MAINKA, P. J. A bruxaria nos tempos modernos...

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A BRUXARIA NOS TEMPOS MODERNOS –
SINTOMA DE CRISE NA TRANSIÇÃO PARA
A MODERNIDADE
*
Peter Johann Mainka

RESUMO
Este artigo pretende apresentar algumas informações básicas sobre o
fenômeno da bruxaria, um fenômeno específico dos Tempos Modernos
que surgiu a partir do início do século XV unindo a feitiçaria da
Antigüidade e da Idade Média com o delito da heresia. A teoria e prática
jurídica daquele tempo, incluindo a aplicação legítima de torturas,
contribuíram muito para a disseminação da bruxaria na Europa. A
partir do fim do século XVII, com o surgimento do Iluminismo,
encerrou-se, definitivamente, este fenômeno da bruxaria, que tinha se
manifestado, muito diferentemente, nos países europeus. A bruxaria
pode ser interpretada como um sintoma de crise na transição do mundo
medieval para o mundo moderno.
Palavras-chave: bruxaria, Tempos Modernos, história do direito.

ABSTRACT
This paper intends to present some basic information on the
phenomenon of witchcraft, a specific phenomenon of the Early Modern
Times, which came out in the beginning of the 15th century, unifying
the sorcery of the Antiquity and the Middle Ages with the crime of
heresy. The theory and practise of justice from that period, including
the legitimate application of tortures, contributed very much to the
spread of the witchcraft throughout in Europe. Since the 17th century,
with the emergence of the Enlightenment, the phenomenon of
witchcraft, whose appearances had been very diferent in the european
states, ceased definitively. Witchcraft can be interpreted as a symptom
of the transition from the medieval world to the modern world.
Key-words: witchcraft; Early Modern Times, history of law.
*
Professor Doutor visitante (da Alemanha) no Departamento de Fundamentos da Educa-
ção e do Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Estadual de Maringá/Paraná/Brasil –
UEM/DFE, PPE.

História: Questões & Debates, Curitiba, n. 37, p. 111-142, 2002. Editora UFPR

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Introdução

Devido à ligação estreita com a imaginação, o sobrenatural e o
irreal, com ilusões e magia, assim como com sexualidade, crime e morte, o
fenômeno da bruxaria sempre despertou a curiosidade e o interesse das
pessoas, tanto naquela época, quando este fenômeno surgiu, quanto na
posteridade. Até em nossos dias tão esclarecidos e racionais, pessoas de-
claradas por si mesmas ou pelos outros de feiticeiras e bruxas atraem muita
atenção e causam grande sensação. Apesar desse interesse comum em
todas as manifestações de feitiçaria e bruxaria, tanto aquela, como caracte-
rística da Antigüidade e Idade Média, quanto esta, como característica dos
Tempos Modernos, representam fenômenos científicos mais ou menos de-
limitados.
Este artigo pretende apresentar algumas informações básicas so-
bre o fenômeno específico da bruxaria, que é diferente da feitiçaria da Anti-
güidade ou da Idade Média1 – um fenômeno que se tornou, em todas as
suas facetas, a partir da década de 70 do século XX, um dos assuntos mais
pesquisados interdisciplinar e interinstitucionalmente em todo o mundo. De
diferentes pontos de partida, as Ciências Humanas – especialmente Histó-
ria, Antropologia, Direito, Psicologia e Literatura – trataram essa temática
instrutiva por várias áreas de conhecimento, focalizando a bruxaria nos
seus vários aspectos, por exemplo, os seus fundamentos teóricos, as ori-
gens da sua doutrina na Antigüidade Clássica, o pensamento cristão e as
próprias tradições dos povos europeus, a teoria e prática judicial, quanto ao
Direito Canônico, assim como ao Direito Criminal, as condições políticas,
econômicas e religiosas que, não raramente, favoreceram a eclosão da ma-
nia de bruxaria ou influenciaram notavelmente a disseminação das persegui-
ções nas várias regiões da Europa e no Ultramar. Considerando todos estes
aspectos, pôde ser compreendido melhor o homem da transição, quando o
mundo medieval ainda não tinha acabado e o mundo moderno ainda não
estava estabelecido totalmente. Além disso, revelam-se, ao observar os
homens em situações extremas, alguns modos gerais do comportamento e
da convivência dos homens. Com base nisso, podem ser feitas, finalmente,
importantes conclusões para toda a vida humana e, por isso, também para o

1 Cf. NOGUEIRA. O Nascimento da Bruxaria. São Paulo: Imaginário, 1995.

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homem na sociedade moderna e pós-moderna, que encontra-se, da mesma
maneira como seus antecessores, colocado entre os pólos opostos da
racionalidade e da irracionalidade.
Além disso, as fontes primárias, isto é, os autos dos processos
contra as bruxas, incluindo os protocolos dos interrogatórios, contêm infor-
mações preciosas a uma multiplicidade de questões, sendo interessantes
para a pesquisa histórica atual. Essas fontes informam, por exemplo, sobre o
quotidiano e a vida privada dos homens, especialmente dos homens sim-
ples e comuns. Dessa maneira, é possível responder, por exemplo, às se-
guintes questões: o que eles sentiram? Sobre o que conversaram? Como foi,
para mencionar uma questão específica, o seu comportamento sexual? etc.2
A bruxaria como fenômeno da transição entre o fim da Idade Média
e a gênese do mundo moderno, acompanhando-o até o fim do século XVII,
quando a era do Iluminismo estava começando a mudar fundamentalmente
a visão do mundo, está ligada estreitamente a questões da história social e
cultural, assim como da história de mentalidades, de mulheres e minorias –
questões, portanto, que estão “em moda” na historiografia atual e, também
por isso, estão no centro da pesquisa histórica internacional. A historiografia
brasileira3 participa também nessa conjuntura, mesmo que nem Portugal4
nem suas colônias tenham sido muito atingidos por este fenômeno.5

2 Cf. BEHRINGER. Erträge und Perspektiven der Hexenforschung. In: Historische
Zeitschrift, 1989. p. 631s.
3 Cf. NOGUEIRA (1986/2000, 1991 e 1995). Nogueira tratou, tanto em 1986 como em
2000, do Diabo no imaginário cristão, mas, apesar do mesmo título, o conteúdo dos dois livros varia
muito. Cf. também SOUZA (1987, 1993/2001 e 2000); BARROS (2001) ou PORTUGAL (1999). Com o
mesmo assunto se ocupam um pouco, também pesquisas dedicadas, propriamente, às questões da Inquisição
como, por exemplo: SIQUEIRA (1978); COELHO (1987); VAINFAS (1989); CALAÍNHO (1992);
NOVINSKY; CARNEIRO (Ed.) (1992); BETHENCOURT (2000); FERNANDES (2000) e, recentemente,
CIDADE (2001).
4 Cf. PAIVA. Bruxaria e superstição num país sem “caça às bruxas”. 1600-1774. Porto:
Notícias, 1997.
5 Como em Portugal, também na Espanha, a Inquisição conseguiu, definitivamente em 1576,
assumir a responsabilidade exclusiva sobre todas as questões referentes ao delito da bruxaria. As persegui-
ções às bruxas na Espanha ficavam limitadas em comparação com a caça às bruxas na Europa Central. Um dos
críticos mais importantes no lado católico das perseguições exageradas às bruxas era, no início do século
XVII, o próprio inquisidor Don Alonso de Salazar y Frias, cf. BEHRINGER, 1987, p. 230. Salazar, inves-
tigando, desde 1610, mais do que mil depoimentos de testemunhas e pessoas suspeitas da bruxaria, con-
cluiu, finalmente, que, na verdade, nenhuma bruxa esteve entre as pessoas acusadas.

