UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO, CULTURA E ARTES
DEPARTAMENTO DE JORNALISMO
CURSO DE JORNALISMO

LÍVIA MARIA DANTAS PEREIRA

“BITCH I’M FROM RECIFE”:
A INFLUÊNCIA DO PROGRAMA "RUPAUL'S DRAG RACE" NA CENA
DRAG PÓS-MODERNA DA CIDADE DE RECIFE

JOÃO PESSOA
2016

LÍVIA MARIA DANTAS PEREIRA

“BITCH I’M FROM RECIFE”:
A INFLUÊNCIA DO PROGRAMA "RUPAUL'S DRAG RACE" NA CENA
DRAG PÓS-MODERNA DA CIDADE DE RECIFE

Monografia apresentada ao Curso de
Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba
como requisito final para a obtenção do grau
de bacharel.

Orientadora: Prof. Dra. Margarete Almeida
Nepomuceno

JOÃO PESSOA
2016

Ms. na Universidade Federal da Paraíba.UFPB ____________________________________________________ Prof. Dra. Dr. Margarete Almeida Nepomuceno Orientadora . em cumprimento às exigências da disciplina Trabalho de Conclusão de Curso. LÍVIA MARIA DANTAS PEREIRA “BITCH I’M FROM RECIFE”: A INFLUÊNCIA DO PROGRAMA "RUPAUL'S DRAG RACE" NA CENA DRAG PÓS- MODERNA DA CIDADE DE RECIFE Esta monografia foi submetida à avaliação da banca examinadora. Alan Mangabeira Mascarenhas Examinadora – UFPB ____________________________________________________ Prof. Pedro Francisco Guedes do Nascimento Examinadora – UFPB . como um dos requisitos para obtenção do Grau de Bacharel em Jornalismo. Aprovado em: ____ de _______________ de _____ BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________ Prof.

Aos meus pais pelo o apoio incondicional. .

Lekhisha Glan. mesmo as que vocês não entendiam o propósito. mas especialmente às minhas irmãs do coletivo Riot Queens. Aos que se deixam viver uma vida cheia de glitter e cores! . por ter aceitado embarcar nessa pesquisa louca e ter me incentivado a ir sempre além. sem ele esse trabalho não seria possível. Thiago Soares. Greta Dubois. Cherry Pop. À minha orientadora cheia de afeto. Aos professores que me deram aula durante a graduação e que me incentivaram a continuar na pesquisa acadêmica. Agradecimentos Às drag queens de Recife. Milka. Aos meus pais por me ensinarem o valor da educação e por estarem ao meu lado incansavelmente em todas as minhas aventuras. agradeço por todo o ―paitrocínio‖ para as idas à Recife. que não se conhecem e podem não saber. Vocês são arte! Sem a disposição de vocês essa pesquisa não teria o mesmo valor. minhas fontes de inspiração e orgulho: Pamella Saphicc. camp e Harry Potter. artigos e ideias loucas que apareciam e que compartilha alguns ídolos. Lady Gaga: todas na melhor playlist do meu Spotify. Por terem me incentivado a ler e a estudar sob todas as circunstâncias da vida e me ensinado que nossa liberdade é conquistada através da educação. mas me ajudaram nos momentos de falta de inspiração. Medusa Pandemonium e Ginger Moon. Às músicas das ―RuGirls‖ que embalaram madrugadas a fio enquanto esse trabalho era escrito. À Madonna. pelas aulas ministradas desde o primeiro semestre e por compartilhar o amor pelas drags. Rihanna. Em especial. À Juily Manghirmalani que me ouviu falando de todas as etapas da pesquisa. principalmente às que me ajudaram durante essa pesquisa: Envy Hoax. hoje da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Aos meus amigos mais próximos que me aguentaram falando por um ano falando sobre esse trabalho. ao professor. Às mulheres drag queens. pelas orientações (de vida) e por ter sido aquele que plantou a sementinha da pesquisa científica em mim e por ter pegado na minha mão e me ajudado a escrever meu primeiro artigo acadêmico. pelas conversas feministas. Karma Mahatma. Margarete Almeida Nepomuceno. Lucy Fur. Beyoncé. Ao meu pai. especialmente a Mariana Lima e Júlia Falkenberg. Dahlia Mayfair e Mia Rhomba.

“Gay men don’t do drag to mock women. If you don’t get irony.” (RuPaul) . you don’t get drag. we do drag to mock the cultural concept of identity.

revelando a farsa do binarismo de gênero. que acontece na boate Miami Pub. a pesquisa ressalta esses espaços como lócus territoriais de desconstruções. As observações necessárias para as conclusões da pesquisa foram feitas dentro das festas Monamu. teoria queer. Através da experiência etnográfica na festa e das entrevistas com as drag queens foi possível estabelecer como se dá a subversão das identidades das novas drags queens que surgem como resultado da popularização desta cultura na mídia. RESUMO O presente trabalho busca compreender como se dá a influência midiática do reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ na (des)construção dos estereótipos e vivências de gênero e sexualidade dentro da ―nova cena drag‖ da cidade de Recife (PE). cena drag. Palavras-chave: drag queen. Mia Rhomba e Dahlia Mayfair). A partir da vivência da pesquisadora ao ocupar um espaço que tradicionalmente está reservado a homens homossexuais. RuPaul‘s Drag Race. Através do mapeamento das festas frequentadas por drag queens na cidade. percebida pela pesquisa como o ápice da cultura drag pós-moderna influenciada por RuPaul e pela cultura pop. . a pesquisa apresenta a drag queen como sujeito das variáveis de gênero e enfatiza sua força de atuação na desconstrução da normatividade destas interpretações de identidade. A fim de analisar a potência do reality dentro da cena foram realizadas entrevistas semiestruturadas com quatro drag queens ativas da cena recifense (Envy Hoax. Karma Mahatma. performance de gênero. escolhidas principalmente pela proeminência na cena e pelo discurso político subversivo que estas demonstram através das suas performances identitárias.

Through the ethnographic experience at the party and the interviews it was possible to establish how these new drag queens who arise as a result of the popularization of this culture on the media subvert its identities. revealing the farce of gender binarism. semi-structured interviews were made with four active drag queens from Recife (Envy Hoax. Mia Rhomba and Dahlia Mayfair). which takes place in the nightclub Miami Pub. gender performance. perceived by the research as the apex of the postmodern drag culture influenced by RuPaul and pop culture. Key words: drag queen. The necessary observations for the research conclusions were made inside the party called Monamu. In order to analyze the power of the reality within the scene. . Karma Mahatma. Through the mapping of the parties frequented by drag queen in the city the research highlights these spaces as territorial locus of deconstruction. queer theory. chosen principally because of their prominence within the scene and for the subversive political discourse they demonstrate through their identity performances. drag scene. this research presents the drag queen as a subject of gender variables and emphasizes its force in the deconstruction of the normativity of these identity interpretations. RuPaul‘s Drag Race. ABSTRACT The following work aims to understand the influence of the reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ on the de(construction) of the stereotypes and experiences of gender and sexuality within the ―new drag scene‖ of Recife (PE). Based on the researcher‘s experience to occupy a space that is traditionally reserved for homosexual men.

....................................................................................................................................................................................................................................................... 41 FIGURA 6 – Elton John e RuPaul .................................................... 53 FIGURA 12 – Flyers da festa Monamu .......................... 38 FIGURA 4 – Cartazes de ―Hello............. 73 FIGURA 17 – Karma Mahatma ........... 75 FIGURA 18 – Mia Rhomba ................................................................................................................................................................................................................................................................ 70 FIGURA 15 – Fotos da festa Monamu ............ Dolly!‖ .. 36 FIGURA 2 – Divine em ―Hairspray‖...... 37 FIGURA 3 – Site oficial de Divine ............................................................................. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Divine em ―Pink Flamingos‖................................................................. 71 FIGURA 16 – Envy Hoax ...................................................................................................................................................... 42 FIGURA 7 – Vera Verão ............................................................... 69 FIGURA 14 – Fotos da festa Monamu ......................... 79 ................................................................................... 66 FIGURA 13 – Fotos da festa Monamu ......... 46 FIGURA 10 – Pabllo Vittar e Glória Groove ........................................................................... 38 FIGURA 5 – Contracapa de ―RuPaul is: Starbooty‖ .................................................................................................................... 48 FIGURA 11 – RuPaul para MAC Cosmetics ................................................................................ 43 FIGURA 8 – Isabelita dos Patins e Fernando Henrique Cardoso ............................................................................ 44 FIGURA 9 – Tutorial de maquiagem no YouTube ................ 77 FIGURA 19 – Dahlia Mayfair ..........................................................................................................

........................................93 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................... 67 ―The best night ever‖: uma noite como drag queen ........................................................................ 82 1...................... “If you can’t love yourself............................................................................................................................................ “You better work”: influência de “RuPaul’s Drag Race” na cena drag ........... 42 Drag-se aqui e agora ...................86 3..................32 A drag na cultura pop: um atravessamento histórico ................................................................92 “Sashay Away!‖: Saindo de cena ..............74 Karma Mahatma: girl power ................................................................78 Dahlia Mayfair: a diaba do bem .......................................................83 2..........................................................................................60 ―Go back to party city‖: Recife.80 (Des)montando: analisando o discurso das drag queers ..............................95 .................................................. how in the hell are you gonna love somebody else?”: empoderamento e vivências de gênero e sexualidade ...........76 Mia Rhomba: a puta que ri ......................................89 4................................ SUMÁRIO “Anus-thing is possible”: O universo drag e suas possibilidades identitárias .......................................................................... 50 A construção de identidades pós-modernas através da mídia ............. 63 Monamu: feita por e para drag queens ................................ 47 ―RuPaul‘s Drag Race‖: a porta de entrada das drags para o mundo pop .................................................................................. 34 Telas de glitter: o poder das drags na cultura da mídia ..... 74 Envy Hoax: “mother monster” das drags recifenses............................................................................... 69 As ―cover girls‖: drag queens pós-modernas e empoderamento ..................... “Category is…”: old school ..............................................................20 Gênero como performance: Nascemos pelados e o resto é drag ....... “We’re all born naked and the rest is drag”: a arte drag ............................................................................... 28 Ser drag é pop: cultura midiática e as identidades em (des)construção .........................................................................................17 Teoria queer ........................................................................................................................................................................................................................ a cidade que brilha .................................................................... 38 RuPaul é pop: a supermodelo drag ......................... 55 “Há novas meninas glamurosas na cidade”: o território e as drag queens pós-modernas .....................................

“Anus-thing is possible” : O universo drag e suas possibilidades identitárias “When in doubt. freak them out!” (Sharon Needles) .

uma confiança no andar. quanto para mim. cabelos loiros desgrenhados. mas descreve minha experiência enquanto drag queen na noite recifense ao me apresentar pela primeira vez. também posso atuar como drag queen. o corpo.‖ Neste caso. de fervo e luta. campo dos embates e performances descritos no terceiro capítulo desta monografia. a performatividade seria o processo de constituição do gênero. O show termina. . A performance provoca delírios. mas uma performance continuada baseada nos códigos culturais que reproduzimos. da internalização das normas heterossexuais apontadas por Butler (2016). seu olhar magnético. de uma classe natural de ser. de afetos e transgressões. em cima do palco ela brilha e solta a voz. um conjunto de atos repetidos. seus afetos e transgressões. boca marrom. a respiração é rápida. o que torna minha escrita íntima e cheia de ―rastros‖ da minha personalidade. no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida. um sorriso maroto. sendo a performance de gênero parte deste processo de criação do ―eu‖. saia de tule rodada e corset colado ao corpo. a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância. Acredito que esta experiência da ―escrita de si‖. que em sua obra ―Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade‖ apresenta a noção do conceito de identidade de gênero como uma performance para explicar porque eu. é parte do meu cotidiano. Coloco-me como sujeito ativo. mas a temática que proponho o debate é de caráter indissociável de quem sou. mulher. Nesta pesquisa recorro à teórica Butler (2016). Poderia escolher não me apresentar como sujeito inscrito no território da pesquisa. olhos rodeados de glitter. revelando a farsa do binarismo de gênero. me afastando da tradicional ―escrita acadêmica‖ a fim de potencializar o poder de transformação política do texto aqui impresso. Ela – Maddie Killa – é a persona que habita meu corpo e me transporta para um universo de glitter e cores. ninguém sai imune. Uma mulher drag queen denuncia esses estereótipos e seu caráter construído. 69) ―o gênero é a contínua estilização do corpo. 12 Salto alto. unhas em formato de garras de felinas. Sob questionamentos e atração. A luz pulsa. Todos os presentes ficam atônitos com o poder enigmático de sua sedução. mas a personagem deixa sua marca em quem assistiu. De acordo com Butler (2016. tanto para quem o lê. Seguindo este pensamento não existe gênero verdadeiro. A cena drag da cidade de Recife. p. A partir da minha vivência ocupando um espaço que tradicionalmente está reservado a homens homossexuais – o da arte drag – pretendo nesta pesquisa apresentar a drag queen como sujeito das variáveis de gênero e enfatizar sua força de atuação na desconstrução da normatividade destas interpretações de identidade. A cena acima é uma das centenas repetidas nas noites quentes das apresentações das drag queens em diversas partes do mundo.

marginalizada até mesmo dentro da cultura LGBTQIA1. Envy Hoax. precarizadas em suas apresentações. (Tradução minha). Jack Halberstam. ―Quando você vê um temo como LGBTQIA é porque as pessoas estão percebendo todas as coisas que fogem do binarismo e exigindo que elas sejam nomeadas‖. a drag continua(va) restrita aos pequenos palcos de boates obscuras. intersexual e assexual. 13 conforme nomeia Foucault (2004). como também a inserção da cena drag na cultura midiática pop. espaço teoricamente dito ser aberto às ―feminilidades‖ e desconstruções de gênero. Pernambuco. A despeito de ser uma figura que evoca glamour hollywoodiano. escolhidas pela proeminência na cena e pelo discurso político subversivo que estas demonstram através das suas performances identitárias. Acesso em: 12 maio 2016. O homem que aparece em roupas ―de mulher‖ é essencialmente um homem de fantasia aparentando no seu exterior o que é dito ser uma mulher? De que forma esta representação performática denuncia que o gênero é um produto da cultura e não um dado biológico? De que maneira a cultura drag é absorvida pela sociedade pós-moderna e por que hoje ela é mais aceita por uma geração de jovens entusiasmados com a fluidez dos gêneros? E como se dá produção de drag queens como um elemento cult dentro da cultura pop? A partir destas indagações. Para realização da pesquisa foram feitas entrevistas semiestruturadas com quatro drag queens ativas da cena recifense. desvalorizada a sua expressão artística e com pouca ocorrência na mídia. Gender and the End of Normal‖. que vem ganhando espaço nas ciências sociais e discussões de gênero.com/2013/01/10/fashion/generation- lgbtqia. Para o professor e autor do livro ―Gaga Feminism: Sex. Minha imersão em campo se deu de forma que pude ter acesso às instâncias privada e pública da vida das drags. potencializa a pesquisa ao mesclar objetivação e subjetivação durante a análise. ela era até o final do século XX. vamos percorrer a desconstrução da normatividade de gênero proposta por Butler (2016) e outros autores. fato que muito contribuiu para minhas análises e relatos. a Isabelita dos Patins. vistas como aberrações e fetiche. guetos. Apesar de toda resignificação sociológica e política sobre a drag queen em nossos dias. Por ter tido a possibilidade de conviver durante 1 Variação para a sigla LGBT. Disponível em: <http://www. . essa pesquisa visa analisar de que formas o reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ visibiliza a figura da drag queen através da mídia e influencia no crescimento e atual configuração da cena cultural drag em Recife.html?_r=0>. Karma Mahatma. sucesso nos anos 1990 no Brasil. A pesquisa permeia por questões sobre a identidade de gênero na performance das drags. interpretada pelo argentino Jorge Omar Iglesias e que hoje sofre pela falta de reconhecimento e abandono da cena artística. De caráter qualitativo. há na nova geração muitas pessoas com diferentes concepções de gênero e sexualidade. Mia Rhomba e Dahlia Mayfair. considerada mais inclusiva por contemplar as identidades queer. com exceção da mais famosa delas.nytimes.

14

alguns meses com as personagens, pude me conectar com sentimentos e acontecimentos que
extravasaram a escrita do trabalho, mas que muito ajudaram na escolha das palavras e na
sensibilidade de traduzir as histórias de vida que a mim foram confiadas. Vale-se explicitar
aqui que dentro deste trabalho, utilizei a narração dessas histórias de vidas como metodologia
para legitimar os relatos dos entrevistados dentro do contexto pesquisado. Justifica-se a
utilização do termo ―história de vida‖, pois os relatos que explicitaremos na pesquisa tem o
objetivo de dar ―atenção total ou parcial às narrativas sobre as vidas de indivíduos ou de
grupos sociais, visando humanizar um tema, um fato ou uma situação‖ (VILAS BOAS, 2003,
p. 17), analisando um episódio específico da trajetória de um personagem.
As observações necessárias para as conclusões da pesquisa foram feitas dentro das
festas Monamu, que acontece na boate Miami Pub, respeitando o ambiente natural como fonte
de coleta dos dados. Por ser parte ativa dentro da cena analisada, a minha experiência dentro
das festas se tornou artifício para a narração do imaginário de uma noite como uma drag
queen, feita no segundo capítulo do presente trabalho. A experiência etnográfica 2 me permitiu
uma série de insights que foram registrados em um diário etnográfico, transformando-o em
parte importante na hora da elaboração do texto final. O diário etnográfico me permitiu
destacar comportamentos em campo que se repetiam em diferentes sujeitos, anotações estas
que não se referem apenas ao que era de fácil percepção ao observador, mas que na condição
de pesquisadora e também participante me proporcionou um enquadramento dos
acontecimentos. Como explica Malinowski (1976, p. 25):

O Etnógrafo no terreno tem o dever de destacar todas as regras e normas da
vida tribal, tudo o que é permanente e fixo; deve dar conta da anatomia da
sua cultura e da constituição da sua sociedade. Mas estas coisas, embora
cristalizadas e estabelecidas, não estão formuladas em lado algum. Não há
um código de leis escrito ou explícito de qualquer outra forma, e toda a
tradição tribal, toda a estrutura da sociedade está inscrita no mais
escorregadio de todos os materiais: o ser humano.

A partir dessa experiência em campo e das entrevistas realizadas, busco compreender
como se dá a construção desta cena como resultado da cultura midiática pop e traçar um perfil
das drags queens e suas desconstruções de gênero e identidade através de sua performance.
No primeiro capítulo deste trabalho proponho uma revisão dos conceitos-chave para o
entendimento do objeto, como teoria queer e performance de gênero, na tentativa de

2
A etnografia que aqui me refiro foi baseada na metodologia proposta por Bronislaw Malinowski (1976) na
introdução de ―Os Argonautas do Pacífico Ocidental‖, levando em consideração a observação participante acerca
dos comportamentos de uma tribo.

15

compreender a participação da drag queen dentro das (des)construções pós-modernas de
identidades. Discorro também sobre a estética camp, onde encaixamos o exagero e
espalhafatoso das montações das drag queens, refletindo sobre como a superficialidade
estética do camp pode também ser política e artifício para a reafirmação de identidades até
mesmo dos sujeitos que encontram na estética uma forma de expressão, mesmo quando não
propõem a uma montação drag ―de verdade‖.
No segundo capítulo busquei na antiguidade a origem da drag queen. Como surgiu?
Que caminho percorreu? Deixei, portanto, transcorrer a pesquisa de Amanajás (2014) através
da sua obra ―Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas‖ para que
pudesse traçar um fio condutor da construção dessa histórica. Ao narrar o ―nascimento‖ da
drag queen dentro do teatro grego busco desmistificar a ideia pré-concebida de que drag
queens devem ser interpretadas apenas por homens, elevando a montação ao status de arte e
desconstruindo a figura da drag como algo essencialmente gay. Esta subversão do pensamento
comum é de importância vital para compreender questões pós-modernas da performance de
gênero e do por que mulheres cisgênero também são drag queens legítimas.
Destrincho ainda nesta segunda parte do trabalho a presença das drag queens na mídia,
começando pelo cinema transgressivo de John Waters nos anos 1970. A drag queen Divine,
presente na maior parte da produção de Waters, proporcionou que nas décadas seguintes a
cultura drag fosse usada abordada como tema central de outras produções ou apenas que drags
participassem de filmes e programas de televisão. A partir dessa visibilidade discorro sobre a
ascensão de RuPaul nos anos 1990, como a drag queen mais midiática e mainstream da época,
estrelando campanhas de cosméticos e lançando músicas. RuPaul se tornou a drag por trás do
produto midiático que é fio condutor para esta pesquisa, o reality show ―RuPaul‘s Drag
Race‖. A partir da escalada de RuPaul ao topo da hierarquia da cultura pop midiática analiso
como acontece a produção de drag queens atualmente e de que forma a propagação da cultura
drag pela mídia possibilita o avanço da cena drag na pós-modernidade.
No terceiro capítulo, analiso mais especificamente o impacto de ―RuPaul‘s Drag Race‖
no território escolhido para a pesquisa, buscando compreender como se dá a construção desta
cena como resultado da cultura midiática pop. Localizo o território e narro as particularidades
que permeiam a cena drag da cidade de Recife e extraio quatro participantes para analisar suas
desconstruções de gênero e identidade através da performance drag.
Por ter mesclado a subjetividade dos sentimentos com a objetividade do exposto nos
corpos das drag queens proponho que a leitura dos resultados dessa pesquisa seja feitas com
ressalvas, pois as verdades aqui expostas são percepções e análises de um momento e

16

localidade específica, são singulares e refletem apenas poucas facetas dos múltiplos aspectos
da realidade pesquisada.

1 Gênero como performance : Nascemos pelados e o resto é drag “I don't care if you are a boy who used to be a girl or a girl who used to be a boy all I care about is you right now cause are we all something a little in between? I love hearts not parts.” (Alaska Thunderfuck) .

Como na linguagem do dia a dia a palavra sexo também é utilizada para referir-se a essas supostas diferenças naturais. da sociedade. no corpo fisiológico. quando ainda somos um feto no útero de nossas mães. Esse processo de adequação às normas começa cedo. Para Stoller. o sujeito passa a ter que ir de encontro ao papel social e cultural atribuído ao gênero que lhe foi designado. do médico. que assegura a reprodução da espécie. enquanto gênero está ligado ao caráter cultural das distinções entre homem e mulher (psicologia. 52) ―essa concepção do gênero não só pressupõe uma relação causal entre sexo. De acordo com Piscitelli (2009. sexo representaria o aspecto biológico (hormônios. De acordo com a teoria. e que o gênero reflete ou exprime o desejo. De acordo com Piscitelli (2009. morfologia. Embora o sentido que isso . identificar um sujeito como homem ou mulher é resultado da cultura trabalhando em cima dos aspectos biológicos de cada pessoa. p. o conceito de sexo passou a ser tão importante quanto o de gênero dentro das pesquisas. 2009. Mesmo que ainda não saibamos sequer falar. mesmo quando ainda não sabemos disso. genes) do sujeito. 119). 2004. Segundo Butler (2016. para Stoller ―há uma diferença sexual ―natural‖.‖ Para entender como funciona essa relação entre gênero. gênero e desejo. p. O ser humano teme o que não conhece e o que não pode identificar e enquadrar em uma categoria. O conceito de gênero surge em uma época em que essas pesquisadoras buscavam quebrar essa naturalização das diferenças entre homem e mulher para que fossem eliminadas as distinções e desigualdades na forma de tratamento entre os sujeitos. 124). p. Será que é uma menina? O médico vai conseguir decifrar qual a cor do enxoval do bebê? Para muitos a identificação biológica do feto (macho ou fêmea) também define uma identidade de gênero dentro do sistema binário feminino/masculino. A partir da definição do órgão (pênis ou vagina). precisamos suprir uma expectativa que vem do exterior. p. Essa noção de gênero binário está intrinsecamente ligada à necessidade de satisfazer a matriz heterossexual. 119) o termo gênero foi elaborado por pensadoras feministas a fim de desconstruir a ideia de que existem diferenças inatas entre o comportamento de homens e mulheres de forma que delimita seus espaços de atuação. 18 Nossos corpos são sempre forçados a encaixar-se em padrões. ―as autoras feministas utilizaram o termo gênero para referir-se ao caráter cultural das distinções entre homens e mulheres e entre ideias sobre feminilidade e masculinidade.‖ (ibidem. sexo e sexualidade é preciso compreender os conceitos de cada uma das categorias supracitadas. Apesar do termo gênero ter sido inovador e se difundido entre os pesquisadores. mas sugere igualmente que o desejo reflete ou exprime o gênero. p. sociologia e todo o aprendizado desde o nascimento). dos pais. 216). quando Robert Stoller apresentou a teoria de ―identidade de gênero‖ (HARAWAY. em 1963.

―Em algumas sociedades indígenas. homens e mulheres desempenham papéis culturalmente construídos: os papéis sexuais. Os termos "papel sexual". significando que haveria atividades e coisas ―de homens‖ e outras destinadas às mulheres. nem natural. 2009. 128). Estas reinvindicações acabaram por criar uma dúvida generalizada. importante para as formulações posteriores do feminismo: ―se a subordinação da mulher não é justa. Uma das categorias que poderiam ajudar na definição desses papeis é o sexo. A americana Margaret Mead se tornou conhecida após documentar ―as diversas maneiras em que ―outras‖ culturas lidam com a diferença sexual‖ (ibidem p. 19 assume em diferentes contextos seja muito variado. . a atividade de tear é vista como feminina. 127). Após o estudo de diversas sociedades foi possível demonstrar a arbitrariedade da divisão das tarefas em função do gênero. podemos nos identificar como homens ou mulheres de formas variantes de acordo com o lugar. ―Nesse caso. p. a classe social e momento histórico. É a partir desta indagação que surge a teoria dos papeis sociais.‖ (PISCITELLI. "papel masculino" e "papel feminino" se difundiram rapidamente. a antropologia foi uma das disciplinas centrais para teorizar sobre a diferença sexual. por exemplo. em cada lugar se estabelecem maneiras apropriadas de ser homem e mulher‖. noutras. Neste aspecto. Entre as reinvindicações das feministas estavam o direito ao voto (já que na época só os homens votavam nas eleições). como se chegou a ela e como ela se mantém?‖ (PISCITELLI. apesar de sermos identificados quando nascemos de acordo com os órgãos genitais como menina ou menino. 127). acesso à educação da mesma forma que os homens e poder ter posses e bens. A teoria dos papeis sociais dá ao sujeito uma atribuição de tarefas de acordo com as categorias que ele se encaixa. p. Pensando a partir da teoria de identidade de gênero. 128). já que estas eram móveis dependendo da sociedade observada. em busca de compreender o que influenciava o comportamento humano. Isso acontece porque não há nada naturalmente feminino ou masculino. como masculina. como identificaríamos sujeitos masculinos e femininos? O que seriam características femininas e masculinas? No final do século XIX e começo do século XX o que chamamos hoje da ―primeira onda‖ do movimento feminista começava a questionar padrões da sociedade que separavam homens e mulheres em categorias distintas.‖ (ibidem. 2009. A partir dessa reflexão podemos entender que Stoller compreendia que. p. seria como escalar um elenco para um filme e distribuir papeis de um personagem de avô para o ator mais velho. da década de 1930 em diante.

