Metodologia de Ensino

das Ciências Sociais
Autor: Profa. Ivy Judensnaider
Profa. Josefa Alexandrina da Silva
Colaborador: Prof. Renato Bulcão

Professoras conteudistas: Ivy Judensnaider/ Josefa Alexandrina da Silva

Ivy Judensnaider é bacharel em Ciências Econômicas pela Fundação Armando Álvares Penteado e licenciada em
Matemática. É mestra pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no Programa de Estudos Pós‑Graduados em
História da Ciência e da Tecnologia e, atualmente, é professora da Universidade Paulista – UNIP nos cursos de Ciências
Econômicas e Administração, onde coordena o curso de Ciências Econômicas no Campus Marquês (SP). Também atua
no setor de publicações, sendo autora de inúmeros textos de divulgação científica publicados na web. Nos últimos dez
anos tem trabalhado na elaboração de textos e de livros para uso em ensino a distância.

Josefa Alexandrina da Silva possui bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (1990) e mestrado em Ciências Sociais (1997) pela mesma instituição. É professora adjunta da
Universidade Paulista, onde atua como líder de Ciências Sociais e coordenadora do curso de Licenciatura em Sociologia.
Foi membro da equipe técnica de Sociologia da Secretaria de Estado da Educação e coordenadora de conteúdos para
educação a distância na Fundação Padre Anchieta. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em ensino,
atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de Sociologia, política educacional, precarização do trabalho,
metodologia de ensino e educação a distância.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

J92m Judensnaider, Ivy.

Metodologia de ensino das Ciências Sociais. / Ivy Judensnaider,
Josefa Alexandrina da Silva. – São Paulo: Editora Sol, 2014.

148 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e
Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-090/14, ISSN 1517-9230.

1. Ciências Sociais. 2. Metodologia de ensino. 3. Ensino de
Sociologia. I. Silva, Josefa Alexandrina. II. Título.

CDU 301

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Revisão:
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Amanda Casale

Sumário
Metodologia de Ensino das Ciências Sociais
APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................7

Unidade I
1 A SOCIOLOGIA E O SENSO COMUM......................................................................................................... 16
2 A IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA E OS GRANDES TEMAS
DA SOCIOLOGIA NOS DIAS DE HOJE............................................................................................................ 22
2.1 O ensino das Ciências Sociais no Brasil........................................................................................ 28
3 AS INTERMITÊNCIAS DO ENSINO DE SOCIOLOGIA............................................................................. 30
4 O ENSINO DA SOCIOLOGIA E OS CONTEXTOS POLÍTICOS DO BRASIL......................................... 45

Unidade II
5 O PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO DO PAÍS E O ENSINO DE SOCIOLOGIA..................... 51
5.1 A redemocratização do país.............................................................................................................. 51
5.2 A LDB e o ensino de Sociologia no Ensino Médio................................................................... 58
5.3 Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de Sociologia................................ 66
5.3.1 As Orientações Curriculares Nacionais........................................................................................... 72
6 OS JOVENS, A ESCOLA E O ENSINO DE SOCIOLOGIA......................................................................... 74
6.1 O jovem no Brasil.................................................................................................................................. 74
6.2 As culturas juvenis................................................................................................................................ 81
6.3 A escola como espaço da cultura juvenil.................................................................................... 85

Unidade III
7 O PROFESSOR DE SOCIOLOGIA E OS DESAFIOS DO OFÍCIO............................................................ 96
7.1 O professor como trabalhador intelectual.................................................................................. 96
7.2 A transformação do conhecimento científico em conhecimento escolar...................100
7.3 O projeto pedagógico da escola e os objetivos educacionais...........................................103
7.4 O planejamento pedagógico..........................................................................................................108
8 FORMAÇÃO PERMANENTE DOS PROFESSORES.................................................................................110
8.1 A articulação entre conhecimentos, tecnologias e mídias.................................................120
8.2 Conclusões finais.................................................................................................................................127

.

discutiremos a Sociologia enquanto ciência e falaremos sobre as especificidades do seu ensino. vamos investigar a formação permanente dos professores. Na unidade I. para o fortalecimento da solidariedade entre os homens e para o desenvolvimento do país. preparar profissionais éticos e competentes. o projeto pedagógico da escola em termos de seus objetivos educacionais e o planejamento escolar. Você terá acesso a uma série de informações que aprofundarão as aulas em vídeo e também terá indicações de onde recolher material adicional para que seus estudos sejam ainda mais proveitosos. busca‑se refletir sobre os sentidos do ensino da Sociologia no nível médio no Brasil. Karl Marx e Max Weber. APRESENTAÇÃO As premissas que norteiam a missão da Universidade Paulista e o curso de Licenciatura em Sociologia são atuar para o progresso da comunidade. na unidade III falaremos sobre o professor de Sociologia e seu ofício. Também investigaremos os jovens. falaremos do processo de redemocratização do Brasil após vinte anos de regime militar e das mudanças que o novo contexto democrático trouxe para a educação em geral e para o ensino de Sociologia em particular. tendo em vista ser este o sujeito inserido no sistema educacional. em especial como trabalhador intelectual. Abordaremos o processo da formação desta ciência por meio da compreensão dos autores que se dedicaram à análise social de seu tempo: Emile Durkheim. Para isso. O propósito é fornecer aos alunos um material de apoio para o acompanhamento da disciplina Metodologia de Ensino das Ciências Sociais. Sociologia e Ciência Política. INTRODUÇÃO O objetivo deste livro‑texto é fornecer ao graduando do curso de Licenciatura em Sociologia material de apoio para o acompanhamento da disciplina Metodologia de Ensino das Ciências Sociais. veremos a constituição da Sociologia como ciência no contexto de desenvolvimento do capitalismo do século XIX. De forma mais específica. com sólida formação teórica e metodológica nas áreas que compõem o campo científico das Ciências Sociais – Antropologia. Também discutiremos a transformação do conhecimento científico em conhecimento escolar. compreender o seu processo de institucionalização a partir da análise dos textos oficiais sobre o currículo e analisar os sujeitos envolvidos na relação de ensino aprendizagem no ambiente escolar. a disciplina Metodologia de Ensino das Ciências Sociais tem como objetivo habilitar profissionais para o exercício da docência que sejam capazes de analisar e compreender a realidade social em seus múltiplos aspectos e. também. Finalmente. Na unidade II. a escola e o ensino de Sociologia. reflete‑se sobre a condição juvenil no Brasil. Na primeira parte do nosso curso. o que inclui a sua intermitência nos currículos escolares e a as relações com o contexto político do país. Concluindo. 7 . Diante disso. concluindo com a análise do papel do professor no sistema educacional e os dilemas do exercício do ofício.

Analisaremos também os atores envolvidos no processo educacional. como afirma Moraes (2011). analisaremos a tensa relação entre ciência e senso comum. os professores de educação básica. Analisaremos o caráter intermitente da disciplina. será enfocada a falta de compreensão da burocracia estatal sobre o significado deste componente curricular para a formação da juventude. A partir de então. Ganha destaque nesta análise o período do regime militar (1964‑1985) e coloca‑se em evidência a incompatibilidade do ensino da Sociologia com a doutrina de segurança nacional. Esperamos. busca‑se problematizar os dilemas epistemológicos que permeiam o ensino das Ciências Sociais na escola média na atualidade. Inicialmente. Bons estudos! 8 . Em seguida. analisaremos os Parâmetros Curriculares Nacionais e as Orientações Curriculares Nacionais. E. nosso olhar sobre o ensino da Sociologia no nível médio se volta para a escola. Na segunda unidade. A seguir. analisaremos a inserção da Sociologia no sistema educacional a partir dos anos de 1920. Deste modo. A seguir. trataremos da especificidade da Sociologia como ciência a partir do estabelecimento do conceito de imaginação sociológica desenvolvida pelo sociólogo estadunidense Wright. que este seja um proveitoso curso de introdução à Metodologia de Ensino das Ciências Sociais. como instituição que objetiva a formação. É o espaço onde interagem jovens e docentes para a aprendizagem e formação da cidadania. busca‑se compreender a juventude como categoria social e em seguida. A seguir. que buscam estabelecer os marcos para o ensino da Sociologia no nível médio. tendo como referência as contribuições do sociólogo português Boaventura de Souza Santos. que entrou e saiu do currículo em virtude das conjunturas políticas. a análise se volta para a compreensão das contribuições de Giddens e Bauman sobre as relações entre a sociologia como ciência e a compreensão da realidade do homem comum. abordaremos o contexto e os pressupostos políticos que nortearam a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. e a partir dai analisaremos como esta lei concebia o papel da Sociologia na formação da cidadania. Por fim. o locus da ação educativa. que concebe o papel da Sociologia como estabelecimento da relação entre as biografias individuais e a história da humanidade. desta forma.

como foram chamados alguns deles. Nesse novo mundo. [. a burguesia invade todo o globo. quando a reflexão sobre as organizações humanas. com isso. Os baixos preços de seus produtos são a artilharia pesada que destrói todas as muralhas da China e obriga a capitularem os bárbaros mais tenazmente hostis aos estrangeiros. a burguesia arrasta para a torrente da civilização mesmo as nações mais bárbaras. Assim. 2014. movimento. a sociologia nasce no contexto da revolução industrial na Europa ocidental. Foi o momento de concentração da população em grandes cidades e do crescimento sem precedentes das riquezas nas mãos da burguesia. discutiremos as opiniões de diversos autores sobre as funções do conhecimento sociológico. Como várias outras disciplinas modernas das ciências sociais aplicadas (economia. refletir sobre a organização social.. ou ‘ideólogos’.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Unidade I Nesta unidade. por exemplo). Segundo Marx e Engels (1999). as relações de produção e. começa a ser sistematizada pelos primeiros filósofos sociais. desde o início.] Devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e ao constante progresso dos meios de comunicação. Para isso. aliás. que redundará na antropologia –. A sociologia e a compreensão do mundo A Sociologia como ciência surgiu no século XIX. em um contexto de profundas transformações sociais provocadas pela revolução industrial.. 9 . os conceitos relacionados à imaginação sociológica e o ensino de Sociologia em função do contexto histórico. p. direito positivo.] Impelida pela necessidade de mercados sempre novos. por conseguinte. a industrialização e a mobilização política de uma nova classe social em busca de poder marcaram o nascimento de uma ciência que buscou. 1). a burguesia se viu movida no sentido de satisfazer os seus próprios interesses: ela seria a classe social que empreenderia e que buscaria disseminar por todos os cantos do planeta uma nova cultura e uma nova forma de encarar a realidade. inclusive num sentido comparativo entre as sociedades civilizadas – em contraposição à comparação entre estas e as sociedades ditas primitivas. falaremos sobre a Sociologia enquanto área específica do conhecimento e das especificidades do seu ensino.. todas as relações sociais [. classe social em processo de ascensão social. criar vínculos em toda parte. na passagem do Iluminismo para a sociedade capitalista. coincidente com a Revolução francesa (ALMEIDA. Necessita estabelecer‑se em toda parte. a burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. política..

recomendamos Hard Times e Oliver Twist (também transformado em filme. 12‑14). baixar para 31% em 1881.. e Londres concentrava 4 milhões de habitantes em 1880. Liverpool. cria um mundo à sua imagem e semelhança (MARX. Uma vez desencadeado. sob a direção de Roman Polanski). constrange‑as a abraçar o que ela chama de civilização. a indústria têxtil. Inglaterra. 10 . ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção. Bristol –.. Leeds. Nem mesmo a fome. a siderurgia e a mineração de carvão tornaram‑se as molas mestras do crescimento econômico. p. p.] cidade de Manchester teve sua população de 17 mil habitantes em 1760 decuplicada para 180 mil em 1830.. isto é. Inicialmente na Inglaterra. Figura 1 – A industrialização. por sua vez. 1999. Unidade I Sob pena de morte. Entre seus livros.. 2007. 143). A paisagem inglesa se modificou profundamente. as doenças e as deficiências tecnológicas conseguiam frear a produção de mercadorias. a Inglaterra vê sua população rural. em 2005. Os valores burgueses passaram a ter papel fundamental para o desenvolvimento industrial da época que. Em uma palavra. ENGELS. 1850 Saiba mais Sugerimos a leitura das obras de Charles Dickens. várias cidades industriais inglesas possuíam cerca de 300 mil habitantes – Bradford. a se tornarem burguesas. Birmingham. [. Centenas de fábricas se espalharam pelas cidades e elas se transformaram: no centro produtor e consumidor de toda a economia.] A [. esse processo de urbanização que a fábrica provoca torna‑se irreversível. que representava 52% em 1851. juntou‑se ao desenvolvimento tecnológico e científico. e para apenas 22% em 1911 (REZENDE. Sheffield. Por volta de 1850. e depois no restante do mundo. relegando o campo a uma posição economicamente secundária. Sheffield.

