Entre o Céu e o Inferno

24 de julho de 2011 — Grupo Papeando
O homem convive com os animais desde quando ainda tinha a sensação de que era um deles. Ao longo dos anos, já os adoramos
como deuses e já os maltratamos como se fossem coisas. Hoje, enquanto várias pessoas pregam que devemos nos isolar dos bichos,
outras acreditam que deveríamos tratá-los como membros da família. Afinal, como relacionar-se com eles?

*Por Rodrigo Vergara

O cachorro é todo marrom, da cauda às longas orelhas, a não ser por uma mancha sobre o olho esquerdo. Se fosse um bicho de
estimação, podia ser batizado de Pirata ou Camões, por causa do tapa-olho. Mas esse cachorro não tem nome. Nascido há semanas,
ele foi logo separado da mãe e passa a vida em uma jaula pouco maior que seu corpo. Sem ter o que fazer, ele come e dorme.
Rapidamente engorda. Um dia, ele é enfiado em uma gaiola com outros cães e levado a um galpão. O cheiro de sangue e fezes é
forte. Ouvem-se ganidos. Uma pessoa se aproxima e lhe aplica um choque violento. Em instantes, o cão sem nome morre. Seu corpo
é jogado sobre uma grelha e seu pêlo, tostado. Em alguns minutos ele é cortado em pedaços para virar churrasco. A cena descrita
acima é real e acontece diariamente na Coreia, onde carne de cachorro é muito apreciada. Fora dali, porém, o abate de cães é
considerado uma afronta, uma ofensa aos padrões civilizados. Não deixa de ser curioso, já que porcos, vacas e galinhas têm destinos
bem parecidos com o do anónimo cão coreano, mas pouca gente ergue a voz para protegê-los. O fato de aceitarmos que alguns
animais sejam torturados enquanto enchemos outros de cuidados reflete a confusão que fizemos com os seres de outras espécies.
Por um lado, nunca houve tanta preocupação com a vida dos bichos. Por outro, nunca tantos sofreram e morreram por nossa culpa.
Em um ano, a indústria de artigos para animais de estimação fatura 30 bilhões de dólares nos Estados Unidos vendendo conforto
para bichos domésticos. No mesmo prazo, 8 bilhões de frangos são atormentados e mortos por lá. E na mesma Alemanha em que,
no ano passado, os animais ganharam um direito constitucional – a lei agora obriga o Estado a respeitar e proteger a dignidade dos
homens “e dos animais” -, a carne de porco ainda é a base proteica da população e os suínos vivem confinados a maior parte da
vida.

Não é fácil entender como chegamos a essa confusão cultural. Conhecer o passado ajuda a esclarecer as coisas.

Uma Relação Antiga

O homem come carne de outras espécies há quase 2,5 milhões de anos e já faz mais de 6 mil anos que os criamos, com o único
propósito de digeri-los ou vestir sua pele. Curiosamente, muitos deuses dos povos primitivos eram animais. Então o homem
primitivo matava seus deuses? Isso mesmo. “O caráter sagrado do animal pode ser visto como um pedido de desculpas, uma
solicitação de autorização ou uma compensação, uma homenagem pela sua morte”, diz António Fernandes Nascimento Júnior,
antropólogo e etólogo (que estuda o comportamento animal) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru. Em outras
palavras, os caçadores podiam matar o bicho, desde que depois rezassem para ele ou por ele. Pecado era faltar com o respeito.
“Tratá-los sem o devido respeito poderia causar vinganças dos deuses.” Alguns povos exigiam que o animal a ser degolado
concordasse com sua morte, o que se conseguia com alguma trapaça, para a qual todo mundo fazia vista grossa. Na Grécia, os
sacerdotes derramavam água benta sobre a cabeça do animal. Os gregos espertamente entendiam o chacoalhão de cabeça que ele
dava para se secar como um “sim”.

