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ARGUMENTAÇÃO JURÍDICA E TEORIA DA DECISÃO

Professora Margarida Lacombe

Julgamento da ADI 4.983

Lei 15.299/2013 do Estado do Ceará “Lei da Vaquejada”

Sidney Pereira da Silva – Turma 2016

INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata da importância da argumentação no âmbito das discussões e defesa
de teses contrárias, utilizando como exemplo o julgamento da ADI 4.983 que declarou a
inconstitucionalidade da Lei nº 15.299/2013 do Estado do Ceará, apelidada “Lei da Vaquejada”,
demonstrando embates bem fundamentados e conduzidos de forma coerente com a natureza
do conflito entre dois valores importantes amparados pela Constituição Federal.

RELATÓRIO

Em 12 de agosto de 2015, o Ministro Ricardo Lewandowski, na ocasião Presidente do STF,
iniciou a primeira sessão do julgamento da ADI 4.983, passando a palavra ao Ministro Marco
Aurélio, que começa seu relatório expondo os termos da Petição Inicial, que toma por base os
dispositivos constitucionais que tratam da preservação do meio ambiente como direito e dever
de todos (Art. 225) e, especialmente, da proteção da fauna e da flora, vedando práticas que
coloquem em risco funções da ecologia e, especificamente, veda a submissão dos animais à
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crueldade (Art. 225 inciso VII) . Ela cita também, de outro lado, a Lei nº 15.299/2013, do Estado
do Ceará, que regulamenta a Vaquejada. Na referida Petição, o Procurador-Geral da República
(PGR) cita o conflito entre dois valores: preservação do meio ambiente e preservação e
exercício de práticas culturais tradicionais de toda uma região.

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Art. 225 CFRB: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum
do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. §1 Para assegurar a efetividade desse
direito, incumbe ao Poder Público: (...) VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as
práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam
os animais à crueldade.”

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E apresenta alguns dados estatísticos. Faz girar R$ 600 milhões por ano. já se referia ao peão boiadeiro e a vaquejada como procedimento que exigia a destreza e a coragem para domar o animal.299/2013 estaria. que. em 1854. Afirmou também que a vaquejada é um esporte que ocupa o segundo lugar no ranking de popularidade nacional. uma vez que não existiam cercas limitando as propriedades. importa ao Tribunal atuação contra majoritária e situações consolidadas pelo tempo. Ratifica a questão cultural e sua importância. Advogado da Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ): Dr Vicente Batista Braga 2 . cuja obra intitulada “O Novo Cancioneiro”. Usou o exemplo das corridas de boi e das brigas de galo. E incluiu vários nomes de celebridades da música regional. como Alceu Valença. O advogado afirma que a Lei nº 15. Fagner. mas seria um retrocesso. se posicionando contra os maus tratos dos animais.5 minutos para a defesa da constitucionalidade da Lei da Vaquejada. que fazem referências à importância da vaquejada no Nordeste brasileiro. citou que estudos técnicos demonstraram o tratamento “desconforme” dos animais. Castro O advogado teve 7. após o Relator. retirá-la (a lei) do mundo jurídico. afirmando que as práticas vão continuar. No caso da Vaquejada. 90% é vaquejada e possui mais de 300 mil cavalos cadastrados para participar. que o Supremo já havia julgado no passado. porque regulamenta a atividade na região. em 4. que foi autor da primeira lei da Vaquejada em 1950. na verdade. como por exemplo: dos 790 eventos agropecuários no Ceará. citou Câmara Cascudo. Advogado da Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ): Dr Antônio Carlos de A.000 vaquejadas anuais. ainda que oriundos de expressões culturais trazidas desde a colonização portuguesa e arraigada na cultura popular. protegendo o animal. Dominguinhos. Também abordou José de Alencar. e inicia lembrando da evolução do processo civilizatório.Va ARGUMENTAÇÃO Procurador-Geral da República (Requerente): Dr Rodrigo Janot Foi o primeiro a ter a palavra. no Brasil e emprega mais de 720 mil empregos diretos e indiretos. durante os quais. tanto dos bois quanto dos cavalos utilizados nas Vaquejadas. Zé Ramalho e outros. só perdendo para o futebol. não sendo indolor.

