84

O seu percurso ar. Seu percurso poético imbri- ficas. com os quais Fonte: Calle. urbanas que faz pelas cidades que momen- oposição e complementaridade à idéia que taneamente habita e às relações interpessoais Sophie Calle faz de si mesma. sua vida. Desse jogo. participam emble. Tal como o fio do Erouv que transfor. paço da cidade. Double-jeux. alteridade. intertextuais e envolvem sempre uma ca-se aos passeios. Paris: Actes No imbricamento entre o trabalho artís. S. muitas vezes dado ao acaso. tende a vir a ser um especialista. confiança. perseguições e “derivas” alteridade que funciona como contorno. aquele que faz arte que se apresenta como arte Os trabalhos da artista contemporânea fran.1998: 67 tico e sua própria vida está o que indica. livros e fil- Sud. e aque- cesa Sophie Calle têm chamado a atenção le que faz arte que é como a vida.. sidera que a arte é separada da vida e tístico. livros e filmes. Assim. performances. enquanto que a arte confunde-se voluntariamente com o que é como a vida considera que a arte seu percurso individual (. espaço público. Arte contemporânea. mes.. tico de Calle realiza-se em sua vida diária. mos como “artevida”. o espaço privado e o es- pensar que suas produções são autobiográ. Livre IV (À suivre…). Allan Kaprow assim ma o lugar público em privado. 1980 diários e relatos fotográficos. Suas vivências são anotadas em Suite Vénitienne. um do métier por sua singularidade. alteridade e memória. com os quais realiza instalações.) O nó desta é conectada com a vida e com todo o teia é a cama. no rompimento ou tensão dos limites entre jeito. a artista organiza material de cunho documental. temporalidade vida e a arte. entre a cotidiano do autor. que constrói. Este texto se propõe a observar alguns C O LAB O RAÇ Õ E S • CLÁUDIA FRANÇA 85 . performances. de (a rua). Estratégias para não se perder na cidade Derivas urbanas de Sophie Calle Cláudia França Observam-se alguns trabalhos de Sophie Calle. de todo o resto. como diários e relatos fotográficos. além de generalista. as obras de Sophie Calle fazem esta passagem do íntimo A arte que se apresenta como arte con- pessoal ao público.1 resto. A poética Compreendemos esse termo como a rela- de Calle pode ser compreendida como um ção intrínseca entre a produção artística e o jogo entre o público e o privado. à luz de suas experiências intersubjetivas tramadas no espaço público urbano. para os define o termo: seguidores da Tora.2 evocar relações muito peculiares entre sub- jetividade. Em outros termos. tal como uma teia de aranha. e memórias pessoais. A partir de perambulação e de encontros fortuitos com objetos e pessoas. assim como a artista e outro su. Podemos o espaço da arte. o projeto poé- mas da privacidade (a cama) e da publicida. realiza instalações.

. Escutei do horário em que fosse “dormir”. para onde ir. O fato é que Paul Auster e Sophie Calle Algum tempo depois. em comecei então a interessar-me por que convida várias pessoas (conhecidos. tirava amigos. hotéis. apanhei o de Auster. vizinhos e desconhecidos por eles fotografias e anotava o que me tinha sugeridos) a dormir em sua cama.. a “presa”. para saber onde O escritor americano Paul Auster. decidi se- (dormindo ou não). ia para Veneza. ausências. Ao específicos e seqüenciais.. Também de não sabia o que fazer. Em Veneza investiguei junto da polícia. La Filature. em outro ras. nha investigação. onde almoçou. gui-la por um dia. mas pouco depois perdi-o de primeiro e 9 de abril de 1979. Após cer- entra também na intimidade dos hóspedes. mantendo o anonimato Senti-me desenraizada e sem amigos. Calle utiliza-se de ali- mentos de um mesmo grupo tonal). observadas e questio. um dia segui um do-se em intervalos regulares. embora sem seguir al- nais. pede a – própria e alheia – como matéria-pri. as camas desarrumadas e objetos pessoais. Calle pede também a um 86 .. as pessoas permitiram ser fotografadas a conversa. gentes e originais. daqueles sujeitos a seu exame. interesse é o trabalho Les Dormeurs. pessoas que encontrava na rua.) Em comum. em 16 de abril de 1981. até que chegou ao fim.. detalhes e rotinas ba. tudo o que ele fazia inte- livro Leviatã. a tão desvai- intersubjetivas tramadas no espaço público rada quanto tocante busca por vestígi- urbano.de seus trabalhos.4 cada dia da semana. A nos com uma aparente