Ainda pensando de maneira oposta à perspectiva biológica de que o órgão sexual também caracterizaria um gênero. p. foi pioneira ao mostrar que esses traços de caráter são aprendidos desde que uma criança nasce. significar tanto um corpo feminino como um masculino. Essa diferença [masculinidade/feminilidade] era vista como natural. Segundo ela. na qual o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito. ao defender o afastamento da noção de gênero como decorrente do sexo. pressupunha que as mulheres fossem mais dóceis e afetivas. a perspectiva teórica também coloca em pauta a arbitrariedade da distinção entre eles e sugere que o sexo também não é natural. p. a autora afirmou que a crença - compartilhada na sociedade estadunidense da época . Para Butler (2016. o próprio gênero se torna um artifício flutuante. no senso comum). pesquisadoras da ciência. nem em termos de dominação ou submissão. uma genealogia capaz de expor as opções binárias como uma construção variável? Se . 129) Já no final dos anos 1980. os papéis dos homens e das mulheres. não era universal. mas pelo discurso que esse corpo produz. 26) a hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo. com a consequência de que homem e masculino podem. (PISCITELLI. A sociedade dos Estados Unidos da sua época (e até hoje. Desta forma. com igual facilidade. toda cultura determina. tanto um corpo masculino como um feminino. antropólogas.de que haveria um temperamento inato. de algum modo. Mead. 20 problematizando a ideia do que seria feminilidade e masculinidade e demonstrando que estes conceitos variavam entre as culturas. Haveria uma história de como se estabeleceu a dualidade do sexo. historiadoras e filósofas feministas questionavam a distinção entre sexo e gênero e ―o processo histórico ao longo do qual se passou a pensar que o "sexo" e a ―natureza" seriam elementos fixos. p.‖ (ibidem. mas não o faz necessariamente em termos de contraste entre as personalidades atribuídas pelas normas sociais para os dois sexos. e mulher e feminino. anteriores à cultura. 143). estas teóricas feministas no campo da antropologia e sociologia chegaram a conclusão que a identidade de gênero de um indivíduo não deveria ser predeterminada pelo sexo dito ―natural‖ de seu corpo. indo de encontro à teoria de Stoller em que sexo e gênero estariam em dois pontos opostos do espectro. Com base nos resultados da pesquisa. ligado ao sexo. assim como o gênero. 2009. e que os homens fossem mais dominadores e agressivos. Quando o status construído do gênero é teorizado como radicalmente independente do sexo. como se resultasse das diferenças nos corpos masculinos e femininos. como uma decorrência da maternidade. ao contrário. mas discursivo e cultural.

No conceito que denominou ―sistema sexo/gênero‖.. Assim Butler (ibidem. 1982. 2016.ufsc. 2009. mas são impedidas 3 RUBIN. 1993. Acesso em: 18 set. 2016. p. É por isto que a instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária em que o termo masculino diferencia- se do termo feminino. p. Rubin explica que o desejo heterossexual começa quando as famílias precisam ser constituídas. 42) questiona o que seria a ―identidade‖ a qual Stoller se refere em sua teoria de identidade de gênero. a antropóloga Rubin (1993) teoriza3 sobre as motivações que induziriam a espécie humana a esta heterossexualidade dita natural.O. idênticas. gênero. p.S. p. 27- 28) É pensando nesse discurso que embasa o sistema binário de gênero e sexo que entramos no conceito de sexualidade. não faz sentido definir o gênero como uma interpretação cultural do sexo. a rigor. Se o sexo é. O que caracterizaria uma identidade e o que suportaria a ideia de que as identidades são as mesmas. p. da coerência interna respectiva do sexo. Estruturas elementares do parentesco.br/xmlui/handle/123456789/1919>. 53). 4 LÉVI-STRAUSS. Corpos. O tráfico de mulheres: Notas sobre a economia política do sexo. Recife: S. já está claro que colocar a dualidade do sexo num domínio pré-discursivo é uma das maneiras pelas quais a estabilidade interna e a estrutura binária do sexo são eficazmente asseguradas. 21 o caráter imutável do sexo é contestável. Petrópolis: Vozes.] Na conjuntura atual. de sexo e desejo‖ quando o sexo exige um gênero e um desejo. 137). em que medida a identidade de gênero – entendida como uma relação entre sexo. Disponível em: <https://repositorio. ao longo da história da humanidade? ―Se a ―identidade‖ é um efeito de práticas discursivas. [. talvez o sexo sempre tenha sido o gênero. C. talvez o próprio construto chamado ―sexo‖ seja tão culturalmente construído quanto o gênero. 52). Apoiando-se na teoria do parentesco de Lévi-Strauss4. (ibidem. Rubin aponta um conjunto de arranjos pelos quais a sociedade ―transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana. Para Butler (ibidem. p. do gênero e do desejo. O ato de diferenciar os dois momentos oposicionais da estrutura binária resulta numa consolidação de cada um de seus termos. . ele próprio uma categoria tomada em seu gênero. prática sexual e desejo – seria o efeito de uma prática reguladora que se pode identificar como heterossexualidade compulsória?‖ (ibidem. (BUTLER. o gênero só pode significar uma ―unidade de experiência. de tal forma que a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nula. 45) Anteriormente aos questionamentos de Butler..‖ (PISCITELLI. sendo este culturalmente imposto como o desejo pelo gênero oposto – o desejo heterossexual. G. realizando-se essa diferenciação por meio de práticas do desejo heterossexual.

‖ (Piscitelli. ―instaura a diferença. p. 8-11. que varia entre as culturas. um outro aspecto explica a aliança entre estas famílias e neste estaria centrado a explicação da heterossexualidade: a divisão sexual do trabalho. 6. que passam a ―trocar‖ as mulheres para que estas casassem com os homens de outras famílias. o que obriga ao casamento heterossexual. mas essencialmente institui funções diferentes a homens e mulheres. refletindo sobre Butler (2016) em uma reportagem à revista CULT 5. restringir o desejo ao heterossexual institui a produção de oposições discriminadas e assimétricas entre ―feminino‖ e ―masculino‖. 22 culturalmente pelo que Lévi-Strauss chama de ―tabu do incesto‖. obrigando-as. ―a proibição de se manter relações sexuais com parentes muito próximos. 137). ―a proibição do incesto estabelece uma mútua dependência entre famílias. Como Piscitelli (ibidem. 2009. ou seja. Partindo desse pressuposto. p. a divisão sexual do trabalho também deve ser vista como ―um tabu contra outros arranjos sexuais que não aqueles que tenham pelo menos um homem e uma mulher. Judith Butler: feminismo como provocação. p. a oposição. 2016.. mas o 5 TIBURI. à criação de novas famílias‖. desta forma dando ênfase às realidades e diferenças entre os gêneros. Ainda para Lévi-Strauss. Para Butler (2016. gênero não é o que se é. Segundo a ―teoria performática‖ de Butler. p.‖ Partindo desta noção. 138) ressalta. o gênero seria um efeito discursivo do corpo e o sexo um efeito do gênero. p. para Rubin (ibidem. cotidianamente construímos a nossa performance de gênero a partir do momento que afirmamos e repetimos certos comportamentos. n. jan.. enquanto esta última é organizada dentro de normas e de leis que funcionam pelo discurso. A matriz cultural por meio da qual a identidade de gênero se torna inteligível exige que certos tipos de ―identidade‖ não possam ―existir‖ – isto é. Nesta perspectiva. São Paulo.] diz respeito ao caráter ativo da relação entre o sujeito e a sociedade. A filósofa Tiburi (2016). em que estes são compreendidos como atributos expressivos de ―macho e ―fêmea‖. Além de suportar o binarismo de gênero. M.‖ Dessa maneira. 138) afirma que a divisão sexual do trabalho cria o gênero já que para garantir o casamento. culturalmente. com o fim de se perpetuarem. afirma que ―o que ela chama de performatividade do gênero [. o tabu do incesto prescreve outro tabu: o da homossexualidade. 138). . 44). CULT – Edição especial. entre os sexos‖. 2009. Segundo a teórica. Butler (2016) então introduz a noção de performatividade de gênero. Essa regra social institui uma aliança entre as famílias. as diferenças ditas naturais entre homem e mulher. aquelas em que o gênero não decorre do sexo e aqueles em que as práticas do desejo não ―decorrem‖ nem do ―sexo‖ nem do ―gênero‖. p. Rubin (apud Piscitelli. Essa necessidade de tarefas femininas diferentes das masculinas ressalta.

237) ressalta que a drag ao imitar o gênero revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero . um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida. Dessa forma. Se o gênero é uma performatividade construída pela cultura. expõe a coerção social na base da natureza performativa da identidade. ilusão mantida discursivamente com o propósito de regular a sexualidade nos termos da estrutura obrigatória da heterossexualidade reprodutora. portanto. [. drags expõem que não existem verdades essencializantes sobre o gênero. que não passa de um construto. ela pode ser confundida. p. Além disso..assim como sua contingência. Assim. ela permite o reconhecimento do mimetismo em qualquer estrutura de identidade e a ausência de qualquer fonte autêntica. o que podemos entender como drag? Drag revela a farsa do gênero como uma atuação dada pela cultura de acordo com o tempo histórico e as mudanças sociais. a paródia da drag. os desejos articulados e postos em ato criam a ilusão de um núcleo interno e organizador do gênero. transformada e ser um assunto que causa algum ―problema de gênero‖.] No lugar da lei da coerência heterossexual. Os atos e gestos. para Butler. vemos o sexo e o gênero desnaturalizados por meio de uma performance que confessa sua distinção e dramatiza o mecanismo cultural da sua unidade fabricada. já que é este o dispositivo que legitima o gênero. p. (BUTLER. 69). O gênero é a estilização repetida do corpo. A drag é uma importante forma de resistir às estruturas de poder que regulam nossas vidas e identidades ao ridicularizar das expressões culturais normativas e performances. Butler (ibidem. 235) A paródia da performance drag acentua a radicalização das normas da performance de gênero. de uma classe natural de ser. Na sua encenação do que é ser mulher ou homem. a drag queen expõe o gênero como um código cultural que se baseia em imitações. p. . 2016. uma vez que não existe uma base essencial ou inicial da identidade de gênero. portanto inexistente sem discurso. desfigurada.. aponta para o fato de que. a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância. (ibidem. 23 que se faz e. Drag. A performance drag visa desestabilizar a ―verdade‖ da identidade sexual e de gênero apontando para o fato de que não há nenhuma razão que exige constante mimetismo das identidades performadas.

tradução nossa) explica que ―como gosto pessoal. introduzido por Sontag (1966) que apresenta o camp como uma expressão cult para a sensibilidade ―inequivocamente moderna‖. despolitizado ou ao menos apolítico‖. representar um papel. Na visão de Lopes (2002). 97). p. p. uma forma de sofisticação. de estilização. à atitude exagerada de certos homossexuais. 95) escreve que ―como comportamento. não necessariamente deve ser associado apenas a pessoas gays (2002. Camp é o triunfo do estilo epiceno. podendo também ser usado para descrever uma pessoa. 280. a autora ressalta que há uma afinidade maior com algumas expressões artísticas. pastiche e exagero. tradução nossa). 1966. ele contesta o caráter apolítico que a autora aponta. 275. p. sendo ele uma maneira estética de ver o mundo que não se refere à beleza. Nada na natureza pode ser camp. essa valorização da afetação não seria uma simples ―reedição de um dandismo esteticista e paródico‖. Dessa forma o camp seria ―uma invasão e subversão de outras sensibilidades. Para Sontag (ibidem. porém não idêntica a sensibilidade.‖ (SONTAG. mas um jeito de formar ―uma sociabilidade . p. da teatralidade e do deboche. apesar de estar vinculado a essa sensibilidade gay. 2002.‖ Apesar de o camp poder ser encontrado em diversas formas de artes. a ênfase do camp no estilo e na estética causa uma atitude ―neutra‖ em relação ao conteúdo. e exemplifica o uso do camp para descrever uma estética pessoal com a andrógina. o camp pode ser comparado à fechação. Para Sontag (ibidem. de "pessoa" e "coisa". p. Embora as ideias de Lopes (2002) sobre a artificialidade do camp repercutam as reflexões de Sontag (1966). (A conversibilidade de "homem" e "mulher".‖ (ibidem. 279. mas que. do artifício. tradução nossa). a essência do camp ―é sua predileção pelo inatural: pelo artifício e pelo exagero‖. 24 Nesta imitação do gênero desnaturalizado. tradução nossa). Sontag (ibidem. p. recorremos ao conceito camp. ―Todos os objetos camp e pessoas contém uma grande quantidade de elementos artificiais. trabalhando via paródia. Para compreender melhor esta atuação. ―mas ao grau de artifício. p. 277. as drags encenam esta performance através do uso do exagero. 97). em termos de sensibilidade.). tornando-o ―descompromissado. p. 279.‖ (Dollmore apud LOPES. ou simplesmente à afetação‖. Nesta mesma linha de pensamento. o Camp responde em particular ao marcadamente atenuado e ao fortemente exagerado‖. na verdade. 1966. tradução nossa). ―É a maior extensão. Sontag (1966) ressalta o camp em pessoas e objetos como sendo a capacidade de compreender que ser é. da metáfora da vida como teatro. Lopes (2002.

cujo ―centro‖ consistia num núcleo interior. ao mesmo tempo. Entretanto. no momento em que políticas utópicas e transgressoras parecem ter se esvaziados de qualquer apelo.] uma estratégia corrosiva da ordem. 2002. já que essas artistas surgem em um contexto de desconstruções das identidades de gênero e sexualidade fixas. e vê no camp [. 96-97) É nesta possibilidade política que encaixamos a performance das drag queens dentro da estética camp. 2002. sendo ele a identidade. Esse centro.. 41). um grupo que busca desestabilizar essas normas. p. A. D. então. C. 10). em que diferença é oferecida a todo momento.: 1991.. Essa ampla oferta do ―diferente‖ transforma o contexto social e produz o sujeito pós- moderno. dotado das capacidades de razão. que . p. Se entendermos o camp como ―decorrente da condição de oprimido do homossexual‖ (MACRAE apud LOPES. Esta capacidade de perceber o mundo como teatro não faz do camp apenas uma percepção frivolamente desimportante e alienante.‖ (ibidem. na medida em que é definido a partir de um modelo hétero (TYER. A primeira concepção de identidade é a do ―sujeito do Iluminismo‖. Surge. e para os que não querem aderir à nova velha ordem global do consumismo. 103). produto da opressão. já que levava em consideração ainda a ideia do núcleo interior do sujeito.: 1993. p. em cada propaganda (LOPES. essa segunda concepção de identidade leva em consideração que essa identidade não era autônoma e autossuficiente. de consciência e de ação. perpetuador do estereótipo afeminado do homossexual. 6). um riso fácil e nervoso incapaz de lidar com as diferenças. misógino (idem. que já tendo vivido uma identidade estável. segregação e auto-ódio‖ (Edmund White apud BERGMAN. que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia. unificado.‖ (LOPES. seria fixo e permaneceria a fundamentalmente o mesmo ao longo da vida do sujeito. entra em colapso como consequência das mudanças ―estruturais e institucionais‖ as quais Hall (2006) se refere. (ibidem. 2002. p. p. 95). 35) e. ―negação de especificidade de um desejo homoerótico‖. baseada na ideia de que o ser humo é um ―totalmente centrado. mas ―formado na relação com ―outras pessoas importantes para ele‖. em cada esquina. 25 sustentada por códigos específicos de uma ética do estético em contraponto a uma moral universal. é possível que isso torne o sujeito passível de enxergar a artificialidade das categorias sociais e padrões comportamentais. um gosto excludente e depreciativo. 97). Considero a noção do ―sujeito sociológico‖ mais como um complemento às ideias do Iluminismo de identidade. apenas uma ―forma de humor declinante.

p. 12). 16). argumenta ele.‖ (LACLAU apud HALL.‖ (GIDDENS apud HALL. as drags queens. são caracterizadas pela ―diferença‖. p. p. a terceira e última concepção de identidade apontada por Hall (2006) é a mais recente e a qual buscamos inserir as identidades pós-modernas e nosso objeto de estudo. 16-17) . com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. p. 2006. 12). 2006. com amparo em textos de Marx e Engels (1973). identidades – para os indivíduos. (HALL. p. mas por ―uma pluralidade de centros de poder. tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis‖ (ibidem. em especial à globalização –. argumenta Laclau. sentidos e símbolos – a cultural – dos mundos que ele/ela habitava‖ (HALL. 26 mediavam para o sujeito os valores. p. para entender e analisar estas postulações. as identidades pós-modernas têm o sujeito cultural inscrito nessa nova realidade e.. O teórico explica que isso se dá porque à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. uma característica particular da modernidade é o que Hall chama de ―forma altamente reflexiva de vida‖. elas são atravessadas por diferentes visões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ―posições de sujeito‖ – isto é.] As sociedade da modernidade tardia. enquanto deslocando a identidade. mas não a substituindo por outra ideia fixa. Dessa maneira. 11). 14). p. a ponto de estabilizar ―os sujeitos e os mundos culturais que eles habitam. [. Além disso. Entretanto. p. 16). portanto. 2006. multifacetado. Dessa forma. somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. As sociedades modernas. precisamos olhar para o contexto histórico no qual cada uma delas foi produzida. Baseada na descentração do sujeito e sua fluidez entre gênero e sexualidade. 2006. ―composto não só de uma única. acabamos nos livrando ―de todos os tipos tradicionais de ordem social‖ (GIDDES apud HALL. explica que a principal diferença entre as sociedades ―modernas‖ e as ―tradicionais‖ são que as primeiras estão sempre em mudança constante e de forma rápida. onde ―as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre estas mesmas práticas. não têm nenhum centro. Hall (ibidem. (ibidem. a identidade ―costura o sujeito à estrutura‖.. 15). nenhum princípio articulador ou organizador único e não se desenvolvem de acordo com o desdobramento de uma única ―causa‖ ou ―lei‖. mas de várias identidades‖ (ibidem. 13) Suscetíveis aos estímulos externos – às mudanças da modernidade. 2006. p.

como um processo em andamento ao longo da vida do sujeito. 39) A segunda mudança relevante para o entendimento do sujeito pós-moderno que busco delimitar nesta pesquisa vem do impacto do feminismo. de forma que ―abraçaram o ―teatro‖ da revolução‖ política. que funciona de acordo com uma ―lógica‖ muito diferente daquela da Razão. A partir dessas leituras. (ibidem. duas se destacam com mais importantes para o estudo das identidades de gênero. (HALL. 36) A teoria de Freud gera leituras como a de Lacan. 27 De acordo com Hall (2006.‖ (ibidem. apontado agora como o ―sujeito pós-moderno‖ de múltiplas identidades. Para Lacan. teoriza que a identidade inteira é algo que aprendemos gradualmente. Dessa maneira. especialmente nas complexas negociações psíquicas inconscientes. arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada. em vez de algo que inato e pré-existente no momento do nascimento. nós continuamos buscando a ―identidade‖ e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude. 39) propõe que falemos em identificação. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos. na primeira infância. que contrapondo a ideia do ―sujeito do Iluminismo‖. p. p. causando uma série de rupturas nos ―discursos do conhecimento moderno‖. incentivando o enfraquecimento da . tanto quanto crítica teórica quanto como um movimento social. a identidade se torna algo que é formado ao longo de processos inconscientes. 37). p. o feminismo tinha ―ênfase e uma forma cultural fortes‖. O maior efeito dessas mudanças é este descentramento do sujeito cartesiano. Dentre essas mudanças do conhecimento moderno. 2006. A primeira modificação ocorre com a teoria postulada por Freud de que nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. p. pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Assim como parte dos ―novos‖ movimentos sociais que emergiram no final dos anos 1960. ―mas é formada em relação com os outros. cinco grandes avanços na teoria social e nas ciências humanas ocorrem na modernidade tardia (segunda metade do século XX). Hall (2006. Psicanaliticamente. entre a criança e as poderosas fantasias que ela tem de suas figuras paternas e maternas. 34). essa identidade unificada não se desenvolve de forma natural a partir do interior do núcleo da criança ao nascer. mas de uma falta de inteireza que é ―preenchida‖ a partir do nosso exterior. p.

―Bichas. Assim o feminismo apelava às mulheres. 45-46). p. de forma que abriu para contestação política ―arenas inteiramente novas de vida social‖. principalmente nas redes sociais. de forma ainda mais direta com o descentramento do sujeito cartesiano e sociológico ao questionar os limites da esfera pública. O primeiro.youtube. (HALL. já que seu slogan era ―o pessoal é político‖. que semanalmente traz conteúdos novos e em seu discurso busca desmistificar o lado negativo da ―sapatão‖ e da ―bicha‖. em especial da sexualidade. Além de ter politizado a subjetividade. 28 classe política. Além do viés claramente político. como a palavra ―bicha‖ é utilizada de forma positiva por eles. ―sapatão‖6. 45) aponta que o pensamento feminista contribuiu. exaltando o ―anormal‖ ao criticar os regimes de normalização dos comportamentos. ―bicha‖ e ―sapatão‖. . p. Grupos de jovens gays e lésbicas se unem em campanhas e iniciativas audiovisuais distribuídas de forma gratuita na internet para desmistificar o lado negativo de ser ―bicha‖ ou ―sapatão‖. Em 1960 a eclosão de novos movimentos sociais (movimento de luta pelos direitos civis da população negra do Sul dos Estados Unidos. Como cita Miskolci (2012. 6 Apesar das expressões ―viado‖. Entretanto. estes movimentos apelavam para a identidade social daqueles sobre quem eles falavam. há um movimento crescente. 2006. p. 39). que busca subverter esses significados e tornar estas palavras em algo positivo para a comunidade LGBTQIA. E o segundo. Teoria queer ―viado‖. 45) Hall (ibidem. 2013. o termo foi assimilado e ressignificado por uma vertente dos movimentos homossexuais para ―caracterizar sua perspectiva de oposição e contestação. movimento feminista da ―segunda onda‖ e o movimento homossexual). impulsiona um grupo de teóricos que em seus trabalhos já criticavam a ordem sexual contemporânea. o movimento que surge em contestação à posição social das mulheres se transforma para incluir também a formação das identidades de gênero e sexualidades. Isso constitui o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade – uma identidade para cada movimento. e assim por diante. serem usados para designar homossexual terem culturalmente uma forte conotação negativa.com/watch?v=0cik7j-0cVU&spfreload=10. questionando a identidade única de homens e mulheres – a Humanidade – e substituindo-a pela ―diferença sexual. o documentário‖ e o canal de vídeo ―Canal das Bee‖. a partir do relato de suas experiências. ambos disponíveis na plataforma de vídeos YouTube.‖ (ibidem. p. o movimento antibelicista aos pacifistas. o trabalho doméstico. como a família. lésbica.‖ (LOURO. Ver em: ―Canal das Bee‖: https://www. Como exemplos dessas ações podemos citar o documentário feito pelo publicitário pernambucano Marlon Parente.com/user/CanalDasBee. a política sexual aos gays e lésbicas. um canal apresentado por Jéssica. ―Bichas. as lutas raciais aos negros. a sexualidade. a divisão doméstica do trabalho e o cuidado com as crianças. sendo uma narrativa documental sobre seis jovens gays e nordestinos contando. o documentário‖: https://www.youtube. p.

É por isso que. O novo movimento queer voltava sua crítica à emergente heteronormatividade. . p. 23) A AIDS foi um choque e tratada como uma ―resposta‖ à Revolução Sexual por parte da sociedade tradicional. Essa noção. (ibidem. 40) aponta que esses trabalhos se apoiam fortemente na ―teoria pós- estruturalista francesa e na desconstrução como um método de crítica literária e social. 23). O que o queer preferia era o enfrentamento. A aids foi construída culturalmente e houve uma decisão de delimitá-la como DST. quase como um castigo para aqueles que não seguiam a ordem sexual tradicional. que prezava pela ―adaptação‖ dos homossexuais às demandas sociais. enquanto a linha vermelha da rejeição social é pressionada contra outr@s.‖ (MISKOLCI. p. ou seja. (ibidem. Neste ponto é preciso ressaltar que o queer não necessariamente expressava as problemáticas do movimento homossexual da década de 1960. 22). nos Estados Unidos. acabou sendo compreendida como uma doença sexualmente transmissível. o que podia ser também compreendido como uma defesa da homossexualidade. que logo se voltou contra os grupos de vanguardas sociais. 2013. 2012. porém com bases similares. p. Em resumo.‖ Apesar da origem da teoria queer ser dispersa geograficamente. sendo esta uma produção teórica bastante diversificada. aquelas e aqueles considerados anormais ou estranhos por deslocarem o gênero ou não enquadrarem suas vidas amorosas e sexuais no modelo heterorrepodutivo. o antigo movimento homossexual denunciava a heterossexualidade como sendo compulsória. p. a doença foi um ―catalizador biopolítico que gerou formas de resistências mais astutas e radicais‖. Uma epidemia que surge a partir de um vírus. o que ―gerou um dos maiores pânicos sexuais de todos os tempos. p. dentro da qual até gays e lésbicas normalizados são aceitos. nas palavras de Miskolci (ibidem. uma doença viral. A epidemia é tanto um fator biológico como uma construção social. sua política como conhecemos hoje toma forma a partir da metade da década de 1980. detalhada por Michel Foucault (1993) em ―A história da sexualidade 1: a vontade de saber‖. que poderia ter sido pensada como a hepatite B. É neste contexto revolucionário que surge a política e teoria queer como empoderamento de uma nação que foi posta de lado e rejeitada. Seidman (1995 apud LOURO. ultrapassa o sistema binário de sexualidades e foca na pluralidade e dispersão de discursos e sexualidades na pós-modernidade. 25) Os teóricos e teóricas queers se baseiam principalmente na ideia da sexualidade como uma construção discursiva. 29 22). esse impulso originou diversas obras acadêmicas dispersa em diversos países. o combate e a tentativa de mudar a sociedade de forma que suas identidades fossem aceitáveis. logo após o surgimento da epidemia de AIDS.

sujeitos que escapam da norma e não se ajustam. p. expõe. analisando são apenas como. de legitimidade. ou seja. A drag queen dentro da teoria queer desempenha esse papel de subverter. exorbita e acentua marcas corporais. ela intervém. leis.. esconde. imorais ou patológicos. Louro (ibidem.. 42) Os conceitos propostos pelos teóricos queer também utilizam a lógica da desconstrução para desestabilizar a lógica binária. vestimentas culturalmente identificadas como femininas. As normas que garantem essa sucessão necessitam. (LOURO. criticá-los e desconstruí-los‖ (ibidem. (LOURO. na verdade. agrega. Ao se apropriar dos códigos e marcas do que se parodia. no caso de drag kings) dentro do sistema binário heteronormativo. O discurso da drag perturba o conceito do gênero como natural a determinados corpos. p. ele subverte as marcas do corpo que designariam um gênero e/ou sexo e expõe a natureza cultural de ambos.]. p. escolas e mídia para que não sejam subvertidas. se produziram e se multiplicaram as classificações sobre as ―espécies‖ ou ―tipos‖ de sexualidade. A drag propositalmente exagera os traços convencionais do feminino.. indica um desejo pode ser negada a qualquer momento. comportamentos. por sua vez. [. a teoria queer abre espaço para a discussão do que Butler (2016) chama de corpos abjetos.] A desconstrução indica que cada polo carrega vestígios do outro e depende desse outro para adquirir sentido. Daí porque aqueles que escapam ou atravessam esses limites ficam marcados como corpos – e sujeitos – ilegítimos. 84). subvertê-los. 43-44) explica que a desconstrução como procedimento metodológico é a designação de ―um modo de questionar ou de analisar. que fabrica seu corpo. 2013. famílias. atitudes. Entretanto. ultrapassar os limites de gênero e parodiar a ideia de um gênero original feminino (ou masculino.. entretanto. Foucault empenha-se em descrever esses discursos e seus efeitos. .‖ Dessa forma. a drag queen é ―capaz de expô- los. p. explicitamente. através deles. Como explica Louro (ibidem. de torná-los mais evidentes e assim. p. 88) a drag assume. 2013. de moralidade ou de coerência. As normas regulatórias voltam-se para os corpos para indicar-lhes limites de sanidade. A premissa de que de um sexo biológico decorre um gênero e este. desconstruir não significa destruir. ―colocado em discurso‖: temos vivido mergulhados em múltiplos discursos sobre a sexualidade [. mas se aproxima etimologicamente do conceito de desfazer. 30 [Foucault] afirma que o sexo foi. de esforços constantes das instâncias de poder social e cultural. como as igrejas.