perante a manutenção da natureza e a responsabilidade perante as gerações presentes e futuras. o Ministro Marcos Aurélio Após o pronunciamento dos advogados da Associação Brasileira de Vaquejada. que tratavam de conflitos da mesma natureza. choques elétricos e estiga do gado. que a referida lei vem garantir e a “má vaquejada”. citando que o objetivo desta é a morte do boi. Ministro Edson Fachin Na contramão da proteção do meio ambiente. julgando procedente os termos da Petição Inicial da ADI e encerrando com os termos “é como voto”. traumatismos. nas quais as aves se atacavam até a morte. Entrou depois em detalhes. o ministro Marcos Aurélio faz um resumo no qual reafirma haver um conflito aparente entre os dispositivos constitucionais. açoite. sobre a Farra do Boi. dores e sofrimentos. se houver lesão ao animal. as 3 . Quando descreve a Vaquejada. o Ministro Fachin abre seu discurso dando ênfase aos dispositivos que privilegiam estas. que determinam o dever de proteção aos animais e a proibição ao trato com crueldade. Citou Paulo Bonavides. para que saiam em disparada. fornece os detalhes tais como: clausura. Os cavalos também acabam sofrendo com tendinites. Ao final. em favor do direito e dever do cidadão. na peça de Petição Inicial. da Constituição. Faz menção à “boa vaquejada”. de civilidade. Relator. e laudos técnicos que comprovam as fraturas no rabo e patas. e outro autor. Na sequência. previstos nos artigos 225 (proteção da fauna e da flora) e 215 (Manifestações culturais). o vaqueiro deve ser excluído da competição. e as rinhas de briga de galo. faz uma comparação dos procedimentos da Vaquejada com os da Farra do Boi. que aborda a dificuldade de saber-se quanto sacrifício a sociedade pode e deve suportar para garantir o ecossistema. comprometimento da medula espinhal. e na Vaquejada. o Ministro descreve as mazelas causadas aos bovinos e a incompatibilidade com as normas previstas na Carta Magna. das outras duas ADI’s julgadas pelo STF. fraturas etc. miopatias pelo esforço. Em seguida. atenosinovites. em favor da proteção das expressões culturais. na qual os animais eram mortos a pauladas. que seria aquela não amparada pela norma em questão. que versam direitos fundamentais. ele afirma ser favorável à Ação Direta de Inconstitucionalidade da Lei. definindo inclusive esse termo.Va Já o advogado Dr Vicente Batista parte em sua argumentação pela questão objetiva de falta de identificação do dispositivo legal que estaria sendo violado.

Comenta que “a vida vai ficar muito aburrida. Referiu-se as palavras do Advogado Dr Almeida Castro. 216.Va 2 manifestações. nos quais se incluem: I – as formas de expressão. na ilegalidade. 216. e que..”. que diz: “Uma sociedade aberta. do Art. tal como está na constituição. associando aos direitos de caráter cultural.2º da Lei de Bonn. Ele cita Tania Maria dos Santos. quando se refere à Lei das Vaquejadas no que toca a defesa dos animais. pois os animais não estão em seus estados naturais. II – os modos de criar. tornados individualmente ou em conjunto. Ministro Gilmar Mendes O Ministro Gilmar inicia sua fala alegando que a proposição do colega. à ação. citando além do Art. o Ministro relator. com acesso a outras manifestações culturais (. sobre a liberdade de autodesenvolvimento da personalidade. ratificando não haver evidências cabais que aproximem o caso da Vaquejada com o da Farra do Boi. também o Art.)”. sob pena de estimular-se a clandestinidade. fazer e viver. chata. “Constituem patrimônio cultural brasileiro os modos de criar. Argumenta que não se deveria levar essas questões de defesa dos animais “à ferro e fogo”. a noção de cultura é construída.. Ele relaciona esses artigos a um pequeno trecho da Petição Inicial. portanto reconhecendo a questão da cultura envolvida no caso... sugere que a Lei (da Vaquejada). no qual o Ministério Público relata que a Vaquejada mantém a técnica da tradição cultural. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. (. em relação a proteção do Desporto. Constituição de Weinmar. 215 da CFRB. fazer e viver” da população brasileira. sobre uma noção mais ampla da cultura. “o assustou”.. Depois. deveriam criar medidas específicas para as eventuais lesões aos animais. de Barretos ou corridas de cavalos. não é um a priori..) é preciso despir-se de uma visão unilateral de uma sociedade iminentemente urbana. Conclui também em suas palavras que “(.” E inclui citação de Paulo Natalício Vistenfield. Comenta ainda. inciso IV. que afirma ser justamente as manifestações culturais expressões do desenvolvimento civilizatório brasileiro. Considera que ao invés de proibir a atividade da vaquejada. não ver possibilidade de se fazer aplicação dos precedentes da Farra do Boi e das Rinha de Galo ao caso em questão. Gilmar. no inciso II. devido a ele. como manifestação numa dada sociedade. Encerra seu voto. Faz ainda alusão ao processo civilizatório com base no caput e §1 do Art. cita o Art.)” 4 .. mas consta do Art. fazendo trocadilho com o jogo do bicho.. tendo em vista o forte conteúdo cultural. quando participam da Festa do Peão. cabeça e incisos I e II : que não referidos antes. Sugere moderação em vista do pluralismo. julgando improcedente o pedido manifestado pelo MPF. 216 CFRB: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. 215. 217. que ferir-se-ia uma ideia que não está recepcionada no direito brasileiro. remetendo-se a lembrança do Ministro Moreira Alves. portadores de referência à identidade. poderia ser aperfeiçoada na sua 22 Art.