familiaridade. Calle organiza posterior- peito dessa parceria que faz com Paul Auster. mas sendo seguida. a artista 1979 e 1981. cria uma personagem – Maria ressava-me. Interessa-nos aqui apresentar dois trabalhos se como camareira de hotel em Veneza. Seduzem. Calle volta à fazendo minucioso relato escrito e fotográ- cidade. Sophie Calle emprega. entre os dias homem.. à luz de suas experiências peradas (. compo- Goldstein3 observa que: sição de fotografias e textos impressos so- bre sua perseguição a Henri B. Em tro- ca.. os. sua mãe que contrate um detetive para se- ma para a criação artística. com uma espécie de lupa. em Paris e Veneza. ínfimas memórias subje- tivas que. realizados entre entrar nos quartos para arrumá-los. similar. na maior parte das vezes. Nessa noi- oferecido um tipo de refeição.. Tramas intersubjetivas conseguem transformar em obras pun- Dentre suas manifestações mais conhecidas.. em função te encontrei-o num vernissage. a que ho- – inspirada em trabalhos de Calle. suceden- interessado nelas.. Para tal. mente o trabalho Suite Vénitienne. tarefa do detetive é apresentar um relatório para fazer com que nos percamos em detalhado (texto e fotografia) de suas ativi- itinerários labirínticos e situações ines. foi uma perseguição obses- momento. em L’Hôtel (1981). o quê. fico de seus hábitos. dades naquele dia. em seu o encontrar. a artista obedece a enunciados siva. A res. mas sente-se perdida. servindo-se da experiência pessoal guém. tais como a “dieta cromática” (a comboio e regressei a Paris. ca de sete anos fora de Paris.. gui-lo e foi assim que começou a mi- nadas por Calle. decide fazer trabalho aumentam (e deformam). A cada um foi vista num centro comercial. Com esse material.

ambos os mapas abriram bre- em um recinto. com a riqueza de detalhes e a subjetividade do texto de Calle – esse tecido é o que Cada qual criou para si um mapa identitário: constituirá. pentear-se para seduzi-lo. Para ele. sem mencionar as profissional. Meus ca. pelas grandes migrações huma- No relato de Calle. grandes problemas políti- carinho ao nomeá-lo entre aspas e declarar co-econômicos globais que nos põem em C O LAB O RAÇ Õ E S • CLÁUDIA FRANÇA 87 . o detetive relata a cena da constituído pela imaginação e pela memó- seguinte maneira: ria. ao pas- ambos. É para mo peculiar pelo entrelaçamento das ques- “ele” que eu me penteio. há Natalie acompanha-me até o salão de outra disposição do sujeito no relacionamen- beleza da rua Delambre. tões do indivíduo com o impacto da lo. gerando um dinamis- ta. além das fotografias de em seu relatório por seu prenome ou so- seu amigo. Dirijo-me então do risco”. Diferentemente. pluralidade de possibilidades sem conhecer sua figura. avanços científicos constituir um laço com o detetive – mesmo e tecnológicos. percebemos a nas (que diversificam o ambiente cultural e intencionalidade de suas ações.amigo que fotografe o detetive em ação. por um dia. permitindo-me fazer composições ima- ginárias sobre aquele lugar8 ou mesmo fa- Às 11:38h. Seu texto O trabalho final apresenta os registros fo. a ga- Por volta de 11:30h daquele dia. “ele”. vamos so que os lugares da cidade têm seu nome cruzando a concisão do relato do detetive próprio. atravessa o Jar. refere-se a ele com a nossa escolha.6 só na etimologia da palavra como “fiar jun- to”. bem como os textos do deteti. nos abraçamos. política e econômica.7 sente pela reorganização das relações tem- po/espaço. o que se cria é servada deixa o salão. Ela se afasta. Vejamos como ambos des.. rua Delambre e entra no salão de be- leza “Jacques Guerin”. uma relação de “confiança”. os locais por envolvimento que ele teve com a experiên- onde passa. foi enunciado. é pura superfície naquilo que perambulações por Paris. horário e ações. saio do salão.. be na “modernidade tardia”. prio objeto de investigação nunca é referido ve e os de Calle. Calle entra rota do salão. to com as instituições. seus hábitos. a garota que en- trega minha capa me tranqüiliza: “lá fora Segundo Giddens. pensando não dim de Luxembourg. Junto da por. mesmo que ela e o amigo não conheçam o ele a trata como objeto. a imagem de um o do detetive é indício do tipo de único sujeito. pois o tempo futuro se dá no pre- ao Jardim de Luxembourg. a observada separa-se de zendo meus próprios mapas em relação à sua amiga em frente