13). problematiza. 167). p.. o autor entrelaça as categorias de ―travesti‖ e ―drag queen‖. [. (LOPES. a drag também pode ser considerada como uma paródia de gênero. 1981.‖ Desta forma.. 100-101) Entretanto. 16). p. p. 59). 31 88). [.. p. unindo-as através da performatividade e do caráter construído que estas dão ao gênero. Mais do que copiá-la.‖ Segundo o autor (ibidem. ―mas para que operem como se quer.] Nós também nos valemos de artifícios e de signos para nos apresentarmos. (ibidem. V. No travesti não habita uma dualidade homem/mulher. produto da imaginação masculina‖. como migrantes clandestinos que escapam do lugar onde deveriam permanecer. Historicamente a sexualidade foi sempre alvo de constante vigilância e repressão quando expressada de forma desviante às normas sociais.: 1993. segundo a rapidez e a eficácia que se determina. p. a que mais ―dramatiza. a disciplina se torna um poder que carece de três instrumentos: ―o olhar hierárquico. 9). p. 2013. Dessa forma. S. S. 135). o travesti busca na mulher a força de sua metamorfose (TERTO. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados. H. o poder disciplinar produz corpos não apenas para que se faça o que se quer. com as técnicas. As punições não aparecem (sempre) de forma física.: 1989. mas que está para além da mulher (SARDUY. e sim uma ―pulsão de simulação‖ que constitui seu próprio fim (Sarduy. O poder crítico dessa paródia reside no fato de que essa apropriação dos códigos é capaz de nos fazer ―repensar ou problematizar a ideia de originalidade ou de autenticidade‖ refletindo sobre seu caráter construído. corpos ‗dóceis‘. 100) sobre camp. 89). o exame. ―tal qual como atravessadores ilegais de territórios.: 1981. justificando esta característica no fato de saberem que ―a mulher a ser imitada é só uma aparência. mas podem tornar o sujeito vigilante de suas próprias atitudes. para dizer quem somos e dizer quem são os outros. tentar buscar uma identidade ou essência. p. esses sujeitos são tratados como infratores e devem sofrer penalidades‖ (LOURO. Para Foucault (2014.. Sua figura estranha e insólita ajuda a lembrar que as formas como nos apresentamos como sujeitos de gênero e de sexualidade são. distente e comenta a própria noção de vivência de papel social‖ (SILVA. sempre. a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico.] O travesti é o personagem alegórico de uma modernidade inconclusa e em crise. Um dos campos de produção de saber e conhecimento corporal e performático mais evidente dentro das lógicas e normas sociais é a sexualidade. 89) No texto de Lopes (ibidem. formas inventadas e sancionadas pelas circunstâncias culturais em que vivemos. 2013. os corpos dóceis .

que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade. são o que podemos chamar de disciplinas. transexuais. seja podada e suprimida. travestis e outros sujeitos desviantes são submetidos a este processo constante de disciplina e punição e são rotulados como minorias. Algo que não pode existir – um tabu. [.. Somos instruídos para que qualquer expressão de gênero e sexualidade que fuja da ―normalidade‖ em locais de visibilidade. homossexuais. tratada como algo que não existe. Diferentes da escravidão. 32 são corpos que tiveram suas forças aumentadas (treinadas) para utilidades econômicas.] Têm como fim principal um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo. p. aceitos apenas quando estão confinadas aos seus guetos.. pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos. . 153) os métodos disciplinares permitem o controle minucioso das operações do corpo. [... Para Foucault (2014. é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. Drag queens. como meios de comunicação. mas ao mesmo tempo diminuídas nas questões políticas de obediência.] As disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação.

back pieces. like Iman and Christie Brinkley and Maud Adams and all those children. beads and all that. And now they're went from that to trying to look like models. em ―Paris is Burning‖) .” (Pepper LaBeija. But as the seventies rolled around the things started changing. 2 Ser drag é pop: cultura midiática e as identidades em (des)construção “When I first started going to balls it was all about drag queens who were interested in looking like Las Vegas showgirls. feathers. tail pieces. Elizabeth Taylor. it started coming down to just wanting to look like a gorgeous movie star like Marilyn Monroe.

foi assimilada pela Igreja quando esta. ―exercendo a função satírica de blasfemas e dar voz ao indizível perante a sociedade‖ (AMANAJÁS. a figura da drag . a partir de então. As drags queens não são fenômeno de criação deste século. ao dar aos atores o poder de utilizar máscaras para performar personagens tanto masculinos quanto femininos. Frínico de Athenas. e a troca de figurino e de máscara sublinhava uma organização cênica introduzida no decorrer dos cânticos. o cinema e o teatro já faziam as vezes da televisão. elas atravessaram a história desde o teatro grego aos palcos das boates mais badaladas do mundo.. algo parecido com as próteses que algumas drag queens utilizam atualmente para moldar seu o corpo. alternadamente. p. apesar de sua expansão na cultura do entretenimento na pós-modernidade. C. No artigo ―Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas‖ (2014) Amanajás explica que. O teatro grego é o ponto de partida para a análise histórica das origens da drag queen. 2014. Nestas encenações. 2014. acredito que se faz necessário um entendimento genealógico desta trajetória. No livro ―Drag: The History of Female Impersonation in the Performing Arts‖ (1994).‖ (AMANAJÁS. o reality show americano ―RuPaul‘s Drag Race‖ não é o único exemplo da massificação desta cultura. Um outro passo à frente foi dado. Isto significava que o ator devia fazer várias entradas e saídas. ao longo dos anos a artista drag queen continuou participando de apresentações culturais em basicamente dois viés: em rituais pagãos. que foi discípulo de Téspis. Porém. p. a função de interpretar os diferentes personagens era uma atividade exclusiva do homem. em meados do século VI a. 2014. p. roupas e enchimentos também eram adicionados para a composição da personagem‖ (AMANAJÁS. e ao viver personagens trágicas na Grécia. Antes mesmo do lançamento de RuPaul como cantora e apresentadora de TV. 2014. Baker (apud Amanajás2014. mas que ―o ator usava não somente a máscara para interpretar papéis femininos. 5). 4). passou a investir em ―pequenas encenações sacras para melhor entendimento de seus fiéis sobre a mensagem a ser passada. trazendo drag queens como personagens principais nos filmes. incapaz de conter as manifestações pagãs da sociedade. peças e musicais. 5). ampliou a função do ‗respondedor‘ (hypokrites). Portanto. 34 A drag na cultura pop: um atravessamento histórico Apesar de ter popularizado a drag queen. da declamação para a ‗ação‘ (BERTHOLD apud AMANAJÁS. p. investindo-o de um duplo papel e fazendo-o aparecer com uma máscara masculina e feminina. p. 5) aponta que. 5).

no qual um decreto governamental proibia qualquer manifestação teatral de ser realizada. revolucionando a concepção de teatro no mundo ocidental. Homens vestidos de mulher em suas mais luxuosas roupas da moda (aqui inicia- se a concepção da vestimenta como moda nos parâmetros dos dias de hoje. o desaparecimento da sua atuação no teatro abriu portas para que esses atores procurassem novos locais para trabalhar e frequentar. Amanajás (2014) explica que. Carlos II assume o trono na Inglaterra e reestabelece a vida nos palcos quase duas décadas após o período conhecido como ―protetorado‖. a caótica vida na cidade em . heranças. marcava-o com a sigla DRAG. mas na atual Londres do século XVIII. classes em ascensão. para sinalizar que aquela personagem seria interpretada por um homem‖ (ibidem. 9). a mulher assume algumas funções artísticas no teatro europeu. a drag queen começou a se relacionar com o que é o homem homossexual. como algumas peças de Shakespeare. p. o código de vestimenta era relacionado ao status social e ao gênero) passeavam pelas ruas da França. sendo relegada ao papel de ―enamorada‖ (ibidem. No século XVII. Apesar da presença da mulher no palco parecer ameaçadora para os atores drags. apesar de não haverem provas concretas. p. 10). É dito que o autor ―ao conceber suas personagens femininas. Temas como infidelidade. [. durante alguns anos ambos conseguiram coexistir até que a função da drag se tornou desnecessária e motivo de piada. Séculos após a extinção da máscara e da dissociação com a Igreja. Nessa época os papéis femininos das peças escritas por Shakespeare e seus contemporâneos eram interpretados por adolescentes homens. os atores drags viram seus destinos se tornarem incertos já que Carlos II permitiu que as mulheres interpretassem papeis femininos. 35 queen encontrou uma nova função. pois. estupro de inocentes. com idade entre dez e treze anos. Em 1671. 5).. 11). chegando a caracterizar a mulher de forma grotesca (ibidem. apesar do lado positivo no reestabelecimento do teatro. embora nunca como personagem principal. ao rodapé da página em que descrevia tal papel. dando início a interseção da drag queen com a homossexualidade. Especificamente no Reino Unido.. por se sentir irritado em ter que ―presenciar homens adultos em trajes femininos ao invés de belas damas‖ (ibidem. p. Especula-se também que foi no período de Shakespeare que surgiu o acrônimo ―DRAG‖. pela primeira vez. na época do teatro Elizabetano (século XVI) surgia à dramaturgia de William Shakespeare. o que seria uma abreviatura de dressed as girl (vestido como menina. já que nenhum manuscrito do autor sobreviveu ao longo dos séculos.] O teatro também estava mais atento a outras questões: o foco estava nas relações diárias das pessoas e não aconteciam em outros reinos. p. em tradução livre). a cômica. Itália e Inglaterra e. na era Elizabetana.

surgiram casas (bares) chamadas de Molly Houses. um ninho de pássaro como peruca e uma maquiagem descontroladamente exagerada. vestindo roupas estranhas parodiado a alta moda. amplamente popular. A dama pantomímica. uma oportunidade de satirizar e resgatar sua característica cômica e grotesca desta arte. 12) explica que durante o século as mulheres conquistaram o direito de atuar como personagens mais significativas. 2014. homens se reuniam para encenar pequenas apresentações de comédia. exageradas e porque eram representadas pela ―dúbia figura da caricatura da imagem feminina personificada pelo homem. Amanajás (ibidem. (AMANAJÁS. No início do século XX. Amanajás (2014. p. Se a sociedade apresenta. foi se inserindo neste contexto. Ele se tornou a dama pantomímica. da comédia stand up e do canto popular‖ numa grande variação de personas. os homens acabavam se montando apenas por motivos cômicos. […] seu humor era robusto e terrenamente doméstico quando ele ganhou a confiança do publico e compartilhou as provações da vida conjugal. uma criatura do burlesco e da paródia. certamente começa a possibilitar o aparecimento do homem homossexual. aos poucos. Suas aparições no palco durante os próximos 150 anos ou mais eram ocasionais.‖ As representações das damas pantomímicas eram ainda mais risíveis porque eram grotescas. 2014. 13-14). 11-12) A drag queen vislumbra nas mudanças sociais de comportamento cultural da época. p. p. p.‖ (AMANAJÁS. p. Enquanto isso. p. 2014. 36 comparação à vida no campo e a relação matrimonial entre homens e mulheres foram postas em cheque. 13). 12). elas causavam um ―pathos na plateia e a imediata identificação. Ao se lamentar em monólogos. nesse momento. mas mais do que isso ―era . mas pelos meados do reinado Vitoriano sua reabilitação estava em andamento e ele entrou no século XX com largo sorriso. entoando canções satíricas como parte do repertório das personagens e ―incluindo elementos do clown. 14) explica que a dama pantomímica foi à única forma de drag queen durante os primeiros 50 anos do século XX. nos bares e clubes chamados Music Hall. (BAKER apud AMANAJÁS. ―Nessa época. as mãos na cintura. No final do século XVII o ator feminino havia se tornado uma figura cômica. habitada por todos os principais comediantes da época e críticos sérios de teatro lhes deram avaliações sérias.‖ (ibidem. em que drag queens se encontravam vestidas de tipos sociais da época para se comportarem como mulheres. a personagem da dama pantomímica se tornou uma das grandes atrações dos dramas teatrais por falar em sobre problemáticas pertinentes à mulher e à classe média da época. um outro modo de relacionamento possível entre homem e mulher. e não mais apenas ―o habitual flerte com a plateia em um jogo de mostrar belas pernas e quadris‖. Dessa maneira.

desta forma. Essa imagem afeta diretamente as drags queens. 14- 15).‖ Após as duas grandes guerras mundiais (1914-1945). 2014. sendo duramente criticados pelos críticos da época que definiram esses artistas da ―nova onda como ―novos vulgares‖. No entanto. p. divas e moda. mas ao mesmo tempo preocupada com o glamour e a moda. usam roupas de mulher‖. A década de 1950 acabou se tornando um período de ―trevas‖ para os atores drag queens. seja por meio da música com The Beatles. p. chamam uns aos outros de nomes femininos abertamente.. ativa e independente. como o feminismo e o negro.. mas personificar grandes mulheres da vida real como parte de seu repertório‖ (ibidem. ―mastigadores de chiclé‖ e ―delinquentes‖ pela aparente falta de comentário e crítica social. os homossexuais e outras vivências de gênero e sexualidade começaram a mostrar suas identidades e lutar pelos .. 17) Neste cenário pluricultural. 16). o mundo se reorganizou e a mulher passou a repensar a sua própria posição social. dançar e improvisar (como perceberam as jovens e glamorosas drags). 15) exemplifica o movimento com um artigo publicado no jornal ―Sunday Pictorial‖ que se referia aos homossexuais como ―homens do mal‖. surgia uma nova imagem feminina. mudanças radicais aconteceram na sociedade. a drag queen passou por uma profunda ressignificação de sentidos. que também se mostraram interessadas em ― roupas da moda e com o glamour em um show de entretenimento em que não somente bastaria cantar. Na década de 1920.. hippie e de variedades sociais. os artistas drag queens possuíam um grande material para se comunicar com seu público. 2014. Por toda a Inglaterra teatros fecharam as portas e surgia um movimento conservador anti-homossexual. Nas artes. p. 2014. (AMANAJÁS. tanto na Europa. 2014. a cultura de massa ou cultura popular era acolhida pela sociedade. influenciado pelo cinema. em 1960. conforme acredita o autor: Mediante essa avalanche cultural de diferentes possibilidades. fashionista e soberbo da imagem da mulher que é maior que o mundo. personagem que todo o comediante eventualmente possuía em seu leque. rebaixando a pop art ao nível de não-arte‖ (AMANAJÁS. O que logo fariam associação também às drags e sua arte. Entretanto. p. seja no cinema com Marilyn Monroe e nas artes plásticas como Andy Wharol. expondo a homossexualidade como abundante no teatro: ―eles possuem maneiras delicadas. Baker (apud AMANAJÁS. quanto nos Estados Unidos. As inspirações eram muitas e as grandes divas hollywoodianas e da música pop alicerçaram um imaginário irreverente. com forte influência de movimentos como contracultura. a cena drag expande e adquire um status de arte e cultura. 37 uma forma artística respeitada e aceita.

popularizou uma das drag queens mais importantes da história: Divine. É nesse cenário de bares e clubes destinados ao público homossexual que a drag queen. Divine em cena icônica de ―Pink Flamingos‖. ―Pink Flamingos‖ (1972) e ―Female Trouble‖ (1974). nada traz mais força do que a sua repercussão e ampliação de significados a partir da cultura midiática. grande janela de vitrine para problematizar e difundir as identidades das drags internacionalmente. construídos nas áreas periféricas. aparecendo com as ―The Cockette‖ antes de performar em ―Women Behind Bars‖ e 7 DARRACH. John Waters (1972) Nomeada pela revista ―People‖ a drag queen do século 7. ressurge. p. B. Entretanto. Death Comes to a Quiet Man Who Made Drag Queen History as Divine. o cineasta norte-americano John Waters. Telas de glitter: o poder das drags na cultura da mídia Em 1970. ―os novos bares gays foram. a princípio. como o cinema. mais uma vez. Fig. que ficou conhecido por seus filmes transgressivos e por escalar artistas controversos. mas também por sua tenacidade dentro do mundo artístico. principalmente entre a comunidade LGBTQIA. Divine trabalhou no teatro. 1. longe das famílias de bons costumes‖ (ibidem. por seu trabalho como atriz. apesar da maior abertura social perante essa diversidade. ―Multiple Maniacs‖ (1970). Porém. People. 16). 2016.com/archive/death-comes-to-a-quiet-man-who-made-drag-queen- history-as-divine-vol-29-no-11/>. 38 direitos. como observamos nos filmes ―Mondo Trasho‖ (1969). Disponível em: <http://people. Divine se tornou culto de adoração. Além de atuar. 21/03/1981. Acesso em 06 out. Los Angeles. . que como drag queen teve participação ativa na obra do diretor.

músicas. Um site oficial é mantido pela sua família. onde é preservada informações sobre sua carreira. ―I‘m So Beautiful‖ e ―Walk Like a Man‖. que até hoje continua sendo um marco no mundo dos musicais do cinema. dirigido por Steve Yeager (1998) e ―I Am Divine‖. Divine como Edna Turnblad/ArvinHodgepile. do diretor Jeffrey Schwarz (2013). Além de percebemos a influência que o cinema teve na propagação de sua personagem como da própria arte drag. A última contribuição artística de Divine ficou por conta do clássico cinematográfico ―Hairspray‖ (1988). carreira musical.com/>. constantemente inspirando novas versões até mesmo para outros formatos midiáticos. Embora tenha sido encontrada morta em 1988 em Los Angeles. também dirigido por Waters. reverberando na cultura pop. Disponível em: <http://divineofficial. em ―Hairspray‖ (1988). porém significativa. e embarcou em uma breve. Acesso em 06 out. Isto comprova que a artista sobrevive na memória e fica imortalizada pela sua arte. o seu ultimo trabalho artístico Como a lenda que se tornou. de John Waters. servindo como fonte de inspiração para diversos personagens fictícios. . Divine continua inspirando os artistas da comunidade LGBTQIA. como ―Divine Trash‖. livros e filmes documentários sobre sua vida. 8 Informações retiradas do site oficial da drag Queen Divine. suas músicas em formato digital e onde fãs podem comprar produtos licenciados com desenhos e fotos da drag queen. A drag queen se tornou sucesso mundial com hits como ―You Think You‘re a Man‖. o legado artístico de Divine permanece vivo até os dias atuais. 2016. 2.8 Fig. 39 ―The Neon Woman‖.

estrelando Barbara Streisand. pôster da versão cinematográfica do musical. então. a habitar diversas plataformas artísticas. Além dos shows em bares. 2014. 3. 2014. No site oficial de Divine. À esquerda. Dolly! e A gaiola das loucas – e o mundo do cinema‖ (AMANAJÁS. p. Fig. 40 Fig. Dolly!‖ (1964). ―alcançaram o rádio. havia basicamente duas vertentes da drag queen: ―aquela que criava a personagem cômica e . fãs e admiradores do trabalho artístico da drag queen podem comprar produtos oficiais como camisas e bottons. 17). mas sendo também tema para as narrativas. as drag queens passaram. a televisão. a Broadway – musicais como Alô. 4. participando não apenas como personagens. Durante as décadas de 1970 e 1980. de 1969. cartaz da Broadway para o musical ―Hello. De acordo com Baker (apud AMANAJÁS. À direita. 18). ao final da década de 1970. p.

Entretanto. em si. Jean Paul Gautier foi um dos estilistas que se inspirou nos trajes dos clubes e os transferiu para as passarelas. 19) Nos anos 1990 a drag queen é recebida novamente para o convívio em sociedade. 41 as que se espelhavam nas grandes divas do pop‖. Uma dessas leis proibia que os estabelecimentos servissem bebidas alcoolicas para homossexuais. Chicago e São Francisco. Entretanto. em Nova York. mas. criou um tipo de dança chamada Voguing – trata-se de uma sequência de poses feitas por top models. a vestimenta das drags em algo mais conceitual. liderados por travestis. em 1980. a partir das drags modelos. principalmente nos Estados Unidos.‖ Com a chegada da AIDS. 2015. a comunidade LGBTQIA sofreu uma nova onda de repressão e as drag queens foram perdendo a visibilidade que haviam conseguido no final da década passada. eles. 2014. Como forma de entretenimento nos clubes e bares. p. . Entretanto. e que até hoje acontecem anualmente em todo o mundo. de certa forma. tornando o público ainda mais vulneráveis aos olhos da lei. ao final da década de 1980. para marcar o aniversário do motim que deu origem a diversos grupos militantes em prol dos direitos da comunidade LGBTQIA. O recente consumo de ecstasy nos clubes gays e heterossexuais redefiniu. Madonna. Sobre a participação das drag queens no movimento social. a rainha do pop. elas ressurgem nos clubes gays e para a comunidade que havia sobrevivido a Stonewall e a epidemia da AIDS. o cenário político e de repressão vivido pelos homossexuais e comunidade LGBTQIA em geral acendeu o viés político da drag queen. a drag queen despontou como um dos maiores símbolos da luta pelos direitos gays. Mas Gaultier não foi o único que se apossou da cultura drag em seus trabalhos. em 28 de julho de 1969. mas ―ao invés de fugir. p. geralmente com apresentações em boates e guetos marginalizados. 28) explica que ―uma vez que ser artista é. Los Angeles. culminando no que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall 9 em 1969. O departamento de polícia de Nova York realizava constantemente batidas policiais nos bares e milhares de homossexuais foram presos no período até 1968. (AMANAJÁS. geralmente na mesma época. o StonewallInn. p. as drags surgem com os lipsyincs (dublagens) das 9 Com o fim da ―Lei Seca‖ nos Estados Unidos (1920-1933). incendiaram e atiraram pedras e garrafas enquanto os policiais tentavamsair. 63). como ficou conhecida. mesmo que não intencional. trancaram os policiais nobar. forçando os clientes a saírem às ruas. Durante anos a drag ficou marginalizada chegando a temporariamente desaparecer da cena midiática. as autoridades responsáveis pelo consumo de bebida álcoolica no país aprovaram diversas leis para controlar a venda de álcool nos bares e clubes. A segunda onda do movimento feminista e o movimento da contracultura acabaram por influenciar o movimento político de lésbicas. a drag queen tornou- se algo essencialmente gay. Em Nova York. O caráter político da drag havia quase que se perdido completamente e suas performances eram puramente para o entretenimento e diversão do público. Amanajás (2014. um ato político e social. ainda sim. Houve quatro noites de confrontos violentos entre a polícia e homossexuaisnas ruas de Nova York‖ (OKITA. aconteceu as primeiras marchas do orgulho LGBTQIA. transexuais e drag queens em Nova York. No aniversário de um ano da rebelião do Stonewall. com participação ativa das drag queens e transexuais que frequentavam o bar. policiais a paisana entraram em um dos bares gay. homossexuais. luxuoso. bares gays ilegais eram comandados pela máfia.

ainda nos guetos da cidade. levando a figura da drag ao seu. altíssima. como a luta de algumas personagens com a AIDS e a morte. como Lady Gaga. Além de serem tema e personagens centrais nessas produções. uma drag queen negra. a rainha do deserto‖ reverberaram internacionalmente expondo o absurdo estético da drag queen e seus discursos. retrato da cultura gay nova- iorquina nos bailes frequentados pelas drag queens que convergiam tipos célebres da moda e cultura pop. Especificamente no documentário. ―Para Wong Foo. Obrigada por Tudo! Julie Newmar‖ (1995) e ―Birdcage – A Gaiola das Loucas‖ (1996). a grande diva drag dos anos 1990 que. Além da produção permitir. até então. as drags também inspiraram documentários. ―Paris is Burning‖ é a fonte de cerca de 90% de tudo que percebemos no universo drag (e da cultura pop especificamente voltada ao público gay) da atualidade. só que desta vez na televisão. Antes de se tornar conhecida por revolucionar a forma que a cultura pop enxergava as drag queens. É nesta época que o cinema produziu os grandes clássicos cinematográficos com drag queens. também expõe suas histórias pessoais. como o clássico ―Paris is Burning‖ (1991). como o teatro. e RuPaul. nos anos 2000 resgata a cultura e mimetiza os bailes nova-iorquinos. como ―Priscilla. a vida noturna e a cultura pop. produção que até os dias de hoje reverberam em diversas formas plataformas midiáticas. é exposta aspectos da cultura drag que até então se mantinha escondida e inacessível para quem não participava dela. quase que soando como um novo idioma para quem ouve pela primeira vez. pela primeira vez. mapeando a relação e o pertencimento dos homossexuais com a música. 42 músicas de cantoras pop. a rainha do Deserto‖ (1994). o voguing e números cômicos com temáticas essencialmente da cultura gay. engane-se quem acha que RuPaul já nasceu como uma drag superestrela. Essas quatro produções audiovisuais dos anos 1990 são consideradas ainda hoje fontes imprescindíveis de referências tanto visuais quanto históricas para quem busca compreender o movimento artístico e político drag. ―Paris is Burning‖ e ―Priscilla. que nomeia sua equipe criativa como ―Haus of Gaga‖. RuPaul começou sua . ápice dentro da cultura pop. como as ―haus‖ – ―casas‖ de drag queens e travestis que possuíam uma mãe que dava um sobrenome para suas filhas – e o vocabulário cheio de trejeitos e gírias próprias. Entretanto. que o público pertencente a outros contextos socioculturais conheça mais de perto a estética e cultura drag. Com mais de 20 anos desde sua estreia. RuPaul é pop: a supermodelo drag É nesse cenário que desponta RuPaul. esbelta e loira.

