UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
DISCIPLINA: LIBRAS
PROFA. DRA. SANDRA SANTIAGO

AS TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS E A LÍNGUA DE SINAIS

Sandra A. S. Santiago

As tendências educacionais direcionados à surdez apontam na direção
do oralismo ou do gestualismo, conforme vistos na aula anterior. Quando o
grupo de metodologias tem por base o aprendizado da língua oral pelo surdo,
temos uma tendência oralista, também chamada de oralismo. Quando a base
do ensino se pauta em metodologias gestuais ou visuais, tem-se a tendência
gestualista.
Para cada uma destas tendências pedagógicas, a língua de sinais
utilizada pelos surdos assume um papel diferente. A filosofia oralista
compreende a surdez como uma deficiência que deve ser minimizada pela
estimulação auditiva e, consequentemente, deve-se abolir o uso da língua de
sinais, pois se acredita que a mesma prejudica o desenvolvimento das pessoas
surdas (GOLDFELD, 2002).

O oralismo influenciou
práticas extremistas que
proibiam o uso de gestos,
de sinais e de expressões
faciais ou corporais no
processo comunicativo,
chegando ao cúmulo de
amarrar as mãos de
crianças e jovens surdos,
a fim de que os mesmos
utilizassem apenas a
oralidade.

O oralismo tem como principal objetivo reabilitar o surdo, aproximando-o
da normalidade, ou seja, do modelo ouvinte. Para alcançar seus objetivos, o
oralismo utiliza diversas metodologias. As principais são: a metodologia verbo-
tonal, a audiofonatória, a aural e a acupédica. E, segundo elas, a estimulação
auditiva precoce e a percepção oro-facial pode levar crianças surdas a

a partir dos trabalhos de Stokoe. o desenvolvimento de sua própria fala (oral). mas. enquanto filosofia educacional. pelos defensores da comunicação total. Esta característica da filosofia da Comunicação Total é. por si só. Ferreira Brito (1993:43) esclarece que o uso que é feito da língua de sinais. pois ela não é utilizada como “suporte maior para o desenvolvimento do surdo e enquanto fonte de construção de sua identidade”. pois a compreende dentro de um panorama diferenciado. certamente. portanto. Ainda assim. Para os seguidores da filosofia bilíngue. dentro de uma visão crítica. Góes (1999) comenta que muitos educadores. se voltam apenas para que os surdos aprendam a língua majoritária da comunidade ouvinte: a língua oral. Representam esta tendência o bimodalismo e o bilingüismo. consequentemente. De outro lado. O bimodalismo ou filosofia da comunicação total para crianças e jovens surdos rejeitam a ideia de que a língua oral é a única forma de comunicação possível entre humanos e tem como principal preocupação os processos comunicativos entre surdos/surdos e surdos/ouvintes. 2002). entendidos como facilitadores do processo educacional. mesclam o uso da língua oral-auditiva com recursos espaço-viso-manuais. Diante disto. não atende as necessidades da maioria dos surdos e. o oralismo e a comunicação total falham porque tanto num quanto noutro. acabam mantendo concepções oralistas e acabam investindo muito tempo para tornar o surdo um interlocutor. a própria história se encarregou de revelar que o estimulo ao desenvolvimento da língua oral. guiados por esta tendência. para somente a partir de então. o parâmetro para definir o processo de escolarização dos sujeitos surdos é sempre a cultura ouvinte hegemônica e desconsideram a língua natural do surdo (a língua de sinais) como essencial para o processo educativo. Skliar nos ajuda a pensar sobre esta questão quando afirma que: . estão as tendências gestualistas. o principal ponto de discórdia entre ela e a tendência ou filosofia bilíngue. Desse modo. que somente a partir da década de 60 do século XX ganha destaque. e. há ainda muitos estudiosos e educadores que insistem nesta tendência pedagógica para ensinar crianças surdas até hoje (QUADROS & CRUZ. sua cultura e sua forma singular de pensar e de agir (GOLDFELD.compreensão da fala dos outros e. Outro ponto muito importante na comunicação total é o fato da mesma valorizar o uso simultâneo de diferentes códigos manuais com a língua oral. o bilinguismo se preocupa em entender o surdo e suas particularidades. 2011). Evidentemente. o oralismo parece não ser suficiente para garantir a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo deste grupo. especialmente sua língua. o bilinguismo traz um elemento novo ao debate sobre a surdez. onde o foco não recai na perda auditiva que marca o sujeito. Klima e Chomsky. Ainda. na diferença linguística e cultural que este possui. tratá-lo como aprendiz. pelo contrário. para tanto. é impreciso e limitado.

