O britânico Lawrence Stone nos apresenta no referido capítulo de sua obra uma reflexão, ou melhor, um grande debate entre

os historiadores
de seu período baseado em diferentes correntes e ideias historiográficas. Este confronto também embarca na questão dos métodos e formas
de como estes pesquisadores discutiram as pressões sociais na Revolução Inglesa. O autor define que esta historiografia passou por quatro
momentos.
O primeiro é a narrativa política sendo S. R. Gardiner sua principal referência. Um pouco antes da Segunda Guerra sua visão whig passou a
ser contestada por marxistas que acreditavam num conflito entre a burguesia ascendente em as classes feudais em decadência. Nos pós
guerra a historiografia tem uma espécie de renovação nesta temática. As monografias e demais trabalhos com maior qualidade começam a
florescer no meio acadêmico. Isto possibilitou a chegada à “verdade – verdade parcial, imperfeita e provisória” (pp.72).
O objetivo central deste capítulo é discutir as origens sociais da Revolução Inglesa do século XVII. Este debate tem início em 1940 com R. H.
Tawney que explica que a mudança na posse da propriedade provocou a ascensão de uma classe nova neste cenário gentry e em
contrapartida culminou no declínio dos senhorios rurais. Sustentou tais argumentos em séries estatísticas. Em 1948, Stone publica um artigo1
em que atribui aos gastos excessivos e não a uma gestão ineficiente da terra, as causas do declínio aristocrático, afirmando que
aproximadamente dois terços dos nobres da corte elisabetana estavam à beira da falência. Esta realidade só foi aliviada com as medidas de
Jaime.
A partir deste artigo, a figura de Trevor-Roper aparece como um contra ponto a tese de Tawney e as ideias de Stone. Em primeiro lugar criticou
a idéia de Stone e principalmente suas fontes estatísticas, fazendo o autor buscar outras fontes e escrever um novo artigo. Contudo, mantendo
sua visão geral. Em segundo lugar, Trevor criticou fortemente a obra de Tawney propondo que na verdade a classe ascendente respondia a
yeomanry que diferente da gentry (Tawney) angariava lucros a partir de seu próprio cultivo da terra ligado a um forte trabalho de contenção de
gastos somado a uma poupança sistemática.
Com as críticas feitas por Trevor, Tawney e Stone acabaram por ficar em descrédito durante algum tempo no meio acadêmico. Os principais
erros segundo os críticos eram as fontes estatísticas que utilizavam. Contudo, foi à vez de Trevor receber duras críticas em 1958-9. C. Hill e P.
Zagorin apresentaram uma série de falhas na argumentação de Trevor. Mas, foi J. H. Hexter que reduziu a teoria de Trevor a extremamente
economicista, enquanto criticava a Tawney como voltada exclusivamente a teoria marxista da ascensão da burguesia. Hexter entre outras
coisas atribuía as causas imediatas do colapso político dos anos 1640 aos fatores constitucionais e religiosos.
Baseado em todo este debate e embate historiográfico é visível que havia muitas hipóteses em discussão, o que faltava segundo Stone era
uma documentação mais profunda. Isso passa a mudar no ano de 1945 porque diversos documentos de caráter público e privado passaram a
ser disponibilizados para consulta2. Com a posse destes novos documentos, Stone publicou em 1965 um livro sobre a aristocracia em que
reafirmava pontos de sua antiga tese e aprofundou afirmando que a nobreza perdera poderio militar, possessões territoriais e prestigio. Afirmou
ainda que a queda de poder ocorreu pela organização tanto por parte do rei quanto da Igreja numa política constitucional que não tinha
popularidade. Tais afirmações não ficaram sem criticas.
Apesar disto, algo extremamente palpável que apareceu com esta obra foi que não era mais possível considerar a gentry comum em declínio
como o ponto fundamental da Revolução. Passou-se a dar mais ênfase ao conflito político entre as elites do poder local e o governo central e
igualmente o conflito religioso entre puritanos e anglicanos. “O que começou foi a emergir a base social destas tensões, isto é, a transferência
do poder, da propriedade e do prestígio para grupos da elite fundiária local, sempre mais organizados, tanto no plano nacional quanto no local
para resistir às imposições políticas, fiscais e religiosas da Coroa” (pp.77).
A Revolução Inglesa permaneceu como um campo rico em proposições e discussões historiográficas. Segundo Stone, o historiador tem de se
manter atento a importância das forças sociais, principalmente nos temas revolucionários. Ele faz um balanço sobre os problemas que antes se
tinha para trabalhar com este tipo de história. Organizavam-se os trabalhos utilizando unicamente os fatos individuais (principalmente com
diários) e quase não havia uso de documentação coletiva. Nesse sentido, Tawney tentou ir contra o estabelecido utilizando métodos das
ciências sociais para fazer um levantamento mais geral e menos particular.
Ao analisar o método de Tawney, Stone passa a refletir sobre os métodos dos historiadores ao construir um saber social. Afirma que é
necessário formular novas questões e utilizar as categorias corretas a fim de ser o historiador contemplado com o auxílio das ciências
próximas. Chega à conclusão que é necessário o historiador recorrer a conceitos abstratos e a substantivos coletivos. Isto porque um individuo
pode participar de mais de um grupo. Em contrapartida ao parágrafo anterior, Stone busca que se utilize uma noção de consciência coletiva e
não mais de um padrão individual.
Critica ainda a falta de uma periodização mais rigorosa da Revolução Inglesa do que até então existente. Observa que o pensamento e a
organização do movimento mudam sendo necessário ter o entendimento de qual momento do processo se fala. Aponta outra dificuldade
metodológica ao caracterizar os grupos (gentry, burguês) como sendo válidas para fins analíticos. Mas sendo complicado caracterizá-los de
forma geral e única.
No fim deste Capítulo, Stone aborda ainda a influência da ideologia de cada autor para desenvolver o tema. Não acreditando numa história
imparcial, acredita que diferentes acepções resultarão em diferentes discursos históricos. Segundo ele é possível tratar a Revolução Inglesa
em suas precondições que respondem aos eventos de longa duração e em seus eventos detonadores que são os de curta duração. Acredita
ainda que é necessário qualificar o trabalho mais em função da linha ideológica, da força militar e dos hábitos tradicionais de obediência que

unicamente o valor econômico do processo histórico. ou seja. abarcar todos os elementos fazendo-os interagir e como se ajustam uns aos outros. . Ao terminar este capítulo vejo que Stone partilha do pensamento de seu contemporâneo e amigo Eric Hobsbawm que defende o historiador social como aquele que deve buscar ser sintético.