O INÍCIO DA ERA CONTRATUALISTA: THOMAS HOBBES

,
PENSAMENTOS, IDEIAS E LEIS DE UMA SOCIEDADE COM
HOMENS CUMPRIDORES DE PACTOS CELEBRADOS.

SCARAMAL, Angela Aparecida1

1 Introdução

Quando os seres humanos abandonam ideias e pensamentos que estavam enraizados
em seus comportamentos, se tornam susceptíveis às novas propostas que atraentemente
vislumbram um estado de liberdade possível, portanto a desejada felicidade sem perdas ou
prejuízos para a conservação do estado de natureza. Pensadores, filósofos, estudiosos e
pessoas que administram os poderes sobre o povo se apresentam em cada era para lançar
ideias e propostas de estabelecer o estado de natureza de forma regrada para a convivência em
sociedade.
Falar do estado de natureza é lembrar a influência importante do filósofo Thomas
Hobbes; seus escritos representam o início do pensamento contratualista, sua obra é marco de
um novo pensamento, ideias e ideais de homens desejosos da separação entre igreja e estado
necessitados de regras para estabelecerem uma sociedade cumpridora dos pactos celebrados.
De sua principal obra: Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil
priorizou-se como destaque e registro as reflexões dos capítulos XIII, XIV, XV, XVI , e
XXVI, pois o contexto social vivenciado pelo escritor em muito proporciona, nos capítulos
selecionados, seu entendimento, compreensão e elaboração de novos rumos à sociedade
regrada.
Este trabalho está organizado nas seguintes etapas: inicialmente, apresenta-se o
contexto histórico da vida do filósofo Thomas Hobbes, destacando-se sua fundamentação a
respeito das ideias e pensamento a cerca da organização de uma convivência social e política
de época, incluindo-se o conceito de estado de natureza, leis contratuais e a forma de realizar
os pactos. Logo após, apresenta-se as reflexões proporcionadas pela leitura dos capítulos XIII,

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Aluna não regular do Mestrado em Educação na Universidade Estadual de Maringá e Professora de Língua
Portuguesa da rede estadual de ensino participando do PDE na turma 2009.

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isto é aos quatro anos foi estudar na escola da igreja de Westport. Carlos I tinha sido executado e a causa realista parecia completamente perdida. e XXVI de sua principal obra: Leviatã ou matéria. e onde se formou em 1608. influenciada pelos problemas contemporâneos da Inglaterra. XVI. Assim. Esta viagem fez com que Hobbes se dedicasse ao estudo dos clássicos gregos. chegou a Paris tendo Hobbes sido convidado a ensinar-lhe matemática. aumentada. tornando-se seu secretário e companheiro. Em 1650 publicou Os Elementos da Lei em duas partes. porém em 1640 passou a morar em Paris. no Magdalen Hall da Universidade de Oxford. concluindo abordando as relações entre o estado e a religião. XV. Tal capítulo valeu-lhe o desagrado da corte do novo rei de Inglaterra. e a sua tradução inglesa em 1651. o futuro Carlos II. ele nasceu em Westport. que era pouco mais jovem. aos 15 anos. Em 1646 o príncipe de Gales. ele abandonou a esposa e os três filhos. Em 1610 Thomas Hobbes visitou a França e a Itália com o seu pupilo. do De Cive. Os problemas políticos ingleses e o cada vez maior número de refugiados políticos levou-o a de novo para a filosofia política. Quando acabou os estudos tornou-se preceptor do futuro primeiro conde de Devonshire. Seu pai. pensamento e ideias de Thomas Hobbes Thomas Hobbes viveu 91 anos. que desenvolvia os argumentos apresentados na 2. no exílio. também Hobbes era clérigo da igreja anglicana. o Leviatã. Em 1651 publicou a sua obra-prima. Inglaterra. William Cavendish.ª parte dos Elementos. 2 Vida. pois dominava a língua grega e efetuou a tradução da História da Guerra do Peloponeso de Tucídedes. Enfim. em 1647 publicou uma segunda edição. por causa de uma desavença pessoal. iniciando a sua longa relação com a família Cavendish. publicada em 1629. portanto uma sociedade civil organizada e ideal. faz-se a relação das reflexões proporcionadas pela leitura dos referidos capítulos bem como as ideias presentes em sua obra e que levam o homem a viver de forma regrada. nas considerações finais. por 11 anos. Excluído da corte inglesa e suspeito para as autoridades francesas. depois em uma escola privada e finalmente.XIV. Bem cedo. Ele realizou outras duas significativas viagens. forma e poder de um estado eclesiástico e civil. a Natureza Humana e o De Corpore Politico (Do Corpo Político). acontecida na porta da igreja. já que se pensava que Hobbes estava a tentar cortejar o regime republicano em Inglaterra. na qual dedicou a maior parte do tempo a ler livros de viagens e estudar cartas e mapas. convivendo no círculo de Mersenne. devido aos seus ataques contra o 2 . dia 5 de Abril do ano de 1588 e faleceu no dia 4 de Dezembro de 1679. Escreveu sobre Descartes e publicou o De Cive. Tornou-se muito chegado ao seu aluno. por isso no fim da obra tentou definir as situações em que seria possível legitimamente a submissão a um novo soberano.

