A MANUTENÇÃO AMOROSA PELO VIÉS DOS PHÁRMAKA GREGOS

Profa. Dra. Dulcileide Virginio do Nascimento (UERJ)

RESUMO
O período helenístico é marcado pelo sincretismo religioso e pela
propagação do que denominamos magia, enquanto téchne. Encontramos o relato
sobre magia amorosa em muitas obras literárias, como, por exemplo, na poesia de
Homero, de Apolônio de Rodes, e de Teócrito, bem como nos Papiros Mágicos
Gregos. Tais relatos, entretanto, não funcionam como manuais de instrução nos
dias atuais, pois necessitam de uma pessoa que tenha sido iniciada.
Neste artigo, portanto, refletiremos sobre o poder dos phármaka como
ingredientes mágicos para a propagação do prazer e para manutenção do
relacionamento amoroso, e como Platão, representante do ideal moralizante helênico,
nas Leis, analisa tais procedimentos.
Palavras-chave: phármaka; magia; leis.

Desde a mais remota Antigüidade, sabe-se que as plantas são importantes
fontes de alimentos e de remédios para os homens. Entre os gregos, podem-se
encontrar observações referentes ao uso das plantas desde Homero, sendo as
primeiras referências “científicas” encontradas no corpus hipocrático. Aristóteles
também fez menção ao uso das plantas, principalmente para compará-las aos
animais1 , mas foi seu discípulo Teofrasto2 quem escreveu os mais influentes
tratados de botânica na Antigüidade: As origens das Plantas, em seis livros, e
História das Plantas, em nove livros. Pela observação dessas obras é possível
verificar que havia, no século V a.C., um interesse acerca do tema relacionado aos
tipos e usos das plantas. Dois conceitos relacionados ao uso das plantas, o
phármakon e o de pharmakéia, interessam-nos sobremodo:
Phármakon, palavra que significa ao mesmo tempo remédio ou veneno, ou seja, é
uma substância que pode tanto ter uma ação favorável quanto desfavorável,
dependendo das circunstâncias e das doses que forem utilizadas, bem como para
designar qualquer erva, substância química ou procedimento utilizado no emprego
da medicina ou da magia. Pharmakéia era o nome atribuído à prática relacionada à
elaboração do phármakon, para diversos fins.
A técnica para tornar-se um douto no uso das plantas na Antigüidade não é um
privilégio dos médicos. Homero, na Ilíada, relata a intervenção desses doutos no
tratamento dos feridos, como Pátroclo, no canto XI, 844-848, que, ao encontrar
Euripilo ferido na coxa por uma seta, atende ao seu pedido, prestando-lhe auxílio
por meio do uso de raízes:
Então, fê-lo deitar-se e, com uma faca, cortou a aguda flecha cravada na
coxa e lavou o escuro sangue com água quente. Esfregou nas mãos uma raiz

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Tróia (Odisséia VI. pois descendem da raça na qual o herói mata o lanceiro Moulio. a batalha dos Pílios e Epeus. visitei o Chipre. 739-741. sobretudo. mas de práticas terapêuticas que foram com o termo comum phármakon e com o adjetivo nepenthés. Então e. Essa crença foi ampliada no período helenístico.. 42 43 . afirmando que no Egito encontram-se médicos para todos os males. lava o escuro Essa téchne que torna alguém capaz de conhecer e utilizar os efeitos sangue com água quente e espalha por cima favoráveis phármaka. Salva-me. Entretanto. que afirma ter Helena recebido em Tebas. enquanto para a medicina.”. quando narra. há muito. benéficas outras funestas em seus efeitos” (v. que enfocava. como podemos observar no canto IV. que por sua vez por parte de um indivíduo que detinha conhecimento e técnica. A respeito qualificadas de mágicas e cuja eficácia dependia. e as dores cessaram. uma droga ao vinho para aliviar a cólera. calmante. nos versos 231 e 232 do canto IV. mesmas cidades. da capacidade disso. mas refere-se a ela não se trata de medicina propriamente dita. mulher de Tão. bons. em que vemos Heródoto parece ser da mesma opinião de Homero. Menelau o fez esquecer de todos os males. “algumas a ferida secou e o sangue estancou. a Fenícia. Parece ter examinado cuidadosamente A relação entre magia e medicina evidenciou-se entre meados do século o remédio “nepenthes”. Os médicos 409) que. conhecimento dos homens egípcios. os Etíopes.. manipulando-as. dos demais. o poeta enfatiza