UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO SÓCIO ECONÔMICO
DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

ANDREA DOS SANTOS

DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE EM AMARTYA SEN

Florianópolis, 2013

ANDREA DOS SANTOS

DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE EM AMARTYA SEN

Monografia submetida ao curso de Relações Internacionais da Universidade Federal
de Santa Catarina, como requisito obrigatório para a obtenção do grau de
Bacharelado.
Orientador: Prof. Dr. Marcos Alves Valente

Florianópolis, 2013

ANDREA DOS SANTOS

A Banca Examinadora resolveu atribuir a nota 7.0 à aluna Andrea dos
Santos na disciplina CNM 7280 – Monografia, pela apresentação do
trabalho DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE EM
AMARTYA SEN.

Banca Examinadora:

_______________________________________________
Prof. Dr. Marcos Alves Valente
Orientador

_______________________________________________
Prof. Felipe Amin Filomeno
Universidade Federal de Santa Catarina

_______________________________________________
Isadora Cristina de Melo Coan
Universidade Federal de Santa Catarina

Florianópolis, 11 de dezembro de 2013.

.Dedico esta monografia a minha mãe Deljanira Crispim dos Santos que sempre me fez acreditar que todos os nossos sonhos são possíveis.

E ninguém que não entenda! (Cecília Meireles .Liberdade essa palavra que o sonho humano alimenta: Que não há ninguém que explique.Romance XXIV do Romanceiro da Inconfidência) .

Palavras-Chave: Amartya Sen. Demonstra-se. Quentin Skinner. principalmente afastando-se da relação entre liberdade e o liberalismo econômico. Capacidade. Essa visão de liberdade é definida ao longo desta investigação. RESUMO Esta pesquisa investiga o conceito de liberdade concebido nas obras de Amartya Sen – economista indiano que se consagrou ao receber o Prêmio Nobel em 1998. definido como ausência de dominação. de igual maneira. . O objetivo principal desta pesquisa: é definir o conceito de liberdade para Amartya Sen a partir da perspectiva do desenvolvimento. e na presente pesquisa identificam-se os contornos desta liberdade. com sua abordagem acerca do processo de desenvolvimento – principalmente do livro “Desenvolvimento como Liberdade”. bem como sua ligação com conceitos de liberdade positiva e negativa provindos do liberalismo e evidenciados por Isaiah Berlin. Phillip Pettit. A liberdade é essencial para o processo de desenvolvimento nessa teoria. com a liberdade neorrepublicana proposta por autores como Skinner e Pettit. mas com características também da positiva. Desenvolvimento como liberdade. a inclusão da abordagem de Sen no posicionamento da liberdade negativa. especialmente. Evidencia-se também como a teoria de Sen aproxima-se e ou difere-se do conceito republicano de liberdade. Liberdade Negativa. Nesse livro o autor define o desenvolvimento a partir das pessoas utilizarem suas capacidades em prol de realizarem aquilo que elas consideram importante para si. e analisar como essa liberdade se inter-relaciona com as noções de liberdade estabelecidas por considerações liberais e. Neorrepublicanismo. Liberdade Positiva.

It is shown . The main objective of this research is :defining the concept of freedom to Amartya Sen from the developmental perspective . Keywords : Amartya Sen . Quentin Skinner . Development as Freedom . but also the positive characteristics . In this book the author defines people´s development as their abilities to performing of what they consider important. conceived from the works of Amartya Sen . Philip Pettit . Also evident as the theory of Sen approaches or differs in the republican concept of freedom. defined as absence of domination. Negative Freedom . Freedom is essential to the developing process of this theory .particularly the book " Development as Freedom " .Indian economist who was consecrated to receive the Nobel Prize in 1998 with his approach on the development process . the inclusion of Sen's approach in positioning of negative freedom . and in the present study identifies the contours of freedom . This view of freedom is defined throughout this research as well as its connection to concepts of positive and negative liberty from liberalism and evidenced by Isaiah Berlin . in the same way . ABSTRACT This research investigates the concept of freedom. and analyzing how this freedom is interrelated with the notions of freedom established by liberal considerations and especially the freedom neo republicanism proposed by authors such as Skinner and Pettit . Positive Freedom . Neo Republicanism. Capacity. especially away from the relationship between freedom and economic liberalism .

PIB Produto Interno Bruto . IDH Índice de Desenvolvimento Humano. LISTA DE ABREVIATURAS ONU Organização das Nações Unidas. PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

..........................................1 Desenvolvimento como liberdade ...... 13 CAPÍTULO II 2 A CRÍTICA DE AMARTYA SEN À VISÃO DE DESENVOLVIMENTO A PARTIR DA PERSPECTIVA DO CRESCIMENTO ECONÔMICO.................. 30 CAPÍTULO III 3 O PAPEL DO LIVRE MERCADO E DAS INSTITUIÇÕES ................................ 51 4................................................................................... 39 CAPÍTULO IV 4 LIBERDADE E LIBERALISMO ........................................ 77 .............................................. 12 1.................. 47 4................. 54 CAPÍTULO V 5 REPUBLICANISMO .....................1 O ideal de liberdade republicana .................................................... 9 CAPÍTULO I 1 REFERENCIAL TEÓRICO ..... SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......2 Liberdade positiva e negativa ......................................................................................1.................. 24 2......................................................... 18 2.........................................................1 A influência de John Rawls ....................................................................................... 72 BIBLIOGRAFIA ...............................................................................................2 A condição de agente no processo de desenvolvimento .....................................................................................................................................1........1 Insuficiência de liberdades substantivas ....................2 A importância da democracia e da participação pública........... 32 3. 61 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................... 24 2.......................1 As privações e as expansões de liberdade na teoria de Amartya Sen ........................................................................ 36 3............................................................

e deve estar relacionado. o avanço tecnológico ou o crescimento do PIB. Disposições sociais e econômicas. visão que se contrapõe àquele que se baseia apenas na renda. através do qual este organismo determina estatisticamente. . mas o desenvolvimento não pode ser considerado como um fim em si mesmo. do chamado Estado de Bem Estar ou “Welfare state”. proteção ou educação. essencialmente. Entre outras contribuições Sen mostrou que o desenvolvimento de um país não está unicamente ligado ao crescimento econômico medido através do Produto Interno Bruto (PIB). essas questões podem contribuir para a expansão das liberdades usufruídas pelos membros de uma sociedade. como analisada no livro “Desenvolvimento como Liberdade” (SEN. Dentre sua extensa obra destaca-se nesta pesquisa a abordagem de Sen sobre a liberdade. o nível de desenvolvimento dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU). como a liberdade política. medicamentos ou remédios. desde a última década do século XX. como serviços de educação e saúde. também a garantia de outros direitos como segurança. como saúde. assim como suas liberdades. com a melhoria da vida e o fortalecimento das liberdades dos indivíduos. pobreza. liberdade e cultura. As liberdades substantivas são resultado do desenvolvimento e. Nesse texto o autor critica o papel do desenvolvimento que está relacionado unicamente com fatores como: a renda particular. e os direitos civis. mas está essencialmente relacionado às oportunidades que este brinda a sua população para fazer escolhas e exercer a cidadania. habitação. Suas ideias contribuíram à criação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). por isso. a industrialização. Estas últimas deveriam ser as indicativas do êxito de uma sociedade segundo a teoria do Desenvolvimento como liberdade. 2010). principalmente. 9 INTRODUÇÃO Em 1998 o economista indiano Amartya Sen recebeu o premio Nobel de Economia devido suas contribuições para a nova compreensão de conceitos como miséria. fome e. conhecimento e até a atuar politicamente. Para Sen. o que impede seu acesso aos alimentos. a ausência de condições sociais e econômicas (como a falta de serviços de saúde ou condições de educação) limitam também as ações dos cidadãos. O que implica além da garantia dos direitos básicos. são colocados pelo autor como meios promotores do processo de desenvolvimento e fatores de promoção de liberdades substantivas.

Para apresentar a temática e desenvolver o objetivo proposto. assim. caracterizando e analisando suas implicações para o desenvolvimento. 1999. Ainda que Amartya Sen se debruce sobre alguns dos temas dessa discussão. Analisam-se também alguns livros de Quentin Skinner (1996. inibidores da disposição dos cidadãos para o cumprimento de deveres sociais indispensáveis à boa ordem republicana (SILVA. e de Norberto Bobbio (2000) e John Rawls (2011) para abordar a visão liberal. Procura-se também evidenciar que a ideia de “liberdade como desenvolvimento” do pensador indiano complementa-se com o conceito republicano de liberdade definida como ausência de dominação. A entronização do individualismo atomista de parte da tradição liberal anglófona dos últimos dois séculos teria resultado numa filosofia política e num ideal de liberdade refratários à aceitação da ideia de bem comum e. É importante notar que o conceito de liberdade é um tema de discussão relevante na teoria e história política das últimas duas décadas. 10 Este trabalho busca analisar o conceito de “liberdade como desenvolvimento” proposto por Amartya Sen. sugerem os neorrepublicanos. especialmente. com a liberdade neorrepublicana proposta pelo historiador Quentin Skinner e pelo filósofo Phillip Pettit. seu objetivo principal não é analisar o conceito de liberdade. numa compreensão da liberdade que atenta exclusivamente para a ausência de impedimentos à realização das escolhas por parte dos agentes individuais. este trabalho estrutura-se em cinco capítulos. Segundo Silva (2008) a principal motivação deste debate vem da crítica dos teóricos neorrepublicanos à concepção de liberdade da linha dominante do pensamento liberal contemporâneo. . consequentemente. A principal fonte de dados desta pesquisa são as obras de Amartya Sen. 151-152). apresenta-se o processo de formação conceitual da ideia de liberdade e suas transformações na teoria e prática política desde o fim do século XIII até final do século XVI. 2008. mas suas implicações e efeitos em relação ao desenvolvimento. p. essencialmente o livro “Desenvolvimento como liberdade” (2010). esta pesquisa busca contextualizar e colocar as ideias de Sen em relação à liberdade dentro deste debate entre o liberalismo e o Republicanismo. 2010) e Philip Pettit (1997) para caracterizar a visão republicana. Há algo de profundamente contestável. Nesse sentido. considerando suas relações com as diversas noções de liberdade estabelecida por pensadores liberais e. baseado na analise do processo de formação do conceito moderno de Estado do historiador Quentin Skinner no livro “As Fundações do pensamento político moderno” (1996). No primeiro.

Neste capítulo trata-se também a ideia de “condição do agente” como membro público e sua relação com o conceito de bem-estar. Considera-se inicialmente a leitura e defesa de Sen sobre Adam Smith e. aborda-se o pensamento deste teórico inglês e sua teoria sobre liberdade. Apresenta-se o conceito de liberdade como desenvolvimento e sua relação com as privações fazendo ênfase nas liberdades constitutivas e como elas contribuem para o desenvolvimento e para sua própria expansão. posteriormente. 11 O segundo capítulo faz uma descrição das principais críticas feitas por Amartya Sen ao conceito de desenvolvimento sob a ótica do crescimento econômico. Apresenta-se a liberdade entendida no cerne desta linha de pensamento e as diferenças entre liberdade negativa e positiva. O quarto capítulo centra-se no liberalismo. Considera-se a visão de Skinner e Pettit na denominada linha neorromana no qual consideram a liberdade como os valores soberanos da república. para finalmente considerar a relação entre democracia. participação política. examina-se a forma em que o mercado ajuda a fortalecer o papel do Estado para além da renda. liberdade e desenvolvimento. Analisa-se também a relação entre pobreza e a insuficiência de liberdades substantivas. direitos e bem-estar. No terceiro capítulo trata-se o tema do livre mercado e as instituições. consideração que dialoga com o conceito de liberdade de Sen. . Levando em conta as influencias do liberalismo igualitário de John Rawls no pensamento de Sen. No último capítulo este trabalho foca no republicanismo.

a não ser que se cubram de ideias. apontando alguns aspectos do processo pelo qual se formou o conceito moderno de Estado. Talvez. mas principalmente no uso da metodologia historicista das . 9). é um dos conceitos centrais que caracterizam o pensamento dessa época e sustentam o conceito moderno de Estado. Para analisar o desenvolvimento como liberdade em Amartya Sen considera-se necessário começar contextualizando o conceito de liberdade como apresentado pelo historiador Quentin Skinner no livro “As Fundações do pensamento político moderno” (SKINNER. como se descreve ao longo deste capítulo. A ideia de liberdade. p. de limites enevoados. as ideias políticas sejam natimortas: o certo é que sem essas forças. contextualiza e analisa o pensamento político de vários autores desde o fim do século XIII até final do século XVI. como será analisado no Capitulo 5 do presente trabalho. não pode ser apreendido pelos conceitos fixos. é nesse período que se formaram os “principais elementos de um conceito de Estado passível de dizer-se moderno” (SKINNER. 1996). E. 228). 2002. 12 CAPÍTULO I 1 REFERENCIAL TEÓRICO Negligenciar o campo do pensamento político porque seu tema instável. segundo o ator. dirigindo seus esforços a estudar e promover a liberdade cujas raízes encontram-se na antiga República Romana. É importante ressaltar que um dos grandes propósitos de toda a obra de Skinner é a contestação da concepção liberal de liberdade. Só um materialismo muito vulgar nega o poder das ideias e afirma que os ideais são meros interesses materiais disfarçados. Skinner analisa nesse livro os principais textos do pensamento político da Idade Média e começos da era moderna. p. o conceito Republicano de liberdade promovido por Skinner e pelo filósofo irlandês Philip Pettit estruturam o conceito de liberdade de Amartya Sen. pois. O destaque da forma em que Skinner analisa o conceito de Liberdade no livro “As Fundações do pensamento político moderno” radica não só na sua tentativa de resgatar as raízes do conceito na Idade Média. A obra em questão apresenta. 1996. Seguindo a abordagem “historicista das ideias” da Escola de Cambridge do pensamento político. sem a pressão das forças sociais. continuam cegas e sem direção (BERLIN. modelos abstratos e finos instrumentos adequados à lógica ou à análise linguística – exigir uma unidade de método na filosofia e rejeitar tudo o que o método não possa tratar com sucesso – é apenas permitir-se ficar à mercê de crenças políticas primitivas e não criticadas.

p.79). Skinner afirma que “se quisermos compreender tais textos. Bodin e os revolucionários calvinistas. apresentando com clareza as complexas relações entre a teoria e a prática política. 1. devemos ser capazes de oferecer uma explicação não meramente do significado do que foi dito. mas também do que o autor em questão pode ter tido a intenção de dizer ao dizer o que disse” (SKINNER. Essa metodologia baseia-se em situar os textos em um contexto que permita identificar o que os autores estavam fazendo ao escrevê-los. aquela que seja igual à afirmação real. p. Maquiavel.1 O ideal de liberdade republicana O ideal de liberdade que vai estruturar o pensamento de boa parte dos pensadores do Estado Moderno analisados por Skinner nasce em meados do século XII e tem uma importante relação com a organização social e política do norte da Itália. 2008). Com essa metodologia Skinner debruça-se sobre os principais escritos de autores como Dante. ou seja. procura a compreensão do significado dos textos políticos do passado através da reconstituição dos contextos linguísticos e normativos em que esses textos foram criados (SILVA. Sobre essa finalidade. 2002. 13 ideias. Pois é justamente a história que nos permite identificar os problemas que atraíram a atenção dos autores clássicos. Bartolus. Assim o método indica que para estudar um autor do passado o historiador das ideias deve explicar o contexto discursivo em que o texto foi produzido. Depois é necessário identificar entre as diversas possibilidades de significado descobertas. para descobrir qual o objetivo de comunicação de quem o escreveu. Erasmo e More. com uma forma de autogoverno precedida pelo poder de um funcionário chamado de podestà que tinha o poder supremo sobre a cidade. Lutero e Calvino. Nessa região as cidades tinham se organizado de forma diferente à monarquia hereditária que regia o resto da Europa e que caracterizava a sociedade feudal. 87) afirma que “o contexto social figura como a estrutura última a partir da qual podemos decidir quais significados convencionalmente reconhecíveis alguém poderia. Skinner (2002. Daí a importância do conhecimento histórico sobre o momento em que os textos foram registrados. Marsiglio. Essas cidades conformavam-se como repúblicas independentes. em princípio. ter desejado comunicar”. Esse podestà era .

e desde o séc. Apesar dessas condições. foi defendida e argumentada por vários pensadores florentinos entre os que se destaca Bartolo de Saxoferrato.  A questão de assegurar o bem comum. Destacam-se Ptolomeu e Marcílio de Pádua que foram fortemente influenciados por Aristóteles cujas obras começaram a ser traduzidas para o latim já a final do séc. especialmente. IX sofreram diversas tentativas de conquista pelo Império Germânico. ao que Skinner chama de defesa de suas constituições Republicanas. e outro menor com uns quarenta cidadãos. através da retórica nascente. As cidades de Lombarda e Toscana que resistiram no campo de batalha às múltiplas tentativas de ataque do Império. pois segundo eles o lucro particular era hostil à virtude pública. XII. que vinha surgindo desde começos do século XIII e que iria a influenciar o desenvolvimento do pensamento político da renascença.  E o problema de quais deviam ser as virtudes que os cidadãos e. a ideia de liberdade que demandavam estas cidades tinha duas conotações: de um lado o direito a não sofrer controle externo de sua própria vida política. os governantes deviam ter para manter a liberdade da cidade. governava por máximo um ano e seguia dois conselhos: um com quase seiscentos membros. As principais questões que esses autores levantavam relacionavam-se às possíveis ameaças à liberdade especialmente:  O problema do aumento da riqueza privada. Essa liberdade exigida pelas cidades do norte da Itália. o direito de se governarem segundo melhor entendessem. de como a cidade podia atender uma unidade entre os interesses da cidade e os cidadãos enquanto indivíduos. quem se empenha em defender em termos legais essa liberdade. dedicaram boa parte de suas obras a defender. o que Skinner denomina afirmação de sua soberania. situação que ameaçava constantemente sua relativa “autonomia”. Esses dois pensadores expressam uma preferência pela liberdade republicana e têm uma marcante consciência de que há. ou seja. Nesse sentido. 14 eleito pelo voto popular. uma pressão e ameaça a essa liberdade pela ação dos tiranos. que se referia à independência política e autogoverno republicano. também criaram diversas “armas ideológicas” para defender sua estrutura política e sua “liberdade”. esse ideal de liberdade. Eles acreditavam que a maior debilidade dessas cidades era a sua . Também os pensadores do movimento humanista cívico. e do outro. no seu tempo. Os pensadores escolásticos também aportaram a esse propósito de defesa da liberdade das cidades republicanas. as cidades do norte da Itália seguiam sendo por direito consideradas vassalas do Santo Império Romano.

