Acolhimento

A conceituação do acolhimento passa, necessariamente, por uma reflexão
sobre o processo de trabalho em saúde. Os serviços de saúde, ao contrário
de outros serviços do mundo industrializado, têm como marca a necessidade
de reconhecer o usuário como sujeito e participante ativo na produção da
saúde. Nessa relação, o médico muda o seu objeto de trabalho (da doença
para o doente) e faz surgir a necessidade de novas tecnologias em saúde,
dentre elas o acolhimento.
Segundo Deborah Malta (1996), o acolhimento é uma estratégia de mudança
do processo de trabalho em saúde, buscando alterar as relações entre
trabalhadores e usuários e dos trabalhadores entre si, humanizar a atenção,
estabelecer vinculo/ responsabilização das equipes com os usuários,
aumentar a capacidade de escuta às demandas apresentadas, resgatar o
conhecimento técnico da equipe de saúde, ampliando a sua intervenção.
Ainda segundo Fracolli, L.A. (2001) o acolhimento é um instrumento de
trabalho que incorpora as relações humanas. É um instrumento, pois deve
ser apropriado por todos os trabalhadores de saúde em todos os setores do
atendimento. Assim, não se limita ao ato de receber, mas a uma seqüência
de atos e modos que compõem o processo de trabalho em saúde. Dessa
forma, "acolher" não significa a resolução completa dos problemas referidos
pelo usuário, mas a atenção dispensada na relação, envolvendo a escuta, a
valorização de suas queixas, a identificação de necessidades, sejam estas do
âmbito individual ou coletivo, e a sua transformação em objeto das ações de
saúde. As definições acima incorporam à nossa análise os pressupostos da
transdisciplinaridade e da valorização do trabalho em equipe, tão caros à
mudança paradigmática que o PSF do Brasil deseja pôr em curso e faz do
acolhimento uma tecnologia brasileira em sua essência.
As equipes de saúde freqüentemente deparam-se com questões como: quem
acolhe? qual é o horário do acolhimento ? em qual lugar? Tais perguntas
mostram, muitas vezes, a dificuldade de apreensão, por parte dos
trabalhadores, do que vem a ser o acolhimento. O mesmo não pressupõe
hora, local ou profissional específico para fazê-lo, devendo a "postura
acolhedora" fazer parte das habilidades dos membros das equipes em sua
1

relação com a população, em todos os momentos. Apesar disso , no dia-a-dia
das unidades de saúde, as equipes devem se preparar para utilizar a sua
infra-estrutura de forma criativa, garantindo os pressupostos do acolhimento,
adequado às realidades locais.
Em um viés psicanalítico, as equipes devem estar atentas às limitações do
acolhimento. Reconhecer e acolher o desejo do outro não implica satisfação.
Segundo Freud, o mal-estar origina-se da imposição de limites ao desejo,
fato gerador de sofrimento, porém regulador e ordenador da vida na
sociedade ocidental. A preparação dos profissionais para a função do
acolhimento deve reconhecer as teses acima e ampliar o entendimento das
relações equipe e usuários e dos membros da própria equipe.
É desejável que o sentido de acolher ultrapasse as fronteiras da relação
equipe/usuários e comece a permear as relações dentro da própria equipe,
criando ambientes acolhedores em reuniões e no dia-a-dia do trabalho,
estimulando seus membros a relatarem dificuldades que podem ser
trabalhadas dentro da equipe ou não. Enfim, que a proposta de acolhimento
não seja descendente: instituição-equipe-usuário, e sim que esteja presente
nas várias relações oriundas do trabalho em saúde.
A somatória dos relatos e propostas acima trazem em si um novo desafio:
perceber o acolhimento como imperativo ético na humanização do processo
de trabalho em saúde. Quem viver verá.

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HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM CENTRO
CIRÚRGICO

RESUMO: O estudo teve como objetivo levantar as principais literaturas
nacionais que abordem a humanização em centro cirúrgico,
identificando sua necessidade e importância na atividade da
enfermagem. Ao buscar os artigos selecionou-se palavras-chaves e
delimitou-se período de 1985-2002, resultando 31 artigos. Após analise,
descreveu-se aspectos da formação acadêmica voltada para
humanização, considerações éticas à assistência e a necessidade de
humanizar o cuidado frente aos avanços tecnológicos. Concluiu-se que
humanizar a assistência de enfermagem em centro cirúrgico é um
desafio, entretanto, possível e essencial na prática da enfermagem,
essencialmente nesta área.
PALAVRAS-CHAVES: Enfermagem de Centro Cirúrgico; Assistência;
Ética.

INTRODUÇÃO

A enfermagem é uma profissão que se desenvolveu através dos séculos,
mantendo uma estreita relação com a história da civilização. Neste contexto,
tem um papel preponderante por ser uma profissão que busca promover o
bem estar do ser humano, considerando sua liberdade, unicidade e
dignidade, atuando na promoção da saúde, prevenção de enfermidades, no
transcurso de doenças e agravos, nas incapacidades e no processo de
morrer.
Com o avanço científico, tecnológico e a modernização de procedimentos,
vinculados à necessidade de se estabelecer controle, o enfermeiro passou a
assumir cada vez mais encargos administrativos, afastando-se gradualmente
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“os profissionais de enfermagem que atuam no centro cirúrgico são geralmente os responsáveis pela recepção do cliente na sua respectiva unidade. salienta a importância de conciliar e harmonizar as diversas funções do enfermeiro. confortá-lo e posicioná-lo na mesa cirúrgica. quando afirma: “o cuidado humanístico não é rejeição aos aspectos técnicos. uma vez que possui função específica na eficácia da terapêutica de seus pacientes. assim como as demais profissões de saúde. Para ZEN & BRUTSHER (1986. respeitando sempre suas individualidades. podem ser limitadas a segurar a mão do paciente na indução anestésica. Segundo FIGUEIREDO (2002. o profissional deve ser cortês.256). muitas vezes.06): “não se pode ficar atrás ou as margens desse processo.do cuidado ao paciente. A importância e a responsabilidade da enfermeira quanto à observação e atendimento das necessidades psicossomáticas do paciente cirúrgico deve ser detectada. educado e compreensivo. voltamos nossa atenção à humanização da assistência de enfermagem em centro cirúrgico. emocional e intuitiva. se subdividem em várias áreas. buscando entender e considerar as condições do cliente que normalmente já se encontra sob efeito dos medicamentos pré-anestésicos. (que deve ser) personalizada. o que se pretende ao revelar o cuidado é enfatizar a característica do processo interativo e de fruição de energia criativa. tão pouco aos aspectos científicos. surgindo com isso a necessidade de resgatar os valores humanísticos da assistência de enfermagem.62).” WALDOW (1998. ouví-lo. culturais e tecnológicas dos tempos atuais o que vem implicar não só na necessidade da aquisição de novos conhecimentos como também na atualização dos mesmos. É dever de todos acompanhar o desenvolvimento das ciências humanas. que compõe o lado artístico além do aspecto moral. p. a enfermagem.” As atividades de enfermagem no centro cirúrgico. p. neste momento. p. pois dependendo de sua atitude pode facilitar 5 . científicas.” Na amplitude de sua assistência.

foi grande nossa decepção no primeiro contato com a unidade de centro cirúrgico.104). 1997). p. Esta sim irá conduzir o pensamento e as ações da equipe de enfermagem. 1986). porque assim posso me reconhecer e me identificar como gente. visto que este paciente é invadido por medo do desconhecido num ambiente estranho (ZEN & BRUTSHER. O relacionamento e o contato direto fazem crescer. destacando a importância desta para o sucesso do tratamento e o pronto restabelecimento do paciente (MEE KER & ROTHROCK. os recursos materiais e tecnológicos não são mais significativos do que a essência humana. Em meio a tantas afirmações positivas. p. tornando-o capaz de criticar e construir uma realidade mais humana (. o que o afastava do contato com o paciente. sendo tratado como um objeto e não como um corpo vivo. com o distanciamento entre teoria e prática. o enfermeiro de centro cirúrgico sentiu a necessidade de prestar assistência mais direta ao paciente em todas as etapas do processo cirúrgico. mas principalmente uma mudança nas ações e comportamento dos profissionais frente ao paciente e seus familiares. mas com algumas modificações na sistematização da assistência. como ser humano.. Não é apenas uma questão de mudança do espaço físico.” Ainda VILA & ROSSI (2002. “humanizar.17) referem que a “humanização deve fazer parte da filosofia de enfermagem.ou impedir um programa de recuperação. onde o enfermeiro era visto como “o administrador”. bandejas. entregar-se de maneira sincera e leal ao outro e saber ouvir com ciência e paciência as palavras e os silêncios. Até alguns anos atrás a função do enfermeiro na unidade de centro cirúrgico era dirigida para os aspectos gerenciais. ocupando-se da manutenção de equipamentos.. e é neste momento de troca. entre outras rotinas e o paciente permanecia invisível a todos. que humanizo. O ambiente físico. caracteriza-se em colocar a cabeça e o coração na tarefa a ser desenvolvida. mesas. Este distanciamento aliado ao fato de que há escassez de literatura que 6 . papéis. Para OLIVEIRA (2001.)”. principalmente do enfermeiro.

mais especificamente nas atividades práticas.19). porém transformado. após a análise do título e resumo dos mesmos quanto à adequação ao tema proposto. e mesmo com o empenho de docentes e discentes. o tema “comunicação”. Durante a pesquisa foram encontrados 1100 artigos.envolva a humanização em centro cirúrgico. 2002. A FORMAÇÃO DO ENFERMEIRO PARA O CUIDADO HUMANIZADO Com relação à formação do aluno de graduação. nos bancos de dados: Lilacs.54). deparam com situações em que o processo de comunicação com o cliente parece ineficaz e/ou não oferece subsídios para o planejamento da assistência (AZEVEDO. mas. sua importância para o estabelecimento de um diálogo franco e esclarecedor com o cliente. dentre os quais. MATERIAL E MÉTODOS O presente trata-se de um estudo qualitativo. no período de 1985 a 2002. utilizados 31. para que não seja uma simples transferência de informações aos indivíduos. são debatidas constantemente com os graduandos. p. por meio das palavras-chave: cliente cirúrgico. suas funções e formas. “a educação em saúde precisa ser melhor estudada para que o enfermeiro possa recriar o processo educativo. a comunicação terapêutica e sua aplicabilidade no cotidiano das ações de enfermagem. BDENF. durante o processo de ensino-apendizagem. assistência humanizada. levou-nos à realização de um estudo que contemplasse a formação acadêmica relacionada à humanização. p. Scielo. a necessidade de humanizar o cuidado frente aos avanços tecnológicos e a possibilidade de humanizar o cuidado no centro cirúrgico. um 7 . as considerações éticas envolvidas na assistência (des)humanizada. centro cirúrgico. tratamento humanizado. cuidados na admissão em centro cirúrgico e cuidar em enfermagem. realizado através de revisões bibliográficas. contendo conhecimentos de pedagogia. As atividades educativas dos profissionais de enfermagem vêm sendo discutidas em vários momentos pelas entidades representativas. Almeida et al apud ZAGO & CASAGRANDE (1996. salientam que.

