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( /r (A <-> Gonçalves de Magalhães ou o romântico arrependido .

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ALCÂNTARA MACHADO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E DA ACADEMIA PAULISTA G O N Ç A L V E S DE M A G A L H Ã E S Oü O R O M Â N T I C O A R R E P E N D I D O 1936 LIVRARIA ACADÊMICA Saraiva & Cia. — Editores Largo do Ouvidor. Paulo . 15 — S.

. @ DO MOMENTO DA FORMAÇÃO DOS CONTRATOS POR CORRESPONDÊNCIA — 1892. O ENSINO DA MEDICINA LEGAL NAS FACULDADES DE DIREITO. DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA — 1933. SUICÍDIOS NA CAPITAL DE S. O HIPNOTISMO — 1895. O EXAME PERICIAL NO DIREITO ROMANO. Flaminlo Favero). PAULO — 1905. BRASILIO MACHADO — (no prelo). O ENSINO NA PERÍCIA (com o prof. OS HONORÁRIOS MÉDICOS — 1922. VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE — 1930. DISCURSO NA RECEPÇÃO DE PAULO SETÚBAL — 1935. A BANCADA PAULISTA NA CONSTITUINTE — 1986. A EMBRIAGUEZ E A RESPONSABILIDADE CRIMINAL — 1894. PROBLEMAS MUNICIPAES — 1917. A DEFORMIDADE NAS LESÕES PESSOAES — 1901. DO MESMO AUTOR ALOCUÇOES — 1922. BIOGRAFIA DO RIO TIETÊ' — (em preparação).

Envelheceu com a mo- narquia. . 358. e vinte ao tempo do desquite amigável. p. entre a nação e o pri- meiro Imperador. e ninguém encontrei. Desapareceu para sempre nas vésperas do de- sabamento do trono. Do homem. Magalhães divulga o dia de seu nascimento: Agostos vinte e dois hoje completo d"1 (1) Avulsa*. MENINICE Em poesia intitulada "13 de Agosto" e datada de 1833. ao nú- mero daquelas. capaz de suprir com o seu depoi- mento a deficiência das fontes. Os documentos são escassos e pobres. Estudá-la é acompanhar um dos perío- dos mais interessantes da vida nacional. todavia. A puerícia e a adolescência do poeta coincidiram com as do Império: tinha ele onze anos ao ser proclamada a Independên- cia. A vida de Magalhães pertence. que podem seduzir o estudioso das coi- sas do passado. quasi nada. quando o Im- pério entrava na virilidade. Chegou á madureza. Muito se tem dito e rédito da obra literária de Domingos José Gonçalves de Magalhães. por incom- patibilidade formal de gênios.

Ferdinand Wolf confundiu (coisa desculpavel em estrangeiro) a cidade ilustre com a província homô- nima. portanto. mas á baía de (1) Pereira da Silva. Magalhães alude mais de uma vez. acrescenta. Na cidade do Rio. Artur Mota (2).. fiado nestas passagens da "Confederação dos Tamoios": Niterói! Niterói! Como és formoso! En me glorio de dever-te o berço! Men pátrio Niterói te excede em galas. (3) Vrânia. Brás. (2) Rev. Em Ni- terói. p. Na grandeza sem par muito te excede! A verdade está com a maioria. que naqueles tópicos o poeta se refere. (4) Opúsculos. dizem-no quasi todos os biógrafos. si o fizesse. 6 ALCÂNTARA MACHADO Nasceu. em sua obra poética. não á capital fluminense. Sampaio e São Carlos" (4). "nesta mesma cidade. dá o poeta como nas- cido em 1809. no "Parnaso". a 13 de agosto de 1811 (1). Teria visto. 312. Artur Mota não atendeu á seqüência do poema. 57. os padres Caldas. 27. que se ufana de ser pátria dos três mais grandes oradores sagrados. pretende Ferdinand Wolf. ao "pátrio Ja- neiro" (3). Na província do Rio. mais precisamente. . como seu mestre de filosofia. p. da Acad. e no escôrço biográfico de Mont'Alverne se confessa nascido. 271.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 7

Guanabara. Logo a seguir, com efeito, o autor da
"Confederação" exalta os

Contínuos montes verdejantes,
Que o vasto Niterói cingem e o fecham
Como um profundo lago salpicado
De graciosas ilhas.

Magalhães não usou, neste passo, de liberdade poé-
tica. Os nossos escritores concordam que o nome pri-
mitivo da baía era Niterói, e assim lhe chama Aires
de Casal (1).

O pai, Pedro Gonçalves Magalhães Chaves, veio
á luz em 6 de outubro de 1755. Faleceu, com 86 anos,
em 12 de outubro de 1841 ( 2 ) . Dizem-no descendente
de família nobre de Portugal. A mãe era brasileira.
N a falta de atestado de batismo, temos a palavra do
poeta (3) :

Minha terra saudosa,
Terra de minha mãe...

Daí podemos inferir que diversa era a nacionali-
dade paterna. Portuguesa, naturalmente.

(1) Corog. Brasílica, p. 5-15. Leia-se a propósito a me-
mória de Mondes de Los Rios, no 1.° Congresso de História
Nacional.
(2) Tragédias, p. 129.
(3) Avulsas, p. 260.

8 ALCÂNTARA MACHADO

Magalhães teve irmãos. "Ternos irmãos" (1), como
de estilo. Nenhum deles se notabilizou. Todos eram
mortos, ao tempo da publicação dos "Mistérios" (1858):
Lá meus caros irmãos e a mãe querida
Me não esperam mais (2).

Débil e doentio sofreu bastante nos primeiros anos:
Que triste foi minha infância
De mil dores rodeada,
Tão mofina e amargurada
Que como vivo não sei (3).

Só a dedicação materna poude conservar-lhe a vida:
Minha infância tão molesta,
Que assídua e carinhosa defendeste
Tantas vezes da morte (4).

Conseqüência, talvez, da idade provecta do pai,
que tinha mais de 55 anos, quando da concepção. Não
será temeridade atribuir a essa factor disgênico o tem-
peramento nervoso do poeta, as demasias de seu misti-
cismo, a sua melancolia exasperada pela pandemia ro-
mântica.
Onde estudou as primeiras letras, não sabemos.
Sabemos, sim, que entre os seus camaradas da puerícia

(1) Avulsas, p. 338.
(2) Cânticos, p. 68. A mãe faleceu em 1856 (Cânticos,
p. 38).
(3) Urânio, p. 21.
(4) Cânticos, p. 38.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 9

figurava certo menino destinado a ser uma das figuras
culminantes do segundo Império: Francisco de Sales
Torres-Homem. Dele disse um dia Magalhães ( 1 ) :
Sabes com que pezar te deixo, ó Sales,
Companheiro de infância!

Os dois garotos viram, de certo, com os olhos ala-
gados de admiração, as cenas movimentadas e pitores-
cas, que a cidade natal lhes oferecia gratuitamente na-
quele tempo. Tiveram, talvez, de ajoelhar-se, mais de
uma vez, á passagem do côche em que dona Carlota
Joaquina passeava pomposamente a sua fealdade pelas
ruas descalças ou pelas estradas maravilhosas da Corte;
ou puderam avistá-la, escanchada numa cavalgadura de
preço, em direção a Laranjeiras, pelo Catete afora. Vi-
ram dom João VI, macrocéfalo e barrigudo, sacudido
dentro de uma carruagem pífia, a caminho de S. Cris-
tóvão, onde tinha o palácio. Deslumbraram-se com as
luminárias do Campo de Sant'Anna, e os arcos triunfais
do largo do Paço, erguidos por Grand-Jean de Montigny
para festejar a coroação do novo soberano do Reino-
Unido. Espiaram a chegada de dona Leopoldina e a
partida da família real. Trocaram insultos e bofetadas
com os "marotos" e "pés de chumbo" da mesma idade.
Ouviram, transidos de medo, o éco das arruaças e o
troar do canhão, por ocasião do motim de 24 de fe-
vereiro. Acompanharam o bando imponente que, prece-

(1) Suspiros, p. 331.

. Vaticínio facílimo: poetas grandes ou pequenos. os primeiros tra- ços daquelas tendências filosóficas. (3) Avulsas. á frente do estado maior. são datados de 1827 ( 3 ) : uma "Epístola a Marília". (2) Vrânia.. Entre os versos de Magalhães os mais antigos. Era o seu fadário.este menino.10 ALCÂNTARA MACHADO dido de moleques e anunciado pelo pipocar dos fogue- tes e pelos músicos da cavalaria policial. advertência. eram naquele tempo todos quanto sabiam ler e es- crever. que conhecemos. atra- vessar carrancudo a cidade amuada. entretanto. que o vira infante no colo materno. Aí já se percebem. mal concluídos os estudos primá- rios. 65. começou Magalhães a poetar. lera em sua mãozinha o futuro e vaticinara ( 2 ) : . convocava o poVo para as festividades da sagração. na tarde em que a Constituinte foi dissolvida.. te- nham visto o Imperador. Bem pode ser que. p. que seriam uma das feições características (1) Avulsas. Uma cigana. 159. p. PRIMEIROS VERSOS Aos 15 anos (1). . sub-produto evidente do sub-arcadismo rei- nante. impregnadas de re- ligiosidade. Ha de ser poeta..

para ma- tricular-se na Academia Militar.. de que participavam Magalhães. Sales Tor- res-Homem. Mas O sábio Arquitectpr da Natureza. . o Santo amor miraculoso. não só á humanidade. Antiga produção de antigos vates. Deus factício. Esse infante gentil. foi quem. GONÇALVES DE MAGALHÃES 11 da obra poética de Magalhães. Este chegara á Corte em 1827. como á "classe irracional" e aos vegetais. e deu em partilha. Assoprou esse fogo etéreo. Nos peitos das primeiras creaturas. por tê-la encontrado em férias. que acabava de instalar-se. que não passa de Vão fantasma. Este supremo Deus. Manuel de Araújo Porto-Alegre. O amor. quem o acende em seu coração e em sua carne púbere. entrara a estudar pintura e arquitetura na Academia de Belas-Artes. Antônio Felix Martins. que tudo rege. Já por esse tempo devia estar formada a rodinha literária. olhivendado.. e. Não é de Citeréa o tenro filho. para perpetuar a obra dos seis dias genesíacos.

um pseu- dônimo literário. em que se transmudara o primitivo Colégio. professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. trocou as ciências físicas pelas so- (1) Avulsas. 177. p. no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Mas. Antônio Felix Martins. arreba- tado pela política. 239. Elmano (2). Com ele. . Cândido Borges Monteiro. naturalmente. ESTUDANTE DE MEDICINA Por volta de 1828. médico da imperial câmara e parteiro da Imperatriz. (2) Avulsas. p.12 AICANTAHA MACHADO É um grão de areia que decide. para concorrer a uma das cadeiras da Faculdade. Cada um deles tinha. de quem Magalhães se tornou amigo entusiasta. á moda da época. também docente da mesma fa- culdade. afinal. do nosso des- tino. Foi Porto-Alegre. ao tempo de dbm João VI. Cândido Borges Monteiro (Visconde de Itaúna). 96. Felix). Pseudônimo anagramático: o de Ma- galhães era Osmindo (1). (3) Avulsas. Dos quatro. Magalhães se matriculou no co- légio médico-cirúrgico instituído. p. que aproximou dos companheiros o seu mestre João Batista Debret. Sales Torres-Homem. o de Porto-Alegre. (4) Antônio Felix Martins (barão de S. Sales Torres- Homem chegou a preparar-se. só os dois últi- mos tinham verdadeira vocação pela arte de curar e se lhe conservaram fiéis até á morte (4). ás vezes. depois de formado. o de Antônio Felix Martins. Notânio (3).

De graça podes passar. que julga inferior ao seu engenho. 176. (2) Avulsas. Vêmo-la descrita na "Epís- tola ao amigo dr. que não. também. Para enganar a tristeza. Magalhães. . demonstrou-o. ainda estudante. p. sempre enfermiço. Magalhães confessou mais tarde que obedecera apenas á vontade paterna e que outras eram as suas preferên- cias. GONÇALVES DE MAGALHÃES 13 ciais. foi vítima de moléstia de certa gravidade. Desabafo de'quem se vê constrangido á uma ta- refa. encontra na ciência o alí- vio esperado. "Não sem lagrimas". Sirva este de amostra ( 1 ) : Nas margens do negro Stige De um doctor a sombra errava Porque ao severo Caronte O tributo não levava. No mesmo ano em que iniciava o curso médico. 213. diplomando-se em direito na Faculdade de Paris. cri- vando de epigramas insípidos a medicina e os médicos. diz-lhe: "Amigo. Isso mesmo. quando (diz o autor da "Epístola") (1) Avulsas. tomara de um livro. re- volta de um doente. vendo-o. lera os versos da "Noite prima". Pois nos mortos que me enviaste Assaz me deste a ganhar. E. Este. Antônio Felix Martins" (2). p. que Era das "Noites" do imortal Young. que lhe causara o apartamento desse companheiro.

que lhe pôs a vida em risco (1): Já brilhava em meus olhos moribundos A luz de bento Cirio. Colocado entre o mundo e a Eternidade Meu ser se dividia.. (D Suspiros. Um súbito tremor de mim se apossa. outra moléstia o assaltou. não façam mal as musas aos doutores." INFLUENCIAS LITERÁRIAS Tudo leva a acreditar que Magalhães não tenha levado muito a sério os estudos do curso médico. Pode que. Que ante um sagrado Crucifixo ardia. Aos estudantes.. . Chorava minha mãe e seus cabelos Sobre meu frio peito debruçavam-se. 1 4 AICANTARA MACHADO Um espectro diviso envolto em luto. de acordo com aquele surradíssimo conceito e erreira. E sem sentidos ter no chão baqueio. p. 303. Com tardos passos para mim se chega E erguendo a ímpia mão me toca o peito. mostra a experiência que são maléficas. De enrugado semblante e magro e feio. Eis cheio de pavor um grito solto. Um delírio febril? Um ataque de epilepsia? Antes ou depois dessa.