2008. Oliver Twist.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS DICKENS. p. as degradadas e imundas cidades inglesas abrigavam trabalhadores esfomeados que viviam em condições totalmente insalubres. Antes. a situação do proletariado naquele momento. em ilustração de Gustave Doré Aquele era um tempo de exploração humana. 130 minutos. que só podem viver 11 . A fome era endêmica. República Checa. 2012. Era um período cruel. Figura 2 – Moradias operárias em Londres. a sujeira generalizada e o ruído pesado nas fábricas. 2005. tudo combinado para conferir ao início do capitalismo industrial uma reputação de que jamais se recuperou na mente de muitas pessoas neste mundo. e a vida dos operários era trágica e quase inimaginável para os nossos padrões atuais. Reino Unido. do ponto de vista teórico. era de 17 anos – número que refletia uma taxa de mortalidade infantil acima de 50% (HEILBRONER. França. século XIX. Dir. em especial das crianças. isto é. resultado da explosão populacional e da escassez de terras aráveis e produtivas. do capital. Roman Polanski. Hard Times. desenvolve‑se também o proletariado. OLIVER Twist. Em toda a Europa industrializada. As intermináveis horas de trabalho. São Paulo: Melhoramentos. Pior ainda eram as favelas para as quais retornava a maioria dos operários após a jornada de trabalho. Posteriormente. MILBERG. Com o desenvolvimento da burguesia. a classe dos operários modernos. em Manchester. C. A expectativa de vida ao nascer. ele e Engels (1820‑1895) se encarregaram de analisar. É claro que o desenvolvimento industrial não necessariamente trouxe apenas transformações positivas. a falta das mais elementares precauções de segurança. ___. USA: Signet Classics. 2008. Itália: Sony Pictures. 89). Marx (1818‑1883) explicou em O Capital a sua análise do capitalismo a partir das relações sociais de produção.

ele também colocou seu país em contraste com a América democrática. estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência. Claude Berri. 12 . são mercadoria. a monarquia e as instituições religiosas tornaram‑se objeto de estudo. Sua obra buscou examinar esse modo de produção do ponto de vista da racionalidade e da burocracia. Nos meios acadêmicos e empresariais. Ainda no século XIX. 1993. a todas as flutuações do mercado. A burguesia estimulava esse procedimento: para que o Estado pudesse fazer uma boa gestão. surgiram pensadores que lutavam por modelos alternativos de sociedade. era necessário o conhecimento do funcionamento e da organização da sociedade.. GERMINAL. Esses operários. tendo a física newtoniana como modelo do racionalismo e cientificismo. de trabalhadores nos campos e de prostitutas nas ruas. Unidade I se encontrarem trabalho. 160 minutos. Comte (1798‑1857) – tido como o fundador da Sociologia – buscou criar uma “física” social que. de mortes. ENGELS. incluindo o número de nascimentos. seria responsável pela elaboração teórica explicativa do funcionamento dessa nova sociedade. o Estado passou a fazer contagens: tudo devia ser mensurado.] [reduz o custo do operário] aos meios de manutenção que lhe são necessários para viver e perpetuar sua existência (MARX. O crescente emprego de máquinas e a divisão do trabalho [. Dir. p. Para conhecer e apreender o mundo. O século XIX foi marcado pelas manifestações de revolta dos trabalhadores e pela criação de instituições repressoras por parte do Estado. de árvores nas ruas. Nas cidades. constrangidos a vender‑se diariamente. amontoavam‑se vilas de operários em meio a galpões fabris imundos e insalubres. Ainda que admirador do sistema político alemão e da sua eficiência econômica. baseado no livro homônimo de Emile Zola. artigo de comércio como qualquer outro. em consequência. concluindo pelo bom desempenho das associações livres entre os homens e o vigor da inovação técnica numa sociedade aberta (ALMEIDA. 1999. Nas fábricas. operários trabalhavam sem parar.. e que só encontram trabalho na medida em que este aumenta o capital. As relações entre a burguesia nascente. os operários. 7). p. Saiba mais Sugerimos o seguinte filme. no século XIX. 2014. França. 18). Max Weber (1864‑1920) deu início aos estudos comparativos das religiões e a sociedade capitalista. recebendo em troca salários insuficientes para a sobrevivência. que narra a trajetória de um grupo de mineiros grevistas franceses.

Entretanto. mulheres. grupos excluídos dos círculos do poder passaram a reivindicar espaço: negros. O anticonservadorismo tingiu com suas cores a música e o cinema. nem tudo foram flores. “talvez mais pelo lado do método do que pela vertente de suas interpretações. 10). homossexuais saíram às ruas em defesa dos seus direitos. os novos ventos transformaram a sociedade até então fundada sobre valores familiares e religiosos. o muro que dividiu a cidade de Berlim em 1961 passou a representar a beligerância entre o mundo capitalista e o mundo socialista 13 . usurpando o poder e atentando contra as liberdades democráticas. Em todo o mundo. pretendiam substituir o injusto sistema capitalista por outras formas de produção e organização. p. Figura 4 – Símbolo da Guerra Fria.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Figura 3 – A Sociologia da Religião. por meio das armas. O século XX forneceu outros desafios aos pensadores que buscavam compreender a sociedade. instalaram em seus países ditaduras baseadas no aparato tecnoburocrático e no autoritarismo como forma de governo. Nas artes e na política. Como entender os efeitos de duas guerras mundiais. a Sociologia Política e a Administração Política foram objeto de estudo de Max Weber Émile Durkheim (1858‑1917) foi o primeiro grande sociólogo sistemático do século XX e ainda é uma grande influência. e entre elas de uma crise econômica que afetou países de todos os continentes? Como compreender um mundo em que os antagonismos entre o capitalismo e o comunismo criavam conflitos que se estendiam para outros países? Como aceitar o fato de o ser humano ser capaz de chegar à Lua. crianças. a Guerra Fria inspirou o anticomunismo visceral que deu força aos militares que. Os povos colonizados e explorados pelo imperialismo do século anterior começaram a lutar por autonomia e liberdade. com sua forte ênfase na organicidade. Na América Latina. na anomia e na patologia e nos princípios morais e valores religiosos” (ALMEIDA. mas incapaz de administrar com parcimônia os escassos recursos naturais da Terra? Ao longo do século XX. que podem ter sido influenciadas pela época. 2014. alguns criaram grupos revolucionários que. jovens se organizaram para derrubar estruturas que consideravam velhas e antiquadas.

Até mesmo a liberdade sexual e as conquistas comportamentais tiveram que lidar com os retrocessos trazidos pela disseminação da Aids: tudo conspirava para o desmantelamento dos benefícios conquistados até ali. mudam‑se os hábitos de consumo e os desejos são transformados em necessidades. Esse estágio de desenvolvimento social foi marcado por profundas transformações sociais. Esta mudança de paradigma implicou níveis relativamente altos de desemprego. o máximo que 14 . A globalização trouxe modificações radicais nos processos de trabalho com a emergência de um novo paradigma de estruturação do sistema produtivo: a passagem do fordismo para um regime de acumulação flexível. Defendendo o fim dos conflitos entre o capital e o trabalho. Segundo esse receituário. Para muitos autores. a imagem. pelo aumento da competitividade mundial e pelo aguçamento das desigualdades sociais. Figura 5 – A despeito do processo da globalização. passou a preconizar receitas para os países em desenvolvimento. a exclusão social ainda é uma realidade no Brasil Harvey (1992) aponta que as principais características da sociedade pós‑industrial são a ênfase na efemeridade e a preferência da estética em detrimento da ética. A ação hegemônica do capitalismo financeiro disseminou o discurso da globalização. Unidade I A reação conservadora avançou. o valor está no simbólico e não no concreto. A crise social que vivemos nos dias de hoje é acompanhada por uma crise no pensamento. os princípios básicos da vida econômica permaneceram: a produção voltada para o lucro e a necessidade de amplos setores da população de garantir a subsistência por meio do trabalho. e a partir dos Estados Unidos e da Inglaterra. É uma sociedade que valoriza o fragmento. Por volta da década de 1980. ampliação do trabalho precário e destruição de habilidades. o transitório. liberdade comercial e desmonte das empresas públicas e das políticas de subsídio às indústrias nacionais. na medida em que há uma negação daquilo que Harvey chama de metateoria. os sentimentos nacionalistas deveriam ceder espaço para a mundialização do capital. àquele momento atolados com descontrolados processos de inflação e com o aumento do endividamento externo. investimentos estrangeiros. uma onda privatizante e que preconizava a não intervenção do Estado na economia arrasou os sindicatos e as políticas sociais de bem-estar. No entanto.

o autor afirma que a superação desta condição de alienação se dá com o desenvolvimento do que chama imaginação sociológica. Por isso. a ser produzida e vendida a quem pagar mais. fragmentária e marcado por novas incertezas. 19) afirma que: a reflexão sociológica ocupa um papel central para a compreensão das forças sociais que vem transformando nossa vida nos dias de hoje. Assim. p. Como o homem comum não tem consciência da complexidade da realidade social. daí a necessidade de produção de um projeto pedagógico que tenha como objetivo a superação do conhecimento fragmentado. A sua capacidade de entrelaçar razão e realidade social faz com ela funcione como vetor de esclarecimento. para cujo entendimento deve contribuir o pensamento sociológico criativo. A sociologia como ciência busca a compreensão dos problemas sociais a partir da investigação e elaboração teórica sem abandonar o rigor científico.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS podemos ter é uma explicação parcial da realidade. p. Desse modo. da mais recente descoberta científica. o conhecimento da última técnica. a Sociologia atua como “autoconsciência” da sociedade. implica a possibilidade de alcançar uma importante vantagem competitiva. possibilita um entrelaçamento da racionalidade com a realidade social. 151). A vida social tornou‑se episódica. Como afirma Harvey (1992. Em outras palavras. a educação deve libertar o indivíduo da visão estreita e parcial. libertando o ser humano dos grilhões da ignorância. Outro autor que se volta para refletir sobre o sentido da Sociologia é Giddens (2001). o conhecimento tem papel crucial: num mundo de rápidas mudanças de gostos e necessidades e de sistemas de produção flexíveis. utilizando o rigor científico. a vida social tornou‑se episódica. sem a Sociologia o mundo seria ainda mais confuso e incógnito. Ianni (1988) afirma que a Sociologia deve ser utilizada para que possamos compreender o mundo moderno. vislumbra‑se a Sociologia como ciência fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo. enquanto ciência. Assim. A Sociologia como ciência é vista por Mills (1975) como um conhecimento capaz de conduzir o homem comum a compreender os nexos que ligam sua vida individual aos processos sociais mais gerais. O próprio saber se torna uma mercadoria‑chave. que atribui a esta ciência um papel central para a compreensão das forças sociais que vêm transformando nossas vidas. Para ele. pois é enquanto intelectual que o professor atua 15 . busca a compreensão dos problemas sociais a partir da investigação e da elaboração teórica e. A crise que permeia a sociedade e o pensamento atinge de maneira frontal o campo pedagógico. pois o pensamento não é mais capaz de apreender os processos político‑econômicos na totalidade. Assim. Giddens (2001. fragmentária e marcada por incertezas. para cujo entendimento deve contribuir o pensamento sociológico. do mais novo produto. A Sociologia.

