Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho, Ano 17, nº 27, 2012, 225-248

Arquitetura militante:
relações de gênero em
um empreendimento de
trabalho associado
Maria Rosa Lombardi

Introdução

O artigo se baseia em estudo de caso sobre uma experiência de tra-
balho associado entre arquitetos que se dedicam à assessoria técnica para
habitação popular. A pesquisa objetivou conhecer como se organizou e
desenvolveu uma experiência de trabalho associado entre profissionais
de nível superior, recuperando a história do empreendimento e anali-
sando as mudanças no tempo, privilegiando dois ângulos principais: a
organização do trabalho e a divisão sexual do trabalho técnico entre ar-
quitetos e arquitetas1. O artigo traz alguns dos principais achados de pes-
quisa, enfatizando a vertente analítica das relações de gênero e a divisão
de trabalho entre arquitetos e arquitetas em dois ambientes de trabalho
em que atuam correntemente, o escritório e as obras. A primeira parte
do artigo se dedica a apresentar, brevemente, algumas das característi-
cas principais do empreendimento, dos atuais associados e do trabalho
desenvolvido, para permitir a compreensão das relações que se estabe-
lecem em torno da divisão sexual do trabalho. A segunda parte, focaliza
a análise sobre a divisão sexual do trabalho entre os(as) arquitetos(as)
no escritório e nas obras, com base nas observações realizadas e nos
depoimentos dos(as) entrevistados(as). Finalizando, tecem-se algumas
considerações finais.

226 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho

O empreendimento, o trabalho desenvolvido e os atu-
ais associados

A USINA – Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado – nas-
ceu na cidade de São Paulo, em 1990, como uma associação civil sem
fins lucrativos, e seus associados e associadas tiveram e têm a marca da
militância profissional e política. Trata-se de um agrupamento de ar-
quitetos, engenheiros e cientistas sociais que assessoram movimentos
sociais na construção de moradias, utilizando-se de mutirões. Em mu-
tirões, uma parcela dos futuros moradores – os mutirantes – se propõe
a contribuir com seu trabalho para a obra coletiva, de forma não re-
munerada e restrita aos finais de semana, desenvolvendo tarefas mais
simples. Durante a semana, o trabalho é realizado pelas empreiteiras
convencionais, contratadas pelo movimento de moradia. As duas moda-
lidades de canteiro – o do mutirão e o convencional – são supervisiona-
das pelos(as) arquitetos(as) da assessoria. Os associados trabalham com
ideais autogestionários que procuram implementar nos mutirões e em
sua própria organização interna, mas mantêm, no horizonte, a perspec-
tiva do negócio coletivo, do qual sempre esperaram obter remuneração
adequada para seu trabalho profissional. Na USINA, a identidade central
é a profissional – de arquitetos(as) –, a qual traz coesão ao grupo e é seu
“norte”. Em vinte anos de vida, duas gerações de associados passaram
pela USINA e, nesse período, ela estabeleceu relações com sujeitos so-
ciais, políticos e profissionais diferenciados e esteve sujeita a variações
no volume e no tipo dos serviços prestados, em função de oscilações
econômicas e de mudanças nas políticas públicas de habitação popular
nos âmbitos municipal, estadual e federal. A atual gestão2 delimitou o
teto máximo de vinte horas semanais de trabalho, praticamente obrigan-
do que todos tenham outras atividades profissionais concomitantes, face
às características específicas do trabalho que escolheram desenvolver, o
qual provê uma remuneração abaixo dos valores de mercado e de forma
irregular3. Aprofundou também a autogestão, criando um fundo único
em que os recursos de todos os projetos entram e remuneram todos os
associados, sem distinção; instituiu, igualmente, remuneração única,
igual para todos, independente de antiguidade no negócio ou posição
hierárquica. Todos os entrevistados repetiram que gostariam de trabalhar
só ali, se pudessem dali obter recursos suficientes pra sobreviver. Mas
atualmente isso é uma utopia, o que contribui para uma alta rotativida-
de no empreendimento. O envolvimento pessoal, político e profissional
intenso requerido é outro motivo de rotatividade; o esgotamento físico

A sobrevivência da assessoria como um empreendimento econômico es- teve em risco algumas vezes. Metade dos associados eram mu- . O trabalho técnico satisfa- tório foi um dos motivos principais para os entrevistados se integrarem à assessoria e nela permanecerem. O intenso envolvimen- to pessoal com os movimentos de moradia e com o trabalho consome grande estoque de energia mental. em que grande parte dos jovens arquitetos é absorvida. nos canteiros de obra. Na época da pesquisa. emocional e física. solteiro e sem filhos. desde a fase de criação e concep- ção – o projeto – até a execução. as expectativas de nível de consumo pessoal e familiar tenderam a ser rebaixadas. o desgaste psi- cológico derivado do próprio trabalho e a existência de obrigações fami- liares e de filhos. Igualmente. 227 devido ao excesso de trabalho nas obras e no escritório. as quais se caracterizam pela preca- riedade e pela informalidade nas relações de trabalho. individualmente. social e político. arquitetos. como acontece nos escritórios convencionais. têm pesado na decisão de deixar o coletivo. o qual é repleto de sentido profissional.. Aqueles(as) que têm obrigações familiares. Em alguns casos. durante determinado tempo de suas vidas. Destacaram a possibilidade de parti- cipar de todas as etapas do trabalho. O coletivo se mostra consciente das limitações que trabalhar na USINA lhe impõe e aceita o preço individual e coletivo dessa opção. a maioria oriunda da FAU/ USP – Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo – e da Faculdade de Arquitetura da Unicamp. Em outras palavras. repetitivo. os(as) associados(as) aceitam certo grau de precariedade no trabalho. não se percebem como uma organização nascida das modificações que aconteceram no mundo do trabalho nos últimos vinte anos. Portanto. Arquitetura militante. em função do baixo e instável ganho.. tanto por parte dos homens como das mulheres. muitas vezes desestabilizando laços familiares. sem possibilidade de intervenção ou de participação técnica. não se sentem alinhados à vertente da economia social ou solidária. todos os demais. tempo considerável da vida pessoal e familiar dos(as) associados(as) foi dedicado ao trabalho. os(as) que não encontram outra fonte de renda compatível e os(as) mais velhos(as) tendem a se desligar. Os ciclos de vida pes- soal e familiar dos associados também influenciaram na permanência na USINA. sem sentido porque desligado da concepção. Com base nessas escolhas. ali o trabalho não é fragmentado. parece ser mais fácil estar disponível para o trabalho que lá se faz quando se é jovem. Não há uma hierarquia rígida e as relações de trabalho tendem a ser mais democráticas e participativas. relações de gênero. havia doze associados na USINA: um cien- tista social e.