Hervey (1714-1758). Young teve apezar disso.. Os dois últimos. Erro tipográfico. senão pessoalmente. a beleza das noites consteladas. 264. com as próprias mãos. (1) Cânticos. vigário anglicano de. Litera- tura lúgubre de pastor protestante. GONÇALVES DE MAGALHÃES 15 Os autores da predileção de Magalhães eram en- tão Young. tornou-se famoso com a publicação de um poema em nove cantos. a poesia das necrópoles banhadas de luar. p. os moradores da locali- dade se recusam a dar sepultura ao cadáver da hereje. por ter aparecido na versão francesa de Le Tourneur. á claridade vacilante de uma tocha. Em torno desse ar- gumento fúnebre. e não do fieiologista. Young borda uma série infindável de considerações sobre a pequenez do homem. protestante como ele. o poeta tem a desgraça de perder a filha. um sem número de imitadores. Trata-se evidentemente do poeta. abrir a cova e inhu- mar os despojos de sua creatura. a que também alude Magalhães. Ninguém ha que não os conheça de nome. Hervey. não precisamos apresentá-los. inittulado "Pensamentos no- turnos" (Night Thoughts). Aí se lê "Harvey". ou por isso mesmo. em síntese: no curso de uma viagem pelo meio-dia da França. o desventurado pai se vê obrigado a valer-se das sombras da noite para. . e. Souza Caldas e Klopstock (1). gorda paróquia. que tresanda a en- terro e a sermão. Edward Young (1684-1748). Entre eles. em vez de "Her- vey". com o titulo de "Nuits" O tema é este. mais conhecido entre nós pelo nome de "Noites". assim. a bondade e a onipotência divinas.

p. . o pa* triotismo. reflexões sobre um jardim florido e um discurso sobre a creação". aparece tran- cado : "Meditações e contemplações. Seja como fôr. a filosofia barata de Young e de Hervey. a propósito. a paz. es- crevendo epístolas e sátiras. Abor- dou todos os gêneros e ensaiou todas as fórmulas. que. de sabor e andamento clássicos. nênias e cantatas. Reynaud. tri-partidas e» estrofes. L. e mais os pseudo-clássicos da Arcádia. basta o título do mais popular de seus livros. éclogas e sonetos.16 ALCÂNTARA MACHADO Para julgá-lo. contendo medita- ções em meio de túmulos. de que sairia o romantismo. os modelos que Magalhães tinha diante dos olhos. É fácil distinguir nas primeiras produções do nosso poeta a contribuição de cada uma das nascentes. era então o lema de Magalhães. Fizeram do elemento religioso uma emoção poética (1) e do es- petáculo da morte uma volúpia nova. 152. "Tratemos de imitar os nossos mestres" (2). Esses. Young e seus discípulos exerceram influência considerável na formação do ambiente sen- timental. Esses. na versão de Le Tourneur. versejou torrencialmente. a liberdade. epicédios e odes pindá- ricas. antístrofes e epodos. p. (2) Avulsas. celebrou a virtude. 119 e seg. Le romantismo. liras e epigramas. em que se abeberava: a religiosidade profunda de Klopstock e de Souza Caldas. o artificialismo e a insipidez dos últimos ár- cades. A exemplo deles. a saudade. a tranquilic (1) Veja-se.

tudo é contrafação e calco da ver- salliada abominável. a amizade. estilo.. es- critas ás pressas. Invectivas bombásticas contra os tiranos e os déspotas (2). só de saudades. Elo- gios hipócritas da pobreza (3). a aurora. 53. ps. 244.. GONÇALVES DE MAGALHÃES 17 d*alma. a filosofia. "Obras imperfeitas. a partida de Debret. (4) Id. para sa- tisfazer idéas e paixões momentâneas". (2) Idem. e algumas vezes a pedido. forma. 233. Metáforas deste supremo ridículo: Estoica filosofia. As- sunto. Lirismo desenxabido e pedestre ( 4 ) : Si não vens dar-me o teu socorro. com que desembargadores e cô- negos se distraíam em atulhar o Parnaso. nada se salva das primeiras poesias. 164. advertência. ó Lilia. dos quinze aos vinte anos. qualificou-as as- sim o poeta quando chegado á madureza (1). (1) Avulsas. a volta dos políticos des- terrados. de Zeno parto sublime. o Sete de Setembro e o Sete de Abril.. Tirante as sátiras de que fa- laremos depois.. pelo mesmo figurino.. eu morro! Tudo insincero e postiço. (3) ld. Tudo talhado no mesmo tecido. sobre os mesmos mane- quins dos velhos costureiros.. .. ps. De pleno acordo. e assim por diante. 223. p. 234.

Assim. O infinito? Alcá- çar do imenso (9). alcáçar da bondade. p. . celeste alcáçar. 321. 344. (5) Cânticos. (13) Urânio. p... 128. p. 225. as folhas ( 3 ) . (8) Suspiros. (2) Id. que se tornam ver- dadeiros cacoetes literários. (3) Id. 323. 15 e 77. p. de ven- tura ( 5 ) . em que o poeta reincide tão repetidamente. de _verde. p. p. (1) Suspiros. Alcáçar é outra palavra que volta. 326. (7) Id. O que faltou a Magalhães durante esse período da existência foi um grande amor. p. De algumas jamais conse- guiu libertar-se. (4) Tragédias. 72. p. 251. os dias. (9) Id. (10) Id. 249. o teatro (12). de flores. o céu (11). p. o peito da mulher amada (13). 280. periodicamente. como um estribilho. não ha para ele o que não es- malte ou não possa esmaltar-se. 276. p.18 ALCÂNTARA MACHADO A inópia de imaginação corre parelhas com a in- digência de linguagem. (11) Avulsas. de frutos se esmalta o cajueiro (2). majestoso alcáçar. p. A fama? Alcáçar da memória (7). (6) Avulsas. esmalte dão ao Brasil os varões ilustres (6). o tribunal (10). Alcáçar da lei.. p. o trono ( 4 ) . p. Ha certas imagens.. (12) Tragédias. "Com os seus pincéis divinos" deve Porto-Alegre esmaltar da pátria os fei- tos ( 1 ) . Paris? Alcáçar do progresso (8). 48.

. . GONÇALVES DE MAGALHÃES 19 Namoricoe.. O fado quer que tu de mim te apartes. 141. Entes de razão. inda um abraço. com os que lhe inspirava a amizade. p. Paixão. 145. aperta. 148.. aperta... (4) Id. ora aos amigos. p. puramente ce- rebrais.. . nenhuma. Faltou-lhe o con- tacto com "cet animal terrible: une f e m m e " . com- parar a frieza de seus versos de amor. 149. que Lie desse vibração humana á poesia. ardentes e sinceros. e não creaturas de carne e osso. teve-os de certo.. 149. Ai! deixa que se espalhem Em teu peito estas lágrimas nascidas Do triste coração do teu Osmindo. p.. são as mesmas dos que o prece- deram: Lília (1). que descanta. (1) Avulsas.. As mu- lheres. Marília (2). sem dar pasto a suspeitas in- juriosas (4) : O* meu caro Araújo. sem alusão a aventuras sentimentais. 167.. Márcia (3). Concede inda um abraço ao teu amigo Pela ultima vez .. O' meu caro Araújo.. ó meu amigo. Basta aliás. . Ele é o primeiro a confessar que passava então a existência Entregue ora do estudo ao doce encanto. . Magalhães diz a Porto-Alegre o que não disse a qualquer de suas Marüias. (3) /d. (2) Id^ p. e hoje ninguém ou- saria dizer a um amigo. O' parte de mim mesmo. Entregue ora ao sossego.

senta- das nos estrados". p.. . p. De fiéis é modo de dizer. 99. que o levava a enxergar no riograndense um "Rafael do Brasil" (1). lunetas pendentes de fitas azues ou negras. Peraltas e cadetes se distinguem da "gente hon- rada". — barretinas. com as suas "calças de riscados. — chapéus brancos/ gravatas e coletes. está visto. velhos. (3) Suspiros. (1) Avulsas. casacas de altas golas de veludo". Nada mais. um "David brasüio" (2). (2) 7 4 . bem á mostra. De toda a obra juvenil do poeta as únicas produ- ções que ainda se lêem com agrado são as satíricas. Amizade. por trazerem ao peito. Enche-se o templo de fiéis.. 323. penachos e floretes". sem rumo e tento. por exemplo. Como num de- senho de Debret. p.20 ALCÂNTARA MACHADO Pura amizade. "porque mulheres vãs. 143. cujo único desejo é serem vistas "pelo bando de estultos Lunetistas". um "gênio" (3). mães e avós enfileiradas. Lunetistas são os cadetes "de fardas adornadas. "Os Lunetistas". Crianças. As me camba s o renque arrematando. damas enfeitadas. vemos a família patriarcal a caminho da função religiosa: Filhas. Repicam sinos. lá se encontram. e os peraltas. Nada menos. É dia de grande festa em certa igreja.

piscam o olho. cantam modinhas. quando vê apro- ximar-se uma francesa. modista de profissão. em meio da missa. valsam com perfeição. Também os ombros seus se deslocaram E as nádegas postiças á francesa. recebem dos namorados os bilhetes de amor.. per- turbam "com risos e conversas" os que vão á igreja por devoção. fazem sinais com as mãos.. Ou também como trazem os rafeiros As coleiras com os guizos pendurados. Por que se reconheçam nos outeiros Ou por outros não possam ser trocados. passam as mãos pelo ca- belo.quando o espartilho lhe tiraram Para dar aos pulmões maior largueza. Estava certa noite o poeta no "Público Passeio". Os almofadinhas de 1830. em meio dos requebros do "miudinho". que to- cam piano. Outros na- moram a torto e a direito. que não deixa de ter espontaneidade e graça. tratam os presentes de "fazer-lhe no fato anatomia para arejar-lhe o corpo". e. Alguns se embebem numa vítima só. tão grandes que "podiam dar dois outros . GONÇALVES DE MAGALHÃES 21 Bem como as cabras trazem e os carneiros Nos pescoços cadarços amarrados. como os de hoje. A um deles succedeu ter desmaiado. Le- vado á sacristia e posto sobre um banco o "Adônis lamentável". Mangas "de gigot". As modas femininas lhe inspiram outra sátira. Passam em revista as beldades. Resultado: .

Já de chifres. de cestas e de vasos. Teem razão as filhas de Eva. Magalhães se escandalizava ante os cabelos com- pridos. "que o franzino pescoço a não vencia". como. cintura tão apertada pelo espar- tilho. e. nos escandalizávamos com os cabelos "à Ia garçonne".22 ALCÂNTARA MACHADO vestidos á vontade". e dão-lhe as formas.. Agora um saco se usa na largura. ha pouco. para o nosso poeta. matéria literária. A frieza de seus versos de amor tem explicação cabal nestas palavras. desco- munais. como si tudo isso não bastasse. MAGALHÃES E MONT'ALVERNE As mulheres. Ainda ha pouco os cabelos se cortavam. que escreveu mais tarde (1): "As minhas tendências eram então (1830) para a vida (1) Opúsculos. e nada mais. p. dissémo-lo ha pouco. Parecia impossível que as mangas de "gigot" e as anquinhas tivessem entre nós aceitação. colchões no assento. 313. Hoje os deixam crescer.. quando se não incomodam com a excomunhão dos mo- ralistas. . ha de aceitar-se" E o poeta assim termina: Ainda ha pouco se usava manga estreita. Qual! "Sendo moda francesa. representavam' naquela época.

como o de Magalhães: sa- tisfaria a um tempo os seus sentimentos religiosos e as suas ambições literárias. que se me representava como a elevação do es- pírito. A cadeira sagrada não constituía apenas o que sempre foi e continua a ser. Mont'- . Bem se compreende a atração que devia exercer o púlpito sobre um espírito. Os nossos pregadores foram também os nossos primeiros oradores políticos. que teve o seu desfecho teatral nas riban- ceiras do Ipiranga. e o melhor caminho do púlpito que me fascinava". o desprezo das vai- dades humanas. da raça de Deus. Entre nós. vencedora em 1831. a tranqüilidade do homem. o melhor instrumento de ação intelectual sobre as multidões. Ao clero pertenciam vários chefes do movimento li- bertador. o lugar em que o homem tem o direito de se dizer. o caminho mais curto e seguro para a popularidade. Era também naquele tempo. GONÇALVES DE MAGALHÃES 23 claustral. antes da educação das massas. pela difusão do jornal e do livro. que nos parece a mais expressiva e sincera. quando o orador é digno dela: a mais eminente das tribunas. o prestigio da eloqüência religiosa cul- minou precisamente nos dias agitados que precederam e sucederam á Independência. Retenhamos esta última razão. como São Paulo no agora. Fortes da imunidade relativa que lhes advinha do burel ou da batina. e muitos dentre os líderes da reação nacionalista.

mais tenros anos". com a sua ênfase truculenta. a miséria infinita das grandezas humanas! A resolução. o poder e o esplendor da palavra. ao Imperador cabisbaixo. Chegava cedo para. Com as suas atitudes intrépidas. livre das preoccupações materiais. que tinha o di- reito de recordar. "não perder um só de seus movimentos tão expressivos. encontrou na vontade paterna a barreira sa- lutar. tão humilde. e. realçada pela voz cavernosa. 313. (D Opúsaulos. p. São Carlos. e no templo trans- formado em Fórum o que se ouvia eram discursos tro- vejantes. de entregar-se á vida religiosa. face a face. carregados de apóstrofes contra o despotismo e a tirania. pela meditação e pelo estudo. empregava todas as horas da vida em polir o espírito. Januário fizeram-se pa- ladinos das reivindicações populares. a ouvir-lhe as orações tempestuosas. diante dos cortesãos atônitos. que formara. 313. como iguais nunca os veria em outros" (1). Na vontade paterna.. o terror dos poderosos. tão enérgicos. nos conselhos daquele que tomara por modelo (2). com a cidade inteira. era o orgulho do povo. e. Mont'Alverne encarnava como ninguém. (2) Id. "Desde os. que. aos olhos deslumbrados dos contemporâneos. depois. bem colocado. tão fraco. Magalhães corria. Sampaio. que. a princípio. p. Como lhe parecia digno de inveja esse capuchinho escarnado.24 ALCÂNTARA MACHADO Alverne. .

que Mont'Alverne mantinha no Seminário Episcopal de S. Data desse ano uma ode. uma elegia insignificante. A acreditarmos em um de seus admiradores (2). em que. em apenso ao Com- pêndio de Filosofia de Mont"Alverne (1859). que abrasava o coração do moço. 64. pela ordem cronológica. declamou. (3) Avulsas. Tornaram-se amigos. Aristóteles e Leibnitz. O frade perce- beu desde logo a verdade: era a sede de glória. as várias escolas. Zeno e Platão. Magalhães começou a freqüentar o curso de filosofia. . Desde 1829 o poeta se iniciara nos estudos fi- losóficos. entre lá- grimas. GONÇALVES DE MAGALHÃES 25 Magalhães se aproximou. o primeiro que professou pu- blicamente contra a doutrina escolástica e o materia- lismo. Descartes e Locke. Ma- lebranche e Kant (1). p. em 1832. Na ode que lhe consagra (3). á beira da sepul- tura de frei Francisco de Sampaio. José. pela primeira vez. quando outros con- duziriam suavemente á altura ambicionada? Estreitou-se a amizade entre eles. p. Porque tomar caminho tão áspero. foi Mont'Alverne "o restaurador dos estudos filosófi- cos no Rio de Janeiro. quando. Mont'Alverne abra- çou-o. o poeta se derrama em elogios desmarcados: (1) Avulsas. e des- filam sucessivamente Demócrito e Pitágoras. e não o espírito de renúncia. fazendo conhecidos entre nós Descartes. Dugald Stewart e Kant". (2) Artigo do "Jornal do Comércio". do franciscano eminente no dia. em que se compen- diam. 55. comovido.

ás polêmicas dos diários.26 ALCÂNTARA MACHADO Em magistral cadeira quem te iguala. uma insignificante e outra considerável: formou- se em medicina e publicou um livro de versos. que tinha parado no sensualismo de Condillac e nos comentários de Cabanis e Tracy. evidentemente. ao púlpito. Tipogr. Ogier. (D Opúsculos. nem o beneditino Policarpo. O que seduzia os alunos era menos a ciên- cia do que a facúndia do mestre: "como sempre orava. ás sociedades literárias". . (2) Rio. Pedro de Al- cântara. Qual a considerável.°. mesmo conversando. Quando aos alunos teus sábio revelas Os mistérios da sã filosofia Dos Déspotas malquista? Mas o prosador se mostra muito mais discreto (1). "dado á política. 319 e seg. Apesar de tudo. O filosofo parece-lhe. in 8. qual a insignificante. diz ele. dirá o leitor. a que deu o nome de Poesias (2). 1832 Nesse mesmo ano de 1832 fez Magalhães duas coi- sas. nem o cônego Januário. ne- nhum desses professores contemporâneos da disciplina se emparelhava com o panegirista de S. cujas deficiências supria com postilas ma- nuscritas". seguindo "os compêndios de Genuense. inferior ao tri- buno. p. "professava um ecletismo que nada tinha de original". eram as suas lições ouvidas com muita atenção e algum proveito". Mont'Alverne.

p. 78. . ei-lo a correr de uma corte para outra. ele que estava predestinado a viver e morrer longe da pátria: (1) Avulsas. Passemos adiante. mui- tas das "Poesias" foram aproveitadas em 1863. p. condenado pela fortuna a envergar o fardão de di- plomata. Entre os servos dos reis (1) . que nunca hão de vê-lo Nos páteos dos palácios. Proclama aos quatro ventos (3). não resistimos á tentação de lembrar como esse déspota escarninho. for- mando a primeira parte das Poesias Avulsas. a des- fazer-se em mesuras diante das cabeças coroadas. afirma o poeta. e dispostas em ordem mais lógica. antes disso. 75. São precisamente aquelas de que falámos ha pouco. a con- fessar-se o mais reverente dos cortezãos de* Pedro II. se diverte em fazer de nossa vida o avessa do que sonhamos fazê-la. com entono. a empenhar publicamente ao Imperador as cordas li- sonjeiras da lira palaciana (2). p. (3) 1 4 . e. GONÇALVES DE MAGALHÃES 27 Alimpadas "de erros e descuidos. 298. principalmente de linguagem". (2) Id. Seguro de si mesmo. Toda a existência de Magalhães está em contra- dição com as convicções que apregoa em sua obra ju- venil. que é o destino. Mas.