A ideia da distinção entre senso comum e espírito científico se reporta às possibilidades de certeza e de verificação: nesse sentido. o que é senso comum? Para Paty (2003. É na prática docente na área de Sociologia que são geradas as possibilidades de estabelecer um diálogo entre a produção intelectual e a sociedade. Nossos temas em sala de aula são familiares ao senso comum. 3): o ‘senso comum’ é uma disposição geral de todos os seres humanos para se adaptar às circunstâncias da existência e da vida ordinária. EIe se relaciona tanto aos sentidos. p. 16 . A descoberta das leis da natureza assenta. no pressuposto de que o resultado se produzirá independentemente do lugar e do tempo em que se realizarem as condições iniciais (SANTOS. com vista a prever o comportamento futuro dos fenômenos. por tomar em conta dados dos órgãos sensoriais. de reflexão sobre os elementos de uma situação. colocando em evidência as estruturas sociais em que vivem. e como já se referiu. 5).. enquanto o espírito científico estaria relacionado à busca de aproximação com a verdade por meio de rigorosos métodos de pesquisa e investigação. Entretanto. contudo se espera que os alunos superem o senso comum para desenvolver uma reflexão mais elaborada sobre a sociedade em que vivem. portanto. no isolamento das condições iniciais relevantes [. Alguns ainda identificam o senso comum como sendo o bom senso. E um conhecimento causal que aspira a formulação de leis. Para alguns.] e. Ao possibilitar a compreensão dos fenômenos sociais em sua totalidade.. Essa relação entre senso comum e espírito científico pressupõe. quanto à capacidade de raciocínio. a luz de regularidades observadas. irracional e vulgar – não é mais um paradigma dominante. similar à razão que é a base do pensamento racional e que diz respeito à capacidade de discernir entre certo ou errado. Esse paradigma dominante de ciência é fruto da certeza de que: a natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras metodológicas já referidas. nesse caso devendo ser diferenciado do espírito científico. Unidade I para a formação do cidadão. O método de análise utilizado pela Sociologia estabelece a ligação entre os diferentes indivíduos. p. por um lado. 1996. 1 A SOCIOLOGIA E O SENSO COMUM Todas as pessoas conhecem certos fatos sociais. por outro lado. entre o correto e o incorreto. o senso comum não se guiaria pela necessidade de prova. o senso comum significa o mesmo que opinião comum. mesmo sem ter estudado Sociologia. que entendamos que o modelo de racionalidade preconizado pela ciência moderna do século XVIII – defensor da ideia de a ciência ter que se defender do senso comum. a Sociologia estabelece ligações de fatos cotidianos com a evolução da sociedade como um todo.

de forma fácil e sem atrito. É claro que essa não é uma tarefa fácil. p. Neste último. ser parte daquilo que é conhecido e aceito pelo senso comum. refletir criticamente sobre o senso comum que “julga” as diferentes culturas. questão que iremos tratar mais adiante. a situação que se coloca diante de nossos olhos é outra: a ciência reflete sobre o senso comum. e isso se incorpora ao senso comum mais adiante por meio de um processo de inovação. o papel do especialista. Partamos de um exemplo prático: imagine‑se numa sala de aula em que grande parte dos alunos é portadora da crença de que pessoas de outras culturas são “inferiores”. Há que se salientar. O senso comum. o conhecimento científico que. Será ele o responsável pela cristalização de uma nova intuição e de um novo senso comum entre seus alunos. permite à ciência moderna responder à pergunta sobre os fundamentos do seu rigor e da sua verdade com o elenco dos seus êxitos na manipulação e na transformação do real (SANTOS. Simples? Não. em geral. Em segundo lugar. portanto. Nem sempre estamos tratando de conhecimento que pode. qual seja o de ser capaz de interpretar e traduzir. a causa e a intenção convivem de forma pacífica. 1996. fazer com que os alunos descartem essa crença e que aceitem a ideia de respeito à alteridade. de forma compreensível. Em primeiro lugar. e isso nos leva à necessidade de uma sólida formação científica e pedagógica do professor. nem sempre o senso comum resultado da crítica e da reflexão consegue se coadunar ao senso comum do qual o aluno é possuidor. devem ser considerados os problemas éticos relativos ao desenvolvimento da ciência e da sua transposição para o que entendemos como senso comum. Segundo Paty (2003. Vista dessa forma. Em outras palavras. transformando este comportamento em um novo senso comum. estamos preocupados em descobrir o “como”. Essa transposição de inteligibilidade é função do especialista e. percebido a partir de um ponto de vista bastante simplista. intervir no real e que. aqui. Qual o papel do professor em uma situação como essa? Discutir conceitos de cultura. independentemente do “porque”. Eles testemunham visivelmente o vínculo que existe entre 17 . No entanto. depois de passar pelo crivo da crítica. a questão da cultura é central: diferentes comunidades desenvolvem diferentes culturas. Do ponto de vista sociológico. Na ciência. na maior parte das vezes. A reflexão crítica resulta em modificações na verdade tida como hegemônica. É este tipo de causa formal que permite prever e. há o dilema que se dá diante da constatação de a ciência. p. alimenta o espírito científico na formulação dos problemas de pesquisa e nos questionamentos em relação à realidade. não sendo a cultura passível de julgamento em relação ao certo ou ao errado. em última instância. acomodar‑se ao velho conhecimento. do professor. 5). em especial se esse crivo se dá a partir da cultura de quem julga. não é nada simples. se transformará em senso comum. esse paradigma nos traz algumas complicações. 14): [eles se] multiplicam atualmente e sua importância é crucial para o mundo de amanhã. no contexto em que estamos trabalhando.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Nessa definição repousa a diferença entre o que pode ser considerado científico e o que se caracteriza em senso comum.

que durante muito tempo constituíram a ideologia espontânea dos cientistas. 12). nas ciências sociais. os mesmos atributos de cientificidade que eram prerrogativa das ciências naturais. 18 . Em terceiro. uma vez que o mesmo ato externo pode corresponder a sentidos de ação muito diferentes. Tanto nas sociedades capitalistas como nas sociedades socialistas de Estado do leste europeu. colapsaram perante o fenômeno global da industrialização da ciência a partir. Para Comte. das décadas de trinta e quarenta. Para os que assim pensavam. 1996. para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes dos correntes nas ciências naturais. o pensamento científico. ao contrário dos fenômenos naturais. os quais passaram a ter um papel decisivo na definição das prioridades científicas (SANTOS. 1996. O comportamento humano. Não apenas éticos: a suposta objetividade e neutralidade do sujeito do conhecimento há muito é reconhecida como uma impossibilidade. descritivo e compreensivo. social e político. métodos qualitativos em vez de quantitativos. Comte – do qual já falamos anteriormente – tinha em mente dar conta dessa tarefa: obter. esse desafio era simples de ser resolvido: bastava aplicar à “física social” o mesmo método de investigação utilizado pelas ciências da natureza. p. em vez de um conhecimento objetivo e explicativo (SANTOS. Aliás. As ideias da autonomia da ciência e do desinteresse do conhecimento científico. sobretudo. seja na unidade singular dos espíritos individuais ou nas coletividades sociais. com vista a obtenção de um conhecimento intersubjetivo. 7). Eles mostram como o pensamento racional e que visa a objetividade é inseparável da vontade e de escolhas éticas. tal paradigma de ciência pode ser responsável pela concepção errônea que se disseminou entre a comunidade científica a respeito dos diferentes graus de cientificidade das ciências sociais e das ciências naturais. A crença na diferença entre ciências sociais e ciências da natureza persistiu até o século XX. a industrialização da ciência acarretou o compromisso desta com os centros de poder econômico. A ciência social será sempre uma ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais. e as outras dimensões do pensamento e das atividades humanas nas quais o senso comum tem um papel ainda mais direto. e ainda pensam dessa forma: o argumento fundamental é que a ação humana é radicalmente subjetiva. p. Unidade I os conteúdos dos conhecimentos científicos. não pode ser descrito e muito menos explicado com base nas suas características exteriores e objetiváveis. tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações.

esse paradigma emergente deve pressupor: • que todo o conhecimento científico‑natural é científico‑social. observador/observado. tampouco a sociedade e a cultura estão distantes das possibilidades de investigação racional e científica. a imprevisibilidade. está na nova concepção da matéria e da natureza que propõe. a criatividade e o acidente (SANTOS. a física do século XX tratou de mudar o panorama: se o nosso conhecimento é estruturalmente limitado... apenas podemos nos aproximar da verdade de forma probabilística. O conflito entre elas só sobrevive se partirmos de uma visão mecanicista da matéria que se contraponha ao caráter subjetivo da cultura e da sociedade: nem a natureza funciona de forma mecânica. a história. 19 . Este relativo colapso das distinções dicotômicas repercute‑se nas disciplinas científicas que sobre elas se fundaram. em vez do determinismo. em vez da reversibilidade. a desordem. 14): O conhecimento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento não dualista. uma concepção dificilmente [. se antes as ciências da natureza podiam concorrer a estatutos de verdade. Até mesmo o rigor matemático carece da objetividade anteriormente pretendida. A resposta a essas três questões implica na construção de outro paradigma de ciência e de senso comum. vivo/inanimado. a espontaneidade e a auto‑organização. mente/matéria. 1996. Segundo Santos (1996). a interpenetração. em vez do mecanicismo. natural/artificial.] [compatível] com a que herdamos da física clássica. em vez da necessidade. Em vez da eternidade. a irreversibilidade e a evolução. p. 10). subjetivo/objetivo. p. tais como natureza/cultura. animal/ pessoa. coletivo/individual. Não faz mais sentido colocar as ciências sociais e as naturais em campos distintos. em vez da ordem. Segundo Santos (1996. um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até a pouco considerávamos insubstituíveis.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Figura 6 – O debate sobre os diferentes atributos de cientificidade das ciências sociais e das ciências naturais é objeto de conflitos na comunidade acadêmica até os dias de hoje Tal debate acirrou‑se a partir da revolução einsteiniana.

as dificuldades decorrentes dessa obsessiva fragmentação do saber são inúmeras. p.. local. Ainda. sobre as melhores formas de construir uma ponte. sobre as estratégias para lidar com o desemprego. p. deve levar em conta que o conhecimento é total e.. No entanto. Criam‑se novas disciplinas para resolver os problemas produzidos pelas antigas e por essa via reproduz‑se o mesmo modelo de cientificidade. • que todo conhecimento é total e local. mas antes de interações e de intertextualidades organizadas em torno de projetos locais de conhecimento indiviso” (SANTOS. O paradigma emergente.. Figura 7 – No paradigma dominante. portanto. os desenvolvimentos científicos têm ocorrido no sentido da especialização e do compartimento rigoroso da organização do saber em disciplinas. 17). sobre os modos de produção agrícola. há que se considerar que determinados problemas só podem ser resolvidos no campo da colaboração entre vários saberes e diversos especialistas: como ter a visão do todo se os especialistas não dialogam e não são capazes de estabelecer uma comunicação profícua a partir de diferentes linguagens? Para Santos (1996. Ele deixa de ser disciplinar para se tornar temático. [. 1996. promoveu‑se a aproximação epistemológica entre as duas vertentes científicas. o conhecimento é fragmentado e as diversas áreas do saber não se comunicam. 1996.] Este efeito perverso revela que não há solução para este problema no seio do paradigma dominante e precisamente porque este último é que constitui o verdadeiro problema de que decorrem todos os outros. “Não se trata de uma amálgama de sentido [. No paradigma emergente. p. mas as medidas propostas para corrigi‑los acabam em geral por reproduzi‑los sob outra forma. já que as fronteiras acabam por se traduzir em obstáculos intransponíveis. constituindo‑se “em redor de temas que em dado momento são adotados por grupos sociais concretos como projetos de vida locais” (SANTOS. No paradigma dominante. chamando especialistas de todas as disciplinas à discussão para a pesquisa de temas colocados pela sociedade como relevantes.]. 17): os males desta parcelização do conhecimento e do reducionismo arbitrário que transporta consigo são hoje reconhecidos. 17). e isso ocorre no caso da investigação sobre as causas de uma doença. sobre os processos sociais que observamos no dia a dia.. por isso mesmo. Ao serem derrubados os mitos de certeza e verdade inquestionáveis das ciências da natureza. todo o conhecimento é local e total 20 . Unidade I De forma quase irônica. o que antes era explicativo do “atraso” das ciências sociais hoje é justificativa do “avanço” das ciências naturais.