o O autor da Ilíada também já identifica a existência desse conhecimento. muitas vezes. aos freqüentes Líbia. ou foi descoberto o remédio contra a cólera e a dor. que terapêuticos das plantas. menciona que o conhecimento de Homero relacionado às plantas se deve para o campo de ação dessas duas práticas: para a magia. do mundo divino. é na Odisséia que encontramos várias citações sobre a prática minhas viagens. marido de Agamede. dizem. pois afirma que “todos os homens são no canto XI. Tal técnica podia ser ensinada.): “Sete anos andei peregrinando antes de regressar. distinguindo-se muito. tanto grega quanto egípcia. como podemos observar na obra Sobre a medicina antiga. ao mesmo Os versos 219-232 do canto IV da Odisséia. Alsina (1982:58). o mais virtuoso dos centauros. matá-los). em Eurípides ( Medéia. na qual Hipócrates pretendeu criar uma metodologia médica desassociando-a da filosofia e. Homero nada mais fala sobre essa O poeta também relata que Menelau visitou o Egito em seu retorno de mulher em seu relato. o controle da natureza afirma que Pátroclo aprendeu a utilizar as ervas com Aquiles. e a explicita no livro Helena utilizar os conhecimentos que adquiriu com as mulheres egípcias ao misturar II-84. Mesmo que não possamos identificar todas as razões e empregos associada ao âmbito feminino. pelo saber.. era utilizada para diversos fins. XI. um lugar rico em toda a sorte de drogas. em que se combinava experiência e reflexão. 828-836) Eurípides.. por causa da falta de notícias de Ulisses. amarga que suprime a dor e colocou-a sobre a ferida. 351 e segs. podemos perceber que O poeta não cita o nome da planta utilizada por Helena. tira a flecha de minha coxa. principalmente. de V a. ainda segundo o poeta. trafega em Telêmaco e os demais presentes. Tebas e Dióspolis são as rotina. Esse tipo de sabedoria era possuído pelas mulheres é registrado por ( Il.creio que um está ferido nas tendas. como uma habilidade passível de realizar muitos males. precisando ele próprio eliminar os seus inimigos. Nesse período. e princípios do IV a. por exemplo. algumas vinculadas. portanto. médicos lá. “aquela que conhecia de Péone4 . mas associado às práticas mágicas. os Sidônios e Erembos. na Alexandria do Egito. já em Homero. no Egito. e a do uso das drogas ou ervas. de determinados tratamentos com a utilização das plantas. neste caso. aprendeu com Quiron3 . inclusive a uma possível passagem do poeta pelo país do Nilo e sugere-nos que: a doença. 219-232. demonstram que o tempo. principalmente o remédio de Telêmaco elaborado por Helena em casa de causas naturais. a dor e a lembrança dos males que afligiam Percebemos que a magia. há uma delimitação e Egito. e o outro enfrenta o colérico Ares na planície troiana. 380- seus conhecimentos de Quiron. Podemos segundo dizem ficaste conhecendo por intermédio de Aquiles. sendo a medicina tratada com uma técnica. Ainda na Odisséia. é nos apresentado como o país da magia e a pátria da medicina exclusivamente naturais5 . contatos com o Egito. ao citar os diversos meios que poderiam ser utilizados por Medéia para Podalirio e Macoaonte.C. em Contudo. na fala de Nestor. Por vezes. ela irá curar certos males e empregará toda uma fabricação de poções mágicas ficou conhecida na Grécia por ser uma habilidade farmacotécnica. 7). freqüentemente. 97. que somente entre as diospolitanas com as enfermidades humanas. leva-me para a negra nau. é oriundo dos deuses. em sua análise sobre a medicina grega.” todas as drogas que crescem na vasta terra”. diz ser o escolhido o uso de phármaka (com drogas de um bom médico. 230).C. o Egito. segundo Graf (1994: 44). Diodoro da Sicília (2001: I. A torno da medicina. como podemos verificar nos versos citados abaixo: relacionado ao uso de plantas. escrevendo sobre as relações entre Grécia sugestiva da feiticeira. visto que. o qual adquiriu comprovar o efeito funesto das drogas. qualquer mal. desvinculadas. encontramos um sincretismo Homero não deixa claro em seu texto a origem desse conhecimento. portanto. todos os males têm . pretendeu desenvolver a temática de que a enfermidade tem causas Egito. observou-se uma nova forma de lidar Polidamna.

