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O Rádio e o Controle
da Informaçao

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16:01 .p65 2 30/03/04. Universidade Federal da Bahia Reitor Naomar de Almeida Filho Vice-reitor Francisco José Gomes Mesquita Editora da UFBA Diretora Flávia M. Garcia Rosa miolo tempos de vargas.

miolo tempos de vargas. Eliane Costa. 16:01 . Fabiano Brito. Clarissa Amaral. Sandro Ferreira. Andrea Ribeiro. Suzy dos Santos. Cassiano Simões.p65 3 30/03/04. O Rádio e o Controle da Informaçao Othon Jambeiro Amanda Mota.

1937-1945. Radiodifusão . preparação de originais e revisão : Tania de Aragão Bezerra. 6.. Preparação de Originais e Revisão Tania de Aragão Bezerra Magel Castilho de Carvalho Capa e editoração Joe Lopes Biblioteca Central .edufba. Comunicação de massa. 3. 2.br miolo tempos de vargas. 1934- 1937. ISBN 85-232-0310-9 Bibliografia. Brasil . 4.Aspectos políticos . CDU . Jambeiro. 2004.BA Tel/fax: (71) 263-6164 www. Magel Castilho de Carvalho.História . Brasil .História - Estado Novo.384.Censura. 16:01 . I. © 2003 by Othon Jambeiro Direitos para esta edição cedidos à Editora da Universidade Federal da Bahia.] .UFBA T288 Tempos de Vargas : o rádio e o controle da informação / Othon Jambeiro .540981 EDUFBA Rua Barão de Geremoabo. [et al..Salvador : EDUFBA.195:32(81) CDD . Feito o depósito legal. Publicidade governamental. 1. s/n .p65 4 30/03/04.Campus de Ondina CEP 40170-290 .Brasil.br edufba@ufba. Rádio .654. 191 p.ufba.Salvador . 5.Governo constitucional. Othon. .

SUMÁRIO Introdução 6 Primeiro Capítulo: Nasce a Radiodifusão no Brasil 24 Segundo Capítulo: A Radiodifusão e a Constituição de 1934 56 Terceiro Capítulo: A Radiodifusão e o Estado Novo 84 Quarto Capítulo: A Radiodifusão no Pós-Guerra 130 Quinto Capítulo: A Volta de Gegê.p65 5 30/03/04. Democrata e Nacionalista 148 Conclusões 180 Referências 188 miolo tempos de vargas. 16:01 .

p65 6 30/03/04. 16:01 . Introdução miolo tempos de vargas.

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A revolu- ção que liderou e conduziu durante 15 anos. entendido doutrinariamente como o espaço institucional onde a sociedade articula. da modernização do país e do esta- belecimento de novas relações entre o cidadão. foi. negocia. 16:01 . Sete anos depois. sua ideologia somente come- çou a tomar corpo quando Vargas assumiu o comando do Governo Provisório.p65 9 30/03/04. do desenvol- vimento econômico. parcial- mente realizada. o Estado brasileiro se consti- tuía de poderes políticos regionais. sem dúvida. da construção de um novo Estado nacional. O governo cen- tral era visto principalmente como a entidade encarrega- da das relações externas. a defesa nacional e uma fonte de recursos financeiros para negociações em troca de apoio político regional. pode ser con- siderada como o ponto de partida da emergência do Esta- do contemporâneo brasileiro. em 1930. na relação entre go- verno e sociedade. pois. que além de criar novos valores ideológicos. que se preo- cupavam apenas com seu próprio destino. inclusive. Embora os ideais revolucionários estivessem em estado embrionário em movimentos de rebeldia militar ocorri- dos em 1922. Getúlio Vargas. Seu líder. 1924 e 1926. a revolução que se pretendia democráti- ca sofreu seu definitivo desvio e enveredou pelo caminho miolo tempos de vargas. a Revo- lução de 30 foi um movimento realizado em função. estados e territórios. a figura chave da política do país no século XX. estabelecidos em cada unidade da federação. A base do Estado brasileiro contempo- râneo só foi estabelecida pela Revolução de 30. de planos nacionais de de. Até o final dos anos 20. gerencia e efetiva os interesses de todos os gru- pos e categorias sociais e profissionais nela contidos. 9 senvolvimento. através. o governo e a sociedade. impôs uma visão do Brasil como um país uno. Marco inicial da Segunda República no Brasil.

no entanto. 2001: 5003). autoritário. Ou seja. 16:01 . mas o movimento foi der- rotado. embora com caráter contra-revolucionário – a Re- volução Constitucionalista – clamando por uma consti- tuição nacional e por mais poderes independentes e auto- nomia política para os estados. valorizar sua criação e justificar-se historica- mente. planejado a partir de Moscou.p65 10 30/03/04. o Estado Novo significava a realização do projeto revolucionário inicia- 10 do sete anos antes. miolo tempos de vargas. o Estado de São Paulo tentou realizar uma revolução dentro da revo- lução. assegurando. assim. o Partido Comunista tentou um golpe de Esta- do. mas o movimento foi esmagado. a implantação da ditadura do Estado Novo. com a participação de revolucionários profissionais estrangeiros treinados no exterior. ocorridos entre um e ou- tro (Oliveira. Essa versão. segundo a qual “30 só se completou em 37”. Em 1934. Como todo evento histórico que se pretende mostrar como revolucionário precisa destacar seus aspectos de novidade. apresentava a Revolução de 30 e o Golpe de 37 como se tivessem acon- tecido em uma simultaneidade temporal imediata e minimizava fatos importantes. Em 1932. uma democrática assembléia nacional constituinte redigiu uma nova constituição – a mais libe- ral que o Brasil já havia experimentado – e elegeu Getúlio Vargas – que continuava no poder – como presidente cons- titucional para um mandato de quatro anos (1934-1938). os doutrinadores do novo regime produziram uma reinterpretação do movimento de 30. Em 1935. Em 10 de novembro de 1937. sendo a maioria dos seus líderes presos ou mortos. De 1930 a 1937 sucessivas ações políticas puseram em cheque o caráter do novo regime. o já então presi- dente constitucional Getúlio Vargas consolidou uma ali- ança com os militares.

por ter sido baseada na autoritária Carta polonesa. Sob a influência de condições objetivas – a situação de guerra internacional e a emergência de regimes autoritári- os – os ideólogos do Estado Novo elaboraram um bem ar- ticulado projeto político. 2001: 1567). eram também alguns dos aspectos centrais da nova ideologia. a ênfase na objetividade tecnocrata. A definição do governo revolucionário veio em novem- bro de 1937. Foi nesse contexto que as elites brasileiras. promulgada no mesmo 10 de novembro. Cidadania era defini- miolo tempos de vargas. baseado na idéia fascista do papel hegemônico do Estado sobre o indivíduo e as instituições sociais. conhecida como Polaca. e o autoritário-paternalístico tratamento dos conflitos sociais. embora o nome do regime recém-instaurado se ins- pirasse na ditadura salazarista de Portugal (Bueno. A constituição de uma sociedade corporativa. estava sendo preparado pelos comunistas e que o Brasil não seria nem fascista nem comunista. de Pilsudzki (Chacon.p65 11 30/03/04. Estava estabelecida a di- tadura do Estado Novo. 16:01 . quando Getúlio Vargas mentiu ao povo bra- sileiro. O esteio legal do regime estava na nova Consti- tuição. afirmando que um golpe. Para tanto. denominado Plano Cohen. Vargas estabeleceu no Brasil um regime corporativista e 11 ditatorial. inspiradas neste paradigma ideológico. Com o apoio dos militares e fundamentado na nova Constituição. 2003: 334). formaram sua identidade política e construíram o desenvolvimento econômico que o país experimentou até o final do século XX. os militares e ele próprio estavam assumindo todos os poderes do Estado para proteger a nação e estimular seu crescimento econômico e social. visando estabelecer uma nova ordem fundada no fortalecimento do Estado e do Nacio- nalismo.

Ainda assim. Em conseqüência. A cultura passou a ser entendida como um instrumen- to de organização política e disseminação ideológica. aí incluídos a coerção e o apoio às ati- vidades de cultura. Comandado por Gustavo Capanema. mas também de coerção. O relaciona- mento do governo com os produtores culturais tornou-se 12 multidimensional. 16:01 . da como a capacidade de integração do indivíduo nas po- líticas do governo. Como o regime buscava legitimação através de consenso. Vargas freqüentemente os apoiava e lhes dava sinecuras. Cartilhas e livros de adoção obriga- tória em todas as escolas apresentavam versão altamente sectária da história do Brasil e saudavam não só o ditador miolo tempos de vargas. o governo criou aparatos culturais na es- trutura do Estado. seguiu a ideologia autoritária e nacionalista do Estado Novo. Respaldado pela nova ordem jurídica. destinados à produção e publicização da ideologia do Estado Novo na sociedade.p65 12 30/03/04. o Estado tinha de ser dirigido por uma presidência forte. que deve- ria prevalecer sobre os poderes legislativo e judiciário. esse Ministério desempenhou um papel mais brando no processo de mitificação de Vargas. as chama- das “paradas da raça”. Da mesma forma que punia e prendia intelectuais e artistas. Os alunos eram obrigados a participar de desfiles. Getúlio Vargas deu início à estratégia que os ditadores das décadas de 30 e 40 estavam tornando comum: o culto à própria personalida- de. Através de de- creto de 8 de março de 1940. Os motores dessa política de “fabricação” e consolida- ção da imagem do ditador brasileiro eram o Departamen- to de Imprensa e Propaganda (DIP) e o Ministério da Educação. instituiu a uniformização do ensino e criou a disciplina Educação Moral e Cívica. doações e prêmios. ao assumir o co- mando da nação com poderes totais.

de exibição obrigatória em todos os cinemas. substituiu o Departamento Naci- onal de Propaganda e Difusão Cultural. seus “jornais nacio- nais”. com a Hora do Brasil..1939). Com suas cartilhas para crianças. que decidia a cota de cada jornal (Araújo. o DIP se encarregou de divulgar a imagem e a ideologia de Vargas em todas as instâncias da vida nacional. Numa de suas investidas mais ousadas. Por outro lado. revistas e outras publicações. censurava to- das as manifestações artísticas. sofria rigo- roso controle do governo Vargas. o órgão tinha o objetivo de “centralizar. como também o surgimento do Estado Novo (Bueno. Diretamente subordi- nado à Presidência da República. O modelo de funciona- mento do rádio foi então estabelecido ao estilo brasileiro: miolo tempos de vargas. porém.12. da literatura e da imprensa” (Decreto-lei 1915. decretou. que teve sua direção desti- tuída e ficou sob a direção do governo até 1945. coordenar. de funções recreativas e esportivas. e seus cartazes. em março de 1940. 16:01 . era muito mais efetiva. do cinema. da 13 radiodifusão. formado em 1931. ainda que apenas de leve contrariassem o regime. fazer censura do teatro.p65 13 30/03/04. que em 1934 ha- via ocupado o lugar do Departamento Oficial de Propa- ganda (DOP). A política de disseminação da ideologia estado-novista adotada pelo DIP. Criado em dezembro de 1939. O desenvolvimento da radiodifusão. 2001: 1832). que a partir de 1938 passa a ser transmiti- do para todo o país. superintender a pro- paganda oficial interna e externa (. Para con- trolar a mídia. pois o papel de imprensa era importado pelo governo.). orientar. de 27. o DIP lançava mão tanto do poder de polí- cia – cada jornal tinha um censor – como do econômico. assim como ocor- ria com jornais.. a intervenção do jornal O Estado de São Paulo. 2003: 336).

mas. particularmente notícias. à semelhança da chamada Intentona Comunista de 1935. a exemplo da Rádio Nacional. Além disso. Como o novo regime político tenciona- va ser ‘nacional’. o DIP também criou um sistema para o controle das comunicações. foi rapidamente rechaçado. Ainda assim. O Estado. e voltado para sua própria cultura e seus valores tradicionais.p65 14 30/03/04. da Itália – tentou um golpe de Estado no ini- cio de 1938. da cultura e das artes em todo o país. através de leis e regulamen- tos. foi instituído um sistema policial espa- lhado por todo o país. Com a instauração do novo regime. os jornais e as revistas eram instrumentos para a promoção dos novos valores que o Estado Novo queria que os brasileiros assimilassem: uma ideologia nacionalista dedicada à construção de um capitalismo urbano-industrial. e – livre do inconveniente Congresso miolo tempos de vargas. O rádio. um partido políti- co fundado no Brasil sob inspiração do partido de Benito Mussolini. o Estado sendo tomado como o cen- tro de poder e juiz supremo de todas as causas. implantação de algumas emissoras estatais. com o objetivo de controlar o com- portamento político da população. em 1937. e estímulo ao desenvolvimento de emis- soras comerciais. a versão brasilei- ra do fascismo – o Partido Integralista. profun- das mudanças ocorreram então no Brasil. tornou-se uma for- te presença na vida brasileira. num país defendido contra influenci- 14 as estrangeiras. severo controle do conteúdo. O governo criou seto- res de planejamento. Os mesmos veículos eram também utilizados pelo re- gime de Vargas para ajudar a articular os interesses de to- dos os grupos sociais. 16:01 . enri- quecido com órgãos tecnocráticos e ideológicos oficial- mente estabelecidos na sua estrutura. e para impor como dever irrecusável tudo que fosse considerado como de interesse nacional.

A partir da inauguração da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. 1989: 108). em 1923. várias outras emissoras entraram em miolo tempos de vargas. A economia teve grande crescimento. Como veremos posteriormente. a cria- ção de mecanismos de importação e exportação. Após o final da segunda guerra mundial e a queda do regime ditatorial de Vargas.9 por cento (1946-1950). notadamente no desenvolvimento industrial. e 8. indústria petroquímica. rodovias e ferrovias de impacto nacional. e o aumen- to do volume de investimentos de infra-estrutura tiveram como objetivo a expansão e o fortalecimento desse setor. os efei- tos desse esforço continuaram repercutindo. Nacional. foram objeto de estudos feitos pelos novos órgãos criados por Vargas.1 por cento (1951-1955)” (Diniz. particularmente para a economia. que desde mea- dos dos anos 30 tinha se tornado um aliado dependente do sistema industrial e comercial da economia. transformou- se numa importante ligação entre a produção e o consumo de bens. que começou suas atividades em 1950. o rádio. da publicidade. ou a taxas anuais de 8. intensivamente concentra- do no centro-sul do país. que experimentou um notável de- senvolvimento. somente nos anos 60 iria ocupar o lugar do rádio como o melhor aliado dos setores comercial e industrial da economia. fechado por Vargas – começou a formular polí- ticas públicas. através. Exploração de petróleo. entre outros projetos.p65 15 30/03/04. es- pecificamente o setor industrial. A regulação das relações de trabalho. 16:01 . A televi- são. 15 O esforço do Estado Novo na construção de uma soci- edade urbano-industrial possibilitou avanços extraordiná- rios na economia do país. Este setor da economia rapidamente tornou-se o mais dinâmico dos setores econô- micos do país: “Entre 1946 e 1955 a produção industrial cresceu em torno de 122 por cento. metalur- gia. principalmente.

a Sociedade Rádio Educadora se estabeleceu como a mais poderosa emissora de rádio da América Latina. em 1926. o merca- do para bens de consumo expandiu-se gradualmente para outras partes do país. artistas e intelectuais. dirigida apenas àquelas camadas com posses suficientes para adquirir um aparelho de rádio. radiotelegra- fia e radiotelefonia eram consideradas atividades similares. sociais e intelectuais. somavam 41. em 1931 e 1932. Com isso. 16:01 . as emissoras de rádio co- meçaram a ter patrocinadores e tornaram-se bem sucedi- das comercialmente. Amparado por decretos emitidos por Vargas. Instala- da em São Paulo. Em 1930 o país tinha 19 delas funcio- nando regularmente. para compa- nhias privadas que quisessem estabelecer emissoras comer- miolo tempos de vargas. Até meados da década de 30. 1982: 47). situadas nas classes média e baixa. operação. O rádio tinha como audiência. estabelecendo o espectro magnético como seu privi- légio. destinados a atender às novas camadas de consu- midores. isto é. O crescimento do número de emissoras foi significativo. A programação que antes enfatizava notícias e alta cultura. posta no topo de uma torre de aço galvanizado de 55 metros de altura. as primeiras foram a Rádio Clu- be de Pernambuco e a Rádio Sociedade da Bahia. o Estado se colocou como o agente responsável pela concessão de canais. famílias da alta sociedade. foi sendo mudada com a introdução de programas de entrete- nimento. ciência e música clássica. a maioria como empresas comerciais. vendendo 16 anúncios (Federico.p65 16 30/03/04. Oito anos mais tarde. por tempo determinado. No Nordeste.000 watts e uma antena de 70 metros. tinha um transmissor de 1. Operando comercialmente. utilizadas principalmente pelas elites econômicas. para seus pro- gramas de literatura. radiodifusão. Com a industrialização do centro sul brasileiro.

fundamento doutrinário da legislação dos Estados Unidos. verbas publicitárias para o rádio. como modelo para a radiodifusão brasileira. Mais que isso. assim. provocou o interesse das agências de propaganda americanas no mercado consumidor brasilei- ro. acompanhando in- vestimentos industriais de empresas transnacionais para as quais já trabalhavam nos Estados Unidos e em outros paí- ses. A nova proposta exigiu investimento das emissoras. assim. Lintas e Standard. O crescimento da radiodifusão. na verdade. Convencendo seus clientes a veicular anúncios no novo meio. Adotava-se. 16:01 . essas agências estrangeiras tiveram um decisivo papel na elaboração e sedimentação de uma economia para o rádio: elas produziam ou ajuda- vam a produzir programas voltados para as novas massas consumidoras e. que tiveram de montar orquestras e conjuntos musicais. miolo tempos de vargas. ciais. McCann Erickson. dirigido para audiências as mais amplas possíveis. eles se constituíram num dos mais importantes fatores para a consolidação das emisso- ras. tudo com base em anúncios de produtos de largo consu- mo. aliada ao desenvolvimen- to industrial e urbano. Vieram. Entre 1928 e 1935. na verdade. Carreavam. diversas delas se estabeleceram no Brasil. notadamente porque foram elas que passaram a desviar verbas de propaganda de jornais e revistas para aplicação no rádio. moldando a radiodifusão brasi- leira à imagem do sistema comercial americano. Esse modelo importado e implantado no Brasil se ca- racterizava por um estilo dinâmico e eclético de progra- mação.p65 17 30/03/04. negociavam a venda das au- diências a seus anunciantes.Walter Thompson. 17 volvimento da radiodifusão no Brasil. a exemplo de J. Essas agências tiveram um importante papel no desen. e ao mesmo tempo estimulando o rádio a usar uma programação mais popular. em seguida. o trusteeship model.

Como as duas primei- ras soluções se mostraram impossíveis. em 1938. 34 jornais diários. programadores e produtores criativos. as principais emissoras brasileiras criaram tam- bém departamentos comerciais. no final dos anos 30. Emissoras e Diários Associados. Por seu intermédio é que elas se rela- cionavam com as agencias de publicidade. o im- pério chegou ao auge 20 anos depois. 12 jornais diários e uma revista. organizada como condomí- nio fechado. criada pelo jornalista e empresário Assis Chateaubriand e que dura- ria cerca de quarenta anos. então contabilizando 36 emissoras de rádio. Isto levou os proprietários de jornais e revistas a vê-lo como um concorrente a ser en- frentado. miolo tempos de vargas. entre as quais a de maior circulação do país. em 1958. com quase um milhão de exemplares vendidos semanalmente. o pri- meiro conglomerado brasileiro de veículos de comunica- ção de massa: a corporação. O rádio tor- nou-se um poderoso competidor pelas verbas publicitári- 18 as disponíveis no mercado. eles passaram a disputar concessões para exploração do novo meio e a pres- sionar concessionários amadores a vender as concessões para interesses comerciais. muitas delas de propriedade dos mesmos grupos econômicos e políticos que controlavam os meios impressos. que são substituídos por empresas. eliminado ou comprado. Iniciado com a posse de cinco emissoras de rádio. Ao tempo em que se estruturaram tecnicamente para atender às novas de- mandas. provocou grande crescimento na inserção de publici- dade nos meios de comunicação de massa. A expansão das atividades econômicas. 18 emissoras de televisão e várias revistas. cantores.p65 18 30/03/04. É exatamente nesse processo que surge. com poder decisório so- bre a programação. além de contratar atores. desaparecem os rádio-clubes. 16:01 . speakers. O Cruzeiro. Na disputa. humoristas.

No início dos anos 40, como resultado da estratégia ame-
ricana na segunda grande guerra mundial, o Brasil – como
de resto toda a América Latina – passou a ser objeto de ope-
rações culturais, sociais e de informação por parte de agên-
cias governamentais americanas. A intenção dos Estados
Unidos era manter a hegemonia de valores democráticos
no país e restringir ao máximo a influencia alemã, vez que
existia no sul do Brasil uma relativamente ativa colônia
germânica. O país foi, então, invadido por filmes, discos,
livros e revistas americanas, o que vinha a se somar à já
existente invasão de produtos industrializados anunciados
nos existentes meios de comunicação de massa. A mensa- 19
gem política se constituía na exaltação das conquistas do
mundo livre e na condenação das atrocidades nazistas.
O Brasil entrou na guerra em 1942, ao lado dos aliados,
recebeu em troca a Companhia Siderúrgica Nacional e
outros auxílios financeiros dos americanos, ao mesmo tem-
po em que a ditadura começou a ruir. Em 1945, derrota-
do o nazi-fascismo na Europa, as tropas brasileiras
retornam ao país com idéias democráticas em grau sufici-
ente para juntar-se aos opositores civis ao regime de Vargas
e tirá-lo do poder. Uma assembléia constituinte foi eleita
e a nova constituição, promulgada em 1946, eliminou a
censura prévia, o controle do governo sobre os meios de
comunicação de massa e instituiu a liberdade de expres-
são. Reafirmados como bens públicos, os canais de radio-
difusão continuaram a ser concedidos exclusivamente pelo
Poder Executivo Federal. As emissoras estatais, particu-
larmente a Rádio Nacional, continuaram a funcionar nor-
malmente, disputando audiência e contas publicitárias em
condições de igualdade com as emissoras comerciais.
Seguindo o modelo implantado por Vargas e mantido
por seus sucessores, a radiodifusão continuou se expandin-

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do. Inicialmente, estabelecidas nas capitais dos estados, fo-
ram aos poucos se instalando em outras cidades do interior
do país. Em 1940 eram 70, passando a 243, em 1950.
Durante todo o governo Vargas a regulação das ativi-
dades de radiotelefonia, telefonia e radiotelegrafia conti-
nuaram nas mesmas bases iniciais, variando apenas os
constrangimentos técnicos impostos ao exercício das ati-
vidades. Na radiodifusão, aqueles constrangimentos pas-
saram a ser significativamente mais rigorosos. As conces-
sões abrangiam tanto aspectos técnicos de produção e
transmissão, quanto a natureza e o conteúdo da progra-
20 mação a ser oferecida ao público. Padrões técnicos relati-
vos aos equipamentos utilizados eram considerados im-
portantes porque deles depende o uso correto do espectro
na prestação do serviço e a não-interferência nas emissões
dos concorrentes.
Outro argumento para a existência de regulação espe-
cífica dizia respeito ao caráter intrusivo da radiodifusão,
particularmente no que se refere às crianças e adolescen-
tes. A partir dessa preocupação passaram a ser estabeleci-
dos rigorosos regulamentos relativos à decência, violên-
cia, sexo, bebidas alcoólicas, drogas, produtos tóxicos etc.,
além, evidentemente, de tudo o que se referisse à política,
à economia e à ideologia.
Uma terceira justificativa levava em consideração a uni-
versalidade da influência da radiodifusão para estabelecer
regulamentos visando evitar incitamento aos ódios racial,
de classe, de etnia, de religião etc. Nesse contexto, foi
institucionalizado também o direito de resposta.
A regulação da radiodifusão tornara-se, então, um pro-
cesso pelo qual o Estado, por meio de seu poder executi-
vo, estabelecia o modo em que ela se organizava e opera-
va, criando os meios para fiscalizar o cumprimento das

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normas, coibir e punir os abusos. Tanto a distribuição
quanto o conteúdo passaram a ser relativamente contro-
lados pelo Estado.
O controle da radiodifusão pelo Estado Novo ocorria
de duas formas principais: a) exercido parcialmente atra-
vés da concessão de emissoras de rádio e de licença para
importação de equipamentos; e b) diretamente, exercido
pelo DIP, através de censura e da distribuição da propa-
ganda estatal. Apesar disso, o período é marcado pela as-
censão do rádio, cujo apogeu ocorre com os programas de
auditório e radionovelas, financiados pela publicidade, li-
berada desde o Decreto no 21.111 de 1932, seguindo mo- 21
delo privado semelhante ao norte-americano. O DIP, con-
tudo, a partir de sua criação, em 1939, manteve-se sempre
vigilante. Para se ter idéia da dimensão do controle exer-
cido pelo órgão, apenas em 1943, ele examinou 27.396
programas de rádio e 5.678 músicas populares (Cultura
Política, n.47, dez/1944, p. 231).
Enfim, todo o processo de concessão e fiscalização da
radiodifusão, no Brasil, ficou centralizado no Poder Exe-
cutivo e, por conseqüência, sob direto controle do Presi-
dente da República. Iniciado por Getúlio, por Decreto de
1931, este modelo persiste até os dias de hoje.
Este livro busca analisar o pensamento e o comporta-
mento de Getúlio Vargas no processo de implantação e
consolidação da radiodifusão no Brasil. A concepção do
projeto, o levantamento de informações, sua análise e in-
terpretação foram orientados por um quadro de referên-
cia conceitual fundado em estudos próprios ou correlatos
do campo da economia política da informação e das co-
municações. Trata-se, portanto, de um trabalho que rele-
va o conhecimento sobre as bases políticas e econômicas
das decisões tomadas a respeito do tema em estudo, as

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e logo em seguida – a rigor. a ser utilizado com finalidades educacionais. (2) Conceituação da radiodifusão como serviço de interesse público. Ar- gumenta-se aqui que esses atos. miolo tempos de vargas. As análises feitas procuram demonstrar que o rádio foi inicialmente operado no país como um instrumento cul- tural. como também o modelo americano de uso comercial dos meios de co- 22 municação de massa. (4) Exploração predominan- temente privada da indústria. instituíram os princípios que têm norteado a re- gulamentação da indústria do rádio e da TV no Brasil. ao contrário. 16:01 . já surgiu no Brasil ungida por este último caráter. tendo como inspirações não só o padrão já estabelecido pelo rádio. de 1931 e 1932. A TV.p65 22 30/03/04. formas legais que estas decisões assumem e suas conse- qüências para a sociedade e a radiodifusão.047 e no 21. (3) Centralização do processo decisório e do controle da ati- vidade no poder executivo. Aprofundaremos estas questões no decorrer dos capí- tulos que se seguem. a saber: (1) Reserva da atividade para brasileiros. educacional e de entretenimento. Mostra-se igualmente neste livro que os primeiros atos regulatórios da radiodifusão deram uma direção estru- turada ao desenvolvimento e consolidação da indústria brasileira de radiodifusão e seu ambiente regulador. 10 anos depois de criada a primeira emissora – transformado num meio de comunicação de massa de caráter comercial. respectiva- mente. particularmente os decretos no 20.111.

miolo tempos de vargas. 16:01 .p65 23 30/03/04.

Primeiro Capítulo Nasce a Radiodifusão no Brasil miolo tempos de vargas.p65 24 30/03/04. 16:01 .

miolo tempos de vargas. 16:01 .p65 25 30/03/04.

couros e peles (Abreu. im- pulsionando a nascente indústria nacional. borracha. cacau. Este fator fazia com que o Brasil fosse altamente dependente dos rumos indicados pelo mercado internacional. o Brasil passava às margens da segunda revolução industrial. neste período. (. Entre os anos de 1928 e 1938 a participação econômica norte-americana caiu de 27% para 23%. enquanto a alemã cresceu de 12% para 25% (Abreu. algodão. Esta.p65 26 30/03/04. 1986:11). basicamente por que a indústria recém-implantada não tinha capa- miolo tempos de vargas. tabaco. com uma economia es- sencialmente agro-exportadora. recu- perou o nível das suas atividades de forma singularmente rápida se comparada à experiência de outros países. O Cenário Nacional e Internacional No final da década de 20.) a diversificação da pauta de expor- tações mostrou-se inviável. açúcar. foi o principal fator que contribuiu para a superação da crise.. (Abreu. a francesa de 6% para 3%. na qual oito produtos pri- mários representavam 90% do valor total das exportações: café (cerca de 70% do total). 1986: 28). através da diversificação de parceiros eco- nômicos e financeiros” (Abreu. portanto. A política econômica. a britânica de 22% para 10%. 1986: 13).. A adoção de um sistema de controle cambial que impedia a importação de determinados pro- dutos e protegia a produção doméstica competitiva. “caracterizava-se pela ênfase na manutenção de uma alternativa econômica que contrabalançasse a influência norte-americana. em vista de seu crescente po- 26 der de barganha (maior mercado consumidor de café bra- sileiro). 1986: 18). conquistado um importante espaço na economia brasileira do período. embora reservasse lugar privilegi- ado para os Estados Unidos. A Alemanha havia. Por outro lado. por sua vez. mate. 16:01 .

o suprimento adequado das necessidades de sua economia. Essa estratégia não impediu o Brasil de estabele- cer. circunscrito a autarquias e impérios coloniais (Singer. entre Brasil e Alemanha. pos- teriormente. Ao tempo em que prometia às autoridades norte-americanas que o comércio de com- pensação com a Alemanha seria reduzido.p65 27 30/03/04. Os Estados Unidos trataram de assegurar. bloqueando. em prejuízo dos interes- ses comerciais. os investimentos britânicos eram mais concentrados no setor de serviços públicos. relações comerciais com o Reich. com exceção da Argentina1 . não só no Brasil como em toda América Latina. como as ferrovias. 1986: 25). por intermédio do qual Vargas buscou comercializar os produtos brasileiros que não eram exportados para os Estados Unidos e que advinham de regiões politicamente importantes. 27 americanos eram aplicados. como o Nordeste e o Rio Grande do Sul. o Brasil conservou uma posição ambígua nas suas relações comerciais. Dessa forma. A partir daí. capitalizava tam- bém apoio ao seu governo. como em 1937. Um bom exemplo disso foi o acordo comercial. naquelas regiões. por meio de políticas de com- pensações (Abreu. cidade de competir num mercado mundial que conti- nuava ainda. firmado em fins de 1934. 1986:14). Em 1930. enquanto os capitais norte. a provisão que a Alemanha viesse a ter. Isto beneficiou os Estados Unidos e. a Alemanha. Vargas atingia dois objetivos: além de gerar rendimento para o comércio. ao mesmo tempo. durante a década de 30. O Reino Unido optou por enfatizar a proteção de seus interesses financeiros no Brasil. continuava a re- novar acordos bilaterais com aquele país. 16:01 . nas in- dústrias de transformação e atividades comerciais. predominantemente. (Abreu. 1986:217). o que reduziu sua importância de país su- pridor de bens. miolo tempos de vargas.

os Estados Uni- dos conheceram uma década de prosperidade. interna- mente. 1966: 1246). Sua indús- tria. sem dúvida. favorecida pelo governo e protegida por tarifas alfan- degárias elevadas. Do mesmo modo. o país foi obrigado a assumir os prejuízos provocados nos territórios invadidos. a sua economia que mais sofreu as conseqü- ências do pós-guerra. Tudo isso aliado a uma grave crise interna. organizado pelo Partido Comunista Alemão. antes da qual tinham feito grandes empréstimos. a Itália apresentava claros indícios de crise econômica. saiu totalmente esface- lada. ambas apoiadas pelos bancos.p65 28 30/03/04. tanto aos vencidos quanto aos vencedores da I Guerra Mundial. Logo após a Primeira Guerra Mundial. Foi um perío- do marcado pela produção colossal e pela especulação de- senfreada. estava em plena atividade. o chamado crack da bolsa de Nova York. imposto pelo acordo de paz e. Geograficamente. tanto do ponto de vista geográfico quanto político e econômico. Além de ter que arcar com os custos dos anos de conflito armado. A verdade. em 28 1929. contudo. organizado pelo Partido Socialista Italiano. foi forçada a aceitar a limitação do número de homens em seu exército. 16:01 . Mas foi. Do ponto de vista políti- co. O desenvolvimento registrado foi tão expressivo que o país tornou-se a princi- pal potência capitalista do mundo (Weiss. perdeu boa parte do seu território para os países aliados. teve que enfrentar um intenso movimento operá- rio. Mesmo saindo da guerra ao lado dos vencedores. O grande número de desempregados motivou a eclosão de um forte movimento dos trabalhadores. desencadeada pelo elevado índice de desemprego. Ao contrário dos Estados Unidos. princi- pal derrotado da Primeira Guerra. é que essa prosperidade era mais apa- rente que real e o establishment artificial sucumbiu à pri- meira crise. a Inglaterra amarga- miolo tempos de vargas. a Alemanha.

24% da sueca.. na taxa de desemprego e na perda progressiva da sua hegemonia política.) No pior período da Depressão (1932-33). pouco antes do fim da guerra.. 29 No mesmo período. va uma crise industrial sem precedentes. um ou- tro movimento preocupava o mundo: a Revolução Russa. 1997: 97).p65 29 30/03/04. nos cen- tros urbanos.. Alemanha e Suécia registraram ín- dice médio de desemprego entre 10% e 12%. que reivindicava aumento de salário e di- minuição das horas de trabalho para os operários. o que caracterizava situa- ção de economia em alta.. sobretudo. durante a década de 20: (. Além do cenário de forte estagnação econômica. os EUA mantinham uma taxa de apenas 4% de desempregados. (Hobsbawm. Com a crise de 29. além da reforma agrária para camponeses. Os reflexos da Revolução Russa se estenderam por toda a Europa e fortaleceram os movimentos de trabalhadores. não se limitou ape- nas aos países que haviam participado diretamente da guerra. que se revelava. 31% da noruegue- sa. 29% da austríaca.. A crise se alastrava por toda a Europa.) Grã-Bretanha. miolo tempos de vargas.) (Hobsbawn.). A crise de desemprego. 16:01 . e nada menos de 17% a 18% na Dinamarca e na Noruega(.. 32% da dinamarquesa e nada menos de 44% da ale- mã não tinha emprego (. no entanto. O principal movimento revolucionário do século XX atendia aos anseios do proletariado. 27% da americana. 22% a 23% da força de trabalho britânica e belga... a situação tornou-se muito mais grave: (. iniciada em 1917. 1997:95).

que passara a assom- brar toda a Europa e os Estados Unidos depois da Revo- lução Russa. regime pelo qual o Estado assume a responsabilidade pelo bem- estar da população. o que significou o abandono da política eco- nômica liberal. uma saída para a cri- se econômica. por outro lado. as políticas econômicas passaram a ser pautadas pela social-democracia. Além disso. Além de diminuir os índices de desemprego. e na Alemanha. A partir de então. A alternativa para a crise adotada em muitos países foi 30 o protecionismo. após a Segunda Guerra Mundial. pelos países europeus. Consolidada. a soci- al-democracia permitiu. já na década de 30. Antes. com Mussolini. A idéia de que a paz e a segurança sócio-econômica seriam restabelecidas pelo comunismo proporcionou o crescimento dos partidos de esquerda europeus.p65 30 30/03/04. Abalados por fortes manifestações sociais e por uma quase revolução socialista (no caso da Itália). o regime afastou também o fantasma do comunismo. porém. no mercado in- ternacional. mas. 16:01 . dentro do próprio sistema capitalista. esses dois miolo tempos de vargas. organizados em torno dos partidos socialistas e comunis- tas. por meio de políticas de geração de emprego e da busca da ‘har- monização’ entre capital e trabalho. a crise econômica mundial já havia cria- do condições históricas para o surgimento de fenômenos políticos. como o nazi-fascismo. uma vez que não se conseguia imaginar uma saída dentro das estruturas político-econômicas li- berais. intensificou a inquietação social e tornou a crise mais crítica. que teve a sua maior ex- pressão na Itália. Os Estados abandonaram o livre comér- cio e passaram a proteger sua economia. o fato de o comércio internacional es- tar praticamente parado deixava o cenário ainda mais preocupante e sem perspectiva. com Hitler. posteriormente.