a extensão. quanto não-verbal. sociais e éticos. “(. p. Já para AZEVEDO (2002. cada vez mais. em certos momentos foge ao que entendemos como assistência ao ser humano. o que tem favorecido a complexibilidade dos procedimentos ali realizados. ZAGO & CASAGRANDE (1996. Avelar apud JOUCLAS et al (1998. p.28).23) a “comunicação é uma parte do cuidar adquirido pelos profissionais em forma de competência interpessoal”. vê–se constantemente impulsionado a transferir e adiar suas escolhas e ideais profissionais.21). p. “os enfermeiros cirúrgicos brasileiros valorizam e desenvolvem atividades educativas com o paciente. entre as decisões tecnocratas.” Ao analisarmos vários artigos observamos que o avanço das ciências tem contribuído para as especializações que. utilizando-se tanto da forma verbal. o que vem pesando sobre si como uma grande e constante 8 . como um instrumento de controle. mas SANTOS et al (2002.57). “a comunicação franca e aberta auxilia alunos e clientes a enfrentarem momentos de incerteza e ansiedade durante a realização de cuidados. afirmam que “só uma equipe de enfermagem humanizada é que poderá humanizar o paciente”. p.” Por outro lado. lembram que.. ensino que busca um resultado mais imediato sobre o modo como eles cuidam de sua saúde.) o enfermeiro de centro cirúrgico enfrenta uma crise compreendida pelo desafio entre a racionalidade cientifica do modelo biológico de assistência à saúde e seus valores culturais.. No centro cirúrgico. Assim em seu dia–a–dia. a visão desses profissionais quanto à atividade. Mas. sentindo–se. um dos fatores que vem afastando os profissionais de suas atividades é o avanço tecnológico desta unidade. p. o contexto cultural em que ocorrem e os padrões culturais dessa atividade ainda são incompatíveis com os pressupostos de educação e ensino de pacientes e de auto cuidado. Para AZEVEDO (2002.44) coloca que. porque se fundamenta uma necessidade imediata.” Durante o processo de formação os alunos são colocados em situações onde se torna necessário o processo de comunicação entre eles e o paciente.

CONSIDERAÇÕES ÉTICAS NA ASSISTÊNCIA (DES) HUMANIZADA NO CENTRO CIRÚRGICO Levando em conta a ética profissional da enfermagem.º240/2000. Entretanto. como concluiu (AZEVEDO. de acordo com a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (2003). Ainda. ameaça. Art. O Código de Ética dos profissionais de enfermagem. seremos capazes de lutar e agir para que essa mudança aconteça.147) quando revelam que “se cada um de nós entender e aceitar quem somos e o que fazemos. ainda concordamos com VILA & ROSSI (2002. priorizando atitudes de respeito e privacidade. A que se considerar comum certa dificuldade em estabelecer e/ou manter uma comunicação efetiva a clientes com nível de consciência alterado ou aqueles mais “reinvidicadores”. devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. por meio da Resolução n.03) quando ressaltam que. p. “tanto para os alunos quanto para os enfermeiros a dificuldade no relacionamento enfermeiro/paciente é uma realidade enfrentada diariamente”. mas a atenção às pessoas doentes da melhor maneira possível respeitando sua individualidade (GUIDO. “o profissional da enfermagem respeita a vida a dignidade e os direitos 9 . “esta humanização deve ser implantada no coração antes mesmo de ser implantada no trabalho”. atingindo a satisfação do cliente.” As bases da humanização são as ações do enfermeiro frente ao paciente. 1995.19). p. Dotados de razão e de consciência.35. mas sim.103). não sendo necessário ações individualizadas. p. 2002. afirma que. 2000). AZEVEDO (2002. a esses profissionais não compete apenas as ações técnicas e especializadas. capítulo I (COFEN.” Amparados nestas afirmações asseguramos que não é possível termos profissionais conscientizados da necessidade de prestarem assistência humanizada aos pacientes se não forem preparados na graduação para estarem desempenhando tal atividade.23). Concordamos com OLIVEIRA et al (2002. p. estabelece que. p. 1º “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. ações coletivas que tenham como objetivo promover o bem estar do outro. p.

traz fragmentos de entrevistas que demonstram o tratamento ético que é 10 . No centro cirúrgico.18).” Ao descrevermos as atividades desenvolvidas pela enfermagem no centro cirúrgico. assistência individualizada e humanizada. responsabilidade e honestidade. a discriminação de qualquer natureza. mobilização e transporte de pacientes. Durante a fase pré-anestésica. da pessoa humana. encaminhamento à sala de cirurgia. cumpre e faz cumprir os preceitos éticos e legais da profissão. preparação e montagem da sala. exercendo a enfermagem com justiça. competência.)”. teste e verificação da segurança dos equipamentos..46). em todo seu ciclo vital. náuseas. a maca atravessa corredores gelados. recepção e avaliação em sala de recuperação anestésica. eu poderia ter caminhado. há momentos em que o paciente é esquecido em detrimento de questões burocráticas. encaminhamento e alta com segurança e respeito (GUIDO. e até por falta de respeito. Ao realizar um estudo sobre a humanização da assistência de enfermagem prestada no centro cirúrgico. batendo um papo (. demonstra claramente. Preciso vencer alguns metros de corredores. p. RODRIGUES (2000.. mesmo que equipamentos estejam presentes no procedimento. assegura ao cliente uma assistência de enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia. temos: recepção e identificação do paciente. negligência ou imprudência. p. Consideramos que a humanização deve permear cada uma destas atividades. quando coloca a visão do paciente cirúrgico: “a caminho do centro cirúrgico. indisposição. tenho que chegar intacto à mesa. No trabalho diário de um centro cirúrgico é de responsabilidade da enfermeira a recepção do paciente que na maioria das vezes é feita de forma mecânica junto a uma identificação que passa de nome e sobrenome para número e patologia. Conto a possibilidade de vida por metros. ambientais. porém o frio dentro de mim não tem a ver com a temperatura do dia. Luto contra cada instante. Não há dor. Entre o apartamento e a mesa de operação é um longo caminho. 1995). o paciente “pode ficar” exposto e até mesmo nu sobre a mesa cirúrgica aguardando o efeito dos anestésicos. Brandão apud JOUCLAS et al (1998.

tornando o paciente um objeto de trabalho. 1999. se existir necessidade de anestesia. sem maiores esclarecimentos ou respostas às suas angustias. senti medo. sobre as ações diagnosticadas e terapêutica. o paciente acaba por não receber a atenção que a ele deveria ser dedicada. irá atender à cirurgia e não ao paciente. depois de colocado na mesa operatória é esquecido. se ele não o coloca em primeiro plano. Não deve ser chamado pelo nome da doença ou do agravo à saúde. desrespeitosas ou preconceituosas” (SÃO PAULO. dispensando atenção aos equipamentos e seu funcionamento adequado. conforme a condição hemodinâmica. sujeito desencadeante do processo. ou seja. O paciente é levado até a sala de cirurgia de forma fria.dispensado aos pacientes sob a ótica dos mesmos. dependendo do sucesso do ato anestésico- cirúrgico. equipamentos e pessoal voltado para a cirurgia. o que pode decorrer delas.” 11 . foi muito ruim. adaptadas à sua condição cultural.22) ressaltam que. p. eu estava angustiada e as moças ficaram discutindo preço de celular”. qual o instrumental a ser utilizado e quais órgãos do corpo serão afetados pelo procedimento. mas depois me deixaram sozinha em uma sala e eu só ouvia conversas no corredor. promovendo. “o enfermeiro é o responsável pelo cuidado do paciente do centro cirúrgico e. “O paciente tem direito a ser identificado pelo nome e sobrenome. Castellanos et al. a duração do tratamento. simples e compreensivas. e neste momento. apud GUEDES et al (2001.” Quando se encerra o ato cirúrgico o paciente é transferido da sala de cirurgia para a sala de recuperação pós-anestésica. independente de seu estado geral. e a enfermagem passa a assumir função tecnicista. De acordo com o documento acima citado. sem se estabelecer um diálogo ou mesmo uma relação de confiança profissional-paciente. html). tive a certeza que sabiam o que estavam fazendo. “o paciente tem direito a informações claras. a localização de sua patologia. ou ainda de forma genérica ou quaisquer outras formas impróprias. isso me deixou mais tranqüila”. mas não o ser principal. “fui recebida com bom dia. “quando me chamaram pelo meu nome. assim o controle de material.

não se pode ignorar que a enfermagem no cuidado diário. são demonstrados. “respira fundo” ou “calma” sem ao menos olhar diretamente para ele. vergonha e embaraço.A atenção. pois geralmente só é informado no centro cirúrgico. (ANTONIO et al. interesse por mim como pessoa que está sofrendo. verificamos no capitulo III. p.34). toca e expõe o paciente muitas vezes sem autorização. mesmo que sejam esclarecidos ou que estes tentem racionalizar e compreender a situação (ANTÔNIO et al.” Fato que merece destaque e muitas vezes é desencadeado por problemas administrativos. dignidade. como a invasão de sua privacidade e o desrespeito dentro da sala operatória. sendo que cada paciente tem sua reação e resposta particular. 2002). porém o paciente pouco questiona acreditando ser imprescindível a invasão para sua recuperação. Relato de médicos que passaram para a situação de paciente demonstram essa. para o enfrentamento das minhas reações. o sujeito do processo de trabalho da enfermagem. é um ser humano com personalidade. mostrou- se atencioso. como Rabin & Rabin apud CAPRARA & FRANCO (1999. “fiquei desiludido com a maneira impessoal de se comunicar com os pacientes. Não demonstrou em momento nenhum. preocupado. muitas vezes. artigo 16º que é de responsabilidade da nossa profissão “assegurar ao cliente uma assistência de enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia.652) colocam . 2000. preconceito e 12 . Ele como médico experiente da área. Associado ao cancelamento de cirurgias outros “dilemas éticos” podem ser relatados no atendimento ao cliente na eminência de uma cirurgia. p. negligência ou imprudência”. Não me fez nenhuma pergunta sobre meu trabalho. Baseados no Código de Ética dos profissionais de enfermagem (COFEN. Sentimentos de constrangimento. somente no momento em que me apresentou a curva de mortalidade da esclerose amiotrófica. a fim de me adaptar e responder a doença degenerativa. que já causou angústia e insegurança considerável ao paciente. é o cancelamento de cirurgias. adotando posturas de poder sobre o mesmo. 2002). Entretanto. fica restrita a simples expressões como: “está tudo bem”. prejudicando-o e desrespeitando-o. e para alguns pode ter efeitos desastrosos. Não me aconselhando a respeito do que tinha que fazer ou do que considerava importante psicologicamente.