Juntos eles apresentaram a cerimônia da maior premiação de música pop do Reino Unido. conforme analisa o pesquisador: RuPaul elevou a arte das drag queens no mundo através de seus singles (Supermodel ficou em segundo lugar na Billboard. ―RuPaul‘s Drag Race‖ e se tornou a primeira drag queen a ganhar um Emmy em 2016 na categoria de ―melhor apresentadora(a) de reality show‖ 10.. desde 2009. Atualmente. 5.brasilpost. Contra-capa do álbum com a trilha sonora do filme ―RuPaul is: Starbooty‖ (1987). . 43 carreira na cidade norte-americana Atlanta e se tornou conhecida na cena drag por atuar e dirigir diversos filmes de baixo orçamento nos anos 1980. com Elton John. estrelou campanhas de cosméticos e se tornou apresentadora de talk show na televisão e no rádio. além de aparecer em um grande número de programas televisivos e álbuns musicais. 2016. como ―RuPaul is: Starbooty‖ (1987). Sua importância na cena drag mundial é de grande relevância por ser meio e produto cultural ao mesmo tempo.br/2016/09/12/rupaul-emmy-_n_11974686.html>.com. um cover da música ―Don‘t Go Breaking My Heart‖. Além da bem sucedida carreira na indústria fonográfica. Quando lançou ―Supermodel of the World‖ (1993). filmes. em 1994.]RuPaul‘s Drag Race tem recebido grandes celebridades do 10 Disponível em: <http://www. comanda seu próprio reality show na televisão. o BRIT Awards. Fig. ―Letin‘ All Hang Out‖ (1995). trabalhos como modelo fotográfica e de passarela e. RuPaul também lançou uma autobiografia. apresenta o seu próprio reality show televisivo. RuPaul foi indicada ao prêmio de ―Best Dance Video‖. com o single ―Supermodel (You Better Work)‖ e no ano seguinte gravou. [. seu álbum mais icônico e que lhe lançou ao estrelato.. mostrando que todas as músicas foram assinadas e interpretadas pela própria drag queen RuPaul. perdendo somente para I‘m Every Woman de Whitney Houston). Acesso em 08 out.

após ser vencedora da edição de 2014 do programa europeu festival Eurovision. de alguma forma. Além de disseminar a cultura gay e a arte das drag queens. Podemos dizer que. p. p. 2014. visibilidade. ou beard queen11. que a primeiro momento pode parecer algo revolucionário por mesclar a figura feminina da drag com elementos do masculino – a barba. Elton John e RuPaul na cerimônia do BRIT Awards de 1994. 6. A europeia Conchita Wurst é uma das drag queens que despontam no cenário musical. . o show tem aberto possibilidade e espaço para vários artistas drags poderem ser vistos e reconhecidos por seus trabalhos. Entretanto. aceitação comercial do que acontecia na era pré-RuPaul. participam de filmes. a beard queen não é uma estética tão nova como se pensa. 19) Fig. seriados e peças de teatro com muito mais ocorrência. a mídia investe na participação e aparição de várias outras drags que despontam no cenário da cultura midiática. A partir do fenômeno do programa de RuPaul. 44 showbiz através dos anos e tem sido topo de audiência em vários países do mundo. além de ter uma particularidade estética: é uma drag queen barbada. No Brasil. (AMANAJÁS. o grupo teatral Dzi Croquettes já fazia a mistura dos elementos do convencionalmente masculino e feminino nos anos 1970. 2014. 11 ―As beared queens são uma categoria de drag queens que baseiam sua estética em uma concepção da androginia muito utilizada pelos astros do rock da década de 70 em prol do movimento gay e de uma maior abertura de expressão‖ (AMANAJÁS. 19). Hoje elas são cantoras. através de sua presença constante na mídia e militância para desmistificar uma forma artística considerada marginal RuPaul tirou as drag queens da marginalidade.

personagem criada pelo ator. Vera Verão sempre era destaque nos desfiles das escolas de samba de São Paulo e Rio de Janeiro. drag queen interpretada pelo argentino Jorge Omar Iglesias. homens interpretando mulheres de um jeito satírico apareceu muito antes. 2014. Vera Verão em cena no programa humorístico do canal SBT. 7. Durante sua carreira. Vera brincava com os códigos de vestimenta e trejeitos típicos do feminino. podemos ressaltar Silvetty Montila. como São Paulo e Rio de Janeiro. assim como em eventos de ativismo em prol da causa LGBTQIA. (AMANAJÁS. Além da participação em programas televisivos. a partir da década de 1990. do SBT. deixando à mostra a cabeça raspada. na televisão brasileira. barbados e de pernas peludas chocou a sociedade ao se apresentarem de salto alto. o ator e comediante Chico Anysio chegou a interpretar mais de 50 personagens femininas (AMANAJÁS. Nany People e Dimmy Kier. conhecida por andar de patins montada pelo centro do Rio de Janeiro. 19-20) No Brasil. Como parte do programa ―A Praça é Nossa‖. Fig. 45 O grupo composto por artistas masculinos. tornando-se o escândalo e o deleite dos públicos do Brasil e de Paris. quebrando alguns tabus de gênero ao se caracterizar sem perucas. vestidos e glitter na maquiagem. O Dzi Croquettes alcançou reconhecimento internacional por sua postura política e artística. 20) e nos programas de humor havia a presença da sempre irreverente Vera Verão. p. Isabelita ganhou a mídia após ser fotografada com o ex- . Salete Campari. Entre as artistas surgidas na época. as drag queens surgem no cenário das festas gays nas grandes cidades. o que destaca que o grupo formado por esses 11 artistas militantes da causa gay em paetês foram os precursores do que enxerga-se como dra gqueen no Brasil. Apesar de ser Vera Verão a drag queen mais icônica e ainda lembrada da década de 1990 no Brasil. Entretanto. talvez possamos dizer que a mais popular tenha sido Isabelita dos Patins. ―A Praça É Nossa‖. 2014. comediante e bailarino Jorge Lafond que se tornou popular nos anos 1990 no Brasil pelo seu apelo cômico. p.

12 GOMES. a menina dos patins‖. Hoje. garrafa artesanal e o livro ―Isabelita. É imprevisível saber quanto vou ganhar porque a feira é só uma vez por mês. Durante a década de 1990 passou a ser figura frequente nos programas de entretenimento. além de estrelar comerciais para grifes como Fórum e Duloren. em 1993. mas que nunca parou de se montar e patinar.html>. L. É uma maneira de sobreviver. Fig. hoje. Em entrevista ao site de notícias Ego12. também amarga o esquecimento e a não valorização da sua identidade. onde vende produtos como ímãs de geladeira.com/famosos/noticia/2016/02/isabelita-dos-patins-sofre-dificuldades-financeiras-e-pede-quero- trabalhar. a drag queen vive com uma aposentadoria de R$ 800 e os cachês dos eventos que trabalha. 8. sua biografia infantil ilustrada. Isabelita diz que ―não recebe o devido valor que merece por ser uma personagem importante para o Rio de Janeiro‖ e que já foi ao gabinete do prefeito pedir trabalho. que apesar de viver um momento de expansão na cultura. ―De um em um real eu consigo pelo menos pagar meu táxi. que custam desde R$ 1 até R$ 20. Este é um lugar que nos faz refletir sobre a complexidade da carreira da drag. Disponível em: <http://ego. em um encontro enquanto ela patinava pela principal avenida do bairro de Copacabana. esquecida pelo meio artístico carioca. 46 presidente Fernando Henrique Cardoso.‖ revela. Isabelita dos Patins e o ex-presidente da república Fernando Henrique Cardoso. Acesso em 13 out. no centro do Rio de Janeiro. Também recebo da associação da feira por estar lá performando como Isabelita. . A artista patina uma vez por mês na feira do Lavradio.globo. Isabelita dos Patins sofre dificuldades financeiras e pede: 'Quero trabalhar'. 2016.

20) Com a expansão cultural da mídia massiva voltada para um público mais plural. comandada pela drag Queen paulistana Silvetty Montila. onde ressaltamos a experiência do coletivo ―Drag-se‖. Britney Spears. p. uma releitura brasileira do reality ―RuPaul‘s Drag Race‖. outra forma que está em alta entre as 13 Disponível em: <https://www. A virada do milênio nos apresentou um globo totalmente conectado.globo.youtube. Nick Minaj e Lady Gaga serviram mais do que inspiração para as drag queens: tornaram-se um modo de vida. 2014. Além desse tipo de produção midiática mais elaborada. formada pela cultura midiática e pop dentro da sociedade do consumo.youtube. Shakira. há também a produção da websérie ―Academia de Drags‖15. Acesso em: 15 maio 2016. promovendo enxurradas de informações por minuto. Vemos ali também a potencialidade de novas identidades mais fluidas em relação a vivências de gênero e sexualidades.com/user/academiadedrags>. conseguiu galgar mais um andar em direção à cultura de massa e se enraizar como parte intrínseca do dia-a-dia do cidadão. 14 Disponível em: <http://canalbrasil. cada vez mais ousadas e inventivas. vimos aparecer vários produtos voltados ao interesse e visibilidade das drags. como Facebook e canais no YouTube. com sites. O pop. Fergie. Acesso em: 15 maio 2016. Apesar destas estarem muito restrita à internet. Acesso em: 15 maio 2016. Uma geração totalmente conectada. 14 Em São Paulo. troquem informações e descubram novas realidades que antes pareciam tão distantes. por incrível que pareça. mesmo que apenas para o ambiente virtual. Recentemente o ‗Drag-se‖ saiu da esfera da internet e passou a ser exibido semanalmente pelo Canal Brasil.com/user/dragsetv>. Novas divas foram coroadas. dando liberdade de expressão e reinvenção à cultura gay e jovem. Kylie Minougue. e que já conta com duas temporadas exibidas também no YouTube.13 um canal do YouTube que desde 2015 publica conteúdos como tutoriais de maquiagem e documentários sobre um grupo de drag queens do Rio de Janeiro. 47 Drag-se aqui e agora Com a virada do século XXI e suas transformações tecnológicas. (AMANAJÁS. Beyoncé. pode-se perceber que existe uma abertura de consumo midiático voltado a este interesse. a sociedade se torna muito mais informada e conectada. Um dos exemplos desta nova produção são canais de vídeos específicos sobre este tema. 15 Disponível em: <https://www. A popularização da internet e suas ferramentas permitem que pessoas distantes geograficamente entrem em contato umas com as outras. .com/programas/drag-se/materias/drag-se-estreia-dia-0405-as- 20h45. páginas nas redes sociais.html>. uma sociedade dinâmica e porosa.

Rebecca Foxx17. como podemos verificar as brasileiras: Vic Haila16. conta que a ideia do canal surgiu após um convite de uma produtora que queria criar um canal de vídeos humorísticos para o YouTube. Fig. 2016. professor de inglês que dá vida a Rita Von Hunty. algumas aproveitam o espaço ilimitado da internet para criar programas.com/channel/UCitItmsLLIzV7GJP5H9GNpQ>. tal qual em uma televisão. Guilherme Terreri. e também estabelecer discussões sobre temas mais aprofundados com o público. 2016. Apesar das maquiagens serem a temática mais recorrente entre os canais das drags. há cerca de um ano e vai além de apresentar receitas: em todos os episódios ela traz uma convidada especial – geralmente outras drag queens – e estabelece um bate-papo bem humorado.youtube. 2016. 48 drag queens são os canais com dicas e tutoriais de maquiagens. Rita mantém o seu programa de culinária vegana. Este é o caso das paulistanas Rita Von Hunty e Lorealy Fox. 9. mas que pudesse mostrar pras pessoas a cultura drag e a culinária vegana‖. 18 Disponível em: <https://www. . Acesso em 09 out.youtube. Print screen de um tutorial de maquiagem disponível no canal do YouTube da drag queen Vic Haila.com/user/queenrebeccafoxx>. 17 Disponível em: <https://www.com/channel/UCZdJE8KpuFm6NRafHTEIC-g/videos>.youtube. Acesso em: 09 out. ―A primeira coisa que me veio à cabeça foi um programa de culinária cômico apresentado por uma drag queen presa nos anos 50. explicou Terrieri em 16 Disponível em: <https://www. onde falam desde os acontecimentos da cena drag até sobre suas vidas pessoais. Acesso em: 09 out. o ―Tempero Drag‖18.

drag-queen-pabllo-vittar-estrela-campanha-da-avon. Lorelay Fox é personagem do publicitário Danilo Dabague. 22 Adidas Originals lança linha que celebra diversidade sexual. hoje o público é bem mais diversificado. mas ainda dentro do universo LGBTQIA e das próprias drag queens. Acesso em: 09 out.br/noticias/gente. sobre gays afeminados. Folha de São Paulo. famílias assistem para se divertir. Seu segundo vídeo.com/channel/UC-NW3bCGpuJm6fz-9DyXMjg>. com o sucesso do single ―Open Bar‖ e lançamento de um EP com mais quatro músicas na plataforma online e gratuita Sound Cloud24. B. Acesso em: 08 out. Disponível em: <http://www1.com/pabllovittar>. Já o canal da drag Lorelay Fox. Disponível em: <http://emais.shtml>. O público-alvo também mudou desde o início do canal.estadao. dono do canal Para Tudo. o ―Para Tudo‖20. com quase 180 mil visualizações.globo. Disponível em: <http://gshow. 28/09/2016. da Rede Globo. Acesso em: 15 maio 2016. que conta com mais de 170 mil inscritos.br/tec/2016/09/1817340-canais-de-drag-queens-no- youtube-vao-alem-de-tutoriais-de-maquiagem. Pabllo Vittar também vem consolidando sua carreia como cantora. Dabague ainda produz tutoriais de maquiagem. Disponível em: <https://soundcloud. (GUARALDI. é até hoje um dos mais vistos do canal. conta. sempre caracterizado como Lorelay. Ele conta que o foco inicial do canal seria maquiagem e a vida de drag. 23 Pabllo Vittar estreia como vocalista da banda do 'Amor & Sexo'. . Canais de drag queens no YouTube vão além de tutoriais de maquiagem.uol.html>.youtube. Acesso em 08 out. 24 EP da drag queen Pabllo Vittar ―Open Bar‖. mas resolveu tornar o Para Tudo "um ponto de esclarecimento e compreensão de temas como diversidade.globo. 49 entrevista à Folha de São Paulo 19. "Mulheres. aceitação e empoderamento de minorias". Acesso em 09 out. mas logo percebeu que outros temas chamaram bastante a atenção do público. Acesso em: 09 out.10000028115>. crianças. 21 Drag Queen Pabllo Vittar estrela campanha da Avon.com/Moda/noticia/2016/05/adidas-originals-lanca-linha-que-celebra-diversidade- sexual. 29.html>. 19 GUARALDI. 20 Disponível em: <https://www. Disponível em: <http://revistaglamour. 2016. 2016. professores usam meus vídeos como forma de esclarecimento em sala de aula. como a Pabllo Vittar que já participou de anúncios de grandes marcas de cosméticos21 e acessórios esportivos22 e liderou a banda do programa ―Amor & Sexo‖23. 2016.com. até que ela despertou para um público que queria discutir temas mais abrangentes.com. 2016. começou com os básicos tutoriais de maquiagem. e as meninas amam os tutoriais de maquiagem". Se no início o objetivo era falar com meninos que queriam ser drag queen ou que gostam desse universo. 2016) Além dos programas criados por drag queens e voltando especificamente para este público.folha. 2016.com/TV- Integracao/Carona/Extras-Carona/noticia/2016/01/pabllo-vittar-estreia-como-vocalista-da-banda-do-amor- sexo. também é possível encontrar drag queens brasileiras em meios de comunicação mais tradicionais.

com/pt_br/article/a-drag-gloria-groove-chega-toda-dona-de-si-no-clipe-do-seu-primeiro- single>. independentemente da identidade de gênero da pessoa que está por ―baixo‖ da montação. rostos. Fig. mas que encontram formas de expressão e de significações deste lugar social. Disponível em: <https://noisey. "Dona‖. justamente por. ressaltamos que é sempre de bom tom . Pabllo Vittar e Glória Groove: as mais novas ―drags pop‖ brasileiras. “RuPaul’s Drag Race”: a porta de entrada das drags para o mundo pop Desde que o mundo conheceu (e se encantou) pela drag queen RuPaul 27.it/ClarkBoom>. Sound Cloud e Spotify26.vice. representarem a figura feminina. 50 Outras duas drags também vêm ganhando espaço entre os fãs de música pop: Glória Groove. Deixam de ser instrumentos só da comicidade e são valorizadas pelo seu lugar de destaque frente às novas relações de gênero e portanto. percebemos como o uso das novas tecnologias junto à expansão do sistema comunicacional têm sido ferramentas políticas de visibilidade para as identidades drags. ganham espaço no território do consumo midiático. 26 EP da drag queen Lia Clark ―Clark Boom‖. 25 Gloria Groove chega metendo o salto na porta no clipe de seu primeiro single. com o seu single ―Dona‖ 25 e influências do rap e a funkeira Lia Clark. também gratuitamente em diversas plataformas. historicamente. Acesso em: 09 out. que ganhou o público com o hit ―Trava Trava‖ e já lançou seu primeiro EP ―Clark Boom‖. São vozes. Acesso em: 09 out. que aos poucos saem dos guetos e começam a ser fazer parte da cultura do entretenimento e das representações sociais na mídia. 2016. em 1993. Disponível em: <http://smarturl. ―Supermodel of the World‖. 2016. Porém. Ser drag hoje é pop. 10. personalidades e atuações diferentes. como YouTube. quando se deu o lançamento de seu primeiro álbum solo. A partir de então. 27 Culturalmente as drag queens são tratadas pelo pronome feminino quando estão montadas ou quando chamadas pelo nome artístico.

Estas aproximações norteiam o uso do ―pop‖ e também fazem pensar que a principal característica de todas as expressões é.‖ (CASTRO. (ainda) olhamos com repulsa o filme ―Pink Flamingos‖ (John Waters). O termo pop é a abreviação da palavra inglesa ―popular‖ que designa produtos produzidos para serem populares. ou seja. . Temos. musicais etc. Na língua portuguesa. uma cultura do bubblegum (chicletes) e da pop corn. em 1972? Para entender o papel que presença das drag queens na cultura pop midiática tem dentro das tessituras das identidades pós-modernas de gêneros e sexualidade. 2015. devido a ―supostos‖ artifícios das indústrias culturais. principalmente sabendo que geração atual perguntar o pronome de tratamento que a drag prefere. não posso torná-los algo esvaziado de significados. dentro da indústria da cultura. Janotti (2015) explica que Pensado sob o prisma de produtos de alto alcance. então. no contexto da língua inglesa. como a estética clubkid e tranimal. mas o que mudou nas quase três décadas do reinado midiático de RuPaul? E de que forma artistas anteriores a ela abriram caminhos para a grande revelação da cultura drag para o grande público? Por que hoje aceitemos com mais ―naturalidade‖ um reality show com drag queens. já que há uma pluralidade de estilos drag e nem todos se identificam com a figura feminina. guloseimas que se confundem com a fruição e o entretenimento pop. televisivas. apesar de ser óbvio o fato de que os produtos em circulação dentro da cultura pop sejam profundamente enraizados na ótica capitalista. 45) A partir deste conceito ressalto que. o ―pop‖ como o ―popular midiático‖ em consonância com os ecos das premissas conceituais da ―pop art‖. produtora de novos significados e de novas sociabilidades. mas. p. estrelando a infame drag queen Divine. se voltar para a noção de retorno financeiro e imposições capitalistas em seus modos de produção e consumo. podendo ser usado para nos referimos também à cultura popular ligada ao folclórico. 20) Neste trabalho me atenho à cultura pop com seu significado voltado para o consumo midiático. p. 2015. Nesse contexto. (SOARES. deliberadamente. entretanto. ou grande público. (JANOTTI. 36). 51 percorremos um longo caminho afim de naturalizar a presença das artistas drag queens dentro da cultura pop e em meios de comunicação de grande circulação. são consideradas ―pop‖ produções cinematográficas. p. Chegamos ao ponto que podemos afirmar que ser drag é pop. primeiro é importante ressaltar o valor do que se entende como cultura pop atualmente. 2015. o pop foi associado ao que ―pipoca‖. o termo adquire um significado para além do ―popular midiático‖. o que em inglês seria o folk. e portanto populares midiáticos. para as culturas de massas. ao que não se consegue parar de mastigar. destacando seu ―papel como cultura dinâmica.

Em colégios de grandes cidades brasileiras. seja como uma persona drag queen ou apenas frequentando as festas e eventos que ocorrem dentro desse contexto.com. crescidos no universo digital. . Freire Filho e Lemos (2008) explicam que a forma de pensar dessa geração ―foi influenciada desde o berço pelo mundo complexo e veloz que a tecnologia engendrou. computadores e tablets.‖ Disponível em: <http://www. A chamada geração Z forma um grupo de pessoas que já nasceu na era digital e não têm lembraças de um mundo sem celulares.org/index. produzindo uma nova forma de cultural global.revistas. 29 ALLEGRETTI. a jornalista Allegretti (2016) expõe o caso das escolas que precisam incorporar nos planos educacionais. Walter Thompson. Sabendo disso. 28 Termo adotado com frequência para designar os jovens nascidos entre 1990 e 2010. música e internet. ligeiramente atordoados. A aula magna do Pedro II deste ano foi sobre o tema. Desta forma. logo são extremamente conectados às tecnologias e são extremamente comunicativos. tentam acompanhar o ritmo das mudanças. percebo que o crescimento da cena drag teve um grande amparo nas desconstruções de gênero e sexualidade que os jovens da geração Z28 vivenciam. em São Paulo. nunca foi tão normal ser diferente. Diferentemente de seus pais. O ―Z‖ vem de ―zapping‖. termo em inglês que usado para telespectadores que mudam de canal televisivo constantemente. Disponível em: <http://veja. p. 76% dos jovens brasileiros não se importam com a orientação sexual de outros e 82% concordam que as pessoas deveriam explorar mais sua própria sexualidade. Acesso em: 06 jun 2016.abril.univerciencia. 9): As narrativas e as imagens veiculadas pela mídia fornecem os símbolos. sentem-se à vontade quando ligam ao mesmo tempo a televisão. Os sujeitos que participam ativamente da cena drag. Esse comportamento começa afetar diretamente produtos e serviços destinados a essa geração. 52 vivencia um momento de deslocamentos de identidades e a mídia pop está profundamente enraizada no processo de identificação destes sujeitos. os mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje. o rádio. No Bandeirantes. o telefone.br/ciencia/amigues-para-sempre/>. Amigues para Sempre. Os adultos.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/view/5293/4848>. De acordo com uma pesquisa 29 da agência de publicidade J. Em uma reportagem para o site da revista Veja. Acesso em: 15 maio 2016.com. pensando nela como uma maneira que moldamos nossas identidades. De acordo com Kellner (ibidem. o debate sobre gênero e sexualidade a fim de atender às demandas dos alunos: Para esses jovens na faixa de 15 anos. é preciso olhar de forma crítica o que Kellner (2001) chama de ―cultura da mídia‖ na atualidade. bissexualidade e pansexualidade. Fernanda. VEJA. A cultura veiculada pela mídia fornece o material que cria as identidades pelas quais os indivíduos se inserem nas sociedades tecnocapitalistas contemporâneas. um grupo de discussão batizado de Bandiversidade reúne alunos para falar sobre homossexualidade. discutir a diversidade de gênero virou assunto obrigatório.

constantemente abreviadas no programa pela sigla C. logo se tornou sucesso do canal de TV voltado para o público LGBTQIA. Embora tenha mantido praticamente o mesmo formato com o passar das temporadas o objetivo inicial de encontrar a sucessora de RuPaul acabou perdendo o sentindo. a exemplo das americanas.‖(tradução nossa).logotv. coragem e talento (ou em inglês. o programa era uma ―escola para garotas.T. Adore Delano 33. sendo que no ano seguinte o legado deixado por ela era passado para sua sucessora. 30 Drag U foi uma série spin-off de RuPaul‘s Drag Race. Segundo o site da LOGO TV. duas séries derivadas – Drag U30 e RuPaul‘s Drag Race All Stars31 – e um programa paralelo que mostra as competidoras interagindo nos bastidores do episódio principal de cada temporada. é perceptível o aumento exponencial de outros artistas drags que começam a fazer sucesso na cultura midática. saídas do próprio programa. uniqueness. onde mulheres biológicas passavam por extremas transformações no estilo drag queen. que teve o ponto alto de sua carreira nos anos 1990. 31 RuPaul‘s Drag Race All Stars é um reality que mantém a mesma estrutura do programa original onde as participantes são ex-competidoras que se destacaram no original. que hoje emplacam suas carreiras como cantoras drags e lotam boates com suas apresentações mundo afora. nerve e talent. não era esperado que o reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ tivesse vida longa. 32 Partindo do conceito proposto por Jenkins (2008. visto que anualmente era coroada uma nova drag superstar. 2016. onde ex-participantes do programa original ajudavam a fazer transformações em mulheres biológicas. A primeira temporada foi exibida em 2012 e a segunda temporada estreou em agosto de 2016. adotamos neste artigo a franquia pop como uma marca que se torna rentável mercadologicamente. estabelecendo um recorde entre as cantoras drag que tinham entrado para as listas .N. p.com/shows/rupauls-drag-u>. porém acabaram não ganhando o grande prêmio. singularidade. visibiliza a cena drag em todo o mundo e gera adeptos para uma nova geração de consumidores desta cultura. 53 Quando estreou em 2009. Apresentado por uma das drag queens mais famosas do mundo.‖.U. RuPaul. capaz de produzir diversos produtos (sendo eles midiáticos ou não) e gerar engajamento de um grupo de pessoas em torno deste nome. Segundo ela. entretanto. O sucesso do programa. por exemplo). que ―o termo franquia começou a assumir um significado cultural e passou a ser usado para descrever tanto os processos de propriedade intelectual corporativa quanto à gestão das formas culturais serializados que dela resultam (linhas de produtos como a franquia Star Trek ou a franquia Star Wars. De acordo com Massarolo e Alvarenga (2010). charisma. 45) de franquia como ―empenho coordenado em imprimir uma marca e um mercado a conteúdos ficcionais‖. 33 O álbum de estreia de Adore Delano ―Till Death Do Us a Party‖ chegou ao 3º lugar na categoria de ―Dance/eletronic Albums‖. O programa.). A partir do encantamento gerado. Disponível em: <http://www. para se tornar uma surperestrela a drag deve possuir quatro características fundamentais: carisma. O reality então passou a adotar o conceito de ―reinado‖ anual para cada uma das campeãs. Acesso em: 21 jun. a Logo TV e hoje acumula oito temporadas. Sharon Needles34 e Alaska Thunderfuck 35. o programa buscava a sucessora da apresentadora no posto da drag superestrela dos Estados Unidos. foi a partir da década de 1980. transformado em franquia pop32.

