Humanismo em Portugal

Na segunda metade do século XV e no princípio do século XVI, a cultura portuguesa, pese
embora algum dinamismo, ainda tinha fortes influências da cultura medieval, sendo uma espécie
de revigoramento dessa cultura.

D. João III patrocina, então, uma educação e uma produção cultural em linha com o Humanismo
Cristão europeu, no regresso às fontes clássicas, das descobertas marítimas, e fazendo surgir em
1520/30 obras marcantes em diversos domínios, ultrapassando a escolástica medieval.

D. João III promove o Humanismo e o ensino Humanista em Portugal através de uma série de
medidas:

– o envio de bolseiros para França (1527);
– transferência da sede do Estudo Geral para Coimbra (1537);
– fundação do Colégio Real das Artes (1547, inaugurado em 1548), uma antecâmara preparatória
dos estudos de grau superior, ministrado de acordo com as novas regras pedagógicas.

Na década de 1550, o clima de Reforma e Contra-Reforma faz-se sentir em Portugal. Por
exemplo, a fundação da cadeira de Anatomia, nessa década, teve vida curta, sendo abandonado
o seu ensino em poucos anos, anunciando um inequívoco recuo das disciplinas científicas e do
seu ensino em Portugal.

O Colégio Real das Artes acabou por ir parar às mãos da Companhia de Jesus. Depois do
investimento significativo por parte da Coroa desse Humanismo Cristão, começava a haver uma
reorientação decisiva na História da Cultura Portuguesa.

O Humanismo global aponta para os valores que colocam no Homem a sua centralidade; porém,
pode falar-se de vários Humanismos, com tónicas diferentes, se nos focarmos nos diversos
ângulos de incidência desses valores.

Ciências Pré-Humanistas em Portugal:

Teologia (“rainha de todas as rainhas”)
Filosofia (“sua companheira e irmã”)
Direitos, civil (“santíssimo”) e canónico (“divino”), e Medicina
Gramática

António de Nebrija rompe com as concepções clássicas do ensino do Latim e das ciências
humanas, das quais a origem da sua má aprendizagem se deveria e um ensino deficitário do
Latim. Ao proclamar a gramática como chave para a reforma cultural e moral, Nebrija rompia com
o Classicismo medieval, e abria portas ao Humanismo.

A importância dos descobrimentos na fundação do Humanismo em Portugal a mais não se deve
que ao facto de colocar realmente o Homem no centro dos valores e da cultura, numa altura de
expansão e conquista.

Aquando do estabelecimento do Estudo Geral em Coimbra, importou haver a separação do ensino
preparatório do ensino universitário, que, por avultado investimento da Coroa, permitiu fundar
várias novas faculdades e recrutar os melhores professores estrangeiros. Contudo, o ensino
preparatório revelou-se pouco eficaz. O plano do rei D. João III era, na altura, mandar vir do
estrangeiro os bolseiros que tinham ido estudar para fora, e recuperar o investimento feito na sua
educação.

O Colégio das Artes tinha como objectivo oferecer um ensino preparatório laico (porque do
domínio estatal, e não da igreja) e cristão (onde os ensinamentos humanistas do cristianismo
seriam o vértice central).

Plano de estudos:

Instrução primária
Humanidades
Filosofia + Grego, hebraico e matemática
Graduação em Artes
Acesso à Universidade

Devido à instauração do Santo Ofício e da Inquisição no mesmo ano que a fundação do Colégio
das Artes, grande parte das obras no Colégio seriam censuradas, e, em vez do humanismo
progressista que se desejava, o seu ensino foi mais no sentido de um integrismo contra-
reformista. Deve-se esse percurso muito ao facto do fundador do Colégio ter cindido com o
mesmo e levado consigo para Bordéus os melhores professores e bolseiros.

O Humanismo dos Descobrimentos vai ao encontro do movimento de ideias abertas ao povo
ibérico. Aos escritores da altura passou a interessar menos codificar o saber em volumes de livros
do que relatar as suas vivências nos descobrimentos, dando voz e corpo ao deslumbramento
perante o que era visto, e ao despertar do cepticismo perante a tradição cultural e científica. É um
Humanismo que questiona e experimenta a Natureza, sem se curvar perante os saberes da
Antiguidade, preferindo apelar à razão e experimentar.

Contudo, essa renovação de saberes não quer, necessariamente, dizer inovação. O saber
abstracto dos textos prevalecia em relação ao concreto fisico-natural. Ao enveredar pela “filosofia”,
no Colégio das Artes, a física era deixada para trás em prol da ética e da metafísica, descurando
teórica e praticamente a observação da Natureza.

em guerra com a Argentina). que podia vetar as leis do parlamento. onde chega. outorgada por D. – o Rei passou a deter o poder moderador. Câmara de deputados: poder legislativo Rei: poder executivo. que considera que só o Rei pode estar acima dos interesses e quezílias pessoais. porém. desta vez. a Câmara dos Pares. com juízes nomeados pelo executivo Em 1823 acaba o regime liberal constitucionalista. e demite D. que nomeia o Governo Tribunais: poder judicial. então. começam a mover-se para Lisboa. Miguel. Pedro no Brasil. D. D. o . Miguel pede voluntários contra esse levantamento liberal. jura fidelidade à Carta Constitucional. A revolução de 1820 tem como objectivo a instauração de uma monarquia constitucional. Pedro. que negaram a existência de uma câmara parlamentar para a nobreza. transformando. A Carta Constitucional de 1826. nomeados directamente pelo Rei. o absolutismo dinástico. a própria ideia de monarquia. João VI é libertado. Em 1827. é aclamado Rei. com estas medidas. A Constituição. suspender juízes. até. com subsídios concedidos pelo Rei. D. resultava da vontade do monarca. toda a gente a queria de volta. porém. mais concentradas no Norte. Pedro parte para Portugal. dissolve a Câmara dos Deputados e convoca as Cortes como antigamente – até com o vestuário usado pelas cortes setecentistas. Contudo. para eleger delegados às assembleias de comarca. tentou conciliar as visões opostas entre liberais e miguelistas. Com a morte do Rei nesse mesmo ano. que nomeavam delegados às assembleias de província. Os liberais de 1820 voltaram às terras de onde provinham.O Confronto entre Absolutismo e Liberalismo em Portugal (1820-1851) Com a Corte no Brasil. e nomear um Governo e escrutiná-lo. que tiraram o poder ao Rei de vetar as leis dos deputados. Contudo. do clero. torna-se regente. Regressa. e estabelecia vários pontos: – criou uma segunda câmara parlamentar. Em Dezembro. reservada à nobreza e ao clero. Estas medidas. alguns. Miguel cerca a cidade nortenha com um número substancialmente maior de homens que D. os homens adultos reuniram-se em assembleias de freguesia. depois de raptado por D. dissolver a Câmara dos Deputados. Contudo. Pedro. Em 1832. em direcção ao Porto. que escolheriam 100 deputados – eram as novas Cortes. entretanto. e conceder amnistias e moderar penas. D. Em Julho de 1828. as Cortes “à antiga” aclamam D. em 1828. Logo D. por considerarem ser Portugal “a colónia de uma colónia”. Pedro. grupos sociais afastados do poder pelos liberais. seu outro filho e regente do Brasil. poucos meses depois. com o apoio dos fidalgos. com órgãos representativos e eleitos. só serviram para polarizar os liberais e os miguelistas. Miguel. por via da promessa de casamento com a filha de D. através das suas funções enquanto chefe do poder executivo e do Rei enquanto árbitro entre os poderes do Estado. Em 1826. Pedro. As forças liberais do exército. convocar e adiar as Cortes. e. – o direito de voto estaria sujeito a um rendimento mínimo. que se dissolve muito em parte pela falta de peso político (com D. das 300 leis aprovadas pelas Cortes liberais. que extinguiram a Inquisição e que aceitaram que a liberdade de imprensa se aplicasse mesmo em matérias religiosas. e da plebe. – o Rei detinha a direcção política do Estado. Miguel “Rei Absoluto”. só 40 foram abolidas. D. seu filho. Miguel do comando do exército.

Em 1837. Pedro em 1834. jurou fidelidade à Constituição. Era a vitória dos radicais. Logo conseguiu o domínio marítimo da Guerra Civil. Era uma monarquia com instituições republicanas – uma “monarquia republicana”. trouxeram as eleições directas de volta. a D. e o apoio de Inglaterra. as freiras. os “conservadores”. e a nova rainha. depois de uma tentativa de golpe pelos duque da Terceira e General Saldanha. o Governo distribuía-os em grandes quantidades. o que lhe conferiu uma mobilidade que não tinha em terra. Com a destruição da frota miguelista. e cujos conventos se extinguiriam com a morte das últimas moradoras. Maria II. contudo. se manifestaram a favor da Constituição de 1822) que desagradavam nas forças armadas. depois da morte de D. outros. Os pares do reino que tivessem tomado o partido de D. .rei regressado tinha a vantagem do mar. desprezando o significado dos títulos nobiliárquicos. o Governo era controlado por um conjunto de nomeados (que. Entretanto. Pedro. contentavam-se com a Carta Constitucional de 1826. o desembarque dos liberais em Lisboa. Em 1833 sai um decreto de indemnizações a punir os miguelistas com o confisco dos seus bens. França. em Setembro. que aboliram a Câmara dos Pares. que não poderiam aceitar mais noviças. Entre 1834 e 1851 houve cinco golpes de estado e duas guerras civis (1837 e 1846-1847). Miguel viram-se excluídos do parlamento. mas sujeitando-os a pesados direitos de mercê. e logo se aproveitou desse facto para ocupar o Algarve. Pedro abole as ordens religiosas e expulsa frades e monges dos mosteiros. os antigos miguelistas tornaram-se partidários do setembrismo radical que vigorava no país – tudo menos a Carta Constitucional de 1826 e de D. Em 1836. Havia uma bipolaridade entre os liberais: uns. Pedro. poupa. Em 1834. entendiam a revolução liberal pela Constituição de 1822. e entendiam as Cortes (Câmara dos Deputados e Câmara dos Pares) como a continuidade modernizada das Cortes medievais. a maioria dos soldados a passar para o lado de D. os “radicais”. dizimado em batalha pelo duque da Terceira e pelo General Saldanha. e deram autonomia aos municípios. e Espanha. D. Pedro. Miguel assina a concessão e sai de Portugal. O Governo saiu vitorioso. D. no Verão de 1833. D. onde o Rei mais não era que uma chancela.