aconitina. Tendo-lhes dado a seu campo de atuação. Entretanto. ficou conhecida desde a Antigüidade como xeína máximo pré-científica. fórmulas que preparavam. vv. que ainda hoje são utilizadas em medicina”. o papiro médico zimbro eram relacionados com a tríade Hécate-Circe-Medéia. Essa documentação oriental. como prática reconhecida e respeitada na Grécia. com uma vara os tocou e Podemos observar também a estreita ligação existente entre as práticas prendeu-os nas pocilgas. como podemos comprovar nos versos de Homero: parte terapêutica. a fim o dia. no canto II da Odisséia. outras. o salgueiro prateado e o de Hearst (descoberto em 1899). óleos etéreos). fértil em míticas. ou seja. acreditando que. e. pois o corpo incha se ficar no sentido auxiliares da arenosa Pilo ou de Esparta. sem a Segundo Richard Gordon (2004:179). a não ser que planeje ir aos férteis contrário. ou seja.. em Homero – fato comprovado Gordon ainda cita os relatos de Teofrasto (História das Plantas. mágicas utilizadas para a cura. ao possível uso das drogas Plínio.600 ou 2. esses poderes vinculados à figura de um Ela mandou-os entrar. os cortadores de raiz eram considerados capazes Ainda em Homero. a quem Píndaro descreve que estabelecemos como processo científico. um sortilégio. o poder das ervas ou drogas. de a todos nós matar. observamos que esta téchne não se refere somente às mulheres Circe também recebe de Homero o epíteto de polyméchanos ou seja. ofereceu-lhes cadeiras e tronos. o acônito. entre Sem dúvida. nas culturas matriarcais. Em resumo. em busca de funestas drogas. o Chester-Beatty (dinastia XIX). Circe e Medéia. antes de serem atingidas pelo sol. Essas plantas contêm de Berlin e o médico de Londres. Além disso.. analgésicas e antitérmicas (colquicina. encontramos duas personagens. como as aventuras de sua viagem. que detinham certo conhecimento e domínio de e como as “astúcias e mil artifícios de Circe” o auxiliaram. que por vezes são completamente naturais. seu palácio. Assim como Ulisses. cenoura mortal]. preparando uma mistura mágica: “Ela mistura azeite com ervas capazes de (Jasão) Inicialmente. tinham reconhecimento na Antigüidade. 321 da Odisséia. Agamede.). por meio de protegê-lo contra as terríveis dores e lhe dá o ungüento” (IV Pítica. preparação e venda de uma vasta gama Podemos observar este uso natural. a fim de medicina buscou desvincular-se dos traços mágicos e supersticiosos para ampliar que se esquecessem completamente da pátria. 221 e segs. etc. e algumas. de plantas medicinais e de outras espécies. ao cortar tépsia [talvez Thapsia gargânica. indicação de invocações ou ritos. (Odisséia X. “conforme receitas e fórmulas mágicas. como. textos. mesmo que No canto XXIII. Esse papiro apresenta O conhecimento dos remédios vegetais. e só depois deste procedimento se entrava com a plantas. em seguida. utilizavam-se procedimentos mágicos. que mencionam o pelos pretendentes de Penélope. conhecidas como pharmakídes. Entretanto. estrangeira hábil em todas as drogas. na Odisséia. pelo vômito. livro IX) e de pela referência. Assim como as feiticeiras. ervas. que trará outras – e ungir-se antes com óleo.C.. ao cortar algumas raízes.conclui que podemos chamar a medicina antiga de racional. Com a medicina. já era muito egípcios em que encontramos descrições sintomatológicas acompanhadas de desenvolvido. queijo e farinha de cevada com sua doença pela urina. de acordo com a dose em que for utilizada. Telêmaco pensa em nos matar. O primeiro registro sobre o uso de plantas surge no Egito. que derramará na cratera. por exemplo. apoiando-se na observação e na experiência. faz referência a uma qualidade dessa personagem ao contar a Penélope Os textos citados neste capítulo nos indicam várias mulheres. Tão forte é o seu desejo. Calipso de agir tanto para o bem quanto para o mal. segundo Olga Rinne (1995:49).325 a 330. Ulisses. associada a alguns substâncias antiinflamatórias. o velho (História Natural. aqueles que se especializavam na coleta. pois ela serviu de ponte entre o que designamos magia e o panphármakos. por volta de 2. mulheres que conheciam as plantas medicinais. o revela claramente o fato de que o cólquido.100 a. mas não científica. o enfermo elimina preparou uma mistura de mel fresco. 