essa proporção atingiu 54%. Es- boçamos aqui. desde a sua fundação. essas qualidades viris se- riam matizadas.9% dos empregos formais para arquitetos no Brasil eram femininos. p. vigor. bem como sobre a percepção que seus clientes e pares têm delas como profissionais da arquitetura e sobre sua autopercepção nessa área4. as relações sociais de sexo e a divisão sexual do trabalho são indissociáveis.ex. em 2009 (MTE/RAIS. No caso dos artistas e dos arquitetos. em 2007. Arquitetos e arquitetas : o trabalho técnico e sua divisão A categoria analítica “relações sociais de sexo” (Kergoat. tensão entre o grupo de homens e o grupo de mulheres. há pouca informação sobre as condições em que as arquitetas se inse- rem no campo do conhecimento e do trabalho da arquitetura no Brasil. Até onde apuramos. imaginação. a RAIS – Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego – informava que 51. sociólogas. embora em pequeno número. as mulheres estiveram presentes. 2007:18). Nesse sentido. De fato. Ainda atual- mente impregna profundamente nossa visão de criação” (Dumont. 2009). Seguindo essa ótica. Autoras feministas e estudiosas do campo da arte. 55%. a maioria dos associados era bastante jovem. singularizadas. fortemente sexuado. Esse paradigma do gênio criador. que se revela permanente quando se trata do trabalho e da sua divisão. com idade variando entre vinte e cinco e trinta e seis anos. elas afirmam que “o paradigma moderno do artista genial e singular é o homem. sensibilidade. 2000) orientou a observação e a análise das relações entre os gêneros na USI- NA. como psicólogas e advogadas. assistentes sociais e arquitetas. está as- sociado ao masculino e às qualidades masculinas como coragem. a arquitetura é uma profissão feminilizada há cerca de quinze anos. nos reportando a Dumont e Sofio (2007). Em 1995. em 2004. por meio da associação de algumas qua- lidades femininas. razão. Na USINA. Sofio. e 56%.228 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho lheres e arquitetas. uma interpretação sobre a posição das arquitetas asso- ciadas ao coletivo estudado. praticamente. poucos deles ti- nham filhos.. O feminino nessa associação simbólica é valorizado como complemento de um masculino . Aquela categoria identifica uma tensão que atravessa todo o campo social. a análise desenvolvida centrou-se na identificação da divisão sexual do trabalho técnico entre arquitetos e arquitetas.

229 preexistente e teria se encarnado. ao masculino e não ao femini- no. em que os coordenadores eram homens. Além do mais. em que o gênio criador tem estado associado. Por outro lado. mantenha-se em mente que quase todos(as) os(as) arquitetos(as) eram egressos da FAU/USP. em particular. Dessa maneira.. Perante essas concepções. A arquitetura. em espaços profissionais menos valorizados. A ela se alia uma perspectiva política militante dos(as) profissionais. Voltando à USINA. como algumas engenharias. Os âmbitos da técnica. da ci- ência e o das profissões e campos de conhecimento que as incorporam – aqui inclusa a arquitetura – são mais resistentes à inserção feminina. “entre os colegas é muito mais velado. Arquitetura militante. em direção a uma sociedade de matiz socialista. ao congregar características simbólicas do masculino advindas dos campos da política. como bem coloca Sílvia5.. em que não há corte hierárquico e de autoridade – pois. a maioria das arqui- tetas entrevistadas – da primeira e da segunda geração – esteve pouco sensibilizada para as questões das relações de gênero na profissão de modo geral e na USINA. escola tradicional que pretende formar quadros para a elite da profissão. tam- bém integra o campo da cultura e da arte. de um lado. ao colocar o conhecimento técnico construtivo à disposição das camadas menos favorecidas da população. Como se colocar nesse ambiente de trabalho sendo uma mulher? . todos foram colegas da mesma faculdade – e existem mulhe- res em diversas funções de coordenação? Levantamos a hipótese de que. a autoridade que emana da opção coletiva de exer- cer uma arquitetura politicamente militante seria suficientemente forte e envolvente para amortecer. no artista moderno. des- tinados ao mercado autoral ou ao “círculo restrito” no dizer de Stevens (2003). professores e pessoas de destaque no segmento da arquitetura popular? E na segunda geração. progressivamente. da técnica e da arte. a partir do século XIX. A opção política se expressa por meio do engajamento à causa da transformação social. na primeira geração. as configurações das relações de gênero no cotidiano de trabalho. No meio acadêmi- co. desde o século XIX. em princípio. relações de gênero. gênios criadores. ou então as incorporam marginalmente. como se situar sendo uma mulher? Quais papéis lhes seriam atribuídos num coletivo profissional tão singular como o da USINA. debilitar outros níveis de conscientização e questionamentos possíveis. as especificida- des do ambiente de trabalho da USINA não favoreceram aquela sensibi- lização. mais justa e igualitária. como por exemplo. além disso. da tecnologia. pensadores e artistas sensíveis. é feio ser machista”.

Apesar de ter sido contratada para desenhar com o software CAD.) outros consideravam a obra como um acessório desses projetos de sociedade que estavam sendo construídos (. participação e decisão se fecham às arquitetas nesse coletivo? Na ausência de maior sensibilização à questão das relações de gênero ou expressando certo incômodo em abordar a temática. o Antonio não ia. Jovem .. Lembra-se que “no mu- tirão Y trabalhavam ela. como explica Júlio: (. um “tratamento mais paternal”. ela ficou quase dois anos em obras. e da parte deste. Auxiliadora6. Partindo das pistas extraídas dos relatos. Corajosa e contestadora.230 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Quais espaços de ação. durante a primeira gestão da USINA. a USINA foi e é um coletivo diversificado em termos de posições políticas. o que foi bem aceito. ficava por conta deles dois”. ela expressava suas opiniões. na época. esta investigação serviu de estímulo para refletir sobre a questão.) existiam [pessoas com] projetos diferenciados. mas nos finais de semana. a maioria dos(as) entrevistados(as) afirmou não haver diferenças entre homens e mulheres naquele ambiente de trabalho. Da parte deles. Nessa relação.) uns eram mais focados na atuação como arquitetos. atribuindo eventuais diferenças às características de personalidade de cada um(a).. “o trabalho nas obras era muito pesado”.. sem muita in- teração com os movimentos (. Ela ressalta que sua relação – e a de Júlio. objetivos. era o auge da USINA. na época da primeira geração da USINA.. em obra. faz questão de ressaltar que o coman- do e a coordenação das obras. Em alguns casos. as obras eram mui- to longe. pois.) o grau de envolvimento de cada um era muito variável (. envolvimento e posicionamen- tos pessoais no trabalho. por exemplo.. não lhes cabia questionar as ordens do profes- sor. procuramos compreender como se dá a divisão sexual do trabalho técnico e como se joga com a autoridade nesse coletivo. demandavam longas viagens de ônibus.. saiu “porque não aguentava mais”. Na sua opinião. competência do trio de arquitetos fundadores. havia admiração pelo professor. ingressou como estagiária em 1993.. depois foi associada e permaneceu no empreendimento até 2002. estagiário de engenharia e seu contemporâneo na USINA – com Antonio nunca foi “de igual para igual”8. Júlio (seu companheiro) e Antonio7. Margarete integrava o grupo dos envolvidos com os movimentos e com a obra.. tinha muito trabalho e faltava gente”. De qualquer forma. ela “pediu para ir para a obra. eram masculinos.