Por decantadas estrangeiras terras. De espada ao lado. "Nos contradictions ne sont pas ce qu'il y a moins vrai en nous". Dias. de louros cubiçosos". Estigmatiza a cada passo o avarento imundo. disse um dia Anatole France. Amaldiçoa a guerra. a propósito dos ilogismos de Chateaubriand. a retinir na ilharga De fogoso ginete. é o poder divinatório dos vates. Avaro. Por que se abala uma alma humilde e fraca. dizem as más línguas que o seu maior pecado não é a prodigalidade. ao lado de Caxias. depois. não. O futuro Visconde de Araguaia encarece a forta- leza e a sabedoria daquele Que não corre atrás do vão fantasma De títulos faustosos.. Por campos de rebeldes infestados. O que julgo contestável. não troco.28 ALCÂNTARA MACHADO O sol que me aclarou na minha infância. .. e. cujos hor- rores se devem aos "generais.. quando enriquece. Não ponho em dúvida a sinceridade do poeta. os meus amigos. "filha da ambição". O meu natal país. A quem só move sórdida cubiça.. e. noites andou entre soldados. em que pese á etimologia.

Deve ser. Não tem data o requerimento. êle que jurara não trocar a terra natal pela estrangeira. embarca no ve- leiro "Dois Eduardos". as mes- mas credenciais. GONÇALVES DE MAGALHÃES 29 VIAGEM A EUROPA Assentamento feito pelo secretário Luiz Carlos da Fonseca em livro existente no arquivo da Faculdade de Medicina. em Os médicos na Academia Brasilei- ra (artigo publicado no Jornal do Comércio). "tendo de ir a França. como Sales Torres-Homem. Logo. ouviu dizer "não estar exatamente ao par dos seus conhecimentos médicos" a Congregação. atribue o fracasso ao veto da Congregação da Faculdade: "Aqueles que com Ma- galhães requereram foram considerados "assaz habilitados" e pro- vidos nos cargos. filho de Pedro Gonçalves de Magalhaens". (1) "VIEIRA SOUTO. . natural do Rio de Janeiro. porém. de meiados de 1833. terminando por soli- citar a entrega do diploma com que instruíra o pedido anterior. em que declara que. O novo cirurgião pensou a princípio. De fato. Encontra-se na Biblioteca Nacional uma petição de Magalhães ao ministro do Império. porém. desiste "da pretensão de substituto da Academia Médico-Cirurgica". testemunha que "a 21 de janeiro de 1832 se passou Carta de Cirurgião Formado a Domingos José Gonçalves de Magalhaens. com os mesmos documentos. Só ele. á (sic) bem de continuar em seus estudos". mudou de resolução (1). a 3 de julho de 1833. em exercer o professorado na escola de que acabara de sair.

Em longa carta a Cândido Borges Monteiro (3). vista da barra: "hei de descrevê-la em poema. o café aguado e suspeito. começada a bordo e concluída no Havre. Magalhães dá conta. a ruindade da água e da comida. o chá "castanho — com o amarujo — do bule sujo — de velho estanho". o li- quido mal cheiroso "com gosto e cheiro de madeira podre"." tudo vem (1) Avulsas. mas ainda não achei assunto nacional que me inspire". em que sonho. 331-264. que lhe pôs "em completa anar- quia o aparelho digestivo". onde já se encontram Porto-Alegre e Torres-Homem. . "côr de tijolo petrificado té ao miolo . O deslumbramento que lhe causa a baía. — com batatada — mal amassada. em prosa e verso. o desconforto do beliche. p. dos incidentes da travessia. o pão.30 ALCÂNTARA MACHADO Em quilha aventureira a vida expondo Ás tragadoras ondas (1). rumo da Europa. 75. que lhe dá saudades "da água gostosa do Ca- rioca". com "um visinho em cima". p. 358.. 0 enjôo dos primeiros dias. diz ele: Vou ver estranhas terrras si me é dado Alguns favos colher da sapiência. cujo leito "é uma estante". ruindade que vai crescendo á medida que envelhecem as provisões. a carne "salgada. Viajem de estudos. Com que possa prendar a Pátria minha E aos meus ser proveitoso (2).. p. (2) Id. (3) Id.

Pedro desaparece no horizonte. com o mesmo cerimonial carnavalesco de hoje. Enfim chegado. Magalhães desembarca "no Havre da Graça" a 11 de setembro de 1833. A ilha Graciosa manda de longe. Depois. depois de se- tenta dias de jornada. O vento enfuna de novo as velas. Volta o bom tempo e com êle a calmaria. o mesmo Netuno barbaçudo. Entrando o veleiro no canal da Mancha. Termina o temporal. Apesar de bem enjoada ou por isso mesmo. o calor sufocante que anuncia a proximidade do equador. os mesmos acó- litos de rosto apolvilhado. "deixando o navio a fazer água. o encontro de três baleias. Vamos assim acompanhando a jornada. o batismo dos marinheiros de primeira viajem á passa- gem da linha. o mesmo pratinho para as espórtulas dos neófitos. a mensagem perfumada de seus jasmineiros. Arma-se uma tempestade. O rochedo de S. ao cabo de dois dias. aos viajantes. a travessia lhe faz bem ao fígado. Nova borrasca se apro- xima e o vento furioso arrebata da cabeça do poeta um precioso chapéu de Chile. pá- tria dos banqueiros". invisível. o enfado dos dias de calmaria. . o que obriga todos a darem á bomba". GONÇALVES DE MAGALHÃES 31 registrado com tabeliôa minúcia. avistam-se de uma parte as cos- tas da França e de outra as da "soberba Inglaterra. pare- cendo-lhe "o melhor remédio para hepatites (sic) crô- nica".

Victor Hugo. Magalhães encontrou em Paris velhos amigos: Porto-Alegre. Encontrou (e é o que mais importa) o romantismo francês em plena idade de ouro: "uma primavera lite- rária. que se lhe apresenta. ébrios de liberdade. (1) S. p. que ali se aperfeiçoava. Sales Torres-Homem. adido á legação do Brasil. cujo hálito embalsamado nos embriaga ainda. (2) St. p. Magalhães se demora em Paris até setembro de 1834. Decide-se. que se prolongou de setembro de 1833 a agosto de 1836. como nas ilhas virgens da América os companheiros de Colombo" (2). que. foi-lhe a estadia na Europa. Debret. 17. o culto da arte incendiava os corações. p. em que a poesia andava no ar. a mocidade se batia por idéas. A 7 de outubro está em Poligny (3). 132. 115. (4) Id. Blake.32 ALCÂNTARA MACHADO Mais salutar ao espírito do que a viajem marítima ao corpo. a percorrer a Itália em compa- nhia de Porto-Alegre. que o co- nhecera no Brasil. como se combatesse por mulheres. III. em momento de inspiração. então. Victor. p. estudava na universidade parisiense as ciências políticas e sociais (1). em que nascentes novas de inspiração bor- bulhavam a cada passo e os paladinos da arte eman- cipada se embrenhavam. Não tarda a alcançar Genebra (4).. no Jura. 335. quando nos reportamos àquele tempo. em rin- cões desconhecidos. (3) Suspiros. a caminho da Suissa. .

com os trilos da vocalização e os artificios do "bel canto". Aí trava conheci- mento com "a senhora Castelani". . 174.. (3) Id. Detem-se um momento á beira do Lago Maior (2). p. Tão graciosa como a pura virgem Que a roca empunha e que meneia o fuso. empolgara durante mais de quarenta anos as platéas e as cortes da Europa. citar teu nome E disser: "eu a vi. Talvez a única sejas. p. p. jubilada. falei com ela" (1) ld. Não se trata de aventura sentimen- tal. Cheio de comoção. (2) Id. p. vindo da terra tão distante e com atrazo tamanho. O poeta se comove com o sorriso fanado da ruína ilustre: Sublime Castelani.. (4) Id. a mara- vilhosa soprano que. grava numa pedra do Simplão o nome da pátria distante (1). 173.. para trazer-lhe as suas homena- gens. Depois atravessa os Alpes. que te lembres Do peregrino errante. Visita Milão (3). que lhe inspira um poema arroubado. 52. tu me honraste. alquebrada. Longe disso. Velha. 342. GONÇALVES DE MAGALHÃES 33 Tão linda como o lirio junto d'água. Quando êle. Chega a Florença em novembro (4). Tomado de acesso pue- ril de patriotismo. acolhe pressurosa aquele moço. já na Pátria..

p. negros vultos. (5) Id. 45. (4) Id. p. (6) Id. Numa dessas excursões os dois brasileiros são vítimas de incidente. Arqua. O resultado. Em maio os amigos se apartam. . Magalhães vai a Ferrara e depois a Veneza. que parece ter causado profunda impressão no ânimo do poeta.. (2) Id. p. Entre outras coisas. onde aproveita o álbum de uma "bela virgem". faz o que fazem todos cs hóspedes da cidade pontifícia.. o Coliseu". Albano. Urânio. 224. p. de punhais armados. Percorrido. onde se demora desde dezembro de 1834 {1) até abril do ano seguinte (2). 75. a visita noturna ás ruínas. 225.34 ALCÂNTARA MACHADO De Flcrença vai a Roma. Como da terra erguidos nos investem. p. enquanto. regressam á casa. quando (3) Três.. Pádua.. (7) Id... (3) Id. 197. Magalhães conta-o por meio desta perí- frase: Mais que o áureo metal é cara a vida. p. 211. "có um archote na mão. "atraz deixando o arco triunfal de ConstantW. para algumas quadras sensaboronas (7)> Passa rapidamente por Fuzina. 233. Porto-Alegre deixa- se ficar em Tivoli (4) e Palestrina (5)... 145. "peregrino estudioso" (6). p. p. Com o seu amigo Porto-Alegre. (1) Id.

Luiz Antônio da Silva Peixoto e Alexandre José Pinheiro da Silva.. Blake. Turim (1). era então o conselheiro Luiz Moutinho de Lima Álvares e Silva. bebe a inspiração do único poema que lhe sobrevive. Enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto ao governo francês. 217. cuja autoria se atribue a Araújo Porto-Alegre (3). I. canto da do Sabão". assume o posto de adido de primeira classe á legação do Brasil. Verona. Desta última cidade ha uma poesia que traz a data de 15 de maio de 1835. c . da família Lis- (1) Id. 237. 238. Mota. Montebelo. O folheto. Mais ou menos por 'esse tempo. Magalhães faz uma curta excursão á Bélgica. 203. Daí. Por motivos de que não temos notícia. José Bernardo de Figuei- redo. datado de 1836. Na paisagem dramática de Waterloo. II. rua do Fogo. GONÇALVES DE MAGALHÃES 35 Vicenza. 229. em que se decidiram os destinos do mundo. Entre os adidos figu- ravam Sales Torres-Homem. ps. (3) A. a sua demis- são em abril de 1836. 230. Vinga-se do desafeto pela única maneira a seu alcance: desfecha-lhe uma sátira bati- zada "Episódio da Infernal Comédia. De novo em Paris. Despede-se em verso. ou Viajem ao Inferno". Magalhães se indispõe desde logo com o chefe. e traz prefácio e notas em prosa. para que fora no- meado em janeiro anterior (2). é dado como im- presso "no Inferno. (2) S. Bolonha. a 21 de junho. p.

Colaboraram no primei- ro C. Ma- galhães contribuo para a revista com dois artigos: "Discussão sobre a historia da literatura no Brasil". letras e artes". (2) Dois fascículos in 8 o . Paris. Aí chegado. 1836. A.. Começa o trabalho. I. Monglave. (3) Reeditados em Opúsculos. acentua a carência de trabalhos referentes aos nossos escritores. inicia. libraires. Sales Torres Homem. sob a deno- minação de "Niterói" (2) e com este lema. 241-273. a revista desa- parece com o segundo fascículo. "re- vista brasiliense de ciências. . 35. O primeiro número esgota-se rapidamente. Porto-Alegre. Magalhães. sua relação com a moral e sua missão social" ( 3 ) .. no segundo Eug. intitulado "A liberdade das Republicas". Sales Torres Homem. ao que diz um dos colaboradores. com alguns períodos palavrosos so- bre a dignidade da literatura. Porto-Alegre e outros brasileiros que viviam em França. e "Filosofia da religião. Nenhum deles é digno de aná- lise demorada. 348. a publicação de um mensário. O rótulo do primeiro não corresponde ao conteúdo. Sem contar duas ligeiras notas bibliográficas a pro- pósito do notável livro de J. com Sa- les Torres-Homem. Apesar disso. Magalhães. Debret ("Voyage Pitto- resque et Historique au Brésil") e do opúsculo de Mon- tesuma. Daurin et Fontaine. d'Azeredo Coutinho. J. Taunay. e para o Brasil". Porto-Alegre. M. Azeredo Coutinho. B. Silvestre Pinheiro Fer- reira. diz a largos (1) Suspiros.36 ÁLCANTABA MACHADO boa (1). p. ps. que resume o programa: "Tudo pelo Brasil. C. Pereira Silva. e volta a Paris. Passage des Panoramas n.

e no Rio (rua do Ouvidor n. a síntese que lhe serve de remate: "resu- miremos este artigo. "correta e aumenta- da". na tipografia de Hen- rique Plon. assinala que devido á in- fluencia deletéria dos clássicos ultramarinos. não basta para de- monstrar o gênio artístico da raça. GONÇALVES DE MAGALHÃES 37 traços quanto padecemos de Portugal ao tempo em que lhe pertenceu o Brasil. que a moral do interesse não é moral. francamente. bastando. 3 ) . a que dá o nome de Suspiros Poéticos e Saudades (1). em vez de "indígena civilizada". a poesia brasileira sempre foi. 1836. Magalhães reúne as últimas produções em volume. "SUSPIROS POÉTICOS" Ao mesmo tempo que lança a "Niterói". que com ela jamais podere- mos engrandecer-nos". de acordo com Gabriel Soares. impressa também em Paris. Quanto á "Filosofia da religião". (1) Paris. uma grega vestida á francesa e á lusitana. que a ela devemos todos os males com que lutamos. com livrarias em Paris (Rua Pavée Saint-André n. e so- bretudo os tamoios. A segunda edição. "impressor do Imperador". Artur Mota informa ter aparecido outra edição antes de 1865. 112). dizendo que a religião é um dos mais fortes elementos de sociabilidade. para evidenciá-lo. e editada por Morizot. o que. que os ameríndios. alega ligeira- mente que a natureza americana pode e deve ser a fonte de inspiração dos vates nacionais. trata-se de uma dissertação de fundo raso e forma pobre. e conclue por lembrar. . é de 1859. eram havidos por grandes músicos e bailadores.

foi predestinado por Sales Tor- res-Homem a abrir "uma éra na poesia brasileira". ora na gótica catedral. aos pés do Senhor.38 ALCÂNTARA MACHADO No prefácio o poeta anuncia que se trata de "poe- sias escritas segundo as impressões dos lugares. Mal saído do prelo. Esse desfile de logares comuns. a ima- ginação vagando no infinito. 0 livro é interessante. depois de afir- mar que o fim a que se propõe é "elevar a poesia á sublime fonte de onde ela emana". ora no cimo dos Alpes. termina por lançar a obra "ao turbilhão em que se de- bate a nossa Pátria. ora en- fim refletindo sobre a sorte da Pátria. Na . Marco puramente con- vencional. e tudo está gelado. admirando a grandeza de Deus e os prodígios do Cristianismo. sobre as paixões dos homens. sobre o nada da vida". fazendo dos Suspi- ros o marco inicial do movimento romântico entre nós. temos o direito de observar. o nosso prefácio de CromweU.. ora sentado sobre as ruínas da antiga Roma.. Tão convencional como o prefácio hugoano. ora entre os ciprestes que espalham as suas sombras sobre túmulos. E. A posteridade justificou o vaticinio. observa Paulo Prado. Seria pena que o fizéssemos. onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos e desperta todas as ambições. como um átomo no espaço. — dão vontade á gente de atirar o volume pela janela a fora. meditando so- bre a sorte dos impérios. exceto o egoísmo". entremeiado de to- lices e recheiado de cacófatos. essa trombeta que tem o privilegio incrível de assanhar apetites e desengonçar esqueletos.

