O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012

b. hõron + pa → hõronpa
“lavar NMLZ.PA “bacia de lavar” (Storto, manuscrito)

c. ambo + pa → ambopa
O nominalizador {-pa} em Karitiana: o caso das sentenças de cópula1 subir NMLZ.PA ‘escada’

Ivan Rocha (rocha.i@usp.br) d. so o pa → so o pa
Universidade de São Paulo amarrar NMLZ.PA ‘corda’, ‘envira’
Apoio:
(2) Nominalização de verbos na cópula
Karin Camolese Vivanco (karincv@usp.br)
Universidade de São Paulo a. Õwã naakat andyjpat
Apoio: õwã ∅-na-aka-t andyj<i>-pa-t
criança 3-DECL-COP-NFUT sorrir<v.e>-N.PA-CONC.ABS
“A criança é sorridente”
Percurso da apresentação
b. Byk naakat kerepepat
1. O morfema {-pa} em Karitiana byk ∅-na-aka-t kerep<e>-pa-t
2. Objetivo remédio 3-DECL-COP-NFUT crescer-<v.e>-NMLZ.PA-CONC.ABS
3. Aspectos da Gramática Karitiana “by (remédio) é para crescimento”
4. Metodologia
5. Apresentação dos dados
6. Futuros testes (3) Nominalização em orações relativas locativas

a. Ypyramyntyn cama taso katapaty.
1. O morfema {-pa} em Karitiana Y-pyr-amynt-yn [[cama taso kat<a>]-pa]-ty
1-ASSERT-comprar-NFUT [[cama homem dormir<v.e.>]-NMLZ.PA]-OBL
Segundo Storto (manuscrito) o morfema {-pa} da língua Karitiana (tronco Tupi, “Eu comprei a cama onde o homem dormiu.”
família Arikém) confere um sentido instrumental ou locativo ao predicado a que se
liga:
Como se pode notar, a nominalização através do {-pa} é bastante produtiva, sendo
(1) Nominalização de verbos com {-pa} possível em diversos ambientes sintáticos. Neste trabalho, discutiremos apenas os
casos de nominalização nas sentenças de cópula (exemplo (2)), pois essas estruturas
a. bik + <i> + pa → bikipa já possuem uma análise proposta para os casos de nominalização com o morfema de
2
sentar <EPEN> NMLZ.PA “banco” (Storto, manuscrito) particípio {i-} que pretendemos estender para os casos de nominalização com o {-
pa}.
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Agradecemos aos colaboradores João Karitiana e Milena Karitiana, às pesquisadoras Luciana
Storto e Jéssica Costa e aos integrantes do Grupo de Morfologia Distribuída da USP pelas ASSERT- modo assertivo; OBL- oblíquo; COP- cópula; NFUT- marca de tempo não-futuro; CFO-
valiosas contribuições. construção de foco do objeto; CONC.ABS- concordância absolutiva de cópula; <v.e>- vogal
2 Glosas: NMLZ- prefixo nominalizador; NMLZ.PA- sufixo nominalizador {–pa}; 1-, 2-, 3- epentética; ANAF- anáfora; POSS- possessivo; PASV- morfema de passiva; CAUS- morfema
concordância de primeira, segunda e terceira pessoa respectivamente; DECL- modo declarativo; causativizador.