e Marília)10. Estas se afastaram para dar espaço às suas vidas pessoais – ter filhos. Na sua opinião. foi uma figura polêmica. sua feminilidade era submetida às demandas profissionais..) deixar o grupo preva- lecer”. conforme seu discurso sugere. “a gente brincava que enquanto ela esteve na USINA só tinha homem”. Isto é. coordenador da USINA. como acontece com tantas outras profissionais que se inserem em ambientes de trabalho predominantemente masculinos. por exemplo.. desafiadora e atraente. ancoradas na antiguidade e no conhecimento do trabalho. na primeira gestão. Margarete. desejava participar das decisões importantes e ser legitimamente reconhecida como uma associada da USINA. procurar re- muneração maior e menos instável. falando e agindo de igual para igual com os homens. Margarete agia como um homem. portanto –. An- tonio “mantinha uma posição mais conciliadora. Júlio e Margarete. um namorado. como estagiária e permaneceu até 2009. gostava de trabalhar no canteiro junto com os peões e os mutirantes. mas diferentemente de Auxi- liadora. Marcelo. pode ser compreendida como menor constrangimento dos recém-chegados perante uma autoridade coletiva.. Betina pondera que. profissionais reconhecidos e coordena- dores. já formado – há dez meses na época da entrevista. ousava afrontar a autoridade dos fundadores sugerindo-lhes outras formas de gestão. estava presente antes e depois do afastamento das “quatro mulheres” (Betina. Sílvia. 231 e sem uma figura masculina próxima que a legitimasse. Comparando a dinâmica do coletivo nos dois momentos. mais aberta (.) tinha uma posição mais generosa de ouvir os outros (. Ou seja. compartilhada entre vários associados. ou por decisões profissionais propriamente ditas: diminuir o ritmo e a intensidade do trabalho na assessoria. Marcelo relembra momentos que classifica como de “maior liberdade”. mas no exercício da coordenação geral – e da segunda gestão. Antonio era o inverso de Francisco9. Ela fugia dos padrões esperados para uma mulher nesse ambiente de traba- lho. arquiteto que se integrou à equipe em 2009. Na expressão de um dos fundadores. cujo pensamento “acaba tendo uma predominância maior no grupo” devido ao seu poder de argumentação. dar mais atenção à vida conjugal. que o faz ser reconheci- do no coletivo como “intelectual e pensador”. instância mais alta de poder no empreendimento. não raro. seus professores. por tudo isso. qualidade que. as opiniões das arquitetas. J. funcionavam como contrapeso à pre- . pode par- ticipar da primeira gestão – com Antonio já um pouco afastado do dia a dia. O respeito ao professor continuava presente.. sendo estes mais velhos. Arquitetura militante.. estudar –.. em 2002. Outra arquiteta – Betina – que entrou na USINA. relações de gênero.

respeita a di- nâmica. aliada ao fato de ser estudante e mulher também. de saberes e de gênero”. Sabe quando você sai às 6 horas da tarde. Ressalta que. aí chega uma menina de dezenove anos. havia “um conflito de gerações. reconfigura a situação. o rotineiro e muitas vezes invisível. praticamente todas foram embora e eu senti muita diferença (. eu passei o dia resolvendo problemas. Chega no outro dia às 8 da manhã. quer dizer. Em certos momentos. responsável por resolver problemas de toda . eu não sou uma menina. entra num lugar. na época em que entrou – 1993 –. ver como elas eram respeitadas. ela era uma das pri- meiras estudantes de arquitetura a se agregar ao coletivo. pelo tempo que estavam aqui. uma divisão sexual do trabalho dentro do corpo de colaboradores e associados. encarregada de acompanhar o dia a dia. tinham quebrado umas estacas. Como ela bem define. lhe trouxe alguma dificuldade junto ao pessoal da pró- pria obra. todos os três [fundadores] na obra e o mestre desfazendo ou fazendo outra coisa. como as pesso- as se relacionam. o miúdo. certo? Era isso o tempo todo. da Sílvia e da J. de saberes e de gênero. Divisão sexual do trabalho nas obras Margarete percebe que havia. tem que di- zer: olha. os peões e o mestre. O fato de as quatro meninas saírem dá uma desestabiliza- da. de repente. Eu falei: Como é? Vocês estão malucos? Depois eu falei: Ou vocês me respeitam dentro da obra ou vocês tocam a obra. ainda muito jovem. de se colocar e até dar uma prensa no Francisco. Além disso. Quando eu entrei eram os meninos [o trio de fundadores] que acompa- nhavam a obra. exausta. mas tenta entender como as coisas funcionam. na primeira geração. São muito bons arquitetos e conheciam obras. Elas eram bastante presentes. com dezenove anos. eram referências importantes até pela an- tiguidade. Eu acho que existia uma liberdade muito grande da Betina. Eu percebi que teve uma diferença e deu para entender a importância delas. nem formada era. passei o dia todo no sol marcando coisas. Margarete exercia a função de “residente em obra”. Você tem que dar muita cotovelada. foi um problema. aí inclusos os mutirantes. da Marília. eu não estava tão ativo como quando elas participavam. Eu passei uns dois ou três meses com elas e. A juventude. sim. Na obra X.. Acho que tinha um conflito de gerações.) você é novo. como elas construíram [isso].. com pó da cabeça aos pés. sou uma profissional.232 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho dominância da argumentação do coordenador geral.

Na segunda-feira. A autoridade maior é a do mestre. que transmite ordens e se comunica apenas com o encarregado. A sistemática de trabalho com mutirões em finais de semana implica a contratação de uma empreiteira que toca a obra durante a semana. a assessoria procura desmanchar a hierarquia que predomina na construção civil. também. delegar para o empreiteiro quais são as frentes [de trabalho] dele. Este. alternativo ou mais próximo da autogestão. passar a fiação das instalações elétricas. Há uma divisão inicial de trabalho que atribui ao emprei- teiro as tarefas mais difíceis da construção. O canteiro do mutirão. Isso é chato. Arquitetura militante. Aproximar o mutirão da autogestão significa. 233 ordem. os encanamentos. Ela explica o que é ser residente em obra: É esse trabalho do cotidiano. assumindo o papel de “mutirantes”. os trabalhadores atuam dentro da estrutura convencional da construção civil. implantar um rodízio de tarefas para que todos tenham a oportunida- de de conhecer e desempenhar todos os serviços. que não exigem tanta especialização e por isso dá para fazer rodízio das tarefas”. e outro. Como informou Marília. era assim: se estava faltando só uma fiada. nos finais de semana. saber o que tem e o que não tem que fazer. coexistem dois canteiros de obra: um tradicional durante a semana.. nos finais de semana. Durante a semana. “há tarefas que só a empreiteira faz. O mestre costuma ser contratado diretamente pela assessoria. O mundo de obra é masculino e preconceituoso. é organizado por aproximação dos pressupostos da autogestão. onde está o problema. acompanhar o dia a dia. só aquela parede. é tenso. são as tarefas mais simples. quando parte dos futuros moradores se distribuem em equipes de trabalho. se comunica com o servente. os demais trabalhadores do canteiro tradicional são contratados de uma empreiteira. o que im- plica a comunicação direta dos(as) arquitetos(as) com os mutirantes e chefes de equipe. porque obra tem uma rotina.. bem como promover reuniões no início ou no final do mutirão semanal para troca de experi- . como alvenaria. Isso significa que. No final de semana. além do trabalho ser fisicamente cansativo. a fim de que a obra mantivesse o ritmo. cuja hierarquia rí- gida não costuma ser atropelada. quem fazia isso? Eu. por sua vez se dirige apenas ao pedreiro que. Toda segunda-feira tem que determinar o trabalho daquela semana e quem vai fazer. o técnico residente. saber o anda- mento da obra. na sequência. Dessa sistemática dual resulta que os(as) arquitetos(as) fazem a gestão de canteiros diferentes em termos de organização de trabalho. em maior ou menor grau – dependendo do mutirão –. relações de gênero. Nas obras da USINA.

