UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS

REDUÇÃO DA POBREZA E GERAÇÃO DE RENDA E EMPREGO NO BRASIL:
IMPACTOS DO CRESCIMENTO ECONÔMICO, DISTRIBUIÇÃO DE RENDA E
PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA.

BOLSISTA: Igor Santos Tupy
ORIENTADOR (A): Profª. Silvia Harumi Toyoshima

Relatório Final, referente ao período de agosto/2010
a julho/2011, apresentado à Universidade Federal de
Viçosa, como parte das exigências do PIBIC/CNPQ.

VIÇOSA
MINAS GERAIS – BRASIL
JULHO/2011

UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS

RESUMO

REDUÇÃO DA POBREZA E GERAÇÃO DE RENDA E EMPREGO NO BRASIL:
IMPACTOS DO CRESCIMENTO ECONÔMICO, DISTRIBUIÇÃO DE RENDA E
PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA.

O objetivo do trabalho foi fazer um estudo sobre a relevância dos programas
governamentais de transferência de renda, na economia dos municípios brasileiros,
para o ano de 2008. Mais especificamente, buscou-se analisar a existência de
padrões de distribuição espacial dos valores das transferências diretas como
proporção do PIB municipal e das transferências intergovernamentais em relação às
receitas totais das prefeituras. Em seguida, verificou-se a existência de clusters
espaciais, com base nas referidas variáveis. Adicionalmente, pretendeu-se identificar
quais fatores socioeconômicos influenciaram de maneira mais significativa a
participação relativa dos benefícios transferidos nas economias municipais. A
metodologia principal utilizada na pesquisa consistiu na Análise Exploratória de
Dados Espaciais para a formação dos clusters, com base no Indicador Local de
Associação Espacial e na estimação de Regressões Lineares Múltiplas. As
principais conclusões da pesquisa foram que: a) a participação relativa das
transferências de renda nas economias municipais apresentaram associação
espacial positiva, com destaque para a razão Programa Bolsa Família/PIB; b) foi
possível a formação de clusters significativos dos municípios em agrupamentos
bastante abragentes tanto nos padrões High-High quanto nos Low-low; c) grande
parte da Região Nordeste e Norte de Minas Gerais se comportou, em geral, como
um único agrupamento de padrão High-High; d) PIB per capita, Desenvolvimento
Municipal e Incidência de Pobreza explicam a maior parte da distribuição dos valores
do Bolsa Família como proporção do PIB nos municípios do Brasil; e e) enquanto as
variáveis sociais como Proporção de Pobres e Desenvolvimento Municipal são mais
importantes na determinação da relevância dos valores do Programa Bolsa Família,
o PIB per capita é o principal determinante da proporção entre Benefícios
Previdenciários e Produto Interno Bruto.

Data: ___/___/____

________________________ ___ ___ ________________________________
Profª. Silvia Harumi Toyoshima Igor Santos Tupy
ORIENTADORA BOLSISTA PIBIC/CNPq

1

ÍNDICE

1.INTRODUÇÃO .........................................................................................................4

2. REFERENCIAL TEÓRICO......................................................................................7

2.1.PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA – COMBATE À DESIGUALDADE E
POBREZA...................................................................................................................7
2.2.TRANSFERÊNCIAS DE RENDA E A ECONOMIA SEM PRODUÇÃO NO BRASIL................13
2.3. AUMENTO DA ATIVIDADE PRODUTIVA NAS ECONOMIAS SEM PRODUÇÃO: O EFEITO
DAS TRANSFERÊNCIAS DE RENDA ..............................................................................15

3. OBJETIVOS..........................................................................................................18

3.1. OBJETIVO GERAL ..............................................................................................18
3.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS ...................................................................................18

4. METODOLOGIA. ..................................................................................................19

4.1 MEDIDA DE TENDÊNCIA CENTRAL.........................................................................19
4.2.ECONOMETRIA ESPACIAL E ANÁLISE EXPLORATÓRIA DE DADOS ESPACIAIS.............20
4.3. O MODELO ECONOMÉTRICO ...............................................................................24
4.4.FONTE E TRATAMENTO DE DADOS .......................................................................26

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................27

6.CONCLUSÕES ......................................................................................................45

REFERÊNCIAS.........................................................................................................47

2

FIGURAS

FIGURA 5.1. EVOLUÇÃO DOS BENEFÍCIOS EMITIDOS PELO INSS ENTRE 2000
E 2009. ......................................................................................................................29
FIGURA 5.2. EVOLUÇÃO DOS VALORES DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA, 2004
A 2010. ......................................................................................................................29
FIGURA 5.3: DIAGRAMA DE DISPERSÃO DE MORAN PARA VALORES DO
PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA COMO PROPORÇÃO DO PIB ................................30
FIGURA 5.4: MAPA DE CLUSTERS LISA UNIVARIADO PARA VALORES DO
BOLSA FAMÍLIA COMO PROPORÇÃO DO PIB, 2008. ...........................................32
FIGURA 5.5: DIAGRAMA DE DISPERSÃO DE MORAN PARA VALORES DO
PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA PER CAPITA, 2008. ................................................34
FIGURA 5.6: MAPA DE CLUSTERS LISA UNIVARIADO PARA VALORES PER
CAPITA DO BOLSA FAMÍLIA, 2008. ........................................................................35
FIGURA 5.7: DIAGRAMA DE DISPERSÃO DE MORAN PARA VALORES DE
BENEFÍCIOS DA PREVIDÊNCIA SOCIAL POR MUNICÍPIO, 2008. ........................36
FIGURA 5.8: MAPA DE CLUSTER LISA PARA BENEFÍCIOS DA PREVIDÊNCIA
SOCIAL EM RELAÇÃO AO PIB DOS MUNICÍPIOS, 2008. ......................................38
FIGURA 5.9: MAPA DE CLUSTER LISA UNIVARIADA PARA BENEFÍCIOS PER
CAPITA EMITIDOS PELO INSS EM 2008. ...............................................................39
FIGURA 5.10: DIAGRAMA DE DISPERSÃO DE MORAN PARA TRANSFERÊNCIAS
INTERGOVERNAMENTAIS EM RELAÇÃO À RECEITA TOTAL DOS MUNICÍPIOS,
2008 ..........................................................................................................................40
FIGURA 5.11: MAPA DE CLUSTER LISA UNIVARIADA PARA TRANSFERÊNCIAS
INTERGOVERNAMENTAIS COMO PROPORÇÃO DA RECEITA TOTAL DOS
MUNICÍPIOS, 2008. ..................................................................................................41

TABELAS

TABELA 5.1: ESTATÍSTICAS DESCRITIVAS DAS VARIÁVEIS PONDERADAS ....28
TABELA 5.2: DISTRIBUIÇÃO DE DOMICÍLIOS POBRES E EXTREMAMENTE
POBRES ENTRE AS REGIÕES BRASILEIRAS - 2008............................................31
TABELA 5.3: VALOR ANUAL DOS BENEFÍCIOS EMITIDOS PELO INSS
SEGUNDO AS REGIÕES BRASILEIRAS, 2008.......................................................38
TABELA 5.4.: COEFICIENTES DE CORRELAÇÃO ENTRE OS PROGRAMAS DE
TRANSFERÊNCIA DE RENDA E AS VARIÁVEIS....................................................44

3

1.INTRODUÇÃO

Os programas de transferência direta de renda por parte do governo têm sido
expandidos consideravelmente no Brasil desde a promulgação da Constituição de
1988. Tal processo se acelerou nos anos seguintes, sobretudo, em fins da década
de 1990 e durante os anos 2000, com a massificação da assistência social. Com
isso, é crescente a importância que esses valores assumem para a renda de
famílias pobres e para a economia de parte dos municípios brasileiros. A
implementação dessas políticas públicas surgiu como parte dos esforços para
reduzir a pobreza e desigualdade de renda no país.

A discussão sobre a necessidade de reduzir a pobreza no mundo tem gerado
inúmeros debates na teoria econômica, compreendida como uma etapa fundamental
no processo de desenvolvimento. Tal necessidade fez com que a comunidade
internacional se comprometesse, no ano 2000, com a adoção de medidas a fim de
erradicar a extrema pobreza até 2015. Os chamados Objetivos do Milênio, se
atingidos, vão significar que 500 milhões de pessoas terão saído da extrema
pobreza, 300 milhões não mais passarão fome e 30 milhões de crianças deixarão de
morrer antes de completar 5 anos de idade IPEA (2010, b).

No Brasil, os mais expressivos programas de transferência direta são o
Programa Bolsa Família e os recursos do Benefício de Prestação Continuada,
transferidos pela Previdência Social em forma de aposentadoria vitalícia – vinculada
ao salário mínimo – para idosos com mais de 65 anos e deficientes. A Previdência
Social transfere, ainda, recursos correspondentes ao salário mínimo por meio das
Aposentadorias Rurais que são concedidas a pequenos produtores que nunca
contribuíram com o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social).

O Programa Bolsa Família, hoje o mais conhecido sistema de transferência
de renda do governo federal, foi criado em 2003 como junção e consolidação de
outros programas de transferência pré-existentes (Auxílio Gás, Bolsa Escola, Bolsa
Alimentação e Cartão Alimentação). Desde então, o programa tem sido conduzido
pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Além do combate direto à pobreza, o Bolsa Família visa reforçar o acesso a
direitos sociais básicos em saúde, educação e assistência social por meio da

4

R$ 140.00. Tais resultados desencadeiam várias discussões sobre qual foi a contribuição das transferências de renda nesse processo de redução da pobreza. O percentual da população brasileira vivendo abaixo da linha de pobreza internacional (menos que US$ PPC 1. O desempenho dos indicadores sociais.8%.imposição de condicionalidades. Abramovay (2002). na última década.6 %. que a define como uma situação em que a renda de determinada região provém principalmente das transferências diretas. Os benefícios para cada família variam de R$32. Aquino e Teixeira (2005) e Araújo e Lima 5 . em 1990. para apenas 4. que se tem verificado ao longo de boa parte do período citado. Abramovay (2003). já em 2008 (sete anos antes da data limite.00 a R$242. 2011). uma vez que essa renda não é proveniente de uma remuneração por bens e serviços produzidos anteriormente. sobretudo a partir do ano 2000. Tonneau. em 2015). em 2008. a mais de 12 milhões de famílias com renda familiar per capita de. atualmente. Nesse sentido. A expansão dos programas de transferência de renda nas regiões mais pobres do Brasil tem gerado a preocupação com a existência e perpetuação das chamadas “economias sem produção”. 2010. indicam que tais programas têm logrado reduzir de forma substancial a pobreza no Brasil. a igualdade macroeconômica entre produção e renda não se verifica. O Programa atende. bem como na redução da concentração de renda e da aceleração do crescimento econômico. Nesse aspecto. uma vez que não possuem uma produção capaz de gerar uma fonte sustentável de renda. no máximo. O último Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos do Milênio (IPEA. As características e consequências da “economia sem produção” sobre as economias locais são discutidas por Gomes (2001).00 (MDS. isto é. Sandi (2001).25 por dia) caiu de 25. regiões que se tornam dependentes da renda transferida pelo governo. é fundamental o estudo das formas pelas quais o valor monetário gerado por esses programas podem desencadear atividades produtivas na economia dos municípios brasileiros. O termo “Economia sem Produção” foi empregado inicialmente pelo economista do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Gustavo Maia Gomes (2001). b) aponta que o Brasil conseguiu ultrapassar as metas estipuladas no quesito redução da pobreza.