Para além disso. A hostilidade inglesa em relação à jovem república. nomeadamente no que toca às relações internacionais e ao auxílio espanhol a exilados monárquicos. consagrando a supremacia do Partido Republicano Português (PRP). em Setembro de 1914. e o Tesouro portugueses eram considerados irrelevantes no contexto internacional. Afonso Costa preparava uma aliança nacional. e os Aliados se terem começado a desgastar. que. na altura. No entanto. dizendo que Espanha não tinha as condições políticas nem militares para uma empreitada desse género. Era ainda um bom pretexto para convocar um Governo de “união sagrada”. contudo. um acordo entre Espanha e a República Portuguesa. contudo. sem declarar guerra à Alemanha. Inglaterra sempre se esforçou por responder (ainda que com os mínimos possíveis) às queixas e pedidos de apoio por parte dos republicanos. Na preparação das eleições de Novembro de 1914. começa a ter grande interesse em Portugal depois de. Contudo. Que. com o intuito de proteger as suas colónias. como em França. o que acabou por acontecer a 10 de Outubro de 1914. não se entusiasmou com a declaração de apoio por parte de Portugal. Para além disso. com a Espanha de Afonso XIII. ainda. O comando francês. por um lado declarando apoio se Espanha resolvesse avançar por aí. que não tinha sido reconhecida na Europa até 1911. para colocar ordem nas finanças públicas. servindo-se dos mesmos como plataforma contra os ingleses. repartindo as colónias entre Inglaterra e a Alemanha. e que fosse capaz de unir os seus democratas. continuava. no final . continuavam a dar mais atenção às figuras da monarquia portuguesa do que aos ministros e restantes figuras republicanas. Itália. O Exército. tentando também conquistar monárquicos e sindicalistas. alinhada. a Marinha. Contudo. já tinha começado a mobilizar tropas em África. Havia. com unionistas e evolucionistas. o Governo português preferiu que o pedido de ajuda viesse de Inglaterra. Por causa da propaganda anti-guerra dos monárquicos. depois da eleição do Presidente. Com a hostilidade inglesa para com a República Portuguesa. até conseguiriam o apoio dos monárquicos. e atraindo. a entrada de Portugal na Grande Guerra era um pretexto para a aceitação da República. instando a República a forjar relações com Espanha.A Participação de Portugal na I Guerra Mundial Logo em Agosto de 1914 Portugal declara apoio a Inglaterra. por outro lado desaconselhando Afonso XIII. Inglaterra mostrara-se repugnada com o apoio português sem declaração de guerra. um conjunto de outras razões para a entrada na Guerra. contíguas a colónias alemãs. a entrada de Portugal na Guerra daria aos alemães um pretexto para a anexação dos territórios coloniais portugueses. e os ingleses estavam cada vez mais preocupados com uma possível crescente germanofilia em Espanha. a verdadeira motivação para a entrada na Guerra era o reforço dos laços com Inglaterra. contudo. e um eventual alinhamento desta com a Alemanha. que faziam fronteira com as colónias de potências beligerantes. eventualmente. para evitar o caos na Península Ibérica. e não de França. favoreceria os espanhóis perante o eixo anglo-francês. os portugueses praticamente mendigaram pela atenção e reconhecimento ingleses. contudo. Inglaterra mostrou sempre uma posição ambígua. O único interesse de Inglaterra em Portugal na guerra era o de manter a sua neutralidade. Para os republicanos. Inglaterra volta atrás no pedido de ajuda a Portugal. ficando Espanha com o território metropolitano. A popularidade do Partido Republicano Português (ou Partido Democrático). Assim. a 18 de Outubro de 1914. a ofensiva alemã ter tido grande impacto. com Manuel II exilado em Inglaterra. Afonso XIII achava tudo um pretexto para a conquista da Galiza por parte de Portugal. Os líderes políticos em Portugal fizeram grande caso da defesa das colónias de Angola e Moçambique. Com as pretensões espanholas de uma invasão a Portugal.

sem lugar na frente. A repressão autoritária dos protestos foi tremenda. A proposta inglesa. No total. nos anarquistas de “pacifismo”. em África. Os preços subiram. planeou-se o fecho dos teatros. liderada por Sidónio Pais. mas contra Inglaterra. Nele eram expostas as condições dos soldados e explicava que os altos oficiais estavam a planear a guerra bem longe das trincheiras. de imediato. para substituir eventuais baixas. Afonso Costa consegue restabelecer o convite de Inglaterra de Outubro de 1914. era a de que Portugal apenas teria que defender as colónias e a metrópole. Portugal teve 2 mil mortos. onde o PRP e Afonso Costa tinham contado com amparo parlamentar em 1913. Também muitos evolucionistas e parte do PRP não se conformaram com a aliança PRP/PRE. As razões invocadas pelo General Norton de Matos. Como moeda de troca. houve uma grande abstenção nas eleições municipais. e a guerra naval. em grande parte. numa entrada portuguesa na guerra. uma quebra de 80% de descargas navais perante os números de 1913.de 1914. Escasseavam produtos para a indústria e alimentares. era a defesa de soberania. A Alemanha declara. foram seis bispos expulsos das suas dioceses. Foram enviados 55 mil homens para Flandres. que tinha como objectivo uma união entre republicanos. perante a intransigência de Brito Camacho e do Partido da União Republicana (PUR). ministro da guerra. entre Fevereiro e Abril desse ano. Em Fevereiro de 1916. no entanto. serviu para aprofundar as suas desavenças. Em Lisboa. cessava a electricidade. a polícia. para Angola e Moçambique foram 30 mil. Nos monárquicos houve declarações de “germanofilia”. houve. com dezenas de manifestantes mortos. ressentiram a pouca rotatividade na frente de guerra. depois das 23:00. a beber e a divertir-se. O Partido Republicano Evolucionista (PRE) de António José de Almeida aceita fazer parte do Governo de “união sagrada” do PRP e de Afonso Costa. a 15 de Julho de 1916. contudo. para Afonso Costa e o PRP. Causa disso foi a ânsia inglesa de se apoderar dos navios ingleses aportados em Portugal. Era igual à Idade Média. à ideia de que. na Bélgica. perdendo Portugal. já em 1917. e os transportes. Inglaterra emprestaria a Portugal todo o dinheiro que necessitasse. contudo. o grande descontentamento popular relativamente à sua participação na guerra foi alimentado pelo panfleto propagandístico “Rol da Desonra”. o que incluía oficiais portugueses com ligações ao PRP. O esforço de guerra português nunca foi popular entre os soldados: detestaram a comida fornecida pelos ingleses. 80 embarcações. depois do Governo se ter apoderado de barcos alemães refugiados em portos portugueses. e ainda mais presos. foram a ofensiva alemã contra as colónias. e também ressentiram não poderem ir a casa em licenças como os ingleses e os franceses. os alemães intensificaram a guerra submarina. só aceitaria isso se Inglaterra invocasse a velha aliança anglo-portuguesa. O PUR de Brito Camacho inicia uma conspiração armada contra Afonso Costa e o Governo do PRP. 700 prisioneiros de guerra desaparecidos e 5000 feridos. Como também era necessário o consumo de carvão. Mesmo com a admissão da assistência religiosa ao exército. Em Portugal. Afonso Costa. Tentando-se tabelar a produção e distribuição. Depois de três dias de combate entre as forças de Sidónio Pais . os ingleses cederam à participação portuguesa na frente de guerra. muitos agricultores abandonaram o cultivo. guerra a Portugal a 9 de Março de 1916. que receavam negociar a paz com os alemães usando as colónias e a metrópole como moeda de troca. não contra a Alemanha. Em 1917. Ainda em Novembro de 1917. Contudo. A guerra. com previsão do envio de 4 mil por mês. Com as más colheitas de 1912. simplesmente se faria uma “marcha vitoriosa”. depois da retirada alemã. em 1917. devia-se. 1800 baixas. centenas de feridos.

Bernardino Machado é obrigado a renunciar à presidência. Deixando de enviar tropas para França. e integrado no exército inglês ou utilizado como mão-de-obra para abrir trincheiras. Entretanto. mas também com a quebra da hegemonia liberal da política. em Abril de 1918. em 1922 e 1917. com o predomínio do cinema e do futebol na vida cultural da população. e Sidónio Pais assumiu a chefia do Governo. um imenso ataque alemão tira proveito do desespero da iminência da chegada das tropas americanas. e acessível a monárquicos. como na aparência das mulheres jovens. Sidónio Pais contava com o apoio do exército contra a oposição hostil das outras forças políticas organizadas. Morre o sidonismo com Sidónio Pais a 14 de Dezembro de 1918.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP) deixa de existir. o Estado sobrecarregou-se financeiramente. Sidónio Pais funda uma “República Nova”. A guerra trouxe mudanças para Portugal. os primeiros motins das tropas. de anarquistas e sindicalistas. destroçado. com o surgimento do fascismo em Itália e do bolchevismo na Rússia. o Partido Nacional Republicano (PNR). para reunir os seus apoiantes no parlamento (100 deputados de 155. respectivamente. a católicos. resultando em presos políticos (entre 1000 – segundo o Governo – e 10 mil – segundo a oposição). Tolerou um grupo parlamentar de monárquicos. então. e a sindicalistas. distanciara-se do golpe. reportava-se que os oficiais portugueses iam a casa de licença e já não voltavam. O CEP é. em 1918. Forma. também. não conseguindo melhorar as condições de vida das populações (cerca de 50 mil mortes por febre tifóide e gripe pneumónica desde 2 meses antes da sua morte). . enviado para a retaguarda. a católicos e monárquicos. Apesar do crescimento dos sectores público e privado. abandonando as tropas da frente. Brito Camacho. contactando a população e procurando unir os excluídos pelo PRP. A 2. reatou relações com o Vaticano. e o Parlamento e as câmaras municipais são dissolvidos. e consentiu a subida dos preços do trigo para satisfazer os agricultores. e 32 senadores de 77). o surgimento da homossexualidade advogada na literatura.contra a GNR e os marinheiros do Governo. Afonso Costa rende-se. Começando a sua retirada. entretanto. reviu a lei de separação da Igreja e do Estado. presidencialista (para concentrar os poderes num chefe que servisse de garantia ao regime republicano e da sua abertura). Começavam. assassinado à entrada da estação do Rossio por um militante do PRP.