tradução nossa) Entretanto. . Porque eu preciso vender para você algumas cervejas e shampoos e você precisa se apegar ao que você é. 2016. Disponível em: <http://www. 2016. 2016. Ao abordar personagens que foram afastadas da sociedade.go. Acesso em: 4 out. Na entrevista supracitada. Seu segundo lançamento ―Taxidermy‖. Acesso em: 03 jul. então eu saberei como vender isso para você‘. 11). mainstream é ―a produção de bens culturais criados sob a égide do capitalismo tardio e cognitivo que ocupa lugar de destaque dentro dos circuitos de consumo midiático‖. Passo então a compreender a drag como um produto midiático a partir do momento que se torna agente dentro da cultura de entretenimento com orientações econômicas marcadas pela lógica do capital. O telespectador cria um sentimento de pertencimento. A matrix diz ‗escolha uma identidade e se apegue a ela. Disponível em: <http://www. Acesso em: 03 jul. Drag é o oposto.com/Entertainment/rupaul-rupauls-drag-race-mainstream/story?id=39075322>. criamos um laço de identificação dentro das narrativas individuais e acabamos por projetar nossas próprias vivências nos relatos dos personagens. Disponível em: <http://www. o que gera a fidelização até 2014. 37 Entrevista concedida ao programa norte-americano Nightline. retorno financeiro e do que Martel (2012) chama de mainstream. Seu segundo álbum ―Afte rParty‖.billboard. não há verdadeiramente uma abertura midiática para entender e expor a complexidade do que é a drag. 2016. Eu não acho que o programa poderá ser mainstream algum dia porque drag é a antítese da matrix. 34-46). p.billboard. com o seu debut ―Anus‖ em 2015.billboard. 2006. ficou em 1º lugar na mesma lista em 2016. a cultura midiática se apropria da drag queen como produto para satisfazer os desejos do sujeito pós-moderno que tem sua identidade de gênero descentralizada e fluida. que precisaram trilhar um caminho difícil para serem reconhecidos através da arte e expondo suas histórias de vida. abalada por inúmeros movimentos e revoluções socioculturais do século XX (HALL. é inegável que o reality show é extremamente popular. chegou ao 11º lugar em 2015. em diversas entrevistas 37 RuPaul nega esse caráter do programa ao salientar que mesmo com todo o espaço que a cultura drag vem recebendo da mídia a partir do programa. 54 Nesse contexto. Acesso em: 03 jul. Disponível em: <http://abcnews. Drag diz que a identidade é uma piada. RuPaul explica a popularidade do programa devido à essência de sua narrativa. (RUPAUL. 36 Para Martel (2012.com/artist/6114465/adore-delano/chart?f=322>. 34 Sharon Needles lançou seu primeiro álbum ―PG-13‖ em 2013 e chegou a ficar em 9º lugar na lista de Dance/Eletronic Albums. 36 Embora pense ―RuPaul‘s Drag Race‖ como um produto mainstream dentro da cultura pop nos moldes de Martel (2012). Eu acho que eu não tenho sido aceito nos meios de comunicação mainstream como o ‗The Tonight Show‘ ou ‗Ellen‘ ou os programas de entrevista que passam tarde da noite porque a única forma que eles poderiam realmente ter uma conversa comigo é fazendo graça de mim ou fazendo piadas sobre o que eu faço. 35 Alaska Thunderfuck emplacou na lista ―Dance/Eletronic Albums‖ da Billboard em 3º lugar. 2016. p. da emissora ABC. basicamente sobre a tenacidade do espírito humano.com/artist/6604293/alaska-thunderfuck/chart?f=322>.com/artist/6114465/adore-delano/chart?f=322>.

C em 1994 O fenômeno em torno do reality cria uma nova demanda do público e na cultura midiática. Como produto mainstream dentro de um grupo específico. Fig.A. é algo que ele assiste por se identificar com o que é mostrado. como músicas. da marca canadense M. Campanha estrelada pela drag queen RuPaul para a marca de cosméticos M.C. 11. RuPaul estabelece padrões baseados em sua visão do que é ser uma drag completa. seriados etc. com potencial para se tornar uma superestrela.A. estilos e possibilidades que pode assumir. ao longo das oito temporadas do reality é perceptível observar o que chamo de higienização e padronização da arte drag através das escolhas das vencedoras dos desafios propostos nos episódios. Todavia. da mesma forma que ela se tornara nos anos 1990 quando assumiu o título supermodelo ao ser a primeira drag a estrelar uma campanha mainstream de cosméticos. filmes. podemos ressaltar que o interesse obriga a criação de novas produções culturais da cena drag que venham atender a este interesse. a cultura drag potencializada e vendida pelo reality ―RuPaul‘s Drag Race‖ atinge os sujeitos já deslocados da ideia da identidade unificada encontram na arte drag uma forma de exprimir suas vivências de gênero e sexualidades. Para julgar o desempenho das competidoras. 55 do consumo deste produto: em vez de ser um simples programa de entretenimento. ao mesmo tempo em que o programa se propõe a apresentar a cultura drag ao mundo mainstream. A construção de identidades pós-modernas através da mídia . com as diferentes vertentes.

os fatores históricos. como cinema e literatura. celebrando valores dominantes. afetivos e sociais particulares também podem afetar na percepção de recepção destas informações. 212). também é um espaço transgressor que abre brechas e dobras. dando assim.‖ Por se tratar de um local onde há fortemente o uso da imagem para formar um imaginário coletivo.‖ (ibidem.) a indivíduos dentro da sociedade. imaginários. Percebendo o reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ como um lócus da cultura pop que desconstrói conceitos a respeito da performatividade drag e as visibiliza dentro da cultura midiática. fazemos uma ponte com os apontamentos feitos por Kellner (2001. lugar de sujeito-ação ao espectador diante da interpretação das imagens. re/cria novos corpos. etc). é possível comparar o ―RuPaul‘s Drag Race‖ com o cinema nas suas possibilidades de transgressão. atuando no processo da ―imagenação‖ destes valores e códigos. oferecendo modelos de pensamento. valor. desempenham ―papel fundamental na reestruturação da identidade contemporânea e na conformação de pensamentos e comportamentos‖. p. arrebata desejos. Kellner (ibidem. comportamento e sexo para imitação.. 1994). É imprescindível afirmar que este mesmo cinema que orienta e esquadrinha. define e conceitua. Parto do pressuposto que estes discursos ideológicos das imagens terão significados subjetivos e individuais. que influencia a geração tecnológica. 304) acredita que a tecnologia exerce uma função que tradicionalmente era atribuída ao mito e ao ritual: ―integrar os indivíduos numa ordem social. A partir da tese defendida por Lauretis (1994) de que os discursos artísticos. re/apropriando novos . p. sexos. especialmente no que diz respeito às identidades de gênero e vivências de sexualidade. que provoca e possibilita liberdades individuais e coletivas. p. contribuem para perpetuar as diferenças estereotipadas consideradas inatas para diferenciar masculino e feminino. No entanto. embora sejam estes também construídos por uma afirmação coletiva patriarcal. fluida no seu desejo e vivência de gênero. assim como outras plataformas de cultura da mídia. Ao argumentar que a televisão. precisamos entender como os programas que trazem as drags como personagens políticos se tornam uma tecnologia de gênero e dispositivos discursivos (LAURETIS. podemos classificar o discurso produzido pelo programa como uma tecnologia de gênero que vai compor práticas discursivas em relação às novas forças de significação que atribuem ―significado (identidade. 56 Para compreender como a presença de drag queens na televisão influenciam a construção identitária do público.. prestígio. gêneros e trans/forma pensamentos e afetos em imagens. 304) ao analisar a forma que programas populares de televisão funcionam ao ―oferecer modelos de identificação no mundo contemporâneo‖.

Se substituirmos a palavra ideologia pela palavra gênero. A repetição do discurso do reality show cria uma nova realidade para seu público que. (NEPOMUCENO. Essas duplicidades dão indícios da artificialidade da identidade. 57 significados e novos processos de subjetivação. 310-311). é construída teatralmente pela representação e papeis e pela construção de imagens. p. p. (BUTLER. a afirmação ainda funciona. 72) A ideologia38 propagada pelo programa atinge os sujeitos e a drag surge como um agente que empurra em diferentes direções as identidades já confrontadas pela multiplicidade de ―sistemas de significação e representação cultural‖ (HALL. reais nem aparentes. então. encontra-se a enfática afirmação de que ‗toda ideologia tem a função (que a define) de constituir indivíduos concretos em sujeitos‘ (p. 2012. 304-317) analisa determinados personagens do programa cuja instabilidade de identidades seria um sintoma de uma intrínseca artificialidade. estilo e comportamento. Para Kellner (ibidem. 2006. 171).] Continuando a ler Althusser. de que a identidade é construída e não dada. passando a questionar suas realidades. 2010. Também indica que a identidade é um jogo que se joga. e vista como um efeito da ideologia de gênero. p. Althusser estava também descrevendo. (ibidem.‖ . Ao analisar o seriado norte-americano ―Miami Vice‖ (1984 – 1990) como exemplo de dispositivo midiático pós-moderno capaz de criar um pathos identitário no público. projeta de forma bastante específica modelos de papeis sexuais e sociais. originais nem derivados. na imagem e no consumo. a meu ver.. p. como parte da estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as possibilidades performativas de proliferação das configurações de gênero fora das estruturas restritas da dominação masculinista e da heterossexualidade compulsória. assim como 38 Lauretis (1994. de que é uma questão de escolha. já propenso aos deslocamentos propostos pelo programa. se torna autoconsciente sua própria performance de gênero. p. e sim a relação imaginária daqueles indivíduos com as relações reais em que vivem‘ e que lhes governam a existência. É exatamente nessa mudança que a relação entre gênero e ideologia pode ser vista. [. Enquanto o lugar da identidade moderna girava em torno da profissão e da função na espera pública (ou familiar). como materialização da cultura da mídia. O fato de a realidade do gênero ser criada mediante performatividade sociais contínuas significa que as próprias noções de sexo essencial e de masculinidade ou feminilidade verdadeiras ou permanentes também são construídas. Kellner (2001. p. que é possível trocá-la facilmente. a identidade pós-moderna gira em torno do lazer e está centrada na aparência. 13). Os gêneros não podem ser verdadeiros nem falsos. e não uma qualidade moral ou psicológica intrínseca. p. 201). com uma leve mudança dos termos: o gênero tem a função (que o define) de constituir indivíduos concretos em homens e mulheres. o funcionamento do gênero. 212-213) discute o conceito de ideologia a partir dos apontamentos feitos por Althusser (1971): ―Ao afirmar que a ideologia representa ‗não o sistema de relações que governam a existência de indivíduos. 308) o seriado. A identidade pós-moderna..

inclusive as que dizem respeito às questões de gênero. Produzida por Rhys Ernst. com a cantora Liniker embaçando as fronteiras entre homem e mulher39. de outro. Kellner (2001. [. . Astros como os policias de Miami Vice ou certas megaestrelas como 39 A cantora. Tal paradigma está diretamente relacionado ao conceito de cultura pop. Acesso em: 30 jun. ―imagens de uma sociedade próspera. ―RuPaul‘s Drag Race‖ coloca o público em contato com os bastidores do estilo de vida da drag queen e através da projeção de imagens (no caso do seriado analisado por Kellner. o modo como os produtos pops servem para demarcar experiências diferenciadas através de produtos midiáticas. a personagem principal Maura é uma mulher trans em processo de transição de gênero. a produção massiva. Acesso em: 30 jun. Disponível em: <http://emais. com suas imagens. 45): Como uma membrana elástica.. 312) enxerga um reflexo do que seria um dos aspectos mais proeminentes da pós-modernidade: a derrocada do ideal de uma identidade natural. ou na televisão. centrada e única em decorrência de um novo modelo onde o indivíduo fabrica suas identidades de forma efêmera e fragmentada.] A identidade na sociedade contemporânea é cada vez mais mediada pela mídia que. incorpora à sua performance elementos considerados femininos como batom e saia. 2016. p. p.10000056719>.. consumista e tecnológica‖) positivas sobre a arte da montação drag e convida os espectadores a se identificar com um estilo de vida.eu-posso-ser-uma-mulher-de-barba-que-usa- batom. A partir da análise de um seriado de TV. um homem trans. Transparent já recebeu diversos prêmios. músicas e quadrinhos. a cultura pop é palco para as transformações propostas pela Geração Z. Disponível em:<http://oglobo.globo. A compreensão inicial desses fenômenos como pop já atestava uma das contradições adensadas dessas vivencias culturais: de um lado seu aspecto serial. Enquanto ―Miami Vice‖ reproduz ―imagens de riqueza e alto nível de consumo‖ fazendo com o que o espectador inveje o estilo de vida dos personagens. declarou Liniker. 40 Na série. Kellner (2001. que nem por isso deixam de ser ‗populares‘.com. Dentro desta perspectiva. p. 316-317) conclui: Essa análise levaria a crer que aquilo que se pode chamar de identidade pós- moderna é uma extensão das identidades múltiplas livremente escolhidas do eu moderno que aceita e afirma uma condição instável e rapidamente mutável. seja na música.com/cultura/revista-da-tv/transparent-serie-multipremiada-que-nao-exibida-no-brasil- 18825306>. que pode ser lida socialmente como homem.br/noticias/moda-beleza. Verificam-se exemplos nas mais diversas plataformas. com seriados como Transparent pautando os anseios da população trans40. raça e classe usuais no panorama típico da mídia e da televisão‖.estadao. fornece moldes e ideais para a modelagem da identidade pessoa. o pop remodela e reconfigura a própria ideia de cultura popular ao fazer propagar através da cultura midiática expressões culturais de ordem diversas como filmes. 2016. 58 ―posições de sujeitos bastante diferentes das imagens de sexo. seriados. Segundo Janotti Junior (2015. ―Eu tirei o gênero da minha vida‖.

em especial pelo programa ―RuPaul‘s Drag Race‖. são as celebridades pop. o aparato pelo qual se dá o nascimento do que chamarei de drag queens pós-modernas. O sucesso do programa e esse apelo com o público expõe. mas existem as ―personas‖ dos palcos comuns. no cotidiano de quem assume este lugar muito mais do que entretenimento. nas festas. mas um ato político de contestação de gênero. então. propagada pela força da produção midiática. Estas estão nas cenas culturais. principalmente nas ruas. na TV. . na internet. 59 Michael Jackson ou Madonna também constituem modelos de identidade por meio da construção de uma aparência. É o que exponho no capítulo de análise a seguir. na publicidade. a arte drag possui importância central. de uma imagem e de um modelo de ser. Nesse cenário.

” (Sharon Needles) .3 “Há novas meninas glamurosas na cidade”: o território e as drag queens pós-modernas “I know there’s weirdos out there that need people like me.

uma matéria sobre jovens que cada vez mais se especializam na arte e pretendem seguir carreira como drag (http://www. precisassem se adaptar às novas políticas sociais do grupo em questão.diariodepernambuco. a notoriedade que a arte drag vem ganhando na cultura mainstream e dentro do próprio meio LGBTQIA tem muito a ver com a popularidade do reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖. o reality provocou o gosto das massas numa aposta ao interesse tipicamente popular pela fantasia.br/app/noticia/diversao-e- arte/2013/07/14/interna_diversao_arte. Em outras épocas as drag queens ofereciam entretenimento que fugia do esperado pelo grande público. no Correio Braziliense. passando a usar gênero e sexualidade como formas de resistência. olhar para bons comediantes que ou estavam nos palcos dos teatros ou nas performances ―bate-cabelo‖41 das boates e dos guetos. entretanto.com. intencionalmente ou não. Hoje a cena drag está repleta de matérias positivas na mídia 42. Olhar a cena drag de uma grande cidade brasileira era até alguns anos atrás.shtml). Selecionamos algumas que podem ser encontradas online para exemplificar: na versão online do jornal Diário de Pernambuco. seja jogado de um lado para outro na cabeça. na Folha Online. Isto quer dizer que. foi publicada uma matéria sobre a ―Parada da Diversidade‖ e a relação com as artistas drags(http://www. uma matéria sobre um curso de drag queens ministrado pelo Sesc de forma gratuita. 61 Usualmente quando falamos de drag queens ainda pensamos em apresentações de dublagem em bares e boates.uol. E ao produzir celebridades que por momentos aparecem ―desmascaradas‖ do artifício drag. .376898/mercado-de-drags-do-df-renova-se-com-jovens-que-querem seguir-carreira.br/ilustrada/2015/12/1723089-expansao-do-universo-de-drag-queens-gera-serie- filme-e-curso-gratuito-em-sp. além de exigir que muitas destas já existentes. suspenso no ar.br/app/noticia/viver/2015/09/19/internas_viver.folha.com. [. Entretanto. O ―bate cabelo‖ é uma das características principais dos shows de drag queens mais antigas da cena brasileira. em São Paulo (http://www1. se tornando artistas com pouco alcance e visibilidade dentro das tessituras culturais de uma cidade. O fenômeno midiático em torno do reality modificou a forma como os telespectadores que frequentam as cenas culturais de suas cidades ocupam os espaços públicos. além de gerar personalidades que viraram micro celebridades e uma produção permanente desta cultura no cenário jovem. eles também querem fazer parte do movimento. Essa mudança no comportamento do público deu origem a uma nova configuração dos espaços e criou uma demanda de festas que nasceram junto com a nova cena drag.shtml).correiobraziliense.598762/parada-da- diversidade-luta-por-direitos-e-vitrine-para-artistas-locais.shtml). Os fãs do programa. sendo essa estética cada vez mais deixada de lado pelas artistas mais contemporâneas que seguem cada vez mais a estética drag disseminada pelo programa ―RuPaul‘s Drag Race‖.] Se antes as 41 Momento do show de uma drag queen que ela gira a cabeça freneticamente fazendo com que o cabelo. nos últimos anos. as torna mais humanas. que acaba por dar invisibilidade a determinadas formas de preconceito.. principalmente naqueles voltados ao público LGBTQIA. 42 Cada vez mais é possível ver matérias sobre drag queens e a cultura drag nos meios de comunicação. como Marcia Pantera (SP). não apenas admiram as drag queens.. até mesmo os mais tradicionais como o jornal. Acessos em: 15 maio 2016.com. estabelece uma relação de identificação.

. um estudante de 21 anos do Leblon que faz sucesso na noite do Rio. João costuma transitar entre duas estéticas: a club kid. Nova geração de drag queens toma conta da noite carioca.] As drags barbadas são muitas — e a graça. como também compactuar com as personagens drags midiáticas em ascensão. inspiradas pelo imaginário artístico trazido pelo programa até suas casas. por exemplo. 2016. até bicho. elas não param por aí. após o boom do reality show no país. iGay. Literalmente. são as real queens — mulheres que se montam. 2016) 43 Reality show americano inspira nova geração de drag queens no Brasil.com. cartunescos. e a tranimal. na maioria das vezes. p. M. planta. com visuais surrealistas.html>. E. por exemplo. mais bonita é a drag.] Outra categoria. entretanto. Entretanto. Disponível em: <http://oglobo. Nas grandes metrópoles do país todos os finais de semana ―nascem‖ novas drags. criatura alienígena. 44 MEIRELES. durante o dia trabalha no gabinete de um vereador e.ig. Basta ver a história de João Tapioca. vira o diabo..globo. Não há mais regras. Disponível em: <http://igay. [. 3) Em todo o Brasil observamos aumentar.. A internet. (CANEDO et al. com referências de outras espécies. (MEIRELLES. 62 poucas (quase) celebridades drags eram meras coadjuvantes dos risíveis espetáculos de humor. a Sirena Signus. exercer a ludicidade nos jogos das identidades de gênero. 16/11/2016.. [. Sua drag se chama Azazel e é um anjo caído de 10 mil anos que está de visita neste planeta. ainda que com algumas ressalvas. . difere das que as gerações mais velhas estão acostumadas a ver: saem as piadas e entra a militância revestida de glitter e cola. uma matéria do site O Globo 44 expõe as diferenças na estilística das drags da cidade: Ursula Mon-Amourr. A nova drag queen. É o caso de Marcela Campos. Drag pode ser o que quiser. representa a tribo das drags barbadas e peludas. Acesso em: 18 out. permite que as possibilidades do mundo drag se tornem ilimitadas. RuPaul‘s Drag Race puxou o gatilho para toda uma virada iconográfica que as recoloca enquanto sujeitos em ascensão. Economista. A estilista é uma das pioneiras do movimento no Rio. O Globo. 08/02/1016. objeto. Sobre a cena do Rio de Janeiro. a drag queen carioca Ravena Creole afirma: ―Essa geração vem desmitificando a ideia de que quanto mais feminina. figurino e colocar em contato artistas de todas as cidades do país. durante a noite. 2015. Em entrevista ao site iGay43. punk. 27 anos. como meio fundamental para difundir informações sobre maquiagem. dizem. Mas sempre com um ar meio diabólico. apesar das drags pós-modernas nascerem. todos os estilos são bem-vindos‖. 2016.br/2016-02-08/reality-show-americano-inspira-nova-geracao-de-drag-queens-no- brasil. assim. é justamente borrar a fronteira entre homem e mulher.. sem uma preocupação de desempenho profissional mas. Mas drag não precisa ser feminina? Não necessariamente. Acesso em: 18 out. inspiradas em RuPaul. Ela é a personagem de João Marinho. o número de jovens interessados em se ―montar‖ como drag queen. pregar a liberdade.com/sociedade/nova-geracao-de-drag-queens-toma-conta-da-noite-carioca-18044858>.

Outra produtora recifense que também já produziu alguns eventos com drags internacionais foi a Golarolê. Recife é capital do estado de Pernambuco. Nessa tessitura da cultura pop. Alyssa Edwards e Tatianna. p. circular por aqueles espaços parece nos legar a premissa de que. somos ―cidadãos do mundo‖. Shangela e Katya. no território desta pesquisa a expansão da cena drag também é possibilitada pela difusão do reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ a partir do momento que ―os sujeitos dentro do contexto da cultura pop negociam. o que me possibilitou uma maior proximidade com os interlocutores desta pesquisa. de alguma forma. buscamos fazer parte de um grupo e os locais que estes grupos ocupam também são importantes na construção do ―eu‖ e encontramos na cena. ressaltamos aqui que. neste caso drag. Chi Chi DeVayne. interação e instrução. a cidade que brilha Localizada na região Nordeste. como acesso aos territórios analisados.‖ 46 A boate Metrópole já trouxe diversas drags do programa para se apresentar em Recife. escolhemos a cidade do Recife para a pesquisa por ser um território que desponta no cenário drag com promoção de festas e público variado. o território é importante para pensar não somente o imaginário da geografia de uma cidade pop45. 63 Assim como no Rio de Janeiro. . além de ser uma das únicas cidades do Nordeste a trazer as drags do programa de RuPaul para apresentações46. Como já dito na apresentação deste trabalho. traduzir o senso cosmopolita: percebamos o quanto a cidade de Nova York aciona um imaginário permeado pela Cultura Pop. uma frequentadora das festas específicas nesta temática. Yara Sofia. que trouxe Raja Gemini. num certo senso de estar no ―centro do mundo‖ ao transitar pela Broadway. se apropriam de artefatos e textos culturais ressignificando suas experiências‖ (SOARES. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Seja em espaços excessivamente fotografados e documentados como a Times Square. Além dessas questões. Adore Delano. dentro da minha abordagem etnográfica para realização desta análise. Kim Chi. 28) descreve esse imaginário como um legado deixado pela cultura pop. Recife passa a ser palco das minhas interpretações pessoais como drag queen – Maddie Killa – e por ser eu. entrevistas das participantes bem como acesso ao background destas festas para observações e informações adicionais. com todas as peças musicais em cartaz ou mesmo de estar em locais que já foram excessivamente filmados e exibidos nos cinemas ou na televisão. “Go back to party city”: Recife. Confrontados com intermináveis possibilidades identitárias. 2015. 22). como Sharon Needles. p. mas do pertencimento que buscamos enquanto sujeitos construtores de nossas identidades. uma infraestrutura para troca. de alguma forma. vivemos de forma comum atrelados a outros sujeitos também situados em outras partes do mundo. Recife é a quarta mais populosa 45 Soares (2015. cidades e contextos que parecem. dando destaque especial à música pop: ―Descortina-se o fascínio que a música pop nos lega diante de espaços. pertencemos.

estadao. se torna impossível dissociar a cidade de suas cenas e atores culturais. sendo a primeira colocada entre as capitais do Nordeste e atrás de grandes metrópoles como São Paulo.ibge. p. Falar de Recife é falar de um pouco da história cultural do país ou.‖ (ibidem. 12-13) Neste contexto. me aproprio dos 47 NUNES LEAL. Porto Alegre e Belo Horizonte. da produção da cena cultural LGBTQIA. que nos ajuda a mapear o território de uma cidade enquanto aponta para atividades as quais não relacionaríamos com o território facilmente. p. L.gov. Para Straw (2013. BH e Recife. conhecido como o ―pai da dramaturgia brasileira‖. Rio de Janeiro.P. portanto surgindo ―a partir dos excessos de sociabilidade que rodeiam a busca de interesses. a cena é primordial para entender o território como um lugar ―habitado socialmente e no qual as ações humanas produziam modificações fundamentais. 2013.php?coduf=0&codv=V06&dir=desc&idtema=134&lista=CAP ITAIS&order=dado#>. com 3. Após São Paulo.‖ (AGUIAR. 12) a ―as cenas adquirem a sua efervescência a partir da noção de que a ―informação‖ produzida dentro delas sempre constitui um excesso‖. para que se faça clara a compreensão da ―dimensão espacial da sociedade. p. como o dramaturgo Nelson Rodrigues. (STRAW. locais onde se dão a (des)construção e atuação das nossas personagens analisadas: as drag queens recifenses. 2014). como nos desdobramos nesta pesquisa. . 64 concentração urbana do Brasil47.br/comparamun/compara. 13). O Estado de S. a cena pode ser definida como um meio de falar da teatralidade da cidade – da capacidade que a cidade tem para gerar imagens de pessoas ocupando o espaço público de formas atraentes. especificamente das festas em boates e bares da cidade. o conceito de território se desloca do seu âmbito original geográfico e passa a ser apropriado pela sociologia. Disponível em: <http://brasil.com.‖ Pensando pelo viés sociológico. A cidade desponta no cenário nacional tanto pelos seus índices de desenvolvimento quanto por sua conhecida contribuição à cultural popular brasileira.br/noticias/geral.1657203>. Nesse aspecto. Acesso em 15 out. ou que fomenta a inovação e a experimentação contínuas na vida cultural das cidades. Além de designar um conjunto de atividade social e cultural. faz-se necessário recorrer ao conceito de cena cultural de Straw (2013).. Para entender a cultura de festas e expressões artísticas em torno da comunidade de drag queens de Recife. em 2012. a cena captura o sentido da efervescência e exposição que são as características consagradas de uma estética urbana. e de ritmos musicais marcantes como o frevo. Acesso em 15 out.apos-sao-paulo-maiores- concentracoes-sao-rio-bh-e-recife. símbolo do carnaval da região. Pensando desta maneira. maiores concentrações são Rio. Recife está em 11º no ranking do produto interno bruto das capitais brasileiras. Disponível em: <http://cidades. e está entre as quinze capitais com maiores índices de PIB do país 48. 48 De acordo com dados da pesquisa mais recente feita pelo IBGE. Berço de grandes artistas. 25/03/2015. 2016. São Paulo. 2016.7 milhões de habitantes.