Esses programas também tiveram impactos relevantes sobre a desigualdade como mostram estudos de Ferreira e Cruz (2010). (2006). que abordam seus componentes e maneiras como as transferências de renda adquirem tamanha relevância nessas localidades. para que se possa observar a coerência de tal distribuição com as características e necessidades regionais e com os objetivos específicos de cada programa. Soares et al. Neto. a fim de determinar aquelas regiões cujos valores dos benefícios são mais relevantes em relação à renda gerada na própria localidade. 6 .(2009). Cacciamali e Camillo (2009). Ao avaliar a relevância que esses valores têm assumido nas economias locais. Soares et al. b) evidenciam que os programas de transferência de renda no Brasil foram importantes no processo de redução da pobreza que tem se observado. A relevância das transferências em muitas regiões brasileiras já tem sido atestada por diversos estudos. Medeiros. o presente trabalho vem ampliar as discussões sobre o papel das transferências governamentais na economia dos municípios brasileiros. o estudo permite que se analise a focalização espacial dos programas de transferência no Brasil. Oliveira e Lima (2010). Barreto e Tabaldi (2007) e Marques e Mendes (2005) já identificam efeitos dessas transferências de renda no crescimento econômico dos municípios brasileiros. trabalhos como os de Landim Jr. Por sua vez. a fim da identificar as formas como estas fontes de renda impactam as economias locais em seus vários aspectos. Britto e Soares (2007) e Maia (2010). Ao mapear as regiões mais dependentes de transferência de renda. o estudo possibilita a formulação futura de políticas públicas localizadas. observando os fatores que influenciam na participação da renda transferida sobre a economia local. Esta pesquisa. Vale (2010) e IPEA (2010. Neste sentido. (2009). procura avaliar de que forma estes benefícios mostram-se relevantes nos municípios ao longo do território nacional. bem como realizar uma análise sobre as características da distribuição espacial dos programas de transferência. Rocha (2008). O estudo dos programas governamentais de transferência no âmbito dos municípios brasileiros faz-se necessário. que tenham como objetivo o desenvolvimento de novas fontes de renda e emprego. (2007). assim.

e latino-americano como um todo.1. maior a proporção de pessoas que não alcançam um valor mínimo para suprir as 7 . a continuidade da desigualdade social se mostra como um empecilho para a redução da pobreza em países com características semelhantes ao Brasil. REFERENCIAL TEÓRICO.2. Numa situação como esta. não é suficiente para reduzir a pobreza. o comportamento da desigualdade de renda. enquanto outras defendem que o crescimento. A CEPAL (2003) destaca que emerge na literatura econômica o consenso de que o crescimento é uma condição necessária ao crescimento. Ressalta. Quanto pior a desigualdade inicial. mas não suficiente. reduz a pobreza e gera bem-estar. ainda. conforme ressaltam Ferreira e Cruz (2010). É preciso.Programas de Transferência de Renda – Combate à Desigualdade e Pobreza. Em situações de altas taxas de desigualdade. que a focalização das políticas sociais são mais relevantes ao combate à pobreza que a aplicação de novos recursos. há que se considerar que a distribuição inicial da riqueza vai influenciar. a persistência de uma profunda desigualdade de renda que vem tornar mais grave a questão da pobreza e mais difícil a sua redução. os mais pobres apresentam menos possibilidades de aproveitar dos benefícios trazidos pelo crescimento econômico. 2. Há vertentes do pensamento econômico que postulam a teoria de que o crescimento econômico. São muito importantes as discussões sobre as formas mais eficientes para se proceder a essa redução da pobreza. por si. o crescimento reduz a desigualdade em menor escala do que em países onde a desigualdade é mais baixa. a longo prazo. Há ainda que se considerar no contexto brasileiro. dado o elevado número de famintos e miseráveis. ao se referir apenas a variáveis quantitativas. então. é necessária a adoção de medidas assistencialistas associadas a medidas estruturais de tal forma a encontrar soluções sustentáveis para a pobreza. Ademais. como mostra Ravallion (2004). Portanto. Assim. agir sobre indicadores qualitativos que aumentam o bem-estar social. Um dos mecanismos que se colocam de início consiste no próprio crescimento econômico.

Resultados como este evidenciam o papel relevante de políticas redistributivas para o alcance dos objetivos de redução da pobreza. Em princípio espera-se que cada unidade da região estudada possua uma distribuição de rendimentos própria e que estes impactos sejam distintos (Oliveira e Lima. quando uma sociedade alcança um nível maior de equidade. o crescimento econômico tornou-se menos eficiente em reduzir a pobreza. uma queda nessas taxas. como o Brasil. Soares et al. ainda que pequena. Nesse aspecto. existem discrepâncias quanto à magnitude desses impactos. ou mesmo que sejam menores. sobretudo.necessidades básicas e. a redução das desigualdades num país cria um padrão de consumo mais austero compatível com uma taxa de investimento mais alta e mais eficiente. (2006) apontam que a erradicação da pobreza e redução nos níveis de desigualdade são metas dificilmente alcançáveis num prazo 8 . ela reforça sua inclinação a empreender projetos de longo prazo que fomentem o crescimento. em municípios onde ela incide de maneira mais acentuada. Pode-se inferir da proposta da Nova Cepal. situação que só seria alcançada com décadas de crescimento moderado. Além do efeito da desigualdade de renda sobre a redução da pobreza. Assim. não têm condições de investir em acumulação de capital humano. sendo o primeiro positivo e o segundo negativo. que os efeitos da redução das desigualdades. por outro lado. que a redução da desigualdade e o consequente aumento das taxas de crescimento tenderiam a acelerar a redução da pobreza. Ele afirma que: Se por um lado existem resultados coincidentes com relação aos impactos da desigualdade de renda e do crescimento da renda na pobreza. p. acreditam que. como o nível de desigualdade de renda no Brasil é muito elevado.161). Com esse objetivo. favorecendo diretamente o crescimento econômico. impactaria de forma considerável sobre a pobreza. Neste aspecto. o estudo de Oliveira e Lima (2010) indica que. Para ele. autores como Fajnzylber (1989). por conseguinte. Isso não implica que os efeitos do crescimento não sejam significativos. têm investido em políticas de redistribuição de renda por meio de transferências diretas do governo para aquelas pessoas que se encontram abaixo de um determinado limite de renda. segundo Barros e Mendonça (1997). entre os anos de 1991 e 2000. 2010. muitos países.

o estabelecimento de um piso para os benefícios previdenciários no valor do salário mínimo. Britto e Soares.razoável de tempo sem que se recorra a mecanismos como os programas de transferência de renda. Bolsa Alimentação e PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). e a garantia de cobertura via assistência social do Benefício de Prestação Continuada (BPC). a vinculação ao salário mínimo do piso dos benefícios do INSS. a partir de 1994. 2010). a partir dos anos 1990. Tais alterações levaram à ampliação da cobertura previdenciária para os trabalhadores rurais. As transferências diretas de renda focalizadas em famílias de renda mais baixas se intensificaram. que abriram caminho para a consolidação dos programas de transferência de renda. pois mesmo tendo renda alta. a Lei Orgânica de Assistência Social (Loas). A maioria desses programas foi posteriormente incorporada ao Programa Bolsa Família. que destina benefício monetário no valor de um salário mínimo para idosos com mais de 65 anos e pessoas com deficiência (IPEA. a partir de 2004. o direito à aposentadoria ao trabalhador rural sem contribuição previdenciária. p. a maioria dos países que lograram erradicar a pobreza possui programas de transferência de renda. Tal movimento ganhou mais visibilidade e maior amplitude com a criação de programas como o Bolsa Escola. Nesse período. IPEA (2010) e Maia (2010) atribuem às alterações contidas no texto constitucional aprovado em 1988 – que instituiu o instrumento da Seguridade Social e seus desdobramentos nos anos posteriores. aumentando a parcela apropriada por aqueles mais pobres em detrimento dos relativamente mais ricos. afetaram de forma significativa a distribuição de rendimentos entre os grupos municipais brasileiros. Araújo e Lima (2009). E.21). o aumento das políticas de transferência de renda como componente das políticas sociais do governo ampliou a importância relativa das transferências monetárias na composição da renda das famílias. na década de 1990 – o impulso principal para a criação dos benefícios sociais. sob a égide do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Auxilio Gás. a expansão do BPC e a valorização quase contínua do salário mínimo. 2007. durante a segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000. ao mesmo tempo 9 . há nessas economias pessoas que não conseguem garantir sua subsistência via trabalho (Medeiros. Segundo Maia (2010). por exemplo.