A Evolução da Política Económica e as Alterações Sócio-Culturais no Estado Novo Estado Novo: nacionalista. à escala europeia. o autoritarismo e a ideia de um Governo forte. na década de 30. confessional. e da sua fraca possibilidade de mudar o existente. a legislação cumpria esse papel condicionador. Ao passo que as direitas radicais e antirrepublicanas insistiam na ideia de uma monarquia absoluta. e gastava com a dívida pública. isso afastaria os republicanos que sustentavam a Ditadura Militar. tornando- a numa moeda estável. o fascismo à portuguesa de Salazar funcionava pelas relações e influências de determinados sectores políticos pré-existentes. Eleitoralmente. apenas dependiam da Assembleia Nacional para as julgar e passar. teve que a desvalorizar depois de os ingleses o terem feito. que procurava conciliar os católicos. Uma lei de reconstituição económica de 1935 prevê investimentos avultados no rearmamento e em infra- estruturas públicas. fazer regressar a moeda ao “padrão-ouro”. com direito de veto sobre todos os aumentos de despesa. no monopólio da actividade política legal por uma organização cívica de apoio ao Governo. Demite-se em 1929 por se encontrar hospitalizado depois de partir uma perna. e na articulação do Estado com associações sócio-profissionais e locais. e. e a defesa. autoritário. havia um círculo único de 90 lugares. Embora a vida pública não estivesse condicionada pela Constituição de 1932. e corporativa. inclusivamente. a Câmara Corporativa. incitando os portugueses a ter aspirações modestas. aliás. Cortou despesa e aumentou impostos. Em 1928. previa-se a associação da população em organismos sócio profissionais que seriam representados num órgão consultor. São construídas 3 mil escolas . incutindo nas pessoas a consciência do poder limitado do Homem. ainda em Maio de 1931. despesas sociais. e proibindo reuniões e associações que não fossem autorizadas pelo Governo. Contudo. vivia dos impostos sobre os consumos. o acordo com a Igreja Católica. Essas legislações. Salazar conseguiu. e viria a funcionar apenas 46 dias por ano. e promoção. apenas legalizando a actividade política da União Nacional. Contudo. a transferência. assente numa chefia pessoal do Estado. corporativo. livre das negociatas saídas do parlamento. Apesar de. seguindo os desenvolvimentos económicos mundiais. de forma anti- revolucionária. faltava a dinâmica revolucionária do fascismo. O exército começa a preparar a aquisição de uma força aérea. Portugal. A sua ligação à igreja católica (devoto ex-seminarista) interessou logo a Ditadura Militar. as semelhanças com o fascismo italiano eram evidentes através do corporativismo. sob o Estado Novo. a administração. e educação. Salazar torna-se ministro das finanças. Por outro lado. A rede de estradas duplicou. a grande ideia que demarcaria o Estado Novo dos restantes regimes fascistas era a ideia de “viver habitualmente”. Com o projecto da Constituição de 1932. não serem os fascistas que mais admiravam Salazar. a propaganda do chefe e do pensamento. com as regras impostas para a nomeação. agradava a toda a gente que apoiava a Ditadura Militar. instituindo a censura. chegando a um superávit. A Assembleia Nacional apenas servia para discutir e votar as propostas do Governo (leis e orçamentos). das milícias para militares com fardamento de cor específica (Legião Portuguesa e Mocidade Portuguesa). aproximando os diversos elementos da sociedade da “realidade objectiva da nação portuguesa”. afastando a possibilidade de aproveitamento pelos inimigos de Salazar das instituições criadas. capaz de mover massas que dominassem o próprio Estado. sendo inconstitucionais. mas sim os conservadores. O serviço da dívida pública viria a diminuir. não dependendo de nenhum tribunal para esse efeito (que. e interventivo na sociedade e na economia. chegando a 6% em 1938 e a 0. com um líder carismático. Com a baixa do serviço da dívida pôde aumentar o investimento em obras públicas. e inaugura-se a primeira auto-estrada de modelo alemão. Para além disso.6% em 1950. mantinha os juízes afectos ao regime próximos). sendo eleitos os nomes da lista mais votada. pelo contrário.

e a mortalidade infantil diminui. com uma classe dirigente. e a sua negociação dos contratos colectivos de trabalho era vinculativa para todos os trabalhadores. uma ditadura de notáveis. Sindicatos. planeia a colocação de população nas zonas mais despovoadas do país.primárias entre 1926 e 1940. como a ditadura franquista. de base profissional e distrital. entre 11% e 12% entre 1928 e 1944. As Casas do Povo funcionavam como associações de socorro e previdência. nunca se aplicaram a metade da população activa. ao contrário dos sindicatos. doença. conjugando-se de forma a criar corporações: – económicas. madeira. o abono de família. – morais (de assistência). Os subsídios de invalidez. para facilitar a escolarização. desprovida de meios para nomear patronos. as pensões de velhice. aumentando para 14% entre 1945 e 1949. metalurgia. Em 1931. Devido à ausência de eleições livres e concorrenciais. A organização corporativa serviu apenas. As figuras de relevo do Estado Novo saíram de famílias conhecidas. para controlar o operariado urbano e o operariado do sul. mas a uma mutação geracional e ideológica dentro das elites estabelecidas. – culturais (universidades. reconhecendo certas associações como detentoras do monopólio da representação dos trabalhadores. representadas na Câmara Corporativa. dominando o aparelho do Estado. O Estado Novo era. A base universitária dessa elite não mudou: 1/1000 . a Câmara Corporativa nunca passou de uma assembleia de funcionários e de notabilidades nomeadas pelo Governo. financiadas por impostos aos patrões e quotizações obrigatórias dos trabalhadores. contudo. ou montar ou substituir máquinas com a autorização do Governo. cortiça. Em 20 anos nunca produziu mais de 20 pareceres. academias científicas. O crescimento anual do PIB manteve-se constante. Os Grémios. papel. na prática. porque a população. o aumento ter-se-á alcançado mais pelo alargamento da base contributiva que pelo agravamento das contribuições individuais. deixa de crescer e estagna até 1952. a corrupção era enorme. a população cresce quase um milhão de pessoas até 1945. sob a supervisão do Estado. de 1936. com o Estatuto do Trabalho Nacional. mas abaixo de 1. Estes organismos deveriam servir para defender os interesses individuais e colectivos. As comunidades rurais estavam condicionadas por um sistema de licenças e multas. com apenas uma quebra em 1936. o corporativismo – com excepção do económico – nunca se concretizou. Sem emigração. A Lei do Contrato de Trabalho e o Salário Mínimo Nacional. dessa forma proibindo as greves e o lock out. Institui-se. e os abonos de família estavam também ao encargo destas estruturas. o Governo limita a actividade industrial em vários sectores: têxteis e calçados. A estrutura corporativa começa a ser desenhada logo em 1933. Nas receitas fiscais. para os trabalhadores por conta de outrem na indústria e serviços. Assim. A indústria. A ideia era substituir o mercado pela regulação corporativa. A partir de 1937 houve esforços para exportar produtos portugueses. tinham os seus dirigentes aprovados pelo Governo. em 1943. A Junta de Colonização Interna. apostou-se no ensino de professores sem diploma em 1931. sociodesportivas…). Só se podiam estabelecer novas fábricas. ou foram nomeados por bairrismos e favores mútuos. o fascismo salazarista não correspondeu a uma revolução social. Assim. e Casas do Povo participavam nas eleições das vereações municiais. Os Grémios associavam os patrões de forma obrigatória.5%. O plano de florestação cobre serras e charnecas do centro e norte do país de pinheiro-bravo. pela falta de recursos e pela excessiva fiscalização estatal. sugerindo uma melhoria das condições de vida. Apesar desse planeamento. e alimentos. que tentavam manipular por cunhas. Os sindicatos. e. O peso do Estado na economia mantém-se praticamente idêntico ao que já tinha antes da Ditadura Militar. A agricultura entra em recessão até 1947. era resignada a pedir e trocar favores.