Hoje em dia, ninguém reza ao deus-chester no almoço de domingo, graças às religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e
islamismo), que retiraram os poderes mágicos do mundo real e os concentraram em Deus. E é Dele, o Todo-poderoso, que vem a
autorização para desfrutarmos dos outros seres. Está na Bíblia: o Jardim do Éden é um paraíso preparado para o homem no qual
temos o domínio sobre todas as coisas vivas. A natureza passou a ser como uma massa virgem, pronta para ser moldada e
dominada. “Há poucos séculos, a ideia de resistir à agricultura, ao invés de estimulá-la, pareceria ininteligível”, escreve o historiador
Keith Thomas em O Homem e o Mundo Natural. “A agricultura estava para a terra como o cozimento estava para a carne crua. Terra
não cultivada significava homens incultos”, diz ele.

Sem seus poderes, a natureza ficou à mercê do ser humano, que se aperfeiçoou em explorá-la. O respeito do passado deu lugar a
uma visão utilitária, ou seja, tudo o que servia ao ser humano estava liberado. Matar bichos por prazer já não chocava ninguém,
mesmo porque todo mundo praticava alguma tortura de animais. Keith Thomas dá muitos exemplos dessas crueldades. Um deles:
donas-de-casa do século 17 cortavam as pernas de aves vivas, acreditando que isso deixava a carne mais tenra. Açular um touro
significa atiçar cães contra ele. Há cerca de 350 anos, acreditava-se que o açulamento melhorava o sabor da carne do touro e a
maioria das cidades inglesas tinha uma lei que não só permitia o açulamento antes do abate, como o tornava obrigatório.

A visão que se tinha da natureza era antropocêntrica. Os animais eram classificados em comestíveis e não comestíveis, ferozes e
mansos, úteis e não úteis. O reino vegetal era loteado de forma parecida. Só em 1500 surgiram os primeiros naturalistas, que
passaram a classificar os seres por suas caraterísticas e não pela relação que tinham conosco.

Somos iguais, diz a Ciência.