ao número 21 da cidade que habito. Às 12:08h.5 sutis transformações em sua figura após dei- xar o salão. suas memórias afetivas nas cia. Para satisfazê. Lendo os textos produzidos por brenome. mas como “a observada”. o desejo de social de um dado lugar). portanto. crevem esse fato. globalização cultural. a ob. vivemos em uma “cultura eles vão se acalmar”. mas em uma das novas maneiras de Já Sophie Calle relata assim o fato: trocas sociais que Anthony Giddens perce- Às 11:30h. chas para que eu tecesse outro desenho. O pró- tográficos. o mapa de Calle contém pes- soas que a interceptam: Natalie. o cabelo “elétrico”. belos estão elétricos. resume-se a lugar. sua individualidade. deixamos “A Coupole”. referentes àquela experiência. Entre Calle e o detetive. Às 12:05h.

to pendular entre memória e esquecimen- te. ruídos e rativo do caminho da artista. da ciência e das novas adolescência. a auto-identidade seria então a organização do empreendimento da auto. Assim. liris- Giddens considera que. escola”. mas ativamos pela tradição. de lidades de novos laços formados por outros sujeitos e de lugares. revitalização e/ou A partir do exposto. que se estrutura mos a situações fortuitas. parentesco. trajeto que “cotidianamente repetiu durante os anos em que [ela] ia à Isso nos exige transformar a noção de inti. pro. Exige-nos também pensar nessas relações to. te desse processo de mistura de tempos. camaradagem ou mesmo com as instituições. em que convivem ruínas. Igualmente pen. laços sociais. a alta demanda de situações Acreditamos que a poética de Calle se ali- de risco desestabiliza esse lugar-comum da menta dessa trama intersubjetiva.9 um constante deslocamento de seus equi- pamentos urbanos. como “deriva”. “asa” com a “âncora”: é a flânerie/deriva/ biente externo mais ou menos estável. desejos. há o desejo de identificação com sem rosto” (faceless commitments). Montparnasse. ao de Calle. um lugar perdido – a Paris de sua infância e venientes da mídia. Quando podemos andar despreocupada- reflexividade do indivíduo. diversificação de diferença dos escritos de Calle e de seu de. A rua: terra de ninguém Para Giddens. o fenômeno “confiança” se singulariza se perder nos meandros de suas palavras. também a memória. detalhes.situações de dúvida e incompletude e pela to de sua “deriva”. podendo confiança. posto que salpicada de pen- samentos. Se an. a leveza das palavras da artista. Isto implica a pas. Descortinam-se. escombros. podemos perceber. em perambulação de Calle que conduz o dete- que a vida do indivíduo obedecia a certa tive. tra. cidade estar em constante redesenho. criando uma rítmica um mapa muito mais descritivo do que nar. é seu texto seco e objetivo que conduz previsibilidade nas relações com tradição. como “produção de diferenças”. gerando outras recombinações mas a própria construção textual de Calle de espaço e tempo. várias cidades que 88 . para a biografia reflexiva. Há dos pelo sujeito contemporâneo. trabalha no movimen- critérios fornecidos pelo momento presen. o percurso pelo cemitério de tecnologias. simbiótico da observada com o detetive. ao confiar no estranho. nos abri- sagem da biografia comum. em uma cultura do mo e expectativas que fariam qualquer um risco. passamos da confiança despertar essa ressonância do outro em seu nas pessoas conhecidas para a confiança processo de subjetivação e vice-versa. nas possibi. que este último se presta a fornecer tratégias de sinalização. Em em sistemas abstratos. própria.10 A figura de subjetividade resultan- midade. o relato descritivo do expansão dos “mecanismos de desencaixe” detetive funciona como uma “âncora” que – os quais desterritorializam os locais e os segura não tanto a perambulação da artista. mente no espaço público urbano. para nós. aos “compromissos seus relatos. da tes a confiança era depositada em um am. ao lado de monumentos “resis- samos que. devaneios. pela abandono de setores. cria-se um jogo vivencia hoje tais situações de risco. mais do que prova ou documen. em função do fato de a mada nos mecanismos de desencaixe vivi. Tudo isso porque ocorre redefinição da vida pessoal. porque dá respostas de como o sujeito Entre a rua e a página. pessoas que transitam por esses locais e es- tetive. mais do que um relato “oposto” tentes” ao tempo e obras em construção. entre história e narrativa.

