Lapidando a fala bruta

:
a textualização em História Oral*

Pressupostos metodológicos

ASSIM COMO A HISTÓRIA ORAL pode servir a vários objetivos, sendo pra-
ticada não apenas por historiadores de ofício, também a transcrição
pode ter as mais diversas finalidades e podemos afirmar, com Verena
Alberti, que “o tratamento das entrevistas gravadas em uma entre-
vista de história oral depende do que foi definido no projeto inicial
com relação ao destino do material produzido” (ALBERTI, 2008, p.
180). Para Joutard: “Não existem soluções milagrosas; tudo depende
em realidade do tipo de pesquisa. [...] As soluções podem ser múlti-
plas; o importante é precisar os princípios utilizados na transcrição,
os tipos de reajustes realizados, os cortes feitos com (por que não?)
exemplos” (JOUTARD, p. 334-335; grifo meu). Uma entrevista trans-
crita para a composição de um arquivo, por exemplo, deve ser trata-
da diferentemente daquela que é transcrita para a publicação em
livro; entrevistas de história de vida requerem transcrições diferen-
tes daquelas de entrevistas temáticas, assim como são distintas as
transcrições de projetos de pesquisa em linguística ou história.

* Este capítulo é uma atualização do texto publicado na primeira versão do
livro, de mesmo título. O presente texto foi apresentado no XVII
Congreso Internacional de Historia Oral em Buenos Aires, em 2012,
com o título Los retos de la transcripción en historia oral (GATTAZ,
2012).

suscitando os mais vivos embates pela defesa de uma ou outra forma. 2011. portanto.] A forma em que é publicado depende da natureza do documento. e com quem dialogarei frequentemente neste artigo. que publicou recentemente um artigo sobre as questões de língua na história oral (MCLEARY. 2011). 104) Colocada a necessidade da transcrição. deve-se reconhecer em seguida a distância existente entre a língua falada e a escrita.. edição. pode ser objeto de estudo da linguística. A questão é: que documento será esse? Ou melhor: que documentos serão esses? [. (MCLEARY. Deve-se portanto registrar que se trata de assunto ainda não “normalizado” pela academia – se é que em algum momento chegará a sê-lo – e o que se propõe aqui é ape- nas uma das possibilidades de se tratar o documento oral. a fala tem que assu- mir um caráter permanente. elaborado pelo pes- quisador a partir da colaboração com o depoente. mas simultaneamente seja de fácil e agradável leitura.] o falar espontâneo. interpretação e síntese. Isso implica que deve haver um processo de transcrição das entrevistas que assegure a formação de um corpo documental a ser trabalhado pelo historiador. Para ser objeto de reflexão histórica. que pode passar por vári- os processos de seleção. uma vertente da história oral que se concretiza somente quando chega ao texto final.André Gattaz 337 Braços da Resistência As opções são muitas. e não as palavras exatamente como foram ditas. tendo como principal guia as ideias emitidas pelo depoente. da sociologia ou da psicologia. p. tem que se transformar em do- cumento. superando a etapa da entrevista e da formação de arquivos.. a história oral exige um documento escrito: [. A caracte- rística principal da transcrição aqui proposta é voltar-se para a pro- dução de um texto que guarde o ritmo e o tom da comunicação oral. Ainda para McLeary: . Para o linguista Leland McLeary... compilação. Adota-se aqui. em si. mas não da histó- ria.

. o en- trevistado afirma: “foi isso mesmo que eu falei” – embora. enfrentam com dificuldades tal complexidade da fala. p.. que se conduz. 2011. (JOUTARD. efetiva- mente. a emoção.]”. o talento. assim como a história. A fala é sensível ao contexto. o riso.. pois tiveram origem com a análise de textos escritos e a isso se acostumaram por quase toda sua existência – de milênios no caso da história. o maior sucesso do pesquisador é quando. o ofício. ao ler a entrevista transcrita. as mesmas frases aparecem sumárias e secas. 97) Este autor nota (seguindo Poyatos e Clark) que a comunicação falada compõe-se de três elementos inseparáveis: palavras. [. Já o oralista Pilippe Joutard cita a respeito Maurice Pons.] existe o calor. uma vez que tal comunicação se dá como ação conjunta. voz e movimentos do corpo – ou dos corpos. entre emissor e receptor da mensagem. Ao se- rem lidas.. pautada apenas pelas palavras – e mesmo a inclusão de anotações descritivas como “risos” ou “choro” não é capaz de suprir as perdas decorrentes da transcri- ção. perde-se parcialmente na transcrição da entrevista.] há uma diferença pela qual esca- pam sutilmente a verdade e a vida [.. de maneira geral. voz e movimentos. Analisando uma entrevista que realizou com a escritora Simone Signoret. e reduz o contexto da fala ao texto da escrita... . Pons nota que em suas frases: [. Não se reconhece em si mesma. A escrita é matéria. exila os seres vivos. para quem “entre a fala e a escrita [.André Gattaz 338 Braços da Resistência A fala é ação. 1986. A escrita anula o espaço. (MCLEARY. composto por palavras. qua- se embrulhadas em suas vestes escritas. A escrita é fixa..] Signoret não con- segue escutar-se ao ler-se. suspende o tempo. A linguística. não tenha sido exatamente daquela forma que ele tenha falado. 333) É necessário então que criemos formas de fazer com que o narrador reconheça-se no texto da entrevista. Esse todo comunicativo. A fala é dinâmica. Nesse sentido.