O conceito de estado de natureza se estabelece nos relacionamentos sem lei. O estado de guerra não se refere literalmente à violência. No estado natural. pela desconfiança ou pela glória. isto é nada de cristão. do qual foi também preceptor. colocar em risco sua integridade física. e "Ilíada". pois na Europa o lobo é o principal animal selvagem. Por isso. lei de natureza. os homens estabelecem o estado civil para saírem do estado de natureza. sendo ele o único a dominar a natureza. (PORTAL DA HISTÓRIA) Durante sua vida foi secretário. com o pacto social. mas sim ao momento em que o homem estabelece a discórdia seja pela competição. é sorrateiro. prevalece o estado de natureza. o direito do mais forte e. a natureza é liberdade total e pura. nenhum se ergue tão acima dos demais por entender que está além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal. enquanto que alguns homens possam ser mais fortes do que outros seres humanos. Com as ideias contratualistas aparecem os elementos que levam o homem a viver em sociedade. O homem é natural e por meio de sua arte imita a própria natureza. o estado de não lei e segundo Hobbes nem a ciência é possível no estado de natureza. matreiro. Hobbes diferencia o direito de natureza. “O homem é lobo do homem” a opção por usar o animal lobo não é por acaso. sem o poder da igreja. não ataca de uma vez e faz uso da esperteza. se ele estiver sob um estado com poucas regras e com facilidade de burlar as leis. isto é no direito de natureza. liberdade total e pura que em nada contribui com a defesa da primeira propriedade que é o corpo humano. depois suas propriedades. pois a vida em sociedade organizada pressupõe regras e leis. isto é prevalece à barbárie. O monarca é quem exerceria o poder de organizar a sociedade. pois é um estado de “guerra de todos contra todos”. A frase de maior impacto em sua vida é: “Homo homini lupus”. conheceu Bacon e Descartes. Aparece a contradição. isto é. pois se cada um deve preservar a sua vida e se encontra no estado de natureza que equivale à liberdade sem freio. Papado. Envolvidos na guerra o homem primeiro defende sua vida. em 1675. sendo que as leis de natureza são implícitas e não explícitas. no ano seguinte. isto é. para ele o homem tende a ser mau e egoísta. cada um 3 . sob proteção de Carlos II. dedicou-se a traduzir os clássicos "Odisséia". as leis tolhem a liberdade do homem. suas concepções se baseiam no moderno. As ideias de Hobbes iniciam o pensamento contratualista. no final de sua vida. pode acabar ferindo a si próprio. por isso a natureza humana predispõe o homem a exercer o direito de natureza em detrimento a lei de natureza. que é preservar a vida individual e coletiva. Hobbes regressou de facto a Inglaterra nesse ano de 1651.

