Uso e apropriação do celular por

jovens de classe popular

F l o r a D u t r a

Uso e apropriação do celular por
jovens de classe popular

Luminária Academia

EDITORA MULTIFOCO
Rio de Janeiro, 2015

EDITORA MULTIFOCO
Simmer & Amorim Edição e Comunicação Ltda.
Av. Mem de Sá, 126, Lapa
Rio de Janeiro - RJ
CEP 20230-152

CAPA E DIAGRAMAÇÃO Wallace Escobar

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular
DUTRA, Flora

1ª Edição
Maio de 2015
ISBN: 978-85-8473-408-5

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais sem
prévia autorização do autor e da Editora Multifoco.

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“Não há nada que não se consiga com a força de vontade. com o amor”. 17 anos . principalmente. Alice. a bondade e. Marco Túlio Cícero “Eu acho importante compartilhar as minhas fotos para as outras pessoas saberem que eu existo”.

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Aos professores e antropólogos da minha banca de qualifica- . Flora Dutra Agradecimentos Ao concluir esta investigação. Larry Rosen. Aos pesquisadores internacionais que contribuíram de forma significativa em minha pesquisa. que nunca desistiram de acreditar no meu sonho em ser professora e aos meus irmãos. pelo incentivo à docência. desejo expressar meus sinceros agradecimentos àqueles que me auxiliaram nesta tarefa. pelo interesse na pesqui- sa. pelo apoio nesta longa jornada iniciada desde a Faculdade. críticas construtivas e apoio nessa jornada acadêmica: o filósofo francês e professor da Universidade de Grenoble. sem sua ajuda. a socióloga espanhola da Universidade Complutense de Madrid. que desde sempre acreditou nos meus estudos. agradeço à minha família. e também por tudo o que fizeram por mim até hoje: à minha avó Maria. enviando-me livros de difícil acesso. À minha orientadora Veneza Ronsini. pois sem ela este estudo não teria sido possível. a meus pais. e o professor da Universidade da Califórnia. por enviar sua obra e pe- las palavras de incentivo. pelo financiamento e incentivo à pesquisa. Amparo Lasén. Gilles Lipovestky. este trabalho não seria possível. À escola onde realizei a pesquisa de campo e aos entrevista- dos. Em primeiro lugar. o sociólogo Claude Fischer. pelo aprendizado. pois. pelo envio de sua obra como contribuição para meus estudos. À FAPERGS. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Comuni- cação da UFSM. professor da Universidade de Berkeley.

Esta obra é uma dissertação de mestrado do curso de Pós-Gra- duação da Universidade Federal de Santa Maria que marca o iní- cio da pesquisa sobre tecnologia móvel no Brasil pela perspectiva da jornalista Flora Dutra. Sandra Rúbia da Silva e Everardo Rocha. .ção. pelas considerações que me permitiram lançar um novo olhar sobre minha pesquisa.

Este trabalho é por nós. Em memória da melhor amiga do mestrado que partiu antes desta jornada chegar ao fim: Gabriela Santos. . nunca me esquecerei de você. minha eterna amiga e confi- dente.

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............ ritualidade e tecni- cidade .... Mediações da cultura: socialidade................1.......... Identidade Juvenil de classe popular...1 Consumo como distinção e comunicação por García Canclini....... Estudos sobre o consumo de celular................. Questionário via Facebook...............2.................1............ Tecnologias móveis no espaço escolar....................... PERCUSO METODOLÓGICO DA PESQUISA........... Juventude do Bolsa Família.. 54 3................... 31 2.........3...2......... 111 5................... As redes sociais e os aplicativos no celular .................. 103 5... 59 3............... 45 3........................................ 49 3........ Perspectivas de consumo..3. 67 4....1............................................................. 87 4... Questionário online........... ESTUDOS CULTURAIS LATINO-AMERICANOS: CONSUMO E MEDIAÇÕES....... 17 2........ 107 5................................... 107 5..2..........1........... 118 .....................................................................1.............1............ INTRODUÇÃO...............1.............. 41 2.......... 109 5.........................................1..........2...... A história do celular a partir de reportagens e publicidades............ CONSUMO DE TECNOLOGIAS MÓVEIS NA AMÉRICA LATINA...... JUVENTUDE DE CLASSE POPULAR... Sumário Agradecimentos.................1... 74 4........................ 9 1........ Estudo exploratório I...... 25 2......................................

.... 179 6...........1.1....................... 128 5...1........... O celular e as telenovelas brasileiras. 169 6............3....................2.....................2..................................3......................... O celular e a produção cinematográfica.. 156 6...... Fase interpretativa: a análise dos dados................................. 159 6.......2...... Entrevista semiestruturada.................2............2...... 150 5.....3...3.......... 165 6..........1...1.................1.. Perspectivas das mediações: socialidade....... Definição do universo da amostra ... Socialidade: família.......... 191 6.......1.. 211 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................ 197 6.... 196 6......1......................... 219 .. escola e classe social......3....... 147 5...2...2............................... 159 6...... Distinção social pelo celular .........1.. Família......... 133 5. Amostra..............1.............. Transmidiação e as redes sociais....2...2..................2...........1.3................ Método Etnográfico.......3...... Os usos do celular pelos jovens de classe popular na escola....... 144 5....1.... ritualidade e tecnicidade.................. Escola. 140 5......1.. 186 6............2....... Ritualidade: uso e distinção social pelo celular dos jovens de classe popular............ Perfil dos entrevistados...............2.. CONSIDERAÇÕES FINAIS... Imersão no campo..159 6...1.............................. USOS DO CELULAR POR JOVENS DE CLASSE POPULAR.......................... 5....... 131 5............................ Estudo exploratório II..........4...................1................ Observação participante..... Tecnicidade: as representações do celular na mídia................................3......3........... 128 5... 154 5.... 181 6................. 205 7.................2..........4...... Classe social...........1................

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As práticas sociais associadas aos telefones celulares circun- dam o globo em uma complexidade de apropriações que mere- cem ser discutidas.5 milhões de celulares. AAKHUS. 2010. LASÉN. há 138 telefones celulares. A pesquisa justifica-se pela atualidade e importância com que os aparatos tecnológicos estão permeando as relações sociais. Desta ma- neira. lo- 17 . pois. o celular geralmente vem equipado com funcionalidades que permitem ao usuário acessar a rede online a qualquer hora e em qualquer lugar. Com a disseminação da Internet. para cada 100 pessoas. ultrapassando o número de habitantes no país. tornando-se indispensáveis nas interações comunicacionais e em diversas atividades humanas (despertar. cronometrar. cujo cenário principal passa ser o cotidiano dos indivíduos.7% relacionado ao acesso à rede online pelo telefone móvel. MILLER. o acesso à Internet por jovens entre 15 e 17 anos aumentou em 76. a conectividade tem favorecido a existência de um ambien- te midiático em construção permanente. 2002. LING. 2007. Flora Dutra 1. 2005. KATZ. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) em 2013. Pode-se verificar que os usos do celular como prática social estão sendo capturados pelas pesquisas de algumas áreas como Antropologia e Sociologia (SILVA. CASTELLS. 2006. A prova da inserção do celular na vida dos adolescentes é o grande número de acessos na escola e no núcleo familiar. 2004). INTRODUÇÃO O Brasil encerra abril de 2015 com 283. calcular. através das redes Wi-fi ou 3G/4G. HORST.

há uma lacuna de estudos empíricos acerca dos usos do celular. readaptação do jornalismo na era móvel. entre outros). as dissertações ver- sam sobre as funcionalidades do aparelho e suas repercussões no mercado. suas práticas e usos. psicologia. design. cinco teses nas áreas de Engenharia. em 18 . entretenimento online em locais pú- blicos. seja na produção de conteúdo para as redes online. Sendo assim. construção audiovi- sual a partir da mobilidade. Os estudos rea- lizados no Brasil. educação e informática. adultos e idosos) e fabricantes (empresas de tecnologia móvel. Possuir um telefone móvel se tornou um imperativo na sociedade do consumo. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular calização geográfica. Portanto. No contexto geral. Em vista dessa realidade. É ausente estudo da classe popular juvenil a partir das tecnologias móveis. são dissertações de mestra- do nas áreas de administração. Nos últimos quatro anos. comunicação. fotografar. gravar conversas. na busca por trabalhos referentes ao telefone celular no portal de periódicos e banco de teses da CAPES e no portal de Domínio Público de teses e dissertações. designers e progra- madores de softwares). observam-se poucos estudos da última década (cerca de 40). Comunicação e Antropologia buscam novos olhares para o aparelho móvel. funcionalidades do aparelho e significação simbólica a partir do design. envolvendo consumidores (jovens. em sua maioria. Na área da Comunicação. redimensionando a importância dos celulares na vida cotidiana da sociedade moderna. esta inves- tigação se propõe a contribuir no desenvolvimento das pesquisas sobre os usos do celular pela juventude de classe popular. seja através de chamadas (fala) ou SMS (mensagem de texto). os trabalhos referentes ao celular discorrem sobre diferentes temas/objetos: análise semiótica das marcas das operadoras de telefonia móvel. tanto para comunicar-se com outras pessoas.

No segundo estudo exploratório. a seleção da amostra de dez alunos foi definida com base na manifes- tação do interesse de alguns em participar da pesquisa. Cinco 19 . c) observar os conteú- dos compartilhados no Facebook via celular. para compor a primeira amostra . p. b) descrever os usos e apropriações do celular no espaço escolar e no espaço doméstico. definiu-se a amostra da pes- quisa e descreveu-se o perfil dos entrevistados. composto de um questionário com 29 questões via Facebook e um questionário online contendo 45 questões sendo aplicado em dois momentos distintos da construção da pesquisa. 20). O objetivo geral da investigação é compreender os usos e apropriações da tecnologia móvel de celular por jovens da fração baixa de classe popular.a fim de avaliar o impacto do celular na cultura juvenil -. na família. O eixo teórico desta pesquisa são os estudos culturais latino-americanos. 2010. Flora Dutra uma aproximação com o espaço escolar. iniciou-se o primeiro estudo exploratório com vinte e cinco jovens de dis- tintas classes. mais especificamente. Na fase da observação. na escola e no grupo de amigos. O problema de pesquisa consiste em questionar de que modo a classe social conforma os usos do telefone móvel no cotidiano de jovens de classe popular. Os objetivos específicos do estudo são: a) investigar as relações sociais dos jovens no espaço escolar me- diadas pelo celular. a perspectiva da construção de identidades contemporâneas media- das pelos meios de comunicação (Escosteguy. Além disso. na disposição deles em debater sobre o celular e suas repre- sentações. Concluídos os estudos exploratórios I e II. foi feita uma pesquisa nos acervos das revistas Veja e Superinteressante sobre as primeiras publicidades do celular no Brasil.

O primeiro capítulo é introdutório e apresenta a justificativa da pesquisa. 20 . Bruno. Tendo como eixo teórico os estudos culturais latino-ameri- canos. resulta nos modos e usos coletivos de comunicação. O quadro teórico de referência para interpretação dos dados empíricos baseia-se nas mediações de Martín-Barbero (2003): so- cialidade. apresenta-se o eixo teórico que norteia esta dissertação. ritualidade e tecnicidade. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular rapazes (Alex. as perspectivas comentadas de García Canclini merecem destaque ao apontar as seis proposições acerca do consumo: a) consumo como reprodução da força do trabalho e da expansão do capital. Busca introduzir o leitor ao tema a ser apresen- tado nos capítulos seguintes. especial- mente o celular. Denise e Eliana) foram acompanhados durante três trimestres no espaço escolar. A socialidade. família. b) consumo como apropriação dos grupos e classes 1 Os nomes dos entrevistados são fictícios. Diogo e Eduardo) e cinco moças1 (Alice. César. amigos). No capítulo 02. O colégio será denominado como Escola A para preservar o nome da instituição de ensino. os objetivos gerais e específicos. a ritualidade manifesta-se nos diferentes usos dos meios. Bianca. nas condições sociais e educacionais (consumo de telefone celular pelos jovens de classe popular). gerada nas tramas das relações cotidia- nas (escola. que compõem o mapa das mediações. em espaços públicos e no ambiente doméstico. Parte-se dos Estudos Culturais Latino-americanos e sua perspectiva em entender a construção das identidades con- temporâneas mediadas pelos meios de comunicação. a tecnicidade diz respeito à conexão com os meios no cenário da globalização – re- des sociais móveis e consumo de mídia. Cláudia. bem como o proble- ma de pesquisa.

as quais são elaboradas a partir das mediações ritualidade. Slater (2001). f) consumo como ritual. seis revelaram pertencer ao Programa Bolsa Família. As marcações simbólicas e as representações sociais também podem ser verificadas dentro do espaço escolar. dando lugar às ques- tões de gênero. Flora Dutra sociais. Assim. Pierre Bourdieu (2007). como propõe Woodward (2012). compondo o referencial teórico so- bre o consumo. Thorstein Veblen (1983). Entende-se que o consumo seja uma área ampla da pesquisa acadêmica e que. c) consumo como distinção simbólica. e) consumo como desejo. buscando identificar as características individuais e coletivas no meio fami- liar e escolar. Dos estudantes entrevistados. destaca-se o consumo como comunicação e como distinção simbólica. de repre¬sentações e de identidades. socialidade e tec- nicidade. Mesmo que a questão de classe tenha perdido força nos embates teóricos dos estudos culturais. por isso. Rocha (2005). d) consumo como comunicação. os conceitos abordados por Canclini se articulam com os pensamentos de autores como Mary Douglas e Baron Isherwood (2006). O terceiro capítulo é dedicado ao contexto juvenil. Barbosa (2004). entende-se a condição de classe popular como um parâmetro para analisar os modos de vida dos jovens e as distinções simbólicas dentro da fração popular aqui considerada. Nesta dissertação. as identidades dos estudantes de classe popular contextualizam as diferenças estabelecidas com outros grupos sociais. Colin Campbell (2001). uma contextualização sobre o programa de transferência de renda direta foi necessário para se entender o acesso aos bens e à educação destes jovens. É a partir desses apontamentos que se interpreta o consumo como distinção e comunicação no capí- tulo empírico relacionado às categorias de análise. 21 . muitas vezes.

desde o ano de 2001. alguns pesquisadores inauguraram os es- tudos sobre este objeto de história recente. Claude Fisher (1992) escreve a obra America Calling: a social history of the telephone to 1940 e relata o surgimento do telefone fixo nos Estados Unidos. as apropriações e representações do aparelho pelos moradores. Lasén (2013). em um bairro de classe popular em Florianópolis. Aborda-se a circulação do celular pela classe popular como um objeto de desejo e distinção na era digital e discute-se a intera- ção proporcionada por este aparelho no espaço escolar. Como o governo e a classe dos professores estão lidando com o tema que tem sido cada vez mais presente é o grande debate que se desenvolve neste capítulo. entender como as tecno- logias móveis estão adentrando as salas de aula e como a política 22 . basicamente teses de doutorado e dissertações de mestrado. O quarto capítulo apresenta um panorama das tecnologias móveis na América Latina. seus consumidores e fabricantes. O estado da arte. retrocessos e avanços. como é o caso de Rich Ling (2004). Daniel Miller e Heart Horst (2006). assim como a pesquisadora Sandra Rúbia da Silva. ainda no quarto capítulo. muitas vezes servindo de auxílio em pesquisas escolares e outras vezes atrapalhando a atenção em aula. neste contexto. os estudiosos James Katz e Mark Aakus (2002) organizam um livro com vários investigadores sobre o impacto do celular no globo. em um estudo antropológico. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular em seus dilemas. Outros pesquisadores seguem desenvolvendo estudos sobre a tec- nologia móvel e seus impactos na sociedade. Busca-se. Posteriormente. O celular tem uma historicidade que não ultrapassa meio sé- culo e. investiga. encerra o Capítulo com os trabalhos relevan- tes em diversas áreas realizados no Brasil. dedicaram-se a avaliar o impacto dos tele- fones na Jamaica. Castells (2007).

O quinto capítulo é dedicado a explorar a metodologia em- pregada nesta investigação.884. como afirma Travancas (2011. através de projetos de leis. foi necessário o levantamento de dados quantitativos e qualitativos. pois. está proibindo o uso em escolas. Flora Dutra (a partir de 2007). aprovou e sancionou a Lei 12. Os estudos exploratórios I e II dão suporte para o aprofundamento e o recorte do objeto. como no caso desta pesquisa. tanto para professores quanto para alunos. A pesquisa tem como método a etnografia e a técnica da ob- servação participante. 98). A aplicação dos questionários serviu como pano de fundo para entendimento de como os jovens veem e se reportam à mídia através do celular. Em 2008. que proíbe a utilização dos celulares nos estabelecimentos escolares. a aplicação de dois questionários foi necessária para delinear a geração e o recorte de classe. A transmidiação que aparece no questionário online foi um começo para se entender como a tecnicidade está se ressignificando neste início de século. a etnografia é um método descritivo de vários aspectos sociais e culturais de um grupo social. a go- vernadora Yeda Crusius. Para en- tender como o celular está sendo usado pelos jovens de classe popular. através do Ministério Público. e serviu para adentrar no universo da cultura popular juvenil. envolvendo os jovens de baixa renda e a utilização do celular no espaço escolar. com entrevista semiestruturada. A busca pela antropologia visa compreender como o trabalho de campo será interpretado a partir de questões 23 . p. Divergências entre teóricos mostram que o debate sobre os usos do celular na escola ainda está longe de achar uma solução. No primeiro estudo exploratório. O segundo estudo exploratório foi qualitativo. como no caso do Rio Grande do Sul. Aliada aos estudos exploratórios se definiu o uni- verso da amostra e a imersão de campo.

2. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular sociais e práticas culturais.de García Canclini e Pierre Bourdieu -. O capítulo seis contém as análises dos dez entrevistados através do trabalho etnográfico inclusas nas interpretações das categorias empíricas socialidade. neste estu- do. a transmissão do capital cultural dos pais aos jovens recai sobre a visão de mundo. Na tecnicidade as redes sociais e novas formas de audiência ressigni- ficam o receptor em fan pages. Após ter realizado o levantamento bibliográfico. no término dos estudos e impacta num desconhecimento das tecnologias móveis e redes sociais. e outras fontes bibliográficas citadas no de- correr da investigação. tecnicidade e ritualidade. como o uso do celular. grupos de produção de conteúdo ou na interação com os programas de televisão. ESTUDOS CULTURAIS LATINO-AMERICANOS: CONSUMO E MEDIAÇÕES 24 . Na socialidade. amigos e classe social. com- binadas com os enfoques sobre o consumo . busca-se verificar como os usos do celular estão mediando as interações entre escola. família. a elabora- ção do diário de campo foi fundamental para organização das observações e funcionou como um “registro descritivo” de todas as práticas presenciadas na escola. os va- lores morais e a tradição que converge na constituição do núcleo familiar. cabem discussões sobre os caminhos percorridos nes- ta pesquisa e caminhos futuros a serem desenvolvidos. uma vez que muitos convites para “ro- lezinhos” em shoppings e lanches na escola na hora do intervalo foram aceitos pela pesquisadora. Não houve rigidez quanto à observação participante. pois o trabalho do etnógrafo consiste em deslocar-se a partir do movimento da sociedade e. Nas considera- ções finais.

31). O livro Pesquisa em Comunicação – Formulação para 25 . p. do poder institucionalizado e da cul- tura elitizada entre 1950 e 1960. “sendo refor- çado. 12). entrecruzando a filosofia. p. 2) análise da cultura popular. a comunicação e a antropologia. As articulações das análises cul- turais destes pensadores logo passaram a ser mediadas pela in- terdisciplinaridade. tam- bém estava a discussão entre cultura e comunicação. em 2001. 2010. 20) delimita os três eixos teóricos de relevância na pers- pectiva latino-americana: 1) as relações entre cultura e ideologia. Compreen- dem um conjunto de formações. bem como numerosas histórias distintas. pela formação de pesquisadores que se vincularam a esse programa de pesquisa” (ESCOSTEGUY. Flora Dutra Os estudos culturais abarcam discursos múltiplos. (Stuart Hall. claro. mas também pela tradução de obras importantes e. Como afirma Lopes (1990). No início dos anos de 1980. 2006. Na revisão ampliada da obra Cartografias dos Estudos Culturais – uma versão latino-americana (2010). Assim como o interesse dos britânicos do CCS pelo entendi- mento das lutas de classes. com as suas dife- rentes conjunturas e momentos do passado. Escosteguy (2010. Es- costeguy verifica o crescimento exponencial dos EC na América Latina desde a primeira edição da obra. sobretudo pela circulação mais ágil de bibliografia inglesa. 3) construção de identidades con- temporâneas mediadas pelos meios de comunicação. p. destacam-se os pensadores Mar- tín-Barbero e García Canclini. os pensadores latino-americanos voltaram sua atenção aos processos comunicacionais que emer- giam a partir de 1980. os esforços para a elaboração de uma teoria e metodologia latino-americana iniciou-se na década de 1980. Como início dos debates latino-americanos.

mas outras áreas merecem destaque. suas nuances. di- ficuldades e trajetórias a serem percorridas. “a dimensão dos fenômenos sociais se entenderia melhor. Brasil. nos tempos atuais. Pesquisas de recepção e consumo cultural articulam cada vez mais ferramentas e métodos para uma melhor interpretação. Para Orozco e González (2011. trata de organizar e tra- çar como a Comunicação é estudada no país. Colômbia. Os coordenadores 26 . conta com pesquisadores da Venezuela. É neste sentido que os estudos culturais latino-americanos cami- nham. pois. A busca por uma metodologia qualitativa ganhou espaço no decorrer das décadas. Peru. Chile. Equador. Segundo Guber (2001). Já no final dos anos de1990. a tendência contemporânea é explorar objetos complexos com diversos métodos e ferramentas. e a etnografia ganhou destaque na compreensão da glo- balização e dos fenômenos da revolução digital por aproximar os agentes das especificidades de cada espaço social. Portugal. Uruguai. A Recepção e os Estudos Culturais estão intimamente ligados na América Latina. 1990). para os investigado- res. a etnografia. Mesmo com o início das atividades dos Estudos Culturais la- tino-americanos na busca por entender identidades e os proces- sos que adentravam na América Latina. Estados Unidos. aju- da a descrever e explicar a própria globalização. Espanha. Conforme os autores. os estudos sobre recepção e consumo cultural impulsio- naram uma vertente de pesquisadores latino-americanos a am- pliar os estudos culturais. México. a integração dos métodos quantitativo e qualitativo deveria ser complementar. 2 O Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva (OBITEL) é formado por 11 países. O receptor passa a situar-se em um novo cenário. atualmente os estudos de recepção buscam o entendimento de um novo fenômeno: a transmidiação2. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular um Modelo Metodológico (LOPES. 31). se identificariam as explicações que os sujeitos dão a essas di- mensões”. p.

o acesso às novas mídias digitais novas formas de ação e novos meios de comunicação. p. Há pouco tempo restrito às classes socioeconômicas privilegiadas. Flora Dutra agora. Com a Internet. isso de- corre muito especialmente da competitividade tecno- lógica e dos usos da tecnicidade (LOPES. O objetivo da rede destes pesquisadores é o intercâmbio de conhecimento e construção de novos caminhos para pesquisas ligadas à área de análise. o rádio ou o impresso terão profundas mudanças em poucos anos com a ascensão da Internet. 2009. permitindo novos modos de interação” (2011. p. A dimensão interativa dos meios digi- tais que Lopes e Martín-Barbero comentam está presente no con- gerais são os pesquisadores Guilhermo Orozco Gómez e Maria Immacolata Vassallo de Lopes. especialmente por meio do uso do computador e do celular. esse mundo digital chega aos que têm menor poder aquisitivo e cria massa de consumo para essas tecnologias. ainda. Vê-se uma crise da temporalidade. 2011. Martín-Barbero (2009) e Canclini (2013) direcionam novos apontamentos para este processo emer- gente. Hoje há tanta informação que é muito difícil saber o que é importante” (MARTÍN-BARBERO. 2). os dispositivos móveis e as redes sociais di- gitais tornam-se experimentos para audiências. p. móvel e conectado. poder de distinção e. é “a lógica da socieda- de multiconectada. “temos acesso a tantas coisas e tantas línguas que já não sabemos o que queremos. relações sociais. 27 . que traz. Scolari (2008) aborda a convergência das propriedades que distinguem as novas formas de comunicação. Dentre outros fatores. Novas agendas metodológicas surgem para dar conta dos fenômenos que vivenciamos em uma multiplicidade de códigos e significados. 3). os meios como a televisão. Para Lopes. que são novas for- mas de linguagens e meios. servem para a construção de no- vas identidades. 02). ou seja. Lopes (2011).

são cada vez mais transparentes para os sistemas de vigilância. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ceito do hipertexto. existia uma enorme literatura sobre a video- política. as hipermediaciones são “processos de intercâmbios. Para Canclini. ao se interagir e atuar na rede online. Hoje acontece uma ressigni- ficação através das redes digitalizadas. a transnacionalização dos mercados torna-se uma instância onde se condensa o poder. 113). Disponível em < http://medialab-prado. etc.. essa expansão das redes digitalizadas au- menta a opacidade do poder. Em maio de 2013. meios e linguagens interconectadas tecnologicamente de maneira reticular entre si” (2008. p. e os cidadãos. Para o antropólogo. assim a crítica social e política eram de suma importância para a construção nacional de cada país. um ponto crucial para a compreensão nas pesquisas em comunicação: a globalização opaca. de 3 Comunicação. migrações. as formas de comunicação que condicionavam os eleitores. Hoje. a construção retórica. onde se tem localizações oportunistas. Para Scolari. no MediaLab Prado. surgem as hipermediaciones.es/arti- cle/comunicacion_cultura_y_ciudadania>. produção e consumo simbólico que se desenvolvem em um entorno caracterizado por uma gran- de quantidade de sujeitos. pois. ou pela publicidade adaptada para os hábitos e costumes regionais. Nos anos de 1970 e 1980. os comportamentos das audiências. a formação de opi- nião. com alianças publicitárias ou empresárias locais. García Canclini3 apresentou na Espanha. por exemplo. vive-se em uma intensa intercultura- lidade internacional. Para o autor. hoje consumidores. redes digitais. Uma conversa com García Canclini. 28 . como. outra mudança significativa que temos é da videopolítica nacional para uma digitalização deslocalizada. os discursos na televisão. cultura e cidadania. e muito pouca importân- cia tinha a digitalização localizada. por isso há uma necessidade de verificar as autonomias antigas das políticas nacionais.