Porém ainda que eles levantassem as mesmas questões que os humanistas cívicos. E assim escreve Skinner (1996. Sugeriam como solução a criação de uma cidadania armada e independente. e de assim canalizar as energias para o serviço da comunidade” (SKINNER. Assim. e sim o fato dos cidadãos não se sentirem mais preparados a lutar para defender sua liberdade de cara às agressões da tirania. que um povo pode desfrutar das bênçãos da paz sem precisar perder a liberdade: e. afirmam que o valor supremo na vida política devia ser a obtenção e manutenção da paz e a unidade. p. e deixarem a defesa de suas liberdades nas mãos de tropas mercenárias. Mas negam que esta seja incompatível com a preservação da liberdade. p. A mensagem final que deixam para seus contemporâneos é. O espírito público e a defesa do bem comum passaram a ser para estes humanistas os principais valores que o corpo dos cidadãos devia ter para manter a liberdade da República. o maior perigo para a liberdade era o problema da discórdia civil. pois ele seria o único capaz de dissolver as facções e assegurar a paz. 77). (SKINNER. para tanto. p. 1996. 15 extrema dependência às facções. 1996. empregando o termo para indicar tanto a independência quanto o autogoverno. assim. p. Os perigos que ameaçavam a liberdade para os humanistas florentinos já não eram mais as facções e o aumento da riqueza. de atingir um senso adequado do espírito público. 98 – 99). mas pela “capacidade de desenvolver os talentos que possui. . a permanente discórdia e falta de paz interna (SKINNER. chegavam a conclusões bem diferentes. Eles concedem que o valor fundamental na vida política consiste na conservação da paz.102). pois como expressava Leonardo Bruni: todo cidadão devia estar prestes a tomar armas para defender a liberdade. Os humanistas florentinos de começos do século XV também defendem nas suas obras a liberdade das cidades republicanas de um modo tradicional. a condição é que o papel de “defensor da paz” seja assumido pelo próprio povo. O mais importante que Skinner ressalta em relação ao pensamento de Ptolomeu e Bartolo é que eles conseguem defender a preservação da liberdade das cidades republicanas em oposição ao que Tomas de Aquino promulgava: a necessidade de serem governadas por uma única pessoa. um príncipe. 86): É contra essa ortodoxia que a defesa da liberdade republicana montada por Marsílio e Bartolo tem de ser entendida. nem pelas suas riquezas. 1996. pois entendiam a liberdade tanto no sentido de ser livre da interferência externa quanto no de se ter a liberdade de tomar parte ativa no governo da República. e dessa forma. Pois a nobreza de um cidadão era defendida não pelo valor ou pela antiguidade de sua linhagem.

levar o homem a excelência. como era antes. da virtude. ao corpo dos cidadãos. não se deve levar em conta a justiça ou injustiça.. devido ao triunfo dos príncipes na guerra entre a França e a Itália. . Tanto Maquiavel como outros dos humanistas tardios preocupam-se pelas formas certas em que deviam ser governadas as repúblicas para defender a sua liberdade. A educação dos cidadãos. antes analisada pelos humanistas cívicos. ou a sua dignidade ou infâmia. Para eles as virtudes dos príncipes e dos cidadãos comuns eram e deviam ser diferentes. a extensão de suas capacidades e os objetivos adequados de vida. deve-se optar. pois ainda que ele defenda a necessidade de manter as virtudes para governar as Repúblicas. Ainda que Maquiavel dê continuidade à defesa da liberdade. p. decididamente. para ele: [. o seu aporte particular é a mudança em relação aos aconselhamentos políticos para o governante. 16 O humanismo que se difundiu em toda Europa no século XV recobrou uma perspectiva autenticamente clássica e transformou os ideais e visões sobre a natureza do homem. vencer os infortúnios que abalavam as cidades constantemente e. principalmente. e os valores que deviam ter para levar adiante as cidades passou a ser um tema central entre os pensadores da época. descartando-se qualquer outra consideração. Porém na renascença tardia. ganha uma nova distinção nos pensadores do século XVI. A virtude cívica seria esse elemento essencial que possibilitaria guiar a República. 204). por aquela alternativa que possa salvar a vida e conservar a liberdade do país (MAQUIAVEL apud SKINNER. a quem Skinner dedica boa parte de suas páginas. o respeito ou à justiça. houve um maior conflito entre os defensores das práticas tirânicas e os que defendiam a liberdade republicana. Talvez o mais famoso desses pensadores seja Maquiavel. e dedicaram suas analises e aconselhamentos aos governantes e não. 1996. Ao contrário. A ideia da “virtus”. Os novos humanistas tinham menos interesse em defender a tradicional concepção republicana de cidadania e centraram sua atenção nas virtudes e formas em que os príncipes deviam governar. Exemplo claro dessa nova virada é o conhecido livro “O príncipe” de Maquiavel. a tranquilidade e obediência. especialmente dos governantes. ele considera que a as virtudes de um governante seriam qualquer qualidades que na prática sejam necessárias para salvar a liberdade da pátria. para os humanistas do século XV a virtude cívica era o maior valor que sustentava a liberdade republicana.. Isso trouxe novas perspectivas em relação à liberdade e aos princípios dos governos republicanos. e nesse sentido inclui possibilidades contrárias à bondade. mas também fazem ênfase em conservar a paz. à sinceridade. a bondade ou crueldade. Nesse sentido. defender seu governo e sua autonomia.] quando a segurança do país depende por completo da decisão a se tomar.

porém com novas preocupações. Os humanistas desta época continuam analisando e defendendo o mesmo ideal de liberdade. pois só cultivando determinadas virtudes. para assim manter a liberdade republicana. era possível manter a boa ordem. entendida como a situação em que o povo ignora o bem da comunidade como um todo e se interessa com seus interesses individuais ou de facção. especialmente entre os governantes (príncipes e outros magistrados). a harmonia e a paz que devia ser o principal objetivo de um governante. 17 A difusão da cultura da renascença na França. Por este motivo. . A principal delas era o perigo “da saúde pública” ou a falta de espírito público. eles colocaram a virtude no lugar central da sua análise. Inglaterra e Alemanha levou ao surgimento de uma nova cultura humanista em começos do século XVI.

El crecimiento constituía el interés de todos y no es de extrañar que en ese ambiente la teoría del crecimiento acaparara la atención de los economistas (SEN. sendo que. Economistas clássicos como Adam Smith (1988) – inspirador de Amartya Sen em todas as obras abordadas nesta pesquisa – evidenciava o crescimento através da acumulação de capital. David Ricardo conota o desenvolvimento como um processo de acumulação autossustentável de capital. 18 CAPÍTULO II 2 A CRÍTICA DE AMARTYA SEN À VISÃO DE DESENVOLVIMENTO A PARTIR DA PERSPECTIVA DO CRESCIMENTO ECONÔMICO. como modelo de progresso das cidades. 1979. até o fim da década de sessenta os conceitos de desenvolvimento estavam ligados apenas ao crescimento econômico. os economistas passaram a se interessar pelo tema e formularam modelos baseados no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). los países subdesarrollados trataban de iniciar el desarrollo económico. Posterior a Smith. A partir de então. trataban de concentrarse en el incremento de la tasa de crecimiento a largo plazo. los países capitalistas avanzados. .8). A partir da Segunda Guerra Mundial passou-se a considerar o desenvolvimento dos países tidos como subdesenvolvidos e atrasados através do progresso econômico e social. surge a Teoria da Dependência. y los países socialistas estaban decididos a alcanzar a las economías capitalistas más ricas mediante una rápida expansión económica. pero posteriormente aumentó en forma considerable. introduzida por Celso Furtado. Esto se debió en gran medida a una inmensa preocupación práctica por el crecimiento después de la segunda Guerra Mundial. Posterior a esse período. p. esta assegurava que “toda economia subdesenvolvida é necessariamente dependente. que seria interrompido com a escassez de terra disponível. O estudo do desenvolvimento é retratado desde o século XVIII. relativamente libres de crisis periódicas. no acúmulo de capital e no avanço da industrialização como meio de promover o desenvolvimento. aumento da oferta de mão de obra e dos salários em conjunto com o livre mercado internacional. Las economías dañadas por la guerra hacían grandes esfuerzos por reconstruir lo más rápido posible. Amartya Sen destaca tal observação em sua obra “Economia Del Crecimiento” (1979): Al principio el interés por el crecimiento no era mucho.

combater a AIDS e outras doenças contagiosas. a propagação desses fatores como requisitos dos indivíduos de obterem capacidade e assim usufruírem de liberdade. È visível na abordagem de Amartya Sen de desenvolvimento como liberdade. que foi instituído pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq. Amartya Sen nos mostra esta análise do desenvolvimento como liberdade. outra instituição internacional criada após a Segunda Guerra Mundial e sucessora da Liga das Nações. assim para este economista o desenvolvimento decorre em atribuir capacidades às pessoas para realizarem as 1 Ver a Declaração Do Milênio em http://www. sendo que nestes a liberdade está inserida. definida através do PIB. reduzir a mortalidade infantil. A Organização das Nações Unidas.87). Esta proposta de promover o desenvolvimento é característica do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). melhorar a saúde materna. criado como um banco para a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial. promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. 19 pois o subdesenvolvimento é uma criação da situação de dependência” (FURTADO. em parceria de Amartya Sen.org. e que visava apenas tratar o desenvolvimento com a perspectiva do crescimento econômico.pnud. tem em seu caráter um perfil social e humanitário previsto desde sua Carta Magna. em conjunto com determinantes que envolvem saúde. Destarte. delineados na Cúpula do Milênio em 2000. Mas na década de setenta passaram a se considerar as necessidades humanas básicas e na década seguinte destacou-se a redução da pobreza. ele elabora ideias que definem a liberdade como o meio e o fim do desenvolvimento. o desenvolvimento vai além da perspectiva econômica. Celso Furtado trouxe uma conceituação mais humana de desenvolvimento. 1974. tornando-se uma busca constante pela promoção do bem-estar social. A preocupação com a concepção do desenvolvimento foi realçada com a criação dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio. atingir o ensino básico fundamental. p. em que os países-membros da ONU assumiram a responsabilidade de erradicar a pobreza e a fome. educação e expectativa de vida. através de discernimentos sociais. Tal iniciativa foi apoiada pelo Banco Mundial. O relatório do IDH visa buscar soluções para os países menos desenvolvidos. Desta forma.br/ (Consultado em 1 de novembro de 2013) . promover a sustentabilidade ambiental e estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento 1. órgão da ONU criado para tal finalidade e que aborda atualmente o desenvolvimento humano através do Índice de Desenvolvimento Humano.

20 várias coisas que consideram valiosas de fazer ou ter. como a ética e a filosofia política. sua linguagem nos remete a uma profunda análise da economia do bem estar moderno e das necessidades de mudança para a promoção de uma sociedade mais igualitária. assim como a preocupação em diferenciar a condição de agente aos meios e aos fins do desenvolvimento humano. e nela Sen discute como a economia moderna não leva em consideração princípios morais. Para o autor. Em aproximadamente cem páginas dos escritos “Sobre Ética e Economia” é possível compreender porque Amartya Sen é um dos principais expositores do conceito do desenvolvimento humano atual. 1999. A tentativa de Amartya Sen de resgatar a moral para o discurso da economia com a proposta da perspectiva normativa da capacitação é desenvolvida no capítulo a seguir. mas também da boa vida. 1999. p. a economia apresenta duas origens. é necessária uma "avaliação inteiramente ética que adote uma . A partir destes conceitos Sen defende que a realização social relacionada à ética vai além de satisfazer a eficiência. p. que remetem a maximização de utilidades. Para Sen Aristóteles já evidenciava sua preocupação associando a economia aos fins humanos. da finalidade humana. 19). assim o estudo da economia não estava ligado apenas à garantia da riqueza. assim ele diz que “a vida empenhada no ganho é uma vida imposta. Outros pontos a serem destacados referem-se à interpretação errônea da racionalidade. ao mesmo tempo exercendo a sua condição de agente. Esta obra é resultado das Conferências Rover realizadas na Universidade da Califórnia. A base da argumentação seniana é a sua luta contra a visão da economia do bem-estar tradicional. Ele declarou que sobre a ideia de “alcançar o bem para o homem” está à visão de que “ainda que valha a pena atingir esse fim para um homem apenas. 20). sendo ela apenas útil no interesse de outra coisa” (SEN. as comparações interpessoais e distributivas. tão destacados na teoria e política desde Aristóteles. ambas relacionadas com a política: uma provinda da ética. porque mesmo a economia sendo o estudo da riqueza. As razões que temos para acumular riqueza estão na sua serventia como possibilidade de termos mais liberdade e assim levar o tipo de vida que temos razão para valorizar. esta deveria estar interligada a outros estudos. e outra da engenharia e logística. cujo fundamento ético é o utilitarismo. 1986. e evidentemente a riqueza não é o bem que buscamos. em Berkeley. é mais admirável e mais divino atingi-lo para uma nação ou para cidades-estados” (SEN. Sen afirma que Aristóteles também questionava o “como devemos viver?” e associava a economia à ética.

Com o desuso da abordagem ética as comparações interpessoais de utilidade restringiram-se à Otimilidade de Pareto. comparando estas escolhas entre diversas possibilidades de opções possíveis. pode tornar-se mais produtiva se der uma atenção maior e mais explicita às considerações éticas que moldam o comportamento e o juízo humanos” (SEN. 1999. Entretanto. p. a abordagem avaliatória deve levar em consideração as informações excluídas (SEN. p. desde que os miseráveis não possam melhorar suas condições sem reduzir o luxo dos ricos” (SEN. p. Sen aponta como limitado este enfoque. 1999. 21 visão mais abrangente do bem” (SEN. 1999. Sen deixa claro que a abordagem não ética da economia tem seu valor. o principio utilitarista priorize os aspectos da utilidade. para em seguida a utilidade ser realizada por comparações interpessoais normativas ou éticas. pois “considera-se que um determinado estado social atingiu um Ótimo de Pareto se e somente se for impossível aumentar a utilidade de uma pessoa sem reduzir a utilidade de alguma outra pessoa” (SEN. A pobreza do julgamento normativo da economia moderna gera o afastamento entre a ética e a economia. este argumento é sustentado por Sen devido à ênfase dada ao comportamento individual.80).25). 2010. Primeiramente o critério utilitarista era realizado através da soma total de utilidades criadas.20). Entretanto. na qual as análises normativas não levam em consideração a influência ética no comportamento humano. 47). . porém considera apenas a utilidade. tanto que estes são vistos apenas como instrumentos para gerar eficiência e bens. já que “um estado pode estar no Ótimo de Pareto havendo algumas pessoas na miséria extrema e outras nadando em luxo.48). como ela emergiu. porém ele “gostaria de mostrar que a economia. a finalidade da teoria será a utilidade. Uma vez que. Em seu livro “Desenvolvimento como Liberdade”. enquanto na outra a racionalidade é apresentada como a maximização do autointeresse. Segundo Sen a racionalidade na economia pode ser diferenciada por duas formas: uma é identificada a partir de escolhas realizadas em diferentes situações. A “escolha racional” passa a ser base para o comportamento humano real distanciando-se dos direitos essenciais para a vida. p. Isto porque a importância da ética diminuiu com o progresso da economia moderna. O Ótimo de Pareto é usado como eficiência econômica. p. Sen afirma que para compreender o pressuposto utilitarista é necessário ir além das informações incluídas sob o que é a teoria. 1999. por mais que outros aspectos como o instrumental sejam considerados.

p. mas sim sua maximização. . Em seu livro “Utilitarianism and Beyond” (1982). 85). A junção destes três elementos delibera a abordagem utilitarista clássica. and it claims that the correct basis of assessment is welfare. e essa insensibilidade generalizada constitui uma limitação significativa da ética utilitarista” (SEN. (SEN. One is a theory of the correct way to assess or assign value to states of affairs. A escolha é a possibilidade que a pessoa tem de optar entre uma gama de alternativas. e segundo Sen “tudo isso proporciona uma base informacional muito restrita. A felicidade nem sempre representa uma maximização do interesse individual. has been called welfarism. a property that is sometimes called sum-ranking. recommends a choice of actions on the basis of consequences. and an assessment of consequences in terms of welfare. 2010. excluem-se questões importantes como as liberdades. já que a escolha das pessoas. Utilitarianism is thus a species of welfarist consequentalism. 22 Deste modo. já que o utilitarismo não considera a distribuição das utilidades.p. 81). or people getting what they prefer. além de poder ser guiada por motivações diferentes uma das outras. in particular. Como exemplo. 1982. no utilitarismo uma sociedade injusta é aquela em que as pessoas são menos felizes.that particular form of it which requires simply adding up individual welfares or utilities to assess the consequences.4). 2010. a principal realização deste ato será a independência. satisfaction. The other component is a theory of correct action. This theory. Nesta proposição o bem-estar pode ser caracterizado por três vertentes da utilidade: felicidade. a felicidade será apenas uma consequência. Utilitarianism.3. WILLIANS. “nessa versão utilitarista. pois dependem de um estado mental. assim esta conquista não tem um caráter individual. isto porque o bem-estar de uma sociedade é sinônimo de felicidade para determinadas pessoas. desejo e escolha. mas sim coletivo. Sen define o conceito de utilitarismo: What. which claims that actions are to be chosen on the basis of the states of affairs which are their consequences: this has been called consequentialism. p. não é determinada apenas pelo bem-estar individual. Sen (2010) presume que se um indivíduo que luta pela independência de seu país e consegue alcançá-la. superior ao bem estar individual. one component of utilitarianism. A felicidade e o desejo como medidas de utilidades são limitadas. define-se injustiça como uma perda agregada de utilidade em comparação com o que poderia ter sido obtido” (SEN. in its central forms. essa hipótese não oferece comparações interpessoais. is utilitarianism? We have already implicitly referred to the point that it can be regarded as the intersection between two different kinds of theory. Ou seja.

Os destituídos tendem a conformar-se com sua privação pela pura necessidade de sobrevivência e podem. chegando mesmo a ajustar seus desejos e expectativas àquilo que sem nenhuma ambição consideram exequível.p. os pobres-diabos usuais em sociedades estratificadas. se conforma mais facilmente com as privações da vida. com poucas oportunidades. e não apenas pela reação mental que ela apresenta diante de alguma privação. do que outras que foram criadas na riqueza. Do mesmo modo. tanto que esta “figura entre as dificuldades que limitam a serventia das comparações de renda real. No próximo capítulo expõem-se as principais ideias de Sen neste campo de estudo. na qual objetiva substituir os valores utilitários por uma base informativa que permita realizar exercícios avaliativos das necessidades reais das pessoas salientando o uso de métodos objetivos ao invés do subjetivo.p. portanto. em consequência.95).98). também não permite comparações. a utilidade não pode unicamente representar o bem-estar. 2010. Assim uma pessoa que teve uma vida na pobreza. A teoria moderna da utilidade deixa de lado sua realização através do prazer ou desejo. 89). vivendo em um mundo de incerteza – os empregados exauridos por seu trabalho diário em sweatshops (estabelecimentos que remuneram pessimamente e exigem demasiadas horas de trabalho). para julgar as vantagens respectivas de pessoas diferentes” (SEN. mas o que é valorizado por uma pessoa pode ser insignificante para outra. . assim hoje “a utilidades nada mais é do que a representação da preferência de uma pessoa” (SEN. uma pessoa deseja determinada coisa porque esta tem valor para ela. 23 Outra crítica realizada por Sen é a limitação do “welfarismo” ao julgar o bem-estar através da medição de felicidade. as minorias perpetuamente oprimidas em comunidades intolerantes. os meeiros em propriedades agrícolas – tradicionalmente em situação de trabalho precária. É visível a influência constante das circunstancias sob a medida de utilidade. devido à diversidade humana.p. intitulando-se como uma “representação numérica da escolha de uma pessoa” (SEN. o bem-estar não é a única coisa valiosa para a pessoa. não ter coragem de exigir alguma mudança radical. 2010. já que. 2010. 2010. assim como o que satisfaz uma pessoa pobre é diferente do que contenta um rico. 95). Este novo enfoque dado ao utilitarismo. Tal modificação ocorreu devido à critica que foi realizada a esse argumento na qual se colocava que a comparação entre mentes de diferentes pessoas é impossível. as donas de casa submissas ao extremo em culturas dominadas pelo machismo. Sen constrói sua teoria. Estes problemas na métrica de utilidade demonstram a necessidade de se compreender a pobreza através da privação real da pessoa.p. (SEN. O cálculo de utilidades pode ser demasiado injusto com aqueles que são persistentemente destituídos: por exemplo. A partir deste pressuposto.

