RESISTENCIA DAS AREIAS

13.1 Comportamento típico das areias
Nesta aula será escudada a resistencia de areias puras ou com
teor de finos muito pequeno (menos de 12%), cujo comportamento é
determinado pelo contato entre os graos rninerais, geralmente quartzo,
de diámetro superior a 0,05 mm. Na Engenharia Geotécnica,
principalmente de fundacóes, a palavra areia empregada para designar
é

solos em que a fracáo areia ésuperior a so<vo, como mostram os
sistemas de classificacáo vistos na Aula 2. Areias com 20, 30 ou 40% de
finos térn um comportamento muito influenciado pela fracáo argila e o
seu modelo de comporcamento mais semelhante ao das argilas, que
é

seráo estudadas na Aula 14, do que ao das areias puras, objeto da
presente aula. Na Mecánica dos Solos, areia refere-se a materiais
granulares com reduzida porcentagem de finos que nao interferem
significativamente no comportamento do conjunto.
Como as areias sao bastante permeáveis, nos carregamentos a que elas
ficam submetidas em obras de engenharia, há tempo suficiente para que as
pressóes neutras devidas ao carregamento se dissipem. Por esta razáo, a
resistencia das areias quase sempre definida em termos de tensóes efetivas.
é

A resistencia ao cisalhamento das areias pode ser determinada tanto em
ensaios de cisalhamento direto como em ensaios de cornpressáo triaxial. Na
presente aula, estudar-se-á o comportamento das areias em ensaios de
compressáo triaxial, do tipo adensado drenado, CD, com os carpos de prova
previamente saturados. Isso permite que se obtenha a variacáo de volume
do corpo de prova durante o carregamento, pois ela corresponde ao volume
de água que entra ou sai do corpo de prova e que medida numa bureta
é

graduada, acoplada a rubulacáo de drenagem.

Areias fo fas
Inicialmente, analisa-se o comporramento das areias fofas. Ao ser
feito o carregamento axial, o carpo de prova apresenta urna tensáo desviadora
que cresce lentamente com a deforrnacáo, atingindo um valor máximo, só
Mecánica dos Solos para deforrnacóes relativamente altas, da ordem de 6 a 8%. Aspectos típicos
de curvas tensáo-deforrnacáo sao mostrados na Fig. 13.1 (a), que mostra
também que ensaios realizados com tensóes confinantes diferentes
apresentam curvas com aproximadamente o mesmo aspecto, e pode-se
276 admitir, numa primeira aproximacáo, que as tensóes sejam proporcionais a
tensáo confinante do ensaio.

(a) (d)

>
co co>

(b) (e)

Fiq. U.l
Resultados típicos de
ensaios de compresséfo
triaxial em areias:
(a) (b) (c) areias fofas;
(d) (e) (f) areias
compactas
o
(e) (f)

Ao se tracarern os círculos de Mohr correspondentes as máximas tensóes
desviatórias (que correspondem a ruptura), obtém-se círculos cuja envoltória
é urna reta passando pela origem, pois as tensóes de ruptura foram admitidas
proporciona is as tensóes confinantes . A resi st encia da areia é definida pelo
angulo de atrito interno efetivo, como se mostra na Fig. 13.1 (c).
A areia é, entáo, definida como um material nao coesi vo, como , aliás,
cons tata-se pela impossibilidade de se moldar um corpo de prova de
areia seca ou saturada. A moldagem eventual de um corpo de prova de areia Aula 13
úrnida é devida a tensáo capilar provocada pelas interfaces água-ar. Essa
tensáo capilar é neutra e negativa. Sendo nula a tensáo total aplicada (caso Resistencias das Areias
do corpo de prova nao confinado), a tensño efetiva positiva e numericamente
é

igual a tensáo capilar; daí a sua resistencia e o nome de coesáo aparente.
277
Urna escultura de areia na praia mantém-se enquanto a areia estiver úmida;
se seca ou saturada, ela desmorona por nao suportar o proprio peso.
As medidas de variacáo de volume durante o carregamento axial indicam
urna reducáo de volume, como apresenta a Fig. 13.1 (b), sendo que, para
pressóes confinantes maiores, as diminuicóes de volume sao um pouco
maiores.