literatura). Em 2004. 2006. Em um diálogo constante com o culturalismo/es- truturalismo. o sociólogo Renato Ortiz levanta a problemática de operacionalização dos Estudos Culturais no país: No que toca ao Brasil. a Escola de Artes. os Estudos Culturais encontram dificuldades na afirmação de teoria única. Os estudos culturais latino-americanos buscam. antropologia. interpretar a globalização com suas balizes digitais. 2004. nenhuma delas se propõe a modificar o seu estatuto institucional (ORTIZ. Sabe-se de tudo o que compram. Em sua área de interesse. Atualmente. os estudos “continuam a sustentar a promessa de uma teoria materialista da cultura” (HALL. ou seja. base/superestrutura. SP). o que fazem. cultura/ideologia. Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH) é a única que oferece o mes- trado em Estudos Culturais4 no Brasil. parece-me que a penetração dos Estudos Culturais se faz pelas bordas. a preferên- cia sexual. para utilizar uma expressão de Bourdieu. Flora Dutra programação digital. 148). particularmente nas escolas de comunicação (o que certamente demonstra o conservantismo de discipli- nas como sociologia. sendo os meios de comunicação como prin- cipal aporte cultural das massas e a escola como desafio às novas tecnologias da informação. p. no início do século XXI. analisar a consti- tuição das redes digitais e a utilização dos meios nas narrativas comunicacionais. e a futura reação ao mal-estar político. 4 O Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da EACH-USP ainda não conta com produção bibliográfica para 29 . identificar as mudanças do local para o global. na peri- feria do campo hierarquizado das ciências sociais. Entre- tanto. Relativamente novo no cenário das Universidades latino-ame- ricanas. compreender a ressignificação das identidades e da cultura popular. construção e interpretação. não sendo um campo fácil de análise.

política e identidades. Segundo ela. cultura. O programa está dividido em quatro linhas de pesquisas: cultura. dos movimentos sociais e da mídia. Com o projeto Os Estudos Culturais. Para Ortiz (2004). Heloisa Buarque de Hollanda é a atual coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea5 fundado em 1994. crítica da cultura. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular “os estudos culturais contribuem para a crítica das disciplinas e saberes consagrados. ficção científica. etnia. cidadania. o mestrado ofe- recido pela USP possui apenas uma área de concentração que contempla a sociedade em suas práticas e saberes (marginaliza- dos) e o entendimento de proposições já institucionalizadas que colaboram para o status quo. multiculturalismo. 2012). hibridismo. gênero. Os estudos Culturais na América Latina mostram hoje uma clara originalidade. a nomenclatura do título é de Mestre em Filosofia.pacc. Assim. sendo questionadas por teorias crí- ticas.br/o-pacc/> 30 . compreen- são da saúde. 5 PACC. literatura de viagens. cultura e ciên- cia. o avanço das ciências sociais na multidisciplina- ridade. seus limi- tes e perspectivas: o caso da América Latina. os Estudos Culturais representam. a pesquisadora bus- ca mapear e analisar o quadro de transformações dos paradigmas teóricos e epistemológicos latino-americanos. não como o “fim das fronteiras”. disponível em <http://www. as ciências e sobre que interesses subjazem a elas” (PPEC. os projetos contemplados pelas quatro linhas abrangem migrações.ufrj. de impacto internacio- discussão e análise. Por fim. raça. mas no andamento das reflexões políticas. educação e saúde. religiosas. indagam sobre os modos como se vêm produzindo historicamente as pedagogias. De interesse para o programa. pois iniciou seu curso no ano de 2012. Em contrapartida. etc. indústria cultu- ral. mesmo com as dificuldades constitutivas e de inserção no Brasil e na América Latina.

como imaginários urbanos e novas tecnologias. 2010. pois os ques- tionamentos propostos por essa tradição extrapolam o campo da comunicação” (2002. p. o papel da cultura no mercado de bens simbólicos e a busca de novos modelos e conceitos operacionais que deem conta da complexidade da produção cultural transnacionalizada (HOLLANDA. Nas últimas décadas. 37). Economia. Para Escosteguy. tenta promover a conexão crítica das novas teorias sobre a “glo- balização latina”. o projeto concentra as produ- ções existentes de vários contextos acadêmicos regionais. Seria errôneo 31 . tanto pela cultura digital quanto pelos usos de novas tecnologias móveis no cotidiano dos indiví- duos. os Estudos Culturais ganharam um fô- lego novo para as pesquisas acadêmicas. nem a razão prática. “seria um equívoco reduzir o projeto dos Estudos Culturais a um modelo de comunicação. p. Antropologia. nem a lógica econômica explicam os diferentes significados do consumo (2006. 151). A difusão digital e as novas tecnologias introduziram uma multiplicidade de análises e conteúdos a serem estudados. SP). Comunica- ção. em função do encaminhamento que vem pro- pondo para temas como a tensão entre a cultura lo- cal e global.1. etc. e examina algumas ló- gicas em curso da produção do conhecimento. Psicologia. 2.. Para a abordagem antropoló- gica do consumo. Problematizando a temática. Rocha e Barros (2006) argumentam que nem o dinheiro. Flora Dutra nal. Perspectivas do consumo São inúmeras as áreas que debatem o consumo como chave da sociedade contemporânea: Marketing. Como objetivo.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular reduzir o consumo apenas à circulação da produção e às apro- priações simbólicas. Deste modo. quando se fala em consumo (sobretudo do âmbito da mídia). Jean Baudrillard e outros – a cul- tura do consumo ou dos consumidores é a cultura da sociedade pós-moderna” (2004. autores como Don Slater.40). o “consumo surge como sistema que será a ordenação dos signos e a integração do grupo” (1995.. p. Barbosa (2004) menciona a outra vertente que trabalha o consumo na versão não pós-moderna: “por outro lado.. Mais adiante. p. relacionada aos bens. 12). 10). 32 . Pode ser explicado a partir de um enquadra- mento moralista. ao dizer que a noção da utilidade. deve dar lugar aos valores e sentidos (1995. Grant McCracken. fica clara a distinção em duas linhas teóri- cas distintas (moderna e pós-moderna) que trabalham o consumo e/ou a cultura do consumo: “[. 2006. ora atendendo a necessidades físicas. Segundo Barbosa. p.] devemos ter clara a distinção entre sociedade e cultura porque. Contribuindo com o debate. de origem racionalista e econômica. Zygmunt Bauman. 10). Pier- re Bourdieu e Mary Douglas investigam o consumo de forma alta- mente relevante” (2004. no qual o tom denunciatório e o consumo são responsabilizados por diversas mazelas da sociedade. p. Barbosa (2004) defende que a sociedade do consumo é um dos rótulos utilizados para denominar a sociedade moderna. Um exemplo da visão pós-moderna do consumo vê-se em Featherstone (1995). o discurso proferido o faz partir de alguns enquadramentos preferenciais. Pode ser ainda explicado num enqua- dramento naturalista. ora respondendo a desejos psicológicos (RO- CHA. 91). em um enquadramento hedo- nista. o consumo apresenta três enquadramentos: Em geral. p. Na definição de Rocha (2006). Colin Campbell. para muitos autores – Frederic Jameson. O consumo pode ser explicado como essencial para a felicidade e realização pessoal.

segundo Veblen. A teoria da classe ociosa de Thorstein Veblen (1983) identifica as apropriações “a partir do progresso industrial como competição pelo aumento do conforto de vida. Progressivamente. principalmente pelo aumento dos confortos físicos que o consumo de bens proporciona” (VE- BLEN. e o ócio conspícuo perpetua a manutenção das boas maneiras. p. não tem outra ocupação senão correr ao en- calço da felicidade. 16). Flora Dutra Segundo Douglas e Isherwood (2006). 1983. concentrando-se “quase que exclusivamente nas questões do status social” (CAMPBELL. cuja única profissão é a elegância. Rocha e Barros (2006) acreditam que Veblen ultrapassou a visão utilitaris- ta. na distinção social. 2001. retrata o que Veblen enunciava: O homem rico. Charles Baudelaire. mesmo entediado de tudo. 51). completamente à parte (BAUDELAIRE. o homem criado no luxo e acos- tumado a ser obedecido desde a juventude. p. Assim. os primeiros estudos sobre o consumo discorriam sobre a necessidade material do bem-estar. a acumulação de bens resulta. de uma educação de gosto e “da sensibilidade relativamente aos artigos que se devem consumir e aos métodos de seu consumo” (VEBLEN. em todos os tempos. 58) afirma que não há estudos satis- fatórios que deem conta da revolução do consumo. aquele. assistindo 33 . 27). sempre exi- birá. p. conferindo respei- tabilidade. 76). mas pecam pela influên- cia do utilitarismo. 1983. acrescentando um olhar cultural para o consumo. os estudos de Thorstein Veblen concentram grande parte da análi- se relacionada à revolução do consumo. A vida ociosa acontece pela simples abstenção da ati- vidade produtiva. uma fisionomia distinta. p. Colin Campbell (2001. enfim. ocioso e que. ao escrever Sobre a modernidade. Para o autor. 1997. p. do bem-estar psíquico e do exibicionismo.

“a reprodução e a diferenciação social se realizam por uma participação estruturada de distintos setores sociais nas relações de produção e consumo” (CANCLINI. Para os autores. p. ao estudar a problemática do consumo juvenil. organizando práticas sociais subordinadas à produção e gerando codificações distintas entre as classes. p. Aprofundando a compreensão das classes populares. Para Canclini (1997) – na vertente dos estudos culturais la- tino-americanos –. etc. sociais e políticas. educação. Para explicar a cultura popular. 1997. Assim. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular a fenômenos e práticas do ócio conspícuo. gosto. Para o autor. 67) e assim se originam classes distintas e formas diversas de cultura. p. a circulação dos bens e o consumo perpassam o ambiente de trabalho. 62). 2) elaboração própria de um sentido de vida desprovido de privilégios. Ronsini (2012). a produção de fenômenos sociais. a escola e a família. Canclini (1997) apresenta três aspectos: 1) apropriação desigual do capital cultural. Assim. 34 . Mas nem todos os agentes configuram as apropriações dos bens de maneira igualitária. 65). o que a classe ociosa faz é transmitir em comportamentos o reco- nhecimento de construções significativas reguladas em códigos das boas maneiras. os agentes dentro do sistema social elaboram alternativas para transformações culturais. Canclini destaca que os menos favorecidos participam de um processo desigual dos bens econômicos e culturais. 1997. e 3) uma interação conflituosa com os setores hegemônicos (CANCLINI. verificável na própria construção identitária do espaço social. como o consumo. Partilhando a mesma linha estão Douglas e Isherwood (2006. contribui para a reelaboração simbólica das estruturas materiais. assim a reprodução simbólica será das condições próprias do trabalho subalterno e da defasagem educacional.

a formação de uma cultura adolescente-juvenil baseada nos bens de consumo ofertados pelos meios de comunicação se gesta nos anos de 1960. seja na forma de notebooks ou de tocadores de mp3. p. Para a autora. fazem circular rapidamente o conheci- mento. encontrando expressão em dois movi- mentos culturais. Para os autores. 2012. expandem as redes sociais para níveis globais. tanto na mídia quanto na vida cotidiana. em sintonia com a internacionalização e moderni- zação das camadas jovens da população (RONSINI. segundo os quais os jovens de hoje estão entrelaçados por produ- tos high tech. definindo territórios. promovem entretenimento. PEREIRA. No Brasil. 49). Mesmo com a informatização de muitos serviços. Neste processo. tanto para Ronsini (2012) quanto para Rocha e Pereira (2009). estabelecendo fronteiras. o Tropicalismo e a Jovem Guarda. 2009. p. Canclini aponta que “o simbólico não é algo que sucede nas universidades. nos consultórios psica- 35 . reforçam laços de afinidade. como o celular. quem é próximo e quem é distante (RO- CHA. fones de ouvidos. estabelecem novas formas de so- ciabilidade. o consumo marca a adolescência pelas apropriações de gadgets: Esses gadgets. 59-60). os bens de consumo – no caso. por exemplo. notebooks. Flora Dutra acredita que a globalização faz repensar as relações que estão produzindo as práticas sociais. recorre-se ao sistema simbólico para partici- par e consumir na sociedade. os gadgets – são fundamentais. O cenário no século XXI é distinto para Rocha e Pereira (2009). transferem infor- mações. criam múltiplas identidades. através do consumo. Desta maneira. o sistema de hierarquia é mantido e adaptado para renovar e manter a ordem social. significando.

p. eventos psicos- sociais tão diversos como habitar uma casa. 47). Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular nalíticos. 1997). p. o setor secundário parte das tecnologias avançadas do consumo. O simbólico é algo que está incer- to. Para Goellner (2007. Inclui-se. podem ser entendidas. comer. 69-70). como uma parte necessária. 36 . a. Para os pesquisadores. como um meio de renovar a força do trabalho dos assalariados e expandir os lucros dos produtores. vestir. “esse enfoque procura apreender como são realizadas as estratégias de mercado e as ações dos agentes econômicos. sem perder de vista sua relação com a de- manda”. e o crescimento do consumo não é resultado apenas da necessidade da expansão do capital. nesta perspectiva. em partes. no desenvolvimento da produção material atual” (CANCLINI. as categorias ocupacionais não servem de guia para análises. é o lugar onde as classes lutam pela apropriação do produto. Assim. Consumo como reprodução da força do trabalho e da ex- pansão do capital: todas as práticas de consumo. delineia-se o consu- mo cultural sistematizado por García Canclini (1992) a partir de inúmeras referências bibliográficas. Como defende Canclini. o consumo é o lugar onde se repro- duz a força de trabalho e também onde se expande o capital. que serão expostas a seguir. a circulação dos bens transita pelo marketing e consumidores convergentes na estratégia de crescimento do mer- cado de bens materiais e simbólicos. Nesta pesquisa filia- da aos Estudos Culturais latino-americanos. 1997. pois sofrem constantes mudanças. e o terceiro setor corres- ponde à maior despesa em informação (formal e informal). a visão de Douglas e Isherwood (2006) em três categorias: o setor primário é o das necessidades de primeira instância como alimentação. em museus de arte. mas também consequência das deman- das das classes populares (CANCLINI.

O antropólogo Daniel Miller (2002). realizaram uma pesquisa com empregadas domésticas para identificar os códigos culturais e como estas nor- teavam as escolhas de consumo. Flora Dutra b. 48). a forma de ser e estar no mundo. Consumo como apropriação dos grupos e classes sociais: são os lugares onde os conflitos de classe. constatou que a decisão na hora de compra das mercadorias nos supermercados estava baseada no amor e no sacrifício das donas de casa. Para Miller. a hierarquia dos gastos aparece na ideia de poder do consumidor em comprar muitos bens ao mesmo tempo. “o momento decisivo em que o traba- lho produtivo se transforma em processo de consumo expressa-se no temor do mero consumo profano ou material” (MILLER. de forma parcelada (ROCHA. que é substi- 37 . Nos resultados do estudo et- nográfico. BARROS. p. Goellner (2007). são poucos pesquisadores que se dedicam a estu- dar o consumo. ao veri- ficarem a invisibilidade que permeava os estudos relacionados ao consumo no país. A facilidade do crédito disponibilizado aos consumidores tem se caracterizado pelo não adiamento da satisfação. p. e garantir uma renda é um mecanismo para acessar os bens” (GOELLNER. 87).37). p. ao desenvolver esta perspectiva. 2009. principalmente relacionado às classes populares. Para ele. Os antropólogos Everardo Rocha e Carla Barros (2009). ao realizar um trabalho de campo em um conjunto habitacional nos arredores de Lon- dres. “muitas estratégias são engendradas individualmente por parte dos sujeitos para posicio- nar-se no espaço social. as escolhas individuais são feitas a partir de uma determinada demanda. versam sobre a distri- buição e apropriação dos bens. causados por partici- pações desiguais na estrutura produtiva. Deste modo. No Brasil. 2007. entende que o consumo é nossa cotidianidade. a do mercado. 2002.

1997. p. As lojas de departamentos. Consumo como desejo: apesar de não ser palpável. O sentimento de participar e compartilhar da sociedade de consumo foi destacado pelas compras dos eletro- domésticos e produtos de marca. Na pesquisa dos brasileiros. e ar- tigos como televisão. BAR- ROS. o consumo é um lugar ideo- lógico. são templos em que o mundo dos sonhos é possível: “a imensa fantasmago- ria das mercadorias em exposição. devido à urgência que engloba o setor primário. mediantes distinções simbólica. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular tuído pela satisfação direta e imediata (CAMPBELL. 76-78). O consumo é fundamental para comunicar diferenças entre os grupos sociais. “consumo de pertencimento”. Ter acesso a determinados bens possibilitaria uma entrada na sociedade de consumo abrangente. o parcelamento evidenciam. 2009. p. constantemente renovada pelo impulso capitalista e modernista para a novidade. a prosperidade material. Ser um “consumidor” permite a superação da identidade de “pobre” (ROCHA. Para Canclini. celulares parecem cumprir de imediato esse papel. que seria o investimento adiado. os shoppings. a constante aquisição de bens no mer- cado de consumo. não contempla a camada popular. A poupança. nesta perspectiva.136). 2001. chave para a reprodução da ideologia dominante e para construir diferenças sociais entre as classes. aqui. 37-38). a forma que é apropria- da e utilizada (CANCLINI. o de- sejo não pode ser ignorado quando se analisam as formas de consumo. p. Os valores da compra. para este grupo. A intensa compra de eletrodomésticos se encaixa no que se denomina. é a fonte de imagens oníricas que evocam ilusões esquecidas” (FEATHERSTO- 38 . e a diferenciação deve transladar-se para a forma em que se consomem estes bens. c.

o consumo adquire uma instância em que não se pode mais referenciar o objeto pela sua utilidade específica. Consumo como ritual: a sociedade seleciona e fixa acor- dos que regem os significados. tudo o que consumimos. 33). 1995. Apoiado na semiologia. assim. É. a compreensão do consumo se relacio- na ao hedonismo “mentalístico”. O consumo pelo desejo é incorporado como uma necessidade básica de uma cotidianidade intrínseca às relações materiais. 2001. 1995. “a autonomia do significante. e não necessita de quaisquer pressupostos relativos às atitudes para com o status e o prestígio (CAMPBELL. significa que os signos podem ficar independentes dos objetos e estar disponíveis para o uso numa multiplicidade de relações associativas” (FEA- THERSTONE. Ele diz: Essa interação dinâmica entre a ilusão e a realida- de é a chave para a compreensão do consumismo moderno e. quer conspícuo. per- dendo. mediante a mani- pulação dos signos na mídia e na publicidade. p. Os rituais são eficazes usando ob- jetos para definir o sentido das práticas que eles preservam. um aspecto do consumo quer “in- visível”. 43). quando as primeiras pulsões essenciais ultrapassam a racionalidade e se tornam ações corporais (ato de consumir). d. a men- sagem. está longe de ser materialista. que tem na novidade a busca incessante do “material de sonho”. Segundo os frankfurtianos. Desta 39 . do hedonismo moderno em geral. pois “a imagem. 2008. portanto. Flora Dutra NE. seu espírito. p. o ator torna-se o ser consumido. mais do que compromete. De acordo com Baudrillard (2008). por um conjunto de signos a que ele remete em sua significação total. p. o signo. tanto para ele como para Baudrillard. 133). pois a interpretação do con- sumo moderno. é a própria tranquilidade selada pela distância ao mundo e que ilude. 17). sim. e. p. na verdade. a alusão violenta do real” (BAUDRILLARD. Para Campbell (2001).

marketing e propa- ganda. o universo que integra a perspectiva do consumo como um sistema de informações a faz parecer ingênua demais “como se fosse apenas um dispositivo moderno para ajudar às pessoas a por ordem na confusão de nossos dias” (SLATER. a antropólo- ga coloca os significados como uma realidade social preexistente. sorte. Por fim. 2. saímos de uma sociedade regulada pela referência ao além para outra explicitamente preocupada com este mundo” (DOUGLAS. 2001. p. mas. a vergonha e a honra substituem ideias controladoras. ISHERWOOD. 146-150).1. 2006. A seguir. 82). Consumo como distinção e comunicação por García Canclini Esta perspectiva procura entender o consumo como diferen- ciação social. p. Slater (2001) concorda com Douglas e Isherwood ao relacionar os bens como instância integradora. mas aponta dois problemas nas in- terpretações dos significados e rituais de consumo que demarcam categorias e classificações. administradas pelos capitais comerciais investidos em tecnologias públicas de design. ignorando que a ordem social é constituída pelas práticas.1. O se- gundo problema não leva em conta que os fluxos de informações. o consumo como ritual na organização da ordem social.147). sim. os significados do consumo público não são prerrogativas das redes sociais. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular maneira. “quando a sorte. lidando com formas de apropriação hierarquizadas 40 . e não depende apenas de preços e rendas para explicar as decisões de consumo. Para Slater (2001. adentra-se na perspectiva de García Canclini do con- sumo como distinção e comunicação. passa a ser um risco. neste sentido. A acumulação individua- lista. p.

00 no cartão de crédito do chefe do hotel. diferenciando as classes uma das outras. depois de o jovem escolher o modelo ao lado do pai.00 p/mês e reside em um bairro de periferia de Santa Maria. Assim. O jovem A parcelou o aparelho em 3x de R$ 500. modelo 4. em um condomínio de luxo. Tome-se. um caso empírico extraído do I estudo exploratório des- ta investigação: o jovem A. 351). simbolizam o consumo. O jovem B ganhou o mesmo telefone (iPhone 4) de aniversário dos pais. Apon- ta-se para as formas (condições) e o entorno com que o consumo deste bem é adquirido e como os atores o utilizam para se comu- nicar com os demais. pela internet. p. Flora Dutra e com as próprias maneiras do processamento simbólico. como diria Bourdieu: “não basta ter um milhão para ter as condições de levar a vida de milionário” (2007. avaliado no mercado em R$ 1. sendo descontado direto da folha de pagamento mensal do adolescente. 06). para o Canclini. Isso sugere que as condições sociais de existência. consumo cultural “é o conjunto de processos de apropriação e usos de produtos em que o valor simbólico pre- valece sobre os valores de uso” (1992. É filho de empresários do setor têxtil e a família reside na área nobre da cidade. p. na casa de praia em que a fa- mília descansava. 1997. 18 anos. trabalha em turno diário em um hotel.00. adquiridos e utilizados (CANCLINI. São estes mecanismos que delimitam as lutas simbólicas que.500. 76). p. in- visíveis. O jovem B tem 17 anos e é aluno de uma escola particular da cidade. a origem familiar e a trajetória de cada ator pode ser um caminho para 41 . ganha R$ 900. Para Canclini. O aparelho foi comprado à vista. como exemplo. Ele tem um iPhone. a diferenciação deve mover-se para a forma em que estes bens são consumidos e a maneira como são apropriados.

Embora os gostos sejam condicionados a refletirem uma hie- rarquia simbólica. por vezes. ter o mesmo estilo de vida que não lhes pertence. que bus- cam. como o aparelho de celular. pensamento e ação. para que o consumo possa ser um sistema de diferenciação social entre os grupos sociais. mes- mo se tratando de itens funcionais de consumo. as classes dominantes tendem a valorizar o modo de representação. enquanto as classes subalternas valorizam o objeto representado. já imposta por gostos e tendências de consumo pela classe dominante. O habitus configura-se como um sistema de disposições duráveis que funcionam como esquemas de classificação para orientar os valores. a forma que o jovem B adquiriu o iPhone 4 torna-se legítima perante outros atores em posições inferiores. A linha de raciocínio é também encontrada na obra de Bourdieu. avaliação. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular compreender as práticas do consumo como distinção social. deve primeiro construir um sistema de comunicação compreensível. Assim. Canclini (1997) afirma que. de apropriação no processo do consumo. Desta forma. Os membros de uma 42 . o habitus. tornando legítimo o poder absoluto de impor seu pró- prio gosto e estilo de vida. as preferências dos consumidores ainda reque- rem um componente estético reconhecido pelo dominante. na aquisição do aparelho. as percepções e as ações dos indivíduos. Bourdieu (2007) substitui essa dicotomia na relação entre duas formas de existência social: as estruturas objetivas sociais construídas sobre a dinâmica histórica e a internalização das es- truturas sociais. construídas pelos indivíduos na forma de esque- mas de percepção. um sistema de integração cultural e social. que argumenta que as preferências e as disposições estéticas originam-se em uma hierarquia de classe impondo-se culturalmente.

Para Canclini. esta perspectiva é também um sistema de signi- ficados compreensível pelos consumidores incluídos e excluídos no sistema de diferenciação social. muitas vezes. 2007). 43 . gênero. de grupo. classificados que consti- tuem estas praticas e estas obras em sistemas de sinais distintivos (BOURDIEU. os atores e portadores destes códigos verificam e compartilham os significa- dos atribuídos aos bens de consumo. raça. A relação estabelecida. objetos e práticas. cuja apreensão é sincrônica e diacrônica – e os tra- ços distintivos associados à oposição correspondente no espaço dos estilos de vida não se torna uma relação inteligível a não ser pela construção do habitus como fórmula geradora que permi- te justificar. p. Ou seja. de um grupo. de fato. práticas e produtos classificáveis. por sua vez. 1997. etc. classe. 77). de uma dependência psicológica e afetiva em relação às conformidades da vida. assim como julgamentos. assim. significados e atributos das classes dominantes em um sistema de comunicação compreensível. Flora Dutra sociedade. entre as características perti- nentes da condição econômica e social – o volume da estrutura do capital. contesta- ção da mesma. As escolhas e narrativas do self transmitem men- sagens sobre a identidade de um ambiente cultural ativo. ou ainda. através da difusão de códigos. É por este motivo que as experiências e escolhas partem. intima- mente ligado ao ator e à produção de histórias. O consumo cultural é uma reafirmação dos “valores e signifi- cados comuns” que mantêm uma identidade coletiva. O consumo como comunica- ção situa os atores em suas posições de classe. devem compartilhar significados atribuí- dos aos bens de consumo para constituir um elemento de diferen- ciação social (CANCLINI. ao mesmo tempo.