no entanto sem autorização ou mesmo justificativa para o cliente daquele ato ou conduta.28-Respeitar o natural pudor. sendo. “(. o atendimento dedicado ao paciente se distancia demasiadamente da teoria já que na prática em várias situações.106) ainda nos mostra claramente esses dilemas quando cita algumas situações a serem corrigidas para que se alcance a humanização e o respeito que é de direito do paciente: “falta de atenção para com o cliente no que se refere a sua privacidade. ameaçando sua estrutura emocional. através de suas ações. GUIDO (1995. no entanto.. Ao discorrer sobre direitos e deveres. já que é de responsabilidade principalmente do enfermeiro fazer com que esses direitos sejam cumpridos. 2002).. não podemos esquecer que os profissionais de saúde também tem sentimentos e muitas vezes preocupam-se em agir com ética. A liberdade da equipe multiprofissional pode tolher a do cliente.” Ao se respeitar e atender as necessidades e direitos do paciente. Por outro lado. esquecendo. oportunidade e acima de tudo preparo para demonstrar seu conhecimento pelo direito do paciente..pudor (PUPULIM & SAWADA. o “Art. a equipe que com ele se relaciona terá sucesso em seu trabalho. os deveres. de promover estes direitos.217) a respeito do profissional enfermeiro: “(. p. p. além de comentários e discussões inoportunas e de falta de registro de situações e ocasiões importantes para o ensino e a pesquisa. buscando solucionar ou minimizar o sofrimento da maneira menos agressiva possível. a privacidade e a intimidade do cliente” (COFEN. 27-Respeitar e reconhecer o direito do cliente de decidir sobre sua pessoa.106) lembra que.” Lembrando novamente o Código de Ética da Enfermagem citamos os artigos 27 e 28 do capítulo IV que tratam dos deveres do profissional enfermeiro. p..) mais do que qualquer outro profissional de saúde. GUIDO (1995. às vezes. 2000). ser assistido com dignidade e ainda mais. os enfermeiros tem freqüentemente tempo.” Com isso é possível observar que.) todas as pessoas que convivem em busca de uma melhor condição de vida. a 13 . seu tratamento e seu bem estar” e o “Art. querem seus direitos. Salientam MENDES et al (2000.

1999. sempre tenha um interesse por aquilo que esteja pesquisando”. p. analisando LOPES et al (1998. com a finalidade de encontrar a solução para uma anormalidade. beneficiando-se dos princípios científicos e dos equipamentos mais simples aos mais sofisticados (RIBEIRO et al. a ética profissional que tanto deve ser conservada acaba sendo substituída por práticas adotadas devido à escassez de tempo ou mesmo por comodidade de certos profissionais. desejável e necessária à modernização do atendimento aos pacientes no centro cirúrgico. Deve-se buscar o uso da tecnologia humanizada por parte dos profissionais que assistem o paciente no cento cirúrgico entretanto. “a descoberta científica resulta da busca do saber pelo saber em si. e a partir da Revolução Industrial teve um impulso considerável. por outro lado. com seus problemas. RODRIGUES (1999. A tecnologia não consiste exclusivamente na aplicação pura do conhecimento. técnicas e novos conceitos que conquistou perante a sociedade. tornando-se útil para prolongar a vida e diminuir o sofrimento de muitas pessoas. “na equipe de saúde este fenômeno não está presente. tornando o ambiente (des) humano. pois o paciente deixa de ser uma pessoa para ser um caso interessante. conforme descreve RIBEIRO et al (1999. em pesquisas.61) afirma que. ainda que se admita que o cientista. Assim. 14 . não se deve deixar o paciente de lado dando prioridade aos aparelhos. nem ser rico em tecnologia apenas para observar os homens que vivem e morrem indignamente”. “de nada adianta ser um humanista e observar o homem que morre por falta de tecnologia.15).atenção individualizada é praticada de forma mecânica. p. A HUMANIZAÇÃO FRENTE AO AVANÇO TECNOLÓGICO Ao longo da história a enfermagem vem se desenvolvendo.19) ao dizer que. a ciência obteve um grande avanço a partir do momento em que se aliou à tecnologia. p. O paciente individualizado. mas de vários conhecimentos reunidos. temores e necessidades não é sempre levado em conta”. no entanto.56) comprovamos que. É claro que a tecnologia é essencial. p.

preservando-o de infortúnios e singularizando a assistência humanizada. Analisando a tecnologia e a humanização. não se pode aplicar a tecnologia nas ações da enfermagem sem que a humanização esteja presente (CARRARO. o melhor é associá-lo à humanização e a comunicação terapêutica.” É importante salientar que o avanço tecnológico na área da saúde é uma grande conquista. porém não mais significativos do que a essência humana. 2000. mas seria melhor associar esta tecnologia à uma assistência voltada para o paciente. os recursos materiais e tecnológicos são importantes. com vistas a obter resultados mais satisfatórios em relação ao bem estar dos pacientes. portanto.43). p. “precisamos despir-nos da idéia que humanização e tecnologia compreendem apenas ações atuais e equipamentos de ultima geração. p. mas se faz necessário o uso de ambas para que o resultado do atendimento seja satisfatório por parte dos pacientes. “a humanização deve fazer parte da filosofia de enfermagem. porém. Ainda VILLA & ROSSI (2002. RODRIGUES (1999.19) lembra que. observa-se que estas possuem características distintas. “o tema tecnologia não se refere a algo que está a influenciar a nossa vida. Baseados nestas afirmações percebe-se que a humanização na enfermagem não é possível sem a tecnologia e vice-versa. antigas e corriqueiras na enfermagem. tornando-o capaz de criticar e construir 15 .O avanço tecnológico na área da saúde é uma grande conquista. Não desconsidero estas idéias.42). O ambiente físico.139) ressaltam que. refere-se antes a própria realidade na qual estamos totalmente inseridos e que. não podemos ignorar”. onde o enfermeiro priorize “estar com” o ser humano. Para CARRARO (2000. conduzirá o pensamento e as ações da equipe de enfermagem. principalmente do enfermeiro. com intuito de obter resultados mais satisfatórios em relação ao bem estar dos clientes e da ciência. lembrando que muitas vezes estão à nossa disposição e não as valorizamos em detrimento da sofisticação. apenas quero chamar a atenção para possibilidades de humanizar a aplicação de tecnologias simples. p. Esta sim. p.

suas origens e evolução até o presente momento. 16 . de assistir os clientes de forma integral. e não a um amontoado de sinais. como evidenciam LOPES et al (1998. muito empenho é necessário para que o progresso da tecnologia e da ciência não acabe por esvaziar a profissão de seu conteúdo humano. WALDOW (1992. além de promover maior grau de conhecimento e esclarecimento. Com o passar dos tempos têm surgido várias definições de cuidar/cuidado de acordo com diferentes concepções. onde um deles é a comunicação. dignifica e eleva os ideais da profissão de enfermagem. pois. p.. a tecnologia e a humanização do cuidado ao paciente”. “não há evidências de que menor atenção à tecnologia implique em maior cuidado direto e humanizado. p.. sendo imprescindível associar ao exercício profissional. então.” A partir dessas reflexões nos é possível afirmar que o avanço tecnológico não afasta o enfermeiro do seu objetivo primordial. representando as crenças e valores predominantes da prática da enfermagem.30) afirma que o “cuidado pode ser considerado como a conotação de atenção. Nesta perspectiva.06). menos agressiva e hostil para os pacientes que diariamente necessitam de atendimento (. característica esta que enobrece. favorece sentimentos de segurança e cooperação”. preocupação para. sintomas e reações (ZEN & BRUTSCHER. p. p. Enfim. é indispensável a “tecnologia do calor humano” nas relações enfermeiro- paciente. Para isso pode-se utilizar meios que favoreçam a interligação. uma realidade mais humana.). “a importância da comunicação é a explicação mais eficaz sobre os variados procedimentos. mantendo a assistência digna a quem tem sentimentos e racionalidade. Para Folta apud RIBEIRO et al (1999. HUMANIZAR O CUIDADO NO CENTRO CIRÚRGICO É POSSÍVEL? Fazendo uma retrospectiva sobre a enfermagem. se faz necessário um equilíbrio entre a atenção dispensada. não restam dúvidas que o cuidar é sua principal característica e seu marco referencial.19).60). 1986. a tecnologia e o conhecimento da personalidade do paciente.

p. podendo ser adaptadas e ajustadas conforme a necessidade”. constatamos que o trabalho do enfermeiro de centro cirúrgico.143). para que consigamos humanizar o atendimento de enfermagem é preciso que a equipe seja conscientizada e preparada para fazer a diferença no cuidado. o enfermeiro é responsável por orientar. a prestação de cuidados. esqueçam de tocar.”. na maioria das vezes. não restando tempo do seu expediente para dedicar-se aos cuidados com o paciente.. a criatividade na promoção da fé e da esperança. “. em determinados momentos constitui-se como um instrumento da equipe cirúrgica. conversar e ouvir o ser humano que está a sua frente (VILLA & ROSSI 2002. p. com afeto. “percebe-se que a função burocrática. tanto na vida do funcionário. quanto no seu trabalho. ocupando-se de tarefas administrativas. afirmam que “o cuidado é imprescindível em diferentes situações da vida do ser humano. não esquecendo de que ele também necessita de um ambiente adequado para realizar o seu trabalho. Para que o cuidado humano tenha efeito positivo. de ação”. como afirmam GUEDES et al (2001. Desta forma. A rotina e a complexidade do ambiente fazem com que os membros da equipe de enfermagem. p. as muitas queixas que caracterizam sintomas físicos de estresse. promoção do ensino- aprendizagem entre os profissionais. amor ou simpatia. deve-se incorporar mais de um fator em sua estrutura.802). Em geral.24). que exigem um grande esforço físico e psíquico dos profissionais... sanar dúvidas pertinentes ao procedimento trazendo uma maior tranqüilidade e segurança. entre outros. planejamento. o termo implica a idéia de fazer. como a valorização da humanização. observar com atenção. CARVALHO & LIMA (2001. passando a entender o paciente de forma humana. organização e o controle sejam elementos firmemente incorporados ao seu trabalho diário”. ao realizar um estudo para avaliar os sintomas físicos de estresse na equipe de enfermagem em um centro cirúrgico. a expressão de sentimentos negativos e positivos.31) chamam a atenção para. TANJI & NOVAKOSKI (2000.. Amparados nestas afirmações. p. dando a impressão de que esses sintomas tem interferido negativamente. 17 .responsabilidade por. conseqüências de uma rotina diária.