Em 1970. Contudo. e apoios sociais. não nas grandes obras públicas. Embora os partidos não fossa formalmente proibidos. integrou as Nações Unidas (1955). apesar da inflação passar de 11. como a Maçonaria. O número de rádios registados também aumentou. e defesa. e a admissão de ordens religiosas que se dedicassem à assistência. a indústria começou a crescer 8% por ano. a instituir o ensino da doutrina cristã nas escolas. Em Março de 1957 é inaugurada a RTP. O turismo. O Estado Novo não admitia o pluralismo partidário. para -1. e 1. Por essa emigração. – maior abertura ao exterior e integração na EFTA. Entre 1960 e 1974. . Contudo. as movimentações culturais e as vendas de autores e artistas contrários ao regime fascista eram as que conheciam mais sucesso. Estas adesões foram uma procura de estímulo do mercado das exportações para mercados viáveis economicamente. siderurgia. A partir de 1963. a balança de pagamentos foi equilibrada. ao mesmo tempo que milhares emigraram para a França e a Alemanha. educação. e. Em simultâneo. e a tentativa de instituição de um modelo artístico nacionalista. Tal como na Itália fascista. a maioria das zona rurais continuava sem electricidade ou água canalizada. explicitamente proibidas). assim como de televisores. A Concordata de 1940 viria a abolir o divórcio nos casamentos católicos. – centros de investigação. coexistiam arados medievais e o maior estaleiro naval do mundo. que foi menosprezada pela Campanha Nacional de Educação de Adultos. a Organização Europeia de Cooperação Económica (1948). indústrias químicas… Foram ainda reforçados os investimentos na economia. o PIB per capita cresceu de 47% para 65% da média dos países da CEE. 40% dos ministros entre 1933 e 1944 eram professores universitários. Portugal teve de apelar à ajuda americana (Plano Marshall) para comprar trigo e combustíveis. a agricultura ainda representava trabalho para 32% da população activa. sobretudo devido a uma censura descentralizada. sob o fascismo salazarista. Ao mesmo tempo que existia uma repressão da pluralidade de pensamento.5/1000. pelas remessas dos emigrantes. Portugal. através de mecanismos de mercado livre.habitantes em 1930. a mortalidade infantil diminuiu de 77. Em 1960. em detrimento da dívida pública.5% entre 1950 e 1970. As migrações internas fizeram com que o número de pessoas a viver em Lisboa e no Porto aumentasse de 26. por outro lado. 1/5 dos trabalhadores estava empregado num dos países da CEE.5 para 55. Assim. e sem acessos dignos. a população decresceu pela primeira vez desde o início do século XIX. Depois da guerra. Em 1958. – quadro macro-económico estável. sobretudo o algarvio. em 1973. e que dependia muito do censor. Os alojamentos com electricidade e água canalizada aumentaram entre 1960 e 1970. geralmente um militar. como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. cobrindo 95% do território em 1967. substituindo o Brasil como destino de trabalho. o PIB português era o mais baixo da OECE. A isto deve-se: – qualificação de mão-de-obra. e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (1949). em 1946.2%. O próprio Salazar fora professor universitário em Coimbra. mais os rendimentos do turismo. mas no mercado de energias e “indústrias básicas”. os salários aumentaram em Portugal. Por causa dessa diminuição da população activa. As poupanças dos emigrantes também eram canalizadas para o país. como a refinação de petróleo. Portugal encontra-se entre os fundadores da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA). de 1952. no mesmo país. – investimento potenciado por elevadas poupanças e pelo desenvolvimento do sistema bancário.2% em 1948. e pede estatuto de membro associado da CEE em 1962. logo em 1951. o valor da produção industrial ultrapassou o da produção agrícola. o cinema norte-americano e o seu sucesso de bilheteira (20 milhões de bilhetes vendidos em 1944) contribuiu para a ruína do projecto cultural nacionalista que se tentava implementar no Estado Novo. assim como os partos em estabelecimentos de saúde. O investimento passou a ser.8% para 33. existiam consoante o Governo decidia reprimir ou tolerar (ao contrário das sociedades secretas. administração. começou a ter alguma influência no PIB.2/1000 habitantes em 1940.

substituindo.. entregando-lhes cargos nas instituições governativas. a Legião e a Mocidade Portuguesas. Mário Soares. ajudou os partidos independentistas contra o separatismo branco dos colonos. com quase 50 partidos criados. que recusou. retirou-se a proibição aos partidos africanos clandestinos. sucedeu-lhe Costa Gomes. como o presidente da Junta de Salvação Nacional. O exército. prestou-se diversos graus de assistência. uma independência negociada não estava nos horizontes das frentes de libertação locais. Para facilitar o projecto de independência das colónias. a única força capaz de resistir aos comunistas. e tentando passar a administração de Macau para a China. e nenhum reclamando para si a direita. para contornar a complicada articulação entre as instituições governativas. no Outono de 1974. Os grandes partidos estariam representados. Começou. e libertou os presos políticos. sendo essa ideia rejeitada pelo Conselho de Estado e pelo Governo. Portugal seguiu. perante uma direita fraca. a 26 de Abril de 1974. a estrutura do Estado e o modelo social. a ANP (ex-UN). . e libertaram-se os presos desses partidos.A Construção de um Novo Sistema Político na III República Portuguesa: do 25 de Abril à Revisão Constitucional de 1982 e O Processo de Construção Europeia e a Soberania dos Estados Parte 1 António de Spínola surge. e impuseram os círculos eleitorais distritais plurinominais. Com o influxo de colonos regressados à metrópole. Aboliu a censura. Com a demissão de Spínola. enquanto órgão de poder. e a esquerda opositora do Estado Novo passou a ter a maior predominância no Governo e nas ruas. um pensamento predominante de esquerda. Spínola. líder do PS. no final de 1974. então. Foi em Novembro de 1974 que houve a maior explosão de actividade partidária. em Portugal. era constituído por dois órgãos: o Conselho Superior. mas as maiorias absolutas dificultadas. O Movimento das Forças Armadas (MFA) concedeu autoridade aos militares. Para conseguir consenso. a defesa do império pela libertação nacional e pelo anti-imperialismo. Foram estes órgãos a definir. Em Janeiro de 1975 rejeita a unicidade sindical da CGTP. deixando apenas de fora salazaristas de velha guarda e a extrema-esquerda maoísta estudantil. os militares como empregados apenas pela sua força de trabalho). O MFA. tentou concentrar em si o poder provisório. Spínola põe no Governo representantes de vários partidos e tendências políticas. nas estruturas militares. Pela discussão marxista no meio militar. cuja representação parlamentar estaria assente no método de Hondt. em simultâneo que se absteria de qualquer atitude política que condicionasse futuras eleições de uma Assembleia Constituinte e do Presidente da República. Existia. então. as regras impostas para a legitimização dos partidos evitaram a sua pulverização: só os partidos podiam concorrer a eleições. justificado pelo marxismo como a proletarização dos militares (i. com o objectivo de garantir a liberdade dos cidadãos. que exigiam a imediata independência das colónias. houve o começo da apropriação pelo Estado dos meios de produção. a DGS (ex-PIDE). depois do fracasso que foi a sua tentativa de manifestação da chamada “maioria silenciosa”. tinham que reunir 5 mil assinaturas para registo no Supremo Tribunal de Justiça. e a Assembleia. Contudo. ainda presente nas colónias. Contudo. com a integração na sociedade portuguesa a correr melhor do que o que se previa. uma purga interna dentro do PS de facções que pretendiam um acordo com o PCP. considerava-se.e. Os próprios acontecimentos mundiais levaram ao pensamento da aparente crise final do capitalismo e do imperialismo norte-americano. onde estavam em maioria. e abraçando todos a democracia e o socialismo. reconhecendo a integração de Goa na União Indiana. uma lógica de retracção total com as colónias.

algumas apenas com cinco ou seis constituintes. chegando a altura das votações. A polícia ficou na mão da amadora e inexperiente Polícia Militar. criaram o Conselho da Revolução (em substituição da Junta de Salvação Nacional e outros órgãos). demite-se Vasco Gonçalves. A nacionalização de sectores estratégicos atingiu 244 empresas. e anunciando comícios contra a relação de forças parlamentares. a operar a partir de Espanha. Aprovaram. e 42 juízes. A extrema-direita spinolista. a uma ruptura social. face ao Estado Novo. Em Maio. desmotivando de tal forma as assembleias que. quiçá com o apoio dos EUA. acreditava-se que o povo não iria exprimir a sua vontade. que efectuou detenções aleatórias e sem base jurídica. e aprovaram as nacionalizações. Ao comício organizado pelo PS de Mário Soares acorreram milhares de pessoas. com dezenas de feridos e 6 mortos. correspondendo. que deu a vitória ao PCP. durante os cinco anos seguintes à sua publicação. afecto ao PS. A reforma agrária começou com medidas esporádicas de ocupação de terrenos agrícolas. e culminou com ocupações sistemáticas. que. Na marcação de eleições de 25 de Abril de 1975. a mudança de direcção de empresas privadas outras 261. preparada pela entrada da esquerda nas universidades. também. ainda. PS. tendo sido ocupadas mais de 3300 herdades. 300 oficiais dissolveram os Conselhos de Armas. e a reforma agrária deixou de fora o norte e o Algarve. MDP. e CDS) com o MFA comprometia-os a não exigir ajustes no Governo depois das eleições. o aparelho do MFA é controlado pelas franjas conservadoras. PS e PPD contestaram a influência do PCP e do MDP nos órgãos decisores. 35 jornais foram multados ou suspensos por serem reaccionários. elegendo as duas o Presidente da República. Mesmo perante a ocupação por parte do PCP. uma vez que todos. devido à sua ligação a Spínola e aos “spinolistas”. Os militantes politizados começaram a dominar os aspectos processuais das reuniões. mas privá-lo do acto eleitoral era assumir uma ditadura militar. dirigida por sindicatos e militares. a extrema-esquerda maoísta pulverizava as comissões de moradores e de trabalhadores. do Governo. O PS e os “moderados” ficaram comprometidos. spinolistas. Às eleições acorreram mais de 90% dos eleitores recenseados. considerando-se a pequena e a média propriedade sagradas. O Parlamento seria a Assembleia Legislativa e a Assembleia do MFA. Saiu. Depois das eleições. da direita à esquerda. Pouco depois. em assembleia. reagindo o PCP impedindo o PS de participar no Dia do Trabalhador e de entrar no estádio onde se iria realizar o comício. o Governo multiplicou por vinte o custo da expedição postal desses jornais. que detestava o PCP. com a ocupação do jornal “República”. e conservadores. 88 sedes do PCP e 25 do MDP foram destruídas. a maioria pertencia aos quadros médios ou superiores. nas ilhas. tentou aproveitar o clima de desordem. No MFA passou a haver um equilíbrio entre a facção maioritária dos gonçalvistas e a facção ligada ao PS. mais a uma mudança geracional de elites. os órgãos eleitos pelo povo seriam tutelados pelos do MFA. assim como da igreja. PPD. As decisões do Governo e da Assembleia Legislativa teriam que ser ratificadas pelo Conselho da Revolução. 20 mil afastados dos seus empregos. que fracassa. Nessa mesma noite. e a Assembleia do MFA nunca mais se reuniu. defendiam o controlo estatal da economia. Dos candidatos às eleições de 1975. As nacionalizações não atingiram o capital estrangeiro. e. Spínola tenta lançar uma ofensiva armada contra Lisboa. por uma comissão de trabalhadores. A extrema-esquerda apenas conseguiu um deputado. As assimetrias entre norte e sul fizeram-se sentir. . e sendo detidos 144 militares. e nada foi demasiado polémico. e a vitória das forças revolucionárias não conseguiu mais de 17% dos votos.A 11 de Março de 1975. Estima-se uma fuga de 10 mil pessoas para Espanha e para o Brasil. com o apoio tácito de alguma extrema- esquerda (MRPP). chegou a falar-se em separatismo. que chegou mesmo a promover manifestações anticomunistas muito participadas. Nos distritos do norte. por estarem comprometidos com o regime fascista ou por obstrução ao processo revolucionário. com o PPD a ganhar no norte mais populoso que o sul. tendo Spínola que fugir para Espanha. por motivos políticos. De Setembro de 1974 a Fevereiro de 1975. só o grupo activista restava. propriamente. a realização de eleições. Um pacto assinado pelos maiores partidos da altura (PCP. e a fazer uma Constituição onde. contando ainda com o apoio de Otelo Saraiva de Carvalho.