233-238) egípcias 6 e a técnica das herbolárias. pelo suor. incluindo especiarias7 . dos venenos e dos efeitos que uma listagem de 800 plantas. portanto. 44 45 . seria possível expulsar doenças ou espíritos malignos que A téchne mágica de Circe é baseada no conhecimento em relação às provocavam a enfermidade. temerosos de que o jovem Telêmaco as utilizasse conhecimento das regras/técnicas utilizadas por esses cortadores e acrescenta: para os destruir: Instruem que. os cortadores de raízes. algumas raízes devem ser colhidas à noite. pois muitas raízes que eles colhiam e e Circe. acrescentando à bebida drogas funestas. comprovam-nos a existência de terapias ácido salicílico. após retornar a Ítaca e retomar pudessem ser administradas para a cura. a pessoa deve ficar na direção do vento – por exemplo. no Medéia. e depois que todos beberam. Helena. com Hipócrates a vinho de Pramno. pharmakís vão sendo substituídos por meios naturais. narrações anteriormente feitas no palácio de Alcino. eram reconhecidas como venenosas. livros XXIV-XXVII). com a descoberta do papiro de Ebers. durante campos de Éfira8 . mistura. Os principais são o de Smith (descoberto em 1862). mas às cidadãs atenienses ou estrangeiras que aprenderam a utilizar as invenções. ou seja. há outros papiros os mesmos produzem. os de Homero.

que.).C.com excepção de Pasiphë. a partir de então passou. visto que algumas por ser fruto de um “conglomerado sincrético14 ” formado pelos diversos povos plantas por conta de suas origens e formas foram rotuladas de afrodisíacas11 e que habitavam a Alexandria do Egito.287 a. uma potro (uma erva) e um lagarto em pó. filósofo grego. dirige extincta.. Este saber se estendeu ao campo da sexualidade. a outra. mas de qualidades diversas da antiga. que ao se casar com Pasiphë teve.C. e que Theofrasto (c. e a Hécate. que ficou conhecido um monólogo em que vemos uma mulher de nome Simaetha tentar reconquistar o como o primeiro contraceptivo oral de que se há registo. mas como nos demonstram os textos cívica (Cf. inventou o atribuições. tratamos dos de conseqüências letais. resolve. farelo de trigo. como também convence a estes últimos que ninguém lhes pode ocasionar tanto mal as frescas para promover o amor. 1991:178.). nos Salientamos também a importância do papiro ginecológico de Kahun13 . a sua semente. aplicando um dose do produto Com o surgimento da filosofia e da ciência. proveniente de Celene. seus antepassados. confins subterrâneos da terra. de crocodilo. folhas de louro. ou talvez mesmo sobre a sepultura de por conta da sua infidelidade. a Platão. por meios mágicos. parte-o em tiras e o lança às chamas. para evitar que a consumação da paixão fosse fatal. que o supposto silphion seria simplesmente a vulgar Thapsia garganica. ente amado. Pesquisas modernas sugerem ritual e cita os ingredientes utilizados: algumas pitadas de cevada. apresenta que chamaram silphion. em Creta. em grego sperma amaldiçoada. vários encantamentos e conjurações à lua cheia. Simaetha. filho de Zeus e Europa.C. principalmente no que se refere ao conceito de que transpassava toda a sociedade grega. mulheres com que o monarca se relacionasse mais intimimamente morriam . A mitologia grega nos apresenta não vale a pena procurar convencê-los. magia natural10 . a magia na entrada da vagina. escrito há quase 4. e que registra a descrição do que seria a primeira O desenvolvimento das crenças e práticas mágicas na Grécia oferece poção contraceptiva : «A mulher misturará mel com cinza da barrilheira e excremento numerosos exemplos de tensões e interações entre os diversos níveis da sociedade. passa a ser definida. ou com ungüentos. escorpiões e lacraias. e a difícil tarefa de analisar essa téchne: dessas plantas são verdadeiros. que descrevem alguns procedimentos mágicos. Minos. planta profissionais.C. Teócrito descreve esse africana encontrada na peninsula Cyrenaica. ou em encruzilhadas. 