31 gime. Desde 1938. Os sindicatos. através da expressão mais extrema do fascis- mo. principalmente o cinema e o rádio. interventor. nacionalista e dominador do pen- samento humano. o regime de Hitler pregava a supremacia dos arianos e esti- mulava uma brutal intolerância racial e religiosa. 16:01 . e. que teve um papel revolucionário na percepção do poder de persuasão que a radiodifusão e o entretenimento poderiam ter como instrumentos de propaganda política. regulava a rotina dos cidadãos.p65 31 30/03/04. Goebbels trabalhava em duas vertentes. Caminho semelhante foi adotado pela Alemanha. encarna- da pelo Estado. passaram a ser órgãos do Estado. países optaram por uma saída à extrema direita. num processo de massificação da opinião pública. Joseph Goebbels. o corporativismo. como solução dos problemas econômicos. Além do controle e da vigilância sociais. O precursor desta estraté- gia foi o ministro da Propaganda de Hitler. previa o crescimento apoiado no rebaixamento dos ganhos dos operários. foi estimulado e ganhou dimen- são maior entre a população mais pobre. Para consolidar a imagem paternalista do Estado e man- ter a ideologia do regime. Uma era a construção e mitificação da imagem de Adolf Hitler como uma espécie de super-herói paternal. repleto de valores em miolo tempos de vargas. o que quase os levou à destruição. No caso da Itália. Para isso. A vida social foi invadida por uma ideologia pseudocoletiva que. Tanto o nazismo como o fascismo previam a formação de um es- tado forte. A política econômica. quando assumiu a liderança da propagan- da nazista. fortemente controlados pelo re. o nazismo. principalmente durante a Segunda Guerra Mundial. tanto Mussolini quanto Hitler lan- çaram mão da propaganda política. utilizaram fortemente a incipiente indústria de comunicação de mas- sa. voltada para as grandes empresas.

Os efeitos da grande depressão também atingiram o Brasil. expandia-se conjuntamente o amor aos ideais nazistas e o ódio a tudo aquilo que não representasse esses valores: O entusiasmo e fanatismo das massas hipnotizadas pelo 32 seu Führer garantiriam completa adesão nacional tanto a uma nova rodada de matança nos campos de batalha quanto. a razão daria lugar à mais pura insanidade. A estetização da política. jornais.). à sistemática perseguição e extermínio de vítimas inocentes.. sinalizada por Ben- jamin no célebre texto sobre a arte e a reprodutibilidade técnica. Comple- tamente banida de todos os âmbitos da vida política e social. no âmbito interno. através da contratação de artistas. O Século XX se afirmaria como a era da recaída na barbárie (. Por trás desta tragédia de proporções globais. No campo político. A outra se manifestava pela via da manipulação e financiamento das empresas jornalísticas e da indústria do entretenimento. ciganos. doentes físicos e mentais. que viu ser desvalorizado seu principal produto econômico. Uma modernidade reacionária impunha ao mundo a nova cara do poder. fossem judeus alemães3 (e logo europeus). chegaria num nível jamais imaginado. 1999: 162). sem falar nos artistas “degenerados”4 . espetáculos públicos – teatrais e musicais – programas de rádio.. exposições fotográficas. observa Adriana Kurz. A propa- ganda engolira a política e a estética: o resultado seria devastador (Kurtz.p65 32 30/03/04. o processo de ur- miolo tempos de vargas. Desta forma. in- digentes. a pro- paganda nazista mostrava sua força e fazia escola. livros e revistas. 16:01 . homossexuais ou qualquer espécie de opositor político. diretores e escritores já reconhecidos e da produ- ção de filmes. o café. voga na sociedade alemã2 .

segundo a qual paulistas e mineiros se revezavam no governo da República. São Paulo e Minas apropriaram-se do poder central e instituíram a chamada Política do Café com Leite. que culminaria em 24 de outubro. em 1928 o presidente Wa- shington Luís. a coligação Aliança Liberal. miolo tempos de vargas. em julho de 1930. para a vice-presidência. ligado ao Partido Republicano Paulista (PRP). chapa em torno da qual se forma- rá.p65 33 30/03/04. banização e industrialização atinge as camadas médias e as massas urbanas. em julho de 1929. lança as candidaturas de Getúlio Vargas para presidente e de João Pessoa. que iniciou as articulações para um movimento revolucionário. Após uma eleição marcada por acusações de fraude. Júlio Prestes. a Aliança Liberal pregava a renovação e a modernização do Estado. Quebrando a regra política. na me- dida em que este era incapaz de absorver suas demandas. com a chancela dos militares. O es- topim foi o assassinato do candidato a vice-presidência. que passam a exigir participação polí- tica. posteriormente. a vitória dos paulistas não foi aceita pela Aliança Liberal. As reivindicações e pressões dessas novas forças leva- ram à contestação do Estado oligárquico agrário. 16:01 . liderado por Vargas (Abreu. com a posse do Governo Provisório. João Pessoa. passa a apoiar ostensivamente a candidatura de um 33 conterrâneo à sua sucessão. encabeçada por Júlio Prestes. Os preparativos ainda le- varam dois meses e em 3 de outubro. os revolucionários eclodiram o movimento. Progressivamente. de lado a lado. Ao contrário da coligação Concentração Conservadora. aproxima-se então do Presidente do Rio Grande do Sul e. Para se opor ao PRP. alijado do processo sucessório. que defendia a continuida- de administrativa. 2001: 4999). governador da Paraíba. o então presidente5 do Estado de São Paulo. o Partido Republicano Mineiro (PRM).

a partir daquele momento.p65 34 30/03/04. 34 nomeação de interventores e prisões. e um ‘best seller’ como ‘Urupês’ vendeu. A lite- ratura também era produzida só para as elites. o índice de analfabetismo. o Governo Provisó- rio anunciou o tom que deveria marcar as relações entre os órgãos de comunicação de massa e o Estado. desapropriação de bens. em 1918. O reflexo da disputa política na imprensa foi contundente. Renato Ortiz observa o baixo consumo de livros nesta época: Todos os testemunhos e as análises apontam que até a década de 30 a produção e o comércio de livros no Brasil eram praticamente inexistentes em termos de mercado. Segundo Werneck Sodré. de mil exem- plares. A tiragem de um romance era. que superava 60% dos 37. sofreram graves conseqüências (Sodré. a indústria de comunicação de massa no Brasil estava limitada ao cinema e a indústria fonográfica. os veículos que apoiaram a Aliança Liberal consolidaram-se. oito mil cópias (1988: 28). Embora a imprensa estivesse consolidada. desencorajava qual- quer investimento de consumo massivo nesse setor.6 mi- lhões de habitantes (IBGE. miolo tempos de vargas. 1934: 41). enquanto os que eram ligados à República Velha sofreram duras intervenções: O movimento liquidara. em média. 1977: 376). Mídia e Cultura Até meados da década de 30. Através de invasões às redações. a imprensa que apoiava a situação anterior. 16:01 . Mesmo os jornais que não ha- viam sido destruídos e por isso voltaram a circular de ime- diato. praticamente.

a década de 20 não foi diferente no Brasil. cine- teatros e cinemas) cresceram significativamente. contava com apenas 18 estações. como David W. em sua maioria. Começávamos. versões brasi- leiras dos sucessos americanos. 2000: 51). Amanda Leilop. praticamente sozinhos. Segundo Sérgio Augusto. seriados e filmes cômicos norte-ame- ricanos caíram rapidamente no gosto popular e as poucas produções nacionais eram. como a Photoplay. com atrizes como Eva Nil. concentrados nos prin- cipais centros urbanos: São Paulo. Charles Chaplin e Mary Pickford. na década seguinte. e Rio de Janeiro. além dos filmes. Lia Torá e. a influência de Hollywood impulsionou também o surgimento das primeiras revis- tas brasileiras especializadas em cinema. enquanto em 1922 já existiam nada menos que 1. Em 1907. entre outros. Griffith. a exemplo de Scena Muda (1921) e Cinearte (1926) que eram similares às produções norte-americanas. havia 108 estabelecimentos registrados. Embora a imprensa tivesse um papel importante na for- mação da opinião pública e dos valores culturais da época.p65 35 30/03/04. a quem deram o epiteto de ‘Lon Chaney dos Trópicos’ (Augusto. a expressão cultural de massa no país. miolo tempos de vargas. 16:01 . lançada pelo minei- ro Humberto Mauro. e Rubens Rocca. Marcada pela disseminação do cinema hollywoodiano em todo o mundo. 35 com 312. Minas Gerais. Os westerns. com 108 (IBGE. então. quando ainda filmava em Cataguases. promovida como ‘a Greta Garbo brasileira’. com 398.439. O rádio. a construir nosso próprio Star System. 1937: 1404). Os locais para exibição de filmes e espetáculos musicais (teatros. todas ain- da experimentais. que ainda não completara uma década de exis- tência no país. o cinema e a música popular fomentavam.

filma nas precárias condições com que conta. a Syncrocinex e à dupla de comediantes Genésio Arruda e Tom Bill. Em 1929. os filmes brasileiros. miolo tempos de vargas. o cinema falado estreou com a exibição do longa-metragem Broadway Melody. Na se- qüência. que já edita- va a revista Cinearte. todos dirigidos por Luis de Barros e quatro deles estrelados pelos mesmos comediantes: Canções Brasileiras. Estes filmes indicavam um rumo que teria boas possibi- lidades práticas de continuação no cinema brasileiro. Neste momento.p65 36 30/03/04. acreditava-se que o cinema falado seria a mola propulso- ra da produção nacional. dos 14 filmes produzidos em São Paulo. antes preteridos pelo público por conta da produção artesanal. 1986: 468). A produtora (a Syncrocinex). Lua de Mel – lançado em 21 de abril como com- plemento do erótico-romântico Messalina – Minha Mulher me Deixou (curta-metragem) e Sobe o Armário (Almanack Paulistano. Luís de Barros lançou a primeira produção bra- sileira falada: Acabaram-se os Otários. No ano seguinte. Souza. da mesma forma que a grande maioria das produtoras naci- onais do momento. cons- truindo estúdios ou importando equipamento refinado. De fato. uma vez que a barreira da lín- gua poderia quebrar a hegemonia norte-americana. o jornalista Adhemar Gonzaga. O sucesso da comédia caipira Acabaram-se os Otários deu impulso à produtora de Luís de Barros. No mesmo ano. em barra- cões improvisados e com o equipamento disponível. cin- co eram da Syncrocinex. 16:01 . fundou o estúdio cinematográfico Cinédia. O resultado são filmes baratos e de grande aceitação popular (Galvão. 1930. começaram a ter uma 36 estrutura industrial de produção. 2002). sem dispor de recursos que permitissem seguir os conselhos da crítica da época.

Souza. dos no- mes adotados pelos astros. ambos funcioná- rios da filial brasileira da gravadora Columbia. ao dixieland e outros ritmos importados. ou. em paralelo ao foxtrot. o primeiro musical brasileiro. a influência norte-americana centrava-se na distribuição. Enquanto as primeiras retra- tavam o universo caipira. 16:01 . ainda. a influência norte- americana ia além da ‘inspiração’ dos roteiros. A produção nacional concentrava-se cada vez mais nas 37 chanchadas e nos musicais. Pode-se dizer que no caso da música. através do aprovei- tamento dos cantores e atores que se popularizavam em um ou outro veículo. Apesar da indústria cinematográfica nacional delinear- se no início da década de 30.p65 37 30/03/04. 1986). Este filme é considerado também o marco inaugural da associação do cinema com o rádio. dos cenários ou dos nomes dos personagens. o sam- ba já se firmara no cenário nacional. formados nos EUA. um ritmo acelerado era im- presso às cenas onde pedestres e automóveis tentavam imi- tar um trânsito caótico tipicamente norte-americano e uma pessoa6 cantarolava o sucesso Singin’in the Rain no chu- veiro (Augusto. alternando esquetes cômicos com números musi- cais. como Tom Bill. não se pode dizer que ela fosse independente ou que sua produção reproduzia uma identidade nacional.. Mais uma vez. Coi- sas Nossas. Galvão. estreou em 1931. a imitação dos filmes originais ia além do estilo: em Coisas Nossas sobrepunham- se imagens dos edifícios paulistanos para dar a idéia dos arranha-céus nova-iorquinos. 2000. miolo tempos de vargas. ao charleston. do norte-americano Wallace Downey e Alberto Byington Jr. não influindo no conteúdo nem no estilo. diferentemente do cinema. das produtoras. copiando o estilo de Broadway Melody. Pelo contrário. estando presente por intermédio dos técnicos. Como narra Ruy Castro. como a Waldow.

A primeira gravação de um disco de jazz, por exemplo, a
de ‘Livery stable blues’ (...), no dia 26 de fevereiro de 1917,
se deu quase ao mesmo tempo que a primeira gravação de
um samba: a de ‘Pelo telefone’, pela banda Odeon. E só
não foi ao mesmo tempo porque, na verdade, o primeiro
samba foi gravado alguns dias antes do primeiro jazz.
Quando ‘Livery stable blues’ começava a ser prensado na
fábrica da RCA Victor, em Nova York, o povo do Rio já
estava cantando ‘Pelo Telefone’ no carnaval de fevereiro
daquele ano. (...) Ambos determinaram os rumos que os
dois países seguiriam: a música americana conservaria um
38 sotaque ‘jazzístico’ por décadas e a brasileira um sotaque
‘sambístico’ por mais tempo ainda. (Castro, 2000: 131).

Cinco anos após a gravação de Pelo Telefone, atribuída
ao sambista Donga, o movimento modernista, de 1922,
teve um papel central na defesa da cultura popular e, a
partir desta, no deslocamento cultural que aos poucos foi
substituindo a ‘cultura erudita’, importada de outros paí-
ses, pelos produtos da cultura popular brasileira. É neste
período que começa a aparecer uma primeira elaboração
de identidade nacional, expressa a partir do cinema e, es-
pecialmente, da música popular.
O discurso modernista foi adotado por sambistas como
Noel Rosa, talvez a figura mais importante do cenário musi-
cal neste período, responsável por várias composições que
exaltavam a figura do malandro e do cotidiano carioca. A
canção Não tem tradução, gravada em 1933, por exemplo,
ironizava a influência norte-americana no cinema: “o cine-
ma falado é o grande culpado dessa gente que sente que um
barracão prende mais que um xadrez”. Na música expressa-
va-se em versos irônicos (“Mais tarde o malandro deixou de
sambar/ dando pinote/ e só querendo dançar o fox-trot!”) e

miolo tempos de vargas.p65 38 30/03/04, 16:01

afirmava a oposição do samba aos anglicismos em voga:
“Amor, lá no morro, é amor pra chuchu, as rimas do samba
não são ‘I love you’. E esse negócio de ‘Alô’, A
‘ lô, boy’, ‘Alô,
Johnny’ só pode ser conversa de telefone”.
Esta tendência ia de encontro aos interesses políticos
em questão:

Já nos anos 20 o campo da arte e cultura era dominado
por uma discussão sobre a identidade e os rumos da
nação. A ideologia revolucionária formulada nos primei-
ros anos da Era Vargas veio revelar fortes pontos de con-
tato com as propostas antiliberais deste, então defendi- 39
das por intelectuais como Oliveira Viana, Azevedo
Amaral e Francisco Campos, que se tornou o primeiro
ministro da Educação (CPDOC, 1997, sp.)

Desde a campanha presidencial de 1929, a evolução do
uso da música popular como instrumento de propaganda
tornou-se bastante expressivo. As marchinhas a favor de
Vargas, gravadas por Francisco Alves, na Odeon, em ja-
neiro de 1929 - É, sim senhor7; Seu doutor8 e Seu Julinho
vem aí9 – encontravam resposta nas defesas de Júlio Pres-
tes gravadas por Jaime Redondo, na Columbia, em de-
zembro do mesmo ano – Harmonia, Harmonia10 e Comen-
do Bola11, ambas compostas por Hekel Tavares e Luiz Pei-
xoto. O Governo Provisório configuraria, notavelmente,
um marco divisor na formação de uma identidade nacio-
nal profundamente ligada ao samba.

A Política
A gravidade da crise econômica nacional e internacio-
nal acabou se constituindo numa causa importante para a

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substituição relativamente branda de Washington Luiz
pelo Governo provisório de Getúlio Vargas, em 1930.
Obviamente, as elites cafeeiras que dominavam a cena
política brasileira, não ficaram satisfeitas com a revolu-
ção. Em conseqüência, começaram a esboçar reação ao
governo, tendo como principal foco de resistência o esta-
do de São Paulo. Vargas, que havia assumido a presidên-
cia provisoriamente, prometendo uma nova Constituição
para o país, passa a sofrer forte pressão dos paulistas para
convocar uma assembléia constituinte, que elaborasse a
Carta Magna do país, restabelecendo o Estado de Direito,
40 suprimido pelo movimento de 30.
Acusando Vargas de estar protelando a Constituinte, em
9 de julho de 1932 os paulistas deflagaram a chamada
Revolução Constitucionalista, declarando guerra ao go-
verno central. É fato que os interesses políticos regionais
e econômicos foram os principais motivos para as elites
patrocinarem a empreitada revolucionária, mas também
é impossível negar que a grande maioria da população
envolvida no combate era movida por ideais democráti-
cos e legalistas. Entretanto, mesmo com grande adesão
interna, os paulistas não conseguiram ampliar o movimen-
to para além de suas fronteiras, e dessa forma tornou-se
fácil para o governo Vargas sufocar o movimento.
Um dos principais líderes da revolta foi Júlio de Mes-
quita, proprietário do jornal O Estado de S. Paulo. Este
episódio é considerado o primeiro embate político brasi-
leiro, onde a mídia foi largamente utilizada pelos dois la-
dos do conflito. Numa vertente, os jornais paulistas, que
concordaram em omitir notícias prejudiciais ao movimen-
to constitucionalista, inovaram com a técnica, até então
inexistente na imprensa brasileira, de publicar páginas
inteiras apenas com fotos expressivas, sem nada de texto,

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que pretendi- am tornar São Paulo uma ‘república italiana’. publicado em 09 de agosto de 193212: Há 30 dias que estamos em estado de guerra. o espaço tem vibrado. Paulo tem supportado victoriosamente sobre todas as suas fron- teiras o embate do inimigo. Paulo. A importância do rádio neste evento pode ser notada no texto. como Monteiro Lobato. 1999). Talvez mesmo não seja demais insistir nessa affirmativa. Vargas difundia a imagem dos paulistas rebelados como separatistas. temo-nos servido para annunciar a todos os rincões do Brasil. Guilherme de Almeida e Santos Dumont. para que não possa pairar sombra de miolo tempos de vargas. reproduzido abaixo. Nas emis- soras do Norte e Nordeste. As estações de rádio paulistanas também divulgavam discursos de personali- dades da vida cultural da cidade. Em todo este primeiro mez de campanha. Della. qual o verda- deiro caracter da revolução constitucionalista. porém. aonde cheguem as ondas das nossas estações transmissoras. eram narrados com sotaque nitidamente paulista (Porto. E isto está bem. ao microphone dos apparelhos de radiotelephonia.p65 41 30/03/04. de um articulista não identificado 41 de O Estado de S. durante o qual S. trans- mitindo aos quatro cantos do horizonte a voz dos orado- res que se têm succedido. Na outra vertente. 16:01 . quaes os reaes propositos e objectivos deste movimento de que S. Paulo tomou a iniciativa desmentindo os vituperios com que o procuram cobrir os nossos inimigos. O radio é uma admirável arma de guerra de que talvez ainda não tenhamos sabido nos utilisar com toda a efficiencia que lhe podemos dar. a exemplo de O Estado e da Gazeta. discursos preconceituosos con- tra as regiões. ininterruptamente. Mário de Andrade.

envolvi- dos no manto do nosso orgulho.. ressoaram também através do ar. ex- plorado o filão deste genero literario. É tempo de parar com os appellos. É isto o que pensam os nossos ir- miolo tempos de vargas. ouvimos mesmo um orador que falava com tremulos na voz car- regada de lagrimas com que se dirigia aos seus irmãos de um Estado do Norte. Foram feitos appellos aos bahianos e aos gauchos. 16:01 . os ‘apellos’ de todos os typos e aspectos. Parece que está inteiramente esgotado. Note-se desde já que isto é apenas uma opinião pessoal da qual muita gente discordará provavelmente. Durante este mez inteiro. sem atroar os ares com pedidos de socorro. em sucessão insistente.. tivemol-os vasados em 42 períodos onde perpassava a antecipação da victoria. como em phrases merencoreas onde transpareciam os receios e temores de almas amedrontadas. Saibamos vencer ou morrer. Basta de appellos! São Paulo está só. duvida sobre o caracter da guerra civil que hoje divide a República e só a má fé explique a persistencia com que ella é desvirtuada pelo interesse dos nossos adversarios. à Marinha e às polici- as.p65 42 30/03/04. aos pharmaceuticos e aos advogados. a tudo enfim para que se podia appellar. como em arrebata- mentos vibrantes e imperativos. tivemol-os profe- ridos em voz serena e persuasiva. porém per- mitido expol-a com a lealdade e franqueza de que sem- pre usei em meus escriptos. às classes conservadoras e às classes renovadoras. exhaurido. Tivemol-os em arroubos de oratoria demosthenica de admirável forma literaria. como em discursos gradiloquos de velho estilo. Seja-me.

assim. ‘Entre sem bater’ (1999: 379). Nos três dias de folia. Foi por isto. Nelson Werneck Sodré conta: Na terceira (reportagem). o Governo Provisório. na porta da redação. a censura endureceu e as pri- sões de jornalistas tornaram-se rotina. Na tentativa de conquistar apoio. mas per- cebeu que era difícil governar sem o auxílio das oligar- quias paulistas. Seu doutor não faça isso por favor. 16:01 . com o objetivo declarado de conciliar as diversas tendências políticas. Em 1933. Os jornais que apoiavam o movi- mento foram encampados. Um ano depois. Getúlio derrotou as forças constitucionalistas. Odeon. em 1933. No ano seguinte. mãos que estão dando o seu sangue nas trincheiras. a voz de Francisco Alves transformava a perseguição política em tema de carnaval cantando “Anistia. entre eles Julio de Mesquita e o poeta Guilherme de Almeida. Torelly começou a publicar no Jornal do Povo uma série de dez reportagens sobre a vida de João Cândi- do – líder da Revolta da Chibata. Foram expulsos para Portugal 68 líde- res oposicionistas. uma insurreição de ma- rinheiros.p65 43 30/03/04. que o ‘Barão’ mandou escre- ver. Encerrava-se. É o que me mandam dizer. Para a imprensa constitucionalista. 1999. Na prisão basta só meu coração” (Anistia. a nova Cons- tituição foi promulgada e Getúlio eleito presidente cons- titucional. 1934). a vitória de Getúlio 43 foi um duro golpe. Uma das vítimas foi o popular jornalista Aparício Torelly. on-line). certamente. anistia. em 1910. o conhecido homem de im- prensa foi seqüestrado por oficiais da Marinha e con- duzido para a Barra da Tijuca. miolo tempos de vargas. onde sofreu vexames.” (Medeiros. o Barão de Itararé. flexibilizou sua posição política e convocou uma Consti- tuinte.

p65 44 30/03/04. Fundando a Radiodifusão As primeiras experiências de telecomunicações no Bra- sil ocorreram entre 1850 e 1900. aos seus aspectos técnicos. Ela começa a ser organizada com sentido claramente econômico e veículo para o estímulo ao consumo de pro- dutos industrializados. Na déca- da de 20. mas principalmente com a ul- trapassagem desse sinal além de suas fronteiras (Federico. Naquele momento. com a radiodifusão transformando-se rapidamen- te. inicialmente. do controle sócio-político do país e da in- fluência na opinião pública. da telegrafia sem fio e da radio- comunicação em geral. constituídas por intelectuais.. Mas na década de 30. a radiodifusão seguia seus passos iniciais. 16:01 . Maria Elvira Frederico localiza em 1896. o que muda o conteúdo e o alcance de sua regulamentação. juntam-se aos aspectos técnicos. A partir de então. não só em territórios nacionais. a primeira transmissão sem fio. os fatores de segu- rança nacional..) necessidade da distribuição das freqüências e da 44 abrangência do sinal emitido pelas emissoras. o ponto principal para o processo de regulação era: (. ainda emitida em miolo tempos de vargas. Paralelamente à situação da política e da economia bra- sileira. organizada em torno de associações sem fins lucrativos. A legis- lação referente à regulamentação da radiodifusão pren- deu-se. 1982: 11-12). com o desenvolvimento da telegrafia por fio. a situação havia mudado radical- mente. em grande escala. a radiodifusão não era utilizada com objetivos econômicos nem políticos.

Isto só foi modificado em 1911. realizada em 1875. em 28 de dezembro de 1870 um novo decreto imperial estabelece que as linhas telegráficas e. 16:01 . deveriam ser de domínio do Estado. que previa não só as fina- lidades do serviço. Complementando os fundamen- tos legais que vieram a conformar a prestação de serviços de telecomunicações no país. código Morse (1982: 23). A legislação permaneceu inalterada até 1877. deu aos governos estaduais o direito de constituírem linhas dentro de seus limites. desde que não existissem serviços federais na região. os princi- pais estímulos à evolução das transmissões foram a ga- rantia da vida no mar e a concorrência entre as nações.761. quando o Brasil aderiu à União Telegráfica Internacional (Interna- tional Telegraph Union). assim. de 1º de outubro. pelo Conselho de Estado. este decreto foi revogado pelo de no 3. que deveriam servir à administração em geral. 45 Dado o alcance e a natureza do novo meio de comunica- ção e também ao início dos serviços telefônicos. os serviços tele- fônicos. por extensão. A natureza das linhas telegráficas e dos serviços telefôni- cos foi reafirmada. no en- tanto. já havia sido regulamentada pelo Decreto imperial no 2. em 1881. que determinou a área de abrangência dos telégrafos elétricos. visando a conquista de novos mercados13. Quatro anos mais tarde.p65 45 30/03/04.288. como também as respectivas tarifas. Naquele momento. A utilização dos telégrafos elétricos no Brasil. a primeira Constituição Re- publicana Brasileira. mas permitiu que fossem feitas concessões a particu- lares para sua exploração. com a Conven- ção Internacional de São Petersburgo.º 6. quando o governo federal con- miolo tempos de vargas. de 21 de julho de 1860. que manteve ambos os serviços sob domínio do governo cen- tral. de 1891.614. através do Decreto n. comprometendo-se. ao comércio e aos particulares. de 20 de julho de 1864.

portanto. Somente em 1917. portanto. de 10 de julho de 1917. através do Decreto n. a partir do conceito de telecomunica- ções como objeto de regulamentação federal. é um docu- mento de grande importância na história da regulação das telecomunicações no Brasil. de 10 de julho. restringindo às companhias e empresas brasileiras o direito de exploração de serviços de radiocomunicações no país (Federico.296. mas uma única regulamentação para todo o país. 16:01 . O Decreto no 3. a exploração dos serviços de radiotelegrafia e radiotelefonia em todo o território nacional voltaram a ser de competência exclusiva do governo federal. o decreto utiliza os conceitos de radiotelegrafia – telégrafo sem fio – e radiotelefonia – tele- fone sem fio.p65 46 30/03/04. regulamen- tações diferenciadas em cada província. 3º do Decreto n.296/17. 1982: 27).262. As concessões a empresas particulares estrangeiras para a ex- 46 ploração do serviço de telefonia continuaram a ser autoriza- das. 1982: 31). cedeu aos estados o direito de instalar linhas concorrentes com as federais. Não poderia haver. No plano técnico. de 13 de janeiro de 1921.º 4. revogou os parágrafos 1º e 2º do art. permanecendo os Correios responsáveis pela regulamen- tação e fiscalização do serviço telegráfico. A Constituição de 1891 consolidou a posição descentrali- zada adotada durante o Império. O rádio e a televisão não estavam ainda em miolo tempos de vargas. isto é. Foi ela- borado.296. Ele declara ser da exclusiva competência do Governo Federal os serviços radiotele- gráfico e radiotelefônico no território brasileiro. o de n. Esta política gerou atrasos e defasagens na implantação de um sistema nacional inte- grado dos serviços telegráficos e telefônicos no Brasil (Federico. O último Decreto promulgado antes do advento da radiodifusão.º 3. su- bordinado à política nacional e não às políticas das pro- víncias regionais.º 3.

à defesa do território nacional. Nesta época. miolo tempos de vargas. da qual seus fundadores faziam parte. com a colaboração da Light e da Cia. Criada com finalidades educativo-culturais. o precursor do posteriormente cha- mado Ministério dos Transportes e Comunicações. 16:01 . No Brasil. A indústria era inexistente no país e os serviços residenciais provavelmente caros demais para serem co- locados no mercado. no Rio de Janeiro. antropólogo e escritor. foi realizada em 1922. a primeira demonstração do que então se chamava de radiotelefonia. o conceito então utilizado estabelecia diferenciação entre os serviços de telecomunicações sob controle civil e os que deveriam estar sob controle militar. foi fundada a primeira estação ra- diodifusora nacional pelos idealistas Edgard Roquette Pinto. presidente da Academia Brasileira de Ciências e diretor do Observató- rio Nacional. 47 Os serviços de telecomunicações estavam então vincu- lados às atividades do comércio.p65 47 30/03/04. e Henrique Morize. a Aero- náutica e a aviação civil ainda não existiam no Brasil. evidentemente. Telefônica Brasileira. a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro iniciou suas trans- missões em 20 de abril de 1923. lacustre e fluvial) e. Um ano mais tarde. consideração como possibilidades tecnológicas de transmis- são de sons e imagens à distância. As transmissões en- tão feitas divulgavam a capacidade do aparato radiofônico da fornecedora de equipamentos Westinghouse. A este último estavam subordinados as aplicações destinadas à defesa nacional e ao serviço do Exército e da Armada. considerado o “Pai da Radi- odifusão Brasileira”. No plano político-execu- tivo. a partir da Academia Bra- sileira de Ciências. do qual se desmembrou depois o Ministério das Comunicações. Os demais serviços ficavam sob controle do Ministério da Via- ção e Obras Públicas. no alto do Corcovado. da navegação (marítima.

em 30 de novembro. Três meses depois. princi- palmente porque a Rádio Sociedade conquistava novos adeptos. contudo. Em 5 de novembro daquele ano. Roquette Pinto indicou para a presidência de honra da emissora o ministro da Viação e Obras Públicas. 16:01 . o governo entendia que a legislação existente para a radiotelegrafia e radiotelefonia atendia o controle da atividade radiofônica. devido à sua conotação estratégica. o presidente Artur Bernardes autorizou oficialmente o início das irradiações no Brasil. Neste período. foi promulgado o Decreto n. limitando a prática da radiotelefonia e proibindo a inserção comer- cial nas transmissões. Francisco Sá. desde que para fins educativos (Siqueira. de quem dependeria a revo- gação da lei.262/21 (Federico. Até 1924.657. No contexto da época. movimentando apenas uma elite inte- lectual e social. após a Primeira Guerra Mundial. 2001: 4869). a fundação da emissora foi quase um ato de desobediência civil.º 3.296/17 e n. Francisco Sá revogou a lei que tornava o rádio uma atividade clandestina e no dia 19 de maio a emissora 48 promoveu a sua instalação solene. a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro fez a sua primeira transmissão experimental. No dia 1o de maio. àquela época. também partindo de ideais educativos. Mas somente em 20 de agosto. marcado pela reunião de intelectuais em torno de rádio-clubes. presentes nos Decretos n. Mas o primeiro estatuto específico da Radiodifusão no Brasil só foi promulgado após a Revolução de 30. Mas a radiodifusão era.º 16. 1982: 50). o uso e as implicações da radiotele- fonia já preocupavam as autoridades brasileiras. foi constituída em São Paulo a Rádio Edu- cadora Paulista. pois a utilização do rádio encontrava-se restringida por lei. mais pre- miolo tempos de vargas. Dez dias depois.º 4. Para minimizar as conseqüências. praticada por diletantismo.p65 48 30/03/04.

Esses dois documentos estabeleceram as condições para outorga das concessões. embora ficas- se instituída a permissão para veiculação de inserções co- merciais. 1982: 50). de 1o de março de 1932. O Decreto de 1932 foi o pri- meiro ato regulatório nacional a mencionar a televisão. então chefe do Gover- no Provisório. que. através do Decreto no 21. Os decretos de 1931 e 1932 definiram as modali- dades de serviços de telecomunicações.p65 49 30/03/04. foi instituída também a obrigatoriedade de retransmissão simultânea de um pro- grama radiofônico nacional. Um ano depois. as autoridades revolucionárias começaram a se pre- ocupar com a sua regulação definindo. Sintonizado com a propaganda política que vinha sen- do feita nos Estados Unidos e na Europa através do rádio. autorizou a veiculação de propa- ganda. a radiodifu- são como “serviço de interesse nacional e de finalidade educativa”. cisamente. limitada a 10% do tempo de transmissão. até hoje. Este dispositivo foi mais tarde incorporado ao Código Nacional de Telecomunicações. Vargas.047. por meio do Decreto n. em 27 de maio de 1931. a necessidade de constituição de uma rede nacional e fixaram as condições técnicas a serem 49 obedecidas pelas emissoras.111. assinado por Getúlio Vargas. uma especificidade da expressão mais geral “radiocomunicação”. porém. já naquela época. uti- lizando a expressão “radiotelevisão”. não foi diretamente abordada. obriga to- das as emissoras de rádio do país a retransmitirem o pro- miolo tempos de vargas.º 20. Percebendo o efeito que o novo veículo pro- vocava. Nesse sentido. A sustentação financeira do rádio. a ser emitido pelo Serviço de Publicidade da Imprensa Nacional (Federico. 16:01 . apresentaram a clas- sificação desses serviços e estabeleceram as atribuições da Comissão Técnica do Rádio. então. então utilizada para referir-se ao que hoje se chama telecomunicações. vislumbrava a utilização do novo veículo no Brasil.

