MEDO E LIBERDADE NO

PENSAMENTO DE THOMAS HOBBES

Marcelo Martins Bueno1
(Mackenzie)

“Liberdade e medo são coisas coerentes(...) geralmente todos os
atos que os homens realizam nos Estados, por medo da lei, são
atos cujos agentes tinham liberdade para deixar de fazê-los”
( Hobbes, Leviatã)

A presente reflexão examina a idéia medo e liberdade no universo de
considerações da filosofia de Thomas Hobbes. Demonstra-se que o medo é
resultado da igualdade dos homens vivendo em estado de natureza e que a
liberdade, se dá via criação do Estado (soberania), conseqüência do contrato
e o seu objetivo é a manutenção dos homens no estado civil, e, assim,
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entende-se o relevante papel que a filosofia política hobbesiana tem para a
sociedade moderna. Trata-se da análise de uma teoria da soberania e não
do poder absoluto, como sempre foi interpretada.
“Minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo”.(HOBBES,1679, apud
RIBEIRO, 1999, p.17). Essa frase de Hobbes colocando-se como irmão gêmeo
do medo, sintetiza toda sua filosofia, que remonta à Inglaterra protestante do
final do século XVI, temerosa pela invasão espanhola, não faltando alarmes a
todo o momento para anunciar que as tropas invencíveis da Espanha haviam
chegado. Esse medo será o grande parceiro de Hobbes praticamente durante
toda sua vida. Já no século XVII, presenciou duas outras grandes revoluções,
que de certa forma espalharam um grande medo pela Europa, porque
trouxeram mudanças novas e radicais e, conseqüentemente foram
fundamentais na estruturação de sua filosofia. Uma delas foi na própria
Inglaterra, onde a luta pelo poder desencadeou uma ampla guerra civil pelo
país, e que foi descrita por Hobbes como guerra irracional. A outra grande

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O autor é Doutor e Mestre em Filosofia Política pela PUC-SP, Diretor do Centro de Ciências e
Humanidades da Universidade Mackenzie-SP.

Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 - Centro de Ciências e Humanidades - Mackenzie

em que Hobbes apresenta a filosofia sobre o homem. Esse medo ainda o acompanhará especificamente. (3a) De cive. Uma certeza é ponto pacífico. Elaborou um sistema no qual o estudo da sociedade e as propostas políticas associavam-se ao estudo e às propostas de processos de produção do conhecimento. as ciências fundamentais são a geometria e a mecânica (ciência natural ou física). na medida em que as afirmações e descobertas anunciadas trouxeram uma nova maneira de encarar o mundo e toda mudança. Neste nível. continental. embora tenha trazido conseqüências benéficas para a sociedade. (2a) De homine. pois tudo o que se move é corpo. praticamente. publicou em Londres o Leviatã. em princípio. época da publicação do Leviatã. Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . Hobbes desenvolveu um intenso interesse pela filosofia aliado às preocupações políticas.mudança foi. O primeiro em 1640. apresentadas em três obras: (1a) De corpore. em Paris. que a sociedade civil é fruto da racionalidade humana e. Hobbes foi o primeiro a fugir. que engloba a política e o direito. Em 1642. artificial. são simplesmente para elucidar e dar maior consistência à sua teoria. encontra-se a filosofia civil. cujo objetivo é tentar demonstrar porque os homens desenvolveram a sociedade civil. cujo estudo compreende a fisiologia e a psicologia. a 2 saber.Centro de Ciências e Humanidades . publicou. teve seu início marcado também pelo medo. voltou à Inglaterra. a filosofia do cidadão ou do homem como participante de um corpo artificial (Estado). a hipótese de animal social por natureza é totalmente descartada. como ele mesmo afirma em mais dois momentos. porque em essência a teoria do medo foi de fato encontrada numa análise profunda da natureza humana. As reflexões sobre o poder e o papel do Estado são os pontos fundamentais da filosofia de Thomas Hobbes. pois receava que a publicação da obra lhe valesse a morte. quando foi instalado um Parlamento hostil ao governo autoritário do rei. Do Cidadão e. Neste nível.Mackenzie . portanto. fugindo da França. por achar que a Igreja Católica francesa o mandaria à fogueira. Onze anos depois. e se divide basicamente em três partes. Os fatos narrados por Hobbes. O sistema filosófico de Hobbes tem por princípio diretivo o movimento e suas leis. decorrente da revolução científica iniciada por Galileu Galilei que. ou pelo menos tentasse puní-lo pelas teses que concerniam à religião. em que expõe a filosofia do corpo em geral como sujeito do movimento. em 1651. gera insegurança. em 1651. considerado um corpo com qualidades específicas.