Mas causar sofrimento por prazer é proibido. Em algu-mas décadas. como a dor e o sofrimento. era a dedução lógica. foram surgindo leis para regular o trato dos animais. vícios e carências. Os franceses comiam pernas de rã revirando os olhos de alegria. Mas. É claro que havia gente menos sensível. em outras palavras. Até então. o homem era o único animal que fabrica utensílios. Qualquer uso. Outro jeito de se diferenciar dos bichos era pelo comportamento. Alguns. Como não podiam viver pelas ruas. “Para os mecanicistas. Foi o primeiro surto de vegetarianismo no Ocidente. “A explicação cartesiana era uma ótima justificativa para o tratamento que era dado aos animais. dizia que os sentimentos. Passaram a ser suspeitas também as pessoas que viviam muito próximo dos animais. uma alma separada”. antes chamada de “terrível”. é o único com moral. que estava desaparecendo da Europa. Entre o descaso de uns e o zelo excessivo de outros. O homem é o único ser com uma alma imortal. Como animais não têm alma. diziam. lesmas. porque eliminava a culpa pelas crueldades”. foram caindo às barreiras que nos diferenciavam das bestas. mas primatas não só fazem suas ferramentas como ensinam os colegas a fabricá-las. porcos e cabras. Em linhas gerais. cogumelos e ostras eram considerados nojentos. foram expulsos também das cidades. cujo único contato com animais era com seu cachorro ou com seu cavalo (algumas das poucas espécies que ainda eram aceitas nas cidades). Até o século 16. Até o final do século 18. “A religião e a moral são tentativas de restringir os aspectos animais da natureza humana. e que podiam raciocinar. o rosbife inglês popularizou-se ao mesmo tempo em que o boi perdeu sua função como animal de tração. tirando os animais de estimação. cheio de bichinhos para desfrutarmos como quisermos. Temos direito de usá-los? . Afinal. A partir de então. A multiplicação dos bichos de estimação fez aumentar o sentimentalismo em relação aos animais. E a ciência diz que a Terra não é um jardim dado de presente por Deus à humanidade. A tese de que os animais eram insensíveis perdeu popularidade. gerando desde bactérias até os mamíferos e o homem. nem animais de trabalho. ou. sem critérios científicos. eles passaram a ter ataques nervosos. passou a ser bela. passou a ser intolerável o uso de animais. como diz a mãe para a criança que faz cara feia à mesa: “Tudo é costume”. Nada de servir leitões. Outros critérios eram a semelhança com o homem (que tirou os macacos do cardápio) e o ambiente do bicho: na Inglaterra. diz o filósofo Roberto Romano. Bichos que desrespeitassem a lei eram levados a julgamento. matar animais selvagens considerados perigosos ou daninhos rendia recompensa. nem assim. Foi assim que surgiram os primeiros manuais de etiqueta: para que as pessoas não agissem como animais que eram. Para a maioria das pessoas. Pelo contrário. para não ofender a sensibilidade alheia. com favores. No século 17. a floresta. Esse conhecimento científico abriu caminho para a ideia de igualdade entre todas as formas de vida. os bichos só entravam na casa mortos. cientistas que matam animais à toa. gerando uma “cultura animal”. Para algumas pessoas da cidade. que não se incomodava em comer uma boa bisteca. a vida evoluiu por tentativa e erro. capaz de discernir o que é certo e o que é errado. afirma Thomas. Não demorou muito e os animais foram expulsos de casa. o que significava quase toda a população da época. Logo alguém achou na Bíblia uma justificativa para se viver de alface: o homem não era originalmente carnívoro. porém. mesmo nas cidades apinhadas a família dividia o teto com patos. Ficar nu. mas os primatologistas hoje sabem que os chimpanzés têm uma vida social de digna de novela. foi tomando corpo uma teoria que acabou servindo de justificativa moral para as pessoas que queriam continuar comendo carne: o mecanicismo. o tempo foi apagando as lembranças ruins do trabalho rural e só restou uma nostalgia campestre. De repente. até hoje elas permitem o uso de algumas espécies e a eliminação das ameçadoras. o diabo é representado por um bicho. Menos de 300 anos depois. mas a atitude que ela incentivou sobrevive até hoje entre gente que lida com animais: vaqueiros que maltratam o gado. que eles também tinham linguagem. então também não sentem dor. moravam na alma. isso era uma novidade. Não por acaso. Já para Benjamin Franklin. o que Platão chamava de ‘o animal selvagem dentro de nós'”. portanto. Aos poucos. O Antigo Testamento previa a pena de morte para animais que matassem pessoas. houve um caso em que marujos atacados por tubarões vingaram-se dos peixes capturando um cardume e torturando-os. gra ças a hábitos alimentares baseados em costumes antigos. embora mais rudimentar. Percebeu-se que nossos corpos e os dos animais eram muito parecidos. Além de dor. já havia gente querendo proteger o urso. Aristóteles dizia que o homem era o único animal político. só depois do Dilúvio é que fomos comer carne. Uma delas foi apelar para uma das poucas diferenças que até hoje se sustenta: a religião.Não é segredo que a ciência desbancou a religião no papel de intérprete do mundo natural. para serem comidos. Segundo Keith Thomas. diz Keith Thomas. O estábulo era separado do quarto de dormir por uma parede. Muitos não gostaram dessa proximidade e procuraram formas de se diferenciar dos bichos. As pessoas enxergavam neles cada vez mais traços humanos. as pessoas pensavam que os animais também sabiam o que era certo ou errado. Aos poucos. Não se comiam carnívoros e devoradores de carniça ou excrementos. Não por acaso. mesmo para comer. a história de que só homem sente dor não colou. da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). rãs. Um desses critérios era a dieta do animal. os animais e o corpo humano eram apenas máquinas. o oceano que nos separava dos animais virou um córrego. O filósofo francês Re-né Descartes. Mas nós temos mente e. amizades e falsidades. como era comum até o século 18. são poucos os animais aceitos à mesa. Nessa época. um dos mais conhecidos mecanicistas. Na versão científica. Mas mesmo esses tiveram que mudar sua atitude à mesa. ter cabelos compridos. trabalhar à noite e até nadar eram atitudes condenáveis. lebres ou vacas acompanhados de suas cabeças.