28. 14.º 20. cria- ram um sistema indireto de cerceamento à disseminação de emissoras e de fixação das estações já existentes. ao Ministério da Educação. inaugurado em 1934. O Decreto n.111/32. foi um dos motivos que levaram Roquette Pinto a doar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. uma vez que as entidades associativas tinham dificuldades para atender a 50 todos os novos requisitos e. é tido como seu autor: a) o editor ou produtor do programa. inciso III. de 9 de fevereiro de 1967 – ainda hoje em vigor. 9º.047/31. aliás. Federico afirma que os Decretos n.º 20. reportagens. alguns artigos levaram à restrição do impulso inicial da radiodifusão.º 5. 1982: 52). incentivando a concentração. quanto às emissões de radiodifusão. desde que o nome do autor não fosse mencio- nado. continuar legalmente em funcionamento. disposto no parágra- fo 1º do seu art. grama Voz do Brasil. por exem- plo.250. b) o diretor ou redator registrado de acordo com o art. 16:01 . com o nome de Hora do Brasil. Este. no caso de programas de notícias. Nas emissões de radiodifusão. a PRA-2. previa que os diretores de emissoras de rádio seriam responsabilizados pelas idéias divulgadas através de seus programas.047/31 e n. se não há indicação do autor das expressões faladas ou das imagens transmiti- das.º 21. pois não dispunha de recursos para cumprir as novas determina- ções legais (Federico. comen- miolo tempos de vargas. através de seu art. se declarado na transmissão. letra b. tanto em relação aos veículos impressos. Se- gundo ela. Este artigo foi posteriormente incorporado a Lei de Imprensa – Lei n. Disto resultou o domínio do poder econômico.p65 50 30/03/04. assim. ao instituírem dispositivos de fiscalização téc- nica e de distribuição de freqüências e concessões.

bem como ao Código Nacional de Telecomunicações. 21.795/63.º 52. o interessa- do deverá submeter ao Ministério das Comunicações estudo demonstrando a viabilidade técnica. 33. a obrigatoriedade de aperfeiçoamento das instala- ções e equipamentos. 51 são. debates ou entrevistas. tendo em vista a maior perfeição e o mais alto rendimento dos serviços. além do estudo mencionado no parágrafo anterior. elaborado segundo normas vigentes. na loca- lidade onde pretende explorar o serviço. o decreto estipulava a necessidade de prévia aprovação da localização da emissora. parágrafo 1º. através dos artigos: 10. Art. miolo tempos de vargas. letra b: Art. 23 de- terminava a possibilidade de revisão e remanejamento de freqüências por razões técnicas ou de defesa nacional. parágrafo 4º. 21: O Ministério das Comunicações poderá. O art. em relação aos demais programas. Estes dispositivos foram posteriormente incorporados ao Decreto n. relativo à inclusão de novo canal no correspondente plano de distribuição. c) o diretor ou proprietário da estação emissora. 24. Parágrafo 4º: Não havendo canal disponível. o Regulamento Geral da Radiodifu. das características de seus transmissores e dos planos de instalação. atra- vés do seu art. 23. às exigências decorrentes do progresso técnico-científico. 46 e 48. dentro de determinado prazo. 20. 10: A outorga para exploração dos serviços de radi- odifusão será precedida de procedimento licitatório. tários. determinar que as concessionárias e permissionárias de serviço de radiodifusão atendam.p65 51 30/03/04. a fim de estabilizar as freqüências. observadas as disposições legais e regulamentares. Já no art. 16:01 . E o art. em qualquer tempo.

. a radiodifusão atravessou todo o século XX operada sob licença do Poder Executivo federal. de defesa nacional ou necessidade dos serviços federais.p65 52 30/03/04.) b) as con- signações de freqüências anteriormente feitas. sem prévia autorização do Ministério das Co- municações.. 52 Art. miolo tempos de vargas. Art. proceder à revisão ou substituição das freqüências consignadas.. Lei n. 46: As estações deverão executar os serviços de radio- difusão com os equipamentos e nas instalações aprova- dos e de acordo com o respectivo certificado de licença.. Regulada no Brasil dentro do espírito autoritário da Revolução de 30. 48: As empresas concessionárias e permissionárias de serviços de radiodifusão são obrigadas a observar as normas técnicas em vigor e as que venham a ser baixa- das pelo Ministério das Comunicações com a finalida- de de evitar interferências prejudiciais aos serviços de telecomunicações.).º 4. ter participação da socieda- de civil na regulação de suas atividades. 23: O Ministério das Comunicações poderá. E ingressou no século XXI sem qualquer indicação de que poderá. por motivo de ordem técnica.117/62. parágrafo 1º: Na atribuição de freqüências para a execução dos serviços de telecomu- nicações serão levados em consideração: (. em algum momento. 16:01 . 33. em qualquer tempo. Art. objeti- vando evitar interferência prejudicial (. Art. Parágrafo 1º: Nenhuma alteração poderá ser feita na estação.

vem/ pra ganhar vintém/vem. apoiou abertamente os paí- ses do Eixo desde sua formação (Hobsbawm. 1999. os personagens de Liv Ullmann e David Carradine sobrevivem à crise econômica como cobaias de um terrível projeto científico: eles serão. A eficácia ‘científica’ nazista é magistralmente abordada numa obra atípica de Ingmar Bergman. não fosse a (quase irreal) realidade deste tipo de aberração pseudo-científica praticada pelo nazismo. 8 “O pobre povo brasiLeiro/ Não tem. 53). os judeus representavam menos de um por cento da população da Alemanha. à época. O Ovo da Serpente (Das Schlangeneiv). 70 mil doentes mentais já haviam sido eliminados. mais da metade deste contingente tinha deixado o país. 1997: 136) 2 Por exemplo. 3 “Em1933. produção nor- te-americana e germânica de 1978. 16:01 . 6 Há aqui uma cisão entre duas fontes consultadas: Maria Rita Galvão e Carlos Alberto de Souza afirmam que era um rapaz (1986. vem/aproveitar também”. em decorrência de ferimentos da guerra. de Presidentes. não tem. através de seu governo.p65 53 30/03/04. seu Julinho. 5 Os governantes dos Estados que constituíam a república federa- tiva do Brasil eram chamados. p. 7 A letra ironiza o presidente Washington Luis e a sucessão “vem. algo em torno de 500 mil pessoas. vem. não tem dinheiro/ O ouro veio do estrangeiro/Mas ninguém vê o tal cruzeiro/Ó seu miolo tempos de vargas. Na Berlim dos anos 30. No outono de 1941. 4 “Ainda segundo o filme de Cohen. Os dados foram retirados de Arquitetura da Destruição (1989)” (Kurtz. p. lenta e sistematicamente envenenados no lo- cal em que moram. sob o devido registro cinematográfico” (Idem). 162). a matança no âmbito interno – o chamado T4 – somente provocaria o protesto do clero quando circularam rumores de que a ‘eutanásia’ estava sendo “praticada” 53 também em soldados alemães portadores de danos cerebrais. 468) enquanto Sérgio Augusto afirma ser uma jovem quem can- tarolava (2000. p. foi de Goebbels a idéia da saudação “Heil Hitler” (Salve. Notas 1 A Argentina. que bem poderia ser visto como um filme de terror. Em 1941. Hitler) que ficaria cristalizada na memória da humanidade.

cit. on-line). 16:01 . é brincadeira” 54 12 Foi preservada a ortografia original tal qual transcrita na repor- tagem de Jotabê Medeiros no próprio jornal em 07 de março de 1999 (Medeiros. Doutor! Ó seu Doutor!/Que sobe lá para o poLeiro/ Esquece cá do galinheiro/Só pensa num bom companheiro/A fim de ser o seu herdeiro”. 11 “Getúlio/ você ta comendo bola/Não se mete com seu Júlio/Que seu Júlio tem escola/Atrás do liberalismo/Ninguém vá que esse cinismo/é potoca.p65 54 30/03/04. duas estações transmissoras de 500 w. muita gente há de chorar”. que enviou para o país. miolo tempos de vargas. 1999. numa estratégia de busca de novos mercados. op. Seu Julinho vem/Vem. 13 Uma prova destas experiências no Brasil é a investida da empresa norte americana Westinghouse. 10 “Eles pensavam que a pimenta não ardia/ e que seu Júlio não se mexia/mas vendo Júlio com uma bruta maioria/ Getúlio Vargas lhes repetia/Harmonia Harmonia/ 17 contra 3 é covardia”. p.15). mas custa. a título de demonstração.. Seu Julinho vem/Se o mineiro lá de cima des- cuidar/Seu Julinho vem. 9 “Seu Julinho vem. (Frederico.

16:01 .miolo tempos de vargas.p65 55 30/03/04.

16:01 . Segundo Capítulo A Radiodifusão e a Constituição de 1934 miolo tempos de vargas.p65 56 30/03/04.

16:01 .p65 57 30/03/04.miolo tempos de vargas.

agravamento do estado de miséria e aumento da criminalidade. 16:01 . resultaria daí um equilíbrio entre a oferta e a demanda. a União Soviética. Como uma pessoa. isto é. O mercado era regido pelo prin- cípio da não-regulação. de qualquer inter- venção estatal. aumento do de- semprego. O Conceito Regulatório de Vargas para a Radiodifusão Até 1929 predominavam. miolo tempos de vargas. No entanto. não necessitando. portanto. como os pedidos de falências. não poderia influenci- ar o mecanismo de preços. não deveria. a cada um estaria aberta a oportunidade de ser economicamente independente e politicamente emancipado. e. portanto. o Estado não poderia violar a propriedade privada. a partir de 1929. de forma alguma. alta concentração de renda. e. as dire- trizes de uma política na qual não cabia ao Estado inter- vir na ordem econômica. di- minuição do comércio interno e externo. tanto quanto a liberdade e a vida. so- bretudo pelos países industrializados – excetuando-se. ao mesmo tempo que possibi- litaria uma economia desprovida de crises. consequentemente. A teoria liberal pressupunha uma economia de livre comércio. no cenário mundial. Do agravamento da crise. Para eles. a crise econômica mundial registrada na segunda metade da década de 20 e que precedeu ao crack da bolsa de Nova York. Assim. colocaram em xeque este modelo liberal. isoladamente. apenas. ser violada. Os liberais clássicos defendiam a propriedade privada como um direito natural do homem. nem utilizar mecanismos que viessem a exercer sobre ela qualquer tipo de pressão.p65 58 30/03/04. os indivíduos eram autônomos em relação aos po- 58 deres públicos. resulta a mudança dos rumos da política econômica adotada em praticamente todo o mundo. acreditava-se que ele se auto- regularia. constituída por indivíduos igualmente livres.

Na tentativa de contornar a crise são deixados de lado os pilares intrínsecos ao liberalismo. 16:01 . Diferentemente do que é apontado por alguns autores. frutos de estados fortes. e que vai perdurar. visando a geração de emprego para superação da recessão e controle do movimento operário – que cres- cia e forçava os governos a atenderem suas reivindicações. No caso específico da regulação da radiodifusão. 2. sua concepção estava con- centrada num fator tecnológico – a limitação do espectro eletromagnético. A definição de Serviço Público que aparece é a de “relativo ao uso do público em geral” (Art. que controla o mercado de produ- ção e as políticas públicas. ainda que parcial. o Estado do Bem-estar Social. mesmo quando o uso do espectro eletromagnético não tinha interesses comerciais. so- bre a concessão de seu uso. criadas para tal fim. como um “Serviço Público” (Motter. que se propunham a intervir na economia e a exercitar mecanismos de organização e con- trole. Dado que aquele espectro era considerado um bem público. diretamente ou por meio de entidades para-estatais. no Brasil.p65 59 30/03/04. um estado forte e centralizador. principalmente europeus. discordantes do liberalismo clássico. era normal e neces- sário que o Estado exercesse controle. de caráter universal. Historicamente. até a década de 70. a radiodifusão não aparece na sua primeira regulamentação. particular- mente a não intervenção estatal nas atividades econômi- cas. então. Nasce. Em conseqüência. os governos nacionais passam a controlar a economia e a desenvolver políticas de bem es- tar social. surgem exatamente nesta época as po- líticas de regulação. Nesse contexto. § 2. a política do não-intervencionismo es- tatal ruiu. Esta concepção tornou-se co- mum em todo mundo. a) sendo bastante miolo tempos de vargas. em muitos 59 países. do mercado. 1994: 104). que permitia a existência de poucos con- cessionários.

quando centraliza o poder de conces- são na figura do seu Chefe que. também não aparece na regulação do setor. institui a operação em rede nacional. 20º e seu parágrafo único. em seu art. Esta recepção estava também condicionada a respeitar dois princípios: a) não ter objetivo comercial. em conseqüência do que seu uso deve ser permitido gratuitamente ou por preços e con- dições não-discriminatórios. Art. O Artigo 11. Ao Minis- tério da Viação e Obras Públicas cabia o papel fiscalizador. 93º.111‘. Era necessária inscrição no Departamento dos Correios e Te- légrafos para a recepção da radiodifusão. O Decreto 21. §3). para atender aos objetivos do serviço e designa o Ministério da Educação e Saúde Públi- ca como regulador das orientações necessárias. b) não produzir perturbações na recepção feita por outros. do Decreto no 21. e. Ele é considerado de interesse nacional e finalidade educacio- nal. deixa transparecer que ‘interesse nacional’ pode ser traduzido por interesse 60 do governo Vargas. for- maliza as outorgas dos serviços de radiodifusão. 16:01 . através de Decretos.p65 60 30/03/04. miolo tempos de vargas. generalista se comparada a apresentada em Jambeiro et alli (2000a: 25). §1º. O termo interesse público.111. (Art. segundo a qual “serviço público é a atividade considerada de interesse geral por uma coletividade e como tal reconhecida pelo Estado. dos sinais horá- rios e dos boletins meteorológicos. Também o chamado ‘público em geral’ dependia de permissão para possuir aparelhos re- ceptores e estava obrigado ao pagamento de taxa anual (estipulada em dois mil réis) sob pena de perdê-los. mencionado por alguns au- tores. Não só os transmissores de radiodifusão estavam a mercê de fis- calização governamental. razoáveis e justos”. A finalidade educacional do serviço de radiodifusão está pontuada por interesses de difusão da ideologia governa- mental. 11.

científi- ca e artística” (Decreto 21. b) questões de conteúdo – os conteúdos de propaganda comercial deveriam ser proferidos de maneira concisa. e versará sobre os assuntos educacionais. 6º. como atividade nacionalmente regulada. para a transmissão de um programa nacional “destinado a ser ouvido. em horas determina- das. social. Art. 69º). segundo. cuja permissão está condicionada a: a) fatores técnicos – inicialmente. Art. alínea d. 6º. alíneas a.655. parágrafo único). 20% do tempo total de irradiação de cada programa. com duração máxima de 60 segundos. b e c).655. 10% do tempo total de cada programa. financeira. o Decreto 24. na obrigatoriedade de uma rede nacional. subordina- da ao Ministério de Viação e Obras Públicas. Posteriormente.111. Art. 73º. ela fica clara em dois momentos: primeiro.111. Art. miolo tempos de vargas. Posteriormente. entre 07 e 16 horas (Decreto no 24. em todo o território do país.p65 61 30/03/04. Art. não sendo per- mitida a reiteração de palavras ou conceitos (Decreto no 21. econômica. anedotas ou palavras nas mesmas condições” (Decreto 24.655 transfere a fiscalização da radiodifusão ao Departamento dos Correios e Telégra- fos e a determinação de normas técnicas passa a ser res- ponsabilidade da Comissão Técnica de Rádio. 16:01 .111. nasce comercial e seu sustento está baseado na publicidade. Decreto no 24. constituída pelo conjunto das estações do país. alíneas a e b). E. A radiodifusão brasileira. 6o. na proibição da “irradiação de trechos musicais cantados em linguagem imprópria à boa educação do povo. duração máxima de 30 segundos e interca- ladas nos programas (Decreto 21.655. 73º. po- dendo ser ampliada para 75 segundos nos dias úteis. Ainda sobre o objetivo de divulgação da ideologia do Estado. religiosa. Art. cla- ra e conveniente à apreciação dos ouvintes. de ordem 61 política. d). ao mesmo tempo.

Por outro lado, o modelo brasileiro de radiodifusão já
nasce condicionado às funções ideológicas governamentais,
em detrimento das questões econômicas. A obrigatoriedade
de permissão para a recepção de radiodifusão e a finalidade
exclusivamente educacional do serviço são contrários ao
regime de acumulação, que somente pode ser classificado
como “de massa” a partir da adoção do entretenimento como
finalidade e da comercialização massiva dos aparelhos re-
ceptores. O que, de fato, passa a ocorrer a partir de 1932,
com a criação de emissoras comerciais e a vinda para o Bra-
sil de agências de propaganda americanas, encarregadas de
62 promover a venda de bens de consumo.
A legislação de radiodifusão instituída pela Revolução
de 30 – que surpreendentemente perdurará até 1962,
quando o Congresso Nacional aprovou o Código Nacio-
nal de Telecomunicações – tratava a radiodifusão utili-
zando conceitos que se fixaram definitivamente no setor:
bem público, serviço público, interesse nacional, propósi-
tos educacionais, o Estado como poder concedente, a
empresa privada como operadora principal do serviço. Ela
também inaugurou no Brasil o trusteeship model, ameri-
cano, que coloca o Estado como detentor do espectro ele-
tromagnético e de poder para conceder seu uso, e o
empresariado como fiel depositário daquele espectro, que
pode usá-lo para gerar lucro, por tempo determinado, den-
tro de limitações legais impostas pelo governo federal.
Do ponto de vista de política de regulação, podemos
concluir que os decretos de 1931 e 1932, e os subsequentes
deles derivados, foram a base sobre a qual se assentou o
desenvolvimento do rádio no Brasil. Ao mantê-los como
base legal, Vargas já indicava que a forma de organização
do serviço deveria servir plenamente à ditadura. Embora
copiados do sistema de leis de um país democrático – os

miolo tempos de vargas.p65 62 30/03/04, 16:01

Estados Unidos – a legislação em sua essência é autoritá-
ria, porque concentra todo o processo de concessão, fisca-
lização e controle no Poder Executivo, impedindo qual-
quer possibilidade de ingerência da sociedade civil.
Na verdade, a cópia foi seletiva, vez que não foram le-
vados em conta os dispositivos legais que criaram a Fede-
ral Communication Comission e mecanismos de audiência
das comunidades americanas servidas por emissoras de
rádio, entre outras disposições legais que tornavam a re-
gulamentação dos Estados Unidos concordante com a
democracia liberal lá reinante.
63

O Início da Era do Rádio
Como vimos anteriormente, percebendo o efeito que o
rádio provocava nas pessoas, o governo começou a se pre-
ocupar com a sua regulação, em 1931. Em maio deste ano,
através do decreto 20.047, o governo definiu a radiodifu-
são como “serviço de interesse nacional e de finalidade
educativa”. Um ano depois, em 1932, através do decreto
12.111, o governo autorizou a veiculação de propaganda
pelo rádio, limitada a 10% do tempo de transmissão. A
partir daí, o rádio perde as suas características de erudito,
instrutivo e cultural e transforma-se em meio popular de
lazer e diversão (Caldeira, 1997: 274).
No plano internacional, os meios de comunicação já
haviam se consolidado como empresas industriais-comer-
ciais de informação, o rádio se transformando em pode-
roso meio de disseminação de informação, idéias e opini-
ões e a indústria gráfica começava a massificar produtos
culturais, antes consumidos apenas pelas elites.
Para se entender melhor o poder do rádio como instru-
mento de disseminação de informação, é preciso voltar um

miolo tempos de vargas.p65 63 30/03/04, 16:01

pouco no tempo. O final do século XIX e o início do século
XX foram períodos marcados por grande desenvolvimento
científico e tecnológico. Simultaneamente, surgem na vida
das pessoas inovações variadas, como a energia elétrica, o
telefone, transporte de massa, aviação, elevador e, posteri-
ormente, o rádio, que passa a se desenvolver comercialmente
depois da Primeira Guerra Mundial.
Esses avanços causaram um impacto profundo na soci-
edade. O rádio chega numa época em que as pessoas ain-
da não haviam se acostumado a uma convivência tão pró-
xima com desconhecidos dos seus grupos familiar e soci-
64 al e que passam a fazer parte de suas vidas, com o apareci-
mento dos transportes de massa e até mesmo do elevador.
Analisando a influência do rádio na sociedade de 30 no
Rio de Janeiro, Sevcenko destaca a diferença do novo veí-
culo das demais tecnologias inseridas anteriormente:

Partindo cada um do seu isolamento real, se encontram
todos nesse território etéreo, nessa dimensão eletro-
magnética, nessa voz sem corpo que sussurra suave vin-
da de um aparato elétrico no recanto mais íntimo do
lar, repousando sobre uma toalhinha de renda capricho-
samente bordada, e ecoando no fundo da alma dos ou-
vintes, milhares, milhões, por toda parte e todos anôni-
mos. O rádio religa o que a tecnologia havia separado.
Era um modo de remeter a um recôndito familiar das
tradições e das memórias um artefato moderno e de efei-
to arrebatador. Cada um põe naquela voz aliciante o
rosto e o corpo dos seus sonhos (Sevcenko, 1998: 586).

Em meados da década de 30, portanto, o rádio já havia
conquistado um público fiel. Criou-se um elo mágico en-
tre o indivíduo, que atuava nos microfones, e a coletivi-

miolo tempos de vargas.p65 64 30/03/04, 16:01

fossem lançados nomes. que sob os auspícios de um purgante fabricado pelo Laboratório Queirós. Mas é no Estado Novo. apare- cem os programa de variedade. com milhares de ouvintes cativos. com o objetivo de “vulgarizar as realiza- ções do governo e esclarecer a opinião pública sobre os problemas do momento” (Nosso Século: 70). Foi nessa escola que o presidente americano Franklin Roosevelt foi educado e aprendeu que o que é dito no rádio vale mais pelas qualidades sensíveis da elocução da voz do que pelo conteúdo do que é comunicado (Idem. através de patrocínios dos programas mais po- pulares e dos artistas. 16:01 . o governo investe significativamente na área da radi- odifusão. locução e distribuição e controle de mercados. que possibilitaram ao novo veículo influenciar o compor- tamento das pessoas e a ditar suas modas. Em meados da década de 30 o rádio já havia se consoli- dado como veículo de informação e de entretenimento.p65 65 30/03/04. levando-as a participar mais ativa- mente da vida nacional. sem dúvida. Em 1932. A grande audi- ência desses programas permitiu. que tinha como base o interesse das agências de pu- blicidade em explorar recursos para conquistar audiência. Para for- jar uma ideologia estado-novista aceitável pela popula- ção. O modelo norte-americano de radiodifusão adotado no Brasil. já então. posteriormente consa- miolo tempos de vargas. permitiu o desenvolvimento de técnicas de administração. Getúlio cria a Hora do Brasil. Além de vender produtos e ditar modas. por exemplo. que a simbiose do rádio com a política vai ter sua maior expressão. transformados em ídolos. os primeiros a transformá- lo em fenômeno social. dade. Ibidem: 584). 65 A repercussão do uso do rádio na propaganda política não tardou a chegar ao Brasil. Com a introdução do patrocínio de anunciantes. o rádio mobilizava as massas. edição.

O rádio. diariamente. oferecendo salário em dobro. de norte a sul e de leste a oeste. Se faz parte da alta sociedade. segundo os críticos. grados. come- ça a se tornar realidade ainda nos anos 30. 16:01 . mantém o receptor na ópera. a Rádio Record de São Paulo introduz o cast profissional e exclusivo. Na verdade. Para se ter idéia da rápida transformação do rádio de veículo erudito em meio de comunicação de massa.. vislumbrada por Roquette Pinto. Fran- cisco Alves. o ouvinte de rádio é um typo interessante. O veículo até então erudito. a introdução de mensagens comerciais transfigurou imediatamente o rádio. instrutivo e cultural transformou-se em popular órgão de lazer e diversão.. como os de Carmem Miranda. Ibidem: 62). que lhes fora apresentado como símbolo de status e eru- dição. efetivamente. No tabuleiro da bahiana tem. conversa acerca de Verdi. basta lembrar o conflito vivido pelos ouvintes das classes mais abastadas que. Lamartine Babo. en- tre outros (Idem. recebe em casa o gran-fino. Ibidem: 62) Em 1934. de repente passa a transmitir programas humorís- ticos que.. Foi também com o advento da publicidade que as emissoras se organizaram empresari- almente para disputar o mercado. mas é na déca- 66 da de 40 que o veículo passa. Almirante e Noel Rosa. falando mal o próprio idioma”. Entretanto. A integração nacional através do rádio. “agridem a língua portu- guesa.p65 66 30/03/04. Mário Reis. numa carta enviada a Rádio Mayrink Veiga. A miolo tempos de vargas.. um ouvinte ironiza àqueles que reclamam da popularização do veículo: Psycologicamente falando. Mas quando as visitas se retiram. escreviam para as emissoras reclamando da popularização da programação. a interferir na vida do país. (Idem.

transparece nas inaugurações de transmissoras em todos os cantos do país. por exemplo. Araci de Almeida era A Dama da Central.p65 67 30/03/04. que iniciou a sua carreira em 1918 cantando à noite em circos e teatros e trabalhando como motorista de táxi durante o dia. 16:01 . que for- mou com Chico Alves uma lendária dupla. enquanto Silvinha Melo e Dalva de Oliveira ficaram conhecidas como Bonequinha de Feltro e Voz De- liciosa. Carmem Miranda. Foi também com o advento da publicidade que as emis- soras passaram a se organizar em empresas para disputar o mercado. A integração nacional. Na década de 30. Na fábrica de mitos do universo radiofônico. respectivamente. partir daí as grandes emissoras contratam a peso de ouro astros populares e orquestras filarmônicas. Já o cantor Mário Reis. depois que ingressou no elenco da Rádio Mayrink Veiga ficou conhecido como O Rei da Voz. A Constituinte E como o poder político via tal desenvoltura no desen- volvimento da radiodifusão? Como isto repercutiu na ela- boração do instrumento legal que passaria a regular a soci- miolo tempos de vargas. mantêm pessoal fixo. Mesmo as pe- quenas. raro era o mês que não se inaugurava um novo transmissor. A competição teve três vertentes: o desenvol- vimento técnico. Francisco Alves. o status da emissora e popularidade. começou a cantar profissionalmente em 67 1929 e já no fim dos anos 30 ostentava o título de cantora de maior sucesso no Brasil. os canto- res e as cantoras eram lançados com uma alcunha agrega- da ao nome artístico pelos locutores e programadores das emissoras. recebeu o ape- lido de O Grã-fino. vislumbrada por Roquette Pinto. A Pe- quena Notável.

até porque constava do programa do novo miolo tempos de vargas. sem uma Constitui- ção. quando a Tchecoslováquia foi sacrificada em troca da garantia de que não haveria guerra. A guerra contra a Abissínia e o desafio direto à Soci- edade das Nações contribuíram para aumentar o prestígio de Benito Mussolini. Sistemas autoritários. nos moldes fas- cistas. por todos os meios. em sua maioria decorrentes da Primeira Guerra Mundial. No Brasil. apesar de assumir o comando do país com amplos poderes. isto é. Hitler dera um golpe branco e chegara ao poder. a nova Constituição.p65 68 30/03/04. passaram. enquanto proclamava a superioridade da raça ariana pura. principalmen- te nos paulistas. iniciando a implantação do nazismo e multipli- cando o poder do exército alemão. o pâni- co de provocar nova guerra mundial e a esperança de que a Alemanha representasse um empecilho à propagação do regime doutrinário em vigor na Rússia levaram a Ingla- terra e a França a fechar os olhos para as investidas de Hitler. dominada com mão de ferro pelo stalinismo. que consolida- ria a Revolução de 30? Bem. Na Itá- lia. A União Soviética. du- rante os quais ocorreram acontecimentos marcantes. A indecisão dos governos parlamentares da Europa. a Constituinte de 34 se instala sob a influência dos primeiros anos da década de 30. até mesmo no vergonhoso episódio da capitulação de Munique. estimula. edade brasileira. ou seja. 68 Na Alemanha. a proliferar por todo o mundo. a expansão do comunismo no mundo. A exigência pela convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte passa a ser voz corrente nos meios políticos. fora descon- siderada pelos revolucionários de 1930. já que a de 1891. aplaude a disciplina férrea introduzida pelo fas- cismo. 16:01 . o Governo Provisório de Vargas atuava sem uma base jurídica legal. até então em vigor. a nação ainda amargurada e sob constante ameaça de desordem. então.

ini- ciam a Revolução Constitucionalista de 1932. os primeiros instrumen- tos normativos da radiodifusão haviam surgido no Brasil pouco antes. como a guerra civil em São Paulo. 20. entre eles 40 representantes das várias categorias profissionais. a nova Constituição foi promulgada. em um dos seus artigos. ficando para trás as propostas verdadeira- mente revolucionárias. de 27 de maio de 1931. 254 constituintes. Superado os obstáculos. Como vimos anteriormente. prevendo. governo. fortale- cido pelo movimento paulista e também pelos resquícios 69 da República Velha. o governo não consegue evitar o clima de desconfiança política. Além disso. em julho do mesmo ano. a falta de autonomia dos estados descontentava os políticos tradicionais. Mas o de- senlace é inevitável. As concessões de Vargas não parecem confiáveis aos paulistas que. o Governo Provisório é obrigado a acatar várias emendas ao anteprojeto da Constituição. Getúlio Vargas foi eleito.p65 69 30/03/04. elaborado pelos assesso- res de Vargas. em novembro do mesmo ano. Cedendo às pres- sões. Oito meses depois. Eleitos em maio de 1933. Apesar das tentativas em contrário. cujos líderes não mediram esforços para eleger vários representantes das elites no novo parla- mento. Mesmo com grande representação entre os constituintes. que constavam da essência do movimento de 30. em fevereiro de 1932 o Governo Provisório convoca a Assembléia Constituinte para o próximo ano. miolo tempos de vargas. a elei- ção indireta do novo presidente. inicia- ram a análise da proposta de Constituição a eles encami- nhada por Vargas. a 16 de julho de 1934. 16:01 . Não tendo uma correlação de forças favorável.047. or- ganizadas em sindicatos trabalhistas e patronais. no dia seguinte à pro- mulgação. o Decreto n. para um mandato de quatro anos. o processo constituinte é iniciado.

Esta preo- cupação pode ser entendida tanto como reserva de mer- miolo tempos de vargas. assim como a livre manifestação do pensa- mento. bastaria que o governo considerasse um ato como capaz de subverter a ordem. que deveriam permanecer em nome de brasileiros natos. de 01 de março de 1932. podendo o governo fazer con- 70 cessão daqueles serviços a terceiros. a Constituição de 1934 manteve. desde que se restringissem a suprir as possíveis lacunas deixadas pela lei federal3 .p65 70 30/03/04. Ou seja. regulamentado pelo Decreto 21.111. ambos mar- cados pelo interesse de controle tanto do conteúdo quan- to da distribuição das freqüências. Entretanto. estabelecido que a ex- ploração dos serviços de radiocomunicação1 eram de com- petência privativa da União. nos mesmos termos estabelecidos nos decretos do governo provisório. A per- missão para a publicação de livros e periódicos também foi declarada livre. Outra preocupação explicitada na Constituição de 1934 diz respeito ao controle das empresas jornalísticas. Do mesmo modo. na sua in- teireza. com residência fixa no país. a cobrança de taxas das concessionárias deveria ser feita pelo Governo Federal4 . Continuou. a censura entraria em cena. exceto em espetáculos e diversões públicas. As regras para as concessões também continuaram sob a responsabilidade da União. O direito à inviolabilidade do sigilo da correspondência foi mantido. mas em todos estes casos a Constitui- ção deixou claro que não toleraria propaganda de guerra. os conteúdos regulatórios da radiodifusão. No rastro destes dois atos legais. os estados não estavam impedidos de legislar sobre a matéria. tendo os estados pre- ferência para explorá-los2 . Pois bem. 16:01 . ou de caráter noticioso. dois outros decre- tos foram emitidos pelo Governo Provisório. portanto. nem estímulos violentos para subverter a ordem social 5 .

6 A Constituição também criou mecanismos de controle sobre as tarifas cobradas nos serviços explorados por con- cessão. Além disso. genericamente. enfim. que. 71 não se aplicavam aos serviços de radiodifusão. fixada pela lei. o presidente Ge- túlio Vargas fora eleito pelos representantes do povo e a Assembléia Constituinte. porém. quanto como uma pre- caução contra influências “colonialistas”. os serviços de telecomunica- ções eram vistos como serviço público e. que pouco depois se transfor- miolo tempos de vargas. como tal. que lhes permita atender nor- malmente às necessidades públicas de expansão e melho- ramento desses serviços”7 . inclusive no que dizia respeito aos lucros de quem os explorassem. Do ponto de vista político. contudo. deveri- am estar sob completo controle do Estado. fortaleceu o modelo de Estado interventor. 16:01 . Eles demonstram. pelo artigo 135. Esta intervenção tem um peso significativo na radiodifusão brasileira da época.p65 71 30/03/04. para uso comercial. no entanto. O Período Pós-constituinte O ano de 1935 começou em aparente clima de paz. buscando evitar que os lucros “não excedessem a justa retribuição do capital. por- tanto. uma vez que a sobrevivência das empresas dependia da venda de tempo na programação. O Brasil tinha. por implementar um realismo que ficou ausente na Constituição de 1891. A Constituição promulgada em 1934 se constitui. as empresas concessionárias de radiodifusão ficaram obrigadas a manter uma percentagem mínima obrigatória de empregados de nacionalidade brasileira. cado para a mão-de-obra nacional. em um marco na jurisdição constitucional brasilei- ra. Estes dispositivos. uma Constituição. desejado pe- los revolucionários de 30.

Os dois movimentos políticos contavam com a aquies- cência de Vargas. oferecera uma pasta ministerial (Weiss. Habituado à velha tática de atrair seus inimigos. 1966: 1905). com o crescimento do nazi-fascismo. 16:01 . o presidente não tinha interesse de reprimi-los com mais energia. mou na Câmara dos Deputados. 72 começaram a surgir diversas manifestações de protesto na zona rural do país. afetara também o Brasil. também passou a interferir no cenário nacional. sob a alegação da ameaça comunista. tentava alcançar o apoio das classes médias e ri- cas. que gerou aumento de inflação e desempre- go. como o Brasil. Aliada a esta instabilidade econômica. por mais de uma vez. sempre marginalizada pelas políticas governamentais. os comunis- tas brasileiros buscavam obter a simpatia das camadas pro- letárias da população. miolo tempos de vargas. O contexto político internacional. sacrificando a população. Nos países de estrutura política e econômica frá- gil. embora lançasse um contra o outro como forma de manter a sua permanência no poder. O preço do café. Sob a liderança de Luiz Carlos Prestes. aumentando significativamente o seu preço no mercado interno. levara o país a uma crise interna. que havia caído no mercado internacional.p65 72 30/03/04. A grave crise econômica que atingia indiscri- minadamente o mundo inteiro. principalmente. era intensa a repercussão da luta entre comunismo e fascismo para conquistar as massas popu- lares. O descontentamento era generalizado. com os integralistas. Ao presidente não causava repulsa contatos diretos e indire- tos com os comunistas e. dava ao país legitimida- de política. a cujo chefe. o governo implan- tou uma política de valorização deste produto agrícola. Para equilibrar a balança comercial. após o crack da bolsa de Nova York. enquanto o integralismo de Plínio Salgado.