Mackenzie . Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . isto é. Esse conceito é. como a prudência. 3 p. sem sombra de dúvida. sem prova decisiva. Todavia. possui capacidade ilimitada. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que os agrada e fugir do que os desagrada. Assim. Hobbes é considerado um empirista e nele encontramos os temas fundamentais dessa escola. idênticas aos princípios de que partimos. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias). da experiência passada. mais exatamente. a realidade é constituída por matéria/corpo e movimento e condicionada pela lei da inércia. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. para Hobbes. mas a essa lógica só concernem símbolos. poderemos chegar a conclusões rigorosas. toda natureza humana é sintetizada nessa idéia elementar do conatus. 2 Thomas Hobbes é nominalista: acredita que além das substâncias singulares. o elemento central da teoria hobbesiana. Trata-se. mas obtida com esforço” (HOBBES. que. que.34). conclui. 1974. A origem do conhecer é a sensação. porém. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. a produção do conhecimento é resultado do esforço do homem. Na fonte de todos os nossos valores está o que ele denomina de conatus. Aderir a esse pensamento significa simplesmente admitir que já não mais existe um império da razão. nem é adquirida apenas pela experiência. do desejo de atingir algo. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras de emprego dos signos. perfeitamente racional. ou seja. o instinto de conservação ou.Centro de Ciências e Humanidades . ao lado de uma indução empírica aproximativa. isto é. chegando até mesmo à criação da sociedade civil (império da razão): “Por aqui se vê que a razão não nasce conosco como a sensação e a memória. a moral também se reduz ao interesse e à paixão. pois as paixões terão um papel relevante. estranho às realidades concretas. de um jogo do pensamento. palavras 2. só existem os nomes puros e. elimina a realidade das coisas abstratas e universais. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. Assim. de afirmação e de crescimento de si próprio. isto é. Esse será o grande impacto que tal teoria trará para a sociedade. portanto.

mas o filósofo distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. por natureza. a fim de poder ler. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhes assegura. basta descrever o que se passa no estado natural. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. O maior sofrimento é ser desprezado. Ele não é sociável por natureza. é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. que calcula os melhores meios de atingir o objeto representado como objeto da ação ou um bem. por isso. O homem. vincula-se ao agravamento irreversível da Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . só o será por acidente. em que cada um procura. Assim.Centro de Ciências e Humanidades . como as abelhas e as formigas. Por conseguinte. sobretudo. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: “o homem é o lobo do homem” e “é a guerra de todos contra todos”. a caracterização hobbesiana do ser humano como um ser intencional. mas o seu cativeiro. antecipando aqui os temas 4 hegelianos. então. a força de cada um é medida por seu poder real. o ofendido procura vingar-se. a liberdade. o reconhecimento de sua própria superioridade.Mackenzie . as alegrias da vaidade. se não a morte. O professor Renato Janine Ribeiro comentou: A passagem da guerra à paz. Para Hobbes. o direito. para todos. Neste ponto tem-se. ao invés de uma desigualdade. que representa fins para a ação. em todos os casos. reduz-se à força. procura ultrapassar os seus semelhantes. mas observa Hobbes. em seu olhar atemorizado e submisso. um estado de insegurança. ele não possui instinto social. nos interesses pessoais. angústia e de medo. ao menos a sujeição do outro. ou melhor. É claro que esse estado. e racional. Para compreender como o homem resolve criar a instituição artificial do governo. comumente não deseja a morte de seu adversário. Este último – por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças – sempre é suficientemente forte para vencer o mais forte. No estado natural. do olhar ao privilégio da produção. o estado natural é. mas. é extremamente infeliz. o homem se distingue dos insetos sociais. ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. porque ninguém está protegido. Assim sendo.