no seu caso. Mulher nova lidando com mestre de obra. embora exista um cronograma a ser cumprido. mesmo sendo um mutirão orientado por autogestão. a opi- nião de um arquiteto valha mais do que a delas. segundo relatos das arquitetas. Por exemplo. pendências da obra. Pode até sumir. quando aplicados no canteiro convencional. as marcações sociais de classe. pois. um trabalho fisica- mente muito cansativo. mesmo desres- peitando a hierarquia. Acho que as obras de mutirão têm uma cara um pouco diferente. [o mutirão] não é nenhum mundo das maravilhas. Agora. a hierarquia é muito marcada. Sempre de calça. No caso dos arquitetos.234 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho ências. qualificação. mas os outros não somem e tem uma hora em que você é cobrado por isso. constantemente. tinha muita dificuldade. mas no come- ço. Eu nunca ouvi cantada dentro da obra. Do ponto de vista das relações de gênero e autoridade. Sobretudo.. elas e eles transgridem a hierarquia e dão ordens dire- tamente ao pedreiro ou ao servente. são frequentes os conflitos entre o encarregado. também para manter as pessoas um pouco longe. Você não some com as distinções por vontade. situação “mais complicada” porque. os conflitos são potencializados pelo fato de elas serem mulheres jovens e detentoras do saber técnico. Em compensação. Os(as) arquitetos(as) são responsáveis pela supervisão do cantei- ro convencional durante a semana. suas ordens costumam ser mais bem recebidas. eu saía para beber com os meninos operários no final da tarde. é menos difícil exercer a autoridade técnica e ser respeitada por isso. causam confusão. Isto é. O mundo de obra é muito masculino.) isso se repete em todo trabalho [que a gente . geração e gênero não são apagadas. resolução de problemas de relacionamento. O reino da felicidade seria que engenheiros. principalmente. embora mesmo ali. Nessas ocasiões. Nunca. O depoimento de Margarete é esclarecedor sobre as relações sociais que se expressam no canteiro de obras. Tem uma compostura mínima que você precisa ter. eu nunca fui para a obra de saia.. com as arquitetas. no canteiro do mutirão. os peões e os arquitetos – principalmente. pedreiros e serventes fossem todos iguais. Betina também ressalta o estranhamento contínuo que existe entre mulheres e a construção civil: “a gente lida melhor agora. é muito duro. mas é um mundo muito preconceituoso. significa não exercer um controle rígido sobre o ritmo do trabalho do mutirão. pedreiro (. Na construção civil tradicional. Os contornos mais fluidos da hie- rarquia nos mutirões de final de semana acabam sendo internalizados e.

Por ter o tempo todo esses testes e tudo o mais você acaba. com certeza estão passando a mesma coisa que a gente passou lá atrás. os homens dão “um jeiti- . ao passo que as arquitetas têm que ser mais incisivas para que sua opinião prevaleça na obra. percebe que a designa- ção “braba” – aplicada a arquitetas e mulheres mutirantes – é pejorativa. o questionamento não é tão grande quanto se formos nós [mulheres]. Aí sim. O que.. as mutirantes também sofrem discriminação e preconceito. Arquitetura militante. Nos mutirões. Elas te- riam maior noção de economia. mais firme (Betina). É difícil para eles [os mestres]. além de não terem uma visão global da obra. quer que o projeto seja seguido à risca. mas ríspido. Usualmente. relações de gênero. mesmo assim. que ela considera mais imediatistas. Porque se é um homem que fala “faz assim porque é melhor”. não se dá sem relutância das equipes. são escaladas duplas de arquitetos para acompa- nhar cada obra e se estabelece uma divisão de trabalho interna à dupla e um revezamento do trabalho nos mutirões de final de semana. talvez porque na construção civil tradi- cional impere o desperdício de material. das exigências do próprio trabalho. Isto é.. Muito mais. A gente tende a ficar mais embrutecida em obra porque assume um papel. Nas obras elas são desqualificadas porque não conhecem o trabalho e quando coordenam equipes ou núcleos também não são bem vistas pelos homens. formada na FAU. “as mulheres participam mais e acabam assumindo maior número de posições de controle do que os homens.. “Mulher na obra é mais braba que homem?” Sílvia e Betina acham que sim. pois se refere a uma tendência feminina de organizar. em 2005. são estranhas na obra. Então. controlar. A gente é mais “cri- ca”. te testando por uma questão. mas as meninas que começam a en- frentar a obra. Sílvia. às vezes. por- tanto. Sílvia trabalhava num mutirão em uma cidade da Grande São Paulo e traz informações preciosas sobre como a autoridade técnica na obra está associada ao masculino e. é aceita sem dificuldades pelos mutirantes. agora um pouco menos para mim. Esta jovem arquiteta observa também que as mulheres. inde- pendente de sua qualificação. É essa coisa de todo mundo estar duvidando e te questionando. 235 começa]”. Em todas as nossas obras isso acontece”. tem que ser mais bruto mesmo. você é mulher! E talvez a idade. Esta última profissional ameniza os conflitos oriundos das relações de gênero sob o contexto da obra. peões e pelo mestre. de planejamento do que os homens.. 27 anos. apesar de serem a maioria nos mutirões. porque além do mais as mulheres são mais brabas que os homens nas obras.

não está na sua mão a colher de pedreiro. por incrível que pareça. ele não sabia assentar direito aquele tipo de bloco. Era um pedreiro novo que estava entrando naquela semana. aprecia essa sua característica quando é preciso negociar com o empreiteiro. Em algumas coisas práticas do canteiro. no fim. O saber profissional das(os) arquitetas(os) se concretiza no projeto e na organização das etapas de construção. é problemático. todo re- cortado. Os meninos são muito mais respeitados. acham que você não está totalmente certa. sendo geralmente confundida: “eles não fazem essa diferença (.) no dia que ela vem faz a gente carregar bloco o dia inteiro. estava as- sentando errado. É uma constan- te.. não deixa a gente nem descansar”. De vez em quando. O “como fazer” está muito mais nas mãos deles que nas nossas. fui sempre eu”. Acho que a gente tem que ser mais braba para ser escutada. o mestre e os pedreiros têm muito mais saber que a gente. Em negociações de sentar para conversar [com empreiteiro].) eles chamam a gente de engenheira. torto e ela disse “Olha. na verdade. ela é consi- derada a “carrasca (. Sílvia percebe que a questão das relações de gênero e a questão da idade são particularmente portadoras de conflito nas obras. No seu mutirão. com uma posição hierárquica . Se você falar a mesma coisa que um homem. quando você tem uma obra em que existe claramente a hierar- quia de um engenheiro de cinquenta anos. nas especificações técnicas.236 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho nho”. As mulheres são bem mais brabas e menos respeitadas. em torno do seu “saber fazer”. você vai ter que refazer. meio grosseirão. eles nunca fizeram isso.. Elisabete11 também confirma a percepção dos movimentos sobre as arquitetas serem mais incisivas no trato. eles não sabem muito bem a diferença”. Ela ficou em choque. porque desse jeito a parede vai cair”.. na determinação das quanti- dades de materiais necessários. por outro lado.) porque a gente peita mais o empreiteiro. O projeto é difícil. Os conflitos ficam mais evidentes nas práticas em que as arquitetas se confrontam com os saberes tácitos dos pedreiros.. Eles desconfiam muito. Então isso gera uma crise na obra. ficou bem braba e disse: “Eu não sei colocar o tijolo. isto é. Outro dia teve uma briga. Isso rola muito. então você não sabe o que está falando e eu vou continuar fazendo do meu jeito”. A diferen- ciação da qualificação profissional. eles são até mais suaves que a gente. Ele deu uma resmungada. eles desconfiam de você e não do homem. um estranhamento na obra com uma garota da equipe... douto- ra. mas sei que está errado”. virou para ela e disse: “Você não sabe assentar tijolo. A comunidade. Dizem “Dá para ser você? É melhor você do que os meni- nos [Aluísio e Ricardo]12 (. se uma mulher é arquiteta ou engenheira passaria despercebida.