Mas. Como nos regimes modelos. correram apavora- dos. O sigma (S) substituía a cruz suástica e a palavra anauê. herdou também o ódio aos judeus. a ANL “representou a configuração de várias correntes. algumas delas inclusive antagônicas até esse momento – ‘tenentes’. na Praça da Sé. e entre intelectuais. Foi nesse clima de radicalização política. postava-se à direita do espectro ideológico da sociedade brasileira. Mas não conseguiram es- capar da verve brasileira: em setembro de 1934. tinha como lema “Deus. Segundo Mentonde. foi criada em março de 1935. 16:01 . utilizou a camisa verde. naci- onalista. 1996: 264). a sua principal finalidade era deter o avanço da Ação Integralista Brasileira. os camisas-verdes saíram às ruas em formação na- zista. No lugar da camisa parda. que. Do regi- me alemão. após a Revolução Constitucionalista. De notória inspiração nazi-fascista. Outros o se- guiram e o apelido pegou (Idem. a Ação Integralista Brasileira (AIB). – em uma grande frente ampla democrática para o combate às ten- dências autoritárias em vigor” (Mentonde. Criada em 1932. comunistas. a criação de um estado integral. comandado por um governo autoritário. Um popular gritou: “Galinha verde!”. havia protagonizado a lendária Coluna Prestes. com um partido único e um chefe supremo.p65 73 30/03/04. Liderada por Luiz Carlos Prestes. em São Paulo. Fizeram 73 muitos adeptos. Pátria e Família” e defendia como viés do desen- volvimento do país. o movimento de influência comunista reunia muitas personagens do tenentismo. 10 anos antes. particularmente nas classes médias mé- dia e baixa. a saudação heil Hitler. inconformados com o não-cumprimento dos ideais da Revolução de 30. a ANL defendia a suspensão definiti- miolo tempos de vargas. Atacados a bala. que a Aliança Nacional Libertadora (ANL). o integralismo criou símbolos. No seu programa básico. socialistas etc. Ibidem: 1904).

foi deliberada uma nova política contra os regimes autoritários da Europa. A estratégia con- sistia na formação de uma frente única e ampla nos países miolo tempos de vargas. os dirigentes soviéticos foram obrigados a rever as deliberações do VI Congresso e. até inícios do ano de 1935. na medida da eficiência de sua colaboração (Fausto. a partir de sua criação. (Fausto. o PCB. 16:01 . Comba- tia o fascismo e também o imperialismo anglo-americano. o 74 partido. quando se torna “mais popular e menos operário” e passa a se preocupar mais com os problemas da nação do que com os de classe. a reforma agrária. originários da burguesia e peque- no-burguesia. do qual poderia participar qualquer pessoa. em julho de 1935. Os motivos dessa mudança estariam nas novas definições aprovadas no VII Congresso da In- ternacional Comunista. defendia a proletarização do partido e previa a valorização dos operários. no VII Congresso da In- ternacional Comunista. no ingresso de Prestes no partido e na criação da ANL.p65 74 30/03/04. através da crítica aos intelectuais. va do pagamento da dívida externa. porém. Com o avanço do nazi-fascismo. Fundado em 1922. na- quela época ainda chamado de Partido Comunista do Brasil teve. sobretudo para a esquerda brasileira. 1986: 365). a nacionalização das empresas estrangeiras. (Fausto. Definida no VI Congresso da Internacio- nal Comunista. citado por Boris Fausto. Para se ter idéia da dimensão da importância da ANL no cenário político brasileiro. segundo Leôncio Martins Rodrigues. 2001: 359). a garantia das li- berdades populares e constituição de um governo popular. Em permanente sintonia com a linha soviética. 1986: 371). é preciso avaliar o crescimento que o PCB. teve um crescimento relativamente moderado até 1935. essas diretrizes resultaram no afastamen- to de importantes quadros do partido.

Quanto à radiodifusão. cuja conjuntura possibilitasse a construção de um proces- so revolucionário. Rádio Tupi do Rio de Janeiro. que. a frente englobaria so- cialistas. Nesse contexto. era considerado “a principal ameaça para a sobrevivência dos partidos comunistas e da própria União Soviética como nação. o inventor do rádio. em novembro de 1935. foi trazido ao Brasil para inau- gurar a PRG-3. Guglielmo Marconi. 1986: 73).p65 75 30/03/04. que passou para a história como a Intentona Comu- nista. (Fausto. Além de fortalecer os poderes do Executivo. A pretexto de evitar a repetição de movimentos como a Intentona Comunista. 16:01 . acompanhada do estabelecimento do ‘es- tado de emergência’. Orientado pela III Internacional Comunista. o bloco parlamentar de sustenta- ção ao governo aprovou também a re-colocação em práti- ca do chamado regime de exceção. 1991: 374). da aplicação da recém promulga- da Lei de Segurança Nacional. também miolo tempos de vargas. a ANL assumiu a dimensão de um amplo movimento de massa. 1986: 375). setores da esquerda radical e democrática. reunindo mais de 400 mil membros. liquidou não só a Alian- ça como preparou o caminho para a implantação do Estado Novo (Rodrigues. O rápido crescimento levou os seus líderes a ten- tar um golpe de estado. Em poucos meses. foi rapidamente liquidado pelo governo de Vargas. o movimento insurre. o governo voltou a centralizar o poder. naquele momento. minimi- zando a importância do Congresso. Em 1935. Vargas conseguiu aprovar no Con- gresso a Lei de Segurança Nacional. 75 cional. que pudessem colaborar na luta contra o nazi-fascismo. A repressão. era crescente o número de emis- soras comerciais em todo o país. Vi- torioso.” (Fausto.

em relação à prestação dos serviços de telecomunicações. Do mes- mo modo que foi concebido a partir da experiência do DOP. de 1931. teve a sua competência assim definida: O Departamento. o Decreto n o 24. previsto no Decreto no 20. de 10 de julho 1934. 24. A criação do DPDC já tinha sido prevista no artigo 22 do Decreto no 21. o DPDC foi também a célula-embrião do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). chamada O Cacique do Ar. da imprensa e da radiodifusão. No mesmo ano.p65 76 30/03/04. órgão regulador da cultura. consta- rá da Imprensa Nacional. lançou a Rádio Tupi de São Paulo. dispõe sobre a criação do Departamento de Propa- ganda e Difusão Cultural (DPDC). mantida sua atual organiza- miolo tempos de vargas.240. 24. mas nenhum deles alterou a essência das determinações dos decretos anteriores. em 1937. O primeiro deles.047. foi inaugura- da a rádio Farroupilha.655/34. 76 Os Decretos de 1934 a 1937 Entre 1934 e 1937 foram publicados quatro decretos – 24. através de ondas curtas. auto-intitulada de A rádio mais potente da América Latina. A autodenomi- nação foi rapidamente ultrapassada por Assis Chateau- briand. dirigido por um diretor geral. chamado de Condo- mínio Diários e Emissoras Associados. 16:01 . das artes.772/34 e 1. revistas e mais tarde televisões. a partir de 1938. com um transmissor de 26 quilowatts. jor- nais.651/34.651. que alcançava todo o país e o exterior.546/37 – relacionados com o serviço de radiodifusão. Esta rádio foi o marco inaugural na for- mação de uma rede nacional de emissoras de rádio. que. chamada de A mais poderosa. que viria a ser criado em 1939. Materializado dois anos depois. de 4 de abril de 19328. de Porto Alegre.

16:01 . através da censura. de filmes educativos. 2. o DPDC tinha como atribuições: a) Estudar a utilização do cinematógrafo. o DPDC possuía uma relativa auto- nomia. por meio de prêmios e favores fiscais.651). favorecer a circulação e inten- sificar e racionalizar a exibição. em todos os meios soci. da radio- telefonia e demais processos técnicos e outros meios que sirvam como instrumento de difusão. no Brasil.651). b) estimular a produção. ao cinema e à cultura física (Art. podendo entrar em entendimento com todas as au- toridades. su- borno e perseguição. serviços e empresas oficiais e miolo tempos de vargas. estabelecida no art. diretamente subordinado ao respectivo minis- tro. o DPDC deu início a um ciclo de órgãos reguladores do setor de informação e comunicação. dos problemas relativos ao rádio. Decreto 24. o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural.240. Apesar de estar vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Com poderes para interferir na criação artística do país. Subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Inte- riores. contra-informação. nos termos do Decre- to 21. cuja carac- terística principal era de unir as atividades técnicas à fun- ção política. 1º do Decreto no 24. 03. 77 ais. no Ministério da Justiça e Negócios In- teriores. de uma secretaria e três seções. que se incumbirão.651: Fica instituído.p65 77 30/03/04. ção. de 4 de Abril de 1932. respectivamente. para se prover a sua intensificação. d) orientar a cultura física (Art. instituições. c) classificar os filmes educativos. Decreto no 24.

juridicamente. mas o seu conteúdo previa for- mas de intervenção. não podiam questionar as decisões tomadas pelos órgãos re- guladores. pois a distribuição das freqüências e a revogação do direito de concessão eram prerrogati- vas do governo federal. como se daria o controle e a fiscalização dos órgãos reguladores sobre os concessionários. o de no 24. o governo editou um novo decreto de regulação da radiodifusão. através do decreto no 24.655 tinha como finalidade organizar me- lhor os critérios de concessão para a radiodifusão no Bra- sil. miolo tempos de vargas. vinculando-a ao Departamento de Correios e Telégrafos. Três dias depois.772. Do mesmo modo. que passa a ter a função de fiscalizar e executar as disposições conti- das no decreto. O Decreto 24. restringia também o direito dos con- cessionários e permissionários. que devam ou possam interessar. reduzido de 50% para um terço do valor das instalações técnicas. justificada pela “efervescência do período pós-revo- lucionário e apenas recentemente constitucionalizado”. objetivamente. Define mais detalhadamente as funções e a organiza- ção interna da Comissão Técnica de Rádio. alterou a alínea referente ao depósi- to obrigatório a ser feito pelo concessionário.655. que fixou novas normas para a concessão e a execução dos ser- viços de radiodifusão no Brasil.p65 78 30/03/04. aos fins deste Decreto. Em 11 de julho de 1934. sem prejuízo das atribuições conferidas à Comissão Técnica de Rádio (Art. Outro indicador que sugeria a possibilidade do exercício do poder estatal é que grande parte das disposições do decreto tinha inspiração políti- 78 ca. 16:01 . 10). “podendo expedir instruções necessárias a boa ordem dos serviços. que. O documento não estabelece. direta ou indiretamente. particulares.

O decreto estabelece claramente o poder de outorga do governo e o interesse econômico no setor. transfere a responsabilidade pelo con- trole da rede Nacional de Radiodifusão também para o De. de 1932. 79 partamento de Correios e Telégrafos. 21.111. 1º: O Governo poderá desapropriar os serviços das conces- sionárias ou permissionárias. ou por nova concessão a terceiros. sob a condição de participar dos lucros. para o fim de executá-los. 16:01 . Da mesma forma. ficando a sua direção a cargo do Departamento de Correios e Telégrafo. mas aparecem novas exigên- cias técnicas: Além do preenchimento das condições previstas no art. na Tesouraria da Diretoria Regional dos Correios e Te- légrafos mais próxima. 23 do regulamento provado pelo Decreto n. em espécie ou títulos federais. bem como o respectivo orçamento e planta das instalações. previamente: a apresentar ao Departamento dos Correios e Telégrafos a relação do material que vai em- pregar.p65 79 30/03/04. 2o: A Rede Nacional de Radiodifusão será constituída pe- las estações existentes e pelas que vierem a ser instala- das. e a depositar. como prevê o art. nacio- nais. o pretendente à concessão fica obri- gado. neste caso mediante concorrência pública. de 1 de março de 1932. São mantidos os principais dispositivos presentes no Decreto no 21. como se pode verificar no parágrafo único do seu art. a importância correspondente a miolo tempos de vargas.111. diretamente. no que se refere aos critérios de concessão e renovação.

50% do valor das instalações. (Art. 3o, alterado para um
terço, pelo Decreto 24.772, de 14 de julho de 1934).

As normas técnicas para a exploração da radiodifusão,
já previstas no Decreto 21.111, também somente viriam a
ser especificadas pelo Governo Federal em 1934, no Arti-
go 4º do Decreto 24.655, que prevê:

Além da observância das condições técnicas que venham
a ser estabelecidas em instruções, ou convenções e acor-
dos internacionais, as estações de radiodifusão deverão
80 satisfazer as seguintes exigências: energia mínima, na
antena, de 5.000, 3.000, 2.000, 1.000, 500 e 250 watts, se
forem instaladas, respectivamente: I – No Distrito Fe-
deral e na capital do Estado de São Paulo; II – Em Re-
cife, Baía, Belo Horizonte e Porto Alegre; III – Em
Belém do Pará, Fortaleza, Curitiba e Florianópolis; IV
– Nas capitais dos demais Estados; V – Nas cidades de
população superior a 100.000 habitantes; VI – Nas ci-
dades de população inferior a 100.000 habitantes; está-
gio estabilizador de freqüência, com o emprego de cris-
tal de quartzo a temperatura constante, ou dispositivo
equivalente; percentagem de modulação de 85 a 100%;
freqüência máxima de modulação, 5 kc/s; tolerância má-
xima da freqüência: 0,5% na faixa de 550 a 1.500; 0,01%
nas faixas de 6.000 a 6.150; 9.500 a 9.600; 11.700 a 11.900;
15.100 a 17.800 kc/s; onda pura e isenta o mais pratica-
mente possível, de toda a emissão que não seja essenci-
al ao seu tipo.

§ 1º As estações devem ser providas de monitor de pre-
sença de freqüência e de frequenciômetro devidamente
aferidos pelo Departamento dos Correios e Telégrafos,

miolo tempos de vargas.p65 80 30/03/04, 16:01

e, bem assim, guarnecidas, permanentemente, por téc-
nicos habilitados de acordo com o regulamento aprova-
do pelo Decreto número 21.111 de 1 de março de 1932.

Como já observamos anteriormente, estes requisitos
técnicos que completaram os artigos 20 e 24 do Decreto
20.047, de 1931, limitaram o número dos que teriam con-
dições de concorrer e de manter as concessões. Este foi
certamente um fator importante na introdução e consoli-
dação do poder econômico na mídia eletrônica.
Segundo André Mendes, essa característica brasileira de
concentração da mídia eletrônica seguia a tendência ame- 81
ricana de concentração das propriedades de emissoras. Ele
afirma que o Brasil seguiu o

modelo americano de tecnologia, administração, progra-
mação, conteúdo e regulamentação (trusteeship model).
Empresas americanas participaram diretamente do de-
senvolvimento do rádio e TV brasileiros, da instalação da
primeira torre de transmissão de rádio em 1922 até a cons-
trução da próxima geração dos satélites domésticos de
comunicação (Brasilsat 3 e 4) (Almeida, 1993).

Dessa forma, o rádio deixava pouco a pouco, decreto
após decreto, de ser um serviço executado por amadores
para ser um serviço executado por profissionais, utilizan-
do equipamentos adquiridos com consideráveis recursos
financeiros. Como o investimento era feito visando lucro,
a conseqüência não poderia ser outra que a profissiona-
lização e a comercialização do rádio. O que, aliás, já esta-
va previsto no Decreto 24.655, de 11.07.1934, que, inclu-
sive, aumentou o tempo destinado à publicidade de 10%
para 20% da programação (Art. 6o.).

miolo tempos de vargas.p65 81 30/03/04, 16:01

A finalidade educacional do serviço de radiodifusão está
pontuada no art. 5º, pelo qual o governo torna obrigatória
para as concessionárias, a transmissão de programa naci-
onal, em horários por ele definidos. A mesma finalidade
está também presente no Art. 6o., parágrafo único, que
estabelece a proibição da “irradiação de trechos musicais
cantados em linguagem imprópria à boa educação do povo,
anedotas ou palavras nas mesmas condições”.
O Artigo 7º ressalta a obrigatoriedade das concessionári-
as e permissionárias dos serviços de radiodifusão de paga-
rem quotas mensais para despesas de fiscalização. E o Arti-
82 go 8º, define a constituição da Comissão Técnica do Rádio,
subordinada ao Ministério da Viação e Obras Públicas.
Finalmente, o Decreto estabelece como função do De-
partamento de Correios e Telégrafos a fiscalização e a
execução das disposições nele contidas, podendo expe-
dir instruções necessárias a boa ordem dos serviços, sem
prejuízo das atribuições conferidas a Comissão Técnica
de Rádio, que era subordinada ao Ministério da Viação
e Obras Públicas. Anteriormente, cabia a este Ministério
o papel de fiscalizador e ao Ministério da Educação e
Saúde Pública o de regulador das orientações necessári-
as (Decreto 21.111).
Os novos requisitos, que exigiam aporte financeiro sig-
nificativo e limitavam o número de pessoas que poderia
pleitear uma concessão, levaram à concentração de mui-
tas emissoras nas mãos de poucos concessionários, como
foi o caso do empresário Assis Chateaubriand. Começan-
do com apenas uma emissora em 1935, três anos depois,
formou cadeias de rádios em vários estados e pouco tem-
po depois, já comandava a primeira rede nacional de co-
municação de massa do Brasil, com dezenas de emissoras
de rádio, jornais e revistas, espalhados por todo o país.

miolo tempos de vargas.p65 82 30/03/04, 16:01

II. 3 Art. 5 º. VIII.p65 83 30/03/04. 2 Art. 7 º. Notas 1 Art. 8 “No Ministério da Educação e Saúde Pública. 5 º. dentro da renda da taxa cinematográfica instituída neste Decreto. 5 Art. destinado não só a estudar e orientar a 83 utilização do cinematógrafo. 113. assim como dos demais processos téc- nicos que sirvam como instrumentos de difusão cultural.” miolo tempos de vargas. 5 º. VIII. Parágrafo 2º. 16:01 . 6 Art. será oportunamente criado um órgão técnico. 7 Art. 8) e 9). 137. Parágrafo 3º. III. 6 º. 135. 4 Art. e Art. VIII.

16:01 .p65 84 30/03/04. Terceiro Capítulo A Radiodifusão e o Estado Novo miolo tempos de vargas.

p65 85 30/03/04.miolo tempos de vargas. 16:01 .

ocuparem o centro do debate político. através de inserção no aparelho do Estado. previstas para 1938. “tenentes”. Contexto Histórico Depois de três anos como presidente constitucional. miolo tempos de vargas. principalmen- te no Nordeste. em aliança com a hie- rarquia militar. O país vivia uma nova ordem jurídico-política. Nomeou. Vargas aguardava as eleições diretas. havia sido marcado por diferentes e simultâneos movimentos de acomodação política. Isto lhe permitira substituir as oligarquias re- gionais fiéis a Washington Luís pelas forças políticas que apoiaram o movimento revolucionário. a autoridade legislativa e a capacidade para nomear os interventores federais que iriam exercer poderes similares nas unidades federativas. amparado pelo decreto de 11 de no- vembro de 1930. quan- to no estadual. que estabelecia o princípio da alternância no poder. O período de transição entre a Revolução de 30 e a pro- 86 mulgação da Constituição de 1934. com base no veto da reeleição e no voto direto e secreto. o da cooptação do movimento tenentista por Vargas. Empossado no comando do Governo Provisório. até 1934. que passaram a ocupar posições de mando tanto no plano federal. 2001: 2037). em consequência. Vargas governara. 16:01 . simultaneamente.p65 86 30/03/04. elei- to indiretamente pelo voto dos constituintes de 1934. Esses movimentos manifestaram-se em três pla- nos: o da redefinição parcial dos esquemas político- oligárquicos de dominação regional. como interventores federais. como interventores federais. que consagrava o respeito aos di- reitos civis e garantia a liberdade de organização e expres- são políticas. que lhe atribuía competência para exer- cer o Poder Executivo e. e o do início da modernização do apare- lho do Estado (Martins.

José Antônio Flores da Cunha e pelas facções oposicionistas da Bahia e de Pernambuco. 16:01 . que formavam a União Democrática Brasi- leira. o do reequipamento das forças armadas. o que dificultou a formação de partidos políticos nacionais. e o do enquadramento. a reorganização do aparelho de Estado se processou através de três planos também simultâneos: o da criação de comissões formadas por técnicos e milita- res para o equacionamento de problemas relacionados ao aproveitamento de recursos minerais e sua industrializa. uma vez que o sistema oligárquico permanecia base- ado na propriedade da terra. Pernambuco e Bahia e dos oposicionistas do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Libertador (PL) rio-grandense. pelo governador do Rio Grande do Sul. por meio do Ministério do Trabalho e da legislação sindical. Por outro lado. Foi. esses movimentos de ascen- são e decadência de grupos políticos produziram efeitos na formação de coligações interestaduais e determinaram os sistemas de apoio e de oposição do governo central. começam as primeiras articulações políticas para a sucessão de Vargas. cujas bases de apoio ilustram a confusão política das forças regionais na- quele momento. Já o paraibano José Américo de Almeida reunia o apoio dos situacionistas de Minas. as camadas médias urbanas manifestavam- se nas ruas contra a configuração eleitoral que reduzia sua miolo tempos de vargas. Paraíba. Embora não afetassem as estruturas econômicas e soci- ais. Ao longo do ano. dos canais de representação dos in- teresses nas zonas urbanas já expostas aos primeiros im- pactos do processo de industrialização.p65 87 30/03/04. 87 ção. O paulista Armando de Sales Oliveira foi apoiado pelo Partido Constitucionalista de São Paulo. Nas cidades. estabeleceram-se duas candidaturas. no início de 1937. portanto. nesse ambiente marcado por grandes trans- formações que.

conso- lidar o esquema militar e aguardar o momento oportuno para a ação (Martins. em 10 de novembro de 1937. A consolidação do stalinismo na União Sovié- tica. Fal- tava apenas articular o golpe com os governadores. 2001: 1567). e no interior do aparelho estatal surgia um forte movimento que buscava centralizar o sistema de decisões do governo. de Pilsudzki (Chacon. a preocupação e controle de Vargas sobre os comunistas tornaram-se cada vez maior. Após a Intentona Comunista de 1935. Vargas manobrou nesses três cenários: estimulou o lan- çamento da candidatura de José Américo de Almeida. o medo da suposta “ameaça vermelha” favoreceu a conspiração do governo e passou a integrar o rol de justi- ficativas de Vargas para. advertiu para os perigos da campanha eleitoral reacender as agitações das ruas. em opo- sição ao nazi-fascismo. e. 16:01 . sobretudo. contribuía para a for- mação de ambiente de tensão em escala mundial. segundo o governo. e a instala- ção no país de um sistema socialista. anun- ciar o Golpe de Estado e impor à nação o Estado de Sítio. dado o predomínio do voto rural. é que antes mesmo do lançamento 88 da candidatura de José Américo de Almeida. No Bra- sil. por ter sido baseada na autoritária Carta polonesa. aliada à disseminação dos ideais comunistas. nos planos regional e no interior do aparelho de Estado.p65 88 30/03/04. Getúlio instaurou a ditadura e promulgou uma nova Constituição que ficou conhecida como Polaca. miolo tempos de vargas. consolidou lealdades pessoais. em aliança com os soviéticos. 2001: 2038). A verdade. na Europa. importância política. Alegando a descoberta de um fantasioso Plano Cohen que. previa a tomada do poder pelos comu- nistas brasileiros. a Constitui- ção de 1937 já estava redigida por Francisco Campos. porém. mas cultivou o apoio dos integralistas. mas recusou-se a apoiar oficialmente qualquer um dos candi- datos.

futuro minis- tro da Justiça. e. Ibidem). a promoção de manifesta- ções populares que terminariam em saques e depre- dações. a Constituição correspondia à tendência fascistizante da época. intensificava a repressão aos crimes contra a segurança nacional. assim. A idéia do Plano Cohen foi tornada pública pela pri- meira vez em setembro de 1937. O plano previa a mobilização dos tra- balhadores para a realização de uma greve geral. até a eliminação física das autoridades civis e miolo tempos de vargas.p65 89 30/03/04. e instituía o 89 corporativismo e o sindicalismo profissional urbano. chefe de Polícia do Distrito Federal. 16:01 . o in- cêndio de prédios públicos. quando Vargas convocou uma reunião ministerial para a sua apresentação: Participaram dessa reunião. ministro da Guerra. punia os estados que não arrecadassem o suficiente para manutenção dos seus ser- viços. restringia a manifestação do pensamento. entre outros. transformando-os em territórios. rom- pendo. o Plano Cohen seria divulgado publicamente. chefe do Estado-Maior do Exército (EME). extinguia os parti- dos políticos e o parlamento. o general Góis Monteiro. com a tradição liberal imperial de 1824 e a liberal republicana de 1891 e 1934 (Idem. A autenticidade do documento não foi questionada por nenhum dos presentes. o general Eurico Dutra. quando os regimes de Hitler e Mussolini estavam no auge na Alemanha e na Itália. res- pectivamente. dias depois. previa a nomeação de interventores para as unidades federativas. alcançando enorme re- percussão na imprensa e na sociedade ao mesmo tem- po em que era desencadeada uma forte campanha anticomunista. a Carta de 37 acabava com o sistema republicano federativo. Elaborada pelo jurista Francisco Câmara. Imposta por Vargas. e Filinto Muller.

’ despertava indescritível emoção. marechal Eurico Dutra. on-line).. para- lelamente. volta a falar com Marconi’. 16:01 . emudecido com Guttemberg. que fora até então o principal veículo de comunicação. a 90 palavra de Getúlio Vargas. cujas crôni- cas a voz de César Ladeira popularizou (Scliar. Vargas. 1997. quando o Congresso também votava a suspensão das garan- tias constitucionais. colocava em prática outra estratégia de objeti- vo semelhante: divulgação e fortalecimento da imagem paternal e heróica. Getúlio Vargas aos trabalhadores brasi- leiros: oito horas de trabalho. foi também reproduzido nos programas jornalísticos de rádio. dizia Genolino Amado. mesmo dia em que anunciava o fe- chamento de um acordo entre o Ministro do Trabalho e representantes dos sindicatos patronais para a divulgação de intensa propaganda de combate ao comunismo nos estabelecimentos comerciais e industrias. o plano foi anunciado solenemente pelo mi- nistro da Guerra.p65 90 30/03/04. o Jornal do Brasil convocava o apoio dos trabalhadores: O que deu o Sr. em capítulos. como assinala Moacir Scliar: Em todos estes acontecimentos o rádio desempenhará um papel da maior importância. que já vinha sendo construída pela propaganda oficial. 1991: 22). a todos os brasileiros. Publicado no Diário Oficial do dia seguinte. militares que se opusessem à insurreição (CPDOC.. perde im- portância: ‘O mundo. Para a nação. No bojo da sua campanha anticomunista. em 30 de setem- bro de 1937. como uma novela. Em 26 de outubro. cujo famoso ‘Trabalhadores do Brasil!. Leva. pagamento suplementar miolo tempos de vargas. O jornal.

O plano somente foi denunciado como falso depois de oito anos. em março de 1945. em 10 de novembro de 1937 o Congresso foi fechado. férias. o chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira (AIB). que renunciou à sua candidatura pre- sidencial em prol do Estado Novo. Olímpio Mourão filho. regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores. Mourão alegou leal- dade à instituição militar para justificar o silêncio em re- lação ao plano. os comerciários. das horas excedentes. Juntamente com Plínio Salgado. reforma da Lei de acidentes de trabalho. institutos e caixas de pensões e aposentadorias para os bancários. a nova Constituição outorgada e o Estado Novo proclamado. A essa altura. será uma realidade” (Jornal do Brasil. es- tendendo-se seus benefícios a toda classe de trabalha- dores.1937). os maríti- mos. proposto por Vargas. convenções coletivas de tra- balho para maior garantia dos direitos dos trabalhado- res. estabilidade no emprego.p65 91 30/03/04. Segundo ele. a esquerda encontrava-se esfacelada em função da repressão sofrida no período pós-Intentona. A conivência de um Congresso fraco. 26. ela- borou o documento e o entregou ao Exército. e. dentro em bre. 91 ve. colaborou para a aprovação do Estado de Guerra. os estivadores. a organização da Justiça de Tra- balho acha-se em debate na Câmara. os empregados em armazéns e trapiches. aliada à ausência de um movimento de oposição. quando o General Góis Monteiro assumiria a farsa montada por assessores de Vargas. Sem provocar maiores resistências. inclusive os dos campos. sem condições nem interesse de contrariar o presidente.10. juntas de conciliação para resolver os dissídios cole- tivos. nacionalização do trabalho. 16:01 . Apenas dois go- miolo tempos de vargas.

inclusive dos juros. no final de 1937. Juracy Magalhães. através de um decreto. Em alguns países. 16:01 . a situação econômica brasileira se encon- trava em momento delicado. para 1938. Com a extinção dos partidos. Somente em 1939. em 23 de dezembro de 1937. Logo após o golpe. vernadores protestaram e renunciaram ao cargo. e Lima Cavalcanti. que passaram a enfrentar problemas para o envio de remessas de lucro para o exterior. em con- seqüência. A medida. A decisão se prolon- gou até 1939. à exceção do fra- cassado movimento integralista de maio de 1938. Paralelamen- te. o pagamento da dívida externa. que tinha o objetivo de evitar a eva- são de capital do país. da Bahia. sofrendo ainda os reflexos da crise de 29. encontravam-se em baixa.p65 92 30/03/04. concedeu ao Banco do Brasil o monopólio sobre as transações de “ven- das de letras de exportação ou valores transferidos do es- trangeiro”. posteriormen- te. Vargas suspendeu. após uma viagem do Ministro das Relações Ex- miolo tempos de vargas. o exercício da atividade po- lítica foi condenado à clandestinidade. atingiu diretamente as empresas estrangeiras. principalmente do café. A Economia Em 1937. a negociação da dívida externa do Brasil foi condicionada à resolução do problema cambial. Vargas determinou o controle do câmbio e. quando o preço dos produtos de exporta- 92 ção. quando foram iniciados contatos com ame- ricanos e europeus para a sua renegociação. vencida em 1931. de Pernambuco. cujo paga- mento tinha sido postergado para 1934 e. a decisão do governo brasileiro foi entendida como uma afronta a seus interesses e. Getúlio Vargas teve de enfrentar a questão da dívida externa.

Ao mesmo tempo em que tentava resolver a questão da divida externa. 1979). teriores. 16:01 . Como tentativa de aliviar a crise. uma nova política. o governo restabeleceu a liberdade nas transações de câm- bio e liberou a venda de letras de exportação aos bancos habilitados para tal fim (Carone. por meio da elevação da quantidade de café expor- tado. no entanto. que tinha como meta aumentar a participação do Brasil no mercado internaci- onal. começando um processo que resultou em uma devastadora desvalorização no mercado internacional. Com o fe- chamento dos mercados europeus a quantidade de café exportado também declinou. Um ano depois. internamente o processo era inverso: houve uma grande alta nos preços. uma vez que. mesmo com a retração dos mercados. o que gerou 93 inflação. Mesmo assim. desemprego e fome. Aranha teve que assinar acordos de interesse bilaterais. Para isso.p65 93 30/03/04. As políticas econômicas do governo não conseguiam frear a queda do preço do café. o governo adotou. a política adotada anteriormente funci- onou. comprometendo-se pelo governo a normalizar o sistema cambial. independentemente do preço conseguido. A partir de 1940. Enquanto os preços caiam no mercado externo. o mercado voltou a se retrair em fun- ção da 2a Guerra Mundial (Pelaez. quando houve au- mento significativo do número de sacas exportadas. a Washington. o que trouxe um grande pre- miolo tempos de vargas. Este ob- jetivo foi alcançado em 1938 e 1939. o café brasileiro ocupava 53. os preços do produto começaram a cair vertiginosamente. porém. 1977). Oswaldo Aranha. a situação co- meçou a se normalizar. Dias mais tarde. Vargas se via às voltas com um país interna- mente conturbado economicamente. principal produto de exportação.6% de todo o consumo mun- dial do produto. que mais uma vez estava em crise. a partir de então.

em 1935. O go- verno brasileiro cedeu às pressões externas do embaixa- dor americano. que acenou com a possibilidade de rever a isenção de impostos na importação do café brasileiro. e que atendia abertamente aos interesses dos EUA e teve o apoio dos setores agrários ligados às exportações. Apesar das severas críticas dos industriais brasileiros. resultando em uma queda expressiva das reservas em ouro.p65 94 30/03/04. juízo para a balança comercial brasileira. Um bom exem- plo dessa política pode ser observado no tratado de co- mércio com os Estados Unidos. cerca de 78. no período de 1931 a 1944. Paralelamente à política de aumento da exportação. Não raramente as medidas econômicas adotadas pelo governo atendiam com mais clareza aos interesses do setor agrário. o governo persistia na política de queimar uma parte do excedente da produção. em detrimen- to das reivindicações do setor industrial. o equivalente a três anos de consumo mundial. 16:01 . durante o Estado Novo a política econô- mica adotada foi de aberto incentivo ao setor industrial. Se até então a indústria nacional não recebia incentivos governamentais.2 milhões de sacas de café. caso o tratado não fosse aprovado. já no período final da guerra. até 1937 o gover- 94 no brasileiro tinha uma postura dúbia em relação a até então diminuta industria nacional. esse tratado foi aprovado pelo congresso. que alertavam para o fato da indústria nacional ficar desprotegida na concorrência com os produtos norte ame- ricanos. No que se refere à política industrial. Foram tomadas medidas que visavam substituir os produ- tos importados por produtos brasileiros e criar mecanis- miolo tempos de vargas. destruindo. assinado por Vargas. quando uma grande geada encarregou-se de destruir gran- de parte da produção. Essa política só deixou de ser praticada em 1944.

95 litar do país. em 1941. e que proibia a participação de estrangeiros na mi- neração e na metalurgia. como o setor de energia elétrica. Outras medidas foram tomadas pelo Governo para res- tringir à brasileiros a exploração da chamada indústria de base. como o Código de Minas. Mesmo com a ajuda do capital estrangeiro. Por isso. a ser fixado por Lei. Demonstrando a forte intenção de proteger a economia nacional. a Carta de 1937 estabelecia também que “só poderiam funcionar no país bancos e companhi- as de seguro cujos acionistas fossem brasileiros. começou a se desenvolver uma indústria bra- sileira. Esta indústria começou a tomar cor- po com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Na verdade. em parceria com recur- sos do governo brasileiro. 16:01 . juntamente com a construção da Usina de Volta Redonda.p65 95 30/03/04. o direito de explorar as in- dústrias consideradas essenciais à defesa econômica e mi. que vigorou a partir de 1940. que tinham interesses em comum com empresas estrangeiras. algumas de- terminações que estavam presentes na Carta de 37 não foram seguidas em vários setores. 1996:370). mos que possibilitassem o desenvolvimento de uma indús- tria nacional de base. para que se transformassem em nacionais” (Fausto. a Constituição de 1937 definia como re- servado apenas a brasileiros. que seguia princípios considerados nacionalistas. Conce- dia-se às empresas estrangeiras um prazo. bem como o direito de explorar minas e que- das d’água. É necessário lembrar que a CSN foi fi- nanciada com dinheiro americano. em que as empresas continuaram pertencendo a estrangeiros. miolo tempos de vargas. por vezes. Mesmo as pretensões nacionalistas de Vargas foram. freadas pelas pressões externas e internas de alguns setores da sociedade brasileira.

no entanto. seguido por algumas empresas estran- geiras. Falava-se. Os interesses nacionais. em 1941. visto que só em mea- dos de 1939 foi descoberto petróleo na Bahia. concomitantemente. ora uma posição nacionalista. Durante o período de 1938 a 1943. um decreto determinando que até 1946 todas as empresas de seguros e bancos deveriam tor- nar-se nacionais. ora havia uma abertura para o capital estran- geiro. novos emprés- 96 timos de capital. o que começou a acontecer a partir de 1935 com interesse de alguns indus- triais brasileiros. países com os quais o governo brasileiro negociava. mostra essa face do Estado Novo. até então. Tal interesse foi freado por um decreto-lei de 1938. Isto ocorreu durante gestão do General miolo tempos de vargas. determinado o monopólio estatal do petróleo. es- tavam ligados diretamente aos interesses de empresas nor- te-americanas ou alemães. onde. que se mostraram interessadas em se instalar no Brasil. 16:01 . Alguns episódios ilustram essas incongruências nacio- nalistas dos dispositivos constitucionais. A instalação de uma indústria petrolífera no Brasil não era uma questão muito discutida. A recusa de Vargas de assinar. que determinava ficasse nas mãos de nacionais a refina- ção de petróleo importado ou futura produção nacional. em alguns momentos. a direção e a gerência destas empresas. Poderiam. discutiu-se a ampliação do con- trole do Estado. na instalação de refinarias. representantes de vários ministérios e grupos de interesse da sociedade. pertencer ao capital particular. Isto significava que deveria pertencer a brasileiros o capi- tal. era tomada. a depender dos interesses. O mesmo decreto de 1938 criou também o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) que era constituído por pes- soas nomeadas pelo governo.p65 96 30/03/04. por- tanto. a Texaco. a Atlantic e a Anglo- Mexican. não sendo. como a Standard.

promessa que jamais foi cumpri- da. miolo tempos de vargas. Horta Barbosa. Só que o saldo-ouro ficou em mãos estrangeiras. a política do CNP bloqueou as iniciativas das grandes empresas estrangeiras. Estados Unidos e outros países. com a promessa de ser pago no período pós-guerra. De outro. o Brasil teve saldos a receber da Inglater- ra. que se traduziu no aumento do custo de vida. Coincidentemente. que tentou criar grandes refinarias esta- tais. maior gasto do Estado. O aumento nas exportações e o desenvolvimento das necessidades financeiras do Estado levaram o país a uma inflação galopante. A Segunda Guerra Mundial trouxe efeitos favoráveis à política de industrialização em curso no Brasil. a ação do general Horta Barbosa representou um ponto de apoio e uma referência para os grupos que. onde o país obtivera espaço para comercializar seus produtos. 1996:373). vitoriosa com a criação da Petrobrás. mas não teve sucesso. porém se tornaram importantes. em outubro de 1953 (Fausto. pressionariam pela adoção de uma linha 97 semelhante à sua. sob dois aspectos: De um lado. Muitas empresas brasileiras tiveram oportunidade de ex- portar seus produtos para países europeus e para os Esta- dos Unidos. As contribuições do Estado Novo para a indústria do petróleo foram poucas. foi neste período que pela primeira vez na história. nos anos 50. A impos- sibilidade de importar produtos industrializados fez sur- gir no país uma indústria voltada para o mercado interno. que estavam concentrados em seus esforços na guerra.p65 97 30/03/04. especulação imobiliária. ainda que não con- seguisse uma resposta alternativa às suas propostas. como observa Boris Fausto. 16:01 . e também para o mercado africano.