Sen (2010) introduz seu pensamento mostrando que a globalização possibilitou a ligação entre diferentes regiões. o ponto central é como fazer um bom uso dos formidáveis benefícios do intercurso econômico e do progresso tecnológico de maneira a atender de forma adequada aos interesses dos destituídos e desfavorecidos” (SEN. fundamentado nas cinco conferências que o autor proferiu como membro da presidência do Banco Mundial em 1996. 24 2. “A questão não é somente se os pobres também ganham alguma coisa com a globalização. quanto na propagação de ideias.1 As privações e as expansões de liberdade na teoria de Amartya Sen Após a análise do conceito de desenvolvimento é possível perceber sua consideração atual em relação à finalidade humana e à ideia de que só é possível consegui-lo através do enfoque na liberdade.23) O principal desafio à globalização está na desigualdade representada pelas disparidades de riqueza. ao comércio e a uma sociedade aberta. o conceito de Direitos Humanos e a liberdade política. “Na verdade. sociais e econômicas. (2010. p. poder e oportunidades políticas. material que conjunto com outras obras complementam e até mesmo reproduzem de forma igualitária sua visão de liberdade. Sen afirma que a economia global tem gerado prosperidade em muitas áreas remotas onde a pobreza dominava até então.1. p.23). No livro “As pessoas em Primeiro Lugar: a Ética do Desenvolvimento e os Problemas do Mundo Globalizado” escrito em parceria com Bernardo Kliksberg. No século XX estabeleceram-se o regime democrático. tanto no âmbito do comércio e a comunicação.1 Desenvolvimento como liberdade 2. porém não é possível reverter à pobreza do mundo impedindo o acesso dos mais pobres a fontes de tecnologia. 2010. porém o mundo é composto de privações e problemas sociais. Os principais argumentos apresentados neste item derivam-se do livro “Desenvolvimento como Liberdade” de Amartya Sen (2010). mas se nela .

a diferença entre uma concentração econômica e a vida que podemos levar. KLIKSBERG. Sen busca demonstrar a importância do papel das diferentes formas de liberdade no combate a esses males. sem miséria e com liberdades. destituição e opressão extraordinárias. . Superar tais problemas sociais faz parte do processo de desenvolvimento. avanço tecnológico e modernização social. direitos civis e participação política. fomes coletivas e fomes crônicas muito disseminadas. mas de viver bem. 2010. como educação. a partir de uma questão fundamental ao conceito de desenvolvimento. “o desenvolvimento tem de estar relacionado sobre tudo com a melhora da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos” (SEN. como saúde. 16).p. (SEN. ampla negligencia diante dos interesses e da condição de agente das mulheres e ameaças cada vez mais graves ao nosso meio ambiente e à sustentabilidade de nossa vida econômica e social. emprego e segurança econômica e social. educação.p. em determinadas culturas há desigualdade entre homens e mulheres. e a privação da liberdade política e dos direitos civis básicos. que geram doenças e mortes desnecessárias. escassez de saneamento básico e água tratada. acarretam ainda mais as privações de liberdade no mundo. cada vez mais constantes no cenário atual. violação de liberdades políticas elementares e de liberdades formais básicas. aumento das rendas pessoais. Existem problemas novos convivendo com os antigos – a persistência da pobreza e de necessidades essenciais não satisfeitas. 2010. As crises econômicas. Além disso. motivos desejados por todos. 9). com uma vida longa e boa. Para ele “o desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam” (SEN. Mas as liberdades dependem principalmente de outros determinantes vinculados ao desenvolvimento humano. A promoção desta liberdade necessita de fatores já evidenciados pelo conceito de desenvolvimento tradicional. 25 eles participam equitativamente e dela recebem oportunidades justas” (SEN. Sen afirma que a riqueza não oferece a possibilidade de se viver para sempre. Vivemos igualmente em um mundo de privação.29). 2010.32). Quanto ao fato da renda servir de medida ao desenvolvimento. Essas privações são definidas por Sen nos países pobres como: as fomes coletivas e subnutrição. como crescimento do PNB.p. O autor inicia sua definição da perspectiva da liberdade. Enquanto que nos países mais ricos há carência de serviços públicos. saúde. Uma concepção correta de desenvolvimento deve ir além da acumulação da riqueza demonstrada através de indicadores de renda.p. industrialização. 2010.

p. 26 “O papel da renda e da riqueza – ainda que seja importantíssimo. ao mesmo tempo em que melhores condições desses fatores ajudam na manutenção de rendas elevadas. portanto. a pobreza não é apenas falta de renda. As influências causais desses contrastes entre os padrões de vida julgados segundo a renda per capita e os julgados segundo o potencial para sobreviver até idades mais avançadas. como no caso dos negros no EUA que têm uma expectativa de vida menor à de moradores de países do terceiro mundo como a Jamaica. mas que atualmente aflige os países em crise da União Europeia. juntamente com outras influências – tem de ser integrado a um quadro mais amplo e completo de êxito e privação” (SEN. sendo até mesmo vitima de exclusão social. serviços de saúde públicos. Tal fenômeno não provoca apenas a destituição de renda que é suprida com o seguro desemprego. Todavia. estes mesmos negros possuem uma renda per capita maior que os habitantes destes países subdesenvolvidos. 2010. lei e ordem. o desenvolvimento almejado. Outra incidência destacada por Sen em países desenvolvidos é a existência de privações maiores para determinados grupos. pode ser definido a partir da constituição da liberdade em fonte promotora do desenvolvimento e. vivido no passado. 2010. (SEN. prevalência da violência.39). envolve a liberdade dos indivíduos e dos elementos que a constituem. Sen não especifica uma lista de instrumentos que deliberam seu objetivo. A partir desta perspectiva de liberdade evidencia-se uma preocupação de Sen (2010) com a qualidade de vida. alimentação. mas. 35). Este processo é caracterizado por Sen como uma “relação de mão dupla”. porém. é impossível negar que a privação de capacidades se dá pela falta de renda. mas privação das capacidades básicas. A expansão das “capacidades” das pessoas permite que elas possam levar o tipo de vida que elas valorizam. Essa capacidade pode ser ampliada através de políticas públicas ao mesmo tempo em que ações dessas políticas podem ser influenciadas pelo uso efetivo das capacidades participativas do povo. por exemplo. visto que a falta de renda ocasiona péssimas condições de educação. saúde. . Sen (2010) cita o caso do desemprego em algumas regiões da Europa. devido a isso.p. incluem disposições sociais e comunitárias como cobertura médica. o individuo desempregado perde a liberdade e habilidade. O desenvolvimento como liberdade. Para o autor. educação escolar.

em que a concretização do desenvolvimento depende da condição de agente das pessoas. a subnutrição. (SEN.p. 27 O desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania. por exemplo. (SEN. Segundo Sen (2010. 16). A eliminação de privações de liberdades substanciais é constitutiva ao desenvolvimento. 17) a liberdade é fundamental para o processo de desenvolvimento. interalia. em vez de restringi-la a alguns dos meios que. p. p. possivelmente extrapolando a busca do bem-estar do próprio indivíduo (SEN. precisamos distinguir entre o “aspecto do bem-estar”(well-being aspect) e o “aspecto da condição de agente” (agency aspect) de uma pessoa. Enquanto que “ter mais liberdade melhora o potencial das . desempenham um papel relevante no processo” (SEN. o valor da liberdade está além da promoção da liberdade global da pessoa. 2010.159). 2010. lhe oferece oportunidades e resultados. ter condições de evitar privações como a fome.p. Em “Sobre Ética na Economia” Sen expõe este conceito de tal modo que Primeiro. 16). carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática. 2010. a morbidez evitável a morte prematura. ter participação política e liberdade de expressão etc. e a razão da eficácia. De acordo com o exposto acima é possível afirmar que no mundo contemporâneo grande parte da população sofre privações de liberdades. 2010. enquanto o segundo vai além e examina as realizações e oportunidades também em termos de outros objetivos e valores. estas são caracterizadas por Sen como liberdades substantivas. 1999. bem como as liberdades associadas a saber ler e fazer cálculos aritméticos.57) A posição avaliatória difere de abordagens normativas tradicionais como utilidade ou renda real. “ver o desenvolvimento como expansão das liberdades substantivas dirige atenção para os fins que o tornam importante. p.p. negligência de serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva de Estados repressivos (SEN. O primeiro abrange as realizações e oportunidades do indivíduo no contexto de sua vantagem pessoal. As liberdades substantivas incluem capacidades elementares como. já que o promove por duas razões: a avaliatória na qual é possível avaliar se houve a expansão das liberdades das pessoas. A restrição de ter de supor o comportamento autointeressado pode ser removida se nossa preocupação principal for as liberdades substantivas que as pessoas desfrutam (independentemente do propósito com que elas usam essas liberdades) e não o grau em que seu autointeresse é satisfeito (por meio de seu próprio comportamento autointeressado).55).

“As liberdades não são apenas os fins primordiais do desenvolvimento. e assim motivando o desenvolvimento.p. 25).p. é possível constatar que a eficácia da liberdade refere-se ao meio e não apenas ao fim do desenvolvimento. já que não é possível saber qual o real peso de cada capacidade. e a facilidade econômica ajuda a gerar recursos para os serviços sociais. ela passa fome porque quer. 2010. Sen (2010) expõe o caso em que uma pessoa faz jejum. Essa variação de funcionamentos amplia o leque avaliatório. 33). a eficácia social e a condição de agente. uma liberdade fortalece a outra. por necessidade. 28 pessoas para cuidar de si mesmas e para influenciar o mundo. A capacidade de uma pessoa é formada pelas combinações de funcionamentos. os indivíduos podem efetivamente moldar seu próprio destino e ajudar uns aos outros” (SEN. “Com oportunidades sociais adequadas. pois o bem-estar individual se diferencia da qualidade de vida geral. e não por escolha. 2010. Assim. Os funcionamentos representam parte do estado de uma pessoa. a liberdade política promove a liberdade econômica e a liberdade econômica ajuda a promover a segurança econômica. favorecendo a oportunidade de resultados positivos. questões centrais para o processo de desenvolvimento” (SEN. por exemplo.26). e como essas condições de liberdades se inter-relacionam.p.148). e isso afeta os estilos de vida que podemos ter” (SEN.p. a liberdade para escolher o modo como viver. como ela escolhe viver ou o que escolhe fazer. “A eficácia da liberdade como instrumento reside no fato de que diferentes tipos de liberdade apresentam inter-relação entre si. a capacidade é um tipo de liberdade. 2010. 2010. oportunidades sociais facilitam a participação econômica. do mesmo modo. “Enquanto a combinação dos funcionamentos de uma pessoa reflete suas realizações efetivas. Desta maneira a liberdade permite ampliar a capacidade individual. “Diferentes tipos de contingencias acarretam variações sistemáticas na “conversão” das rendas nos “funcionamentos” distintos que podemos realizar.p. 2010.105). De tal modo que uma forma de liberdade está relacionada a outra e a realização de uma é necessária para a realização da outra. o conjunto capacitário representa a liberdade para realizar as combinações alternativas de funcionamentos dentre as quais a pessoa pode escolher” (SEN. mas também os meios principais” (SEN. Portanto. e um tipo de liberdade . Segundo Sen (2010) para compreender a relação entre desenvolvimento e liberdade é necessário apreender a eficácia instrumental de liberdades especificas na promoção de liberdades de outros tipos. é sua opção. ter mais liberdade para fazer o que é valorizado possibilita o alcance da liberdade global das pessoas. que há pessoas que passam fome.

É possível defini-las como: 1) Liberdades políticas: oportunidades que as pessoas têm para determinar quem deve governar. pode-se evitar a corrupção.57). 2) Facilidades econômicas: são as oportunidades que as pessoas possuem de utilizar os recursos econômicos para consumo. bem como se complementam. bem como dos elementos vistos até o momento. uma com a outra. O desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. Tais condições merecem importância no aumento da expectativa de vida das pessoas. p. liberdade de fiscalização. uma pessoa poder confiar na outra. produção ou troca. e qualidade de educação permite a participação em atividades econômicas e políticas. (SEN. liberdade de expressão. através de meios institucionais fixos. no qual possui papel constitutivo e importância na liberdade constitutiva. saúde etc. possibilitando uma compreensão específica de como cada . quando o sistema econômico está vulnerável ou em outras condições. ou seja. 2010. etc. Estas em conjunto promovem a capacidade geral de uma pessoa. estas refletem no correspondente aumento de intitulamentos econômicos da população” (SEN. Sen compete às instituições cinco tipos de liberdades instrumentais: 1)liberdades políticas. 4) garantia de transparência e 5)segurança protetora. para distribuição de alimentos em situações de fome coletiva. 2010. a diálogos e critica política). sincera. e medidas Ad Hoc. “À medida que o processo de desenvolvimento econômico aumenta a renda e a riqueza de um país. 5) Segurança protetora: oferece a segurança social. 2) facilidades econômicas. é considerado como: 1) o fim primordial. Por isso. visa diminuir a miséria. como boa saúde evita morte prematura. 4) Garantias de transparência: são as possibilidades de confiança que a sociedade oferece. Estes modelos de liberdade estão interligados e proporcionam a ampliação das capacidades das pessoas. que constituem formas de privação de liberdade. 3) Oportunidades sociais: é o que a sociedade oferece nas áreas de educação. de direitos democráticos (como ao voto. imprensa livre. papel instrumental (SEN. como benefícios aos desempregados e indigentes. pois quando a pessoa tem a liberdade de ser clara. Essa garantia possui um papel instrumental. 29 pode contribuir imensamente para promover liberdades de outros tipos”. p. 54). 2010. e 2) como meio do desenvolvimento. como exemplo. p. 3) oportunidades sociais. No decorrer deste estudo desenvolvem-se as principais observações de Sen acerca deste tema. 59). irresponsabilidade financeira e transações ilícitas. Sen (2010) ressalta também a importância das liberdades instrumentais na contribuição para as pessoas viverem livremente.

p. 2010. Sen enfatiza que os dois não são a mesma coisa e por isso não devem estar atrelados. “uma pessoa pode dar valor à promoção de determinadas causas e à ocorrência de certos eventos mesmo que a importância atribuída a esses fatos não se relacione com uma melhora em seu próprio bem-estar” (SEN. 1999. Este “agente” atua como membro público e como participante de ações econômicas.57).57). porque. sociais e políticas.57). O papel do agente vai além da busca do bem-estar pessoal e. O termo agente é definido por Sen como “alguém que age e ocasiona mudança e cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos. Esta merece uma importância maior em termos de bem-estar. P. independentemente de as avaliarmos ou não também segundo algum critério externo” (SEN.p. (SEN. comprometimentos (commitments).57). 1999. valores. Podemos ver a pessoa em termos de sua condição de agente (agency). torna-se possível reconhecer o fato inquestionável de que a condição de agente de uma pessoa pode muito bem orientar-se para considerações que não são abrangidas ou pelo menos não são totalmente abrangidas por seu próprio bem-estar. reconhecendo e respeitando sua capacidade para estabelecer objetivos.1. (SEN. 2. etc. o que igualmente requer atenção. 1999. . pode-se “contestar a ideia de que a utilidade e não alguma outra condição é o que melhor representa o bem-estar pessoal” (SEN. 2010. p.2 A condição de agente no processo de desenvolvimento Complementar a definição de racionalidade a partir de escolhas realizadas em diferentes situações é a alusiva de Sen à condição de agente. Assim que removemos a camisa-de-força do autointeresse. apesar de não haver nenhuma contradição na existência da condição de agente com o bem-estar individual. Deste modo.34). enquanto que o aspecto da condição de agente examina as realizações e oportunidades indo além da busca do bem-estar individual. p. já que o aspecto do bem estar abrange realizações e oportunidades do individuo no contexto de sua vantagem pessoal. 30 liberdade substancial é primazia no processo de desenvolvimento idealizado pelo Economista indiano. e também podemos ver essa pessoa em termos de bem- estar (well –being).

2 este enfoque será sustentado no capítulo próximo. as pessoas só atingirão um nível de desenvolvimento elevado quando compreenderem que grande parte dos problemas que sofrem no seu cotidiano encontra solução em suas próprias ações. Sen afirma ainda que a vantagem de uma pessoa. a liberdade dada ao agente melhora o potencial das pessoas para cuidar de si mesmas e para influenciar o mundo. No aspecto do desenvolvimento como liberdade Sen considera que as pessoas devem ser vistas como constantemente inseridas na adequação de seu próprio destino. em termos de bem-estar. por essa abordagem. 31 O bem-estar como condição de agente é representado pela liberdade que a pessoa tem de realizar aquilo que deseja. e neste contexto o Estado e a sociedade possuem um papel de evidência no fortalecimento e amparo das capacidades humanas2.64). é representada pela liberdade que ela tem e não pelo que ela realiza. em si. p.56). 2010. a condição de agente. demanda que a pessoa seja inserida na sociedade e esteja comprometida com a mesma. Há inter-relações distintas entre os diversos tipos de liberdade que influenciam no desenvolvimento. mas também contribui para fortalecer outros tipos de condições de agentes livres” (SEN. 2010. Deste modo. uma parte “constitutiva” do desenvolvimento. questões centrais nesse processo. “Esse tipo de consideração nos conduzirá em direção aos direitos. 10). injustiça econômica e condição de agente. como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento. Em conjunto a esta visão. 1999.75). Esta condição de agente é uma visão mais abrangente da pessoa porque leva em consideração a “valorização de várias coisas que ela gostaria que acontecessem e a capacidade de formar esses objetivos e realiza-los” (SEN. p. A expansão da liberdade é vista. já que elas são responsáveis por sua evolução pessoal e coletiva. p. O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente (SEN. O bem-estar deve ser relacionado à distribuição de renda. p. . em Sen. 1999. Para combater os problemas sociais é necessário considerar a liberdade individual como um comprometimento social. liberdades e oportunidades reais” (SEN. a condição de agente livre e sustentável mantém o desenvolvimento porque “a livre condição de agente não só é. A condição de agente faz parte da eficácia do processo de desenvolvimento já que.

Sen ressalta a defesa da simpatia e prudência em Smith como formadoras do bom comportamento. p. e supõe sua abordagem às transações do livre mercado. e sim da atenção que cada qual dá ao próprio interesse. mas ao seu amor-próprio. 32 CAPÍTULO III 3 O PAPEL DO LIVRE MERCADO E DAS INSTITUIÇÕES Não é da benevolência do açougueiro. e que os esforços individuais e a capacitação ampliada pelo Estado eram colocados como necessários ao bem-estar coletivo. Adam Smith menciona que: o homem. (SMITH apud SEN. um membro da vasta comunidade da natureza” e “no interesse dessa grande comunidade. (SMITH. (SEN.43) No livro “Teoria dos Sentimentos Morais”. não como bem individual. Sen menciona este julgamento em todas as suas obras referidas neste estudo. ele nega que a mesma faça referência ao egoísmo humano. era voltado para o bem- estar. mas como “pujança da nação”. 2010. cervejeiro ou do padeiro que esperamos obter o nosso jantar. assim como o desenvolvimento da perspectiva da capacitação e dos elementos éticos filosóficos que sustentam a sua argumentação. Apelamos não à sua humanidade. suscitando o bem estar geral. 1776. segundo os estoicos. p. e nunca lhes falamos das nossas necessidades. ele deve em todos os momentos estar disposto ao sacrifício do seu mesquinho auto-interesse. deve considerar-se não separado e desvinculado. e sim de seus interesses. a importância de compreender a influência de Smith no seu pensamento. Analisando as obras “A riqueza das nações” (1989) e “Teoria dos sentimentos morais” (1999). mas um cidadão do mundo. Sen afirma que o conceito de desenvolvimento de Smith. Smith foi para Sen o primeiro pensador a considerar a riqueza. A interpretação errônea da postura complexa de Smith com respeito à motivação e aos mercados e o descaso por sua análise ética dos sentimentos e do comportamento refletem o quanto a economia se distanciou da ética com o desenvolvimento da economia moderna. p 39). . 1999. por isso.26-27) Segundo Amartya Sen muitos teóricos que desenvolveram o pensamento de Adam Smith não passaram apenas da questão colocada na citação acima.