Os bens são marcações de valores. os emblemas eletivos. eficaz em es- quemas de classificação que orientam a percepção e práticas além da consciência e da fala. b) Estrutura estruturada como um processo pelo qual o social é internalizado nos indivíduos. Para uns. e transferên- cia de trabalho em diferentes campos de prática. assumem rituais e são atrelados às concordâncias com outros consumidores. para outros. 1982. e acima de tudo. servem para comunicar e transmitir. os estig- mas que carregam. c) Estruturas predispostas a funcionar como estru- turante. 32). pela relação de privação que mantém com os outros estilos de vida. Nesta visão. a visão que cada pessoa tem da realidade deriva da sua posição social neste espaço. p. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular O gosto da necessidade só pode engendrar um estilo de vida em si que é definido como tal apenas de for- ma negativa. Para ele. um empreendimento coletivo e de comunicação. como um princípio de geração e estrutura- ção de práticas e representações (CANCLINI. Preferências culturais não operam em um vácuo social. Para auxiliar o entendimento da complexidade da conceituação de Bourdieu. e atinge as estruturas objetivas que correspondem à subjetiva. aqueles com desvanta- 44 . pag. Bourdieu procura explicar o pro- cesso pelo qual o social é internalizado nos indivíduos para dar conta das estruturas subjetivas e objetivas. enquanto. vai-se buscar reforço no que García Canclini entende por habitus: a) Um sistema de disposições duráveis. a representação da realidade e das práticas de pessoas é também. por falta. 167). inclusive. em seu corpo (BOUR- DIEU. dependem dos limites impostos pelas mediações objetivas. Com o conceito de habitus. Por- tanto.

desta forma. contudo. Mediações da cultura: socialidade. a antropologia analisava a cultura primitiva. por um lado. a comunicação na tardomoderni- dade converte-se em um “eficaz motor de desengate e de inserção das culturas”. Ao pensar o conceito de me- diações. ritualidade e tecnicidade Martín-Barbero é um observador dos processos culturais. Assim. 14) são reflexo das 45 . o autor reflete que. diferentemente. 2. no sentido em que a cultura era tudo. Flora Dutra gens comparativas na tecnologia do consumo estarão perdendo cumulativamente na luta para manter a informação sob controle. Hoje. por outro. o que está em jogo no que tange à comunicação é a emergência de uma razão comunicacional.2. este processo não regulado é capaz de construir barreiras de status que explicam as diferenças em padrões de con- sumo. espalhando-se pela vida social em todas as suas camadas. do que pensavam os frankfurtianos com o conceito de Indústria Cultural. O autor aponta que “a reconfi- guração das mediações em que se constituem os novos modos de interpelação dos sujeitos e de representação dos vínculos que dão coesão à sociedade” (MARTÍN-BARBERO. p. alerta para a necessidade de observar a pe- culiar posição que a comunicação atingiu na formação dos novos modelos de sociedade. e. Se. tanto a produção técnica e poética quanto as vinculações de saberes e demais focos do fenômeno humano como ator social. a sociologia entendia a cultura como somente as práticas e produ- tos gerados pela esfera das artes e das letras. Para ele. principalmente da América Latina. o objeto da cultura parece girar em uma am- pla miríade de aspectos sociais diversos.

os autores optam por unificar os sentidos do consumo e de recepção. a contribuição desta pesquisa configura-se em um viés distinto de interpretar os usos dos aparelhos celulares pela cultura juvenil pelo olhar barberiano do consumo. As mediações. 15). 7 TRINTA. foram vídeos amadores que circularam pela internet. 150-151. integrado em classes sociais distintas. o entendimento do consumo funde-se ao de recepção. A imensa mobilização nas redes sociais. abandona-se a competência de recepção e suas leituras dos textos midiáticos ligados às audiências para en- tender o consumo e seus “usos sociais” relacionados ao aparelho de celular. p. O estopim. usa-se o mapa das mediações como aporte interpretativo: Os problemas substantivos que a realidade cultural de nosso país apresenta para a pesquisa em Comu- nicação passam necessariamente pelos processos de transformação cultural acarretados pela atuação da indústria cultural em presença de uma vasta popu- lação pertencentes às chamadas classes baixas (LO- PES. mas aqui não será o caso. posteriormente. Nota-se que. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular transformações culturais e políticas a partir da relação sujeito/ objeto frente às transformações nos meios de comunicação6. vinculada aos argumentos da mídia. 1990. mostrando o “outro lado” do fato. que. p. levou manifestantes às ruas em diversas outras cidades do país. é constituída com- 6 Um exemplo deste argumento pode ser visto nas manifestações ocorridas em São Paulo (Jun/2013) contra o aumento nas tarifas de transporte público. Assim. 46 . Da mate- rialidade às tramas vivenciadas por jovens de classe popular em seu contexto social. Neste sentido. muitas vezes. Foram as perspectivas e visões dos cidadãos brasileiros contra a voz da mídia hegemônica. Muitas vezes. a necessidade de refletir sobre um objeto de história recente. Nesta pesquisa. muitas vezes. filmados anonimamente por celulares e espalhados pela rede. serviram para uma grande revolta virtual. servem como ponto de referência me- todológica entre o ator e suas conexões com o mundo7. neste contexto.

Tenta-se entender como o sentido e a tomada de consciência (ou não) pela condição da classe parte das relações que envolvam atores sociais e o aparelho de celular. o trabalho. emocionais e simbólicos. a etnia. A comunidade em questão é instável quanto a relações sociais pela Internet e o uso do celular.19). Os bens compreendidos como desejo cultural juvenil refletem a constante condição de classe incorporada na apropriação dos ritos e na for- mação social do cotidiano. Pode-se incluir. “remete-nos ao nexo simbóli- co que sustenta toda comunicação: à sua ancoragem na memória. Apresentam- -se três mediações propostas por Martín-Barbero como categorias de análise: a socialidade. Na socialidade. seus cenários de interação e repetição” (2003. Para Martín-Barbero. No contexto dos jovens que compõem esta pesquisa. na família (conflitos en- volvendo gerações. Torna-se possível investigar as construções e relações ocultas do modo de vida dos jovens de classe popular e suas relações no espaço escolar (pro- gressos e dificuldades no aprendizado). segundo o autor. a ritualidade e a tecnicidade. nesta mediação. p. etc. Des- te modo.18). A ritualidade. a família. O aparelho é carrega- do de resíduos culturais. p. a escolha. aos seus ritmos e formas. ocorrem as mudanças da sensibilidade e subjetividade dos atores que. criando e alternando conceitos e campos que definem a socialidade. jovens. observa-se que o aparelho celular perpassa a cons- trução da identidade individual e coletiva. a comunicação do ponto de vista desta mediação “se revela uma questão de fins – da constituição do sentido e da construção e desconstrução da sociedade” (2003. Flora Dutra plementarmente às mediações proposta pelo colombiano. intensificam as relações sociais. opções sexuais e condição econômica). as relações dos atores sociais tangem a classe. a análise do uso 47 .

48 . da educa- ção. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular social e do consumo de celulares modernos como forma de dis- tinção ou. ainda. Complementando com a noção de matrizes culturais. o patamar do simbólico. carregado desde já com signifi- cados mitológicos e/ou ritualísticos. Tem-se. remete ao processo de globali- zação. escutar e ler) relacionadas à questão do gosto. etc. dos saberes. por sua vez. dando sentido e significado às lógicas de produção que nortearão os formatos industriais. A tecnicidade. definindo o celular como produto e prática do consumo cultural. convergindo no poder da estética. 2003. p. dos usos repetidos através das formas e interações através da “gramática da ação” (olhar. está entre o Consumo e os Formatos Industriais. tem-se suporte para classificar as formas de representação e os formatos industriais. “restabelecendo acele- radamente a relação dos discursos públicos e relatos (gêneros) midiáticos com os formatos industriais e textos virtuais” (MAR- TÍN-BARBERO. repre- sentado por uma maçã mordida. A ritualidade.19). em que os processos. o desejo inconsciente de ter um iPhone. neste espaço. É nestes apontamentos públicos que o avanço da técnica materializa-se no discurso. como mediação proposta dentro do eixo sincrônico. perpassando a “práxis política e um novo estatuto da cultura”. Martín-Barbero cita modos de especificidades contemporâneas que podem ser extraídos des- ta mediação. as práticas sociais e os discursos têm sido cada vez mais mediados por aparatos tecnológicos como o computador ou os telefones celulares.

no de- correr do século XVIII. Flora Dutra 3. Para o filósofo marxista Henri Lefebvre (2010). pg. Com o desenvolvimento desenfreado do capitalismo. São elas a concep- ção cristã/medieval. o trabalho deixou de ser um meio pelo qual o homem se apropriava de sua essência. formulada pelos teólogos católicos na Idade Média. no qual. em que o indivíduo e a razão estariam em uma unidade harmônica (essa concepção correspon- de ao liberalismo e à burguesia da belle époque). 2010. são partes de um processo histórico. Enquanto os iluministas clássicos faziam a leitura de uma “história de opressão”. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é. o comunismo poderia vir a substituir o capitalismo como molde 49 . individuais ou coleti- vas. há apenas três concepções de mundo que dão conta de uma visão conjunta da natureza e do homem. a exemplo da história. buscando um sistema transformador para a sociedade. passando ser a garantia de sua subsistência. a concepção individualista. 12-13). com os rolezinhos ele afirma aquilo que é! (Renato Souza de Almeida) As características culturais e políticas. JUVENTUDE DE CLASSE POPULAR Os “rolezinhos” levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espa- ço lhes nega: sua identidade periférica. e a atual con- cepção marxista do mundo. tornando evidente a luta do homem contra a natureza (LEFEBVRE. Marx interpre- tava-a como história de luta entre classes. culturais e temporais. de transformações que ocorreram ao longo da trajetória humana – em extensões sociais.

51) resgata os diversos contextos e as apropriações do termo. na pior das hipóteses. Assim. A partilha por interesses de classe compõe o tecido em que as relações se arranjam. partilhado por atores em suas representações e práticas sociais nas diversas es- truturas da sociedade. mas reais. as identidades e o consumo são mais requeridos para entender como os atores com- portam-se frente às modificações sociais. No que se refere aos Estudos Culturais. ele se dissolveu (ESCOSTEGUY. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular perfeito para a configuração e instauração da liberdade e da igual- dade como conceitos. então. A partir do século XIX. de pobreza. Os estudos culturais mudaram sua base fundamen- tal. sem intenções morais ou po- líticas. Nesta pesquisa. sociólogos e inte- lectuais adentram por uma jornada sem fim. ainda. agora. Bauman (2011. como um modo de opressão. A categorização de classe social é. Em um primeiro momento histórico. Em um esforço por mapear as “memórias de classe”. organi- zada. mas frequentemente entendido. ele passou a ser uma ‘variável’ entre muitas. de maneira que o conceito de ‘classe’ deixou de ser o conceito crítico central. 31). representa o modo de vida de um coletivo. A partir do século XXI. a apropriação da classe em si era entendida em um novo vocabulário para designar. Na melhor das hipó- teses. etc. não quiméricos. controversa em di- ferentes discursos e interpretações – marxistas. o conceito de classe social vem perdendo força como incubadora de transformações e análises políticas. assumindo uma orga- nicidade dentro do espaço social. classe produtiva. 2010. classe serviu para designar classificações em diferentes variações de um grupo. não se condena o inte- 50 . grupos sociais: classe trabalhadora. não se abandona a classe social que. p. p.

lazer e cultu- ra. Para o sociólogo Antônio Sérgio Guimarães (2002). p. milhares de jovens brasileiros mudaram seus estilos de vida. logo. o econômico e o cultural. este grupo de desfavorecidos forma uma “nova classe trabalhadora precarizada. 9% é analfabeta. ou ainda diminuição dos juros.com. gênero como variante em certas pesquisas.pdf> 9 O Globo (21/03/2013). Para Sarti (1996). vendedores de força de trabalho.br/noticias/classe_media_01.com/economia/nova-classe-media-tem-trabalho-precario- pouca-instrucao-moradia-inadequada-7914148> 51 . disponível em <http://oglobo. destituídos de bens mate- riais. etnia. depostos da possibilidade do consumo. os pobres sempre foram pensados a partir da produção. flexibilidade na hora de financiar imóveis. ou ain- da classe C. Essa visão 8 Universitário. de re- cursos simbólicos.universitario. Assim. a sociedade moderna têm dois capitais importantes. 1996.globo. classe popular. foram olhados apenas pela sua condição de dominados” (SARTI. com moradia inadequada e segue endividada9. das elites dirigentes. a grande problemática que cerceava a discussão sobre as classes sociais é datada desde o surgimento da Socio- logia no país. representa mais da metade da população no Brasil. mas busca-se a integração de uma visão do ator como potencial transformador consciente de sua capacidade plena. Para Jessé Souza. a classe popular continua com pouca instrução.064 e R$ 4. do operariado industrial e do proletariado rural.5918 . cuja renda mensal varia de R$1. Flora Dutra resse por identidade. na década de 70. e 71% das famílias não têm plano de saúde. das classes médias. Embora a classe popular tenha fácil acesso ao crédito na hora da compra. raça. a nova classe média. assim. 20). com maior acesso aos bens de consumo. PDF. os estudos compreendiam a formação do em- presariado nacional. No Brasil. Hoje. Disponível em <http://www. “nesta perspectiva.

mas como um fio condutor do que é temporário.a potencialidade ou possibilidade de presenciar 52 . p. seria apenas a detecção de um sistema classificatório. uma categoria estável” (MORIN. e. 4) Classe sem privi- légios – são os muito pobres que não têm condições de aprender (SOUZA. Assim. a noção de classe designa. Assim como no surgimento das determinações sobre classe e suas contemporâneas interpretações. de outra parte. Para Souza (2009. como definiria Bourdieu para mapear as posições de classe de um determinado grupo social. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular empobrecida (de classe média) considera apenas a renda”. a classe de idade também não poderia ser interconectada com a classe social e. Para o fim da discussão. o recorte pela geração jovem nesta pesquisa é proposto por uma caracterização de “uma posição comum daqueles nascidos em um mesmo tem- po cronológico . São elas: 1) Classe Alta – detentora de maior poder econômico e saber especializado. o sociólogo declara haver quatro classes sociais no Brasil. 141). a classe de idade “conduz ao que é transitório. Para Morin (1977). 145). sem acesso privilegiado ao capital cultural. econômico e social (chamados de nova classe média). pode-se situar a classe de idade não como uma variante do campo cultural. 2009). um conhecimento que tem valor econômico. voltando ao princípio de classes decodificado historicamente por Bauman. 2) Classe Média – detentora de saber especializado. Deste modo. 3) Classe popular – classe trabalhadora pre- carizada. este conceito apenas econômico de pensar classe social “está inserido na cegueira de pensar que as classes se reproduzem apenas no capital econômico. quando a parte mais importante não tem a ver com isso. mas com o capital cultural. neste fluxo constante. ou seja. com tudo aquilo que a gente incorpora desde a mais tenra idade”.

que se opunham ao iluminismo e proclamavam liberdade de expressão sem restrições morais. 53 . Para Abramo (2005. juventude se refere a um momento que se contrapõe aos escritos maduros. p. entusiasmado pelos jovens artistas alemães da época. o psicólogo Stanley Hall. no caso a maturidade intelectual (MOREIRA. as relações de inclusão e exclusão dos jovens em nossa sociedade não são uma novidade. A ideia de juventude aparece vinculada a um processo temporal que revela movimentos humanos em dire- ção a um ideal de realização. cultural e relacional e. histórica. de vivenciar experiências semelhan- tes. Nesse caso. territo- rial. isto é. 10). 2010). mas. Não pode- mos localizar a primeira vez que o termo juventude foi utilizado. No século XX. p. SANTOS. política. sim. influenciado pelo mo- vimento alemão Sturm und Drang. ROSARIO. 459). econômica. crescer em força. 2011. Hall – em seu livro Adolescere (1904) – entende essa fase como portadora de grandes emoções e revoltas comportamentais. uma necessidade de pluralizar o momento de referir-nos a estes coletivos sociais. cunha o termo adolescência. adolescere – brotar. sobretudo. “a necessidade de conceber diferentes “adolescências” e “juventudes”. assim. em um sentido amplo das hete- rogeneidades que se possam apresentar”. A categoria juventude foi concebida como uma cons- trução social. originário do latim. Flora Dutra os mesmos acontecimentos. suas definições dependem de movimentações históricas. de processar esses acontecimentos ou expe- riências de forma semelhante” (WELLER. Ele en- tendia a adolescência como uma fase transitória de grandes agita- ções emocionais e. antes de o indivíduo estabelecer um equilíbrio na fase adulta. mas devemos mencionar que os primei- ros manuscritos de autores como Hegel e Marx são denominados por seus comentadores como escritos de juventude. mas.

o celular é o veículo mais utilizado. encontram-se a preva- lência do humor deprimido. A luta por uma qualidade de vida mais justa. Nas diferenças da atualidade com o pensamento de Hall estão a hereditariedade e seus com- ponentes genéticos. 2006. publi- cou uma série de ensaios e artigos a fim de revisar o conceito concebido pelo psicólogo Stanley Hall em suas similaridades e diferenças dos estudos originários e atuais. susce- tibilidade da influência da mídia. No Brasil. busca por altas sensações.com/articles/Arnett_2006_HP2. Influenciado pelo darwinismo. Eles também representam a base do consumo que inova em tecnologias. mobilização online e moda. 2006. Disponível em < http://pt. Desta forma. Disponível em <http://www. jeffreyarnett. STANLEY HALL’S ADOLESCENCE: Brilliance and Nonsense. como meio de acesso à Internet. melhor educação e condições de trabalho ainda carece de medidas emer- 10 G. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular A American Psychological Association. os chamados gadgets. p. ou brinquedos tecnológicos.slideshare. Os jovens merecem atenção ao se tratar de problemas sociais já citados.186-189). recentemente. A Pesquisa de Mídia Brasileira de 201411 revela que os sites mais citados como fonte de informação para jovens de 16 a 25 anos é a rede social Facebook e. Clark University. Nas similaridades. os jovens são o centro das principais discussões sobre as redes sociais.net/BlogDoPlanalto/pesquisa-brasileira-de- mdia-2014> 54 . compreendidas pela psicologia até hoje.pdf> 11 Pesquisa Brasileira de Mídia 2014. os debates sobre a juventude/consumo têm ganhado força no Brasil. Esses gadgets (inclui-se o celular) permitem aos jovens de classe popular novas práticas sociais. antes indisponíveis pelo alto custo de compra. o psicólogo não acreditava que os adolescentes deveriam estar enclausurados em uma sala de aula e que a evolução devia ser em participação com o meio ambiente para o desenvolvimento das habilidades (ARNETT10.

p. as contextualizações que pudessem servir para complementar o con- ceito. Em 2013. “diferen- tes segmentos juvenis explicitam demandas e constroem inéditas identidades e outros caminhos para sua emancipação” (ABRA- MOVAY. 2007. 02). Na leitura de Woodward. p. Seguindo este processo. a autora buscou. a ressalva foi por buscar entender as identidades de jovens de classe popular e também a identidade juvenil. pode inverter a lógica do individualismo que tão bem caracteriza a sociedade de consumo e do espetáculo” (2007. “a marcação simbólica é o meio pelo qual da- 55 . mas são necessários para a sustentação das identidades (2012). Para sustentar o conceito de identidade.1. 01). em um quadro teórico amplo. 3) o social e simbólico operam diferentes. Identidade Juvenil de classe popular O local e o global ganharam contornos intrínsecos e diversi- ficados nos fluxos midiáticos. Flora Dutra genciais. Dez tópicos são apresentados na tentativa de contextualizar identidade. e. destacam-se as três principais linhas que contribuem para a investigação: 1) a iden- tidade é relacional e a diferença é estabelecida a partir de outras identidades. 3. 30 milhões são jovens. O desafio está em abarcar este contingente juvenil em constante transformação emocional e social. 2) a identidade está fortemente ligada a condições materiais e sociais. conjugando inovações e tradições. Desta forma. A densidade demográfica é alta comparada a países menores. Ao longo desta pesquisa. Woodward (2012) aponta que as identidades são marcadas principalmente pelas diferenças. “só o diálogo profundo e cons- tante entre gerações. o Brasil ultrapassou 200 milhões de habitan- tes. Para a autora. destes.

constituído. podem haver negociações entre o individual e o coletivo. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular mos sentido a práticas e a relações sociais. A coincidência das interpretações só aponta diferenças quan- do Castells delimita as identidades primárias para sustentar o tempo e espaço. definindo. em transitoriedade para a pós-modernidade. 3) identidade de projeto que transmuta valores e acende posições de status dentro da estrutura social. por exem- plo. a construção da identidade tem ligação com os atributos culturais. pois “afora o sentido geral de se estar vivendo um período de nítida disparidade do passado. embora Castells trilhe pela sociedade em rede. três hipóteses foram levantadas. derivando múltiplas identidades com bases sociais ou materiais (CASTELLS. Para o espanhol. p.52). A partir da identidade coletiva de um grupo originado do processo histórico compartilhado dos atores. 2008. den- tro das perspectivas dos Estudos Culturais. em processos narcisistas. 2) identidade de resistência para posições desvalorizadas. organizado por Tomaz Tadeu da Silva (2012). há dificuldade de unificar e compreender conceitos tão comple- xos como este. An- 56 . e vai ao encontro do que Manuel Castells proferia em 1996. A combinação de interpretações é quase semelhante. p. quem é excluído e quem é incluído. Em outra contextualização. o termo com frequência tem um ou mais significados” (1994. 22-23). Como lembra o autor.14). É por meio da diferencia- ção social que essas classificações da diferença são ‘vividas’ nas relações sociais” (p. A interpretação da autora inglesa compõe o livro Identidade e diferença. hedonistas e outros. Giddens (1994) relembra que a autoidentidade estaria ligada de alguma forma ao psíquico. ao escrever “O poder da identidade”. a saber: 1) identidade legitimadora pelas instituições dominantes. 4) as identidades não são plenas e igua- litárias. na modernidade.

as identidades (já múltiplas) estão correlacionadas ao hibridismo cultural a que Peter Burke (2003) se refere ao dizer que os esquemas culturais e os estereótipos formam estruturas de percepção e interpretação. Não é fácil. para ele. já que se vive na racionalização da modernidade (1994. de uma forma ou de outra. p. Stuart Hall (2000) comenta: Estamos observando. pois. Neste cenário. p. 103). Na sociedade moderna. O conceito tem sido submetido. a compreensão da historicidade faz parte da modernidade e desconstruí-la passa a ser um exercí- cio físico alegre. a uma severa crítica. 57 . Flora Dutra thony Giddens faz uma crítica aos pós-modernistas que declaram o fim da história. Como “ler” a identidade juvenil ou dos jovens de classe po- pular através de um conceito que esbarra em divergências tanto entre os próprios teóricos quanto na própria origem? Hall propõe agregar certos conceitos oriundos tanto da psicanálise de Freud (identificação) quanto da nova posição do sujeito oriunda de Fou- cault (prática discursiva) para gerar um novo significado ao termo identidade. Imagens e re- presentações simbólicas advindas de outras esferas do local ge- ram identidades multíplices. criticam a ideia de uma identidade integral. na verdade. esse conceito está em crise.56). Como se pode explicar esse paradoxal fenômeno? Onde nos situa- mos relativamente ao conceito de ’identidade’? Es- tá-se efetuando uma completa desconstrução das perspectivas identitárias em uma variedade de áreas disciplinares. quando. situar-se em apenas um conceito sobre identidade. todas as quais. nos últimos anos. originária e unificada (HALL. a identidade juvenil ganharia contornos diversos em um ambiente reconfortado pela inserção midiática na vida cotidiana. pois. ao mesmo tempo. uma ver- dadeira explosão discursiva em torno do conceito de ’identidade’.

qualquer investigação sobre as relações entre identidades e mídia necessita articular a experiência vivida (local) em diferentes classes sociais” (RONSINI. os amigos. Os estilos de vida mudam constantemente.62). desta maneira. “desse modo. a discussão tem a saída estratégica que caminha na possibilidade de um conjunto de fatores que se tornam indis- pensáveis para a construção da identidade juvenil. como a famí- lia. rede- finindo o significado da própria existência humana. Para Bauman (2001). a passagem da sociedade de produção para a socieda- de do consumo trouxe os processos de fragmentação da vida hu- mana. assim. A questão da identidade assume um papel de extrema relevância para entender estes processos continuamente interligados à maneira de viver dos atores. a difícil compreensão do conceito de identidade poderá ser suplantada na medida em que se possa delimitar o contexto juvenil. tanto na produção quanto na circulação de significados. a produção e o consumo cultural. as redes online. os debates latino-america- nos têm como foco a remodelagem das identidades pelos pro- cessos comunicacionais. Assim. Estando os jovens à margem da po- sição geracional. p. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Em termos mais gerais. a escola. p. em sua modernidade líquida. a construção de identidades juvenis deverá permear os processos simbólicos dessa geração. 2007. o individualismo deu lugar ao pensamento coletivo. dois aspectos merecem destaque. “o da heterogeneidade promovida pela globalização e o caráter híbrido das culturas”. 61-62). 58 . Segundo Ronsini (2012. os atores têm de criar a sua própria identidade de um ponto zero e passar o resto da vida redefinindo-a. tanto no campo simbólico. como no social ou econômico. Pa- ralelamente. a adaptação de uma nova identi- dade é intrínseca às mudanças no espaço social.