2010. ao mesmo tempo em que são baixos os rendimentos do mercado de trabalho. Vale et. O relatório anual de acompanhamento dos Objetivos do Milênio no Brasil (IPEA. evidenciando que aqueles municípios. por sua vez. em função da condição de pobreza extrema da população. foram os que apresentaram maior impacto na redução da proporção de pobres e indigentes. O êxito dos programas diretos de transferência de renda governamentais. 10 . realizaram estudo para a economia do Estado do Rio Grande do Norte. no sentido de atenuarem as desigualdades de renda e reduzirem a intensidade e a incidência da pobreza nos municípios brasileiros. Essa situação é exemplificada por Maia (2010). de fato. tem sido atestado por vários estudos que têm apresentado resultados robustos para todas as regiões brasileiras. especificamente. Destaca a contribuição relevante do Programa Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada. em que os baixos rendimentos per capita das aposentadorias e pensões têm papel relevante na renda total. mais beneficiados com transferências e redistribuição de renda proveniente do Programa Bolsa Família.em que se reduziu a importância de rendas provenientes do trabalho (IPEA. b) atribui aos programas de transferência de renda importante contribuição para que o Brasil tenha alcançado antecipadamente as metas individuais estabelecidas no que tange à redução pela metade da pobreza extrema. 2010). al (2010). a partir de uma Análise Exploratória de Dados Espaciais. no período de 1991 a 2000. cuja população demarcada pelos critérios de elegibilidade de ambos os programas é bem maior que aquela delimitada pela linha de pobreza internacional. com o caso do Nordeste. a maior parte de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza. Oliveira e Lima (2010) demonstram que políticas públicas dessa natureza tendem a ser eficientes na redução da pobreza quando atingem os municípios que possuem. O IPEA (2010) sugere que as transferências são fundamentais para combater a pobreza e as desigualdades e para dinamizar a economia dos estados mais pobres. Ao estimarem a elasticidade-renda advinda das transferências governamentais em relação à pobreza nos municípios brasileiros. com destaque natural para aquelas mais pobres.

segundo eles. principalmente. os valores referentes ao Bolsa Família. pode-se atribuir aos programas governamentais de transferência de renda participação efetiva e crescente no processo de redução da desigualdade de renda que está em curso desde a década de 1990. e se aprofundou nos anos 2000. Ao mesmo tempo. a inclusão das transferências monetárias gerou uma redução da desigualdade num efeito que tem se intensificado com o passar do tempo. espaço para melhorias. observam que. Os autores não descartam. Britto e Soares (2007) defendem que é por meio das transferências focalizadas que se dá de maneira mais direta a distribuição influindo. a depender do seu grau de progressividade ou regressividade. porém. nesse sentido. devido ao aumento nas transferências e em outros rendimentos não provenientes do trabalho. de forma que. 11 . Rocha (2008) alerta para os problemas referentes à focalização dos programas. Nota-se que a ideia segundo a qual programas de transferências de renda têm sido eficientes na redução da pobreza extrema no Brasil se sustenta em vários estudos. o papel central das políticas fiscais e tributárias para a redistribuição de renda. entre 1992 e 2002. os outros programas de transferências de renda melhoram a situação dessas famílias. havendo. Esta constatação é feita por IPEA (2010). que impactam de maneiras distintas. Soares et al (2006) apontam que o BPC se destaca com uma surpreendente capacidade de atender aos extremamente pobres. no período. ao passo que os demais programas de transferência parecem impactar mais sobre a intensidade da pobreza do que sobre a proporção de pobres: Enquanto o BPC e as pensões e aposentadorias vinculadas ao salário mínimo são capazes de tirar grande parte das famílias beneficiadas da indigência e da pobreza. 2006) Além do impacto direto sobre a pobreza. Kageyama e Hoffmann (2006). porém sem necessariamente deslocá-las para acima da linha da pobreza (Soares et al. Medeiros. certamente. a renda das famílias pobres só cresceu. apesar de seus valores serem relativamente pequenos. tanto na desigualdade de condições quanto na desigualdade de resultados. Mas. em todos os anos e regiões analisadas. Apesar de reconhecer que as transferências de renda no Brasil têm sido relativamente bem-sucedidas em beneficiar os mais pobres. com a piora acentuada no grau de utilização da força de trabalho.

12 . por outro. são correspondentes principalmente ao efeito concentração em todas as macrorregiões brasileiras. ao observar que. Com a participação cada vez mais relevante dos mecanismos governamentais de transferência de renda nas ações de combate à pobreza e à desigualdade. 1 Clubes de Convergência são agrupamentos de municípios segundo critérios convergência para um mesmo nível de desigualdade. Estimativas de Cacciamali e Camillo (2009) indicam que as transferências públicas contribuem com 25. ao reduzir a desigualdade de renda. excetuando-se o Nordeste. no Brasil. reforçando os orçamentos familiares e elevando parte dessas pessoas para acima da linha de pobreza. caso se admita a hipótese de que a redução nas desigualdades vai acelerar as taxas de crescimento da renda per capita em economias como a brasileira. eles atuam diretamente. Em suma. Esse resultado.69% no Brasil como um todo. Este último ponto pode ser mais intenso. porém. onde o efeito renda foi o principal determinante da redução da desigualdade entre 2001 e 2004. geram as condições necessárias para que os pobres possam usufruir do aumento de bem-estar criado pelo crescimento econômico. Os estudos sugerem mais de um canal pelo qual tais programas auxiliam na melhora das condições de vida da população pobre: de um lado. as transferências governamentais (em termos da participação percentual na renda total dos municípios) apresentam uma correlação negativa com a taxa de desigualdade na maioria dos “clubes de convergência”1 encontrados.71% para a queda da desigualdade de renda domiciliar por pessoa agregada. assim como as rendas provenientes do trabalho. No subperíodo de 2004 a 2006. Ressaltam. dizem eles. emerge a preocupação com a existência de uma “Economia sem Produção”. as transferências de renda consistem num instrumento importante de que dispõe o governo na implementação de políticas sociais com vistas à redução da pobreza. O trabalho de Ferreira e Cruz (2010) assinala no mesmo sentido. que “políticas que melhorem o nível de emprego e a produtividade do trabalhador parecem obter resultados mais eficazes na redução da desigualdade” (p. a participação das aposentadorias na redução das desigualdades se elevou para 33.117).

ainda. produto” (p.2. além de empregos e salários públicos e transferências intergovernamentais. em seu livro “Velhas Secas em Novos Sertões: continuidade e mudanças na economia do semi-árido e dos cerrados nordestinos”. Gomes (2001) observou a existência de uma discrepância entre renda e produto nessa região. o de ter renda. sendo aquela maior que este. No entanto. caracterizar a economia sem produção como uma situação em que renda e produto não são idênticos. mostrando que a Economia sem Produção caracteriza “. formando uma “economia sem produção” Uma das características fundamentais da “economia sem produção” é a desigualdade entre produto e a renda de uma região num dado período de tempo. como afirmam Araújo e Lima (2009). As transferências diretas de recursos por parte do Governo via aposentadorias e pensões.Transferências de Renda e a Economia sem Produção no Brasil. em que não se sabe ao certo o quanto dessa renda gera algum produto. benefício do Bolsa Família e programas do gênero.um aspecto peculiar do semi-árido nordestino. Ao analisar a economia do semi-árido nordestino.ou.2. sobretudo as aposentadorias rurais e benefícios que não necessitam de contribuição anterior . ou ter pouco. então pesquisador do IPEA. mas produzia uma quantidade pequena de bens e serviços. mas não ter. A Economia sem Produção ocorre em localidades onde a principal parcela da renda é proveniente de transferências diretas do governo como aposentadorias e pensões. O termo “Economia sem Produção” foi introduzido nas discussões sobre as características econômicas de determinadas regiões brasileiras pelo economista Gustavo Maia Gomes. 2 Um outro exemplo histórico. benefícios do Programa Bolsa-Família e empregos públicos – cujos valores são bastante relevantes se comparados ao seu Produto Interno Bruto – representam a principal fonte de renda da população local. Ou. ainda.56). que possuía muita renda. como no caso dos empregos públicos. Araújo e Lima (2009) estudam uma região particular do Brasil2. Isso se deve ao fato de que a renda gerada por tais formas de transferência não está vinculada a nenhuma contrapartida (imediata) em termos de produção – no caso específico do Programa Bolsa Família e das aposentadorias.. de “economia sem produção” teria ocorrido na Espanha dos séculos XVI e XVII. vinda da extração de metais preciosos na América no auge do período colonial.. Pode-se. 13 . que pode ser citado. podendo então agir com característica de transferência. essas transferências exigem pouca (ou nenhuma) contrapartida produtiva.

Assim. p. os empregos públicos são considerados nessa definição dada a dificuldade de se mensurar o quanto é produzido na esfera pública. Gomes (2001) identifica a ocorrência de aumento do emprego público bem como uma maior dependência dos municípios das transferências de recursos dos Governos Estaduais e Federal. dispensam contribuição anterior). Por sua vez. o que no semi-árido tem tido o efeito de ampliar os limites da economia sem produção (p.como sugere Gomes (2001). os programas de transferências diretas eram dispersos e não eram abrangentes como o Bolsa Família. “no caso nordestino.60). Entretanto. na concepção de Gomes (2001) por três agentes principais: aposentados. por isso. Com o grande crescimento no número de municípios decorrente da Constituição de 1988. Araújo e Lima (2009) acrescentam a ela os beneficiários do Bolsa Família. A Economia sem Produção é constituída. caracterizando transferência direta de renda e. conforme instituídos pela Lei Orgânica de Assistência Social. o programa torna-se uma fonte de renda considerável. uma parcela desses valores está sob a forma de aposentadorias rurais (que.75). que é a unificação dos programas que já existiam” (p. caracterizadas por um elevado nível de pobreza. em áreas como o semi-árido nordestino. Segundo afirmam Tonneau. o volume de recursos oriundos das aposentadorias representa muito mais do que os recursos previstos nos orçamentos públicos municipais” (p. no Brasil. A criação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) teve. Aquino e Teixeira (2005) “em muitas comunidades rurais. funcionários públicos e prefeituras. de 1993. contabilizada na “economia sem produção” (Araújo e Lima. é preciso considerar que em 14 . uma vez que “no período analisado por Gomes. Parte dos recursos das aposentadorias é incluída por Gomes (2001) nos componentes da economia sem produção porque.57) e dado que não há exigência de uma contrapartida em termos de serviços produtivos para que as pessoas recebam o benefício. fosse melhor dizer: pouca renda e quase nenhum produto” devido à dependência das transferências governamentais para a geração de renda. é provável que a maioria dos aposentados da região nunca tenha contribuído para a Previdência Social. 2009. além de benefícios a idosos e deficientes que não contribuíram para a Previdência.189). Uma vez que essas regiões são. normalmente. um importante impacto sobre o rendimento das famílias brasileiras em regiões pobres sob a forma de transferências direta de renda. portanto. Além disso.

sobretudo. Caso contrário.3. tais regiões correm o risco de estarem inseridas num contexto que se reproduz ao longo do tempo. O primeiro canal de transmissão dos recursos de transferências diretas para impactar sobre o crescimento econômico. É fundamental. 2001).muitas localidades a expansão deste tipo de emprego é utilizada. Isto é. dependente dos recursos externos. Essa constatação torna-se fundamental na análise de longo prazo da “economia sem produção”. Uma outra parcela. numa espécie de “ciclo vicioso” em que a economia local fique. ao passo que “o tamanho da folha de salário das prefeituras deve guardar não mais do que uma pálida relação com o volume do produto efetivamente ofertado pelos municípios” (Gomes. portanto. já discutido anteriormente. dando margem ao desenvolvimento de novos setores e elevando de forma sustentada o PIB de cada região. ponderar se a incidência desses programas governamentais é capaz de dinamizar as economias locais. pode ser a própria redução da desigualdade social – comprovadamente uma consequência das transferências –. se a demanda gerada por esses rendimentos tem algum poder de induzirem um crescimento econômico no futuro. constantemente. o produto local. A capacidade dos componentes da “economia sem produção” de gerar algum produto no futuro em função da renda recebida precisa ser analisada. Uma vez evidenciado a eficiência das transferências de renda na redução das taxas de pobreza na diminuição das taxas de desigualdade de renda. a posteriori. autores como Fajnzylber (1989). tradicionalmente. constitui “uma transferência de renda. Neto. É importante saber se nestas regiões de incipiente produção. 2. como política sócio-eleitoral. Aumento da Atividade Produtiva nas Economias Sem Produção: O Efeito das Transferências de Renda. Tem se discutido na literatura. diminuindo as barreiras para o aumento sustentado na produção. Portanto. a discussão que se impõe ao debate centra-se nos seus impactos sobre a atividade produtiva das regiões que as recebem. a entrada de recursos monetários provenientes de benefícios concedidos pelo setor público é suficiente para elevar. na verdade. Barreto e Tebaldi (2001) e Landim 15 . disfarçada em salários”. que a presença da “economia sem produção” hoje seja necessariamente responsável por esta mesma situação no futuro.