preocupando-se em detectar sinais de ansiedade. às orientações recebidas desde a recepção até a sala operatória e durante o ato cirúrgico.” O paciente orientado quanto aos procedimentos a que será submetido no centro cirúrgico é um paciente com níveis de ansiedade. tanto para o paciente. estiver junto de mim. tudo é assustador. para mim. os mesmos “exaltam a importância do preparo pré-operatório efetuado pelas enfermeiras do centro cirúrgico trazendo-lhes. na 18 . Ainda D’Assumpção apud CRUZ & VARELA (2002. no entanto é necessário que os profissionais tenham consciência de que o objetivo de seu trabalho é a recuperação do paciente. no dia-a-dia das atividades cirúrgicas. como para a equipe cirúrgica. Porém. encaminhando-o à sala de cirurgia.52) descrevem sobre o medo. p. (1997.). a incerteza e a angústia demonstrada pelo paciente ao transcreverem trechos de entrevistas. tudo é novidade.Apoiados em nossas experiências acadêmicas temos observado que a cirurgia em si é um fator de estresse. ao transmitir para o cliente informações que lhe permitam enfrentar a situação em que se encontra com menos temor”. ao apoio. A boa qualidade da assistência de enfermagem ao paciente cirúrgico inicia-se no pré-operatório. no entanto. Segundo VALLE et al.26). Ao chegar no centro cirúrgico é necessário que o enfermeiro acolha calorosamente o paciente. como este: “ao me levarem para a sala de cirurgia. estarei seguro e me será mais fácil enfrentar tudo aquilo que virá em seguida.35) analisando as orientações pré-operatórias sob a ótica dos pacientes. quanto à prontidão ao atender chamados. p. o que leva a inferir que os cuidados de enfermagem no trans-operatório. orientações acerca do procedimento cirúrgico e transmitindo-lhes segurança”. se alguém que eu já conheça.. estresse e/ou outros fatores que possam interferir no bom andamento do ato cirúrgico. por favor não me deixem sozinho e sem qualquer informação sobre o que irá acontecer (. insegurança e medo menores do que aquele sem acesso a qualquer orientação. p. há uma insatisfação por parte dos pacientes. Como afirmam SANTOS et al (2002. “a importância da qualidade da assistência de enfermagem nesse momento é capaz de contribuir para avaliar a tensão..

mas não o são para os pacientes.” Na atividade diária de um centro cirúrgico encontramos variados comportamentos e atitudes entre os profissionais.26) descrevem que. mediados pela preocupação e desvelo pelo outro. naquele local e naquele momento. ou ainda o anestesista não chegou. SILVA et al (2001. para informar que: o aspirador desta sala não está funcionando..52) sobre “o abandono do paciente para cumprimentos efusivos e demorados com companheiros(as) de trabalho. ou o ar condicionado não está funcionando.maioria das vezes. sendo mais comuns as que desrespeitam o ser humano. p. ou está faltando oxigênio nesta sala. “as próprias vestes são substituídas por roupas personalizadas e. Ao estudarem a relação entre pacientes e profissionais quanto à prática da humanização. e o outro que necessita receber tais cuidados.. um simples número”. como identificação. p. trazem fragmentos de entrevistas realizadas com pacientes. o surgimento inoportuno. podendo ser referida como a falta de sensibilidade da instituição para com o paciente. de funcionários. estas situações se colocam como ameaçadoras. aprendeu os meios de ajudar o outro nas suas necessidades de saúde e de doença. (JOUCLAS et al.”. assustadoras e geradoras de conflitos e 19 . não estão incorporados ao cotidiano das atividades desenvolvidas. p. o paciente freqüentemente é assistido de forma mecânica.587) relatam a “importância do enfermeiro pensar ao dispensar cuidados aos seus seres cuidados. Ainda SANTOS et al (2002. p. CAPRARA & FRANCO (1999. dirigindo-se à enfermeira próxima ao paciente. 1998. entre estas se encontra uma que caracteriza a despersonalização a que é submetido o paciente ao ser internado.651). Desta maneira constata-se que mais uma vez o cotidiano se afasta do contexto teórico. cientificamente e humanamente.47). considerando este momento de comunhão que se dá entre aquele que. p. “no centro cirúrgico. ao relatar que. impessoal e seus problemas de natureza psicológica ou mesmo social muitas vezes são ignorados. como lembram CRUZ & VARELA (2002.” Essas situações podem até ser consideradas comuns e naturais entre os profissionais. para esses.

mas toda a equipe. p. contudo. acolhimento do paciente e apoio. seus temores e dúvidas . p. a responsabilidade recai sobre a equipe cirúrgica e mais diretamente no enfermeiro.”. desde a chegada até ser encaminhado a unidade de internação (JOUCLAS et al. pode ser útil. 1998. p. evitando que o mesmo fique sem saber o porque dos sintomas que está apresentando e até quando permanecerá neste estado desconfortante.”. passando a responder por tudo o que está ou possa acontecer com o mesmo.254) ao afirmarem que. Ao avaliar os cuidados de enfermagem na sala de recuperação pós-anestésica. p. segundo SANTOS et al (2002.255). A presença do enfermeiro ao lado do paciente. afirmam que. Após estas reflexões. Ao sair da sala de cirurgia a maioria dos pacientes são encaminhados para a sala de recuperação pós-anestésica. 2002. este não é mais o único responsável pelo que acontece consigo.37). é importante antes de fornecer qualquer informação.. pode-se afirmar que desde o momento em que o paciente é admitido para a realização de procedimento cirúrgico até a alta hospitalar. “um bom relacionamento entre enfermeiro e paciente reduz o impacto da cirurgia e as possibilidades de complicação..47). obteve-se alto grau de satisfação por parte dos pacientes nos itens: segurança demonstrada pelo pessoal de enfermagem nos cuidados. por isso. onde o cliente deve ser recebido pelo enfermeiro e ter as suas necessidades sanadas.26) o enfermeiro de centro cirúrgico deve “livrar-se de seu papel puramente técnico e integrar-se no cuidado 20 . desencadeando diferentes sentimentos que podem vir a complicar o desenvolvimento da cirurgia ou do pós-operatório (ANTONIO et al. ouvir o paciente. lhe trará conforto e segurança. desenvolvendo uma relação de ajuda e compartilhando este momento tão angustiante.. p.ansiedades. Durante sua permanência no centro cirúrgico. como coloca TEIXEIRA et al (1994. tornando mais ameno e menos doloroso este momento. Soares apud TEIXEIRA et al (1994. as orientações recebidas pelo paciente na sala de recuperação pós-anestésica muitas vezes não estão de acordo com o que é preconizado pelos referenciais teóricos. “prestar informações específicas ao paciente sobre as sensações esperadas. No entanto. além de promover adaptação mais rápida..

sendo imprescindível.” CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto sobre humanização no período transoperatório e os vários fatores que interferem nesta. é necessário que o enfermeiro esteja atento a todas as reações apresentadas pelo paciente nestes períodos. ocasião em que precisa integrar-se ao desconhecido (ambiente e pessoas). a repetição diária das 21 . quanto à qualidade do ensino e dos profissionais que estão sendo formados e encaminhados para o campo de trabalho. porém. se antes não podemos constatar a presença de equipes humanizadas? Surge a necessidade de se repensar e reavaliar os conteúdos que estão sendo ministrados durante a graduação. acreditamos que o cuidado humanizado é essencial para a prática da enfermagem. pois encontramos resistência de alguns funcionários e de vários profissionais de outras áreas. p. Como podemos falar em humanização do paciente. Com isso. “humanizar o atendimento de enfermagem em centro cirúrgico tem sido um desafio constante. promovendo o espírito de humanização dos cuidados”. As ações éticas contempladas na graduação devem ser praticadas pelos enfermeiros ao assistirem seus pacientes. se não for preparada para tal em sua formação. Neste sentido. em suas atividades diárias. RODRIGUES (2000. é inevitável motivar e conscientizar os profissionais para as mudanças indispensáveis na obtenção de um ambiente mais humanizado no centro cirúrgico. trans e pós-operatório. que muito tem nos incomodado.” Assim. fica um questionamento. entretanto. podemos afirmar que não teremos uma equipe humana.20) lembra que. Em tão poucas ocasiões o indivíduo está tão dependente de outra pessoa com relação a sua segurança e bem estar quanto no período pré.48) “a utilização de um processo de interação interpessoal que ultrapasse o fazer mecânico. p. sendo imprescindível que os graduandos recebam uma formação mais humanista. total daquele cliente que está a sua frente. segundo JOUCLAS et al (1998.

Sendo o centro cirúrgico uma unidade de alta complexidade. Trabalhos multidisciplinares com a equipe de enfermagem podem favorecer a sensibilização para iniciar um processo de humanização interna que tenha conseqüências no atendimento. valores e ética moral e profissional. O enfermeiro como mestre da criatividade deve utilizar meios que promovam a interligação tecnologia-humanização. encontramos os avanços tecnológicos interferindo e afastando a enfermagem da assistência adequada. comportamentos. a sobrecarga de trabalho e até mesmo o comodismo. tocar e serem presentes. fazendo o profissional agir de forma mecânica. favorecendo a preservação do calor humano nas relações enfermeiro- paciente. deixando com isso indícios de insatisfação dos clientes com relação aos cuidados recebidos. deixando de buscar as características relacionadas a problemas burocráticos. tem afastado consideravelmente a prática da teoria. desde a recepção dos pacientes no centro cirúrgico até serem encaminhados a unidade de internação ou para casa. olhar. mas sim a uma questão que envolva atitudes. 22 . Aliado a estes fatores. pois. o presente estudo ressalta a importância de mudanças frente aos profissionais. tecnologia e procedimentos que invadem a privacidade dos pacientes se faz necessário que os enfermeiros que ali trabalham estejam conscientizados da importância de ouvir.atividades. estruturais e técnicos. a segurança e a tranqüilidade favorecem o tratamento e a recuperação. por levantar questionamentos a respeito da necessidade de inovação dos conceitos sobre assistência cirúrgica e implantar uma assistência cirúrgica humanizada. Desta forma.