De acordo com Hobbes.de nós tem direito a tudo. a glória. deveria ser o Leviatã. a desconfiança. filhos e rebanhos dos outros homens. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas. aparentando um crocodilo. que é também atender a seu próprio interesse. a competição. prevalecia um clima de instabilidade política na sociedade inglesa. quer seja um monarca ou uma assembléia. e qualquer outro sinal de desprezo. A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro. um sorriso. e os terceiros por ninharias. e a terceira. Thomas Hobbes defendia a ideia segundo a qual os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado. como uma palavra. encabeçado pelo monarca. os homens têm um desejo. sendo sua terceira obra escrita. No entanto. animal monstruoso e cruel é também um monstro da mitologia fenícia. a segunda. uma autoridade inquestionável. a reputação. a Igreja cristã e o Estado cristão formavam um mesmo corpo. de acabar com a guerra. mulheres. Primeiro. e terceiro. em consonância com a proteção exigida quando se estabelece a discórdia. Este soberano. a vida do homem. e uma vez que todas as coisas são difíceis. a sociedade necessita de uma autoridade à qual todos os membros dessa sociedade devem render o suficiente da sua liberdade natural. sem medo de nada e com um coração de pedra.1 A principal obra e suas reflexões Sua principal obra foi publicada pela primeira vez em 1651. segundo. quer seja diretamente dirigido a suas 4 . que reina pelo terror. que segundo Hobbes assim acontece: De modo que na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. por forma a que a autoridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum. mas que de certa forma defende os peixes menores de serem engolidos pelo mais forte. (ARANHA 2003 p. a figura da capa ilustrava o título da obra de forma a criar impacto e a fazer a reflexão necessária ao momento de “estado de guerra” a Inglaterra vivia um tempo histórico que antecedeu a grande revolução burguesa culminada na sociedade capitalista. decidir questões religiosas e presidir o culto. para defendê-los. uma diferença de opinião. A ilustração não é nada inocente. ele pode proteger o próprio homem. portanto tem o poder de modificar para melhor. 2. Na teoria política do Leviatã as idéias se apresentam na criação de um ser autônomo. que teria o direito de interpretar as Escrituras. pois o Leviatã é um monstro bíblico citado no Livro de Jó. os segundos. 40-41. a segurança. Para ele. mas espelhado na natureza do homem o qual é um ser natural. não é natural. e por isso estabelecem pactos e formam regras e leis para organizarem as sociedades entrando num contrato social. existe um constante momento de guerra de todos contra todos.239) muito poderoso.

e em parte em sua razão. conforme a significação própria da palavra. do mesmo modo que seus sentidos e paixões. assim comentando “Consequentemente é um preceito ou regra geral da razão. é necessário estabelecer um raciocínio que pondere e reconheça a instalação de uma nova ordem social. seus amigos. A justiça e a injustiça não fazem parte das faculdades do corpo ou do espírito. a figura do Leviatã representa o Estado. nem distinção entre o meu e o teu. a que os autores geralmente chamam jus naturale. Outra conseqüência da mesma condição é que não há propriedade. decorrendo disputas e um momento de guerra com graves prejuízos.78). Embora com uma possibilidade de escapar a ela. podendo prevalecer os interesses egoístas. principalmente quando o homem tem a maldade em sua natureza.” (HOBBES 1988 p.75) Para o filósofo o homem tem direito a tudo. nem domínio. na medida em que tenha esperança de consegui-la. usar os meios que julgar convenientes para tal defesa.77) Esta ordem traria a segurança e a paz. este movimento de direito à liberdade denominado. e a esperança de consegui- las através do trabalho. é explicado na obra como “O direito de natureza. Na base deste contrato estaria o governante que cria as leis e a faz cumprir. p. (HOBBES 1988 p. num contrato. cit. celebrada num pacto. 78) e continua a explicação conceituando a palavra liberdade. que em parte reside nas paixões. (HOBBES 1988 p.78). isto é a sua vida. um gigante cuja semelhança é a mesma de todos os que a ele delegam ou pactuam o cuidado de os defenderem e estabelecerem a segurança e a paz. o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável. É. “Por liberdade entende-se. sociedade desregrada e homens em estado de natureza. a ausência de impedimentos externos” (op. pessoas. e apenas enquanto for capaz de conservá-lo. que todo homem deve esforçar-se pela paz. São qualidades que pertencem aos homens em sociedade. e viria como afirma o autor em forma de regra e lei “Uma lei de natureza (lex naturalis) é um preceito ou regra geral. E a razão sugere adequadas normas de paz. a força e a fraude são as duas virtudes cardeais. este pensamento implica um estado de insegurança. angústia e medo. sua profissão ou seu nome. poderiam existir num homem que estivesse sozinho no mundo. Em uma época de conflitos políticos. é a liberdade” (HOBBES 1988 p. sua nação. e caso não a consiga pode 5 . a fim de preservar a sua própria natureza. estabelecido pela razão. cada indivíduo pode usar o seu poder da maneira que quiser. Se assim fosse. só pertence a cada homem aquilo que ele é capaz de conseguir. quer indiretamente a seus parentes. como afirma na obra: Na guerra. em torno das quais os homens podem chegar a acordo. por obra da simples natureza. não na solidão. pois esta a miserável condição em que o homem realmente se encontra. afirmações inovadoras que iniciam o pensamento contratualista. As paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte.