Sá Carneiro cria a Aliança Democrática. a nomear um comissário para a Comissão Europeia (principal órgão legislativo e executivo da UE). estes valores coincidem com a recessão europeia da altura. Na nova incorporação não admitiu gente do sul e de Lisboa. nas suas funções. Esta alteração constitucional marcou o momento em que a decisão política ficou concentrada no sistema partidário. entre PSD. Para alguns países bastaria uma associação. provavelmente. para passarem a estar sob a tutela do Governo. do aeroporto. Governo. mas abriu portas à iniciativa privada. A adesão de Portugal à CEE foi olhada com desconfiança pelos dez países-membros na altura do pedido. a governação do PS foi obrigada a alianças pontuais no parlamento. Manteve as nacionalizações. Parte 2 Em 1977. o défice do Estado atingiu 7% do PIB. assinada em 1985 pelo Mário Soares Presidente da República. a inflação desceu entre 1974 e 1975 em quase 10%. No entanto. bens. e. Também o colapso da URSS trouxe à integração europeia outros países outrora parte da União Soviética. que não desejavam um aumento do orçamento comunitário. em 27 de Novembro de 1975. Na sequência da ocupação. e temiam a concorrência dentro da Comunidade. – em 1992. rendeu-se. mas não enveredou pela economia de mercado. A adesão de Portugal à CEE coincidiu com alguns pontos-chave da própria CEE: – em 1986. extinguindo a influência política das Forças Armadas. reduzindo a quase zero a influência da esquerda no aparelho militar. Entre 1978 e 1979. é pedida formalmente a adesão de Portugal à CEE. altera a correlação de forças civis e militares. inaugurando uma viragem à direita. por parte do COPCON. ao Presidente da República. o desemprego atingiu os 5%. que postulou a eliminação de barreiras à circulação de capitais. Mário Soares abandonou os ideais socialistas. a par com a Lei de Defesa Nacional. os processos de integração de Portugal em organismos internacionais já tinha sido começado pela sua integração na NATO (1949). Ramalho Eanes (Chefe de Estado-Maior do Exército) desmobiliza o COPCON.Durante o PREC houve uma descida acentuada do PIB. e a dívida pública aumentou em 7%. pelo Mário Soares Primeiro- Ministro. Com a articulação de forças na Assembleia da República. Otelo. e Assembleia da República). lídel do COPCON. conseguiu uma aliança com o CDS. ter-se-iam sentido à mesma sem o PREC. falhada. e. e da RTP. Portugal passou a ter assento no Conselho Europeu (cimeira de chefes de Estado e de Governo). Em Fevereiro de 1976. que previa a unificação monetária e política. sem maioria absoluta dos socialistas. e pessoas. pelo Conselho de Estado – órgão de consulta do Presidente da República –. de estruturas militares. a AD ganha com maioria absoluta. através da União Europeia. Nesse ano. depois da demissão de Mário Soares. com o Tratado de Maastricht. No entanto. e a 2 de Abril só o CDS vota contra a nova Constituição. e suspende todos os órgãos e assembleias do MFA. O Conselho da Revolução é extinto (sendo substituído. A revisão constitucional de 1982. Contudo. na EFTA (1960). e a eleger deputados para o Parlamento Europeu. até 1992. e PPM. Tribunal Constitucional. . Ramalho Eanes tomou as rédeas do Governo e criou os Governos de iniciativa presidencial. Em 1979. As Forças Armadas deixariam de ser independentes. Mais tarde. e nos acordos de comércio com a CEE (1972). surge um novo pacto entre o MFA e os partidos representados na Assembleia Constituinte. eleita em 1976. é retirado o poder de demitir livremente o Primeiro-Ministro. CDS. trazendo-o para o Governo. com o Acto Único Europeu. e.

. Segundo alguns economistas.Com a integração europeia. também. Contudo. A inflação. ao diminuir em 20% a competitividade externa. Os juros desceram. o euro prejudicou fortemente a economia. Com a fixação das taxas de câmbio e a introdução material do euro. e dos IRS e IRC (1989). e das limitações às concorrências nos mercados. com a introdução do IVA (1985). em 1997. as exportações perderam quota de mercado. a modernização fiscal. com o sacrifício da economia. veio o demantelamento das restrições das iniciativas de cidadãos. caiu. para 2%. contrariando a tendência dentro da UE. de 13% em 1990. e foi imposta uma austeridade orçamental com a adesão ao euro. Começou. a taxa de inflação e as despesas públicas continuaram altas.

que diz para fazermos apenas algo se desejamos que isso se torne numa máxima universal. mas porque o imperativo categórico impõe um dever moral para a criação de um Estado que garanta a todos o Direito e a liberdade individual. Atingir a Paz Perpétua teria três requisitos: 1. 3. Kant aceita o contratualismo. e guiado pela justiça na sua razão de ser. a síntese de conceitos do empirismo e do racionalismo. Contudo. na medida em que são naturais. Ou seja. O Estado. causa-efeito. mas pressuposto como resultado. . Cada pessoa é um fim em si mesma. embora alguns sejam analíticos (verdadeiros em consequência do significado das palavras usadas para os formular.). é democrático na sua base. pois jamais pode ser observado como processo. Segundo Kant. numa genuína hospitalidade universal. que ambas estão erradas. etc. com livre acesso de todos os Homens a todos os países. baseado na experiência efectiva.Kant e o Idealismo Kant demonstra que a escolha entre empirismo e racionalismo é irreal. só ele permite impor uma obrigação de legislar em nome da vontade colectiva. não no sentido anti-monárquico). que é subsumido no de “substância”). Segundo o autor. que. não devendo ser usada como tal. sob os quais todos os conceitos meramente empíricos são subsumidos (por exemplo: “mesa” é subsumido em “artefacto”. A pergunta original torna-se “Como é possível o conhecimento sintético a priori?”. O conhecimento a priori é possível porque podemos estabelecer que a experiência. que são as formas básicas do pensamento (conceitos a priori). A constituição de cada Estado deve ser republicana (no sentido de “democrática”. e não oferecidos ou criados pelo Estado. não podem ser provados empiricamente – são a priori e. Contudo. À pergunta e sua resposta deu o nome de “idealismo transcendental”. O Direito Internacional deve basear-se numa federação de Estados independentes. toda a filosofia deve começar com a pergunta “Como é a metafísica possível?”. chama-se transcendente. Só o contrato social garante uma legitimação racional à autoridade pública. 2. difere de Locke e de Rosseau no sentido em que não se passa do “estado de natureza” para o “estado de sociedade” por necessidade. Para Kant. e que devem ser reunidas. segundo Kant. o conhecimento científico é a posteriori. tem de se conformar às categorias do entendimento. É necessário um mundo cosmopolita. a regra pela qual devemos guiar todas as nossas acções morais é o imperativo categórico. Chamou-lhe transcendental por transcender pela argumentação aquilo que a argumentação pressupõe. para ser submetida a esta síntese. a ciência assenta em axiomas e princípios universais (como a conservação da substância. e não um meio. liberal na sua função. que é subsumido em “objecto”. existência dos objectos no espaço e no tempo. e o conhecimento por si alcançado. e só ele explica a necessidade de reconhecimento de direitos individuais. outros são sintéticos (dizem algo substancial sobre o mundo empírico). pela sua verdade ser suposta à partida.