O foco do mercado deve ser avaliado de acordo com as utilidades que ele possui.156). 2010. a riqueza e as oportunidades econômicas das pessoas. gerar a privação de liberdade econômica” (SEN. define-se o papel dos mercados no processo de desenvolvimento que contribui para o crescimento e progresso econômico. presentes. 2010. A liberdade do comércio ou da troca pode ser considerada como parte do modo como as pessoas interagem na sociedade. 2010. Temos boas razões para comprar e vender. e com os resultados que ele permite alcançar. Sen enfatiza a importância da liberdade das pessoas agir como desejam ao decidir onde trabalhar. o que consumir etc. e a liberdade básica de transação pode ter uma importância crucial. Sen não é a favor do argumento no qual apenas os mercados expandem a renda. de “Desenvolvimento como Liberdade” (SEN. A contribuição do mecanismo de mercado para o crescimento econômico é obviamente importante. o que produzir. 20). uma vez que todas as pessoas possuem a necessidade de troca e transação. ou a mercadorias (como no caso das pessoas que vivem em áreas distantes) acaba privando ou excluindo das sociedades alguns setores da população. No entanto. já que ele promove a possibilidade de escolher um emprego. p. assim como a privação de liberdade social ou política pode. p. (SEN. como já evidenciado anteriormente. Deste modo.150). E assim. independentemente do que o mecanismo de mercado vier ou não a realizar no que se refere a rendas.p. titulado “Mercados. mas vêm depois do reconhecimento da importância direta da liberdade de troca – de palavras. A liberdade de participar do mercado promove o desenvolvimento. 33 No quinto capítulo. 2010. A negação de oportunidades de transações econômicas é uma forma de privação de liberdade. (SEN. para trocar e para buscar um tipo de . 2010. p. 23). utilidades ou outros resultados. p. “Como observou Adam Smith. bens. “a privação de liberdade econômica pode gerar a privação de liberdade social. O mercado de trabalho pode ser libertador em muitos contextos diferentes. a liberdade de troca e transação é ela própria uma parte essencial das liberdades básicas que as pessoas têm razão para valorizar” (SEN. por isso a falta de acesso ao mercado de trabalho. Portanto.20). da mesma forma. Estado e Oportunidades” Sen assegura que o mercado contribui para elevar o crescimento econômico.

Porém. em si. 2010. Essa visão de “estrutura de desenvolvimento ampla” é fruto do Banco Mundial. de outro” (SEN.160). 23. padrões de fecundidade. e a gravidade dos problemas de desigualdade de liberdade. de um lado. etc.p. deixando de lado o investimento em políticas públicas. tais casos são visíveis em diversas culturas.170).). No entanto. as normas comuns interferem em questões como igualdade entre os sexos. Alguns Estados levaram em consideração apenas políticas de aspecto liberal como reformas econômicas. a base racional do mecanismo de mercado está voltada para os bens privados. 151). “Os valores prevalecentes e os costumes sociais também respondem pela presença ou ausência de corrupção e pelo papel da confiança nas relações econômicas. 24). ele também destaca deficiências no modelo de mercado liberal. O mercado faz parte das instituições vitais para o processo de desenvolvimento. 2010. partidos políticos. 2010. combinar o uso extensivo dos mercados com o desenvolvimento de oportunidades sociais deve ser visto como parte de uma abordagem ainda mais ampla que também enfatiza liberdades de outros tipos (direitos democráticos. uma grande falha da sociedade” (SEN. (SEN. trabalho infantil e a proibição do trabalho da mulher fora de casa. p. no qual. é necessária a percepção de que o fornecimento de bens públicos . sociais ou políticas” (SEN. 34 vida que possa prosperar com base nas transações. visualizadas nos trabalhos adstritos. Atualmente ocorre nas ações do Estado a necessidade de equilibrar o seu papel com outras instituições políticas e sociais assim como com o funcionamento do mercado. tamanho da família. e principalmente em países subdesenvolvidos. mídia e meios de comunicação. tal consciência está em destaque recentemente devido às dificuldades enfrentadas por muitos países. complementar a ele estão os governos locais. “Negar essa liberdade seria. p. que foram realizadas principalmente em países em desenvolvimento. sistema educacional. oportunidades de cooperação. 2010. O desenvolvimento requer uma abordagem múltipla. garantias de segurança. e não para os bens públicos. “Vale a pena considerar simultaneamente a eficiência por meio da liberdade do mecanismo de mercado. cuidado com o meio ambiente. p. Do mesmo modo que valores sociais e costumes influenciam as liberdades que as pessoas desfrutam.

“Os abrangentes poderes do mecanismo de mercado têm de ser suplementados com a criação de oportunidades sociais básicas para a equidade da justiça social” (SEN. permanecem outras características que definem a capacidade além da renda. 2010. este resultado de eficiência que o mercado gera não garante sozinho a equidade distributiva. mas ele não promove a capacidade individual da pessoa em busca da melhoria de sua capacitação. . Mas. Concomitantemente é necessário ampliar através de políticas públicas as oportunidades de obtenção de renda para que as pessoas as consigam através do seu próprio esforço. (como a Bolsa Família no Brasil). 35 vai além do que os mercados privados podem promover. emprego ao invés de renda. com déficits orçamentários e inflação alta. o enfoque da privação de capacidades apresenta algumas vantagens por prevenir distorções de incentivo em comparação com o baixo nível de renda como critério de transferências de subsídios. As realizações globais do mundo dependem intensamente das disposições políticas e sociais. principalmente dos países mais pobres. As oportunidades dependem das instituições. E nesse contexto. os governos. já que a maior parte dessas economias apresenta um ônus fiscal elevado do gasto público. Em determinados casos o governo tem um elevado gasto com programas sociais. Esta instabilidade macroeconômica dificulta ainda mais tais investimentos.p. Entretanto devido ao elevado gasto na promoção do desenvolvimento social. Sen ressalta a importância de políticas públicas que tragam resultados. Por isso. ele apenas lhe aufere renda. p. saúde ou agricultura. 2010. as pessoas que sofrem essas privações requerem uma maior atenção. reduzindo a margem para distorções de incentivos” (SEN. Um exemplo disso é o caso dos pais que deixam os filhos passarem fome para assim receber auxílio alimentação. Tais ações permitem “que se atinja mais facilmente o público-alvo.178). Esse tipo de incentivos direcionados apenas para a renda persiste em privar as capacidades básicas. os beneficiários tendem a valorizar e fazer melhor uso do que recebem. O mercado oferece grandes oportunidades que podem ser compartilhadas como educação. educação. por exemplo. Ao receber qualidade de vida como saúde. já que estas contribuem para o desenvolvimento das liberdades. a velhice ou a incapacidade física. As políticas públicas para promover o aumento das capacidades humanas e das liberdades substantivas funcionam através da promoção destas liberdades distintas. visto que. porém interligadas. optam por investir na estrutura do mercado.190). Assim há necessidade de utilizar os bens públicos para prover as necessidades das capacidades básicas como saúde e educação.

2010. para Sen (2010). não têm poder político. pois há diversas políticas públicas que não são claras. p. bem como as instituições que permitam o funcionamento de mercados e relações contratuais. o fato mais marcante é o de que. 3. trabalham duramente sob condições terríveis. Portanto. Afinal. 2010. além de melhorar a qualidade de vida de forma direta.p. Além do Estado é necessário também o reconhecimento de outras instituições e agentes como responsáveis de promover oportunidades aos indivíduos. (SEN. e outras variáveis que . O comprometimento social com a liberdade individual obviamente não precisa atuar apenas por meio do Estado. A linha divisória entre “os que têm” e “os que não têm” não é apenas um clichê retórico ou slogan eloquente. 61). p. do mesmo modo. e assim o crescimento econômico. os países hoje considerados desenvolvidos passaram por este processo. 36 Nos países em desenvolvimento é evidente a necessidade de iniciativas de políticas públicas na criação de oportunidades. as mesmas pessoas que são pobres em termos de riqueza material sofrem também de analfabetismo. a mídia e outros meios de comunicação e entendimento público. com muita frequência. (SEN. em que o comedimento financeiro que ameaça o uso dos recursos públicos deveria ser examinado. deve envolver também outras instituições.362). a consciência financeira pode direcionar o desenvolvimento humano por meios mais produtivos. mas possibilita ao Estado financiar a seguridade social e “a criação de oportunidades sociais como educação pública. já que a relação entre renda e capacidade é afetada por determinados fatores já expostos como: idade da pessoa. seu papel sexual e social. não têm acesso a advogado e são chutadas pela polícia. O desenvolvimento humano e dos recursos humanos. instituições não governamentais de vários tipos. para Sen o crescimento econômico auxilia não apenas no aumento da renda privada. mas sim. serviços de saúde e desenvolvimento de uma imprensa livre e ativa pode contribuir para o desenvolvimento econômico e para uma redução significativa da taxa de natalidade” (SEN.37) A baixa renda gera privação de capacidades.1 Insuficiência de liberdades substantivas Na verdade. 2010. uma característica substancial do mundo em que vivemos. sua localização e condições epidemiológicas desse lugar. organizações políticas e sociais. disposições de bases comunitárias. infelizmente. melhora também as habilidades produtivas das pessoas.

Por exemplo. e a ausência de um sistema adequado de incentivos políticos é uma lacuna que não pode ser preenchida pela operação de estímulos econômicos (SEN. a privação relativa de renda pode resultar em privação absoluta de capacidade. e reduzir a pobreza. não substituem os incentivos políticos. que é o critério tradicional de identificação da pobreza” (SEN.146). por exemplo. p. 37 dificilmente podem ser controladas. Tais situações poderiam ser eliminadas através de medidas políticas. “Contudo. ao invés das mulheres. Igualmente. 2010. 2010.120).241). uma vez que a maior necessidade de recursos econômicos devido à incapacidade deve ser levada em conta ao julgarem-se os requisitos da igualdade econômica. mas isso não contesta os preceitos mais amplos da igualdade econômica. por mais importantes que sejam. (SEN. sociais e econômicas. A expansão da capacidade humana insere-se nessa consideração. p. Outras carências geradas pela pobreza e destacadas em todas as obras de Amartya Sen são a fome coletiva e a subnutrição. a distribuição de renda dentro da família tem grande influência. Sen enfatiza em seu discurso a péssima qualidade da saúde que leva à morte prematura de crianças ou até mesmo de adultos por vários motivos: à falta de acesso ao tratamento de doenças curáveis. influenciando também a produtividade e a renda. Para Sen. dar uma fatia maior de renda a uma pessoa que tem mais necessidades – digamos. como no caso de determinadas regiões que priorizam a distribuição de renda para os homens. estes dois “malefícios” são suscitados por toda a estrutura econômica e social e não apenas pela falta de produção de alimentos ou atividades agrícolas. Para SEN (2010). exercer as capacidades se torna uma forma de gerar renda. 2010. enquanto que a renda é um meio para obter as capacidades. Além dos males causadores da fome. elevados índices de saúde e educação ampliam a possibilidade da pessoa auferir renda. há uma ligação entre renda e pobreza. os incentivos econômicos. pela falta de hospitais. “A pobreza deve ser vista como privação de capacidades básicas em vez de meramente como baixo nível de renda. Além disso. os idosos encontram maiores dificuldades em converter renda em capacidade. Tanto que. há uma desvantagem na relação entre privação de renda e a conversão da renda em funcionamentos. A pobreza é a privação da vida que as pessoas podem levar e das liberdades que elas realmente possuem. . Assim. p. devido a uma incapacidade – pode ser visto como contrário ao princípio de igualar as rendas.

38 médicos. como trabalhar fora de casa. é o papel da mulher como agente. a redução da taxa de mortalidade auxilia na redução da taxa de natalidade. mulheres instruídas tendem a gozar de mais liberdade para exercer sua condição de agente nas decisões familiares. Ser livre em determinado âmbito. redução de doenças e redução da taxa de natalidade (altas taxas de natalidade geram a negação de liberdades substantivas. (SEN. e principalmente a . ou por situações associadas à falta de água potável e tratamento de esgoto. intensificadas pela instrução e pelo emprego.p. Conforme Sen a desigualdade entre os sexos é constante.263). ajuda a difundir os conhecimentos sobre planejamento familiar. que não visa apenas melhorar o seu bem-estar. (SEN. E. contribui para outras liberdades como não passar fome. a condição de agente e a voz ativa das mulheres. Além disso.76) Outra característica ressaltada por Sen para que o desenvolvimento ocorra a partir das liberdades. 2010. podem.258). 2010. A educação também amplia os horizontes. 2010. A saúde está entre as mais importantes condições da vida humana e é um constituinte criticamente significativo das capacidades humanas que temos razões para valorizar. mas seu papel na transformação social. está incorporada e embutida em uma ampla noção de justiça. e em um nível material. influenciar a natureza da discussão pública sobre diversos temas sociais incluindo taxas de fecundidade aceitáveis e prioridades para o meio ambiente. obviamente.p. e isso se acentua no da mulher ter um maior índice de educação. de fato. Com o exposto acima é possível constatar a aproximação do enfoque do Desenvolvimento como Liberdade com os conceitos estabelecidos no IDH. Esse é. Pode-se dizer que nada atualmente é tão importante na economia política do desenvolvimento quanto um reconhecimento adequado da participação e da liderança política. por exemplo. 251). econômica e social das mulheres. (SEN. inclusive nas questões relacionadas à fecundidade e à gestação de filhos. Qualquer concepção de justiça social que aceite a necessidade de uma distribuição equitativa e também de uma exploração eficiente das capacidades humanas não pode ignorar o papel da saúde na vida humana e as oportunidades das pessoas obterem uma vida saudável. 2010. e essa desigualdade amplia a pobreza. sem doenças e sofrimentos evitáveis ou mortalidade prematura. (SEN.p.devido a gestações frequentes e ao incessante trabalho de criar os filhos). Equidade na realização e na distribuição de saúde. investimentos em saúde. um aspecto crucial do “desenvolvimento como liberdade”. portanto. p. por sua vez.

2 A importância da democracia e da participação pública O século XX estabeleceu a aceitação da democracia como forma de governo em qualquer lugar do mundo. 2010. mas se as perspectivas orientadas para liberdade estão ausentes nessas tradições. ou seja. p. p. Devido ao fato de ser de origem indiana Sen critica tal pensamento afirmando que até mesmo o Budismo. e as tradições ocidentais não são as únicas que nos preparam para uma abordagem do pensamento social baseado na liberdade” (SEN e KLINGSBERG. 2010. é preciso diferenciar entre o valor da liberdade pessoal com o valor da igualdade entre liberdades. Por isso. p. 299). “A equidade de oportunidades culturais e econômicas podem ter imensa importância em um mundo globalizado” (SEN e KLINGSBERG. “O valor da liberdade não está limitada a uma só cultura. 39 educação básica para analfabetos e mulheres. prega princípios de liberdade e democracia. ampliam o conhecimento e comportamento sobre as taxas de fecundidade.308). . faz-se necessário saber enxergar não apenas se a ausência de liberdades está presente nas tradições asiáticas. cada vez mais requer educação e qualificação profissional e para isso se faz necessário a ampliação de oportunidades nos mais variados modelo de sociedade. um exemplo disso é a Primavera Árabe que contagiou a população dos países árabes a saírem às ruas e lutarem por seus direitos democráticos. 3.309). o mundo da comunicação e do intercâmbio. Sen enfatiza que os EUA e a Europa possuem um ideal de liberdade política e democracia que não são vistos na Ásia. “O mundo é convidado a entrar para o clube da “democracia ocidental” e admirar e defender os “valores ocidentais” tradicionais” (SEN e KLINGSBERG. entre a liberdade ser individual. ou valorizada de forma igualitária dentro de determinada sociedade. 2010. Em “Desenvolvimento como Liberdade” Sen afirma que a democracia insere a cultura e o estilo de vida ocidental como costumes sociais tradicionais: “o sol nunca se põe no império da Coca Cola e da MTV” (SEN e KLINGSBERG. A globalização do comércio e da economia. religião tradicional no oriente.308). 2010. p. Além disso. bem como a revolução tecnológica suscitaram ameaças às culturas nativas.

através da tolerância e liberdade. incentivo e aperfeiçoamento de iniciativas (SEN. p. religiosos ou especialistas culturais. 2010. p. A racionalidade requer que os indivíduos tenham vontade política além dos seus próprios interesses. podendo apreciar outras culturas sem perder a nossa. Igualmente. Para Sen a democracia tem importância intrínseca na formulação de sua teoria de Desenvolvimento como Liberdade. Rawls nos ensinou. sendo que essas capacidades podem ser ampliadas por meio de políticas públicas. educação básica. a democracia como racionalidade pública.por mais importantes que sejam -. liberdades políticas. e este representa o papel de agente das pessoas na promoção do desenvolvimento. cabe apenas ao povo ter a liberdade de opção e não sua escolha ser influenciada por governantes. É preciso saber reconhecer a importância de uma cultura na outra. os “valores asiáticos”. invocando uma frase de John Stuart Mill um “governo através da discussão” (SEN e KLINGSBERG. p. 2010. Reconhecer a diversidade encontrada em diferentes culturas é muito importante no mundo contemporâneo. como boa saúde. poderes sociais e por condições habilitadoras. . 43). (SEN e KLINGSBERG. tem de ser vista não apenas em termos de cédulas e votos . 2010. p. já que a democracia mundial permite manifestações que são formas construtivas do debate público. inclusive a oportunidade para discussão pública e também como participação interativa e encontro racional. eu diria que a principal esperança de harmonia no mundo contemporâneo se encontra na pluralidade de nossas identidades. 317). 40 De fato. Como já destacado anteriormente. O que as pessoas conseguem realizar é influenciado por oportunidades econômicas. Nossa compreensão da presença da diversidade tende a ser um tanto prejudicada por um constante bombardeio de generalizações excessivamente simplificadas sobre a “civilização ocidental”. ele defende a participação e a liberdade participativa. A democracia deve inserir. 2010. mas primeiramente em termos de “racionalidade pública”.54). 18). Sen enfatiza o direito das pessoas em desfrutarem da tradição e da cultura que escolherem. demanda o debate político. que se cruzam umas com as outras e agem contra as divisões rígidas em torno de uma linha cívica e endurecida de divisão impenetrável (SEN e KLINGSBERG. mas o principal segundo Sen é que as políticas públicas sejam influenciadas pela participação efetiva da população através de capacidades participativas. as “culturas africanas” etc. a consideração que Amartya Sen realiza do desenvolvimento é um processo de expansão das capacidades das pessoas de levarem o tipo de vida que elas desejam. A democracia.

3) Seu papel construtivo na conceituação de “necessidades” (como a compreensão das “necessidades econômicas” em um contexto social). 2)Seu papel instrumental de aumentar o grau que as pessoas são ouvidas quando expressam e defendem suas reivindicações de atenção política (como as reivindicações de necessidades econômicas). 2010. A relevância da privação de liberdades políticas ou direitos civis básicos . 2010) Sen afirma que a necessidade econômica amplia a necessidade política. central para a elaboração de políticas em uma estrutura democrática. (SEN. O uso de prerrogativas democráticas . O desenvolvimento como liberdade não pode deixar de levar em conta essas privações. portanto. mas sem oportunidade de participação política não é “pobre” no sentido usual.56). (SEN. embora a pessoa não demonstre interesse em exercer essa liberdade de participação. em acréscimo a outros papéis que essas prerrogativas possam ter. 2010. que permitem as pessoas desenvolverem seus funcionamentos. Sen afirma que a participação política é parte constitutiva do próprio desenvolvimento. Por isso a importância de governos democráticos.129) O processo de desenvolvimento requer que a pessoa tenha o direito de participação pública. E para Sen.149). porém claramente é pobre no que diz respeito a uma liberdade importante. 41 Em “Desenvolvimento como Liberdade” (SEN.128. p. O papel constitutivo da liberdade é importante na composição da análise do conceito de desenvolvimento.p. A questão da discussão pública e participação social é. “Mesmo uma pessoa muito rica que seja impedida de se expressar livremente ou de participar de debates e decisões públicas está sendo privada de algo que ela tem motivo para valorizar” (SEN.tanto as liberdades políticas como os direitos civis – é parte crucial do exercício da própria elaboração de políticas econômicas. há um questionamento quanto à participação política ser parte ou não do desenvolvimento. 2010. ampliarem as suas capacidades e assim levarem a vida que desejam. ainda assim a privação a impede do direito de escolha.p. porque nas visões menores e mais comuns de desenvolvimento que o envolvem com crescimento do PNB e ou industrialização. que ela não seja privada de exercer seus direitos de cidadão. através de: 1) Sua importância direta para a vida humana associada a capacidades básicas (como a capacidade de participação política e social). Uma pessoa com renda elevada.