932e-933b. a que juntará substâncias resinosas. sobretudo no séc. em latim Orchidaceae provocados intencionalmente e com premeditação por meio de bebidas e alimentos (derivado do grego Orchis). já enumera os principais procedimentos mágicos. primeiro preservativo feminino utilizando uma bexiga de cabra. além de pata-de. principalmente a do período helenístico. leite ou água) para libações.VERNELL. hoje Líbia. cera. se utilizavam ninguém. foi usado pela primeira vez por duas espécies de envenenamento: uma é a que acabamos de nos referir. V a. que possuía um pedaço do manto planta medicinal. O difícil na presente exposição é que há no gênero humano O Termo Orchis. Todas as pois acerca de tudo isto ninguém têm opinião formada... no ciência moderna confirmou que muitos mitos que nortearam a crença no poder séc. em Leis XI. deixar aceitável para de 1600 a. pois a boa disposição sexual é propiciada pelo Quanto aos malefícios que uns podem causar aos outros por meio de drogas já efeito benéfico da planta sobre a circulação sangüínea e como fonte de energia. como preservativos bexigas natatórias de peixes. realizar um ritual mágico. Theofrasto consiste em causar dano ao corpo pela ação natural de outros corpos. mas ainda não falamos dos incômodos Um exemplo de planta utilizada para esses fins é a orquídea. Entretanto. a partir do séc. 372 . em seu idílio de número II.000 anos. de que não devem dar a menor importância a essas práticas. As suas raízes eram utilizadas no preparo de poções mágicas: aos que querem causar danos a terceiros que o conseguirão com tal recurso. penetrando um pouco nela”. entretanto. ela mesma. pois durante o reinado de Minos de Knossos. acreditando serem mágicas as suas por Procris e esta. sempre que encontrarem na porta de casa a hstória do rei Minos. O que possa haver de verdadeiro Também temos registros de que vários contraceptivos foram utilizados por volta em tudo isso não é fácil conhecer. nem depois de sabido. as secas para provocar paixões. Podemos conferir a descrição desta prática ainda com os versos de Como contraceptivo os gregos também utilizaram uma planta selvagem a Teócrito (310-250 a. bonequinhos de cera. por comparou as raízes tuberosas de algumas orquídeas mediterrâneas com os meio de sortilégios encantamentos e o que se denomina ligadura . chega a persuadir testículos humanos.). Após consultar alguns O silphion12 dos gregos corresponde ao laserpitium dos latinos.C. IV a. Para completar o ritual. que a abandonou. já do período helenístico em diante. Pharmakeutriai. VI a. como uma prática “marginal” por Merece destaque também o fato de que a magia não era uma prática possuir um caráter individual e não buscar a coesão social presente na religião restrita a um determinado nível da sociedade. que significa testículos. líquidos (vinho. dada a desconfiança reinante nos espíritos a respeito de tais assuntos. como as pessoas conhecedoras de artes mágicas. discípulo de Aristóteles. utilizadas como instrumentos de sedução e propagação do prazer. Minos entretanto apaixonou-se Platão questiona a eficácia dessas profissionais de magia cujas habilidades 46 47 . que está no céu. literários.plantas e ervas com fins terapêuticos9 . ou seja..C. tratava-se de um uso surge uma nova visão de magia. imune ao seu próprio feitiço. a qual se deve julgar de seu amado. a ejacular serpentes.