p. 281. Obra desigual. . ao veludo suntuoso. Mas os contemporâneos sentiram apenas o que havia de novo na obra de Magalhães. o pensamento requer vesti- menta folgada e sumária. o apelo irresistível do futuro. prefere os tecidos leves. Visto com os olhos de agora. e que a ambos pertence em partes equivalentes. Rejeita o espartilho. Que vive quando suspira. a linguagem. É o que bem se vê nesta quadra. impõe-se ao agrimensor a adoção de linhas ideais. Que morre quando não geme. reflete bem o drama interior que atormenta as almas no período de transição de um re- gime para outro: ha no sub-conciente raízes profundas que nos prendem ao passado. (1) Suspiros. mais pitoresca. o livro de Magalhães se nos afigura uma espécie de muro de meiação entre o classicismo e o romantismo. e era de fato. que tem a espontaneidade e a frescura das trovas populares ( 1 ) : Assim sou eu sobre a terra: E' minh'alma como a lira. Liber- to da disciplina clássica. e na atmosfera. e á seda encorpada. que lhe não embarace os movimentos. trazido pelos ventos que sopram do levante. cumeada ou tal- végue. GONÇALVES DE MAGALHÃES 39 falta do acidente natural no terreno. Mais simples. Outra lhes pareceu. trabalhada por forças antagônicas. mais harmoniosa.

sim. Guardai-os. E' a mesma idéa.. e não resiste á tentação de ataviar a frase com os ouropéis surrados do velho guarda- roupa. as "aras tu- (1) Idv p. . com "os antigos e safados ornamentos". Disse adeus ás ficções do paganismo. 21. Que os sacros bosques habitais do Pindo! Ó numes tão fagueiros Que o berço me embalastes Com risos lisonjeiros! Guardai os louros vossos. ficções de Homero! A idéa vem de Almeida Garret. em que apren- deu e cresceu. Mas os versos de Dona Branca estão para os dos Suspiros como a lagarta para a borboleta..40 ALCÂNTARA MACHADO Ou nestes versos de agilidade e melodia sem pre- cedentes em nossa literatura ( 1 ) : Castas virgens da Grécia. Tuas aras profanas renuncio. Adeus.. teu culto abjuro. que eu hoje os renuncio. em contraste com a naturalidade e a graça de certas páginas. Assalta-o de vez em vez a nostalgia das elegâncias defuntas. Daí. de que fala no prefácio do volume... em que Maga- lhães se inspirou visivelmente: Gentil religião. Claro que Magalhães não se mostra emancipado dos hábitos mentais criados pela escola..

ao sabor da inspiração. p. 38. ainda neste ponto. poemas soltos que se espraiam livremente. 40. p. (1) Suspiros. Vejam-se. Quebra os moldes rígidos da velha poética. que se cruzam sem a repetição periódica dos mesmos efeitos. (4) Cânticos. (6) Id* p. laboriosamente fabricado para traduzir a aspereza de um penhasco (3): "Sobre o bronco alcantil de alpestre fraga. O Riso da For- tuna (5) e A Flor Suspiro (6). Além de remoçar a linguagem. Maior variedade nos ritmos. as "hidras serpicrinitas" (2). (5) Suspiros. 238. e quejan- dos horrores. a rotura com o passado não é completa. irmão germano daquele grito horrendo que crebro ao rebramar retumba ao longe (4) com que em obra posterior nos mimoseia. que na estrutura não divergem do cânon antigo. 257. (2) Id. p.. p. (3) ld. . GONÇALVES DE MAGALHÃES 41 ricremas" (1). por exemplo. este prodígio de cacofonia.. Em vez de estâncias regulares. Ao figurino clássico obedece mais de uma composição. Maior liber- dade na construção. Mas. Em vez de odes e sonetos.. versos de metros vários. Entre eles. Magalhães renova nos Suspiros a técnica do verso. p. 163. 20.

"a miséria persegue o gênio" (5). p. Dessa afirma- ção da personalidade á concepção egocêntrica do uni- verso vai apenas um passo. 17. 17. exceto o egois- (3). as mulheres não se lhe entregam ao primeiro aceno. p.. p. os bancos não lhe abrem os cofres. não és um mortal quanto tu cantas! E's o arcanjo da justiça eterna! (2) Levado por esse orgulho mórbido. 203. O vate se arroja ingenuamente um papel sobrehumano: Não. verdadeiramente paranoide... (4) Urânio. 33. "para a pátria vale mais que um poema um saco de ouro" ( 4 ) . a seus olhos. abjeto e bestial: "tudo está gelado. .42 ALCÂNTARA MACHADO Não é somente na fatura que a poesia dos Suspiros se distingue do que os antecessores de Magalhães conhe- ciam e praticavam. torna-se o mundo. coloca-se em plano superior ás potestades da terra: Um vate é mais que um rei. e deante disso a mãe amorosa pede aos céus que o filho (1) José Veríssimo. (2) Suspiros. p. que poucos não transpõem. Já no título do volume se afirma o individualismo. p. (5) Tragédias. (3) Id. E porque a humanidade não lhe beija as plantas. e os negociantes não lhe vendem fiado. 236. que constitue um dos característicos marcantes do espírito romântico (1).

por que possa Ser feliz sobre a terra. nascido para a dor (2) e triste como o salgueiro (3). a declamar que. Romântica é também a melancolia vitalícia e por isso mesmo postiça. 344. que adivinhamos risonho e sadio. com que o poeta se apresenta em público. argumentos mais pode- rosos. Que não seja poeta. fantasiado de René ou de Wer- ther. temos o direito de sorrir quando o vemos. Tem vinte e cinco anos.. vive cercado de amigos entusiastas que lhe afagam a vaidade. (2) Id. para a demonstração de que romantismo é nacionalismo. 207 e 226.. GONÇALVES DE MAGALHÃES 43 Não tenha talento. Anda êle a divertir-se na Europa. e sobretudo. 105 (4) Id. A reação na- (1) Suspiros. e diz-se a cada instante um mísero proscrito (1).. . a máscara de vítima da fatalidade. desconhece o que seja a ven- tura e não acha encantos no mundo (4). como na brasileira. p. A oportuni- dade para a satisfação dessa aspiração legítima. Charles Mauras poderia encontrar. ti- vémo-la no movimento romântico. Sabendo-lhe a vida. e afivela ao rosto.. encontra- se imunizado por uma fé robusta contra a moléstia do tempo. que é a inquietação filosófica. 128 (3) Id. p. ps. p. está começando na mais apetitosa das legações a mais rendosa e macia das carreiras. Em nenhuma literatura. A' emancipação política deve seguir-se lo- gicamente a emancipação espiritual.

que deslísam. 135. Evaristo da Veiga. acendem-lhe a saudade de Moema. ao cárcere. Nem dos contemporâneos. mas que tem o sotaque da sinceridade. Magalhães não se esquece de sua gente. É o que se faz sentir desde logo no livro de Maga- lhães. da Rocha.44 ALCÂNTARA MACHADO tivista que. do outro lado. se desenca- deara contra a influencia da metrópole no domínio do pensamento. Pensado e escrito longe do torrão natal. irrompera contra as fórmulas tradicionais da arte. nem daqueles que a metrópole con- denou á fogueira. J. tem. arreadas de jóias e de ren- das. Mont'Alverne. e as mulheres mais ou menos fatais. Daí o entusiasmo que a nova escola despertou. Verso digno de servir de epígrafe ao "Porque me ufano". o sentido marcadamente nativista do nosso romantismo. de (1) Suspiros p. a recordação de Paraguassu. apesar disso ou por isso mesmo. Cláudio Manuel. o inte- resse pela paisagem e pela gente da terra. coincidiu com a insurreição que. pelas calçadas do Boulevard ou pelas avenidas do Bois-de-Boulogne. como J. Acode-lhe. deste lado do Atlântico. Portugal passou então a representar o velho re- gime no plano literário e na ordem política. o calor do patriotismo. em meio das magnif icencias das Tulherias. o pseudo-brasileiro Tomaz Gonzaga. ao degredo: Antônio José. . Patriotismo que hoje nos parece ingênuo ( 1 ) : Desejo te ver no orbe cantada Como a primeira das Nações da terra.

e pede á liberdade que do cativo quebre as cadeias e enxugue o pranto (2). rega o chão bravio. . 237. (1) Id.. p. 291. antes de Gonçalves Dias. ps. A nostalgia dos céus. estão as úni- cas páginas" de verdadeira poesia que êle produziu. Mas é Magalhães que. principalmente (7). p.. p. Ou. (7) Id. dobra-se o cajueiro ao' peso dos frutos sumarentos. que o des- cobre para a poesia: Lá cantava o sabiá um recitado de amor em metro doce e sonoro. faz desse passarinho triste a voz de nossa paisagem. Para o negro. p.. o gaturamo (6) e o sabiá gorgeiam. (3) /-*. E' Marques Pereira. (5) Id. das árvores. GONÇALVES DE MAGALHÃES 45 Lindoia. de Clara. "filhas dos bosques. mais precisamente... (4) Id.. O sabiá. (2) Id. que deixou.. (6) Id. ps. visita-o freqüentemente: as palmeiras sun- tuosas (3) e os coqueiros (4) abrem no alto os le- ques á cariei a da vir ação. 292. geradas entre palmeiras" (1). 290. suor e sangue. porque o resto não passa de prosa mais ou menos disfarçada. 31. a meu ver. volta de tão longe o olhar compassivo. dos pássaros. Nos Suspiros e Saudades está. 344. com lágrimas. 344.. a obra capital do poeta. p. que. 237. o beija-flor assalta as co ro- las ( 5 ) . 315 e 344..

floresceu.46 ALCÂNTARA MACHADO Para recomendar a coletânea. Nem podia ser outra coisa. A repercussão do livrlo foi entre nós imensa e merecida. não tarda em se convencer de sua incompatibilidade irredutível com os processos e as idéas da revolução espiritual. um clássico retardatário.. de original." Vejam como a fortuna é maliciosa: o poeta que in- troduziu na literatura nacional o romantismo não se con- siderava romântico. Estaria iludido como Bvron (1)? Não. bastariam as estrofes justamente famosas de "Nápoleão em Waterloo". . Magalhães sempre foi. 294. Transplantado bruscamente para o meio europeu. êle perde. de que o romantismo é a expressão triunfante no domínio da arte. porém. e deixa-se embriagar pelo aroma violento dos jardins des- conhecidos. se entranhou na terra.. O que encerrava de velho e caduco passou despercebido e perdeu-se. Salvo no breve período em que escreveu os Sus- piros. constituem. uma das paginas mais felizes que nos deixou Ma- galhães. e deitou raízes. que respira a plenos pulmões. o contacto consigo mesmo. frutificou. Pela dignidade do assunto e da forma. "COMO A AVE QUE VOLTA AO NINHO ANTIGO. de vivo. p. por assim dizer. em verdade. sem dú- vida. (1) Reynaud. Mas o que tinha de belo. da influencia imediata do ambiente. Livre.

com as suas truculencias e os seus desmandos. p. (2) Id. (1) Tragédias. 7. delicadas e lânguidas. grave e circunspecta. abolindo as hierarquias. a "barafunda" (2). Mas não blasfememos. O romantismo começa em França. que lhe agrida a sensibilidade. misturando o trágico solene ao grotesco atrevido. hamoniosas. p. . repassados de pessimismo altaneiro. 201.. (3) Suspiros. por ser cató- lico e monarquista. GONÇALVES DE MAGALHÃES 47 Com os processos. e que permite todas as liberdades. Só depois vem o lirismo hugoano. a principio. p. e admitindo no santuário das letras os senti- mentos vulgares e as palavras plebéas. Nada tem o movimento ro- mântico. Não são apenas os processos que lhe repugnam. e os poe- mas de Vigny. ciosa do decoro no vestuário e nas ma- neiras. Também as ideas directrizes. 137. E' o que Maga- lhães chama o "desalinho" (1). um lirismo "dont Ia seule loi est le déscrdre". Tamanha falta de recato e compostura irrita profunda- mente os homens de uma geração como a dele. como nas atitudes intelectuais e sentimentais. o que está em perfeita consonância com as crenças ou convicções de Magalhães. Nobres na inspiração e na linguagem são as elegias de Lamartine. Toda a filosofia religiosa do autor dos Suspiros está nesta qua- dra inqualificável ( 3 ) : A sorte choremos Que avessa nos é. com Chateaubriand e Lamartine. Vivamos co'a Fé.

de que deve retornar ao classicismo. do sensualismo do século XVIII? Que ha de mais repug- nante ao espiritualismo católico do que a rehabilitaçáo do instinto. 294. Mas. discípulo de Filinto Elísio e de Mont'Alverne. Magalhães se convence. p. Não admira. depois de curta hesitação. o culto da natureza. o romantismo evo- lue para a democracia na ordem política e o deismo na ordem religiosa. Por- que. Que é êle. a insurreição de indivíduo contra as normas e os va- lores tradicionais. sem embargo de suas aparências pagas. a litera- tura clássica é de inspiração católica e monárquica e obedece S concepção espiritualista do homem e do universo (2). . (2) Reynaud. três anos de- pois da publicação do volume recebido e consagrado como o evangelho do novo credo artístico. nestes versos com que saúda a coroação de Pedro II (1): Eis-te.48 ALCÂNTARA MACHADO Toda a sua filosofia política. a apologia das paixões. diga o (1) Avulsas. portanto. 297. Anjo nosso. vencida a primeira etapa. senão a vitoria. p. na ordem estética. conservador por edu- cação e temperamento. sopesando O cetro de ouro. emfim. em 1839.. que. monarquista ferrenho. o repúdio de todos os freios na es- colha dos temas e da maneira de tratá-los? Católico fervoroso.. Nada mais natural. em última análise.

põe todo o esforço de que é capaz em um poema épico. 1. Copia. trouxera. ou antes faço o que entendo e o que posso" (1). (1) Tragédias. que lhe repugnam igualmente o "rigor" dos clássicos e o "de- salinho" dos românticos. (2) Lanson. pretende também sê-lo em estética: "não vendo verdade absoluta em nenhum dos sistemas. GONÇALVES DE MAGALHÃES 49 poeta. Mas. com efeito. é. colocando-se a meia distância dos partidos e acima deles. a negação do espírito novo. 938. a semente do romantismo. p. (2) Atitude contrafeita e por isso mesmo instável. de 1820. faço as devidas concessões a ambos. assim. o segundo volta arre- pendido aos arraiais de que desertara. Eclético em filosofia. datadas de 1862 e 1864. da facção vitoriosa. colhida em Chateaubriand e Lamartine. que en- carna a fórmula teatral do romantismo prefere a tragé- dia. com os Suspiros Poé- ticos. Nem o poeta das Odes. ao passo que o pri- meiro assume sem tardança o comando. Toda a obra de Magalhães. a ati- tude que Victor Hugo adotara em 1824. á maneira de Basílio da Gama e Durão. p. posterior a 1836. nem o autor dos Suspiros podem observar a neutralidade prometida. e as últimas produções. no fundo e na forma. Ao drama. são real- mente. Assim terminaria aquele que. á ma- neira de Cousin. em verdadeira profissão de fé literária. que lhe apon- ta o destino. .