Areias compactas
Resultados típicos de ensaios drenados de cornpressáo triaxial de areias
compactas sao apresentados na Fig. 13.1 (d), (e) e (f).
A tensáo desviadora cresce rnuito mais rapidamente comas deforrnacóes,
até atingir um valor máximo, considerado como a resistencia máxima ou
resistencia de pico. Nota-se que, atingida essa resistencia máxima, ao
continuar a deforrnacáo do carpo de prova, a tensáo desviadora decresce
lentamente até se estabilizar ern torno de um valor que é definido como a
resistencia residual. ·
Os círculos representativos do estado de tensóes máximas definem a
envoltória de resistencia. Como, em primeira aproximacáo, as resistencias de
pico sao proporcionais as tensóes de confinarnento dos ensaios, a envoltória
a esses círculos é urna reta que passa pela origem, e a resistencia de pico das
areias compactas se expressa pelo angulo de atrito interno correspondente.
Por outro lado, pode-se representar também os círculos correspondentes
ao estado de tensóes na condicáo residual. Esses círculos definem urna
envoltória retilínea passando pela origem. O angulo de atrito correspondente,
chamado angulo de atrito residual, é muito semelhante ao angulo de atrito
da areia no estado fofo, pois as resistencias residuais sao da ordem de grandeza
das resistencias máximas da mesma areia no estado fofo.
Com relacáo a variacáo de volume, observa-se que os corpos de prova
apresentam, inicialmente, urna reducáo de volume, mas, antes de ser atingida
a resistencia máxima, o volume do corpo de prova corneca a crescer, e, na
ruptura, o corpo de prova apresenta maior volume do que no início do
carregamento. Ta] comportamento, se analisado sob o ponto de vista dos
parámetros da Teoria da Elasticidade, corresponderia a um Coeficiente de
Poisson maior do que 0,5. A Teoria da Elasticidade nao aceita tal
comportamento e, portante, ela nao pode ser utilizada para os solos nessas
condicóes. Nota-se, porém, que durante o início do carregamento axial, as
deforrnacóes específicas sao pequenas, os acréscimos de tensóes axiais sao
consideráveis e o corpo de prova ainda nao se dilatou (o coeficiente de Poisson
é menor do que 0,5). Nota-se também que esse estágio de carregamento
corresponde ao nivel de tensóes frequente em obras de engenharia, onde o
coeficiente de seguran<,:a a ruptura da ordem de 2 ou 3.
é
Mecánica dos Solos O entrosamento dos graos
nas areias compactas
A resistencia de pico das areias
compactas é justificada pelo
278 entrosamento entre as partículas,
como se mostra na Fig. 13.2, embo-
ra a representacáo seja imperfeita,
pois procura representar no plano
urna posicáo relativa de partículas
(a) fofa que ocorre no espac;o. Nas areias
fofas, o processo de cisalharnento
provoca urna reacornodacáo das
partículas, que se dá com urna reducáo
do volume. Nas areias compactas,
as tensóes de cisalhamento devem
ser suficientes para vencer os obs-
Fiq. U.2 (b) compacta táculos representados pelos outros
graos na sua trajetória. Vencidos esses
Posi~oo relativa das
partículas nas areias obstáculos, o que exige um aumento
fofas e compactas de volume, a resistencia caí ao valor
da areia no estado fofo.

13.2 Índice de vazios crítico das areias
Viu-se que urna areia diminui de volume ao ser carregada axialmente
quando se encontra fofa, e se dilata, nas mesmas condicóes, quando se
encontra no estado compacto. A Fig. 13.3 apresenta resultados de ensaios de
compressáo triaxial sobre corpos de prova de urna areia moldada com quatro
índices de vazios diferentes, com a mesma tensáo confinante. Observando-se
o ponto de resistencia máxima de cada ensaio na parte (a) da Fig. 13.3,
pode-se determinar a variacáo de volume correspondente a deforrnacáo
específica em que ocorreu a ruptura, na parte (b) da figura. Esses valores
podern ser representados em funcáo do índice de vazios inicial dos corpos de
prova, como se faz na parte (c) da figura.
No exemplo considerado, dois corpos de prova apresentavam contracáo
e dois apresentavam dilatacáo na ruptura. Deve existir um índice de vazios
no qual o corpo de prova nao apresenta nem diminuicáo nem aumento de
volume por ocasiáo da ruptura. Esse índice de vazios é definido como índice
de vazios critico da areia. Se a areia estiver com um índice de vazios menor do
que o crítico, ela precisará se dilatar para romper; se o índice de vazios for
maior do que o crítico, a areia romperá ao se comprimir. O índice de vazios
r t l , . . ).
crítico obtido po in erpo acáo dos resultados como mostra a Fig 13 3 (e
é
i - t i
Também por nterpolacáo, pode se avaliar o comportamen o da are a
s
ensaiada no índice de vazios crítico, como se mostra pelas curvas tracejada
. . ) - i , t,
na Fig 13 3 (a e (b). Note se que uma are a ao ser carregada axialmen e no
Aula 13