coordenadoras de núcleos e as arquitetas? Nessa relação. Estas.) é machista o ambiente da construção civil. só depois fazerem o que têm para . tecnicamente muito correta de uma composição de concreto vindo de uma mulher (. O mestre de obras que a gente tinha. Arquitetura militante. pois as arquitetas são bem mais jovens e preparadas que essas mulheres. é aí que você tem líderes mulheres expressivas. Como se dá a relação entre mulheres mutirantes. conhecidas há tempos dos movimentos. talvez porque elas não sabem fazer o trabalho na construção civil. é atribuído [a ela] com mais rapidez. Márcia13 também percebe diferenças na distribuição das tarefas internas e referenda que “a parte de organização fica mesmo mais com as mulhe- res”. “a estrutura está sempre pronta e eles podem fazer o que têm que fazer. Mas Sílvia sente que “há mais respeito entre as mulheres do que entre os homens e a gente”.. Aí estamos lidando com uma coisa que não é um embate produtivo.. em con- trapartida. Se tiver algum erro. conforme relata Ricardo..) as opiniões delas em canteiros de obra ou mesmo em uma reunião política são levadas em conta em menor grau do que a opinião política de um homem. no escritório. que seriam mais “preguiçosos”. 237 diferente da nossa. os caras respeitam de outra forma (Sílvia). do mutirão e dos peões contratados. Na sua opinião. Divisão sexual do trabalho no escritório No tocante às tarefas internas. esse fato traduziria uma reprodução do machismo na nossa sociedade. saindo na frente dos homens. há uma diferença geracional e de qualificação. “não são do ramo”. As integrantes mulheres da USINA [arquitetas] (. parece também haver uma divisão de trabalho que atribui as “coisas mais chatas” – leia-se a parte administrativa e financeira – para as arquitetas. A lista de compra de mate- rial de construção de uma mulher – não a do supermercado – eu acho que é checada mais vezes. Mesmo quando se trata de mulheres mais velhas. é cultural. Claramente. em que para eles. não levava em con- ta uma instrução muito clara e precisa... Olha. Mas eu acho que até em movimento or- ganizado. eu nunca vi uma exceção flagrante a isso. a condição delas como líderes mulheres é mais difícil do que a de um líder homem. também costumam “assumir mais” as tarefas que têm que ser feitas. a discri- minação contra as integrantes da equipe parece persistir.. relações de gênero. As mulheres sempre têm que cuidar de toda essa retaguarda para.

). considerando a realidade dos recursos humanos e financeiros atuais. outra qualidade desejável para uma boa gestão finan- ceira. Márcia. Marília.238 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho fazer”. Normalmente. Sílvia e. pela ordem. que está há apenas dez meses na USINA. que a gente vai precisar no futuro”. Marília assumiu a coordenação financeira justamente na transição do comando da primeira para a segunda geração. alertava sobre a diminuição da equipe para o próximo semestre. paciência e atenção – tem sido ocupada por mulheres na USINA da segunda geração. mas entender que é preciso guardar a cópia de um ART (atestado de responsabilidade técnica). da burocracia (banco. em um momento de grande crise financeira. essa retaguarda burocrática envolve duas dimensões. organização. aqui dentro fica mais para as mulheres. demandam muito trabalho concreto (leitura atenta de editais. atualmente. Portanto. ir ao cartório etc. sem distinção de sexo ou de tempo de casa. assumiram essas tarefas. entre 2003 e . por motivos de afastamento de três associa- das e um associado e da necessidade de trabalhar “no limite das nossas pernas”. preparação de documentos. contatos telefônicos e pessoais etc. diz respeito à aceitação de novos projetos. Em suas palavras. Elisabete confirma essa impressão no tocante a alguns itens da organização interna da USINA: “As mulheres lembram de organizar e arquivar. participa- ção em reuniões. Em tempo: as arquitetas são vistas como mais realistas que os homens por alguns arquitetos. no primeiro semestre de 2009. fazer atas. as ideias que o coordenador costuma trazer ao grupo. A primei- ra. Betina. A Marília é campeã de lavar copos”. Em que pese todos afirmarem que os associados ou colaboradores realizam todas as funções quando é necessário. necessitan- do senso de organização. preenchimento de formulários. apresentações. “sobra muito trabalho concreto atrás das ideias”. não é só saber onde fica a pastinha (que contém certo documento). financeiro. elaboração de cartas-convite.)14. não parece ser coincidência que a função de coordena- dora financeira – normalmente recheada de “coisas chatas”. além de ponderarem sobre a viabilidade de assumir novos projetos. no final da gestão Marta Suplicy. As observações das reuniões gerais mostraram que as associadas se mostravam mais atentas que os associados aos procedimentos necessá- rios. certidões. Marília. Outra dimensão da retaguarda burocrática assumida pelas asso- ciadas trata das tarefas miúdas e invisíveis do dia a dia: “essa coisa de bastidores. dar a devida importância a alguns itens burocrá- ticos. Na percepção dessa arquiteta.

trabalho que. o diálogo com as instituições e. e permaneceu até 2009. Ela tinha trabalhado com Marília no financeiro antes. entre fins de 2005 e começo de 2009. “nenhum homem faria”. a natureza do trabalho de “mediação’ executado prefe- rencialmente pelas arquitetas? As observações realizadas permitiram entender que a mediação com os movimentos pode ser necessária em função de questões técnicas ou políticas. à revelia da assessoria e. Ela ficou nessa função até 2007. Arquitetura militante. “pegou as contas já no azul” e seu objetivo “foi tentar entender qual era o nosso problema. 239 2004. Sílvia recebeu a coordenação fi- nanceira de Marília. Quando Sílvia se afastou. relações de gênero. a saber. recém-chegada na USINA. Não se tratou de uma situação de sim- ples resolução. Elisabete relata outra faceta da divisão sexual do trabalho interna à atual formação da USINA: seja “por maior facilidade das mulheres”. Márcia. quando se afastou para dar à luz. Propôs-se a responder algu- mas questões: os projetos são autossustentáveis? O valor da hora técnica é correto? A cobrança do trabalho técnico tem sido feita nos momentos certos? Qual a taxa de administração e qual a relação com a folha de pagamento? O escritório é diferente dos outros ou não? Em que difere? Nilson. contudo.. Sílvia montou uma planilha detalhada de controle dos gastos de cada projeto. Mas a mediação com os movimentos teria se tornado uma vertente feminina de atuação. porque a gente não dava certo (financeira- mente)”. seja pela relutância de alguns homens. vistos longitudinalmente. Deve-se ressaltar que. reconhece o esforço feito por Sílvia no financeiro. Qual é. pois permaneceu na pauta de discussão por sucessivas reuniões gerais. a dupla de arquitetos (um homem e uma mulher) lidou com a situação conjuntamente. sociólogo que trabalhou na USINA com educação popular. principalmente. outras estiveram em pauta neste episódio. com a Caixa Econômica têm sido feito principalmente por Francisco e pelas mulheres. Por trás da questão técnica. mas em 2007. de- pois de um modelo anterior ter sido discutido e aprovado em assembleia. Um exemplo da necessidade de mediação técnica discutido em uma reunião geral: o movimento parceiro em uma obra decidiu por um novo modelo de pilar de sustentação. neste caso. assumiu o finan- ceiro e deu continuidade à cobrança coletiva para elaboração regular das planilhas individuais de horas trabalhadas. com o .. a quebra de regras de funcionamento acertadas com o movi- mento e a desconsideração da autoridade profissional da assessoria. com o poder público. em 2007. segundo ele. que indicou o tipo de pilar original.