e mais direto. espalhadas por mais de mil municípios e distritos. de acordo com os dois últimos autores. m. maior que o dispêndio realizado em razão do chamado efeito multiplicador da renda. Essa demanda não é. entretanto. Nesse caso. indicam a existência de teorias inspiradas na Nova Cepal bem como em Teorias do Crescimento Endógeno. definido por: 1 m (1) 1 b Em que b é a propensão marginal a consumir (0<b<1). dessa forma. segundo as quais a redução nos níveis de concentração de renda pode atuar como indutora de algum crescimento econômico. Esse raciocínio tem base nas teorias de crescimento puxado pela demanda. (2009). bancas de 16 . Assim. 1 Y  G  Y  m  G (2) 1 b Em se tratando das transferências. na sua concepção. capaz de gerar qualquer impulso autônomo que sustente um processo de crescimento econômico: “ninguém conseguiu demonstrar que barracas de feiras livres. Gomes (2001) chega a admitir que as transferências possam dar lugar a alguma atividade econômica. a ocorrência de um gasto do governo aumenta o nível de renda da economia numa proporção. mecanismo de desencadeamento de crescimento econômico a partir das transferências diretas consiste na demanda gerada por esses valores. como explicitado na equação 2. O segundo. o efeito multiplicador é muito pequeno. Marques e Mendes (2005) assinalam a ocorrência de uma característica peculiar que potencializa seus efeitos sobre o produto: quanto mais a população alvo se aproxima das condições de extrema pobreza. de inspiração Keynesiana. Afirma que apesar de a demanda gerada na “economia sem produção” ser de quantia total considerável. mais a propensão marginal a consumir se aproxima de 1. ela se dissipa em milhares de parcelas de dimensões que chegam a ser insignificantes. o efeito do gasto realizado (G) será tanto mais significativo sobre o produto (Y) quanto maior for a proporção da renda que as pessoas disponibilizam para o consumo imediato. em geral. o efeito multiplicador se aproxima de seu máximo.Jr. individualmente. Portanto. uma vez que a totalidade da renda obtida é direcionada para os bens ditos de primeira necessidade.

Durante a entressafra. de fato. padarias e farmácias podem vir a ser atividades líderes em um processo de desenvolvimento” (p. Em contraposição a essa visão. Para ele. Aquino e Teixeira (2005) mostram que nos dias em que as aposentadorias são pagas. tal resultado se explica pelo fato de que um dos caminhos pelo qual o PBF eleva o PIB municipal é pelo aumento do consumo de energia. Alguns estudos já corroboram a hipótese de que as transferências de renda exercem. Identifica ainda que nessa região os 17 .jogo de bicho.266). esgoto e gás. a “economia sem produção” pode ser mais promissora do que a concepção anterior. por sua vez. fixando o homem do campo e diminuindo assim.6% a produção municipal enquanto o PIB industrial se elevaria em 0. o êxodo rural e a conseqüente pressão sobre as grandes cidades. Abramovay (2002) propõe que. 2001). água. sendo o setor industrial o mais impactado pelo programa. ressalta que a instalação de pequenos laticínios. que são fatores ligados ao consumo de alimentos e necessidades básicas. nessas condições. Os estudos de Landim Jr. bem como começam a surgir ações coordenadas entre municípios. alguma influência sobre a economia local. Além disso. mas principalmente estrutura social e coordenação voltada à inovação e estímulo das iniciativas individuais. Barros (2009) conclui que as transferências do Governo Federal tiveram papel relevante na determinação de maiores taxas de crescimento da economia Nordestina na década de 2000. Sandi (2001) destaca que o pagamento de benefícios previdenciários dinamiza as economias do semi-árido. agroindústrias e centros locais de difusão de tecnologias podem contribuir para mudar o ambiente inibidor de novas iniciativas empresariais e. o benefício previdenciário pode ser considerado como uma espécie de seguro agrícola que garante a renda das famílias dos produtores rurais (Sandi. se o processo de desenvolvimento supõe não apenas capacidade técnica competitiva. em termos produtivos. (2009) indicam que o Programa Bolsa Família impacta positivamente no PIB dos municípios. favorecer a formação de poupança. Um aumento de 10% no valor dos benefícios elevaria em média 0. o volume do comércio local representa 60% do obtido no mês.81%. Ele afirma que outros atores passam a integrar conselhos locais que planejam ações de desenvolvimento. notadamente o comércio. seguido pelo setor de serviços. No mesmo sentido. Tonneau.

1. Objetivo Geral Esta pesquisa tem como objetivo geral promover um estudo sobre as Transferências Diretas de Renda nos municípios brasileiros. a fim de detectar em quais regiões esses programas governamentais assumem maior importância relativa. bem como os fatores que mais influenciam na relevância de seus valores para as economias locais. c) Identificar a formação de clusters espaciais no conjunto dos municípios brasileiros considerando a relação entre as transferências de renda e os respectivos produtos. 18 . Objetivos Específicos Consistem nos objetivos específicos do presente trabalho: a) Proceder uma análise estatística descritiva sobre os valores dos Programas Governamentais de Transferência de Renda. 3. Desenvolvimento Humano do Município e proporção de pobres na população na determinação da participação relativa das transferências na economia dos municípios do país.2. bem como as transferências intergovernamentais em relação à receita total das prefeituras. OBJETIVOS 3. d) Avaliar a importância de fatores como PIB per capita.efeitos do Programa Bolsa Família sobre o crescimento foi maior que aquele decorrente do aumento do salário mínimo. b) Estudar o padrão de distribuição espacial da participação relativa das transferências de renda nas economias municipais a partir da Análise Exploratória de Dados Espaciais – AEDE. 3.

no ano de 2008. 4. isto é. 19 . será utilizada uma medida de tendência central e uma medida de dispersão. a esperança matemática do valor de cada transferência nos municípios brasileiros. ou a esperança da proporção de cada benefício em relação ao PIB local. Inicialmente. utilizando dados de corte seccional para os municípios brasileiros. será estimada uma regressão múltipla. METODOLOGIA. Por fim.4. Para isso. A medida de tendência central utilizada será a média aritmética das variáveis em questão (x). A metodologia do trabalho está dividida em três partes distintas. n X i 1 i E( X )  X  n onde n é o total de observações da amostra. será feita a descrição do comportamento das transferências de renda no Brasil. por meio de métodos básicos da estatística descritiva convencional.1 Medida de Tendência Central. para identificar padrões de distribuição das transferências nos municípios brasileiros e observar a formação de clusters espaciais. a fim de identificar as características da distribuição das transferências de renda nos municípios brasileiros. Em seguida o estudo vai proceder a uma Análise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE). a partir de métodos de Econometria Espacial. a fim de identificar quais fatores estão mais relacionados com a relevância das transferências diretas em relação ao PIB municipal.

A Análise Espacial tem como base a idéia de que a distribuição de um dado fenômeno no espaço não é algo aleatório.2. não é aconselhável que seja analisada sozinha. A fim de analisar os padrões espaciais de distribuição dos recursos advindos dos mecanismos governamentais de transferência de renda.Econometria Espacial e Análise Exploratória de Dados Espaciais. portanto. O desvio padrão será obtido a partir da variância de cada transferência de renda. portanto. Almeida (2004:4) enuncia a Lei de Tober. Para observar o comportamento das transferências em relação à média será utilizado o desvio padrão como medida de dispersão. a fim de poder analisá-lo em conjunto com a média:   2 4. o presente trabalho utiliza a Análise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE) de modo a captar a existência de dependência espacial e possíveis clusters de municípios. o valor da média pode ser muito influenciado por valores discrepantes dentro da amostra e. isto é. caracterizando uma “dependência espacial”. com autocorrelação e 20 . Por sua vez. partindo do conceito de “Economia sem Produção”. a Econometria Espacial é definida como um subcampo da Econometria tradicional que trabalha com as interações e as estruturas regionais. um processo de interação entre agentes no espaço que influenciam e são influenciados pelas regiões vizinhas. Há. Entretanto. No presente caso corresponde ao total de municípios brasileiros. porém o que está mais próximo depende mais”. n 2 (X  X ) 2  i 1 N 1 Como o valor da variância não está na mesma unidade de medida que a média. será utilizado o desvio padrão. em 2008. sobretudo as mais próximas. da média do quadrado dos desvios do valor dos benefícios em relação à respectiva média. que consiste na raiz quadrada da variância. referente a todo e qualquer fenômeno (ou processo) que ocorre no espaço: “tudo depende de todo o restante. ou seja. Nesse sentido.

y j ]  E[ yi . y j ]  E[ y i ]  E[ y j ]  0 .. 21 . consiste num conjunto de técnicas que permitem a análise estatística da informação geográfica. de acordo com Anselin (1999). Para a análise da associação espacial global univariada. que podem gerar relações espúrias. bem como em função de a percepção humana não ser suficientemente rigorosa para identificar “clusters” significativos e padrões de associação (Almeida et al. Seu uso se justifica em função das desvantagens dos métodos convencionais de análise. segundo Almeida (2004). deseja-se observar se os valores do Programa Bolsa Família. são distribuídos aleatoriamente entre os municípios brasileiros ou sua disposição apresenta alguma dependência espacial. isto é. Neste caso específico. tais como inspeção visual e a análise padrão de estatística multivariada. 2003).. fazendo uso de estatísticas que mensurem a associação geográfica de forma global. O estudo se inicia com o teste da hipótese de distribuição espacial aleatória dos dados em questão. Essa relação é formalizada por Almeida (2005).heterogeneidade espacial.... dando indicações de possíveis padrões de associação espacial em âmbito global e em âmbito local. de forma que: yi  f ( y j ) i  1. numa determinada região i. n e i j A Análise Exploratória de Dados Espaciais. os componentes da chamada “Economia sem Produção”. depende do valor das mesmas variáveis nas regiões vizinhas j. Isto significa que – considerando agentes heterogêneos distribuídos num espaço heterogêneo – o valor de cada uma das referidas variáveis. que expressa formalmente a autocorrelação espacial a partir da condição dos momentos estatísticos das observações: Cov[ y i . para y i  yj sendo yi e yj os valores aleatórios das variáveis nas regiões distintas i e j. dos benefícios da Previdência social e das Transferências Intergovernamentais.