é usado por adolescentes como única forma de comunicação onli- ne nas redes e na maioria do tempo está atrelado ao corpo. uma vez que geralmente são vendidos em camelôs. enquanto. adolescentes com poucos recursos financeiros puderam ter. entran- do de maneira ilegal no país. envio de SMS e internet 3G. A possibilidade de ter dois chips em um celular ajuda os jovens a manobrarem com bônus das operadoras os minutos de ligação. 63). pois estes passaram a estar mais conecta- dos que antes. o celular supre a solidão. A disseminação veloz do aparelho ganhou fama entre os jovens por alguns mo- tivos: TV online. Disponível em <http://oglobo. Flora Dutra Algo em comum na cultura juvenil popular nos dias de hoje é o uso do celular. dual chip e acesso à rede wi-fi. conteúdos foram gerados para as redes online. Com a diminuição de impostos para aparelhos como smartphones. elas se forjam como sementes híbridas em campos cercados por estruturas determinadas. p. a popularização entre jovens da classe C foi rápida. do tráfico e o desemprego. tendo o custo ainda mais redu- zido. Houve uma inclusão social de jovens de classe popular através do celular. O Instituto Data Popular12 12 Jovens da classe C têm maior escolaridade. globo. Desta maneira. em um único aparelho. Para Ronsini (2012. para outros. “as identidades se forjam em cam- pos cercados pelo medo da violência. As funcionalidades do aparelho de celular serviram como inclusão social e digital àqueles que não tinham acesso a outras fon- tes de informação e comunicação. entretenimento e informação praticamente de graça. Muitos des- tes aparelhos são contrabandeados de outros países. Frequentemente. do local ao global”. a visibilidade passou a ser uma busca interminável para uns.com/economia/jovens-da-classe-tem-maior-escolaridade-conexao-internet-sao-menos-conservadores-8195394> 59 . O aparelho constantemente aparece em fotos de perfil das redes sociais em um autorretrato. conexão à internet e são menos conservadores.

rs. por abrigar a Universidade Federal (UFSM).5% ao ano. Pessoas com 13 Santa Maria em Dados.2. para es- tes. 60 . em que as escolas estão organizando-se e adaptando-se em sua estrutura física e organizacional para satisfazer as necessidades permanentes ou temporárias apresentadas pelos alunos. há 750 professores. em várias escolas e grupos de gestores. cerca de 95% da população de Santa Maria era alfabetizada. O Programa que está em andamento em Santa Maria15 . o que aumen- ta a chance de a próxima geração mudar a cara do país. ape- nas 13 mil estudantes são de escolas particulares e. a Secretaria Municipal de Educação tem investido em ações voltadas para a inclusão social. realçar relações étnico-raciais e alfabetizar adultos. com crescimento anual de 3. Santa Maria ainda conta com a 4ª melhor distribuição de renda do estado13.gov. figura no ranking do RS com as maiores taxas de alfabetização e escolarização. Em 2012. indígenas. tem como objetivo elimi- nar preconceitos e discriminação por sexo ou raça. até o ano de 2010. o Ministério da Educação14 liberou ao município programas de inclusão educacional. Disponível em <http://www. O município. A pesquisa realizada desenhou o per- fil de 23 milhões de jovens da classe popular e descobriu que a educação está em primeiro plano para estes jovens. Juventude do Bolsa Família Sobre a educação.com. os indicadores revelam que. estando em 5º lugar.200 professores compõem a rede pública muni- cipal e estadual de ensino. contemplando 43 mil alunos. como cursos de educação continuada. 3. O programa com direito à edu- cação inclusiva e direito à diversidade busca contemplar qui- lombolas.br/smed/> 15 No Município de Santa Maria/RS.br/6-educacao/6-1-instituicoes-de-ensino- inicial-fundamental-e-medio/> 14 Secretaria de município da educação – Santa Maria. Cerca de 2. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular aponta que os jovens da classe C são mais conectados e menos conservadores que os pais.santamaria. Disponível em < http://santamariaemdados.

falhas cognitivas e distúrbios psicológicos. sejam ma- triculados um milhão de jovens através do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC). 500 mil jovens foram matriculados em cursos de qualificação profissional. mediante os resultados. hoje. dez cursos técnicos. Flora Dutra orientação sexual. diversidade religiosa também são atendidas pelo programa de educação inclusiva. sendo que. aos cursos técnicos ofe- recidos pela escola e pelo município. identidade de gênero. estadual e municipal são traçados com o objetivo de melhor enquadrar o jovem à melho- ria da qualificação profissional conforme a necessidade de cada região demográfica específica. Devidamente matriculado. no mínimo. Cada eixo abrange uma quantidade de. são 1. A verificação do insucesso escolar por parte de alguns alunos de rede pública é analisada por profissionais e.6 milhões de jovens pertencentes ao Bolsa Família. A distribuição desigual de renda aliada a condições vulnerá- 61 . Convênios entre o governo federal. Os cursos oferecidos variam entre 13 eixos de ensino que vão desde gestão de negócios. um plano é traçado para solucionar o problema daquele aluno em particular. situação de pobreza. produção alimentícia e cultural. condição de deficiência. até 2014. Em 2012. se- gurança do trabalho. o aluno poderá cursar durante e. Pro- mover o acesso e a permanência dos alunos na escola é a grande meta do projeto. que visa suplantar problemas de aprendizagem. a organização das escolas é repensada em seu aspecto de mudança estrutural e social. etc. A Secretaria de Educação de Santa Maria ainda conta com o projeto “Programa de atendimento especializado municipal”. posteriormente. alguns dos entrevistados seguem acompanhamento psicológico dentro deste programa. Desta maneira. A previsão é que. hotelaria.

gov.00 para as famílias que possuem adolescentes de 16 a 17 anos. basta comprovar uma ren- da de até R$70. Para a família cadas- trar-se no Programa. o Bolsa Escola e o Cartão Alimentação em um só programa. 16 Disponível em <http://www. cerca de 40 mil famílias recebem o auxílio do governo. Para ser beneficiário do Programa. Nesse contexto. na Caixa Federal para cadastramento de senha. A seleção dos contemplados é feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Maiores de 18 anos que moram na residência devem apre- sentar carteira de trabalho.brasil. Em Santa Maria. o governo Lula criou o Programa Bolsa Família para beneficiar famílias em situação de pobreza e vulnerabilidade so- cial. o repre- sentante recebe o cartão Bolsa Família pelos Correios ou o retira. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular veis de moradia e alimentação são o reflexo de um país que ainda busca suprir as necessidades básicas da população e perpetua a menor probabilidade de os jovens aumentarem seu capital cultu- ral ou ascender a um status social mais elevado.br/noticias/arquivos/2010/01/21/cadunico> 62 . resul- tando o Bolsa Família. basta direcionar-se à prefeitura do municí- pio onde residem e realizar o cadastro no CadÚnico – Cadastro Único dos Programas Sociais do Governo Federal16. A ajuda de rápido acesso teve o intuito de suprir as necessidades financeiras mais urgentes. Depois de a família ser aprovada. pessoalmente.00 por pessoa ou de até R$140. Referente à educação. CPF e título de eleitor e menores devem apresentar a certidão de nascimento e a frequên- cia escolar. em 2003. O governo unificou vários outros programas de assistência de governos anteriores como o Bolsa Alimentação. as famílias com crianças de seis a 15 anos devem ser devidamente matriculadas em colégios públicos e comprovar uma frequência mínima de 85% da carga horária es- colar. identidade. o Auxílio Gás.

a taxa de aprovação dos beneficiários é de 79. 17 Más compromiso por la equidad. disponível em <http://www. o benefício colom- biano favorece três milhões de famílias que recebem cerca de R$150. A pesquisadora e Assistente Social Mônica Colares coletou informações e resultados desde o início dos primeiros programas assistenciais que datam da década de 90. No Ensino Médio.br/noticias/ arquivos/2013/07/29/beneficiarios-do-bolsa-familia-tem-frequencia-escolar-acima-da-media> 63 .dps. na Colômbia.10-12).co/Ingreso_Social/FamiliasenAccion. Com os mesmos objetivos de erradicar a pobreza e estimular a educação. são 18 milhões de estudantes de até 17 anos no país pertencentes ao BF. O intuito maior destes programas de transferência direta de renda é combater a fome e. Hoje. o benefício é esten- dido até os 20 anos de idade. p. cadastros e unificações. Há uma flexibilidade maior quanto à Bolsa Família. o grande desafio passa ser a verificação efetiva da mudança estrutural no país.1% entre os beneficiários do programa. o governo colombiano ins- tituiu o “Más famílias en acción17”.00 por mês.9%. Uma reestruturação nas formas avaliativas e um maior controle social poderiam dimensionar os verdadeiros benefícios ou falhas de um sistema de transmissão de renda direta ( 2010.2%.gov.gov. Con- forme o Portal Brasil18 do governo federal. com isso. ante 10. proporcionar melhores condições de saúde e educação para os menos favorecidos. Flora Dutra Inspirado no programa brasileiro. Disponível em <http://www. A cobertura do programa estende-se a 1.8% da média nacional.aspx> 18 Beneficiários do Bolsa Família têm frequência maior acima da média. Já a taxa de abandono é de 7.brasil.102 municípios e contempla famílias com menores de 18 anos. depois de tantas elaborações. sem ape- nas quantificar dados estatísticos. onde os estudantes devem frequentar 80% da carga horária e. en- quanto a média nacional é de 75. caso interrompam os estudos por dois anos.

html> 64 . em 2013. Segundo Salatiel19 (2013). Estes dados20 representam 12% de todos os incluídos desde 2003. Um dos aspectos que vai ao encontro da presente pesquisa é a peque- 19 Bolsa Família. tendo como foco atenuar a desigualdade social. diminuindo as hierarquias sociais na melho- ria da educação e da qualificação profissional.htm> 20 Milhões de beneficiários abandonam o Bolsa-Família voluntariamente. A necessidade de trabalhar em políticas públicas em rede para jovens é um dos assuntos que vêm sendo debatidos e cons- truídos na última década no país. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Economia.pragmatismopo- litico. os direitos e os defeitos. Ao longo de cinco anos. Voluntariamente. chefes de família. não tem validade para o término do benefício. Disponível em <http://vestibular. os autores colheram entrevistas com mulheres nas regiões menos favorecidas do Brasil e traçaram um mapa sobre como o programa foi capaz de mudar social e culturalmente a vida destas mulheres (incluindo jovens).com. A resposta do governo a essas e outros questões já colocadas an- teriormente talvez tenha sido respondida em maio de 2013. permanece como uma fonte de renda contínua já que a família. Muitas pesquisas apontam indicadores sobre o avanço na educação. depois de inscrita.uol. Os pesquisadores Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani lançaram. quase dois milhões de famílias declararam receber mais que o permitido pelo progra- ma e abandonaram-no.br/2013/05/familias-abandonam-bolsa-familia. Disponível em <http://www. mas poucos estudos estão preocupados em entender culturalmente as pessoas e. bens e serviços começaram a circular nas mãos dos pobres.com. principalmente. dez anos depois de sua criação. o livro Vozes do Bolsa Família. na inserção do mercado de trabalho e na melhoria das condições de vida.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/ bolsa-familia-o-direito-e-os-defeitos. o programa não evolui. os jovens beneficiários deste programa de transferência de renda direta.

Os índices foram atribuídos à frequência exigida. o avanço é pouco. Atualmente. para os autores. com. a educação ainda trava desenvolvimento no Brasil. pois. Tereza Campello22. 2014. os alunos da Região Norte do Brasil destacam-se pelo nível de aprovação escolar. Disponível em <http://www. no resto do país.uk/portu- guese/noticias/2013/07/130722_idh_municipios_pai. desejos e necessidades (REGO. ficando acima da média nacio- nal. Disponível em <http://educacao. intenções. Enquanto. 33). em que os estudantes do Bolsa Família estão tendo melhores rendimentos. apenas 41% dos jovens de até 20 anos têm o ensino médio completo21”. O Brasil ainda perma- nece com os piores índices de educação do mundo. o espaço de encontro das trajetórias socioculturais das maiorias e.shtml> 22 Com Bolsa Família. PIN- ZANI.br/noticias/2013/05/16/no-e-ne-com-bolsa-familia-alunos-tem-aprovacao-maior-que-media-do-pais. a média é de 75%. 21 Apensar de avanços. majoritariamente. Flora Dutra na possibilidade crítica que estes beneficiários têm à realidade social. 11). p.co. Autonomia pres- supõe um sujeito capaz de se afirmar perante o ou- tro como ator apto a fundamentar verbalmente suas ações. no Norte.uol. é 85%. p. a escola pública é. é nela que se produz a mais ampla e permanente transformação da cotidianidade social e cultural cujos protagonistas são os excluí- dos (MARTÍN-BARBERO. Mesmo com as melhorias na área educacional divulgados pelo governo. mas o Ensino Fundamental apresentou pioras. o índice de evasão escolar dos estudantes beneficiários do Bolsa Família diminuiu. “segun- do os dados de 2010. Entretanto. Assim. portanto.bbc. A impossibilidade de articular exigências e até des- crever a própria situação em termos de um ponto de vista que não seja o das classes dominantes resulta em inevitável perda de autonomia. alunos do Norte e Nordeste têm aprovação maior que a média. Conforme a ministra do Desenvolvimento Social.htm> 65 . 2013.

com.html> 24 Divergência sobre o uso do Fundo Social será resolvida a longo prazo com novo projeto de Lei.abril. outros pontos ainda precisam ser revistos como o desemprego juvenil. Os dados são ainda mais alarmantes. tendo como consequência o abandono da escola. disseminam-se funk e violência em salas de aula. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Conforme o sociólogo Caio Barbosa23. Disponível em <http://noticias. O tráfico e uso de drogas entre os jovens continua sendo um problema nacional.r7. repercutiu ainda sobre a decisão que des- tina 100% dos royalties do pré-sal para a educação. a má qualidade de vida e ainda assuntos que envolvam o sis- tema carcerário juvenil. o pronunciamento da Presidente Dil- ma Rousseff (21/06/2013). proliferam demonstrações eróticas. O alcoolismo também é fator de preocupa- ção social. Posterior- mente ao discurso da Presidente. Em uma década. Disponível em <http://exame. porque o levantamento do Centro Brasileiro de 23 Enquanto o país ocupa o penúltimo lugar em ranking de educação. agressões de alunos contra professores. a drogadi- ção. brigas entre gangues e precon- ceito.br/brasil/noticias/ numero-de-jovens-no-trafico-de-drogas-triplica-em-10-anos> 66 .com/brasil/aprovado-projeto-que-destina-75-dos-royalties-do-petroleo-para-educacao-e-25-para- saude-14082013> 25 Número de jovens no tráfico de drogas triplica em dez anos. além de incluir respostas sobre a mobilização nacional feita pelos jovens sobre o aumento das tarifas dos ônibus. ao mesmo tempo em que escolas são fechadas devido à péssima infraestrutura.folhapolitica.org/2013/05/enquanto-o-pais-ocupa-o-penultimo-lugar. Disponível em <http://www. Mesmo com a proposta da reforma brasileira. Vendo a necessidade de melhorar a qualidade da educação. a Câmara dos Deputados24 aprovou (14/08/2013) apenas 75% dos recursos para a educação e o restante para a área da saúde. no contexto das es- colas públicas. uma vez que cerca de meio milhão de adolescentes já sofrem com doenças relacionadas ao álcool. o número de jovens tra- ficantes aumentou consideravelmente de 5% para 39%25 só no estado de São Paulo.

A reincidência e o domínio do porte de aparelhos pelos alunos está sob proibição de Leis no Brasil. “na escola. mostrou que a idade de início do consumo fica em torno dos 12 anos. antes de tudo.br/saude-nutricao/40/artigo42605-1. que envolveu estudan- tes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública.uol. Tecnologias móveis no espaço escolar Ao discutir os usos do celular em sala de aula como fator in- disciplinar pela instituição escolar. 2008. Segundo o autor. Moraes (2008) debate as práti- cas como formas de subjetivação. já que. Moraes entende que a posse do aparelho móvel e o acesso a ele no espaço fechado em sala de aula é. 19). surge a partir do uso do celular em sala de aula uma nova forma de poder: o controle. p. pois “os métodos tra- dicionais da escola restritos a quatro paredes. Apoiado em Foucault. a escrita. 2008. o aluno reincide e acentua o “delito” dentro de sala de aula. Disponível em <http://revistavivasaude. que dialoguem com os fluxos e aparatos comunicacionais rivalizam com as práticas escolares de confinamento. Meios de controle flexíveis. a leitura. diferen- ciando e classificando os indivíduos dentro dos seus limites ter- ritoriais” (MORAES.asp/> 67 . uma luta contra a dis- ciplina e a vigilância. 26 Beba com moderação. o quadro-negro. as práticas de disciplinarização atravessam seu cotidiano. não são mais do que uma ilhota em meio aos fluxos de informações. como a palavra. Flora Dutra Informações sobre drogas psicotrópicas26. apelos e solicita- ções prementes de um universo digital em tempo real” (MORAES. p.3. normalizam e punem os atos com exatidão. enquadramento e vigilância.com. 17). Os jovens portadores de seus aparelhos em aula desestabilizam as relações de poder entre aluno e professor. Ao sentir a perda da liberdade da disposição dos bens (celular). 3. o giz.

Na Paraíba. no caso de descumprimento da determinação. Se- gundo ele. que proíbe o uso de celulares em sala de aula. Disponível em <http://www. O deputado Professor Theodoro (2011) elaborou o projeto que apoia o uso disciplinar em sala de aula para celulares e tablets. O político foi inspirado pelo projeto de rede pública de Fortaleza.br/tecnologia-na-sala-de-aula-2/> 68 .br/Default.al. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular O deputado estadual de São Paulo.orlandomorando.noticia.br/?noticia=253> 28 ALPB derruba veto e proíbe celular em escolas. aspx?tabid=185&ItemId=22581> 30 Com projetos inconstitucionais.819/2007. do deputado es- tadual Nivaldo Manoel28. segundo a proposta parlamentar.com.al. a situação parece ser um pouco diferente do resto do país. “tivemos muitas queixas de professores devidos os alunos conversar no celular em sala de aula. os estados de Santa Catarina. trocar mensagens de texto ou mesmo ouvir música27”. “o uso indisciplinado da tecnologia pode ser prejudicial ao homem”.gov. Para o político. e. Disponível em <http://www. também proíbe o uso dos celulares em aula. em nota da As- sembleia Legislativa. Goiás e Espírito Santo sancionaram projetos de leis que proíbem o uso do celular nas escolas. o deputado Adolfo Menezes30. o projeto foi da autora Celina Jallad29.br/3263> 29 Projeto de Lei proíbe uso de celulares em sala de aula. aparelhos de MP3 e MP4 no horário de aula. A organizadora do projeto elenca as atividades que 27 Orlando Morando parabeniza professores. Rio Grande do Sul.ms.730. criou a Lei 12. Na Bahia. Rio de Janeiro.com. atra- vés do projeto de Lei 16. Já no Ceará.pb. o Poder Executivo estabelece as normas necessárias à fiscalização e aplicação das penalidades cabíveis. proíbe o uso de celular. coordenado pela professora Terezinha de Souza31. Assembleia Legislativa vira máquina de projetoides. o projeto de Lei 282/2007. Disponível em <http://www. Também no ano de 2007.br/com-projetos-inconstitucionais-assembleia-legislativa-vira-maquina-de-projetoides-10-37632.com. Orlando Morando. Disponível em < http://professorteodoro. jogos eletrônicos.gov.html> 31 Tecnologia na sala de aula. No Mato Grosso do Sul. Telinha na Escola. disponível em <http://www.met- ro1.

atitude. assim. Buscar alternativas flexíveis no contexto da mobilidade no processo ensino-aprendizagem parece crucial no avanço da edu- cação no país e na difusão científica do conhecimento. p. sancionaram a proibição do uso do aparelho em sala de aula a partir do ano de 2007. “o in- divíduo constantemente vigiado aprende a vigiar a si mesmo. rapidez. políticos.  Festival de microtextos. documentários. Moraes (2008) comenta que a coerção sem folga. mas é sentida permanentemente. vela os processos da atividade reflexiva e “esquadrinha” o tempo. chegando à expulsão da escola. quase em um nível mecânico – movimentos. além de transferir conteúdos via Bluetooth. através de projetos de leis. Negligen- ciando a potencialidade dos celulares como ferramenta educa- cional e sem políticas públicas capazes de atender à demanda de usuários em seus diversos contextos sociais. programas de áudio. A partir dos séculos XVII e XVIII. A vigilância sobre o uso do celular em aula não ocorre todo o instante. deputados e governadores de diversos estados do país. gestos. o seu próprio guardião” (MORAES. Para Moraes. 2008. Ser pego usando um celular em sala de aula é visto como mau comportamento. 62). e punições como suspensão. o espaço e os movimentos. Flora Dutra podem ser feitas via celular: vídeos de bolso. principal- mente para crianças e jovens de classes populares. tornando-se. pois a utilidade do corpo é definida como anatomia política ou mecânica do poder e tem na disciplina o aumento das forças do corpo. in- ternaliza as relações de poder. essas formas de dominação ficaram claras. são atitudes hierarquizadas que classificam os comportamentos dos alunos em “bons” e “maus”. aprende a disciplinar seu corpo e sua forma de vida. que têm nes- 69 .

Moraes (2008) compartilha da mesma preocupação sobre a atualização dos mé- todos de ensino. Embora o autor reconheça que nem todas as práticas relacionadas ao aparelho são censuráveis. “mas como possibilidade de criação de uma obra aberta e dinâmica. “ao mundo”. O pesquisador Scott Campbell (2007) analisou o uso dos tele- fones celulares em sala de aula por estudantes de baixa renda de uma universidade de Londres e seu prejuízo em relação ao desvio de atenção. como a educação a distância. and classroom policies”. cheating. O projeto visa desenvolver a construção de novas formas pedagógicas de ensino. o celular pode ser usado como ferramenta de auxílio em provas. a escola entra em conflito com o curtíssimo prazo contemporâneo e é forçada a rever suas posi- ções” (p. 131). tanto os estudantes quanto os professores londrinos veem o uso da tecnologia em sala de aula negativamente. à medida que se utilizam signos na formação do conhecimento” (ISMAIL. transmissão de fotos e resultados de exames e de diversão como jogos online e música. Para a autora. O estudo revela que. 2011. Oliveira (2012) acredita que a crise no Ensino Médio brasilei- 70 . novas oportunidades educativas estão surgindo. e são favoráveis a po- líticas públicas para a proibição em salas de aula. “dessa forma. a interatividade não é caracterizada apenas como experiência ou agenciamento do estudante. Ismail (2011) desenvolveu junto ao Departamento de Tecnolo- gias da Informação da UNICAMP métodos de interatividade entre aluno e professor através de SMS. além da distração. em que os experimentos e novas situações de aprendizagem se reconstroem a cada lição. p. 23). Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular te objeto o único acesso à internet. Como resultado obtido na pesquisa “Perceptions of móbile phones in col- lege classrooms: ringing.

2012. 2011. está longe de atingir grande parte da população juvenil. sugere que o longo tempo no qual esses sujeitos permanecem conectados pode estar atrelado a uma dis- posição comportamental para obtenção de prazeres sensoriais e. em vídeos. disponibilizam a experiên- cia dos prazeres da audição e da visão. mesmo com os esforços do governo federal em disponibilizar cursos de qualificação pro- fissional. for- çando. CAMPBELL. definir. muitas vezes. 2008). Flora Dutra ro parte de elementos que capturam a atenção do jovem. A democratização cultural no Brasil. ISMAIL. Os recursos audiovisuais proporcionam para os jovens do Ensino Médio uma imersão no ciberespaço. p. Ainda é cedo para julgar. o celular é um artefato indispensável na vida de qualquer estudante e um objeto presente nas salas de aula. tendo o aluno o papel de receptor de novas aprendiza- gens. MORAES. tornando-se motivo de revolta e frustração por parte de professores e alunos. Apresentaram-se algumas perspectivas do uso do celular e das novas tecnologias em sala de aula (OLIVEIRA. Mas de uma coisa sabemos. Navegar na internet. O acesso constante ao celular em sala de aula torna-se “fuga” 71 . pois o objeto de estudo tem quatro décadas de história. 197). O campo ainda é fértil para discussão. no celular ou em casa. sendo capaz de transformar o espaço educacional. mas do mun- do. 2007. 2012. como na plataforma Youtube. não só do Brasil. os educadores a reverem suas maneiras de ensino. não somente. uma vez que “a atual predileção dos jovens pela virtualidade da internet. para estabelecer contatos interpessoais” (OLIVEI- RA. liberar ou condenar o uso do celular em sala de aula. Esta ressalva revela as desigualdades sociais advindas do sistema de ensino. como os hipertextos.