Resistencias das Areias

279

(a)

>
co Fiq. 1'.}
Obtencdo do índice de
vazios crítico a partir de
resultados de ensaios
' triaxiais com mesma
- --
~--...;..;.11
(b)
---------------------- --
(e)
pressño confinante

índice de vazios crítico, apresenta inicialmente urna ligeira diminuicáo de
volume, seguida de um aumento de volume; a variacáo de volume no
momento de ruptura é nula.
As areias fofas apresentam elevados índices de vazios antes de serem
carregadas axialmente, os quais diminuern com o carregamento, pois há
contracáo. De outra parte, as areias compactas apresentam, inicialmente,
baixos índices de vazios, que aumentam com o carregamento, já que há
dilatacáo. Na Fig. 13.4, está indicada a variacáo do índice de vazios dos
ensaios da Fig. 13.3. Nota-se que, após a ruptura, todos os corpos de
prova tendem ao mesmo índice de vazios, que é o crítico. As partículas de
areia fofa se alojaram em vazios existentes (reduzindo-se o índice de vazios)
e passaram a escorrega.r e rolar entre si, mantendo, na média, o mesmo índice
de vazios. Nas areias compactas,
vencido o entrosamento, e com a
criacáo de maior volume de vazios, a
situacáo passa a ser semelhante a
das fofas. Numa outra conceituacáo,
o índice de vazios crítico é
considerado como o índice de vazios
Fiq. 1'.4
em que a areia sofre deforrnacáo sem
variacáo de volume, que é o estágio Varia~ao do índice de
para o qual a areia tende ao ser vazios de areias em
. compressáo triaxial, a
rompida, independentemente do
partir de índices de
índice de vazios inicial.
vazios iniciais diferentes
Mecánica dos Solos A importancia da definicáo do índice de vazios crítico vem do fato de
que o comportamento das areias, se saturadas e eventualmente carregadas
sem possibilidade de drenagem, é extremamente diferente, conforme a areia
esteja com índice de vazios abaixo ou acima do índice de vazios crítico.
Carregamentos sem possibilidade de drenagem podern ocorrer, principalmente
280
ern areias finas, de menor coeficiente de perrneabilidade, quando a solicitacáo
é dinámica, como, por exemplo, as devidas a trernores de terra ou ao impacto
da queda de urn aviáo nas proximidades de urna edificacáo (hipótese
obrigatória no projeto de fundacóes de usinas nucleares).
Quando urna areia se encontra com índice de vazios inferior ao índice de
vazios crítico, ao ser solicitada, ela tende a se dilatar. A dilatacáo, no caso de
haver drenagem, é acompanhada de penetracáo de água nos vazios. Se nao
houver tempo para que isto ocorra, a água fica sob urna sobrepressáo negativa
(de succáo), e resulta um aumento da tensáo efetiva e, consequenternente,
um aumento de resistencia. Entretanto, se a areia se encontrar com um índice
de vazios maior do que o crítico, ao ser carregada, ela tenderá a se comprimir,
expulsando água de seus vazios. Nao havendo tempo para que isso
ocorra, a água fica sob pressáo positiva, diminuindo a tensáo efeciva e,
consequentemente, reduzindo significativamente a resistencia. As rupturas
de areias nessas condicóes costumarn ser drásticas, pois as pressóes
neutras podem atingir valores tao elevados que a areia se liquefaz.
Quando urna areia está com seu índice de vazios acima do índice de
vazios crítico, diz-se que ela é urna areia fofa; quando o índice de vazios é
inferior ao crítico, é considerada urna areia compacta. Essas expressóes, da
ciencia da Mecánica dos Solos, diferenciam-se conceitualmente das expressóes
referentes a compacidade das arelas, vistas na Aula 2, correnternente
empregadas na prática da Engenharia de Fundacóes. Neste caso os termos
fofa e compacta apenas indicam a deformabilidade: areias fofas apresentarn
maiores deforrnacóes e areias compactas sofrern menores recalques.
O índice de vazios crítico de urna areia nao urna característica do
é