Assim. as particularidades se ria. Ao retornar a Paris. preocupação descritiva. e as situações possíveis para um mesmo referente rememorações individuais encontram se misturem no imaginário. presentes na memó. ao destacar certos dessa maneira.12 afetivas e memorialistas que estabelecemos com os signos urbanos. S.1998: 141 89 . nossas vidas individuais e. Sophie Calle La Filature.11 Compara. Paris: Actes Sud. Ou deixamos que as fazem plenas de sentido. Double-jeux. Livre IV (À suivre…). às fantasias. nosso suporte e podem se abrir à imaginação repertório visual forma-se nas relações criadora. incorporamos ima. seus passeios não possuem a elementos da cidade. com sua ausência. Sophie Calle dispõe de gens de lugares e situações a passagens de tempo livre para “re-conhecer” a cidade. mos situações antigas. coabitam o corpo de uma só. mas narrativa. adotamos não uma velocidade das outras pessoas das multidões. Deliberadamente. 1981 Fonte: Calle.

Calle elucubra histórias Vénitienne.. índice de sua indi. Há. a errância era fundamental para de sua subjetividade. voltadas apenas para um percurso lógi. um sentido político de resgate de es- paços em desuso e do desmascaramento da Saber orientar-se numa cidade não sig. o termo caminhos. Calle constrói uma maneira pe- práticas de deriva do movimento situacionista culiar de viver o fluxo da cidade e conhecer 90 . Assim como os por meio da mistura de tempos no interior surrealistas. relativamente distinta da Veneza dos cartões-postais e dos Podemos pensar que seus trabalhos são atu. combinatória dessas experiências com o in- em mescla de caminho real com caminho terior e o exterior. com a organização de mapas mentais. há uma feliz coinci. desse uma desorientação psíquica.. Henri B. O que se nifica muito.15 uma direção para fora. sem quanto um desfiladeiro. o espaço urba. pois. para os encontros fortuitos. perder-se forma. Assim. imaginário. surrealista. que pudessem se sobre. vivencial e numa floresta. Calle percorre as calles de Paris e Veneza fletir as horas do dia tão nitidamente como flâneur. passando por alguns artistas oportunidade de realizar uma experiência surrealistas ou até mesmo pelo grupo singular de se “perder” em sua cidade natal: situacionista dos anos 50. sem a percepção de detalhes e sutis em ressignificar áreas periféricas da cidade modificações do entorno. para a flânerie e a deriva. fazen- compartilhável (a calle). “onde os trajetos estão amarrados caso. Não se perdem. nessas práticas como um todo. Nesse narrativa. subjetivos. relacionam-se à flânerie e à perambulação no. o nome das ruas deve soar para às histórias e não ao presente contínuo da aquele que se perde como o estalar descrição neutra e absoluta”. As servando-o. da multidão. em Suíte dessas experiências. é uma numa cidade. pessoas e lugares”. fora do fluxo. desvia calle significa rua. pelo detetive em La Filature – ou mesmo paço urbano desde a segunda metade do por estar nesta condição –. idéia de homogeneidade urbana. Sendo observada por outro ou mesmo ob- por aos mapas descritivos das cidades. uma vez que a observa em dência no fato de seu sobrenome já indicar perspectiva. sem o saber. Olha contemplativo. fun- o único e íntimo (a cama) e o público e cionou como cicerone para a artista. por- Walter Benjamin: tanto. Veneza era ditado pelo outro.14 do graveto seco ao ser pisado.13 paradeiro certo na cidade. o inconsciente regeria os “encontros de novo mapa interno. do-a conhecer outra cidade. o que lhe das. Calle tem a século 19. dava condição relativa de “cegueira” em seu vidualidade. requer instrução. do que passar por situações de mas também não se encontram. reside assim no intervalo entre fluxo pela cidade. ocorre a evocação de o fato de se perder na cidade. Seu nome completo. pacotes turísticos. seu destino pela cidade de que poderão ser autobiográficas e socializa.que percorrem. embora se preocupem muito mais co. possibilitadora modo. No entanto. lembrando estranhamento e sujeição ao acaso. e as vielas do centro da cidade devem re. como alguém se perde relação distinta com a cidade. [cujo] tem- Há um dado interessante a respeito do so. Mesmo sendo seguida alizações de experiências realizadas no es. a partir Mesmo seguindo Henri B. po livre permite que derive por seus brenome da artista: em espanhol. desatentas. ressurgido como fortuitos com os objetos.