Seria. há um direito implantado em nós. contudo.As Ideias Contratualistas de Hobbes. o Homem é. Esses direitos abarcam um conjunto de noções. Aos súbditos fica reservada a actividade económica. e demonstrar a ineficácia e prejudicialidade de uma revolta. Sendo que. o que faria com que violasse o direito natural a tentativa de privar a pessoa do seu objecto. para Hobbes. cuja formulação mais recente seria a de “direitos humanos”. porque todo o ser racional os reconhece. e a razão dá algumas cláusulas de paz. para isso acontecer. a que cada um submetia a sua vontade à vontade do soberano. mesmo havendo direitos naturais. pois o soberano não faz parte desse contrato – é estabelecido entre cidadãos (e apenas cidadãos) a transferência do poder para o soberano. portanto. e que geraria um conjunto de “direitos naturais”. As paixões e a razão levam o Homem ao “estado de sociedade”. o Estado devia existir como um Leviatã. É aquilo a que se chama um “contrato a favor de terceiro”. egoísta. Contudo. ou à expressão de uma opinião. o “Direito Natural”. e os seus juízos ao juízo dele. Pelo trabalho. não há nenhuma convenção que garanta esses direitos. Assim. ou numa Assembleia de Homens. Locke e Rosseau Parte 1 Em Leviatã. que se torna tanto seu como uma parte do seu corpo. algumas excepções a esta regra. Locke considerava ainda a propriedade privada como um direito natural. como a de quem paga pelo trabalho de outra pessoa para ter o usufruto do seu objecto. Hobbes defende que não pode haver nenhuma obrigação que impenda sobre um Homem que não surja num acto próprio. A resposta de Locke à passagem do direito natural para o das obrigações é idêntica à de Hobbes: através do consentimento mútuo e a constituição civil daí resultante. sobre as quais os Homens são levados a fazer um acordo. implantado pela razão (que seria a manifestação da vontade de Deus em cada um). segundo Hobbes. submeter-se-iam a uma autoridade porque seria um acordo tácito que garantiria uma melhor vida em sociedade. o “preço a pagar”: as pessoas celebram um contrato com vista a um poder supremo que garanta a paz e que aplique a lei (Hobbes seria um monárquico). As pessoas. pois “a pior tirania é sempre melhor que uma guerra civil”. Ou seja. exigindo formas de obediência e obrigações. Ou seja. uma pessoa transforma uma matéria bruta num objecto. Nenhum indivíduo nasce com qualquer obrigação perante o Estado. a ordem social exige restrições às liberdades no “estado de . é necessário que haja uma transferência de direitos dos Homens a todas as coisas para um poder central que garanta que esses acordos com o objectivo de formar o “estado de sociedade” não entrem em incumprimento. as Leis da Natureza. ou espontâneo). essencialmente. ou seja. não trabalhando nele directamente. Hobbes expõe o terror e a malvadez resultantes da anarquia. tudo por um pacto (contrato) social. na condição do outro o fazer também. e não as tem sem o seu consentimento (seja tácito. um monstro que combate outros monstros. segundo Hobbes. Contudo. só seria alcançado através do depósito desse Poder num só Homem. um “estado de natureza” seria caótico pelas disputas entre objectos. O objectivo do Estado é o de garantir a segurança e a ordem através de um monarca absoluto. As paixões são o medo da morte e o desejo de viver confortável. Locke reconhece. segundo Hobbes. procurando legitimar e justificar o poder e a autoridade do soberano. como à integridade física. Isso. irreflectido. são necessárias instituições da sociedade que garantam que os direitos não são meramente naturais. Parte 2 De acordo com Locke.

o melhor estado para o Homem). cada um pratica a sua justiça. por não haver leis no “estado de natureza”. mas apenas a necessária à convivência social. Na adesão ao seu contrato prevê-se a alienação de todos os direitos e liberdades. em oposição às ideias de representatividade. e protegendo a vida. ainda que não seja a guerra de todos contra todos que Hobbes teorizara. dessas liberdades. então. seis fases: 1. num sistema de justiça privada. Rosseau advoga que toda a gente nasce boa. 2. Não obstante. Contudo. e quando o povo achar que o Rei não desempenha bem as suas funções. Ao contrário de Hobbes e Locke. em vez disso. a ordem civil está obrigada a conferir-lhe os benefícios que lhe deve por contrato. o “estado de natureza” necessariamente mau. prejudicando a sua comunidade. Este pacto não é estabelecido entre indivíduo e soberano. quando por comum acordo renunciem à sua liberdade e juntem forças pelo bem comum. Rosseau exige. assim. Locke não considera. Esse acordo surge por consentimento entre todos. Assim. Locke não prevê que a transferência de direitos seja ilimitada. um indivíduo pensa que essa ordem lhe convém. ficando a vida privada e económica dos indivíduos fora do Estado e o Estado fora delas. abdicando. pelo menos. uma vez que este é o produto final e não o fundamento do pacto (ao contrário de Hobbes. assim. apresenta também alguns paradoxos que resultam da aplicação dessa ideia. Assim. Essa sociedade. sob pena de por ela ser reprimido (a vontade geral é diferente da soma das vontades individuais. em troca. Parte 3 Rosseau é quem mais se reconhece quando se fala em “contrato social”. mas sim aquilo que as pessoas dele fizerem. e não o Rei. ainda seria a guerra de alguns contra alguns. o pacto é celebrado entre seres livres que vivem no “estado de natureza”. O Estado surge. do acordo para a transferência da aplicação da justiça e do Direito Natural para uma entidade que legisle e aplique as suas leis. ou de se rebelar contra a tirania. com malefícios para todos. tem o direito de lhe retirar os direitos que nele depositou. Rosseau advoga uma democracia extrema. com o objectivo de ninguém tirar do contrato qualquer benefício pessoal. Soberano. em prol da comunidade. porém. então. que utilizava o seu contrato para justificar a existência de um soberano). . tem personalidade e vontade. e que são as instituições que corrompem os indivíduos. cuja passagem do “estado de natureza” para o “estado de sociedade” se fazia em três fases “estado de natureza” —> contrato social —> “estado de sociedade”. quando passiva. e a propriedade de cada cidadão. Estado de Natureza primitivo (o Homem é naturalmente feliz e bom. Os direitos delegados dizem apenas respeito aos direitos políticos. Ao contrário de Hobbes. Quando passiva. e a vontade de ninguém se deve sobrepor à vontade geral. e tem apenas como objectivo o bem público. o contrato de Rosseau cria uma associação com direitos ilimitados sobre os seus associados. chama-se Estado. quando activa. e utiliza a teoria política contratualista como forma de defender esta sua ideia. o povo continua soberano. Estado de Natureza em degradação espontânea (surgimento da propriedade e eventual degradação até uma guerra de todos contra todos). a liberdade.natureza”. ou vontade de todos). No seu livro Contrato Social. e cada um aplicar o Direito Natural segundo o seu próprio critério – não havendo um poder que regule a liberdade e aplique penas para quem entra em determinado incumprimento.

sendo legítimo matar o tirano). é um Governo de técnicos. ao poder legislativo compete fazer as leis. que tem como aspectos essenciais ser uma democracia. Estado Social corrupto (novos encargos para os fracos. Segundo Rosseau. mas esse poder não é uma assembleia representativa. 5. ao contrário dos Governos que têm apoio em assembleias legislativas. e entrega absoluta à escravatura). e novas forças para os ricos. fruto da corrupção. 6. O Governo também está sujeito à vontade soberana do povo (isto é. criando uma religião civil). honesto (garante da liberdade e igualdade. assegurar a liberdade individual e igualdade entre todos os cidadãos. Revolução democrática (novo “estado de natureza” porque voltam todos a ser iguais – escravos -.3. . 4. e pôr termo à “aliança entre trono e altar”. estabelecimento da desigualdade com base na propriedade. Primeiro Contrato Social. sob uma República. Segundo Contrato Social. para garantir a aplicabilidade das decisões populares). mas sim uma reunião de todos – democracia directa. com o objectivo de permanecer nessa condição). fraudulento (contrato dos mais ricos para os mais pobres.

se muitas pessoas o desejarem. a cada preferência. ainda. Uma terceira define utilidade como sendo a satisfação de preferências. em Mill. duas formas de maximização do utilitarismo: – Utilitarismo directo ou de actos: um agente deve agir directamente. e determina o que vamos fazer. São três os atractivos do utilitarismo: – Secularismo: sendo o utilitarismo a teoria moral que sustenta que os actos moralmente devidos são aqueles que produzam a maior felicidade para os membros de uma sociedade. etc. procurando averiguar em que medida diferentes cursos de acção poderão afectar a satisfação de preferências informadas. fonte de prazer. Mill falha ao tentar encontrar um princípio de motivação – o que leva um ser racional a obedecer a esse princípio? Mill. e universalmente desejável. – Construtivismo: a proposta de erigir princípios práticos para a resolução de problemas morais a partir de procedimentos. deixa de haver uma ligação com a felicidade. e esse será o único facto moral. E como refundar o utilitarismo para se basear na natureza humana. Bentham não distingue prazer de felicidade. que fornecem a motivação. porque alguém pode preferir algo que o deixe infeliz – algo é valioso. Há. podendo levar a casos discriminatórios contra minorias. afastando causas de erro ou engano. não podendo. que afirma que a maior felicidade de todos aqueles cujo interesse esteja em causa é o único fim correcto. apropriado. A quarta. definição de utilidade diz que esta é a satisfação de preferências racionais ou informadas. julgar um determinado acto ou prática como moralmente condenável se não se identificarem as consequências negativas que dele resultem. Contudo. em cada caso. necessariamente. portanto. Uma segunda definição de utilidade. – Utilitarismo indirecto ou de regras: as acções moralmente devidas continuam a ser aquelas que maximizam a utilidade. mas os agentes mais facilmente maximizarão a utilidade seguindo regras ou hábitos. e última. não depende de qualquer entidade metafísica (Deus. para além daquela de Bentham que postula que algo tem determinada utilidade pelo prazer que disso tiramos. – Consequencialismo: em qualquer acto ou política a adoptar devo ter como consequência algum bem identificável. sendo desejada e desejável. A felicidade. Stuart Mill vai reagir contra Bentham. assim como Bentham antes de si. alma. . e indica o que devemos fazer. Assim. que tem de recorrer a outra fonte para encontrar os seus valores. está ligada ao desejo. “o menor dano”. de acordo com o cálculo utilitarista. ambas as formas de maximização do utilitarismo são passíveis de crítica: – Não toma em consideração as relações especiais entre pessoas. Contudo. sendo prova disso o facto de toda a gente a desejar. e como evitar que todo o prazer de um indivíduo seja sacrificado para maior benefício do todo. Pelo princípio da utilidade. é dado um peso igual.). – A cada fonte de utilidade. rapidamente chega ao princípio da utilidade. e considera a distinção tola. acredita no princípio de benevolência e compaixão.Utilitarismo: Bentham e Stuart Mill A premissa de Bentham era a de “hedonismo psicológico”: o Homens procuram o prazer e evitam a dor. preferindo maiorias. no sentido em que procura responder à questão de como é feita a soma total dos indivíduos. o próprio princípio da utilidade tem de ser escondido do agente. simultaneamente. Mill propõe uma aplicação negativa do princípio da utilidade: em vez de “a maior felicidade”. diz-nos que uma experiência recompensadora (útil) pode não ser. Para evitar alguns problemas encontrados por Bentham.