Dessa maneira. tem-se autocorrelação espacial negativa. segundo Anselin (1995).pode ser utilizada a estatística I de Moran. que fornece um coeficiente de correlação espacial. e. wij os pesos espaciais. a identificação de agrupamentos (clusters) ou a existência de outliers poderiam ser desconsideradas ao se observar apenas a medida global. Tal instrumental é denominado LISA (Local Indicators os Spatial Association) e. que descrevem as interações entre as regiões específicas i e j. Afirma. descrito como: I n  w ( y  y )( y ii i j  y)  w ij  ( y  y) i 2 Sendo n o número de unidades espaciais. yi a variável de interesse. A estatística I de Moran de autocorrelação global pode não refletir necessariamente determinados padrões locais de associação. 22 . a I de Moran indica a ocorrência de autocorrelação espacial positiva. o seu valor fornece para cada observação uma indicação da extensão de agrupamentos espaciais significantes de valores similares no entorno desta observação. O teste a ser feito tem como hipótese nula a ausência de correlação espacial. Portanto. embora tenda assintoticamente a esse valor (Almeida. Ao assumir valores maiores que o seu valor esperado. e para valores menores que E [I]. 2004). sendo o valor esperado da estatística I de Moran correspondente ao que se obtém quando não se possui dependência espacial. ainda. Uma solução proposta por Anselin (1995) consiste num indicador local de associação espacial que possui o mesmo princípio da I de Moran global. que a soma de todas as LISA’s é proporcional ao indicador global de correlação espacial. camuflando características específicas de determinadas vizinhanças. o valor esperado da I de Moran será: 1 E[ I ]   n 1 Deve-se destacar que a estatística I de Moran não é centrada em zero.

um padrão de associação espacial do tipo High-High implica que os municípios apresentam altos valores relativos do Programa Bolsa Família. numa vizinhança que também recebe baixos valores. estando rodeados por vizinhos que também recebem altos valores relativos dessas transferências. a soma total dos elementos de cada linha i da n 1 matriz de pesos espaciais. Em clusters classificados como High-Low. Baixo-Baixo. Agrupamentos de padrão Low-Low se caracterizam por municípios que recebem baixas transferências de renda (em valores relativos). sobretudo. Neste estudo. Baixo- Alto e Alto-Baixo. Low-High e High-Low ou respectivamente. correspondendo aos quadrantes do diagrama de dispersão de Moran (Anselin. no entanto. Também os 23 . o município recebe altos valores de transferências governamentais. a estatística I local como: ( yi  y ) wij ( y j  y ) j Il  (y i  y) 2 i n Neste caso. a identificação de clusters cujo padrão de associação espacial seja caracterizado como High-High. High-High. baseada na estatística I local. E[ I l ]   . o valor esperado da estatística E[ I l ] é wi . fornece as informações necessárias para a formação de agrupamentos (clusters) que representam os quatro tipos de associação linear espacial: High-High. seus vizinhos recebem valores considerados baixos. tal que. sendo wi. 2004). Para esse trabalho. 1995 apud Almeida. a partir das características dos municípios que as compõem. Estabelece-se. A estatística I de Moran Local faz uma decomposição do indicador global de autocorrelação na contribuição local de cada observação em quatro categorias. ocorrendo o inverso no caso Low- High. A construção do diagrama de dispersão de Moran. então. presumindo aleatoriedade. Low-Low. interessa. a fim de delinear espacialmente regiões que possam ser caracterizadas como “economias sem produção”. Benefícios da Previdência Social e/ou de Transferências Intergovernamentais.

tendo fornecido o maior valor para a estatística I de Moran. Selecionou-se utilizar o critério de contiguidade queen ou “rainha” numa matriz W binária. distância geográfica ou socioeconômica e. Esta etapa da metodologia consiste na estimação de uma regressão múltipla a partir de uma amostra em corte seccional dos municípios brasileiros no ano de 2008 a fim de estimar quais são os fatores que mais influenciam na relevância de cada uma das transferências nos municípios e de que forma se configura tal relacionamento.3. colinearidade não perfeita. amostragem aleatória. No que diz respeito à convenção de contiguidade. condensando um determinado arranjo das interações do fenômeno estudado. O Modelo Econométrico. ou seja. Quando se considera apenas fronteiras físicas de extensão maior que zero. ainda. wij. no caso em que são considerados os vértices ou nós nas regiões de vizinhança entre as localidades. Sob as hipóteses de linearidade nos parâmetros. 24 . são os melhores estimadores lineares não-tendenciosos. que pode ser definida de acordo com a vizinhança.agrupamentos Low-Low serão analisados com objetivo de distinguir aquelas regiões menos dependentes das transferências governamentais em nível das famílias e das prefeituras. Para se proceder a análise espacial é fundamental a construção de uma matriz de ponderação espacial. esta é denominada queen. 2004). além das fronteiras diferentes de zero. captam as influências da área j sobre a área i. que resume as influências espaciais. a contiguidade é denominada rook. com wij=0 caso os municípios não sejam vizinhos e wij=1 desde que os municípios sejam contíguos. pela combinação entre esses fatores (Almeida. média condicional dos erros igual a zero – isto é. 4. A estimação da equação será feita por meio do Método de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) que consiste na minimização do quadrado dos erros da regressão. Os elementos da matriz W de pesos espaciais. Seu conceito se baseia na contiguidade. o termo de erro não tem correlação com as variáveis explicativas – homoscedasticidade os estimadores de MQO são ditos BLUE (Best linear Unbiased estimate).

normalmente distribuídos em amostras de tamanhos suficientemente grandes” (p.164). em função da Lei dos Grandes Números. Desta maneira. é o IFDM. as equações a serem estimadas são:  PBF        1Y pc i   2 POi   3 I i   i  Y  Onde. de 2007 calculado pela Federação das Indústrias do estado do Rio de Janeiro. da proporção de pobres no município e de um índice que capte do desenvolvimento humano dos municípios. por sua vez. Pretende-se estimar regressões lineares tendo como variáveis dependentes as transferências diretas de renda como percentual do PIB dos municípios (Programa Bolsa Família e Benefícios da Previdência Social) em função do PIB per capita dos municípios brasileiros. de maneira aproximada. Segundo Wooldridge (2010). (R$ mil). ou Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal. não é preciso que se preocupe com a questão de os parâmetros serem normalmente distribuídos. O Índice de desenvolvimento humano municipal. o que significa que eles são. Ii o índice de desenvolvimento humano municipal (IFDM) correspondente. Y pc é a renda per capita do município (i).  PBF  é a relação entre os valores do Programa Bolsa Família em relação ao    Y  PIB (Y). POi é a proporção de pobres no município. e  i corresponde ao termo de erro da regressão. De forma análoga. “os estimadores de MQO satisfazem a normalidade assimptótica. Como no caso deste trabalho temos um número de observações superior a cinco mil e quinhentas. A proporção de pobres corresponde aos valores encontrados pelo Censo do IBGE no ano 2000. será estimada uma equação para a proporção das aposentadorias em relação ao PIB municipal  INSS  :  Y   INSS       1Y pc i   2 POi   3 I i   i  Y  25 .

4. Portanto. que consiste em estimar uma regressão auxiliar do quadrado dos resíduos. Ambas as regressões estimadas mostraram-se homocedásticas. Em relação ao teste de homocedasticidade foi utilizado o teste de White. o que fere um dos pressupostos do Modelo Linear Clássico. Caso o valor da VIF seja maior que 10 (VIF>10).Fonte e Tratamento de Dados Os dados utilizados na pesquisa são referentes ao ano de 2008 para os procedimentos referentes à AEDE. faz-se um teste de hipótese sobre a significância da segunda regressão. PIB per capita e População dos municípios no referido ano foram retirados da base de dados do IBGE. Com isso. conclui-se que há colinearidade perfeita entre as variáveis. 26 . “Finanças do Brasil – Dados Contábeis dos Municípios -2008” (FIINBRA/2008). bem como o número de famílias atendidas. A proporção de pobres dos municípios brasileiros foram extraídos da base de dados IPEA/Data e os dados sobre PIB. Serão considerados os dados referentes aos valores de transferências diretas de renda governamentais recebidas pelos municípios brasileiros. da regressão original. utilizou-se o Fator de Inflação de Variável (FIV). invalidando as interpretações do estimado de MQO. Os valores do benefício do Programa Bolsa Família (PBF) pago pelo governo federal foram obtidos junto ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. 4. Para testar a ausência de multicolinearidade. em função das demais variáveis explicativas e das combinações entre elas. os estimadores de Mínimos Quadrados Ordinários destas equações serão consistentes e não-viesados. Os dados referentes às transferências intergovernamentais e receitas totais dos municípios constam do banco de dados do Tesouro Nacional. Os valores das aposentadorias pagas pela Previdência Social. por município. Em nenhuma das regressões acima foi detectada multicolinearidade perfeita entre as variáveis explicativas. Ministério da Previdência Social. A hipótese nula (Ho) é a presença de homocedasticidade. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. em banco de dados que compreende tais valores entre os anos de 2004 e 2010. foram extraídos do Anuário Estatístico fornecido pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

observando a importância dos recursos advindos de outras esferas de governo sobre o orçamento das prefeituras e. apresentando um desvio padrão δ=R$ 5.905. do Município de São Paulo. Quanto às variáveis utilizadas. no ano em questão. 27 . 5. apresentando um desvio padrão δ= R$ 298. os valores per capita do Programa Bolsa Família e dos benefícios da Previdência Social nos municípios. são mais de 12 milhões de famílias atendidas pelo Programa.270.323. em média.00. O Índice de desenvolvimento humano municipal utilizado na regressão. também.845. o Programa Bolsa Família atendeu a 10. R$ 34. A regressão linear e as respectivas análises econométricas convencionais serão feitas com o uso do software Stata/SE 11. IFDM.95 por município.657. transferências intergovernamentais como proporção da receita total da administração pública municipal.500.0.123.48 por município. correspondente às transferências para o Município de São Paulo. valor máximo correspondente à R$ 16.193. foi obtido na base de dados da FIRJAN. Almeida (2004) destaca que é mais apropriado investigar aquelas espacialmente densas ou intensivas. O índice leva em consideração variáveis sobre educação. Foram enviados.606. R$1. as variáveis a serem consideradas no estudo foram: valores do Programa Bolsa Família como proporção do PIB municipal e das Aposentadorias da Previdência Social como proporção do PIB para avaliar a importância relativa dessas fontes de renda em relação à produção local. instituição responsável pelo seu cálculo.996 famílias.72 pagos a residentes. Portanto. Os Benefícios emitidos pelo INSS no mesmo ano foram. RESULTADOS E DISCUSSÃO No ano de 2008.00 em benefícios.638. alertando que o uso da Análise Exploratória de Dados Espaciais para variáveis extensivas pode levar a resultados enganosos.868.929.489. saúde e emprego e renda.51 e um valor máximo de R$ 172.70 e. totalizando R$10.633. Para proceder a análise de clusters por meio da AEDE.598. Atualmente. em média.573. Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. utilizou-se o software GeoDa 095i.557. isto é. variáveis divididas por um indicador de intensidade.