nada mais justo que se proíbam os maus-tratos. Se o físico alemão Albert Einstein precisasse de um transplante de rim. diz Singer. mas sua igualdade só foi reconhecida na metade do século 20 (muita gente dirá que ainda não foi). temos prevalência. Na época. o livro foi saudado como uma sequência lógica dos fatos recentes. disse ele em entrevista à SUPER. Para o conceito de igualdade. uma atitude moralmente indefensável. Ela já está por aí. a doar seu órgão a ele. Se nosso interesse entrar em conflito com o dos animais. E. porque. “Uma pessoa com uma deficiência mental grave e órfã não tem essa noção de futuro”. escrito pelo filósofo australiano Peter Singer. “Se a posse de um grau mais alto de inteligência não autoriza um ser humano a usar outros seres humanos para seus próprios objetivos. A proposta de abandonarmos de vez os animais não é nova. exceto por um pequeno número deles. ainda estava no ar. não há razão para que isso não valha também para os animais. Quanto aos outros. Não é uma mudança das mais fáceis. devemos evitar causar dor a eles com o mesmo cuidado que evitamos causar dor a uma pessoa. . se você acabar em uma ilha deserta com uma vaca. Também está liberada a autodefesa contra ameaças animais. diz ele. A escravidão dos negros foi banida no século 19. com boas respostas para tudo. vamos descobrir uma dívida moral imensa. se alguém conseguiu convencer o resto da humanidade (ou a parte mais influente dela) de que não é legal maltratar animais. Agora. tudo bem eliminá-los. ou seja. É nossa obrigação evitar causar esses sentimentos a eles. porque com ela morre um plano para os dias que virão. tem mais significado que a de um animal. com tudo o que isso significa: parar de comer carne. não poderia obrigar ninguém. em português) querem nos persuadir a deixar de usar os animais para tudo. até onde sabemos. tentando conquistar adeptos. Afinal. desde dizimar os búfalos norte-americanos até virar vegetariano. senis ou crianças. portanto. quando foi publicado Animal Liberation (“Libertação dos Animais”. abandonar experimentos científicos com cobaias e banir os animais de estimação. Certo. um dia. os não humanos?” Mas isso não significa conferir aos animais os direitos ou o tratamento dados a uma pessoa. ansiedade. É bom que se diga que Singer é um filósofo utilitarista. diz ele. E isso vale para vários tipos de sofrimento. até que. Só os interesses iguais podem ser comparados. frustração e estresse. portanto. Para Singer. Qualquer coisa. como racismo e sexismo. na infinita fila dos oprimidos. diz Peter Singer. Sua vida está mais próxima de um pesadelo sem fim do que de um sonho idílico. era chegada a vez dos animais. com o mesmo propósito. sen-tem dor e não gostam dela. Por quê? Porque o interesse dos dois tem o mesmo valor. deveríamos parar de reproduzi-los. Ou seja. A fumaça dos sutiãs queimados. Parecia que. Mas humanos têm uma noção de futuro que os animais não alcançam. inclusive psicológico: medo. é difícil escapar do raciocínio de Singer. para evitar que ele selecione a comida que lhe é dada (e para que. Os únicos limites a isso são aqueles impostos por nós mesmos. Discriminar animais