83).80). Para que aconteçam os pactos com sucesso se fará uso da linguagem. porque eles não compreendem nossa linguagem. (HOBBES 1988 p. como o direito de todos os homens a todas as coisas continuaria em vigor.” (op.78).” (op. diz-se que fica obrigado ou forçado a não impedir àqueles a quem esse direito foi abandonado ou adjudicado o respectivo beneficio. a cólera e outras paixões dos homens. Enfim o autor encerra o capítulo XIV desobrigando o homem do contrato estabelecido. e é seu dever. Portanto um ato voluntário que se estabelece na pactução: “A transferência mútua de direitos é aquilo a que se chama contrato. por isso outros animais não celebram.83) O capítulo XV se inicia com a recomendação importante e fonte do surgimento da justiça: “Que os homens cumpram os pactos que celebrarem”.81). p. cit. p. e o perdão é a restituição da liberdade. O homem ao procurar ajuda para estabelecer a paz acaba delegando. principalmente quando aparece a desconfiança: Pois aquele que cumpre primeiro não tem qualquer garantia de que o outro também cumprirá depois.86). transferindo e contratando quem o defenda. sem mútua aceitação não há pacto possível”. nem podem transferir qualquer direito a outrem. (op. seu pensamento se organiza na razão e o contrato tem valor finito “Nos contratos. (HOBBES 1988 p. um 6 . e portanto não podem compreender nem aceitar qualquer translação de direito. exercer um poder coercitivo que estabeleça a segurança necessária.” (HOBBES 1988 p. cit. deixando a regra que estabelece como terminar um contrato: “Os homens ficam liberados de seus pactos de duas maneiras: ou cumprindo ou sendo perdoados. a avareza.procurar e usar todas as ajudas e vantagens da guerra. (HOBBES 1988 p.80). p. mas também quando elas são do futuro. Pois o cumprimento é o fim natural da obrigação. O autor ainda estabelece outras formas para que os pactos uma vez celebrados sejam cumpridos. constituindo a retransferência daquele direito em que a obrigação consistia”. e que deve. é o Estado a única forma de viabilizar a vida em sociedade. como afirma o autor: Quando de qualquer destas maneiras alguém abandonou ou adjudicou seu direito. (HOBBES 1988 p. não tornar nulo esse seu próprio ato voluntário. se não houver o medo de algum poder coercitivo.82). porque os vínculos das palavras são demasiado fracos para refrear a ambição. o direito não é transmitido apenas quando as palavras são do tempo presente ou passado. Sem esta lei os pactos seriam vãos. nem pactuam “É impossível fazer pactos com os animais. cit. e não passariam de palavras vazias. pois as palavras possuem pouca força e pode surgir as discórdias. porque todo contrato é uma translação ou troca mútua de direitos. permaneceríamos na condição de guerra. instância fundamental ao entendimento dos pactos entre homens.

Quando são atribuídas a homens indicam a conformidade ou a incompatibilidade entre os costumes e a razão. a perversidade triunfante adquiriu o nome de virtude.. caso contrário a justiça não pode ser considerada uma coisa boa.. por simples graça. significam uma coisa. O filósofo ousa estabelecer a igualdade entre os homens caracterizando o pensamento cristão predominante afirmando ser orgulho deixar de aceitar e reconhecer os outros como seus iguais por natureza e fazendo a seguinte advertência: “A desigualdade atualmente existente foi introduzida pelas leis civis.. serem desrespeitados e não serem contra a razão e nem injustos. nem sempre 7 . Graças a raciocínios como este.estado de não violência.” (HOBBES 1988 p.. impondo um desejo de pô-las em prática.] A sétima lei é que na vingança (isto é. se esforce para que o doador não venha a ter motivo razoável para arrepender-se de sua boa vontade [. quer dizer: Que cada um se esforce por acomodar-se com os outros [. mas de ações determinadas. mas só à importância do bem futuro (HOBBES 1988 p. vão surgindo neste capítulo e criando um vínculo maior com os conceitos de palavras a serem fortalecidas pelas leis de natureza a que se propõe estabelecer. Mas quando são atribuídas a ações indicam a conformidade ou a incompatibilidade com a razão.. p. 90).91). de forma regrada celebrando pactos e os cumprindo. Termina este capítulo estabelecendo critérios de como as leis de natureza devem ser incorporadas pelo homem. O pensamento de Hobbes na dedução das ações e do comportamento humano. impõem o desejo de que sejam cumpridas. não dos costumes. afirmações necessárias à vida regrada que passa pelo domínio de valores cristãos aos novos conceitos de vida civilizada. e quando são atribuídas a ações significam outra. a retribuição do mal com o mal) os homens não olhem à importância do mal passado. sugerindo: As leis de natureza obrigam in foro interno.] A sexta lei de natureza é que como garantia do tempo futuro se perdoem as ofensas passadas. (op. quer dizer. (HOBBES 1988 p. isto é..88). cit. podendo às vezes. pois o autor afirma: E se não é contra a razão não é contra a justiça. como as seguintes leis: Que quem recebeu beneficio de outro homem. As idéias presentes nesta unidade reforçam e justificam a tese da necessidade da existência de um Estado como única forma de viabilizar a vida em sociedade.] A quinta lei de natureza é a complacência. quando são atribuídas a homens. àqueles que se arrependam e o desejem [. e alguns que em todas as outras coisas condenam a violação da fé aprovam-na quando é para conquistar um reino.87) Continua seu raciocínio conceituando os termos justo e injusto quanto aos homens e quanto às ações: As palavras justo e injusto. mas in foro externo. mas todos contra todos.