dos mesmos organizadores do seminário e lançada alguns dias após o mesmo. isto é. já incorpora outros elementos e outras dimensões reflexivas. As diferenças entre as várias compreensões de integralidade dependem fundamentalmente do que os diferentes projetos tecnopolíticos no campo pretendem integrar. Ressaltar esse detalhe nos parece importante porque é sempre em torno desse sentido simples e geral que se dá a variação de seus sentidos no campo da saúde. Total. a integral de uma função matemática). alimento preparado com este cereal. 1. inteiro.” Apresenta mais três sentidos relacionados (cereal que não foi beneficiado. também teve grande importância para a conformação final deste texto. O velho Aurélio não glosa a palavra integralidade. inteiro. como é de se supor — da própria experiência dialogal do seminário. Além disso. ele diz: “Adj. Como resultado. 2001). completo. a leitura da coletânea Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde (Pinheiro e Mattos. 2 g. contudo.O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações [ Um primeiro esboço deste texto serviu de roteiro para nossa comunicação durante o seminário “Integralidade: Saberes e Práticas no Cotidiano dos Serviços de Saúde” (IMS/UERJ. 23 . “tornar inteiro: completar. no texto a seguir nem sempre é fácil distinguir o que é a expressão do autor e o que é a expressão desses diálogos. Breves comentários introdutórios sobre a integralidade Integrações e apartações O já bem decantado caráter polissêmico da noção de integralidade no campo da saúde contrasta com o caráter bastante unívoco de seu sentido lexical. global. 2001). prolongando numa forma escrita os diálogos iniciados no encontro. mas se compreende claramente que significa a “qualidade de integral” e. de integral. mas seu núcleo semântico é bem claro e preciso: estar todo. o que decorre — em grande medida. Esta versão final.

já vêm sendo respondidas com grande competência por vários autores (Pinheiro e Mattos. E aí cabe perguntar: que “partes” temos nos proposto a juntar? Que “todos” temos nos proposto a recompor? Qual ou quais das múltiplas apartações instauradas no mundo. fragmentada. quando não da própria integração social. de serviço público e no Brasil. numa relação de serviço. Assim. julga-se. prevaleceu. para cada concepção da integralidade. temos priorizado. com todas as especificidades que esta pode adquirir no campo da saúde. devam ser integradas. sobre a necessária “integração de múltiplos saberes”. parece adequado designá-la cisão eu-outro. a partir das partes que. uma visão (problemática) de um mundo feito de pelo menos mais que um pedaço. cujo desafio de superação (de reintegração dos elementos apartados) parece vir contribuindo fortemente para a emergência de ainda outros e novos sentidos para a noção de integralidade. pelo que revela da intensidade de violência que chega a ser mobilizada nesta 24 . mas tão-somente de uma modalidade particular de apartação. Também é interessante tentar compreender as diferentes noções de integralidade que pululam no campo.” E. Numa fórmula bastante genérica. entre as várias possibilidades de tratamento da questão da integralidade na prática dos serviços. fica bastante evidente que. uma concepção da cisão. integralizar.inteirar. como há muita coisa cindida. separada. há muita coisa a ser integrada e muitas diferentes apostas a respeito de que partes devem ser primordialmente integradas. aquelas que iam na direção de uma “ocupação da esfera pública por uma ética da diferença”. Não nos ocuparemos delas neste momento. sobre a “integração das diferenças e dos diferentes”. Revendo nossas anotações do seminário. e que afetam a esfera da saúde. em parte. como nos projetos que lidam com situações de exclusão ou apartação social (o que não deixa de ser uma forma especialmente dramática de cisão eu-outro. no campo da saúde. De resto. Falou-se muito e bem sobre “a necessidade da integração trabalhador-usuário”. 2001). partida. como ficou patente nas próprias discussões do seminário. de longe. assumindo o desafio de superá-las através de nossos diversos projetos de integralidade?[2] Tais questões. aqueles que mais vêm se sobressaindo no debate atual.

À luz dessa concepção de integralidade.. que essa integração é mais do que a construção de um vínculo/responsabilização (o que também é. tais como “biopsicossocial”. o foco está claramente posto na relação trabalhador-usuário que se dá nos serviços. enfim. com um certo atraso e com uma fecundidade estreitamente dependente do quanto levam em conta as soluções inventadas no fazer cotidiano dos serviços). nas falas dos técnicos. a necessidade urgente de se integrar o outro já vinha sendo indicada de múltiplas formas. é possível entender. assim como nas construções discursivas dos formuladores de políticas (em geral. sobre a necessidade de superação do “monopólio do diagnóstico de necessidades” e de se integrar a “voz do outro” nesse processo. pesquisadores e diferentes profissionais da saúde. as diferentes formas de apartação do outro têm “tensionado” por dentro as práticas de saúde e. problemáticas concretas do fazer cotidiano dos serviços. gestores. no plano das práticas (com uma urgência e uma inventividade sem par). antes. Esses diferentes enfoques correspondem a efetivos focos de “tensionamento” no plano das práticas. a pretendida “reversão do modelo tecnoassistencial” muitas vezes se parece mais com uma “reversão do modelo comunicacional” em vigor nos serviços. principalmente porque ela parece comprometer negativamente o duplo cerne da razão de ser desses serviços: 25 . Falou-se. no plano da prática concreta dos serviços. é evidente que os diferentes enfoques que vão se constituindo nos debates a respeito da integralidade não se baseiam em preceitos metafísicos dos intelectuais da área da saúde. “curativo-preventivo” ou outras palavras de ordem. de forma especialmente aguda..cisão[3]). que os levariam a conceber totalidades a serem perseguidas. Em outras palavras. Ainda segundo nossa escuta do seminário. aquelas que se realizam nos serviços de assistência. “individual-coletivo”. que premem o sistema como um todo e o mobilizam na busca de soluções. E elas são buscadas em todos os níveis: cotidianamente. Essa marcada tendência no modo de se formular a questão da integralidade só vem se manifestando nos debates atuais porque. De fato. mas se trata de uma efetiva “mudança na relação de poder técnico-usuário”. para a qual se dirigem os mais fortes desejos de integração. Em suma. muito valorizado). sem dúvida.

Isso traduz uma progressão do foco de “tensionamento” (relacionado ao problema mais geral da garantia de acesso universal ao sistema de atenção). no Brasil (Reforma Sanitária. E esse limiar crítico foi atingido em algum momento ao longo da última década. cada vez mais. parece que a coisa não funciona mesmo muito bem sem esse outro. De fato. Entendemos que a importância que vem adquirindo. chamado o “paciente”. depende intimamente do tipo de modelo de atenção operante nessas unidades[4]. entre aspas. sem que antes a realidade da oferta maciça desses serviços à população atinja um limiar crítico. como conseqüência das políticas que vêm sendo efetivadas na área da saúde. mais genericamente. mas significa que já atingimos um patamar crítico de cobertura de serviços. um grau de satisfação dos usuários bem mais decepcionante.sua eficácia técnica e a satisfação da clientela. sobretudo. Entendemos que é à transposição desse limiar que devemos atribuir. a evolução de algumas das principais linhas temáticas trabalhadas na produção intelectual da Saúde Coletiva.). que corresponde àquele que poderíamos chamar de uma virtual acessibilidade universal. municipalização etc. descentralização. a discussão sobre o acolhimento nas unidades ou.. não queremos dizer que o problema da universalidade do acesso esteja simplesmente resolvido em termos quantitativos. mas. pelas análises centradas em temas como o do acolhimento nas unidades prestadoras. a problemática do acesso aos serviços evoluiu no sentido de uma substituição progressiva das análises centradas no tema da extensão de cobertura. implantação e consolidação do SUS. em pouco mais de uma década. por exemplo. criação. por exemplo. É importante assinalar que um tal “tensionamento” não cresce em potência no seio das práticas dos serviços públicos. em que o problema do acesso não depende mais apenas da expansão do número de unidades prestadoras. Com isso. que vai do problema da quantidade de “portas-de-entrada” ao problema da qualidade dessas “portas”.. o funcionamento concreto dos serviços que distribuem suas tecnologias vem demonstrando uma eficácia e. por exemplo. como. decerto. Podemos notar. Apesar das entusiásticas promessas de eficácia da biomedicina triunfalista. a problemática da qualidade do acesso e da recepção dos usuários nos 26 .

Em outras palavras. instalado no coração do desenvolvimento tecnocientífico da moderna biomedicina. que a realidade pré-serviços públicos em larga escala não era propensa a fazer emergir um tal tipo de “tensionamento” no campo da saúde. uma brevíssima digressão histórica. podemos falar em relação trabalhador-usuário[5]. E ressaltemos. como vem sendo amplamente discutido por diversos autores. que considera a existência de outros profissionais e outras interações também se dando no cotidiano dos serviços. mais exatamente para a relação com o outro que aí se estabelece. em especial nas primeiras décadas do século XX. assinala bem essa migração do foco de “tensionamento” para dentro do serviço. levando em conta alguns aspectos de nosso processo cultural (identitário) e ético-político. e só quando a oferta de serviços atinge uma magnitude significativa. ela sempre teorizou sobre esse seu outro. 27 . a relação médico-paciente é apenas o caso mais emblemático.serviços. Emblemático – levando em conta a hegemonia absoluta do trabalho médico dentro dessas unidades de prestação de assistência -. Num sentido mais alargado. O chamado movimento sanitário brasileiro participou ativa e centralmente dessa teorização. uma vez mais. Para as várias relações com o outro que aí se estabelecem. talvez nos permita perceber alguns outros insuspeitados e promissores sentidos nessa crise tão atual. Crise de alteridade Ora. Mas é claro que o “tensionamento” assume contornos específicos no âmbito dos serviços públicos em nosso país. na verdade. as dificuldades relacionadas à questão da alteridade assumem um caráter decisivamente crítico. É interessante notar como a elite letrada (desde que se constituiu uma entre nós) sempre produziu interpretações sobre o Brasil e sobre quem é o “povo brasileiro”. esse “tensionamento” relacionado às dificuldades em lidar com a alteridade não é exclusivo dos serviços públicos de saúde e está. assim dado no contexto de uma sociedade profundamente dual e progressivamente apartada. Nesse ponto. mas restrito.