(3) Avulsas. Do golfo ingente.50 ALCÂNTARA MACHADO MAGALHÃES E O TEATRO BRASILEIRO Publicado na Europa o livro. Introdução ao estudo do pensamento na- cional.. a frase que lhe assoma aos lábios. de quanto se julga venturoso em rever O pétreo gigante majestoso Sobre as cerúleas ondas ressupino. que do mundo as naves Todas pode conter no âmbito imenso. 259. (1) Avulsas. 259. Magalhães volta ao Brasil. Ao envez do que se propala. (2) Mota Filho. . p. é esta exclamação desdenhosa (2): "Ó terra de ignorantes!" Parece tratar-se de inven- cionice fabricada para malquistá-lo com os compa- triotas. 129. p. em versos inflamados (3). ao entrar na baía de Guanabara e diante de maravi- lhas tamanhas.. p. e o sol dos trópicos que refulge ainda Nestes climas Da Providência esmero Onde se apraz a amiga liberdade Tão grata aos corações americanos. desembarcando no Rio de Janeiro a 14 de maio de 1837 (1). Ao que dizem. Magalhães dá mostras.

ou comêços do ano imediato. GONÇALVES DE MAGALHÃES 51 e a terra em que nasceu: Se em ti não venho achar da Europa o fausto. É a primeira obra desse gênero que empreende. conhecido também por Teatro Constitucional Fluminense (2). Pedro de Alcântara. o Fado e o Coro das Províncias se entregam a copioso in- tercâmbio de sensaborias. a Liberdade. Não ha contar. p. nota. e é recebido como um triunfador pe- los contemporâneos (1). escreve para João Caetano dos Santos a tragédia An- tônio José ou o Poeta e a Inquisição. A tragédia vai á cena em 13 de março de 1838. de setembro de 1831". á sombra de "aprasivel bos- que as margens do Rio de Janeiro". O teatro brasileiro. o "elogio dramático em aplauso do dia aniver- sário da Independência. Em fins de 1837. Assim estimulado. Esteia (1) Apontamentos biográficos. no Teatro da Praça da Constituição. Também não acharei suas misérias Maiores que seu brilho. João Caetano desempenha o papel do protagonista. de fato. ao que informa Henrique Marinho... em julho de 1839. alegoria detestável. Desembarca. 62. em que o Brasil. no arquivo do Instituto His- tórico. representado no teatro parti- cular da rua dos Arcos em 7. . recomeça imediatamente a ati- vidade literária. (2) Passou a chamar-se S.

Refervem ainda as esperanças e ilusões sus- citadas pela Independência. o de Conde de Ericeira. Justificam-se as aclamações da platea carioca e a ufania de Magalhães. Noite memorável. que se destina a< evocar a fi- gura de outro brasileiro martirizado pela metrópole. O êxito. 377. mas pelo que representa. c. o de frei Gil.52 ALCÂNTARA MACHADO Sezefredo. (1) Deve ser João Antônio da Costa. p. repleta e vibrante: "em todas as dependências do teatro (noticia o Jornal do Comercio na edição de 21 de março). com desvanecimento. como se tivesse con- ciência do momento histórico". p. que data apenas de quinze anos. Costa (1). 6. A^sala. . (2) Tragédias. Naturalissima a repercussão que tem na alma do povo essa primeira tentativa de nacionalização do teatro. o de Mariana. (3) 0. O que representa. o público se apinhava ardoroso e exaltado. nas repetidas vezes em que subiu á cena (2). E' nessa atmosfera abrasada pelo patriotismo que se desenrola este espetáculo inédito: atores brasileiros ou abrasileirados interpretam em um teatro brasileiro a produção de um brasileiro. disse-o muito bem José Veríssi- mo (3). companheiro insepará- vel de João Caetano. dos elogios e aplausos conquistados pela tragédia. Não pelo que vale Antônio José. Amaral. formidável: o autor se recordaria mais tarde. e es- pecialmente pelo quinto ato.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 53 O que vale é. que é o dos críticos. Inspira-se nos frutos abortícios da decadência. e moral no desenlace. ou des vers se sont mis". em verdade. Alguma coisa ficou. que é o triunfo inevitável da virtude. recua acintemente para o passado com o Antônio José. Magalhães mergulha no passado e volta de lá com uma tragédia em cinco atos. Desse juizo. rápido na ação. retórico. lembrando. a crítica de Sílvio Roméro: obra inco- lor. que são as do tempo em que vive. a que se filiara durante a estadia na Europa. violento e pueril nos processos. não escreve um drama histórico á mania dos românticos. os seus lances violentos. O verso? Tudo quanto ha de mais pro- saico. sem ação. . As personagens? Tudo quanto ha de mais falso. O estilo? Tudo quanto ha de mais empolado. Não: em vez de escolher uma dessas fórmulas teatrais. com as suas paixões descabeladas. muito pouco. cerimonio- so. que dera um passo á frente com os Sus- piros Poéticos. Afim de tornar bem manifesto o seu di- vorcio da corrente literária. nem um melodrama consoante a receita de Pixérecourt e Ducange. o dito de Rivarol: "c'est là de Ia prose. sem vida. Não lhe consente o engenho tomar por modelo qualquer das obras-primas da idade áurea. De modo que Antônio José encerra todos os defeitos do gênero. poderia o autor apelar para* o das multidões. A fabulação? Pueril. a sua preocupação da côr local e do pormenor pitoresco. Justíssima. a cada instante. e nenhuma de suas belezas. Magalhães.

Em Olgiato sobram os vícios literários de Antônio José. Olgiato é represen- tado a 7 de setembro de 1839. " Existe ainda quem diga sentenciosa- mente: "Poetas por poetas sejam lidos. Magalhães comete. Rio de Janeiro (XII — 116. uma atitude. nova tragédia em cinco atos. afinal de contas: uma palavra. Parece não ter sido dos maiores o êxito da peça. Nem João Caetano. por Manuel de Aranjo Porto-Alegre.°). p. Foi construído o segundo so- brado de frente e o frontão sobre o corpo central. Maria da Glória e Ricciolini. 63) passara por modificações. das Obras Completas. Costa. o teto fora pintado por Olivier. A gloria é isso mesmo.54 ALCÂNTARA MACHADO na memória coletiva. um gesto. poetas pot poetas entendidos". que so- brevivem. in 8. p. Teatro Brasileiro. nem Esteia Sezefredo figuram entre os intérpretes. afujentadas pelo Anjo das Belas Artes". A linguagem ensossa. e de outro a rotina e a ignorância. — Olgiato foi publicado em 1841. Cedem a autores secundários os papéis que lhes destinara o autor (2). . por ocasião da reaber- tura do Teatro S. O que salva a obra (1) "O edifício (diz Henrique Marinho. o pano de boca. da versalhada de Antônio José. em que se trans- forma o Teatro Constitucional Fluminense (1). . abaixo do plano da poesia. e também pela pobreza de invenção. (2) Os papeis principais são desempenhados por J. quando não pretenciosa. representava. na tipogra- fia d e F. . de um lado a barra do Rio de Ja- neiro. Reincidindo no pecado. e incluído no volume "Tragédias". Ha ainda quem proclame: "Nasce de cima a corrupção dos p o v o s . Flo- rindo. Pedro de Alcântara. Romualdo. O enredo está fora do plano da realidade. Paula Brito. logo de- pois. As personagens são meras abstrações.

além de vexar o ator que o in- terpretasse (!). Não a produção de Shakespeare. que representa em sua festa artística a tragé- dia. Magalhães declara ter feito a tradução em poucos dias. (1) Tragédias. p. 110 p. escravo de precon- ceitos infantis. e. Magalhães trasladou para o vernáculo outras produções teatraes. . haver excluído da edição de suas tragédias "outras menos aceitas" (2). Que jogo de cena poderia haver com um tigre que ia direito ao crime. "ver-me-ia forçado a dar-lhe o seu torpe e infame caráter. lago se esconde sob a máscara de Pézaro. incomodaria os espectadores (!!) e ve- xaria a moral pública.°). diz ele (1). 255. Em nota introdutória. Além dessa. "Se eu introduzisse Galeazzo em cena". mas a ignóbil ada- ptação de Ducis. com efeito.. de que não ha notícia preci- sa. p. de vergonha. e acrescenta que a peça foi representada muitas vezes em vários teatros do Brasil. GONÇALVES DE MAGALHÃES 55 anterior é a circunstancia de versar assunto nacional. em matéria de arte. de que alar- deara? . Coisa diferente não temos o direito de esperar de quem se revela. o que. a pedido de João Caetano.. . que se vai abeberar num episódio minúsculo da histo- ria de Milão. 255.. Dela se fez uma tiragem em 1842 (Rio de Janeiro. Nem essa atenuante se pode invocar a favor de Olgiato. A seguir.. em que Desdêmona aparece desfigura- da em Hedelmonda. E quereriam os apaixonados da realidade vê-lo assim em cena?" Sem comentários. Diz êle. Tipografia Imparcial de F. Magalhães traduz Otelo. . in 4. Paula Brito. (2) Tragédias.

ba um anno no embaraço e na duvida sobre o seu destino. Em 1838. antes da abertura do Collegio. M. e. M.°. que não tendo até hoje o Governo de V. A ma- téria está incluída nas duas últimas "aulas". como mostra pelo documento juncto. não percebe vencimentos. baixado ordem alguma para qne o suppte. Gonçalves de Maga- lhaens. arbitrando ao mesmo tempo o ordenado qne em Sua Sabedoria julgar correspondente aos trabalhos do . é o despacho ministerial. I. Pede então ao Ministro do Império que designe desde logo a época da abertura do curso e lhe arbitre ordenado compatível com os trabalhos do magistério e as dificuldades dos meios de subsistência na capital do país. Imperial Se Digne marcar a epocha do abertura do curso de Philosophia. Em começos de 1839 procura instaurar um curso para alunos estranhos ao instituto. nem arbitrado o or- denado com que possa subsistir.56 ALCÂNTARA MACHADO SECRETARIO DE CAXIAS Nem só de poemas e tragédias vive o homem. "Na dúvida (1) E' este o teor de um requerimento arquivado na Biblioteca Nacional: "Senhor: Diz D. o que é pior. J. Ma- galhães consegue da Regência a cadeira de filosofia no Colégio Pedro. Collegio de Pedro 2. nos dois anos finais. Reitor. mas o governo em- barga-lhe os passos. vendo-se assim o suppte. depois do êxito retumbante de Antônio José. de modo que o novo professor não tem alunos. que acabava de ser inaugurado. Professor nomeado para o I. entre no exercicio do Magistério. — *• a V. Tudo em pura perda: "a seu tempo será deferido". acorde com a informação do director do colégio (1). e designado para a Cadeira de Philosophia como consta por um officio dirigido ao Revmo. isto é.

(1) Cânticos ps.° Professor já no principio deste anno tentou principiar as suas lições no Collegio e prometteu trazer alumnos externos. 239. a e por isso se percisa deste anno lectivo.. ó Lima. e á difficuldade dos meios de subsistência nesta Ca- pital". 19 e 21. Missão das mais delicadas e difíceis. a for- tuna resolve-se a dar ao poeta a situação por que anseia. que se deve submetter á approvação do Governo. e o qne se lhe segue. Magalhães compõe mais uma tragédia. A um deles. a e l. irmãos daquele que mais tarde imortalizaria o nome de Caxias. Representado o "Olgiato"... Depois se faz perciso qe. ee abrir o curso Filosófico. p. Magistério. desde o ano anterior. Está revelado o motivo por que o então coronel Luiz Alves de Lima e Silva se lembra de levar Ma- galhães como secretário do governo. A redação e a ortografia deste último documento não depõem em favor do sinatário. sabido que a província vinha padecendo. se adopte na Congregação dos Lentes hu Compêndio. quando parte. a Aula e a Filosofia somte. eram amigos íntimos de Maga* lhães (1). em fins de 1839. hu tal curso. — Diz a informação do reitor Leandro Rebello Pxto. (2) Avulsas. Carlos de Lima e Silva e Francisco de Lima e Silva Filho. p a . provavelmente. . se refere o poeta em poema da juventude ( 2 ) : ' E tu. e avulsos. a guerra civil desencadeada pelos "ben- tevis" e agravada pelos "balaios". e Castro: "Não ha Alumnos promptos p a . para assumir a presidência e o comando de armas do Maranhão. cabe na 2. mas o Governo nunca admittio esta classe de avul- sos". O d. GONÇALVES DE MAGALHÃES 57 e no embaraço sobre o seu destino".. poig ainda estão freqüentando as matérias da 3. qne meus versos prezas.

os passageiros se transbordam para o brigue-escuna "Guararapes".. 271. orgulhosos Montes Do Bátavo invasor leitos de morte! A 16 de janeiro de 1840 chega o "S. com o presidente.. a barca tem de buscar abrigo em Vitória (1): Já fumega o vapor no cavo lenho. Luis. e o brigue "Beranger". p. carregado de tropas e munições. Sebastião*1 a Natal. . Sebastião". E luta contra o mar hirto... ao entrar a barra. enquanto que. Magalhães aproveita o ensejo para saudar os montes Guará- rapes ( 2 ) : . perseguida pelo mau tempo. o brigue vai ter a Monte- vidéu. (2) Id* p. Só em 5 de fevereiro aportam a S. o secretário e muitos oficiais. Dias depois. E contra o vento oposto ao nobre empenho. A viagem é acidentada. ó Guerreiro! Tocam depois na Baía e em Recife. Mas. — Arribemos! — Mas onde? — Na Vitória! Bom preságio. dá de encontro a um penedo: Quebra-se a quilha do veloz madeiro. (D Id. Soberbos. Desnor- teado por ventos contrários. 284.58 ALCÂNTARA MACHADO A 22 de dezembro de 1839 saem do Rio a barca de vapor "S. iracundo..

como a sombra ao corpo. infatigavel. ou. Obediente ao exemplo de Caxias. .Igneo vaso.. o exército é nesse momento da história nacional o servidor altivo e não o tutor impertinente do povo brasileiro. foge errante. Ei-lo na Várzea Grande! Ei-lo em Viana! Ei-lo em Caxias! Ei-lo em toda a parte! Com razão se ufana Magalhães de obedecer ao condestavel "sans peur et sans réproche". mais simplesmente. Os soldados são dignos do chefe. Que de rapinas vive.. primeira em- barcação a vapor que singra as águas dos rios da província. no "Fluminense".. que nunca usou da espada para satisfazer ambições pessoais ou para derrubar a falsa fé os representantes do poder legítimo. Vendo-o passar de novo em férrea quilha. Magalhães acompa- nha-o. Eis o Itapucuru cheio de orgulho.. multiplica-se: Ei-lo já no Munim. nessa luta inglória e cansativa contra forças irregulares: Por toda a parte o pérfido inimigo. Caxias. . GONÇALVES DE MAGALHÃES 59 Começa então o pacificador do Império a obra ingente de restauração da ordem.

mas límpida e fresca. n ã o desta Morna e turva de misera cacimba.Água. p. 275. . Da puba mandioca a ruim farinha. . -Dão-lhe a comer apenas A salgada vianda encortiçada. O chão é fresco leito E as patronas são prontos travesseiros. Padecem fome. . Andam maltrapilhos: Lá vão. . Dormem ao desamparo: . . Nada mais desejo. . buscar na aguardente o esque- cimento de tantas misérias: Ha quantos dias Só no hospital se dá como remédio O ardente suco da gostosa cana! (1) Avulsas. e . siquer. só á g u a . tão sujos Qne os andrajos e a pele tudo é lodo.60 ALCÂNTARA MACHADO Tudo lhes falta naquelas regiões inhóspitas. quasi nús. Sofrem sede (1) : . . . coitados. . Não podem.