André Gattaz 339 Braços da Resistência É preciso. Na prática. será apenas uma etapa na elaboração mais cuidadosa do texto final adaptado. 1996). 1994. e o mesmo procedimento pode ser denominado “transcrição livre”. os franceses Poirier. Correndo o risco de abusar do já muito citado texto de Walter Benjamin. ainda que o processo não seja explicitamente deta- lhado ou assumido. é muito semelhante ao que fazem muitos historiadores e demais pesquisadores de história oral. que a transcrição supere a passagem rigorosa das palavras da fita para o papel. Sabendo que a equivalência entre as duas formas comunicati- vas é impossível. conceito surgido na prática jornalista e que não dá conta do elaborado processo de “tradução” do texto oral ao escrito. 1995). Já em 1983. o desafio é fazer com que esse texto escrito consiga manter o máximo possível do ritmo narrativo próprio da comunica- ção oral. p. Clapier-Valadon. aqui denominada transcrição literal. há de se considerar que a narrativa é uma forma artesanal de comunicação e portanto “se imprime na narrativa a marca do narrador como a mão do oleiro na argila do vaso” (BENJAMIN. p. uma vez que seu objetivo é reproduzir a narrativa do depoen- te em um texto escrito. 2007) e mesmo “copidesque” (ALBERTI. . 205). Esta. Tal particularidade na elaboração artesanal da narrativa não pode ser perdida ao serem transcritas as palavras para o papel – o leitor deve reconhecer a “mão” do narrador na elaboração da trama narrativa (ao mesmo tempo em que reconhece que tal narrativa é proveniente de um encontro entre dois sujeitos). “transcriação” (MEIHY e HOLANDA. Denominei tal procedimento por “textualização” (GATTAZ. em trabalho infelizmente pouco conhecido entre nós (POIRIER et al. e Raybaut discriminavam os pas- sos desse processo. embo- ra nem sempre de maneira explícita.. o fato é que a grande maioria dos pesquisadores que se reme- tem a fontes orais acaba por realizar algum tipo de adaptação no texto transcrito. Apesar de ainda haver quem critique a adoção desse procedi- mento. são diversas as propostas conceituais. 181). 2008. Além disso. assim. “adaptação”. apesar de extremamente necessária. por exemplo.

sendo construída de maneira dialógica. porém. não há como haver “neutralidade” em uma entrevista de história oral. Além disso. apre- senta-se de leitura incompreensível. dando a impressão de pertencer a estratos infe- riores da sociedade do que efetivamente pertencem. confor- me nos alerta Alessandro Portelli: A história oral. mas todos deparam os mesmos problemas: a poética e a polí- tica da história oral se assentam no reconhecimento da consti- tuição dialógica da fonte e do texto. e de um modo geral conseguimos encontrar a equivalência entre o discurso e a origem social e escolaridade do sujeito emissor. porém reconhecida. perto do ridículo. que o maior valor da história oral reside não na obtenção dos fatos históricos do passado. transcrita erro a erro. tais apreciações não são feitas. A historiografia baseada . no interessante fato de que por meio da transcrição literal. Hoje muitos reconhecem. hoje.André Gattaz 340 Braços da Resistência No processo de textualização. mas na análise das experiências de vida e das representações desses fatos nas narrativas individuais e coletivas. por exemplo. está plenamente consciente dos proble- mas colocados na transposição de uma performance oral para um texto escrito. e a influên- cia do pesquisador não deve ser negada. De certa maneira pode-se considerar que a adoção da transcri- ção literal prende-se ao fetichismo do fato e ao mito do pesquisador neutro que alimentaram durante tanto tempo a pesquisa em ciênci- as sociais e humanas (TONKIN. ao contrário do que se pode imaginar. o intelectual parece gaguejar e desconhecer o tema. todo o cuidado será tomado para não descaracterizar a narrativa oral. 1990). Ao se ouvir as mesmas pessoas. Na transcrição literal. é uma forma que efetivamente descaracteriza a comunicação oral. Justamente para se obter isso que é necessária toda uma série de modificações e adaptações – uma vez que a transcrição literal. e a fala dos desprivilegiados e interioranos. Cada historiador tem suas próprias soluções. a pessoa de nível médio parece ter graves dificuldades de comunicação. todos os depoentes parecem falar pior do que efetivamente falam. Basta pensarmos.