. Para que se possa estimar a importância desse movimento na discussão sobre o país. ao papel fundamental desempenhado pelos artigos de Belisário Penna e Arthur Neiva no Correio da Manhã. cada vez mais. com seu Macunaíma. ampliando. parece-nos que o movimento sanitário brasileiro. 2000). foi pela passagem representada por um momento anterior. as ciências sociais assumiriam um papel cada vez mais proeminente na interpretação do país. No campo da saúde. quando o movimento sanitário. mas sobretudo numa série de políticas públicas. no outro pólo de controvérsia. anos antes. relatando o Brasil descoberto nas expedições realizadas por esses sanitaristas aos sertões (que prolongava. fazendo eco satírico ao discurso sanitário da época (Lima e Hochman. porque 28 . Mario de Andrade. esse processo fundamentalmente ético-político viria a se traduzir não apenas num conjunto importante de regulamentações jurídico- legais. quanto. de Os sertões.Referimo-nos. Monteiro Lobato. O que confere originalidade à contribuição atual é que o movimento sanitário parece menos preocupado em produzir uma nova interpretação sobre esse outro (das elites letradas).”. “esquerdizante”) continuou a desempenhar papel importante nessa elaboração. pode contribuir de modo peculiar e decisivo para o debate em torno da identidade do “povo brasileiro”. Como exemplos. temos tanto a obra do membro da Liga Sanitária Brasileira. mas também. Procurando ver o momento presente dessa perspectiva. E se chegamos a esse momento. Já na segunda metade do século. que escreveria.. o impacto causado pela publicação. de Euclides da Cunha) e por todo o debate intelectual amalgamado pela Liga Sanitária Brasileira. com seu controverso Jeca Tatu a ilustrar manuais de higiene. do que em criar as condições para que ele fale diretamente. em consonância com o processo mais amplo de democratização do país. uma vez mais. não sem ironia. mas o discurso médico- sanitário (agora mais afinado com os ideários desenvolvimentistas. por exemplo. produziu a “interpretação” de que o chamado “povo brasileiro” também poderia ser um cidadão com direitos. no livro de visitas do Instituto Butantã: “Pouca saúde. que tomou as últimas décadas do século XX. Esse processo foi uma importante passagem para o momento atual. os males do Brasil são. muita saúva. basta evocar suas repercussões na literatura.

e que bem pode ser o lema de sua segunda parte – democracia viva em ato –. Merhy.. Aristóteles.criou as condições mais gerais para que. De modo interessante. Sobre o acolhimento Para conhecer as coisas que queremos fazer é preciso fazer as coisas que queremos saber. do contínuo processo de interpretação do país e construção coletiva de nossa identidade. está ostensivamente inspirada na bela e bem conhecida fórmula que nos é oferecida por Emerson E.. das condições geradas pelo que chamamos de virtual acessibilidade universal aos serviços de saúde.33) Hilemorfismos A fórmula com que encerramos a primeira parte deste texto. E não parece ser mais o momento de formular novas teorias sobre esse outro. contribuindo para que a essência de suas práticas seja a realização da democracia viva em ato. “trabalho vivo em ato” – como esse autor 29 . As práticas médico-sanitárias pré-serviços em larga escala podiam se contentar com interpretações distanciadas do “povo brasileiro”. Este outro: nós. pesquisadores e profissionais da saúde. o campo da saúde se tornasse especialmente sensível às questões relacionadas à alteridade. Da perspectiva do processo de construção da cidadania e do espírito democrático entre nós. com suas experiências. Na era dos serviços.. dificilmente. enfim. mas de criar as condições para que esse outro fale de viva voz. a realidade da distribuição ampliada de serviços de saúde – e a decorrente presença e participação também ampliada do “povo” nesse novo contexto técnico aberto pelas práticas de atenção – coloca novos desafios para os técnicos. parece ser o momento de fazer avançar esse processo nos espaços micropolíticos. Ética Nicomaquéia (1103ª 32. e novas possibilidades de participarem. como são os espaços dos serviços. para pautar suas macropolíticas. presentemente.. gestores. como nunca. Trata-se.

nos serviços. conversa-se sem cessar. que se dirigem para o que ele mesmo chama de um plano de questões micropolíticas. igualmente a substância do “trabalho vivo em ato”) seja a conversa. como opções tecnológicas de que dispõem para a produção de procederes eficazes a serviço do usuário e de seu problema” (Merhy. apoditicamente. O deslocamento em questão diz respeito à assunção de uma visão mais “comunicacional” do mesmo fenômeno. dos processos de trabalho que se dão no encontro trabalhador-usuário.. Conversa-se individualmente. A formulação alternativa que propomos pretende introduzir um certo deslocamento de perspectiva em relação a Merhy e. basta considerar o quanto a realização do trabalho em saúde de que estamos tratando depende inteiramente dessa “materialidade” do encontro. que quando não são exclusivamente conversas (o que se dá na maior parte dos encontros). aqui. acompanham outros procedimentos que se realizam no serviço. Postulamos. vindo antes. Hylé (que quer dizer “matéria”. nesse sentido de uma substância. E é a conversa. podemos nos perguntar sobre a forma. p. conversa- se em grupo. À observação mais direta e desavisada do que se passa no interior. a “matéria” que se apresenta à sensação como puro dado. de uma unidade básica de saúde. 1997. no sentido que proposto. a hylé do trabalho em saúde. A doutrina aristotélica do hilemorfismo corresponde. durante e depois do procedimento. ao mesmo tempo. à sua ontologia e está fundada numa imagem propriamente “tecnológica” da constituição do ser das coisas: como o que resultaria da ação de um escultor que dá forma à matéria. por exemplo. 126). Com toda evidência. no encontro trabalhador-usuário. Se falamos em “matéria”. porque nele os trabalhadores “podem colocar todas as suas sabedorias. Para acentuar ainda mais esta obviedade. em grego). Como a presente contribuição se situa num plano exatamente tecnológico. que a substância do trabalho em saúde (e. isto é.designa a substância dos processos de trabalho que se dão no encontro trabalhador-usuário.. no sentido husserliano de “matéria da sensação considerada como puro dado”. marcar a existência de uma grande proximidade com as principais preocupações e atenções desse autor. é a conversa. Assim. como se sabe. o que se percebe essencialmente são conversas. Enfim. talvez valha a pena investir nessa “ontologia” do trabalho em saúde. se a substância é a 30 .

para utilizar um termo de Simondon (1989). temos. É claro também que essas técnicas mobilizadas pelos trabalhadores devem ser consideradas em profundidade. no sentido de mais “naturalizada”. que só podem ser ou provir dos próprios atores em presença no encontro e que constroem. ou melhor. há indiscutivelmente um trabalho “vivoperando” nesse ato de conversar: o trabalhador emprega “técnicas de conversa” e outras “tecnologias leves implicadas com a produção das relações entre dois sujeitos. 1997. técnicas de produção de relação – que estamos utilizando. o reconhecimento da necessidade de se “desalienar” os nossos modos de conversar e. Numa rápida aproximação entre as questões sobre técnicas de conversar e as teorias lingüísticas de Jakobson (1995) sobre as duas funções da linguagem. da perspectiva do trabalhador. juntos. É só enquanto matéria necessariamente “trabalhada” por todos os atores em presença na conversa. que a percepção da conversa como a operação de uma “tecnologia leve” – percepção toda própria ao trabalhador – é mais ou menos como captá-la sintonizando aquilo que Jakobson chamaria 31 . Em todo caso. ao mesmo tempo. A grande vantagem que vemos em se admitir que a conversa é a própria substância do “trabalho em saúde” é o reconhecimento de que se age sobre um objeto. a conversa: trabalhadores e usuários. da perspectiva do usuário. que só têm materialidade em ato” (Merhy. Por outro lado. têm participado da configuração do “contexto comunicacional” do encontro. em especial.conversa. é possível que toda “tecnicalidade” embutida nos seus modos de “trabalhar” a conversa se apresente. qual. quais suas formas? Nosso pressuposto mais geral é de que as formas decorrem das forças que “trabalham” a substância. essa conversa é prenhe de trabalho em sentido estrito. mais diluída nas formas coloquiais do conversar. o que temos sempre é a conversa. 136). p. de um modo mais ou menos simétrico. mais “concretizada”. É claro que. que a conversa ganha forma. “trabalhado” em conjunto. já que têm uma participação decisiva na conformação da natureza do encontro. por exemplo. desde o princípio. partilhado. reconhecida como substância “trabalhada” conjuntamente por trabalhadores e usuários dos serviços de atenção à saúde e. sem dúvida. de se verificar de que modo as técnicas de conversar – que são.

que fazem. participam indiscutivelmente da constituição de poéticas sociais.de sua “função referencial”. em particular de uma estética de nossa existência em relação e que. com que escapem bem 32 . entre outras técnicas que mobilizamos no trabalho em saúde. temos que essa sua “função poética” assume. frutos de experimentações). Descobre-se. A utilidade dessas aproximações conceituais vai ficando mais clara quando começamos a perceber seu alcance micropolítico. nesse plano micropolítico os processos de decisão assumem feições especiais. permite uma verificação da “eficácia” desta. que seria fundamentalmente aquela dos usuários – se aproxima do que Jakobson designaria de sua “função poética”. a dimensão de uma autêntica “poética social”. ademais. isto é. por referência à realização daqueles fins). já há algum tempo. que. nossas técnicas de conversa. aliás. assim. é claro. Assim. deve começar por se expressar na própria forma pela qual se dá a conversa (o que. por exemplo. Talvez essa seja uma perspectiva interessante para que se possa ter uma boa percepção da riqueza dos processos micropolíticos e de algumas de suas importantes particularidades. É nesse plano micropolítico. na realidade. que podemos reconhecer uma série de experiências que. só permite uma verificação de seus “efeitos”. senão novos critérios de avaliação. afinal. Já a idéia acima – de uma percepção mais “concretizada” das técnicas de conversa. Na medida em que estamos falando de técnicas de enorme impacto social e que forram nosso meio ambiente existencial. que são sempre prospectivos. por exemplo. o modo como realizamos individual e coletivamente uma dada estética da existência. que define a dimensão em que se inscrevem as finalidades postas para o trabalho que se realiza através daquela forma de conversa (o que. a ele se incorporando através desse processo de “concretização” ou “naturalização”. um modo de efetivamente ampliarmos as chances de participação de todos nas escolhas que mais diretamente afetam a “poética social” que produzimos e que é. pelo menos novos eixos de valoração da qualidade do trabalho). que define a dimensão em que se inscrevem os elementos que participam da construção de uma certa estética da existência. que não estão dadas (sendo que o resgate dessa dimensão permite que incorporemos. vêm criando algumas possibilidades reais de se efetivar a prática da tecnodemocracia.