só porque são animais é chamado de especícismo.85 bilhões de aves que vivem nas condições acima e você vera o tamanho da nossa culpa. entidades como a Peta (People for the Ethical Treat-ment of Animais. para dizer se uma atitude é certa ou errada. como deveríamos tratar os animais? “No que diz respeito aos animais selvagens.” Os animais. Multiplique essa tortura por 14. assim como humanos. Algumas pessoas são mais inteligentes que outras. nem o pior aluno da escola local. mas justamente o contrário: elevar o status dos animais. Reservar privilégios ao grupo a que você pertence é preconceito. Portanto. merecem um direito à vida tão consistente quanto o assegurado aos doentes mentais. ou “Pessoas pelo Tratamento Ético de Animais”. Mas igualdade. professor Peter Singer. E. “Um chimpanzé ou um porco tem um grau mais alto de autoconsciência e maior capacidade de relacionar-se do que uma criança com uma doença mental séria. equilibrando-se no arame do fundo da gaiola e que tem seu bico cortado com uma lâmina quente. somos todos iguais perante a lei. Animais. são os únicos que sentem dor). deveríamos abandonar o contato com eles. estão jogando pesado (como comparar matadouros com campos de extermínio nazistas). que poderíamos manter em reservas para que não fossem extintos”.Como todas as outras espécies. Ou seja. E Singer mostrou-se um bom advogado dos não humanos. Sua teoria se baseia na ideia da igualdade entre os homens. cuidado. E onde é que nossos interesses se igualam aos de um boi? Na aversão ao sofrimento. diz Singer. marca do movimento feminista. não ataque e mate os outros frangos). Sua intenção não é degradar doentes mentais. a humanidade tem o direito de fazer o que achar necessário para sobreviver e se multiplicar. desde 1975. Ponha-se no lugar de um frango que vive amontoado sob luz artificial quase ininterrupta. mesmo assim. É claro que ele não está sugerindo que ocupemos o manicômio e cortemos os internos em bifes. A morte de uma pessoa. fique à vontade para devorá-la. O detalhe é que ele põe no cálculo também os sentimentos dos bichos (vertebrados somente. A fazenda está longe de ser um lugar bucólico cheio de bichos felizes (leia exemplos ao final do texto). para nos convencer dessa ideia. que começam como regras morais e acabam virando leis. para ficar nos três exemplos mais dramáticos. No mundo de hoje. isso não importa. se sua casa for infestada por ratos. não quer dizer que somos idênticos. por que temos consideração pelo sofrimento de outro ser humano e não pelo dos não humanos? Se você pensou em responder “porque somos humanos”. E os homossexuais começavam a ser admitidos como iguais. ele estima seus efeitos e decide baseado na comparação entre o prazer e o sofrimento que ela causaria a todos os afetados. se calcularmos o sofrimento usando a fórmula de Singer. Mas há ressalvas. mas. uma descarga elétrica o ponha para dormir enquanto uma lâmina corta seu pescoço. como poderá autorizar os humanos a explorar. inédito no Brasil). Então. de nervoso. Conceder direito de voto aos cavalos não faria sentido nenhum. porque nossa capacidade de planejar o futuro eleva nossa existência.