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citações e discurso direto (Storto. quando coocorrem. A partir dessa etapa. Aspectos da gramática Karitiana nominalizador. Taso ∅-na-aka-t [MO i-kat-t] homem 3-DECL-COP-NFUT [MO NMLZ-domir-CONC. imperativas. Funções do i- 2. interrogativas. o morfema {i-} marca a concordância de 3ª pessoa. João ytiahoj yno iii. o morfema {i-} é um 2. consideramos o {i-} como um possessivo. confirmando Storto (2010). Como ainda não temos “Eu ri do João” (Storto. (b) Testes com a 3ª pessoa anafórica {ta-}. (7) Taso naakat ikat. Construções de cópula Nesta seção. (5) Concordância de 1ª pessoa {y-} ii. mas sim uma marca de terceira pessoa.1. por isso. João y-ti-ahoj-∅ yn-o João 1-CFO-rir-NFUT eu-enfático Até o momento.] “O homem dormiu. Objetivo ‘Ep itipasa n t onso ‘ep i-ti-pasagngã-t onso Nosso objetivo aqui será descrever a nominalização com o morfema {-pa} em árvore 3-CFO-contar-NFUT mulher relação ao morfema nominalizador {i-} em construções de cópula. discutir se essa 3ª pessoa é uma concordância ou um possessivo. 2010) evidências fortes e definitivas para sustentar esta análise. 1999). apresentaremos os testes que pretendemos aplicar na próxima fase da pesquisa: Quando prefixados a um nome.construção não-declarativa 2.” 3 Outros tipos de sentenças não-declarativas são as exclamativas. por exemplo). 2 . 2. mostrar que. O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012 (4) {i-} como concordância de 3ª pessoa . Pyrampasadnan taso isoojoty neste trabalho almejamos apenas descrever o fenômeno. o morfema {i-} é um morfema possessivo de 3ª pessoa: (a) Testes com outros possessivos. ‘Fizeram o homemi amar a mulher delej’ Em miniorações complemento da cópula (doravante MO). propomos-nos a: O exemplo (5) exibe o morfema de concordância de 1ª pessoa {y-}.e>-OBL estrutura argumental. será ∅-pyr-a-m-pasadn-<a>-n taso i-sooj-<o>-ty possível tecer considerações mais explicativas sobre estas construções (discutindo 3-ASSERT-PASV-CAUS-amar-<v. mostrar que os nominalizadores {i-} e {-pa} não coocorrem. confirmando o estatuto do {i-} no exemplo (4): i. “A mulher contou (a(s)) árvore(s) (Storto. Segundo Storto (2010). (6) {i-} como possessivo de 3ª pessoa É preciso enfatizar que a presente pesquisa encontra-se em fase inicial e.2.ABS. o {i-} não é o nominalizador.e>-NFUT homem 3POSS-esposa-<v. negativas. vamos mostrar que o morfema {i-} é homófono entre uma marcação de 3ª pessoa (concordância ou possessivo) e o nominalizador (particípio). 2010) Especificamente. a cópula aka seleciona uma MO nominalizada como seu complemento: Em sentenças não-declarativas3 como (4).

” (12) MO com nome nominalizado por i- Nestas construções. Nessa etapa. (11) Verbo transitivo como núcleo da MO *Byyty ∅-na-aka-t i.” *Taso ∅-na-aka-t i-´y-t (ta-ti´y) homem 3-DECL-COP-NFUT NMLZ-comer-CONC. A ou V intransitivo (cf. foram aplicados testes linguísticos de Julgamento de Gramaticalidade.ABS. como pode ser visto abaixo: (i) Adjetivo como núcleo da MO 5 Há alguns contra-exemplos de nominalizações a partir de nomes. porém.ABS 4 O núcleo também pode ser um adjetivo. foi realizado em São Paulo em junho de 2012. *Taso naa at i’yt (tati’y) “Mam o é fruta. como prego → pregação. Metodologia sintaticamente intransitivos.inda’o-t mamão 3-DECL-COP-NFUT NMLZ-fruta-CONC. 6 Agradecemos à colega Janayna Carvalho por essa observação. que (9) Nome como núcleo da MO deveria julgá-la como gramatical ou agramatical. Apresentação dos dados (10) Verbo intransitivo como núcleo da MO 4. O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012 A MO selecionada por aka pode ser nucleada por (N)omes ou (V)erbos 3. ele deveria oferecer uma possível tradução em Português. não é possível que X seja um verbo transitivo: *Byyty naa at i inda’ot.PA-CONC. Em seguida. apenas nos limitamos a coletá-las. pois não é possível nominalizar algo que já é um nome 5. não pedimos mais Kinda osiito naa aj inda’ot. Storto. 3ANAF-comida (13) MO com nome nominalizado por –pa “A criança comeu (a comida dele). 3 . no qual os dados presentes neste trabalho foram checados. 2010) Nesta ocasião.” *Byyty naa at inda’opat.abs indígenas da língua Kartiana. Kinda osiito ∅-na-aka-j [kinda´o]-t flor 3-DECL-COP-FUT fruta-CONC. a nominalização cria um evento a partir de uma entidade.ABS.1. 6: “O homem dormiu. “A flor será uma fruta. nos quais uma sentença pronta era oferecida ao falante.ABS. Coocorrência de {i-} e {-pa} Taso naakat ikat. Nominalizar homem 3-decl-cop-nfut nmlz-bom-conc. *Byyty ∅-na-aka-t inda’o-pa-t mamão 3-DECL-COP-NFUT fruta-NMLZ. Tal fato já era homem 3-DECL-COP-NFUT [MO NMLZ-domir-CONC.abs uma entidade para criar outra entidade – como seriam os casos de (12) e (13) .ABS.não parece ser ‘O homem é bom/bonito’ possível.” 4. Taso ∅-na-aka-t i-se´a-t Nestes casos. é preciso observar que ambos nominalizadores (tanto o {i-} quanto o Taso ∅-na-aka-t [MO i-kat-t] {-pa}) são agramaticais quando o núcleo da cópula é um nome.] esperado. Primeiramente. com a visita de dois colaboradores (8) NPi naakat [ NMlZ [MO ti X]]-conc. esclarecimentos dos falantes além das traduções.4 O trabalho de campo. onde X = N.