só se decide em ato (ou. Nesse plano. devêssemos mesmo dizer em uso). O acolhimento e a rede de conversações A temática do acolhimento nos serviços de saúde vem ganhando importância crescente no campo médico-sanitário e. a forma é em grande medida dada pelas técnicas. triagem. sem dúvida. As soluções práticas que temos conhecido ultimamente para a questão do acolhimento na atenção primária. Para que não se perca em meio à profusão de definições para a noção de acolhimento. vem requalificando a discussão a respeito do problema do acesso e da recepção dos usuários nos serviços de saúde. pronto-atendimento). sobretudo. pelo menos. porque escapam bem mais de qualquer possibilidade de uma idealização a priori de um projeto técnico que. A conversa – substância e forma – participa de uma “poética” ao mesmo tempo em que é o próprio nível em que se decide o devir permanente dessa “poética”: eis uma possibilidade de se começar a definir o que seria a democracia viva em ato! Trata-se. Nesse nível “micro”. a esta técnica especial de conversar. não há instâncias de decisão “em separado”. pode-se dizer que o processualismo político é radical! A substância é a conversa. Mas também representa uma possibilidade real que. sendo apenas um nome novo para uma “velha” atividade (em geral. que realizaria a combinação de alguns dispositivos organizacionais tradicionais dos serviços de saúde (recepção. chamaremos de acolhimento-diálogo ou acolhimento dialogado. tende a sofrer uma série de deslocamentos (acesso. Em muitos casos.mais das ideologias. identificamos 33 . Numa revisão preliminar da bibliografia nacional sobre o tema. acesso). talvez. de uma qualidade especial de conversa. porta-de-entrada. talvez. que vão até o limite de esvaziá-la de significado próprio. afinal. algum tipo de pronto- atendimento[6]). principalmente em unidades de PSF. possa ser suscitada ou. tendem a concebê-la como uma atividade particularizada. facilitada por um determinado “dispositivo técnico”: uma espécie de “técnica geral de conversa” que deve ser praticada em todas as conversações que se dão no serviço.

que entende ser a conversa substância principal das atividades de um serviço de saúde.sua presença marcadamente associada a algumas áreas específicas. Todas as discussões desenvolvidas nessas diferentes áreas apresentam algum grau de interesse para o tipo de enfrentamento da questão que será aqui buscado. em sua singularidade. Na presente contribuição. Entre estes. Daí se pode tomar a rede tecnoassistencial do serviço como uma rede de conversações[7] – lembrando que cada nó da rede corresponde a um encontro. Como nosso objeto de reflexão está referido a um objeto empírico e. um momento de conversa envolvendo uma série de atividades técnicas específicas (incluindo várias “técnicas de conversa”). corresponde à proposta de trabalho e pesquisa de um serviço de saúde real. Programa HIV/AIDS. passível de ser “mapeado”. Essa rede de conversações conforma um autêntico espaço coletivo de conversação. composto de várias e distintas “regiões de conversa” interligadas e. será abordá-lo de uma perspectiva essencialmente “comunicacional”. a particularidade. 34 . mas este se aproxima bem mais dos enfoques encontrados nos estudos de Organização de Serviços. aqui.. destacam-se particularmente aqueles em que o acolhimento aparece como “estratégia de reorganização da assistência” (Leite et al. 1999). Enfermagem e Organização de Serviços.. que é aquele do qual também se aproxima boa parte dos estudos de Enfermagem. como qualquer outro espaço. 1999) ou como o “dispositivo operacional” básico do “modelo tecno-assistencial” (Franco et al. com destaque para: Saúde Mental. mesmo. como um dispositivo indispensável para o bom desempenho da rede tecnoassistencial de um serviço de saúde. iniciaremos nossa exposição apresentando o “mapa” ou “diagrama do espaço de conversação” desse serviço. o acolhimento também é visto como uma espécie de “mola-mestra” da lógica tecnoassistencial e. de fato. onde assume sentidos às vezes bem diferenciados.

tudo mover por esse espaço. que lugar ou papel tem nesse espaço? Pode-se dizer que tem todos os lugares e o papel de tudo receber. Nesse sentido. a noção de rede e a de processos cognitivos: a metáfora neuronal. não cessamos de “acolher” novas possíveis demandas que. de certa forma. multicombinatórios e flexíveis interligam diferentes “módulos de atenção”. assim. em 2001 E o acolhimento. 35 . interconecta os diferentes espaços de conversa. cujos fluxos multidirecionais.Diagrama do espaço de conversação do Setor de Atenção à Saúde do Adulto do Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa. Os diferentes encontros formalmente dispostos ao longo da trajetória de um usuário pelo serviço podem ser vistos como sinapses ou como momentos “sinápticos” de uma fluxografia organizacional em rede. tudo interligar. conecta uma conversa à outra. Creditamos a uma dada técnica de conversa ou de relação – designada acolhimento dialogado e cujas principais características e regras operatórias serão expostas nas próximas linhas – a competência em manter todos esses espaços interconectados. É o elemento que. Para que possamos continuar explorando outros significados dessa primeira característica do dispositivo do acolhimento-diálogo – que começa. lançamos mão de uma metáfora que radicaliza. a entreter outras conversas. ao mesmo tempo. em qualquer de nossas conversas. pode-se dizer que esse dispositivo faz com que as diferentes atividades (diferentes conversas) não apenas se articulem em rede. oferecendo aos usuários as mais amplas possibilidades de trânsito pela rede. a ser caracterizado de modo a se destacar sua centralidade no próprio agenciamento da rede e na produção de um “espaço coletivo” –. mas se constituam num autêntico espaço coletivo de conversações. “convidam” o usuário a freqüentar outros espaços. Em qualquer encontro trabalhador-usuário. eventualmente.

um papel central no funcionamento da rede. em que a plasticidade favorece a diversidade de singularizações possíveis. ou. onipresente em todos os pontos da rede. mas que está presente como parte de qualquer outra atividade que se dá no serviço) é o cerne do chamado acolhimento-diálogo e desempenha. Vê-se. pode ser visto como uma espécie de distribuidor. portanto. como já dissemos. aqui. é mais do que evidente que o conteúdo que caracteriza essa atividade não se restringe apenas ao espaço e ao momento formais da recepção. já que nela também se decide o essencial da plasticidade desse sistema de fluxos que é o sistema nervoso. que não se confunde mais com o primeiro contato de um usuário com o serviço. neles se decide a trajetória “necessária” de cada usuário através do serviço. que deflagra os diferentes possíveis trânsitos dos usuários pelo serviço. E original. nunca se cessa efetivamente de investigar/elaborar/negociar as necessidades que podem vir a ser satisfeitas pelo serviço. No caso das redes neurais. Sendo tais encontros momentos pautados pelo espírito do entendimento e da negociação permanente das necessidades a serem satisfeitas.Prolifera por todos os encontros assistenciais que marcam a passagem de um usuário pelo serviço. por seus diferentes “módulos de atenção”. da contrametáfora de se pensar as sinapses como “espaços de conversa”). de operador da distribuição. dessa forma. Contudo. já que a possibilidade de diferentes usuários realizarem diferentes combinatórias de “atenção” significa que o sistema oferece uma maior margem de 36 .O funcionamento ótimo dessa rede depende sobremaneira do desempenho da chamada atividade de recepção do usuário no serviço. da perspectiva do desempenho global da rede. pois. mais exatamente. Pode-se admitir que resultado similar se dê no nosso caso (de um sistema de “módulos de atenção à saúde” interligados). a total adequação da metáfora da sinapse para pensar esses encontros (e. essa plasticidade favorece a ampliação da inteligência global do sistema. um papel original. Trata-se. Esse conteúdo de atividade (a princípio de recepção. de um já bem diferenciado conteúdo de atividade. O acolhimento-diálogo. entendida como espaço primordial de investigação/elaboração/negociação das necessidades que podem vir a ser satisfeitas. no sentido do gesto que dá origem. eventualmente.

de que as nossas necessidades não nos são sempre imediatamente transparentes e nem jamais definitivamente definidas. sua caracterização completa também deve levar em conta suas dimensões “declarativas”. que é o segundo traço descritivo deste dispositivo. o acolhimento. é preciso também saber como faz (conhecer o protocolo de comunicação). 37 . como o bom senso faz supor) de um diálogo. muitas vezes. identificamos dois traços principais. Só então aparece com maior clareza o modo como o acolhimento-diálogo define a dimensão pragmática do encontro.. até aqui. já indicados nos dois componentes de sua própria designação: acolhimento-diálogo. levou-se principalmente em conta sua participação num agenciamento sistêmico. os domínios de ação (emoções) e de significação (linguagem) e as utilizações possíveis do próprio encontro. Em outras palavras. de alguma forma. talvez. diferentes usos. significa que ele faculta a diversificação dos usos. que põe em relevo. o caráter de um acolhimento “moral” da pessoa (usuária do serviço) e de suas demandas (o que pode envolver. antes de tudo. em que. O papel do acolhimento-diálogo na dinâmica organizacional só pode ser cumprido enquanto resultado de um encontro pautado por tais disposições “morais” e “cognitivas”. a mais fina característica da autêntica operação de passagem promovida por este dispositivo e que está dada no pressuposto geral. esse gesto receptivo se faz acompanhar (dentro dos limites dados pelas circunstâncias concretas. Esse diálogo se orienta pela busca de um maior conhecimento das necessidades de que o usuário se faz portador e dos modos de satisfazê-las.adaptabilidade a esquemas de necessidades bastante diversos. um sofrimento importante). se “pesquisa” alguma coisa). Primeiramente. seus efeitos na dinâmica da rede. as considerações sobre o acolhimento- diálogo concentraram-se apenas no que se poderia chamar de uma dimensão “procedural”. a pautar todas as práticas de conhecimento que se dão no serviço (todas as formas de conversa. isto é. Contudo. não basta saber o que faz o acolhimento-diálogo (seu papel na dinâmica da rede). Examinando mais de perto esse dispositivo presente em cada encontro. * Bem. individuais ou em grupo. o que revela.. Diferentes usuários. pode-se dizer que.

são muito pouco consideradas pelos nossos tão imperfeitos quanto arrogantes sistemas democráticos “ocidentais”. dois ou três comentários que não gostaríamos de deixar para uma próxima oportunidade e que dizem respeito às relações entre as técnicas de conversa e a construção daquilo que mais acima denominamos democracia viva em ato. que deixa uma série de questões em aberto – um texto ainda devedor de mais esclarecimentos. uma maneira de viver de acordo com o desejo de uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo”. se por um lado.. deveríamos prestar mais atenção a esses artifícios. por seu enorme potencial democrático.. e com todas elas podemos enriquecer nosso repertório e buscar inspiração para nossas buscas e criações. mas não podemos tampouco ignorar que determinadas técnicas de conversa são verdadeiros exercícios de democracia.. comunidades e pequenos grupos. trata-se de um “sistema de convivência artificial”. religiões. Técnicas de conversa foram e continuam a ser inventadas e desenvolvidas por diferentes povos. como são. A democracia não é um produto da razão humana. 62): “a democracia é uma obra de arte. Por isso. funda-se no “desejo de uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo”. ofícios e serviços.Técnicas de conversa e democracia Não ignoramos estar em vias de encerrar um texto. a democracia é uma obra de arte. A democracia não é simplesmente um modelo já dado pela razão. produzido “conscientemente” e como uma “obra de arte”. sociedades. profissões. 38 . sistemas políticos. Há. é um produto de nosso emocionar. Certamente. Assim. Algumas delas se destacam. Artificial como uma técnica de conversa.. trabalho experimental. Como diz (Maturana. 1997. justamente. (. por outro. não podemos reduzir a democracia a uma técnica de conversa. É resultado de pesquisa. porém. p. técnicas muito antigas e que operam num quadro de instituições tradicionais. que só pode existir através das ações propositivas que lhe dão origem como uma co-inspiração em uma comunidade humana.). muitas vezes. um sistema de convivência artificial gerado conscientemente. invenção coletiva. Contudo.