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3. Heinrich Kramer/Institoris (1430-1505) e Jacob Sprenger (1436-1495) que.11 Esse Manual de caça às bruxas. 85-89. Cf.9 fundamentaram de maneira pretensamente científica a doutrina oficial da Igreja Católica e. 1982. 37. abusando o nome do seu confrade mais famoso Sprenger para dar ao escrito maior dignidade e garantir. cf. p. onde na cidade de Luzern o termo hexereye [= bruxaria] pela primeira vez foi utilizado em um processo criminal. Foram também dois dominicanos e inquisidores8 ativos. demonstram que Heinrich Kramer era sozinho o autor do Malleus Maleficarum. Enquanto na demonologia antiga. Curitiba. ou seja. 8 Pesquisas. BEHRINGER. 10 Uma edição alemã encontra-se em: KRAMER. 22s. 1982. SPRENGER. 36-41 (em alemão). p. A bruxaria nos tempos modernos.). e a Suíça. 7 Cf. o pacto feito com o Diabo. a bruxaria foi um fenômeno coletivo. J. 11 Cf. 111-142. p. em 1487 e reeditada até 1669 por 29 vezes. n. a base teórica de toda bruxaria dos Tempos Modernos. p. foi definido. Uma edição portugue- sa em: KRAMER.. por quatro elementos: 1. que descreveram e definiram o crime da bruxaria. 1986. 2002. na feitiçaria tradicio- nal. primeiramente. pessoas foram prejudicadas ou até mortas pelo uso múltiplo de meios mágicos. enquanto as feiticeiras tradicionais foram fenôme- nos individuais.. especialmente p. além dela. o Martelo das Bruxas10 – publicada. 32-36 (em Latim) e p. NESNER. Editora UFPR .. 622s. Por isso. 2000. 22-29. A obra famosa desses autores foi intitulada Malleus Maleficarum. NESNER. em regra geral. p. a participação no assim chamado sabá das bruxas. Erträge und Perspektiven.. BEHRINGER (Org. a feitiçaria e a heresia se uniram ao novo delito da bruxaria. 76. P. que se manifestou literalmente em “ondas”. os feitiços maléficos para prejudicar pessoas ou animais. um maior sucesso dele. Primeiros centros deste novo fenômeno foram a Savoia. 1988. o casamento realizado pelo ato sexual. 9 A Bula está impressa em SPRENGER. assim. uma região no Sudeste da França atual..6 Ao redor do Concílio da Basiléia na Suíça (1431-1448). pois significou que uma bruxa conheceria necessariamente outras bruxas que tinha visto nessas festas bacanais. SCHORMANN. 2.7 Este item – o fato de que as bruxas participavam de reuniões com outras – foi o mais fatídico. válido até 6 Cf. recentemente realizadas. 2000. Informações básicas (I) A partir do início do século XV. p. 4. nascido sob a grande influência dos dominicanos. nasceram os escritos demonológicos. KRAMER. 89-94. SPRENGER. História: Questões & Debates. o fenômeno da bruxaria.116 MAINKA. depois da Bula Papal Summis Desiderantes Affectibus de 5 de dezembro de 1484. p.

P. Os bacanais satíricos. na Dinamarca luterana com mil. definiu a bruxaria definitivamente como um pacto real entre o demônio e a bruxa. 180-195. com base no Direito Canônico e no Direito Civil Penal.12 Ao contrário dos cálculos na historiografía antiga. Curitiba. O fenômeno da bruxaria era. devido à ampla disseminação do conteúdo deste Manual – tanto entre as pessoas letradas quanto entre as que tomaram conhecimento dele somente por meio de outras –. foram elementos indispensáveis da nova bruxaria. em vigor naquele tempo e diferente em cada um dos Estados europeus. Desde então. como abjuração direta e herética a Deus. seja no campo. que indicou um número de até 9 milhões de vítimas. onde havia mais da metade dos aproxi- madamente 100 mil casos acusados de bruxaria e também mais da metade das 50 mil execuções em toda a Europa.500 e na Suíça com 4 mil. na Noruégia com 300. A bruxaria nos tempos modernos. na Islândia com 22. foi muito fácil para os contemporâneos conhecer os efeitos reais e verdadeiros da bruxaria em qualquer âmbito. p. quase que inequivocamente. carnais e lascivos. realizados em lugares secretos. 2002. BEHRINGER (Org. portanto. Estas perseguições não foram realizadas em um clima de arbitrarie- dade ou de desordem e tumultos descontrolados. 190-195.. aproximadamente. na França com 2. n. p. Com essa base teórica. a caça às bruxas foi realizada na Europa. especialmente p. conhecidos como sabás das bruxas. J. o Sacro Império Romano-Germânico. seja nas cidades. um fenômeno acima das fronteiras religiosas. descritos com fantasia imensa e com grande amor pelo detalhe. em um espaço sem justiça. História: Questões & Debates. 2000. Os centros da perseguição foram a Suíça. ou seja. 37.. pesquisas recentes corrigiram estes números. em ondas relativamente sincrônicas esteve entre 1560 e 1660 ou. as bruxas. 111-142. tanto nos territórios católicos quanto nos territórios protestantes. 1989. não pode ser explicado somente através de categorias religiosas. mais concretamente. mas com aprovação e sob a direção das autoridades eclesiásti- cas e seculares. 13 Cf. como se os autores tives- sem visto essas festas ou até participado delas. com isso. BEHRINGER. principalmente. Quanto 12 Cf. na Escócia calvinista com mil.MAINKA. entre 1585/90-1630/35. p. a França. na Itália com mil. 622-628. Calcula-se. O apogeu das perseguições que aconteceram. realizado verdadeiramente por meio do ato sexual e. ou seja. Editora UFPR .). com seguintes números de execuções na Eu- ropa:13 na Inglaterra com 300. na Holanda com 150. como acima mencionado. 117 o fim do século XVII. e identificar. a Escócia e.

Sua terceira parte trata. P. com isso. “das medidas judiciais no tribunal eclesiástico e no civil a serem tomadas contra as bruxas e também contra todos os hereges. 110s. 111-142. havia muita incerteza quan- to à justiça. já não correspondia às exigências daquele tempo. no qual o número de crimes havia crescido. 15 Cf. O conteúdo das provas não era importante. por pagamento em dinheiro. História: Questões & Debates. J. diferentemente do Sacro Império Romano-Germânico. p. Editora UFPR . 2000. 37. LAUFS. por exemplo. não há juiz”. Curitiba. à bruxaria como objeto da justiça. A bruxaria nos tempos modernos.. 1991.15 O Direito Penal medieval. das partes relativas. p. SPRENGER. onde valeu o seguinte: o particularismo territorial – desenvolvido a partir da Idade Média e que caracterizou o Império nos Tempos Modernos. conforme o princípio “onde não há acusador. Essa mistura se realizou em cada um dos Estados nascentes que começaram a fechar-se.118 MAINKA.. Costumes jurídicos desse tipo encontravam- se. 2002. o Malleus Maleficarum teve imensa influ- ência. também no Malleus Maleficarum. e o juramento solene de purgação livrou pessoas da acusação. ou seja. quando esse particularismo se tornou também um particularismo religioso – era também um particularismo jurídico. freqüentemente. Penas impostas puderam ser redimidas. mas a sua forma. nessa situação de incerteza quanto à justiça. Nessa variedade confusa de direitos. porque cada região do Império tinha as suas próprias tradições jurídicas. 375.) (contendo) 35 questões onde são clarissimamente definidas as normas para a instauração dos processos e onde são explicados os modos pelos quais devem ser conduzidos e os métodos para lavrar as sentenças. ainda o mundo medieval. exclusivamente.. Essas tradições jurídicas medievais fo- ram completadas pelo Direito Romano e Canônico. (. 14 KRAMER.. provindo da Itália. que representou. no qual a justiça era sobretudo uma questão particular. n. p. os dominicanos Kramer e Sprenger.”14 A Questão jurídica: a Constitutio Criminalis Carolina (1532) Naquele tempo de transformação e crise.

n. 1990 ou por extrato in: HOFMANN (Org. p. com base intelectual nos escritos de Marco Túlio Cícero (106-46 a C. 83-86. mesmo que ele próprio não tenha presencia- do a publicação deste código. as tradi- ções nacionais na sua grande variedade haviam predominado.. n. ao fogo. Cf. em vigor até as grandes refor- mas jurídicas pelos governos esclarecidos no século XVIII. publicado em 1532 e influenciado fortemente por este João Barão de Schwarzenberg. com início no fim do sécvulo XV. P. resultaram. por João Barão de Schwarzenberg e Hohenlandsberg (1465-1528). 114. a Constitutio Criminalis do Imperador Carlos V (1500-1558). p. também na Polônia.). Até a segunda metade do século XIX. uma cidade situa- da na região da Francônia na Alemanha).. conseguiram influenciar em muito o modo como os processos contra as bruxas deveriam ser conduzidos na justiça secular. 16 Ibid.17 A sua importância especial consistia no fato de que a Constitutio Criminalis Bambergensis fornecia o modelo para um outro código penal mais conhecido.. até então. 2002. As discussões sobre uma reforma da justiça. p.19 levou a uma uniformização do Direito Criminal no Império. 13. 87. 119 posicionando-se claramente. 1991. 37. História: Questões & Debates. quando por meio delas acontecia um dano real. SCHORMANN. Esse código criminal de 1532 era o primeiro na Europa. DUCHHARDT. a saber. 1976. p. Curitiba. 17 O respetivo trecho da Constitutio Criminalis Bambergensis encontra-se em: BEHRINGER (Org. 2000. ao lado das leis e tradições existentes em cada um dos Estados do Império.). da mesma maneira como hereges. por exemplo. Editora UFPR .MAINKA. quando não. algumas sentenças referi- ram-se à Constitutio Criminalis Carolina. A bruxaria nos tempos modernos. p. p. a sua influência era imen- sa. n. na Ucrânia ou na França. 70. com efeitos. 110-113. o Código Criminal de 1508 determinou que. pretendendo uma validade supra-regional. J.). as pessoas acusadas deveriam ser con- denadas. Quanto à bruxaria e feitiçaria. mesmo que ela tenha somente uma validade subsidiária. na assim chamada Constitutio Criminalis Bambergensis (Código Criminal de Bamberg. na qual. A Constitutio Criminalis Carolina. a recepção prática do Direito Romano-Italiano e os seus efeitos uniformizadores na área do Direito Penal. em proporção ao delito. a assim chamada Constitutio Criminalis Carolina18 (Código Criminal de Carlos V). estabelecida. 42.16 Esse código demonstrou. 111-142. 19 Cf. primeiramente. de maneira clara. 18 Impressa in: Die PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. especialmente do Direito Criminal. elas deve- riam ser punidas de outra maneira. resultado de uma reforma do Direito Penal.