e por tudo isso. p. essa distinção deixou de ter sentido. o paradigma emergente reconhece que: A ciência não descobre. isso já havia ocorrido. É superficial. os juízos de valor não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. No campo das ciências sociais. procura explicações que sejam mais profundas. claro. descomprometido com a competência cognitiva. cria. Como a Sociologia lida com esse novo paradigma emergente? A resposta é simples: desenvolvendo métodos de análise que tornam a ação social humana explicável. Se no campo antropológico essa distância marcou o distanciamento etnocêntrico entre os cientistas (europeus) e seu objeto de estudo. da religião. da astrologia. e o ato criativo protagonizado por cada cientista e pela comunidade científica no seu conjunto tem de se conhecer intimamente antes que conheça o que com ele se conhece do real. os sistemas de crenças. Segundo Santos (1996. A ciência pós‑moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. utópico. Sugere‑se. A razão por que privilegiamos hoje uma forma de conhecimento assente na previsão e no controlo dos fenômenos nada tem de científico. De fato. O paradigma dominante é marcado pela distinção rigorosa entre o sujeito do conhecimento e o objeto de pesquisa. Os pressupostos metafísicos. É metafísico e retórico. que o caminho não seja dado pelo avanço do conhecimento científico em direção ao senso comum. que estejam baseadas em conhecimentos precisos. e até mesmo em decorrência dos desenvolvimentos da física quântica. • todo o conhecimento científico pode se alimentar e se inovar a partir do senso comum. da arte ou da poesia. 19). o desconforto que as ciências sociais anunciavam em relação à dualidade entre sujeito e objeto propagou‑se para as ciências naturais. abandonando a prudência e o conforto do estabelecido pela ciência. mas que ele percorra o caminho do senso comum ao conhecimento científico. assim. O senso comum é libertário. como ciência. na Sociologia requereu‑se que a distância diminuísse: tratava‑se de cientistas europeus estudando europeus.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS • todo o conhecimento é autoconhecimento. ilusório e falso. No paradigma emergente. São parte integrante dessa mesma explicação. p. Segundo Santos (1996. A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para considerá‑la melhor que as explicações alternativas da metafísica. A Sociologia. os “nativos atrasados”. O conhecimento 21 . É um juízo de valor. mas é indisciplinado e desvinculado de qualquer método. 21): a ciência moderna construiu‑se contra o senso comum que considerou superficial. ele pode se colocar contra o paradigma existente sem medo ou receio.

é bem provável que ele não pense em termos de relações sociais de produção. Isso não significa que somos determinados pela história. É preciso orientar‑se em função de certa noção de ordem social.. com lucidez. O conhecimento sociológico. a fim de perceber. enquanto o senso comum limita‑se ao conhecimento superficial. De que forma as pessoas podem se municiar para serem capazes de compreender o mundo em que vivem. pois procura bases sólidas. ele não reflete a respeito das transformações radicais que ocorreram por conta do desenvolvimento tecnológico. 1975. o eu e o mundo” (MILLS. a resposta a essa pergunta é simples: O que precisam. p. Isto faz da Sociologia um conhecimento indispensável num mundo que diferencia e isola os homens e grupos entre si. Unidade I com base científica é crítico. o sentido de sua época e de sua história? Segundo Mills (1975. a vida que leva. no nosso dia a dia não pensamos sobre as estruturas e processos que estão por trás dos nossos atos ou do ambiente em que atuamos. cientistas e editores estão começando a esperar daquilo que poderemos chamar de imaginação sociológica. o papel que representam. o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar ocorrendo dentro deles mesmos. Vivemos. 11). 10). ao contrário. É essa qualidade [. Por isso. criamos família e estabelecemos laços a partir daquilo que existe no contexto do nosso próprio tempo. sentimos e construímos aquilo que o tempo histórico abre para nós em termos de possibilidades. é uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão. permite ao ser humano transpor os limites de sua condição particular e perceber‑se como parte de uma totalidade mais ampla. seus valores. criamos o nosso tempo da mesma forma como ele nos abre alternativas para o nosso curso 22 . O conhecimento sociológico é organizado. justificações claras e exatas. ao explicar relações entre acontecimentos complexos e diferenciados. busca a investigação do conjunto de fatos e situações. e o que sentem precisar.] que jornalistas e professores. a biografia e a história. artistas e públicos. Em resumo.. p. produzimos arte. 2 A IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA E OS GRANDES TEMAS DA SOCIOLOGIA NOS DIAS DE HOJE Voltemos à questão do ambiente social em que vivemos. Em outras palavras. procurando compreendê‑los para além dos fatos e situações isoladamente. o trabalho que exerce e as relações sociais que constrói são frutos do tempo em que vive..] da qualidade intelectual básica para sentir o jogo que se processa entre os homens e a sociedade. quando ele usa o seu celular para fazer um contato. cada indivíduo precisa entender que suas atitudes. Desse modo. Desenvolvemos hábitos. pois a realidade social é capaz de ser observada. buscando construir sistemas que formem conjuntos onde os elementos estejam relacionados de maneira ordenada. o conhecimento científico sobre o mundo social não é produto de uma sequência de acasos ou situações imprevisíveis. Quando um indivíduo sai para o trabalho. Não “[dispomos] [. entendida e explicada à luz da razão..

Aliás. por menos que seja. temos necessidade de olhar além deles. os sociólogos e cientistas que se dispuseram a analisar as estruturas sociais buscaram compreender algumas questões: • como cada sociedade está organizada? • qual a posição que cada sociedade específica ocupa na história da humanidade? • o que é possível esperar em termos das variedades de comportamentos dos homens e dos grupos humanos em cada sociedade e em cada momento histórico? Usando a imaginação sociológica como forma de consciência. e que vive dentro de uma sequência histórica. portanto. para o condicionamento dessa sociedade e para o curso de sua história. ao mesmo tempo em que é condicionado pela sociedade e pelo seu processo histórico (MILLS. Nós construímos o nosso tempo histórico e ele determina as possibilidades e circunstâncias de nossas vidas. 1975. Esse é o papel da imaginação sociológica: o de construir um novo olhar. o indivíduo amplia sua percepção do mundo e. p. contribui. o das questões que se relacionam com as estruturas sociais mais amplas da vida social e histórica. pessoais e que ocorrem na esfera da vida social) a partir de um ponto de vista maior. Para atingir esse objetivo. Figura 8 – A imaginação sociológica requer que o indivíduo seja capaz de situar sua experiência individual em termos do tempo histórico que vive Todo indivíduo vive. 12). E o número e variedade dessas modificações 23 .METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS individual. da sua própria vida. numa determinada sociedade. Capacita‑se ao entendimento das perturbações (que são individuais. para além do que é individual. que vive uma biografia. de uma geração até a seguinte. trata‑se mais de uma promessa: a Sociologia se compromete ao desenvolvimento e à construção de um novo olhar. Para compreender as modificações de muitos ambientes pessoais. E pelo fato de viver.

Saiba mais O primeiro museu criado no Brasil é o Museu do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambucano. Também estuda os métodos da pesquisa sociológica e os pressupostos sobre a natureza do conhecimento sociológico. Aqui. 1975. de comunicação e do imaginário social também podem ser encontrados aqui. Ter consciência da ideia da estrutura social e utilizá‑la com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes de pequena escala. como podemos distinguir os mecanismos metodológicos científicos que diferenciam (ou fazem assemelhar) a Sociologia em relação à História? Outras perguntas que essa área tenta responder dizem respeito ao papel do contexto da realidade na formação da mentalidade sociológica e aos limites de certeza do conhecimento. Unidade I estruturais aumentam à medida que as instituições dentro das quais vivemos se tornam mais gerais e mais complicadamente ligadas entre si. Nesse sentido. podemos encontrar estudos sobre a história social da arte. Ser capaz de usar isso é possuir a imaginação sociológica (MILLS.br/> 24 .com. de museus e de universidades. É a razão a fonte principal do nosso conhecimento ou é a experiência que nos conduz à verdade? Como já vimos. detalhados a seguir. estão reunidas as pesquisas sobre as instituições culturais. Como a busca do saber sociológico difere daquele que os cientistas buscam construir no campo das ciências naturais? E. mesmo dentro do contexto das ciências sociais. Sugerimos uma visita ao site do museu. Também são investigados os processos históricos sociais de escolas do pensamento. podemos dividir esses grandes temas em sete grupos. quais são os grandes temas sobre os quais os cientistas sociais estão pesquisando e debatendo? Segundo Arruda (1994). Metodologia e Epistemologia Esta área compreende os estudos sobre as principais teorias sociológicas e sobre os demarcadores do objeto da Sociologia em relação a outras ciências. bem como sobre os processos históricos envolvendo as questões culturais. acessando: <http://www. Sociologia da Cultura e da Educação Neste grupo.institutoarqueologico. o debate epistemológico sobre o conhecimento sociológico envolve essas e outras questões. Teoria Sociológica. 17). Os estudos sociológicos sobre processos sociais de consumo. bem como os desenvolvimentos relativos à institucionalização de áreas do saber. p.

os órgãos patronais e os sindicatos de trabalhadores. MASP. foi fundado em 1947 e é um dos mais importantes do país em função da qualidade do seu acervo Sociologia dos Processos Políticos e das Instituições Públicas Esta área investiga os processos políticos e os comportamentos sociais a ele relacionados. a oeste de Pernambuco.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Figura 9 – O Museu de Arte de São Paulo. Observação A não regulamentação da Reforma Agrária a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 tem dado margem à ocorrência de inúmeros conflitos no campo. a história do capitalismo brasileiro. em Rondônia. investigações sobre formas de representação política. a urbanização. pesquisas eleitorais. os agentes sociais e os processos de interação entre eles. violência social. nas proximidades de Carajás (sudeste do Pará). os processos relativos ao trabalho e às interações entre capital e trabalho. 25 . Sociedade Capitalista e Classes Sociais no Brasil Nesta área estão os estudos sobre a formação social do Brasil. Assim. no Bico do Papagaio (em Tocantins). a dinâmica rural. o campesinato e os movimentos migratórios. especialmente na região da fronteira agrícola da Amazônia Meridional e Oriental. no Pontal do Paranapanema (em SP) e a oeste do PR. políticas públicas e relações internacionais são temas frequentemente debatidos entre os cientistas sociais que nessa área atuam. cidadania.

falta terra para campo. mas a situação está os assentamentos mais calma Rio Grande do Norte As invasões são resultado do Famílias assentadas fracasso de alguns projetos da Sudene 37 1000 9 1090 Invasões em 1998 Fazendeiros 9 1600 muito pouco armados armados Risco de conflito muito alto alto médio Número de acampamentos Mato Grosso Zona da Mata de Pernambuco Os sem-terra entram em Uma em cada quatro ocupações de confronto com traficantes terra no país ocorrem na região bolivianos 5 1400 69 12400 Sul de Mato Grosso do Sul A região sofre influência do que Triângulo Mineiro acontece e no Pontal Os sem-terra avançam sobre fazendas de gado 47 2800 35 1100 Rio Grande do Sul Noroeste do Paraná Pontal do Paranapanema As invasões perderam ímpeto no A área. que foi uma das mais perigosas do Reúne as porções mais organizadas do berço do MST país. Unidade I 120000 108986 101094 100000 81944 80000 85226 63060 65874 60000 55464 42912 62044 58266 40000 39004 20000 30476 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Figura 10 – Invasões e assentamentos rurais. número de famílias assentadas Rondônia Sudeste do Pará Como boa parte do Eldorado dos Carajás virou território está em parques símbolo da violência no ambientais. número de famílias envolvidas em invasões. em azul. está sem conflito desde 1997 MST e dos fazendeiros 0 6200 26 5800 20 3800 Figura 11 – Mapa dos conflitos rurais 26 . Em vermelho.

pdf>. Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado. estudam‑se as realidades africana e latino‑americana sob o ponto de vista social. Figura 12 – Segundo o Censo de 2010.br/sites/default/files/pesquisaintegra.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Relações Sociais de Gênero Aqui podemos encontrar as pesquisas sobre a história da participação da mulher.org. político e cultural. Disponível em: <http:// www. Tais pesquisas partem do pressuposto que são fundamentais as heranças que partilhamos com outros países da América do Sul e com a África. 2010. ago. 530 mil brasileiros se declararam seguidores de candomblé ou umbanda Estudos sobre a América Latina e África Negra Nesta área.fpabramo. 27 . sobre as instituições femininas e sobre as questões que envolvem os direitos da mulher na sociedade. São Paulo. Sociologia da Religião Nessa área estão os estudos sobre as instituições religiosas e a religiosidade popular. bem como sobre as diversas manifestações religiosas encontradas no Brasil. Saiba mais Sugerimos que você acesse: FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO.