. principalmente nas voltadas ao público LGTBQIA. de forma que não seria justo colocar todas em um mesmo nível e estabelecer um paralelo quantitativo sobre a presença das drag queens. o coletivo de drag queens mulheres ―Riot Queens‖. como a internet. oficialmente. estas localizadas na Zona Sul da cidade. Maledita: Criada em 2011. que existe virtualmente. Apesar de nem todas estarem próximas geograficamente. Como por exemplo. territórios que as drag queens costumam frequentar como público e trabalhar. com artistas de São Paulo. Acesso em: 17 out. É importante. De forma a ilustrar a cena drag de Recife e compreender as tessituras urbanas que moldam a cidade e como se comportam seus atores culturais. A territorialidade se torna flutuante quando analisamos a questão de forma mais ampla e inserimos artifícios de conexão entre indivíduos. criada em 2011. Porém. em um contexto completamente diferente da cidade e de como se davam as performances identitárias do ser gay na noite.com/riotqueens/>. 49 É possível usar o conceito de ―cena drag‖ para agrupar indivíduos de diversas formas. 2016. A primeira edição da Maledita a ter. busco recortar o território por meio das festas. 65 conceitos propostos por Straw (2013) e Aguiar (2014) e forjo o conceito da ―cena drag‖ associada a um grupo de atores culturais conectados por identidades compartilhadas 49.facebook. Como exemplo podemos citar a cena drag formada pelas mulheres que fazem drag queen no Brasil. palco das interações entre as drag queens e da maioria de suas apresentações. Embora a noção do grupo seja forjada em conjunção com o conceito de territorialidade espacial. Rio de Janeiro e João Pessoa. Como exemplo da discrepância histórica das festas frequentadas por drags posso citar a Maledita. embora tenha havido algumas edições mais recentes em outras boates como a San Sebastian e Estelita. entretanto. em uma análise mais aprofundada foi possível perceber que embora haja quantidade de locais ―drag friendly‖ muitos dessas festas estão inscritas em diferentes tessituras históricas do desenvolvimento da cena noturna da cidade. a Maledita é uma festa realizada pela produtora de eventos Golarolê e acontece em um final de semana de cada mês trazendo sempre diferentes temáticas relacionadas à cultura pop. mas ocasionalmente se encontram para performances conjuntas. nada as impede de se agruparem por interesses em comum e formarem uma cena com suas características próprias. podemos fazer recortes não apenas no que concerne à identidade do lugar. contextualizar os dados encontrados acerca da ocupação do território pelas drags de Recife e para isso irei rapidamente citar algumas das principais festas destinadas ao público LGTBQIA. Durante a coleta de dados para esta pesquisa me deparei com uma grande quantidade de festas e locais inscritos na cena. Disponível em: <https://www. a temática drag queen foi a edição de abril de 2014. cujo tema era ―RuPaul‘s Drag Race‖. mas também ao gênero e à estilística drag. em um contexto completamente diferente no que se diz respeito às performatividades de gênero e sexualidade. 1. Grande parte das edições foi realizada nas casas de show Vapor 48 e Catamaran. no bairro São José – considerado o ―centro da cidade‖ –.

quatro ex-participantes do reality show já se apresentaram na Maledita e algumas drags locais tocaram em edições da festa. aberto a novas experiências da sexualidade e de gênero. Talvez por ser sempre temática. a Aloha é uma festa open bar que ocorre a cada dois meses em diferentes casas noturnas da cidade. a festa é uma das mais divertidas. 3. De acordo com Erick e Thomas. Ela acontece em vários bares na cidade. a festa atraiu as drags e hoje elas são presença garantida nas edições. e tem feito sucesso na noite recifense. 2. 5. r&b e hip hop. onde elas podem ousar no look e dar vazão à criatividade na hora das montações. Surgida em 2014 e comandada pelos residentes Pepa Puke e Teen Maya. que traz um lineup composto não apenas por DJs profissionais: a festa costuma dar oportunidade para os próprios frequentadores. de Nuno Pires e Orlando Dantas. Também não tem local fixo para acontecer e o perfil de público contenta mais adolescentes e jovens. com nível escolar superior e pertencente a uma classe média alta. não fixos. Com uma estética bem definida – o preto e branco se faz presente nos flyers e nas fotos de todas as edições – a festa faz parte do roteiro das drags. já que costumam abrir espaço para performances e escalar muitas delas como DJs. com o mesmo perfil de público dos frequentadores da Maledita. A idade também transita entre 20 e 30 anos. A proposta ―queer‖ da festa celebra as subculturas urbanas e não limita o som à música pop. segundo as drags. não gostam muito de determinações fixas das identidades. 66 Embora a cena drag na festa seja pontual. a Fritz surgiu em 2014 convidando o público a se jogar na pista até o amanhecer. não mudou: continua sendo uma festa para os aficionados em cultura pop e músicas como rap. 4. de 20 a 35 anos em média. no bairro da Boa Vista. Por sua proposta de acolhimento à arte. Aloha: Criada pelos DJs Erick Ferreira e Thomas Henry. a festa se tornou uma das favoritas entre as drags da cidade. de classe média alta. se identificam como gays. Fritz: Comandada pelo DJ Vini V. a festa acontece desde então no Santo Bar. É um público mais específico de drags contemporâneas. a festa surge com o intuito de ―enaltecer a arte drag local e trazer novidades ao cenário recifense‖. Na maioria. 99 (lê-se: nine nine): A 99 é uma festa para quem não tem medo de ousar. O público é mais ousado. . para se frequentar na noite. O público que ali frequenta é composto de jovens. Por ser um local onde o público é convidado a abraçar suas ―estranhezas‖. Carola: De 2013 para cá a Carola.

cores e referências da internet. a PAM é criação de Marlon Parente e da drag queen Envy Hoax. como território das subjetividades e lócus das vivências pessoais da fluidez do gênero. A festa chegou em 2014 na cidade e se propõe a ser um espaço de celebração da diversidade. frequentadas por jovens e com muita presença de drags. produzida pela drag queen Envy Hoax e que se parece como um ápice da exaltação da cultura drag dentro da cidade: toda a festa é organizada pensando nas drag queens e só elas fazem parte do lineup (djs. expressão e aceitação. existencial. O público é de classe média. Ela geralmente é realizada no bar Miami Pub. já que desde a produção até o lineup é formado inteiramente por este público específico. no bairro da Boa Vista. Elas também fazem parte do lineup e fazem apresentações incríveis em todas as edições. existe a Monamu. Também são itinerantes. Em meio às sete festas citadas acima. performers e participações especiais) das edições. E de novo. Madonna e Britney. com muitos emojis. A ideia é que as drags idealizem seus looks pensando na temática. sem periodicidade fixa. todas temáticas: Burlesco. Portanto. a Monamu fez sua estreia na noite recifense em novembro de 2015 e desde então foram realizadas quatro edições. com um perfil bem aberto de vivências das sexualidades e de gênero. com o mesmo público da Cool. estudantes e profissionais. funciona com dois objetivos: estudar a potência da cultura de gênero e sexualidade na própria construção do espaço urbano e. Escolhi então esta festa por ser potencializadora da cena drag em comparação com as outras. A festa é a única na cidade feita por e pensando nas drag queens. 67 6. o apelo da cultura pop está sempre presente. a cena drag analisada. Acontece também em locais diversos. a Monamu é palco territorial que abriga as personagens drags que iremos aprofundar o conhecimento sobre suas performances identitárias mais adiante. Neste caso. Segundo o catálogo de festas independentes voltadas para o público . PAM: Apostando na comunicação visual moderna. entre 20 e 30 anos. Monamu: feita por e para drag queens Produzida pela drag queen pernambucana Envy Hoax. Lady Gaga. 7. Cool: Criada por Hugo Neves e Thiago Rocha. desde 2015 a festa ganhou a noite recifense com suas incomparáveis decorações em adequação ao tema proposto na edição.

gerando renda e estimulando a criatividade dessas artistas através de competições de looks e performances. local onde existem quatro bares/boates tradicionalmente frequentadas pelo público LGBTQIA e alternativo. seja uma tentativa de mimetizar as passarelas no reality show de RuPaul. 2016. baseadas no tema proposto em cada edição‖. Fig. O preço 50 Catálogo realizado pelo estudante do curso de designer da Universidade Federal de Pernambuco. onde os looks fazem parte das críticas que as drag queens recebem e afetam diretamente seus desempenhos no programa. . a proposta da Monamu é ―valorizar e dar espaço à arte drag local. Disponível em: <https://issuu. no Bar Brasil. também no bairro da Boa Vista.com/marcelorodjr/docs/pdf_recifeindependente>. no qual as duas melhores receberiam a oportunidade de participar do lineup da edição seguinte. 12. na Rua das Ninfas. Desde sua primeira edição a Monamu chegou com uma proposta especial para as drag queens: um concurso de looks. Para Envy. esta é uma forma de incentivar a criatividade das drags que precisam elaborar seus looks de acordo com o tema da edição que estão concorrendo. com exceção da última edição. Todas as edições da festa foram realizadas no bar/boate Miami Pub. Os dois ambientes ficam localizados no bairro da Boa Vista. Marcelo Rodrigues. que aconteceu em parceria com a festa de música pop ―Carola‖. Flyers das edições já realizadas da festa Monamu. além do flyer da edição especial em conjunto com a festa de música pop ―Carola‖. esta realizada no Bar Brasil. em entrevista a mim concedida. Acesso em: 17 out. 68 LGBTQIA ―Recife Independente‖50. Essa prática. em Recife. talvez.

através de uma plataforma online. . e a segunda na edição seguinte. Miami Pub e Santo Bar. mas fora as atrações principais. sendo que na segunda vez também fiz parte do lineup. um sutiã com glitter. Quando desço do carro que me trouxe até ali. enquanto a festa não começa. R$25 e R$30 na porta da boate e. R$5 e R$10 para quem está montado e enviou antecipadamente o nome para a lista de convidados na fanpage do Facebook. A partir da segunda edição a festa passou a adotar o valor do ingresso das drags para pessoas transexuais que enviaram o nome para a lista de convidados. pude transitar entre as drags com familiaridade. descobri que o apelido ―complexo de entretenimento Maria do Céu‖ foi dado pelo público que habitualmente produz e participa de festas e eventos nas casas. onde observei como se dá construção da performance drag no ambiente. socializam entre si. o que me facilitou o contato e as observações diretas e indiretas. em uma apresentação de lipsync. que procuram diversão. mas fica em torno de R$20 e R$25 se comprado antecipadamente. Em minha experiência de campo com as drag queens da cidade. A primeira ida foi na segunda edição da festa. reproduzindo um dos looks das cantoras-tema. À porta do Miami Pub grupos de jovens. independentemente da idade. uma saia de couro e uma grande peruca cacheada loira. vejo os olhos se direcionarem a 51 Maria do Céu é a empresária e dona dos estabelecimentos Club Metrópole. alguns bebendo. no bairro da Boa Vista. lanches e cigarros nos tabuleiros encontram na multidão que se forma nas ruas mais uma opção de ganhar dinheiro. O chamado ―complexo de entretenimento de Maria do Céu51‖ atrai um público majoritariamente composto por gays. Em ambas fui montada. além de conhecer algumas das pessoas ―não-drags‖ que completavam o público da festa. mas na última o acesso passou a ser gratuito. usando apenas uma jaqueta de couro inteiramente personalizada com spikes e alfinetes. cujo tema era Madonna. vendedores com bebidas. passando a compreender também outros bares das duas ruas citadas. que teve como temática Lady Gaga. o entorno dos locais que são realmente propriedade de Maria do Céu. Também é usado para designar de forma genérica. entre 18 e 30 anos. Participei de duas edições da Monamu. “The best night ever”: uma noite como drag queen Todos os finais de semana o quarteirão compreendido entre a Rua das Ninfas e a Manoel Borba. Por não ser minha primeira aventura dentro da cena drag. 69 dos ingressos da festa varia de edição para edição. é tomado por um grupo de pessoas. Festas acontecem simultaneamente nos três estabelecimentos principais que fazem parte do ―complexo‖. lésbicas e transexuais. como forma de incentivar a participação das drags.

nas duas edições que fui a interação do público que não estava ―montado‖ com as drags e delas entre si mesmas me chamou atenção em dois aspectos: 1. para ―rebolar a bunda‖ como diria o público da festa. Ao meu lado está a produtora da festa e uma das drags mais famosas da cidade. onde a luz era mais intensa e a música mais branda. uma peruca igualmente longa ruiva e mede quase 2 metros de altura com seu salto ―a la Lady Gaga‖ de 25cm. momentaneamente neste caso. as fantasias – e neste caso falo do imaginário e não da montação das drag queens que permeavam o ambiente – eram deixadas para trás e vez ou outra um grupo de amigos se formava nas mesas para conversar amenidades. Poucos foram os casos que observei casais que haviam se formado na pista trazerem a interação para o lounge. Rihanna e outras cantoras pop tocavam. com luzes negras e completamente revestido de espelhos. E essa reclusão talvez seja resultado das ―panelinhas‖ aparentemente intimidantes criadas pelas drags mais famosas da cidade. resultando em pouca interação com as outras drags ali presentes. Eles sabem que a chegada de Envy é sinal que a pista da Monamu está para abrir. Envy. Madonna. O . acena. A nós. o bar. alguns desses afetos não eram transferidos para o exterior – representado. com mesas altas e bancos. pelo primeiro ambiente do Miami Pub. As ―panelinhas‖ drag: Apesar das drags transitarem e interagirem com facilidade com o público. Esse comportamento era muito mais comum de identificar entre as drags menos famosas. Afetos da pista de dança: Na pista de dança todos se misturavam para dançar. A escuridão propiciada pela iluminação da pista parecia um estímulo para as trocas de olhares. entrando em diversos grupos e estabelecendo diálogo com facilidade até com pessoas que não eram seus amigos. percebi que existia no território de afetos da pista de dança uma política implícita de ―panelinhas‖. independentemente do grupo de amigos que os acompanhavam. que usa um vestido longo azul royal. O nosso público sorri. conversa enquanto passamos. o segundo é a pista de dança propriamente dita. seja na pista de dança ou no bar. toques e beijos que aconteciam enquanto os maiores hits de Lady Gaga. Ao sair da pista para comprar bebida. 70 mim. Entretanto. com um pequeno palco elevado onde fica o DJ). Quando não estavam interagindo com o público. algumas drags se ―fechavam‖ no próprio círculo de amigos. Como o Miami Pub é dividido em dois ambientes (o primeiro – onde fica o bar – é como um lounge. talvez as que aquela festa fosse uma de suas primeiras experiências montadas. 2.

Durante toda a noite a pista é animada por DJs. Público e drag queens se misturam e socializam em espaços do ambiente onde ocorre a festa. Na edição de Lady Gaga. na linguagem típica das drags) a música ―Life on Mars‖. é como se o grupo das drags mais famosas representasse tudo o que as novatas gostariam de ser. e na edição de Madonna. são tratadas como verdadeira realeza dentro da escola. mas há um momento de pausa na música frenética para assistir apresentações de algumas drag queens. como no famoso filme ―Meninas Malvadas52‖ (2004). com direito a uma mesa reservada no refeitório e tratamento especial por parte dos outros alunos. Por ser uma festa produzida especialmente para o público drag. de Madonna e Lady 52 O filme retrata uma escola americana em que um grupo de garotas descoladas e populares é idolatrado pelos outros estudantes. As ―the plastics‖ são loiras. eu – como Maddie Killa – performei ―Like a Virgin‖ e ―Til It Happens to You‖. percebi que ela também se organiza de uma forma diferenciada. de David Bowie. que desejam ser e ter tudo que elas são e têm. Envy Hoax performou (se apresentou. tornando-as de alguma forma ―inalcançáveis‖. . Ao trazer esse contexto para a cena drag recifense. 71 relacionamento ali me pareceu quase que uma mimetização dos estereótipos de high school americano perpetuados pela cultura pop. Fig. magras e ricas. Fotos: Kaline Ximenes. 13.

ao voltarmos para casa. notei que as drags costumam performar também na pista de dança. colocando para fora seu lado drag queen. Tanto a minha performance quanto na de Envy tinham apelo emocional. Drags e público comum dominam a pista de dança com suas performances ―não programadas‖ para a noite. 72 Gaga respectivamente. talvez por Lady Gaga – o tema da . 14. Enquanto se divertem. até que como um ―encanto‖ a música frenética do DJ voltou a tocar e todos voltaram ―aos seus lugares‖. no spotlight. 18 de julho de 2016) Fig. gritavam em apoio e entravam no sentimento da performance junto com ela. Na primeira experiência com a Monamu. abraçar ou comentar a apresentação. Além das apresentações programadas para acontecer na festa. Abrimos espaço no meio da pista de dança. alguém que o público da festa conhecia e se identificava. que observou um empenho diferenciado por parte das drags para se adequarem ao tema. Durante o tempo da performance a maior parte do público que estava presente na pista dirigiu sua atenção para à drag queen em destaque. dando piruetas e segurando as notas musicais imaginárias dos falsetes de Ariana Grande. elas promovem entretenimento do público. e no dela por ser uma música interpretada por um cantor que havia recentemente falecido e ter sido um dos grandes representantes da cultura LGBTQIA na mídia. onde o público formou uma meia-lua para assistir às performances. Envy me contou. Fotos: Kaline Ximenes. (Trecho do meu diário etnográfico. Público e artista se mantiveram conectados por alguns minutos. se garantindo na dublagem ou batendo-cabelo. após ambas as performances algumas pessoas – talvez as que se sentiram mais tocadas pelas apresentações – vieram até nós conversar. naquele momento. Também foram diversas as vezes que vi o público não-drag performar suas coreografias e interpretações das músicas. Essas mini-performances acontecem o tempo inteiro durante a festa e provocam o público a interagir com a drag que está. Por este caráter emotivo. O espaço para a performance foi feito no improviso. já que não há palco para apresentações no local. algo além do que ela já havia presenciado em outras festas na cidade. no meu caso por falar sobre a violência contra a mulher.

beirando muitas vezes o absurdo. paetê ou muito brilho no próprio corpo o público ―comum‖ busca elementos da drag para se expressar. depois de fechar a pista de dança do Miami Pub. O sol de Recife não dá descanso. Notei também que não houve um look repetido sequer. quase que . 73 festa – ser uma cantora que explora seu lado performático. dando possibilidades quase que infinitas para os looks das drags. sem necessariamente ser uma drag queen. a maquiagem drag queen – que tenho para mim ser parte maquiagem. Depois de um processo silencioso de ―desmontação‖. a peruca coçava. já que ela havia deixado 50 pulseiras destinadas às drags na entrada na festa e só sobraram 10. cílios postiços gigantescos. A maioria das drags presentes reproduziram looks icônicos da cantora pop. Voltamos ao apartamento de Envy pela manhã. o público busca adereços que remeta à estética drag. por volta das 7 horas. aumentando o calor. já que alguns looks de Lady Gaga são mais famosos que outros. Seja com um laço exagerado na cabeça. Nas duas edições da festa que compareci notei algo que talvez não transpareça para as outras festas de música pop da cidade: mesmo quando não são drag queens. 13 de março de 2016) Fig. uma peruca. Envy confidencia um número recorde de drag queens naquela noite – cerca de 40. Fotos: Kaline Ximenes. Envy comenta comigo. ―Eu nunca vi tanta drag junta e tanta drag com montações ótimas e dentro do tema da festa! Quem tu acha que deveria ganhar pra tocar na próxima edição? Vai ser bem acirrado dessa vez‖. (Trecho do meu diário etnográfico. o que poderia ter acontecido. 15. conversamos sobre a noite deixada para trás. parte concreto – ainda estava no rosto. Drag queens na segunda edição da festa Monamu com o tema Lady Gaga.

74 como na famosa frase dita por RuPaul: ―todos nascemos pelados e o resto é drag‖. Envy Hoax: “mother monster” das drags recifenses Magra. destaque no cenário local e envolvimento com a festa Monamu. ser drag é mais do que elemento estético ou artístico. em sua hipérbole. gênero e sexualidade. A escolha das personagens entrevistas para análise se deu pelo recorte a diversidade estilística drag. uma forma de subversão do gênero dado pela ―natureza‖. Assim. Alexandre Gonçalves. além de que. poderia ser descrito quase que da mesma maneira. desconstruindo os elementos de uma narrativa normativa. mesmo que em sua cabeça. pertencentes ao que venho chamar da geração de drags pós- modernas. exaltação e ludicidade que só as drags permitem. A linha entre criador e criatura é quase inexistente e ele/ela faz questão de deixar isso claro: Envy sempre existiu. todas são jovens. Para tanto realizei entrevistas semiestruturadas. Nas reflexões de gênero. mas na pós-modernidade são indicadores de uma geração que vê no artifício da ―montação‖. e em especial da Monamu. relacionamento com a cena drag. mas corresponde a um desejo de embaralhamento do feminino e do masculino. consciência da performance de gênero que atuam. o publicitário de 22 anos que dá vida à Envy. diversidade nas vivências identitárias. As “cover girls”: drag queens pós-modernas e empoderamento Com o território delimitado e conhecendo as performances que nele habitam. Aqui apresento um breve perfil de cada uma. escolhi quatro drag queens frequentadoras de diversas festas em Recife. para analisar suas performances identitárias no que concerne a arte drag. percepções políticas de atuação de gênero e a influência da cultura midiática pop. olhos levemente sonolentos e voz branda: Envy Hoax é contida. Todas são conhecidas por mim. em especial o programa ―RuPaul‘s Drag Race‖. Ela é sua plataforma para se expressar artisticamente e sem . alta. segura o ―carão‖ na balada e parece nunca perder o controle do que está fazendo. o que muito facilitou se sentirem a vontade às questões levantadas e a confiança estabelecida entre a pesquisadora e elas. quase sempre ruiva. abertas ao diálogo aprofundado. onde conversamos sobre vida pessoal. notei que a estética camp e os elementos drags não são pertencentes a uma ―categoria‖ específica. unhas longas sempre pintadas. pude perceber que nas edições da festa Monamu.

tem como característica ser aglutinadora e chamada – às vezes ironicamente – de ―mãe‖ da cena. também é conhecida carinhosamente como a ―mother monster‖. Influenciado pelo reality show ele resolveu colocar Envy nas ruas no começo de 2014. mas se sentindo uma verdadeira diva. como a artista pop internacional. Foto: Fernando Cysneiros. Por ser uma das drags mais conhecidas no cenário de Recife da nova geração. ―Fui com roupa emprestada e me sentindo o máximo sabe? Só com uns cílios e um lápis de olho preto . ―Você usar cores e produtos para transformar e criar uma coisa completamente nova no seu rosto. Fig. Isso me fascinou e a partir disso eu senti vontade de começar a me montar.‖ explica. através do Netflix. 75 limites... Envy Hoax é a persona artística do publicitário Alexandre Gonçalves. podendo ir de uma supermodel feminina ao bizarro. 16. com roupa emprestada de uma amiga e peruca de 10 reais do centro da cidade. em uma edição da festa Maledita e relembra que foi tudo na base do improviso. Considerada por muitos uma drag ―enjoada‖ e fechada. por incentivar e valorizar as participações das iniciantes. por isso. Tem uma variação de interpretações. muitos brincam com esta similitude com o público. Alexandre se apaixonou pela forma criativa da transformação que a drag proporcionava. Quando começou a assistir o programa de RuPaul. Fã da cantora americana Lady Gaga.

