UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

PSICOLOGIA/CCHLA - NATAL – BACHARELADO
EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS
PROFESSOR MARKUS FIGUEIRA DA SILVA

Texto Dissertativo
A psicologia é uma ciência?

Felipe de Oliveira Ramos

Natal – RN
2017

NATAL – BACHARELADO Felipe de Oliveira Ramos Texto Dissertativo A psicologia é uma ciência? Texto dissertativo em torno da temática “a psicologia é uma ciência?”. e que será considerado parte do processo avaliativo na disciplina de Epistemologia das Ciências Humanas.UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE PSICOLOGIA/CCHLA . Natal – RN 2017 . ministrada pelo professor Markus Figueira da Silva.

ou experimental. por isso inevitavelmente toda norma e padrão estabelecido pela ciência natural foi posto no cerne da fundação da ciência psicológica. o “movimento” de fundação da psicologia como ciência é um movimento duplo: ao tempo em que se afastava da especulação filosófica. fundada por Wundt. Quando surge a psicologia no século XIX. como o comportamentalismo. A psicologia enquanto ciência. Wundt era originalmente formado em medicina e em fisiologia. com pouco mais de 100 anos desde sua fundação. A psicológica cientifica de base naturalista. existe um pressuposto: “Desde que o psiquismo seja visto como um fenômeno natural e a Psicologia como . A psicologia é uma ciência? Como ciência jovem. A que ressaltar também que. como deixa claro Wundt. e nos dias de hoje ainda se expressa em muitos espectros da psicologia. as bases da concepção moderna de ciência já estavam postas desde o século XVII. e que tinha como objeto a experiência imediata. a psicologia enxerga-se na obrigação de responder duas questões fundamentais: uma delas questiona a cientificidade do conhecimento psicológico. Procurar-se-á aqui sustentar a ideia da cientificidade do conhecimento psicológico. A que se realçar que. apesar mesmo da crítica que existe em torno do termo “ciência humana”. especialmente no século XIX. a psicologia ainda se vê impelida a apresentar e fundamentar os fatos que sustentam seu status científico. com René Descartes e seu Discurso do Método. se aproximava da ciência natural. e a outra busca entender se a estrutura epistemológica da psicologia é das ciências naturais ou das ciências humanas. Na base desse paradigma. o fez concomitantemente a uma tentativa de se estabelecer como independente da filosofia. mas que no passado também foram compelidas a dar razões de seus fundamentos epistemológicos. a psicologia cognitiva. entre outras. concebida por Wilhelm Wundt em seus laboratórios de psicologia experimental como uma ciência da mente. ao tempo em que a psicologia procurou se estabelecer como ciência. Hoje. especialmente a filosofia dedutiva e especulativa. ao tempo que se sustentará que esse conhecimento integra as ciências humanas. Por isso mesmo. falar de ciência ou método científico é referir-se diretamente às ciências naturais. e é sob a influência desses conhecimentos que que ele estabelece as bases do que viria a se tornar a psicologia científica no século XIX: uma ciência da mente que tinha como base as disposições metodológicas e epistemológicas da ciência moderna. nasce aproximadamente no ano de 1879. por muito tempo consolidou-se como paradigma da psicologia por muito tempo. assim como a grande parte das disciplinas que hoje são tidas como científicas.