(op. para não se deixarem agir inadequadamente como sugere o autor: De maneira semelhante. e cumprisse todas as suas promessas numa época e num lugar onde mais ninguém assim fizesse. (op. que não têm o uso da razão. parte inicialmente da compreensão sobre o homem e suas paixões. os imbecis e os loucos. Ao revelar a condição das leis de natureza que acontecem pelo desejo humano. Porque a filosofia moral não é mais do que a ciência do que é bom e mau. aquele que tem o direito de governá-los pode conferir autoridade ao guardião. tornar-se-ia presa fácil para os outros. cit. O bem e o mal são nomes que significam nossos apetites e aversões. surgindo enfim a filosofia moral. O capítulo XXVI é iniciado com o conceito de leis civis. os quais são diferentes conforme os diferentes temperamentos. e inevitavelmente provocaria sua própria ruína. mas não podem ser autores (durante esse tempo) de qualquer ação praticada por eles. a não ser que (quando tiverem recobrado o uso da razão) venham a considerar razoável essa ação. cria uma nova ordem de regra implícita. cit. na certeza de que se o objetivo era pensar o Estado. Tenta o autor desvendar estes comportamentos. Acabado o raciocínio sobre o que move o homem é momento de apresentar as leis civis que regrarão a vida humana. Mas. nas palavras do autor: E a ciência dessas leis é a verdadeira e única filosofia moral. o indivíduo social. o que os move na vida. Portanto o Estado surge como uma solução ao inseguro e instável estado de natureza em que viviam os homens. as crianças. podem ser personificados por guardiães ou curadores. reconhecendo que a permanente e necessária compulsão para se desejar obter poder é uma das principais causas que inviabilizam a vida do homem no estado de natureza.97) A trajetória do pensamento de Hobbes. este só poderia acontecer após compreender o ser humano e suas relações sociais. que tendem para a preservação da natureza. p. Pois aquele que fosse modesto e tratável. apesar de ter como o seu objeto principal o Estado. garantindo o respeito acima de qualquer desconfiança. enquanto durar a loucura. contrariamente ao fundamento de todas as leis de natureza. suas paixões e quais os recursos que estes utilizam para realizá-los. porque antes desse Estado não há domínio de pessoas. costumes e doutrinas dos homens. Mas também isto só pode ter lugar num Estado civil. pois estas leis são subentendidas. nas palavras do autor: “Entendo por 8 .94). na conservação e na sociedade humana. (HOBBES 1988 p.obrigam. E para concluir sua argumentação da importância de um Estado o capítulo XVI sustenta o homem como pessoa natural que faz uso da razão e consegue entender que as coisas podem ser personificadas apenas quando houver um estado de governo civil.94). quais seus desejos. p.