um código criminal foi publicado. um crime penal era somente uma ofensa da pes- soa particular que sofria o crime. defendida e propagada pelo Barão de Schwarzenberg nos códigos de 1508 e de 1532. que estava substituindo quanto à conduta dos processos o princípio anterior da acusação.120 MAINKA. requerendo uma reparação.. p. honestas. as exigências a qualidades dos juízes. 111-142. p. 114. p. Além desse princípio oficioso. p. Curitiba. p. Uma das inovações mais importantes. p. a autoridade era obrigada a abrir um processo criminal. razoáveis e expertas.22 sem uma própria acusação daquele que foi ofendido. PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. História: Questões & Debates. 2002. J. os crimes se tornaram uma questão oficial. Tinham de ser inquiridos (do Latim inquirere) de ofício. 24 Cf. PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. quase exclusivamen- te. Conseqüentemente.. tão virtuosas quanto possíveis. diante do tribunal. O que significavam esses dois termos técni- cos da linguagem jurídica? Conforme o princípio da acusação. como juiz. Cf. 114s. era o princípio da inquisição21. tinha de investigar um crime e. 23 LAUFS. as assim chamadas Ordonnances sur le fait de la Justice ( Ordenações sobre a questão da justiça) de Villers-Cotterêts. 23-29 e LAUFS. Ou seja.20 Com base na Constitutio Carolina se realiza- ram os processos contra as bruxas nos Tempos Modernos. que. Editora UFPR . o processo da inquisição (desenvolvido primeiramente na justiça eclesiástica no fim do século XII) era caracterizado pelo princípio da instrução. quase assumindo as funções de um procu- rador. op cit.. p. Segundo o princípio de inquisição. Uma conseqüência importante desse desenvolvimento era o forta- lecimento do papel do juiz. A bruxaria nos tempos modernos. 37. dela. especialmente no Sacro Império Romano-Germânico. caracterizador da justiça da Idade Média. que acusava (do Latim accusare) aquele sujeito que a tinha ofendi- do pessoalmente por meio do crime. (§ 1). 1986. SCHORMANN. 87. ao mesmo tempo. P. que neste contexto não indi- cava uma justiça eclesiástica. n.”23 Estes dois princípios tinham se desenvolvido e unificado na Idade Média. 31s. isto é. 24 Conforme as idéias do Barão 20 Cf. DUCHHARDT. dos juízes adjuntos e dos jurados cresceram enormemente: eles deveriam ser pessoas piedosas. “o dever dos órgãos da justiça inquirir a verdade objetiva das acusações e indagar realmente as circunstâncias de um fato. p. 21 Do processo de inquisição tratava o parágrafo 6 da Constitutio Criminalis Carolina. 22 Cf. DÜLMEN. 42s. onde. julgá-lo imparcialmente. ou seja. nos respectivos locais. em 1539. 33s. uma questão.

p.. se nenhum sangue saísse. A Reforma Protestante. p. 27 Cf. com isso. depen- dendo das tradições regionais: o carrasco picava. 2002. por exemplo. SCHORMANN. 47 e DÜLMEN. n.MAINKA. MAINKA.27 Os processos e as sentenças contra as bruxas Para o interrogatório sob torturas existiam as seguintes normas no Código Criminal de Carlos V: o acusado tinha que ser informado sobre a data (§ 45). 26 Cf. A bruxaria nos tempos modernos. Editora UFPR .26 O princípio da inquisição e a permissão de interrogar os acusados sob a aplicação de torturas obtive- ram as conseqüências mais negativas nos processos contra as bruxas nos Tempos Modernos. todos os juízes deveriam ser formados cientificamente em universidades e agir como profissionais. Existiam várias formas. Além disso.25 Uma outra conseqüência ainda mais fatal do sistema da inquisição era a aspiração forte a uma confissão do acusado como prova certa do delito. havia a prova da água: a bruxa suspeita era amarrada e empurrada à água. O meio mais fácil para receber essa confissão e. 37. e contribuíram muito para a dissemi- nação do fenômeno da bruxaria e das perseguições às bruxas. 26s. isso provava suficientemente que ela era culpa- da pelo delito da bruxaria. P. 121 Schwarzenberg. era a fundação de universidades em muitos dos Estados pré- modernos nascentes. Cf. cuja aplicação como instrumento na luta contra os hereges e. p. Não raramente e até no século XVIII.. se ela não afundasse e sobrevivesse. uma pinta ou um outro local acentuado da pele. 29-36. com isso. quando a justiça do Estado pré-moderno alcançava uma certa racionalidade e efetividade. p. ou seja. História: Questões & Debates. contra Satã ficou provada a partir do século XIII. a culpa da delinqüente estava comprovada (prova da agulha). 111-142. 2000. o acusado deveria ser interrogado com toda a insis- 25 Uma conseqüência importante deste novo profissionalismo. antes das torturas. mesmo que essas provas de bruxaria fossem consideradas ilegais e recusadas pelos juristas eruditos. a uma prova de bruxaria. uma última vez. dessa necessidade de pesso- al bem-formado na administração do Estado. para revelar a verdade material era a tortura. J. Curitiba. DÜLMEN. as bruxas suspeitas tinham que se submeter. um instrumento do processo da inquisição. a um juízo de Deus.

“de quem tenha aprendido tal feitiçaria e de qual maneira ele chegou a esse crime.33 não existia ne- 28 Cf. Então. História: Questões & Debates.”30 O juiz devia investigar se o acusado tinha enterrado um instrumento útil para esse crime e procurá- lo.). Somente quando eram repetidas voluntariamente. No anexo.). P. na doutrina da bruxaria. 33 Ibid. 185- 187. n. é indicado um outro esquema de perguntas. 111-142. freqüentemente. e uma outra (1590) impressa: BEHRINGER (Org. 29 Cf. Os juízes eram exortados a não segredar ao acusado as circunstân- cias do crime. ou seja. muito. incluindo a ameaça de torturas. a descrição de uma sessão de torturas: BEHRINGER (Org. depois do término das torturas. 181. 300. Confissões feitas dire- tamente sob torturas não tinham validade alguma. como e quando a feitiçaria aconteceu. J.28 O objetivo principal dos interro- gatórios era descobrir a verdade real (§§ 53-54).. o juiz deveria perguntar pelas circunstâncias. 58 (§ 58). p. p.. para que ela não fosse ferida “novamente. Relatos de torturados. Estas deveriam ser aplicadas “segundo o grau da suspeita contra as pessoas. o interrogatório sob a aplicação de torturas deveria começar em presença do juiz e de. os juízes tinham de se orientar nesse catálogo de perguntas. depois de ter orientado o acusado a respeito das suas possibilidades de defender-se. 2002. p. também se ele tinha usado esse feitiçaria contra mais pessoas. p. p.”32 Mesmo que houvesse um parágrafo que exigisse um certo cuidado de uma pessoa ferida.. apresentada no Malleus Maleficarum. p. pelo menos. p. n. 37. a lista de perguntas (1629) impressa: SCHORMANN. examinados (§§ 48-53) e verificados (§ 54). tência. e qual mal ele tinha feito.. escritos nos anos de 1590. Editora UFPR . com base nos interrogatórios. existiam listas de perguntas muito detalhadas. com quais palavras ou atos. p. 1627 e 1628 encontram-se também: BEHRINGER (Org. 46s. 31 PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. Quanto ao crime da bruxaria.29 Os depoimen- tos dos acusados referentes ao crime deveriam ser. 30 PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. 58 (§ 59). que se baseava. 56 (§ 52). “com que.). a assim chamada territio (§ 46).122 MAINKA. mas ainda sem aplicá-las.. as confissões deveriam ser escritas (§ 58). 179.”31 Caso existissem contradições. 280-299. sugeri-lo as respostas (§ 56). o acusado deveria ser interrogado novamente. também sob torturas (§ 55). quanto a esses ferimentos ou males”. conforme a avalia- ção de um bom juiz razoável. mais dura ou mais ligeiramente. Quanto à bruxaria. p. pouco. se necessário. (§ 52). naturalmente. A bruxaria nos tempos modernos. 32 Ibid. duas outras pessoas do tribunal e do escrivão (§ 47). 306-312. por exemplo. 55s. se possível. e contra quais. n. n. Curitiba.