sedem (tiras de couro que apertam os rins dos animais). e a doutrina Cartesiana. portanto. ainda quando haja crueldade. porém sem que se provoque lesões ou sofrimento aos animais. da Ministra Carmen Lúcia e do Ministro Dias Tofoli. a seu ver. e a segunda. gostaria de se instruir melhor. Conclui estar de acordo com o Ministro Fachin. relata que há uma implicação cultural relevante e há implicação também relevante de saber se realmente há crueldade e o nível dela. ser necessário nosso alinhamento às práticas iluministas em referência. o Ministro. declara empate no tangente aos votos já proferidos a favor e contra a inconstitucionalidade da Lei da Vaquejada. Ministro Luis Roberto Barroso Solicitando antecipação de seu pedido de vista. Na sessão do dia 02/06/2016. Na sessão do dia 02/06/2016. questões fáticas relevantes e questões de ética a serem enfrentadas. o Ministro. reduzindo-se os danos aos animais. Descreveu a Vaquejada. o pedido da ADI. Ressaltou a necessidade de o Tribunal não se utilizar o raciocínio exclusivamente jurídico e dogmático. Visões largamente 5 . Propõe então que a Corte possa chegar a um meio termo que permita vedar o sofrimento dos animais sem que se vede a prática do desporto. e portanto. tais como esporas com rosetas cortantes. julgando improcedente. e tendo sido o primeiro a falar. Em seguida. que pediu vista. não inviabilizou a Festa do Peão Boiadeiro. devendo. sobre a singularidade humana e o afastamento dos animais. E mesmo assim. faz um resumo dos principais pontos ocorridos na sessão anterior. Ministro Ricardo Lewandowki Comenta a existência de inúmeras jurisprudências. se a Vaquejada é protegida pela Constituição. em São Paulo. choques elétricos e outros instrumentos contundentes. no próprio Tribunal de São Paulo que proíbem instrumentos que possam causar lesões aos animais. presidindo-a. que iniciou o debate. e assim legitimando o tratamento degradante dos mesmos. faz uma abordagem sobre a ética animal e sua evolução no mundo contemporâneo. Ele dividiu seu parecer em torno de duas questões principais: saber se a Vaquejada consiste em uma prática que submete animais a crueldade. Kant e suas posições sobre os animais em relação ao Homem. meros seres autômatos como as máquinas. por ser manifestação cultural. encerrando-a com pendência dos votos dele mesmo. Citou Aristóteles. a de saber que. considerando haver questões jurídicas.Va execução. após a vista do processo. São Thomas.