46% da receita total dos municípios brasileiros. os gastos com seguridade social são mais abrangentes que os gastos com o PBF. pensões e benefícios pagos pela Previdência Social representam em média 10. abaixo. É possível observar que. 28 . as transferências do Programa Bolsa Família representam em média 1.82 Benefícios do INSS (% do PIB) 10. enquanto as aposentadorias. A figura 5.75% do PIB municipal. Nos últimos anos é possível observar uma trajetória ascendente nas transferências diretas de renda.50% 1. Quanto às transferências intergovernamentais.1.1. são apresentadas as estatísticas descritivas das variáveis ponderadas: Tabela 5.23% 8.46% 13. entre 2000 e 2009. para as regiões Brasileiras. o crescimento dos valores acompanha a mesma trajetória esboçada a nível nacional.55 Transferências Intergovernamentais (% da receita municipal) 90. mostra a evolução dos valores pagos pela Previdência Social.22 Para o conjunto dos municípios brasileiros. no máximo R$ 242. elas representam em média 90.23% do produto municipal. Na Tabela 5.1: Estatísticas Descritivas das Variáveis Ponderadas Variável Média Desvio Padrão Bolsa Família (%do PIB) 17. além disso.00. em geral. A medida de tendência central (média aritmética) e de variabilidade (variância) são fortemente influenciadas pela variabilidade existente nos valores absolutos das transferências para os municípios brasileiros. Naturalmente. os valores pagos individualmente pela Previdência Social (a partir de um salário mínimo) são bastante superiores ao limite dos valores pagos pelo Bolsa Família.

EVOLUÇÃO DOS VALORES DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA. como pode ser observado na figura 5. diferentemente do caso anterior.2.000. da mesma forma.00 Região Nordeste 600. para uma tendência crescente em todas as regiões. Evolução dos Valores do Programa Bolsa Família. 2004 a 2010. 2000 a 2009 250000 Valores (milhões) 200000 REGIÃO NORTE REGIÃO NORDESTE 150000 REGIÃO CENTRO-OESTE 100000 REGIÃO SUDESTE REGIÃO SUL 50000 BRASIL 0 00 01 02 03 04 005 006 007 008 009 20 2 0 2 0 20 20 2 2 2 2 2 Ano Fonte: Elaboração Própria Figura 5. 29 .200.00 Região Norte 800. Evolução dos Benefícios Emitidos pelo INSS entre 2000 e 2009.00 Brasil 0. 2004 a 2010 1.400. No entanto.2. EVOLUÇÃO DOS BENEFÍCIOS ANUAIS EMITIDOS PELO INSS. A evolução dos valores do Programa Bolsa Família entre 2004 e 2010 aponta. apenas a Região Nordeste apresenta uma tendência mais acentuada que se assemelha com à trajetória do programa em nível nacional.1.00 Região Sudeste 200. Fonte: Elaboração Própria Figura 5.00 1.00 Valores (milhões) Região Centro-oeste 1. de forma contínua ao longo do tempo.00 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Ano .00 Região Sul 400.

dentro da organização espacial dos municípios brasileiros. a partir do software GeoDa 095i. utilizaram-se as estatísticas da Análise Exploratória de Dados Espaciais. de um padrão de distribuição espacial nas transferências de renda.3. como ilustrado na figura 5. indicando uma similaridade entre os valores relativos do Bolsa Família no município observado e em seus municípios vizinhos. ou não. tal resultado indica que a relevância dessa transferência condicional de renda para a 30 . Para analisar a existência. De qualquer forma.8329 da distribuição dos Valores do Programa Bolsa Família sugere a presença de regiões onde tal modalidade de transferência representa uma importante fonte de renda para um conjunto de municípios bem como regiões caracterizadas por municípios menos dependentes do Programa.3: Diagrama de Dispersão de Moran para Valores do Programa Bolsa Família Como Proporção do PIB A correlação espacial I  0. Figura 5. O valor da estatística I de Moran global para os valores dos benefícios do Programa Bolsa Família em porcentagem do PIB aponta no sentido de uma forte autocorrelação espacial positiva. Fonte: Elaboração Própria.

principalmente. proporções elevadas de sua população vivendo com baixos níveis de renda e acesso deficitário a bens e serviços essenciais.065 9.20% 1. mostrando a formação de clusters.89% 5. em 2008.46% Região Sul 249.354 100% 9.222 21.300 10. A Figura 3. Tabela 5. A Região Nordeste apresentou.14% 416. e Norte do Brasil.215 57. as principais beneficiadas pelo Programa Bolsa Família. se comparado com a produção local.307.2: Distribuição de Domicílios Pobres e Extremamente Pobres entre as Regiões Brasileiras . saúde e saneamento. 31 . O resultado encontrado pode ser explicado pela própria configuração geográfica dos indicadores socioeconômicos brasileiros e pela focalização do Programa Bolsa Família.4 permite uma clara distinção entre o comportamento dos valores transferidos aos municípios pelo PBF em relação à produção local em grande parte do Nordeste e na parte centro-sul do Brasil.851 4. como pode ser observado na tabela 5.303.economia local.2. 57.383 4.498 8.00 em valores atuais. é consideravelmente influenciada pela localização geográfica do município.004. Tais municípios apresentam. em geral.88% dos domicílios classificados como extremamente pobres no Brasil.33% Região Norte 304. Há uma maior concentração de municípios menos desenvolvidos nas Regiões Nordeste.02% Brasil 3.366 52.73% Região Sudeste 701.912.040. com renda familiar de até R$ 140.001 7. A estatística LISA permite que se analisem agrupamentos de municípios que apresentem o mesmo comportamento desta variável no espaço brasileiro.927 24. São essas famílias.54% 838.45% Região Nordeste 1.474 100% Fonte: Elaboração Própria. Dados: IPEA/Data Portanto.607. tais como educação básica.23% 2. é de se esperar que a Região Nordeste concentre a maior quantidade de municípios com alto percentual de beneficiários do Bolsa Família.2008 Domicílios Extremamente Pobres Domicílios Pobres Região Unidades Percentual Unidades Percentual Região Centro-Oeste 136.

são identificados clusters espaciais distintos de característica High-High em municípios das mesorregiões Sudoeste Amazonense (Japura. Tonantins. onde 32 . É notório o contraste da importância relativa do PBF no Brasil. Além do agrupamento que claramente se forma. 2008. por meio do software GeoDa. Dados: MDS e IBGE Figura 5. bem como municípios do Norte de Minas Gerais e dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.4: Mapa de Clusters Lisa Univariado para Valores do Bolsa Família como proporção do PIB. Centro Amazonense (Barreirinha e Parintins). compreendendo a maioria dos municípios nordestinos. Fonte: Elaboração Própria. que apresentam economias mais dinâmicas e melhores indicadores sociais. Amatura e São Paulo de Olivença). correspondente em grande parte à região do Semi-Árido e um grande cluster de padrão Low-Low que se entende do Extremo-Sul até as Regiões Sudeste e Centro-Oeste. evidenciado pela formação de um grande cluster de padrão High-High (High-High) abrangendo a maior parte do interior nordestino. Jutai.

quanto do ponto de vista da população existente. De maneira semelhante a grande maioria do interior da Região Nordeste configurou um único cluster de padrão de High-High. Araçuaí. Em geral. e afirma que as políticas que visem reduzir a pobreza precisam atuar nas desigualdades econômicas regionais.5 e 5. Santo Antônio do Jacinto e Guaratinga (MG). sobretudo nas áreas rurais e pequenas municípios. cujo objetivo é o combate à fome estejam focalizados da forma que se vê na estrutura de clusters resultante deste estudo. um estudo da Cepal (2003) defende que a segmentação regional é uma questão central para explicar a desigualdade de renda e pobreza no Brasil. fica evidente que o Programa Bolsa Família é uma fonte de renda relevante tanto do ponto de vista dos demais rendimentos. os municípios desses clusters pertencem àquele correspondente ao PFB como proporção do PIB. três agrupamentos principais com padrão Baixo-Baixo. Os clusters de mesmo padrão na região Norte não são coincidentes quando se altera o denominador de PIB para população residente. 33 . isto é. Os resultados são ilustrados pela figura 5. Nessa região como um todo.também há forte incidência de pobreza. obteve-se de forma semelhante um valor elevado para a estatística I de Moran global I  0. Considerando tal argumento.8531 . considerando-se o benefício per capita. Palmópolis. ainda. é razoável que os recursos do PBF. Identifica-se. indicando também uma autocorrelação espacial positiva significativa. Os clusters espaciais de padrão High-High se mostraram semelhantes aos obtidos ao ponderar o valor do PBF pelo produto municipal. e Rubim. Joaíma. Ponto dos Volantes e Caraí (MG). Chapada do Norte (MG). aproximados pelo PIB. Ao se ponderar as transferências do Programa Bolsa Família pela população dos municípios. São clusters distintos de padrão High-High: Ribeirão do Largo e Macarani (Ba). Nesse aspecto. Itinga (MG). a seguir.6.

Fonte: Elaboração Própria.5: Diagrama de Dispersão de Moran para Valores do Programa Bolsa Família per capita. Figura 5. 2008. usando o software GeoDa. 34 .

7 ilustra essa relação. o que significa que. as características regionais (ou espaciais) são importantes na definição do seu valor em relação ao PIB de um dado município. Tal diferença observada na autocorrelação espacial global entre aposentadorias e PBF pode ser influenciada também pelas características dos benefícios concedidos pelo INSS. Dados: MDS e IBGE Figura 5. Fonte: Elaboração Própria usando o software GeoDa. A Figura 5. Apesar de apresentar um I valor menor ( I  0. mantém-se uma relação positiva de dependência espacial. resulta num coeficiente de autocorrelação espacial sensivelmente mais baixo que aquele observado para o caso do Bolsa Família.3101 ). também para os valores das aposentadorias. 2008. A mesma análise para a distribuição espacial dos Benefícios da Previdência Social. Uma boa parte desse valor se refere a 35 .6: Mapa de Clusters Lisa Univariado para Valores per capita do Bolsa Família. enquanto componentes da chamada “Economia sem Produção”.

de forma semelhante à variável anterior. Figura 5. mais frequentes e significativas em regiões com maior atividade econômica.7: Diagrama de Dispersão de Moran para Valores de Benefícios da Previdência Social por município. encontram-se menos concentrados. predominantemente. os valores referentes às aposentadorias rurais e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) são. A análise de cluster a partir da LISA. Observa-se a formação de um número maior de agrupamentos que. de fato.8. por sua vez. Os clusters de padrão High-High permanecem. 2008. situados 36 .aposentadorias concedidas por tempo de contribuição. Fonte: Elaboração Própria por meio do software GeoDa. apresenta um cenário um pouco diferente do observado quanto aos valores relativos do PBF. Por outro lado. como pode ser visto na Figura 5. transferências diretas de renda sem a exigência de qualquer contrapartida.