isto é. ocorre ao acaso e que. anonimamente. a ter sido um acaso. mas negligenciando sua própria es- “retrato falado” de Pierre D. com Henri B. no poema A une passante. pensando como Argan. lugares e atividades preferidas do “homem André Breton registra: da agenda”. Henri B. O trabalho de 1983. desinteressadamente. sem que saibamos real- desconhecido. o acaso permite ra a “cidade de um dia” à cidade “de anos seu reencontro com aquele homem: é o ou séculos”. com uma teleobjetiva (e mesclando sua própria posição autoral Eu bebia perdido em minha crispação. Calle Breton: um encontro que. Calle perceba seu modus mento gerado na rua. costu.17 A de que irá acontecer ali. é possível Le Carnet d’adresses (ou L’Homme au que suas ações no espaço urbano se asse- carnet) é gerado a partir do encontro for. a distensão temporal. por correio. intersubjetivas desiguais. o ami- No seu olhar. ora o olhar é uma “lupa” para o furacão. parece não pois a enviou. a partir desse encontro objeto encontrado ou para um relaciona. entrevistando-os e solicitando um plicados. um dia e já na eternidade? laterais se fiam ao pano de fundo dos luga- res da cidade. O material resultante foi pu- blicado por um mês no jornal francês não se passarão mais de três dias sem Libération. com a do outro: Henri B. objetivamente. parece significar seu dono. dada na pa. Ou. cuidadosamente fotocopiou a agenda e de. irregulares e uni.16 que me vejam ir e vir.. seja para um passante”. semanalmente. como faz o detetive à cata de pistas. O acaso faz Calle topar com a agenda ou a poética de Calle. entre Esses trabalhos de Calle nos fazem pensar a tipografia do Matin e o Boulevard de na efemeridade das relações amorosas que Strasbourg.. sem dúvida. poderiam ser ex- agenda. alguma coisa. fortuito duplicado. sem nada decisivo a não encontro casual com uma mulher. a doçura que embala e o enxergar as singularidades dos sujeitos. que relações e cujo olhar me faz renascer de repente. acaso o disparador de sua perseguição. ao deter-se no rumo definido. de fato.. perdida na rua. no fim da tarde. o proprietário sência. Talvez. tal frenesi que mata. Só te verei. que se pre me vejo perambulando sem um opõe a essa efemeridade. Posteriormente. a rua de Paris. Calle mune-se de um olhar-câmera que a lavra. Em Nadja. Trata-se desses encontros mis- rou as pessoas cujos nomes constavam na teriosos que. Assim. a artista procu. novamente.tanto seus emblemas do passado quanto as Um relâmpago e após a noite! – Aérea formas dinâmicas do presente – é por meio beldade. de uma solidão “solidária”. nestes trabalhos. Não sei porque meus pas- podem acontecer a partir de um encontro sos me levam para lá. compensa a improbabilidade de seu todo tempo faz zoom: ora mira qualquer um reencontro. Calle pôde construir o “retrato” de um querendo ser signo. que quase sem- fortuito: evocamos aqui Baudelaire. melhem ao “acaso objetivo” de André tuito de uma agenda. o detetive. torna-se o espetáculo para o olhar de “uma Há igual potência de afeto. e objetos nos acenam. com algumas fotografias de mente de que signo se trata.18 troca de olhares entre os dois faz suspender o tempo. e algo surge como das. Fica-nos a impressão de que os fatos do objeto. pelo Boulevard Bonne Nouvelle. qual seja. operandi: buscar o acaso. No C O LAB O RAÇ Õ E S • CLÁUDIA FRANÇA 91 . céu que germina go fotógrafo). Conforme as informações obti. em uma ser essa obscura premissa.