O Brasil na Guerra O mundo estava marcado pela vitória do nazi-fascismo em Portugal. o que levou a França e a Inglaterra. através de algumas medi- das. com Franco. a Holanda e. nos dois últimos anos. O Japão ocupou a Coréia. Estes fatores provocaram um clima de instabilidade eco- nômica e social no país (Carone. que além de relações comerciais fortes com a Alemanha. Mussolini ficou mais forte depois de dominar a Etiópia. as medidas evitariam o aumento da inflação. devido a especulações. Na Itá- lia. Hitler começou a invadir os países vizinhos anexando a Áustria. como os decretos que estabeleciam as obrigações de guerra. 1976). em 1940. com Salazar. pressionadas pela opinião mundial. escassez de mercadorias. Mas. tinha um regime com grande influência fas- miolo tempos de vargas. O Brasil. a declarar guerra à Alemanha e à Itália. ambos tributando o aumento de lucro que a maior parte das empresas conseguiu. chegou à França. já que o Brasil não recebeu inteiramente pelas exportações e teve que pagar pelas importações. em 1942. a Tchecoslováquia e a Polônia. Inglaterra e até nos Estados Unidos o fascis- mo ganhava forças. constan- te aumento de preços e alta dos índices de desemprego. Visando direcionar o dinheiro em circulação para obras de infra- 98 estrutura. Na Bélgica. Mas a máquina nazista ainda avançou sobre a Di- namarca. e os lucros extraordinários. no decorrer do processo se mostraram ineficazes.p65 98 30/03/04. e na Espanha. 16:01 . gerando uma grande necessidade de novas emissões de moeda. a Mandchúria e a China. a Bélgica. Entre 1942 e 1944 o governo central tentou corrigir aquelas distorções financeiras. a Noruega. em 1944.

O DIP proibia a exibição de filmes que de alguma forma falassem bem do regime li- beral-democrata. o Brasil sofreu operações culturais. em Lima. levando o Partido Comunista à míngua. os Estados Unidos ofereceram empréstimos para saldar a dívida externa com a Inglaterra e a França. Internamente. se declarou neutro. no Peru. o go- verno brasileiro deveria facilitar a participação dos empre- sários americanos no desenvolvimento brasileiro (Beozzo. Por outro lado. o governo começou a aderir abertamente aos ideais nazi-fascistas e à Alemanha. 1977: 279). que se intensificaram a partir da realização da 8a Conferência Pan Americana. além de US$ 50 milhões em mercadorias. 16:01 . sociais e informacionais. Em troca. no Rio Grande do Norte. Vargas conseguiu manter-se miolo tempos de vargas. quando os Estados Unidos começaram a colocar em prática a estratégia de domina- ção da América Latina para assegurar novos mercados e eliminar os rivais europeus. atraindo o in- teresse das agências de propaganda norte-americanas. em 1939. Vargas perseguiu os comunistas. A contrapartida brasileira foi a autorização de Vargas para a instalação da Base Aérea americana em Natal. Desde então. em 1940. e seus aliados. Apoiando-se na declaração de neutralidade. usando como justificativa o fato de o país não ter interesses econômicos e políticos com os países em guerra. Mas depois da invasão alemã na Fran- ça. proibindo o uso da palavra democracia em qualquer lugar. o uso comercial do rádio. Outra barganha que favoreceu o estreitamento das relações entre os dois países foi o financiamento da Siderúrgica de Volta Redonda. Ao Brasil. em 1939.p65 99 30/03/04. 99 desencadeou um processo de disseminação da cultura americana no país. cista. na reunião realizada no Panamá. endossada por todas as nações do continente.

16:01 . entre tropas de combate e pessoal administra- tivo. Com a participação do Brasil na Segunda Guerra Mun- dial. com o objetivo de manter a hegemonia dos valores democráticos miolo tempos de vargas. A neutralidade. com cerca de 25 mil homens. o American way of life.p65 100 30/03/04. foi de 451 mortos. O saldo deixado pelos brasileiros nos campos de bata- lhas de Monte Carlo e Montese. bem próximos à costa brasileira. por sub- marinos alemães. é intensificado. simulta- neamente. tornou-se inviável em 1942. como café. que regularizou o comércio en- tre os dois países. superando a falta de treinamento para enfrentar um terre- no desconhecido e um clima diferente dos padrões tropi- cais. inclusive. somente em agosto de 1943 o Brasil entrou no conflito. com a Alemanha e os Estados Unidos. o que só foi acontecer em 16 de julho de 1944. 100 Os americanos tinham tomado a iniciativa de oferecer ao Brasil acordos comerciais. O povo pedia. Os soldados da FEB obtiveram vitórias importantes. e no qual os americanos se comprome- tiam a comprar do Brasil produtos. como o firmado em Washing- ton. no final de 1941. eqüidistante do conflito. provo- cando cerca de mil mortes. no começo de 1942. ajuda econômica para a implantação da siderurgia no Brasil. inclusive negociando. Desde o ataque à base americana de Pearl Harbor. já havia grande pressão dos Estados Unidos para que o Brasil se colocasse ao lado das forças aliadas. porém. quando desembarcou na Itália o 1º escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Apesar de tudo. A disseminação do estilo de vida americano. fer- ro e outros minerais. o envio de tropas para o comba- te no continente europeu. tecido. com o afundamento de 18 navios mercantes brasileiros. as relações de cooperação entre o Brasil e o Estados Unidos são consolidadas. A população foi às ruas exigir do governo posição firme em relação ao conflito.

o PCB havia desenvolvido campanhas a favor do ingresso do Brasil na guerra e também pela anistia. no país e restringir ao máximo a influência alemã. Aos poucos. O Partido Comunista (PCB) teve papel de destaque neste período. aliás. apesar de combater o nazi- fascismo na Europa. A situação do País era paradoxal. participando do chamado movimento Queremista. Isto. econômica e cultural. Luís Carlos Prestes. com Getúlio ainda no poder. evitar o crescimento da ideologia na- zista e reduzir as chances dos países europeus.p65 101 30/03/04. A presença de soldados brasileiros entre as tropas alia- das que combatiam a Alemanha e a Itália foi um fator 101 importante para redemocratização do Brasil. embora tenha manifestado apoio a Vargas. após o tér- mino do conflito. após a guerra. sobretudo pela libertação de seu principal líder. que se encontrava preso. entre 1943 e 1945. já que existia no sul do Brasil uma ativa colônia de imigrantes daquele país. A partir de 1943. as críticas ao Estado Novo se tornaram cada vez mais freqüentes. Anteriormente. sobretudo os alemães. Com a derrota do Eixo na guer- ra intensificaram-se as campanhas para que o país reto- masse a democracia. vindo de diversos segmentos da miolo tempos de vargas. era preciso manter no país uma dita- dura com bases fascistas. já vinha ocorrendo desde o início da Segunda Guerra Mundial. visando garantir mercados para seus produtos. que reivindicava uma assembléia constituinte. Ficou difícil convencer o povo de que. mas também os inglêses reconquistarem a hegemonia no continente latino. quando os Estados Unidos iniciaram na América Latina uma verdadeira ofensiva moral. 16:01 . as bases para que o Es- tado Novo permanecesse foram sendo minadas e as ma- nifestações em favor de liberdade política no país torna- ram-se cada vez mais fortes. em 1945.

prazo limite para a realização do plebiscito previsto na Constituição de 1937. retorno do habeas corpus e outras garantias 102 constitucionais que. A participação do Brasil na guerra e o longo período ditatorial tinham ferido de morte o Estado Novo. o mani- festo defendia principalmente a realização de reformas jurídicas e institucionais de caráter liberal-conservador e do interesse de oligarquias de oposição. ele falou à nação e prometeu que depois da guerra “em ambiente pró- prio de paz e ordem. O Manifesto dos Mineiros. di- reto e secreto. com garantias máximas à liberdade de opinião. em sua maioria de famílias oligárquicas. A cobrança em relação à implementação. direto- res de banco e jornalistas. faremos de forma ampla e segura as necessárias consultas ao povo brasileiro”. tais como di- reito de voto. no Brasil. Em janeiro de 1945. Era tarde. os participantes do 1º Congresso Brasileiro de Escritores publicaram um docu- mento. Em 10 de novembro de 1943. escritores. O manifesto pedia democracia: Embora fizesse referências a reformas sociais. 16:01 . fa- voreciam o retorno ao poder dessas oligarquias (Alencar. dos ideais defendidos pelos soldados brasileiros na Itália. sociedade. por um grupo de advogados. embora interessassem a todos. Carpi. aper- tava o cerco a Getúlio Vargas. no qual exigiam completa liberdade de expressão e reivindicavam um governo eleito por voto universal. 1979:267). conturbando o clima polí- tico do país. Ribeiro. miolo tempos de vargas. marcou o início de uma fase de contestações mais organizadas. sexto aniversário do golpe. professores.p65 102 30/03/04. lançado naquele ano. Vários movimentos eclodiram. reajustaremos a estrutura política da nação.

também. desencadeou o processo de derrocada do Estado Novo. Leis Constitucionais. as tentativas continuistas de Vargas e sua proposta de aber- tura política. os partidos foram se organi- zando e escolhendo seus respectivos candidatos. Os opo- sicionistas criaram a União Democrática Nacional miolo tempos de vargas. a lei fixava em 90 dias o prazo para a edição de um decreto com este objetivo. atacando sua política econômica. alguns jornais começaram a furar o bloqueio da censura e a publicar matérias contes- tando abertamente o Estado Novo. Antes mesmo da extinção do Departamento de Impren- sa e Propaganda em 1945. e os Diários Associados. e concedendo anistia aos condenados por cri- mes políticos. 16:01 . como o Correio da 103 Manhã.p65 103 30/03/04. o caráter autoritário do aparelho do Estado. logo em seguida. se constitu- íram em porta-vozes dos anseios populares contra o Esta- do Novo. do Rio de Janeiro. Embora não definisse a data da eleição. restabelecendo a liberdade de associação e expressão. Publicavam. as aspirações redemo- cratizantes dos diversos grupos ou facções político-parti- dárias e mencionavam o lançamento de candidaturas para a sucessão presidencial. reivindicando democracia plena. sancionou a Lei eleitoral. Finalmente as eleições foram marcadas para o dia 2 de dezembro de 19451. regu- lamentou a organização de partidos e fixou eleições gerais para o parlamento e a presidência. Vargas promulgou. Com a abertura política. Além disso. Sentindo que não havia mais como evitar a democrati- zação do país. de Chateaubriand. O golpe decisivo foi desferido pelo Correio da Manhã. de São Pau- lo. a Folha da Manhã. A situação política se tornou cada vez mais tensa e os jornais oposicionistas mais ferrenhos. no dia 22 de fevereiro de 1945: ao publicar entre- vista de José Américo de Almeida ao jornalista Carlos Lacerda.

Já o Partido Comunista (PCB). abrindo brecha para que o presidente nomeasse novos governantes e manipulasse as eleições em favor do governo. irmão do presidente. Getúlio poderia criar as condições ne- cessárias para a sua permanência no poder. tam- bém apoiado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).p65 104 30/03/04. Segundo o decreto. o Partido Social Democrático (PSD). João Alberto. juntamente com o General Dutra. os industriais e banqueiros ligados ao Es- tado Novo. Os queremistas defen- diam a idéia de realização de uma Assembléia Nacional Constituinte. que. acreditavam os oposicionistas. que sob o comando de Vargas. que abrigava as oligarquias situacionistas. lançou como candidato Iêdo Fiúza. foi substituído por Benjamim Vargas. que mobilizava a população com o apoio dos comunistas pedindo a permanência de Getúlio. acirrou a desconfiança de que Vargas ti- nha planos de permanecer no poder. que da mesma forma fora criado sob a inspiração do pre- sidente para incorporar as massas urbanas. general Góis Monteiro. indicou o general Eurico Gaspar Dutra. Concebido e orientado por Vargas. juntamente com as mudan- ças na Lei eleitoral. decidiu pela de- miolo tempos de vargas. A campanha presidencial parecia transcorrer sem gran- 104 des imprevistos até o surgimento do movimento Queremista. O queremismo. para concorrer a um cargo. A suspeita se tornou ainda mais forte depois que o chefe de polícia do Distrito Federal. que voltara à legalidade. os governantes estaduais e municipais precisariam deixar o cargo 30 dias antes do pleito. (UDN) e lançaram o nome do brigadeiro Eduardo Go- mes. definiria o pro- cesso eleitoral. A manobra não foi aceita pelo ministro da Guerra. Dessa forma. 16:01 . provocadas pelo decreto que antecipa- va as eleições estaduais e municipais para o mesmo dia das eleições nacionais.

assumiu a Presidência da República e manteve as eleições para o dia 2 de dezembro. assim. 105 paganda (DIP). de capital nacional. o presidente do Supremo Tribunal Federal. marcou a transformação da estrutura da comunicação de massa no País. em 1945. a atividade regulatória. sempre centralizada no Poder Executivo fe- deral. A partir dele. A imprensa sofreu severo controle por parte do Departamento de Imprensa e Pro. ingênua na aparência. em 1939. na verdade pre- tendia não ver a forte e crescente presença do capital es- trangeiro na economia brasileira. uma posição que. Outro importante fun- damento do ideário do Estado Novo era a defesa do “inte- resse nacional”. O General Oswaldo Cordeiro de Farias foi en- carregado de comunicar a Vargas que seu período na pre- sidência havia acabado. Sua ideolo- gia tinha como um dos seus principais fundamentos. evidentemente. na história política do Brasil. na economia e na cultura do país. o poder executivo assumiu o papel de líder e organizador da sociedade e interveio amplamente na política. uma forte postura nacionalista. 16:01 . tendo como meta um utópico desenvolvimento autodeterminado. deixou de ter função exclusivamente técnica. e o fim da Segunda Guerra Mundial. baseado no uso de su- postos recursos naturais inesgotáveis. até o final do século XX. tal como fosse definido pelo governo cen- miolo tempos de vargas. assu- mindo um caráter político que incluiu. o período do Estado Novo. em vários momen- tos a censura e a perseguição aos jornalistas. proprietários de órgãos de imprensa e concessionários de radiodifusão. Concluía-se. Era. José Linhares. e de uma genuína cultura brasileira. e que se constituiu numa fase de grande repressão à liberdade de pensamen- to. órgão cuja criação. posição. com- preendido entre o golpe de novembro de 1937.p65 105 30/03/04. No Estado Novo. Com a deposição de Getúlio.

que através da criação de diversos organismos de cen- miolo tempos de vargas. e que deveria prevalecer sobre interes- ses regionais. recebeu enorme impulso das agências de publicida- de americanas e tornou-se um aliado dependente do sis- tema industrial e comercial da economia. o rádio poderia também ser um instrumento de disseminação dos ideais democráticos. ao tempo que difundia a cultura americana. condicionando o mercado para a comercialização de produtos daquele país. princi- palmente. inclusive porque 106 o novo veículo de massa servia aos propósitos de propa- ganda do regime e controle da população. A radiodifusão beneficiou-se do intenso cres- cimento industrial. A programação concentrou- se no entretenimento – especialmente em programas de auditório. Com essa rápida indus- trialização. centrada na imagem do seu chefe de Esta- do. radionovelas e humorismo – sempre com pa- trocínio de produtos industriais. O que Vargas não previu. A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial aprofundou a contradição entre demo- cracia e autoritarismo. também. O Estado Novo constituiu-se. o mercado para bens de consumo expandiu- se gradualmente para outras partes do país. o Brasil vivia uma di- tadura militar. tral.p65 106 30/03/04. levando con- sigo novas emissoras de rádio. porém. Internamente. para atu- ar nos padrões comerciais estabelecidos nos Estados Uni- dos. é que. A ditadura de Vargas criou um ambiente sócio-econô- mico favorável ao crescimento do rádio. Regulamentada entre 1931-1934. apressando o final do Estado Novo e a queda de Vargas. de grupos ou de indivíduos. 16:01 . em um período histórico de grande importância para a consolidação da radiodifusão. graças a investimentos de infra-estru- tura feitos pelo governo central. do direcionamento da informação e da contra- informação. através. Getúlio. isto é.

assim. passou a apoiar incondi- cionalmente o ditador que levara à clandestinidade. Curiosamente. reimplantando a democracia no país. já no fim do período ditatorial. à pri- são e à morte seus militantes.que. entre 1942 e 1945 o Brasil viveu pelo menos duas grandes contradições. A primeira diz respeito à de- claração de guerra aos países do Eixo por um presidente que mantinha no país um regime inspirado no modelo fascista que passara a combater. Isto significava que a ditadura estadonovista acabaria. mas seu criador permaneceria na presidência. sura e repressão mantinha. o regime ditatorial do ditador. 16:01 . A disseminação de ideais democráticos e as críticas aos regimes fascistas levaram os 107 brasileiros a questionar a ditadura do Estado Novo e a exigir a redemocratização no Brasil. A segunda.p65 107 30/03/04. De fato. de volta à legalidade. a vitória das Forças Aliadas aflorou o sentimento de defesa das liber- dades individuais. impedindo qualquer tipo de manifesta- ção contrária ao seu governo. Externamente. aquele movimento con- tou com o apoio do Partido Comunista . Separa- va-se. expressa na luta contra as ditaduras nazi-fascistas. com mão de ferro.Carlos Prestes à frente . O Rádio e a Ditadura O Estado Novo foi o primeiro governo do Brasil a se preocupar de maneira sistemática com a autopromoção. o controle político do país. como se fossem coisas diferentes. A idéia teve vida curta. Enquanto nos governos anteriores a propaganda política era feita através das adesões e das pressões exercidas sobre miolo tempos de vargas. estabeleceu- se quando os mesmos segmentos que reivindicavam fim do Estado Novo e a redemocratização do país lançaram o Movimento Queremista.

o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Instituto Nacional do Livro. implantado nas escolas públicas do país. dirigido por Gustavo Capanema e assessorado por intelectuais do porte de Carlos Drumond de Andrade. instituiu também na rede pública de ensino instru- mentos que possibilitaram a mitificação da imagem de Vargas. implantou a Universidade do Brasil. Mario de Andrade. O controle dos meios de comunicação aliado a um esquema de disseminação da ideologia estado-novista. Lúcio Costa. incentivar a pesquisa e preservar as raízes culturais brasileiras. jornais e associações da sociedade civil. se consti- tuíram em elementos fundamentais para a manutenção do regime. Para isso. Manuel Bandeira e Rodrigo de Melo Fran- co. os espetáculos e mani- festações de qualquer natureza. Mas. o governo utilizou-se do Depar- tamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Ministé- 108 rio da Educação. utilizava direta- mente a emissora de rádio de maior potência e a mais popular. além do jornal A Manhã e a miolo tempos de vargas. inclusive o carnaval. 16:01 . que passou a controlar os jor- nais e revistas. econômica e policial. como a introdução da disciplina de Educação Moral e Cívica. realizada através da propaganda institucional e do sistema de edu- cação. entre outros recursos. as editoras. fes- tas cívicas e mesmo religiosas.p65 108 30/03/04. Mas o grande articulador da política de disseminação da ideologia do Estado Novo foi o Departamento de Im- prensa e Propaganda (DIP). a Rádio Nacional. o Ministério da Educação. No plano cultural. O grande objetivo daqueles intelectu- ais era modernizar a educação. além de legal. por oito anos. líderes políticos. Para fabricar e consolidar a ima- gem de Getúlio Vargas. o Estado Novo fez da publicidade dos seus feitos uma ativi- dade institucional. por outro lado. o rádio.

com o prefixo PRE-8. à Companhia Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. Em 1931. o Governo Vargas controlava os veícu- los não-governistas: cada emissora de rádio tinha um cen- sor designado oficialmente para acompanhar a programa- ção. revista Cultura Política. Do mesmo gru- po também faziam parte a SA Rio Editora e as revistas A Noite Ilustrada. a Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional foi inaugurada. em 12 de se- tembro de 1936.073. Por meio do DIP. originalmente. como pagamento de dívidas. de miolo tempos de vargas. de 8 de mar- ço de 1940. Carioca e Vamos Ler. 16:01 . Mas nenhum meio de comunica- ção foi tão utilizado politicamente quanto o rádio. a 109 Rádio Nacional pertencia. em pagamento de impostos não recolhidos.p65 109 30/03/04. o grupo decidiu investir em radiodifusão e. Quando o go- verno assumiu o controle das empresas da Companhia.2 A transformação da mais importante emissora da Améri- ca Latina em retransmissora oficial do Estado Novo contri- buiu estrategicamente para o sucesso do projeto de mitificação da imagem de Vargas e disseminação da propaganda autopromocional do governo. Foi atra- vés das transmissões radiofônicas oficiais que o governo conquistou a popularidade necessária para manter por tanto tempo um sistema ditatorial no país. denominou-as de Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União. uma das em- presas brasileiras do empresário norte-americano Percival Farquhar (Azevedo. Cobrindo todo o Brasil. o go- verno também optou pela operação direta de radiodifusão. o empresário havia recebido as máquinas. “eram consi- deradas relevantes para a utilidade pública e para o inte- resse do país”. 2001: 4871). Além da proximidade com empresários do setor. Incorporada à União pelo decreto no 2. instalações e imóveis do jor- nal A Noite. A partir de então. que segundo o texto do decreto.

Emilinha Borba. Foi também na Rá- dio Nacional que se produziu a primeira radionovela bra- sileira: Em busca da felicidade. Os salários cresceram. Vicente Celestino e Carlos Galhardo. a Rádio Nacio- nal mantinha o melhor elenco da época. foram produzidos alguns programas de alta qualidade. Iara Sales. cantores.p65 110 30/03/04. a Rádio Nacional tornou-se um sucesso. Rodolfo Mayer. Inspirado no modelo norte-americano. a novela contava com um elen- co de primeira. Ísis de Oliveira. Ao contrário das demais empresas do grupo encampadas pelo governo. Contando com expressiva verba oficial. que foi ao ar em 5 de junho de 1941. do original cu- bano de Leandro Blanco. Orlando Silva. com notícias procedentes da United Press International. quando foi substituída por O Romance de Glória Marivel. passou a ser uma das cinco emissoras mais potentes do mundo. radioatores. também de Leandro Blanco. A política finan- ceira adotada por Andrade previa auto-suficiência da emis- sora através do seu faturamento. a Rádio Naci- miolo tempos de vargas. ex-diretor das re- vistas A Voz do Rádio e Sintonia. humoristas e técnicos. hoje considerada a maior lenda do rádio brasileiro. Os resultados obtidos pelo setor serviam de argumen- to na conquista de novos anunciantes. Sílvio Caldas. Em função disso. Tendo à frente o jornalista Gilberto de Andrade. incluindo músi- cos. Norte a Sul. como Zezé Fonseca. Adaptada por Gilberto Martins. 16:01 . em 31 de dezembro de 1942. o que lhe trazia fama e reconhecimento público. a Rádio Nacional ajudou também a promover a integração nacional. Floriano Faisal e Brandão Filho e ficou em cartaz até 1943. atraindo os artistas mais populares. Com a inauguração do seu transmissor de ondas curtas. foi a primeira emissora do país a introduzir nos seus quadros um setor de estatís- tica para aferir a popularidade dos seus programas e artis- 110 tas. como Fran- cisco Alves.

encarregou o mi- nistro da Justiça de acabar com a greve das emissoras do Rio de Janeiro. que ficou conhecido como Lei Getúlio Vargas. em 16 de julho de 1926. e o resultado trans- mitido durante o programa Hora do Brasil. o Repórter Esso. onal lançou também. Desde a década de 20. A performance do então candidato ao gover- miolo tempos de vargas. Na busca de audi- ência. Em seus programas. o governo instituiu concursos musicais através da emissora. antes mesmo dos decretos de 1931 e 1932. o futuro presidente 111 do Brasil decidiu apostar no seu desenvolvimento e nos ar- tistas. Ibidem: 4870). o noticiário radiofônico consagrado na voz de Heron Domingues que.492. como os do Bando da Lua e Mário Reis. que mais tarde se transformariam em ídolos. que protestavam contra a decisão do governo de atender à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) e aumentar os “direitos autorais” das transmissões radiofônicas. Getúlio mantinha seu prestígio no meio artístico. no entanto. já vinha de longa data. e esta- belecia o “pagamento de direitos autorais por todas as em- presas que lidassem com música” (Idem. a partir de 1944. em que a opinião pública elegia seus astros fa- voritos. ainda deputado. 16:01 . sem dúvida. Com apadrinhamentos como estes. pro- jetando o alcance e a repercussão do rádio que. sempre renovado por atitudes atenciosas. através das ondas magnéticas do novo veículo. Vargas conseguiu aprovar o decreto legislativo 5. Também não passou despercebido do político brasilei- ro a utilização do rádio como instrumento de propagan- da política. a Rádio Nacional ditava padrões de comportamento e valores. o presidente não deixava de convidar cantores populares. se tornou o seu locutor exclusivo. Foi. Cinco anos depois. por exemplo. em agosto de 1941. A apuração era feita pelo DIP. O namoro de Getúlio com o rádio.p65 111 30/03/04. Nas recepções do Palácio Guanabara. já presidente do país.

Franklin Roosevelt. já então transformados em ídolos. Foi nessa escola que Roosevelt foi educado e apren- deu que o que é dito no rádio vale mais pelas qualidades sensíveis da elocução da voz do que pelo conteúdo do que é comunicado (Sevcenko. o governo investe significativamente na área da radiodifusão. que popularizava a imagem de Vargas como o benfeitor dos trabalhadores do Brasil. na essência. O modelo norte-americano de radio- difusão tinha como base as agências de publicidade. subordinada ao Ministério do Trabalho e autodenominada “a emissora do trabalho”. cujo interesse em explorar recursos para conquistar audiência permitiu o desenvolvimento de técnicas de administra- ção. no dos Estados Unidos. Entre 1937 e 1942. Vargas publicou seis decretos refe- rentes à regulação do serviço de radiodifusão e que. Além da Hora do Brasil. e da Rádio Nacional. através de patrocínios dos programas mais populares e dos artistas. o ideólogo do Estado Novo: “Não é preciso o contato físico entre o líder e a massa para que haja multidão” (Campos. o Esta- do Novo mantém mais uma emissora oficial. basta lembrar a máxima de Francisco Campos. chamou a atenção de Vargas. 1941: 34). Getúlio criou 112 a Hora do Brasil. Mas é no Estado Novo. Para se ter idéia do uso do rádio nesse processo. Observando os re- sultados alcançados pelo colega americano. sem dúvida. Para forjar uma ideologia estado-novista aceitável pela população. 16:01 . com o objetivo de “vulgarizar as realiza- ções do governo e esclarecer a opinião pública sobre os problemas do momento” (Nosso Século. 1980: 70). tratavam da criação de mecanismos de controle miolo tempos de vargas. que a partir de 1938 passa a ser obrigatoriamente transmitido para todo o país. a Rádio Mauá.p65 112 30/03/04. locução e distribuição e controle de merca- dos. 1998: 584). edição. que a simbiose do rádio com a política tem a sua maior expressão.

orientar e superintender a pro- paganda nacional.p65 113 30/03/04.. o Decreto 1. Em 27 de dezembro de 1939. coordenar. na parte que interessa à propaganda nacional. um serviço de infor- mação e contra-informação cuja principal missão era fa- zer a propaganda do regime. outras van- tagens que estiverem em sua alçada. bem como mostras de arte de indi- vidualidades nacionais e estrangeiras p) organizar e di- rigir o programa de radiodifusão oficial do Governo. bem como a con- cessão de idênticos favores para transporte dos mesmos filmes.915 criou o Departamen- to de Imprensa e Propaganda (DIP). como elemento auxiliar de informação dos ministérios e entidades públicas e privadas.. No art. 16:01 . perma- nentemente.) o) promover. Para colocar em prática a estratégia de mitificar e consolidar a imagem de Vargas como um político preocupado com seu miolo tempos de vargas. conferências. e servir. sua competência era definida da seguinte forma: a) centralizar. educativo ou de propaganda turística. e repressão à liberdade de expressão no país. g) conceder.. 113 dução de filmes nacionais. exposições demonstrativas das ati- vidades do Governo. (. interna e externamente. organizar. interna ou externa. (. con- certos. 2o..) f) sugerir ao Governo a isenção ou redução de impostos e taxas federais para os filmes educativos e de propaganda.. para os mesmos filmes.) d) estimular a pro. i) colabo- rar com a imprensa estrangeira no sentido de evitar que se divulguem informações nocivas ao crédito e à cultura do país (.. patrocinar ou auxi- liar manifestações cívicas e festas populares com intuito patriótico. h) coordenar e in- centivar as relações da imprensa com os Poderes Públi- cos no sentido de maior aproximação da mesma com fatos que se liguem aos interesses nacionais.

) q) autorizar mensalmente a devolução dos depósitos efetuados pelas empresas jornalísticas para a importa- ção de papel para imprensa. quando a esta forem cominadas as penalidades previs- tas por Lei..077. o governo aprova o regimento do DIP. de funções recreativas e esportivas de qualquer natureza. e interditar. e da imprensa. povo. a edição de quaisquer publicações que ofendam ou prejudiquem o crédito do país e suas instituições ou a moral (. Através do Decreto nº 5. desenvolvia-se sistematicamente o que veio a ser cha- mado. inclusive de controlar os meios de comunicação que resistissem ao culto à personalida- de do presidente. de populismo. (. uma simulação de de- fesa dos interesses populares. a eficiência e a utilidade pública dos jornais ou periódicos por elas administrados ou dirigidos.. Na base da estratégia. o DIP tinha poderes também para interferir nas manifestações cultu- 114 rais. além de disseminar a ideologia do novo regime. Além de controlar os veículos de imprensa. em termos de ação política. a seu juízo. o DIP tinha amplos poderes. do Cinema.) c) fazer a censura do Teatro. artísticas e literárias. 16:01 . subordinando-o diretamente ao Presidente da República e dando-lhe como missão: miolo tempos de vargas.p65 114 30/03/04.. posteriormente.. a partir do conceito de popula- ção como conjunto homogêneo.) n) proibir a entrada no Brasil de publi- cações estrangeiras nocivas aos interesses brasileiros. da radio- difusão. 2º: (. defensor dos interesses nacionais e realizador de aspira- ções dos trabalhadores.. de 29 de dezembro de 1939. isento de luta de classes. dentro do território nacional. da literatura social e política. uma vez demonstrada.. como estabelecem os demais incisos do art.