apresen- tada por alguns historiadores como “fiel” ao depoimento. ima- ginativo dessas narrativas não é uma impureza da qual deve- mos nos livrar para irmos à busca dos fatos puros: é.André Gattaz 341 Braços da Resistência em fontes orais é uma forma de escrita. de mãos. em si. seu ritmo e principalmente a comunicação não-verbal nela inclu- sa: emoções do depoente como risos ou choro. é um texto. que não poupa a consciência do historiador de dilemas éticos pe- rante cada alteração. A textualização final deve conter em si a atmosfera da entrevis- ta. p. em que as pergun- tas do entrevistador desaparecerão do texto final – o que não é conve- niente na transcrição de entrevistas temáticas ou com questionário.. [. não pode abandonar a característica de originalmente falado. mas não pode esque- cer suas origens orais. O texto. O processo de textualização. 2011. ou mesmo do corpo. gestos faciais. mas não pode esquecer que nasceu como performance. (PORTELLI. um fato histórico. assim. revela-se um trabalho árduo. entonação e inflexão vocal. sua leitura deve ser fácil. o que não ocorre com a transcrição literal. ainda. baseado em minha experiência nas pesquisas de Mestrado e de Doutorado. Procedimentos metodológicos DESCREVO AGORA EM TERMOS PRÁTICOS o processo da textualização.] O caráter oral. deven- do ser identificado como tal pelo leitor. dialógico. 216) A textualização deve ser uma narrativa clara. . É importante destacar que é especialmente para a história de vida que melhor se presta o tipo de transcrição aqui proposto. o texto deve ser “limpo”. simplesmente de outro tipo. verdadeira lapidação da fala bru- ta. porém di- fícil de ser analisada como documento histórico. ou compreensível. adição ou corte. onde foram su- primidas as perguntas do entrevistador.. “enxuto” e “coerente” (o que não quer dizer que as ideias apresenta- das pelo entrevistado sejam coerentes).

regionais e etários que compuseram tal imigração no Brasil. 1996. e posteriormente da textualização e da análise. Embora na aparência o principal objetivo da transcrição literal seja criar um documento inicial que servirá de base para a condução das demais etapas da textualização. sem questionário ou perguntas diretamente indutivas. A transcrição literal deve ser completa e o mais rigo- rosa possível. Para a condução da entrevista. frases ou parágrafos e outras características da entrevista. ele nos oferece um discurso” (AUGRAS. entidade recreati- va. desaconselhando-se a contratação de “profissionais de transcrição”. há uma outra vantagem em se fazer a minuciosa transcrição das palavras faladas ao papel: trata-se de um exercício de escuta fundamental para o pesquisador. Nesse sentido é fundamen- tal que esta transcrição. confor- me nota McLeary em sua revisão dos “gêneros” de transcrição em história oral: . 32).André Gattaz 342 Braços da Resistência Em minha pesquisa para elaboração da dissertação de mestrado. 23). As entrevistas foram conduzidas segundo os critérios da História Oral de Vida. 1997. entrevistei onze imigrantes espanhóis. A primeira etapa da textualização é a transcrição literal. entrevistei trinta imigrantes libaneses. considero como premissas fundamentais que “o infor- mante não fornece dados. quando as palavras do de- poente ainda estão frescas na lembrança. e não uma informação factual precisa sobre os mesmos eventos (LOZANO. p. e tiveram a duração média de 90 minutos. e que “a história de vida traz evidência fundamental- mente qualitativa sobre a percepção do informante acerca de certo evento ou problema”. que deve ser realizada logo após a entrevista. assim como todo o processo de textualiza- ção. representantes dos diversos grupos religiosos. tendo como elemento comum a participação no Centro Democrático Espanhol. cultural e política que congregou em São Paulo os imigrantes que se opunham ao governo do general Franco na Espanha. p. registrando através de sinais gráficos a interrupção de palavras. sejam realizados pelo próprio pesquisador que realizou a entrevis- ta. não envolvidos emocional e fisicamente no processo intersubjetivo da entrevista. No dou- torado.