Com (1) Revolução da província do Maranhão.. presidente da província. e.. Assume em comêços de 1842 a regência da ca- deira de filosofia. Disse-o também numa ode pindárica (2). GONÇALVES DE MAGALHÃES 61 O que foi essa campanha. prova cabal de sua reconciliação com a poética ante-diluviana. sem indicação da tipografia. p. para que fora nomeado em 1838. no colégio Pedro II.. Só três cidades reconhecem ainda a autoridade do poder central. da lição inaugural do curso. (2) Avulsas. passados quatro dias. Trata-se. virtualmente. publicada na Rev. . que terminou afinal com a anistia e a pacificação. do Inst. em que vêm mencionados somente o lugar da publicação (Rio) e a data (1842). e reproduzida nos Opúsculos. Daquele ano é seu "Discurso sobre o objeto e a importância da filosofia" (4). de posse de todo o território gaúcho. Hist. 283. volta o poeta ao Rio de Janeiro. Hist. que renegara nos Suspiros. a tempo de saudar o segundo imperador "no fausto dia de sua coroação e sagração" (3) e de assistir em outubro aos últimos mo- mentos do pai. possivelmente. 1848. de feitio rigorosa- mente clássico. (4) Notas bibliográficas existentes no arquivo do Inst. Em 24 de dezembro de 1842 Caxias é nomeado comandante em chefe do exército em operações no Rio Grande do Sul. disse-o mais tarde Magalhães em excelente memória premiada com a grande medalha de ouro pelo Instituto Histórico em 1847 (1). O governo revolucionário está. Com a demissão de Caxias em maio de 1841. (3) Id. 295. p.

e confia- lhe.62 ALCÂNTARA MACHADO o moral abatido pela inércia dos chefes e pelos re- veses continuados. com que celebra pela segunda vez a gloria de Caxias (1). São desse tempo várias poesias. e a novela Amância (3). 299. 1844. os rio gran- denses do sul fazem-no deputado geral á sexta legislatura. antístrofes e epodos. mais uma vez. com o seu grande amigo na obra* ingente da pacificação. dedicada ao Imperador. E' nessa hora de incerteza que Caxias assume a responsabilidade formi» davel de reintegrar no Império a província rebelada. a exem- plo da memória referente á "balaiada". p. em vez de aproveitar os lazeres de que dispunha para traçar a história da guerra dos Farrapos. de Magalhães. 267-292. inclusive mais uma ode. (3) Publicada na Minerva Brasileira. Magalhães colabora. e reeditada nos Opúsculos. (1) Avulsas. 347-391. ps. 265. p. de Lamartine (2). a secretaria do governo. tenha ele des- perdiçado o tempo em obras de tamanha desvalia. . Lourenço. a tradução da Morte de Sócrates. Pena que. outra. desde janeiro de 1843. NO PARLAMENTO Em recompensa dos serviços que lhes vem pres- tando na secretaria do governo provincial. como no Maranhão. Nem por isso desdenha o comércio das letras. o grosso do exército legal se deixa ficar imobilizado em S. (2) Cânticos. repartida em estrofes. p. Lembra-se.

. 7. em que se apontam os "luzias" de Minas e os "vendas- grandes" de S. GONÇALVES DE MAGALHÃES 63 Ei-lo de novo na Corte. Nunes Machado.. capitaneada por Araújo Ferraz. Al- vares Machado. pre- cisamente na véspera da abertura solene do parlamento (2 de maio de 1846). e os "praiei- ros" de Pernambuco. Paulo. . rebeldes de ontem. recompõe o gabinete de 26 de maio do anno anterior. . mas valorosa patrulha "saquarema". Marinho.. Wanderley. o respeito dos direitos de cada u m . mas não simpatiza com os que pretendem o aniquilamento de seus contrários" (2). Machado d'01iveira. no Senado (14 maio 1846). I. uma reduzida. Paulino. revolucionários de amanhã. juntamente com Joaquim Vieira da Cunh^seu companheiro de bancada (1). Respeita os partidos. Magalhães vai achar na assembléa legislativa como representante de Minas o seu velho amigo Sales Torres- (1) Anaes de 1846.. A figura mais prestigiosa do ministério (só em junho de 1847 será criado o lugar de presidente do conselho de ministros) é Holanda Cavalcanti. . Na Câmara é grande a maioria governamental. Entres aqueles. que. Anuncia-se uma política de congraçamento: "O ministério quer a conciliação de todos os brasileiros. Aceita a colabo- ração de todos. Gabriel Rodrigues dos Santos. (2) Holanda Cavalcanti. onde o encontramos a 27 de abril de 1846. Entre estes. data em que é reconhecido e empossado pela Câmara. Do outro lado. p.

No ano imediato os dois companheiros de ideal insistem em seu propósito: concentram em um só pro- jeto as idéas esparsas nos anteriores (4). 475 e s. pg. Este pronuncia duas alocuçÕes ligeiras: uma. p. para o ensino das letras e dos elementos das ciências. sob o nome de "Liceu Nacional" Só este último entra em discussão. Institue o segundo. de um externato. . Defendem- no Sales Torres-Homem e Magalhães. I. como o título de "ConseUto Geral da Instrução Pública". p. 358 e 373.. para impugnar um pedido protelatório de volta dos papeis á comissão (3). uma junta destinada a auxiliar o governo na organização e direção do ensino em todo o Império. 348.64 ALCÂNTARA MACHADO Homem. (3) Id„ II. I. outro. O terceiro pro- põe a fundação. o irrequieto dom Manuel de Assis (1) Anaes de 1846. O primeiro limita a liberda- de do ensino particular. na Corte. Combatem-no vários deputados. 14. para demonstrar que o projetado externato não virá prejudicar o colégio Pedro II. É das mais discretas a atuação parlamentar de Magalhães durante o biênio (1846-1847). em que tem assento na Câmara. são eleitos pela maioria. Entra com êle nas fileiras dos que apoiam o governo. Em 1846 subscreve três projetos da comissão a que pertence (2). p. (4) Anaes de 1847. para a comissão de instrução pública (1). Tanto assim que ambos. com Muniz Tavares. Ao iniciar-se a discussão. (2) Id.

o da retórica em extratos de Quintiliano. sem entusiasmo. estudo criterioso e documen- tado da miséria. 574. que. (2) W. a inspeção dos estudos secundários entregue ao fiscal da municipalidade.. sem remu- neração bastante. A essa oração'notável pela nobreza do pensamento e pela segurança da documentação. p. dos rudhrientos de gra- mática e do catecismo. o en- sino reduzido á aprendizagem da leitura. em que mal se pode respirar. com 1532 alunos. que faz praça. Rejeitado o requerimento. Acusa o autor do Libelo do Povo de estar (1) Id* II. de providenciar a remoção do lixo e "de velar sobre o ensino das belas letras". é incumbido. 594. e. .. A instrução secundária: o estudo das línguas feito em compêndios sumaríssimos. GONÇALVES DE MAGALHÃES 65 carenhas. para uma população livre de mais de cem mil almas. Sales Torres-Homens faz. o da filosofia pela cartilha do Genuense. da estreiteza de seu espírito e das demasias de sua filáu- cia (2). da escrita.. "mestres públicos*". a gritar o desprezo do Governo por assunto dessa magnitude. p. n. em defesa da iniciativa. deputado por Goiás. a um tempo. assim. A instrução primária: 17 escolas masculinas e 8 femininas. das quatro operações fundamentais. pede o adiamento "sine die". que é a instrução primária e secun- daria na capital do país (1). como sempre. sem prestigio. salas empestadas. Manuel de Assis Mascarenhas. responde d.

66 ALCÂNTARA MACHADO propinando á Câmara lições de fácil erudição... Nada mais se encontra. bem se compreende que lhe repugne intervir nos embates inglórios e mesqui- nhos das facções. em torno de questiúnculas par- tidárias. Em 1846 e sobretudo em 1847 abun- dam os "tamanduás". agarrou-se ao balaústre. fitou os olhos em um alvo. na gíria parlamentar da época. o "tamanduá" de um requerimento de in- formações sobre assunto que nada tem a ver com o interesse público. com referência á passagem de Magalhães pela Câmara dos Deputados. em regra. e é assim que o processo do ex- tesoureiro Lírio. para o desafogo de paixões individuais. Nasce. e com voz rouca recitou um discurso que parecia bem decorado". Tanto basta para que adversários e correligionários do autor do requerimento se sucedam interminavelmente na tribuna. e traça esta caricatura agressiva do colega ilustre: "á maneira de um pregador d'aldeia que vem á Corte pregar algu- mas vezes o seu sermão. Tal o nome piforesco que. não o deixou por mais de uma hora. as qualificações eleitorais de Pernam- buco e outros problemas de igual transcendência ocupam . réplicas e tréplicas. que mereça atenção. se dá ás discussões sem termo e sem proveito. em defesas e ataques. a tentativa de sedição havida na ca- deia de Maceió. É dessa maneira que se costuma ar- gumentar nas assembléas políticas. Espírito delicado e culto.

Tudo em vão: a Câmara se submete ao voto ominoso da outra casa do parlamento (2). em que se não justifica a displicência de Magalhães. 329 e seg. E' de esperar que o apóstolo da nacionali- zação da arte dramática saia a campo em defesa da causa justíssima de seu grande intérprete e amigo. Magalhães é de uma timidez quasi mórbida. (1) Melo Matos. proprietário do Teatro S. Questões se discutem. todavia. por exemplo. A adminis- tração do Teatro S. 692 e s. Páginas de história constitucional do Brasil. Demonstra-lo-á mais tarde. U. Lembra-se a Câ- mara de favorecer com loterias. imparcialmente. Pedro de Alcântara está em luta aberta e despiedada com o creador de Antônio José. . as duas empresas teatrais. É Dias da Mota que verbera o voto do Senado. O caso da subvenção a João Caetano. GONÇALVES DE MAGALHÃES 67 durante semanas e meses a fio a atenção dos legis- ladores (1). de- nuncia a conspiração de ódios mesquinhos e intrigas pequeninas que em torno dele se entretece. Explica-se o mutismo do poeta. (2) Anaes de 1846. ps. Volta á Câmara o projeto assim odiosamente mutilado. Francisco. Mas o Senado aprova uma emenda supressiva do benefício concedido a João Cae- tano. reivindica para João Caetano tratamento igual ao do rival. Baldada esperança: Magalhães não diz palavra. ps.

NOVOS RUMOS Não é o parlamento que o preocupa. Trim. se retrai e emudece. 65. Trim. perante o Instituto Histórico. ps. O mais ardente amor. II. (2) Rev. São outros. É a sua vida sentimental. XLV. São os seus trabalhos literários. que lhe foi companheira insepará- vel (3). memória que a douta sociedade recom- pensa com a grande medalha de ouro. atacado de rijo por José de Alencar. (3) Cânticos. É a sua carreira. p. p. p. lê. entregue ao autor na sessão solene de 9 de setembro. o amor mais puro Que o céu pode infundir num peito humano. Por decreto de 27 de setembro de 1874. Em março e abril de 1847. (4) Urânio. a memória acerca da sedição ma- ranhense (1). o governo resolve nomeá-lo cônsul geral e encarregado de negócios interino no reino das Duas (1) ~Rev. e sempre lhe inspirou (4). 135 e 266. 1. . de que é sócio efetivo desde 1839. 1847. e não êle. Leia-se o prefácio com que abre a segunda edição da Confederação dos Tamoios: nem uma palavra de defesa contra o censor impiedoso. Data desse mesmo ano de 1847 (2) o casamento de Magalhães com a ilustre e virtuosa senhora.68 ALCÂNTARA MACHADO quando. que aparam os golpes e procuram cobrir-lhe o corpo. 198.

Depois. A guerra da indepen- dência encabeçada pelo Piemonte sacode a península. 1850. Aproveita-se. Deve ter chegado a Nápo- les em fins de 1847 ou comêços de 1848. que empolga os espíritos. barricadas. Teresa Cristina. passa a encarregado de negócios efetivo por decr. em luta com o povo. repressão impiedosa: os "suissos" mercenários afogam em sangue a insurrei- ção e castigam pela chacina e pelo saque a burguesia liberal. irmão de D. Magalhães vai encontrar aquele que pas- saria á historia com a alcunha pitoresca de rei Bomba. Quem ocupa o trono vacilante das Duas Sicilias é Fernando II. para voltar ao absolutismo. sen- tindo-se envolvido numa rede impalpavel de animosi- dades. imperatriz do Brasil. de 27 de Set. logo após. reintegrando-o assim na diplomacia de que fora afastado em 1836. e o tirano a tremer diante do povo. a propósito da fórmula do juramento. Fernando II promete em janeiro de 1848 e outorga em fevereiro seguinte uma constituição. os desterros. (1) Exonerado do consulado geral pelo decr. de 14 de novembro de 1851. Prisioneiro do pavor. a eterna história: o povo a tremer diante do tirano. porém. Arruaças. Sob a pressão do movimento liberal. GONÇALVES DE MAGALHÃES 69 Sicilias (1). Fernando II se refugia nos palácios de Gaeta e de Caserta. do incidente suscitado numa sessão preparatória da câmara dos deputados. A rebelião da Calábria e a insur- reição da Sicüia são de ontem. os confiscos. . que multiplica as prisões.

quando. 37. que me lançaste. . Em Nápoles o poeta recebe a notícia do falecimento de sua mãe (1) : De ti tão longe. p. chorando.70 ALCÂNTARA MACHADO Não deve ser das mais agradáveis a vida nessa côrte secundária e pobre. A benção receber. Por mim chorando no aflitivo lance. Está a concluir o trabalho. p. (2) Id. do remo das Duas Sicilias para o da Sardenha. Não é só: a morte arrebata-lhe também dois filhi- nhos. Em outubro segue de Nápoles para Turim. Sete anos leva a conceber e polir os dez cantos da Confederação dos Tamoios. 334. Domingos e Luís (2). como encarregado de negócios efetivo. Magalhães se entrega á compo- sição da epopéa de assunto nacional. 105 (3) Avulsas. De joelhos. Para se consolar ou para encher o vasio da exis- tência de diplomata. ante teu teu leito. afim de assumir a chefia de nossa representação junto a Victor Emanuel II. desditoso filho. é remo- vido. (1) Cânticos. Não me foi dado. em que o rei se esconde como um animal feroz no fundo de uma caverna. p. com que vem sonhando desde 1832 (3) e em que põe toda a espe- rança de imortalidade. por decreto de 12 de junho de 1854.

com o seu cheiro de floresta virgem. Pouco importa: os sentimentos que ex- primem são nossos. com a sua musica barbara de maracás e de borés. em que pontifica o Imperador. Fora da igrejinha literária. a edição comum saiu da mesma tipografia em 1857. com o seu gosto vio- lento de fruta do mato. 0 acolhimento não corresponde á espectativa. "A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOIOS" Demora-se no Rio de Janeiro até meia dos de 1855 (1). Chega com o atraso de um século. e bem nosso. GONÇALVES DE MAGALHÃES 71 Pouco tempo se detém na capital do rei "galan- tuomo". o ritmo brasileiro. Nada mais justo. Regressa á Europa antes de publicado o poema. Podem ser falsos os índios do Y Jucá Pirama. a língua que falam. 1856. . o livro é recebido friamente. De fato. c ) .. o que é mais. desembargadores ou mesteirais mais ou (1) Manuscrito no arquivo do Instituto Histórico (2) 340-19 in foi. chega depois de Gonçalves Dias ter inventado. ansioso por submeter ao juízo do imperador o poema que vem de terminar. Ao que informa Artur Mota (1. só no curso do primeiro semestre do ano seguinte sai dos prelos de Paula Brito a edição imperial (2). E. embarca de regresso á terra natal. Obtida uma licença. para cantar os homens e as coisas do Brasil. Aqueles que fingem de bugres na epopéa carnavalesca-de Magalhães revelam á primeira vista o que são na verdade: são todos eles por- tugueses de lei.

como um tronco Despido. enfeitados de penas de arara e tintos de genipapo. Dos meus abandonada. de que fala Macaulay. Deram-lhe a escolher como pena a leitura de Guicciardini ou as ga- lés. inútil no alto da colina. em que se conta a guerra de Pisa. fizeram o delinqüente mudar de opi- nião e tomar do r e m o . Haverá verso mais pedregoso do que esse? Mas a tirada de Iguassu contém outras belezas: Porque tão cedo. para que se avalie o que vale o resto. . A que os ramos quebrou Tupan co'a trecho. Não sei se existe por aí quem tenha tido o heroísmo de ler os dez cantos da "Confederação". hoje raiaste? Porque flamejas como acesas brasas? Bastam as duas amostras. Confesso que desanimei logo no principio. figuram entre as coisas mais louváveis da epopéa os queixumes do Iguassú. três versos que Paulo Prado não ae . Mais do que depressa o homem se decidiu pelo historiador. Lembrei-me daquele cri- minoso italiano. Antônio de Alcântara Machado teve a pachorra que me faltou. no teste- munho de Silvio Romero. Mas as paginas compactas. que aí ficam.72 ALCÂNTARA MACHADO menos acacianos. tomadas ao acaso em um dos "melhores" pedaços do poema. . entre inúmeros. Imaginem que. ó sol. e a bu- gra usa desta linguagem: Só eis-me aqui no cimo da montanha. O resultado foi esta página: "Ha no poema.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 73

cansa de saborear. Com razão. Encontram-se no canto
V. Jagoanharo vai de canoa a S. Vicente, a mandado
do pai, procurar o seu tio Tibiriçá. Encontra um Tibi-
riçá católico e português. Trava-se entre os dois qui-
lométrico diálogo, que é das coisas mais cômicas que
eu conheço em literatura. Tibiriçá faz ao sobrinho as
honras da vila. E é então que Magalhães põe na sua
boca estes versos fantásticos:
Vês tu aquela casa? Ali habita
0 português Ramalho, que é meu genro.
Has de vê-lo, e a mulher, e os meus netinhos.