material, mas depende da pressáo confinante a que ela está submetida. Quando
se estudou o comportamento em ensaios triaxiais, verificou-se que, quando
se aumenta a pressáo confinante, no caso de areias fofas, a diminuicáo de
volume é maior e, no caso de areias compactas, o aumento de volume
nao é tao grande. Essas inforrnacóes, expressas na Fig. 13.5 (a), indicam que
a pressóes confinantes diferentes correspondem diferentes índices de vazios
críticos. Quanto maior a pressáo confinante, menor o índice de vazios crítico.
A Fig. 13.5 (b) representa a variacáo do índice de vazios crítico ern funcáo
da pressáo confinante. Nota-se que, urna areia com um determinado índice
de vazios, quaodo ensaiada sob urna pressáo confinante baixa, encentra-se
abaixo do índice de vazios crítico correspondente a essa pressáo; portante,
no estado compacto. Se essa mesma areia for ensaiada sob urna pressáo
confinante alta, ela pode estar com um índice de vazios superior ao crítico
correspondente a essa pressáo; portanto, no estado fofo . Ass im, conclu í-se
que, para urna areia com um determinado índ ice de vazio s, existe urna te nsáo
confinant e critica, e a re lacáo entre esses doi s paráme tros a mesma indicada
é

na F ig . 13.5 (b).
Aula 13
Resistencias das Areias
>
1 ecrit. (cr 3 = 1) Q)
fofo
co
-·;'::
(.)
Q) 281

compacto

Fiq U5
ecrit. (cr 3 = 2)
o3 ' cr 3crit. Relat;ao do índice de
(a) vazios crítico com a
(b)
tensdo confinante

13.3 Varias;aodo angulo de atrito com a ptessiio
confinante
Na apresentacáo da resistencia das areias sob pressóes confinantes dife-
rentes, afirrnou-se que a máxima tensáo desviadora proporcional tensáo é a
confinante de ensaio. Disso resulta que a envoltória aos círculos representa-
tivos do estado de tensóes na ruptura urna reta que passa pela origem. Tal
é

afirmativa é, na realidade, urna aproximacáo empregada na prática e devida,
em parte, a
própria dispersáo dos ensaios realizados sobre corpos de
prova diferentes para cada pressáo confinante. Ensaios realizados com bas-
tante precisáo revelam que os diversos círculos de Mohr na ruptura
conduzem a envoltórias de resistencia curvas, como se rnostra na Fig. 13.6.

o o 400 800
1
1200
1
1600
o (kPa)
~ 40 .
o

-e- 38
36 ,_
' • ....
34 . . .... ......
- .......... _ --- Fiq. U.6
32
----·-------
30 -
Variai;ao do ongulo de
atrito interno de uma
1 1 1 1
o 400 800 1200 1600 areia com a tensño
e no plano de ruptura (kPa) confinante
Mecánica dos Solos Como as areias nao apresentam coesáo, sob pressáo confinante nula, um
corpo de prova de areia nao se mantém. Por isso, ao invés de procurar ajustar
urna reta a envoltória curva, prefere-se considerar que o angulo de atrito
interno varia com a pressáo confinante, como se apresenta na parte superior
da Fig. 13.6. A variacáo do angulo de atrito com a pressáo confinante é tanto
282 mais sensível quanto mais compacta estiver a areia e quanto menos resisten-
tes forem os graos. Isso ocorre em virtude das forcas transmitidas pelos graos,
como se estudará adiante. Quando se expressa de uma maneira genérica o
angulo de atrito de urna areia, pressupóe-se que o valor se refere aos níveis
de rensáo mais comuns em obras de engenharia, correspondentes a tensóes
confinantes da ordem de 100 a 400 kPa.