Material. da unidade espiritual e da civilização brasileira. Biblioteca e Discoteca. 16:01 . As Divisões executa- vam as atividades-fim do órgão e suas atividades eram as- sim definidas: 115 1. gru- pos. fornecendo certificado de aprovação após sua projeção perante os censores da Divisão. ranchos e estandartes carnavalescos. pantomi- mas e peças declamatórias. censurar pre- viamente e autorizar ou interditar peças teatrais. Serviços de Comunicações. Radiodifusão.p65 115 30/03/04. 3. A estrutura do DIP compreendia cinco divisões e seis serviços auxiliares: Divisões de Divulgação. apresentações de préstitos. combater por todos os meios a penetração ou dissemina- ção de qualquer idéia perturbadora ou dissolvente da uni- dade nacional. miolo tempos de vargas. fornecer aos estrangeiros e brasileiros uma concepção mais perfeita dos acontecimentos. cordões. cabendo-lhe a dire- ção de todas as medidas especificadas neste regimento. Turismo e de Imprensa. 2. organizar o programa ‘Hora do Brasil’ para ser obrigatoriamente retransmitido por todas as emisso- ras de rádio. À Divisão de Divulgação competia. Censu- rava também funções recreativas e esportivas de qualquer natureza. entre outras ati- vidades. repre- sentações de variedades. Filmoteca. Cinema e Teatro. execuções de bailados. a elucidação da opinião nacional sobre as diretrizes dou- trinárias do regime. em defesa da cultura. Contabilidade e Tesouraria. elucidar a opinião nacional sobre as diretrizes doutrinárias do regime. À Divisão de radiodifusão competia: fazer a censura prévia de programas radiofônicos e de letras para serem musicadas. interditar livros e publicações. A Divisão de Cinema e Teatro se encarregava de: cen- surar os filmes.

editoriais e 116 toda a espécie de noticiário. de 30 de dezembro de 1939.p65 116 30/03/04. comentários. miolo tempos de vargas. pois tanto os veículos de imprensa nacio- nais quanto os estrangeiros foram obrigados a registrar seus profissionais no DIP. que os jornais e quaisquer outras publicações periódicas tinham como função: contribuir. 4. por meio de artigos. vinculadas à imprensa. as empresas de publicidade e oficinas gráficas deveriam seguir as no- vas normas. conforme o pre- visto no art. 16:01 . Além disso. 4º. definiu. Este mesmo decreto criou o Conselho Nacional de Im- prensa. por exemplo. Por fim.949. notícias sobre assuntos nacionais. o controle da mídia pelo órgão passou a ser ainda mais rigoroso. a Divisão de Imprensa cuidava diretamente da censura à imprensa e da autorização prévia de circula- ção de publicações periódicas. As agênci- as de notícias estrangeiras ficaram proibidas de distribuir. 2). O estreito controle da mídia no Brasil de Vargas era centrado na questão ideológica. especialmente no que se referisse à imagem pública do Estado. A partir deste de- creto. sendo três nomea- dos pelo Presidente da República e os outros três indica- dos por entidades de classe. composto por seis membros. O Decreto 1. O Conselho passou a ser um órgão colegiado deliberativo ligado à Divisão de Imprensa do DIP. para a obra de esclarecimento da opinião popular em torno dos planos de reconstrução material e de reerguimento nacional (Art. no país. Do mesmo modo. os correspondentes estrangeiros não podiam enviar suas notícias aos jornais brasileiros e tinham de fornecer cópia autenticada de todas as notícias e informações que remetessem para o exterior.

o estado ou domi- cílio do diretor. a idade. Em função do novo pa- pel. O cinema mereceu atenção especi- al do governo e foi utilizado como disseminador da polí- tica ideológica do Estado Novo. As pesso- as físicas ou jurídicas. tinham que informar ao DIP o nome. estiver mal fotogra- fado ou não recomendar a arte nacional no estrangeiro. assuntos militares. do teatro e diversões públicas. de classe ou antagonismos regionais”. O controle do cinema. para as seguintes situações: quando forem divulgados. entre outras conseqüências. deveria estimular a veiculação de mensagens que re- forçassem valores patrióticos e de respeito à ‘família e às instituições. ou ainda se contiver vistas de zonas que interessem à defesa e segurança nacionais” (Art. pudessem “criar con- flitos sociais. As punições à Imprensa e às emissoras de rádio esta- vam previstas no art. da radiofonia. das empresas de diversões públicas. Proibia também a publicação de notícias ou comentá- rios que. com intuitos de exploração. 131. proprietárias dos jornais. dos programas. §2º). da pessoa ou empresa proprietária do veículo e o endereço da gráfica na qual o jornal seria impresso. 49. Nesse contexto. estava impedida a exporta- ção de filmes que contivessem: vistas desprimorosas para o Brasil. quando fi- car provado que auferiram compensações materiais para combater os interesses nacionais e Leis do país. do secretário da redação. quando miolo tempos de vargas. do redator que o substituísse eventual- mente. dos artistas e auxiliares teatrais também estava 117 previsto neste decreto. 16:01 . quando procurarem perturbar a har- monia do Brasil com as nações estrangeiras.p65 117 30/03/04.

não dei- xava dúvidas quanto à opção diplomática que o Brasil miolo tempos de vargas. o governo passou a interferir no comércio de aparelhos de rádio. a sua cultura. No art. O cerco aos estrangeiros de origem alemã. italiana e ja- ponesa residentes no país. a sua eco- nomia e as suas tradições. transmissores ou receptores. segundo a sua justificativa. quando provocarem animosidade. quando tentarem di- minuir o prestígio e a dignidade do Brasil no interior e no exterior. 2º. Em 17 de Setembro de 1942. pessoas físicas ou jurídicas. o seu poder militar. em matéria de imprensa. a restri- ção se ampliava: “Aplica-se aos particulares. Não se podia. “transacionar com súditos alemães. seus pertences e aces- sórios. italianos ou japoneses. 16:01 . visava à Se- gurança Nacional e restringia as transações comerciais neste segmento. por exemplo. o que dispõe o artigo anterior”. previsto neste decreto. quando fizerem a propagan- 118 da política de idéias estrangeiras contrárias ao sentimen- to nacional. 3º. quando divulga- rem segredos de Estado que comprometam a tranqüili- dade pública ou sejam contrários aos interesses do país. do mesmo decreto: “a merca- doria poderia ser confiscada e os responsáveis ficavam sujeitos a pena de reclusão de cinco a dez meses”. doação ou permuta.p65 118 30/03/04. nos casos de inobservância das normas e instruções dos serviços com- petentes. fizerem direta ou indiretamente campanha dissolvente e desagregadora da unidade nacional. descrédito ou desres- peito a qualquer autoridade pública. nem mesmo sob a forma de doação ou permuta”. através do Decreto no 4. nos casos de ven- da. 4o. conforme estava previsto no seu art. A medida. quando provocarem desobediência às Leis ou elogiarem uma ação punida pela justiça. A punição para quem violasse o exposto nos artigos anterio- res estava prevista no art.701.

da mesma forma em que é expresso o sentimento de reserva sobre o conteúdo a ser publicado. como e por quem. ressalvadas os direitos de recuperação das enti- dades que. 1º As empresas proprietárias ou editoras de jornais e revistas somente poderão contratar a distribuição e venda das publicações que editarem. 4º. Através do Decreto no 4. Nos seus três primeiros artigos. de caráter na- cionalista. Art. como fica bastante evi- dente no art. revistas e outras publicações somente a brasileiros natos poderão ser cedidas. com reserva de domínio. que os poderá apreender – com o motivo justificado a seu critério. A medida.p65 119 30/03/04. nos anos 30. o Estado Novo passou a regular também a exploração da distribuição e venda de jornais. 119 Estavam interrompidas. deveria adotar no futuro próximo. limitava a concessão de licenças para a distri- buição e venda de publicações. com brasileiros natos ou sociedades de que façam parte apenas brasileiros natos. por qualquer título. de 12 de outubro de 1942. ficam sob a fiscalização imediata da autoridade competente. o sentido nacionalista fica demonstrado.826. na posse de súditos alemães. italia- nos ou japoneses. as relações comerci- ais com os três países com os quais o Brasil tinha sido importante parceiro comercial. 16:01 . e a exploração de bancas de jornais e revistas aos brasileiros natos. que estejam. 2º As licenças para a exploração de bancas de jor- nais. pessoas físicas ou jurídicas. com elas tran- sacionaram. 5º: As mercadorias mencionadas no art. portanto. miolo tempos de vargas. Art.

processo.. propriedade ou veículo de subordinação.p65 120 30/03/04. as atribuições indispensáveis à coordenação re- ferida no art. a ser- viço do Brasil. 16:01 . direta e em bloco. em geral. só podendo. 1º. todos os meios e órgãos de divulgação e de publicidade existentes no território nacional. convenha a incentivação da harmonia dos povos do Continente. entretanto. é assegurado o direito de nelas prosseguir. de qualquer nacionalidade. 1º e 2º: Durante o estado de guerra e tendo em vista as necessi- dades da ordem pública civil. transferir suas respectivas licenças ou con- tratos a brasileiros natos. aos compromissos. da mobilização es- piritual dos brasileiros e à segura elucidação dos proble- mas políticos ou administrativos que interessem ao co- nhecimento público. Alegando a entrada do país na guerra contra os países do Eixo. atra- 120 vés do DIP. forma. que objetiva: excluir da divulgação e pu- blicidade assuntos julgados inconvenientes aos interes- ses. Se antes a fiscalização era feita de maneira indireta.. ficam coordenados.) providenciar para que as informações e noticiários oficiais sejam uniformes em todo miolo tempos de vargas. o governo edita o decreto no 4. a partir de então passou a ser feita de forma clara. reforçando o controle sobre os órgãos de impren- sa. à ordem. caráter. que na data desta Lei. como estabelecia os arts..) (. (. seja qual for a sua origem. distribuidor ou capaz de serviços de distribuição. em vista do estado de guerra. determinar a divulgação e publicidade do que. 3º Ao vendedor.828. à segurança e à defesa do Estado.. Ao Ministro da Justiça e Negócios Interiores competem. de 13 de outubro de 1942. Art. se encontrar no exercício dessas atividades.

A partir de 1935. na contra-partida prevista na política de boa vizinhança. o bem derrotava o mal. em 1943 e 1944. iniciado por Roosevelt e. de Roosevelt. 1980:88) A versão tupiniquim do comportamento americano teve grande repercussão no rádio. México com Cuba. o país. nos filmes produzidos para nos agradar. Os artistas nacionais imita- vam os ídolos hollywoodianos. Ary Barroso fez temporadas nos EUA e miolo tempos de vargas. o Pato Donald e sua turma para difundir a idéia de americanismo pretendida pelo presidente. Mas não raro. como embaixadora da Boa-Vizinhança. afim de evitar erros. na América fabricada em Hollywood. A bem articulada estratégia de sedução. envolveu também os estúdios Disney. Quando esta máquina se voltou contra os países do Eixo. Fruto da imaginação cinematográfica. personagem tipicamente brasileiro encomendado por Walt Disney ao jornalista Gilberto Souto e a Aloísio de Oliveira. Hollywood integrou Carmen Miranda em seus filmes. o Brasil era con- fundido com a Argentina. apresentando performan- ces semelhantes. passaram a mos- trar heróis e ritmos típicos latino-americanos. o amor se realizava e as pessoas de vida pequena sonhavam grande.p65 121 30/03/04. posteriormente desenvolvido por Nélson Rockefeller. mobilizou milhões de almas simples contra os vilões da his- tória. cujo dono 121 despachou por duas vezes para o Brasil. por sua vez. integrante do Bando da Lua. Foi nesse contexto que nasceu Zé Carioca. português com espanhol e samba com conga. (Novo Século. Os fil- mes americanos. o DIP passou a patrocinar programas de música brasileira em outros países. divergências ou superfluida- des inconvenientes à unidade nacional e ao exato esclare- cimento da opinião pública. Carmen Miranda e o Bando da Lua acompanharam Getúlio Vargas em visitas internacionais. 16:01 .

segundo o Anuário Estatístico do Brasil daquele ano. o 122 Brasil possuía 2. Cinco anos depois. os autores sofriam pressões para modificar as letras e incluir forçosamente os valores estadonovistas. pro- vavelmente em razão da desorganização da economia mundial desencadeada pela crise de 1929. Em 1927. as restrições ao samba iam além da proibição de gravação e execução. O exem- plo mais conhecido é a música Bonde de São Januário. No cenário musical. Para gravá-las e executá- las. Em 1936. segundo o mesmo anu- ário (1939: 1404). o número de sambas registrados caiu para três de um total de apenas 28 obras registradas (Anuário Estatístico do Brasil. Em 1937.p65 122 30/03/04.674 periódicos. A partir de 1937. 2000. 1994). apenas 1. Entre 1937 e 1945.405).262. Um pouco diferente foi o caso das salas de exibição cinematográficas. o Brasil chega em meados da década de 40 com 111 emissoras. das 37 obras registradas. Das 63 estações registradas em 1937. Vicente. A figura do malandro carioca sofria severo controle por parte dos órgãos oficiais (Castro. Ao contrário do rádio. Em 1937. de acordo com o Anuário Estatís- tico do Brasil (1939: 1. o samba-exaltação adotou os arranjos do jazz das big- bands norte-americanas. 16:01 .002. 1937: 296).793 periódi- cos circulavam no país. chegando a 1937 com 1572. uma era valsa. eram 1. o número de emissoras de rádio no país havia tido um crescimento razoável. esse número caiu para 2. de Wilson Batista e Ataulfo Alves. também é possível perceber uma queda na produção através das obras registradas no Instituto Nacional de Música. Em 1933. o número de empresas jornalís- ticas diminuiu nos primeiros anos do governo Vargas. cuja letra original dizia: miolo tempos de vargas. 1986. com a implantação do Estado Novo. Galvão e Souza. oito eram mar- chas e doze eram sambas.

A importância destes programas era tanta que alguns locutores do conceituado Repórter Esso. teve que receber a seguinte redação: “O Bonde de São Januário leva mais um operário. pois era a forma mais rápida de saber o que acontecia nos campos de batalha europeus. 16:01 . Tratou-se da “Homenagem a Tiradentes”. só em 1955 é que um samba-enredo de caráter histórico foi grava- do. muito menos. 1994.) ainda hoje segue 123 alguns dos moldes estabelecidos na época. comissão de frente.) Durante o período da guerra. Para ser gravada em 1940 por Ciro Monteiro.p65 123 30/03/04.. etc. Sou eu que vou trabalhar”. (Vicente. Assim. Programas como o Boletim da Guer- ra. elementos culturais e lingüísticos es- tranhos ao seu meio. obrigou os compositores a pro- duzir sambas cada vez mais complicados. eram aguardados com gran- de ansiedade. incorporan- do. forçosamente. Os desfiles nunca mais puderam ser dissociados da estrutura go- vernamental e. o que levou tais canções a se afas- tarem do gosto e do agrado popular. sp.. Ana Maria Rodrigues (1984: 56-59) apon- ta ainda o fato de que a imposição de se utilizar temas históricos nos enredos. lançado pela Rádio Tupi. do calendário turístico da cidade do Rio. Além das músicas. de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. o radiojornalismo foi o grande destaque da programação das emissoras. As intenções didáticas e ufanistas dos enredos mantiveram-se presentes nos sambas até o final da ditadura de 64. “O Bonde de São Januário leva mais um otário que vai indo trabalhar”. A própria organização das esco- las (em alas. da miolo tempos de vargas. as escolas de samba também foram bastante controladas pelo DIP: A influência do Estado Novo sobre o carnaval foi extre- mamente duradoura.

escutavam ansi- osamente os noticiários. o famoso ‘Dia D’ (Scliar. só o rádio trazia alguma esperan- ça de libertação. 2000). graças ao qual seria consagrado o nome de Heron Domingues (. nos países ocu- pados pelos nazistas. Fernando Morais (1994: 36) conta que. O Repórter Esso.) e que. O impulso proporcionado pela Segunda Guerra Mun- dial ao rádio também é relatado por Moacyr Scliar: 124 Milhões de pessoas.. transmitindo via telefone as últimas informações. em sua estréia. Rádio Nacional. pela posse da filha de ambos. Assis Chateaubriand travava uma batalha jurídica com a atriz Cora Acuña. O episódio da chamada Lei Teresoca é bastante ilustrativo da extensão da influência de um proprietário de rede de radiodifusão sobre o governo. para ações de benefício estritamente pessoal. No Brasil surgia então o primeiro noti- cioso escrito especialmente numa linguagem própria do radiojornalismo: o ‘Repórter Esso’. A importância do rádio na formação da opinião pública era justificativa de Vargas para um tipo de relação político- econômica que começou a ser mantida entre os empresári- os de radiodifusão e o governo. anunciou a invasão da Normandia pe- los aliados.. miolo tempos de vargas. foram enviados para o front. Sua credibilidade era tão grande que o público só acreditava nas notícias se confirmadas pelo Repórter Esso” (Rádio em Foco. 16:01 . onde atua- vam como correspondentes de guerra. em todo o mundo. que extrapolavam os limi- tes convencionais previsíveis. 1991: 22).p65 124 30/03/04. Teresa Acuña. tinha grande audiência. mais que isso. em 1940. o noticioso mais importante do rádio nacional.

737. Mas não per- dera ainda seu poder coercitivo. ficará sob o poder do progenitor que o reconheceu e. o DIP. mas ainda tinha um en- trave legal para ganhar a batalha contra Cora Acuña: a Lei 3. reconheceu a filha. Tradicionalmente. Chateaubriand providenciou o desquite da primeira esposa. depois do desquite. através da permanência de pelo menos um sensor nas emissoras. A partir de 1942. Getúlio inicialmente resistiu à idéia de indispor-se com o conservadorismo católico. enquanto menor. que se considerava mais cerceado que a imprensa escri- miolo tempos de vargas. sob o do pai.p65 125 30/03/04. quando Getúlio assinou o Decreto no 5213. assinou o De- creto-lei no 4. que permitia o reconhecimento. a Igreja Ca- tólica era a principal influência na legislação sobre a fa- mília e. 1994: 410). principalmente sobre o rá- dio. se ambos o reconheceram. cujo art.200. que até então conseguira coibir as críticas ao presidente e seus interventores. uma campanha de difamação moral contra Cora para convencer os juízes de que a mãe não tinha condições de criar a filha. Este entrave também seria eliminado alguns meses de- pois. de 24 de setembro de 1942. por conta de um capricho do empresário. no interesse do menor” (Morais. Maria Henriqueta. de filhos havidos fora do matrimônio. de 21 de janeiro de 1943. Abordado por emissários. quando alguns veículos de comunicação começaram a furar o bloqueio da censura. Mas acabou não resistindo à 125 pressão de Chateaubriand e dois anos depois. Chateaubriand movia. ‘filho havido pelo cônjuge fora do matrimônio’ não era passível de reconhecimento legal. salvo se o juiz entender dou- tro modo. através dos seus jornais. 16 estabelecia que o pátrio poder so- mente poderia ser exercido ‘por quem primeiro reconheceu o filho’. de 1941. nesta época. e não tivesse registrado a pa- ternidade da criança. Embora legalmente fosse ainda casado com sua primeira esposa. estabelecendo que “o filho natural. começou a perder força. 16:01 .

Em 1945. desde a Revolução de 30. e.666. Chateaubriand considerou a Lei Malaia um ataque direto aos Diários e Emissoras Associ- ados. Vargas criou uma comissão autorizada a desapropriar qualquer organização cujos negócios estivessem sendo conduzidos de maneira lesiva aos interesses nacionais. a Rádio Tupi transmitia o discurso de Alberto Whately. Mas a gota d’água do rompimento ficou por conta da edição do Decreto-lei no 7. Na prática. o rá- dio ainda sofria intensa fiscalização. ta. ’trustes’ ou ‘cartéis’” (Carone. a cam- panha desenvolvida pelos Diários e Emissoras Associa- dos. que criticava as medidas autoritárias de Vargas.p65 126 30/03/04. A censura ao rádio só foi acabar após a extinção do DIP. fez o seguinte co- mentário. Em outras palavras. Uma das grandes contribuições para a extinção do DIP e a posterior deposição de Vargas foi. Era proibida a veiculação de qualquer mensagem que fosse contrária ao regime. 1976). quando teve sua transmissão cortada. sem dúvida. a fusão de empresas ou a organização em associações ou agrupamentos sob um único controle. de 1945. que. em nome da proteção da eco- nomia nacional contra grandes trustes nacionais e estran- geiros. coibia a propriedade cruzada de empresas jornalísticas. Agamenon é apenas miolo tempos de vargas. impedia a formação de redes de comunicação. “empresas nacionais ou estrangeiras sabidamente ligadas a associações. 16:01 . com a participação ativa de 126 Chateaubriand a favor do governo. foi se deteriorando. em revide à nova legislação. numa transmissão de rádio: Não pensem que a Lei Malaia é uma lei de Agamenon Magalhães. Enquanto os jornais impressos burlavam a censura. É uma Lei de Getúlio. especificamente. A relação de cooperação. o Decreto proibia o monopólio e mencio- nava. a chamada Lei Malaia. em 25 de maio de 1945.

Creio que nunca se fez no Brasil uma legislação com tal ferocidade. seu instrumento. comprarmos máquinas? Mas há muitos anos nossa vida tem sido essa: defender nosso patrimônio (.. o império ‘Associados’ já contava com 15 emissoras de rádio. onde arran- jaremos tempo para nos organizarmos. além de jornais. 1994: 456-7). A radiodifusão se expandia rapidamente. E acho que se eu não fosse paraibano. arrumarmos dinheiro. 127 Em 1945. os Diá- rios Associados. miolo tempos de vargas. 16:01 .p65 127 30/03/04. Ao nos defendermos dela. esse gaúcho já tinha me comido (Chateaubriand apud Mo- rais. e do sertão.. revistas. com o objetivo exclusivo de exterminar uma organização que somos nós. editora de livros e agência de notícias.) Nesses últimos anos. minha vida foi estar de carabina na porta dos Associados para defender este patrimônio.

12. de 22. que revoga o direito do Presidente aposentar ou reformar funcionários civis e militares “por conveniência do regime”.02.1945. que extingue o Tribunal de Segurança Nacional. ser empossado o Presidente da República que for procla- mado eleito pelo Tribunal Superior Eleitoral”. p.11.1945.1945. que dispõe sobre os poderes da Assembléia Constitu- inte e do Presidente da República. que fixa oo dia 31 de janeiro de 1946 “para. que determina o dia 2 de fevereiro para o início dos trabalhos da Constituinte “para votar. de 31. 2 Idem.13. com poderes ilimitados.1945.1945. a Constituição do Brasil”. de 17.1945. Lei Constitucional n. 16:01 .11. de 07. às 14 horas. a ser eleito.19. de 26.11.14. Lei Constitucional 128 n.11.p65 128 30/03/04. de 12. Notas 1 São várias as Leis Constitucionais decretadas por Vargas. 4. entre elas destacando-se as seguintes: Lei Constitucional n. miolo tempos de vargas. Lei Constitucional n. 9. Lei Constitucional n. Lei Constitucional n. 15. que altera diversos artigos da Constituição de 1937.12.870.

16:01 .p65 129 30/03/04.miolo tempos de vargas.

16:01 .p65 130 30/03/04. Quarto Capítulo A Radiodifusão no pós-guerra miolo tempos de vargas.

miolo tempos de vargas.p65 131 30/03/04. 16:01 .

No geral. a guerra reconfigurou a geografia política mundial. que já haviam se destaca- do na primeira grande guerra. miolo tempos de vargas. consolidaram-se como prin- cipal potência do mundo capitalista. No plano político-econômico. Durante as décadas seguintes. por ser uma dita- dura militar com fortes traços nacionalistas. Os Estados Unidos. Com o fim do conflito.p65 132 30/03/04. desespero e agita- ção social. o rela- cionamento amistoso com a ditadura varguista não era compatível com o discurso americano em defesa das li- berdades individuais. Além disso. a Europa per- deu a sua hegemonia. já que durante a guerra havia iniciado seu desenvolvimento industrial. 16:01 . materializada no fim do império britânico e pelo triste quadro de fome. O conflito produziu mais de 55 milhões de mortes e se caracterizou por vitimar mais ci- vis que militares. o continente deixara de ser mero exporta- dor de matérias-primas. Em conseqüência. haviam passado a de- sempenhar um novo papel na economia política interna- cional. a Segunda Guerra Mundial tinha redefinido o panorama mundial. de ser uma ditadura bem vista pelos americanos. o que pode- ria. os países latino-americanos passa- ram a ser objeto de rigoroso controle dos Estados Unidos que se tornam seu principal parceiro. muito menos negligencia- do. Além da perda de vidas humanas e da destruição material. a América Latina. então. pelos americanos. Fato que não pode- ria deixar de ser considerado. naquela nova conjuntura. parti- cularmente a Argentina e o Brasil. trazer problemas políticos e econômicos para os Estados Unidos. Ou seja. Primeiro. a dependência do continente em relação à nova potência foi crescente. com a criação de várias empresas nacionais de base. 132 O regime de Vargas deixou.

inclusive. sua gran- de colaboração com a política dos aliados. no início do governo Dutra. principalmente no que diz respeito à industrializa- ção brasileira.(. estavam ligados ao caráter excepcional de guerra mundial. de imediato. uma vez que o montante de investimento caiu sensivelmente. 133 tituiu.. numa preocupação. sobretudo no que se referia aos recursos fi- nanceiros norte-americanos que poderiam ser investidos no país. assim como os investimentos dos Estados Unidos. por sua vez. naquele momento histórico. a relação Brasil- EUA foi marcada pelo sentimento de frustração do gover- no brasileiro. O que. para que pudesse capacitar-se a receber investimentos ianques. que absorviam quase a metade das exportações latino-americanas. Entretanto. com relação ao americano.. da assistência técnica e militar e seu mais importante mercado: quase 60% das importações latino-americanas no triênio 1946-1948 pro- vinham dos EUA. A participação do Brasil na guerra. não ocorreu. a estabelecer metas a serem cumpridas pelo Brasil. nem se confirmou como o centro das atenções políticas internacionais dos EUA. adquiriram o virtual mo- nopólio de influência da região. haja vista que os in- vestimentos ianques. Pela primeira vez na história. que ajudaram na in- dustrialização durante a guerra. O governo Roosevelt passou. 1986: 58). a relação Brasil-Estados Unidos não se cons.p65 133 30/03/04. De fato. Talvez em nenhum outro continente a avassaladora pre- sença dos Estados Unidos se fazia sentir tão amplamen- te quanto na América Latina do imediato pós – guerra.) (Fausto. acabaram gerando nos ad- ministradores brasileiros uma expectativa de manutenção desta relação. constituindo praticamen- te sua única fonte de capitais. Estas metas iam desde a procura de outras fontes de financiamento até a criação miolo tempos de vargas. 16:01 .

Dessa forma. na defesa das liberdades individuais (liberdade de merca- do. 1986.p65 134 30/03/04. miolo tempos de vargas. abrindo as portas do Brasil às importações. ainda mais com fortes influências nacionalistas. interesse americano em tro- 134 car o regime de Vargas por um governo liberal. como era de se esperar. Além disso. de qualquer forma. tendia a uma drástica redução da intervenção do Estado na economia do país. Estado mínimo. 16:01 . Essa política de atração do capital privado internacio- nal. não im- pondo limites à saída de divisas do país. mais afi- nado com as políticas ianques. não estavam interessados em mudanças que pudessem colocar em xeque o status quo restabelecido. representavam os interesses dos setores oligárquicos. A conseqüência ime- diata foi a deposição de Vargas. A deposição consentida ou a renúncia forçada de Vargas não configurou uma mudança estrutural no Brasil. visando estimu- lar futuros ingressos de capitais privados. que eram oposição a Vargas. 64). de organização polí- tica. que tinham sido ex- cluídos das decisões políticas durante o primeiro período do Estado Novo. já que as forças políticas que venceram as eleições. Havia. das condições para a entrada de capitais privados no país (Fausto. sobretudo porque os interesses americanos não eram compatíveis com os de um governo ditatorial. Isto era uma condição sine qua non para a redefinição da relação do Brasil com os EUA. Metas que estavam totalmente identificadas com a política americana de criação de uma economia mundial aberta. criando um novo ciclo na economia política brasileira. de manifestação do pensamento. democracia). a reelaboração da política interna havia levado a uma arti- culação da direita liberal com os movimentos populares.

foi eleito presidente da República. Arman- do de Salles Oliveira. Veja-se Dutra e Eduardo Gomes.. ocupavam 201 cadeiras – 177 do PSD e 24 do PTB. O ‘façamos a revolução antes que o povo a faça’ não era uma mera figura de retórica em 30. liberais quando lhes pisavam o calo. como ainda não o é hoje (Fausto. nem em 45. Instalada em 5 de fe- vereiro de 1946. os sig- natários do ‘Manifesto dos Mineiros’ . banqueiros latifundiári- os. deputados federais e estaduais e vereadores.. Promulgada em 18 de setem- bro do mesmo ano. A quarta Constituição da história do Brasil restabelecia a independência dos Três Poderes. partidos que tinham Vargas como presidente de honra. ex-ministro da guerra de Getúlio. A UDN elegeu 86 parlamentares e o PCB 16. Mantinha a organização sindical miolo tempos de vargas. prefeitos. Convictamente reacionári- os. senadores. Júlio de Mesquita Filho. militares da alta patente. PSP. As 17 cadeiras restantes fo- ram preenchidas por representantes de outros partidos (PR. mas conservava muitos dispositivos da de 1937. 135 O General Eurico Gaspar Dutra. principalmente no que se referia às questões sociais. anticomunistas empedernidos. continha elementos da de 1891. a autonomia dos esta- dos e municípios. sendo que o PSB e o PTB. empossado em 31 de janeiro de 1946. a nova Constituição estava baseada fundamentalmente na Carta de 34.a lista é intermi- nável): todos são empresários. ED e PL). Gastão da Costa Vidigal. bem como os que os apoiaram (Prado Kelly. previa eleições diretas para presidente. governadores.p65 135 30/03/04. e convocou eleições para uma Assembléia Nacional Constituinte. a assembléia parlamentar foi constituída de 320 deputados. mas discricionários ao ocuparem o po- der. temem acima de tudo que o povo aja e assuma ati- tudes políticas. PDC. 1996: 239). 16:01 .

com observância do dis- posto no art. advogando a intervenção do Estado na economia e a repressão aos monopólios. que tenham por fim dominar os merca- dos nacionais. eliminar a concorrência e aumentar arbi- trariamente os lucros. A intervenção terá por base o interesse público e por limite os direitos fundamentais assegurados nesta Constituição. corporativista do Estado Novo e refletia as mudanças na política econômica mundial. mediante lei especial. promover a justa distribuição da propriedade. 16:01 . inclusive as uniões ou agrupamen- tos de empresas individuais ou sociais. A lei poderá. 141. A Constituição de 1946 res- salta esse aspecto: defesa da livre iniciativa privada. agora baseada nas teorias de Keynes. 147 e 148 – combinados permitiam ao governo federal intervir em empresas. liber- dade de oportunidades para nacionais e estrangeiros. depois da crise de 1929. distribuir propriedades e combater o monopólio ou oligopólio privados: 136 Art. des- toando totalmente da política de Vargas. O desenvolvimento econômico passou a ter como prin- cipal agenda a iniciativa privada. com igual oportunidade para todos. inter- vir no domínio econômico e monopolizar determinada indústria ou atividade.p65 136 30/03/04. estabelecer mo- nopólios estatais. Art. Mas. apesar dis- miolo tempos de vargas. § 16. Art. 146 – A União poderá. 148 – A lei reprimirá toda e qualquer forma de abuso do poder econômico. Essas teorias haviam passado a ser dominantes em todo o mundo. tendo uma relação cen- tral com o capital estrangeiro. seja qual for a sua natureza. Três artigos – 146. 147 – O uso da propriedade será condicionado ao bem-estar social.

onde a economia brasileira. 16:01 . so. Nestas incluía-se o PCB. preferivel. antes da cassação. baseado no nacionalismo. mantida tal como foi concebida durante o período di- tatorial de Vargas. mantido em termos formais a partir da queda do nazi-fascismo e o crescimento das lutas pela democra- tização do país. A crítica à política do novo governo obrigou-o a recuar na submissão aos interesses dos EUA. Nesse período. ou seja. Acreditavam que atra- vés do processo de nacionalização da economia poderia se chegar ao socialismo. por conseguinte. para desen- volver-se. Após de- núncia de membros do PTB ao Superior Tribunal Eleito- ral. O cenário es- tava montado para a cassação dos comunistas. O crescimento do movimento operário estabeleceu um corte nas relações do governo Dutra com o movimento comunista. dependeria do capital estrangeiro. em 7 de maio de 1947. o que se observa é a estruturação da ‘democracia liberal’ tal como sempre a viram os donos do poder. as oligarquias industriais. O medo da expansão da influência do PCB levou Dutra a restabelecer atos repressivos. não existem mudanças substanciais na Lei Trabalhis- ta. o que conseguiram do Governo. as principais forças políticas eram: · Forças liberais – defesa de um desenvolvimento capi- talista associado. Inicia-se um período de intensa repressão ao movimento operário: A partir de 1947. para garantir a acumulação de ca- pitais. Por outro lado. com qualquer movi- miolo tempos de vargas. eles tiveram o registro de seu partido cassado. provocando greves constantes.p65 137 30/03/04. 137 mente os EUA (modelo baseado no dos EUA). · Forças democráticas populares – desenvolvimento ca- pitalista independente. exigiram o congelamento do salário mínimo.

afiançadas pela Constituição. nos casos e na forma que a lei preceituar. mas com restrições.p65 138 30/03/04. porém. § 5º É livre a manifestação do pensamento. ou a preconceitos de raça ou de classe. Liberal na forma. 141. No mais. herdeiro do autoritarismo característico dos anos trinta no conteú- do. salvo quanto a espetáculos e diversões públicas. a processos violentos que possam subverter a ordem política e social. pelos abusos que cometer. mento ou organização de massas sufocado e/ou atrela- do ao aparelho burocrático do estado. assegurou o direito de resposta e suspendeu a necessidade de licença para publicação de livros e periódicos. respondendo cada um. Não será. permaneceu a necessidade de auto- 138 rização antecipada para a realização de espetáculos e di- versões públicas. eis possivelmente uma descrição sumária do perío- do Dutra. à liberdade. É assegurado o direito de resposta. Além disso. (Fausto. Art. ampliou os mecanismos de controle e punição. Embora não dependes- se de censura prévia. manteve a proibição de publicações apócrifas. à segurança in- dividual e à propriedade. no que diz respeito à propaganda de guerra. tolerada propaganda de miolo tempos de vargas. A pu- blicação de livros e periódicos não dependerá de licença do Poder Público. Não é permiti- do o anonimato. estabelecidos na Constituição de 1934. A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos di- reitos concernentes à vida. 16:01 . nos termos seguintes: § 1º Todos são iguais perante a lei. sem que de- penda de censura. 1996: 239) A nova Constituição assegurou a livre manifestação do pensamento. a par da manu- tenção das liberdades e garantias individuais.

) § 6º É inviolável o sigilo da correspondência. a sociedades anônimas por ações ao portador e a estrangeiros. Ela reafirma o monopólio da União com relação a este serviço. diretamente ou mediante concessão: Art. As exceções continuavam a ser os partidos políticos. permaneceu nas mãos de brasileiros natos. ou consideradas indispensáveis à defesa do país. nem pessoas miolo tempos de vargas. aliás. as concessões de radiodifusão teriam que ser submetidas ao Conselho Nacional de Segurança. Nesse senti- do. É vedada a propriedade de empresas jornalís- ticas. de radiodifusão. As restrições às concessões de exploração da radiodifusão e limitavam às questões se segurança nacional... os serviços de telégrafos.. de radiocomunicação. Nem esses.. O controle das empresas de radiodifusão. tal como ha- via sido estabelecido em 1931. 160. 16:01 . sendo vedadas ações ao portador e sociedades anônimas.. pelo Governo Provisório.) XII – explorar. a ela atri- buindo a exclusiva competência de explorá-lo. sejam políticas ou simplesmente noticiosas. Compete à União (. Art. assim como a de radiodifusão. de processos violentos para subverter a ordem polí- tica e social.p65 139 30/03/04. modos de in- vestimento de capital que impedem a identificação de res- ponsabilidades individuais. por Vargas já havia esta- belecido na Constituição de 1937. (. guerra. como. A Constituição de 1946 é a primeira Carta Magna bra- sileira a citar o serviço de radiodifusão.. diretamen. em regiões de fronteiras. 5o. 139 te ou mediante autorização ou concessão. ou de preconceitos de raça ou de classe.

no início de 1946. de 24 do mesmo mês.p65 140 30/03/04. Era clara a incompatibilidade da natureza desta última com a existência de órgãos e mecanismos de censura na estrutura do Estado.493. fosse ele religioso. Isto fica. no. Os decretos expressavam uma acintosa contradi- ção com os fundamentos de uma sociedade democrática. vivendo um regime democrático. naquele momento. é preciso levar em consi- deração o fato de o Brasil estar. e o de n. Na verdade.º 20. Mas o certo é que aqueles órgãos foram instituí- dos e passaram a interferir na livre manifestação e difusão do pensamento. após um período de oito anos de ditadura. inclusive as emissoras de rádio. du- rante o estado de sítio. excetuados os partidos políticos nacionais.543. aliás. político ou artístico-cultural. suspender todas as garantias indi- viduais. muito evidente miolo tempos de vargas. den- tro da nova ordem. os decretos retomaram a estrutura institucional do período do Estado Novo. Ao governo central ficava assegurado o direito de. a responsabilidade principal delas e a sua orientação intelectual e administrativa. poderão ser acionistas de sociedades anônimas proprie- tárias dessas empresas.º 8. Mesmo antes de ser restabelecida a base constitucional da vida legal do país. I e II) caberá. utilizar censura plena e comandar diretamente as empresas concessionárias que realizassem serviço pú- blico. a partir dali. A brasileiros (art. de 03 de janeiro. um visando coibir excessos no uso da radiodifusão. Estes dispositivos 140 constitucionais relacionados à radiodifusão são mantidos até a Constituinte de 1967. Trata-se de dois decretos bastante rele- vantes. e o outro redefinindo o papel de um órgão de censura. dois Decretos-lei que interferiram na comunicação de massa e na cultura: o de n. manti- do em funcionamento regular e. foram publicados. jurídicas. Neste aspecto. 16:01 . legalizado. 129. exclusivamente.