imensa dor. Fez menção à obras como a do filósofo Tom Regan. causem aos animais. sentir prazer etc. Mas não estava dando seu voto. e com regras que não ultrapassam o limite da razoabilidade. introdução de pimenta ou mostarda via anal e outras práticas abomináveis. o pinote de um cavalo é provocado de forma “cara” ao animal. a quebra do rabo e os traumas nos cavalos. nos quais o Tribunal se posicionou a favor da defesa dos direitos dos animais e de sua proteção contra crueldade. choques. e ainda assim. comprovadas por um estudo realizado pelo Hospital Veterinário da Universidade de Campina Grande. Julga. principalmente por se tratar de entretenimento. significando que. considerou ser a situação toda de ponderação e por isso. que naturalmente. demonstra que a Constituição Brasileira avançou em relação à ética animal. para a defesa dos animais. como capacidade de sentir dor e prazer. era termo chave a ser considerada. procedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade da referida lei da vaquejada. sobre o direito dos animais. Enfim. Referiu-se a senciência. assim como as leis que regulam os rodeios. sua capacidade de sofrer. e citou que a Lei prevê regras de proteção do público. divulgadas pelas redes sociais. mesmo podendo ser utilizado pelos homens. A partir da década de 70. imenso sofrimento e sejam de grande crueldade para simples entretenimento das pessoas. E que os animais teriam o direito moral de não serem submetidos a crueldade. Aludiu também ao princípio da precaução. Ministro Luiz Flux Fez comentário usando-se de comparação entre os esportes de contato. com consentimento dos esportistas. uso de luvas com pregos. sobre a possibilidade de um meio termo. na ausência de certeza científica. açoitamentos. Citou os precedentes análogos. E conclui que as ações para provocar o boi a disparar em alta velocidade. ou existência de dúvida razoável. e a vedação da crueldade e preservação do bem-estar dos animais. comentou as afecções traumáticas causadas nos cavalos oriundos de vaquejadas. sobre a ocorrência ou não de um dano. Finaliza seu voto. portanto. devendo ser tratada com a técnica de precedentes. Acrescentou referências a questão da escravidão. Na terceira parte do seu voto. 6 . os animais contra crueldade. comentando as evidências de maus tratos aos animais utilizados em vaquejadas. são regulados. correntes de pensamento relevantes sobre a ética animal pesquisava a posição “inferior” dos animais em relação aos homens. abordou o comentário do Presidente do STF. tendo artigos que protegem diretamente.Va superadas nos dias de hoje. dos vaqueiros e dos animais. a forma de tombar o boi pela causa e com força para que suas quatro patas sejam visíveis. o simples risco já traz como consequência a interdição da conduta em questão.

mas a lei. com toda a humanização. o Ministro abriu seu discurso. já que inclui explicita que o animal deve ser “dominado” e determina que se o vaqueiro causar dano ao animal será desclassificado. não haveria nada mais cruel do que o meio pelo qual o povo se alimenta. o Ministro Teori foi interrompido pelo Ministro Gilmar. mas que nesses eventos. Em sua exposição. E o Ministro Barroso. e sendo contemplado constitucionalmente como direito social. Então. protegendo as pessoas e os animais.299. o Ministro faz menção ao princípio da Legalidade . portanto. que também tem regras. considerando ainda que. Entretanto. que. E defende que na literalidade. Nesse sentido.” 7 . Apresenta a leitura de um artigo intitulado “Como o boi virá filé”. Ministra Rosa Weber 3 Princípio da Legalidade: Art. que apoiou-o citando as corridas de cavalos. Fez também referência às lutas de MMA e Box. até mesmo com risco de desnaturar a própria Vaquejada. mas também a limita. e o alto grau de violência e crueldade humanas com os animais. fazendo referência aos artigos já citados pelos demais. Ministro Teori Zavaski Iniciou sua explanação citando as touradas espanholas e portuguesas. que ilustra como o boi é preparado desde filhote. ou seja. há consentimento entre os participantes. objeto da ADI em questão. para o abate. paradoxalmente consagra a liberdade. não sendo comparáveis. ainda que abrindo-se mão do direito inalienável da integridade física. Conclui seu voto afirmando acompanhar a divergência inaugurada pelo Ministro Edson Fachin. com o abate do boi. E declara optar pelos colegas que propugnaram pela possibilidade de exploração da atividade cultural considerando as ponderações legislativas que afastam a crueldade da Vaquejada. a lei vem disciplinar a Vaquejada.Va Na sessão de agosto de 2016. contrapondo com a diferença do sofrimento e lesões dos animais serem intrínsecos à natureza da Vaquejada e que nas corridas de cavalo são intercorrências. pois pelo principio da unidade da Constituição. mas os animais também sofrem danos. o Ministro Teori Zavaski conclui seu voto. sendo ponderáveis à luz do caso concreto. ratificando não ver inconstitucionalidade na Lei. interveio no debate. quando teve a oportunidade de então registrar seu voto. que chocam pela violência. e indicando a necessidade de ponderação. não haveria princípio mais importante do que outro. aludindo que não se discute portanto 3 a Vaquejada. julgando improcedente a ADI. aborda a distinção entre a Vaquejada como prática amplamente difundida e a própria Lei do Estado do Ceará.5º II – “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei. Lei 15.