Afinal. a sociologia constitui contribuição decisiva para a formação da pessoa humana. isto é. Unidade I Figura 13 – No Brasil.1 O ensino das Ciências Sociais no Brasil De que maneira a Sociologia pode contribuir na formação do homem comum? Qual o sentido desta disciplina no sistema de educação de massas no qual estamos submersos? Do ponto de vista do contexto escolar. a formação do espírito crítico se deve basicamente à existência de três princípios 28 . percebendo‑se como ser social. a inclusão da Sociologia como disciplina obrigatória seguiu um longo percurso. afirmam a importância do ensino da Sociologia no Brasil. como veremos a partir de agora. Ao refletir sobre o sentido da Sociologia no Ensino Médio. Mais que isto. bem como a descrição das pesquisas em que cada um deles são realizadas. abrindo‑se a perspectiva de análise sobre os fundamentos da Sociologia no currículo do Ensino Médio. 51% da população são formados por negros Os grupos temáticos anteriormente arrolados. Acreditamos ser esse um excelente ponto de partida para se refletir sobre o sentido do ensino da Sociologia. a Sociologia é – entre todas as ciências – a que estabelece uma relação mais direta com as questões que dizem respeito à vida cotidiana. assegurando aos alunos de Ensino Médio uma sólida formação humanística. à sociedade na qual estamos inseridos. 2. já que nega o individualismo e demonstra claramente nossa dependência em relação ao todo. Sarandy (2001) reconhece a importância deste componente como: O conhecimento sociológico certamente beneficiará nosso educando na medida em que lhe permitirá uma análise mais acurada da realidade que o cerca e na qual está inserido. Sarandy (2001) identifica a especificidade do componente na possibilidade de conduzir o estudante a desenvolver uma nova perspectiva de análise da realidade na qual está inserido. No entanto.

as diferentes culturas. a Sociologia tem contribuído para ampliar o conhecimento do homem sobre sua própria condição de vida e fundamentalmente para análise das sociedades. Por meio desses princípios explicativos é possível compreender diferentes visões de sociedade e diferentes estilos de pensamento. é nos conduzir a pensar sobre as relações sociais (desiguais). Todo o comportamento humano passa a ser entendido sob a ótica da cultura que o produziu. O papel da Sociologia no Ensino [. Segundo Lourenço (2008. O seu principal mérito. mas a probabilidade. independentemente de características individuais. recusando‑se à análise fácil e descomprometida das primeiras impressões para buscar o conhecimento dos fatos construídos socialmente. afinal? O problema sociológico está relacionado à compreensão das relações sociais. ao compor. No que consiste o problema sociológico.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS explicativos para a realidade: causação funcional. influenciando e sendo influenciado pelas estruturas sociais. – Pedagógicas: domínio precário dos conceitos básicos das ciências sociais. em geral. consolidar e alargar um saber especializado. p. não é possível tratar do ensino de Sociologia sem levarmos em consideração as dificuldades que vêm cercando sua inclusão nos currículos escolares. 70). 2008. 69): Desde a sua constituição como conhecimento sistematizado. o acompanhamento dos alunos e uma avaliação diagnóstica e por outro lado. A Sociologia será a área que fará do questionamento dos problemas sociais o seu objeto de trabalho. 29 . elas ocorrem nas esferas: – Administrativas: número excessivo de turmas.. suas contradições e suas diferentes atitudes quando sujeito a um determinado momento ou situação histórica. conexão de sentido e a contradição. pautado em teorias e pesquisas que questionam muitos problemas da vida social. 16 turmas por 40h de jornada. Segundo Lourenço (2008.] é fazer o aluno compreender a que a disciplina trabalha a complexidade do ser humano. p. o que por um lado. – Políticas: a resistência de professores e estudantes em função da diminuição da carga horária de outras disciplinas. gera desgaste físico e mental. falta objetividade e clareza dos temas a serem trabalhados. resumindo. as políticas existentes no meio social (LOURENÇO. Conduzir o estudante a pensar sociologicamente significa levá‑lo a desenvolver uma atitude de dúvida e busca de conhecimentos que não tragam a exatidão ou a certeza. Em contrapartida. 68).. problematizando seus limites. dificulta a realização de atividades criativas. aliado a isto. p.

ao se voltar para as últimas séries da Educação Básica – o que se encontrava em consonância com os pressupostos comteanos que viam a Sociologia como a ciência mais complexa. sempre teve uma influência enorme junto à comunidade política e científica do Brasil. Unidade I Figura 14 – Será possível incluir debates e atividades práticas considerando o ambiente de salas de aulas preparadas para um número grande de alunos? 3 AS INTERMITÊNCIAS DO ENSINO DE SOCIOLOGIA De forma distinta ao que aconteceu em outros países da América Latina (que incluíram a disciplina nos cursos superiores). a física social. nesse momento. ambos níveis de acesso restrito acesso à população. portanto. A bandeira brasileira evidencia essa influência. no Brasil. foi introduzida inicialmente nas séries finais da Educação Básica. 2013. caráter esse que foi mantido pelas reformas posteriores (OLIVEIRA. p. há que ser considerado: é o caráter elitista que a disciplina assumira. e que. 30 . o seu ensino deveria ‘coroar’ o ensino das demais ciências – e para os cursos superiores. Alguns fatores podem explicar essa diferença: em primeiro lugar. corrente sociológica que inaugura o discurso da disciplina. já que expressa o lema positivista “Ordem e Progresso”. a Sociologia. 180). em segundo. Observação O movimento positivista participou intensamente da luta pela Proclamação da República e teve influência decisiva na elaboração da Constituição de 1891. o positivismo.

A primeira LDB sugere a disciplina como 1961‑1971 componente optativo do curso colegial (Ensino Médio). foram inauguradas imediatamente a Academia Militar. quando a Reforma Capanema retirou sua obrigatoriedade. exclusão. p. de onde surgiram algumas obras de filosofia publicadas no Brasil no século XIX.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Figura 15 – Os dizeres “Ordem e Progresso” que estão na bandeira brasileira expressam a grande influência dos positivistas no século XIX Segundo Sarandy (2011. como OSPB. A Reforma Capanema exclui a Sociologia A Sociologia deixa de ser obrigatória em qualquer 1942‑1961 do currículo escolar. a intermitência do ensino de Sociologia é uma característica marcante da história dessa disciplina em termos de sua inclusão no currículo escolar. uma no Rio de Janeiro e outra na Bahia. De fato. “sociais” são tratados em disciplinas ufanistas. A Reforma Rocha Vaz torna a disciplina Os conteúdos de Sociologia passam a ser exigidos nas 1925‑1942 obrigatória. 31 . disciplina nos cursos preparatórios e superiores. a disciplina é confundida com o socialismo e os temas 1971‑1982 A Sociologia permanece como optativa. Quadro 1 – A intermitência do ensino de Sociologia Data Ocorrência Resultado “Pareceres” de Rui Barbosa sobre a inclusão da 1882 Os pareceres sequer foram discutidos. a Escola Nacional de Belas Artes e duas faculdades de medicina. A Reforma Benjamim Constant torna A Reforma Benjamim Constant não chegou a ser 1890‑1897 obrigatória a inclusão da disciplina nos cursos colocada em prática. provas de acesso ao Ensino Superior. 5): Sabe‑se que após a transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil. Segundo Moraes (2003). a não obrigatoriedade leva a sua obrigatória. em 1808. não aparecendo como nível escolar. preparatórios (6º e 7º anos do secundário). A disciplina foi introduzida no currículo escolar em 1925 e permaneceu até 1942. Por conta do conservadorismo do Regime Militar. Somente em 1827 é que são criadas as faculdades de direito de Olinda – posteriormente transferida para o Recife – e de São Paulo.

nos anos 1930. no entanto. porque é contrário á natureza. Deve‑se reprovar. publicado em 1926 e editado por uma livraria ligado à congregação Marista: II – Como Deus a estabeleceu. tratando todos os pontos com grande espirito de pacificação. como da Escola Livre de Sociologia e Política ou a “agregação” de cursos na Universidade do Rio de Janeiro. [. e Raízes do Brasil. Letras e Ciências Humanas. Deve‑se. eventos que se deram na primeira metade da década de 1930. 362). E ainda assim. como sejam certas ideias mais ou menos liberaes. p. De qualquer modo.. de Sérgio Buarque de Hollanda (1936). Para Sarandy (2011. Unidade I A Reforma Rocha Vaz tornou a Sociologia uma disciplina obrigatória. No Brasil. absurdo e inexequivel..] XXI – No ensino desta disciplina. “tanto o curso da ELSP quanto o da USP contam com a presença de estrangeiros entre seus primeiros mestres. com excepcional cuidado. como prova um trecho de Sociologia: Compendio Escolar para o Curso Gymnasial. 6): Assim compõe‑se o nosso sistema de ensino superior até a terceira década do século XX. p. qualquer projecto de nivelamento. entender o ensino da disciplina dentro do contexto daquele instante: tratava‑se de trabalhar os conteúdos “sociais” dentro de parâmetros bem rigorosos. tanto a criação da USP. os cursos superiores de Ciências Sociais se caracterizavam pela preocupação com a formação de quadros para a burocracia empresarial e governamental e pela formação de pesquisadores. Evolução Política do Brasil. a criação da Escola Livre de Sociologia e Política e da Faculdade de Filosofia. na verdade. tudo quanto possa favorecer a utopia socialista. Evitar. 32 . p. de Caio Prado Jr. americana”. das várias concepções de nacionalidade e da integração nacional. será preciso usar da maxima cordura. de Gilberto Freyre (1933). de moderação e muito juizo. A indústria editorial se expandiu e obras fundadoras foram publicadas: Casa Grande e Senzala. 2013. a sociedade humana de elementos desiguaes. ou o emprego sempre despropositado da terminologia em voga entre os adeptos da luta das classes (LORTON. e os seus conteúdos passaram a ser exigidos nas provas de acesso ao Ensino Superior. objetivava a formação de uma elite intelectual para refletir acerca dos dilemas da sociedade brasileira. consta. podem ser considerados casos isolados e não representaram o que seria o início de uma política governamental de fomento à educação superior. caracterizaram uma educação votada às elites. 1926 apud OLIVEIRA. 181). Segundo Moraes (2011. O debate cultural envolvia questões da identidade do país. prevalecendo na USP uma influência europeia e na ELSP. das condições humanas.

podendo o colegial ser cursado sob a forma de Científico (destinado a uma formação para carreiras técnico‑científicas) ou Clássico (com foco em humanidades). Ainda. é compreensível que a sociologia seja alçada à condição de ‘arte de salvar rapidamente o Brasil’ (SARANDY. dividindo o ensino secundário em dois níveis: ginasial (quatro anos) e colegial (três anos). nos anos 20 e 30. Figura 16 – Capa do livro Casa‑grande e Senzala. foi um incisivo crítico às teorias relacionadas ao determinismo social e ao mito da democracia racial no Brasil. porque reorganizou a educação brasileira. capitaneada por Anísio Teixeira. A Reforma Capanema. marco editorial da década de 1930 É desse período o surgimento de uma convicção que. mais que isso: a considerar as relações de parte desses intelectuais com o pragmatismo de Dewey e a forte influência. p. da Educação Nova no Brasil. naquele momento: não apenas se creditava à disciplina a condição de ciência fundamental. capacitada para o conhecimento seguro da realidade social e fornecedora de instrumentos de intervenção que contribuíssem para a harmonia e o desenvolvimento da sociedade. […] entendemos que a exclusão da Sociologia do currículo prende‑se menos a preconceitos ideológicos e mais à indefinição do papel dessa disciplina no contexto de uma formação que se definia mais orgânica. Afinal. o que praticamente significou seu desaparecimento das salas de aula. sociólogo e antropólogo. até hoje contamina as análises das relações entre a Sociologia e o ambiente político. de Gilberto Freyre. a Reforma Capanema recuou da obrigatoriedade da inclusão da Sociologia no ensino escolar. Em primeiro lugar.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Observação Gilberto Freyre (1900‑1987). de certa forma. na esteira do pensamento comtiano. interrompeu o período de permanência da Sociologia nos currículos escolares. 2011. 7). resultado do estabelecimento de uma burocracia mais técnica e mais exigente ou convicta 33 . de 1942.