356. O Decreto-lei n. 141 rência à finalidade da radiodifusão: Considerando que a radiodifusão é concedida pelo Go- verno para atender às altas finalidades culturais e facili- tar ao público o conhecimento da situação política. o texto.. apesar de proibido em Lei veicular injúrias e calúnias. faz refe. é necessário estabelecer processo rá- pido e eficiente para apuração de responsabilidades (. stricto sensu. eco- nômica e financeira do país.º 8. de 03 de janeiro de 1946. percebe-se melhor os motivos da justificava.P.493.C. 16:01 .D. em boa parte da sua estrutura.543.5822.º 20. que dispõe sobre o processo administrativo previsto no De- creto-lei n. onde o Serviço de Censura de Diversões Públicas é definido como: miolo tempos de vargas.º 7. extinto em 25 de maio de 1945. do Decreto-lei n.).949.). no Decreto-lei n. Este Regulamento traz.. de 12 de dezembro de 1945. já no seu início.º 8. na parte em que justifica sua publicação. em casos de injúrias e calúnias. do Departamen- to Federal de Segurança Pública (S.P.º 1. a pretexto de críticas dos atos das autoridades. No primeiro artigo do Decreto-lei.p65 141 30/03/04. Considerando que para efeito de punição. que tinha estabelecido as normas de fiscalização do Departamento de Imprensa e Propaganda. do D.S. que aprovou o Regulamento do Serviço de Censura de Diversões Públicas.F. de 30 de dezembro de 19391 . através do Decreto-lei n. Mas a justificativa da publicação do decreto vai além da referência à definição da radiodifusão: Considerando que o uso da concessão tem degenerado em retaliações de ordem pessoal.

e determinar os encargos dos demais funcionários. 3º tratava do caráter das irradiações. A Chefia de Polícia pas- sava a ter o poder de julgar a infração sem necessidade de processo administrativo e.493. compete.p65 142 30/03/04.. 3.356. para fins nele previstos.º 8. 16:01 . para fins de cassação da licença. O segundo Decreto-lei. dar orientação uniforme à censura. adotar medidas de interrupção das irradiações. Já o art.º 20. no distrito Federal. aos Chefes de Polícia ou à au- toridade policial mais elevada dos estados ou do Distri- to Federal. após apuração. O Che- fe podia ainda: miolo tempos de vargas. de 12 de dezembro de 1945”3 . n. necessitando apenas co- municar a ocorrência ao Ministro da Viação e Obras Pú- blicas. 2º estabelecia que: O julgamento das infrações definidas no mencionado Decreto-lei.. confor- me o local da irradiação. para ins- taurar os processos administrativos a que se refere o art.P. (. “Aprova o Regula- mento do Serviço de Censura de Diversões Públicas do De- partamento Federal de Segurança Pública”.D. os quais ficam autorizados a baixar instru- 142 ções do competente processo. que incluiam nomear e distribuir os censores. Além de esta- belecer a estrutura administrativa do órgão. o Regula- mento citava as atribuições centralizadas no Chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas (S. de acordo com o Chefe de Polícia. ou contivessem “calúnia ou injúria contra a pessoa do Presidente da Repú- blica ou dos Ministros de Estado”.º do decreto-lei n.).) o órgão competente. O art.C. caso fossem contrárias à “moral e aos bons costumes”.

e estandartes carnavalescos. das resoluções dos censores. f) avocar. X. quando realizados por propagandistas em trajes característicos ou fora do co- mum.P. cordões..projeções cinematográficas. VIII.a publicação de anúncios na imprensa ou em programas e a exibição de cartazes e fotografias.as execuções de pantomimas e bailados. ou.as apresentações de préstitos. para efeitos de revisão.as exibi- ções de espécimes teratológicos. quando haja manifesto desacordo entre os atos do censor e os preceitos regulamentares e instruções transmitidas. cartazes e fotografias aos miolo tempos de vargas. pelas partes. qualquer matéria afeta às deliberações dos censores. VII. pode censurar previamente ou autorizar as: I. em qualquer casa de di- versão pública. sobre as questões concer- nentes aos serviços da Censura.D.as propagandas e anúncios de qual- quer natureza quando feitos em carros alegóricos ou de feição carnavalesca. ranchos. II.C..as representações de variedade de qualquer espécie. inclusive a já censurada. quan- do se referirem tais anúncios. grupos. previamente. que forem submetidos à decisão do Chefe de Polícia. dos recursos interpostos.as execuções de discos cantados e falados. 16:01 . estabelecendo que o S. O Capítulo II trata “Da Censura Prévia”. V- as execuções de peças declamatórias. IX. etc. gratuitamente ou mediante pagamento.as representações tea- trais. dentro de 48 horas. III. VI. g) decidir. ou em local freqüentado pelo público. i) solicitar ao Chefe de Polícia todas as providências que julgar necessárias ao andamento dos serviços da Cen- sura e ao fiel cumprimento dos dispositivos constantes 143 deste regulamento (.). h) dar parecer. IV.p65 143 30/03/04. ainda.

as exibições de televisão. retorna. de forma não disfarçada. extremamente rígida e im- placável com a oposição ao regime ditatorial. XI. publicação de cartazes etc. ou seja. Nota-se nas entrelinhas do decre- to-lei. censurava-se o que não fosse conveniente ao governo. portanto. que tinha sido retirada pelo Decreto- lei n. se faz referência à censura às exibições de televisão. em julho de 1944.as peças teatrais. novelas e congêneres emiti- das por meio de rádio. por isso fá- cil de ser percebida. Esta ‘outra concepção’ de censura difere da censura do Estado Novo. pois não se fazia questão de mascará- la. obras. pela primeira vez. de 12 de dezembro de 1945. e sim de deixá-la clara o bastante para ser assimilada pela sociedade.p65 144 30/03/04. em análise. Após uma viagem à Nova Iorque. Esta deixa de ser um instrumento imposto. porém ficavam garantidos os aparatos institucionais da democracia liberal. pretensamente. para ser uma solicitação de ave- riguação – aos órgãos competentes – das peças. É interessante assinalar que. Este Decreto-lei estabelece uma idéia de censura que.356. que era visível. pro- 144 gramas. A censura prévia. Chatô reuniu empresários de diversos setores e anunciou: Eu os reuni aqui para comunicar que. que im- pede a livre manifestação. vou importar aquela tecnologia e instalar uma esta- miolo tempos de vargas. uma certa redefinição do conceito de ‘cen- sura’. Isto por- que Chateaubriand já tinha planos de fundar a TV Tupi. assuntos consignados nos números anteriores deste ar- tigo. e a partir dele estabele- cer-se a auto-censura. não punha em risco a frágil e problemática democracia do período. através do medo. XII. 16:01 . execução de discos. terminada a guer- ra.º 8. quatro anos antes da sua implantação no Brasil – em 1950.

PRF-3. a Chateaubriand impor- tar equipamentos para instalar uma emissora de TV. 15 estabele- cia que estes últimos eram em número de 12. onda suporte. Queria que suas indústrias fossem se preparando. numerados de 2 a 13. Estavam nela incluídas as determinações sobre a largura de faixa. O art. de fato. um ano antes. polari- zação da irradiação. foi 145 publicada a Portaria nº 692. em 26 de julho de 1949. Os nossos inimigos que se preparem: se só com os rádios e jornais os Associados já tiram o sono deles. O rádio continuou seu desenvolvimento. um dos duzentos aparelhos contrabandeados pelo empresário para agilizar a inauguração do Canal 3. como agradecimento simbóli- co.p65 145 30/03/04. O caráter simbólico do aparelho revelava-se no simples fato de que o gabinete da presi- dência da república situava-se no Rio de Janeiro. principalmente no miolo tempos de vargas. imaginem quando tivermos na mão um instrumento mágico como a televisão! (Mo- rais. já que o processo de importação tomaria mais tempo do que o previsto. da Comissão Técnica do Rádio. porque vocês vão ser os privile- giados que dividirão comigo as glórias de trazer esse invento revolucionário para cá. E. 1994: 440). potência e canais. buscando se fortalecer com a prestação do serviço. em São Paulo. em razão de o gover- no ter autorizado. de 6 de julho de 1949. definindo os padrões de trans- missão da televisão. Em setembro de 1950. freqüência do som. ção de televisão no Brasil. 16:01 . Esta Portaria fazia parte do pacote de favores que o Governo Federal fez a Assis Chateaubriand para a implantação da TV-Tupi. o presidente Dutra recebeu. Seu conteúdo baseou-se na Indica- ção nº1. enquan- to que as transmissões da TV Tupi não ultrapassavam o limite de cem quilômetros da cidade de São Paulo.

Porém. caber exclusiva- mente a brasileiros a responsabilidade principal e a orien- tação intelectual e administrativa deste tipo de serviço de telecomunicações. estabele- cendo para a TV as mesmas regras do rádio. onde era a principal fonte de informa- ção. apesar do surgimento da televisão. A continuidade do cenário definido no Estado Novo manteve o Chefe do Estado como respon- sável pela concessão e regulação das emissoras. de imediato. que tinham. estava restrita às camadas mais altas da popu- 146 lação. criou dispositivo afirmando. a característica comercial também se tornou mais forte. Na déca- da de 50. São Paulo e Rio de Janeiro. interior do Brasil. 16:01 . que. as mu- danças foram poucas. miolo tempos de vargas. patrocínio de empresas estrangeiras. O novo veículo adotou. e depois se expan- dindo para as outras capitais do país. Do ponto de vista da regulação da radiodifusão. inclusive no rádio e na televisão. Norma que regeu a radiodifusão até o início do século XXI. além disso. além de vetar completamente a presença de estrangeiros na direção de concessionárias de radiodifusão. quando foi permitida a participação de capital estrangeiro nos meios de comunicação de massa brasileiros. estabelecendo-se primeiro nos grandes centros de negócios. intensificou-se a ponto de ser cre- ditada a ele a queda e a volta de Vargas ao poder. devido ao alto custo dos aparelhos. em sua mai- oria. A Constitui- ção de 1946. o rádio continuou se expandindo. especialmente na figura de Assis Chateaubriand. O poder dos concessionários de radiodifusão. caráter comer- cial.p65 146 30/03/04. tendo em vista que este foi o período do apo- geu dos programas de auditório.

” 147 miolo tempos de vargas. Notas 1 Este Decreto-lei “Dispõe sobre o exercício de atividades de im- prensa e propaganda no território nacional e outras providências”. previa em seu art. que. 3º o seguinte: “As novas outorgas de contrato de exploração dos serviços de radiodifusão serão precedidas de concorrência pública. b)o que melhores vantagens financeiras proporcionar ao Governo. e apuradas.582. de 13 de dezembro de 1945.356. 2 Através do mesmo Decreto-lei. além das exigências da legislação vigente. foi criado o Departa- mento Nacional de Informações. sucessivamente. c) o que não estiver no gozo da exploração de outras estações de radiodifusão.p65 147 30/03/04. as seguintes. 3 O Decreto-lei 8. 16:01 . estabelecerão a precedência dos concorrentes: a)o que melhores condições de idoneidade moral oferecer. n: 7.

p65 148 30/03/04. 16:01 . Democrata e Nacionalista (1950 – 1954) miolo tempos de vargas. Quinto Capítulo A volta de Gegê.

miolo tempos de vargas.p65 149 30/03/04. 16:01 .

p65 150 30/03/04. Ademar de Barros. que indicaria o candi- dato a vice-presidência.040 escolheram seu nome. o nome de Vargas já estava lançado para ocupar mais uma vez o poder. Os gastos com o funcionalismo público federal havi- am aumentado intensamente. que já havia sido derrotado por Dutra. so- bretudo na implantação da Companhia Hidroelétrica do São Francisco. A indi- cação foi concretizada em 1949 e. o Brasil passa- va por uma experiência inédita que parecia assustadora: o crescimento exagerado da população. Entre as providências tomadas por Vargas para minimi- zar os problemas econômicos do país. com a missão de solucionar os proble- mas deixados pelo Governo Dutra. Os investimentos realizados pelo governo anterior. O PSP. Também vigora- ra severa restrição de crédito para a agricultura e a indús- tria. da UDN. Empossado em 31 de janeiro de 1951. esgotaram as divisas acumuladas pelo Bra- sil durante a guerra e pioraram as relações de trocas co- merciais com países latino-americanos. Além disso. Em 1947. fenômeno a que se deu o nome de explosão demográfica.000 votos (Weiss. do PSP. em meados de 1950. Vargas constituiu um ministé- rio experimental. De 8. 1996: 1946). três anos antes da realização de novas elei- ções para a presidência da República. foi buscar Vargas em São Borja para a campanha eleitoral. Eduardo Gomes recebeu 2.342.384 votos e Cristiano Machado não chegou a alcançar 1. com taxa de au- mento superior à da previsão.254.989 vo- tantes.849. em 1946. pelo PSD. destacam-se a miolo tempos de vargas. 3.700. e o veterano político mineiro Cristiano Machado. 16:01 . Concorriam com eles o brigadeiro Eduardo Gomes. escolheu o potiguar* Café Filho para ser o par de Getúlio na disputa. 150 As eleições de 1950 vieram comprovar o imenso prestí- gio de que Getúlio Vargas desfrutava.

Eletrobrás e do Banco do Nordeste. a duplicação da capacidade de produção da usina de Volta Redonda. e a conversão da Fábrica Nacional de Motores para produção de tratores. o da radicalização. Com a intensificação de movimentos de massas popula- res. alte- rou-se a aliança de classes e a política de conciliação do go- verno passou a ser mais direcionada por uma orientação tra- balhista. 16:01 . e o segundo. A política de conciliação com os setores conservadores evidenciava-se na composição do “Minis- tério da Experiência”.p65 151 30/03/04. unia 151 o do PSD e do PSP. foi criada a Petrobrás. miolo tempos de vargas. com uma atuação mais ofensiva em relação aos interesses da indústria. que foi con- siderada um golpe dos grupos favoráveis à industrialização. Até o início de 1953. a partir de 1953. foi o da conciliação. extinção do Ceim (organismo do Banco do Brasil desti- nado a regulamentar as exportações e importações). instituição precursora do atual Banco Central. particularmente na luta pela criação da Petrobrás. voltada para os interesses populares. Dois fatos marcaram a mudança de posição do governo: a reforma ministerial de 1953 e a Instrução 70 da Sumoc. Apesar das dificuldades econômicas e financeiras. Vargas teve um governo relativa- mente tranqüilo no setor político. Dentro desta política. O segundo período constitucional de Vargas foi dividi- do em dois momentos: o primeiro. A Instrução 70 da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc). Ao apoio do PTB. além de uma parcela da UDN. concessão de facilidades para a instalação das siderúrgicas de Acesita e Mannesmann. em outubro de 1953. do nacionalismo e do trabalhismo. o pro- cesso de industrialização do país se acelerava rapidamen- te. a cri- ação de nova estrutura para o comércio internacional. foi a medida mais importante do Plano Aranha. de 1951 até meados de 1953. a criação da Petrobrás.

16:01 . “Dois novos fatores aparecem mais claramente nas conversações: a insistência do Brasil em aumentar em 50 milhões de dólares o valor do em- préstimo e a solicitação explícita do Secretário de Estado americano. Este plano pretendia estabilizar a eco- nomia. através das negociações para a insta- lação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. lançado em 1953. Vargas não desperdiçou a chance de negociar com os Estados Unidos a formação daquela Comissão.p65 152 30/03/04. provou ser um marco importante no protecionismo brasileiro e no suporte político para a industrialização” (D’Araújo. no sentido de que o Brasil envie miolo tempos de vargas. “Elevou os custos internos de muitos produtos importados e. E iniciou também as pri- meiras articulações para a formalização do Acordo Mili- tar Brasil-Estados Unidos. conforme funcionava na prática como nova política de substituição de importa- ções. Enfrentando. Seu gran- de mérito foi redefinir a inserção política e econômica em nível internacional. 152 Política externa O governo Vargas transcorre no clima de guerra fria que norteou as relações internacionais nesse período. proble- mas para obtenção dos recursos que possibilitariam a im- plantação de uma nova política econômica. desde o início de seu mandato. 1992: 165). que colocassem à disposição dos Estados Uni- dos matérias-primas nacionais. Em troca receberia finan- ciamentos e fornecimentos para um programa de indus- trialização e obras públicas. que sofria com a inflação e o desequilíbrio do ba- lanço de pagamentos. Dean Acheson. Getúlio estava disposto a concentrar-se em negociações bilaterais. A Instrução servia como fonte de arrecadação para o governo.

por conta do Brasil” (D’araújo. em setembro de 1951. Por proposta de Vargas. a Co. foi criado. e logo após a denúncia. 16:01 . 1992: 165). Foi nesse contexto que o Plano Aranha foi lançado. O que não impediu. assim. O episódio pareceu mais um ato de oposição contra Vargas. o Congresso Nacional autoriza- ra a criação do Fundo de Reaparelhamento Econômico. Bra- sil e Chile com o propósito de contrapor-se à influência norte-americana na região. Segun- do D’Araújo. o desenvolvi- mento da industrialização. um plano qüinqüenal. concentrando o in- vestimento em indústrias de base. Neste contexto. visando “oficializar as sugestões da Comis- são. A Instrução 70 serviu como fonte de receita. Mas os empréstimos prometidos não foram concedidos durante o Governo Vargas e apenas alguns projetos receberam fi- nanciamentos. contudo. 153 missão Mista Brasil-Estados Unidos terminou os estudos e encerrou as atividades em 21 de dezembro de 1953. Implementava-se.p65 153 30/03/04. energia e transportes”. o Banco Na- cional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). uma linha econômica de planos de investimentos à base de capital nacional e estrangeiro. pelo Ministro da Fazenda. coordenados pelo Estado. em maio de 1952. acordo entre os governos da Argentina. Para dar continuidade às negociações e execução dos projetos recomendados. os setores nacionalistas lamentaram a inexistência de tal acor- do entre esses países. a ser administrado pelo BNDE. fora anunciado. a oposição denuncia a existência de um Pacto do ABC. uma divisão militar para combater na Coréia – as despe- sas de equipamento. mesmo com a crise nas relações com os estrangeiros (D’ Araújo. armamentos e transportes ficariam por conta dos Estados Unidos. Instalada oficialmente em 19 de julho de 1951. 1992: 162). elevando os miolo tempos de vargas. e o treinamento.

for- çando o governo a tomar iniciativas para corrigir e discipli- nar o tratamento privilegiado que esses capitais recebiam do Brasil e que os tornava onerosos para o país. Vargas conseguiu imprimir um caráter industrializante ao projeto de desenvolvimen- to. Por meio de denúncias dos mecanismos que desrespei- tavam a legislação vigente. 6o do Decreto-lei 9025. considerando-se transferência de capital o que exceder a essa percentagem”. Premido pela busca da conciliação de visões ideológicas antagônicas. determinando que poderia retornar ao exterior apenas o capital original que efetivamente houves- se ingressado no país e constasse no registro da Carteira de Câmbio do Banco do Brasil (D’Araújo. Em vista deste quadro. contudo. custos internos de muitos produtos importados e funcio- nando. vários órgãos estatais foram criados.363. 16:01 . lucros e dividendos não ultrapassarão 8% do valor do capital registrado. Vargas mostrava as fraudes con- tra a lei que regulamentava a remessa de lucros e juros para o exterior. de 27 de fevereiro de 1946. como a Petrobrás. o Decreto no 30. na prática.p65 154 30/03/04. marcando o caráter nacionalis- ta do governo. O art. em algumas situações. O pró- prio Governo fez críticas aos efeitos do capital estrangeiro e desempenhou importante papel na criação de uma menta- lidade contrária à participação desse capital no país. em 3 de janeiro de 1952. O que se observava. Com a política de conciliação e procurando um equilí- brio nas soluções econômicas. Dentro dessa perspectiva. Getúlio abriu mão do auxílio do capital es- 154 trangeiro. era o total desrespeito a esta disposição legal. 1992: 166). como uma nova política de substitui- ção de importações. determinava claramente que “as remessas de ju- ros. e consentiu na ampliação de movimentos sociais hostis à colaboração externa. miolo tempos de vargas. Vargas publicou.

Nos últimos anos do governo Dutra. inclusive quanto à unificação dos preços de venda dos derivados do petróleo. na Bahia. que decla- rou de utilidade pública o abastecimento nacional de petróleo. em torno da afirmativa de que o Brasil não tinha petróleo. para um aprofundado exame 155 do problema do abastecimento nacional dos combustíveis líquidos. A preparação das Leis Orgânicas da Petrobrás começou nos anos de 1938-39. anteriormente. em todo o país (Vargas. o argumento foi substituído miolo tempos de vargas. no antigo Conselho Fe- deral de Comércio Exterior. fixou-lhe as atribuições e dispôs acerca da política a ser cumprida. Foi instituída uma comissão especi- al técnico-econômica e jurídica. que estruturou esse órgão. A pro- paganda das multinacionais do petróleo e do governo ame- ricano se fizera. O formato dado àqueles setores da economia estava ligado a uma tradicional visão nacionalista de con- trole dos recursos naturais. como o petróleo. nacionalizou a indústria do refino e criou o Conselho Nacional do Petróleo. como requisito da soberania nacional.p65 155 30/03/04. Petrobrás e Eletrobrás A visão de que o segundo Governo Vargas operava com uma lógica de desenvolvimento autônomo para o Brasil tem como base os projetos de criação da Petrobrás e da Eletrobrás. 1964. 16:01 . Após a descoberta dos poços de Lobato. surgiu no palco de discussão o problema da exploração petrolífera. 34). que declarou de pro- priedade da União as jazidas de petróleo que viessem a ser descobertas no território nacional. 395. e 595. Deste Conselho surgiram projetos que se transforma- ram nos Decretos-lei números: 366.

ideológicas e po- lítico-partidárias. inclusive porque implicava em gestões de natureza política. de forma sigi- losa. quan- do Getúlio assinou o projeto de criação da Petrobrás. relativa ao exercício de 1953. já extrema- mente carregado de visões econômicas. A vinculação se efetiva- ria a partir da Lei de Orçamento. de 28 de novembro de 1952.p65 156 30/03/04. também ao petróleo. As discussões se iniciaram em dezembro de 1951. O caráter nacionalista tinha apelo popular e passou a representar a possibilidade de aliança com outras classes. Dutra permaneceu contra os argumentos que defendiam a exploração estatal dos recursos petrolíferos. A 156 partir dali prosseguiram os estudos para o equacionamento técnico.749. mudança que provo- cou o acirramento do debate sobre a questão. que permitiu vincular o imposto único. limitava o choque com o imperialismo. econômico e político do petróleo. já manifestava interesse de intervir nessa área. em sua campanha eleitoral. Mas Getú- lio. o também banqueiro miolo tempos de vargas. 16:01 . pelo de que o Brasil não tinha recursos para explorá-los. A empresa seria ou não estatal? Monopolizaria ou não a ex- tração de petróleo? A manutenção do sigilo sobre o cami- nho e a estratégia a serem seguidos na criação da empresa petrolífera tornava-se a cada dia mais difícil. O se- gredo começou a desfazer-se com a promulgação da Lei 1. Algumas ironias foram registradas nos bastidores deste cenário. que antes se vinculava apenas a obras rodoviárias. mas de riqueza potencial. mas com o presidente Vargas a par dos trabalhos. Por outro lado. Estava associada a partir de então a expansão da in- dústria petrolífera ao poder estatal. porque não se tratava de riqueza já ex- plorada por estrangeiros. Inicialmente. um dos maiores incentivadores públicos da estatização da exploração do petróleo era um proprietário de empresa petrolífera.

em 1951. O mesmo dispositivo de troca de cargo foi utilizado para convencer o suplente Antônio Pereira Diniz a renunciar.” (1994. do PSD da Paraíba. ambos pelo PSD. Segundo Fernando Morais.. Ernâni do Amaral Peixoto. 517).. Drault Ernanny conseguiu que o senador Vergniaud Wanderley. fo- ram necessários alguns arranjos políticos. Ernanny era também amigo próximo de Assis Chateaubriand e foi coadjuvante na entrada do empresário no Congresso Nacional. por conta de suas viagens ao exterior. o governador do Rio de Janeiro. o foco de interesse do empresário: “. Foram. após empreender uma campanha pública de defesa dos planos para a criação da Petrobrás.. 16:01 . convocadas eleições suplementares e. Segundo Morais. Como as próximas eleições estavam previstas para 1954 e Chateaubriand queria ser senador imediatamente.. que se aproximou de Vargas. então. Assis Chateaubriand tomou posse como senador. em abril de 1952.O que falta ao time dos Diários Associados é uma tribuna convencional. após várias recusas anterio- res aos diversos convites que recebia para candidatar-se a cargos públicos. Chateaubriand usou o seu mandato con- tra os interesses dos dois personagens que articularam a sua eleição. o mandato de Chateaubriand (1952-1954) foi pautado por duas características: ausên- cia em plenário. renunciasse em troca de uma vaga no Tribunal de Contas da União. e discursos inflamados (1994: 517-536). Chateaubriand decidiu que queria ser senador. tendo como suplente Drault Ernanny. Instaurou uma campanha em seus veículos miolo tempos de vargas. paraibano Drault Ernanny. p. uma caixa de sabão onde eu possa subir e falar em nome da 157 nossa cadeia. Após consultar Vargas e com apoio do genro do presidente.p65 157 30/03/04. na fala de Chateaubriand. Ironicamente. Morais aponta.

O Cruzeiro destacava as imagens obtidas num evento onde Chateaubriand era recebido pelo presi- dente Perón com a manchete ‘Os últimos dias de Eva Perón’. a criação da empresa. no tempo de governo que restava. o empresário provocava escânda- los que respingavam em Vargas. Perón. que custou US$ 205 mil. visto que não seria possível empreender. Em meio a este confuso cenário. A festa. a tramitação do proje- to da Petrobrás no Congresso foi minando as forças do presidente. proferiu dezoito discursos na tribuna do Senado e votou contra o monopólio estatal do petróleo.004. como o ostensivo baile que ofereceu na França. denunciavam os desmandos 158 de Chateaubriand e sua proximidade com Getúlio. Os jornais de oposição como A Tri- buna de Imprensa. em agosto de 1952.p65 158 30/03/04. havia- se perdido boa parte do seu governo e ainda restava a ins- talação da grande empresa estatal. assim. Em maio de 1952. incluía o fretamento de 76 aviões bra- sileiros e a participação da Orquestra Tabajara e da canto- ra Elizeth Cardoso. Outro exemplo de constrangimento provocado pelo empresário ao presidente foi o ‘furo’ de reportagem sobre a doença de Eva Perón. primeira-dama da Argentina. de Carlos Lacerda. de 3 de outubro de 1953. Nas viagens ao exterior. da família Mesquita. Repetia-se. Após a sanção da Lei no 2. onde a esposa e a filha do presidente foram fotografadas. e O Estado de São Paulo. 16:01 . o que ocorrera com o Plano do Carvão Nacional. de imprensa. também conhecido por seu controle estreito e forte uso da mídia como instrumento de propaganda. para o qual o Congresso reduzira os recursos pedidos e ampliara os en- cargos da entidade oficial responsável pela execução do miolo tempos de vargas. tinha escondido o câncer de sua mulher do público argentino e este ‘furo’ dos brasileiros causou um estremecimento nas relações diplomáticas entre os dois países.

as unidades de pesquisa e produção da Bahia sairiam da órbita administrativa do CNP para se incorporarem à nova estatal. Nessa mesma época. que culminou com a miolo tempos de vargas. Os serviços que eram dirigidos até então pelo Conselho Nacional do Pe- tróleo passaram para a responsabilidade da Petrobrás. a nova empresa estatal instalou-se no dia 10 de maio de 1954. que se travaria em 1954 (Vargas. um bilhão e 197 milhões fo- ram dados aos jornais e 869 milhões às empresas radiofônicas (Sodré.47-48). A incapacidade das concessionárias de ampliar o suprimento de energia elé- trica levou à estatização do setor. no Rio São Francisco. 159 Em 1953. foi de 3 bilhões 506 milhões de cruzeiros. A partir de 1o de agosto. iniciam-se os investimentos esta- tais em energia elétrica. Desse total. no rádio e outros veículos de propaganda oposicionista. A luta nos bastidores contra o projeto da Petrobrás denunciava idêntica ou mais acirrada batalha em torno da energia elétrica. 16:01 . na Câmara. com a construção da usina de Paulo Afonso. Era necessário acabar com a parcela nacionalista da política de Vargas e isso implicava em campanhas anti-nacionalistas das agên- cias de publicidade. 1964. A pressão das multinacionais do petróleo e do governo americano aumentava internamente devido ao andamen- to do problema do petróleo no Congresso. Mas. o total da publicidade paga e distribuída por companhias americanas nos jornais. sob regime de urgência. contra todas as previsões. programa.p65 159 30/03/04. visando impossibilitar a solução esta- tal do problema do petróleo. quando as emendas nacionalistas da Petrobrás eram votadas. 463). 1977.

ti- nham lugar especial a intransigência da UDN e as conse- qüentes frustrações da política de conciliação nacional. Crise política Eram precárias as alianças partidárias no governo Vargas. já que a crescente substituição de produção artesanal por industrial conti- nuava expandindo a demanda interna (Fausto. assim como era crescente a intransigência da UDN para com as propostas governamentais. Com a criação da Petrobrás e da Eletrobrás. proposta de constituição da Eletrobrás. A reforma ministerial substituiu seis dos sete ministros civis. apesar das pressões 160 externas. simultaneamente. 224). a Eletrobrás operava. 16:01 . A falta de uma política mais articulada entre os partidos e o governo foi fundamen- tal para a emergência da instabilidade que marcou o perío- do. que se multiplicaram a partir dos anos cinqüenta. o intercâmbio com os Estados Unidos tornou-se cada vez mais desfavo- rável para o Brasil. que participava da divisão internacio- nal do trabalho como exportador de produtos primários. A partir de então. O bloqueio inici- al à criação pode ser interpretado como uma manifesta- ção das concessionárias estrangeiras que se viram ameaçadas pela proposta. que ficou denominada de Ministério da Experiência. Na composição político-partidária do primeiro gabine- te. 1986. Passada esta fase. como holding e órgão de fi- nanciamento das empresas estaduais de energia elétrica.p65 160 30/03/04. Vargas inau- gura o setor monopolista do capitalismo industrial brasi- leiro. iniciou-se o remane- miolo tempos de vargas. entra na pauta nacional o desafio de acelerar o crescimento das importações. que operava substituindo importações e viabilizando a continuidade da industrialização. Com o fim da guerra da Coréia. A partir de junho de 1953.

e da imprensa. para a do Trabalho. do PSD. do PSD. O pluripartidarismo. para a do Exterior. Osvaldo Aranha. Antônio Balbino. encaminhado ao Congresso Nacio- nal pelo líder da UDN. A recu- sa de Vargas a renunciar levou a oposição a planejar o afas- tamento. Afonso Arinos. simpatizante udenista e amigo pessoal de Vargas. Com a reforma. superficial e foi a falta de uma aliança mais articulada entre os parti- dos e o Governo que gerou a instabilidade política do pe- ríodo. Tancredo Neves. na verdade. que se constituiu em instrumento de pressão para a depo- sição de João Goulart do Ministério do Trabalho. mas também a oposição das áreas militar e política. jamento que levou José Américo de Almeida. que se mostrava inviável até aquele momento. e João Goulart. 16:01 . Era também pretensão de Getúlio a busca de um consenso junto aos setores conserva- dores. simpatizante udenista. não só as dificuldades econômicas. do PTB. para a pasta de Viação e Obras Públicas. As difi. o governo procurava contornar. motivou a publicação do Manifesto dos Coronéis. da UDN. Vicente Rao. em 1 o de maio de 1954.p65 161 30/03/04. para a da Educação. O impeachment foi derrotado. A inici- ativa de conceder o aumento fez o governo passar por um teste de impeachment. Os em- presários e a oposição ficaram temerosos das concessões que o governo poderia fazer ao movimento grevista. responsabilizando-o pelo assassinato do major Rubens Vaz (voltaremos a este fato mais à frente). mas a UDN voltou a exigir a renúncia do pre- sidente. para a Justiça. 161 culdades econômicas registradas a partir de 1953 e o tipo de orientação que prevalecia no movimento sindical levaram à eclosão de greves em São Paulo e no Rio de Janeiro. através de imposições militares. O aumento de 100% no salário mínimo. que deveria ordenar a parti- miolo tempos de vargas. para a Fazenda. O arranjo político de Vargas era.

na Rua Toneleros. foi colocado sob suspeição. Uma denúncia publicada pelo jornal Tribuna da Impren- sa. no dia 5 de Agosto de 162 1954. O suicídio do Presidente revitalizou o populismo getulista e signifi- cou. em 1951. sobre a origem da verba que finan- ciou a fundação da Última Hora. Além do sucesso editorial da Última Hora. Logo após a eleição de Vargas. o Major Rubens Florentino Vaz. em contraposição à UDN. Suicídio O atentado contra Carlos Lacerda. Wainer planejava. quando Vargas foi deposto. desde 1945. o repórter Samuel Wainer demitiu-se dos Diários Associados e fundou o jornal Última Hora. Para a opinião pública. e pretendia montar uma emissora de rádio. ainda naquele ano. 16:01 . implantar uma rede própria de comunicação. A crise política. do ponto de vista partidário.p65 162 30/03/04. miolo tempos de vargas. abrangia paralelamente al- guns órgãos de imprensa. em 1953. O imprevisível final do segundo governo Vargas modificou a visão anterior de jogo de forças. o fortalecimento da ali- ança PSD-PTB. o jornal surgira para “quebrar a conspiração de si- lêncio que a grande imprensa fazia em torno do nome de Getúlio”. de Carlos Lacerda. em que morreu o oficial da Aero- náutica. ele mantinha um semanário ilustrado. cipação dos diversos interesses da sociedade. provocou uma verdadeira guerra entre os maiores veículos de comunicação do país. Segundo o próprio Wainer. O Flan. Para isso. representou a mais séria crise política do Brasil. a crise tinha como causa o conflito entre as Forças Armadas e o presidente. no entanto. como fator divisionista e desagregador da nação. Com dinheiro emprestado do Banco do Brasil. con- tou com o apoio de Getúlio para inaugurar um jornalismo de conteúdo e padrão gráfico moderno.

A situação foi-se tornando a cada mais complexa. além da oposição dos grupos Marinho e Mesquita. Além disso. a médio prazo. 1994: 554). Para complicar mais ainda a situação. de Assis Chateaubriand. Desde então. Mas sua crença era ilusória: obrigaram-no a vender o Úl- tima Hora. Wainer tentava defender-se sugerindo a Getúlio a ins- tauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as relações do Banco do Brasil com to- dos os veículos de imprensa. em 1952. e a revis- ta Manchete. 16:01 . No Congresso. o jornal O Esta- miolo tempos de vargas. neste momento. Vale destacar que. a Revista O Cruzeiro atingia neste mesmo ano a marca de 550 mil exemplares vendidos. o jornal de Lacerda instaurou uma campanha contra Samuel Wainer que ganhou a adesão de outros veí- culos. a mando de Getúlio Vargas” (Morais. e os Diários e Emissoras Associadas. as editoras Abril e Bloch começavam a lançar seus primeiros produtos (Pato Donald. as fotonovelas surgiram com grande sucesso (Grande Hotel. havia sido criada a primeira escola de propaganda brasileira.p65 163 30/03/04. Em 1952. este menos interessado na denúncia em si e mais preocupado com a concorrência que Wainer estabele- cia. respectivamente). contaram com o apoio dos deputados udenistas. estava certo do 163 apoio da maioria governista da Câmara (Morais. 1952). 1994). 1951. provocava forte pressão sobre o governo. como o jornal O Globo e a rádio Globo. a in- dústria cultural brasileira estava se consolidando e a in- fluência da mídia tornara-se bastante significativa. A união de Lacerda e Chateaubriand. Capri- cho. Chateaubriand dava a Lacerda amplo espaço nos seus dois canais de televisão e publicava arti- gos diários afirmando que “o plano de Samuel Wainer era destruir os Diários Associados. e a maioria de governistas assumidos foi desa- parecendo aos poucos do Congresso. de Roberto Marinho. em 1951.