se faz presente no homem como resposta a essa solicitação.38). Essa é a primeira fundamentação do direito natural. isto é. definido como conatus (esforço/empenho). o vigor e a sabedoria. e se não for possível tê-la. movido pelo desejo constante. é na igualdade entendida como agressão. portanto definirá sua posse é justamente a força. que é inerente a todos os corpos e. Afirmou Hobbes: A lei de natureza primeira. porque qualquer um pode matar qualquer um. porque os desejos pelas mesmas coisas ocorrerão e muitas não serão compartilhadas e desfrutadas em comum. o embate. e fundamental... de onde se conclui que não há superioridade de um homem sobre 5 os outros. ou seja. Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . usar todos os meios possíveis para essa auto-defesa e preservação da vida. Os homens nascem iguais: porque morrem da mesma maneira. ou seja. que a qualquer momento podem ferir como serem feridos. 19 e 20). a sempre possível morte de cada pessoa nas mãos de seu próximo. Isto posto. o que. pp. mas essa igualdade. acompanhada de instável desigualdade. que se encontra a raiz das diferenças. ou seja. que nos equipemos com os recursos da guerra (HOBBES. 1998. que os faz almejarem o poder sobre seus semelhantes.) É a igualdade que dá aos homens a vontade de se matarem e roubarem uns aos outros. só aparece face à morte. esse movimento animal interno. da desigualdade (RIBEIRO. se perecido. destroem-se também a força.1978. p. O medo recíproco que impera entre os homens no estado de natureza decorre. No estado de natureza estes são iguais. em suma. A origem deste constante conflito é descrita por Thomas Hobbes como uma conseqüência natural do próprio homem. sem dúvidas.Mackenzie .Centro de Ciências e Humanidades . (. em decorrência da fragilidade do próprio corpo que. é que devemos procurar a paz. é direito de todo indivíduo. é inevitável que os homens entrarão em conflito. quando possa ser encontrada. da igualdade natural entre eles. é o ponto de partida de suas ações. uma vez que todo o movimento inicial de ação humana é determinista. para proteger seu corpo e membros da morte e dos sofrimentos. desigualdade entre os homens.

em última instância mais poderoso do que o orgulho é a paixão que vai dar a palavra à razão. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. a soberania ganha ares nem um pouco divinais: é criação humana. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. Quanto a este último.Centro de Ciências e Humanidades . portanto. Houve. o monopólio da força pertence ao soberano. pois sua função é eliminar o medo entre os indivíduos e garantir a liberdade. se quiser permanecer no poder. Em todo caso. da parte de cada indivíduo. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. é o senhor absoluto a partir de então. uma vez que o soberano terá. No estado social. portanto. Assim sendo. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. O efeito comum do poder consistirá. em lembrança de uma passagem da Bíblia em que tal palavra designa um animal monstruoso. para todos. esta é a origem psicológica atribuída por Hobbes ao poder despótico. passando a ter todo o poder em relação a seus súditos. que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer a obedecer. e o fato de cada homem ser co-autor desta soberania torna seu poder indivisível. a força é a única medida do direito. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. esse poder absoluto permanece como um poder de fato. na segurança. Isso só será possível se cada um abdicar de seus direitos em favor de um soberano que.Mackenzie . Os homens. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário. O monstro foi criado . Apesar de tudo. ao herdar os direitos de todos. que encarna o poder absoluto . apesar de imortal. como no de natureza. É o medo. Seu direito não tem outro limite que não seja seu poder.do acordo coletivo. Na teoria hobbesiana. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. de fato. a ela deve pertencer todo poder de decisão em matéria religiosa: Não há quase nenhum dogma referente ao serviço de Deus ou às ciências humanas de onde não nasçam Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . o homem artificial. o maior interesse em fazer reinar a ordem. o Leviatã. terá um poder absoluto. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. desvinculada da característica sobrenatural do soberano. em que os homens entregaram ao Estado todo seu poder e toda sua vontade. No estado de sociedade. uma atemorizada renúncia do seu próprio 6 poder. Por isso.

a ausência de impedimentos externos. a liberdade de comprar e vender. a segurança. investido de uma autoridade instituída 7 pelos próprios cidadãos. dando direito ao soberano de punir aqueles que de alguma forma tentam atacá-lo ou infringir a ordem. independentemente de concordarem ou não. divergências que se continuam em querelas. querem que todos os demais julguem o mesmo (HOBBES. a garantia da propriedade. vangloriando-se de seu suposto saber. reinará a liberdade individual. impedimentos que com freqüência reduzem parte do poder que um homem tem de fazer o que quer.217). sua profissão. mas porque a natureza dos homens é tal que. no Estado de soberania. decorre dessa nova abordagem sobre a origem da sociedade civil. p. escolher sua residência. a religião ameaçaria a paz civil. Hobbes não vê solução para tais conflitos a não ser pela entrega de toda autoridade religiosa ao soberano.Centro de Ciências e Humanidades . não originem guerras: o que não sucede por falsidade dos dogmas. pois. de Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . de uma forma geral. realizar contratos mútuos. pois o que Hobbes preconiza é justamente um Estado. o soberano representa a vontade geral. o que Hobbes quer demonstrar é justamente que ele é fruto da vontade humana e que necessariamente deve refletir os seus interesses. no qual o poder se faz necessário. todos.Mackenzie . A concepção de poder hobbesiano. 1974. de acordo com o significado próprio da palavra. Investido de um poder absoluto. pouco a pouco. sem exceção. Assim. do contrário. a preservação da paz. Em o Leviatã o autor esclarece que por: liberdade se entende. porém não podem impedir que use o poder que lhe resta. Eis o paradigma de liberdade apresentado por Hobbes. capaz de fazer com que tais regras não sejam violadas. Como o Estado surge de um contrato. estão compromissados. ultrajes e. instruir os filhos e uma série de outras garantias que só serão possíveis mediante um poder superior. na medida em que todos pactuaram.