Essas liberdades são apenas parte integrante do enriquecimento do processo de desenvolvimento (SEN. como liberdade de imprensa e independência dos meios de comunicação (incluindo ausência de censura). nas liberdades políticas e nos direitos civis básicos. Sen enfatiza em todas as obras analisadas que em momentos de prosperidade não é notável a importância da democracia. incluindo o emprego feminino) e outras mudanças sociais e econômicas que ajudam os indivíduos a serem cidadãos participantes.207). O alcance e a qualidade das discussões abertas podem ser melhorados por várias políticas públicas. tanto que “desenvolver e fortalecer um sistema democrático é um componente essencial do processo de desenvolvimento” (SEN. 358). p. aumento da independência econômica (especialmente por meio do emprego. Sen censura à abordagem na qual supõe que os governos autoritários são benéficos para o crescimento econômico. em uma democracia o povo tende a conseguir o que exige e não consegue o que não exige. As discussões e os debates públicos possuem desempenho fundamental na formação e utilização dos valores sociais. O direito político em atividade gera uma resposta política mais efetiva nas questões econômicas. p. (SEN. Vivemos em um mundo no qual a desigualdade entre raças. a democracia e o exercício dos direitos políticos servem de papel instrumental. A política pública tem o papel não só de procurar implementar as prioridades que emergem de valores e afirmações sociais.56). expansão da educação básica e escolaridade (incluindo a educação das mulheres). Além disso. e assim usufruindo de sua liberdade. sexos e classes é latente e por isso é tão relevante o papel da discussão pública para o reconhecimento da injustiça entre essas classes. pois desta forma a escolha social não pode estar contida apenas nas falas daqueles que detém o poder. como é o caso da China. ou seja. como também de facilitar e garantir a discussão pública mais completa.2010. . a garantia de discussão e debate crítico é formidável na formação de valores e prioridades. p. para ele. 2010. Essencial nessa abordagem é a ideia do público como um participante ativo da mudança. mas em períodos de crise sim. deste modo é imprescindível a ação dos governos democráticos de forma eficaz na prevenção de calamidades e fomes ou até mesmo em ações que amenizem as desigualdades entre os sexos. bem como a democracia e os direitos políticos determinam-se como constituintes do processo de desenvolvimento. 2010. A liberdade de participação crítica é uma das liberdades mais importantes na existência social. 42 para uma compreensão adequada do desenvolvimento não tem de ser estabelecida por meio de sua contribuição indireta a outras características do desenvolvimento (como o crescimento do PNB ou a promoção da industrialização). em vez de recebedor dócil e passivo de instruções ou de auxílio concedido. uma vez que a pessoa pode exercer influencia sobre o governo exigindo seu direito de cidadão.

para realizar seus potenciais” (SEN. e muitas vezes o Estado pode ser o provedor deste meio. envolve o desenvolvimento com fatores diferentes ao senso comum. ter a capacidade para levar o tipo de vida que com razão se valoriza.209). “Tais fatores também não podem ser considerados como meios de desenvolvimento. p. como já visto anteriormente. e não apenas como beneficiárias passivas dos frutos de engenhosos programas de desenvolvimento.p. do apoio público substancial no fornecimento das facilidades (como serviços básicos de saúde ou educação fundamental) que são cruciais para a formação e o aproveitamento das capacidades humanas (SEN.370). 77). 2010. 43 Contudo. Portanto. mas sim. Deste modo. 2010. pela garantia social de liberdades. Também sofrem influência por outro lado. apesar da importância das instituições democráticas. é imprescindível promover os diferentes tipos de liberdade e os componentes que a constituem. como partes constitutivas do fim do desenvolvimento” (SEN.p. (SEN. tolerância e possibilidade de troca e transações. “Por mais valiosa que a democracia seja como uma fonte fundamental de oportunidade social existe ainda a necessidade de examinar os caminhos e os meios para fazê-la funcionar bem. seu uso é condicionado de acordo com as participações disponíveis. As liberdades individuais são influenciadas. as pessoas têm de ser vistas como ativamente envolvidas – dada a oportunidade – na conformação de seu próprio destino. 2010. A liberdade individual tem um papel importante para o desenvolvimento. 2010.p. Estes resultados não são apenas de caráter econômico e sim possuem outros valores.p. indo além de determinantes econômicos. mediante a liberdade para participar da escolha social e da tomada de decisões públicas que impelem o progresso dessas oportunidades. 2010. (SEN.p. 63). A diferença de caracterização do desenvolvimento pela liberdade ou pelo crescimento econômico (mesmo sendo complementares) pode ser explicada pela liberdade referir-se “aos processos de tomada de decisão e às oportunidades de resultados considerados valiosos” (SEN. elas não podem ser vistas apenas como mecanismos mecânicos para o desenvolvimento. a participação política.370). Nessa perspectiva. como por exemplo. 18). de um lado. 2010. . Os fins e os meios do desenvolvimento exigem que a perspectiva da liberdade seja colocada no centro do palco. As disposições institucionais que proporcionam essas oportunidades são ainda influenciadas pelo exercício das liberdades das pessoas.

o argumento do apoio social para expandir a liberdade das pessoas pode ser considerado um argumento em favor da responsabilidade individual. ou um adulto doente que não dispõe de recursos para receber o tratamento adequado. em “Teoria da justiça” o foco está na justiça.361). (SEN. 2010. impõe à pessoa o dever de refletir sobre fazê-la ou não. de tal forma que para elas ter tal liberdade se faz necessário desde o momento do seu nascimentos contar com uma base de bem-estar social que lhes permita desenvolver essas capacidades. Ainda que esta pesquisa se foque na liberdade através da ótica do desenvolvimento. a política do consenso social não requer apenas ações individuais. sem a liberdade substantiva e a capacidade para realizar alguma coisa.p. e isso envolve responsabilidade individual.361). 2010. Como exemplo Sen (2010. 323). cita o caso de pessoas que já nascem desprovidas de certas condições mínimas de sobrevivência. p. desde a criança que não tem oportunidade de estudo. a menina que sofre em uma sociedade repressora. mas a liberdade substantiva depende das circunstâncias sociais. . bem como de ter responsabilidade. (SEN. “Assim. Nesse contexto.p. p. mas sim. 44 Para Sen. a sensibilidade das decisões sociais para o desenvolvimento de preferências e normas individuais. Todas essas pessoas sofrem de privação de liberdade que impedem à pessoa de exercer sua condição de agente. Mas ter efetivamente a liberdade e a capacidade para fazer alguma coisa. E em sua vasta literatura o autor busca interligar a importância desta gama de componentes que trazem as pessoas à liberdade de levar a vida como elas gostariam que fosse. a pessoa não pode ser responsável por fazê-la. 360). já que “responsabilidade requer liberdade”. porém em cada obra ele destaca um dos componentes da sua teoria de liberdade substancial. 2010. Em todas as obras analisadas sobre o conceito de liberdade para Amartya Sen é visível que estas reproduzem os mesmo temas. o jovem que não tem oportunidade de emprego e se obriga a trabalhar em condições até de escravidão. A teoria de liberdade igualitária idealizada por Sen conota a responsabilidade individual na resolução dos próprios problemas. e não contra ela” (SEN. bem como em “Desigualdade reexaminada” na desigualdade. é preciso atribuir particular importância ao papel da discussão e das interações públicas na emergência de valores e comprometimentos comuns. pessoais e ambientais. Uma vez que liberdade e responsabilidade andam juntas.

p. que podem ser definidos com a liberdade individual. 2010. Essa crença é irreal para Sen. já que os seres humanos possuem comportamentos que vão além do egoísmo e autointeresse. O capitalismo depende de valores e normas éticas inseridas em seu cerne. Os Direitos Humanos ocupam um papel de destaque na abordagem do desenvolvimento. composta por normas sociais e modos de comportamento. eles não podem ser vistos meramente como pacientes a quem o processo de desenvolvimento concederá benefícios. apesar de algumas posições que sustentam que o direito não pode preceder a instituição do Estado. esta geralmente é medida através de fatores econômicos como renda e riqueza.332). a provisão de bens públicos básicos e instituições para a ação e o protesto públicos. p. os direitos civis e políticas elementares. Não que as pessoas utilizem a ideia de justiça para decidir o modo de exercer sua liberdade. O conceito de justiça se relaciona com o desenvolvimento na medida em que a justiça se engaje em prol de uma ideia de bem estar. 2010. mas. promovendo os Direitos Humanos. estas deixam a desejar nos quesitos referentes à desigualdade .p. De tal modo que na obra “A ideia de Justiça” (SEN. 366). (SEN. 295). Ele também faz referência aos direitos humanos como um conjunto de pretensões éticas. “Temos de julgar a plausibilidade dos direitos humanos como um sistema de raciocínio ético e como a base de reivindicações políticas” (SEN. incluindo o mecanismo de mercado. mas as ideias básicas de justiça são comuns a todos. este posicionamento é o defendido por Sen. ou seja. de acordo com a utilidade de recursos. sua teoria ética defende debates em torno da justiça social. 2011). (SEN. afirmando que a qualidade de vida é medida através do grau de liberdade das pessoas e a capacidade que elas têm de realizar o que desejam. 2010. Sen contrapõe este argumento em diversos discursos. estas condutas refletem uma ideia de justiça. Os valores sociais podem desempenhar um papel importante no êxito de várias formas de organização social. Uma abordagem de justiça e desenvolvimento que se concentra em liberdades substantivas inescapavelmente enfoca a condição de agente e o juízo dos indivíduos. outras afirmam que os Direitos Humanos são universais. o autor faz uma crítica ás percepções de moral inseridas no pensamento moderno. 2010. p. a política democrática. 45 “Será que cada liberdade desfrutada pelas pessoas invariavelmente é exercida de um modo tão personalista que a expectativa de progresso social e ação pública baseados na razão têm de ser inteiramente ilusória?” (SEN.333). Pessoas distintas possuem ideias e modos diferentes de interpretar a ética.

o papel dos valores é vasto no comportamento humano.347). 46 econômica. Diante desta visão Sen aborda no último capítulo de “Desenvolvimento como Liberdade” a ideia da responsabilidade da ação humana no mundo.p. e negar esse fato equivaleria não só a um afastamento da tradição do pensamento democrático. O sistema capitalista tem como grande desafio combater a pobreza e a desigualdade. É o poder da razão que nos permite levar em consideração nossas obrigações e nossos ideais tanto quanto nossos interesses e nossas vantagens. Como exemplo Sen. dificuldades nos setores públicos. cita a necessidade dos países em desenvolvimento atentarem para valores complementares ao mercado. . como também à limitação de nossa racionalidade. 2010. bem como no meio ambiente. Assim a ideia de liberdade individual de cada um conota em um comprometimento social. no qual o fato das pessoas viverem juntas faz com que os problemas sociais sejam responsabilidade de todos. proteção ambiental e cooperação fora do mercado. E para Sen a solução está além da economia capitalista. (SEN. na formação de instituições que ampliem um desenvolvimento ético. De fato. como resistir à corrupção. Negar essa liberdade de pensamento seria uma grave limitação do alcance de nossa racionalidade.

ou também há a probabilidade de dar um enfoque social ao tema. o indivíduo e o mercado eram esferas incompatíveis entre si. Apesar de ressaltar que liberdade é a atribuição de capacidade às pessoas para realizarem as várias coisas que se podem considerar valiosas de fazer ou ter. Mas. o desenvolvimento sempre esteve ligado à ideia de crescimento econômico e associado ao liberalismo econômico. Segundo Paim (1987). a consideração de desenvolvimento humano através da ótica da liberdade foi um processo que passou por longas transformações. Todavia. por estabelecer a eliminação de privações de liberdade e o exercício da condição de agente. Com isso cabe a possibilidade de considerá-la como liberdade individual e associá-la diretamente ao liberalismo econômico. a presença do liberalismo já era notada na Antiguidade e na Idade Média. este capítulo visa definir um breve contexto histórico do liberalismo e sua ligação com a liberdade. desde a Guerra do Peloponeso. Atualmente o liberalismo abarca uma gama de vertentes. Visualizando as diferenças entre a liberdade defendida por Sen e os conceitos de liberdades no cerne do liberalismo conceituam-se também as considerações referentes à liberdade positiva e liberdade negativa. Amartya Sen não especifica claramente os alcances dessa liberdade. visto que. que define a liberdade como agente do bem-estar individual. que a partir do inicio do século XX passaram a estabelecer ligações. a visão de Amartya Sen afasta-se das ideias proferidas pelo liberalismo . até a democracia Ateniense antes de Cristo. No liberalismo clássico o governo. a sociedade. podendo determinar o desenvolvimento defendido por Amartya Sen como um instrumento do liberalismo econômico. O liberalismo econômico é apenas uma vertente entre as muitas estabelecidas dentro do liberalismo. já que estes posicionamentos são essenciais para a compreensão do tema. Devido a tais características do modelo defendido por Sen. a liberdade endossada por Amartya Sen é definida por características igualitárias. 47 CAPÍTULO IV 4 LIBERDADE E LIBERALISMO De acordo com o que foi descrito até o momento.

os seus fins devem coincidir com os fins múltiplos dos indivíduos. John Locke colocou o individuo no centro do poder político. (LOCKE. isto é. p. p.139). Kant situa-se entre os primeiros pensadores que formularam com toda a clareza a opinião de que o Estado não tem fins próprios. que ambientado na Revolução Francesa montou seu sistema a partir da ideia de liberdade. com a garantia de gozar de suas posses. entre eles a propriedade. embora essa denominação não tivesse aparecido em seu tempo. 1994. A Revolução Francesa. observa que o poder vem da representação. p. pois até então o liberalismo proferido por John Locke tinha um caráter apenas político. vieram a influenciar a Declaração Americana de Independência e a Revolução Francesa de 1789. razão pela qual se lhe atribui à formulação originária do liberalismo. iguais e independentes. já que o objetivo de Sen é resgatar o ideal de liberdade tão perdido ao longo do liberalismo econômico. ideia formulada pela primeira vez por Locke. No prefácio a suas “Mélanges de littérature et politique” afirma: . ele acreditava na importância dos súditos poderem destituir o soberano sempre que este não cumprisse com seus deveres de legitimo representante dos indivíduos. Esses pensamentos logo se expandiram por toda a Inglaterra e. Para Paim (1987. Para Locke (1994). com sua consagração dos direitos do homem significou uma respeitável afirmação do valor do indivíduo e foi um marco importante do liberalismo. Bobbio (2000. p. Tanto que as ideias liberais francesas vieram a influenciar o surgimento de outro tipo de liberalismo como o econômico. O único modo legítimo pelo qual alguém abre mão de sua liberdade natural e assume os laços da sociedade civil consiste no acordo com outras pessoas para se juntar e unir-se em comunidade. mais tarde.33) o liberalismo doutrinário tem na figura de Benjamin Constant seu grande percussor. para viverem com segurança.7). compreendendo que a sociedade civil e política era o resultado da associação livre e soberana entre indivíduos também livres e soberanos. e por isso nenhum pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar seu consentimento. conforto e paz umas com as outras. Kant vai lançar a ideia de que os interesses são extensivos a todos independentemente do valor desses interesses e assim se entende o inicio da democratização da ideia liberal. De acordo com Norberto Bobbio em “Direito e Estado no pensamento de Kant” (2000. 48 econômico. e de maior proteção contra quem não faça parte dela. John Locke chegou a afirmar que: os homens são por natureza livres. com vista à defesa de seus direitos naturais. não existia um poder político absoluto e irrevogável.6).

ainda que não haja benevolência recíproca entre os homens. tanto sobre a autoridade que governaria pelo despotismo. na influência que exerceu sob a concepção do New Deal de Roosevelt como propagador do BIRD. o cervejeiro e o padeiro em “A Riqueza das Nações”. a liberdade. a democracia se justifica pelo fato de acatar aos interesses e bem-estar do maior número (o que sugere Benthan). quanto sobre as massas que reclamam o direito de dominar a minoria pela maioria (CONSTANT apud PAIM. Entretanto. resta entre eles um vínculo social mantido por razões econômicas. e que não se podia perceber o mercado e a liberdade individual egoísta como elementos exclusivos do desenvolvimento. Porém. foi com Adam Smith que o liberalismo econômico ganhou força intelectual. A doutrina liberal econômica também concebe o denominado Estado-mínimo. tão somente o papel de produzir direito e segurança como garantia da propriedade privada. nessa situação. em religião. Mas esse bem-estar da maioria corre perigo. Ele é mais um mecanismo de organização social do que um simples mecanismo de regulação econômica. esta liberdade é traduzida pelo fato de se produzir para o mercado. toda a sociedade constitui o mercado. 1987 p37). Amartya Sen defende Smith ao afirmar que ele é o primeiro a compreender o liberalismo econômico na ótica do mercado e do bem-estar social. em filosofia. no século XVIII foram concretizadas as liberdades fundamentais através do direito. a importância da independência econômica é tão relevante para o liberalismo clássico que o próprio conceito de liberdade é associado a este tema. em indústria. O liberalismo tradicional foi modificado por Keynes. p. Resta ao Estado. Contudo.9) os conceitos de Tocqueville também são extremamente pertinentes ao proclamar a democratização do ideal liberal. em tudo. entendo o triunfo da individualidade sobre a autoridade. a partir do momento em que toda democracia aproxima-se à centralização estatal e assim acaba gerando o despotismo que possibilita um governo tirânico. o mercado não é traduzido apenas como um lugar de trocas. para o liberalismo clássico. Assim. Para Bobbio (2000. Lembrando a célebre passagem sobre o açougueiro. Segundo Donald Stewart JR em seu livro “O que é Liberalismo?” (1990). 49 Defendi quarenta anos o mesmo principio. Para Stewart (1990). em literatura. com o tempo. até mesmo a sociedade francesa começou a perceber que a ideia do liberalismo econômico não trazia um resultado eficaz para a sociedade. em política: e por liberdade. admitindo que. . da liberdade de imprensa e a revolução industrial.

Os neoliberais defendem ainda o capitalismo através da divisão do trabalho. os trabalhadores não sentiam os benefícios do sistema liberal. e sim. pois foi com ele que o liberalismo mudou de . foca-se no individuo e acredita que o Estado é utilizado para preservar o funcionamento da economia de mercado. liberalismo remodelado e o republicanismo. inclusive conseguindo ser mais egoísta que os próprios ideários do liberalismo clássico. neoliberalismo. alcançando seu ápice após a queda do Muro de Berlim e com a busca da ampliação do mercado. não pode ser confundido com o mesmo já que possui critérios próprios de entender a liberdade. entende-se o neoliberalismo como uma oposição ao socialismo e ao liberalismo social e. que surgem os pensamentos de Amartya Sen e sua teoria do desenvolvimento. Segundo PAIM (1987) no neoliberalismo os direitos sociais são incompatíveis com os direitos civis e políticos. isto porque. apesar de ser uma retomada do liberalismo clássico. Esse período foi marcado pelo ataque à concepção de liberdade adotada pelo liberalismo. O neoliberalismo surge na década de 40 do século XX. Assim. 50 Stewart Jr (1990) afirma que essa mudança foi denominada de declínio ou crise do liberalismo econômico que aconteceu no final do século XIX e no inicio do século XX. e do mesmo modo que o liberalismo clássico. este último será tratado com maior precisão no último capítulo deste trabalho. única forma de organização social. Com a denominada crise do liberalismo. enquanto os ricos como os banqueiros e empreendedores possuíam vantagem nesta nova ordem econômica. É no cerne do liberalismo social. O socialismo surge como uma crítica à incapacidade do liberalismo de atender as expectativas do bem-estar social. vão contra o livre mercado e a globalização econômica. O liberalismo social prega a organização social da liberdade para a liberdade humana e a ampliação das capacidades humanas. e por serem considerados como redistribuição da riqueza. a crescente desigualdade econômica. foi a partir daí que surgiram doutrinas alternativas como o socialismo. Após contextualizar alguns dos principais pontos da teoria liberal se faz necessário discorrer no tópico a seguir sobre John Rawls. a subordinação da liberdade econômica. com a intenção de diminuir as características egoístas do liberalismo clássico e do neoliberalismo e assim buscando harmonizar os interesses individuais com os sociais. surgiu o liberalismo social (que percebia a sociedade como uma associação cooperativa que visava à autorrealização pela busca do bem comum). Com uma alternativa ao socialismo. este passou a ser incrementado com diversos outros nomes como liberalismo social ou liberalismo igualitário. O neoliberalismo possui como característica a não distinção entre economia e política.

já que Sen defende o caráter substancial da liberdade. p. de “Desenvolvimento como Liberdade” (2010). ao contrário do utilitarismo (que adota o princípio da escolha racional sem levar em consideração a distinção entre as pessoas). Sua crítica refere-se aos princípios de justiça determinar as instituições sociais básicas que devem governar a sociedade. bem como uma resposta à teoria de justiça de Rawls que serviu de base para a conceituação de Amartya Sen acerca das liberdades substanciais. antes de criticar a teoria de justiça como equidade. Para Sen a justiça além de estar ligada à equidade deve ser derivada dela.1 A influência de John Rawls Em todas as obras pesquisadas para entender o conceito de Amartya Sen sobre liberdade. O livro a Ideia de Justiça (2011). No primeiro capítulo “Razão e Objetividade” Sen (2011. 51 direção ao inserir ideias igualitárias ao pensamento liberal que foram expostas no livro “Uma Teoria de Justiça” de 1971. é visível a influência de John Rawls na formulação de sua teoria. Para Sen. isto ocorre porque. A obra a “Ideia de Justiça” (2011) parece surgir como um complemento à teoria seniana. além de ser dedicado a memória de Rawls. No segundo capítulo chamado “Rawls e Mais Além” (SEN. A teoria de John Rawls fundamentou o liberalismo e a moral nos direitos da pessoa e no contrato social.61) afirma que a Teoria de Rawls propõe a escolha dos princípios de justiça com a rigidez de uma estrutura institucional única. como ressalta o próprio Rawls. por isso. por isso ele determina a imparcialidade como base da justiça como equidade. merece ser explanada com maiores detalhes. 4. ainda no capítulo “Rawls e Mais Além”. essa teoria surge como um modelo de liberalismo político ou liberalismo igualitário e exerce grande influencia sob Amartya Sen. destaca as influências da mesma na formação de sua teoria de liberdade. na qual a abordagem considera a perspectiva das comparações focada em realizações. 2011. Ele considera que a equidade consiste em não existir preocupação apenas com os interesses individuais. mostrando-se uma alternativa às posições utilitaristas da época. p.82). faz uma crítica à definição deste autor sobre as liberdades formais. a sua teoria vê as pessoas como detentoras de .