Silveira. TV Record e TV Excelsior. em 1952 (Ortiz. o poder de alcance da Rádio Nacional ainda era superior à concorrência. impediam o desenvol- 164 vimento da comunicação e cultura de massa. por outro não se podia dizer que a mídia fosse totalmente massiva e opo- sicionista: afinal. A imprensa. Além disso. muito bonitão plantar feijão/ e essa turma da mamata/ eu man- miolo tempos de vargas. que foi gravada em novembro de 1953. na voz de Nélson Gonçalves: Se eu fosse o Getúlio/ mandava metade dessa gente pra lavoura/.p65 164 30/03/04. Problemas estruturais. atuava num país de 15 milhões de analfabetos. A presença de Getúlio. 1988: 42-76. as telenovelas adaptavam clássicos da literatu- ra e das radionovelas e o rádio já contava com dois mi- lhões e quinhentos mil aparelhos receptores. porém. em um total de 50 milhões de habitantes. 2002). o presidente recebeu a homenagem dos sambistas Roberto Roberti e Arlindo Marques Júnior. 16:01 . de um lado. Parente. não passava de 18 mil aparelhos fun- cionando como um objeto de status da elite brasileira. três outras emissoras de TV tinham sido inauguradas e já concorriam com os Diários Associados: TV Paulista. embora atingisse vendas de mais de 500 mil exemplares de um único periódico. A televisão. em 1954. do de São Paulo passou por uma profunda reforma. na marcha Se eu fosse o Getúlio. Mandava muita loura plantar cenoura/. patro- cinada pelo conde Matarazzo e a média de títulos cine- matográficos brasileiros realizados por ano era de 27 fil- mes entre 1951 e 19551 . em 1954. A empresa cinematográfica Vera Cruz faliu. o mercado adquiria uma influência cada vez maior nos rumos da vida política brasileira. contudo. ainda concentrava pres- tígio. Em meio às denúncias de corrupção do governo. Se.

.) O motorista de praça Nélson Raimundo de Sousa apre- senta-se no 4o Distrito Policial. 165 náutica Rubens Vaz. em Copacabana. Muito funcionário. Lacerda retornava de um comício quando seu carro foi atingido por disparos de arma de fogo. dava plantar batata. contudo. para ruir afinal dra- maticamente vinte dias depois. Nada quis adiantar so- miolo tempos de vargas.. para as vi- zinhanças da residência de Lacerda e que pouco depois fugira o pistoleiro no seu carro. o destino de Vargas e do seu governo oscilava. 16:01 . e verificando que fora atingido por disparos. Ten- do sabido que o número do automóvel havia sido ano- tado. no Catete. que o acompanhava. Declara ele às autori- dades policiais que o assassino fugira em seu carro. Durante vários dias após o crime. Diretor do jornal Tribuna da Im- prensa e candidato a deputado federal. Eu digo e não tenho medo de errar/.p65 165 30/03/04. Atingido no pé. agravou a crise política. mandava metade dessa gente pra lavoura/. O Brasil tem muito doutor/. repetiram-se na Capi- tal Federal reuniões de altas autoridades do Governo e de associações militares e estendeu-se pelos arredores do Rio e por grande parte do país a maior investigação policial- militar aqui já realizada. de onde é ime- diatamente transferido para o 2o. se eu fosse o Getúlio/. Durante esse tempo. Lacerda acusa o governo de encomendar o atentado que matou o major da aero. em cuja jurisdição ocorrera o crime. (. muita pro- fessora/. quem trabalha é que tem razão/. O episódio envolvendo Carlos Lacerda e que ficou co- nhecido como “O Crime da Rua Toneleros”. que dizia desconhecer. deci- dira apresentar-se e confessa que antes do crime trans- portara dois homens. com seu suícidio.

mas ele re- cusa. 16:01 .p65 166 30/03/04. ainda mais. em sucessivas edições extras do Re- pórter Esso. quer dizer. suicida-se com um tiro no peito. cumprindo assim a pro- messa que fizera horas antes aos seus ministros de não sair vivo do Palácio do Catete. que estava nas bancas no dia seguinte. Como as diligências realizadas trouxeram à tona fa- tos e documentos reveladores de outros crimes. Ao evidenciar o envolvimento de Vargas. com uma foto de página inteira miolo tempos de vargas. O próprio governo propôs rigor na apura- 166 ção e o inquérito aberto pela polícia aponta o envolvimento do chefe da guarda pessoal de Getúlio. Serenamente dou o primeiro passo no cami- nho da eternidade e saio da vida para entrar na história. em frente ao Palácio do Catete. pessoal que servia no Palácio do Catete. Nada receio. membros do governo propõem sua renúncia. 1955: 8). (Machado. Em meio às denúncias da Tribuna da Imprensa. como mandante. e. bre a identidade dos seus passageiros. A comoção nacional provocada pelo suicídio de Vargas vendeu 720 mil exemplares de O Cruzeiro. Gregório Fortunato. servia habitualmente aos homens da Guar- da do Presidente’. a leitura emocionada da carta-testamento. em 24 de agosto de 1954. as For- ças Armadas exigiram a apuração do crime e a punição dos culpados. Mas verificando- se que Raimundo era também investigador da Polícia do Estado do Rio. por associação de idéias. com seu apoteótico final: Eu vos dei a minha vida. ‘começou-se a ligar ao atentado. Agora ofereço a minha morte. o presi- dente não encontra alternativa e. O suicídio de Vargas foi noticiado largamente e a Rádio Nacional transmitia.

da Light & Power e da Companhia miolo tempos de vargas. depois de apedrejar o consulado americano. como re- gistra Fernando Morais: Chegara a hora de dar o troco à virulência com que o presidente morto havia sido tratado pelos jornais da ca- deia e ao “contubérnio entre Lacerda e Chateaubriand”. do rosto de Getúlio morto.) e trans- formaram em pó o que viram pela frente. eram apedrejados. no Rio. 16:01 . Em Porto Alegre. o im- pacto da divulgação da Carta-Testamento gerou atenta- dos às sedes de O Globo.) Ao todo.. teletipos e todos os móveis que encon- traram. o pre- juízo seria calculado em 50 milhões de cruzeiros (um milhão de dólares de então. Além dos incidentes com os Diários Associados. 558)... os populares desceram de novo à rua e incendi- aram completamente os dois prédios (. a agência do Citibank. virados de rodas para cima e incendiados pelas turbas. como gritavam pelas ruas oradores trepados em capo- tas de automóveis. Faixas e palavras de ordem de passe- atas de sindicalistas e estudantes pediam “morte a Lacerda e Chateaubriand” pelas ruas das capitais. Diante de uma polícia impassível. da Rádio Globo. a sede local da Coca Cola e até a Boite Americana. as hordas populares invadiram os prédios onde funcionavam os veículos Associados (. Car- ros de reportagem e distribuição de O jornal e do Diário 167 da Noite.p65 167 30/03/04.. A tristeza pelo ato desespera- do do presidente gerou uma onda de protestos. depois de atirar pelas janelas máqui- nas de escrever. caminhões de distribuição de O Globo incendia- dos. Tribuna da Imprensa. cinco milhões de dólares de 1994) (1994. ataques à embaixada dos Estados Unidos e aos pré- dios da Standard Oil.

1982:77). às escuras. de Edgard Ferreira. No catálogo da Rádio Nacional. 16:01 . Um deles relata: Certa vez um avião da FAB encontrou o aeroporto de Campo Grande. estabelecendo grande vínculo entre as emissoras e a comunidade. na qual a voz de Jackson do Pandeiro lamentava: “Ele disse muito bem. o radiojornalismo tinha sido o gran- de destaque da programação das emissoras. O rádio também fa- zia um jornalismo de utilidade pública. No período posterior à guerra. a canção Ele disse. Rio de Janeiro. em Mato Grosso. e não pôde descer. O feedback se fez de pronto. que por sua vez contactou a (Rádio) Nacional. O documento inspirou também a última homenagem da MPB a Getúlio Vargas. Campo Grande. cumprindo um papel importantíssimo no meio rural. 2002). Imediatamente foi lido ao microfo- ne um apelo: Atenção. levando informação a milhares de pessoas e integrando-os à realidade nacional. o Rádio e a Televisão Durante a guerra. No Ar. entre outros pertencentes a grupos antivar- guistas (Lamarão. uma série de episódios rela- tados ilustra essa ligação. quando centenas de carros que estavam nas ruas ou estacionados nas garagens se dirigiram ao aeroporto e com seus faróis acessos cola- boraram para a aterrissagem incólume da fortaleza vo- adora (Federico. lugar que con- 168 tinuou a ocupar. Mato Grosso.p65 168 30/03/04. Telefônica. o povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém”. o jornalismo cede lugar ao entretenimento e o rádio brasileiro começou a definir miolo tempos de vargas. o seu comandante se comunicou com a estação de Santa Cruz.

Anunciantes de peso. às telenovelas. Somente a Rádio Nacional produziu. escritora e a primeira mulher a dirigir filmes no Brasil. passando depois aos filmes e aos livros. em 1941.p65 169 30/03/04. Moreira apud Ortiz. Um dos maiores exemplos da massificação e profissio- nalização da mídia brasileira é a figura do casal Vicente Celestino e Gilda de Abreu. como a Colgate-Palmolive. A canção O Ébrio foi gravada em 1937 e. Em 1947. o filme com o mesmo nome tornou-se uma das produções cinematográficas de maior sucesso em toda a história do miolo tempos de vargas. trouxeram a profissionalização do setor. entre 1943 e 1945. que rapidamente transformaram este gênero em favorito da audiência popular. 116 novelas. radionovelas e. restando ao jornalismo o quarto lugar. Ele ídolo de rádio e disco. em 1949.985 capítulos (Saroldi. ela atriz. As canções de Celestino alimen- tavam primeiro a indústria musical. A influência norte- americana. estilos a serem copiados pelos milhares de fãs. A criação da Atlântida. por fim. em 1946. Estes anunciantes tinham contratos com atores. escri- tores e tradutores. dirigidos e escritos por Gilda de Abreu. também atuavam na produção e tive- ram um papel importante na massificação das radionove- las. O cinema também começou a ter um caráter massivo no período que antecede os anos 50. a ra- dionovela já atingia os mais altos índices de preferência dos ouvintes. e da Vera Cruz. 169 1988: 40). os gêneros que ficariam presentes em toda a história da radiodifusão brasileira. 16:01 . às fotonovelas. ajudaram a criar o mercado para que o cinema se transformasse num bem de consumo nacio- nal. seguida pelos musicais e pelo humorismo. desde os anos 20. Os astros deixaram de ser apenas vozes para se tornarem imagens. divi- didas em 2. com a política de boa vizinhança e as produ- ções de Hollywood.

que decidiu ir ao ar mesmo só com uma câmera. a telenovela O Ébrio foi a mais assistida pelos telespectadores da recém-criada Rede Glo- bo. Além das emissoras de rádio e dos jornais associados. miolo tempos de vargas. 2002: on-line). Eram apenas duas câmeras e horas antes do começo da transmissão uma pifou. o império de Assis Chateaubriand estava no auge de sua expansão. Os técnicos americanos aconselharam que a ‘festa’ fosse adiada. que visando popularizar o veículo. jornal e do teatro. Chateaubriand investiu 170 também na criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP). as transmissões aconteciam das 18 às 23h e foi colocado no ar o primeiro telejornal: Imagens do Dia (Ferreira. em 1951. radionovela gravada em 1936. No início dos anos 50. para que as pessoas pudessem assistir aos programas transmitidos. teve um destino parecido. em nome de um amor. a TV Tupi de São Paulo. com ajuda dos profissionais do rá- dio. inaugurada com pompa no dia 18 de setembro de 1950. canal 3. outro pio- neiro da TV brasileira. com 500 cópias distribuídas nacional- mente e um público estimado em mais de quatro milhões de espectadores. a PRF-3TV. quarta de todo o mundo. cinema nacional. com o drama do campo- nês que mata a própria mãe. A transmissão foi assistida através de 200 aparelhos. Logo na estréia a TV Brasileira teve de mostrar seu po- der de improviso. e na inau- guração da primeira estação de televisão da América Lati- na. Coração Materno.p65 170 30/03/04. Em 1965. que lhe rendia lucros entre a captação de doa- ções e a compra das peças de arte para o museu. mas lá estava o diretor Cassiano Gabus Mendes. 16:01 . Chateaubriand mandou instalar em praças públicas. levando milhões de brasi- leiros às lágrimas nos cinemas. Logo.

de vez em quando. Mas a imprensa ainda pautava o de- bate eleitoral e a formação da opinião pública. Este aparelho era mera peça de decoração. um foi doado ao Presidente Eurico Gaspar Dutra como agradecimento pelos favores presta- dos pelo governo ao empresário. também convidado. Os aparelhos foram trazidos de contrabando porque a espera pela legalização levaria meses na burocracia alfan- degária. 171 rias de Samuel Wainer: Num determinado dia. neste período. Era impressionante o desemba- raço com que Chateaubriand tratava o Presidente. As revistas semanais eram o veículo impresso nacional. Em meio a meu relato sobre as conversas com Getúlio. o Jornal das Moças e O Malho. a Revista do Rádio. dos Associados. já que a televisão somente chegaria ao Rio de Janeiro. Outras revistas expressivas eram A Cigarra. ele dava gargalhadas e. existiam 300 emissoras de rádio no país. foram legalmente importados por Chateaubriand mais dois mil aparelhos. sendo que O Cruzeiro. já tinha batido a marca de 300 mil exemplares vendidos nacionalmente. Chateaubriand levou-me à casa do major McCrimmon para que eu contasse ao presi- dente Eurico Gaspar Dutra. onde o Presidente residia. Em 1950. tam- bém tiveram início as operações de outro grupo que viria. 1998). A Carioca. posteriormente. como estava Getúlio Vargas. tapinhas no tra- seiro de Dutra (Wainer. no ano seguin- te. Posteriormente. o Fon-Fon.p65 171 30/03/04. O nível desta convi- vência pode ser observado no seguinte trecho das memó. ter o domínio do ramo editorial brasilei- miolo tempos de vargas. 16:01 . A intimidade de Chateaubriand com o poder não con- figura. uma novidade. Entre os apare- lhos contrabandeados. Em 1950. 200 a mais que em 1940.

A nota triste foi a derrota da seleção brasileira por 2x1 contra o Uruguai. A partir de 1950. combatendo principalmente a violência policial do Estado Novo. de Wilson Batista e Nássara. em 1952.p65 172 30/03/04. Lacerda defendeu uma moção que se transformou na Declaração de Princípios da Imprensa do Continente Ame- ricano. Com a estréia do Pato Donald. Segundo Gomes (1980). e Nega Maluca. Em julho de 1950. um conglomerado que já detinha jornais. Representando o jor- nal. Aviso aos Navegantes. em por- tuguês. e foi o primeiro a colocar no ar uma emissora de televisão. General da Banda. com a função de secretariar a organização no Bra- sil. No Carnaval daquele ano. favorecendo o desaparecimento de inúmeros jornais e revistas e o surgimento de outros. A Tribuna da Imprensa foi responsável pela retirada do papel-jornal da lista de mercadorias que os EUA exigiam licença prévia para a comercialização. o grupo Abril iniciava sua trajetória. ro. de Walt Disney. as marchas prefe- ridas foram Balzaquiana. do grupo Bloch. como a Manchete. realizada em Nova Iorque (FGV. a Tribuna da Im- 172 prensa foi lançada no final de 1949 para representar as pro- postas da UDN contra a articulação em torno de Vargas. que se realizava no Brasil. o grande sucesso do período era o filme musical de Watson Macedo. Esta con- centração se tornou ainda maior com o crescimento do rádio e a implantação da televisão. 2002). assinada na VI Conferência Interamericana de Im- prensa. Lacerda foi nomeado membro do conselho diretor da Associação Interamericana de Im- prensa. revistas e rádios. 16:01 . miolo tempos de vargas. Principal jornal de oposição a Vargas. na Copa do Mundo de futebol. de Fernando Lobo e Evaldo Rui. Um bom exemplo é o crescimento dos Diários Associados. de Sátiro de Melo e José Alcides. aumentou a concentração de capital nos órgãos de imprensa.

de 27 de maio de 1931.p65 173 30/03/04. com os famosos decretos de 1931 e 1932. ou em parte. o decreto é iniciado com uma série de considerações. ele não podia impor normas sem apresentar justifi- cativas e explicações. portanto. que tinha iniciado a regulação da radiodifusão. eram de interesse direto de outros ministérios. Nos seus primeiros passos. inter- feriu novamente no setor.111 – antevia também. além de alterar e complementar dispositi- vos do regulamento aprovado no Decreto no 21. 21. por- quanto estivessem a cargo do Ministério da Viação e Obras Públicas. 20. com base na publicidade. Aeronáutica e Guerra. de 10 173 de março de 1932. em rela- ção aos recursos humanos. reconhece que houve progresso técnico e.efetivada no Dec. 16:01 . a televisão se caracterizou por uma transposição do rádio para o novo meio. Em seguida. fis- calização e outros serviços relativos à radiodifusão. Lembra também que o Dec. tendo em vista que as concessões.111. que previa a regulamentação do setor de radiodifusão . Vargas.047. Como o país estava vivendo um perío- do democrático. permissões. defende maior centralização do setor nas mãos da Presidência da República. 21. distribuição de freqüências. aos programas e à exploração comercial. Primeiro. o Decreto no 29. Editou. diferente dos primeiros anos da década de 30.783. de acordo com os aperfeiçoamentos técnicos das radiocomunicações. através de nova legislação. no Brasil. tais como Marinha. em 19 de julho de 1951. parágra- fo único. Seria conveni- miolo tempos de vargas.111. estabelecendo novas normas para os serviços de radiodifusão. provocando importantes alte- rações na relação dos concessionários com o Estado e com a sociedade. tornara-se necessário que se complementasse o Dec. em seu artigo 38. Por isso. que este regulamento poderia ser modificado no todo.

portanto. desde que este não prejudicasse aquela finalidade (art.p65 174 30/03/04.. lembrando a forma de fazer política de Getúlio dos tempos ditatoriais. o termo radiodifusão era en- tendido tal como o é na legislação atual. descriminadas no Decreto no 21. já àquela época. necessitando assim de elementos que a transformas- sem num órgão dinâmico.111. é uma característica marcante de todo o Decreto 29. O primeiro artigo do Decreto define a radiodifusão como: . No art. de fac-símile. em especi- al na Presidência da República. desvinculando seu controle. 2º).. serviços de radiocomunicação que se destinam a ser recebidos diretamente pelo público em geral. o uso comercial. gratuita e livremente. ente. Afirma ainda que a organização. não excluia. A concentração de poder no Poder Executivo. uma regulamentação que permitisse a in- tervenção mais direta do Presidente da República. que qualquer um pode acessar. ou por outros gêneros de emissões. miolo tempos de vargas. órgão orientador da política geral do Go- verno e da política de radiocomunicação em particular. Assim. desde que tenha um apare- lho receptor. contudo. re- alizado até então pelo Ministério da Viação e Obras Pú- 174 blicas. de televisão. abrangen- do o rádio e a televisão abertas. 3º.783. o coordenador e orientador das atividades ministeriais. isto é. tinham sido colocadas de forma a ter essa comissão um caráter mais consultivo que executi- vo. que era. na verdade. Definido como de finalidade educativa e de interesse nacional. 16:01 . competência e atri- buições da Comissão Técnica do Rádio. por meio de emissões sonoras. e pondo-o em estreito contato com a Presidência da República.

diretamente ou mediante concessão ou permissão a particulares: Os serviços de radiodifusão e de radiocomunicação em geral poderão ser explorados diretamente pela União. As concessões para os serviços de radiodifusão só podi- am ser outorgadas por Decreto do Presidente da Repúbli- ca. 4º e 5º) A diferenciação entre o que podia ser “concedido” ou “permitido” estava no valor de potência das estações radi- odifusoras.. às empresas incorporadas ao patrimônio da União. podia permitir o uso do espectro eletromagnético a título precário. Territórios e Municípios. O prazo para a concessão nunca deveria exceder 10 anos. as Leis em vigor e as convenções internacionais retificadas pelo Governo Brasileiro. mas o Ministro da Viação e Obras Públicas. art. observadas as restrições constantes do artigo 160 da Constituição Federal. na exploração desses serviços. contudo. da miolo tempos de vargas. 4o. com a pré- via autorização do Presidente. A qualquer tempo. 175 da. que trata do uso dos serviços de radiodifusão. aos órgãos autárquicos e para- estatais. e de permissão as que tivessem potência menor (§1o. ou mediante concessão ou permissão desta ou aos Go- vernos dos Estados. 16:01 . o Governo Federal podia desapropriar os serviços dos concessionários ou permis- sionários. do art. e §1o.p65 175 30/03/04. precisavam de concessão as estações radiodifusoras que superassem 250 watts. a juízo do Poder Executivo (arts. atribui exclu- sividade à União. Assim. sendo renováveis. ou por quotas de responsabilidade limita. ou suspender esses serviços por motivo de or- dem e segurança pública (§1 e 2. à Prefei- tura do Distrito Federal. As permissões seriam revistas de 3 em 3 anos. e também às sociedades nacionais por ações nominativas. 3º).

a caducidade. que trata das demais competências do Presiden- te da República em relação ao setor de radiodifusão: a) declarar..p65 176 30/03/04. por Decreto. miolo tempos de vargas. do Ministro da Viação e Obras Públicas. em todos os casos previstos em Lei. ao Presidente da República. feita pela Comissão Técnica de Rádio. o interes- se público ou as conveniências do Governo Federal. Regulamento ou Portaria. alteração ou revisão de freqüên- cia. 5o. A única coisa que independia de pré- via autorização da Presidência eram as permissões para montagens de estações radioamadoras (§2o. origi- nalmente ligada ao Ministério da Viação e Obras Públi- cas. a renovação e a perempção das concessões. não só nos serviços de radiodifusão. (Aqui ficam apro- ximadas as ações da Comissão Técnica do Rádio. 6o. mas em todos os serviços de radiocomunicação em território nacional. Decreto. Em qualquer caso. e) determinar a revisão geral das concessões. mediante des- pacho. em exposição de motivos. 16:01 .). nos casos em que for aquela de com- petência deste. ). permis- sões e freqüências das sociedades privadas ou entidades públicas exploradoras dos serviços de radiodifusão e radiocomunicação. e dar instru- ções nesse sentido à mesma Comissão. A busca de concentração de poder fica bem mais explicita no art. 176 b) homologar a cassação das permissões. art. sempre que o exigirem os compro- missos internacionais assumidos pelo Brasil. c) dar autorização prévia para toda e qualquer transfe- rência de ação ou de cota às sociedades concessionárias ou permissionárias de serviços de radiodifusão ou de radiocomunicação: d) aprovar a distribuição. a palavra final era do Presi- dente da República. observação dos autores). 5o. do art.

recebendo des- ta instruções sobre todos os assuntos que forem de sua competência. art. Nessa dire- ção vai também o artigo 11º. excetuando-se os que invadam a área militar (art. 15). dentre pessoas de comprovada idoneidade e competência em assuntos de radiotécnica e legislação de radiocomunicações”. 8o do decreto estabelece a obrigatoriedade de todas as socieda- des que detêm concessões ou permissões apresentarem à Comissão Técnica de Rádio. 15) Assim. 177 A Comissão passa. investe em suas funções o Presidente e de- mais membros da comissão. O artigo e alíneas acima demonstram a preocupação do Governo Vargas em manter em suas mãos o controle da radiodifusão. e 2o. É ainda o Presidente da República quem. mais o presidente da comissão. pois. que vincula a Comissão Téc- nica do Rádio à Presidência da República. O descumprimento da norma implicaria em perda da concessão ou cassação da permissão. No inciso 2o do artigo 9o ficava assegurado miolo tempos de vargas. a ser o Braço de Vargas em todos os setores de radiodifusão. incumbida de elaborar o anteprojeto do Código Brasileiro de Radiodifusão e Radiocomunicação (art. 13 e parágrafo único). (§1º. a lista completa dos seus acionistas e cotistas.p65 177 30/03/04. estabeleceu que seus cinco membros. no prazo de 60 dias. além do diretor da Secretaria da Comissão Técnica de Rádio (§1o. O art. podendo baixar Portarias sobre todos os assuntos relativos a esses serviços. por Decreto. seriam “designados pelo Presiden- te da República. em sua condição estratégica de for- mação de opinião e circulação de informação. obviamente por perceber o quão impor- tante era esse serviço.). O decreto criou a Comissão de Estudos do Plano Geral de Radiocomunicações. 16:01 . E dentro da mesma linha de centralização absoluta do domínio do setor. estava criado o embrião do que em 1962 viria a ser o Código Brasileiro de Telecomunicações.

que culmi- nou com seu suicídio. o Presidente procurava formar alianças com diversos setores da sociedade. devido à falta de uma aliança mais articulada. em sua maioria. o Go- verno passou a exercer uma política mais radical. com uma orientação acentuadamente trabalhista. patrocínio de gran- miolo tempos de vargas. às concessionárias e permissionárias o direito de requerer o restabelecimento de suas concessões ou permissões quando fossem consideradas caducas ou cassadas. onde se consolidara como a principal fonte de informação e entretenimento. Com a alteração das alianças. Seu aspecto comer- cial consolidou-se. desde que houvesse motivo justo. 16:01 . foi colocado sob suspeição. que tinham. Deveu-se a isto a criação da Petrobrás. juntando-se a isso o protelamento das decisões e o não reconhecimento da gravidade da crise. entre os partidos e o Governo. O rádio continuou seu desenvolvimento. O arranjo político do ex-ditador revelou-se superficial e. gerou-se instabilidade política. como fator divisionista e desagregador da na- ção. a requerimento das empresas concessionárias ou permissionárias e por conveniência das mesmas. Como articulador. ora radical.p65 178 30/03/04. ora conciliató- 178 ria. o parágrafo único do art. visan- do realizar uma política nacionalista. a juízo do Governo. notadamente no interior do Brasil. buscando se fortalecer com a ampliação de serviços. Como vimos. Com relação às freqüências de operação no espectro eletromagnético. O isolamento de Getúlio foi inevitável diante desse contexto. 10o determina- va que a revisão ou substituição de freqüências poderia ser feita. que deveria ordenar a participação dos diversos interesses da sociedade. sobretudo por meio dos programas de auditório. o segundo governo Vargas ca- racterizou-se por uma política ambígua. O pluripartidarismo. portanto.

miolo tempos de vargas. uma vez que. MEC. 1 “Entre 1935 e 1949. p. O surgimento da televisão não o ameaçou. ela estava restrita às camadas mais altas da população. 1956 apud Ortiz. tinham sido produzidos em São Paulo somente 179 seis filmes”. 16:01 . Somente no final da década é que a TV começou significativa expansão para as outras capi- tais e grandes cidades do país. 42). 1988. des empresas nacionais e estrangeiras. Dados de Alguns Aspectos da Vida Cultural Brasileira.p65 179 30/03/04. Rio de Janeiro. Notas * Nome dado a brasileiros nascidos no Rio Grande do Norte. devido ao alto custo dos aparelhos receptores. e presente basicamente em São Paulo e Rio de Janeiro.

16:01 .p65 180 30/03/04. Conclusões miolo tempos de vargas.

16:01 .p65 181 30/03/04.miolo tempos de vargas.

até seu fim. nas suas raízes his- tóricas. 16:01 . A regulação da radiodifusão tem. suas instituições e seus cidadãos têm. Cristalizada no Estado Novo (1937- 1945). assumiu o papel de organizador da sociedade e interveio amplamente na eco- nomia. culturais e econômi- cas da sociedade. Responsável direto por tudo que ocorria no país. Poderia ter sido dife- rente? Talvez. teria de ser onipresente. ainda que já então aplicados num regime democrático. respectivamente. Algumas importantes conclusões podem ser tiradas da análise aqui feita sobre a radiodifusão no Brasil. a um só tempo. políticas. alto grau de nacionalismo. e o considerava como a única entidade capaz de realizar o destino histórico da nação. política e cultura brasileiras. entre 1945 e 1950. nos perí- odos em que Getúlio Vargas exerceu o poder: 1. em 1954. Mas mesmo quando Vargas esteve fora do poder. Fruto ou não das ideologias dominantes no seu tempo. Conseqüentemente. tal visão compreendia o Estado como um meio e um fim.111. Neles ficou estabelecido que miolo tempos de vargas.p65 182 30/03/04. em 1930. pela visão de que a evolução do país. como causa maior.047 e 21. materializado na pessoa de Getúlio Vargas. Os revolucionários que tomaram o poder nacional em 1930 mostraram sua visão nacionalista da radiodifu- são através dos decretos 20. publicados em 1931 e 1932. o pensamento político getulista caracteriza-se. do come- ço. como Presidente da República. ampla e profunda intervenção do Es- tado nas estruturas sociais. o que restringiu a par- ticipação de indivíduos e capital estrangeiros na sua his- tória. poderoso e 182 permanentemente fortalecido. o governo nacional brasileiro agiu nos parâmetros de exercício do poder estabelecidos pela ditadura. o Po- der Executivo.

• No mesmo processo decisório. também tem preferên- cia o concorrente que prometa a mais alta percentagem de tempo dedicado a assuntos. sócios. todos os governos que se sucede- ram desde então jamais definiram substantivamente aque- miolo tempos de vargas.p65 183 30/03/04.aceitar a presença de entidades estrangeiras nas ati- vidades administrativas da emissora. a preferência é do concorrente que apresente a mais alta taxa de uso de equipamento fabricado no país 183 em sua emissora. e. atualmente em vigor. Eles fa- lharam. 2. autores e artistas brasileiros.ter empregados. sujei- tou tanto o rádio quanto a televisão a serem tratados como serviços públicos. diretores e gerentes estrangeiros. e portanto tinham sua utilização reservada exclusivamente a brasileiros. Es- sas raízes nacionalistas projetaram-se para o futuro e es- tão presentes em vários dispositivos do Código Nacional de Telecomunicações e do Regulamento dos Serviços de Radiodifusão. • Os concessionários são proibidos de: A – firmar contratos com companhias estrangeiras. contudo. o rádio – já existente – e a televisão – quando viesse a existir – eram de interesse nacional. Entre estes dispositi- vos. Repetindo a falha. C . na conceituação dessas finalidades e na fixação do modo como deveriam ser alcançadas e avalia- das. podem ser destacados os seguintes: • Na decisão presidencial sobre quem deve receber a concessão. portanto. 16:01 . B . A Revolução de 30 estabeleceu também o caráter da radiodifusão como de interesse público. os revolucionários de 30 atri- buíram à radiodifusão finalidades educacionais. protegidos e regulados pelo Estado. Co- erentemente com este caráter.

o decreto 21. las finalidades. Tal centrali- zação foi definitivamente selada pelos decretos 20. das competências de concessão e re- novação da concessão. derrubando assim dispositivo da Constituição de 1891 que tinha entre- gue tais competências aos Estados federados. em 1963. sem conseqüências objetivas em termos de implementação. Em 1917. Também presente nas raízes históricas da regulamen- tação da radiodifusão no Brasil está a centralização. Semelhante idéia de centralização foi certamente mui- to influente na elaboração do Código Nacional de Teleco- municações. uma emenda à Constitui- ção de 1891 centralizou o processo de concessão de servi- ços de telecomunicações no governo federal. Além disso.047 e 21. O resultado é que a qualificação legal da radiodifusão como um serviço de interesse público e com finalidades educacionais tornou-se meramente retórica. (3) cabe ao Ministério das Comunicações certificar a competência de quem vá exercer funções técnicas e operativas em emisso- miolo tempos de vargas.111. que afirmaram categoricamente serem os serviços de radiocomunicações – aí incluída a radiotelevisão – da ex- clusiva competência da União.111 dispôs que cabia ao governo federal estabelecer as exigênci- as a que deveriam se subordinar as concessionárias. Na prática. 3. Nele estão contidos alguns dispo- sitivos que expressam claramente esta tendência: (1) o Presidente da República foi mantido com o poder exclu- sivo de conceder serviços de radiodifusão. no po- 184 der executivo federal. (2) é obrigató- ria a consulta ao Ministro das Comunicações quando a concessionária pretender trocar um diretor. o modo comercial de exploração da radiodifusão tem sido esmagadoramente predominante e o número e qualidade de programas de entretenimento têm superado de longe aqueles com características educacionais. 16:01 .p65 184 30/03/04.

toda a regulamentação dos serviços de ra- diodifusão no Brasil foi notoriamente construída em tor- no do modelo comercial adotado para a atividade. Embora considerando a radiodifusão como um ser- viço público. Esta abertura estabe. quan- do o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão estabele- ce a generosa percentagem de 25 por cento do tempo de programação como o tempo ‘máximo’ permitido para a veiculação de anúncios.111 abriram a possibi- lidade de tal serviço ser concedido a empresas privadas. Tal fundamento tem sido a base legal para que as freqüências do espectro eletromagnético. 4. A ausência de regras mínimas para a programação também permite aos concessionários per- seguir fórmulas que usam os gostos e interesses comuns miolo tempos de vargas. Por exemplo. ras de radiodifusão. dando- se. e com propósi- tos educacionais. conside- rados bens públicos. (5) qualquer mudança nas características físi- cas das estações de rádio e televisão têm de receber autori- zação do mesmo ministério. através do “trusteeship model”. sempre que possível.047 e 21. o interesse privado como o executor e beneficiário da atividade. (4) também ao Ministério das Co- municações foi atribuído o poder de permitir ou não a eventual prestação de serviços de técnicos estrangeiros nas emissoras. 16:01 . formadas por brasileiros ‘decentes’.p65 185 30/03/04. facilidades aos concessionários para gerarem mais ganhos financeiros. de interesse nacional. 185 leceu um dos mais importantes fundamentos da indús- tria da radiodifusão no Brasil. Na verdade. de interesse nacional. sejam cedidos a empresas privadas para obterem lucros através de sua exploração comercial. ainda hoje em vigor: o Es- tado como o poder concedente e. é evidente que o objetivo é a maximização do lucro. e com propósitos edu- cacionais. os Decretos 20.

serviço público. ao maior número possível de ouvintes. em forma de audiência. o Estado como poder concedente. 5. inclusive regulando antecipadamente os servi- ços de TV. para atraí-los. mas o controle político dos serviços 186 de radiodifusão continuou possível através da própria es- trutura do poder executivo. propósitos educacionais. Três caracte- rísticas fizeram-nos consistentes o suficiente para influen- ciar decisivamente os atos regulatórios futuros: (1) foram inovativos e surpreendentemente atualizados tecnolo- gicamente. a empresa privada como operadora prin- cipal do serviço.111 foram os precursores de todas as subseqüentes regulamen- tações dos serviços de radiodifusão no Brasil. Por fim. (3) inauguraram no Brasil o ‘trusteeship model’ para a exploração dos serviços de radiodifusão. sobre o uso das contas publicitárias controladas pelo governo.p65 186 30/03/04. Pe- los cânones deste modelo. Assim. interesse nacional.047 e 21. o Presidente da República ainda hoje pode exercer aquele controle. O DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda foi extinto em 1945. miolo tempos de vargas. manipulá-los e “vendê-los”. a proibição de emissoras não-privadas competirem por verbas publicitárias e de patrocínio deve ser entendi- da como uma clara tentativa de estabelecer uma reserva de mercado para as emissoras privadas. temas complexos ou que desa- tendam aqueles gostos e interesses devem ser evitados. decidindo. Por fim. cuja soma é bastante superior a qualquer outra no país. por exemplo. pode-se afirmar que os Decretos 20. sobretudo nas áreas de inter- venção do Estado na economia – bancos e empresas esta- tais. 16:01 . quando estes eram ainda um experimento nos Estados Unidos e na Europa. (2) começaram a tratar a ra- diodifusão por meio de conceitos que terminaram por se fixar definitivamente no setor: bem público.

embasados na experiência americana. adaptaram-se aos anseios pouco democráticos dos políticos e concessionários brasileiros. nefasta . praticamente intocados na sua es- sência. 16:01 . E se constituem numa das mais importantes – embora. da política e da cultura.p65 187 30/03/04. Resistindo aos movimentos e evoluções da economia. A Getúlio Vargas coube o papel histórico de elaborar e aplicar regulamentos de radiodifusão que.heranças de Vargas aos “traba- lhadores do Brasil”. tais regulamentos têm sobrevivido por mais de 70 anos. talvez. 187 miolo tempos de vargas.

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5 cm Fonte: ElegaGaramond BT Tiragem: 500 exemplares Impresso no setor de reprografia da EDUFBA em Abril de 2004 miolo tempos de vargas. 16:01 .p65 195 30/03/04. Este livro foi publicado no formato 15 x 22.