Dados: Ministério da Previdência Social. Agrupamentos importantes são identificados na região do centro-leste maranhense e norte do Estado do Piauí. 37 . provavelmente. de que a expansão das aposentadorias rurais e a criação da Loas (Lei Orgânica de Assistência Social). na região do Sertão Cearense e Vales do São Francisco de Pernambuco e Bahia. Essas regiões apresentam populações rurais relativamente maiores que no Brasil como um todo. principalmente no semi-árido. centro-sul da Bahia e Vales do Jequitinhonha e Rio Doce em Minas Gerais.no interior da Região Nordeste. impactaram significativamente no Nordeste e com maior força no semi-árido. Essa região tem como característica a informalidade das atividades econômicas. que concede benefício a idosos e portadores de deficiência que nunca contribuíram para a previdência. o que parece corroborar a tese defendida por Gomes (2001) e Araújo e Lima (2009). o que indica que. Sertão e Agreste de Alagoas e Pernambuco. Fonte: Elaboração Própria usando o software GeoDa. as aposentadorias constituam um sistema de transferência de renda para o semi-árido por parte das demais regiões brasileiras.

as Regiões Norte e Centro-Oeste receberam ao todo. SC e PR). Tabela 5. As aglomerações per capita dos benefícios da Previdência com padrão High-High. Região Valor Recebido Percentual Norte 7. 2008.09 52. Outros agrupamentos High-High são observados no interior de São Paulo e interior da Região Sul. refletem o fato de serem mercados de trabalho relativamente novos. Visconde do Rio Branco. Figura 5. 2008.3: Valor Anual dos Benefícios Emitidos Pelo INSS segundo as Regiões Brasileiras.066.204. neste caso. no ano de 2008.522.957.22% Sudeste 100.3.219. Há na Zona da Mata mineira.92 21.872. respectivamente.61% Sul 33. apenas 3. A análise de cluster para os benefícios per capita emitidos pelo INSS revela um cenário distinto daqueles agrupamentos observados anteriormente (Figura 5.681. norte/noroeste fluminense (microrregião de Campos dos Goytacases) e Zona da Mata Mineira (nas proximidades de Leopoldina). a Região Norte se comportou quase como um único agrupamento Low-Low.78% Brasil 190.72% e 4.801.542.641.9).08 100. Brotas de Macaúbas e Ipupiara formam um desses clusters. As menores participações regionais para essas duas regiões.590. Guiricema.249. ainda. estão localizadas nas Regiões Sul e Sudeste. os municípios de Gentio de Ouro. um cluster compreendendo as cidades de Juiz de Fora.251. São Geraldo.54 4.72% Nordeste 40.387.102.71%. Outro agrupamento pode ser observado em municípios da região que compreende o extremo sul do Espírito Santo (por exemplo.28 3. No centro norte baiano. abrangendo os três estados (RS.974. afirmam Cacciamali e Camilo (2009). 38 .67% Centro-Oeste 8.25 17. Coimbra. Como se pode observar na Tabela 5. dos benefícios emitidos pelo INSS.641. Tocantins e Rio Pomba. dada a ocupação mais recente.00% Fonte: Elaboração Própria a partir dos dados do Ministério da Previdência Social. Mesmo nesse cenário onde se analisa o valor per capita. Cachoeiro de Itapemirim). Os municípios que formam clusters de padrão Low-Low de agrupamento para esta variável se concentraram nas Regiões Norte e Centro-Oeste.8: Mapa de Cluster LISA para Benefícios da Previdência Social em Relação ao PIB dos municípios. Ubá.963.

A Figura 5. As transferências intergovernamentais. como comentado anteriormente. Fonte: Elaboração Própria a partir de dados do Ministério da Previdência Social Figura 5. foram incluídas por Gomes (2001) na definição de “economia sem produção”.10 mostra a existência de autocorrelação espacial positiva no que se trata das transferências intergovernamentais. Essa variável busca avaliar o quanto os municípios são dependentes de verbas provenientes das outras esferas governamentais. fez-se um estudo analisando o padrão espacial de distribuição das transferências intergovernamentais recebidas pelas prefeituras municipais como proporção da sua arrecadação total.9: Mapa de cluster LISA Univariada para Benefícios per capita emitidos pelo INSS em 2008. 39 . Por fim.

com números menores de municípios e menos concentrados no território nacional. 2008 A Análise dos clusters pela estatística LISA. no entanto. Rio de Janeiro. Figura 5.11 permite que se identifique um número maior de agrupamentos que as análises anteriores. Fonte: Elaboração Própria utilizando o software GeoDa. Deve-se destacar que os principais clusters de padrão High-High encontram-se na Região Nordeste e na Região Norte enquanto grande parte dos agrupamentos Low-Low estão situados no centro-sul do Brasil.10: Diagrama de Dispersão de Moran para Transferências Intergovernamentais em Relação à Receita Total dos Municípios. como pode ser observado abaixo: 40 . com destaque para quase a totalidade do Estado de São Paulo. interior do Paraná e extremo sul do Rio Grande do Sul. através da Figura 5.

que não fizeram parte dos estudos iniciais sobre a “Economia sem Produção”. via de regra. 41 . Os agrupamentos mostraram que. evidenciam a forte correlação espacial existente para a elevada relevância exercida pelas transferências diretas de renda. na região semi- árida Nordestina. sobretudo Programa Bolsa Família. aquela é a região no Brasil que apresenta maior dependência das transferências governamentais. A elevada participação das transferências nos municípios apresentou alta dependência espacial para municípios do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. A análise espacial. 2008. Fonte: Elaboração Própria a partir de Dados da FINBRA_2008 (Tesouro Nacional). corroborando com a análise feita por Gomes (2001) e Araújo e Lima (2009) de que existe naquela região uma “economia sem produção”. por meio da formação dos clusters.11: Mapa de cluster LISA Univariada para Transferências Intergovernamentais como proporção da Receita Total dos Municípios. Figura 5.

baixa renda per capita como um todo e baixos níveis de desenvolvimento humano. R²  0. Os resultados da regressão acima mostram que.056 p. 42 .84% pelos valores do PIB per capita.209 pontos percentuais. o aumento de um ponto percentual no percentual de pessoas pobres na população local. encontrou-se o seguinte resultado. eleva em 0.014 pontos percentuais na proporção do PBF sobre o PIB dos municípios. Para analisar os efeitos dessas características sobre a participação das transferências na renda dos municípios. Os resultados indicam que os agrupamentos dos municípios mais dependentes das transferências que compõem a “economia sem produção” estão localizados nas regiões menos desenvolvidas do país. o peso relativo do PBF sobre a economia local se eleva em 0. Pode-se concluir que a variação na proporção dos Benefícios do Programa Bolsa Família sobre o PIB dos municípios brasileiros é explicado em 72. Para cada redução de 0. foram realizadas regressões lineares múltiplas para um corte transversal dos municípios brasileiros no ano de 2008. Para os valores do programa Bolsa-Família como proporção do PIB.1 unidades no índice de desenvolvimento municipal. desenvolvimento humano e percentual de pobres em cada município. caracterizadas por alta proporção de pobres em sua população.7284 Todas as variáveis mostraram-se estatisticamente significantes ao nível de 1%. uma relação positiva. a cada variação positiva em R$1 mil na renda per capita anual dos municípios brasileiros. ocorre uma redução de 0.p a razão PBF/PIB. Verifica-se que todas as variáveis apresentaram os sinais esperados: o PIB per capita e o índice de desenvolvimento dos municípios brasileiros estão negativamente correlacionados com a magnitude relativa dos valores do Bolsa Família em suas economias. Por sua vez. e a proporção de pobres em cada localidade.

desenvolvimento econômico e renda per capita afetam de forma bem mais significativa a participação do Programa Bolsa Família na economia dos municípios brasileiros do que a participação da renda recebida pelos aposentados e pensionistas do INSS. As demais variáveis foram estatisticamente significantes ao nível de 1%. nota-se claramente que os recursos do Programa Bolsa Família são distribuídos nas regiões brasileiras priorizando aquelas áreas mais carentes. menos desenvolvidas e com menor produto per capita. O PIB per capita se mostrou negativamente relacionado com a razão INSS/PIB. enquanto o percentual de pobres nos municípios foi positivamente correlacionado com a proporção das aposentadorias no PIB municipal.59% da variação dos seus valores. será feita a análise dos respectivos coeficientes de correlação (r). com -1<r<1. obteve-se a seguinte equação: R²  0. Um valor de r=o indica a ausência de correlação. como proporção do PIB dos municípios brasileiros. No caso dos valores dos benefícios emitidos pela Previdência Social (INSS) em 2008 como proporção do PIB dos municípios. as variáveis associadas à pobreza. o que está plenamente de acordo com os objetivos a que ele se propõe. À medida que r se aproxima de -1 43 . correspondente ao Índice de Desenvolvimento Municipal não se mostrou estatisticamente significante para explicar a relevância das aposentadorias. A variável IFDM. que consistem em medidas de associação linear entre as variáveis. os fatores escolhidos explicam apenas 11. Pode-se concluir que. Portanto. A fim de se observar quais destes fatores são mais relevantes na determinação da participação de cada tipo de transferência na economia dos municípios brasileiros.1159 No caso dos benefícios agregados do INSS. apesar de tanto o Programa Bolsa Família como os Benefícios Previdenciários atuarem como transferências diretas de renda. pensões e benefícios previdenciários no PIB dos municípios.