Geralmente. ele é desempenhado por mulheres. há uma divisão igualitária entre os três no tocante às escalas de visitas semanais à obra e de participação dos mutirões de fins de semana. a Elisabete e a Sílvia são muito mais vocacionadas para isso. a mediação – prioritariamente desenvolvida pelas arquitetas na época da pesquisa. acho que é aptidão. neste caso. entre outros. por isso tende a ser visto como natural. você diz uma abreviatura e elas gravam na hora. A divisão das tarefas no mutirão. são aditamentos ao projeto original que os movimentos podem solicitar. a gente viu que [assumir tudo] era muito pesado para ela. lidar com conflitos. teria levado em conta as aptidões na- turais de cada um: Elisabete seria a mais “vocacionada” para lidar com a burocracia da Caixa Econômica. mas os compromissos com os financiadores geram listas de compra muito exaustivas. Essas alterações geram trabalho técnico extraordinário. Junto aos órgãos de financiamento. após o início das obras. Então. Foi um consenso. tornado invisível quando se chega à decisão final sobre o episódio. em que a liderança desejava acrescentar a construção de quadra de esporte. significou muito trabalho “relacional” extra junto aos movimentos. E geralmente. Nos dois casos. Ricardo comenta a divisão do trabalho no mutirão do qual parti- cipa junto com Elisabete e Aluísio e referenda a atribuição de certas ta- refas. não menos exaustivas. não orçado originalmente. as relações comerciais com fornece- dores. A gente acabou distribuindo [as tarefas] por questão de aptidão (. entre assessoria e órgãos financiadores.240 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho suporte da discussão coletiva. a saber. . todo esse “trabalho de bastidores” é apagado. Numa reunião geral. que geram relações comerciais com grandes fornecedores. as burocráticas. cujas obras foram iniciadas em 2007.. por outro lado.) a relação com a Caixa que produz montanhas de documentos mensais. essas são transferidas para mim e para o Aluísio. adequado às suas per- sonalidades mais “detalhistas” e “pacientes” que as dos homens. ficam com ele e Aluísio. justamente para ter um equilíbrio.. espaço cultural e espaço de geração de renda para costureiras. além do relacionamento com as burocra- cias da Caixa Econômica ou da Companhia de Desenvolvimento Habita- cional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). acomodar di- ferenças mantendo os objetivos da intervenção. a mediação implicou preparar documentos e tomar providências diversas. para Elisabete. Eu levo anos para entender o que é aquilo. Francisco relatava a situação de um dos mu- tirões. Na percepção de Ricardo. Outros exemplos de situações que necessitam trabalho de media- ção.

Ricardo e Aluísio podem ficam isentos da burocracia. até ajudo. envolvimento profissio- nal e pessoal. para o que eles são trei- nados e como a posição masculina pode se acomodar numa postura “o projeto sou eu [que faço]. Francisco vai admitir que há tarefas diferentes atribuídas aos homens e às mulheres na arquitetura. essa questão residiria mais no âmbito individual do que no cultural e para justificar seu argumen- to percorre algumas equipes e mutirões da USINA no seu depoimento. Elisabete confirma as colocações de Francisco sobre a preferência dos homens pelo projeto. como compras e acompanhamento da obra. Somen- te dessa forma. a ideia da genialidade está associada ao homem e não à mulher. é verdade. as arquitetas tendem a se colocar em posições laterais ou subalternas quando a criação está em jogo. Arquitetura militante. como no trabalho doméstico. outros arquitetos que entraram aqui. Ponto e contraponto. entretanto. segundo ele. na confecção do projeto. 241 Na opinião de Francisco.. contudo. o que estaria na base de certos comportamentos de alguns arquitetos que pas- saram pela USINA. mas quan- do chega a fase do projeto. Às vezes.) arquiteto é uma profissão masculina. Aqueles(as) associados(as) que permaneceram por mais tempo são unânimes em apontar o descompasso entre a atenção dada às . a divisão de tarefas em que o trabalho burocrático seria desenvolvido apenas por Elisabete – não poderia ser entendida como um indicativo de uma divisão sexual do trabalho técnico na USINA. demandando muita dedicação. a distribuição de trabalho en- tre os dois arquitetos e a arquiteta no mutirão citado é peculiar e devida a características pessoais. Portanto. E as mulheres.. Acho que a maioria gosta de desenhar. Ainda segundo ele. o restante eu até ajudo”. portanto. Quem projeta é o homem. Não é só o caso do Aluísio e do Ricardo. relações de gênero. existe uma carga maior de trabalho sendo desenvolvida pela arquiteta. é uma repercussão do que é entendido na profissão do arquiteto. além das tarefas burocráticas. O trabalho na USINA se caracteriza por ser extremamente envol- vente. Elisabete exerce diversas funções técnicas. mas dessas negociações eles realmente não gostam”. Essa parte de negociação. Deve- se ressaltar que. Nesse sentido. Mais adiante. todos os homens querem sentar e projetar. de planilha. de ir para a obra também um pouco. Eu acho que a ideia do gênio artístico na arquitetura está muito associada à figura masculina. E acrescenta que o perfil de Francisco – que atua em várias frentes de trabalho – se diferencia daquele da maioria dos arquitetos da USINA: “o Francisco é uma exceção.. entraram na posição (. às vezes. ficam numa posição um pouco lateral. energia.. De fato.