nenhum dos nós da lei pode ser insolúvel. embora seja fácil para aqueles que sem parcialidade ou paixão fazem uso de sua razão natural. mas qualidades que predispõem os homens para a paz e a obediência. portanto nunca aceitaram autorizar as ações do soberano. que consistem na eqüidade. escritas ou não. nem podem eles ser classificados como justos ou injustos. cit. isto é. para todo súdito. constituída por aquelas regras que o Estado lhe impõe. De modo que nenhuma lei escrita. do que é contrário ou não é contrário à regra. p. p. Para este. A lei de natureza. O autor explora o conceito de leis civis e conclui assim o definindo: Considerado isto. que não é escrita. ou mediante outros suficientes argumentos da mesma vontade. constatando ainda que a lei não é um conselho mas sim uma ordem. portanto entendimento necessário ao papel do homem na sociedade e o papel do Estado na organização da sociedade para este homem. oralmente ou por escrito. A lei não se aplica aos débeis naturais.161). (HOBBES 1988 p.164) A força de poder delegada ao Estado é carregada de extremismo.161). na justiça. portanto. seja achando-lhe as pontas e por aí desatando- 9 .] Partindo daqui. (op. no final do capítulo 15) não são propriamente leis. cit.” (HOBBES 1988 p. devido ao fato de haver poucos. e por isso é a que tem mais necessidade de intérpretes capazes. de que a lei é uma ordem.162) [. Assim definido e bem esclarecido o papel de sujeição do indivíduo em relação ao Estado o autor elenca oito deduções decorrentes da definição de lei civil. (op. Porque as leis de natureza. oralmente ou por escrito. tornou-se agora apesar disso. ou talvez ninguém que em alguns casos não se deixe cegar pelo amor de si ou qualquer outra paixão. definido assim pelo autor: Todas as leis. tal como não se aplica aos animais. deixando portanto sem desculpa seus violadores. na gratidão e outras virtudes morais destas dependentes. se forem breves facilmente serão mal interpretadas. como é necessário que façam para criar um Estado. a mais obscura de todas as leis. defino a lei civil da seguinte maneira: A lei civil é. Quanto às leis escritas. para usar como critério de distinção entre o bem e o mal. na condição de simples natureza (conforme já disse.leis civis aquelas leis que os homens são obrigados a respeitar. ou por outro sinal suficiente de sua vontade. por causa da diversidade de significações de uma ou duas palavras. têm necessidade de uma interpretação. caracterizando a interpretação da lei escrita ao que o legislador quis dizer. pode ser bem compreendida sem uma perfeita compreensão das causas finais para as quais a lei foi feita. e se forem longas ainda serão mais obscuras. podemos compreender que a ordem do Estado só é lei para aqueles que têm meios para dela se informarem. sendo relevante os seguintes registros: A lei de natureza e a lei civil contêm-se uma à outra e são de idêntica extensão. e o conhecimento dessas causas finais está com o legislador. e de que uma lei consiste na declaração ou manifestação da vontade de quem ordena. devido à diversidade de significações de muitas palavras. às crianças e aos loucos.. pois nunca tiveram capacidade para fazer qualquer pacto ou para compreender as conseqüências do mesmo. quer seja expressa em poucas ou em muitas palavras.

ou um bom intérprete da lei. cit. a interpretação das leis de natureza não depende dos livros de filosofia moral. através do poder legislativo. na afirmação do filósofo: As coisas que fazem um bom juiz. As penais são as que declaram qual a penalidade que deve ser infligida àqueles que violam 10 . seja fazendo quantas pontas lhe aprouver (como Alexandre fez com sua espada ao nó górdio). que não a intenção do legislador. declarando a cada um por meio do que adquire e conserva a propriedade de terras ou bens.171) conceituando cada uma delas com as seguintes explicações: As positivas são as que não existem desde toda a eternidade. Num Estado. A qual não depende da leitura das obras de outros homens. coisa que nenhum intérprete pode fazer. o autor escreve: No caso das leis escritas. e na argumentação podem adquirir muitos sentidos.169). ou então dadas a conhecer aos homens por qualquer outro argumento da vontade de seu legislador. resgata então que: “Outra maneira de dividir as leis é em naturais e positivas. Podem ser escritas. p. Tornando obrigatório um Estado essencialmente possuidor de um poder muitas vezes superior ao poder de qualquer indivíduo. por isso suas ações devem refletir como modelo aos homens. é costume estabelecer uma diferença entre a letra e a sentença da lei. e foram tornadas leis pela vontade daqueles que tiveram o poder soberano sobre outros. estas leis são dirigidas a todos os súditos. e portanto se deve presumir existir em maior grau nos que têm maior oportunidade e maior inclinação para sobre ela meditarem. e das leis positivas humanas umas são distributivas e as outras penais. Porque a significação de quase todas as palavras. Por outro lado. suas aptidões e seu poder são superiores a de um advogado. cit. Garantido a interpretação da lei civil o autor registra como as leis são divididas oferecendo as sete espécies de leis civis apresentadas nas Instituições de Justiniano. As distributivas são as que determinam os direitos dos súditos. (op. O bom intérprete da lei é nominado de juiz. (HOBBES 1988 p. em primeiro lugar. Quando por letra se entende tudo o que possa inferir-se das meras palavras. e um direito ou liberdade de ação.170). p. Se precavendo de possíveis e inaceitáveis interpretações.” (op. são. das leis positivas umas são humanas e outras são divinas. nesse caso não pode haver distinção entre a letra e a sentença ou intenção da lei. o. quer em si mesmas quer em seu uso metafórico. mas na lei há apenas um sentido. Mas se por letra se entender o sentido literal. mas apenas da sanidade da própria razão e meditação natural de cada um. (HOBBES 1988 p. uma correta compreensão daquela lei principal de natureza a que se chama eqüidade. é ambígua. a distinção é correta.167). Porque o sentido literal é aquele que o legislador pretendia que pela letra da lei fosse significado.