Dentro da cena drag recifense. no fim da festa. pode parecer inalcançável para quem a encontra na festa. A verdade é que o carão é parte da personagem. já que seu comportamento não se assemelha aos das drags mais desinibidas e espalhafatosas. se é que tal coisa exista. mais do que uma profissão fixa para ele. Karma não tem medo de ser ousada. maquiagem impecável. nada. mas não é isso o que sinto quando me sento com ela – com Alexandre. Apesar de poder ser descritas com inúmeros adjetivos que exaltem o quanto Envy parece sempre estar ―polida‖ e. a atitude blasé e o ―carão‖ de Envy Hoax lhe rendeu a fama de chata. Mas foi incrível e a partir disso eu já fui deslanchando pro resto. nunca vista com o ―batom esfumado‖. ri. Apesar disso. Envy faz o tipo supermodelo. como chamamos quando as drags beijam de batom. sua marca registrada dentro da cena drag . gosta de mostrar o corpo e abusar das cores e do glitter na maquiagem e do delineador. 76 na cara. na linguagem drag. para ser mais específica – para conversar sobre sua arte. possa parecer ―profissional demais‖ para as drags mais novas na cena. Karma Mahatma: girl power Maria Eduarda – ou como é chamada pelos amigos. nem base tinha direito. como uma extensão do que eu gosto de fazer que é trabalhar como o gráfico. abusada e esnobe. ―Eu levo a drag como um hobby. A partir da minha experiência como drag queen dentro da cena de Recife percebo que. Se a pessoa tá acostumado a me ver fazer uma maquiagem extremamente ―feminina‖ e bem clean.‖ Ao que me parece. que não poderia ser mais diferente de quem Madu é. Alexandre conta que por ser míope e usar lentes de contato sem grau enquanto montado tem dificuldade em reconhecer rostos de longe e isso somado à sua timidez em interagir com desconhecidos faz com que ele receba mensagens dizendo que ―ignorou‖ alguém nas festas. às vezes Envy.‖ conta. Alexandre ressalta que não gosta de se prender aos rótulos: ―Eu sempre busquei me transformar demais e nunca ficar estagnado numa coisa sabe? Então eu realmente sempre busquei me desafiar e eu sempre acreditei que eu tenho uma alma muito camaleoa. quando as pessoas estão acostumadas com aquilo eu já penso em fazer uma coisa totalmente diferente disso. fishy. Alexandre é extremamente dedicado no que se propõe a fazer artisticamente com Envy e por levar a sério sua drag. sem perder o foco.‖ relembra. Madu – é extremamente tímida. ―Mas nunca de propósito‖. totalmente o oposto. mas transformou seu corpo na morada de Karma Mahatma. Envy continua como um hobby.

Foto: Fernando Cysneiros. Karma Mahatma é tudo que Madu não é no seu cotidiano. a desconstruir e começar realmente a fazer arte com meu corpo e quebrar esses padrões de que só pode ser drag quem for homem‖ – além de ter sido incentivada pelo encantamento que ela tinha com o universo drag queen através do reality ―RuPaul‘s Drag Race‖. Karma nasceu oficialmente em outubro de 2015. em Recife. e isso a ajuda a se empoderar e quebrar padrões de gênero e de beleza. ―Eu busco representar algo novo e através da militância trazer o feminismo para dentro da cena e desconstruir o pensamento das pessoas real. 77 recifense. 17. o que levou Madu. dar vida a uma persona tão diferente de si mesma? Fig. Mas. então foi meio que uma ideia revolucionária de começar a quebrar esses padrões. porque eu acho que tá mais do que na . Madu explica que Karma surgiu como uma forma de auto-empoderamento da sua feminilidade e ―porque na época não tinha nenhuma drag mulher em Recife. quando tinha apenas 19 anos. depois de um encontro inesperado de Madu com um amigo da época da escola em uma festa com uma das drag queens de RuPaul na Maledita. Feminista convicta.

que também faz drag.‖ explica. suas performances são geralmente exclusivamente destinadas ao público composto por homens homossexuais. No primeiro ano eu não tinha nome. Como mulher cisgênero. mas desde antes se montava nos carnavais recifenses com um de seus amigos. ―A gente sempre se montava nas virgens e pegava vários boys. Para ela ser drag é parte de um processo de desconstrução. excluindo aí as mulheres lésbicas. alguém que pode sentir atração por qualquer gênero. 78 hora da gente se desprender de padrão. quando passou a sentir atração também por meninas e não entender o que aquilo significava. . explica. ele é analista de importação. Rumores também apontam que Mia Rhomba costuma se envolver com o mundo das drogas e prostituição. ―Eu não gosto muito dessa caixinha. de resistência dos corpos e de representatividade. eu saio do meio e tendo boca vamos beijar. de tudo isso. Oscar tem 24 anos e é drag queen oficialmente desde julho de 2015. transexuais e uma gama infinita de identidades de gênero. Madu se define como pansexual.‖ comenta rindo. pelos 13 ou 14 anos. intelectual e sensata. Mia Rhomba: a puta que ri Conhecida por ostentar looks que vão desde o extremo feminino burlesco até visuais conceituais livres de gênero. Mas nem sempre foi assim. Hoje. mas é tudo ficção e parte da persona criada por Oscar Cavalcanti. Eu amava. além de ser aspirante a DJ e sexóloga nas horas vagas. apesar de deixar claro que se definir como pansexual não é algo que lhe agrade. apesar dela ter sempre percebido ser ―diferente‖. viver como Karma ajudou Madu a se libertar e se encontrar sexualmente. ou seja. Mia Rhomba personifica uma mulher bem resolvida e que parece estar sempre de bom-humor. Madu tem uma abordagem diferente sobre a arte drag do que geralmente é visto na cena. piadista. Neste ponto. de todas essas coisas que só fazem atrasar a gente sabe?‖. pois ainda acha limitante tentar enquadrar a forma de amar e o sexo em caixas. caricata. Por mais que as drag queens estejam inscritas no contexto da comunidade LGBTQIA. no segundo ano meu nome era Matilda e a minha profissão era derrubar os espetinhos com o meu cabelo. que na verdade não trabalha com prostituição nenhuma: quando não está dando vida à Mia. Pedro.

‖ comenta. já que Oscar calça 44. Eu me achei igual uma Patrícia Poeta nesse dia. Oscar morava na China e já assistia ―RuPaul‘s Drag Race‖ quando percebeu o movimento da cena drag em Recife. porque segundo ele ninguém o conhecia lá. E como um bom virginiano ele quase desistiu da saída por causa do contratempo. tá na hora da gente ir‘. A minha saia tava amarrada com uma fita durex. Incentivado por seu amigo Pedro. 79 Fig. ―Aí como foi que eu fui? Eu botei uma cortina. 18. ou melhor. resolveu colocar Mia Rhomba na noite assim que voltou à cidade. entretanto. não tinha rolado aquela proposta porque eu só tinha ido de sandália e não ia dar. Foto: Fernando Cysneiros.‖ relembra rindo. O seu début na noite. ―Eu fiquei muito triste porque eu não tinha levado nenhum sapatinho mais afeminadinho assim que pudesse caber no meu look. foi marcado por alguns atropelos e quase não aconteceu: o sapato que Mia deveria usar não cabia no pé. . a drag Miu Miu. Eu não fiquei pra baixo. Mia Rhomba é conhecida pelo seu bom humor e irreverência dentro da cena recifense. mas não para qualquer balada: tinha que ir para a boate MKB. gata! Só quando minha saia rasgou um pouquinho eu disse ‗amiga. a gente rasgou uma cortina que virou minha saia e eu fui pra balada com uma Crocs branca. mas depois mudou de ideia e decidiu que iria sair.

Dahlia é hiperativa. só que eu não me encaixava na minha família. chifres de diabo e um visual que remete a rituais satânicos. pra chamar atenção sabe? Que ao mesmo tempo. não é religião que vai fazer uma drag ser incrível. o professor de inglês de 23 anos que está por trás dessa criatura da noite. gosta de conversar e fazer referências religiosas de forma irônica e cômica. ―Hell‖. significa inferno. mas que nunca havia encontrado a forma apropriada para colocar pra fora: o de trabalhar com música. pelo que a religião representou na minha vida e tudo. com uma personalidade cativante que encanta as pessoas por onde passa e abriu as portas para uma mudança na vida de Oscar.‖ explica. mas eu disse minha drag é filha de satanás. Dahlia Mayfair é a drag queen que transforma a cidade de Recife no verdadeiro ―Hellcife 53‖. Oscar percebeu desabrochar um desejo antigo. ―Eu sou extremamente apaixonado por música. em inglês. eu realmente fui fazer um curso porque eu gosto muito da coisa da música e eu quero entrar nessa área. minha família inteira é de músicos. E eu queria fugir disso por motivos pessoais. Até que ele entendeu que seu lado musical não estava em nenhum instrumento ou no vocal – ele tentou tocar piano e odiou –. ―Hoje eu não me considero DJ ainda. ―Porque demônio? Eu poderia ter simplesmente dito que minha drag não era religiosa.‖ explica de onde vem à inspiração para sua persona. Apesar das conotações satanistas e de se definir como ―filha de satanás‖. ―Eu me inspirei. Era pra quebrar. em mim e no meu contexto familiar que é muito religioso. Eu tinha um desejo musical que não me encaixava. eu quis a partir de uma coisa drástica transformar isso em arte. juntando com a minha personalidade. que até então trabalhava apenas na sua área de formação acadêmica. . mas em ser DJ.‖ 53 ―Hellcife‖ é um trocadilho comum feito com a sonoridade da palavra e o calor da cidade. eu estou estudando para isso. E eu gosto muito da drag porque é uma plataforma que me deixa próximo disso‖. acho que de uma forma meio negativa. a personalidade de Dahlia e de Daniel Cardoso. 80 Mia Rhomba é carismática e bem-humorada. A partir de Mia. era meio que tipo. Dahlia Mayfair: a diaba do bem Com muito sangue. com o que eu tento passar de energia positiva pro mundo. não é nem de longe demoníaca no sentindo negativo da palavra.

o que eu recebo do mundo de imput visual. de coisas que eu vejo na rua. O canal realiza cobertura de festas que acontecem na cidade nas quais as drags são as repórteres e entrevistam o público e outras drags. Foto: Fernando Cysneiros. 19.‖ explica. eu acabo juntando tudo numa caixinha dentro de mim. mas um ser que pode ser os dois ou nenhum deles. ―Eu tento colocar o que tem dentro para fora. 81 Fig. quando está montado Daniel não sente que está representando nem homem nem mulher. Uma das coisas mais marcantes sobre Dahlia é que por trazer referências que fogem dos estereótipos do que é convencionalmente descrito como feminino. e as vezes que Dahlia sai na rua ou nas festas são pedaços dessas coisas que estão dentro da minha cabeça. algo que também ajudou Dahlia a se tornar conhecida na cena de Recife por ser uma das drag-repórteres do canal do YouTube DRAGR TV54 durante 54 O DRAGR TV é um canal de entretenimento voltado para o público drag queen local. além de apresentar quadros com drags em específico e entrevistar as drags queens internacionais que fazem . Daniel é formado em artes visuais e tenta colocar nessa criatura quase mitológico que é Dahlia todas as referências visuais que ele se sente de alguma forma atraído. O que eu sinto. de outros artistas. Dahlia Mayfair só sai s for para ―chocar‖ com suas montações macabras. Sempre muito irreverente. dentro da minha cabeça.

é alguém que tem facilidade em se comunicar com o público. ser drag. que resgatou o discurso político da drag queen e trouxe para dentro da comunidade LGBTQIA uma nova onda de militância embasada na desconstrução das performances de gênero e sexualidade. Nas festas. Acesso em 31 out. 82 as coberturas das festas que acontecem na cidade e pelo seu recém-estreado quadro ―Dahlia Tenta‖. eu vou tá vendo pessoas que eu gosto. E o encantamento gerado por Dahlia não se restringe a sua cidade: ela já viajou para João Pessoa (PB) e Natal (RN). Para esta geração. Mia Rhomba e Lara Beckney. Entretanto. No ar desde 2014. várias drags já trabalharam como repórteres ou tiveram quadros de humor no canal. o negro e essa mensagem é fortemente difundida através das apresentações e das montações das próprias drags. a lésbica.com/channel/UCiS9rPbM1N3j3eqNCN49szA>. a drag se tornou artifício de empoderamento e auto-afirmação para a geração atual. contratada para fazer cobertura de festas junto com o canal DRAGR TV. é sinônimo de se libertar das amarras da sociedade que oprime a mulher.youtube.‖ explica. pude perceber que apesar de estarem circunscritas em uma mesma cena artística e serem da mesma faixa etária (entre 20 e 25 anos). o gay. explicando que o que ganha como Dahlia é todo usado para investir em novas montações. Eu vou tá me expressando. Disponível em: <https://www. enquanto seus trabalhos de professor de inglês e fotógrafo freelancer são seu sustento. Dahlia Mayfair. uma constante em todos os discursos delas – e que a partir da minha própria convivência com outras drag queens da ―nova cena‖ posso falar que é algo que se estende coletivamente e tende a ser unanimidade – é a do discurso militante que todas parecem embasar sua arte. Apesar do sucesso. que buscam rir e parodiar de todas as formas de tradições conservadoras as quais somos impostos socialmente. cada uma delas possuíam opiniões e apontamentos diversificados sobre os mesmos temas abordados nas entrevistas. show na cidade. eu vou tá super feliz e ainda vou tá ganhando dinheiro. A carreira de ―drag-repórter‖ parece ser algo que encaixa com a personalidade de Dahlia. Muito mais do que um ―close‖. . Condessa Cabalista. (Des)montando: analisando o discurso das drag queers Quando sentei para conversar com essas quatro drag queens recifenses sobre suas vivências. hoje. Daniel afirma que a drag não é sua principal fonte de renda. 2016. suas entrevistas sempre fazem sucesso e o público parece deslumbrado pelo ―ser místico‖ e sem limites que Daniel incorpora. entretando hoje o time é formado por Alexia Tarantino. que apesar de parecer assustadora e macabra. ―o que eu ganhar é lucro.

analisar um determinado empoderamento que cresce gradualmente. Meu objetivo se dá na busca de compreender as (des)construções identitárias na pós-modernidade e como o consumo midiático da figura da drag queen afetam essas percepções e vivências. RuPaul diz ―if you can’t love yourself. especialmente se levarmos em consideração uma sociedade que valoriza a originalidade ou autenticidade enquanto ética da personalidade. Essa observação foi feita a partir de uma situação em que a pesquisadora perguntou a um homem sobre uma travesti que seria sua amiga. é inegável a consequência. a influência do programa de RuPaul na cena. Vencato (2002) explica que em sua pesquisa de campo realizada em Santa Catarina lhe foi apresentado um conceito de que a travesti seria uma figura ―mais mulher‖ do que a drag queen. Especialmente no que concerne ao Brasil. (CANEDO et. e que já se mostra em partes da cultura drag no Brasil. 8) A seguir analiso as conversas que tive com as quatro drags escolhidas para esta pesquisa a partir de quatro eixos: arte drag. pois por vezes é difícil aceitar a si próprio. É claro que devemos notar que a discursividade da série coloca a aceitação a partir de. não seria a drag uma forma de travestismo também? Porém. hoje. “We’re all born naked and the rest is drag”: a arte drag Definir o que é ser drag não é fácil. how in the hell you gonna love somebody else?‖ (se você não ama a si próprio. a travesti é uma forma limitadora de conceituar tudo que parece entrar. No entanto. no conceito de drag. . como já colocado aqui. paradoxalmente. Em tentativas de explicar e elucidar um único conceito para o ser drag recaímos em contradições. p. os relacionamentos intergeracionais das drags. e esse fato é destacado e incentivado às drags participantes do reality. Muitas drags agora se montam e se mostram em locais públicos. uma prescrição da autenticidade. a drag queen foi associada à figura da travesti. al. ainda nos pegamos reduzindo-a ao ato de ―se transformar em mulher‖. o que deve ser criticado e levado a peso de análise. E não se trata somente da aceitação de outrem. Na tentativa de diferenciar a travesti da drag queen. de identificação que a série gera. uma identidade de gênero ambígua e ainda pouco compreendida pela sociedade em geral. ainda mais quando estamos inseridos em um contexto repleto de ambivalências identitárias. 2011. 1. 83 É possível. intencional ou não. já que ao mesmo tempo que buscamos explicitar que a drag não é uma identidade de gênero. Em uma de suas letras mais famosas. as vivências de gênero e sexualidade e. vivenciando uma maior aceitação num contexto menos apartado. Nesta perspectiva. já que a primeira está associada a características de feminilidade que perpassam o discurso biológico. portanto. como diabos vai amar outra pessoa?).

84

Ele respondeu-me ―Não tenho falado muito com ela, ela anda meio estranha,
meio irritada... Sabe como é travesti, né? Elas tomam aqueles hormônios e ficam
meio loucas...‖. Essa fala me fez pensar um pouco que o fato do corpo da
travesti estar sendo modificado no sentido masculino → feminino pode ser
suficiente para dar a ela uma atribuição de feminilidade, principalmente porque
o fato da travesti estar tomando hormônios femininos justifica que ela tenha um
comportamento mais agressivo, beirando o fora do controle, assim como à
mulher são dados esses atributos na fase pré-menstrual, sendo os responsáveis
também por tal comportamento os hormônios. (VENCATO, 2002, p. 13)

Vencato (2002) também observa que esse discurso poderia abrir espaço para um embate
entre esses sujeitos em busca da feminilidade, mas, assim como eu observei no território
pesquisado, não existe ou se existe não foi expresso pelas drag queens entrevistadas ou
observado em minha experiência em campo. Ao contrário do que podemos presumir,
travestis e drag queens convivem entre si dentro da cena noturna de Recife, tanto quanto
público diverso quanto como profissionais (DJs, performers, etc.).

―Nas entrevistas que realizei, todas as drags disseram que uma drag não quer se
parecer com uma mulher pois, caso se parecesse, não seria uma drag e sim, uma
travesti. [...] É difícil encontrar na literatura sobre o assunto uma definição
objetiva do que seja uma travesti. De qualquer modo, é possível, nessa literatura,
levantar alguns traços que os caracterizem. De acordo com travestis, sujeitos da
pesquisa de Silva (1993), ―... travesti não é quem se veste de mulher, é quem
toma hormônio e silicone‖ (p. 117), mesmo que não seja somente isso que
produza o feminino (p.95). A produção do feminino seria um processo contínuo,
uma luta cotidiana contra os traços/excessos masculinos, que sempre ―dão um
jeito de aparecer‖. (ibidem, p. 13-14)

A maneira que encontramos para evitar essas ambiguidades conceituais é em elevar a
drag ao status de arte e parece que é neste campo que a drag potencializa a figura de liberdade
que realmente representa, em vez de estar aprisionada em conceitos fixos como identidade de
gênero. A drag abre suas asas e alça voos como expressão artística e é neste aspecto mais
extravagante da arte de ser drag que se debruçam minhas personagens.
Para Envy Hoax, ser drag queen é rir da ideia da existência de um gênero único e
verdadeiro. ―É você tentar quebrar os estereótipos e dizer que gênero não é nada disso [que as
pessoas pensam], gênero é o que eu quiser ser, gênero é transitório. É usar coisas
extremamente exageradas e quebrar todas essas coisas que a sociedade impõe‖, explica. A
visão de Envy vai de encontro ao que explica Lopes Louro (2013, p. 89) sobre a capacidade
da drag em nos fazer questionar a autenticidade de gênero e sexualidade: ―A drag queen
repete e subverte o feminino, utilizando e salientando os códigos culturais que marcam esse
gênero. Ao jogar e brincar com esses códigos, ao exagerá-los e exaltá-los, ela leva a perceber
sua não naturalidade.‖ Dahlia Mayfair compartilha da opinião de Envy, acrescentando que a

85

drag é, antes de tudo, um ato político e libertador social. Ela observa ainda que quando está
montada não se sente homem ou mulher justamente por estar ―longe de todas as regras
atribuídas ao seu gênero‖. Lopes Louro (2013, p. 88) dilucida sobre o papel crítico da drag
enquanto vitrine dos padrões de gênero:

O que faz pode ser compreendido como uma paródia de gênero: ela imita e
exagera, aproxima-se, legitima e, ao mesmo tempo, subverte o sujeito que copia.
Na pós-modernidade, a paródia se constitui não somente numa possibilidade
estética recorrente, mas na forma mais efetiva de crítica, na medida em que
implica, paradoxalmente, a identificação e o distanciamento em relação ao
objeto ou ao sujeito parodiado.

Por ter essa característica ambígua em relação ao gênero, a drag pode dar margem a
interpretações dos mais diversos tipos. Fagner dos Santos (2011, p. 72) explica que ―ao se
montarem, as drag queens atribuem um sentido metafórico ao seu corpo‖ e dessa forma passa
a vivenciar um ―ser/estar masculino/feminino ao mesmo tempo, dividindo o mesmo corpo‖.
Esse caráter híbrido, entretanto, vai além da transformação corporal: ―A identidade do
performista passa pelo mesmo processo, ao mesmo tempo em que a identidade do
personagem vai se incorporando e se apropriando de voz e códigos gestuais que, embora
performativos, podem definir uma relação com o seu intérprete‖. (ibidem, p. 72).
Essas assimilações identitárias e culturais aparecem das mais diversas formas nos
sujeitos que são drag queens. No caso de Karma Mahatma, a quem Maria Eduarda considera
uma terceira pessoa – ela conta que depois de começar a se montar passou a incorporar gírias
e modos de falar típicos do ―mundo drag‖ e pesar mais na maquiagem diária, mas que a maior
mudança foi em relação ao seu comportamento diante situações cotidianas e na sua militância
como feminista. ―Karma trouxe muita coisa maravilhosa pra mim e eu levo isso pra minha
vida sabe? O modo de me portar na sociedade e nas coisas que eu penso, em questão de
militância que eu aprendi com ela, eu levo tudo pra minha vida,‖ explica.
Assim como Karma, muitas drags queens assumem que suas personas artísticas diferem
completamente de quem são na ―vida real‖. Mia Rhomba, entretanto, ressalta que isso pode
dar margem à compartimentalização dos comportamentos, como se a drag e o eu fossem
pessoas autônomas distintas. Ela explica que algumas drags colocam a culpa de suas atitudes
na persona drag. ―Isso foi um conflito que a minha psicóloga colocou em mim. Ela disse:
você e a sua drag são duas personalidades separadas? Primeiro eu disse que sim e ela
respondeu: e se ela fizer alguma coisa, quem vai ser responsabilizar é ela? Ela tem onde ser

86

cobrada?,‖ explica Mia. ―Foi aí que eu percebi que somos ainda a pessoa que somos mesmo
montados. E a drag é você externando sua arte,‖ conclui.

2. “You better work”: influência de “RuPaul’s Drag Race” na cena drag

“Eu, RuPaul, nasci uma criança negra e pobre no conjunto de casas populares em San
Diego, Califórnia. Mas baby, é melhor você arrasar55! Olhe para mim agora!‖, anuncia
RuPaul nos primeiros segundos do primeiro episódio do seu reality show enquanto fotos da
sua infância passam na tela. O hit musical ―Supermodel (You Better Work)‖ começa a tocar,
imagens de RuPaul, agora uma drag queen loira, alta e que está em capas de revistas
aparecem e a voz anuncia: ―Como a original supermodelo do mundo todos os meus sonhos se
tornaram realidade e agora é hora de dividir o amor.‖ É dessa forma que a drag queen
veterana apresenta, pela primeira vez, seu programa de TV focado na busca da próxima drag
superestrela. Foi assim também que RuPaul catapultou uma geração para o mundo drag.
Quando ela anuncia, no começo da segunda temporada do reality que há novas garotas
glamorosas na cidade ao começar a apresentar as novas drags queens que irão competir pelo
prêmio, RuPaul poderia muito bem estar fazendo alusão ao nascimento de novas drag queens
por todo o mundo por sua causa.
―Ele popularizou o babado né?‖, Mia Rhomba me indaga de volta quando a questionei
sobre a influência de RuPaul na cena drag recifense. ―Querendo ou não voltou a ser rentável
até certo ponto a drag por causa de RuPaul, porque ele colocou na mídia‖, explica Envy sobre
a mesma questão. Uma das hipóteses que trabalho nesta pesquisa é a da expansão da cena
drag a partir da notabilidade que a drag queen ganhou através da popularização do reality
show comandado por RuPaul. Antes guetificada, restrita aos espaços marginalizados de
socialização dentro da comunidade LGBTQIA, a figura da drag queen foi resignificada.
―RuPaul‘s Drag Race‖, com ares de requinte e luxo próprios do mundo das supermodelos e
celebridades, ―redimensiona a construção de subjetividades em torno da dita estética camp e
reapropria seu quê de subversão política, fazendo das drags, parte da rentável indústria do
mainstream‖ (CANEDO et. al, 2015, p. 2).

Diferente do documentário Paris is burning, que mostra o brilho das drags na
guetificada cena nova-iorquina do final dos anos 80 em contraponto com a
violência e a marginalização externa, RuPaul propõe, por meio do estrelato e de

55
Da gíria inglesa, comum entre as drag queens, ―you better work‖. RuPaul usa a frase na música ―Supermodel
(You Better Work), de 1992, e ela é repetida durante o programa em diversas situações.

do que é ser drag.] Em Recife eu vejo muito drags de todas as classes sociais e eu acho fantástico. uma coisa pouca. se eu não uso. algum dinheiro com uma expressão artística. A diversidade tá sendo incrível ultimamente‖. [. numa estetização máxima do kitsch e do trash. comenta. onde ser drag se tornou cool e oportunidade de ganhar. p. Karma também ressalta como uma das principais mudanças pós-RuPaul ser a diversificação no estilo das drags. ―Eu acho que o que mais mudou foi os vários estilos diferentes que o programa apresentou e que atualmente é tudo misturado.. Com a humanização veio o entendimento de drag como arte e das diversas formas que ela pode assumir‖. extinguindo ―regras‖ de como deve ser uma drag queen. O que estas têm de diferentes? Para Mia Rhomba o programa humanizou a drag queen.. às drags locais. de como eu tenho que me portar. mas também nos estilos de drag. ―Tem drags muito mais jovens começando porque é o tipo de mídia que eles são expostos. mesmo que pouco. não tem uma definição hoje. O transformismo ganha mais hiper- montagem. ou se eu não uso salto eu serei menos drag do uma drag que usa salto‖. al. em todas as festas. se eu não usar peruca se isso vai interferir em alguma coisa.‖ Envy reflete.. (CANEDO et. 3) As consequências da popularização do programa são vistas diariamente em Recife. Existem vários estilos e até mulher pode ser drag!‖. muita coisa no YouTube. porque atualmente a gente vê muita série no computador. espero que comecem. Drag é uma coisa que aqui era muito associado a quem não tinha instrução. [Agora] Tem gente de todo tipo. redimensionar o valor não apenas da identidade drag. só quem não tinha um trabalho fixo. como também da profissão. nascem e morrem drag queens. De como eu tenho que me vestir. Karma complementa e ri. mais hiper-feminismos e mais hiper-glamour. saber que não existe só um estilo. ―Acho que hoje em dia todo mundo é um pouco de tudo e RuPaul meio que facilitou isso. a tornou algo do cotidiano e acessível para qualquer pessoa que quisesse se montar. a quantidade de drags ativas na cena se tornou algo que até o IBGE teria dificuldade de mesurar: todos os dias. Após a massificação do programa dentro do seu público específico. complementa. ―Com as viagens das RuGirls a gente tem essa oportunidade de trabalhar porque os produtores viram que era um potencial agora e eles começaram a dar valor. explica. não só facilitou pra gente criar coragem pra sair montada na rua e afrontar. . 87 suas adaptações conceituais no camp. Dahlia observa outra variante importante que a fama do programa agregou à cena drag: a idade das drag queens – elas estão cada vez mais novas – e as diferentes classes sociais que emergem essas artistas. ―Antes era algo mantido separado. se eu uso salto.. real. Era visto como uma coisa muito ruim.