Editora UFPR . P. 301-306. existiam. A bruxaria nos tempos modernos. c) o delinqüente. as tortu- ras foram aplicadas gradualmente. não confessava. a) a aplicação dos torniquetes de polegar ou de perna. 183. História: Questões & Debates. com as mãos amarradas nas costas. e DÜLMEN. p. p. contra quem existia uma suspeita fundada inicial. 20-23 e BEHRINGER (Org. existiam várias possibilidades de provar a sua culpa. que foram consideradas um meio legal e legítimo da justiça.36 pois as pessoas deveriam evitar também serem desacre- ditadas. 31ss. SCHORMANN. Além disso. existindo várias possibilidades de agravar essa tortura. por sua vez. posto em um cavalete (espanhol). 123 nhuma limitação quanto à freqüência ou à repetição das torturas. 3) a própria tortura começava dividida. até os braços serem deslocados. quando o acusado. enquanto a autoridade secular pagava as outras custas do proces- so (§ 61). ele deveria ser libertado. 34 Cf. (Dos terrores das cadeias. 37. conforme as tradições regionais ou as preferências dos carrascos.MAINKA. pagando as des- pesas pela prisão. 2002. em três níveis: 1) o carrasco meramente apresentava os vários instrumentos de tortura e os explicava (territio verbalis). 1988. ser preso era como que uma própria tortura. n. era fustigado. até os braços serem deslocados. p. Cf.). J. p. por exemplo. 35 Cf. 111-142. 2) o suspeito era despido e os torniquetes de polegar ou de perna eram montados. pois os indícios iniciais permaneciam. como. nos Tempos Modernos. a tortura poderia ser repetida três vezes se o acusado recusasse a se confessar culpado. Segun- do um costume jurídico. p. p. DÜLMEN. ou seja. em três níveis diferentes. Curitiba. eram más e miseráveis. 178.. n. 1598). o ponto de vista de Heinrich Schultheis. Ainda que o acusado não houvesse confessado. 278s. por meio de teste- munhas. mas ainda sem aplicá-los para provocar dores (territio realis). A revogação de uma confissão resultava em outras sessões de tortura. o seu corpo queimado com fogo e os cavacos de pinheiros eram empurrados em baixo das unhas.). mas sua credibilidade tinha que ser examinada cuidadosamente (§§ 62-76). 43s. assumido da Itália. Existia também uma outra forma dessa tortura: os pés do delinqüente eram amarrados embaixo da escada. muitas outras formas cruéis de tortura. n. as mãos também amarradas sobre a cabeça eram puxadas para cima. b) os delinqüentes eram puxados para cima..35 Confissões declaradas conforme o regulamento descrito acima eram críveis e válidas (§ 60). no ano de 1634: BEHRINGER (Org. um defensor das torturas. 36 As condições nas cadeias naqueles dias.34 Em regra geral.

p.) mandar. e mandar o miserável ao carrasco”38 e “procla- mar ou declarar publicamente e (. como de costume. o número de bruxas acusadas e condenadas aumentou rapidamente. finalmente. Quando foi aplicado.).41 Depois da execução. 2002. p. da forca. É inte- 37 Cf. cf.”42 Como as denúncias já eram suficientes para abrir um processo inquisicional. p. eram ou enterrados em baixo da forca ou lança- dos num rio. p. cit.. p. Cf.. 125s. da roda. 40 Cf. mais disseminada no século XVI.37 Nesse ato público. A morte do condenado deveria exterminar qualquer memória dele. esse modo de execução. 102-144. como. Depois do término da inquisição jurídica. pelo menos. “o juiz deve quebrar o bastão. Caso fossem produzidos males. do esquartejamento. se ele tinha exe- cutado bem. outros modos de suplício poderiam ser realizados (§ 109). 37. 68-75 (§§ 84-103) e BEHRINGER (Org. era uma pena de extermínio e de purgação.. Caso a bruxa acusada e condenada não prejudicasse terceiros. inclusive denúncias sob a ameaça ou aplicação de torturas.. p. A bruxaria nos tempos modernos. tudo bem. e este deveria responder: “Se você fez conforme a sentença e o direito.. a cinza dele. Penas de prisão quase não eram consideradas nos códi- gos criminais. muito dispendioso e trabalhoso. 38-61. para o carrasco. LAUFS.. 38 PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. Curitiba. 74. 117s. por meio da espada. op.124 MAINKA.. que ninguém impeça ou ofenda o carrasco. ao juiz.40 Após 1600. o acusado deveria ser sen- tenciado ao fogo. p. J. 39 Ibid. cit. presos a uma estaca por uma cadeia de ferro. n. mesmo que ele falhasse. p. 189. no local.”39 Quanto à bruxaria. o carrasco deveria perguntar. que tinham o objetivo principal de talião e de reduzir os agen- tes do crime à inatividade – e não do melhoramento deles. 111-142. PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. 73 (§ 97). P. foi menos utilizado. especialmente DÜLMEN. era agendado um dia de audiência para o pronunciamento da sentença (§§ 94-95) e a realização do espetáculo da execução. totalmente em acordo com as crueldades daquele período. por estrangulamento já antes da cremação ou pela afixação de uma sacola de pólvora no colo. 313. A cremação das bruxas. Sobre o espetáculo de morte. a Constitutio Criminalis Carolina determinava a pena máxima. História: Questões & Debates. p. o carrasco matou os delinqüentes. Editora UFPR . n. da água ou por meio de ser enterrado vivo (§§ 192-195). 41 Cf. 42 PEINLICHE GERICHTSORDNUNG. Os restos do delinqüente. op. também DÜLMEN. DÜLMEN. 73 (§ 96). p.

111-142.. com as idéias contemporâneas sobre a bruxaria contidas no Malleus Maleficarum. Informações básicas (II) Pode-se distinguir pequenas e grandes caças às bruxas. 2002. sacerdotes e até crianças foram queimados nessas ondas de perseguição. Em Trier. Em Rouen. quase que exclusivamente. avaliavam como corretos. Espanha e Suécia. que forneceu aos tribunais a base dos seus conhecimentos sobre a bruxaria. na Inglaterra. ou seja. com base no Manual de caça às bruxas. 305 bruxas denuncia- ram por volta de 1. os acusados tinham que fazer exatamente esses depoimentos que os tribunais. A bruxaria nos tempos modernos. por razões políticas.. 1995/1997.500 cúmplices. onde no dia 30 de maio de 1431 Joana d’Arc. J. Mesmo quando não havia mais pessoas estranhas. mas também. Curitiba. A caça às bruxas referiu-se.44 A maioria desse tipo de perseguição ocorreu no Império Romano-Germânico. àquelas pessoas que sempre estiveram sob sus- peita. final- mente. n. Vereadores e prefei- tos. 37.43 As pe- quenas atingiam entre cinco e dez pessoas. cidade. p. especialmente as pessoas estranhas e não vulgares. História: Questões & Debates. realizaram-se num clima de supremo pânico e histeria ilimitada. a perseguição acabou. resultaram. aliás. As grandes caças às bruxas. na França. 43 Cf. por exemplo. também as pessoas normais e as notabilidades. os testemunhos de nove pessoas em 525 acusa- ções. por meio de uma aplicação econômica de torturas ou da renúncia a penas draconianas. nessas comunidades.MAINKA. Esse comportamento prudente das autoridades coincidiu com uma histeria limitada na população. pelo menos uma vez. As autoridades seculares cuida- vam para que os processos não se tornassem descontrolados. assim como monges. nos séculos XVI e XVII. Editora UFPR . P. nas quais havia verdadeiras avalanchas de proces- sos. 125 ressante perceber. foi queimada como bruxa. em 1570. Quando as pes- soas desse tipo deixaram de existir. exatamente. as perseguições continuaram e atingiram. uma cidade na Alemanha. LEVACK. que os testemunhos das pessoas acusadas e tortu- radas correspondiam. 44 Ibid.