entanto.pravda. no tipo dade. por outro. Por um lado.. talento como contador de histórias (. Sophie... Pompidou/Édition Xavier Barral. Eu decidi então prender-me a seus passos. MG. ibid. Tais dispositi- pela UFMG e professora-assistente no Curso de Artes vos – o material didático das aulas. ao mesmo tempo. gramatical na presença constante de verbos no passado simples e passado composto.Cf.. o faz funcionar”. aventura. Suprimimos o hífen entre arte e vida para enfatizar a diminuição da distância entre os dois termos. foi orientada pelo prof. 92 . Marco Antônio Alves nunca antes visitado pessoalmente.: 123.. Sophie. pedi a François M. cuja simples evocação basta para o prazer maio de 2007. a rua é o espaço ideal dessa jeux: à suivre. criando dentro de si uma haver passado por aquela experiência.html.. doutoranda em Artes pela Unicamp. Sua livros – acabam proporcionando o preenchimento de pesquisa de doutorado. vernissage em que reviu o homem que seguia. conteúdo. dan- tas: auto-representações contemporâneas em Artes Vi.com/ 2007/06/sophie-calle-na-bienal-de-veneza. aquela cultura.. Paris: Actes Sud. em termos de Cláudia França é artista plástica natural de Belo Hori. a compreensão das forças abstratas na segui-lo”. Alguns concur- 1 Guerra.. Formas e formulações mito e. Para tal. Portoarte. Porto Alegre. mas como cenários para as em Artes Visuais pela UFRGS. Ilana S. mo da rememoração de minhas aulas de francês. ibid. um fluxo contínuo. dr. Acessado em e estadas (. a questão dade a ser redescoberta. Por isso.) junto a recepção. Campinas: Papirus. 11. Calle. “A teia de Sophie”. meu imaginário sobre aquela cidade. ele e talhes capazes de desafiar nossas visões Calle puderam conversar: “Na mesma noite. Estar na rua – no espaço urbano 6 Id. ele me contou de uma viagem imediata a Veneza. n. tudo por acaso. 57-68. mestre só conhecidos por imagens. No seu dom de resgatar os pequenos de.” Calle. Paris: Centre Georges história com a análise de acasos apa. rentes e incidentes insignificantes. Recomendei-lhe discrição. Calle é atravessado por outros microcosmos 8 Ler os textos e ver suas fotos dá-me a sensação de já e pelo ilimitado. a referência a pontos da cidade de Paris não zonte. bacharel em Belas Artes construções textuais dos livros didáticos. nos relatos de Calle e do detetive.. em que cada des- de produção em que se enquadraria a proposta poética coberta feita por uma maneira de olhar ali. Paul Auster e Sophie Calle: a vida como te.html. Disponível em: sos de televisão devem parte de seu prestígio ao fato de www..19 5 Esse terceiro elemento trabalharia então com hipóteses para definir um sujeito específico (o detetive)..) 4 Disponível em http://saisdeprata-e-pixels. M’as tu vue.) cria a imagem. MG. Não-lugares: introdução a uma antropologia da Schwitters. Allan apud Tessler. 1998: 147. Doubles- todo. menta o reajuste de seu foco. 2003: 85. 