9 9 Traduç o oferecida pelo informante: “Homem é pra ele/ela dormir” 7 Traduç o oferecida pelo informante: “Homem é pra dormir”. NPi naakat [MO ti 3-X-PA]-conc.PA-CONC. O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012 (14) Coocorrência de i. homem 3-DECL-COP-NFUT 3-dormir-NMLZ. porém. onde X = A ou V LIT?: Homem é dormidor/ homem é instrumento de dormir. Taso ∅-na-aka-t i-tarak<a>-pa-t. é possível verificar que o verbo dentro da MO pode ser nominalizado tanto por {i-} quanto por {-pa}: A tradução destes dados. Taso naakat ikatapat. Taso naakat itarakapat. *Byyty naa at i inda’opat. algumas evidências de que {i-} é um possessivo. Parece haver.abs homem 3-DECL-COP-NFUT dormir-NMLZ. 8 Traduç o oferecida pelo informante: “Homem é pra andar”. Taso ∅-na-aka-t tarak<a>-pa-t. Com nomes.ABS LIT?: Homem é dormidor dele/ homem é instrumento de dormir dele.e –pa na MO b. mas sim como uma 3ª pessoa. ‘Ep naa at ijepyryt. na qual o morfema {i-} seria uma marca de 3ª pessoa: (16) MO com verbo intransitivo nominalizado por {-pa} (19) Estrutura para coocorrência de {i-} e {-pa} Taso naakat katapat. Taso naakat tarakapat. Estatuto do {i-}: concordância ou possessivo? Taso ∅-na-aka-t [MO i-kat-t] homem 3-DECL-COP-NFUT [MO NMLZ-domir-CONC. contudo.” nominalizações com o {-pa} em (18a-b).7 (17) MO com verbo intransitivo nominalizado por {-pa} Em muitos dados.ABS. (18) Coocorrência de {i-} e {-pa} ‘Ep ∅-na-aka-t i-jepyry-t madeira 3-DECL-COP-NFUT 3-borduna-CONC.PA-CONC.ABS.2. 4 . 10 Traduç o oferecida pelo informante: “Homem é pra ele andar”. LIT?: Homem é andador dele/ homem é instrumento de andar dele.ABS mamão 3-DECL-COP-NFUT NMLZ-fruta-NMLZ.PA-CONC. seria esperado que os dois (20) {i-} como possessivo em MOs com nome morfemas não coocorressem.ABS. a. Não é o que ocorre em nossos dados. 4.>-NMLZ. (15) MO com verbo intransitivo nominalizado por {i-} Taso naakat ikat.e.] Propomos a estrutura em (19) (semelhante às MOs com {i-} – cf. Taso ∅-na-aka-t kat<a>-pa-t.inda’o-pa-t homem 3-DECL-COP-NFUT 3-andar-NMLZ.ABS. contudo: a.” Taso ∅-na-aka-t i-kat<a>-pa-t. nos indica que {i-} não está sendo interpretado como o nominalizador. a leitura do {i-} é de posse: À semelhança do que ocorre nos dados de (12) a (14).PA-CONC.10 Nos dados a seguir. Uma possível evidência é a similaridade na distribuição de nomes e nominalizações LIT?: Homem é andador/ homem é instrumento de andar. “A madeira é a borduna dele.8 com {pa-}. não está claro pela tradução oferecida pelo informante se o {i-} é uma concordância de 3ª pessoa ou um possessivo de 3ª pessoa. *Byyty ∅-na-aka-t i. homem 3-DECL-COP-NFUT andar<v.ABS. (8)) para as “O homem dormiu.PA-CONC.