sem o qual o Estado não poderia subsistir. Sua obra demonstra uma argumentação inovadora para a época em que viveu. cit. o da designação dos funcionários.174). quer se trate de um monarca ou de uma assembléia soberana. a lei. 0 que é evidente para a razão de qualquer homem. (op. e não há razão para que seja menos obrigatório obedecer-lhe quando é proposta em nome de Deus. Portanto lei fundamental é aquela pela qual os súditos são obrigados a sustentar qualquer poder que seja conferido ao soberano. como um edifício cujos alicerces se arruinam. p. seu pensamento em realizar um pacto social. não há lugar algum no mundo onde seja permitido aceitar como mandamento de Deus o que não seja declarado como tal pelo Estado. portanto. e o de fazer o que considerar necessário para o bem público. um contrato delegando ao Estado poder ilimitado sobre a vida do indivíduo é marco histórico de quebra de pensamento cristão que eleva os homens à vida organizada e regrada em sociedade. Além do mais. escrevendo: Concluo portanto que. p. Decorrido a argumentação o filósofo reafirma sua tese na criação do Estado com poder ilimitado.174). e o de invadir um vizinho suspeito a título preventivo. nomeadamente a liberdade que a lei civil nos permite. (op. concretiza. (HOBBES 1988 p. (op. p. este fato foi por algum tempo um equívoco na obra do filósofo tendo sido denominado como defensor do absolutismo. todos os súditos são obrigados a obedecer como lei divina ao que como tal for declarado pelas leis do Estado. e a lei civil tira essa liberdade. e a lei civil é uma obrigação. e são dirigidas aos ministros e funcionários encarregados da execução das leis. por exemplo. o ideal de separar definitivamente a igreja e o estado. que nos priva da liberdade que a lei de natureza nos deu. o Estado é destruído e irremediavelmente dissolvido. pois tudo o que não for contrário à lei de natureza pode ser tornado lei em nome dos detentores do poder soberano. cit. à lei de natureza). de certa forma garantindo direitos: Porque direito é liberdade. uma assembléia. cit. na proposição da lei e da ordem: Em todo Estado. 11 . lei fundamental é aquela que.173). se eliminada.171). em tudo o que não seja contrário à lei moral (quer dizer. A natureza deu a cada homem o direito de se proteger com sua própria força. Para Hobbes o poder pode ser monárquico. o da judicatura. no entanto a afirmação correta é a de um Estado absoluto. Nessa medida. como é o caso do poder da guerra e da paz. lex e jus são tão diferentes como obrigação e liberdade. quando constituído por um só governante ou como pode ser formado por alguns ou muitos . em todos os casos em que a proteção da lei pode ser imposta de modo seguro.