já que não podem ser diretamente transcritos as entonações. o que pode revelar aspectos da narra- ção que tenham passado despercebidos na hora da entrevista ou nas primeiras audições da fita. há muitas palavras e expressões utilizadas incorretamente.” (Idem. 2011. p. entretanto. nem por isso deixa de lhe infringir uma certa transformação. (MCLEARY. devido à própria dinâmica da fala. os gestos. e Raybaut: O exame do documento assim constituído revela-se. que a “transcrição bruta” é geralmente considerada inadequada para veicular uma história de vida: “É difícil lê-la com fluência e. Clapier-Valadon. pior. da dialetologia. sempre com atenção redobrada. as mímicas. perfeitamente ilegível. muito do que aparece na transcrição simplesmente não faz sentido sem a presença das vozes e da imagem. Os que se interessam pela análise dos fatos revelando da fonologia. . Para aqueles que defendem tal tipo de transcrição como a única “fiel” ao depoimento. Há sempre. pode-se contra-argumentar. da conversa informal – que é o que tenta- mos fazer das entrevistas. 1995. da linguística e da literatura oral ficarão sa- tisfeitos com ele.. enquanto outras são cortadas pelo entrevistando ou pela qualidade da gravação. (POIRIER et al. palavras chulas. p. os cambiantes. p. que A opção purista. (1995. Há estrangeirismos. p. 106). pois. É a eles que se dirige o exemplar princeps da transcrição. com Poirier et al. o ritmo. 54) Na transcrição literal há inúmeras frases repetidas. do ponto de vista de uma leitura cursiva. gírias.André Gattaz 343 Braços da Resistência A necessidade de se fazer uma transcrição o mais fiel possível obriga o entrevistador a escutar a gravação muitas vezes. Para Poirier. adaptação da oralidade à escrita. 106) O mesmo autor nota. que consiste em transcrever tal qual a narra- tiva na sua integralidade. 160). ou seja: termos que são bastante distintos quando falados ou escri- tos.

permitindo que o não literalmente dito seja dito. Um novo arquivo é salvo (“nome_entrevistado_2”) e realiza-se então uma nova textualização. pois conforme nos alertam Gerardo Necoechea e Mario Camarena: em geral “o . as perguntas são incorporadas à fala do depoente e cada parágrafo é editado para ficar mais compreensível – este trabalho também deve ser realizado junto com a escuta da fita. A partir deste arquivo salva-se uma cópia denomi- nada “nome_entrevistado_1”.André Gattaz 344 Braços da Resistência Uma vez concluída a transcrição literal. onde os agrupamentos temáticos vão se definindo melhor. 29-33). Processa-se então uma intensa atividade sobre o texto. Na primeira textualização realizam-se as edições ao nível dos parágrafos – que são redefinidos em relação à transcrição literal de maneira a representar as unidades semânticas. de acordo com uma lista pré-estabelecida representando os temas tratados nas entrevistas. ela- bora-se um índice. A leitura desta primeira textualiza- ção dá ares novos e desconhecidos à entrevista. os termos parasitas (ou “muletas linguísticas”). Ficam em suspenso as passagens mais obscuras. e adequado à prática da História Oral por José Carlos Sebe Bom Meihy (1991. com a alteração. incompletas ou incompreendidas. Nesta. O melhor termo para exprimir o processo que envolve essa “tra- dução” do oral para o escrito que se opera no processo de textualiza- ção é o de “transcriação”. proposto por Haroldo de Campos para a prática de traduções. que serão esclarecidas nos processos posteriores. portanto deve-se corrigir esta desigualdade. O principal objetivo nesse momento é excluir as repetições excessivas. Sobre este texto. A premissa fundamental de tal conceito é que os códigos oral e escrito têm valores diferentes. inclusão ou supressão de palavras e frases. em que se realizam as alterações da primeira textualização. Nessa etapa. onde “0” indica tratar-se da transcrição literal. p. classificando-se cada parágrafo com uma combi- nação de letras e números. e realizar certas correções gramaticais sobre erros típicos do discurso falado. é importante atentar para não descaracterizar a dinâmica temporal da entrevista. salva-se esta num ar- quivo que a identifique como a primeira de uma série – pessoalmente uso a notação “nome_entrevistado_0”.