Para o autor (2014) a relação entre a escola e as novas tecno- logias decorreria da introdução da técnica. as práticas sociais juvenis. 65). p. A escola pública. práti- cas especializadas como as artes. com as novas figuras da sociabilidade. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular para uma realidade injusta e desigual perante os outros na mesma posição geracional e em melhores condições econômicas. 12). como o uso constante do apa- relho celular. que conecta as novas condições do saber com as novas formas de sentir. não constitui hábitos aos alunos na busca por saberes e habilidades. ou até mesmo. “o certo que é que até agora a presença da tecnologia não plasma transformações nem incentiva a inovação” (MARTÍN-BARBERO. uma posição social melhor. 2014. mas que se esgotaria 72 . tornando absoluta uma cultura que asfixia a própria voz salvando apenas uma minoria e ensinando em con- trapartida que àqueles que chegam mais longe tem direito a um capital econômico maior. Atual- mente. reordenando e desmontando velhas e resistentes formas de inter- mediação e autoridade que configuravam até pouco tempo o estatuto e o poder social da escola (MARTÍN- -BARBERO. os meios audiovisuais constituem um novo e pode- roso âmbito de socialização. Ao mesmo tempo. isto é. traçando uma linha tênue entre legitimidade e ilegitimidade cultural. ou seja. 2014. com maiores privilégios. de elaboração e transmissão de valores e pautas de comportamento. p. suas ânsias e suas lutas. de padrões de gosto e de estilos de vida. e ambas com os novos modos de estar juntos. desta forma. Para Martín-Barbero (2014) a escola continua consagrando uma linguagem retórica e distante da vida. A obscura certeza de que a crise do livro e da leitura remete a um âmbito mais amplo de mudança cultu- ral. podem ser compartilhadas em diversas classes so- ciais. da sensibilidade. de suas penas.

mas isto nem sempre acontece. p. p. que atravessam as relações da escola com a sua sociedade. p. reflexividade e criatividade”. O que conduz necessariamente a um uso instrumental dos meios e das tecno- logias” (2014. 73 . 2014. por exemplo) serem incapazes de deter “a deterioração escolar. ou o altivo desprezo com que se identifica a mutação tecnocultural do mundo que habitamos com a mais fatal das decadências do Ocidente (MARTÍN-BARBERO. Não havendo controle sobre a entrada dos aparelhos na es- cola. Para ele “o desordenamento dos saberes e as mudanças nos modos de narrar estão produzindo uma forte explosão nos moldes escolares da sensibilidade. 77). a estratégia dos professores atualmente é solicitar o des- ligamento dos aparelhos durante a aula. Olhar a atual situação da escola – do modelo escolar de educação – de dentro e falar sem raiva de tudo o que na sociedade do conhecimento se questiona e recoloca sobre a sua desencantada vinculação é algo muito difícil de encontrar hoje na apocalíptica irri- tação com que funcionários e especialistas nos ator- doam. 118-119). colocando em um lugar estratégico o alargamento dos modos de sentir e de pensar. Flora Dutra rapidamente à capacidade amenizadora de alguns dispositivos (o celular. 66). A observação etnográfica desta pesquisa revelou que os professores têm grande dificuldade em disciplinar o uso do aparelho em sala de aula. 2014. mas capazes de amenizar o tédio da rotina. assim como a articulação entre a lógica e a intuição (MARTÍN-BARBERO. Mas o paradoxo é que o que mais abunda é uma ardilosa instrumentalização das “novas tec- nologias”. para cobrir com ruído e brilho digital a profundidade da crise.

ou que ao menos permitem que nos entenda- mos (CANCLINI. sociologia da globalização (SASSEN. 61). na área acadêmica. P. Em poucas décadas. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 4. próprias da era digital. 2005). sociedade de consumo (BAUDRILLARD. Sociedade da informação (WERTHEIN. CONSUMO DE TECNOLOGIAS MÓVEIS NA AMÉRICA LATINA Vivemos em um tempo de fraturas e heterogeneida- de. sociedade do so- nho (ROCHA. 2008). da moda e do saber. aldeia global 74 . a necessidade de abordar novas temáticas e disciplinas transfor- mou-se em tema de estudo. reflexão e polêmica entre os estu- diosos contemporâneos. a mobilização das massas que começa através de um e-mail. a rede online. de um SMS. as redes sociais. sociedade em rede (CASTELLS. À margem de mudanças. analisavam as transformações sociais e políti- cas separadamente do curso histórico que seguia a humanidade. a Internet. 2010. 2011). 2010). o processo social que permeava a socie- dade. passou a ser de integração global. 2000). de uma mensagem de voz. Hoje. os desacordos e as disputas têm outra ênfase. Considera-se certo dizer que as sociedades sempre viveram em desacordos ou disputas por questões pontuais como o domínio econômico. não podendo ser negligenciado pelos que. que antes se dava no âmbito local e nacional. os fóruns de discussões. Mesmo revelando muitas debilidades. de segmentações dentro de cada nação e de co- municações fluídas com as ordens transnacionais da informação. a inserção política e social dos atores sociais perpassa a rede online. Em meio a essa heterogeneidade encontramos códigos que nos uni- ficam.

75 . às vezes. conservam percepções e. no volume I . 2004) são apenas alguns termos que entram na arena das análises para abordar as novas experiências do mer- cado econômico. com reflexões e consequências da virada do século. reúne. 1972). a sociedade em rede se constitui como um sistema global. No entan- to. das migrações populacionais e dos fluxos de capitais.Sociedade em Rede. em que ele diz que “como as redes não param nas fronteiras do Estado-nação. mundialização (ORTIZ. na economia e. 2011. p. 1996). por outro. Na tentativa de entender o fenômeno. de ambas as vertentes. Flora Dutra (MCLUHAN. intelectuais. procurar decifrá- -lo. modernidade líquida (BAUMAN. há um prefácio atualizado pelo autor em 2009. na trilogia: Era da Informação: Sociedade em rede. p. O poder da iden- tidade e Fim de Milênio. Manuel Castells. pre- nunciando a nova forma de globalização característica do nosso tempo” (CASTELLS. como profere Ortiz: O mundo das últimas décadas transformou-se radi- calmente. 1996. se por um lado falta uma tradição acadêmica. social e política mundial. que trabalhe de maneira aprofundada o movimento da globalização. na política (ORTIZ. em delimitar a área do conhecimento no que diz respeito à globalização. Muitos autores. São pertinentes os debates a partir da integração econômica. embora as assimetrias que tal processo engloba contornem estruturas epistemológicas. 07). na década de 90. Vemos seus sinais na mídia. e cabe a nós. mesmo sabendo de nossa condição fragilizada em relação a esse quadro tão abrangente. contra- dições. II). até mesmo. e. os indícios de seu avanço são inegáveis. Os volumes da tri- logia estão na 14ª edição no Brasil. os principais movimentos e consequências da globalização.

Em conse- quência. p. A era da informação suscita a urgência de uma teoria e. Desta forma. os usuários podem assumir o controle da tecnologia. O limite da difusão das nossas tecno- logias vem marcado pelas estruturas sociais e valores culturais pré-existentes. como no caso da Internet. O tecnológico vem ocupando espaço e tornando-se im- prescindível em diversas atividades humanas. Os atores sociais nas redes assumem o controle tanto da produção do conteúdo quando da difusão das mensagens. tanto entre atores como entre classes sociais distintas. Devido a sua penetrabilidade em todas as atividades huma- nas. neste sentido. Essa reorganização das práticas pode ser repre- sentada pela domesticação do celular. que redefine o marco do papel estrutural do nosso tempo. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Portanto. e fazer parte desse novo pertencimento é fundamental para a inserção social. criando sen- sações de segurança e permitindo uma maior coordenação de ati- vidades sociais. é esta estrutura em rede que propicia circunstân- cias específicas. Una perspectiva global (CASTELLS. A Revolução Tecnológica alterou a socialidade. III). trava-se uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da socie- dade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Castells propõe “novos conceitos e uma nova perspectiva teórica para a compreensão de tendências que caracterizam a estrutura e a dinâmica das nossas sociedades do século XXI”(2011. 2007). Em seu livro Comunicación Móvil y Sociedad. o autor defende a existência de uma cultura que faz da comunicação móvel uma forma adequada de expressão e reafirmação social. a Revolução Tecnológica é o ponto de análise de Castells para 76 . que determinam o uso tecnológico como projeto de modo de vida.

Disponível em <http://www. similar ao que se observava no final da década de 90” (pg. em vários aspectos. redes sociais). As debilidades da trajetória econômica latino-americana ainda respingam entre os menos favorecidos e na qualidade de vida. entre 1999 e 2011. “a incidência de pobreza da América Latina diminui em mais de 14 pontos per- centuais. No campo da comunicação.eclac. celular. o perfil das pessoas pobres é. 32 Panorama Social da América Latina. Com isso.pdf> 77 . pois 168 milhões de pessoas ainda vivem em situação de vulnerabilidade social na América Latina: “os 10% mais ricos da população latino-americana recebem 32% da renda total. mas ainda está longe de atingir um equilíbrio justo. A questão da educação entre pessoas consideradas indigentes e pobres incide em maior quantidade nos jovens. deixando para trás as contradições e controvérsias em diferentes momentos históricos. Conforme o Panorama Social. Nações Unidas e CEPAL. a taxa de pobreza diminuiu em países como Paraguai. O crescimento latino- -americano alcançou a média anual de 3. em que emergem mudanças diárias. enquanto os 40% mais pobres recebem apenas 15%” (Pa- norama Social da América Latina. Apesar disso. Peru e Brasil. internet. Compreender as especificidades da problemática do desen- volvimento exige avanços na criação de um novo ethos latino-a- mericano. Flora Dutra a complexidade da nova economia. as informações circulam por meios convergentes entre si (TV.2%. Equador. 2012). rádio.cl/publicaciones/ xml/2/48452/PanoramaSocial2012DocIPOR. Colômbia. já que mais da metade da população vulnerável economicamente é formada por crianças e adolescentes sem educação primária. A concentração de renda que gera altos graus de desigualda- des vem sendo combatida. A edição de 2012 do Panorama Social da América Latina32 apresentou material substancial de análise. sociedade e cultura em for- mação.17).

o desemprego. Com a expansão do mercado global. com graus de miopia. especialmente nas classes populares. a modernização estabelece laços fracos entre o Estado e seus mer- cados nacionais em formação. o enredo que culminou a cultura de massas no século XX. como potencialidade para consumir e também servir de mão de obra barata. segundo o autor. originando a “descontinuidade si- multânea” que. p. 225). A fragilidade dos sindicatos. Estes planos são a parte da história em que acor- damos e vemos. EUA. dá-se em três planos: “no des- compasso entre Estado e Nação. Deixam-se apenas per- cepções que possam contribuir para uma reflexão na evolução do consumo cultural. a desigualdade social é de grande utilidade ao resgatar debates historicamente já conheci- dos. China e Europa expandiram ne- gócios na América Latina. no modo desviado que as classes populares se incorporam no sistema político e no papel político e não só ideológico que os meios de comunicação desempenham na nacionalização das massas populares” (MARTÍN-BARBERO. a riqueza das matérias-primas e a grande população latino-americana. os meios de comunicação 78 . 2003. mas não é o caso desta dissertação. A partir do avanço da industrialização na América Latina. construindo o clima reinante nas concordân- cias dos consumidores latino-americanos em seu contexto social. p. 226). impulsionaram o comércio internacional. também descritos por tantos outros estudiosos. os deslocamentos no âmbito teórico e metodológico sobre como se percebe e estuda a situação latino-americana (2003. depois da Segunda Guerra Mundial. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Tentar cobrir importantes temáticas na América Latina como o trabalho infantil. Martín-Barbero observa que as transformações na América Latina percorrem além de transformações produzidas na cultura.

mediado por conexões fixas ou móveis. como diria Morin (1984) sobre a crítica marxista da alienação à civilização burguesa: “na falsa cultura a alienação não se restringe apenas ao trabalho. um bem simbólico comum a todos os atores latino-ameri- canos (de diferentes posições geracionais. 2010. versa sobre a “industrialização do espírito”. A incorporação do aparato tecnológico como modo de vida no século XX e a consolidação deste. quando os meios são desviados de sua fun- ção política. através da Internet. mas cedem aos inte- resses privados a tarefa de dirigir a educação e a cul- tura – e a ideologia se torna agora sim informadora de um discurso de massa. antes. 1984. a realidade dos meios massivos pendia para a re- lação entre o social e o político. 243). Se. p. Observa-se que este objeto de tamanho pequeno. 17). O consumo dos bens simbólicos torna-se ritual. então. quase sempre atrelado ao corpo. que o dispositivo econômico se apodera deles – porque os Estados mantêm a retórica do ’ser- viço social’ das transmissões. agora. Flora Dutra foram os difusores da economia em expansão e novo estilo de vida pequeno burguês. provocam reações e contra-ações que as submergem” (MORIN. no século XXI. O produto que caracteriza. tão retórica quanto a ’função social’ da propriedade. pois “as ações se desviam do seu curso. nesta inves- tigação. a realidade dos meios volta-se para o consumo. 2003. invertem seu sentido. p. reconfiguram os sentidos e as estruturas das práticas culturais e os usos sociais. p. 16). mas atinge o consumo e aos lazeres” (MORIN. É. é o símbolo da sociedade da in- 79 . étnicas ou sociais) é o telefone celular. O progresso da técni- ca. derivam. agora. que tem como função fa- zer os pobres sonharem o mesmo sonho que os ricos (MARTÍN-BARBERO.

se instalando em práticas de comunicação em milhares de pessoas em todo o mundo” (CASTELLS. as hierarquias também. estes fenômenos foram registrados através da Internet. No mesmo mês e ano. digital. são vistos por Martín-Barbero (2004) como desor- denamento cultural.internetworldstats. com múltiplas funções e configurações. Estes fenômenos. Assim como as diferenças sociais podem ser invisíveis no mundo virtual. em que as diferenças sociais na conexão online tendem a desaparecer. as representações duplicam-se.asp> 80 . 387). culturais e de lutas simbóli- cas.br <http://www.2% da população latino-a- mericana. O portal de estatísticas em In- ternet33. 33 Internet Word States. a Teleco World34 apresentou os dados relativos a aparelhos de celulares nos países latino-ameri- canos. eram fixas e quase imóveis. as identidades que. representadas por aparelhos portáteis. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular formação e da convergência midiática. A evolução das tecnologias da informação. é o símbolo da evolução individual/tecnológica de uma época. É possível verificar a penetração do consumo das massas na aderência em comunicação móvel. A popula- rização do celular “foi convertida em um produto de consumo de massas. mostra em dados coletados em julho de 2012.com. IWS. tendem a fluir e confluir em diversos tempos e espaços através de fenômenos como a acultu- ração. Castells (2007) interpreta o fenômeno global.com/stats2. O celular. que correspondem a 645 milhões de aparelhos. 2007. que a penetração da Internet representa 49. transformando-se em um grande palco de importantes transformações políticas. Com a comunicação móvel. disponível em <http://www. tor- nou a vida humana dependente destes novos aparatos. Teleco. em significação simbólica global.htm> 34 Celulares na América Latina.teleco. p. vivenciados por uma cultura audiovisual e.br/pais/alatina.com. Nes- te contexto. das redes sociais e dos blogs. antes. a diáspora e a assimilação. agora. Neste ce- nário.

originando novos valores e organizações (CASTELLS. 1996. recepção e geração de conteúdo. 52). Isso porque o consumo assume instância superior tanto na lógica de produ- ção como de apropriação de bens simbólicos. essas novas práticas comunicativas e usos que a comunicação móvel propicia não tendem a alterar a hegemonia cultural mediada pela família. p. Sob esse enfoque. Canclini propõe um conceito. Entretanto. escola e local de trabalho (CANCLINI. EUA e Indonésia. No mundo.novas formas de lingua- gem. p. identidades. atrás da Índia. A comunicação sem fio propicia novas práticas comunicacio- nais. a partir da interação de novas formas de relações sociais e me- diações. 2007). a comunicação móvel segue em ex- pansão. Flora Dutra Mesmo com infraestruturas nas telecomunicações muitas ve- zes defasadas diante do avanço e velocidade de processamento de dados na América Latina. aquisição de novas competências. produção e consumo. que passaram a gerar conteúdo para a rede . desterritorialização e a reconfiguração do tempo e espaço. 53). como e quem consome (CANCLINI. ultrapassando o acesso de banda larga ou telefonia fixa. onde se realiza a expansão do capital e se reproduz a força de trabalho. Estudos de diversas correntes consideram o consumo como um momento do ciclo de produção e reprodução social: é o lugar em que se completa o processo iniciado com a geração de produtos. não são as necessidades ou gostos individuais que deter- minam o que. a China lidera o ranking de maior consumo da tecno- logia móvel e o Brasil aparece em 5º lugar. sobretudo pela sua ra- cionalidade econômica. 81 . 1996. nesta perspectiva: O consumo é compreendido. Novos meios e usos de telefonia móvel deram origem à instrumentalização do saber pelas classes menos favorecidas.

com a globalização e políticas governamentais do livre comércio. “80% dos consumidores apreciam os fa- bricantes que lançam novas opções de produtos” (TREND RE- 35 Trend Report América do Sul e Central. pois a tomada de posse de novos bens sim- bólicos significa estar em dia com o que a globalização tende a oferecer. a América Latina é “contemplada” com uma ofer- ta maior de produtos estrangeiros com preços reduzidos. pois. disponível em <http://www. mas. O Relatório de Tendências35 para o consumo na América Latina aponta indicadores para a conexão dos consumidores na “arena do consumo global”. sabores e sentimentos.pdf> 82 . os latino-americanos têm “a maior proporção de consumi- dores dispostos a pagar mais por novos produtos (56%). A explosão da oferta de produtos no mercado do consumo la- tino-americano antes era restrita a bens de baixa qualidade e pre- ços altos. sim. o diferente. sendo caracterizado por uma quantidade infinita de bens e serviços ricos em experiên- cias. o dobro da Europa (onde apenas 28% pagariam)”.com/regionalreports/assets/ pdf/sca_sample_pt. o que antes era impossível de ser adquirido (sonho). O desejo pela aquisição de bens simbólicos impulsionados pelo avanço da economia latino-americana trans- forma-se em vontade de uma vida melhor. ou o grupo. disponível para qualquer indivíduo disposto a consumir. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Consumidores de todas as classes sociais tendem a buscar o novo. de distinção perante o outro. A atualização em estar em dia com o novo propiciado pelo consumo não é apenas fonte de desejo. Na América Latina. O consumo promete transformação de vida. Eles são resultado da diminuição de imposto cobrado sobre a mercadoria. assim.trendwatchingreports. está ao alcance de todos. mas.

83 . So- bre esta reestruturação comunicacional e social. o celular aparece como organizador do modo de vida global. o sistema econômico ’pensa’ como repro- duzir a força de trabalho e aumentar a lucratividade dos produtos (CANCLINI. Flora Dutra PORT. em que valores e tradições culturais latino-americanas tenham se perdido através do desmoronamento da ética e da desarrumação do habi- tat cultural. 69). Martín-Barbero (2004. planos fixos e concorrência limitada. 2013). ha- bitação. O consumo pela mobilidade do aparelho de celular pode ser apreendido como objeto de estudo e investigação. através dos usos e funções simbólicas. O que permanece e vigora são os usos distintos que perpassam o consumo na apropriação do celular. p. p. gera a expectativa pela novidade. p. Seguindo o Relatório de Tendências. novidades e produtos. mesmo que a “reflexão crítica destes instrumentos tem sido muitas vezes demonstrada. a fle- xibilidade de melhor escolha ganha lugar frente às tarifas eleva- das. cheia de informação. Ao se organizar para prover alimento. assim que sa- tisfeita. ainda que ine- rente às lógicas subjetivas. 2010. ainda que em microexperiências de baixa eficácia para as massas” (CANCLINI. como a propaganda e o marketing. vindo reafirmar a com- preensão de Canclini (1996) sobre o consumo e sua racionalidade econômica. 1996. o cenário do consumo latino-americano tem sido controlado e regulado. 31) coloca-se diante de um quadro negativo. O modo como se planifica a distribuição dos bens depende das grandes estruturas de administração do capital. Nessa rotina. pela sensação de uma atualização constante imposta pelo mercado de lutas simbólicas. 53). transporte e diversão aos membros de uma sociedade. É na configuração dos interesses dos cidadãos latino-ameri- canos que a demanda por necessidades e desejos.

“os jovens da classe C. as pessoas almejavam comprar.gov. Os últimos levantamentos apresentados pela SAE destacam a classe C como responsável por 881 bilhões em gastos com consumo no país. o perfil socioeconômico do país mudou e.html> 84 . A desregulamentação dos mercados. a economia cresceu. a variação da economia. diminuir os juros e cortar impostos facilitaram as vendas. são hoje os formadores de opinião na família e comunidade”. Embora a classe C represente o avanço no desenvolvimento no Brasil. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Desde a última década.com/jornal-nacional/ noticia/2013/05/desequilibrio-entre-importacoes-e-exportacoes-do-brasil-preocupa. o país importou 77 bilhões e exportou 71% bilhões37. Só em 2013. as necessidades básicas já não sa- tisfazem mais os indivíduos. assim como as dívidas nas famílias. o crescimento econômico da última década dá si- nais de cansaço. O governo aspirava ao crescimento econômico. Hoje. disponível em <http://www. a inflação. as medidas brasileiras susten- taram por certo tempo o crescimento econômico do país. Disponível em <http://g1. são alguns dos sintomas vividos pela economia brasileira. Reduzir o preço para estimular o consumo. O Brasil consome mais do que produz.br/novaclassemedia/?page_id=58> 37 Desequilíbrio de importações e exportações do Brasil preocupa.sae. conforme a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do Governo Federal36. Mo- tivo para comemorar? Nem tanto.globo. mais educados e conectados. o aumento da taxa de juros. Mesmo no momento de crise na economia internacional. e o desejo por bens simbólicos trans- cende o modo de vida de gerações passadas. ainda é cedo para festejar as mudanças. vê-se o reflexo dessas intervenções: endividamento e anseio por mais consumo. 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe C. No consumo globalizado. 36 Origens e desafios da nova classe média brasileira. a falta de inovação tecnológica e a queda das exportações. Em 2013.

e média de 134 cel/100 hab39. é previsto 30% de des- conto que deve alavancar ainda mais os 700% de vendas dos úl- timos quatro anos. Na redução total do preço ao consumidor. A avalanche dos telefones celulares no Brasil trouxe.00. a Presidenta Dilma Rousseff decretou a desonera- ção de PIS/PASEP e COFINS para os aparelhos de até R$ 1. confirma que o Brasil termina o primeiro trimestre de 2013 com 265 milhões de celulares.br/sala-de-imprensa/todas-as-noticias/ institucionais/26679-smartphone-ficara-ate-30-mais-barato> 39 Estatística de celulares no Brasil.br/noticias/noticia/2012/03/mercado-de-smartphones-no-brasil-tem-cresci- mento-de-84. Na reportagem divulgada pelo Ministério das Comunicações38. O mercado brasileiro segue em ritmo de grande crescimento na venda de smartphones.com. Flora Dutra Em uma das medidas para evitar a queda de consumo de apa- relhos móveis. “está prevista a formação de um Comitê de aplicativos móveis”. e. em 2011. O portal de Inteligência em Telecomunicações. a projeção é que o 38 Smartphone ficará 30% mais barato.techtudo. observa-se que o mercado cresceu 84% em apenas um ano. Os dados evidenciam que o volume de vendas no Brasil.br/ncel. foi o equivalente a 17 smartphones vendidos por minuto. p. para a realidade da sociedade contemporânea. Disponível em <http://www. disponível em <http://www. As projeções são ainda mais otimistas para os próximos anos com a vinda da tecnologia 4G. conforme pesquisa do Internatio- nal Data Corporation (IDC)40. “a possibilidade de codi- ficação de mensagem em veículos eletrônicos e sua transmissão a uma população dispersa (massa).mc.gov.asp> 40 Disponível em <http://www. além da desoneração para os aparelhos.html> 85 . e aumentou para 29 unidades por minuto em 2012. No Brasil.com. a produção de bens simbólicos uniformizados” (COSTA. Teleco. fomen- tando a indústria brasileira de aplicativos.500. 1995. Até 2016. 79). o consumo de aparelhos celulares ultrapassa a média por habitantes no país.teleco.

memória para armazenamento de música. 388). 61% na classe B e 65% na C”. em uma so- ciedade. as relações de usos e hábitos com o aparelho estão ligadas aos interesses e necessidades dos indivíduos e inventan nuevos usos.com41. A cada lançamento de filme. GPS. o consu- mo é norteado pelas relações sociais que regem a cultura através da mídia massificada. p. cor- responde ao que Wolton (2004. como revela a revista on-line Exame.br/tecnologia/noticias/classe-c-baixa-aplicativos-tanto-quanto-classe-a-revela- pesquisa> 86 . Com tamanhos variados. produção de vídeos. esquivan lasregulaciones. p. 388). Para Castells (2007.com. da Editora Abril (19/05/2011) e “chama a atenção que o índice de pessoas que declararam baixar aplicati- vos é muito parecido nas classes A e C: 67% na classe A.abril. que tenha todos os recursos disponíveis como máquina fotográfica. funcionalidades desde a conexão com Internet. os smartphones chegam às classes B e C da população brasileira junto com a gran- de demanda de downloads de aplicativos. fotografias ou gravações. Não sendo mais exclusividade da Classe A. e incluso un nuevo lenguaje. 2007. Ter um celular moderno. computador ou celular. encuentran sistemas tari- farios mejores y más baratosy construyen redes de comunicación para propósitos y usos que jamásfigu- raron en los planes de los técnicos ni de los estrategas empresariales (CASTELLS. gravador de voz e de vídeo. as promessas técnicas permitem uma comunicação sem 41 Disponível em <http://exame. 324) comenta que. p. a plataforma de celulares muda hábitos e costumes antes desco- nhecidos no século XX. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Brasil figure entre os maiores países em volume de smartphones comercializados.

gerando desemprego em categorias como mensageiros. e foi uma marca no processo de urbanização das cidades. o telefo- ne passou a ser usado para diversos fins como trabalho. a Universidade da Califórnia lançou o clássico “America Calling: a social history of the telephone to 1940” de Claude Fisher42. o telefone é um elemento-cha- ve na cultura material moderna. econômicas e psicológicas começam a emergir da relação entre indivíduos e telefone. negócios e urgências. ganhador do prêmio Dexter. ampliando o contato pessoal e expandindo a comunicação no espaço e no tempo. Inicialmente apenas a classe abastada era portadora de telefones. o autor parte de duas perspectivas: na primeira. da Sociedade de His- tória da Tecnologia. Ao estudar o telefone para além de uma ferramenta comunicacional. Flora Dutra restrição. e a saída sonhada é naturalmente a emergência de uma sociedade da comunicação. mas destaca-se o livro The Social Impact of the Telephone (1977) do entusiasta das novas tecnologias Ithiel de Sola Pool. disponível em <http://sociology. Para se- lecionar o telefone em sua pesquisa historiográfica. Fischer utiliza o lado do consumidor e prevê em última instância como a tecnologia comunicacional irá incidir em nossas vidas. 4. De acordo com Sola Pool. Na segunda escolha.edu/faculty/claude-s-fischer> 87 . considera que esta tecnologia tinha sido pouco estudada 42 Claude Fischer. Assim. Estudos sobre o consumo de celular Não se sabe ao certo qual foi o primeiro estudo sobre o te- lefone desde a invenção de Graham Bell.berkeley. transmissores e telegrafistas. Fischer traça uma análise histórica de como os telefones foram efetivamente inseridos no cotidiano de mi- lhares de americanos a partir de anúncios de revistas e jornais.1. Em 1992. mudanças sociais.