uma humanidade vegetariana causaria um impacto ambiental razoável. que valoriza para si. Mantenhamos os bois e libertemos os demais. que serviam como um contrapeso para a cegueira moral do mercado”. é legítimo que os pais tenham a opção de oferecer um filé aos seus filhos. E aí. conhecemos hoje fontes proteicas capazes de substituir o bife. Wilson chama essa afinidade de biofilia.Onde foi parar aquele respeito ancestral. E cada vez há mais informação sobre suas necessidades. por exemplo. há algo no nosso DNA que nos faz querer bem tudo o que é vivo. seria no mínimo leviano. os ativistas de proteção animal afirmam que pesquisas em animais não servem para nada. “Ninguém dá esse tipo de afeto”. E muitos nutricionistas acham que algumas crianças não conseguiriam processar a quantidade de soja necessária para um crescimento saudável. Podemos viver sem eles? Não. tem uma reverência por sua caça. já não é mais fundamental. Um cão saudável atenderá feliz e prontamente o chamado do dono a qualquer hora do dia ou da noite. melhora a resposta imunológica e comprovadamente diminui o tempo de hospitalização. seria preciso transportar muita comida ou investir pesado em fertilizantes (se bem que o melhor adubo. Em primeiro lugar. “O animal serve como um espelho. Temos uma necessidade psicológica de nos relacionar com os animais que não pode ser satisfeita pelo contato humano. Apesar de sermos onívoros por natureza (digerimos carne e vegetais). talvez seja melhor saber se isso é possível. a consideração foi soterrada pelo dinheiro. mas também para adquirir sua força. especialista na relação entre humanos e animais. dependem da pesquisa de corpos inteiros. o animal preenche uma lacuna existenciai em nós. É preciso conhecer suas vontades. como tratá-los? Se você acredita nas ideias de Peter Singer e acha que só devemos utilizar os animais no que for indispensável. que exigia desculpas por cada animal abatido? Segundo o jornalista americano Michael Pollan. como soja e feijão. melhorar o tratamento aos bichos que forem utilizados (ainda há frangos criados soltos) e substituí-los onde for possível (algumas marcas de cosméticos não testam produtos em cobaias). Para driblar essa deficiência. estaria escasso). especialista em comportamento animal. elas se tornam mais aptas a se . a principal alternativa ao couro são os tecidos sintéticos. Em posição oposta. que ao longo da evolução humana desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de nosso cérebro potente. até os limites aos maus-tratos impostos pela lei. é preciso entender que a domesticação não precisa ser uma exploração. porque nossos corpos são muito diferentes. em geral. É o que diz Hannelore Fuchs. Vivemos em todos os cantos do globo há tanto tempo porque comemos carne. Além do que. há vários caminhos. especialista em bem-estar animal. O biólogo americano Edward O. “As criações industriais são um exemplo do que pode ocorrer na ausência de constrangimento moral. Hannelore leva cães e coelhos para visitar pacientes em hospitais e diz que há muitos benefícios nesses encontros. há uma expressão utilizada pelos ativistas que pode ajudar: “redução. é a disponibilidade. médica veterinária e psicóloga de São Paulo. a domesticação é uma simbiose. ou seja. “Sempre houve uma tensão entre a pressão capitalista para maximizar os lucros e as regras religiosas da comunidade. por questões alimentares. Primeiro porque o vaivém de alimentos pelo planeta aumentaria. porque consumiria muito mais petróleo. as visitas diminuem as queixas e o uso de tranquilizantes. mas são poucos os locais do planeta capazes de produzir uma dieta completa de vegetais. “O contato com os bichos faz o corpo liberar endorfinas (um analgésico natural). da Universidade de São Paulo. diz Ades. a vacina contra a aids e a luta contra o Alzheimer e o mal de Parkinson. etólogo da Unesp de Jaboticabal. Isso significa reduzir o consumo de animais onde eles são indispensáveis (carne só para as crianças.” Urna característica fundamental da relação com o animal. diz ele. A cura do câncer. A partir daí. A falta de diálogo entre os grupos torna difícil saber se vale a pena brigar pelo fim dos experimentos. chamada de vivissecção. diz ela. em seu artigo na revista do jornal The New York Times. por exemplo). precisamos ingerir grandes porções de vegetais proteicos. De um lado. Mas é impossível tratar melhor os animais se não soubermos como eles querem ser tratados. refinamento e substituição”. Para o etólogo César Ades. Além disso. É verdade que o consumo de carne. Se a controvérsia quanto à carne persiste. Enquanto restar essa dúvida. seu espírito”. diz ela. diz ele. Do ponto de vista ecológico. Primeiro. o esterco de boi. E isso continua valendo. “O dono do pitbull enxerga no cão características que ele admira. Mas submeter crianças a uma dieta vegetariana. Mas nossa dependência dos bichos vai além. diz que o problema é medir nosso convívio com os bichos pela relação custo-benefício. Essa é a atitude mais radical. o homem nasceu entre os animais e sempre teve relações com eles. então? Ainda não. Para obter proteína suficiente da dieta vegetariana. Para pacientes deprimidos ou solitários. viver sem animais seria um sonho pouco realista. você se convenceu de que devemos abandonar o uso de animais? Antes de responder. Então. em funcionamento. como sugere Singer. Para ele. E o caçador. Para o etólogo e antropólogo Antônio Fernandes Nascimento Júnior. feitos de derivados de petróleo (sem contar os produtos industriais que levam algum composto animal). os cientistas defendem que estudar doenças e tratamentos em seres vivos é fundamental para os avanços médicos e farmacêuticos. Os índios americanos comiam o bisão não só pela carne.” Enfim. que só cabe a você escolher. em que o ser humano procura ver a si mesmo. a briga esquenta mesmo quando se fala de pesquisa científica com cobaias. relaxa.” Mateus Paranhos da Costa. uma associação entre espécies em que ambas se beneficiam. “Não usar animal nenhum faz parte das utopias”.