que é seu maior direito. Para Hobbes.Mackenzie . parece aproximar-se do princípio básico de que. 5. acordo com o que seu juízo e razão lhe ditem (HOBBES. mas não em sua acepção total. 3. o homem parece livre para caminhar para qualquer direção.Centro de Ciências e Humanidades . 2. a diferença entre um súdito livre e um servo está no fato de que é verdadeiramente livre quem serve apenas a sua cidade. a liberdade tem fronteira. há mais de um tipo de liberdade. sejam desrespeitadas pelas leis artificiais. Sobretudo no caso de levar o homem a atentar contra a sua própria vida. Nesse caso. ou seja. Para Hobbes. 1974. que é maior que todas as liberdades. Nesse sentido. independente do ônus que possa lhe causar o desejo 8 alheio. no estado civil. a teoria hobbesiana. A liberdade que permite ao homem. ou seja. respeitam apenas seus desejos particulares. em trecho Do Cidadão. a saber: 1. todo homem tem seu limite. o direito de um indivíduo termina exatamente quando se inicia o direito do próximo. o resultado mais trágico é um retorno ao estado de natureza. o homem já desfruta dessa liberdade. pois há um conjunto de leis artificiais que estabelece os limites para uma vida em sociedade. o autor mostra que o Estado deve estar pronto para punir com a força aqueles que tentarem se contrapor às regras. enquanto é servo aquele que também serve quem como ele Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . rodeado pelas leis. É importante destacar que para Hobbes. clamar por mais “liberdade”. aquela liberdade que não aprisiona o homem. E no que diz respeito a esse tipo.133). a liberdade pode ser vista de formas diferentes. A liberdade do soberano. a liberdade existe. A liberdade que se relaciona às leis naturais que. Assim sendo. casualmente. E isso resulta em conflito de todos contra todos. mas não em todas. Para Hobbes. p. A liberdade que impera no estado de natureza. Ou seja. A liberdade que diz respeito ao direito de ir e vir. uma vez que os homens não se respeitam. ou seja. Nesse caso. E são exatamente estes limites que impedem a total liberdade do homem e que vão garantir aos demais a não invasão de seus próprios limites. 4. o homem tem a liberdade de voltar-se contra o soberano e lutar pela sua sobrevivência. ou melhor.

do seu direito limitado. que é a vida em sociedade: É fato que todo homem. cada um pode desfrutar.Mackenzie . porém estéril. devido a igual arbítrio dos outros. fora do estado do governo civil. o homem deve abrir mão da plenitude do termo. e dos outros se tira o que é preciso para perdermos o medo deles. e convém apenas àqueles que detêm o poder. às leis. todo o homem tem direito a tudo. É por isso que para o autor.Centro de Ciências e Humanidades . pela mesma liberdade. Fora deste estado. sem que possa desfrutar. se devido a esta liberdade alguém pode fazer de tudo a seu arbítrio. que foi reduzido a uma simples interpretação de um poder totalitário. nem em uma associação de pessoas naturais. de nada. o súdito obedece de acordo com as regras. são autoridades. perdeu espaço para o culto ao individualismo. não realizasse a vontade dos indivíduos. neste estado. Fora dele. estamos protegidos por nossas próprias Nº 1 – 2º semestre de 2010 – Ano 1 . Fora do governo civil. de um Estado forte que de fato agisse representando a vontade geral. 9 Antecipando e prevendo tais conclusões é que Thomas Hobbes distingue o estado do medo do estado de liberdade. ninguém o tem. Autorizados pelos súditos. Toda outra liberdade é uma isenção das leis da cidade. nele. Ou seja. isto é. isto é. O homem é livre quando está submetido ao Estado. exceto um único. mas a vontade da unidade dos indivíduos. é justamente aqui que está a liberdade de todos. em segurança. porém. aqueles que conduzem essa pessoa artificial são os que detêm legitimamente o poder soberano. Até aqui podemos perceber o que Hobbes entende por liberdade e porque. ou seja. a soberania não reside nem na pessoa natural do monarca. mas na pessoa artificial do Estado. Já numa cidade constituída. sofrer de tudo. todo súdito conserva tanta liberdade quanto lhe baste para viver bem e tranqüilamente. porém. possui uma liberdade a mais completa. porque. O projeto de Hobbes. mas o soberano faz as regras e age de acordo com o que considera ideal. em detrimento do outro e até mesmo do próprio Estado. pois para ele a liberdade está na vida civil. qualquer homem tem o direito de espoliar ou de matar outro. e em nome de que. deve. é súdito.

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