Esta sorte de desencontros linguístico e cultural é comparável a tantos outros que a história da humanidade narra. uma das formas mais importantes que o surdo tem para aprender sobre o mundo a sua volta. que sofrem em sua vida cotidiana. são diferentes das línguas orais. pois como julgar que uma seja melhor e outra pior. Os surdos. continuam acreditando que os ouvintes escolheram e continuam escolhendo para eles uma língua e uma cultura que não compartilham. Nesta perspectiva. sem dúvida. Portanto. Entretanto. 110). Felipe (1992. p. o uso da língua de sinais pelos surdos é elemento da maior importância identitária. eles chamam a atenção para o fato que nenhuma identidade se constrói sem linguagem. a língua de sinais é o meio natural de comunicação e o instrumento do pensamento das pessoas surdas. nem poderiam compartilhar. é. utilizar-se da língua de sinais como principal veículo de comunicação e construção do pensamento junto às crianças surdas. Portanto. 2001. os bilínguistas não considerem que o aspecto linguístico seja o único na construção da identidade surda. cabe aos educadores. Na mesma direção. É considerado bilinguista o adepto e defensor da filosofia bilíngue para o ensino de surdos. portanto. escolar e laboral os efeitos desses perigosos vaivens ideológicos. onde uma maioria – não quantitativa senão qualitativa – impõe seus pontos de vista etno e logocêntricos sobre uma minoria não qualitativa senão quantitativa – e exerce pressões de normalização e assimilação à língua e à cultura de todos os demais (SKLIAR. p. A língua oral e a língua de sinais: semelhanças e diferenças . não há. Para os bilinguistas. 6) salienta que “todas as línguas possuem os mesmos universais linguísticos”. é “preconceito e ingenuidade” considerar uma língua superior a outra. desde a educação infantil. cabe ressaltar que embora. Para Sá (2006:45): “as línguas de sinais não são melhores nem piores”.

línguas orais e auditivas também possuem algumas semelhanças importantes. por sua vez. 2007. Em língua de sinais. formam os morfemas e estes as palavras. que essa língua. No nível sintático. entende-se hoje que a linguagem enquanto construção humana é bastante complexa e que não se limita apenas a dimensão oral. comprovadamente. permite a expressão de qualquer conceito. Evidentemente. as línguas de sinais são consideradas línguas naturais e. Evidentemente. No entanto. Ainda é importante acrescentar que as pesquisas demonstram que como toda e qualquer língua. racional. a saber: fonológico. atendem a todos os critérios linguísticos de uma língua genuína. de fato. No nível fonológico estão os fonemas. quanto à estrutura gramatical. p. podendo. não resta dúvida de que os sinais utilizados pelas diferentes comunidades surdas constituem uma língua. metafórico. Para eles. evidentemente cada língua possui a sua. como se pensava no passado. concreto ou abstrato. as publicadas por Stokoe e Chomsky. seja ele descritivo. O mesmo ocorre nas línguas de sinais. principalmente no tocante ao canal utilizado para a comunicação. ser oral ou gestual (In: QUADROS & KARNOPP. o processo ocorre da mesma forma: os sinais se combinam formando frases e textos que seguem uma determinada ordenação compatível com o significado (semântica) e o contexto (pragmática) onde se elaboram. No entanto.). Cit. estes elementos precisam ter um sentido coerente com o significado das palavras utilizadas em determinado contexto. A principal talvez seja o fato de que ambas possuem princípios gramaticais básicos que necessitam ser respeitados integralmente para garantia da comunicação. sobretudo. consideramos que graças às inúmeras pesquisas desenvolvidas no campo da linguística. semântico e pragmático (op. se assemelham as palavras utilizadas nas línguas orais (STROBEL & DIAS. Desse modo. e estes. “a língua é uma convenção e a natureza do signo convencional é indiferente”. as línguas de sinais utilizam o meio espaço-visual. as línguas de sinais se distinguem das línguas orais. ou seja. Os elementos constituintes de um sinal equivalem aos fonemas das línguas orais e combinados formarão os sinais (morfológico). portanto. a língua de sinais aumenta seu vocabulário. o nível pragmático da comunicação. ainda. cada palavra pode se combinar com outras para formar as frases. 2008). períodos. morfológico. uma língua natural se constrói espontaneamente a partir da interação entre pessoas. E. textos. emotivo. Enquanto as línguas orais usam o canal oral-auditivo. assim como as línguas orais. sintático. literal. enquanto tendência pedagógica no ensino de surdos. mas. passaremos a tecer algumas considerações sobre a linguagem e seu papel para o bilinguismo. 30). varia de . A fim de que vocês possam entender melhor sobre a língua de sinais. Nas línguas orais. Se. quando combinados. Assim. estes não possuem valor isoladamente.

Contudo. americanos. Isto ocorre porque as línguas de sinais possuem uma característica interessante: a iconicidade. p. ou seja. Por fim. de que haveria “uma única e universal língua de sinais”. 2001). mas. embora as pesquisas demonstrem o status linguístico das línguas de sinais. espanhóis. Assim. etc.país para país e também sofre as variações regionais dentro de um mesmo território. eles se desfazem (QUADROS & KARNOPP. 2004. 31-34). . cabe considerar que ainda é mais fácil para surdos de nacionalidades diferentes estabelecerem uma comunicação mais efetiva do que entre ouvintes. fica claro que a língua de sinais utilizada pelos surdos brasileiros não é a mesma difundida entre chineses. é bom ressaltar que. ainda existem alguns mitos em torno desta modalidade linguística. alguns sinais reproduzem exatamente o objeto ou a ação desenvolvida (FELIPE. incapaz de expressar conceitos abstratos”. sendo usado por surdos de todo o mundo e a concepção de que a língua de sinais não possui uma estrutura gramatical própria são alguns dos equívocos em torno do assunto. A ideia de que a língua de sinais seria uma “mistura de pantomima e gesticulação. à medida que as pessoas conhecem esta fantástica língua.