realizada em 1987. como em Salem46 – aconteceram freqüentemente apenas depois de 1670 e também com menor intensidade. na Europa Oriental. a angús- 45 Cf.126 MAINKA. essa pesquisa interpreta esses fatos. p. Editora UFPR . porém. uma nova pesquisa. concluiu que. as perseguições nos países da periferia – por exemplo. Quanto às causas desse caso. Depois de uma série de processos contra aproximadamente 90 sus- peitas. 622-628. 1987 e BEHRINGER. situada no norte da Baviera. quase totalmente. como indícios para uma grande independência das mulheres que. desenvolveu-se uma ver- dadeira histeria de massas. as mulheres foram consideradas ameaça da ordem política e moral. p. especialmente a possibi- lidade de que as mulheres recebessem os mesmos direitos legítimos à sucessão.. tinha entre 40 e 60 anos e não possuía filhos como herdeiros. na Escandinávia. Nas comunidades atingidas. J. Sob o aspecto da emancipação das mulheres. na área dos Estados Unidos da América. 126s. na Espanha e em Portugal. p. não deve ser esquecido que os processos contra as bruxas serviam.. desistiu. Enquanto na Europa Central e Ocidental a maioria das vítimas foi mulheres. onde existia uma comunidade protestante. Uma das principais características das grandes perseguições às bruxas foi o predomínio do pânico e da angústia48 – ao lado de toda a racionalidade da própria perseguição. Enquanto na diocese de Würzburg. francesas e portuguesas não aconteceram perseguições às bruxas dignas de menção. cit. p. A existência de bruxas entre os amigos. 67. 48 Cf. devido a uma projeção sexual. isto é. na Irlanda e também nas colônias inglesas. essa ameaça representada pelas mulheres foi removida mais e mais por meio de uma dessexualização. 1989. em 1616- 1617. no Estado de Massachusetts. KARLSEN. é possível falar também de uma mania ou ilusão.47 em todo o norte da Europa houve. as suas denúncias. conscientes da sua posição. Um grupo de garotas caiu em suspeita de serem bruxas. P. 628s. Nos séculos seguintes. elas não puderam ser acusadas. os vizi- nhos49 e as notabilidades abalou os habitantes das cidades e vilas.. Devido a sua obsessão. 49 Por outro lado. em apenas 12 meses 300 pessoas foram queimadas. Nas colônias espanholas. Algumas dessas moças eram. 47 Cf. o fenômeno da bruxaria na Europa foi muito dife- renciado:45 ao contrário da Europa Central e Ocidental. Erträge. insurgiram-se contra Deus e contra os homens. 2002. LEVACK. de uma perda das qualidades sexuais das mulheres da classe média branca nos Estados Unidos. freqüentemente. p. nas palavras daquele tempo. A bruxaria nos tempos modernos. os exemplos em: BEHRINGER. Curitiba. n. nos Países-Baixos o fenô- meno acabou somente a partir de 1610. Por isso.. para esse parágrafo. Cf. Uma estatística sobre as vítimas nas colônias inglesas demonstra que a maioria das mulheres condenadas era casada. de perseguir bruxas. evidentemente. houve a única perseguição notável nas colônias inglesas. 46 Em 1692. Enquanto a inquisição na Itália. apenas 2 mil execuções. na Finlândia e na Islândia principalmente os homens foram considerados bruxos. ou seja. No todo. as perseguições em Salem acabaram rapidamente. op. 111-142. ao todo. também para resolver conflitos sociais entre os vizinhos ou entre as classes sociais diferen- História: Questões & Debates. obsessas e denunciaram nos interrogatórios muitas outras mulheres. a saber na cidade de Salem. condenadas e executadas por bruxaria e isso facili- tou. 37. SCHORMANN. já no início do século XVI.

desta- ca especialmente quatro aspectos para explicar o fenômeno abrangente da bruxaria nos Tempos Modernos. feitiçaria e mitolo- gia. seja entre os caçadores. op. seja entre as vítimas. porém.MAINKA. 52 Cf. BEHRINGER. os acusadores. os juízes e os carrascos.. em um mundo de angústia e incerteza. Uma outra questão neste contex- to se refere à origem dessas idéias:54 de onde vêm as singulares tes. por uma histeria patológica de pessoas singulares. 111-142. Editora UFPR . Erträge. desta- cam essa onipresença da angústia naquela época. A repreensão da bruxaria era um meio importante para resolver conflitos.. que existiam às vezes já há muitos anos. A histeria geral era completada. 632ss. História: Questões & Debates. cuja mistura é cada vez diferente. CLARK. p. De fato. 629ss.. 54 Cf. pessoas sofrendo de sentimentos ou complexos de culpa confessavam até serem culpadas de bruxarias. p. BEHRINGER. DELUMEAU.51 Ela era parte integral na vida quotidiana.52 outros. determina o decurso de cada uma das perseguições. P. Além das condições específicas locais e regionais. Na verdade.. 1985. como o inglês Stuart Clark. p. Nesse clima de angústia exagerada. indepen- dentemente de todas as confissões e classes sociais. 50 Cf. A denúncia diante da autoridade era apenas o último passo em uma longa escala. n. portanto.50 mas ainda faltam resultados finais e confiáveis a respeito disso: 1. cit. como o francês Jean Delumeau. Curitiba. 127 tia aumentou à medida que eles próprios tinham que recear serem acusados erroneamente de bruxos. 51 Cf. p. 2002. um conjunto de várias causas. 100-122. SCHORMANN. op. p.53 opõem-se afirmando que o ho- mem pré-moderno não tinha angústia ou medo do ambiente e das forças da natureza. 37. BEHRINGER. 1983. havia o núme- ro crescente de denúncias. 53 Cf. A bruxaria nos tempos modernos. desenvolvimentos gerais quanto à política (guerra) ou à economia (inflação) influenciaram o decurso da perseguição da mesma ma- neira como catástrofes temporais. por exemplo. 1989. a magia constituía um fenômeno real para os ho- mens nos Tempos Modernos. mas ajudaram muito os ho- mens a aliviar a sua angústia. 1989. Por isso. Enquan- to alguns historiadores. Cf. explicar um fenômeno tão complexo como o da bruxaria somente por meio de razões psicológicas. as práticas mágicas não são sinais dessa situação angustiante. Não é suficiente. cit. isto é. A presença de antigas tradições de magia. Gerhard Schormann. 631s. J.

GINZBURG. e forças más – por exemplo pela qualidade da colheita. a saber: entre os anos de 1626 e 1630. J. à sua proximidade com o parto e a morte e à sua tarefa de providenciar a alimenta- ção. 57 O disciplinamento social da população é um processo fundamental que caracteriza signi- ficativamente os Tempos Modernos. doentes e velhos. 58 Cf. da homeopatia e. Pesquisas realizadas na Itá- lia por Carlo Ginzburg55 e nos Bálcãs56 tiveram resultados se- melhantes: na crença do povo existiam idéias de uma luta entre forças boas. 1993. 111-142. e HOLMES. mais de 75%. n. 116-122. A perseguição das bruxas como parte do disciplinamento soci- al57 da população. isto é. 1989. Curitiba. A bruxaria nos tempos modernos. a falta geral de mulheres. às vezes mais de 90% de todas as vítimas. as almas de homens nascidos sob condi- ções propícias. 1984. P. 4. 56 Cf. BEHRINGER. proibiu. isto é. 1990. As mulheres foram especial- mente escolhidas de cair em suspeita devido às suas estreitas relações com crianças. A perseguição das bruxas como campanha contra o gênero feminino. marginalizando todas as forças tradicionais da terapia médica. SCHORMANN. A perseguição às bruxas como instrumento das lutas religio- sas. 37. de fato. a maioria das vítimas em quase todas as regiões européias foi mulheres. numa época de crise geral. p..58 O apogeu das perseguições às bruxas na Europa Central aconte- ceu. De fato. raci- onalização ou também a burocratização. que determinaram esse período do Confessionalismo quan- do as confissões como entidades bem organizadas interna e externamente nasceram. p. 3.. KLANICZAY. Tudo isso eram áreas nas quais havia muitas acusações de bruxaria. Editora UFPR . segundo alguns pesquisa- dores. perseguições de grande extensão. pois não havia mu- lheres que fossem socialmente excluídas e pudessem servir como bruxas. História: Questões & Debates. A outra estrutura da população nas colônias. p. da obstetrí- cia. 2. 55 Cf. partes da crença do povo em bruxas? Essa crença inclui tanto idéias pagãs quanto idéias cristãs. 2002. ao lado de outros processos fundamentais como a secularização. 628s. especialmente. isto é.128 MAINKA.

Desde o início.63 Frederico de Spee (1591-1635)64 tinha relações pessoais com mui- tas pessoas acusadas e condenadas como bruxas porque cuidou delas e as acompanhou no seu último caminho ao cadafalso. somente a partir da publicação da famosa Cautio criminalis. p. n. na região de Colônia. 2002. SPEE. J. op. o fenômeno da bruxaria começou a declinar. até o chanceler Dr. Já os contemporâneos estabelece- ram uma relação direta entre essas condições gerais e a caça excessiva às bruxas nesses anos: na diocese de Würzburg. op. 62 Cf. anonimamen- te e. p.. obviamente sem o seu conhecimento. SCHORMANN. op. A caça às bruxas começou a ter fim. KOENIGSBERGER. em 1628. 627s. perto de Würzburg. para esse parágrafo. principalmente a apli- 59 Cf. 2000. cit.. 129 quando a Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648). na sua obra65. por amigos. 37. cit. Georg Haan (1568-1628) e sua família foram acusados. cit. publicada. cit. dois anos depois. porém. aqui 65 e BEHRINGER. houve granizo. Na diocese de Bamberg.. 61 Cf. por exemplo. Acres- centem-se algumas anormalidades quanto ao tempo:60 na primavera de 1626. 130-136. 1998/1999 e BEHRINGER (Org. havia críticos esporádicos em relação à persegui- ção e extinção das bruxas. História: Questões & Debates. SPEE. nos principados da Saxônia mas também na Savoia e na Lorena. p. como dizem os meteorologistas. Houve grandes números de vítimas também. curiosamente.61 O fim do fenômeno da bruxaria No apogeu das perseguições. op. 63 Cf. Criticou. frio e geada e. Editora UFPR . do jesuíta Frederico de Spee (1591-1635). A bruxaria nos tempos modernos.MAINKA. 65 Cf. cit.). (uma tradução do original em Latim para o alemão). P. 60 Cf. LOICHINGER.59 abalou quase toda a Europa... foram queimadas entre 1626 e 1630 por volta de 900 pessoas. op.62 na qual a prática e a realização dos proces- sos foram questionadas com veemência. em um editor protestante em 1631. cit. op. entre elas muitos nobres e sacerdotes. como parte essencial da assim chamada crise do século XVII. 1989. foi um ano sem verão. 64 Id. BEHRINGER. p. cit. op. 63-71.. condenados e executados. 111-142. Curitiba.

