estavam acostumadas a considerar. fora discutido. questionar. e também lhes deram algo para com- partilhar. no Pacífico. relembra Glyn–. em que reside dade negra? E a quarta pergunta: como a maioria dos afro-mexicanos. que. – Pedimos que elas olhassem os mum – avalia ele. doados pelo Centro Cultural de narem sobre algo que provavelmente Watts. As pessoas começaram a se trais foram parar no México. ficaram olhando umas para outras em- bre problemas comunitários e puderam basbacadas. Pelos direitos dos afro-mexicanos Lula Strickland 233 origem. Ele informou-lhes que. as pessoas se abriram e começaram pliar” esses temas. foram é que os negros tratam a si mesmos e levados para lá no século XVI pelos a outros grupos raciais. de Oaxaca. com entusiasmo. foi convidado a sões sobre as percepções negativas de falar aos participantes sobre suas raí. criticar.

Desde a convenção. represen- tantes dos povoados. assim como a forma de al. E também maneiras de será. de estão preparados para fazer um trabalho modo que. orga. mas é fácil dizer sim. ao lado do estabelecimento o pároco. embora houvesse grande satisfação nomia. de um órgão poderoso para a comunica- ção entre eles. venção nos encontre mais organizados. antropólogos e historiadores a fim de ciais. – As pessoas disseram que ram dessa forma!” sim. guém se tornar mais consciente de sua Mas o evento planejado para 1998 herança negra. “um aprofundamento unificar os vários povoados. nizaram quatro encontros para avaliar mais unidos e com alguns projetos já seu progresso. acabou sendo adiado sine die. devido às dirigido e um fundo de bolsas de estudo tempestades provocadas pelo furacão para enviarmos mais crianças à escola – Paulina. ao lado de Glyn – Esperamos que a próxima con- e de outros membros da Igreja. Mas a questão é: vocês somos apenas uma gota no oceano. um jornal do para abril de 1997. a partir disso. O padre admite que quanto o modo de usá-la para ajudar a primeira careceu de uma estrutura fir- as pessoas a entender melhor a eco. ra vez para expressar seus sentimentos e munitários. me. to da unidade dos povoados como alta traram serem sérias e maduras relembra prioridade. soluções para os seus problemas so. a convocação de um encontro de todos as pessoas falaram livremente sobre os representantes. alguns sociólogos. tanto próxima convenção. A necessidade de educação foi se elaborar uma “agenda forte” para a um tópico fortemente debatido. esperanças. A estratégia para o futuro inclui res e de agentes do Serviço Secreto. – Uma avaliação por alto e compara a experiência a um provérbio uma avaliação por baixo. população. Apesar da presença de milita. os músicos por baixo é de que os negros são 1% da têm de carregar seus instrumentos. podemos con- . A segunda Convenção dos Povoados São muitas as necessidades em Negros está sendo marcada para março sua lista: de 1998. em andamento. convenção. a avaliação por alto diz que – Nós nos reunimos e passamos somos 9%. e uma expansão”. Por exemplo. mas.234 THOTH 4/ abril de 1998 Movimento Negro Hoje e a dizer coisa como: “Isso aconteceu sério? – perguntou Glyn aos cabeças da porque eles (os opressores) nos trata. com o fortalecimen- – As pessoas realmente demons. Discutiu-se quais eram os mais nas pessoas por se reunirem pela primei- qualificados para agir como líderes co. Um outro foi planeja. A avaliação africano: depois da festa. diz o padre. – Há dois tipos de estatística no Quais foram os efeitos desse pri- México sobre a população negra – con- meiro e histórico encontro? O padre clui ele. Mas mesmo dentro do 1% bons momentos. espera-se.

1977 .Jovem afro-mexicano do Estado de Oaxaca. México.

153 x 102 cm. USA.OXUM EM ÊXTASE Óleo e acrílico s/ tela . de Abdias Nascimento. 1975 . Buffalo.