Formidável. Formidável. Formidável.
E aquele episódio do canto sétimo então? Aim-
bire e Parabuçu incendeiam a casa de Brás Cubas. Braz
Cubas foge pela janela. Aimbire "pronto o aferra" e
vai matá-lo, quando
Mal envolta numa alva de dormir (!),

Surge a filha do desgraçado, pedindo perdão para
o pai. O lance é comoventíssimo. Diante da "gentil
menina" Aimbire titubeia. Depois,

Grata lembrança se lhe aviva n'alma,
Como um raio de luz em céo trevoso.

Deixa cair o tacape. E, o que é pior, estas pala-
vras:
Maria! (exclama)
Pobre Maria, és tu?

74 ALCÂNTARA MACHADO

E Magalhães, diante de tão sublime gesto e tão su-
blimes palavras, sai-se com esta tirada:

Outros heroes, mimosos da fortuna,
Por altíloquos vates celebrados,
Nunca, brandindo da vingança o ferro,
De tão grande piedade exemplos deram.

Ainda e sempre formidável"

Contra o poeta oficial, de fardão e chapéu armado,
que tenta ressuscitar, em pleno domínio romântico, as
fórmulas arcaicas, investe José de Alencar, e faz muito
bem. Ao invés do que dizem os historiadores de nossa
literatura, as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios
(1), publicadas por Alencar em julho e agosto de
1856 no Diário do Rio, sob o pseudônimo de Ig, re-
presentam obra de justiça implacável, mas necessária.

A repercussão desses estudos críticos é imensa.
Como Heitor derrubado por Ajax, Magalhães se vê co-
berto pelos escudos de seus companheiros. Surgem as
respostas nas colunas do Correio da Tarde e do Jornal
do Comercio. Quem levanta a luva primeiramente é
Araújo Porto-Alegre, sob a máscara de "o amigo do

(D Reunidas, logo a seguir, em volume com o mesmo
titulo.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 75

poeta*' (1). "Outro amigo do poeta", que é o pró-
prio Imperador, não hesita em descer á liça, para de-
fender "a ação praticada pelo monarca", ou seja o fa-
to de ter editado o trabalho (2). Por ele incita-

(1) O primeiro artigo foi publicado no Correio da Tarde,
a 23 de julho de 1850, sob a epígrafe: "A confederação dos
Tamoios. Breve resposta ás cartas do Sr. Ig. no Diário do Rio".
O segundo, a 28 de julho: "Ainda uma palavra ao sr. Ig. do Diário
do Rio". O terceiro, a 31 de julho: "Mais uma palavrinha aos
críticos" No primeiro o amigo do poeta desfere contra Alencar
esta seta envenenada: "O homem despeitado e sem coragem fere
o protegido por não ousar ferir o protetor. Nem todos, sr. crí-
tico, tem a dextreza de Guilherme Tell"
(2) Quatro artigos publicou o Imperador, sob o titulo
"Reflex3es ás cartas de Ig sobre a Confederação dos Tamoios";
e mais duas intituladas, "Resposta ao artigo das Folhas Soltas"
e "Resposta ao 2.° artigo das Folhas Soltas", qne era o nome da
secção do Diário do Rio, em que Alencar escrevia. Esses artigos
sairam no Jornal do Comercio de 4, 11, 15, 21, 23 e 24 de Agosto
de 1856. Eis o começo do primeiro, em que o articulista pro-
cura cautelosamente disfarçar a própria identidade: "Ocupava-
me tranqüilamente com as minhas obrigações, quando me deram
a ler as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, assinadas por
Ig. Não desgostei de seu título, e as censuras me abateram;
mas não deparando senão com um ou outro louvor a certas
passagens do poema, assaltou-me a curiosidade de examinar se
os Suspiros Poéticos que tanto me agradam tinham sido os úl-
timos do poeta. Procurei o poema, obtive-o enfim, com algum
custo ( ! ) , pois só ha pronta a edição imperial, e, estudando-o,
assim como a crítica, julguei dever apresentar estas reflexões
ainda que escritas com pena mal aparada: sigo a ordem das
críticas" E termina por chamar á ordem Araújo Porto Alegre,
que tão imprudentemente descobrira a coroa no ""tópico precitado:
"Quizera conclnir aqui este mesquinho trabalho, cujos defeitos
poderão ser desculpados, atentas as minhas obrigações e a pouca
prática das polêmicas literárias; mas tenho ainda que pedir ao
meu companheiro do Correio da Tarde (pois também sou amigo
do poeta) que me permita queixar-me do modo por que invoca
a proteção de uma pessoa que todos respeitamos, não so se

e depois em Trabalhos oratórios e literá- rios de fr. Soares de Azevedo (3). Francisco de Monte Alverne. . obedecer àquele que tem um império absoluto sobre o meu coração e sobre o meu espírito". com o aspecto bri- lhante dos céo8. quando o brilho da imaginação está extinto. e de um peso tão esmagador. com a frescura e colorido das flores. Se se apresenta em cam- po quem tanto espero ansiosamente.. quando o coração confrangido com os pesares e as provações mais dolo- rosas só exala gemidos e as expressões de mágua. Paranapia- arriscando a comprometê-la em questões a que está sobranceira como também parecendo desconfiar da justiça da sua causa. não quereria que o Ig se empavonasse mais descobrindo um único amigo do poeta". E" mister. Rio 'Be Janeiro. quan- do o meu cérebro está reqneimado com fadigas literárias. o reconhecimento do mérito real do poema. 1856. qne priva o crítico desta expressão da alma e da confiança que lhe deveria ministrar a conciencia de seus meios e de suas forças. depois qne este for lido com calma.. 59-113 . fazendo realçar as be- lezas da Confederação dos Tamoios. de que destacamos alguns tópicos: " .. visto que apenas responde ás acusações. Macedo. a análise e a crítica da produção literária de um dos nossos mais belos gênios torna-se de uma dificuldade tão manifesta.. p. Talvez seja ocasião de uma pena florida escrever alguns artigos. .. literárias e filosóficas acerca da Confederação dos Tamoios. (1) No arquivo do Instituto Histórico se encontra tuna carta' autografa. sem data. no Jornal do Comercio. Tenho me achado qnasi que isolado. J. de 23 de dezembro de 1856. é muito provável qne o "Outro amigo do poeta" ainda pegue na pena para conversar agradavelmente. novos advogados aparecem: Mont'Alverne (2). porém... o Ig deseja agora qne lhe apresentemos as belezas do poema. talvez superiores ás minhas forças físicas e mesmo á minha capacidade. será o único elogio completo do poeta. e da ação praticada pelo monarca amigo das letras''. coligidos por Câ- mara Bittencourt. 1857.76 ALCÂNTARA MACHADO dos (1).. e não e possível rea- nimá-la com os quadros da natureza visivel. (2) Considerações críticas.. de Pedro II ao Visconde de Sapucaí. Lê-se no preâmbulo: "Na posição excepcional em que a Providencia me colocou..e. (3) Na Revista Brasileira.

animam os grupos que se formam na praça Carignan.. Em torno do "re galan- tuomo" e de Cavour se congregam. com o seu faro das . ao mesmo tempo que elementos inferiores. políti- cos animam os salões da aristocracia liberal. TRABALHOS VÁRIOS Enquanto. economistas como Scialoia. depois das sessões do parlamento. Tudo em vão. homens de letras. Quando Magalhães chega de novo a Turim. profissionais da revolu- ção. GONÇALVES DE MAGALHÃES 77 caba. o povo rejubila com a tomada de Sebastopol. Vinte mil pie- monteses acabam de bater-se. pensadores. deste lado do Atlântico. antigos e mo- dernos brigam por sua causa. Magalhães se conserva sossegadamente na capital piemontesa. e. historiadores como La Farina. e filósofos como Tommaseo. professores. Homens de es- tudo. Vittório Emanuele está de partida para cobrar pessoalmente de Napoleão III e da rainha Victória o preço da coopera- ção que acaba de prestar-lhe. sujeitas ao jugo de governos reacionários ou estran- geiros. ao lado das tropas fran- cesas e inglesas contra o império moscovita. demagogos de botequim. Por esse tempo Turim é o ponto de reunião dos mais altos espíritos da Itália.. emigrados volun- tária ou compulsóriamente das outras regiões italianas. A sentença lavrada por Alen- car foi confirmada pela posteridade.

na próxima conferência da paz. (2) Paris. Fatos do Espirito Humano. encontrá- mo-lo nesta dedicatória "aos pais que perderam os fi- lhos": (1) Cânticos. Chancelle. p. Rio). 35 e 36. Incluído» posteriormente no Cânticos Fúnebres. 1857. Em 1857. Em fins de 1858. volume de elegias. Petesburgo. para que se reconheça ao Piemonte o direito de falar em nome da Itália. Pari». 1858. par a par com as grandes potên- cias. L. d e Rignoud.°. é de 1865 (B. in 8. Em Turim. Cavour prepara o ambiente necessário. Magalhães aproveita os lazeres para concluir e publicar dois livros.78 ALCÂNTARA MACHADO oportunidades. 104 p. com este sub- título: Filosofia (3). com esta sub-epígraie: "Cântico fúnebre á memória de meus filhos (2). traduit du portugais par N. (3) A primeira edição é de Paris. 1859. Imp. Garnier. A segundi e última impressa em Viena (Imperial e Real Tipografia). . Librairie d'Auguste Fontaine. Por decreto de 6 de fevereiro desse ano é removido para S. onde tem a desventura de perder mais um filhinho (1). o diplomata permanece até começos de 1857. Em Os Mistérios a letra e o pensamento são de po- breza franciscana. P. Não deve ser das mais trabalhosas a representação do império sul-americano junto ao tzar Alexandre II. 105. Passage des Panoramas. Os Mistérios. Nenhuma dessas obras dá lus- tre maior ao nome do escritor. Ha uma versão francesa: Faits de Vesprit humain. O tom do livro inteiro.

Ouçamos a palavra serena e insus- peita de Leonel Franca (1). farta de dores. em que foi educado (2).. 240 e seg. possa a Fé secar o pranto vosso E mostrar-nos no ceu os caros filhos. assim resume o je- suíta as suas impressões: "Em todas estas idéas. se a fé não vem dourá-la. não passa de um retórico. Franca. que chorais ainda! . sem ideas claras e seguras: começa por tentar uma conciliação impossível entre o sensualismo e o es- piritualismo cristão.. Cousin. (2) L. Depois de passar em revista as opiniões do autor acerca da natureza do ho- mem e da origem do conhecimento. tristes mães.Comigo meditai nesses mistérios Da existência fugaz. quando de sua primeira viagem á Europa. e termina por adotar o ecletismo de V. . ne- nhuma novidade para o historiador da filosofia*". p. GONÇALVES DE MAGALHÃES 79 Tristes pais. Mont'- Alverne. dados os defeitos da formação filosófica de Magalhães. a quem a morte Os dias enlutou. ímpia roubando Os caros filhos. não ajuize- mos de seu mérito pela crítica de Silvio Romero. em quem inicia os estudos. Quanto aos Fatos do Espírito Humano. Res- (1) Noções da historia da filosofia. sem repudiar inteiramente as concepções de Condillac. Balda de bens.. Depois. 1. Estuda en- fim a obra de Cousin e talvez a de Malebranche. Ah. Magalhães freqüenta o curso de Joufroy no Colégio de França. sempre eivada de paixão. c.. Nem seria licito esperar coisa diferente.

parti- cularmente no Brasil" (1). Madríd ao cabo de poucos meses. era a êle. por decreto de 7 de maio de 1859. indigno discípulo. em os primeiros dias de dezembro de 1858. então governada por Isabel II. Em 9 de dezembro de 1858 vai Magalhães. ps. 1858. realismo. Magalhães não se recusa ao cumprimento desse dever. p. (2) Opúsculos. se esti- vesse aqui o Magalhães. Trim. Nada que nos au- torize a conferir-lhe as insígnias de pensador. De 1859 é a me- lhor de suas obras de prosador: a biografia de Mont- Alverne (2). porém. promovido. Magalhães continua a trabalhar. Espiritualistas brasileiros do «• culo XIX (artigo no "Estado de S. qne per- tencia este devido testemunho de gratidão e de sau- dade. Quando este baixa á sepultura. 305-322. o continuador de sua doutrina. Tudo quanto revelam os seus ensaios filosóficos é uma cul- tura "não de todo desprezível naquele tempo. Deixa. as produções que nos deixa. O direito de honrar a sepultura do mestre e do amigo pertencia ao autor dos Fatos do Espírito Huma- no" (3)..80 ALCÂNTARA MACHADO sentem-se de todas essas influencias. idealis- mo. a ministro residente em Viena onde se conserva cerca de oito anos. . dele se despede Araújo Porto-Alegre com estas palavras: "Ah. Paulo"). em páginas notáveis pela correção e (1) Almeida Magalhães. para a Espanha. e não a mim. (3) Rev. ainda no caráter de encarregado de negócios. 501. ontologismo. Nenhuma contribuição original lhe devemos. XXI. e.

Algumas dessas composições podem figurar. intituladas Urânia (2). no gênero. Urânia. evidentemente. colhidas durante a estadia de Magalhães em Nápoles indicam que os napolitanos se sangravam á menor aflição ou contra- riedade. constitue o anagrama da mu- lher querida (3). Isso. afim de acudir aos casos de urgência. (2) Viena. E' de 1862 uma coletânea de poesias líricas. . de época muito anterior á publicação. toda- via entre as menos imperfeitas. p. que nos legou o autor dos Suspiros Poéticos. destinado "a rehabilitar o elemento indígena que faz parte da popu- lação do Brasil". diz êle. Desse livro e dos subsequentes disse cruelmente Franklin Távora: "revelam apenas o cansaço de um laborioso espírito chegado àquela estância que se aproxima do repouso final". (1) Rev. Imperial e Real Tipografia. O trabalho se lê ainda hoje com agrado. dos mais bem acabados. B. Sangradores havia em todas as ruas da cidade. Duas anedotas. O paralelo entre Mont'Alverne e Sam- paio é. São. para que se lhes não fermentasse a bile e azedasse o sangue. por exemplo. traça um perfil muito interessante do velho professor. 1860. Mas o poeta não se decide a abdicar. Trim* XXIII. GONÇALVES DE MAGALHÃES 81 pela sobriedade. 1-66. 1862. L. Data do mesmo ano o ensaio intitulado Os indí- genas do Brasil perante a história (1). (3) Januária. Garnier.

. Onde a estrada mais se estreita.. . .82 ALCÂNTARA MACHADO Assim. Onde o vale forma um seio. Do outro lado se levanta Um monte que as nuvens toca. O sitio é passada a fonte que o nome tem de Rainha. E logo a vista devassa De casas uma fileira. Onde em grupos de palmito Geme a cândida araponga. Magalhães descreve o arrabalde pitoresco da cidade natal. Das duas fontes em meio. Quem não conhece e não ama O vale das Laranjeiras? . 271. O sabiá nele canta Ao murmúrio do Carioca. Ha uma entrada á direita. . Pequena ponte se passa Á sombra de uma mangueira. . Grato perfume o embalsama De seus jardins em ladeiras. (1) Urânia. as primeiras quadras. em que reside a namo- rada (1): Alto monte de granito Ao lado erqnerdo se alonga.. leves e espontâneas de As Laranjeiras. . p.