Razoabilidade. sendo portanto. dado que a Constituição confere valor intrínseco também às formas de vida não humanas. como atesta parecer concedido à União em 1999 pelo especialista em neuroanatomia. seres senscientes. sob o delírio da plateia. pediu vista ao processo. 225 da Constituição Federal.”. mas diante da obediência desse.” Abordou a jurisprudência por meio de citação da ementa do Recurso Extraordinário nº 153531. a seu juízo.. ordena- lhe substituir o filho por um cabrito. a virgem que pariu o salvador. depois substituído pelo sacrifício de animais. médica veterinária. especialmente no 8 . que tem sua calda tracionada e torcida para que tombe ao chão. Acrescentou que as sociedades possuíram mitos no mundo todo.. Em razão desses aspectos. inclusive. em que Deus pede a Abraão o sacrifício de seu filho em um altar. portanto. Crueldade. isso porque na denominada Vaquejada. da discussão em questão. ruptura dos ligamentos e de vasos sanguíneos. estabelecendo-se. em direção a civilidade. possui. Ministro Dias Tofoli Inicia seu voto fazendo alusão à Bíblia e ao pacto descrito no Antigo Testamento. Cita os artigos 215 e 225. uma matriz biocêntrica. onde o touro se tornava quase que uma massa sangrenta. E encerra seu discurso dizendo que acompanha o voto do relator declarando a inconstitucionalidade da lei cearense.. Alegou que este exemplo acabou com a pena de morte no mundo Ocidental. tais como o dilúvio. gesto que pode lhe causar luxação das vértebras. de onde destacou: “.Va Inicia seu discurso já demonstrando alinhamento aos votos dos Ministros Marco Aurélio e Luis Roberto Barroso. §1. da medula espinhal. E com isso. resumindo a situação na qual teve vista concedida e abre seu voto citando Câmara Cascudo e sua obra. “Costume. de Madri. na qual o historiador afirma ser a Vaquejada expressão cultural e desporto desde o século XVIII. no caso. o ministro inicia o pleito. ainda que em passos lentos. fazendo referência a necessidade de a Humanidade caminhar. inciso VII da Constituição Federal. da USP”. no que veda prática que acabe por submeter os animais à crueldade. Animais. 225. Profª Drª Irvênia Luiza de Santos Prada. da Constituição Federal. um grande pacto civilizatório ensinado pela mitologia da Bíblia.. Estímulo. e argumenta que em sua interpretação “o Estado garante e incentiva manifestações culturais também mas não tolera práticas cruéis contra os animais. o sacrifício de seres humanos. dois vaqueiros galopam no encalço de um animal em fuga. afirmou a importância para a Humanidade. da União Internacional Protetora dos Animais e outros. da OAB. A obrigação de o Estado garantir à todos pleno exercício de direitos culturais incentivando a valorização e a difusão das manifestações não prescinde da observância da norma do inciso VII do Art. E conclui que o Art. Aludiu à inúmeros memoriais que o STF recebeu. Manifestação cultural. Preservação da fauna e da flora. e às Touradas. e há de ficar com as quatro patas para cima. lesões traumáticas com o comprometimento. Na terceira e última sessão.