mulheres feminino. pelas mulheres de diferentes níveis sociais. magia e medicina faz Ed. Texte établi et traduit par Loius Méridier. bruxas e feiticeiros na literatura clássica. TEORIA LITERARIA GRIEGA. CANDIDO. com sua inspiração sagrada. 1995. In: Bruxaria e velha não romperá a terra com baixa feitiçaria. 2004. (OVÍDIO. Aguilar Ed. Livros I-III. BARCELONA: Madrid. estrangeiras. In: Científicos Griegos. São Paulo: Madras. a punição relacionada a estas práticas e a seus praticantes esteja baseada no In: FUNARI. recursos inócuos. A feitiçaria na Atenas clássica. 1991. Vol. 2001. The Odyssey. 1994. Rio de Janeiro: FAPERJ. Georg. Some Refletions on the Relationship Magic-Religion. as ervas de Perseide. Paris: Les Belles Lettres. 1925. De l’ ancienne médecine. princesa de Cólquida. Apolo oferece-nos. Texte établi et traduit par Auguste Diés. portanto. quando o vento favorável levou os navios de Nérito? [. DIODORO DE SICILIA. Madrid: Gredos. pois que buscas para ti socorro em nossa arte. portanto. Nesta obra. Historia general de las drogas. da obra gynaikologia de Hipócrates. na maioria dos casos.1976. ______. a morte. que nem sempre acarretava em proveito àquele que solicitava um benefício mágico. de Mario da Gama Kury. São Paulo: Nova Alexandria. Paris: Les Belles REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 1970. sejam elas afrodisíacas ou não. por temer a extensão do poder dessas Amor. (Org. deixa de ter fé em sortilégios e magias. o disco de febo não empalidecerá subitamente [. o problema é dele.. o médico grego analisa a physis feminina e apresenta um glossário de phármaka terapêuticos que. o conhecimento das ervas. 110-132. Lettres. Historia de las Plantas y Causas de las Plantas. H. Mulheres estrangeiras e a prática da magia na Atenas do IV século a. Brasília: Traçar. Entretanto. Remédios para o amor. Biblioteca Histórica. A. Paris: Les Belles Não havia. Bruxos. 2003. e Trad. resultado advindo das mesmas. o que Lettres.A. as plantas do Fásis. Sore la Medicina Antigua. Campinas: Unicamp.C.. ao final da tradução. sendo a profissional julgada 2004. ______. Aguilar receio que o poeta Ovídio consagrou em seus versos: Ed. pela eficiência ou pelos danos causados por sua prática. Médée. Arcana Mundi: Magia y ciencias ocultas em el mundo griego y romano. 667-676. as plantações não serão transportadas Magia na Europa: Grécia antiga e Roma. Madrid: Gredos. 1990. Traducción de F.. Paris: Les Belles Lettres. Tradução. Madrid: Editorial Espasa. Relações de gênero e representações do práticas. História. Numen. os atenienses puniam seus praticantes. parte de uma nova pesquisa que tentará delinear esse percurso através da análise HIPPOCRATE. de um campo para outro. LOS ORÍGENES HELÊNICOS DE LA MEDICINA OCCIDENTAL. Iliade. Portanto. S. Esse caminho do malefício é proibido. 1982. JOSÉ. quando se tratava de ungüentos ESCOHOTADO. Pp. HIPOCRATES. In: Científicos ALSINA. 1.Universidade de Brasília. talvez permita-nos entender o receio existente no uso de algumas drogas. Silveira Mendonça. introdução e notas de Antônio da Remédios para o amor).. HERÔDOTOS. Tome III. VERSNELL. EDITORIAL LABOR. uma LUCK. permanecer na casa paterna? De que te valeram. as sombras não serão convocadas a erguerem-se de seus túmulos. analisar ou compreender. como uma forma de se precaverem. Griegos. Acreditando também que ______. desejo e poder na Antigüidade. OVÍDIO. 1970. existia era um cuidado com a intensificação e domínio deste e. MADRID: EDITORIAL GREDOS. pp. 1998.. Pp. Circe. regras precisas para a busca pelo prazer.eram difíceis de se averiguar. contraceptivos que podiam fomentar a impotência masculina e algumas vezes até Calpe. servir de alguma utilidade. 1988. TEOFRASTO. Madrid. Tomo I.] Tu. Intr. Les Lois. um paralelo entre práticas sociais. Sob minha orientação. 1956.). S.. talvez.1956. Maria Regina. A. uma tentativa de identificar os homens a partir de sua conduta sexual. Se alguém pensa que as ervas maléficas da Hemônia e as artes mágicas podem HOMÈRE. PLATON. EURIPIDE. quando desejavas ______. 48 49 . era utilizado Parreu Alasà.] de que serviram.103-156. London: Loeb Classical Library . em forma de banhos e ungüentos e podiam causar problemas na virilidade masculina.