os vaqueiros que são alertados para ter mais cuidado com o animal facilmente percebem os abusos que cometem e melhoram o trato. e sofrem muito. Por esse ponto de vista. Mas. se cumpridos. é uma troca parecida com a do sujeito que abre mão do impulso genético de transar com o maior número de garotas para viver no conforto do casamento. bichos de companhia sofrem. mas. coisa que ele promete fazer assim que seu gato morrer. o que só piora a situação. afinal de contas. o melhor é não ter animais.5 bilhão de patos. Mais de 30 milhões morrem por ano no mundo nesse tipo de teste.75 bilhão de bodes e ovelhas. mas. Nos laboratórios. sem desconfiar do perigo. acabam aceitando a sugestão de dar remédios como Prozac ou Valium para o mascote ficar mais tranquilo. A maioria destina-se ao abate. Carne. Experiências Científicas: Para estudar doenças e testar remédios e produtos químicos.5 bilhão de cabeças de gado e outros 1. Carne: No mundo. como na natureza. Chama-se “As Cinco Liberdades Básicas” e diz que devemos livrar os animais de: 1) fome e sede. enquanto os selvagens foram dizimados. mesmo que isso signifique não dar a mínima para o dono. até que. Como um filho mimado. Mas aos poucos o respeito está voltando. Para o etólogo Mateus Paranhos da Costa. como há pouco sentido em ter um animal que não pode ser moldado à nossa maneira. eliminam o sofrimento animal. Pode-se dizer que o animal de criação não tem liberdade para fazer o que quer. Em algumas granjas. estaremos novamente rezando para o bife que nos é servido. seja a mãe ou o dono. De fato. é o respeito pelo bicho. O filhote se liga a quem cuida dele. a anestesia é cada vez mais usada nos testes com cobaias. Até os animais de estimação precisam de mais respeito. a mãe corta essa ligação para que o filhote aprenda a cuidar de sua vida. derrubar coisas ou morder as visitas. 4) limites ao seu comportamento normal e 5) medo e estresse. diz Danten. “A busca pela ausência de sofrimento é justa. ninhos e brinquedos para passar o tempo. em algumas décadas. É bom lembrar que os bichos domésticos proliferaram. como se masturbar. se eles não falam? O movimento de proteção animal desenvolveu uma lista de mandamentos que. impedindo o mascote de alcançar a maturidade emocional. Acaba na panela. diz ele. Guardadas as diferenças. um dia. acabar perseguidor por um grupo de lobos recebendo mordidas nas canelas ou ser devorado vivo por um urso. as galinhas ganharam poleiros. o animal vive carente de atenção e adota comportamentos bizarros para conquistá-la.multiplicar e sobreviver. quando descobrem que eles também precisam mudar seus hábitos. Mas. Vai ficando. Ele discorda de uma premissa básica da teoria mais difundida sobre a natureza. como explicar os muitos casos de animais que se entregam voluntariamente ao convívio humano? O pato crioulo. tratadores escondem a comida pela jaula. E. uma em cada três casas tem um bicho de estimação. Basta tratá-los da melhor maneira possível. nem Peter Singer iria se opor: “Eu não estaria suficientemente confiante nos meus argumentos para condenar alguém que comprasse carne de um lugar desses”.” O fundamental. machucados ou doenças. disse o filósofo em entrevista à revista do The New York Times. ele não acha que as espécies tenham como interesse fundamental a sobrevivência. ficando. 3) dor. a maioria dos donos abandona. passa a tratar mal ou dá ainda mais cuidados ao animal. gansos e perus. para o animal passar mais tempo procurando por ela. Na fazenda. por exemplo. a cartilha é uma fantasia de quem não lida com animais. Nos Estados Unidos. Carne. o dono a incentiva. parece bem melhor do que viver sob perigo constante em liberdade e. usam-se cobaias. Nos Estados Unidos. Além disso. A atitude mais saudável seria deixar o animal à vontade para se expressar como queira. mas não é realista. há 15 bilhões de frangos e galinhas. disse ele à SUPER. quem tem? A teoria de Singer (e a motivação dos ativistas) soa tão diferente porque ele não acredita nisso. se a domesticação fosse algo imposto aos bichos. não consegue mais voar e fica na fazenda. Quando isso acontece. No zoológico. 1. Em outras palavras. 1. . atraído pelo alimento e pela tranquilidade. “Eu não acho que a reprodução é um interesse básico para os animais”. O sofrimento faz parte da vida. contra 65 milhões de cães. fora dela. pousa às vezes em uma granja. para isso. Na natureza. os animais de estimação podem ser considerados um caso de sucesso. E se criássemos animais com respeito por suas necessidades e os matássemos sem dor? Nesse caso. por exemplo. mesmo que nas condições mais hostis. Tudo começa na infância do animal. viver confortavelmente e no final ser morto de um golpe. Alguns levam o bichinho a um psicólogo de animais. Quem sabe. há 10 mil lobos. Em outras palavras. Os Animais e Nós: Veja o que fazemos com eles Animais de Estimação: Há cerca de 800 milhões de gatos e cães no mundo. Segundo o veterinário canadense Charles Danten. uma ave selvagem brasileira. é preciso despertar o respeito nas pessoas que lidam com animais e informá-las sobre as necessidades dos bichos. 2) desconforto. não é preciso abandonar os animais para evitar causar sofrimento a eles. Mas como saber o que eles querem. de tão pesado. da Unesp.