a psicologia compreendeu que não era uma ciência da explicação. mas sim uma ciência que buscava compreender. assentada em antecedentes causais. a psicologia não deixa de assumir seu caráter científico. quanto para uma infraestrutura que. em suma. guardadas as devidas proporções. das variáveis e do controle. A psicologia experimentalista operava um recorte muito caro à complexidade humana. Outros não concebem que a psicologia dispõe de métodos holísticos. conceituação de problemas e métodos. não davam conta de operar a reflexão e obter os resultados que a psicologia via-se. e apesar de a gênese da ciência psicológica estar posta nas ciências naturais. os métodos experimentais devem poder ser totalmente aplicáveis a essa ciência”. com diferentes concepções de objeto. O ser humano é espontâneo. vários questionamentos levantados até mesmo pela comunidade dos psicólogos conduziu o status de cientificidade da psicologia a uma cisão. Alguns criticam a condição amórfica da psicologia. as críticas tecidas a psicologia ainda são vastas. O processo dialógico de reflexão no interior da ciência psicológica apenas aponta para uma nova identidade: a psicologia passa a ser cada vez mais vista como parte das ciências humanas. Pouco a pouco. Tudo advém do fato de um fenômeno psicológico ter uma intencionalidade que por vezes não é captada por explicações de caráter mecanicista. a rigor. é aquilo que a filosofia epistemológica de Thomas Kuhn propõe com o conceito de revolução científica: há uma mudança estrutural. a psicologia não quis de forma alguma propor que o ser humano não pode ser objeto das ciências naturais. que aponta tanto para a insuficiência do que havia antes. bem como seus objetos e métodos. Com esse grande passo. e de forma acertada. obrigada a dar conta. No entanto. mas que esses métodos não dão conta da totalidade do ser humano em seus processos mais caros e complexos. deixando de lado a abordagem de caráter naturalista. Apesar dos esforços e contribuições dos psicólogos experimentalistas. impondo dificuldades a descoberta de leis gerais e previsão de . cada vez mais essa seara do saber. entender a influência das condicionantes. Não obstante. O que acontece no seio da psicologia. dá mais vazão às expectativas e anseios da comunidade científica psicológica. O que impulsionou a psicologia a operar essa mudança foi a constatação de que ela havia se tornado ciência antes mesmo de ter desenvolvido com rigor o seu conteúdo.uma ciência natural. descrever. dinâmico. uma ciência do interno. tendo por “pedra fundamental” o novo paradigma. pouco a pouco. e adotou métodos antes mesmo de avaliar com seriedade seus próprios problemas. da predição.

mas amadurece na compreensão do seu objeto de estudo. que hoje é questionado. A psicologia é. E outros ainda assumem uma posição cética em relação a cientificidade dos conhecimentos englobados na categoria de ciências humanas. de modo geral. surgem como problemas para o estabelecimento do status de cientificidade. formados numa experiência de ciência basicamente positivista típica das ciências naturais. mas sim uma ciência humana. a psicologia não deixa de lado o rigor. ao mesmo tempo que aquilo que está estabelecido como ciência está posto pelas ciências naturais e o pensamento positivista. Essas especificidades. o que no fundo surge como certo “princípio da incerteza”. Ao assumir o status de ciência humana. e assume uma postura mais autônoma na formulação e adequação de teorias e métodos. uma ciência. hoje em dia se encontra defronte a diversas críticas. a experiência. de certo. Como supracitado. não concebem outros métodos que não sejam baseados em observações sensoriais. especialmente quando levamos em consideração que disciplinas como genética tem muitas de suas explicações fundamentadas em probabilidades. Ciência é um termo que naturalmente pode ser concedido a qualquer ramo de conhecimento ou estudo que lidam com a sistematização de núcleos de verdade e fatos. portanto. pelos simples motivo de que fazê-lo é em certa medida questionar a própria validade dos conhecimentos que construiu.fenômenos. Mas a própria ciência de caráter naturalista. devendo muito ao que foi na origem. Estes últimos. a partir do momento em que se compreende que o paradigma de ciência. o problema em considerar a psicologia como ciência só surge quando essa se propõe como ciência humana. é fruto de uma perspectiva do olhar da comunidade científica. o método. Entre essas críticas podemos destacar o determinismo absoluto. falsa. que já se alterou em muito ao longo do tempo. dogmatizada e. mas devendo muito mais ao que não foi e ao que deixou de lado. esse tipo de proposição está assentada na ideia de neutralidade científica e de verdade. . Em última instância. por uma simples razão fundada no poder-discurso e já supracitada: quem propôs as bases da ciência moderna foi a ciência natural e seus métodos. tendo em vista operar leis gerais. aos olhos das chamadas “Hard Sciences”. o que põe em cheque seu caráter idealizado de objetividade. positivista. mas não mais uma ciência naturalista. e essa mesma ciência dificilmente irá pôr em questão essa fundação.

Amadeo. A crise das Ciências Humanas. Hilton. . 1978. 1999. Sp: Editoras Letras & Letras. 2012. Introdução à Epistemologia da Psicologia. C. Hilton. São Paulo: Atlas. JAPIASSU. São Paulo: Cortez Editora. ed. Referências GIORGI. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 1995. A. São Paulo. 5. JAPIASSU. A Psicologia como Ciência Humana: uma abordagem de base fenomenológica. Belo Horizonte: Interlivros. GIL.