encerrou-se. provocou seus confrades e outros representantes da Igre- ja. cit. Se alguns negam. Curitiba. juízes. concedendo-o so- mente o papel de tentador interno. então os torturem três ou quatro vezes. mas duvidava se seriam tantas. aqui p. Pois. o jesuíta. op. 96. Se vocês desejam mais pessoas. que no seu entender somente produziam mais bruxas.. História: Questões & Debates. o fenômeno da bruxaria nos Tempos Modernos. vou lhes mostrar imediatamente onde estão. eles vão confessar. finalmente. raspem-lhes os cabelos do cor- po. p. jesuítas. Não vou negar o que vocês tinham con- fessado. Com o surgimento do Iluminismo na Europa. e com a disseminação do pensamento esclarecido no decorrer do século XVIII. No fim do capítulo XX. Se eles permanecem obstinados.. defensores da perseguição às bruxas: Porque procuramos com muito trabalho bruxos? Ouvem em mim. pren- dam os prelados. Alguns historiado- 66 Ibid. p. Editora UFPR . J. cit. o Diabo os faz insensíveis. todos os religiosos e os torturem. 67 SPEE. canônicos e professores da Igreja.67 A crítica de Spee foi continuada por Christian Thomasius (1655- 1728). Prendam capuchinhos. (capítulo 1).. 2002. um dos mais importantes precursores do Iluminismo alemão. p. então vou deixar-lhes a si próprios torturarem e depois. THOMASIUS. Continuem. 79-97 (capítulo 20).68 Com base nessa teoria. A bruxaria nos tempos modernos. eles têm que render-se. vocês a mim. como é que esses senhores frágeis e delgados podem agüentar algo? Se vocês ainda desejam mais pessoas. somos todos bruxos. cação de torturas nos processos contra as bruxas. 37. mas principal- mente por razões pragmáticas. P. 1986. n. fenômeno escurecedor dos primeiros séculos de um tempo que pretendeu superar as trevas da Idade Média. op. que negou diretamente a atuação do diabo no mundo real. que tinha compreendido o mecanismo quase automático entre denúncia. Finalmente. 111-142. a maioria dos príncipes e das autoridades já tinha começado a minimizar a perseguição às bruxas. 1s. eles vão confessar.66 tinha compreendido as conseqüênci- as fatais das torturas. confessando no primeiro dos 51 capítulos do seu livro que acreditava na existência de bru- xas. eles se protegem pela feitiçaria. a partir do fim do século XVII. tortura e nova denúncia.130 MAINKA. no qual Spee discutia a questão se seria provável que torturas eram perigosas também para inocentes.. Spee. 68 Cf. eles vão confessar. então exorcizem. definitivamente.

da qual. cit. mostram-se. pela apresentação de uma doutrina “científica” da bru- xaria e dos meios racionais de procurar. mais inovador e progressivo. Também se manifesta exemplarmente na aplicação racional das torturas como um instrumento legítimo para receber uma confissão que não pode passar por um exame racional. seja considerado. perseguir e exterminar. concomitantemente. Os dois defenderam princípios pré-modernos. que abalou a Europa num momento crítico da transição do mundo medieval para o mundo moderno. 1977. a Constitutio Criminalis Carolina. os dois contribuíram devido a sua racionalidade para a construção do mundo moderno. determinantes da vida humana. 131 res afirmam qu.69 A bruxaria como fenômeno da transição para a modernidade As relações estreitas entre elementos racionais e irracionais. 37.MAINKA. de fato. o Malleus Maleficarum. P. especialmen- te. J. pela fé irracional em bruxaria.. a bruxaria foi o preço a ser pago pela construção da modernidade. em geral. 2002. Os dois documentos contêm elementos. 111-142. contribuíram. Editora UFPR . mais reacionário e outro. As denúncias. mesmo que um.. por outro. n. em geral. Curitiba. aliás.e nesse processo de transformação do antigo para o novo. p. sem se libertar totalmente dos tempos anteriores. Quanto à área de justiça. no fenô- meno da bruxaria. Essa mistura contribuiu em muito para a disseminação do fenômeno da bruxaria nos Tempos Modernos e para o aumento significati- vo dos processos contra as bruxas. tanto o Malleus Maleficarum quanto a Constitutio Criminalis Carolina são também repre- sentantes. anti- gos e passados da moda assim como novos e direcionados para o futuro. Além disso. as bruxas. A bruxaria nos tempos modernos. de maneira excelente. História: Questões & Debates. op. feitas sob torturas. REINHARD. em muito para disseminar e aumentar os processos contra as bruxas e até tornaram 69 Cf. os dois documentos são caracterizados por uma mis- tura de elementos racionais e irracionais: por um lado.

Sofrendo torturas cruéis. p.. denunciando outras prisio- neiras. Editora UFPR . numerosa e perigosa de bruxas em quase todas as camadas sociais. 2002. presente desde a Antigüidade. rei da Escócia desde 1567 e da Inglaterra desde 1603). p. 1987. ou seja. muitos autores defenderam a existência real da bruxaria. viva e comum entre a população que era convicta da existência de uma seita secreta e herética. Todos estes defensores da bruxaria criaram racionalmente um sis- tema da irracionalidade que convenceu a muitos dos contemporâneos. Os processos contra as bruxas nasceram de uma crença em bruxa- ria. intitulado Demonology.. sem qualquer diferenciação como renegação de Deus. vizinhos e parentes... como ato heréti- co. intitulado De magorum Daemonomania – que retoma as idéias do Malleus Maleficarum quase um século após a publicação deste manual – ou o protestante rei James VI da Escócia.71 que fundamen- tou. n.70 o jurista francês Jean Bodin (1529/1530-1596). em 1597. P. sis- tema este que reflete a sua época em todas as suas contradições. Curitiba. os dominicanos Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. o seu escrito. J. BEHRINGER.72 um soberano literariamente ambicioso que defendeu em 1604 os direitos abso- lutistas do seu governo e tinha publicado. História: Questões & Debates. ou seja. mulheres e homens bruxas e bruxos. nota 8. 111-142. mas na verdade não criaram originaria- mente bruxas. em 1580. quando se realiza a mudança fundamental e paradigmática da Idade Média para os Tempos Modernos. James I da Inglaterra (1566-1625. cit. 37. 71 Cf. 225. op. de 1576. A bruxaria nos tempos modernos. Assumindo a tradição rica da crença do povo em feitiçaria. entre eles os autores do Malleus Maleficarum. 228. p. 72 Ibid. as pessoas suspeitas e acusadas confessaram tudo que os juizes quiseram ouvir. o seu escrito contra o poder do Diabo. por meio dos seus Six livres de la République (Seis livros sobre o Estado). a teoria da soberania dos Estados e publicou. reeditado várias vezes. 70 Cf. identificando todos esses elementos.132 MAINKA.

provavelmente do fim do século XVI) Fonte: Bayerisches Staatsarchiv Würzburg. O protocolo será apresentado em uma edição bilingüe.MAINKA. Wie alt sie sey und wieuil Kinder vorhanden? 73 Volkach é uma pequena cidade perto de Würzburg. História: Questões & Debates. com e sem a aplicação de torturas. evidentemente denunciada por uma moça. elaborado pelo tribunal com base no depoimento desta moça. J. no norte da Baviera/Alemanha. naquele tempo. contém as perguntas e as respostas de Anna Bintzinger. O documento. fol. residente na cidade de Volkach73 (sem data. É impressionante como esta mulher ne- gou firmemente todas as acusações. O texto compõe-se de um esquema de 16 perguntas. provavelmente do fim do século XVI. localizado no norte da Baviera e governado. 74 O texto desta fonte será reproduzido quase da mesma forma. Interrogatoria uff Michael Bintzingers Weib zu Stat Volckhach – Interrogatório da esposa de Michael Bintzinger. a saber. Signatur: 25/374. realizados entre os dias de 23 de setembro e 25 de outubro. a filha do senhor Rist. A bruxaria nos tempos modernos. que também havia sido acusada de bruxaria. p. P. somente a pontuação foi alterada cuidadosamente. 133 Anexo: um depoimentos de mulheres acusadas de bruxaria Segue um protocolo de interrogatório de uma mulher acusada de bruxaria. n. na região de Francônia. como se encontrava no original alemão. Curitiba. apesar das torturas e apesar dos ou- tros meios tomados pelo juízo a fim de persuadi-la a confessar-se culpada. Ob sie einen Mann. da região de Würzburg. Bestand: Historischer Saal VII. contendo tanto a transcrição da fonte original em alemão quanto a tradução para o português. e os depoimentos de Anna Bintzinger durante uma série de interrogatórios. 37. 2002. Editora UFPR . por um Príncipe Bispo.. a) Transcrição74 1. um dos centros de perseguição às bruxas. 141-145.. Wass Ihr nahm. 111-142. uma mulher de 50 anos de idade.