13.4 Ángulos de atrito típicos de areias
Para a mesma tensáo confinante, o angulo de atrito depende da
cornpacidade da areia, pois é ela que governa o entrosamento entre as
partículas. Como as areias térn intervalos de índices de vazios bem distintos,
os ángulos de atrito sao geralmente referidos a cornpacidade relativa das
areias. Resultados experimentais mostram que o angulo de atrito de urna
areia, no seu estado mais compacto, da ordem de 7 a 1 O graus maior do que
é

o seu ángulo de atrito no estado mais fofo.
Apresen ta-se, a seguir, como as características que diferenciam as diversas
areias influern na sua resistencia ao cisalhamento.

Distribuicáo granulométrica
Quanto mais bern distribuida granulometricamente urna areia,
é

melhor o entrosamento entre as partículas e, consequentemente, maior o
angulo de atrito.
No que se refere ao entrosamento, o papel dos graos grossos diferente
é

do desempenhado pelos finos. Consideremos, por exemplo, urna areia que
contenha 20% de gráos grossos e 80% de graos finos. O comportamento
dessa areia determinado principalmente pelas partículas finas, pois as
é

partículas grossas ficam envolvidas pela massa de partículas finas, pouco
colaborando no entrosa-
mento. A Fig. 13.7 ilustra
esta siruacáo,
Consideremos, de
outra parte, urna areia com
FiG, U.7 80º1<> de graos grossos e
20% de graos finos. Neste
Entrosamento de areias:
caso, os graos finos tende-
(a) predominantemente ráo a ocupar os vazios en-
finas; tre os grossos, aumentando
(b) predominantemente o entrosamento e, cense-
grossas; (a) (b)
n quentemente, o angulo de atrito. Note-se que, coerentemente com esse as- Aula 13
tr pecto, o coeficiente de nao uniformidade das areias definido pela relacáo
é

o entre os diámetros correspondentes a 60% e 10% na curva granulométrica, e Resistencias das Areias
r nao a duas porcentagens igualmente distantes dos extremos, pois pequena
)
porcentagem de finos interfere mais na 'nao uniformidade' do que pequena 283
porcentagem de grossos.

Formato dos graos
Areias constituídas de partículas esféricas e arredondadas térn ángulos
de atrito sensivelmente menores do que as areias constituidas de graos
angulares, devido ao maior entrosarnento entre as partículas quando elas
sao irregulares, como se mostra esquematicamente na Fig. 13.8.

Tamanho dos graos
Ao contrário do que se
julga comumente, o tarna-
nho das partículas, se
forem constantes as outras FiG, U.8
características, tem pouca Entrosamento de areias:
influencia na resistencia (a) de graos
das areias. arredondados;
A impressáo genera- (b) de graos angulares
(a) (b)
lizada de que as areias
grossas devam ter maiores ángulos de atrito do que as areias finas
<leve-se a dois fatores. Primeiro, chamadas areias grossas sao aquelas
em que predominam graos grossos; nelas, a pequena quantidade de
finos presente aumenta o entrosamento. Por sua vez, as chamadas areias
finas sao aquelas em que predominam os graos finos; nelas, a peque-
na quantidade de grossos nao aumenta o entrosamento, como ilustrado
na Fig. 13.7. Entáo, as areias predominantemente grossas tendero a ser
bem-graduadas, enguanto as areias predominantemente finas tendem a
ser malgraduadas.
O segundo fator refere-se a compacidade: na natureza, ern virtude da
massa das partículas e das forcas superficiais, as areias grossas tendem a se
apresentar muito mais compactas do que as areias finas.