Public performace. França. Estados Unidos.. 2005. Israel. HA- MILL. Esta obra é o primeiro livro sobre o impacto da tecnologia móvel na sociedade contemporânea. não sendo possível a difusão para as massas. A indústria apresentava dificuldades em lidar com a multiplicidade de usos e usuários (LASÉN. 9). assim como foi o livro de 88 . pg. Campanhas de marketing da época (entre 1920 a 1950) desco- nheciam possíveis consumidores do telefone. 2005. estreiteza e vontade para manter o telefone como um produto elitista da indústria no início homens resul- tou na propagação lenta do telefone (LASÉN.] a história da introdução de telefones fixos reve- la que a acessibilidade e disponibilidade do telefone vieram pela primeira vez para os mais abastados. Exatamente uma década posterior ao trabalho de Claude Fis- cher. Em outra obra que aborda a tra- jetória do telefone “Wireless World: Mobiles – past. Bulgária e Noruega debatem a disseminação da tecnologia móvel e como isso vem afetando as relações sociais entre as pessoas no globo. constata-se o porquê da lenta difusão desta tecnologia: [. p. Itália. negros. os primeiros estudiosos a organizar um livro sobre o tema da comunicação móvel foram James Katz e Mark Aakhus (2002) da Universidade de Cambridge. Perpetual Contact – Mobile Communication. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular sociologicamente. pois apenas o trabalho de Sola Pool (1977) ha- via sido elaborado. e muito mais tarde para os operários. forasteiros e até adolescentes não eram o alvo das campanhas publicitárias. Private Talk. 35). Os preconceitos. Mulheres.. Holanda. sendo os celulares cada vez mais onipresentes em nossas vidas. Na obra. Coreia. estudiosos da Finlândia. pois o telefone era percebido apenas como uma fer- ramenta de trabalho para homens de negócios ou a elite acadê- mica. present and future”.

p. e com certeza é um dos aparatos comunicacionais que mais se difundiu em tão curto tempo. emoções e estilos de vida emergem da globalização e sociedade em rede. a pessoa deixa o lugar onde está e tenta encontrar um lugar mais tranquilo. pg. a privatização de um espaço público representa um dilema para um entendimento comum em uma sociedade de informação móvel (PURO. Segundo ele. questões sobre gênero. espaço público e privado. Flora Dutra Sola Pool e Fischer sobre o telefone fixo. os pesquisadores Eija-Liisa Kasesniemi 89 . a Nokia. É inegável que houve uma penetração dos telefones mó- veis na vida cotidiana de milhares de pessoas em todo o mundo.23). “um telefone celular pode não ser a chave para a sa- tisfação social e felicidade que muitas vezes é dito ser. Para o pesquisador finlandês Puro (2002). A absorção rápida dos celulares vem transformando a forma de como nos comunicamos. denominando este processo de “nokialization”. por exemplo. o mundo social é o mesmo com ou sem o aparelho” (PURO. 2002. Para o autor. A privatização dos es- paços públicos é evidente no comportamento das pessoas na rua. pois. 28). O finlandês encerra seu artigo ao revelar o uso crescente dos dis- positivos móveis pelas crianças na Finlândia. 2002. pois o telefone aumen- ta a consciência do ambiente em que a pessoa pode estar sozinha. Sobre as questões das emoções e lifestyles relacionadas ao uso do celular. o autor não implica uma relação social ativa com outras pessoas ou grupos. uma das características mais distintivas de um telefone celular é que ele privatiza locais públicos. quando alguém fala ao telefone. No que diz respeito à própria solidão ou infelicidade. No livro que trata da cultura móvel. Ao aprofundar o impacto da cultura do celular em crianças e adolescentes da Finlândia. uma alusão a uma das maiores em- presas (finlandesa) de celulares do mundo.

170-191). redes sociais para o celular e compartilhamento de textos. varia desde contracepção até morte. Verifica- mos aí o surgimento do mercado dos aplicativos móveis. geralmente não passam de 160. pg. embora a mobilidade tenha um curto alcance. Ao questionar se o celular seria um instrumento de comuni- cação. frustrando muitas vezes o usuário. músicas preferidas ou segredos íntimos. Desde a popularização do SMS. Assim surge a cultura de texto (SMS – short message service) desenvolvida pelos adolescentes. que geralmente encurtavam palavras ou escreviam as orações com todas as letras maiúsculas e/ou minúsculas. a troca de informações pelo celular é um estilo de vida urbano e altamente móvel. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular e Pirjo Rautiainen (2002) revelaram novas formas de vocabulário entre os jovens a partir de SMS. as mensagens podem ser de poemas. A autora italiana destaca que o telefone celular é a tecnologia 90 . o instrumento não é adequado para a comunicação e sim para a troca rápida de informações. Para Fortunati. a preocupação que retumbou na mídia finlandesa foi a expressão escrita dos adolescentes. as mensagens curtas enviadas pelo celular têm poucos caracteres. Essas práticas refletem a cultura juvenil não só da Finlândia. Com a facilidade da convergência de texto. a pesquisadora italiana Fortunati (2002) argumenta que o celular. onde as pessoas acabam por buscar um lugar calmo para poder transmitir a voz. segundo os pesquisadores. RAU- TIAINEN. apesar de sua aparência moderna. Sendo um fenômeno mundial. pois as pessoas geralmente estão ligadas ao grupo de amigos e familiares. Para a autora. é de difícil comunica- ção em espaços públicos. mas de indivíduos que ocupam a mesma posição geracional em todas as partes do mundo (KASESNIEMI. imagem e foto. O conteúdo dessas mensagens. fotos e sons.

e de usuário para ele mesmo em uma relação única com o aparelho (LASÉN. também funciona como um aparato que ajuda a organizar a vida das pessoas no trabalho e tarefas domésticas. Pesquisando o impacto das tecnologias móveis desde 2004. 2005. Assim. raiva. pode ocorrer em diferentes momentos: de usuário para outro usuário numa rela- ção dupla. segundo a socióloga. O estudo etnográfico realizado em Paris. o móvel envolve não somente a orelha. 48). p. Em 2005. senti- mento. etc. mas também a boca e voz que emerge de dentro do núcleo íntimo do corpo. as relações humanas perpas- sam o telefone em trocas de informação. Flora Dutra que mais está perto do nosso corpo. afeição. e está ligado diretamente com a própria sexualidade” (FORTUNA- TI. na Inglaterra. o celular parece estar contribuindo para dissolver a separação tradicional de intimidade e estranho e público e privado. foi editora do livro “Understanding mobile phone users and usage” em parceria com o grupo Vodafone e a Universidade de Surrey. 91 . Lasén revelou que os celulares. Um dos resultados do estudo antropológico deste livro é que as pessoas estão expressando suas emoções mais livremente. por serem uma extensão do corpo humano. de usuário para outros usuários como um grupo. sendo possível compartilhar sentimentos de amor. conhecimento. Na verdade. A interação afetiva. com outros usuários.. Londres e Madrid teve o intuito de revelar as implicações afeti- vas que os usuários desenvolviam pelos celulares. 120-125). p. a socióloga espanhola Amparo Lasén (2004) tem mais de vinte artigos publicados em diversos países sobre a importância dos celulares e suas relações afetivas (principalmente com jovens) que medeiam a expressão e a troca de sentimentos e emoções. pois “se o walkman veste a orelha. tor- naram-se tecnologias da intimidade. 2002.

este artefato torna-se um acessório de moda para todas as tribos. o autor espanhol constatou a oni- presença dos celulares pela população em desenvolvimento eco- nômico. não são apenas as superfícies em que operam estas inscrições. portanto abstrato em colaboração com a singularidade do contexto e os diferentes elementos culturais” (2006. Ao pesquisar África. resultado. São codificados da memória corporal. 2004. Para Lasén. proce- dimentos incorporados pelo uso contínuo do celular. “é o resultado de práticas repetidas que causam ação. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular assim. o estilo do vestuário aliado a outros artefatos. Ásia e América Latina. amor e raiva. atletas. p. hábitos. entre outros grupos. é possível destacar a prática e adoção desta tecnologia gerando competências e hábitos. Com o passar do tempo. como o celular. apenas um terço da população tinha aparelho móvel. Além das afetividades. p. A constante ligação do celular com o corpo também revela habilidades e capacidades da utilização deste objeto criando mui- tas vezes práticas repetidas em padrões de uso: posturas. e no tempo de espera de al- 92 . Os locais mais acessados pelo celular são públicos. o telefone móvel tem habilidades para romper com a estrutura das interações sociais em vários níveis (LING. Se- gundo o autor. 166). gestos. 106-107). conquistas e perdas são constantes nestas relações com o telefone e seus conteúdos gerados para as redes sociais online. porque o indivíduo constrói uma rede que muda continuamente no espaço social. Rich Ling (2004) observou que. em 2002. em transportes. dentro da cultura jovem. No estudo de caso chileno. punks. Castells (2007) acredita que a difusão da comunicação móvel possibilita o aumento da extensão do espaço de fluxos de infor- mação na nossa vida cotidiana. era um objeto comum de todos os grupos. para ele. roqueiros.

entre o real e o virtual. Flora Dutra guns serviços. Winocur diz que “o tele- fone celular é a chave para manter a coesão destes espaços fami- liares imaginários e seguros. Para Winocur (2009. a família e a ro- tina em redes internas de comunicação entre os sujeitos. p. o ce- lular era um meio de comunicação de toda a família e não apenas uma ferramenta de comunicação intrafamiliar (CASTELS. Para a autora. p. 2009. para as camadas populares. 339-366). 24). com contextos próprios. os jovens fazem o uso coletivo da construção civil de um grupo específico. É uma rede de atualizações e ligações internas dentro do grupo de amigos e família. quando coberto pelo manto protetor de sempre se comunicar conosco” (WINOCUR. A abordagem sociocultural deste trabalho é fundamental para compreender a apropriação dessa tecnologia móvel e como os jovens a estão utilizando. A pesquisa de Castells no Chile apontou que. 93 . É na escola que se oferece uma mediação prática fundamental de apropriação afetiva e simbólica da Internet e telefone celular. 2007. p. as novas tecnologias perpassam a casa. A família chilena com dois ou mais filhos vê como essencial a posse de um celular para emergências. criando tensões como as tradições estabelecidas. o não acesso ao aparelho é para não excluir o outro em um reconhecimento mú- tuo de afeto. entre a nova e velha mídia. Os contextos de todos os jovens entrevistados e consumido- res de celular têm privilegiado o espaço escolar e doméstico com suas extensões virtuais. essa invisibilidade de novas me- diações através do celular e seus aplicativos cria novas disputas entre o online e offline. ao usar o celular. como no caso de nossos entrevistados. habitando nossas certezas. Entretanto. 27). Na maioria dos casos. projeção do espaço público ou privado cria tensões entre as tradições familiares e escolares.

quase não há es- tado offline do aparelho com relação à Internet. em março de 2013. Ao ser introduzido no mercado de consumo. A participação em ambos os mundos está integrada na experiência diária. no trânsito constante entre o ce- lular e suas práticas sociais. Para Winocur (2009).5 não têm banheiro. O discurso realizado pelo vi- ce-presidente da ONU.br/onu-dos-7-bilhoes-de-habitantes-do-mundo-6-bi-tem-celulares-mas-25-bi-nao-tem-banheir+os/> 94 . a expansão des- se objeto é um fenômeno mundial. onu. inaugura novo espaço na área acadêmica. o debate para novos rumos da antropologia relacionados às novas tecnologias. como o uso do celular. Horst e Daniel Miller elaboraram o livro “The Cell Phone – an anthropology of communication” dedicado a avaliar as novas tecnologias e a re- dução da pobreza na Jamaica. nas várias formas de ser e de viver na escola.org. a experiência intensa da socialidade digital não substituirá o mundo “palpável”. O impacto para a redução da po- breza relacionado ao uso do celular levantou questões de como o desenvolvimento social era possível através deste pequeno ob- jeto. mas as redes sociais nunca ficam desconectadas. Disponível em <http://www. e essa questão levou os pesquisado- res a avaliarem o grau de inclusão e exclusão digital com que a tecnologia móvel estava sendo apropriada no país. e destas. Alguns resultados do estudo são inovadores e trazem novas 43 ONU: dos 7 bilhões de habitantes do mundo. Subsidiados pelo Department for International Development (DFID) da Inglaterra. os antropólogos Heart A. Jan Eliasson. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Para os jovens estarem visíveis aos demais. dá conta desse acontecimento histórico: a atual população do planeta é de sete bilhões de pessoas. Entradas e saídas simultâneas das redes são frequentes. 6 bi têm celulares. Desta forma. mas 2. seis bilhões possuem celular43. O acesso à internet pelo celular é mais em conta do que a compra de um computador.

Questões de urgências (como acidentes. O sentimento de segurança aliado ao celular foi observado tanto em idosos como em crianças. Falar ao telefone com um vizinho ou membro da comunidade religiosa é sinal de respeita- 95 . pois. Para Horst e Miller. MILLER. Ao investigar as “ligações” religiosas que permeiam os jamai- canos. Foi possível constatar que é escasso este recurso para fins de proble- mas relacionados à saúde. p. este novo espaço ainda é uma lacuna a ser desenvolvida. em camadas pobres. enfermi- dades graves) podem ser desenvolvidas pela comunidade médica através do celular. 2006. 143) e isto aponta para futuros projetos de inclusão a partir do telefone celular. 144). Embora ainda haja uma transmissão de SMS pelos agentes das comunidades locais. Cerca de 60% dos estudantes carregam seus telefones para a escola. Para os pesquisadores. planos de saúde pública. os antropólogos descobriram o celular como uma benção para alguns e satanismo para outros. Flora Dutra perspectivas para usos e práticas sociais ao relacionar o uso do celular à saúde. Enquanto o índice de criminalidade diminui. etc. assassinatos. o aumento de crianças portadoras de celulares pode ser constatado nas escolas jamaicanas. embora o uso em sala de aula seja proibido. já que é possível acionar qualquer membro familiar em situação de perigo ou ameaça. ainda é cedo para dizer se há danos ou favorecimentos em relação à educação e o uso do celular (2006. A denúncia de assaltos. roubos pelo telefone foi um fator determinante para diminuir a criminalidade em 18% na Ja- maica (p. o acesso nos intervalos é generalizado. p. 145-151). ou como meio de divul- gação de prevenção a doenças. “a privacidade associada com o telefone celular pode ajudar as pessoas com HIV a consultar anonimamente até o momento em que eles estão prontos para apresentar-se em pessoa em uma clí- nica” (HORST.

uma vez que este tem servido de instrumento para envio de mensagens por pastores e padres. Ao estudar o comportamento dos agentes relacionados ao uso e às práticas do celular. perfor- mances da masculinidade. de avanço. Transformações da linguagem. desenvolvimento da comunicação e evange- lização. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular bilidade. ainda são escassos os estudos sobre a ligação do telefone celular à religião. encontros em terreiros umbandistas e correntes de oração. conflitos entre o público e o privado também merecem destaque nas pesquisas já realizadas. “a afirmação do celular como artefato-símbolo da contemporaneida- de implica em refletir mais detidamente sobre o caráter simbólico dos bens e das atividades de consumo” (SILVA. para uma de suas entrevistadas na pesquisa etnográfica. 378). Katz e Aakhus (2002). Ao se aproxi- mar de um casal de evangélicos. A pesquisadora Sandra Rubia da Silva (2010). constatou que o uso. ao analisar as apropriações do celular ligadas à religião. 2010. A similaridade sobre as pesquisas etnográficas relacionadas ao celular versa sobre os usos e as práticas deste bem relacionado à família. pôde constatar que o celular era visto como uma benção recebida de Deus. Ling (2004). a pluralidade e a imprevisibilidade com que o pes- 96 . A pesquisa etnográfica relacionada ao telefone celular revela a diversidade. Para Silva (2010). Como a autora afirma. p. em alguns casos. pois. 52). principalmente dos jovens. aumenta a expressão da religiosidade. Horst e Miller (2006) para compreender a inserção incisiva do telefone móvel no cotidiano dos indivíduos. parte-se para o trabalho etnográfico do consumo de celulares inspirado em investigações de Silva (2010). em um bairro de cama- da popular de Santa Catarina (Brasil). escola e amigos. o “celular é um presente de Deus” (p.

O merca- do global fatura anualmente com a venda de telefones cerca de 250 milhões de dólares. A telefo- nia móvel. Flora Dutra quisador se depara diante das múltiplas realidades que podem ser vivenciadas com este objeto. novelas. de- sign. advinda da telefonia fixa. as relações sociais a partir do telefone móvel tornam-se revigoradas pelo acesso à Internet. revistas especializadas.) causam impactos sociais entre os consumidores (jovens ou não). iPod. Se a acade- mia renegou. e novas formas de sociabilida- de são possíveis. buscam. os produtores e consumidores não deixaram o aparelho sair de circulação. As novas tecnologias destes apara- tos tecnológicos (smartphone. Destaca-se o público jovem para esta pesquisa pela intensidade com que essas relações são criadas. blogs. Relacionar e fazer referências no decorrer do caminho teórico 97 . entre outros. Assim. a importância das investigações sobre o celular. na escassez de recursos financeiros. filmes. e busca-se no espaço escolar um pano de fundo para a observação desse novo cenário das relações entre agente x celular. mas pouco se tem discutido entre os intelectuais. tablet. Pode-se desenhar um quadro amplo da inserção dos telefones celulares em diversas áreas da socieda- de do consumo: literatura. Nessa trajetória histórica (recente e abrangente) do telefone celular. até pouco tempo. vendedores e fabricantes. atra- vés da apropriação do celular. um meio para se comunicar com os demais por meio de pacotes de internet barateados pelas ope- radoras de serviços de telefonia móvel. muitas práticas e usos disseminaram-se e reinventaram- -se. que. fotografias. moda. redes sociais. etc. operadoras de telefonia. foi capaz de fomentar uma gama de trabalhadores como desenvolvedores de softwares. O acesso a essas novas tecnologias digitais vem sendo destaque pelas classes po- pulares.

a variedade dos trabalhos sobre o tema não trarão contribuições em suas totalidades. dado que. tempo de existência dos celulares. as características próprias e as especificidades das relações sociais mediadas pela tecnologia. nos últimos vinte anos. houve um fortaleci- mento da produção acadêmica brasileira. o re- ferencial teórico sobre esse objeto e sua inclusão nas discussões acadêmicas foi pouco discutido. de modo crítico e reflexivo. Muitos trabalhos deixam de lado o esmero teórico e interpretativo. 98 . Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ajuda na construção de novas interpretações. e atenção no desenvolvimento de outros para optar pelo caminho de respostas elucidativas para a problemática em questão. Acredita-se que o celular era considerado um ob- jeto de pouco interesse acadêmico. soluções para os problemas levantados e. As inves- tigações acadêmicas dos últimos dez anos apresentam-se pouco estruturadas e são segmentadas. O estado da arte que compõe essa investigação busca trabalhos relevantes com a temática da telefonia móvel e suas potencialidades para a comunicação e a distinção social. O cenário parece mudar lenta- mente para um avanço no interesse por este objeto de tamanho pequeno. É necessário compreender. em diferentes áreas do conheci- mento. resultando em rasas verificações e falhas no cumprimento dos objetivos. O posi- cionamento é de criticidade necessária frente a alguns trabalhos. Assim. diferente de agora. Nesse conjunto de investigação cultural e científica. durante as últimas quatro décadas. Faz-se a ressalva de que. São raras exceções que merecem destaque logo adiante. o apro- fundamento na busca por trabalhos relacionados ao tema “celu- lar” foi se revelando precário. derivando conclusões pouco sólidas. mas sim uma articulação dos melhores resultados apresentados até agora. para alguns. a trilha para cumprir os objetivos. Cerca de 40 trabalhos.

ocorra. Fica aqui o registro de que. de Sandra Rubia Silva. Flora Dutra incluindo dissertações e teses. o virtual e o imaginário. como aponta a autora acima. A tese em Antropologia Social. constroem ou- tros valores. referente ao telefone celular ligado às áreas huma- nas. Mas para que. O rico e amplo trabalho etnográfico da autora merece destaque pelas interpretações do consumo cultural relacionadas às tecnologias móveis. p. 99 . imaginária entre o celular e o ator. A socialidade que a Internet propicia aos objetos móveis permite recriar ambientes em que as represen- tações tornam-se imbricadas entre o real. foram encontrados no Brasil. verificadas em uma comunidade jovem. “Interfaces móveis de co- municação e subjetividade contemporânea”. “que incorpora grupos em espaços contíguos e não-contíguos criando um espaço híbrido. estar no mundo: A vida social dos telefones celulares em um grupo popular” propõe um estudo an- tropológico dos celulares e investiga o papel desse artefato-sím- bolo da contemporaneidade na constituição de identidades e de novas práticas culturais. nas áreas da engenharia. uma relação social. os trabalhos nos avanços tecnológicos relacionados às funcionalidades dos aparelhos móveis são muito mais abran- gentes e estão em constante atualização. infor- mática e TI. afetiva. de fato. A tese apresentada na UFRJ (2004). defendida em 2010. convergindo nos processos simbólicos que ocorrem na relação pessoa/telefone celulares em contextos socioculturais brasileiros. originando através da mobilidade as misturas das fronteiras entre o físico e o real” (SOUZA e SILVA. destaca os telefones celulares como uma co- municação mista. na última década. de Adriana Araujo de Souza e Silva. 216). mas que. “Estar no tempo. que serão úteis para a pesqui- sa em questão.

2008). faz-se necessário entender as redes como lugares onde culminam os processos de lutas sim- bólicas. LUIZ. A prioridade em pautar trabalhos de investigação empírica (SILVA. o contexto global e lati- no-americano que o autor propôs há cinco anos. São trabalhos recentes que datam desde 2007. Cerca de vinte trabalhos. a partir da interpretação teórico-empírica. muitas vezes. pode-se fazer. SOUZA e SILVA. como apresenta a dissertação “Consumo de telefone celular: significados e influências na vida cotidiana dos adolescentes” (LUIZ. apa- recem nas buscas relacionadas entre redes sociais e telefone ce- lular. Na di- nâmica do consumo. incluindo teses e dissertações. Para tanto. com 40 adolescentes. incorporando. tendem a prevalecer as inovações tecno- lógicas e o desejo de aparelhos cada vez mais funcionais. A pesquisa feita por Luiz (2008). teve como resultado as variações dos fatores sociais. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular é necessária a prática do consumo (simbólico/material). 2010. 2004. psicológicos e econômicos tanto na aquisição quanto na troca do aparelho e servirá de contribuição neste trabalho. ano em que o iPhone foi lançado pela Apple e as revoluções no aparelho con- vergiam para múltiplas funcionalidades. em alguns momentos. a atualização de referências sobre dados estatísticos relacionados ao Brasil. e a comunicação no apare- lho processa-se pelas redes sociais. 2008) é a tentativa de correlacionar as relações sociais pesquisadas e entender. Como necessidade de agrupar o objeto à forma de conteúdo gerada. incluindo o uso das re- 100 . trabalhos comprometidos com a atividade intelectual e de relevância poderão ser citados ao longo da dissertação. Entende-se que o celular é um objeto que propicia a comuni- cação escrita e falada neste contexto. percepções da sociedade atual. Ao longo da dissertação.

Como resultado de interesse da dissertação. A dissertação “Facebook: negociação de identidades. Neste mesmo ano. por ser a rede social mais popular e unânime entre o uso dos jovens. A partir de entrevista semiestruturada e análise de perfil. A fim de aproximar os jovens. não sendo mais a principal rede social do país. o autor tenta elucidar os processos de negociação das identidades. o autor aponta que o Facebook é um lugar de conformação ou não de desejos e valores da vida real. Hoje. o telefone celular e a classe popular. medo de se expor e subjetividade”. o crescimento de usuários da rede Facebook aumentava à medida que o Orkut perdia usuários. Dez entrevistas semiestruturadas com jovens usuários do Facebook apresentam significados e sentidos subjetivos na ex- ploração do tipo de uso relacionado à rede. aproveitando o tempo 101 . Partindo de três perspectivas (aproximação dos ca- racteres identitários. Flora Dutra des sociais. optou-se por delimitar os trabalhos que contemplassem o Face- book. José Rei- naldo Oliveira (2012) dissertou em “Juventude e Ciberespaço: im- plicações do uso da internet na constituição da sociabilidade juve- nil” sobre a ressignificação das relações sociais de dez jovens de escola privada de Brasília. Para investigar a sociabilidade juvenil na internet. exercício da construção de si mesmo a partir de dispositivos móveis e simulação das identidades) centrais na pesquisa. considerando suas ideologias. são milhares de redes que se adaptam ao público cada vez mais segmentado. trata de elaborar traços identitários dos jovens a partir da constru- ção do perfil. foi possível descobrir que uma das principais ações nas redes é o encontro com o Outro. de Gilberto Artur Marra e Rosa (2012). narrativas e afetivi- dades. Utilizar-se-ão as contribuições desta dissertação na perspectiva do consumo como objetivação de desejos.

123). denominada “Redes sociais na internet: a influência da recomendação online na intenção de consumo” traz dados relevantes e reveladores na intenção de compra de produtos oferecidos em propagandas nas redes sociais. Partindo de um survey com 400 entrevistados. embora sejam de classes distintas. Assim. a dissertação para o Programa de Pós-Graduação em Administração.50). o trabalho serve como dis- cussão a fim de verificar entre os jovens de classe popular intera- ções e relações semelhantes. em suas conclusões. 102 . o Facebook como um lugar de ensino-aprendizagem (p. através das redes móveis. Mesmo de área distinta da comunicação. consumo. juventu- de e alteridade: aprendendo-ensinando com o Outro no Facebook”. participam do processo do consumo online. sem potencialidade para interações de cunho crítico ou político. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ocioso (p. as redes e os conteúdos escolares. enxergam a interação online como um processo natural e descompromissado. Net- to (2012) aponta que 33% dos usuários do Facebook apresentam uma relação direta e isolada na intenção de consumo. Tratando-se de jovens de classe alta. identida- de. na pesquisa em questão. Para complementar o quadro de referências em que foi possí- vel correlacionar trabalhos acadêmicos produzidos no Brasil nos últimos cinco anos referentes a sociabilidade. É de importante contribuição para a pesquisa que tem o espaço escolar como um campo de observação na interação com os jovens. rompendo as fronteiras de sala de aula. Os jovens. Couto Júnior (2012) reconhece. onde os jovens valorizam os conteúdos escolares. não seria possível deixar de mencionar “Cibercultura. busca-se identificar qualitativamente em que medida os jovens de classe popular.