que afirma ser a Vaquejada não um esporte mas um serviço de campo. além de veicular conteúdo impregnado da ética e jurídico. o Ministro afirma que entende que a Lei nº 15299/2013. que traduzem a consagração constitucional de uma das mais expressivas prerrogativas asseguradas às formações sociais contemporâneas. Citou também Caio Prado Junior. o Ministro Lewandoski inicia seu voto declarando acompanhar o relator. Afirma que o meio ambiente. justifica-se em sua própria razão de ser. conhecido especialista em direito ambiental. no trato com os animais. do Estado do Ceará.Va Nordeste brasileiro. Afirmou também que cabe reconhecer- se o impacto altamente negativo que representaria para a incolumidade do patrimônio ambiental. seja ainda. Aludiu que a Vaquejada também era conhecida como Festa da Apartação. O Ministro cita também Edes Milaré. no Estado do Ceará. Acrescenta que essa mesma lei regula o uso de animais para fins didáticos e de pesquisa. dos vaqueiros. Citou. possui significado abrangente. alegando ter uma visão 9 . então presidida pela Ministra Carmen Lúcia.38. Ministro Ricardo Lewandowski Quando da terceira sessão. E após outros exemplos de normas infraconstitucionais o Ministro vota procedente o pedido de ADI da Lei do Estado do Ceará. incluindo as noções de meio ambiente natural. votando pela improcedência da ADI. como os demais. seja provocando a extinção de espécies. em “Os Sertões”. em “História Econômica do Brasil”. o Ministro afirma que a Lei do Estado do Ceará não atenda contra nenhum dispositivo constitucional e pede vênia aos que acompanharam o voto do relator. de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Afirmou que trata-se de direito de novíssima dimensão. punindo o seu uso quando haja alternativas. a prática de comportamentos predatórios e lesivos à fauna. que tem preceito incriminador e pune a crueldade e inflição de maus tratos contra os animais. cultural e laboral. portanto.225. que trazia desenvolvimento social e econômico. E finalmente. já proclamado pelo STF e com apoio de eminentes doutrinadores como o Professor Celso Lafer. referindo-se também a Euclides da Cunha. assinalando que o inciso VII do parágrafo primeiro desse mesmo artigo. em seus argumentos. abriu seu discurso citando os preceitos do Art. conflita com a Lei nº 9605/98. Ministro Celso de Mello Antecipando seu voto. No final. no Art. as Rinhas de Galo e as impugnações que teve no passado. que garantem o direito a todos. artificial. que advertiu que o conceito de crueldade condiz com a ideia de submeter o animal a um mal desnecessário. seja colocando em risco a sua função ecológica. expresso nesse artigo. submetendo os animais a atos de crueldade. dos seres humanos.

Ministra Carmen Lúcia Abre seu discurso. não se sentiu convencida da efetiva preocupação com o bem-estar dos animais. que trata os animais como coisas. 225 da CF em contraposição a uma visão antropocêntrica. proclama que o resultado final do pleito. a Ministra Carmen Lúcia. que é veiculada nos jornais. ela considera procedente o pedido de inconstitucionalidade da Lei do Estado do Ceará. de parte considerável do povo brasileiro.299/2013 cearense. os argumentos foram quase na totalidade tão consistentes e tão bem fundamentados. idealizada pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas. enquanto discurso oral. Luis Flux e Dias Toffoli. Cita a “Carta da Terra”. a favor da declaração de inconstitucionalidade da Lei nº 15. apesar de ser um caso difícil. pelo qual sempre haverá os que defenderão o viés de uma cultura que se encravou pelo tempo. reconhecendo que o caso em questão determinou muitos estudos de todos os Ministros. Conclui. mesmo considerando-se que a Lei se colocava tentando preservar o cuidado com os animais. declara procedente a ADI.” COMENTÁRIO Ao longo das três sessões durante as quais os Ministros julgaram. Teori Zavaski. voltada à sustentabilidade. em seus votos. disse: “É a proclamação do resultado. Afirma que isso significa que deve-se respeitar todos os seres vivos em sua completa alteridade. subscrita pelo Brasil. no papel de Presidente do colegiado em questão. independentemente da verdade dos fatos. nas redes sociais. a inconstitucionalidade da Lei da Vaquejada. Gilmar Mendes. vencidos os votos dos Ministros Edson Fachin. partindo para a conclusão de que. Na sequência. a paz e a justiça sócio-econômica. como parte do rito. não foi o que ela extraiu das observações ou do estudo sobre os eventos da Vaquejada. entre seus vários princípios. treinamento dos vaqueiros etc. na terceira sessão do julgamento da ADI 4983. que funciona como um código planetário semelhante a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Essa carta preconiza. reforçando acompanhar o voto do Ministro Marco Aurélio. Ao final. reconhecer que todos os seres vivos são interligados e que cada forma de vida tem seu valor independentemente do uso humano. e afirmando que considerou agressão e sofrimento. bem como. desprovidos de direitos. nos termos do voto do relator. que o auditório frequentemente fica em dúvida e torna- se influenciado pelos melhores discursos. ou até mesmo conhecida pela própria experiência ou 10 .Va biocêntrica do Art. A Ministra foi objetiva e rápida no desenvolvimento do seu voto.

aderindo àquele que. em sua percepção.Va vivência. e acaba por formar sua própria opinião. canal “STF”. Fonte: Vídeos da “TV Justiça”. 11 . consultados no período de 21/05 a 06/06/2017. disponíveis no Youtube. está com a verdade. em suas vidas pessoais.