O primeiro ministro. e fez parte do projeto político do “Estado Novo”. Antônio Cândido e Anísio Teixeira. como. integralistas. Florestan Fernandes. havia modernistas. Emílio Willems. Anísio Teixeira. o de Educação. Unidade I em relação à concepção de educação. XX houve um intenso debate sobre educação. Fernando de Azevedo. socialistas e católicos. incluíram‑se personalidades das mais diversas escolas de pensamento. 4): nas décadas de 20 a 50 do séc. Observação A Reforma Capanema foi realizada pelo ministro da educação e saúde Gustavo Capanema. para substituir um deles. foi reproduzido largamente por Costa Pinto e Florestan Fernandes. de 1932. Mário de Andrade. Capanema. realizado por intelectuais brasileiros de projeção. 183). entre outros. 2013. e foram muitos os nomes que o assessoraram: Carlos Drummond de Andrade. 2011 apud OLIVEIRA. p. positivistas. Heitor Villa‑Lobos e Manuel Bandeira. chamou intelectuais para colaborarem na formulação de políticas educacionais. Figura 17 – Getúlio Vargas (1882 – 1954): governou o país de forma ditatorial durante 1937 a 1945. Nesse grupo. o projeto de Getúlio Vargas era ambicioso e incluiu a criação do Ministério da Educação como um de seus primeiros atos. no 34 . De certa forma. Medicina e Engenharia ou. Luiz de Aguiar Costa Pinto. período em que o país viveu sob o regime ditatorial. tratou de criar um sistema universitário que estabelecia como exigência a existência de três unidades de ensino superior para a constituição de uma universidade: os cursos de Direito. entre outros. O ideário educacional renovador como apresentado no “Manifesto dos Pioneiros”. Francisco Campos. que posteriormente ocupou o cargo. período conhecido como Estado Novo Segundo CPDOC/FGV (2014). durante a Era Vargas (1930‑1945). p. pode‑se dizer que os defensores da Sociologia não conseguiram convencer essa burocracia educacional quanto à necessidade de sua presença nos currículos (MORAES. Segundo Sarandy (2011. Ciências e Letras.

e. em especial. em função do rompimento de relações diplomáticas com a Alemanha. ciência e educação não se dissociariam de um projeto modernizador da sociedade e do Estado brasileiro e no qual a sociologia (o ensino desta) ocuparia lugar privilegiado. febre amarela. particularmente com o atendimento à população atingida pela malária. <http://portal. Criou a Universidade do Brasil (atualmente. Por isso. tuberculose e a lepra. Também se preocupou com a questão da saúde. isto porque podemos ver claramente (como em textos de Florestan. Capanema se preocupou em continuar o desenvolvimento dos projetos do seu antecessor. Ainda: Um dos objetivos da Reforma Capanema foi desatrelar formalmente o ensino secundário do ensino superior. p.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS qual. dando‑lhe um projeto pedagógico próprio.br/> A gestão de Capanema. em outros termos. uma perspectiva que se pretende modernizante das relações sociais no Brasil e a proeminência da educação como projeto estratégico de modernização e desenvolvimento democrático justamente devido à formação de ‘capacidades’ do cidadão brasileiro. IPHAN. Apenas para dar um exemplo: durante o período da II Guerra Mundial. 2011. já que ela era a única a acessar as novas tendências filosóficas e políticas disseminadas no restante do mundo (CPDOC/FGV. cabia à elite a salvação do país. Universidade Federal do Rio de Janeiro). 4). Saiba mais Sugerimos a visita ao site do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. definiu políticas de preservação cultural (com a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e criou o Instituto Nacional do Livro. típica do período do Estado Novo. dentro do contexto de apologia ao nacionalismo. a principal mudança nela estabelecida foi a extinção dos cursos 35 . O campo das ciências sociais foi fortemente marcado por um discurso no qual se articulavam determinadas apropriações simbólicas da realidade social. Segundo CPDOC/FGV (2014). no entanto. democracia. ao conteúdo de Publicações da instituição.gov. Costa Pinto e Antônio Cândido) a associação entre certa concepção de democracia.iphan. 2014). Capanema mandou fechar as escolas das colônias alemãs do sul do Brasil. ou. O Brasil percebido por esses intelectuais era o país necessitado de um modelo de governo centralizador que pudesse dar conta da resolução de um sem-número de problemas. foi marcada por uma atuação autoritária e centralizadora. o discurso educacional das décadas de 1920 a 1950 considerou a ciência como o caminho coerente de compreensão da realidade nacional e a educação a principal arena de intervenção nas relações sociais (SARANDY.

retornou e elegeu‑se deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores. Figura 18 – Juscelino Kubitschek governou a partir de um modelo desenvolvimentista. sobressaíram‑se as relativas à recusa de atribuição de neutralidade das ciências sociais. incluía um país sedento pela modernização política e econômica. atuando de forma significativa na área da educação. Nessa Reforma então. mas com todos os problemas típicos de uma nação periférica. que defendia a necessidade de o homem comum ter acesso ao conhecimento sociológico. Com a redemocratização. 2013. 183). a Sociologia deixa de ser obrigatória e alguns dos seus conteúdos passam a integrar a proposta curricular de Filosofia no 3º ano do curso clássico (SOARES. p. Aproveitando o clima de relativa liberdade política que o elegeu. pois ele seria o principal ingrediente que permitiria ao povo tornar‑se agente ativo dos acontecimentos e dos rumos da nação. insatisfeito com as conquistas até então alcançadas (CPDOC/FGV. Unidade I complementares que visavam a preparação para as carreiras superiores de direito. JK propôs uma agenda desenvolvimentista e de forte apelo popular. desempenhava uma função mais preparatória do que formativa. que pretendia alçar o Brasil ao posto de modernidade 36 . Coubera a Getúlio Vargas a criação da estrutura administrativa do aparelho estatal e o incentivo ao processo de industrialização em decorrência da crise de 1929. As décadas de 1950 e 1960 trouxeram mudanças significativas no contexto político nacional. de forma a incluir as disciplinas das ciências humanas e sociais nos currículos escolares. Dentre suas ideias e obras. Nos anos 1950. que na perspectiva apresentada pela Reforma Capanema. 2014). medicina e engenharia. Uma das consequências do fim desses cursos foi a eliminação da disciplina Sociologia. Florestan Fernandes também já discutia mudanças no sistema educacional brasileiro. O seu legado. Juscelino Kubitschek (1902‑1976) recebeu um Brasil no caminho da urbanização acelerada. O principal expoente desta luta foi Florestan Fernandes (1920‑1995). 2009 apud OLIVEIRA. Florestan Fernandes foi cassado pelo regime militar e deixou o Brasil durante vários anos. a consolidação da reflexão sociológica no Brasil levou a intelectualidade a defender a expansão da sociologia para os estudantes secundários. Observação Um dos mais importantes e influentes sociólogos brasileiros. porém.

Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré. Mais uma vez convocados. é também do período de JK a publicação do manifesto de educadores. O espírito que regeu seu mandato era progressista. a partir do projeto de interiorização do governo e de ocupação do território brasileiro. tratava‑se de preparar a elite para governar. Figura 19 – Palácio do Itamaraty (Brasília) No ambicioso Plano de Metas de JK. Segundo CPDOC/FGV (2014). e para isso se valeu da burocracia já organizada e em funcionamento e do apoio do Instituto Superior de Estudos Brasileiros ( ISEB).METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS O seu Plano de Metas propunha desenvolver cinquenta anos em cinco e aproveitou a estrutura das agências de fomento e financiamento deixadas por Getúlio Vargas (Bndes e Petrobrás. criado durante o governo de Café Filho (CPDOC/FGV. a educação ganhou um papel de diminuta importância em termos dos investimentos previstos na sua ampliação e desenvolvimento. Nacionalista e desenvolvimentista. 2014). Guerreiro Ramos. Cândido Mendes de Almeida. Apesar disso. e a burguesia industrial deveria abraçar esse projeto. em 1959. por exemplo). Observação O ISEB foi extinto pelos militares que promoveram o golpe de 1964. que deu continuidade ao movimento em defesa da educação 37 . devendo essa elite ser capaz de colocar em prática o projeto de racionalização e modernização pretendido. algumas realizações precisam ser mencionadas: a criação da Universidade de Brasília e a formação de inúmeros cursos superiores voltados aos negócios e à administração. Os intelectuais do ISEB (Hélio Jaguaribe. entre outros) acreditavam na industrialização como receita para ultrapassar o subdesenvolvimento: não havia como conciliar a herança agrário‑exportadora dentro da receita preconizada de nação desenvolvida. Afinal. o governo de JK buscou acelerar o desenvolvimento da região nordeste e também promoveu a mudança da capital para Brasília.

dessa forma. intelectuais e artísticas (CPDOC/FGV. o manifesto dizia: Mas a educação pública por que nos batemos. integral. e a de educação para o trabalho e o desenvolvimento econômico e. 2014). no sentido de que. que a educação deve ser universal. é a educação fundada em princípios e sob inspiração de ideais democráticos. A partir desse momento. os militares atribuíram à sociologia o papel de base subversiva e baniram definitivamente o seu ensino da escola secundária. tendo atuado de forma decisiva em prol da educação e dos direitos dos índios. colocando em conflito dois grupos distintos: o que defendia o ensino gratuito (liderado por Darci Ribeiro) e outro que defendia a estrutura privada de ensino (cujo porta‑voz era o deputado Carlos Lacerda). Unidade I pública. portanto. laica e gratuita (bandeiras do movimento conhecido como Escola Nova). derrubado pelos militares. Entendemos. Com o golpe de 1964. um intenso debate sobre o papel do Estado em relação à educação. tem de ser organizada e ampliada de maneira que seja possível ministrá‑la a todos sem distinções de qualquer ordem.. são três teses fundamentais defendidas por educadores progressistas do mundo inteiro. a de uma educação liberal e democrática. 38 . Observação Darci Ribeiro (1922‑1997) foi um dos mais importantes políticos e antropólogos brasileiros. obrigatória. [. O grupo escola‑novista recebeu um duro golpe com a publicação da primeira LDB: o Estado brasileiro não tinha como arcar com os custos de um ensino gratuito para toda a população em idade escolar e. isto é. para o progresso das ciências e da técnica que residem na base da civilização industrial. por isso. destinando‑se a contribuir para a formação da personalidade da criança. deve assegurar a todos o maior desenvolvimento de suas capacidades físicas. Dentre outros tópicos.] A escola pública concorre para desenvolver a consciência nacional: ela é um dos mais poderosos fatores de assimilação como também de desenvolvimento das instituições democráticas. por isso. obrigatória e gratuita em todos os graus. ontem como hoje. preconizava o incentivo à rede privada. Contribuíram para isso a herança de intensa radicalização política dos meios estudantis no governo de Goulart. bem como o clima de confronto que se estabeleceu entre estudantes e militares a partir do golpe. do adolescente e do jovem. A década de 1950 viu reacender. morais. A ideia de educação pública – conquista irreversível das sociedades modernas. a Sociologia passou a ser um componente optativo do currículo escolar e essa situação se modificaria a partir do golpe de 1964..