und ob es ein und wie offt zu Ihr ins Spil gangen? 4. ob sie dasselbig auffgemacht? 9. auffgedanzt und was sie mehr darinn gethan. und ob diss Meidlein auch darinn gewesen. Als sie hinein gefahren. Sie die Gabel geschmirt. Warumb sie furgefordert worden. 37. Dann. n. wie der böse feindt die schmir mag.134 MAINKA. wehr dass sie mit der Mollerin und dissem Maidlein in Jorgen Wagners Keller gefahren. wo dasselbig geschehen und was sie gesagt? Ob und was für ein Thier uff des Wagners fesser gelegen. wer es gewessen? 10. dass oben am Spunth mit eim Kreuz gezeichnet gewesen.. Curitiba. J. alss sie ausgefahren. Ob sie selbigenmals dem Maidlein ein Bulen geben? Wie er haiss? 14. Ob sie Bintzingerin nicht oben angestossen. Wann diss Maidlein zu Ir kommen. p. 2. soll kurz sagen. dass sie Inn und umb Volckhach allerlei sachen halben in Verdacht. wie sie darmit umbgangen. Ob sie auch offtermals in Henrich Mollers Haus gangen. sei diss der ursachen eine. Editora UFPR . wie sie uff der Gabel fahren und andere sach mehr könn? 7. deswegen sie jezt vorhanden und sich verantworten könne? 3. wass sie darzu sag? 8. sei auch wahr. [confirmar c/ autor] 13. auch sie damalen dem Maidlein von der schmir und ein weissen Steckhen geben? 11. dass sie sterben mussen. warzu sie zubrauchen? 15. wass darinn gewessen und was sie darinn gemacht?// [confirmar c/ autor] 12. Ob sie mit Conrad Risten Maidlein bekhandt.. Ob nicht sie Bintzingerin gesagt. História: Questões & Debates. was sie sonst mehr fur gespilen bei Ihr gehabt und waruon sie furnehmlich geredt? 5. dass sie und die Mollerin dem Schulthessen Claus Rönerten und des Herwarts Pferd getruckht und gerieten (?). was sie von demselbigen Maidlein halt. dass sie mit der Mollerin und dem Maidlein in das Rothlohe gefahren. sie darinn gezecht. Ferner und kurz von der sach zu reden. Item. Ob nicht sie Bintzingerin gelbe Schwemlein darin gesucht./ / [confirmar c/ autor] 6. A bruxaria nos tempos modernos. 2002. wer sein Mollers Weib das Aug verlezt. Sei wahr. 111-142. P. wie es mit der Vassrinen (?) zugangen. Was dasselbig fur ein ort. gehe das gemain geschrei von Ihr. Item seien sie drei kurz hernach wieder in das Rotlohe gefahren.

. was das Maidlein ausgesagt. dass man Ihr missgünstig sei. dadurch sie einander (gerathen seien). J.// [confirmar c/ autor] Uff Montag. den Leuthen am Vihe. 37. wass diss Maidlein von Ihr ausgesagt. 4. Curitiba. Härings und dess Hofschulthessen disse frau auch verhört worden wie volgt. 2002. Item sagt das Maidlein. deren noch drei leben. Nachmittag eiusdem diei. Das Rister Weib hernach der Schlag gerührt. Hierauff diss Maidlein der Bintzingerin furgestellt worden. Sie sei nicht mit diesem Maidlein bekandt. aber derselben gar keinen gestehen wöllen. Erstlich wie sie miteinander in des Lankh Kuchners Keller gefahren und wie sie auffgesessen. Ihr Mann Hais Michael Bintzinger. grossen Schaden gethan. Hab mit Ime 9 Kinder gehabt.MAINKA. 111-142. die sie feil gehabt. 2. Sagt. sonsten man ihr den frembden Nachrichter an die Seite stellen werde. Hab uber 30 Jar haus gehalten. der mit steckhen geworffen. P. komm die Maidt daher. und dissen solchen schaden gethan (??). die weren dem Risten fur die Tur geloffen seien.// [confirmar c/ autor] Ist ferner uff alle Sunntag. n. dahin sie gefahren. Sei uff 50 Jar alt. Sie hab Ihr sonsten nichts böses gethan. 1. p. 5: Sie wisse souil böses nicht. daher komm diese sach. Soll dasselbig anzeigen. 135 16. Känn diss Maidlein nicht. 3.. Presentibus Hr. In Summa. Item. Dieweil sie hunner gehalten. des Teufel voll (??). den 23ten Septembris. Haiss Anna. die leuth bei denen diss Maidlein gewesen seien Ihr gar feindt. das einem ein aug möcht wehe thun. Die Bintzgerin abermalen uff obgedachte Punckten examinirt worden. sei die Ursach. A bruxaria nos tempos modernos. von Ihr uff der Interrogatoria befragt worden. sie wiss von keiner birn. hab ihr lebenlang kein wordt mit Ihr je geredt. Junkher Schliderers und des J. auch erfröhrung des weins. História: Questões & Debates. sagt. Editora UFPR . Sie geschworen. das Maidlein lieg. wass sie an sonst mehr ort. Schwerts sie hieruff.// [confirmar c/ autor] Donnerstags. sie laugnets alles. Sie hab Hunner. sie wiss von nichts. wie diese Bintzingerin Birn vail gehabt und Ihr eine geschenckht. den 26ten Septembris. Wie auch die Bintzingerin an dem Loch angestossen.

Ist nochmalen beständig.// [confirmar c/ autor] Mitwochen. sei auch in des Schusters Haus gewessen. P. nichts bekhennen. Sie wölle Ihr ein .136 MAINKA. Man werde noch erfahren. die Ristin sei ein Häuchlerin. sie kann sich nicht besinnen. Editora UFPR . 4 prandio. J. 37. habern wollen und allerlei Sach (??). ist. Uff ernstlich furhalten. diss Maidlein sei von andern Leuthen angelehrt worden. den 29ten Septembris.// [confirmar c/ autor] Sagt auch ferner etwas. Gott Gott (?). dass einem im Aug möcht weh thuen.. hab sie der schlag gerurt. Die Bintzingerin abermahl furgefordert und gutlich befragt worden. drey tag hernach war sie krankh worden. hab waitz. 111-142. Im beisein des gn(ädigen) Amptmans zu Lauda und des Härings die Bintzingerin abermalen uff den leztern bericht verhört worden. Curitiba. Als sie ferner nichts mehr bekennen wöllen. Hat uff alle fragstuckh nichts bekennen wöllen. woll Ihr der Bintzgerin auch also thun. Es macht Christus im Himel erbarmen. A bruxaria nos tempos modernos. die Ristin die hunner mit dem Steckhen wegkgeiagt und Ihr getrohet. wiss sie hieruon nichts. es kenne das Maidlein wohl. sagt. Sie vermaint. den 25ten Octobris. Sagt. auch sonderlich sich vor grosser marter verwahret. Sie wisse nicht.. Freitags.. História: Questões & Debates. wie sie in des Lankhkuchners Haus und Keller gefahren. (unleserlich. dass sie von nichts wisse. das Maidlein lieg sie an. Die Bintzingerin abermalen furgefordert uff die Leitern gelegt und heimlich gefragt worden. p.. n. Drohung). Bekenth wol. den 2ten Octobris. Ihre hunner alss hinuber geflogen und den Habern und Waitz Ihr uffgefressen. ist sie peinlich und wohl angestrengt worden. 2002. Sagt erstlich alss wahr. Die Bintzingerin abermals furgefordert und uff des Maidleins aussag er(n)stlich nochmalen befragt worden. dass Ihr unrecht geschehe. Anna Bintzingerin uff des Maidleins aussag abermal verhört worden. Will uff alles was man sie gefragt. Auch hab Ir die Gräfin von Remlingen etwas für den schlag geben. dass sie gesagt. Sambstags. der Born hab sie ubergeben. sie wisse nicht souil böses.