um anel evita que ele regurgite. para ver como é. pode ser sinal. A Crueldade Que Ninguém Vê: O Lado Sombrio das Fazendas e Laboratórios Morte Lenta e Violenta: A vitela é a carne de um bezerro anêmico que passa seus cinco meses de vida em um cercado minúsculo. é como colocar uma venda nos olhos de uma criança. Fazer esculturas de pêlo confunde a noção que ele tem do corpo. FONTE: Revista Super Interessante .A Vaca Está em Tudo: Produzimos muita coisa com o corpo da vaca. Os intestinos viram fios de sutura. Os tendões das patas rendem cosméticos e remédios. Causa dependência emocional e deixa o bicho carente de atenção e ansioso. não uma chance de embelezar o bicho. O sebo vira sabão. espuma para extintores de incêndio e vacinas. cosméticos e medicamentos. Foie Gras: Três vezes por dia. É com ele que se faz o patê de foie gras. Nascidos Para Morrer: Para obter ratos sem contaminação. por até 15 dias. pinga-se a substância nos olhos de coelhos. Em alguns casos. Os bicos são cortados para evitar canibalismo. Colocar perfume no bicho. Cães e gatos têm o olfato muito mais apurado que o nosso e descobrem o mundo pelo nariz. Mas incentivar o comportamento infantil é prejudicial ao animal adulto. E o esterco é o melhor fertilizante. para a carne ficar macia. de que você não é um bom dono. eles servem como doadores de órgãos. Se o seu animal nãn desgruda de você. até que metade morra. Mortos Pela Embalagem: Bichos com pele valiosa não dão cria em cativeiro e são caçados. esse tipo de cirurgia é uma mutilação que já foi banida em muitos países. tinta e até explosivos. Venda no Nariz: Cheirar é um grande prazer para o animal. de seis a nove animais são forçados a ingerir doses crescentes da substância. Ácido no Olho: Alguns produtos também são testados em tecidos sensíveis. impedido de se mover. os cientistas retiram o útero da rata em final de gestação e extraem as cobaias. De Orelha em Pé: No passado. Com os ossos fazemos filmes fotográficos. Os sobreviventes são mortos para estudo. a córnea vira uma pasta. como um filho mimado. Com o sangue faz-se cola. Será Que isso é bom? Cuidados Que Prejudicam o Bichinho Meu Garoto!: Os bichos perdem parte do encanto quando deixam de ser filhotes. um tubo é enfiado no pescoço do ganso e por ali se bombeia 1 quilo de milho e banha. Tente andar de cartola um mês. durante 20 dias. Hoje. cortavam-se o rabo ou as orelhas do cachorro para torna-lo mais ágil em caçadas. Nesse caso. Usamos sua pele e seu coração. Seu fígado adoece. mesmo que muito sutil. O Porco Também: A constituição física do porco é muito parecida com a nossa. Passam dias com a pata dilacerada. Envenenamento Vagaroso: Para testar a toxicidade de produtos de limpeza. Beleza Demais: A tosa é uma necessidade. entre outros. Por isso. Depois. presa em armadilhas. Pesadelo Sem Fim: Galinhas poedeiras vivem espremidas sob luz quase ininterrupta para que comam e botem ovos sem parar.