Um belo exemplo – e que reúne alguns elementos significativos que o aproximam muito da técnica de conversa que estamos enfocando –. Não há apelo ao acordo entre os participantes. que o acolhimento-diálogo corresponde a uma espécie de protocolo geral de comunicação entre todos os elementos que compõem a rede. então.. palavras que não pertencem mais a uma pessoa em particular se põem a caracterizar a situação de maneira pertinente e ativa” (Mangeot et al. todo mundo sabe alguma coisa e ninguém sabe tudo. 39 . pois cada um é interessante enquanto divergente. Isso é uma regra de conversa: cada um reconhece todos os outros como legítimos e insuficientes – só há ‘palabre’ porque nenhum dos saberes presentes é suficiente para fabricar o sentido da situação. e a arte da conversa não é homogeneizar os sentidos fazendo desaparecer as divergências. Para oferecer uma síntese eloqüente das principais características dessa técnica de conversa e de seu potencial democrático. reinventado em torno do caso que os reúne. que participou de palabres e ficou impressionada com as transformações que são produzidas pelos constrangimentos impostos aos participantes por suas regras de conversar: “Por definição. Assim. 2002). pouco a pouco. que podem se produzir as convergências. transcrevemos um comentário da filósofa Isabelle Stengers. não se trata necessariamente de uma atividade em particular. * Temos. É. Não poderíamos encontrar síntese mais adequada para o tipo de disposições “morais” e “cognitivas” que estamos prescrevendo para o acolhimento dialogado: · o reconhecimento do outro como um legítimo outro. uma variante africana do parlamento e a principal instituição política da África pré-colonial. em síntese. · o sentido de uma situação é fabricado pelo conjunto dos saberes presentes. Mas jamais a intervenção de um deve assumir a forma de uma desqualificação do que diz um outro. descoberto. mas fazer emergir o sentido no ponto de convergência das diversidades. criado. Mas. cada um dos associados de uma ‘palabre’ sabe alguma coisa da ordem do mundo que deve ser produzido. Resumindo. · o reconhecimento de cada um como insuficiente. é a palabre[8].

mas são e desde sempre têm sido objeto de um debate interminável. o resultado do que se passa e das decisões tomadas num encontro pautado pelas já mencionadas disposições “morais” e “cognitivas”. E. Trata-se rigorosamente de uma técnica de conversa. Essa orientação no sentido de promover maior conhecimento (de si. que o acolhimento-diálogo desempenha papel fundamental na dinâmica organizacional. um diálogo orientado pela busca de uma maior “ciência” das necessidades de que o usuário se faz portador. 40 . trânsitos pela rede assistencial. É dessa forma. redundando em encaminhamentos. deslocamentos. definimos como educativas todas as práticas de conhecimento que se dão no serviço (das atividades educativas em formatos mais convencionais a todas as formas de conversa em que se “pesquise”. de suas necessidades e dos meios de satisfazê-las) já é suficiente para caracterizar esse dispositivo como educativo. para viver bem. então. que estão fundadas no pressuposto de que as nossas necessidades (aquilo de que precisamos para ter saúde. e das possibilidades e dos modos de satisfazê-las. em que o que se refaz sem cessar é a nossa própria humanidade. em última instância. de uma experimentação continuada. para ser feliz) não nos são sempre imediatamente transparentes e nem jamais estão definitivamente definidas. em que se “investigue” alguma coisa). nesse sentido.mas de um conteúdo de qualquer atividade assistencial. no sentido mais forte do termo. que são.

curativo. todos os técnicos que trabalhavam na unidade (médicos. houve um avanço nos serviços oferecidos à comunidade. pois era entendimento de todos que muitos usuários que realmente precisavam de uma intervenção ficavam de fora. psicólogos. Assim montamos uma sala para acolher todos os usuários que chegassem 41 . E não paravam só na escuta pois muitos casos eram resolvidos. Mas não era de tudo uma novidade para a equipe de enfermagem acostumada ao diálogo com os usuários nas salas de vacina.UMA EXPERIÊNCIA EM ACOLHIMENTO Há cinco anos tivemos uma reunião geral com todos os técnicos e agentes que trabalhavam no Centro de Saúde Tirol. com uma equipe de técnicos de nível superior e auxiliares de enfermagem era um grande salto de qualidade nesta escuta. quem sabe. unidade do Distrito Sanitário do Barreiro da Prefeitura de Belo Horizonte. sempre escutando o sofrimento humano. farmácia e outros ambientes. Em Pauta: como garantir acesso a todos que procuravam os nossos serviços de saúde? Foi então que tivemos contato pela primeira vez com o termo acolhimento. Isto é acolher. Grande parte desta demanda o serviço não operacionaliza e com isto. nos corredores. pois as garantias eram dadas aos que primeiro chegavam ao centro de saúde. Para todos os usuários. na recepção. um espaço denominado sala de acolhimento. dentistas e enfermeiros) começaram a entender o sofrimento que muitas vezes somente os auxiliares de enfermagem enfretavam ao escutar uma demanda. Agora. que significava uma escuta de todos os usuários que procuravam os serviços de saúde e eram direcionados para receberem assistência de acordo com as prioridades e a capacidade de operacionalização da unidade. sim. a demanda e até mesmo as boas notícias. A idéia foi bem aceita e não houve resistências a esta novidade.

Esta fase durou poucos meses e veio a mudança no acolhimento. São 2 pediatras. Na tentativa de acelerar o processo de escuta. clínicos e dentistas faziam acolhimento duas vezes por semana. assistente social. No inicio hove muita dificuldade. escutava sua demanda e o direcionava de acordo com os acolhimentos dos técnicos: pediatras. 14 auxiliares de enfermagem (sete em cada 42 . mas quando tinham era certo que receberiam um bom direcionamento e resolução de sua demanda. A escala dia a dia tinha um Técnico médico.na unidade. agilizar o atendimento e aumentar a capacidade de operacionalização do acolhimento surge a proposta de divisão do acolhimento por área de conhecimento técnico. Os casos agudos os auxiliares já direcionavam para as vagas do dia ou para os serviços de urgência. sempre com um auxiliar de enfermagem. 2 psiquiatras. 2 psicólogos. 1 assistente social. O acolhimento era lento. Houve muitas discussões de casos e muito aprendizado por parte de todos. psicólogo. pois era a primeira vez que nesta unidade sentavam à mesa vários saberes para escutar e direcionar uma demanda. as equipes de saúde mental e ginecologia faziam três vezes por semana. dentista. A equipe do centro de saúde Tirol mantem-se a mesma em números de profissionais técnicos já há muitos anos. enfermeiro. com maior entrosamento e comunicação. Explicaremos melhor a seguir. O auxiliar de enfermagem recebia o usuário. 1 terapeuta ocupacional. 2 enfermeiros. poucos tinham acesso. passando a fazer parte de todos a discussão do acesso dos usuários no serviço de saúde. Esta divisão funcionava com uma recepção geral do auxiliar de enfermagem que direcionava para o acolhimento específico de cada área. 2 clínicos. Antes é interessante ressaltar que nesta fase a equipe teve vários avanços em termos de relações humanas entre a própria equipe. 3 ginecologistas.

não foi rápida e sim gradativa até chegar ao modelo atual. A construção desse processo. esclareciam dúvidas e priorizavam de acordo com a queixa. Isto tem se tornado a cada dia um ato importante dentro das atividades do auxiliar de enfermagem. Já em várias reuniões de enfermagem que realizamos semanalmente o acolhimento foi tema de debates e capacitações. 2 auxiliares de consultórios dentário e equipe de zoonose. Para isto temos uma sala de acolhimento de enfermagem montada para a escuta do usuário. com exceção da saúde mental e odontologia. acolher o sofrimento humano não é uma tarefa fácil. Aí vem o papel do enfermeiro para garantir à sua equipe supervisão. por exemplo. No ato de acolher resolviam muitas queixas. A população é heterogênea. discussão de casos. Vila Joana D'Arc). Vila Marieta. todo o acolhimento de todos os usuários que procuram a nossa unidade será feito pelo auxiliar de enfermagem. com várias vilas de alto risco social e para a saúde (Vila Tirol. 3 dentistas. Certamente.000 habitantes. mas novamente chegou a hora de mudar! Neste ano de 2002. 2 técnicos de higiene dental. O mesmo acontecia com os outros técnicos. reuniões técnicas de enfermagem e acesso direto para resolução de conflitos e situações- problema vivenciadas pelo auxiliar de enfermagem. sem ferir os princípios éticos e do exercício profissional da enfermagem.turno). em seu acolhimento orientavam e agendavam prevenção. O acolhimento com dias específicos para cada técnico funcionou por quase quatro anos onde os ginecologistas. Hoje praticamente só o auxiliar de enfermagem realiza o acolhimento. Exige suporte e preparo. como se pode notar. com uma população estimada em quase 25. 43 .Talvez esta tem sido a nossa grande aliada no processo e também é quase uma unanimidade que o acolhimento contribuiu muito para a ampliação da resolutividade do serviço frente à comunidade assistida. com muita qualidade e alta resolutividade para os usuários. capacitações. Vila Átila de Paiva.

a vigilância à saúde da comunidade. Temos certeza de que com a implantação do BH-VIDA (Programa de Saúde da Família) estes fatores possam ser finalmente garantidos como a principal vertente do trabalho de nossa unidade: a vigilância à saúde. ou seja. É com esta realidade que trabalhamos o acolhimento. o acolher faz a diferença! Nossa finalidade com este texto é compartilhar esta experiência e receber outras que nos proporcionem avanço para melhoria da assistência prestada nas unidades de saúde da população SUS-dependente. 44 . Apesar de sua resolutividade no acesso ao serviço de saúde entendemos que ainda não garante o principal.Fica claro para todos nós da equipe de enfermagem do Centro de Saúde Tirol que não somos capazes de resolver toda a demanda que nos procura. O acolhimento centra a escuta da queixa na situação-problema. mas se repete muitas vezes por ainda não termos um modelo que priorize a vigilância a saúde. que se resolve naquele momento. Para aqueles usuários que entram na sala de acolhimento realizada pelo auxiliar de enfermagem. com certeza. pois não trabalha o risco social. eliminando ou atenuando os fatores de risco de adoecimento em nossa comunidade. a coletividade e determinantes dos agravos a saúde da população.