ela engravidou e continua afastada do cotidiano. aparentemente porque não tinha com quem deixá-lo naquela manhã. trabalhava apenas na USINA e a flexibilida- de de horários de que dispunha ajudava a atender as demandas da crian- ça. em detrimento da família. Em uma das reuniões de trabalho. Be- tina se preocupa porque deseja ter filhos. Considerações finais Finalizando retomo a expressão de Margarete ao se referir à sua vivência na USINA da primeira geração como “um conflito de gerações. metalúrgico e estudante de geografia. Essas razões pesaram no seu recente afastamento da USINA. Dentre os homens. Ricardo levou seu filho. Além disso. tem trinta e um anos e gostaria de ser mãe. o conflito de gênero tem como ponto cen- tral o posicionamento das mulheres em ambientes de trabalho masculi- . Márcia. Para alguns. tinha uma filha de três anos. Apesar do esquema bem montado. decisão portadora de certa angústia para as mais velhas. é recém-casada e não lhe estava so- brando tempo para a vida conjugal. Mais agudo na sua época. por sua vez. trabalhando na USINA e na prefeitura de uma cidade da Grande São Paulo. Não houve da parte deles qualquer menção de problemas familiares ou conjugais. Marília estava afastada do cotidiano da USINA para terminar sua disser- tação de mestrado. em 2009. mas não ausente na segunda geração da USINA. Noites e fins de semana são períodos de dedicação à criança. Seu marido. materializou-se em frustração por não ter acompanhado o crescimento dos filhos. ou procurar conciliar o cuidado com as crianças e os trabalhos. resultou em separações do casal.242 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho esferas profissional e doméstica e os prejuízos que dele advieram. raramente pode contar com o auxílio do marido. o que também não tem aconte- cido sem dificuldades operacionais e angústia por parte das mães. apenas Francisco. de saberes e de gênero”. Essa arquiteta conseguiu uma vaga em uma boa creche de São Paulo. E a escolha do trabalho a abandonar também levou em conta o pagamento regular que recebe na prefeitura. em que a filha ficava o dia inteiro. sustentava a casa praticamente sozinho. Márcia se res- sente da falta de tempo para acompanhar o crescimento da filha. em função da sobrecarga de tarefas ou de um maior tempo dedicado ao trabalho. porém. para outros. Ricardo e Aluísio tinham filhos pequenos e suas companheiras não integravam o coletivo da USINA. Em 2011. a estratégia tem sido ou postergar a maternidade. No caso das arquitetas. tem trinta e três anos e estava sobrecarregada.

invisível. também preparar a “retaguarda” de apoio do grupo no escritório. picado e contínuo. Portanto. e seus erros foram apontados com mais rapidez. A vigilância masculina sobre o desempenho profissional feminino se traduziu na necessidade de provar constantemente o conhecimento técnico e na adoção de maior firmeza para transmitir ordens. entretanto. aqui entendidos como as obras de construção civil e o coletivo de arquitetos da USINA. Isso tem significado tomar conta da organização do dia a dia das obras e do escritório. como bem disse Márcia. cabe. ou junto às lideran- ças dos movimentos. Ao aliar profissão e militância política. Arquitetura militante. Às mulheres. seja junto aos mutirantes nos finais de semana. na época da . 2005). precisou ser “construída” no bloco feminino mais antigo de casa para ser ouvida. a política e a arte. dedicação quase exclusiva aos trabalhos nas obras e às reuniões com os movimen- tos. sobretudo. 243 nos. preferencialmente desenvolvi- do por elas porque a maioria dos homens não o assumia de imediato e elas se antecipavam em aceitá-los. da mesma forma que acontecia entre as engenheiras em estudo anterior (Lombardi. portanto. Não é es- tranho. ou da dupla de arquitetos na obra. Invariavelmente suas opiniões técnicas e políticas parecem ter sido menos valorizadas e ouvidas do que as dos arquitetos. o embate de gênero esteve sempre presente para as arquitetas. na obras e perante os colegas do coletivo. exigindo grande comprometimento pessoal. o trabalho dos(as) arquitetos(as) caracteriza-se por ser extremamente en- volvente. aos conflitos de gênero se acrescentaram os dos sabe- res. de organização. Nas obras e nas assembleias. além do trabalho técnico. Pouco sobra para a vida pessoal e familiar de todos eles. dedicar-se ao financeiro e lidar mais diretamente com as angústias da falta de recursos. Da mesma forma aconteceu com o “trabalho chato”. miúdo. de registros. Sua voz nas questões decisórias do coletivo. seja junto aos mestres de obras. culturas profissionais de forte simbologia masculina. quando consolidada foi respeitada e per- mitiu uma dinâmica mais livre das reuniões de trabalho e tomadas de decisão efetivamente mais democráticas. seja junto aos peões contratados durante a semana. isto é. formas de agir e falar interpretadas pejo- rativamente como “brabeza” das mulheres. isto é. na maioria das vezes. As atividades dos(as) arquitetos(as) estabelecem interfaces com a técnica. relações de gênero. em suas demandas contínuas durante a obra. os movimentos.. “atender o cliente”. de contatos. A vertente relacional no exercício da profissão se destaca entre as arqui- tetas deste empreendimento. a grande rotatividade de quadros no empreendimento e a juventude de todos da segunda geração..

pedreiros e serventes. orientam suas ações e sua postura num coletivo profissional. sobretudo quando o comportamento desta. Mas o saber de um jovem arquiteto é sempre mais respeitado do que o de uma jovem arquiteta. por ela. e que deseja ser politicamente correto. às dificuldades de quebra de pa- radigmas no trabalho e na gestão do negócio. isso se potencializa quando a hierarquia é questionada por meio do contato direto entre arquitetas. Inevitável. forjado no ambiente participativo e mais democrático da USINA e dos mutirões autogestionários de final de semana. a simbologia do artista permanece associada a valores do masculino. por parte dos pedreiros e serventes contratados. Nesses casos. Mas não é esse mesmo o objetivo que se persegue em empreendimentos de trabalho associado que adotam o processo de autogestão? Ocorre que. as mulheres sejam a maioria numérica entre os arquitetos. num empreendimento em que todas essas dimensões culturais interagem e se conflitam. A pouca idade das(os) arquitetas(os) contribui para a desvalorização do seu conhecimento por parte dos trabalhadores e dos mestres. particularmente aquele da política partidária. (Recebido para publicação em setembro de 2011) (Nova versão em novembro de 2011) (Aprovado em dezembro de 2011) . ético e crítico. a possibilidade de conflitos de gênero aumenta. se uma jovem universitária. do ponto de vista das relações de gênero. Mesmo que. de modo geral. Além disso. muitas vezes de forma inconsciente. Então. se acrescentam as dificuldades que as mulheres.244 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho primeira geração. hoje. tecnológicas e nos espa- ços públicos da política. as marcações de classe social e de qualificação. também no que tange às relações de gênero. é portadora de conflitos. têm ao se inserir em culturas profissionais masculinas. Perdem- se as referências. “atropela” a hie- rarquia do canteiro convencional instalado durante a semana. haja vista a pouca permeabilidade à presença feminina em profissões técnicas. Mesmo sendo a USINA um coletivo altamente intelectualizado. introduzidas pelo processo de autogestão. que a interiorizam e. os terrenos do domínio da técnica e da política também es- tão associados a valores masculinos. em obra. portanto. Essa concepção ainda impregna os corações e as mentes dos profissionais de ambos os sexos. que se encontre divisão sexual do trabalho com os vieses comentados. sendo frequente a contestação explícita de sua autoridade técnica e de sua associação a estereótipos pejorativos de gênero.