Geralmente é utilizado como ―close certo‖ para atitudes que chamam atenção de forma positiva ou ―close errado‖ para as negativas. você entra num exponencial que você se torna muito mais segura e fazer tipo porra. do movimento que você tá fazendo parte‖. honestamente. mas não especificamente de drag queens e sim do público em geral. ―RuPaul ajudou muito. também prejudica.‖ desabafa. fala ironicamente.. mas quem? Drags homens né?‖. eu – Maddie – e Aurora Boreal. Dentro das problemáticas trazidas pelo programa para a cena. Eu acho que é ser uma super-mulher. ter um estudo maior sobre isso e entender o que você tá fazendo parte. Eu achei ridículo. um dos mais novos nomes da cena recifense. .. Também pode ser usada a variante ―closeira‖ para uma pessoa que gosta de chamar muita atenção. em sua conta pessoal no Twitter. ―Tou falando agora aqui do meu espaço. vou fazer o que eu quiser e botar isso pra fora e me tornar forma mais exagerada e caricata do que eu quero ser sobre mulher sabe?‖. Pra mim a referência não é RuPaul em si. as mulheres que fazem drag não são excluídas da cena – apesar de Karma relatar ter visto ―caras‖ quando ela começou a sair montada.. Se chama Miss Universo‖. sobre quando o reality show aceitaria participantes mulheres: ―Esse programa já existe. segundo ela ―tem pessoas ali que não procuram aprender mais sobre a drag [. pois.]. exagerar em tudo que você quiser. reflete Envy que tenta de todas as maneiras possíveis apoiar as drags mulheres que conhece. Por mais que não encontre apoio de RuPaul. mas no quesito militância a gente sabe os closes errados 56 que ela deu né? Dizendo que drag mulher já tinha o próprio programa que é o Miss Universo 57. Envy aponta que o programa faz uma higienização do que é ser drag queen. Karma levanta a própria bandeira: mulheres que fazem drag queen. o que ele fez foi incrível. 57 Em março de 2016 RuPaul respondeu.. 56 ―Close‖ é uma gíria do meio drag/LGBTQIA que pode se referir a uma atitude que chama atenção. 88 Apesar do aspecto positivo que as drags ressaltam sobre a influência de RuPaul na cena. Hoje a comunidade drag parece abraçar todas as formas de drag. Ao mesmo tempo em que o reality incentiva o nascimento de novas drags. ―Eu acho de um empoderamento incrível e maravilhoso você fazer drag quanto mulher sabe? Porque tipo é uma coisa muito do amar o seu corpo e amar você e fazer o que você quiser e foda-se o que a sociedade tá pensando sabe? Poder exagerar na make. como Karma. Me ajudou também a criar coragem no quesito arte. mas pra mim não acrescenta em nada porque ele demonstra ser uma pessoa que não apoia o que eu faço. ofertando apenas uma pequena parcela da arte drag para o público. foi. independentemente do gênero de quem está por baixo da montação. algumas têm ressalvas com outros direcionamentos que o reality show traz para o meio.

as novas drag queens são empoderadas e ―se montam e se mostram em locais 58 Estamos vendo crescer nos últimos anos o debate sobre empoderamento dentro das mídias que constituem o que chamamos de cultura pop: música. O que chamamos de militantes. 89 3. lésbicas. Não toleramos mais racismo. Extremamente influenciadas pela cultura pop58. homofobia ou misoginia e não é porque ―sempre existiu‖ que deva continuar. Como exemplo é possível citar o caso das atrizes de cinema de Hollywood que se uniram para denunciar a diferença salarial entre elas e os homens atores quando realizando o mesmo trabalho nas produções cinematográficas. sejam eles do movimento homossexual. cinema. está imersa no discurso da sua geração e ela parece já nascer politizada. querendo ou não. mas a drag queen é uma das ferramentas que essa geração encontrou para denunciar abusos e preconceitos velados. Se nos tornamos conhecidos como a geração que reclama demais ou que não sabe ouvir uma piada depreciativa sobre negros. mas no último ano vemos o movimento pelos direitos humanos crescendo no ambiente online das redes sociais. Essas pessoas estão ávidas para ajudar seus semelhantes e retirá-los da sombra social que os persegue constantemente. bissexuais. “If you can’t love yourself. literatura e teatro. Esse é um discurso que transborda as barreiras do que me proponho a analisar neste trabalho. Uma jovem atriz de visibilidade como Emma Watson é embaixadora da Boa Vontade na ONU Mulheres e grandes atrizes como . passando para a forma de agir em sociedade e enfrentar as lutas diárias. com ressignificações de termos que outrora foram pejorativos e do vestuário. how in the hell are you gonna love somebody else?”: empoderamento e vivências de gênero e sexualidade Desde que comecei a frequentar mais ativamente as festas voltadas para o público LGBTQIA e conviver dentro do meu círculo de amigos próximos com homossexuais. gays ou mulheres sem tomar como ofensa é porque decidimos agir contra o conservadorismo e escancarar o preconceito contra o diferente. Como fazem isso? Muitos podem chamar de ―ativismo de sofá‖. nascem do ímpeto de findar as diferenças sociais e extinguir o sentimento de vergonha de ser quem é. onde o espaço não é (geralmente) pago e todos são livres para expressar suas opiniões. transexuais e travestis passei a perceber que vivemos um momento crucial no que diz respeito ao empoderamento dessas (e outras) minorias. televisão. Refletindo um desejo da geração que mais consome essas mídias (ou até mesmo pautando e implantando nessas pessoas a necessidade desses debates). além de propiciar debates não apenas dentro do seu círculo de amigos. O movimento começa dentro dos grupos de amigos. negro ou feminista. entre outros aspectos. Pensar coletivamente abre espaço para o debate sobre as opressões e limitações que esses grupos sofrem e o discurso mais comum é a indignação de ter que sofrer apenas por existir. os sujeitos participantes das indústrias que fabricam o que é pop endossam um discurso de inclusão e empoderamento. A drag queen pós-moderna. Essas denúncias pressionam a indústria que é cada vez mais cobrada para igualar os salários e apresentar personagens femininas complexas nas suas produções.

E não se trata somente da aceitação de outrem. elas demonstram que enquanto classe é importante que se unam à frente do preconceito e se estabeleçam como um setor de entretenimento importante tanto culturalmente como em termos mercadológicos. O programa pode ser visto apenas como forma de entretenimento. p. . 2015. mas o que aconteceu após a drag foi que eles se abriram para novas configurações de relacionamentos. inclusive. e esse fato é destacado e incentivado às drags participantes do reality. acaba com essa conversa. outras pessoas que a gente conhece na noite faz a gente repensar gênero em todas as instâncias. todas apontaram para uma desconstrução das concepções que tinham sobre gênero e sexualidade após entrarem em contato com a arte drag. não significando que deixaram de ser gays. enfrentar e denunciar os abusos e nós tendemos a replicar esse comportamento. Daniel (Dahlia) e Alexandre (Envy) me contam que mesmo antes de ser drag já tinham sua sexualidade definida.‖ (CANEDO et. Elas ensinam a não baixar a cabeça. o programa de ―mamma Ru‖ -apelido carinhoso dado pelos fãs à RuPaul-contribui para o empoderamento individual das telespectadoras mulheres ao melhor estilo ―girl power‖. Ademais. 8). mas também porque a gente entra em contato com diversas realidades. masculinidade e doenças sexualmente transmissíveis. vamos todo mundo ser o que a gente quer. pois por vezes é difícil aceitar a si próprio. que ela não tinha contato antes. Nesta perspectiva. mas também propaga uma mensagem de aceitação e libertação das amarras sociais quando toca em temas sobre transsexualidade. (ibidem. ―Muitas barreiras foram quebradas. A relevância de RuPaul enquanto performer/celebridade contribui para que as drags tenham mais visibilidade. Mila Kunis e Viola Davis denunciam machismo e racismo dentro da indústria hollywoodiana. Você realmente se pergunta se existe realmente gênero de verdade ou se é só uma construção social. Mia Rhomba conta que depois de começar a se montar passou a conviver com diferentes realidades. Enquanto homens gays. permitindo que esses temas sejam pautados no cotidiano. 90 públicos. al. especialmente no que concerne às expressões de gênero e sexualidade. principalmente pelo fato da gente se colocar do lado de lá e agora os dois mundos estarem meio que se misturando. Oscar (Mia). política. ―RuPaul‘s Drag Race‖ como parte da cultura pop também tem poder de influência sob seu público. fazendo com que ela repensasse o conceito de gênero. Daniel explica que suas novas percepções do que é ser homem ou Meryl Streep.‖ explica Mia. Mesmo estando em uma competição. Esses nomes são ícones pop para a nossa geração e por endossar determinados discursos se tornam também ícones de militância. tchau gênero. principalmente com pessoas transexuais. vivenciando uma maior aceitação num contexto menos apartado. 8) No caso das drag queens dessa pesquisa. p. Até que ponto a gente vai estender essa definição? Se você me perguntar hoje eu digo bicha.

vários tipos de pessoas. ah. Karma explica que sempre se sentiu ―diferente‖. e de abrir os olhos para pra perceber que tem um universo de gente aí e todo mundo só tá tentando ser quem eles são. ―Eu me atraio por pessoas do sexo masculino. Eu olho muito menos como a pessoa tá vestida. apesar de sempre ter se considerado uma pessoa ―mente aberta‖.. homossexual. Se houver necessidade de se encaixar em algum rótulo.] A gente conhece muita gente através da drag.. mas eu acho que de certa forma abriu a minha cabeça pra o que eu enxergo como sexo masculino. Já Karma me conta que antes de começar a drag ela sequer pensava sobre as questões de gênero e desconstrução. ―Quando eu comecei a me montar eu fui abrindo os olhos para perceber que existem um universo de pessoas que se identificam de n maneiras diferentes e que não cabe a mim querer interferir nisso.. mas eu diria que isso engloba mais pessoas agora. vou usar esse look aqui que eu uso na minha drag pra ir ali trabalhar.. Em termos de sexualidade eu continuo homossexual. ela também muda outros aspectos da vida das drags. então ser drag me ajudou muito nisso. conta que passou a dar menos importância ao ―gênero‖ da roupa que está vestindo. ela se descreveria como pansexual. por pessoas que entendem ou que pelo menos buscam entender.‖ explica.. de desconstruir meu próprio gênero também.. ―Você vai percebendo que mesmo nas roupas e na vaidade que vai aumentando para você se arrumar sabe? Tipo. hoje. por pessoas que pensam seu privilégio. mas que foi o meio drag que a fez se descobrir e experimentar novas formas de relacionamentos e não apenas o heterossexual ou homossexual. mas aberto a novas possibilidades. Quando perguntei sobre sua sexualidade. pra mim isso é o que menos importa até porque eu vejo muito mais do que isso.‖ conclui. em . por exemplo.‖ comenta. pra ir passear. Isso só me deu mais opções de pessoas. 91 mulher afetou a forma como ela escolhe com quem namorar. Tipo hoje eu não me importo mais com as roupas que eu uso se tão ditando como ser masculino ou feminino. de quando eu tou montada. Quando eu vou nas lojas eu já tenho costume de ir na ala feminina sabe? [. pra ir ali comprar umas coisas na padaria. Eu tinha na minha cabeça bem padrãozinha de ser sexo masculino e isso me frustrava porque eu não me encaixo nesse padrão.‖ revela. Além da desconstrução de gênero mudar a forma de se relacionar com outras pessoas. ―Eu acho que eu continuo gay. por pessoas que respeitam mais. E ao mesmo tempo me fez me sentir muito mais atraído por pessoas muito mais desconstruídas. se a pessoa tá usando isso ou aquilo. que tem esse esforço. Cabe a mim respeitar as pessoas pelo que elas são. Envy. ―É trazer a desconstrução também para a maneira de amar sabe? Eu não me atraio pela parte íntima que a pessoa tem.

4. performances ―normativas‖ do que se esperam de uma drag tradicional. estarem em cima do salto mais alto que estivesse a venda e destruir numa performance de dublagem. que esteja pautada a ―rixa‖ entre as duas tribos: hoje. Enquanto as drags old school aprenderam a arte drag umas com as outras. Eu acho que por influência de ver outras festas em outros estados e ver as drags se montando em RuPaul e entender que existe outra demanda que poderia ser suprida fez com a . Na cabeça delas existia apenas uma forma de ser drag queen e as novas estavam fazendo errado – e ainda sim estavam se dando bem. a divisão entre os dois estilos pode ser feita de uma maneira histórica: estamos em outra época. drag que faz a linha top model e drag que se monta com short jeans. drag sem peruca. as drags que fazem o estilo ―old school‖. “Category is…”: old school Quando RuPaul apresentou um novo estilo de drag e novas drag queens entraram em cena nas cidades um grupo de artistas que já existia se sentiu ameaçado. são populares na boate MKB. como o Top Drag e Miss Beleza Gay. Claro que tem sempre um hit ou outro de Britney ou Beyoncé saindo das caixas de som. enquanto as antigas precisavam bater cabelo para se destacar. plumas e quase que um manual de como ser drag. em vez das divas da música pop. com novas influências e vivências diferentes. ―A demanda original era para essas drags que estavam fazendo isso antes da gente. Quem eram aquelas novas meninas que agora brilhavam nos palcos mais prestigiados? As antigas drags estavam abandonadas. Em Recife. isoladas em poucos territórios onde podiam se montar: alguns bares e boates. acuado e – talvez - ultrajado. na MKB toca músicas muito mais populares. animação de festas e concursos de beleza gay. mas ela voltou repaginada. o bate-cabelo como principal signo dela.‖ reflete. mas o que comanda a casa é a brasilidade e o bate-cabelo das drags. localizada no bairro de Soledade. É compreensível que a mudança na demanda do público tenha assustado as drags antigas. Ser drag queen voltou a estar na moda. Muito mais do que apenas birra. Talvez seja nessa diferenciação estética. Sai de cena a obrigação das plumas e paetês e entra a liberdade no fazer drag. como pagode e samba. pedra. Diferentemente da maior parte do território das drag queens pós-modernas. as novatas tem nas pontas dos dedos acesso aos tutoriais de maquiagem e peruca no YouTube. hoje existe drag sem salto. ou seja. não há nenhum manual a ser seguido. 92 cada festa é uma pessoa diferente e vivências diferentes e você vai aprendendo um pouco mais do mundo com isso. para ser drag queen. com muito brilho.

Então hoje em dia não é mais assim.‖ finaliza. entretanto. ―É maravilhoso também sabe? Você ver ali o drag de onde veio. Tem muita gente que se monta porque acha legal? Tem. pra entreter. geralmente. Envy conta que já foi algumas vezes na MKB ver as drags old school e inclusive acompanha o trabalho de alguns nomes mais proeminentes da cena. O povo tá se utilizando da drag justamente pra se desconstruir e descobrir um lado diferente. old school. Mas eu acho que cada um com seu motivo. que tá nas ―festas hétero‖. das raízes e tudo mais. Por serem dois mundos distintos. mesmo que sejam raízes diferentes e momentos diferentes. ―A ideia era de que drag era aquela drag ―velha‖. . Karma explica que essa nova demanda acontece porque depois do ‗boom‘ da cultura drag no meio LGBTQIA a partir da popularidade de ―RuPaul‘s Drag Race‖ a ideia de o que é ser uma drag queen foi desmistificado. Tem muita gente que se monta por close? Tem. tanto que a gente criou uma nova demanda. você tem umas novas perspectivas e conhece novas histórias. 93 gente fizesse isso aqui.‖ reflete. pra ser um palhaço. drag é arte e é libertador. entendeu?. não quer dizer que não exista respeito.‖ me explica Mia.

and you have to be smart about it.” (Violet Chachki) . And then she became a palatable drag queen. As horrible as that is to say. someone that could be accepted in mainstream media. uniqueness. You have to be marketable. she didn’t have any visibility. And she hit it big. I think being palatable definitely helps in mainstream culture. I think when RuPaul was doing her genderfuck thing. “Sashay Away!‖: Saindo de cena “Do you have the charisma. nerve and talent?” (RuPaul) “Drag is becoming more and more mainstream.

não eram considerados parte do campo estudado. Conheci pessoas de todas as raças. vindas dos mais diferentes panoramas sociais e cada qual com suas vivências distintas. mas um importante vetor para subversões nas questões de gênero e sexualidade do seu público. demonstra uma humanidade que até então era ―desconhecida‖ pelas pessoas da festa. convivência com as drags em ambientes que. o céu claro espera pelo público que por uma noite foi tocado pelo glamour e irreverência das drag queens. mas as contribuições da presença das drag queens na mídia mainstream – pelo menos dentro do seu público-alvo – é inegável. um reality show transgressor que mostra drag queens como seres humanos passíveis de falhas e que enfrentam problemas em suas vidas pessoais. RuPaul criou um . No curso da minha pesquisa percebi que o programa tinha se tornado mais do que um entretenimento. e muito do conteúdo apresentado ao longo dos episódios ainda pode ser interpretado como perpetuadores do sistema binário de gênero. Mia Rhomba e Dahlia Mayfair apreendi que as (des)construções de gênero e sexualidade que a comunidade LGBTQIA vivencia na pós-modernidade está fortemente pautada pela mídia a que os sujeitos são expostos. Compreendo que nem tudo que é mostrado no programa é revolucionário para essa desconstrução que a teoria queer propõe. assim como nós. identidades de gêneros e sexualidade. Lá fora. mas no meio de toda essa diversidade existia um fator em comum: todos eram telespectadores de ―RuPaul‘s Drag Race‖. É como bisbilhotar a intimidade de alguém pela fechadura de uma porta e vislumbrar a fragilidade da artista. Há um prazer distorcido por parte do público em ver uma drag queen ―desmontando‖ pela manhã na saída da boate. É este tipo de relacionamento público  drag que o reality show ―RuPaul‘s Drag Race‖ possibilita ao televisionar não apenas a atuação da drag queen na passarela ou nos palcos. 95 Quando as luzes da boate acedem é sinal de que a festa chegou ao fim. seja apenas como admirador ou atuando como drag queen. Através das vivências de Envy Hoax. esses acontecimentos permitem um momento de identificação na mente de quem observa. a priori. Através das 10 temporadas do programa. A partir dessa constatação compreendi que o programa era a porta de entrada de muitos daqueles sujeitos para o convívio com a arte drag. em uma maquiagem borrada ou no salto alto que incomoda. Quando a drag se desmonta o público se vê nessas falhas. O efeito da maquiagem não é o mesmo na luz do dia e como em um estalar de dedos a maioria de nós tiramos os saltos que machucam os pés e entramos nos táxis que esperam à rua. e não apenas como entretenimento em cima de um palco se torna ponto de partida para maiores subversões. mas também os bastidores. Durante meses estive imersa na cultura drag da cidade de Recife (PE) para a realização desta pesquisa. Karma Mahatma. Portanto. entre ida as festa. Em vez de quebrar o encantamento da montação.

proponho que outras áreas de conhecimento se debrucem em cima do mundo extasiante das drag queens e colham dessas experiências etnográficas ainda mais considerações para a compreensão das identidades de gênero e sexualidade. para o bem ou para o mal. já que. – o programa está. verdades que posteriormente podem ser contestadas e repensadas sob outros vieses e com outras vivências. por hora. Consciente de que a pesquisa sobre as configurações da cena drag e possibilidades da atuação como drag queen escapam os objetivos primordiais deste trabalho. Reitero que todos os apontamentos feitos neste trabalho são locais e individuais. bastam para compreender o impacto da mídia na geração pós-moderna de drag queens. inserido no sistema do capital – uma vez encantado com o universo das drags podemos nos permitir conhecer tudo que escapa do roteiro do programa. mas que. A ponta do iceberg para algo maior. ―RuPaul‘s Drag Race‖ é o que chamarei de jardim da infância da educação drag. que exalta a cultura drag e possibilita que gerações atuais descubram e se encantem com as possibilidades quase que infinitas que atuar como drag queen ou conviver com esse mundo proporciona. pelas inúmeras limitações sistemáticas. . 96 legado midiático sem precedentes.

Intercom. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Meu nome é ‗Híbrida‘: corpo.belasartes. In: CARREIRO. J.relaces.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR.intercom. M. Disponível em: <http://veja. ano 4.pdf>. 2014. n. 10. FERRAZ. J. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2004. FOUCAULT. F. 2016. Anais. CANEDO. Emociones y Sociedad. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária. Caxias do Sul. 2015.).. 2015. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. ALLEGRETTI.org. Franquia Transmídia: O Futuro da Economia Audiovisual nas Mídias Sociais. Revista Latinoamericana de Estudios sobre Cuerpos. 9.php/relaces/article/view/160. 2016. C.br/papers/nacionais/2014/resumos/R9-1708-1. Acesso em: 18 out. Disponível em: http://www. Anais. Cultura Pop. M.com. Acesso em: 25 maio 2016. Salvador: EDUFBA. A Construção de Celebridades Drags a Partir de RuPaul’s Drag Race: Uma Virada do Imaginário Queer. Acesso em 06 out. Disponível em: < http://www. de. Acesso em: 18 out. 2010. Territorialidades: deslizamentos conceituais e tramas sonoras. 16. Disponível em: <http://www. B. (Orgs. R.. MASSAROLO. 37.. de 2016.. n..org. L. Córboba. J. M. R. São Paulo.br/ciencia/amigues-para-sempre/>. São Paulo.. In: MOTTA. agosto-novembro 2012.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-3023-1. Michel Foucault: política e sexualidade. 2014.ar/index. Foz do Iguaçu. I. 2016. V. Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas. CASTRO. gênero e sexualidade na experiência drag queen.br/revistabelasartes/?pagina=player&slug=drag-queen-um-percurso- historico-pela-artedos-atores-transformistas>. Acesso em: 15 maio 2016. Anais. 38. A Escrita de Si. 2010. Rio de Janeiro. S. 2010.com. Intercom. set-dez/2014.com. 2016. M..br/anais/nacional2015/resumos/R10-3777-1. Disponível em: < http://portalintercom. VEJA. SÁ. S.pdf>. Revista Belas Artes. São Paulo. R. BUTLER. Fernanda. Temporalidade e quotidianidade do pop. et al. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. AMANAJÁS.. F. Disponível em: < http://www. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. T. ed. J. ALVARENGA. FAGNER DOS SANTOS. São Paulo: Intercom. Amigues para Sempre.intercom.org.abril. . 33.

D. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. (org. 201-246. 2013. HALL. O homem que amava rapazes. D. 2006. 2015. 1994. In HOLLANDA. In: CARREIRO. n. LOURO. A Cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. MARTEL. 28/09/2016. 2004. Disponível em: <http://www1. LAURENTIS. Canais de drag queens no YouTube vão além de tutoriais de maquiagem. Disponível em: < http://www. 2016. S. Argonautas do pacifico ocidental: Um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanesia. Rio de Janeiro: Rocco. A tecnologia do gênero. 2002. In: ______. Folha de São Paulo. pp.uol.FOUCAULT. A identidade cultural na pós-modernidade. T.pdf>. R. D. 22. LOPES. 1976. KELLNER. 2008. Mainstream: a guerra global das mídias e das culturas. Cadernos Pagu. 2014.com. Cultura da convergência. ed. S. HARAWAY. B. JENKINS. 2. FERRAZ. 89-120. . L. 2016. Rio de Janeiro: Aeroplano. ed. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. G. GUARALDI. Acesso em: 18 set. Acesso em: 09 out.scielo. J. R.br/tec/2016/09/1817340-canais-de-drag-queens-no-youtube-vao- alem-de-tutoriais-de-maquiagem. (Orgs. Tendências e Impasses: o feminismo como crítica da modernidade. SÁ.folha. Cultura Pop: entre o popular e a distinção.. Campinas. Salvador: EDUFBA. pp. Rio de Janeiro: DP&A Editora. B.br/pdf/cpa/n22/n22a09. "Gênero" para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Terceiro manifesto Camp.). F. 2001. 2012. São Paulo: Abril Cultural. São Paulo: Aleph. Heloisa Buarque de. Belo Horizonte: Autêntica Editora.). MALINOWSKI. H. 42. Cultura Pop. M. JANOTTI. Bauru: EDUSC.shtml>.

Cultura Pop. Nova York: Farrar.. 2012. pp. MISKOLCI. NEPOMUCENO. Disponível em: <https://repositorio. A Película do desejo: a subversão das identidades queers no cinema de Pedro Almodóvar (Tese).br/xmlui/handle/123456789/1919>. Belo Horizonte: Autêntica. Cenas culturais e as consequências imprevistas das políticas públicas. M. Fervendo com as drags: corporalidades e performances de drag queens em territórios gays da ilha de Santa Catarina (Dissertação). J. J. Cenas Musicais. O Globo. W. 2015. Disponível em: < https://repositorio.ufsc. de 2016. Corpos. PISCITELLI.com/sociedade/nova-geracao-de-drag- queens-toma-conta-da-noite-carioca-18044858>. R. 2016. S.). OKITA. FERRAZ. H. 6. RUBIN. 1966. p. São Paulo: Sundermann. In: BUARQUE DE ALMEIDA. M. STRAW. S.. A.. 2015. 8-11. Departamento de Antropologia Social do Centro de Filosofia e Ciências Humanas: Ilha de Santa Catarina. H. J. T. Programa de Pós-Gradução em Sociologia (PPGS): João Pessoa.). Diferenças individuais e igualdade. Acesso em: 18 out. Guararema: Anadarco. . TIBURI. jan. Nova geração de drag queens toma conta da noite carioca. 2013. São Paulo. O tráfico de mulheres: Notas sobre a economia política do sexo. Against Interpretation and Other Essays. Disponível em: < http://oglobo. In: JANOTTI. A. SÁ. Gênero: a história de um conceito. VENCATO.MEIRELES. (org. São Paulo: Berlendis & Vertecchia. (Orgs. n. P. p. SZWAKO. Homossexualidade: da opressão à libertação. SONTAG. 2010. 2002. 118-148.ufsc. Judith Butler: feminismo como provocação. Salvador: EDUFBA. Acesso em: 18 set.globo. Recife: S.S.). Percursos para estudos sobre música pop. 1993. SÁ. CULT – Edição especial. 2016.br/handle/123456789/84381>. In: ______. Acesso em: 25 out. 16/11/2016. 2016. A. R. 2009. Notes on ―Camp‖. SOARES.O. S. R. G. (Orgs. Straus & Giroux. M. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. 2002. 275-292. In: CARREIRO.

Perfis: e como escrevê-los. . 2003.VILAS BOAS. S. São Paulo: Summus.