Isolaram‑se os cientistas sociais. Como resultado desse processo de insulamento. p. foi o de ter conseguido desarticular o debate acadêmico ocorrido nos anos 30 e 40” (SARANDY. nos quadros das universidades e nos cursos superiores. 15 de Novembro (Proclamação da República) eram merecedoras de atividades especiais. foram introduzidas disciplinas como Educação Moral e Cívica e OSPB. Colocar sob controle essa efervescência reformadora deveria passar necessariamente pelo seu afastamento dos centros decisórios e dos espaços de influência intelectual e formação da opinião pública (SARANDY.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Figura 20 – As manifestações estudantis contra o regime militar. afastando‑os das controvérsias políticas no contexto público. 13 de maio (Abolição da Escravidão). quando da comemoração da Independência. A discussão sociológica. Mais importante: “o efeito do regime autoritário instaurado em 64 sobre o ensino de sociologia no ensino médio (à época. a partir desse instante. A institucionalização das ciências sociais ocorreu. 2011. Nos meses de setembro. aceleraram o processo de radicalização política nos anos 1960 Substituindo a Sociologia como componente curricular. 9). o isolamento ao qual a disciplina de Sociologia foi submetida a partir daquele instante é: compreensível diante do grau de importância a que as ciências sociais foram elevadas desde o início do século no imaginário social do país e do grau de autonomia dos intelectuais. 8). militares desfilavam junto aos escolares. bem como o aparato autoritário e repressor implantado pelos golpistas. Datas como o Primeiro de Maio (Dia do Trabalho). Elas estavam encarregadas da educação com vistas à apologia cívica. p. ‘secundário’) se não foi o de retirada da disciplina do currículo. De fato. 2011. por exemplo). bem distante da sociedade que sofria os reveses do autoritarismo do novo regime. com a valorização dos símbolos nacionais (que envolvia o hasteamento da bandeira e a cantoria do hino no início das atividades escolares) e dos heróis nacionais (como Tiradentes. ficou confinada à burocracia profissional e os cientistas sociais foram cooptados para o preparo do elemento humano necessário ao aparelhamento tecnocrático e modernizante do Estado e das empresas privadas envolvidas com a industrialização. 39 . a ciência social se viu distante da sociedade e as questões relativas à problemática social passaram a ser discutidas no âmbito da Academia. portanto. encerrando‑os e enquadrando‑os dentro dos limites da lógica da carreira universitária.

por conta da participação do educador baiano na campanha em defesa da escola pública (BRAGHINI. A Editora do Brasil deixava evidente que o conteúdo de suas publicações de EMC não só era preenchido pelas ideias de seus editores. era um dos destaques da equipe editorial.. 40 . Vicente Scherer. Os editores eram anticomunistas ferrenhos. 156). com acentuada divisão racional do trabalho intelectual. Por isso. o material publicado pela editora continha elementos fortes de civismo e solidariedade. descontentes com a mobilização estudantil e com os rumos que o país havia tomado no governo de João Goulart. 10). pelas relações estabelecidas entre os membros da editora e os grupos específicos (BRAGHINI. para os editores não houvera um golpe militar. 2013. mas tentava criar uma sintonia ideológica entre aquilo que eles acreditavam e o que passou a ser determinado pelos pensadores da ESG (BRAGHINI. ao longo dos anos 1960 e 1970. acabou por se tornar uma das maiores do país. 2013. acusando‑o de ‘comunista’. inclusive. com um mínimo de influência externa e fraco accountability. Nesses termos. p. já que obedeciam com rigor as estreitas instruções recebidas por parte dos militares. por atacar Anísio Teixeira. quanto de ordem prática. de Victor Mussumeci. mas uma revolução destinada a afastar o país da influência comunista.. 159). conhecido à época. este seria o principal eixo temático do primeiro livro de OSPB publicado pela editora. já que a sua adesão aos interesses dos militares favoreceu seu fortalecimento no mercado. p. por conta das posições políticas tomadas e pelas orientações educacionais dadas aos leitores. Caso exemplar desse processo de insulamento da Sociologia e da submissão de seus conteúdos aos interesses do regime militar é a história da Editora Brasil. cabia aos editores de material didático disseminar para o público “civil” o ideário da Doutrina de Segurança Nacional defendida pela Escola Superior de Guerra. Seus editores. [os editores] optavam por se manter fiéis aos escritos de D. desinteressadas de benefícios econômicos. ou seja. Segundo Braghini (2013). Unidade I A lógica do insulamento pressupõe três coisas fundamentais: uma extrema especialização. Esse alinhamento [. por fim. anos depois. Aliás. vangloriavam‑se de jamais terem sido censurados. sem incursões generalizadas no debate dos grandes temas – há mesmo uma indiferença pela agenda pública vista em sua totalidade (SARANDY. que. aplicado à gestão racional e eficiente de um setor específico da vida pública. 2011. 2013. católico. 166). entre outros assuntos. um caráter setorial. O jornalista Gustavo Corção. um relativo fechamento em “ilhas burocráticas” de especialistas detentores de informação privilegiada. A proposta dos editores era auxiliar as forças revolucionárias (e não golpistas) de afastar o “perigo comunista” que desaguaria. p. em seus escritos defendia a ideia de que a política devia ser exercida por pessoas “de bem”. para colaborar com a Revolução.] era tanto de ordem ideológica. p. em “atos de sabotagem” e “terrorismo”.

era incompreensível que a classe intelectual e acadêmica perdesse tempo com discussões políticas vazias e sem significado. os jovens precisavam agir com base em sólidas convicções morais. os jovens aderiam à “bagunça e desordem”. Observação Dentro desse espírito. um dos maiores educadores brasileiros e cujo trabalho relacionava‑se com a educação de adultos. o Projeto Rondon. Aliás. em função de perseguições políticas e ameaças. esse papel era cumprido pelo analfabetismo. O projeto foi encerrado em 1989 e ressurgiu em 2005. A proposta era a de desenvolver atividades de caráter assistencial. se havia algum vilão no que dizia respeito à educação. o regime militar tinha em mente um projeto de juventude que não coadunava com a ação estudantil daquele instante. em 1967. Dessa forma. que tinha como objetivo levar estudantes brasileiros ao interior do país junto a comunidades carentes e isoladas. Para o regime militar. para os militares. Paulo Freire acabou por se exilar do país. 41 . Para o regime. era preciso que os sentimentos se elevassem e que o caráter fosse disciplinado. tendo como inspiração Deus e o amor à pátria. e o faziam porque eram iludidos pelos movimentos de esquerda. com o objetivo de alfabetizar adultos. a pedido da UNE (União Nacional dos Estudantes). os intelectuais e professores das universidades tinham privilégios incompatíveis com a miserável situação da educação no Brasil. Ironia desse projeto é que ele simplesmente ignorou os esforços desenvolvidos por Paulo Freire (1921‑1997). Ao contrário. Figura 21 – Participantes do Projeto Rondon orientam sobre reciclagem de materiais (2012) em Curuçá (PA) Segundo Braghini (2010). Para combater essa situação. criou. em colaboração com o Ministério da Educação.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Observação Exemplo da concepção de civismo associado à solidariedade. o Ministério da Defesa. em 1967 o governo criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral).

sinal de insubordinação e resultado da influência de correntes políticas espúrias e que nada tinham a ver com a tradição moral brasileira. 2010). era impossível que jovens que não tinham a competência ou a condição jurídica de casar. já que eram associações jurídicas administradas por menores de idade. Unidade I Figura 22 – Paulo Freire concebeu um revolucionário método de alfabetização a partir da formação da consciência política Para o regime. já em pleno processo de transição política para o retorno à democracia. clinicar ou assinar plantas pudessem fazer política (BRAGHINI. ela é o órgão representativo dos estudantes de nível superior do país Observação Colocada na ilegalidade pela lei Suplicy de Lacerda (1964). Para Corção. Hoje. os estudantes sequer tinham o direito de fazer greve. já que não faziam parte de uma classe “econômica”. a UNE era vista como uma força de vanguarda do comunismo internacional. cujos dirigentes atuavam como agentes marxistas. na opinião dele verdadeiros aparatos judiciais: eram monstros jurídicos. portanto. Figura 23 – Em 1979. a UNE ainda realizou um congresso clandestino em 1968. quando suas principais lideranças foram presas pelas forças de repressão. a UNE realizou seu congresso em Salvador. Gustavo Corção chegou até mesmo a desacreditar as entidades estudantis. Ainda. a classe estudantil “não deveria se envolver em política”. como os trabalhadores. advogar. 42 . A greve era.

essa era a única crítica que mesmo os agentes favoráveis ao regime militar estavam dispostos a fazer). e nas obras de Jorge Amado e Erico Veríssimo! Aparentemente. 2010. Ainda. Na verdade. Marcuse ocupava um lugar de destaque entre os sociólogos a serem criticados por suas bandeiras e ideias revolucionárias. Da parte dos pais. já que instigavam o terrorismo e a anarquia. 43 . que já denota um curso das discussões que poderiam ser feitas em sala de aula. p. foi possível destacar a paranoia diante do planejamento do professor. Lukács. 2010. Guevara. Outros comportamentos também passaram a simbolizar a rebeldia contra os padrões desejados pelo regime: o uso de roupas hippies. a revolta estudantil em relação ao pequeno número de vagas nas universidades e as dificuldades advindas das deficiências estruturais das instituições de ensino colaborava para fomentar o espírito anárquico e contestatório dos estudantes (e. fracos. Os estudantes eram desviados do “bom caminho” por obra da ação de alguns professores. porque eram complacentes diante dos abusos estudantis. todo o repertório extraído das leituras que eram comuns naquele período parecia conspirar para o levante revolucionário: Marx. a fala repleta de palavrões. Freud. todos eles tinham o poder de insuflar os ânimos da juventude. A despeito do comentário sobre o ‘falso puritanismo’. pois a mera dedução de que os jovens passariam pelos trechos mais excitantes da obra era um risco (BRAGHINI. Caio Prado Jr. que usavam “armas vis e desqualificadas na tentativa de erigi‑los em classe. indiferentes. ao que parece. à moda marxista” (BRAGHINI. o uso de roupas “femininas” e de cabelos compridos e barbas por parte dos rapazes. e Celso Furtado. Gramsci. p.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E. porque ensinavam um conteúdo equivocadamente e. 169). foi apontado um rechaço aos professores que desenvolvessem um conteúdo ‘inapropriado’ aos jovens. Até mesmo a literatura virou alvo da ação policialesca: afinal. 161). de Eça de Queiroz. o uso de anticoncepcionais. desqualificados. 161). pois passavam apáticos diante da possibilidade de ensinar outros caminhos aos alunos que não fosse a ‘luta revolucionária’ (BRAGHINI. Para vários representantes da imprensa: havia os professores omissos. p. 2010. a questão da ‘mentalidade policial’ que circulava na escola não vigiava apenas os livros teóricos ou de táticas militares guerrilheiras. nas uniões ilegítimas e sem amparo da lei e na falta de cristandade da educação. de quem era a culpa por tamanha desordem e desorientação dos jovens? A responsabilidade recaía na fragilidade da estrutura familiar. Para os setores mais conservadores da sociedade. no confinamento em apartamentos. porque não demonstravam a sua posição de autoridade. era possível encontrar cenas “perturbadoras” em O Primo Basílio. Bakunin e Marx figuravam como autores que deveriam ser evitados. o sexo livre. Mao. Proudhon.

A ausência de uma menção explícita na LDB sobre a obrigatoriedade do ensino de Sociologia no Ensino Médio tem gerado interpretações conflitantes sobre a permanência ou não da disciplina no currículo escolar. Observação A possibilidade de os conteúdos da disciplina receberem um tratamento interdisciplinar e contextualizado pode resultar numa abordagem dos temas clássicos das ciências sociais sem vínculo com os conceitos sociológicos. a Sociologia esteve presente na parte diversificada do currículo de muitas escolas no Estado de São Paulo. Os órgãos governamentais ligados à educação ofereceram cursos de atualização para os professores de Sociologia e. a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabeleceu como uma das finalidades centrais do ensino médio a construção da cidadania e afirmou a importância dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia ao exercício da cidadania. Tal prioridade foi reafirmada quando da formulação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. nos anos 1980. realizaram concurso para ingresso de professores na rede estadual de ensino. se coloca em evidência o problema ético do exercício profissional do professor. o projeto de Lei que tornava obrigatórias aulas de sociologia e filosofia no Ensino Médio foi vetado pelo então presidente FHC. Unidade I Lembrete Abordaremos em outra unidade a questão da cultura juvenil. Ao colocar os conteúdos de Sociologia para serem dados por professores habilitados em outras disciplinas. Na esfera federal. a Sociologia passou a ser vista como disciplina importante para a formação do cidadão e começou a ser reabilitada pelos programas curriculares como disciplina optativa. É evidente que esse contexto que acabamos de relatar não era favorável ao ensino da Sociologia enquanto saber destinado à compreensão dos fenômenos sociais. Se a tarefa crucial do educador é colocar o aluno em contato com o conhecimento. acabando por apenas resultar na reprodução do senso comum e levando a escola a abrir mão de seu papel de desenvolver atitudes científicas. Mesmo reconhecendo a importância da Sociologia na formação do ser humano. em especial a que se formou durante as décadas de 1960 e 1970. Na década seguinte. em 1985. como garantir o rigor conceitual? Como fica o compromisso do professor com a ciência? 44 . Tal só ocorreria com o processo de redemocratização e. sob o argumento de que os conteúdos da disciplina poderiam ser dados a partir de eixos temáticos.