mas. . também.– O princípio da integridade. chegamos mais rapidamente à maximização da utilidade. e a sua própria vida. a preocupação não reside no tratamento igualitário de todas as pessoas. Desta forma. ou estados de facto. Mais: não só consideramos as pessoas como iguais. Uma primeira reside no facto de os interesses das pessoas terem todos o mesmo peso. por cada indivíduo ter um raciocínio prático único. mas na resposta a interesses. mesmo que isso implique o sacrifício no bem estar de cada pessoa considerada. por assim as considerarmos. de acordo com Bernard Williams. Contudo. não pode ser um “espectador imparcial” para calcular utilidades como uma aritmética moral. a maximização da utilidade traz vantagens. que.

manifestada por actos de Estado (como declarações de guerra. é parte essencial da racionalidade. Contudo. a natureza domina o Homem. e podendo ser persuadido e dissuadido. e instituições. – auto-alienação. sendo através do trabalho que o Homem transforma o mundo: – numa primeira fase. no Comunismo. de uma esfera de acção livre. instituição pela qual a auto- alienação do Homem se expressa. então. e a que correspondem três momentos da História. no processo de autodescoberta. No “estado de natureza”. – auto-realização pela actividade criativa livre. em quarto lugar. recusando Hegel. o Estado não deve ser considerado como um meio. que envolve todas as instituições de que o sujeito é rodeado (a soma dessas instituições é o Estado). de que são portadores seres que são fim em si mesmos. – na terceira e última fase. A autoconsciência em Marx surge em três momentos (não necessariamente cronológicos): – autoconsciência primitiva. A primeira dessas instituições é a família. pois os seus direitos devem ser respeitados. e nunca sujeitas a nenhuma contratualização). então. o Estado possui uma razão. e é detentor de atitudes (como amor e ressentimento). o domínio do Homem sobre a natureza é tão completo que a propriedade privada e o fosso entre Homem e Homem desaparece – o Homem fica livre e realizado. o sujeito precisa. por ser uma impossibilidade lógica: no “estado de natureza” não são dadas ao sujeito. com o Homem a tornar a natureza num objecto. é que atinge a liberdade. A sociedade. O indivíduo ganha. o indivíduo só encontra a sua liberdade. actos que não se podem atribuir a outra pessoa). e só quando há reciprocidade e quando se reconhece como ser social. que gera linguagens. não espiritual: trabalho. o sujeito surge como sujeito puro. sem autoconsciência nem liberdade. a essência social é material. tem direitos (perante os cidadãos e outros Estados) e deveres (como o de proporcionar o bem-estar dos cidadãos). a quem o indivíduo está preso por obrigações de piedade (privadas. a comunidade política tem vontade própria.A Filosofia Política no Século XIX: Hegel e Marx Parte 1 Hegel tenta responder à questão do que se pode dizer quando a comunidade política é também uma pessoa: em primeiro lugar. vendo os outros como fins e não como meios. e surgindo a propriedade privada (capitalismo). em segundo lugar. que rodeia a família e lhe dá identidade. assim. onde possa pôr à prova a sua vontade por oposição a outras vontades. ou aprovações de leis. em terceiro lugar. mas como um fim. que não se pode basear num contrato. plena autoconsciência quando ultrapassa os problemas da realidade social exercendo a sua liberdade. – na segunda. Hegel nega que as escolhas individuais de cada um sejam autónomas. Parte 2 Segundo Marx. só é formada por intermédio do indivíduo. O reconhecimento de obrigações que não são auto-impostas. mas adquiridas mediante o processo de interacção dialética com os outros da sua espécie. ou objecto de contrato. é a relação entre Homem e natureza que é dominante. agindo com base na razão. havendo também domínio da separação entre Homem e Homem. para lá dessas obrigações de piedade. . Assim. costumes. e alcançar soluções justas: a sociedade civil. entregue ao Estado que determinou a sua autonomia. já existindo sociedade.

(Se X objecto para Y. mas forças materiais. o que provoca o desenvolvimento de coisas fundamentais na História não são as características da consciência. – esclavagismo. Esses sistemas económicos são cinco: – comunismo primitivo.Marx defende que a propriedade privada só aparenta criar uma liberdade de movimento e de expressão. Esta base consiste num sistema de relações económicas e em certas forças produtivas activas. O Homem é um objecto para si mesmo. nada pode ter valor a ser relativamente à actividade humana empregue na realização de determinada coisa. gerando a sua própria ideologia característica (crenças. e servem para as proteger e consolidar. constituindo as realidades mais definidas do capitalismo. e não explicá-la. Como Marx acreditava que o valor de troca e mais-valia (lucro) eram dependentes. O desenvolvimento da consciência deve ser explicado pela realidade material. falhando ver que esses poderes são uma projecção de si mesmo. De acordo com Marx e o seu materialismo dialéctico. chega à conclusão que o capitalismo assenta em exploração. Pela teoria valor-trabalho. – Comunismo (sem necessidade das superestruturas legais. preconceitos). para consolidar a estrutura e esconder a sua mutabilidade. O estado de alienação em Marx pode ser entendido como resultante da combinação de duas ideias originais: 1. dignificando a actualidade de cada sistema específico. baseada no apego do Homem à sua propriedade – o Homem auto-aliena-se. e com a inevitável extinção do Estado). trocando os seus meios de subsistência por horas de trabalho excedentes. na medida em que toma os outros por objectos. cria uma forma mais profunda. ao impor-se como eterna e irreversível. – as superestruturas são as instituições legais e políticas acima das bases. A teoria da História começa com a distinção entre “base” e “superestrutura”: – a base de todas as instituições humanas é aquela na qual as formas de consciência se constituem. A acumulação de excedentes (lucro) é explicada pela extorsão de trabalhadores. X meio para Y) À atribuição de propriedades humanas à propriedade privada chama-se fetichismo. na medida em que atribui aos objectos poderes humanos. na verdade. – feudalismo. O valor de uso apenas corresponde às relações entre objectos e às necessidades que satisfazem. . 2. As relações económicas explicam-se em função do grau de forças produtivas. – capitalismo. Para Marx. O Homem torna-se objecto para si mesmo. valores. que são compostas por força de trabalho e conhecimento acumulado. e em função da qual as instituições devem ser explicadas. o valor de troca de uma mercadoria é explicado em termos das horas de trabalho socialmente necessárias para a sua produção ou reprodução.

aplica-se a alínea b). certas garantias: a) a riqueza – herdada ou conquistada – será respeitada. Rawls. com visto a que todos os aceitem e cumpram. porque a liberdade aspira à igualdade. Nessa “situação original”. ser criados mecanismos legais contra a concentração excessiva de riqueza e de poder político. contemporânea. toda a gente vive numa sociedade ordenada e relativamente civilizada. que garantam a sociedade mais justa possível. mas a melhoria das condições de vida de todos. devem ser-lhe proporcionadas condições para nela se manter ou subir (se descer. b) se alguém for ou vier a ser pobre. que reporta ao início das sociedades. é capaz de aceitar o racional (o que cada um pretende para si mesmo). o dever do Estado e das outras instituições sociais é apoiar essa pessoa com vista a uma vida digna. sob o qual não sabem nada da sua vida ou da vida de qualquer outra pessoa. e a distribuição dos encargos. Os principais pressupostos da sua teoria são os seguintes: a) o principal desafio da filosofia é apresentar uma concepção política de justiça para um regime democrático. k) devem. é definirem os princípios de justiça. c) todos os cidadãos de um país democrático são livres e iguais perante a lei. h) o principal conflito a resolver é entre liberdade individual e igualdade. para além de ser imoral e levar à destruição da sociedade. sem valor histórico. d) uma sociedade bem ordenada é um sistema de cooperação social entre indivíduos e instituições. e o razoável (o que é normal aceitar como justo para os outros). a quem deve valer o “princípio maximin” (do latim “maximum minimorum”. o máximo dos mínimos possível). c) se alguém pertencer à classe média.O Liberalismo no Século XX: Rawls. . mas não é razoável negar ou não cumprir os termos de cooperação. mas propriedade gera desigualdade. e o papel do filósofo é o de influenciar uma constituição que traga justiça. mas sujeita a impostos. l) o resultado não é a igualdade matemática entre todos. de forma constante. g) o conteúdo desses princípios traduz-se nos direitos e deveres básicos dos indivíduos e das instituições sociais. A ideia de contrato social em Rawls começa com a ideia de “situação original”. então. direitos e honras entre os membros de uma sociedade. e presume o Estado já existente e onde os representantes do povo soberano vão tentar chegar a acordo sobre os princípios de justiça. Contudo. e regular a divisão dos benefícios. j) é racional que os que mais têm queiram tirar proveito da situação. é uma situação hipotética. e Nozick Parte 1 Rawls enquadra a justiça social como um problema político. segundo Rawls. em oposição ao “estado de natureza”. i) o Homem. Dworkin. e contra a ideia de que os menos favorecidos sejam colocados ou mantidos num grau mínimo de bens materiais e de poder político. Todos têm. para essa ideia hipotética. f) os princípios da justiça têm como função especificar esses termos. propões que esses representantes estejam cobertos por um “véu de ignorância”. regulada por regras aceites como adequadas à convivência pacífica entre todos. nem são capazes de prever o impacto das suas medidas. A única hipótese. b) com “justiça” entende-se “justiça social”. refutando o marxismo. sujeita a deveres cívicos adequados. e os modelos fascista e comunista. e) essa cooperação aceitável tem que ser em termos justos ou razoáveis. dotado de razão. para que todos beneficiem desses termos. nem as principais teorias sócio-económicas. então. uma distribuição razoável dos bens. em especial dos mais desfavorecidos.