A Teoria de Justiça de Rawls pode-se definir de uma maneira simplificada por intermédio da ênfase aos direitos e a política na promoção do bem estar social. A concepção liberal-igualitária tem por finalidade conciliar os ideais de liberdade e de igualdade. e (b) vinculadas a posições e cargos acessíveis a todos. ou seja. que andam lado a lado em nossas sociedades. através dos bens primários. As desigualdades sociais e econômicas devem ser ordenadas de tal modo que sejam ao mesmo tempo (a) consideradas como vantajosa para todos dentro dos limites do razoável. Assim. oportunidades para realizar seus objetivos. 2010. Deste ideal brotam os dois princípios de justiça de John Rawls: da igual liberdade e da desigualdade social e econômica. (SEN. 2010. p. ao determinar que o princípio de igual liberdade é estritamente prioritário com relação ao princípio da diferença. 101). Estes bens “são meios de uso geral que ajudam qualquer pessoa a promover seus próprios fins. como “direitos. renda e riqueza e as bases sociais do respeito próprio” (SEN. 2.89) para Rawls: 1. os bens primários são uma espécie de vantagem individual que as pessoas possuem. 365). John Rawls. p. com o intuito de determinar a prioridade de um princípio com relação ao outro. Essa teoria compreende a sociedade como um sistema equitativo de cooperação entre pessoas livres e iguais. a maior relevância das ideias de justiça está na identificação da injustiça patente. Sen supõe que a injustiça para Rawls é composta por desigualdades que não beneficiam a todos. Este último princípio se divide em “princípio da diferença” e “principio da igualdade equitativa das oportunidades”. criou a denominada clausula de ordem léxica ou serial. liberdades e oportunidades. combinando igual respeito a todas as concepções racionais da boa vida. Segundo Sen (2011. sobre a qual é possível uma concordância arrazoada.p. e não na derivação de alguma fórmula ainda existente para o modo como o mundo deve ser precisamente governado. assim a preocupação se destinaria a garantir para cada cidadão o que lhe é necessário para procurar obter a realização de sua concepção de boa vida. Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais abrangente sistema de liberdades básicas que seja compatível com um sistema semelhante de liberdades para as outras. . Ainda no capítulo citado acima. 52 necessárias capacidades de personalidade moral que as levam a participar da sociedade vista como um sistema de cooperação justa para o benefício mútuo.

102). De acordo com Sen o conceito de desenvolvimento não deve ser estabelecido a partir de uma expectativa utilitarista. mas sim como tendo a possibilidade de escolher o seu próprio fim. Isso. Isto porque cada pessoa é responsável por suas preferências. os bens primários podem ser indicadores bastante imperfeitos da liberdade que essa pessoa realmente desfruta para fazer o que deseja. de escolher uma vida que se tem razão para valorizar. mas de outros fatores. para Sen um dos grandes problemas da teoria de John Rawls é a negligência ao papel da capacidade. sobre a liberdade para realmente viver de um modo que se tem razão para valorizar)” (SEN. Estes podem ser definidos desde diversidades ambientais. 2010. . capacidades. Isso acontece porque o liberalismo igualitário não interfere no modo em que os indivíduos devem viver suas vidas. ou da ideia de justiça de Rawls. então não necessariamente haveria injustiças no espaço das utilidades. Para Rawls essa busca varia de pessoa para pessoa. já que estas se demonstram incompletas.p. apesar da abordagem de Rawls ampliar o leque informacional. que se demonstra muito desigual para transformar os bens em funcionamentos. E afirma que o conceito de desenvolvimento devia ser definido através das liberdades substantivas. De acordo com Sen (2010 e 2011). idade. Portanto. (SEN. porque para Sen. “Uma alternativa ao enfoque sobre os meios para o bem viver é a concentração sobre como as pessoas conseguem viver de fato (ou. um exemplo disso seria o caso de um doente se realizar menos com bens primários do que pessoas saudáveis. p. como fatores de doenças. além disso. 53 O uso dos bens primários varia conforme as relações entre renda e bem estar. tanto que. padrão de riqueza.102). As pessoas não necessitam apenas dos bens primários para realizar seus objetivos. porque tem gostos mais caros). ela deixa de considerar os elementos que influenciam na relação entre renda e bem estar. Mas nem por isso essa teoria leva em consideração o agente como promotor do bem-estar social. avançando. 2010. a não ser quando essa conduta se refere às injustiças que decorrem do dever da justiça. Se uma pessoa tem uma cesta de bens primários igual à de outra (ou até mesmo maior) e ainda assim acaba sendo menos feliz que essa outra (por exemplo. pois não fornece preceitos para a conduta individual.

(2002. Em sua obra “Estudos Sobre a Humanidade” no capítulo “Liberdade Política e Pluralismo” (2002. a liberdade positiva é imposta a coletividades ou indivíduos considerados principalmente como membros de determinadas coletividades. autodeterminação e autorrealização). 229) delimita duas questões que permitem a diferenciação entre os dois sentidos de liberdade. De tal modo que. a liberdade é considerada como ausência de algo (ou seja. Para Berlin. Em seu contorno político. já que são tidas como interpretações conflitantes de um único ideal político. 226) ele se dedica a definir os conceitos de liberdade negativa e liberdade positiva. de controle. na década de 60. tem-se considerado que é através da democracia que é possível alcançar a liberdade positiva. p. tanto que os historiadores das ideias já estudaram mais de duzentas vertentes registradas sobre o tema. considerado um dos principais repercussores do tema. a liberdade pode ser interpretada com os mais diversos sentidos. Enquanto a liberdade negativa é geralmente atribuída a agentes individuais. Berlin (2002.2 Liberdade positiva e negativa A origem de distinguir entre um sentido negativo e um sentido positivo de liberdade são expressos neste capítulo através do conceito defendido por Isaiah Berlin. autodomínio. Berlin coloca que a liberdade negativa e a positiva não são somente dois tipos diferentes de liberdade.uma pessoa ou grupo de pessoas – é ou deve ter permissão de fazer ou ser o que é capaz de fazer ou ser. o sentido positivo de liberdade pode ser definido por “O que ou quem é a fonte de controle ou interferência capaz de determinar que alguém faça. uma coisa em vez de outra”? É este último sentido de liberdade que será analisado a seguir. uma sociedade democrática pode ser compreendida como uma sociedade livre. p. 54 4. barreiras. ou seja. porque um membro desta sociedade é livre na medida em que ele participa de seu processo democrático. p. de obstáculos. sem a interferência de outras pessoas?”. 236 . enquanto que no sentido positivo existe a presença de algo (ou seja. O motivo que evidencia tal relação é que no sentido negativo.237) a definição de liberdade positiva provém “do desejo que o indivíduo nutre de ser seu próprio senhor”. Enquanto que a liberdade negativa nos questiona sobre “qual é a área em que o sujeito . As discussões a respeito da liberdade positiva e negativa normalmente acontecem dentro do contexto da filosofia política e social. de suas decisões dependerem apenas . restrições ou interferência de outros). mas podem ser vistas como antagonistas. Segundo Berlin.

Os interesses do indivíduo devem ser identificados com os interesses de todo esse grupo social. 2002. o desempenho do dever. não faz com que ela não seja escravo de mais nada. nem sempre por passos logicamente respeitáveis. 38). (BERLIN. oprimi-los.238). remetem à ideia de que o fato da pessoa não ser escravo de outros homens. conceitos não tão distantes entre si do ponto de vista lógico – nada mais do que as formas negativa e positiva de dizer mais ou menos a mesma coisa. de amendontra-los. um estado. A liberdade que consiste em ser o seu próprio senhor e a liberdade que consiste em não ser impedido por outros homens de escolher como agir podem parecer. de seus pensamentos. e se libertar de tais percepções é que torna um individuo livre. portanto. Berlin exemplifica este pressuposto na explanação titulada “A retirada para a cidadela interior” (2002. 240) supondo que o lugar mais seguro em que a pessoa pode encontrar-se livre é retirando-se para dentro de si mesma. considerando o como um todo social orgânico "uma tribo.. sem receber a influência de outras pessoas ou de qualquer outra força externa. a auto- realização) deve ser idêntico à sua liberdade – a escolha livre de seu eu “verdadeiro”. já que para este posicionamento as pessoas podem ser escravas de si mesmas. p.. Berlin supõe que o defensor da liberdade positiva considera o “eu” além do individual. as noções “positiva” e “negativa” de liberdade desenvolveram-se historicamente em direções divergentes. 238). “Essa identidade é então identificada como o eu “verdadeiro” que. vícios e desejos. p. tortura-los em nome e no interesse de seus eus “reais”. No entanto. a sabedoria. 2002. também a deles” (Berlin. até entrarem por fim em conflito direto uma com a outra. 55 dele. 237). No conceito de liberdade positiva as afirmações “sou meu próprio senhor” e “não sou escravo de nenhum homem”. (BERLIN. 2002. p. a grande sociedade dos vivos e mortos dos nascituros" (BERLIN. alcança sua própria liberdade “mais elevada” e. Esta ação é definida pela “razão que me distingue como ser humano do resto do mundo”. uma sociedade justa. [. Para Berlin a partir do momento que a sociedade adota essa visão. O conceito positivo de liberdade leva em consideração o domínio sobre si mesmo. p. impondo sua vontade coletiva ou “orgânica” única sobre seus recalcitrantes “membros”.] estou em posição de ignorar os desejos reais dos homens ou das sociedades. p. 2002. diante das circunstâncias. uma raça. ainda que frequentemente submerso e inarticulado. . com base no conhecimento seguro de que tudo o que é a verdadeira meta do homem (a felicidade. uma igreja.

Se me educo a não querer nada que torne a posse da perna indispensável não vou sentir falta dela. Berlin acredita que o conceito positivo de liberdade que inspira a liberdade da pessoa ao se libertar de seus desejos traz consigo o perigo de autoritarismo. 2002. dos estoicos e dos sábios budistas. Mill defende a liberdade a partir da . já não mais vulneráveis a suas armas.43). pois para ele é claro que: A doutrina que sustenta que devo me educar a não desejar aquilo que não posso ter. (BERLIN. que “o grandioso e principal princípio para o qual todos os argumentos desenvolvidos nestas páginas diretamente convergem é a importância absoluta e essencial do desenvolvimento humano na sua riquíssima diversidade”. em suas margens. de tal modo que uma parte dos membros da sociedade acaba sendo oprimida e excluída porque a participação não ocorre completamente. que um desejo satisfeito. Isto porque faz a pessoa vitima de governos tirânicos. p. Esta obra é fonte de inspiração de Amartya Sen que depois retoma ideias de Mill como a seguinte: “[o que] deve haver liberdade para se fazer aquilo de que se gosta no que é estritamente de interesse individual” (MILL. 241). um dos mais influentes expositores do liberalismo. afirma em sua obra “Sobre a Liberdade” (1991. (BERLIN. Neste caso. não posso verdadeiramente querer. mas. inequívoca da doutrina das uvas verdes: aquilo que não posso ter certeza de obter. Este ideal possui suas origens no pensamento de John Stuart Mill. é uma forma sublime. 56 Outro exemplo é o caso de uma pessoa com uma ferida na perna. homens de várias religiões ou nenhum credo. 2002. pois apesar de ser democrática a sociedade acaba sendo controlada por uma minoria que está no poder. 147). Baseado na ideia de que a pessoa tem a capacidade de realizar aquilo que deseja. 1991. John Stuart Mill. Essa é a auto emancipação tradicional dos ascéticos e quietistas. Essa crença de liberdade em seu sentido positivo é criticada por Berlin. que fugiram do mundo e escaparam do jugo da sociedade ou da opinião pública por algum processo de autotransformação deliberada que os torna capazes de já não se importarem com nenhum de seus valores. que tem duas opções para parar a dor: curar a ferida ou se livrar da ferida cortando fora a perna (isso no caso da ferida for muito dolorida ou se há dificuldade na cura). que também é a favor da liberdade em seu sentido negativo. a meu ver. já que ela passa a se conformar com aquilo que este lhe impõe. p. a maior parte da população pode ser oprimida em nome de liberdade.244). p. de permanecerem isolados e independentes.

e assim ele pode perseguir seus próprio planos. e coloca que “se outros me impedem de fazer o que de contrário eu poderia fazer. se nela não se respeitam. 1991. suposto que as pessoas associadas sejam emancipadas. em primeiro lugar ela refere-se ao domínio intimo da consciência. Essa restrição pode descrever a coação e até mesmo a escravidão. de associação entre os indivíduos. ou de especulativos. 1991. Mill promove a não intervenção do Estado na liberdade individual. e não tenham sido constrangidas nem iludidas. A definição de liberdade acima colocada por Mill. Nenhuma sociedade é livre. 2002. e expostos ao longo deste estudo. ou impedir seus esforços para obtê-lo” (MILL. A única liberdade que merece o nome. sendo quase de tanta importância como a própria liberdade de pensamento e repousando. Em terceiro lugar. dessa liberdade de cada individuo segue-se a liberdade. considera um homem livre na medida em que ele não sofre interferência na sua vida. é praticamente inseparável dela. Em segundo lugar o principio requer a liberdade de gostos e ocupações. morais ou teológicos. de dispor o plano de nossa vida para seguirmos nosso próprio caráter de agir como preferimos. Só não temos liberdade política quando outros indivíduos nos impedem de alcançar uma meta” (BERLIN. também é relatada por Berlin ao expor o conceito de liberdade negativa. Deste modo. “Tal esfera é a esfera adequada da liberdade humana. que gera as bases do pressuposto de “Desenvolvimento como Liberdade”. 57 possibilidade de realização das escolhas das pessoas e de não serem vitimas de arranjos institucionais ou preconceitos. enquanto não tentamos desapossar os outros do que é seu. E nenhuma sociedade é completamente livre se nela essas liberdades não forem absolutas e sem reservas.149). Tais referências correspondem aos aspectos evidenciados por Sen. qualquer que seja a sua forma de governo. e deverem receber a proteção da lei da mesma maneira que todas as outras pessoas” (MILL. liberdade de se unirem para qualquer propósito que não envolva dano. como no caso das mulheres: “Nada é mais necessário para o completo removimento do mal do que gozarem as mulheres dos mesmos direitos. exigindo liberdade de consciência no mais compreensivo sentido. Porém. apenas . sujeitos as consequências que possam resultar.55-56). p. não sou nessa medida livre”. liberdade absoluta de opinião e de sentimento sobre quaisquer assuntos. p. “a coerção implica a interferência deliberada de outros seres humanos na minha área de atuação. é a de procurar o próprio bem pelo método próprio. por isso. a liberdade em seu sentido negativo. liberdade de pensar e de sentir. dentro dos mesmos limites. 229). Para promover a liberdade negativa é necessária a existência de uma esfera de ação dentro da qual o indivíduo é soberano. a seguir se define a liberdade em seu sentido negativo. uma vez que pertence àquela arte da conduta individual que concerne às outras pessoas. científicos. A liberdade de exprimir e publicar opiniões pode parecer que cai sob um principio diferente. em grande parte sobre as mesmas razões. p. em geral essas liberdades. Mas. práticos. Segundo Berlin (2002. 229).

especialmente pensadores conservadores ou reacionários. ele queria aumentar a área de controle centralizado e diminuir a do individuo. Ser livre. para mim significa não sofrer a interferência de outros. é possível a existência de uma sociedade mais justa.230). A afirmação acima se refere ao pressuposto da liberdade negativa segundo a qual a pobreza de uma pessoa gera a falta de liberdade e a falta de capacidade para viver do modo que se deseja. De tal modo. de ter bastante dinheiro para pagar o que desejo possuir. mais ampla a minha liberdade. p. e Tocqueville. (BERLIN. que. 230) Assim. um recurso aos tribunais -. p. o critério da opressão é o papel que acredito estar sendo desempenhado por outros seres humanos. para frustrar meus desejos. maiores salvaguardas precisavam ser instituídas para mantê-los em seus devidos lugares. 229-230). leva os pensadores que defendem o conceito negativo de liberdade a considerar “que a área de livre ação do homem deve ser limitada pela lei” (BERLIN. 2002. Constant. 58 ocorrendo a restrição de que ele respeite as esferas dos outros. A constante influência de algumas pessoas sobre outras e a ampliação do alcance da liberdade dos fortes em relação aos fracos. segundo os visionários do conceito negativo de liberdade. somente com a liberdade sem interferência amparada pela lei. 2002. (BERLIN. p. p. se os homens deviam ser impedidos de se destruir uns aos outros e de tornar a vida social uma selva ou um deserto. 2002. se um homem é demasiado pobre para obter algo isento de proibição legal – um pão. enquanto outros não o são. 2002. Pois. que coloca limites às pessoas. p. uma viagem ao redor do mundo.230). muito plausivelmente. direta ou indiretamente. isso “se deve ao fato de que os outros seres humanos fizeram arranjos pelos quais sou impedido. argumentavam que. (BERLIN. Mas estes mesmos defensores da liberdade negativa como Mill. Berlin afirma que Hobbes e aqueles que concordavam com suas ideias. que me considero uma vitima da escravidão” (BERLIN.. acreditavam que “alguma parte da existência humana deveria permanecer . nesse sentido. ele é tão pouco livre para conseguir esse intento quanto o seria se a lei proibisse sua ação. fornecendo uma garantia mais eficaz contra os perigos do paternalismo e autoritarismo percebidos por Berlin. 2002.. consequentemente. o conceito de liberdade negativa se concentra na esfera externa em que os indivíduos interagem. Rousseau. Quanto maior a área de não interferência. com ou sem intenção.] afirma-se.233). [.