3144 -0. Este resultado sugere que. enquanto a relevância do Programa Bolsa Família nas economias municipais está mais vinculado às variáveis e indicadores sociais intensidade da participação relativa das aposentadorias e pensões varia em maior grau conforme variáveis majoritariamente econômicas. Os Coeficientes de Correlação podem ser observados na tabela 5.4. quando r se aproxima de 1.: Coeficientes de Correlação entre os Programas de Transferência de Renda e as Variáveis Variáveis Programas de Transferência PIB per capita IFDM Pobres (% da População) Bolsa Família (% do PIB) -0. o PIB per capita é.4.2562 Fonte: Elaboração Própria O percentual de pobres em relação à população total mostrou-se a variável mais correlacionada com a participação do Programa Bolsa Família na economia dos municípios.2428 0. seguida pelo Índice de Desenvolvimento Municipal.: Tabela 5. dentre estes fatores.significa maiores correlações negativas e.8457 Benefícios Previdenciários (% do PIB) -0. o mais correlacionado com a sua proporção em relação ao produto das localidades estudadas.4602 -0.7581 0. tem-se valores positivamente correlacionados. No caso dos benefícios previdenciários. 44 .

os recursos previdenciários e as transferências intergovernamentais. notou-se a formação de poucos agrupamentos que.. que tem a renda per capita das famílias como principal fator que determina aqueles a serem beneficiados. Foi possível identificar a formação de clusters espaciais bastante significativos para as transferências diretas de renda. tais valores foram consideravelmente menores que no caso anterior. contudo. Os resultados apontaram. em relação às demais transferências. a formação de grandes agrupamentos de padrão Low-Low para a participação das transferências nas Regiões Sul. apesar de apresentarem estatística I de Moran positiva e estatisticamente significativa. Em relação aos valores do Programa Bolsa Família e os Benefícios Previdenciários. como um único agrupamento no qual o alto valor relativo das transferências num município se mostrou altamente correlacionado com seus vizinhos. tais regiões estão compreendidas em basicamente um único cluster de municípios. No caso do Programa Bolsa Família. em geral.CONCLUSÕES Os resultados encontrados mostram a existência de um padrão positivo de distribuição espacial para as transferências de renda como proporção do PIB e das transferências intergovernamentais como proporção da receita total das prefeituras municipal. Nesse sentido. O semi-árido e algumas regiões litorâneas do Nordeste e partes do Norte de Minas Gerais se comportaram. a mais influenciada por características regionais. O Programa Bolsa Família apresentou os resultados mais significativos de dependência espacial entre municípios. com pequena participação da renda gerada por ele no conjunto dos demais rendimentos gerados no local. que pode ser aproximado pelo PIB. fica evidente que a localização espacial dos municípios é importante na distribuição dos recursos do governo. Esse resultado indica que o Bolsa Família é. Este fato se deve à própria focalização do programa. por outro lado. Os demais programas de transferência analisados. 45 . Sudeste e Centro-Oeste. apresentaram grande abrangência de municípios ao longo de vários estados e regiões do país.6.

deste modo. 46 .84% das variações na participação relativa dos valores do Programa Bolsa Família entre os municípios brasileiros. por último. caracterizada por baixos valores para o PIB per capita. A análise dos recursos do Bolsa Família como proporção do PIB expôs. E. como um todo. quanto à proporção das aposentadorias e pensões da previdência no PIB municipal. portanto. Os resultados evidenciaram a constatação anterior ao mostrarem que o PIB per capita. Tal fato não se repete. do PIB per capita. o Índice de Desenvolvimento Municipal e a Proporção de Pobres dentro da população explicaram 72. estando os dois últimos negativamente relacionados com a referida proporção. com correlação linear positiva de 0. a influência dos indicadores sociais tem impactos menores e a medida de desenvolvimento municipal não se mostrou estatisticamente significante. Já. Os resultados mostram que. fica evidente a influência dos fatores socioeconômicos que distinguem essas regiões na formação destes dois clusters de características opostas. uma clara distinção entre a sua participação na economia da Região Nordeste do país e o Centro-Sul do país.59% de seu valor é explicado por tais indicadores. seguida do índice de desenvolvimento municipal e. no ano de 2008. Nesse aspecto. o papel desempenhado por elas na economia dessas localidades está intimamente ligado com a estrutura econômica e social da região.8457. alta incidência de pobreza e baixos níveis de desenvolvimento. entretanto. mesmo quando se avalia os municípios individualmente. o indicador que mais o influencia é o PIB per capita. É possível notar que as transferências de renda governamentais assumem papel relevante na Região Nordeste como um todo. no caso dos Benefícios Previdenciários em que apenas 11. A Proporção de Pobres é o principal determinante da relação Bolsa Família/PIB nos municípios brasileiros.

1995. 47 . O impacto do crescimento econômico e de reduções no grau de desigualdade sobre a pobreza.0(36). Salário Mínimo. Exploring Spatial Data with GeoDa™: A WorkBook. Ricardo. v. CACCIAMALI.br/nereus/td/Nereus _22_03.usp. 27(2): 93-115. 2009. uma análise de iniciativas de políticas públicas. v. ESALQ-USP: Piracicaba. A. BARROS. ABRAMOVAY. IL. 1997. ago. ARAUJO. S. Maria Cristina e CAMILO. Escritório no Brasil/DFID. R. Magalhães. n. L.econ. ANSELIN. In: Pobreza e mercados no Brasil. et. J. SAES. School of Social Sciences. (http://www. Mercados do empreendedorismo de pequeno porte no Brasil.al. São Paulo: 24 de janeiro de 2002. Brasília: Department for International Development/ CEPAL. Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo. C. Diloá. P. Eduardo Simões de. [16 maio 2004]. Urbana. . 2003. Texto para discussão nº 528 – IPEA. Redução da desigualdade da distribuição de renda entre 2001 e 2006 nas macrorregiões brasileiras: tendência ou fenômeno transitório? – Economia e Sociedade. 1999. 2005. Local Indicators of Spatial Association – LISA. Pobreza e Mercados no Brasil: uma análise de iniciativas de políticas públicas. Vladimir Sipriano. Luc. Escritório no Brasil. 2009. p. ALMEIDA. 2004. MENDONÇA. Spatial Econometrics. Limites da “economia sem produção”. Gazeta Mercantil. LIMA. E. ANSELIN. Geographical Analysis. Luc. S. Bolsa Família e Desempenho Relativo Recente da Economia do Nordeste. Dallas: Bruton Center. p. 33. SOUZA. BARROS.pdf) ANSELIN. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY. 2003.287-315. Foz do Iguaçu: ANPEC. R. 2009.18. 45-77. 2003. Ricardo Paes de. ALMEIDA. Campinas. Luc. Brasília: CEPAL. Curso de Econometria Espacial. CEPAL. The Spatial Pattern of Crime in Minas Gerais: An Exploratory Analysis.fea. R. . Transferências de renda e empregos públicos na economia sem produção do semi-árido nordestino. Alexandre Rands e ATHIAS. M. Rosane. XXXVII Encontro Nacional de Economia. Planejamento e Politicas Publicas.

H. 842-859. Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.F. da Concentração da Renda e das Transferências Governamentais sobre a Pobreza nos Municípios Brasileiros. p. (2001).FAJNZYLBER. Campinas: Unicamp.293-316.59. MEDEIROS.1. novembro de 2007. LANDIN JR. v.gov. MARQUES. p.org/publications/mds/33P. PAULO M. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Transferências de Renda no Brasil.32. Previdência e Assistência Social: Efeitos no Rendimento Familiar e suas Dimensões nos Estados. e LIMA.firjan. F. Cristiano Aguiar de. Brasília: Editora Ipea. Marcelo. Alexandre Gori. Pobreza no Brasil: uma perspectiva multidimensional. (1989). Nova Economia. 2005. e TEBALDI. Fortaleza. Análise 48 . MENDES. Revista Econômica do Nordeste. Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: Relatório Nacional de Acompanhamento – Brasília: IPEA.br> OLIVEIRA. IFDM – Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal 2007.20 (3).ipc- undp. Porto Alegre. 461-490. Brasília: IPEA. F. CEBRAP.ipeadata. P. 2001. Crescimento.br/data/pages/2C908CE9229431C90122A3B25FA534A2. n.A. Desenvolvimento e Cidadania. KAGEYAMA.ibge. Francisco Soares de.33. Tatiana. Economia e Sociedade. Rodolfo. HOFFMANN. Ângela. E. 2006. A contribuição das fontes de rendimento na dinâmica da distribuição espacial de renda no Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. GOMES. Áquilas. Industrializacion en America Latina: de la “caja negra” al “casillero vacio”. Comunicado n°. JORGE NETO. Gustavo Maia . Disponível em <http://www.br. ______. 60. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.. IPEADATA.15.htm> acessado em 01 de julho de 2011. 2010. Velhas Secas em Novos Sertões. Impacto do Crescimento. International Policy Centre for Inclusive Growth (IPC-IG). setembro-dezembro de 2010. Disponível em: http://www.pdf> MAIA. BRITTO.mds..br. n. p. MDS. Disponível em: <http://www.D. BARRETO. n. Indicadores Econômicos FEE. v. IBGE. Novos Estudos. e SOARES. (2009) Os Efeitos do Programa Bolsa Família sobre a Economia dos Municípios Brasileiros.gov. Rosa Maria.org. Fábio. v. Disponível em: http://www. Cuadernos de la CEPAL. 2010.gov. Disponível em: <http://www. Belo Horizonte. “Desigualdade de Renda e Crescimento Econômico no Nordeste Brasileiro”. jun. n.1.

Cadernos de Ciência e Tecnologia (EMBRAPA). PNUD. José Lacerda Alves. MG: 2010. Washington DC: 2004 ROCHA. p.Econômica. 22. TONNEAU.159-180. Informe da Previdência Social. Brasília.org. Rio de Janeiro. FELIPE. 49 . Development Research Group. 2005. Avaliando o impacto do programa Bolsa Família: uma comparação com programas de transferência condicionada de renda de outros países. Disponível em: <http://www. J. p. Introdução à econometria: uma abordagem moderna. 67-82. nº01. R. Fabio Veras et al.1. n. MPAS. Brasília. Acesso em: 26/02/2008. v. Sônia. VALE.53. J. Redução da pobreza e transferências governamentais: Um estudo de caso para o estado Rio Grande do Norte na região Nordeste brasileiro. 2007. e RAMOS. Fábio Veras. RIBAS. o. Caxambu. Martin.A. Pro-Poor Growth: A Primer . 67-96. Tásia Moura Cardoso do. 1. WOOLDRIDGE. 2008. 2006. SOARES.pnud. mar. n. SANDI. ano 28. Jeffrey M. TEIXEIRA.ABEP. Programa das nações unidas para o desenvolvimento. Maria Célia de Carvalho. O. Trabalho Completo. Ricardo Dinarte & HERINGER. Luiz Pércio – A Previdência Social nos Municípios do Semi-Árido Brasileiro.P. 2010. . SOARES. Rafael Guerreiro. XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais . Revista e Economia Contemporânea. Rafael Perez. World Bank. . International Poverty Center. agosto de 2001.2010. São Paulo: Cengage Learning. Programas de transferências de renda no Brasil: impactos sobre a desigualdade. FORMIGA. AQUINO. Paulo César Formiga. RAVALLION. Revista da ANPEC. Porto Alegre. v. Transferências de Renda Federais: Focalização e Impactos sobre Pobreza e Desigualdade. IPC Evaluation Note. n.br>. abr.12. Modernização da agricultura familiar e exclusão social: o dilema das políticas agrícolas. OSORIO.