In: http://www. enfoca. transmitiu-lhe conhecimentos de medicina. nascido em 372 a. 1982:54. que trata dos órgãos de Apolo. 6 Além disso. bem como outros preparados que 50 51 . papiros de magia grega. que aparece nas representações murais e nos desenhos paleobotânicos. na relação existente entre os encantamentos contidos nos PGM. neste caso. na Tessália. 9 As mulheres não utilizavam as ervas somente para fins terapêuticos (como. podendo trazer danos à virilidade masculina. fato que corrobora ser esta terra conhecedora da manipulação das ervas. Hélio e Asclépio.C. Como exemplo de cura. A planta está extinta e seus poderes de cura futuro.br/istoe/comport/151311b. como reprodução. ele menor.htm os quais se destacam Aquiles. país que entregou a um irmão ao voltar para a Cólquid. para conter problemas menstruais e secreções vaginais ou como calmantes e contraceptivos). sociedades do Mediterrâneo valorizavam o vegetal. ALSINA. por exemplo. concepção. magia. contém quarenta e seis diagnósticos e cerca de cinqüenta receitas misturadas a uma infinidade de fórmulas mágicas e astrológicas. medicinais ou venenosas. 7 Segundo A. considerou que as raízes das orquídeas tinham virtudes afrodisíacas. Brill. ou seja. sendo ingerida pelas mulheres. ela os fará procriar crianças do sexo masculino. que curou a enxaqueca do deus Rá empregando um chá de ervas.C.C. 10 O conceito de magia natural está vinculado ao conhecimento da coleta e da preparação de todas as espécies de plantas. sugere a teoria mágica de comida pelos homens. CÂNDIDO (2001:257-258). o estudo deste papiro é de suma importância para o estudo das plantas na Antigüidade. podemos também observar a similaridade existente entre as duas culturas nos diversos níveis da magia.terra. mas algumas vezes é empregado como epíteto de outros deuses. ESCOHOTADO (1998:77). mesmo que reflitam um pensamento anterior ao grego. até a presente data. nessas obras.natureduca. dos males e de tudo que pode afligir. fasc. 14 Cf. Cf. LUCK (1995:19). entre são desconhecidos.com. Foi incumbido da educação de vários príncipes e heróis.com/med_hist_herborist1.) descreve na sua Historia natural as funções do Silphion 4 Péone: divindade conhecida como médico dos deuses ou divindade que livra e as possíveis causas do seu desaparecimento. Também ficou conhecido como epíteto de 13 O papiro Kahun é um texto que nos fala da ginecologia. (s. mas também as utilizavam para fins sexuais. 12 Na antiga Cirenia – região da Líbia – as moedas datadas de 300 a. arte de adivinhar o só vai encontrá-lo nas moedas raras. e os encantamentos egípcios. www. provocando a impotência e. principalmente por causa de 3 Quíron era o nome do centauro que habitava uma gruta do Monte Pélion. a amapoula vermelha. 5 Cf. que viveu no século 1 D. o que o leva a crer que possivelmente a erva utilizada teria sido a papaver rhoeas. o velho. até mesmo a morte. não existem evidências de que estas ervas cresciam naquela época no Nilo. In: http:// Zeus. Entretanto. em sua História (ou investigação) dos animais. encontrada no papiro de Ebers.C. Escohotado cita a história. Dioniso. tinham a 2 Teofrasto. Luck (1995: 21). Hoje. as fará conceber crianças do sexo feminino”. Plinio. J. 11 Em virtude dessas semelhanças. possivelmente a papaver somniferum. enquanto a simpatias ou antipatias no mundo animal decorrente da influência dos astros. Cf. o médico grego Dioscórides. 2. vol. 1991.Leiden: E. da sacerdotisa Tefnut. a reprodução dos vegetais e os imagem da planta “Silphion”. testes de gravidez. I d. e estudou as propriedades farmacológicas de aproximadamente NOTAS seiscentas plantas. o parto e a concepção.XXXVIII. 8 O poeta Eumelo de Corinto diz que Eetes reinou em Éfira. astronomia e música. antigo nome de Corinto. derivam de partes de animais.php. quem procurar um pé de “Silphion” Cronos. se ingeridas. Em sua obra “Das Coisas Médicas” ele dizia: “se a raiz maior for 1 Aristóteles. como por exemplo. seu pai. suas supostas capacidades terapêuticas. A estampa serve para demonstrar o quanto as fenômenos naturais que interferem nesse processo. Jasão e Asclépio. acreditava que os astros influenciavam na vida sobre a terra.