o segundo documento em seguida. à discussão. A bruxaria nos tempos modernos. Editora UFPR . Além disso. 3. à casa de Henrich Moller e quem feriu o olho de sua esposa e se esta moça tinha estado também naquela casa. Por isso. no caso de mulheres. Então. 2. 111-142. naquele tempo. 37. P. qual havia sido este. 4. Perguntou-se qual era o seu nome. com o sufixo in. Se um animal havia estado nos tonéis de Wagner. 10. e se ela (a senhora Bintzinger) tinha feito isso (a cruz) ou tinha aberto este (o tonel). quantos anos e quantos filhos ela tinha. 2002. Se ela era casada. Perguntou-se se ela havia ido também. sobre o que elas tinham conversado. com o qual. no gargalo.. 75 Na verdade. devido a vários incidentes. J. ela estava citada ali e poderia se justi- ficar. Perguntou-se se ela não tinha dito que o Inimigo Mal gosta- va muito da pomada77 e se ela não tinha dado. onde isso tinha acontecido e o que ela tinha dito. quais ou- tras amigas ela (a senhora Bintzinger) tinha visto com aquela moça e. Indagou-se ainda se ela não havia empurrado um animal em cima. 7. n. e o que ela declarava sobre isso. todos esses tratamentos por senhor ou senhora faltam no texto original. Curitiba. um pouco desta pomada e um bastão branco a esta moça.. São nomeados somente os nomes das pessoas com o respectivo artigo e. 9. o que teria acon- tecido com o tonel que havia sido marcada em cima. Foi perguntado se ela conhecia a filha de Conrad Rist. Foi perguntado quando elas tinham entrado lá. as bruxas voavam pelo ar. tinha levado ao porão da casa de Jorg Wagner. p. Indagou-se quando esta moça havia surgido para ela.MAINKA. juntamente à senhora Moller e aquela moça. 76 Ferro de espevitar o fogo. 137 a) Tradução 1. na crença daquele tempo. foi comentado que corria o boato geral de que ela sabia voar com o atiçador76 e fazia mais coisas desse tipo. trazendo a questão da acusação. com freqüência. o que ela (a senhora75 Bintzinger) pensava dela e quantas vezes ela tinha a visitado. 77 Cf. 6. Justificou-se que uma das causas pela qual ela havia sido citada seria que ela tinha caído em suspeita na cidade de Volkach e nas redondezas. História: Questões & Debates. com uma cruz. quando ela tinha saído. quem ela. 8. 5. instrumento para avivar o fogo. princi- palmente. de maneira breve.

Editora UFPR . com quem esta moça havia convivido. tinha voado para o Rothlohe78. se tinham bebido e dançado à farta lá e o que mais elas tinham feito lá. como elas os tinham tratado. devi- 78 Área na natureza coberta de arbustos. foi perguntado se ela. n. se as três tinham voado. 11. já logo. presidente de uma vila ou cidade. 4. P. elas tinham feito para os homens.. Que tipo de lugar este (Rothlohe) seria. J. p. em outros lugares. para onde elas tinham voado. 79 Um tipo de regedor. Indagou-se ainda se ela não tinha procurado dentro desse lugar cogumelos amarelos e qual uso faria deles. o carrasco estran- geiro deveria ser colocado ao seu lado. Perguntou-se. 37. que outros tipos de grandes danos.138 MAINKA. 15. quanto à queimada do vinho (por causa do frio). quan- to ao gado. 3. ou. se também era verdade que ela e a senhora Moller tinham empurrado e montado os cavalos do Schultheiss79 Claus Rönert e de Herwart. Curitiba. O seu nome era Anna. de maneira breve. 14. Na segunda-feira. Se isso fosse verdade. quais coisas haviam estado dentro deste lugar (Rothlohe) e o que ela tinha feito lá. O seu marido se chamava Michael Bintzinger. enfim. 16. Ela tinha aproximadamente 50 anos de idade e havia sido por mais de 30 anos dona de casa. 5: Ela não sabia tantas coisas más. de fato. Ela não conhecia esta moça e por toda a sua vida ela nunca tinha falado nenhuma palavra com ela. se não o fizesse. interrogada. de modo que eles morreram. Quis saber-se. Quis saber-se. 2. no dia 23 de setembro. que eram muito hostis a ela (a senhora Bintzinger) e. para poder causar dor ao olho de alguém. 111-142.. como segue: 1. 2002. se ela tinha untado o atiçador (com a pomada acima men- cionada). à moça um amante e como ele se chamava. aquela mulher (a senhora Bintzinger) foi. (em presença de três funcionários. Nesse caso. Dizem as pessoas. 12. para o Rothlohe. 13. nova- mente. A expressão alemã indica também a cor do vermelho. dos quais ainda três estavam vivos. A bruxaria nos tempos modernos. assim. mencionados por nomes). Foi perguntado também se ela tinha dado. ela deveria falar. Tinha com ele (o marido) nove filhos. História: Questões & Debates. enfim. por exemplo. com a senhora Moller e a moça. naquele dia. Ela deveria indicar tudo isso e.

talvez eles tenham se abalroado. p. que esta moça havia sido influenciada por outras pessoas. ela (a senhora Bintzinger) tinha jurado que não sabia de nenhuma pêra vendida por ela mesma. endemoninhada. Em suma. Além disso. Em seguida. ainda. no dia 26 de setembro. À tarde do mesmo dia. Curitiba. ela ia cada Domingo à missa. talvez provenha esta coisa (acusação). meu Deus. ela negava tudo isso que a moça tinha declarado sobre ela. esta moça foi apresentada à senhora Bintzinger. 37. interrogada sobre o depoimento da moça. a moça (a filha de Rist) lhe tinha acusado. de que ela não sabia nada e que a moça mentia. a moça disse como esta senhora Bintzinger tinha vendido pêras e a tinha dado uma delas de presente. que seria verdade. Na quinta-feira. ela permaneceu (no seu depoimento anterior). como a senhora Bintzinger tinha empurrado no gargalo (do tonel). A bruxaria nos tempos modernos. que ela não sabia nada daquilo. Disse que a inveja das pessoas em relação a ela seria a causa de tudo. 111-142. Depois. não lhe queria conceder nenhuma participação na mesma. (Di- zendo) primeiramente. nova e seriamente. foi interrogada sob torturas e muito intensamen- te. J. A senhora Bintzinger foi novamente citada e. enquanto a moça do interrogatório. Ela tinha galinhas que haviam andado diante da porta do senhor Rist e que tinha atirado bastões. Além disso. No sábado. Devido ao fato de que ela criava galinhas e estas tinham causado para ele (o senhor Rist) esse dano. A senhora Bintzinger foi novamente examinada sobre os itens aci- ma mencionados. Então. que ela não sabia nada daquilo e que a moça mentia. Após a tortura. História: Questões & Debates. Como ela não estava disposta a confessar mais. no dia 29 de setembro. primeiramente. 2002.. ela não tinha feito nenhum mal em relação àquela. P. como elas duas tinham voado para o porão de Langkuchner e como elas tinham montado (no atiçador). Assim. n. Devido a isso. Anna Bintzinger foi..MAINKA. sua esposa sofreu um ataque (de apoplexia ou de coração). interrogada sobre o depoimento da moça. Depois. 139 do a isso. Também. disse. contudo. Disse. de novo. Editora UFPR . ela (a senhora Bintzinger) jurava.

especialmente também como ela poderia se poupar de torturas graves. pois ela (a senhora Bintzinger) tinha desejado trigo. A bruxaria nos tempos modernos. Em presença (de dois funcionários. a senhora Bintzinger foi. Não quis responder a todas as perguntas. citada e interrogada amiga- velmente. História: Questões & Debates. mas suas galinhas tinham voado para aquele lado e tinham comido a aveia e o trigo dela (a senhora Rist). novamente. (disse que) ela não sabia tantas coi- sas más. na região de Francônia. ela queria (segue uma ame- aça. 37. Disse que a senhora Rist seria uma hipócrita. Ela (a senhora Bintzinger) não sabia que tinha dito. que as afugentou com um bastão e lhe ameaçou dizen- do que iria fazer a ela (a senhora Bintzinger) a mesma coisa má. porém. Editora UFPR . que ela sabia bem que a moça também havia estado na casa de Schuster. que não podia ser decifrada claramente no original). Disse.140 MAINKA. no dia 2 de outubro. Curitiba. A senhora Bintzinger foi. A senhora Bintzinger foi. 80 Remlingen é uma vila perto de Würzburg. para poder causar dor ao olho de alguém. 2002. Depois do almoço. Confessou. mencionados por nomes). Na sexta-feira. Percebia-se que ela tinha sofrido uma injustiça e isso faria com que Cristo no céu se compadecesse (dela). mas ela não pode- ria se lembrar. J. novamente. citada. Depois de sérias exortações. e acreditava também que a Condessa de Remlingen80 tenha dado algum remé- dio a ela (a senhora Rist) contra o ataque. no dia 25 de outubro. p. n. Ela acreditava que o (senhor) Born a tenha denunciado. 111-142.. P. no norte da Baviera/Alemanha. interrogada sobre o último relato. que. ela (a senhora Rist) havia adoecido e sofrido um ataque (de apoplexia ou de coração). Na quarta-feira. de novo. colocada à escada e interrogada clandestinamente. além disso também. aveia e várias outras coisas.. Ela não quis confessar em relação a todas as perguntas que foram feitas a ela. sobre como ela tinha voado para a casa e o porão de Langkuchner. três dias depois.

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