). (2003). Maria Rosa. Consultada: 17 ago. Esquisse d´une épistémologie de la théorisation féministe en art. “Banco de dados sobre o trabalho das mulheres”. No. 2010. Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo. pp. PUF. CD-ROM. Consultada: 17 ago. (coord.org. Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo. Cadernos de Pesquisa. “O lugar das mulheres no mercado de trabalho: quali- dade do trabalho. Dumont. Associados/FCC. Cristina. Lombardi. Danielle. Maria Rosa. Bruschini. _____. Paris. 17-44. (1998).org. Fabienne. pp. 2010. . Campinas. pp. A bipolaridade do trabalho feminino no Brasil contemporâneo... O Homem e o mercado de trabalho. Perseverança e Resistência: a engenharia como profissão feminina.br/bdmulher>. Célia. (1998). Série Histórica”. (1998). Séverine. Brasília: Editora UnB. No. Fundamentos sociais da distinção arquitetônica. _____. Garry.fcc. L´Harmattan. Arquitetura militante. 110.fcc.).br/bdmulher>. São Paulo. Cahiers du Genre. Stevens. (2009). O círculo privilegiado. FCC-Fundação Carlos Chagas. Tese de doutorado. Em: <www. A mulher e o mercado de trabalho. 245 Bibliografia Ballario. São Paulo: CREA – Conselho Regional de Engenharia. Paris. (2005). Sofio. “Division sexuelle du travail et rapports sociaux de sexe”. RAIS-Relação Anual de Informações Sociais. Lombardi. 67-104. (2000). 35-44 (Collection Politique d’aujourd’hui). Em: <www. São Paulo: CREA – Conselho Regional de Engenharia. (orgs. (2007). Dictionnaire critique du fémi- nisme. MTE-Ministério do Trabalho e Emprego. Ed. Kergoat. relações de gênero. SP: Faculdade de Educação da Unicamp. 43. (2000). in Helena Hirata et al. (1997).

1997. du- rante a qual a coordenação do negócio. até 2010. se tornaram associados. conforme estudo realizado no final dos anos 1990. Atualmente. com verbas obtidas junto às poucas linhas oficiais de financiamento para construção em sistema de mutirão. dezoito entrevistas pessoais com associados(as) e ex-associados(as). MTE/RAIS. depois. a coordenação foi assumida por jovens arquitetos e arquitetas que se integraram à USINA no tempo de estudante. Em 2004. há cinco anos na USINA. Os entrevistados consideram que. Por exemplo. capitaneada pelos três arquitetos do sexo masculino que fundaram a USINA. Lombardi. 3. realizadas no segundo semestre de 2009. A primeira. 8. passaram pela USINA duas gerações e duas gestões. Os recursos financeiros da assessoria provêm dos repasses dos movimentos de moradia que contratam seus serviços técnicos. Não dispomos de dados atualizados a esse aspecto. na gestão da primeira geração. Tratou-se de um estudo de caso e compreendeu análise de documentos. É comum haver atrasos nesse tipo de obra. 4. diminuíram as diferenças de idade: elas já não são tão jovens (em 2009. Arquiteta. há coordenadores de ambos os sexos e a coordenação geral está a cargo de um arquiteto. entre 1992 e 1995. . Nesses treze anos. 2000. foi exercida diretamente pelos fundado- res. mas o de autônomo regular. era coordenadora financeira até se afas- tar para dar à luz. não era o de empregado.246 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Notas 1. 5. em 1996). em parcelas associadas ao cumprimento de etapas preestabelecidas das obras. A assessoria é remunerada com uma porcentagem fixa do total do financiamento (entre 4% e 10%). em 1996 (Bruschini. 2. algumas características gerais dos empregos para arquite- tos se mantiveram sem diferenciação entre os sexos entre 1996 e 2009. Coordenador geral durante os primeiros quatorze anos da USINA e um dos seus fundadores. estendeu-se de 1990 até 2004. 2009). o tipo de vínculo predominante é CLT por tempo indeterminado e parcela não desprezível trabalha como servidor público. Todos os nomes são fictícios. o último fundador afastou-se do cotidiano. entre arquitetos cadastrados no CREA/SP (Ballario. 1998). O tipo de vínculo mais comum entre os arquitetos. como estagiários e. trin- ta horas de observação participante nas reuniões semanais de trabalho do co- letivo. 7. O estudo contou com financiamen- to do CNPq (edital 57/2008). incluindo a escolha de movimentos parceiros e a orientação política. Trabalhou como estagiária de arquitetura na USINA. com correspondente atraso na liberação de parcelas de recursos e no pagamento do trabalho das assessorias. 54% delas e 65% deles tinham mais de 40 anos versus 59% deles e 41% delas. Segundo a RAIS. 6. entretanto. Júlio permaneceu na USINA entre 1992 e 1995. Mas persiste a desigualda- de salarial: 24% deles e 20% delas recebiam mais de vinte salários-mínimos por mês em 2009 e 34% deles e 25% delas. a jornada de perío- do integral é a regra.

Arquiteta na USINA. J. 14. fez a transição da gestão entre a primeira e a segunda geração de arquitetos. em 2004. Afonso e Cláudio faziam na gestão da primeira geração. Registro aqui a diversidade de opiniões co- letadas nesta investigação. Em 2004. Havia se desligado da USINA na época da pesquisa. 247 9. Ambos os arquitetos. Ela e Francisco eram os associados mais antigos e com maior experiência. eram associados desde 2006. é a outra mulher que participou da transição. Entrou como estagiário na USINA em 1999 e. Não foi possível en- trevistá-la. junto com Betina e Marília.. Arquitetura militante. função em que permaneceu até 2007. Na época da pesquisa. assumiu a coordenação financeira. como estagiária. Desde então é o coordenador geral. 13.. Antonio. 10. na transição entre a primeira e a segunda gerações. 12. relações de gênero. . trabalhava diretamente com os movimentos sociais. desde 2009. na época da gestão da primeira geração. Marília entrou na USINA em 2001. Arquiteta integrante da USINA desde 2008. assim como os coordenadores anteriores. socióloga. O coordenador atual argumenta que ele também se incumbe dessas tarefas. estava relativamente afastada do cotidiano para concluir sua dissertação de mestrado. 11.

The male and female archi- tects work at a NGO. and building workers and grass-roots leaders. tanto junto aos trabalhadores da construção civil como junto às li- deranças dos movimentos. whose 20-year-long history is briefly recounted. Foi possível identificar embates de gênero. Gender. generation. seu desempenho profissional mais cobrado e vigiado. gender rela- tions. construção civil. A pesquisa recupera a história do empreendimento – uma ONG – e analisa as mudanças ocorridas nos seus vinte anos de vida. with a focus on work organisation and sexual division of labour. mesmo sendo todos muito jovens quando comparados aos pedreiros. architects were much younger than masons and other building workers. arquitetura. relações de gênero. on the one hand. both male and female. architecture. her professional perfor- mance more closely watched and checked. em construções por mutirão. even if all. and learning conflicts were observed between female archi- tects. Keywords: sexual division of labor. building industry. presentes para as arquite- tas. de gerações e de saberes. technical support . como ademais tem se repetido com outras profissionais que se inserem em ambientes de trabalho majoritariamente masculinos. Her technical and political opinions were invariably less valued than those of male architects’. privilegiando dois ângulos: a organização do trabalho e a divisão sexual do trabalho técnico entre arquitetos e arquitetas. aos mestres e aos encarregados das obras. Seus erros foram apontados com mais rapidez.248 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Resumo O artigo se baseia em um estudo de caso com arquitetos(as) que prestam assessoria técnica para movimentos de moradia. than those of male archi- tects – as it is often the case with other female professionals inserted in mostly male work environments. Her mistakes were more quickly pinpointed. assessorias técnicas Abstract This article reports a case study with architects who provide tech- nical support for grass-roots organisations that promote group construc- tion of self-building dwellings in poor areas. on the other. Palavras-chave: divisão sexual do trabalho. Invariavelmente suas opiniões técnicas e po- líticas foram menos valorizadas do que as dos arquitetos.