Esta mesma definição é visível nos conceitos já expostos sob a teoria de Amartya Sen. mas a de que a minoria que a possui conquistou-a explorando ou. a homens seminus. De fato. O sentido de liberdade definido por Amartya Sen como a possibilidade de opções é denominada como liberdade negativa. . quando as ações de um individuo livre ou não livre são estabelecidas com o mesmo valor. tal distinção também é encontrada em Berlin e Mill. mesmo assim. 233) para evitar governos despóticos. qual é o valor dela? (BERLIN. 2002. o que não é desejado pelos liberais. E outra. acaba exigindo a intervenção estatal. p. apenas porque as opções disponíveis para um são mais valiosas ou favoráveis para a auto realização do que para outro. do que outro. os pensadores do liberalismo se contrapõem à acepção negativa da liberdade argumentando que a busca da liberdade (como autorrealização e autodeterminação individual e coletiva) ao objetivar o alcance da lei. subnutridos e doentes é zombar da sua condição: eles precisam de ajuda médica ou educação antes de poderem compreender ou aproveitar um aumento em sua liberdade. O que é a liberdade para aqueles que não a podem empregar? Sem as condições adequadas para o uso da liberdade.231) Os teóricos da liberdade negativa estão principalmente interessados no grau em que os indivíduos ou grupos sofrem interferência de organismos externos. p. Esta definição relaciona-se à conceituação de Sen acerca do papel do agente. oferecer direitos políticos ou salvaguardas contra a intervenção do Estado. evitando contemplar a imensa maioria que não a tem” (BERLIN. analfabetos. pelo menos. os homens interferem um na vida do outro. 59 independente da esfera de controle social” (BERLIN. 2002.231). “A liberdade buscada pelos homens difere segundo suas condições sociais ou econômicas. ainda que de modo involuntário. no qual cada pessoa deve exercer esse papel de modo que promova a ampliação do sentido de liberdade para as pessoas que acabam tendo suas vidas determinadas por fatores externos. p. Porém. como a falta de oportunidades. Ainda mais próxima da abordagem de Sen. ou seja. encontra-se a necessidade de saber separar a liberdade da esfera pública e da privada. quando um não é considerado mais livre. Segundo esses dois autores há liberdade negativa pelo menos quando há duas características: Uma atrelada à falta de liberdade como limitada às ações de outros agentes. de tal modo que as limitações naturais ou impostas a si próprio não são tidas como diminuidoras da liberdade de um agente. 2002.

na acepção de Berlin. por isso. 60 Sen rejeita as formulações apresentadas acima. além do conceito de liberdade no sentido republicano. . Assim considera-se neste trabalho as aproximações e discordâncias de Sen quanto a liberdade em seu sentido positivo e negativo. apesar de apoiar a liberdade negativa. o próximo capítulo visa analisar esse conceito.

mas a liberdade como autonomia ou autorrealização. ou não ter restrições em fazê-las. os protagonistas desse “republicanismo neorromano” definem a liberdade como uma espécie de status conferido aos indivíduos/cidadãos no âmbito de uma ordem jurídico-política configurada contra a dominação. Ancorando-se numa interpretação do republicanismo moderno como herdeiro de uma tradição tributária mais da antiga Roma do que de Atenas. este sim o valor supremo da ordem republicana. mas sim possui certas condições em que a não interferência é garantida. Esta não é uma ideia de liberdade como a mera ausência de obstáculos. consiste mais em um conceito positivo de liberdade do que em uma definição negativa. Ainda que em um primeiro momento os neorrepublicanos enfatizassem um modelo positivo de liberdade provindo da polis ateniense. ou seja. Buscou-se um modelo de pensar o conceito de liberdade. já que a liberdade consiste não apenas na permissão de fazer certas coisas. . Isso pelo fato da liberdade positiva se aproximar mais com o crescimento do indivíduo no qual a pessoa é livre quando desenvolve e modifica seus próprios desejos e interesses de modo independente. Para muitos críticos o ideal de liberdade negativa de Berlin descrita anteriormente (no qual se enquadra o conceito de liberdade defendida por Amartya Sen). em Neorrepublicanismo e Teoria Democrática (2013) o neorrepublicanismo busca concentrar sua visão em uma posição alternativa ao imposto pela teoria liberal. através de outros teóricos da liberdade que também têm se aproximado da concepção negativa de liberdade. posteriormente eles passaram a criticar esse republicanismo neoateniense pelo fato da virtude cívica e da participação não serem consideradas como os valores soberanos do ideal republicano de liberdade. Os defensores dessa nova perspectiva preferem compreender a participação e a virtude cívica nos assuntos públicos como valores instrumentais à liberdade. 61 CAPÍTULO V 5 REPUBLICANISMO A argumentação sobre o conceito de liberdade de acordo com o modelo de Berlin em seu sentido negativo suscita um questionamento quanto ao exercício desta liberdade. mas ao mesmo tempo indo além da versão na qual a liberdade não é apenas possível em uma esfera de não interferência. De acordo com o professor e pesquisador do tema Ricardo Silva.

Neste livro o autor apresenta “uma compreensão neorromana da liberdade civil” (SKINNER. é resultado da aula inaugural que ele proferiu na Universidade de Cambridge em 1997. 1999. O objetivo do autor ao abordar o conceito de liberdade provindo do republicanismo neorromano é: “questionar essa hegemonia liberal mediante a tentativa de repenetrar o mundo intelectual que perdemos” (SKINNER.6). originados do modelo neorromano desenvolvido por Quentin Skinner perante a história do pensamento político e por Phillip Pettit na construção da teoria política. em conjunto com seu enfoque em conceitos políticos e toda sua obra é prestigiada e propagada por inúmeros intelectuais. o ápice da teoria neorromana foi durante a Revolução Inglesa no século XVII. 2005. O livro “Liberdade Antes do Liberalismo” (SKINNER.10).9). p. Deste modo. 1999. p. 1999). 1999. Skinner amplia o referencial teórico do republicanismo vivenciado em Roma e não em Atenas. abrangendo também o exercício de virtudes cívicas por parte dos cidadãos. Bem como já destacado na definição teórica desta pesquisa. p. No livro titulado “Hobbes e a Liberdade Republicana” (2010) resultado do curso ministrado por Skinner na Universidade de Oxford durante o ano acadêmico de 2002 e 2003. como professor de História Moderna. enquanto que Pettit faz uso destas definições para construir a sua teoria política republicana. ele alega que: . Como veremos. o ideal a ser definido a seguir remete ao novo republicanismo também chamado de “republican revival” na teoria política. no século XIX esteve representada pelos colonos americanos na luta contra a Inglaterra. a produção cientifica de Skinner abrange conceitos trazidos de seus estudos como historiador. 62 um status que previne uma pessoa de encontrar-se na dependência e sob o domínio do poder arbitrário de terceiros (SKINNER apud SILVA. Por este motivo o perfil deste capítulo está estruturado de um modo que ambas as teorias são utilizadas e complementam o conceito de liberdade republicana vinculada à vertente neorromana. Entre os diversos autores que Skinner emprega para definir sua teoria ele afirma estar consciente de uma dívida especial para com Philip Pettit e seus escritos sobre liberdade. nesta visão estão inclusas a constituição democrática e medidas de preservações contra governos que desfrutam de poder de forma arbitrária.10). p. porém no século XX ela foi perdendo seu espaço para o modelo liberal vigente. pelos quais foi “profundamente influenciado” (SKINNER. Segundo ele.

não é impedido de fazer o que ele tem vontade.Brunt.18). Comentadores recentes. naquelas coisas. p. cf.1. Esta etiqueta soa-me anti-histórica. 1978. e não de acordo com a sua vontade própria.09). Mas onde a lei termina.15-9). em razão dessa proveniência. é simplesmente estar desimpedido de exercer suas capacidades na busca de seus fins desejados. resume-se em que. A primeira.” Quando dizemos de alguém que agiu livremente. Para Skinner ao desenvolver essa linha argumentativa Hobbes objetivava contestar a teoria republicana da liberdade. Skinner (2010.p. que tem sua origem na antiguidade clássica. Ao longo da história o poder soberano já foi lançado nas mãos do rei e nas mãos do povo. v. tal argumentação através da qual ele busca negar a teoria de Estado livre. já que a lei gera a coerção.10-1. Essa mesma teoria foi a seguir conservado no Digesto do direito romano (Digest. SKINNER.193) a visão de liberdade que Hobbes formulou no Leviatã (1651). 1998. (1999.2010. e posteriormente associada às cidades- repúblicas da Itália renascentista (Skinner. mas a partir de Hobbes e de seu Leviatã (1651) esta concepção gira em torno do Estado. tenderam a falar dessa tradição como distintivamente “republicana” em caráter. isto quer simplesmente dizer que ele realizou uma ação que tinha vontade de realizar. p. 63 O propósito principal deste ensaio é contrastar duas teorias rivais sobre a natureza da liberdade humana. 1998. Deste modo. inclusive por Maquiavel em uma de suas grandes obras titulada “Discursi”: . da seguinte forma: Ser livre como um membro de uma associação civil alegava-se. algum impedimento externo tornar impossível a eles executar uma ação que. e em minha própria contribuição para a discussão preferi descrevê-la como “neorromana” (Skinner. Para SKINNER (1992. porém é defendida pelos neorromanos. Skinner define a concepção que levou em consideração o poder do Estado e a liberdade de seus súditos.p. mesmo não existindo a lei a pessoa usufrui de uma liberdade como súdito. está no centro da tradição republicana romana da vida pública (Wirszubski. Ser livre é simplesmente estar desimpedido para mover-se de acordo com os próprios poderes naturais. de tal sorte que agentes humanos carecem de liberdade de ação se. 1. p. que por sua força e sagacidade ele é capaz de fazer. 1985.3-65).5-6. p. p. e somente se. não fosse isso. 2002b. Um dos deveres básicos do Estado é impedir que você invada os direitos de ação de seus concidadãos. um dever que ele cumpre pela imposição da força coercitiva da lei sobre todos igualmente.19-21) ainda afirma que para Hobbes “Um HOMEM LIVRE é aquele que. 1960. p. Para Hobbes a obediência através da punição serve para a pessoa agir de acordo com o que o a lei determina. Esta doutrina. estaria em seus poderes.281-350). a liberdade principia. p. e o fez sem estorvo ou impedimento externo.14) (SKINNER.

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In the Discorsi, Machiavelli famously defies consensus among commentators on the
Roman Republic: unlike his predecessors, Machiavelli attributes the flourishing of
Rome´s freedom and greatness to the tumults resulting from domestic conflicts
between the wealthy nobles and the common people (MCCORNICK, 2013, p.885).

No capítulo titulado “Machiavelli´s discorsi and the pre-humanist origins of republican
ideas” do livro “Machiavelli and Republicanism” (1993) Skinner escreve que:

Machiavelli positive thesis states that the only way to ensure the promotion of the
common good must therefore be to maintain a republican form of government. The
interference is resoundingly drawn in the same crucial passage at the start the book
II. “There can be no doubt that is only in republics that this ideal of common good is
properly considered. For it is only in republics that everything which needs to be
done to attain this objective is followed out (SKINNER, 1993, p.139).

Em relação aos teóricos da Revolução Inglesa do século XVII, Skinner destaca que os
teóricos romanos discutiram a liberdade apenas no sentido político, na relação entre povo e
Estado. “Para eles, a questão central é sempre sobre a natureza das condições que devem ser
preenchidas para que os requisitos contrastantes da autonomia civil e da obrigação política
sejam satisfeitos o mais harmoniosamente possível” (SKINNER, 1999, p.27).
Ao longo de sua abordagem Skinner refere-se a conceitos estabelecidos por teóricos da
“Commonwealth”, como Nedham, Neville, John Hall , Sidney e Harrington.

mais do que seu às vezes ambiguo republicansimo, mais até do que seu
inquestionável compromisso com uma política de virtude, sua análise da liberdade
civil assinala-os como os protagonistas de uma ideologia especifica, e mesmo como
os membros de uma escola única (SKINNER, 1999, p. 30,31).

Entre opiniões comuns a estes pensadores destacam-se definições como a liberdade
das associações civis, considerada também com expressões como a liberdade da comunidade
ou o corpo do povo/comunidade. “A principal maneira pela qual esses autores seguem esta
metáfora é examinando o sentido no qual os corpos natural e político são igualmente capazes
de possuir e perder sua liberdade” (SKINNER, 1999, p.32).

Do mesmo modo que os corpos humanos individuais são livres, alegam-nos, se e
apenas se eles são capazes de agir ou eximir-se de agir à vontade, assim os corpos
das nações e Estados são igualmente livres se e apenas se eles são similarmente
desimpedidos de usar seus poderes de acordo com suas próprias vontades na busca
de seus fins desejados. Estados livres, como pessoas livres, são assim definidos por
sua capacidade de autogoverno. (SKINNER, 1999, p.32-33.)

Novamente Skinner cita o “Discursi” de Maquiavel como exemplo de tal afirmação,
no qual as cidades livres são aquelas governadas por sua própria vontade. Skinner interpreta

65

em suas obras o republicanismo de Maquiavel, como uma mudança ao republicanismo
aristotélico no qual enseja a vida política através de uma “boa vida” (como já exposto na
conceituação de Amartya Sen), e contrariando o posicionamento positivo de liberdade, ao
definir a ausência de dependência proposta pelo papel da liberdade perante o republicanismo.
Outra característica enfatizada pelo pensamento neorromano é a consideração dos
chamados Estados escravizados que seriam aqueles que não são governados pela vontade de
seu povo, mas por representantes. Para tal explicação eles fazem uso mais uma vez da
analogia entre corpos naturais e políticos, argumentando que o que significa para uma pessoa
individual sofrer uma perda de liberdade é ser transformada em escravo.
A questão do que significa para uma nação ou Estado possuir ou perder sua liberdade
é dessa maneira analisada inteiramente em termos do que significa cair numa condição de
escravidão ou servidão. Cabe ressaltar que essa argumentação igualmente é originada do
“Discursi” de Maquiavel, fiel representante do pensamento neorromano.
Além disso, o modelo de pensamento de Maquiavel tem suas origens no Digesto do
Direito romano, no qual segundo Skinner já se discute o conceito de escravidão, “O conceito
de escravidão é inicialmente discutido no Digesto sob a rubrica de statu hominis, onde nos é
dito que a distinção mais fundamental no interior do direito das gentes é entre aqueles que são
livres e aqueles que são escravos” (SKINNER, 1999, p.42).
O que define a escravidão na tradição romana segundo Skinner (1999, p.43) é que
mesmo um escravo não sendo coagido, ou não sofrendo interferência de seu dono, ele
continua escravo, já que ele pertence a esta pessoa, ou seja, sua liberdade é fruto do poder de
outra pessoa.

Finally, we might ask what mechanisms the republican writers have in mind when
they speak of using the law to coerce naturally self-interested individuals into
defending their community with courage and governing it with prudence. This is a
question to with Machiaveli devotes much of Book I of his Discorsi, and he offers
two main suggestions, both derived from Livy´s account of republican Rome
(SKINNER, 1993, p 305).

Os primeiros livros da história de Lívio são dedicados principalmente a descrever
como o povo de Roma se libertou de seus primeiros reis e conseguiu fundar um Estado livre.

Thus, while Athens was an economically inegalitarian political oligarchy, we might
conclude that ancient Rome was a combination of both. The Roman republic was
both politically oligarchic and democratic; and while Roman society was
economically inegalitarian in profound ways, Roman citizens enjoyed extensive –
indeed, almost unprecedented- opportunities for upward socio-economic mobility.
(MCCORNICK, 2013, p.882).

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“O uso da força sem direito é sempre um meio de solapar a liberdade pública”
(SKINNER, 1999, p.48). Entretanto, mesmo um Estado considerado como governado de
forma não tirânica, e perante as leis, não pode ser considerado livre “se sua capacidade para
ação for, de alguma maneira, dependente da vontade de alguém que não o corpo de seus
próprios cidadãos” (SKINNER, 1999, p.49). Esta situação pode ocorrer tanto pelo domínio de
um Estado sobre outro, como no caso de colonização e conquista, ou quanto o Estado permite
qualquer modo de poder privilegiado a quem lhe governa.

By now, I hope, it will obvious what conclusions I wish to draw from this
examination of the classical republican theory of political liberty. On the one hand,
it is evident that the republican writers embrace both the paradoxes I began by
singling out. In a manner that contrasts sharply with self-government, but also link
the idea of personal liberty with that of virtuous public service. Moreover, they are
no less emphatic that we may have to be forced to cultivate the civic virtues, and in
consequence insist that the enjoyment of our personal liberty may often have to be
the product of coercion and constraint. (SKINNER, 1993, p 306)

A teoria neorromana foi utilizada como modelo para excluir muitas outras formas de
governo durante, por exemplo, a libertação norte Americana da Inglaterra. E devido a tais
fatores esta teoria recebeu muitas críticas entre estas se destaca, como já exposto
anteriormente, à visão de Hobbes que repudiava a ideia da liberdade individual estar ligada a
liberdade do Estado.
Porém ao defender a abordagem da teoria republicana Skinner expõe que:

Embora seja verdade que estes autores tomam a ideia de Estados livres como seu
ponto de partida, eles o fazem em parte por causa de uma tese radical que desejam
desenvolver sobre o conceito de liberdade individual. Sua tese – para coloca-la do
modo mais tosco – é que só é possível ser livre num Estado livre (SKINNER, 1999,
p.56).

Presumindo o pensamento de todos os autores aos que Skinner faz referencia ele
afirma que “a principal conclusão com que esses autores estão comprometidos é então a de
que só é possível gozar plenamente de liberdade civil vivendo como cidadão de um Estado
livre” (SKINNER, 1999, p.61).
Os principais pontos levantados por estes autores para sustentarem tal tese são:
“Antes de tudo, você pode por certo ser privado de sua liberdade se o poder do Estado (ou de
seus concidadãos) é usado para força-lo ou coagi-lo a desempenhar (ou impedi-lo de
desempenhar) alguma ação nem prescrita nem proibida por lei” (SKINNER, 1999, p.61)

é a mera possibilidade de você estar sujeito com impunidade à coerção arbitrária. p. portanto. filósofo e professor da Universidade de Princeton (EUA).277). já que estas podem ser consideradas suas principais referências sobre o tema. promise to citizens. p. exposto ao período de ser privado. “Como Sidney deixa claro. p. Liberty depends first and foremost on political equality: every citizen ought to influence law and policy-making in a relatively equal way. Além disso. “só é possível escapar à escravidão pessoal vivendo como um cidadão ativo sob uma forma representativa de governo” (SKINNER. Os autores republicanos inserem na liberdade negativa a visão de que uma pessoa é livre quando ela possui amparos institucionais que a protejam contra interferência. não o fato de estar sendo coagido. possui inúmeros escritos em torno dos conceitos de liberdade e republicanismo. determinando opiniões sobre a liberdade tanto dos antigos romanos e de muitos autores modernos. eu sou livre só se viver em uma sociedade com os tipos de instituições políticas que garantam a independência de cada cidadão a partir de exercícios de poder arbitrário. pesquisador destes autores. Nesta pesquisa enfatizam-se as obras “Liberdade como Antipoder” de 1996 e “Republicanism. por seu governo.63-64). ou seja. A principal tese em que os autores neorromanos insistem é a de que nem sempre é necessário sofrer este tipo de coerção aberta para ser privado de sua liberdade civil. mediante força ou coerção. 1999 p. No revés republicano. que retira sua liberdade e o reduz à condição de um escravo” (SKINNER. 67 Como exemplo. Skinner cita o caso do poder estar em mãos de um governo tirânico. amplia o leque informacional desta abordagem.67). 1999. ancient and modern. . a Theory of Freedom and Government” de 1997. Você pode também se tornar não livre se simplesmente cai numa condição de sujeição ou dependência política. a leitura em torno da obra de Ricardo Silva.879). (MCCORNICK. 1992. 2013. government ought to be responsive and accountable to all citizens on a fairly equal basis. deixando-se. de sua liberdade ou propriedades. At the very least. Deste modo é possível viver em liberdade apenas se todos os homens da comunidade participarem de forma igualitária na elaboração das leis. Philip Pettit. “In its initial appearance republicanism referred to a body of ideas said to have animated the men of the revolutionary generation” (APPLEBY. Economic inequality is perhaps the greatest threat to the civic liberty that republics. Quentin Skinner chamou este ponto de vista da liberdade neorromana. Philip Pettit conceituou esta mesma teoria como republicanismo e esta visão predomina nos escritos atuais.