é argumento explícito da contemporaneidade. De uma leitura concisa. O algoritmo pode ser aplicado a qualquer coleção de objetos com ligações recíprocas e referências. como fil- mes amadores e profissionais produzidos em celula- res competiram por prêmios em festivais de cinema internacionais. Foi uma poderosa demonstração de como os celulares se tornaram fundamentais no pro- cesso de convergência das mídias (JENKINS. 103 . como as páginas da internet. As redes sociais e os aplicativos no celular Henry Jenkins (2008) procura abordar as transformações no cenário contemporâneo da comunicação. Jenkins (2008) mostra a relação entre os atores no espaço social midiatizado e as novas estruturas que se formaram no movimento da convergência. Como processo cultural. e quase didáticos. 2008. sob o número 6. Nes- te processo. Flora Dutra 4. pg. assim como Bauman (2001) definiu o celular como objeto simbólico na dependência em relação ao espaço.2. Através de exemplos contemporâneos. para o autor. como Guerra nas Estrelas e Harry Potter. A personalização de informações individuais através dos al- goritmos44 terminou por transformar o acesso à informação. O processo foi patenteado pela Universidade de Stanford. A convergência midiá- tica. O 44 É uma família de algoritmos de análise de rede que dá pesos numéricos a cada elemento de uma coleção de documentos hiperligados. Jenkins (2008) observa que: Nos últimos anos. proposta pelo autor.. derruba o determinismo tecnológico. nos Estados Unidos da América.999. a narrativa transmidiática é o referencial de convergência. a “Cultura da Convergência” relata as transformações culturais de massa do século XXI. Somente o nome PageRank™ é uma marca registrada do Google. 31).. vimos celulares se tornarem cada vez mais fundamentais nas estratégias de lançamen- to de filmes comerciais em todo o mundo.285. com o propósito de medir a sua importância nesse grupo por meio de um motor de busca. somente possível pelo processo tecnológico. O comportamento do consumidor e produtor.

Com a comercialização dos smartphones em alta. O comportamento do usuário online transforma-se em produto. agora. As principais razões para o consumidor comprar um smart- phone são o acesso à Internet e aos aplicativos das redes. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Google pode criar dossiês incrivelmente detalhados sobre cada usuário a partir das redes sociais. um agregado fun- damental: as apps.com/res/docs/2012/ericsson_emerging_app_ culture. o relató- rio da Ericsson sobre “A cultura emergente dos aplicativos” 45 realizou uma pesquisa quantitativa no Brasil. mas conduzindo pesquisas nos campos da biologia molecular e genética.pdf> 104 . com ele. É atra- vés das funcionalidades que os smartphones ganham espaço no mercado mundial e. As empresas estão comparti- lhando dados em favor da lucratividade.ericsson. estu- dos tentam identificar o consumidor em potencial. e o que 45 Tradução: EmergingAppCulture – disponível em <http://www. ao capital social e às estruturas das redes. Os defensores da personaliza- ção acreditam em um mundo sem contradições ou reflexão críti- ca. seu do- mínio não apenas online. interpretações sobre a ascensão e a decadência das redes sociais são desenvolvidas. Divulgado em abril de 2012. No desenvolvimento da pesquisa. O fenômeno das redes sociais é interpretado por Recuero (2009) com destaque aos atores. realçando as tendências do consumidor nos últimos anos. Pariser (2011) questiona e procura desvendar como a persona- lização das redes trabalha e como ela se dirige na nossa sociedade de forma global. reconfigura a comunicação móvel e dita moda sobre os aplicati- vos cada vez mais segmentados. Está expandindo. A competitividade pela personalização invade as redes sociais. Rússia e Índia e identificou como os aplicativos afetam os consumidores e o mer- cado em crescimento nas redes sociais.

fabricantes de aparelhos.aorta. Os indianos constroem uma relação que privi- legia o reforço da identidade: uso de aplicativos como protetores de tela e temas de papéis de parede. Estas plataformas de aplicativos para as redes sociais conec- tam diferentes mercados como desenvolvedores.br/>. com destaque para as redes sociais como o Facebook e o Twitter. O Brasil. em 2011. De acordo com a pes- quisa da Ericsson (2012). para 2016. Empresa brasileira que atua no mercado de desenvolvimento de aplicativos desde 2007. é de US$46 bilhões. do gosto pessoal e da conectividade. sendo mais racional do que a Índia e mais afetivo que a Rússia. Possui mais de 100 profissionais e escritórios em São Paulo e Minas Gerais. Mobi46.Apps #5 da empresa Aorta. Flora Dutra varia são os objetivos e uso preferencial dado ao aparelho pelos consumidores de diferentes nacionalidades. Empresas do setor de tecnologia de todo o mundo estão vol- tadas para o mercado de aplicativos em expansão.5 bilhões e a projeção. As funcionalidades dos aplicativos pa- recem ser ilimitadas para a App Culture. A potencialidade do con- sumidor de redes sociais está na valorização da individualidade. O Relatório Mobilize de Inteligência de Mercado . segundo o relatório. o que representa um crescimento de 230% em relação ao ano de 2010. realizado no primeiro trimestre de 2012 -. evidencia que foram feitos. buscando aplicativos de serviço público: mapas.com. 105 . entre outros. é possível identificar o in- 46 Disponível <http://www. As empresas estão apostan- do na fragmentação da receita para investimentos diversificados na mobilidade. Mesmo que a maioria de downloads de apps como o Facebook seja feita gratuitamente. Em 2011. cerca de 30 bilhões de downloads de apli- cativos móveis. os russos tendem a uma utilização mais objetiva. operadoras de telefonia. ficaria no meio termo. agências de publicidade. lojas online. a app economy atingiu US$8. dicio- nários e tradutores.

neste caso. A maioria dos consumidores realiza downloads de apps gratuitos por motivo de rotatividade. fundador do Facebook. lançado para o Android48. Mesmo com o custo baixo de compra de cada aplicativo e a variedade disponível. As redes sociais no celular estão sendo fundamentais na organização da vida cotidiana. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular vestimento econômico de grandes empresas em nichos cada vez menores. Inicialmente. 47 Sistema operacional móvel desenvolvido para usuários da Apple. e o alto crescimento do mercado de apps irá evoluir na sociedade em rede. Exemplo do sucesso dos aplicativos e lucros é o Instagram. onde os consumidores demandam uma escolha por aplicativos cada vez mais segmentados. atingiu a marca de 40 milhões de downloads. com- prou a rede social. O Instagram já está disponível para todos os usuários do Facebook nas plataformas móveis. o consumidor brasileiro ainda se depara com a dificuldade de compra através do cartão de crédito e a falta de confiança no pagamento online. Mark Zuckerberg. as apps são adotadas pelo usuário por uma necessida- de momentânea. disponível apenas para usuários iOS47 e. cuja transação foi de um bilhão de dólares. 48 Sistema operacional móvel desenvolvido pelo Google. posterior- mente. 106 . sendo rapidamente substituídas por outras.

é recente na tradição dos estudos em comunicação. práticas e consumidores variam em uma velocidade exponencial. No primeiro momento. Flora Dutra 5.1. Estudo exploratório I O primeiro estudo exploratório ocorreu no primeiro trimestre de 2012. o celular. etnografia e questionário online. A motivação maior da pesquisa corresponde ao interesse de refletir e analisar como este objeto (de tecnologia recente) é capaz de se constituir em um símbolo de comunicação e consu- mo global. buscou-se uma aproximação com o objeto de estudo. 107 . Questionários via Facebook e online foram elaborados em uma aproximação com o objeto de estudo. A construção do referencial teórico constitui-se a partir dos Estudos Culturais e resulta na diversidade de informações aco- lhidas na trajetória desta dissertação. 5. As técnicas foram entrevista semiestruturada em pro- fundidade e observação participante. PERCUSO METODOLÓGICO DA PESQUISA Ao observar a movimentação dos atores sociais em seus flu- xos cotidianos. é possível detectar um objeto que os conecta: o celular. O objeto de análise aqui. adotado por diversas culturas. o celular. diversas classes sociais e indivíduos de diferentes posições geracionais. mes- mo assim. cuidado e prudência na hora de selecionar as informações que farão parte da investigação. A construção da pesquisa combinou os métodos qualitativos e quantitativos. respec- tivamente. suas múltiplas formas. ou seja. Foi preciso vigilância.

onlinepesquisa. músicas e SMS também serviram de suporte para se adentrar na elaboração do segundo questionário online. A interatividade com o aparelho como fotos. Para tanto. em dois momentos distintos: no primeiro. se a Internet estaria presente nos celulares e se estes contavam com aplicativos para as redes sociais como o Facebook e o Twit- ter. 29 questões foram enviadas via Facebook pelo perfil da pesquisado- ra para 25 respondentes. O primeiro questionário via Facebook foi elaborado para veri- ficar a incidência do aparelho na vida dos jovens. Questões sobre as funcionalidades dos aparelhos foram destaque no primeiro momento. este mais aprofundado. Ao todo foram 204 respondentes de quatro estados brasi- leiros. públicas. condições de classe e relação com a mídia. com a variação de respondentes e no segundo momento. através dele. O questionário online foi aplicado no primeiro semestre de 2013. por exemplo. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Além dos questionários. revelavam distinções sociais. com quarenta e cinco ques- tões pertinentes ao celular e sobre como os usuários. Os informantes estudam em escolas particulares. O questionário online foi disponibilizado através do software Enuvo da empresa Online Pesquisa49. com faixa etária de 15 a 24 anos. um levantamento das revistas Veja e Su- perinteressante compôs os primeiros estudos exploratórios a fim de verificar a inserção impressa de propagandas sobre o celular no Brasil. cursos técnicos e universitá- rios. ainda consta a pesquisa em acervo digital e particular das revistas Veja e Superinteressante. Edições da década de 1990 da revista Veja fo- ram analisadas a fim de verificar a inserção da publicidade da 49 https://www.com/ 108 . respectivamente. apenas com alunos da amostra da pesquisa. No primeiro estudo exploratório.

Flora Dutra tecnologia móvel no Brasil e como esta iniciou. a busca por entendimento da cultura juvenil re- lacionada ao celular iniciou em março de 2012. Para obter dados para o planejamento da dissertação. de distintas classes sociais. Desta forma. foi elaborado um questioná- rio com 29 questões. como verificado anteriormen- te no estado da arte. tornando a trajetória inicial em elaborar o projeto de pesquisa muitas vezes nebulosa. No questionário via Facebook. relações individuais e apropriações simbólicas. através do acervo particular de uma historiadora. Os jovens têm até cinco redes sociais disponíveis para troca de informações – Facebook. a importância do estudo ex- ploratório fez-se necessária como uma primeira consulta ao nosso campo de estudo e análise.1. abril e maio de 2012. revela a mudança da pu- blicidade e o público-alvo. O jovem é o centro das publicidades e estes aparecem cada vez mais conectados e interagindo com a mobilidade. é ainda pouco investigado no país. 5. 109 .1. Questionário via Facebook Na ausência de informações necessárias para iniciar a pesqui- sa (dados estatísticos e empíricos). apresentou-se um cruzamento de informações e percepções que foram capazes de mostrar um universo desco- nhecido de tramas cotidianas. A partir dos anos 2000. A amostra foi composta por vinte e cinco adolescentes entre 16 e 24 anos. O tema. e deu-se através da rede social Facebook. catorze deles com acesso à Internet. o levantamento da revista Superinteressante. No estudo I. nos meses de março. todos os entrevistados têm ce- lular.

GPS. Treze deles desejam ter um iPhone. gostos. informação e entretenimento. através de check-in. É unânime a resposta dos entrevistados sobre o que gostariam de mudar no seu apa- relho: todos desejam melhorias nos recursos funcionais. Tumblr. foi possível detectar práticas e hábitos 110 . Catorze jovens acessam mais de dez vezes o aparelho por dia. permane- cendo sempre visível aos demais. detectou-se mais de quinze mo- delos de aparelhos. dezessete jovens dormem com o aparelho na cama. revelando. depois. catorze usam o celular durante a aula para tirar fotos e. Foursquare. Os vinte e cinco jovens entrevistados classificam seus aparelhos em marcas. tamanho. ainda. Os aplicativos seguem atrás das redes socais como formas de co- municação. onde o amigo/companheiro se encontra naquele momento. a localização de onde estão. no primeiro trimestre de 2012. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Twitter. Treze realizam suas refeições diárias na companhia do aparelho à mesa e. para que outras pessoas possam visualizar geograficamente. postar em redes socais. dezoito deles acreditam que o celular é necessário para comuni- car-se com outras pessoas e não apenas para acessar a Internet. desde Internet mais veloz até aplicativos sofisticados para enviar fotos e editar vídeos. apontam o celular da Apple como distinção social dentro do grupo de amigos. A fidelidade da operadora ainda prevalece como uma questão de costume e tradição. Os seis não respondentes já possuem o iPhone. funcionalidade e preço. No questionário via Facebook realizado com 25 jovens. Do mesmo modo. Dezenove deles não interagem diretamente com programas de televisão através do celular. Na análise do questionário. através da rede online. Questões como a dife- renciação social e a distinção simbólica começam a emergir das respostas dos adolescentes.

ES.1. Santa Catarina: Tubarão. estoquista. taxista. doméstica. 29% trabalham no mercado. pedreiro e cabeleireira. revisora de textos. estaduais e particulares de diversas cidades do estado. Frederico Westphalen. estudantes de outras escolas municipais. técnico em eletrônica. no questionário online: mecânico. agri- cultura. Santa Cruz do Sul. secretário. promotora de vendas. Espírito Santo: Vila Velha. destaca-se o mercado informal51 de trabalho. Flora Dutra referentes ao uso do celular. auxiliar de cozinha. Cach- oeira do Sul. De SP foram São Paulo e Osasco. vidraceiro. que representou. Paraná: Toledo. Nova Palma. Gravataí. Porto Alegre. artesão. oleiro. pedreiro. e as princi- pais ocupações profissionais são estagiário. produtor rural. Alagoas: Maceió. motorista. assistente de marketing. 50 As cidades do Rio Grande do Sul foram Santa Maria. Três de Maio. Santa Rosa. Os respondentes residem em diversas cidades e municípios do país50. Uruguaiana. 5. bolsista de iniciação científica. auxiliar de idoso. freelancer. segundo a Fundação Getúlio Vargas. vendedora. Tapera. chaveiro. mas a maioria é do estado do Rio Grande do Sul e da cidade de Santa Maria. Dos entrevistados. estaduais e universitá- rios. Itaara.2. redatora. sendo 74% meninas e 26% meninos. promotor de vendas. Vila Gaúcha e Palmitinho. auxiliar de vendas. músico. fo- tógrafa e babá. técnico em eletrônica. representante comercial. SP. Santiago. 16% do PIB no Brasil. pastor. faxineira. vendedor autônomo. Santana do Livramento. Com os resultados obtidos. massagista. contador. 51 Destacam-se as seguintes profissões no mercado informal de trabalho. auxiliar de produção em TV. auxiliar administrativo. pintor. A amostra foi composta por 204 entrevistados. ficou clara a necessidade de um segundo estudo exploratório em apro- ximação com espaço escolar para compreender como os jovens estavam fazendo uso do aparelho. Os respondentes são participantes de escolas municipais. desenhista. em 2013. represent- ante comercial. diarista. universidades e cursos técnicos estados do RS. PR. mestre de obras. autônomo. São Borja. Sobre a ocupação dos pais. Questionário online O questionário online foi aplicado com alunos do colégio A. 111 .

desde pa- gar contas em banco ou pra saber sobre o mundo. 18 anos) Sim. (Es- tudante. o posicionamento dos informantes foi positivo. Questionados sobre a importância do celular no mercado de trabalho. consequentemente facilita sua compreensão a sistemas operacionais. Mostrar que estou a par das tecnologias que envolvem o mercado no qual eu trabalho foi um diferencial. por exemplo. acredito que o conhecimento de um telefone com tecnologia inovadora faça diferença em uma entrevista. 21 anos) Em partes sim. (Universitário. 68% possuem Internet Wi-fi ou 3G disponível no aparelho. O manuseio deles sem dúvida aumenta o conhecimento em vários setores que podem ser necessários na hora da busca de um emprego. todos os imagináveis. Sem contar. 23 anos) 112 . (Universitário. (Universitário. 22 anos) Acredito que o celular é um meio rápido e portá- til de acessar a internet. E a partir disso ele abre um leque de opções para o trabalho em todas as áreas de atuação profissional. acredito que os recursos oferecidos no celular aumentam seu aprendizado em relação à informatização e tecnologia. Dos entrevistados. O celular facilita tudo hoje em dia. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular A contribuição do questionário online aplicado através do software Enuvo da empresa Online Pesquisa foi refletir sobre os modos pelos quais jovens utilizam o celular no espaço escolar e como eles se relacionam com a escola e a mídia para definir uma identidade de classe em uma cultura da convergência. Sim. os aplicativos que é possível ter no aparelho hoje em dia. e ter o domínio das funcionalidades do aparelho foi apontado por mui- tos como a manutenção de contatos entre trabalhadores e empre- gadores.

uma identidade de “classe” que não passa pela consciência de classe. A modernidade e a velocidade foram atributos referenciais. “o advento do telefone celular ser- ve bem como ‘golpe de misericórdia’ simbólico na dependência em relação ao espaço.usos do celular Para compreender a relação do celular e os entrevistados. Flora Dutra Verifica-se. realizar chamada ainda é a funcionalidade principal. Daí a defesa do argumento do isolamento. afinal. Sobre os usos frequentes no aparelho. o acesso aos telefones celulares é um poder extraterritorial. em partilhar aspectos individuais e emo- tivos da vida privada assim como partilhar uma vaga noção de estilo de vida (RONSINI. DUTRA. 2013). isolamento do grupo em relação a outros e isolamento no interior do grupo na medida em que a noção de pertencimento se baseia em sub- jetividades e. 1 gráfico . mas pelo estar junto entre iguais porque. ficando atrás do envio de torpedos. Segundo ele. Não importa mais onde está e quem dá a 113 . o capital social dos jovens que se amplia no telefone móvel e pelas redes sociais não ultrapassa os limites de sua classe. Para Bauman (2000). como tal. não mais limitado. nos depoimentos. questionou-se qual era o significado do aparelho.

00 a R$30. Para tratar de assuntos rápidos. 114 . ou quando estou num ambiente onde não posso realizar uma chamada. Para minha mãe e para os meus esquemas. 18). O ob- jetivo é economizar em ligações e como forma de recado. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ordem – a diferença entre o ‘próximo’ e o ‘distante’. 19 anos) 52 Planos das operadoras ativas no país como a TIM.significados do celular Palavras como “amor. velho. como aulas ou cine- ma. 17 anos) Amigos. (Es- tudante da escola A. em caso de a outra pessoa não atender. 2 gráfico . Pais e Namorado. está a ponto de desa- parecer” (BAUMAN. 2001. tudo. questionou-se para quem e quais os conteúdos dos SMS52 enviados. Como o torpedo apare- ce como a segunda funcionalidade mais utilizada. O gasto mensal na compra de créditos para o celular ficou em torno de R$10. ou entre o espaço selvagem e o civilizado e ordenado. geralmente incluso nas recargas. OI e Claro proporcionam pacotes de envio de SMS para os usuários por um preço reduzido. então envio um torpedo. VIVO. novo. p.00/mês. aparência” foram encontradas nas respostas ao descrever o que o celular significava na vida dos estudantes. vida. paixão. (Jovem. amor.

desligados da tecnologia ou amigos que não possuem smartpho- nes. utilizado com frequência aplicativos de mensagem instantânea (whats app) com um gru- po mais ligado em tecnologia. fazer alguma piadinha com o time de fu- tebol deles e também para mandar parabéns. Já para as pessoas relacionadas ao estágio é marcando reuniões e coi- sas do gênero. Só utilizo torpedos com este grupo se por algum motivo eu ficar sem internet. amigos ou pági- nas de informação são “curtidas” no Facebook e acessadas pelo celular diariamente para fins de atualização. 24 anos) Assim. geralmente pessoas mais jovens. contar algum acontecimento ou ape- nas para passar o tempo. as informações de artistas preferidos. Para meus familiares normalmente é para mandar notícias. sendo que todos moram longe de mim. 20 anos) Utilizo torpedos para um determinado grupo de pes- soas. Flora Dutra Para amigos. geralmente pessoas mais velhas. (Jovem. assim. Entretanto.informações acessadas pelo celular 115 . além dos parabéns para os que moram longe e não poderei dar pessoalmente. os perfis mais seguidos na rede social online são: 3 gráfico . (Estagiária. Para os primeiros é apenas para convi- dar para algo. familiares e pessoas relacionadas ao meu estágio.

por um lado. Para o jovem mais destituído economicamente. de última geração. acessar redes sociais. campanha para adoção de animais e pessoas desaparecidas. acessar o Google e Wikipédia para os trabalhos de escola. já que 116 . Para a classe popular em geral. o termo virtualidade designa a experiên- cia de estar em contato com outros sem estar na presença deles. Através dele pode pagar R$10. e a influência da propaganda na compra é bastante relativa. doação de sangue para amigos ou conhecidos. Há uma clara divisão entre os que questionam a distinção e a desigual- dade e os demais que. DUTRA. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Ao verificar a inserção dos jovens em campanhas e mobiliza- ções sociais pelas redes online através do celular. Todos almejam ter aparelhos melhores. escolhas individuais ba- seadas em capital cultural e não em acesso aos bens. os que acreditam em uma democracia baseada no consumo igual para todos (RONSINI. se referem às diferenças dos aparelhos usados por ricos e pobres como diferenças entre ca- pitais culturais: habilidades para usar recursos. divulgação de eventos. por outro. há três categorias de respostas quan- do perguntados sobre as diferenças entre o celular do rico e do pobre: as relacionadas com a distinção (28%). ver vídeos de suas bandas prediletas no Youtube. No questionário online. o interesse pela informação e não pelo entretenimento.00 reais por mês para usar a Internet. apresentaram- -se vertentes variadas como compartilhamentos de promoções de empresas para ganhos de brindes. 2013). campanhas de casas no- turnas para ingresso gratuito. estabelecer relações pessoais para além do contato face a face. o celular é o que permite sua inserção na cultura da convergência. com a democra- tização do consumo (21%) e com a crítica à distinção ou à desi- gualdade na distribuição dos bens de consumo (48%).

que se converte em uma tecnologia expressiva do Eu e do grupo restrito de pares. tal cultura celebra o bem-estar. Embora mencionem o trabalho. parece ser compensada pelo que buscam na tevê. o baixo capital cultural e a ausência de participação em atividades coletivas possivelmente tenha relação com o uso individualizado do aparelho. Vale dizer. na música ou nos filmes porque a realidade é dura demais para ser replicada também nos momentos de diversão. uma cultura do consumo contri- bui para a desimportância simbólica de classe. a diferença. de trabalho. Uma das conclusões do questionário online é que a condição econômica. Flora Dutra grande parte escolhe pelo preço. a mobilidade. 117 . de educa- ção e bons colégios. é como se ganhar dinheiro fosse algo mágico e seu resultado imediato é aquilo que as pessoas compram. o conforto. a saúde. sem abrir mão do que eles con- sideram prioritário. a juventude. Essa imagem negativa. que à elaboração de si. mas não para a desimportância da categoria como determinante no modo de vida (RONSINI. mas as desvantagens são sempre resultado de algo que desconhecem e nunca as causas da situação dos pobres: falta de dinheiro. O estilo de vida cultural dos jovens está baseado em experiências afetivas e perso- nalistas e colabora para a perda da consciência do lugar ocupado na hierarquia social. de diversão. o que inclui o uso da Internet. a constituição da personalidade. Por isso mesmo. à experiência individual e psicológica. o equilíbrio. são os objetos de consumo que ganham destaque. DUTRA. Reconhecem que as oportunida- des não são iguais para todos. 2013). a liberdade. A partir do questionário online. quando definem o que é ser rico ou pobre. pela falta. pois. a igualdade e uma série de outros valores que estão menos ligados à disputa por poder e distinção. a velocidade. a beleza. pode-se verificar que as re- lações sociais são vistas sob a ótica do consumo.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

5.1.3. A história do celular a partir de reportagens
e publicidades

Houve um tempo na história em que não havia telefone ce-
lular, as pessoas viajavam em transportes conduzidos por ani-
mais e as cartas eram o único meio de comunicação para quem
morava longe. Nessa época, não muito distante da história, dois
homens arriscariam seus conhecimentos para que a comunica-
ção, uma necessidade humana, se tornasse mais veloz e eficiente.
Foi quando, em 1876, Alexandre Graham Bell e seu assistente
Thomas Watson fizeram a primeira ligação telefônica. Doze anos
mais tarde, o físico alemão Heinrich Hertz descobriria as ondas
eletromagnéticas tornando possível ao laboratório Bell avançar
nas pesquisas em transmissão de códigos pelo ar. Para Drucker
(1968, p. 20), entre 1850 e 1880, foram as décadas que aparece-
ram a lâmpada elétrica, a máquina de escrever e o telefone.
No início do século XX, foi desenvolvido pelos pesquisadores
que trabalhavam no laboratório Bell Company um sistema telefô-
nico ligado por antenas. Cada uma das antenas representava uma
célula e esse serviço permitiu a comunicação móvel utilizada em
carros nos Estados Unidos. Mas a primeira ligação entre dois te-
lefones celulares só foi possível graças aos estudos do executivo
da Motorola (concorrente da Bell Company), Martin Cooper. Há
quarenta anos, Cooper, de maneira inédita, demonstrou, na cida-
de de Nova Iorque, em abril de 1973, como se daria o princípio
da tecnologia móvel.
Os primeiros celulares DynaTAC produzidos pela Motorola,
entre 1983 e 1994, foram considerados, anos mais tarde, como

118

Flora Dutra

‘tijolos’ devido ao tamanho e ao peso. Cada celular media cerca
de trinta centímetros e pesava quase um quilo e, em contraste, o
nível de bateria era muito reduzido, com durabilidade que não ul-
trapassava trinta minutos. Ainda vivo, aos 85 anos, o inventor do
aparelho móvel desligou-se da Motorola após 30 anos de trabalho
e fundou a própria empresa denominada ArrayComm53 especiali-
zada em softwares de infraestrutura para banda de base sem fio.
Foi na década de 1990 que os celulares tiveram um avanço
no mercado de bens de consumo. Inicialmente, usado por adul-
tos para receber e fazer chamadas, os celulares tinham tamanhos
grandes, eram caros e só a classe alta tinha acesso. A maioria des-
tes aparelhos era de contas mensais e não existiam muitas funcio-
nalidades. No Brasil, os primeiros prefixos para celulares foram
9982, no Rio de Janeiro. A reportagem da revista Veja “Turma do
998254” relembra que as primeiras linhas chegavam a custar 20
mil dólares, assim, somente pessoas com elevado prestígio social
eram portadores dos telefones móveis.
Um levantamento feito para esta pesquisa analisou 175 edi-
ções da revista Veja através do acervo digital, entre 1990 e 1999,
a fim de verificar a entrada do celular no Brasil. A primeira pro-
paganda impressa veiculada na revista sobre o celular foi da mar-
ca Motorola, na edição de 02/12/1992. A propaganda destaca os
investimentos de 1 bilhão de dólares anuais em tecnologia e faz
referência que, no ano de 1969, quando o homem foi à Lua, a
transmissão das comunicações foram feitas pela empresa Moto-
rola. Antes disso, em 25/12/91, o banco Meridional estampava a
eficiência dos serviços através de uma mulher em um carro falan-

53 Empresa de Martin Cooper, ArrayComm, disponível em <http://www.arraycomm.com/>

54 Por glamour ou nostalgia, clientes mantêm o prefixo de celular pioneiro no Rio. Disponível em <http://vejario.abril.com.

br/edicao-da-semana/prefixo-celular-rio-698029.shtml>

119

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

do ao telefone. No anúncio, destaca-se a referência às aparências
e ao bom atendimento. Esta seria, portanto, a primeira aparição
do celular em forma de propaganda, mas não de forma direta por
fabricantes ou operadoras de serviços.