Resistencia dos graos
A resistencia das partículas que constituem a areia interfere na resistencia,
pois, embora o processo de cisalhamento da arcia seja um processo
predominantemente de escorregamento e rolagem dos graos entre si, se os
graos nao resistirem as forcas a que estáo submetidos e se quebrarem, isso se
refletirá no comportamento global da areia.
Mecánica dos Solos Nao é fácil quantificar a influencia da resistencia dos graos. Ela é funcáo
da cornposicáo mineralógica da partícula (graos de quartzo sao mais resistentes
do que graos de feldspato ), do formato da partícula (é muito mais fácil um
grao angular se quebrar do que um grao arredondado), da pressáo confinante
do ensaio (quanto maior a pressáo, maiores sao as forcas transmitidas pelos
284
graos) e do tamanho das partículas (quanto maiores os graos, maior a forca
transmitida de um a outro, para a mesma pressáo confinante).
A quebra de partículas no processo de cisalhamento é a maior responsável
pelas envoltórias de resistencia curvas das areias (variacáo do angulo de
atrito com a pressáo confinante) e pela variacáo do índice de vazios crítico
coma pressáo confinante (maior cornpressáo ou menor dilatacáo para maiores
pressóes confinantes).

Cornposicáo mineralógica
Embora existarn poucas investigacóes sobre o assunto, pouca influencia
é atribuida a composicáo mineralógica dos graos, além de sua influencia na
resistencia dos graos.

Presenca de água
De um modo geral, o angulo de atrito de urna areia saturada é
aproximadamente igual ao da areia seca, ou só um pouco menor, com
excecáo do caso de areias com graos muito irregulares e fissurados, nas
quais a água reduz a resistencia dos
gráos cantos da partícula, com os reflexos
vistos ao se estudar o efeito da
resistencia dos graos.
A presens:a de água, em condicóes
de nao saturacáo, cría urna situacáo
~--.1..ar em que os meniscos de interfaces
ar-água provocam urna pressáo neutra
Fiq .. D.9
negativa na água: é a pressáo de
Efeito da sucedo succáo. Essa tensáo provoca urna
criando confinamento tensáo efetiva e a ela corresponde
efetivo das areias um ganho de resistencia, nao só
temporario (desaparece com a saturacáo ou a secagem), como de pequeno
valor e que pouco influí na resistencia total, a nao ser para pressóes
confinantes muito pequenas (ver Fig. 13.9).

Estrutua
r da arera
A disposicáo relativa dos graos de urna areia nao é isotrópica e, em
consequencia, seu comportamento nao é o mesmo em todas as direcóes, Sob
o ponto de vista do angulo de atrito, a anisotropia é de pequeno valor. Por
outro lado, podem existir dois corpos de prova corn o mesmo índice de vazios,
mas com as partículas dispostas de marieiras diferentes, as quais
:ao corresponderiam diferentes resistencias, mas as diferencas só seriam sensíveis Aula 13
tes em casos especiais, de partículas rnuito alongadas.
Resistencias das Areias
un
.re
Envelhecimento das areias
'.)S 285
;a A experiencia tem mostrado que urna areia que se encontra no seu estado
natural por muitos anos ou séculos apresenta urna deformabilidade muito
el menor do que quando revolvida e recolocada no mesmo índice de vazios. Da
'e mesma forma, um aterro de areia apresenta, após alguns anos, urna rigidez
o maior do que imediatamente ou pouco tempo depois de construido. O
s aumento de rigidez ocorre sem variacáo de volume e resulta da interacáo
físico-química entre as partículas.
Esse fenómeno indica que ensaios de cornpressáo triaxial com areias
remoldadas (e quase sempre assim que se ensaia, pois é extremamente
é

difícil obter amostras indeformadas de areias) inclicam módulos de elasticidade
muito menores do que os correspondentes ao estado natural. Com o
envelhecimento, aumenta a rigidez, mas nao a resistencia a ruptura, porque
quando esta ocorre, as ligacóes entre partículas já se desfizeram.
Da análise feita, verifica-se que os fatores de maior influencia na
resistencia ao cisalhamento das areias sao a distribuicáo granulométrica, o
formato dos graos e a compacidade. Em funcáo desses fatores, apresentam-se,
na Tab. 13.1, valores típicos de ángulos de atrito, para tensóes de 100 a
200 kPa, que a ordem de grandeza das tensóes que ocorrem em obras
é

comuns de engenharia civil.

Compacidade
fofo a compacto

Areias bem-graduadas

de graos angulares 37° a 47°
de graos arredondados 30° a 40°

Areias malgraduadas
TAb. U.1
Valores típicos de
de graos angulares 35° a 43°
ongu/os de atrito
de graos arredondados 28° a 35°
interno de arelas