a obra publicada. caso contrário. seu raciocínio fazia construções lógicas. além disso. A Igreja usava a interpretação das sagradas escrituras para impugnar o poder civil e. era a época de movimentos revolucionários e a obra de Hobbes foi interpretada de forma a fragilizar o poder estabelecido. por dominar o grego. que deve se unir mediante contrato social para formar uma sociedade civil e para assim constituírem e tornarem legítimo o poder do Estado é um pensamento inovador para o caminho do contratualismo desvinculando o poder divino dos reis e da laicização legitimando o poder ao consentimento dos cidadãos. a economia mercantilista favorecida pela intervenção do Estado e detestada pela burguesia que desejava a livre economia. era culto. convive com a nobreza e recebe educação de qualidade. Seu entendimento de que o homem em estado de natureza está isolado e em contínuo ambiente de guerra e egoísmo. 12 . Deveria ser o início de um tempo de reconhecimento do autor que de família pobre recebe boa educação. os erros. uma transmissão total. ser capaz de perceber o momento instalado. conceitos e valores predominantemente cristãos em sua obra. o Príncipe de Gales. pois dominava o grego. Apontar ideias que levem a separação do poder estabelecido pela igreja. o seu poder como forma incessante de sobrevivência. em fazer uso da razão. isto é estava em xeque a supremacia do poder religioso sobre o civil. deduzidas dos conceitos formulados da realidade da natureza humana. refletir sobre a origem dos erros e sugerir mudanças. no entanto o momento político era. as falhas. plenos poderes a fim de garantir e proteger a sua própria vida. e ao mesmo tempo fazer uso de palavras. em se mantendo por pouco que seja a liberdade natural. o clero corrompia-se. Carlos II em seu vigor ao absolutismo real em seu grau máximo. fato este que se explica no bom raciocínio. Tanto na política como no campo do pensamento havia um sentimento desejoso de independência do papado. como sendo um ser desejante. O fato estabelecido. argumentando a necessidade de um Estado como uma entidade que é composta pela soma dos vários poderes individuais dos homens em sociedade quando o individual é sobredeterminado pelo coletivo. o qual é incompleto e busca permanentemente através dos deslocamentos dos objetos de desejos a sua inalcançável completude. 3 Considerações Finais O filósofo Thomas Hobbes apesar de pertencer a uma família pobre. instaura-se de novo a guerra. em seu estado de natureza. Há que ser relevante a forma como o autor descreve o homem. Transferindo por abdicação de sua liberdade. considerado culto.

Maria Lucia de Arruda Aranha. pois sua vida é curta e tem muitas paixões que os levam a querer o conforto e o deleite. sejam eles de uma corrupção evidente denunciada pela mídia. algum sinal de progresso ou descoberta visto que o medo e a insegurança são ações que permeiam o homem numa situação dessas. um poder isento do jugo da lei social. ideias que vislumbram e se direcionam ao estado de natureza. e do conhecimento humano seja este na ciência. 3. o estado de desconfiança e permissividade. 13 . 4 Referências ARANHA. o tempo de Hobbes ainda se estabelece no que se refere à busca legítima pelo poder. Hobbes pensa uma vida regrada que preservasse a paz. Seu pensamento político social é impressionante. isto é. 2003. ou mesmo a uma democracia os delegaria capacidade de levar ao extremo todos os excessos. mas também do outro lado. ou a uma assembléia. do poder e autoridade da fé estabelecidas e de quem teria o direito de interpretar as Escrituras. fazendo com que os homens mantenham a paz e a segurança por meio de um esforço comum. Assim para não ficar os seus dias sozinho. o poder de frear o estado de natureza é no mínimo “tirar o chão”. indústria. um bem estar globalizante gerando uma violência sem proporção não só de quem exerce o poder. apenas derivado do pacto social. a moral que engessa. os tributos.como a figura do Leviatã para convencer os indivíduos de seu tempo que um ser à semelhança do homem que é natural. Por fim a grande preocupação histórica de transferir a responsabilidade da minha primeira propriedade como poder absoluto e inquestionável ao Estado. de quem o poder é exercido resultando em um círculo fechado. os artifícios hipócritas. navegação. o estado de violência. os pactos implícitos. Maria Lucia de Arruda. na arte. a insaciedade humana. poderia constituí-lo tirano. isto é.revista. como exemplos cometidos por autoridades. evitando exposições com a própria vida. tem em suas mãos o domínio. na sociedade. é obrigar os homens a refletirem as espinhosas questões religiosas de sua época. um acordo estabelecido pela razão. pois ele se instala quando não há o medo. a um indivíduo. a aceitação de regras e temer quebrá-las. Maria Helena Pires Martins. Filosofando: introdução à filosofia. vicioso e como tal sem início ou fim. decidir questões religiosas e presidir o culto. São Paulo: Moderna. fugindo da morte violenta e. poder político civil estabelecendo poderes ilimitados como pensou Hobbes. letras. portanto sair de uma estagnação em todos os aspectos do desenvolvimento. a falsa ideia de uma ordem estabelecida e falta do temor. ed.

Acesso em: 22 jan.arqnet. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 1988 (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural. fundador da filosofia moral e política inglesa. 2009.html. Disponível em: http://www. PORTAL DA HISTÓRIA. 14 .HOBBES. forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Thomas. Leviatã ou matéria.pt/portal/biografias/hobbes. Filósofo inglês do século XVII.