as the negative conception has it. causando-lhes dano. mas sim. enquanto uma pessoa que não possui essa liberdade é considerada escrava. como exemplificada e criticada no capítulo anterior. Por outro lado. A liberdade não é simplesmente uma questão de não interferência. Para Pettit. mesmo assim. but in an absence of mastery by others. Berlin’s taxonomy of positive and negative liberty forecloses a more or less salient third possibility. a liberdade republicana não provém da participação pública. So what of the intermediate possibility that freedom consists in an absence. A dominação corresponde a estar sujeito a vontades arbitrárias de outros. not presence – and one element in common with positive: the focus on mastery. cabe destacar que este agente não é representado apenas na figura de uma pessoa. Yet mastery and interference do not amount to the same thing. sujeito permanentemente a interferências de qualquer . not interference (PETTIT. a liberdade republicana também difere da liberdade positiva de Berlin. Para Pettit a dominação pode ser exemplificada pela escravidão. A Liberdade republicana de Pettit ressalta a mesma visão advertida em Skinner. apud SILVA. segundo Silva (2007). a questão não é ter todo o tipo e quantidade de escolhas. enquanto que a outra parte é representada apenas por um individuo ou grupo. 2007p. pois um agente domina o outro apenas quando ele gera interferência nos assuntos dos outros. Para o autor. mas ter escolhas não dominadas. Pettit (1997) em sua obra destacada acima considera que além de capacitar as pessoas. embora esteja longe de adequar-se ao modelo da liberdade positiva. grupo ou até mesmo um governo tirânico. pois o escravo pode não ter interferência por parte de seu dono e. He thinks of positive liberty as mastery over the self and of negative liberty as the absence of interference by others. a participação é interligada ao conceito de liberdade como não dominação. a qual pode ser pensada como um modelo onde uma pessoa é livre para usufruir dos direitos oriundos da cidadania republicana. Ao ponderar a liberdade republicana como não dominação. not in an absence of interference? This possibility would have one conceptual element in common with the negative conception – the focus on the absence. Ele pode ser uma corporação. 203) O Republicanismo contemporâneo de Pettit afirma que sua visão de liberdade é bastante distinta da visão negativa da liberdade porque se pode viver sem interferência e ao mesmo tempo sem dominação. ele a considera como um “meio termo” entre a liberdade negativa e positiva. está no não reconhecimento de uma concepção de liberdade que. Porém. A principal critica de Pettit aos conceitos de liberdade positiva e negativa. as leis fazem com que a não dominação seja promulgada. 68 sob o formato da lei. continuar com o status de uma pessoa não livre. também não cabe inteiramente no modelo da liberdade negativa à moda de Berlin.

como acredita Pettit. de dominação.” A lição dessa piada é que a capacidade para interferir deve ser uma capacidade real. porque não há perda de liberdade em função de sofrer apenas interferência. 1996. ela permite definir a não interferência através de dois critérios da liberdade: um vem da hipótese de não ter liberdade sem sofrer interferência e o outro de ter a possibilidade de ter liberdade. 1996. no conhecimento que ambos dispõem sobre os direitos que lhe são compartilhados na sociedade. 69 tipo. não uma capacidade que ainda está por ser plenamente desenvolvida: algo de modo algum semelhante à capacidade virtual de uma pessoa musicalmente bem dotada que ainda há de tentar tocar piano. p. direito este propagado pelas leis.13) Uma pessoa tem poder sobre a outra ou alguém domina ou subjuga outra pessoa na medida em que (1) tem a capacidade de interferir (2) com impunidade e à vontade (3) em certas escolhas que o outro está em condições de fazer. p. Segundo Silva: . é um mal’. e não um ninguém. Segundo a concepção de liberdade como antipoder. possui direitos sociais e legais” (PETTIT. ainda sofrendo interferência. p. sou livre na medida em que nenhum ser humano tenha poder para interferir em mim: na medida em que nenhuma outra pessoa seja o meu senhor. Você é um alguém em relação aos outros. (PETIT. Esta possibilidade ocorre devido ao fato da não dominação. Entretanto. nunca tentei. ou o anti poder. enquanto restrição. contudo. De acordo com a maior parte do pensamento contemporâneo não há perda de liberdade sem interferência real.11). 1996. 595). possibilitar que uma pessoa possa confiar. ou seja. 1996. Mesmo o escravo gozando de tal não interferência. como poderíamos chamá-la – uma capacidade pronta a ser exercida –. “Não vive com medo ou em deferência a outrem. 16) Uma vez que a preocupação da liberdade republicana concebe a ausência de interferência arbitrária. segundo Pettit “não há interferência real – nenhuma interferência. p. ter a capacidade de interferir no sentido explanado? Lembremo-nos da velha piada: “Você toca piano?” “Não sei. em relação à outra pessoa. dominado porque sempre está submisso ao poder arbitrário de seu proprietário. assim expressou John Stuart Mill a ortodoxia emergente” (PETTIT. nem mesmo a de um estado de direito não subjugador – sem alguma perda de liberdade: ‘Toda restrição. Pettit exemplifica o primeiro caso abaixo: O que significa. ele é. mesmo se me faltar a vontade e a sabedoria necessárias para alcançar o autogoverno. (PETIT.

reguladoras e empoderadoras. (PETIT. p. demanda que a pessoa possa realizar a interferência a sua maneira. Contudo. 1996. o que deve estar ausente não é a mesma coisa para o republicanismo e para o liberalismo. p. A condição “com impunidade” significa que não há penalidade. O terceiro elemento da liberdade como não dominação refere-se aos níveis em que ausência de dominação é possível. mas que também estão presentes na abordagem republicana de Phillip Pettit.29-30) destaca a possibilidade de se diminuir os desequilíbrios “dando aos sem poder proteção contra os recursos dos poderosos. p. p. A condição “à vontade”. 1996. Estas serão definidas a seguir para deliberar uma compreensão mais detalhada do tema. em particular dos recursos que os poderosos podem . 30). Deste modo. bem como em algumas esferas onde a interferência causa danos maiores do que em outras. regulando o uso que os poderosos fazem de seus recursos e dando aos sem poder recursos novos. que nos servirá de base posteriormente na comparação de muitos conceitos já definidos por Amartya Sen. variando conforme a capacidade dos agentes de interferirem. a concepção republicana de liberdade compartilha a preocupação liberal de evitar as consequências potencialmente ameaçadoras à liberdade individual associadas à ideia de liberdade positiva. (SILVA.81) A segunda característica pode ser definida pela pessoa que tenha a capacidade de interferir com impunidade e à vontade caso domine a outra completamente. mas que ninguém tenha a capacidade ou probabilidade de realizar tal interferência. para haver não dominação é imprescindível que a interferência arbitrária não seja só hipotética. As instituições protetoras são definidas como a criação “de um sistema de defesa não ameaçador e por um estado de direito não voluntarístico” (PETTIT. Essa ampliação de poder que decorre da não dominação somente é possível através da inclusão de instituições protetoras. 2008. Elas merecem destaque na definição de Pettit por possibilitarem a não dominação.28) Além do mais. que os empoderem e que sejam seus próprios”. A segunda maneira que possibilita a promoção da não dominação se dá através “da regulação dos recursos dos poderosos. Para Pettit a não dominação ou: O antipoder representa uma forma de controle de que goza uma pessoa com relação ao seu próprio destino – um obséquio das medidas que reduzem a dominação – e tal controle representa um tipo muito conhecido de poder: o poder do agente que é capaz de fazer as coisas acontecerem. Pettit (1996. 70 Ao definir-se pela ausência e não pela presença de algo.

seguro contra acidentes e auxílio legal. cultura. 37). p. saúde. não sofrerem dominação. Outras medidas a serem promovidas por um estado de bem-estar social são concebidas com o fim de prover recursos a pessoas em circunstâncias que as tornam particularmente vulneráveis ao poder de outros. Da mesma maneira que a atenção com a liberdade como não-interferência está associada à preocupação de se maximizar o alcance de escolhas não interferidas. Estas capacidades são garantidas através do estado de bem-estar social. 31). deste modo. 71 utilizar para subjugar os outros” (PETIT. . p. a atenção com a liberdade como antipoder está associada à preocupação de se maximizar o alcance do gozo das escolhas não dominadas (PETTIT. para que elas possam usufruir de capacidades básicas e. 1996. bem como aqueles que se encontram em posições economicamente privilegiadas. Esta objetiva dar poder as pessoas. seguro saúde. a terceira categoria delineada por Pettit é a mesma já descrita por Sen e que entrou em evidencia no século XX. essas incluem medidas como seguridade social. Por fim. 1996. ao menos quando outras coisas forem iguais. no qual estão inseridas a promoção de medidas institucionais relacionadas à educação. transporte e comunicação.

logo se percebe a aproximação de sua abordagem. No terceiro caso ela exerce o poder sobre essa capacidade. já que quanto maior for o nível de educação e saúde. 3) ou esta pessoa estar doente e ter empregados que obedecem a suas ordens. de uma pessoa mais apta ela estará para ser livre de um modo que. assim. além de menciona-lo inúmeras vezes. Deste modo. enquanto que no terceiro ela paga por tal função. Sen afirma que a pessoa é livre de um modo diferente no segundo e no terceiro caso e que “a abordagem republicana capta essa diferença e tem um poder especial de diferenciação que a abordagem das capacidades não tem” (SEN. mas no primeiro ela não tem nem capacidade nem liberdade. Porém. na qual insere o bem estar social como promotor de fontes de não dominação. Amartya Sen no livro “A Ideia de Justiça” (2011) coloca em dúvida tal afirmação. Conforme exposto anteriormente na definição de Pettit. e às vezes talvez nem seja o objetivo mais importante” (SEN. Sen acredita que Pettit não leva em consideração o papel das instituições e do bem-estar social na promoção da liberdade. Sen afirma que a maneira visualizada no segundo caso faz parte da nossa sociedade. 2011. p. 2) esta pessoa ter a doença e receber assistência de voluntários ou seguro social. pois “vivemos em um mundo no qual pode ser particularmente difícil conseguir completa independência da ajuda e boa vontade dos outros. Ao exemplificar a importância desta ideia. No segundo e no terceiro ela tem liberdade. 342). além de não receber interferência. Pettit considera a essencialidade do bem-estar na promoção da não dominação. Em “Desigualdade Reexaminada” Sen (2001) nem sequer chega a citar esses autores. viver do modo que elas consideram valioso para si. Porém. Com esta definição Sen destaca que em ambos os casos a pessoa não tem capacidade. ele cita o caso de: 1) uma pessoa ter uma doença e não receber a ajuda de ninguém. 2011) ele responde às criticas e aos conceitos estabelecidos por Pettit. Concordando com Pettit. onde as pessoas possuem essa necessidade. 341). sendo este modelo o defendido pela teoria republicana. com a mesma identidade defendida por Amartya Sen nos funcionamentos necessários para que as pessoas possam exercer suas capacidades e. mas no segundo depende da ajuda de outros. 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS No decorrer das obras de Amartya Sen é visível a descrição da evolução do pensamento de Quentin Skinner e Phillip Pettit. . 2011. como já exposto neste trabalho. também não será dominada. mas em “A Ideia de Justiça” (SEN. p.

Para ele a responsabilidade não está inserida apenas na busca da realização pessoal. You need to be able to provide yourself with enough to eat in any society. ele faz uso do ideal positivo de liberdade visualizado em Aristóteles. Esta faz com que ela seja dominada e não tenha a possibilidade de escolha. p. interligado a Smith. o qual ele cita em “Desenvolvimento como Liberdade”: Ele declarou que superior a “alcançar o bem para o homem” está à visão de que “ainda que valha a pena atingir esse fim para um homem apenas. Quanto a possibilidade de escolhas. p. 73 O que Pettit critica como fonte de interferência é a dependência que uma pessoa doente acaba tendo de outras pessoas. o consequencialismo é a teoria segundo a qual o modo de determinar se uma escolha especifica é a correta para um agente consiste em observar as consequências relevantes da decisão. observar os efeitos relevantes da decisão no mundo”. porém. Perante a condição de agente a pessoa busca o bem estar da sociedade e. Sen conceitua a maior parte de suas obras sobre o pressuposto liberal de Adam Smith. apud SEN. mas sim na participação pública. p. 2011. 20) Assim. Cabe ressaltar que no processo de desenvolvimento como liberdade a condição de agente é enfatizada por Sen ao longo de todas as suas obras. But what it is to have enough to eat and what it is to have adequate clothing or shelter will vary from one sorts of things that are necessary for functioning in one society which are not necessary in another.252). é mais admirável e mais divino atingi-lo para uma nação ou para cidades-estados” (ARISTÓTELES. 1999. 251) aceita como exemplo de “consequencialismo” a definição realizada por Pettit afirmando que. Sen (2011. um individuo que determina maior importância a liberdade de uma sociedade do que a sua liberdade individual é considerado por Sen como um exemplo de felicidade que não é cabível aos conceitos utilitaristas de bem estar ou até mesmo a condição de agente. as you need to be able to keep yourself in clothes and to provide yourself with shelter. assim. cf. este se aproxima do sentido de Pettit: The basic capabilities required for functioning in one society may be different from those required in another (Sen 1983. Sen afirma que “é importante notar que o raciocínio sensível às consequências é necessário para uma compreensão adequadamente ampla da ideia de responsabilidade” (SEN. (PETIT. p. Conforme discutido no terceiro capítulo. promove o desenvolvimento. “a grosso modo. 1997. Assim como o modelo proposto por Sen não deixa de considerar a relevância das capacidades e da ação. . 158) Em relação ao quesito de responsabilidade já destacado ao longo deste texto. Smith 1976: 870).

Pettit critica a defesa de Sen do papel de agente em sua publicação ao afirmar que a concepção de Sen envolve. Pettit acredita que Sen supõe que as pessoas podem estar tão comprometidas com os outros que deixam de lado seus objetivos. ao falar de Adam Smith e defender o livre mercado. 74 Em conjunto com tal definição permanece a ênfase de Sen na participação pública. Esta remete ao ideal de liberdade positiva caracterizado por Isaiah Berlin. de acordo com a liberdade da pessoa. sem sofrerem a interferência de terceiros. Além disso. porque o que é cabível para o bem-estar de um não é cabível para o de outro. Sen resguarda com clareza os ideais liberais. caracteristicamente. Tal definição já se expos anteriormente na definição elaborada por Berlin do conceito negativo de liberdade. . e tal preceito para Pettit não é inerente aos atributos humano. de modo que a busca de objetivos particulares podem ser comprometidos pela consideração dos objetivos dos outros. A liberdade caracterizada por Sen é classificada no sentido negativo de liberdade. O liberalismo como um todo prega a não intervenção do estado e Sen acredita no investimento do Estado em condições mínimas que as pessoas possam conviver e buscar o ideal de liberdade que anseiam.339) “o território clássico da obra pioneira de John Stuart Mill: On liberty (“Sobre a liberdade”). a visão de liberdade relacionada com a participação pública defendida por Amartya Sen aproxima-se do conceito defendido pelo neorrepublicanismo. é segundo Sen (2011. pois este desenvolve o posicionamento herdado de Mill no qual as pessoas possuem a capacidade para viver a vida do modo que desejam. é visível o alcance da liberdade defendida por Amartya Sen. independente do que a pessoa quer exatamente. não como um conceito especifico de liberdade. o que acaba sendo uma contradição já que é a favor do Estado possibilitar a promoção do bem-estar social. mas sim como uma liberdade que remete variáveis alcances. a qual Rawls se refere como a possibilidade das pessoas levarem as suas vidas como desejam. Todavia. Esta liberdade. Para Sen a orientação do bem-estar pode ocorrer de diversas formas. este vê a liberdade independente do conteúdo. nenhum individuo controla a decisão – enquanto que na versão de Phillip Pettit a liberdade é resultado de uma situação favorável. Essa relação considera a ideia de liberdade efetiva. Assim sendo. Apesar do ideal de liberdade positiva no qual se aproxima a visão de Sen ser criticado tanto pelo ideal negativo de liberdade quanto pelo republicano. e também já discutido ao longo desta pesquisa. exercida pelo controle indireto – ou seja. ou seja. colocar de lado seus próprios objetivos e agir nos de outros. que se ampara na “Virtu”. p.

Phillip Pettit argumentou que. a partir das capacidades caracterizado por Sen. mas o resultado desta decisão depende da vontade de outras pessoas. de modo que as capacidades dependentes do favor não contem como liberdades reais. Para sustentar esta afirmação. mesmo sem este poder ter realizado alguma intervenção. mas sua critica a minha ênfase nas capacidades.18). Não estou comentando aqui a parte da “defesa” da argumentação de Pettit. 2011. já exposto anteriormente. E para Pettit isso não torna uma pessoa livre. p.339) Deste modo. 2011. Phillip Pettit. p. mas também inclui a exigência de que outros não possam eliminar essa capacidade mesmo que queiram fazer. 75 Em algumas teorias da liberdade (freedom).6). não serve para um modelo de liberdade sem interferência. a chamada teoria “republicana” ou neorromana”. tanto Sen quanto Pettit citam o seguinte exemplo: em relação à uma decisão importante para você. Assim o conceito de liberdade substancial. 340). uma vez que uma pessoa pode ter a capacidade de fazer muitas coisas dependentes do “favor dos outros” sustentando que as escolhas reais da pessoa (ou realizações) são dependentes dessa forma. como o “escravo e seu dono”. 2011. já que a pessoa acaba dependendo de interferência. 2011. visto que a existência de poder arbitrário prejudica a possibilidade da pessoa agir como deseja. p. 2001. uma vez que refletem distintos aspectos da ideia inevitavelmente plural de liberdade. (“Capability and freedom: a defence of Sen” Economics and Philisophy. na qual sugere que ela deveria ser estendida na direção da perspectiva “republicana”. a liberdade (liberty) não é definida apenas com relação ao que uma pessoa é capaz de fazer em determinada esfera. (SEN. Sen destaca que a liberdade de uma pessoa pode estar comprometida mesmo quando não ocorre interferência. (SEN.339) . Vejo a importância dessa conexão. p. 17. Baseado em fundamentos “republicanos” contra a visão da liberdade como capacidade. ela não é realmente livre (SEN. mas tenho de sustentar que ambos os conceitos – o republicano e o da liberdade baseada na capacidade – têm valor. pois “as pessoas continuam sendo escravas mesmo que as suas escolhas nunca sejam conflitantes com a vontade do seu senhor” (SEN. quando há a possibilidade de se escolher entre A e B. Pettit vê isso como uma extensão natural da ideia de capacidade e de sua defesa (assim como apresentada por mim): “Em minha leitura. por mais que a responsabilidade da escolha seja sua. Este exemplo é característico de Skinner. por exemplo. p.339). a teoria de liberdade de Sen coincide com a abordagem republicana nessa ênfase na conexão entre liberdade e não dependência” (p. ela depende da interferência de outro.

Não há duvida de que o conceito republicano de liberdade é importante e capta um aspecto de nossas intuições sobre as reivindicações da liberdade. em vez de demolir a relevância dessa perspectiva como abordagem da liberdade (SEN. 340) Por conseguinte. De meu ponto de vista. p. 76 Devido a todas essas lacunas visualizadas na teoria de Amartya Sen busca-se a seguir definir de que modo a teoria da liberdade substancial aproxima-se ou difere-se da teoria Republicana. a concepção republicana da liberdade complementa a perspectiva baseada nas capacidades. p. . 2011. 342). apesar do fato de a liberdade como ideia ter irredutivelmente vários elementos. 2011. Além disso. Para Sen. ele destaca que Pettit defende este conceito ao afirmar que “A tensão entre capacidades e republicanismo como abordagens da liberdade surge se e somente se fizermos no máximo uma só concessão”. (SEN. conclui-se que. Esta tensão surge ao buscarmos um entendimento unifocal da liberdade. como observa Sen. é possível as duas ideias conviverem juntas já que ele é contra um conceito unifocal de liberdade. Minha discordância diz respeito à afirmação de que a ideia republicana de liberdade pode substituir a perspectiva da liberdade como capacidade.

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