em que progressivamente cada detalhe vai sendo pensado de maneira a melhor traduzir a narrativa oral para o texto. também não era intenção minha eliminá-las por completo. Aqueles que usam poucas palavras em espanhol. “tá”. Por outro lado. Adotei assim o critério de eliminar grande parte dessas palavras. etc. cheguei a rever 20 ou 30 vezes as entrevistas textuali- zadas. ou termos parasitas: palavras desprovidas de função semântica. “olhe”. deixando somente aquelas recorrentes ou especialmente significativas. e após a extensiva reescuta da fita e releitura da entrevista pude seguramente fazer as adaptações necessárias para se transmitir algo implícito no depoimento mas não explícito nas palavras gravadas. Na textualização proposta realizam-se algumas altera- ções na estrutura da narrativa sem que esta seja descaracterizada. aqueles que se utilizam de inúmeros espanholismos. Esta solução agradou os colaboradores. “sabes?”. tiveram número maior deles conservado no texto final. p. “digo”. não pretendia manter no texto fi- nal todas as palavras ditas em espanhol pelos depoentes. Não se deve despojar completamente a . Um problema surgido especialmente na textualização das en- trevistas de imigrantes espanhóis diz respeito à eliminação ou não dos espanholismos. O mesmo procedimento deve ser utilizado para as chamadas “muletas linguísticas”. 1996. (CAMARENA e NECOECHEA. Por um lado. que em certas entrevistas são bastante frequentes. A partir da segunda textualização realizam-se novas releituras do texto. pois são um indi- cador do grau de integração obtido pelos imigrantes. que reconheceram a importância da alteração do texto. respeitando-se a representação do tempo proposta pelo narrador. “então”. “bah”. ou como uma espécie de “ponto” ao final das mesmas – tais como “né”. não se concebendo um tempo cíclico ou multilinear. tiveram-nas praticamente su- primidas na textualização. Em meu caso particular. 152). “en- tendeu?”.André Gattaz 345 Braços da Resistência entrevistador maneja uma concepção linear do tempo”: a mudança perde sua importância como forma de análise e tudo se reduz a um princípio que avança sem desvios para um final. usadas geralmente para ganhar tempo de raciocí- nio antes de iniciar as frases.

p. o esperado é que o entrevistado identifique-se no tex- to. nomes de pessoas ou locais e me- lhoramentos na própria textualização. p. 175). Nas conferências que realizei. 1994.André Gattaz 346 Braços da Resistência textualização de tais vícios. carregada de vida e opinião. 1997). 260. rica em informações e análises. . p. Uma documentação. o oralista assume a função propriamente do historia- dor. isto é. quando o colaborador comenta a entrevista. a criação do documento. que no di- zer de Beatriz Cano Sánchez (1996. Outra questão importante diz respeito aos silêncios. como vimos. 58-62. com a pontuação ou com a forma gráfica de apresentação. Uma vez concluída a primeira parte de seu trabalho. Estando a textualização bem realizada. sobre o qual o historiador terá que enfocar sua atenção quando analise o texto”. são “mensagens escondi- das. THOMPSON. a textualização é indexada segundo uma lista temática. porém mantê-los integralmente torna a leitura aborrecida e não agrega nada para a compreensão da experi- ência de vida do colaborador. AMADO. mas também para dirimir pro- blemas de caráter ético e mesmo jurídico. a narrativa histórica com base nas fontes coletadas e a interpretação deste corpus documental – o que apresentei na pri- meira parte deste livro. foram feitas ape- nas pequenas correções de datas. não só como meio de checar se está fiel às suas ideias e informações. adicio- nando fatos ou vetando frases. Depois deste trabalho é imperioso submeter a textualização obtida à apreciação do entrevistado. ele tem todo o poder e o direito de fazer isso e deve-se respeitar sua palavra final (MEIHY e HOLANDA. Assim. estando finalmente disponível para a utilização como um documento histórico. Após a conferência e legitimação. Chamamos esta última etapa de conferência e legitimação. reconhecendo-se nos seus temas de preferência ou no próprio ritmo da narrativa. 2007. é necessário saber identificar o “tipo de silên- cio” e tratá-lo adequadamente – com as “indicações de palco”. fazendo as correções ou alterações que quiser. sendo que o resultado final desta foi considerado bom por todos os depoentes. de acordo com o que pensar ser con- veniente.