confirmam que o referente (21) Teste de comutação entre os prefixos {i-} e {y-} {i-} não pode estar orientado para o sujeito da sentença enquanto a anáfora {ta-} cliticizada ao verbo deve estar ligada com o sujeito da sentença. Taso ∅-na-aka-t i-tarak<a>-pa-t. mas sim uma marca de Um teste possível é verificar se o {i-} é comutável com outros prefixos possessivos possessivo de 3ª pessoa.” *Taso naokyt iota. homem 3-DECL-COP-NFUT 3-andar-NMLZ. 2007) sujeito da sentença principal. 2007) LIT: Homem é meu andador/ Homem é meu instrumento de andar. evidências mais contundentes a respeito do estatuto do {i-} Taso ∅-na-aka-t ta-tarak<a>-pa-t. a. (22) Anáfora {ta-} como possessivo orientada para o sujeito homem ∅-na-oky-t i-ota homem 3-DECL-matar-NFUT 3-amigo Taso na-oky-t ta-ota “(O(s) homem(s) machucou(aram) o(s) ami o(s) dele(s) – de outra pessoa” homem 3-DECL-matar-NFUT 3ANAF-amigo (Storto. A 3ª pessoa anafórica {ta-} *Taso na-oky-t ta-ota Segundo Storto (2007). Como clítico nominal. Taso naokyt iota.1. respectivamente. (25) A anáfora {ta-} é agramatical quando não é orientada para o sujeito da sentença 4. é de se esperar que seus afixos tenham a mesma leitura em ambos os (23) Anáfora {ta-} como possessivo com o {-pa} casos. Taso naakat ytarakapat. Vejam os contrastes a. OBS: não verificado É preciso. Taso naakat itarakapat. neste homem 3-DECL-COP-NFUT 3ANAF-andar-NMLZ. {ta-} funciona como possuidor do nome quando esse nome é correferencial a um sintagma nominal que o antecede. Testes com outros possessivos Se a anáfora {ta-} for possível em substituição ao {i-}.2.PA-CONC.ABS momento. Novos testes estão sendo planejados para elucidar esta questão. na língua. o dado em (23) reforçaria nossa análise de que o {i-} não é um nominalizador. madeira 3-DECL-COP-NFUT 3-amigo homem 3-DECL-COP-NFUT 1-andar-NMLZ. apresentaremos três deles: LIT: ‘Homem é o andador dele mesmo/ Homem é o instrumento dele mesmo andar. b. (OBS: não verificado) homem ∅-na-oky-t i-ota Taso ∅-na-aka-t y-tarak<a>-pa-t. no entanto. como o de 1ª pessoa {y-}: Os dados agramaticais em (24) e (25).ABS ‘[O homem] i machucou seu(s) *i ami o(s)’ (Storto.PA-CONC. 5 . 2007) Como elementos nominalizados por {-pa} têm a mesma distribuição de nomes não- derivados. ela é realizada homem 3-DECL-matar-NFUT 3ANAF-amigo como argumento de um verbo subordinado (sujeito ou objeto) e é correferencial ao ‘[O homem] i machucou seu(s) *j ami o(s)’ (Storto. Taso naakat tatarakapat.PA-CONC. anáfora) ‘[O homem] i machucou seu(s)i ami o(s)’ (o homem machucou seu(s) próprio(s) amigo(s)) (Storto. quando a anáfora {ta-} é cliticizada ao verbo.2.’ 4. nestes casos.ABS (24) {i-} é agramatical quando orientada para o sujeito da sentença “Homem é pra ele andar. entre (18b) e (24) e entre (22) e (25). O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012 b.2.

Além disso. Dissertação de doutorado.em Karitiana. 6 . Conclusão e próximos passos Neste trabalho. A. STORTO. complemento de cópula. Na etapa seguinte desta pesquisa. In: University of Massachusetts Occasional Papers 41. mostramos que: (i) os nominalizadores {i-} e {-pa} de fato não coocorrem. (ii) testar a nominalização através do {-pa} com verbos de diversas valências e comparar sua estrutura argumental com a do nominal derivado. L.em Karitana: Um argumento de terceira pessoa não especificado para número. (manuscrito). ABRALIN. ele provavelmente marca um possessivo de 3ª pessoa. L. nos propomos a: (i) aplicar os testes para confirmar o estatuto de {i-}. Copular Constructions in Karitiana: a case against case movement. mostrando que no núcleo da MO. 205-226. N ou um sintagma nominalizado (V+PA/ A+PA). oferecemos uma estrutura preliminar (em (19)) para os casos de coocorrência. Assim. (2010). O nominalizador pa. (ii) quando o {i-} é prefixado em um sintagma nominalizado pelo {-pa}. além de assumir a análise de Storto (2010) para as construções de cópula. O nominalizador {-pa} em Karitiana 24 de outubro de 2012 4. podemos contribuir com esta análise. L. pode ter um V (sintaticamente intransitivo). 5. MIT. STORTO. L. Amherst: GLSA/The University of Massachusetts. Referências Bibliográficas STORTO. Belo Horizonte. Anáfora ta. (2007). STORTO.3. (1999) Aspects of a Karitiana Grammar.