Afinal. Segundo Mota (2005 apud OLIVEIRA. portanto. 184). como frequentemente são caracterizados por professores. Sua permanência nos currículos escolares. apatias. o segundo. relacionado com o ambiente político do país. protela‑se essa possibilidade em vista dos seus ‘desinteresses.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS 4 O ENSINO DA SOCIOLOGIA E OS CONTEXTOS POLÍTICOS DO BRASIL A análise histórica nos mostra que a presença da Sociologia como disciplina do currículo no Ensino Médio tem oscilado de acordo com dois principais fatores: o primeiro. que tangenciam 45 . essa estratégia acaba por colocar a disciplina como um verdadeiro termômetro do índice de democracia de governos. mais adequado. p. ou. como se fosse necessário o acesso a conteúdos para que a cidadania pudesse ser exercida. Embora tal percepção tenha sido construída a partir dos anos 1980 (quando a disciplina retornou aos currículos escolares simultaneamente ao processo de redemocratização). descompromissos. pressupõe‑se também que esse preparo é para “um depois”. em outras palavras. p. p. relacionado à clareza em relação ao conjunto de conteúdos associado a ela. qual seja. depende da sua razão de ser. Segundo o autor. a sua inclusão merece uma justificativa mais elaborada do que o simples argumento de ser ela um fator de desenvolvimento do pensamento crítico e para a construção da cidadania. A título de conclusão desta unidade. Para Sarandy (2011). é necessário muito cuidado com o estabelecimento de conexões diretas entre o momento política e a inclusão ou não da Sociologia nos currículos escolares. 2013. um fator muito mais relevante do que o ambiente político favorável ou não. não o são todas as outras disciplinas e áreas de saber? Em que a Sociologia se diferencia das demais? É necessário também atentar para outro aspecto de extrema importância. o da vinculação do ensino da Sociologia à formação do caráter cidadão dos alunos. dessa forma. Afinal. Segundo Moraes (2011). 6): Disso decorre ser o processo de institucionalização muito mais complexo que somente a inserção da ciência social na academia. num processo de institucionalização muito mais complexo que somente a inserção da ciência social na academia. 187): Os próximos capítulos que serão escritos sobre o Ensino de Sociologia na Educação Básica possuem grandes desafios pela frente. a legitimidade da disciplina é resultado do sentido que a ela é construído a partir dos debates da comunidade acadêmica. seria falarmos em processos plurais de institucionalização. ao menos. se é atribuído ao ensino de determinada disciplina a formação crítica para a cidadania. a conexão entre Sociologia e democracia está longe de ser uma relação direta e automática. fazemos nossas as palavras de Oliveira (2013. Segundo Sarandy (2011. argumentar a importância do conhecimento sociológico segundo aquele horizonte pode negar aos jovens a participação política.

a globalização trouxe modificações radicais nos processos de trabalho com a emergência de um novo paradigma de estruturação do sistema produtivo. o processo de industrialização crescente e a mobilização política de uma nova classe social em busca de poder marcaram o nascimento de uma ciência que buscou. o conhecimento científico pode se alimentar e se inovar a partir do senso comum. a monarquia e as instituições religiosas tornaram‑se objeto de estudo. Nas últimas décadas. desde o início. os operários. 46 . Mais do que qualquer outra coisa. Nesse contexto. Dentro do atual panorama científico. e de acordo com o paradigma emergente. Esse contexto implicou em mudanças significativas nas formas sociais de organização. Resumo No século XIX. refletir sobre a organização social. A Sociologia. possibilita um entrelaçamento da racionalidade com a realidade social. a Sociologia procura se orientar com base nos seguintes pressupostos: todo o conhecimento científico‑natural é científico‑social. busca a compreensão dos problemas sociais a partir da investigação e da elaboração teórica e. buscava‑se criar uma “física” social que. As relações entre a burguesia nascente. seria responsável pela elaboração teórica explicativa do funcionamento dessa nova sociedade. e a própria necessidade de compreender esta formação como prioritária junto aos Departamentos de Ciências Sociais. a Sociologia deve ser utilizada para que possamos compreender o mundo moderno: sem a Sociologia o mundo seria ainda mais confuso e incógnito. Unidade I os diversos modelos de formação de professores. além de uma reflexão contínua sobre as finalidades do Ensino desta ciência na Educação Básica. todo conhecimento é total e local. enquanto ciência. das possibilidades de utilização e elaboração de material didático. tendo a física newtoniana como modelo do racionalismo e cientificismo. utilizando‑se do rigor científico. o conhecimento é autoconhecimento. bem como a demanda de desenvolver um debate mais sistematizado em torno das metodologias de ensino específicas desta ciência.

dividindo o ensino secundário em dois níveis: ginasial (quatro anos) e colegial (três anos). Relações Sociais de Gênero. Sociologia da Religião. sentimos e construímos aquilo que o tempo histórico abre para nós em termos de possibilidades. Podemos dividir as pesquisas em Sociologia em grandes sete grupos: Teoria Sociológica. a Sociologia é – entre todas as ciências – a que estabelece uma relação mais direta com as questões que dizem respeito à vida cotidiana. para além do que é individual.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS O conhecimento sociológico. a Reforma reorganizou a educação brasileira. Metodologia e Epistemologia. podendo o colegial ser cursado sob a forma de Científico (destinado a uma formação para carreiras técnico‑científicas) ou Clássico (com foco em humanidades). Do ponto de vista do contexto escolar. A Sociologia será a área que fará do questionamento dos problemas sociais o seu objeto de trabalho. a Reforma Capanema recuou da obrigatoriedade da inclusão da Sociologia no ensino escolar. Em primeiro lugar. Sociologia da Cultura e da Educação. recusando‑se à análise fácil e descomprometida das primeiras impressões para buscar o conhecimento dos fatos construídos socialmente. Aliás. o trabalho que exerce e as relações sociais que constrói são frutos do tempo em que vive. quando da Reforma Capanema. A intermitência do ensino de Sociologia é uma característica marcante da história dessa disciplina em termos de sua inclusão no currículo escolar. trata‑se mais de uma promessa: a Sociologia se compromete ao desenvolvimento e à construção de um novo olhar. e sua inclusão nos currículos escolares permite aos alunos de Ensino Médio uma sólida formação humanística. Isto faz da Sociologia um conhecimento indispensável num mundo que diferencia e isola os homens e grupos entre si. Estudos sobre a América Latina e África Negra. Sociologia dos Processos Políticos e das Instituições Públicas. 47 . recusando‑se à análise fácil e descomprometida das primeiras impressões para buscar o conhecimento dos fatos construídos socialmente. a vida que leva. o que praticamente significou seu desaparecimento das salas de aula. Cada indivíduo precisa entender que suas atitudes. seus valores. permite ao ser humano transpor os limites de sua condição particular e perceber‑se como parte de uma totalidade mais ampla. A disciplina foi introduzida no currículo escolar em 1925 e permaneceu até 1942. Esse é o papel da imaginação sociológica: o de construir um novo olhar. Sociedade Capitalista e Classes Sociais no Brasil. Ainda. Vivemos. ao explicar relações entre acontecimentos complexos e diferenciados. A Sociologia será a área que fará do questionamento dos problemas sociais o seu objeto de trabalho.

adaptada) Um objeto de pesquisa só pode ser definido e construído em função de uma problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos da realidade colocados em relação entre si pela questão que lhes é formulada. Com o golpe de 1964. as questões que ele próprio se formula a respeito deles. Tal só ocorreu com o processo de redemocratização. 48 . O principal expoente desta luta foi Florestan Fernandes (1920‑1995). Para o regime militar. e o clima de confronto que se estabeleceu entre estudantes e militares a partir do golpe. relacionado com o ambiente político do país. relacionado à clareza em relação ao conjunto de conteúdos associado a ela. Unidade I Nos anos 1950. nos anos 1980. Sem dúvida. mas com a condição de ver neles. derrubado pelos militares. pode‑se e deve‑se coletar os mais irreais discursos. mas um aspecto do comportamento a ser explicado. por uma confusão positivista entre as questões que se colocam objetivamente aos sujeitos e as questões que eles formulam de forma consciente. a consolidação da reflexão sociológica no Brasil levou a intelectualidade a defender a expansão da sociologia para os estudantes secundários. o segundo. Assim. heróis e efemérides nacionais. não a explicação do comportamento. o analfabetismo era o maior problema educacional brasileiro e era incompreensível que a classe intelectual e acadêmica perdesse tempo com discussões políticas vazias e sem significado. a análise histórica nos mostra que a presença da Sociologia como disciplina do currículo no Ensino Médio tem oscilado de acordo com dois principais fatores: o primeiro. Fatores decisivos para esse banimento foram a herança de intensa radicalização política dos meios estudantis no governo de Goulart. os militares atribuíram à sociologia o papel de base subversiva e baniram definitivamente o seu ensino da escola secundária. Exercícios Questão 1. foram introduzidas disciplinas como Educação Moral e Cívica e OSPB. com a valorização dos símbolos. O cientista social que recusa a construção controlada e consciente de seu distanciamento ao real e de sua ação sobre o real pode não só impor aos sujeitos determinadas questões que não fazem parte da experiência deles e deixar de formular as questões suscitadas por tal experiência. (Enade 2008. mas ainda formular‑lhes. com toda a ingenuidade. É evidente que esse contexto que acabamos de relatar não era favorável ao ensino da Sociologia enquanto saber destinado à compreensão dos fenômenos sociais. Substituindo a Sociologia como componente curricular. que defendeu a necessidade de o homem comum ter acesso ao conhecimento sociológico. Elas estavam encarregadas da educação com vistas ao civismo.

III – A metodologia das ciências sociais busca negar qualquer contribuição do senso comum na observação e na análise dos fatos sociais. II – No paradigma emergente. J. as ciências sociais devem buscar a compensação do atraso teórico em relação às ciências naturais. já que a dicotomia sujeito/objeto vem sendo alvo de profunda crítica. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Trad. D) II e III. Justificativa: essa é a diferença entre o olhar do senso comum e o olhar do cientista. E) I e III. Resposta correta: alternativa A. atraso esse que foi sendo construído desde o século XVIII. Considerando os argumentos apresentados no texto com relação à construção do objeto de pesquisa nas ciências sociais. B) I e II. C) III. no paradigma emergente a distância entre as Ciências Sociais e as Ciências Naturais diminuiu. 4. J.. analise as afirmativas abaixo. P. ao passo que a observação do cientista social se diferenciará das demais pela busca da reflexão e da sistematização teórica. Guilherme João de Freitas Teixeira.METODOLOGIA DE ENSINO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Fonte: BOURDIEU. ed. 49 . 2004. Justificativa: ao contrário do que está afirmado. que busca examinar a realidade a partir de referenciais teóricos e da reflexão.. PASSERON. I – Todos estão sujeitos ao exercício de uma observação espontânea da realidade. II – Afirmativa incorreta. CHAMBOREDON. Está correto apenas o que se afirma em: A) I. Petrópolis: Vozes. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia.

em harmonia com os direitos do indivíduo. B) autoritário. E) conservador. na medida em que entendia a educação pública como privilégio. Resolução desta questão na plataforma. em seu contexto histórico. Fernando de Azevedo e Lourenço Filho. lançado. como uma função social e eminentemente pública. conclui‑se que. do direito de cada indivíduo à sua educação integral. o Manifesto era: A) libertário. na variedade de seus graus e manifestações. pois compreendia a educação como um direito social. sobre as bases da unificação do ensino. Justificativa: no paradigma emergente o senso comum alimenta o espírito científico. decorre logicamente para o Estado que o reconhece e o proclama. Mas. o dever de considerar a educação. que por sua vez transforma em senso comum aquilo que realiza. com a cooperação de todas as instituições sociais. (Enade 2008) O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova foi publicado em 1932 e assinado por 26 educadores brasileiros. D) inovador. com todas as suas consequências. 50 . pois pregava o fim do Estado. porque pregava a dualidade do sistema de ensino. entre eles Anísio Teixeira. Unidade I III – Afirmativa incorreta. gratuidade e obrigatoriedade. Nos trechos a seguir. já penetrou profundamente os espíritos. Com base nesses trechos. aparecem algumas de suas principais ideias. já que defendia a obrigatoriedade escolar. como condições essenciais à organização de um regime escolar. consagrados na legislação universal. Questão 2. que ele é chamado a realizar. C) elitista. A consciência desses princípios fundamentais da laicidade.