. Fogueiras. De alcatrão. Cometas fulminantes. É um inferno festejando um santo Propício aos fogueteiros. pede o poeta. para can- tar os transes. A casa não corresponde' Ao belo ideal que encerra: Assim ás vezes se esconde O diamante na terra. De que cheias estão ruas inteiras. uma se vê. . Ei-lo que salta . "Venha pena e papel. barris queimados. . Dali massos estralam de foguetes. . .. a cidade flamante. . Daqui rolando estoura hórrida bomba.. .. De tanto fogo e fumo arrepiado Vinha o meu palafrem nitrindo e afiando. sempre entrando'. venha um tinteiro". "A noite de S. como êle. "mon- tado em trêfego ginete". "até aquém do Catete"... GONÇALVES DE MAGALHÃES 8*3 k direita. Igneas rodas suspensas das janelas. Quando imprevisto buscapé danado Tornou o caso infando. João" denuncia no poeta oficial e solene um caricaturista bem humorado.. . . tem de atravessar. a do canto. por que passa quem.

L. Garnier. mas qual! Mais corcoveia E atrás me traz aos trancos. quer voltar. a edição completa de suas obras. O bruto Como um corisco zune. e rompe os ares E aqui chego ex-abrupto! . Firme na sela. Basta para adoçar-me que me ofreças Um Tolête de cana.. Puxo as rédeas... sendo seis em verso e os outros em prosa. MISSÕES DIPLOMÁTICAS Depois de Urânio.Fincando nos ilhais os calcanhares.84 ALCÂNTARA MACHADO Ei-lo se engrifa. aos quais talvez possa acrescen- tar alguns mais.. se Deus me der vida e vagar para con- . Premo-lhe os flancos. de acordo com o desejo manifestado por B.. saído á luz em 1864). "Constará esta edição de oito volumes (diz êle na advertência posta á frente do primeiro. Mas é bem superior ás elegias sopo- ríferas dos Mistérios e aos versos enfáticos e difíceis da Confederação.. arrifa e pinoteia. Do meu arrojo um prêmio não me teças Láurea c'rôa. Recua. qne perco a tramontana. . não abdico. Não é muito. Magalhães resolve fazer.

a chegado das tropas a Nicolsburgo. Está em Viena. Tragédias (1865). IX. As Obras completas. por esse tempo. sem humilhações inúteis. III. a invasão da Moldávia. Pedro II resolve apro- veitá-lo em missão de maior delicadeza e gravidade. que acabam de ser vencidos? Rein- tegrá-los rapidamente. de onde ameaçam a capital de Francisco José. IV. com os problemas criados pela guerra de seces- são. VII. . GONÇALVES DE MAGALHÃES 85 cluir alguns trabalhos já começados. Urânia (186) . Fatos do Es- pírito Humano (1865). Antes de terminada a luta. no gôso das prerrogativas constitucionais. a mu- tilação do império austro-húngaro. Por decreto de 9 de março de 1867. Opúsculos Históricos e Literários (1865). acompanhando a impressão des- ses trabalhos. Suspiros Poéticos e Saudades ( 1 8 6 . VIII. . Como restabelecer as relações entre a União e os Estados dissidentes. Cânticos Fúnebres (1864). A Alma e o Cérebro (1876). assiste as pe- ripécias do conflito armado entre o Brasil e o Para- guai. V. ) . com o coração oprimido. . compreendem nove volumes: I. Magalhães é no- meado enviado extraordinário e ministro plenipoten- ciário nos Estados-Unidos. O povo norte-americano está a braços. Poesias avulsas (1864). e. II. advertência. De longe. em que vou en- chendo o resto desta cansada existência" (1). como irmãos transvia- (1) — Avulsas. publi- cadas de 1864 a 1876. quando rebenta a guerra fabricada por Bismark para assegurar a hegemonia prussiana: su- cedem-se o desastre de Sadowa. com a paz de Praga. A Confederação dos Ta- moios (1864) : VI.

A prova (D Elson. em fevereiro de 1868. com certeza. vindos de todos os pontos do país (1). Afinal. Durante vários dias a acusação e a defesa se empenham em torneios memoráveis.86 ALCÂNTARA MACHADO dos e arrependidos? Ou tratá-los como presa de guerra como províncias reconquistadas. Magalhães. As galerias do Senado regorgitam de representantes diplomáticos. p. Hist. acusa- do de "high crimes and misdemeanors". altos funcionários. 1930. assume o governo Andrew Johnson. o plenipotenciario do Brasil. Por um voto ape- nas de maioria. como réus de crime sem perdão? Depois do homicídio de Abraão Lincoln. . representantes de todas as classes sociais. como êle. de uma política de esquecimento e de clemência. des Etats-Unis. 803. se desempenha com zelo de manter a cordialidade das relações entre os dois países. em 16 de maio começa o julgamento. partidário. Mais de dois meses consome o desfile das testemunhas. repelem o plano de re- construção iniciado pelo presidente e põem em execução um projecto violento e implacável. Lá está. até qne. Mas a Câ- mara e o Senado. Inicia-se o pro- cesso em 5 de março. O conflito entre os dois poderes se vai agravando dia a dia. Johnson é absolvido. para apreciar esse espetáculo inédito e empol- gante. capitaneados respectivamente poi Summer e Thaddeus Stevens. a Câmara resolve promover perante o Senado a responsabilidade de Andrew Johnson.

por decreto de 18 de julho desse anno. Estamos a pique de uma guerra com a nossa abada da véspera. De Washington vem Magalhães para igual posto em Buenos Aires. Um estadista do Império. se reunirá em Genebra. p. GONÇALVES DE MAGALHÃES 87 da eficiência de seu trabalho. Magalhães. II. com a vinda de Mitre e a assinatura do acordo de 19 de dezembro de 1872. já então distinguido com o título de barão de Araguaia. têmo-la nesta circuns- tancia eloqüente: quando em 1871 os Estados Unidos e a Inglaterra se decidiram a submeter o arbitramento a questão do "Alabama". . "partida diplomática que será um verdadeiro jogo de esconder e durará bem oito annos" (1). em Buenos Aires. O decreto de nomeação traz a data de 15 de abril de 1871. cuja presidên- cia iniciada em 1868 só terminará em 1874. na liquidação das pendên- cias territoriais entre a Argentina e o Paraguai. com a assi- natura em separado dos tratados de paz com o Para- guai. as duas nações deferem ao Im- perador do Brasil a indicação de um dos membros do tribunal que. para resolver o dissídio. Não é das mais fáceis a missão que lhe cabe de- sempenhar junto a Domingos Sarmiento. 278. é encarregado da missão especial de representar (1) Nabuco. Sabe-se por muito quanto tempo despendemos e quantos pre- cipícios andamos beirando. a re- percussão do gesto audacioso de Cotegipe. É Magalhães que agüenta. Resolvida a crise.

.88 ALCÂNTARA MACHADO o Brasil nas negociações. por decreto de 25 do mês seguinte. passa de barão a visconde com grandeza. e. ás ordens do primeiro Rio Branco. Tanto basta para demonstrar a delicadeza excep- cional da situação do diplomata brasileiro junto ao Sumo Pontífice. frei Vital e d. em 1876. Da inteligência e do tacto. com que se ha Magalhães no cumprimento desse encargo deli- cado. A liquidação. dois príncipes da Igreja. a que foram condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça. um na forta- leza de S. Quando o visconde de Araguaia apresenta as cre- denciais a Pio IX. que se vão reencetar na ca- pital paraguaia. será feita mais tarde. dão conta minuciosa os relatórios contemporâ- neos do Ministério dos Estrangeiros. quasi si- multaneamente. Magalhães é acreditado junto á Santa Sé. acham-se. João e outro na da ilha das Cobras. na qualidade de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário. que Araguaia não pode concluir. em que lhes foi comutada a de prisão com trabalho. em 10 de junho de 1874. "» ÚLTIMOS ANOS Antes disso. Em boa hora vem facilitar-lhe a missão a anistia de 1875. ex- piando a pena de quatro anos de prisão simples. Antônio de Macedo Costa.

que em nada contribuem para a gloria do missi- vista. lhe tenham acudido á memória aqueles versos de Antônio José-. Morrer.. que mereça menção.. com pouco me- nos de setenta anos. Na parte negativa está.. Desta nenhuma página existe. a dois passos do trânsito su- premo. e Comentários e Pensamentos. do sensualismo de Condillac e do materialismo. 1880. ha uma apreciação da frenologia de Gall. muito frio ou muito calor). falece o visconde de Araguaia. GONÇALVES DE MAGALHÃES 89 Magalhães pode então voltar ás suas preocupações filosóficas. São de uma chateza. Morrer. pára Leonel Franca. Bem pode ser que. Naquela. a parte melhor da obra filosófica de Magalhães (3). em 1880 (2). Fratelli Pallita. Tip. Em Roma. da saúde das pessoas da família . varias cartas íntimas de Magalhães a Porto-Alegre. As duas últimas obras que lhe saem da pena são A alma e o Cérebro. Forzani & C . (3) A Revista da Academia Brasileira (1934) publicou. de uma aridez. de um terra a terra simplesmente incríveis: noticias do tempo reinante (muita chu- va. que se dignou "ou- vir a leitura de alguns capítulos" e animou o autor a concluir o trabalho. Tip. em 1876 (1). em seu epistolario acadêmico. dedicada ao Imperador. a 10 de julho de 1882. Quem sabe o qne é a morte? Porto de salvamento on de naufrágio? (1) Impresso em Roma. (2) Roma.. 1876.

o papel que. — Qne acabem co'as serrazinas. — Vida nova e nova vida! — Venha a alegria do céu — Com esse anjinho mimoso — Que a Providencia te dep" Lamentável. porque sem decliná-lo ninguém poderá traçar a historia do pensamento na- cional. A gran- deza dos ideais que o inspiravam.. a menos que se dê o nome de poesia a esta» quadras inqualificáveis. E. do novelista. . a coragem e por veses a galhardia com qne abordou todos os gêneros. que desde então começa a distinguir-se da portuguesa".. nada. em matéria de literatura. abso- lutamente nada. a obra do poeta. do filó- sofo tenha mais intenções do que realizações. —• Pela sala passeando. — A Mãe cuidados mais sérios. Reconhecem-no os moços de hoje como Ronald de Carvalho e Mota Filho. e dos prejuízos que lhe deu o procurador na adminis- tração de seus b e n s . — Distração tem as meninas. fabricadas em homenagem ao nascimento de mais uma filha do compadre: "Tens um nenê que te alegre — A quem embales cantando.90 ALCÂNTARA MACHADO O naufrágio. . seria o es- quecimento. o desejo constante de enobrecer a vida. . . do crítico.. a pe- quena vai m e l h o r . . ) . — Suspendendo-o nos teus braços. embora contra (caiu a comadre doente com febre em conseqüência de um forte resfriado. uma tosse catarral não me deixa repousar. Pouco importa que. o seu nome vive ainda e não morrerá tão cedo. fecunda em abortos.. o culto ardente das coisas da inteli- gência. do teatrólogo. — Tem o Inácio com quem brinque. que enaltecem "o empenho de Magalhães em prol da libertação literária do Brasil". representante da geração que lhe sucedeu: "influiu poderosamente na formação da literatura brasileira. Entendia assim José Veríssimo. para um homem como êle. Passados cincoenta anos. das chegadas e partidas de amigos e com- patriotas.

GONÇALVES DE MAGALHÃES 91 a sua vontade e ao arrepio de suas convicções mais radi- cadas. . fazem de Magalhães um dos valores de nossa aristocracia espi- ritual. desempenhou no movimento romântico.

1844. 35. na Rev. 1841. 255-256. Paula Brito. D. I. Tipografia de F. Paula Brito. Amancia. . 1832. Revolução da província do Maranhão. Rio de Janeiro. Discurso sobre o objeto e a importância da filosofia. do Ins- tituto Histórico. 1844. 1836.92 ALCÂNTARA MACHADO NOTAS BIBLIOGRÁFICAS . I. 2. 1839. Paris. p. na Revista Brasileira. Segunda edição: Paris. C. Trim. Debret. Paris. ' Episódio da infernal comedia ou Viagem ao Inferno. revista brasiliense. Rio de Janeiro. Pedro. • Antônio José. . J. na Revista Universal Brasileira. de Monteznma. Otelo ou o Mouro de Veneza. 1859. por occasião da visita que se dignou fazer á província de S. a serie. Passage des Panaromas n. p. no Independente.Ode pindarica. Daurin et Fontaine. 1845. p.Ode maçônica recitada no ato da inauguração do novo templo. Rio de Janeiro. 1833.Filosofia da religião. Rio de Janeiro. na rua do Fogo. Ortografia da língua portuguesa. Porto Alegre. IV. por D. Rio de Janeiro.Suspiros Poéticos e Saudades. de J. de M. de Ogier.a fase. Tip. — Discurso sobre a historia da literatu- ra do Brasil. M. 1842. Canto da do Sabão. . 1842. . 2. em Niterói. Ode a S. 1836. e "A liberdade das republicas". A origem da palavra. — Notas bibliográficas sobre "Voyage pittores- que et historique ao Brasil". p. Era Ma- çônica 5835. 1847-1848. Olgiato. 263 e s. 1848. o Imperador Senhor Dom Pedro II. na Minerva Brasileira. Inferno.Poesias. Comercio e Arte (publicada no Ritual Maçonico. . p. 377. Tipografia Im- perial de F. na Minerva Brasileira. Tipografia Ogier. 267-292. Tipografia Henrique Plon. ou O Poeta e a Inquisição. da L. 1836. Rio de Janeiro. 37). O poeta infeliz.

1876. Poesias avulsas. Id. — I. Tragédias (Antônio José. Obras completas. Imp. Vienna. Olgiato. oferecida ao Instituto Histórico. 186 . Imperial e Real Tipografia. 1865. Maio e Novembro de 1934. 186. — VII. Urânia. Segunda edição: mesma tipografia. O pavão. Comentários e pensamentos. Urânia. Suspiros Poéticos e Saudades. Tipografia Paula Brito. Cartas de Gonçalves d e Magalhães a Porto Alegre. na Rev. Id. 1857. 1864. 1865.. 1856 (edição imperial). 1859. 1857. Fez-se uma tiragem em separado (Rio. . Biografia do Padre-Mestre Frei Francisco de Mont'Alverne. Vienna. 1880. Roma. Filosofia da religião. Forzani & C. — VIII. 186. Dis- curso sobre a historia da literatura do Brasil. na Revista Popular. 3 (1860). 1860). Rio de Janeiro. — V. Id. Hino dos Bravos). GONÇALVES DE MAGALHÃES 93 A Confederação dos Tamoios. 1864. Porque envelhece o ho- mem. A alma e o cérebro. — III. Paris. Cânticos Fúnebres. Imperial e Real Tipografia. . Opus- cutos Históricos e Literários (Revolução da província do Maranhão. 23. Os indígenas do Brasil perante a historia. Id. Ode a Dante. Trim. p. Roma.. 186. de Rignoud. tomo XIV. — II. Os indígenas do Brasil perante a historia. na Revista da Academia Brasileira. Amancia. Biografia de Mont'Alverne. — IV. Paris. Terceira edição: Coimbra. Id. 1864. — IX. Id. A velhice.. Otelo'. Id. A Confederação dos Tamoios. Os Mistérios. 1862. — VI. Fatos do Espirito Humano. 1858. Fratelli Cal- lita. Fatos do Espirito Humano.

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ÍNDICE Meninice •> Primeiros versos 1® Estudante de medicina 12 Influencias literárias 14 Magalhães e^Mont*Alverne 22 1832 26 Viagem á Europa 29 "Suspiros poéticos" 37 "Como a ave que volta ao ninho antigo*' 37 Magalhães e o teatro brasileiro 50 Secretário de Caxias 56 No Parlamento 62 Novos rumos 68 "A Confederação dos Tamoios" 71 Trabalhos vários 76 Missões diplomáticas 84 Últimos anos 88 Notas bibliográficas 92 .

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