portanto. aos seus próprios recursos e escolhas. propõe dois tipos: 1. não apenas a nível das atitudes. e de programas de formação. segundo constitucionalistas. por um lado. 3. A distribuição igualitária de recursos. a celebrar um contrato social (constituição) que garanta uma sociedade justa para todos. de apólice tão elevada que ninguém aceitaria. uma vez que não pode haver liberdade se não houver liberdade de escolha. Se uma seguradora pretende manter os custos dos prémios tão baixo quanto possível. A justificação de Dworkin para uma tributação progressiva prende-se. as restrições ou limitações da liberdade com base em justificações . 2. devem tratar de igual forma todas as pessoas. a igualdade é uma exigência directa do princípio ético de que cada vida humana tem um valor objectivo especial. assim. ou. desempregados. Segundo Dworkin. Ao mesmo tempo. segundo Rawls. sob o “véu da ignorância”. uma vez mais. Princípio da Diferença. no paralelo com os seguros. A igualdade no bem-estar viola os dois princípios do individualismo ético expostos anteriormente. segundo Rawls: 1. Os três princípios de justiça. a estrutura da igualdade não pode deixar de parte o princípio ético individualista da responsabilidade pessoal de cada um pela realização da sua própria vida. mas um montante distribuído de tal forma que cada um não inveje os recursos que outros têm. segundo Dworkin. Os recursos pessoais de cada um consistem nas capacidades físicas e mentais das pessoas. não implica um montante igual para todos. o modo de alcançar esse resultado seria basear os prémios no rendimento. que seria redistribuído entre os doentes. Uma pessoa inveja os recursos de outra quando os prefere aos seus. São. por outro. Dworkin propõe um sistema de seguros sociais imaginário. A liberdade é o direito de fazermos o que quisermos com os recursos que são nossos. A liberdade. tendo aqueles que recebem menos que pagar substancialmente menos do que se a taxa não fosse progressiva. é explicada pelo segundo princípio. tem como condição a aceitação do trabalho disponível. no caso de “seguros de desemprego”. de apólice baixa. onde impostos progressivos seriam pagos para um “prémio”. retiraria qualquer valor especial ao indivíduo. de acordo com um critério de justa repartição. Dworkin. mas pela articulação entre as instituições que mais bem assegure o resultado da igualdade económica.Assim. aceitáveis. bem como o padrão de trabalho e consumo que os produz. Teria de haver uma noção colectiva de bem-estar que. e. todos serão levados. ou progressivamente mais justa. a igualdade de recursos deve prevalecer sobre a igualdade no bem-estar. Para evitar casos de ócio. e. Princípio de Discriminação Equitativa (só se admitem desigualdades sócio-económicas que tragam maior vantagem para os desfavorecidos). 2. retiraria da responsabilidade de cada um a condução da sua vida. e pobres. Se os Governos aceitam o primeiro princípio – o Princípio do Valor Intrínseco -. não se pode dar mais valor a uma que a outra. Parte 2 Segundo Dworkin. Princípio da Igualdade de Oportunidades (as únicas desigualdades aceites decorrem de cargos ou posições abertos a todos. em princípio. nas mesmas condições de acesso). sem o requisito de aceitação do tipo anterior. subindo os prémios quanto mais altos fossem os rendimentos. Princípio da Liberdade (liberdades básicas iguais. Como esses recursos não são igualitários. racional e razoavelmente. segundo Dworkin. compatíveis com liberdades básicas para todos).

25€/espectador. “De cada um de acordo com o que escolhe fazer. Princípio da Justiça na Transferência (como uma pessoa pode tornar-se proprietária de algo que já tem dono). 2. históricas padronizadas. a distribuição justa só pode haver com pesado custo para a liberdade das pessoas. por outro lado. – o enriquecimento de X resulta de uma acção justa. etc. a cada um de acordo com o que faz para si mesmo (talvez com a ajuda contratada de outros) e com o que os outros escolhem fazer por ele ou escolhem dar-lhe a partir do que lhes deram a eles previamente e ainda não gastaram ou transferiram”. a cada um segundo é escolhido”. em estilos de vida bons ou maus para as pessoas que levam essa vida. tendo direito ao produto quem o faz ou quem contrata para o produto ser feito. assim como com base em justificações que apelem ao valor intrínseco de um objecto pessoal. e todo o princípio distributivo. Nozick distingue as teorias da justiça entre históricas e finais. enquadrada no padrão de justiça preferido de cada um: jogador de basquetebol X chega a acordo com a equipa para receber 0. Nozick conclui que: – a acção livre de uma pessoa pode afectar a justiça padronizada na distribuição de recursos. e X ganha 250 mil euros. Parte 3 Segundo Robert Nozick. a teoria da justiça é final. contudo. ou seja. Assim. Princípio da Rectificação da Injustiça (um princípio de carácter subsidiário.distributivas. com base na descrição efectuada. Nozick apresenta a sua teoria de justiça baseada em títulos legítimos de propriedade (entitlement theory of justice): 1. sendo todas as outras finais. ou. Um milhão de espectadores assiste ao jogo essa temporada. Produção e distribuição dos bens não devem ser duas questões separadas. 3. tipo Rendimento Social de Inserção). nos é possível concluir se a mesma é justa ou injusta. não são. se. o respeito pela liberdade exclui o princípio da diferença (de Rawls). . – se a acção livre das pessoas pode influenciar uma distribuição justa. necessitamos de background para atribuir um juízo. perante uma estrutura. uma vez que resultou de comportamentos voluntários.). As teorias históricas podem ainda ser padronizadas (a distribuição deve ser feita de acordo com um padrão: “a cada um de acordo com as suas necessidades…”. segundo o mérito. Nozick propõe que imaginemos a seguinte situação. Ambos os tipos de teoria – final ou histórica – servem para caracterizar justiça na distribuição de recursos e bens. Se. Princípio da Justiça na Aquisição (como uma pessoa pode tornar-se proprietária de algo sem dono). 3. A liberdade é incompatível com os padrões. ou “De cada um de acordo com o que escolhe. 2. A justiça como titularidade de Nozick assenta em três princípios: 1. só a sua teoria é não padronizada. aceitáveis restrições da liberdade com base em justificativas pessoais. a teoria de justiça é histórica. mais comummente. ou não padronizadas (a essência da distribuição justa reside na aquisição de bens através de procedimentos legítimos). Segundo Nozick.

defendendo um Estado mínimo. uma vez que só aí é possível ao maior número de pessoas viver do modo que lhes aprouver . Nozick entende um conjunto de passagens intermédias. resumidas assim: “Estado de natureza” —> Agências protectoras (garantia de protecção das pessoas) —> Guerra entre Agências —> Estabelecimento de uma Agência Protectora Dominante —> Proibição do uso da força pelos não-agenciados —> Monopólio do uso da força pela Agência Dominante (Estado ultraminimalista. Contudo.Nozick. que só protege quem paga) —> Estado minimalista (uso da força para a protecção dos direitos de todos) = Utopia. se a ideia contratualista de Locke impõe a passagem de um “estado de natureza” para um Estado. vai ao encontro de Locke.

pelo melhoramento do nível de vida. que deixa de ter a função de crítica do poder. passando de uma execução pública como espectáculo. como dizia Nietzsche. para uma pena executada longe dos olhos do público. Mesmo em relações de poder desequilibradas permanece a possibilidade de resistência. que significa que o corpo.. A partir do final do século XVIII. A essa humanização está associado o aumento da eficácia das penas. e começam a aparecer problemas associados à habitação. nas escolas. etc. nomeadamente relações de direito. etc. para a população. como os alunos por filas nas escolas. ao mesmo tempo que deixa de ser o objecto das penas. que se subverte de poder punitivo. o poder deixa de ser imposto sobre os súbditos. Contudo. hospitais. Também se pode falar de uma “política anatómica”. que não é só um grupo numeroso de pessoas. consequentemente. Há uma omnipresença do poder. para haver um melhor controlo. que ganha eficácia. pirâmide de idade. segundo Foucault. para um espaço disciplinar que compreende toda a sociedade. no que toca à disposição das pessoas em diversos contextos sociais. Outro conceito de Foucault é o de “biopolítica”. para passar a ser o objecto dessa crítica. e.A Teorização do Poder em Foucault A aplicação de penas evolui com o iluminismo. por uma intolerância cada vez maior em relação aos crimes económicos. . prisões. saúde pública. mas sim um conjunto de seres vivos regidos por processos e leis biológicas – taxa de natalidade e mortalidade. passa a ser objecto do exercício normal do poder político. Passa-se de um espaço de tolerância perante a ilegalidade (necessário para compensar a ausência de direitos). e o poder está intimamente ligado às próprias relações. estado de saúde…. para existir essa relação de poder tem que haver algum grau de liberdade. e que supervisionam a normalidade. As próprias ciências sociais se tornam instrumentos de poder. humanizando-a.