1994: 87-88. que ficasse todos os dias comum e de sua realidade cotidiana como às 17 horas em frente ao Palais de la Découverte e fo- objeto de interesse da cultura como um tografasse qualquer um que parecesse estar me seguin- do. 1996: supermodernidade.). por conta mes- experiência sui generis de estar em uma ci. Sílvia.. dos espectadores que não são e nunca serão seus beneficiários (. quando a imagem de um não-lugar é ativa- da em nós: “a imaginação de cada um daqueles que nunca NOTAS foram ao Taiti ou a Marrakesh pode se dar no livre cur- so apenas ao ler ou ouvir esses nomes. Calle escreve: Isso permite que sua produção seja consi. v.) A palavra (... do-me uma sensação de familiaridade com um lugar suais.php/critica=56&PHPSESSID distribuírem muitos prêmios. principalmente em viagens =da917dce3753316a34ca4ec3f9066c32. Marc Augé comen- do Valle ta sobre a importância do texto no ato de construção de imagens.ru/culture/2002/ historiador Carlo Ginzburg. filmes assistidos e Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. de Sophie Calle. em uma formadas sobre a história (. “eu não sabia qual dia da semana teria lugar a persegui- derada “sintoma” da emergência da pessoa ção. Poeticamen- 3 Goldstein. com seu 11/04/371. Du- uma habilidade de (.) combinar uma rante a conversa. ele me foi apresentado. aberto – é experimentar no próprio corpo um jogo em que o microcosmo de Sophie 7 Id. intitulada Identidades incomple. produz o 2 Kaprow. entre essa distância e essa proximi. Disponível em http://port. Livre IV. Elida.net/criticas. mai.artecapital.7. a artista opera na mesma freqüência do ficção.blogspot. Augé. possíveis entre a arte e a vida: Joseph Beuys e Kurt Marc.

Charles. op. Infância em Berlim.. G. a que realmente vemos e Sophie_Calle. um produtor de 11 Conforme Argan. A une passante.) Por um lado. São Paulo: Martins Fontes.html. necessariamente. C.” Giddens. E há a cidade de um dia. Walter. In. A. uma duração de anos ou de nua.wikipedia.. construídos através de uma interação discursiva com. São Paulo: Ed. Caminhos da escultura arte como história da cidade. 16 Devido à publicação desse material. Pierre Baudry. No lado negro da história: uma en- 12 Freire. 2003.com/articles/2005-07-20-ginzburg. de sensa. “Os indivíduos são 13 Benjamin. Martin Claret. 1997: 57. modelo funcionalista de papéis sociais (... a cidade que dá a fia. _________.. 2. pelas infinitas notícias que flores do mal. Cf. As automóveis. São Paulo: Martins Fontes. sem seu consentimento. 19 Gundersen. 1992: 223.org/wiki/ ções. Obras escolhidas v. proprietário da agenda. Modernidade e identidade. C O LAB O RAÇ Õ E S • CLÁUDIA FRANÇA 93 .9 Segundo Anthony Giddens. político. 14 Freire. e solicita ao mesmo jornal que publique a fotogra- séculos.. ções. ibid. Trygve. São Paulo: Annablume/ www.eurozine. 1998: 133. trevista com Carlo Ginzburg.: 63.: 69-70. Além dos mapas: monumentos no imagi. são transmitidas através da publicidade e dos outros canais de comunicação”. cit. Cf. Calle sofreu posteriormente uma perseguição judicial iniciada pelo 10 Calle. 2005: 107. Fapesp. “Há uma cidade de grandes estruturas documentários. http://en. de impulsos mentais. por outro. Rio de Janeiro: Zahar. Baudry consegue uma fotografia de Calle que tem. 2002: 28. Cristina. está se desenvolvendo um vazio político das institui. moderna. em reparação ao erro de invasão de sua privacidade imediata impressão de ser feita de imagens. plexa que é muito mais aberta do que supunha o 1987: 73. Rosalind. In ________.) mas pelos 17 Baudelaire. op. São Paulo: Ed. Brasiliense. pelas pessoas. que não é dada pelas arquiteturas imóveis (.pt.: 113. Disponível em http:// nário urbano contemporâneo. cit. Argan. História da 18 Breton. um renascimento não-institucional do 15 Id. apud Krauss.