Figura 4
FONTE: Revista Veja 02/12/1992

Os telefones celulares começaram a aparecer na mídia impres-
sa como ferramenta de serviços, atendimento e distinção entre as
empresas. Fora a Motorola, nenhuma fabricante de telefone reali-
zava o marketing empresarial. As lembranças ao telefone estavam
sempre ligadas ao serviço bancário, a viagens e a reuniões. A
linha de inspiração publicitária seguia as ideias do telefone fixo.
A relação da telefonia fixa, no início dos anos de 1990, com o
mundo empresarial ou o gênero masculino ainda era evidente. A

120

Flora Dutra

distinção social de quem tinha um aparelho móvel era usada com
bastante frequência como apelo publicitário.
No ano de 1991, muitas reportagens e notas na Veja fizeram
menção à telefonia móvel e ao aparelho de celular. Na reportagem
do dia 08/05/91, a revista destaca que mais de três mil cariocas já
faziam uso dos aparelhos móveis. O Brasil foi o segundo país da
América Latina a oferecer telefonia móvel, o primeiro foi o Chile.
A abertura da telefonia móvel em São Paulo faria girar um
bilhão de dólares com a venda de aparelhos e linhas. No aguardo
pela disputa estavam Roberto Marinho, das Organizações Globo,
Matias Machline, diretor da Sharp no Brasil e Olavo de Monteiro
Carvalho, do grupo Monteiro Aranha, ligado por laços de paren-
tesco com o então presidente Collor. O banqueiro José Safras e
as multinacionais Ericsson e Motorola também estavam na briga
pela instalação da telefonia móvel.
As fraudes das licitações e as barreiras burocráticas foram o
problema inicial para a consolidação dos serviços no Brasil, onde
mais de 300 mil clientes estavam no aguardo. Um edital para a
concorrência do setor privado foi elaborado pelo governo, e, no
documento, o secretário de Comunicações Rauber divulgaria o
vencedor da melhor proposta. No fim das contas, a empresa ja-
ponesa de tecnologia NEC levou a melhor. A multinacional foi a
responsável por instalar o primeiro sistema analógico em SP e,
posteriormente, o sinal digital. Somente em agosto de 1993 os
serviços de telefonia móvel iniciaram em São Paulo, seguido por
Campinas e São José dos Campos.
Em 1993, o celular já estava popularizado no Rio de Janeiro e
em Brasília, onde políticos, artistas e empresários usavam o apa-
relho em locais públicos como símbolo de status. Mas a concor-
rência das operadoras de telefonia móvel acabou barateando os

121

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

custos de ligações e linhas, e o aparelho enfim começou a chegar
à classe média brasileira. Neste ano, as linhas caíram para 400
dólares, o que possibilitou o aumento das aquisições, e a contra-
tação dos serviços era de 80 dólares.
No início dos anos 2000, já com as empresas de telefonia mó-
vel consolidadas no mercado brasileiro, houve uma transição na
narrativa publicitária. O que antes era vendido aos empresários
e pessoas com poder aquisitivo alto, passou a atingir o público
jovem. Um levantamento realizado para esta pesquisa entre o ano
2000 até 2010 da revista Superinteressante, através de um acervo
particular de uma historiadora, totalizou a análise de 307 edições.
Pode-se constatar a mudança significativa da linguagem publici-
tária, pois, à medida que os telefones ficavam mais inteligentes, a
narrativa buscava a liberdade, a convergência e a conectividade.
A partir dos anos 2000, as fabricantes mundiais de celular
eram as que anunciavam na revista Superinteressante. Destaca-se
aqui a empresa finlandesa Nokia, uma das principais fabrican-
tes de celulares do mundo. Entre as fabricantes mundiais que
seguiam os passos da Nokia na fabricação de telefones celulares
estavam as coreanas Samsung e LG, a americana Motorola, a sue-
ca Ericsson, a alemã Siemens e a brasileira Gradiente. Palavras
como revolução digital, convergência e estilo foram o carro-chefe
das propagandas.
A partir de 2002, as empresas de telefonia Claro, Tim, Vivo
e Telefonica (posteriormente a OI), alçaram voo no ramo publi-
citário. Os fabricantes deixaram de anunciar, e o que passava a
veicular no meio impresso e televisivo eram as propagandas das
operadoras, que brigavam pelos assinantes. Atualmente, existem
nove grupos ativos de operadoras de celular no Brasil: Vivo, Cla-
ro, Oi, Tim, Nextel, CTBC, Sercomtel, Porto Seguro e Datora. As

122

teleco. como dito anterior- mente. a empresa lançou o Motorola StarTac (05). pesava 785 gramas e entrou no mercado em 1983.asp> 123 . em 1996.br/opcelular. O modelo já tinha a metade do tamanho do DynaTac. tamanhos e cores que são atribuídos ao aparelho de celular. Um ano depois. Figura 5 FONTE: Organizado pela autora 55 Operadoras de celular 2013. apresenta-se a evolução dos celulares. O avanço tecnológico por empresas ligadas à telefonia móvel proporcionou a massificação deste objeto. e a vantagem para o usuário era o visor maior. a Tim e a Claro55. que foi muito popular no Brasil. que media 24 cm. 113 gramas. é possível observar a diversificação de modelos.com. Em 1994. Em shoppings e lojas especializadas. pela empresa Motorola. e. 15 cm. a concorrente Nokia introduziu no mercado o modelo 6120 (03). Nas figuras a seguir. a Nokia passou a comercializar o modelo 3310 (04). e pesava quase sete vezes menos. foi o DynaTac (01). a mesma empresa lançou o Motorola Microtac Elite (02). Disponível em < http://www. No ano 2000. Flora Dutra três principais empresas que lideram o mercado são a Vivo. O primeiro celular a ser comercializado.

As principais empresas no setor buscavam recursos tecnológicos para um melhor desempenho e. logo. Não é intuito. com uma infinidade de recursos que. os mais populares e conhecidos. entraram no mercado os chamados smarthphones. Figura 6 FONTE: Organizado pela autora 124 . mas. de imediato. A figura a seguir apresenta os principais celulares neste iní- cio de século. sim. listar os modelos mais caros no mercado. com pouca definição de cores e recursos limitados. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Os modelos de celulares descritos acima eram os principais aparelhos comercializados no país até 2004. O celular tornava-se cada vez mais popular. a fim de demonstrar a evolução da tecnologia e o desejo pela apropriação dos consumidores. aqui. conquistaram o público. aparelhos mais inteligentes. Os aparelhos ainda eram robustos.

e ele suportava a linguagem em flash e tinha recursos adicionais como mapas de localização. com um layout parecido com o V3. 56 Os vinte celulares mais famosos da história. as músicas em mp3 já podiam ser repro- duzidas.br/noticias/noticia/2013/02/ site-lista-os-20-celulares-mais-famosos-da-historia. em um dia histórico para a revolução da tecnologia móvel. 130 milhões de unida- des56. O layout do teclado permitia uma digitação rápida. com uma variedade de cores disponíveis. mas eram difíceis de serem usados. O BlackBerry (07) entrou no mercado em 2007. mas a tela era mais atrativa. Neste aparelho. Foi muito requisitado entre as mulheres. Até então. principalmente para o mercado de trabalho. com a mesma tecnologia touchscreen e com preço de mer- cado mais acessível ao interessados em tecnologia inteligente. pesava 95 gramas e era o celular mais “fino” comercializado. complicado para alguns. o que atraiu a atenção também dos jovens. O lançamento foi feito pelo visionário em tecnologia e fundador da Apple.html> 125 . No dia 29 de junho 2007. diferente dos modelos anteriores. Foi um dos celulares mais vendidos na história. era o prefe- rido do público masculino. Steve Jobs. Flora Dutra O aparelho Motorola V3 (06) chegou ao mercado em 2004 com um design. O sofisticado sistema operacional do iPhone possibilitou multitarefas como a interface de um desktop. Em 2006. o Galaxy Nexus (09). O aparelho já possuía funções específicas para pessoas que necessitavam de recursos funcionais.techtudo. pesando 135 gramas e com tecnologia touchscreen. A revolucio- nária interface agregou hardware e software e possibilitou aos usuários livrarem-se dos botões apenas com um simples toque do dedo.com. Disponível em <http://www. foi lançado o iPhone (10). os smartphones combinavam emails e Internet. Quatro anos mais tarde. até então. a Samsung lançou um similar ao iPhone. a Nokia lançou o modelo N95 (08).

disponível em <http://www. quase que despercebidos. braços e coxas). de- senvolvido pela Microsoft (15). Figura 7 FONTE: Organizado pela autora 57 Cientistas desenvolvem nova forma de interagir com aparelhos eletrônicos em que é preciso apenas tocar a própria pele para acionar os comandos. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Há quarenta anos era impossível ligar de onde se estivesse para outra pessoa. 315) pre- viu: “perdemos os limites e o juízo de valor sobre as máquinas. p. somos o mesmo que elas”.com. O celular é o símbolo em constante transmutação de valores. em qualquer lugar do planeta. Os rápidos avanços da tecnologia permeiam nossa vida e. de significados e de práticas. É ele que informa o quão atualizado se está. Os aparelhos de celulares estão cada vez mais presentes na vida humana. 38) retrata o celular como uma das maiores invenções humanas. em qualquer espaço e tempo. Não se está lon- ge do que a filósofa americana Donna Haraway (2000. entra no mercado. os celu- lares cabem na palma da mão. A fusão da biologia. ajustam-se ao dia-a-dia. da informática e da mi- croeletrônica foi a base para os avanços em inteligência artificial. Até 2016.br/reportagens/129053_NA+PALMA+DA+MAO> 126 . o SkinPut57 – inovação que agre- ga smartphones em comandos ao toque da pele (mãos. O Skinput elimina botões ao usar o maior órgão do corpo humano como superfície para acionar celulares.istoe. p. hoje. Castells (2007.

com/2007/04/17/radia-circular-cell- -phone-by-michael-laut/> 59 Nokia Research Center. Novas experiências sensoriais para o usuário estão sendo os avanços na tecnologia móvel. pois. a declaração que eles fazem como símbolo e um acessório de moda tornou-se cada vez mais importante”. toque de luxo e requinte para a assinatura de várias grifes famosas. Berkeley. Flora Dutra A mobilidade imaginária é maior que a real. Sunnyvale. Como principais desa- fios da tecnologia móvel futura aparecem sensores. disponível em <http://research. basta soprar a tela. Para ativar qualquer recurso no aparelho. como a criação de metametais para nanopar- tículas magnéticas.pdf> 127 . a Apple aposta em holográficos. Na mistura do design Michel Laut58(12). Nairobi. O celular holográfico. Otanieme. o apa- relho apresenta forma arredondada. podendo ser ajustado em qualquer movimento e comando de voz. 58 Circular Cell Phone by Michael Laut. O Windows Phone (14) promete prever com precisão as mudanças de temperatura onde o usuário está loca- lizado. “como os telefones se tornaram padrão. Black Hole (15). O contorno. armazena- mento de dados. poder e gerenciamento térmico e mais avanços na nanotecnologia. on- line e móvel. baseados em progressos da nanotecnologia. totalmente maleá- vel. dessas novas estruturas está em vivenciar novas práticas culturais. Disponível em <http://www. com tela transparente.yankodesign. Pequim.nokia. está sendo projetado para entrar no mercado antes de 2020. Não distante da concorrente e dos projetos para lançamen- tos futuro.com/files/leti2007Asta. criaram o HumanForm (13). Será possível informar o humor da pessoa que está na linha. O Nokia Research Center59 preparou o Relatório “Future challenges for mobile phones” baseado nos centros de pesquisa em Bangalore. Os centros de pesquisa da Nokia. Cambridge. Tampere.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

5.2. Estudo exploratório II

Para a definição do universo da amostra, no segundo momen-
to dos estudos exploratórios que compõem a pesquisa, opta-se
por se fazer o recorte pela posição de classe popular e a geração
jovem. Dez alunos foram selecionados pelo interesse demonstra-
do em conversas informais no pátio da escola em compor o se-
gundo estudo exploratório. A fim de possibilitar dados qualitati-
vos, permitindo uma melhor compreensão nesse segundo estudo
exploratório, a entrevista semiestruturada foi composta por 144
questões pertinentes ao tema, dividida nas seguintes categorias:
identificação do entrevistado, escola, redes sociais, celular, famí-
lia, grupo social, representação e valores.
Com relação à amostra de dez jovens da mesma escola, as
entrevistas foram realizadas no colégio, em uma sala cedida pelo
setor de Orientação Educacional, posteriormente, na casa dos
entrevistados e, por último, em ambientes públicos, como sho-
ppings e parques.
Um mapeamento do perfil das redes sociais online (Facebook)
foi realizado durante seis meses a contar do primeiro contato para
com os estudantes entrevistados. De cinco a oito encontros foram
necessários para as entrevistas em profundidade, com duração de
mais de duas horas cada e, assim, o perfil de cada estudante pôde
ser construído.

5.2.1. Definição do universo da amostra

As entrevistas que compõem o segundo momento dos estudos
exploratórios foram realizadas em uma sala cedida pela Secretaria

128

Flora Dutra

de Orientação Educacional do Colégio A; os registros foram gra-
vados em áudio e, depois, decupados, resultando em 293 páginas
transcritas e mais de oito horas de gravação.
Os entrevistados confessam ter pesquisado algum conteúdo
na Internet através do celular durante a aula e sete deles sofreram
repreensões por parte dos professores pelo uso indevido, causan-
do constrangimentos e apreensão do aparelho por parte da dire-
ção da escola. Formas de aprendizagem com o uso do aparelho
através de pesquisa online e leituras em sala de aula são apon-
tamentos dos jovens embora descreiam que seu uso deva ser le-
galizado, pela incapacidade de se centrarem apenas em questões
relacionadas à aula.

Às vezes você está em pesquisa de aula e não tem
algumas coisas nos livros e dai a internet te propor-
ciona muito, porque no Google o que eu não acho
nos livros pode achar na internet. A maioria dos
professores neste caso libera como os professores de
português, história, língua estrangeira e literatura. E
atrapalha porque às vezes estou concentrado numa
aula e recebo uma mensagem e dai tu fica entretido
e perde a aula (Carlos, 17 anos).

Se fosse liberado o uso do celular ia ser uma bagun-
ça. Todo mundo olha escondido, mas se realmente
fosse liberado ninguém ia prestar atenção na aula,
ia ser uma bagunça desgraçada (Gerson, 17 anos).

Atrapalha às vezes eu sinto vontade de tuitar e daí
eu vou lá e tuito. E me desconcentro da aula (Gui-
lherme, 18 anos).

É unânime entre os estudantes o acesso às redes sociais no
celular através da conexão Wi-Fi e/ou 3G. Destaque para o Face-
book, de que todos participam via celular; sete estudantes dizem
não conseguir relacionar-se sem o uso da rede online e não veem
outra atividade possível para realizar sem estar conectados.

129

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

Parece que tem que ficar mexendo e atualizar algu-
ma coisa. Fico ansiosa sem estar conectada pra ver se
aconteceu alguma coisa (Tuane, 17 anos).

No twitter eu conto tudo que eu faço no meu dia,
tanto coisas boas ou ruins. Às vezes chego a fazer
mil tuites. Chego ao limite do twitter (Mariana, 16
anos).

Os hábitos diários estão intrinsecamente ligados ao celular.
Todos levam diariamente o aparelho para a escola e dizem veri-
ficar mensagens durante as aulas. Nove deles escutam música e
já tiraram fotos em sala de aula. Sete entrevistados dizem utilizar
o celular enquanto conversam com os pais e seis deles comparti-
lham conteúdos nas redes sociais enquanto dialogam com amigos
e parceiros.

Eu acordo e vou pro twitter, tuito que eu acordei. Eu
vou pro banho e depois que eu saio eu tuito de novo.
Eu vou tuitando o dia inteiro e quando eu chego na
aula conecto a internet e vou pro Twitter e pro Face-
book, de noite na cama eu fico reblogando e tuitando
(Mariana, 16 anos).

Os entrevistados admitem por unanimidade acordarem e ve-
rificarem mensagens no telefone, como também olharem o apa-
relho antes de dormir. Os jovens utilizam o celular na cama e no
ônibus, oito no banheiro e sete fazem refeições com ele ao lado
enquanto atualizam as redes sociais. Os entrevistados dizem de-
senvolver afetividade relacionada ao objeto, utilizando palavras
como “amor, afeto, companheiro, raiva (quando não funciona),
não poderia viver sem o celular”.

Ficar sem celular é a mesma coisa que estar perdida,
sem saber pra onde ir. No twitter eu conto tudo que

130

Flora Dutra

eu faço no meu dia, tanto coisas boas ou ruins. Às
vezes chego a fazer mil twittes. Chego ao limite do
twitter (Mariana, 16 anos).

O celular serve como construção de si mesmo ao personali-
zar o papel de parede, construir o perfil na rede social, postagem
de fotos. A resposta é unânime também quando questionados
sobre a forma de andar e falar publicamente, pois todos digitam
textos ou realizam ligações enquanto caminham. O sentimento de
solidão sem o aparelho é mencionado por todos e acreditam que
o celular faz parte de si, do próprio corpo.
Os planos pré-pagos estão disponíveis para a maioria, e sete
dos entrevistados já tiveram entre cinco e dez modelos diferentes
de aparelhos. Todos ganharam celulares dos pais e cinco deles
escolheram o modelo variando de R$300,00 a R$600,00. Com re-
lação ao trabalho dos pais, podem-se enquadrar nas seguintes
profissões: doméstica, taxista, frentista, esteticista, do lar, autôno-
mo, comerciante, funcionário público, policial aposentado. Oito
jovens entrevistados revelaram que seus pais fizeram a compra
do celular em parcelas.
Neste segundo estudo, que contou com a amostra de dez es-
tudantes da escola A, apenas quatro consentiram em prosseguir
para a amostra da investigação, pois concordaram em colaborar
com a etnografia e observação participante tanto no espaço esco-
lar quanto no doméstico.

5.2.2. Amostra

Os jovens entrevistados para esta pesquisa pertencem ao Co-
légio A, que tem aproximadamente 1.300 alunos matriculados no
Ensino Médio. A maioria dos alunos do Colégio é oriunda de

131

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

classe popular. Assim, a atenção volta-se aos menos favorecidos
pela condição econômica subalterna em relação a outras classes
sociais. O município conta com 37 escolas públicas para o Ensino
Médio, mas apenas a direção da escola A aceitou a inserção da
pesquisadora no espaço escolar a fim de entrevistar alunos sobre
o uso do celular.
Com a liberação por parte da direção do colégio para a inves-
tigação com os estudantes, a primeira aproximação foi entre ju-
nho/julho/agosto de 2012 com o propósito de realizar estudos ex-
ploratórios e selecionar jovens para a entrevista em profundidade.
A amostra da pesquisa é composta de dez alunos de classe
popular do Ensino Médio da Escola A. Durante a etnografia, seis
entrevistados revelaram pertencer ao programa Bolsa Família.
Para a entrevista em profundidade, contou-se com cinco moças e
cinco rapazes, na faixa etária entre de 15 a 18 anos. Todos eles
têm moradia fixa na cidade de Santa Maria e residem na perife-
ria, longe do centro urbano. Ao traçar o perfil geral dos estudan-
tes entrevistados, pode-se destacar insegurança perante o futuro,
dificuldades financeiras vividas no núcleo familiar e conflito de
gerações.
Ao relatarem histórias da vida pessoal, todos pareceram fran-
cos ao contar os problemas vivenciados, os traumas e as insegu-
ranças. Poucos alunos apresentam descaso com a higiene pessoal,
pois a imagem individual perante a escola é muito bem elaborada
antes de sair de casa. Geralmente vestem-se com a roupa que
possuem e usam o celular como acessório de moda ao combinar
a capinha com as cores do vestuário.
Durante as entrevistas, muitos falaram de suas expectativas
sobre o futuro e revelaram que o celular é o principal meio de
acesso à Internet, já que a maioria não possui computador ou no-

132

observados na rede social Facebook. Os entrevistados desta pesquisa são. fazer trabalhos da escola e acessar o 133 .2. Perfil dos entrevistados A seguir. enfermagem e cabeleireira. sete deles foram reprovados na trajetória escolar. que está grávida e foi abandonada pelo namorado caminhoneiro. as jovens Eliana. repetentes na escola. construindo mecanismos de distinção social entre os demais colegas. Alex e Eduardo reprovaram dois anos. Com relação à aquisição do capital cultural fora do espaço escolar.3. A renda aproximada da família é de R$950. Alice – tem dezessete anos. os quais são descritos a partir do trabalho de campo etno- gráfico e a técnica da observação participante.00/mês e seis pessoas dividem a casa – incluindo a irmã mais velha de dezenove anos. na maioria. bem como através da análise dos perfis dos entrevistados. Flora Dutra tebook em casa. apenas Alex e Eliana namoram há mais de um ano. Denise. A mãe da estu- dante é faxineira e o pai recolhe lixo hospitalar em uma empresa terceirizada. já Bianca e Cé- sar repetiram uma vez no Ensino Fundamental. seguem os perfis dos dez entrevistados desta pes- quisa. Oito entrevista- dos admitiram ter praticado relações sexuais embora estejam sem parceiros. cursa o primeiro ano do Ensino Médio pela manhã e à noite é garota de programa. Quatro estudantes relataram integrar o mercado informal de trabalho para ajudar nas despesas da casa embora todos ajudem nas tarefas domésticas do lar. Cláudia e Denise destacam-se na bus- ca por aperfeiçoamento técnico em cursos profissionalizantes de maquiagem. Ali- ce. Alice revela que é através do celular que conse- gue marcar os programas. 5.

e a estudante participa ativa- mente das atividades da Igreja no bairro. Repetente por dois anos seguidos. A estudante tem computador em casa. pode comprar algumas coisas que deseja. mas não possui Internet. o que gera muitos conflitos dentro do lar. Ela coordena o grupo de jovens evangelistas. um de catorze e outro de quinze anos. pois a família não possui computador em casa. 134 . Durante a manhã. participa da banda da escola e é dedicada aos estudos. Está sempre com anéis. A jovem divide a casa com mais dois irmãos que estudam no mesmo colé- gio. pois a mãe ga- nha apenas um salário mínimo. Atualmente a jovem tem o sonho de ser médica e já cursa paralelamente ao colégio um curso técnico de enfermagem. é de madeira e ela divide o quarto com a irmã grávida. a mãe é doméstica e foi até a sétima série. brincos e colares que “chamam a atenção das pessoas”. Os pais da jovem são separados. Como Bianca tem mui- tos acessórios. A casa em que Alice vive fica no subúrbio da cidade de Santa Maria. A grande paixão da jovem são as bijuterias. a capinha do celular é trocada quase todos os dias para combinar com o vestuário. Cláudia – tem dezoito anos. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Facebook. Bianca – tem dezessete anos e cursa o segundo ano do Ensino Médio pelo turno da tarde. A família de Cláudia é evangélica. ela é babá e. O seu sonho é trabalhar com marketing. a jovem se diz desestimulada em relação ao ensino e a única maneira de mudar de vida é casando com um homem rico enquanto é jovem. e a única forma de acesso às redes sociais é pelo celular. com o salário. A mãe dela é faxineira em uma casa de um bairro nobre da cidade e o pai abandonou o lar quando ela tinha apenas cinco anos. está no terceiro ano e nunca re- petiu de série. O maior passatempo da estudante é o telefone celular e as redes sociais. O pai da estudante é pedreiro e cursou até a quinta série do Ensino Básico.

O pai é porteiro de um hospital da cidade e a mãe faz bico como cabeleireira e sacoleira quando pode. A predominância no álbum de fotos são registros de colegas. pois tem sérios pro- blemas de saúde. tendo dificuldades de ir à escola. assunto polêmico que envolve alunos homossexuais durante o intervalo na escola. alterando os laços de parentescos com a família biológica. a privacidade que tinha antes. assim como valores morais e religiosos. A jovem usa o celular para falar com amigos e família diariamente. e a jovem co- locou quatro colegas de aula como membros familiares. Sua maior diversão é o celular e a banda One Direction. Denise – tem dezessete anos e está no segundo ano do Ensino Médio. assim. Nos idiomas citados que fala está somente o português. As fotos são feitas a partir do celular e postadas na rede 135 . Está sem- pre acompanhada dos pais e quase nunca sai de casa. é sempre motivo de piada em sala de aula e quase não tem amigos. a casa de Cláudia está servindo de abrigo para uma tia (desempregada) e sobrinha. juntamente com a data de aniversário. Denise tem 780 amigos virtuais e não possui seguidores. A renda mensal da família é de menos de mil reais por mês. No perfil da estudante há o email pessoal de contato e o endereço residencial da família. Flora Dutra O curso é pago com muita dificuldade pela família. e o valor da educação dentro da casa de Cláudia é frisado diariamente pelos pais. Atualmente. perden- do. Denise não tem computador em casa e a única forma de acesso às redes é o celular. com a qual ela tem que repartir o quarto. Está sofrendo de depressão e síndrome do pânico. conteúdo exclusivo do seu perfil no Facebook. Denise afirma sofrer bullying constantemente no colégio por ser baixinha e gorda. A estudante é ativa em manifestações políticas e sociais e se diz abertamente a favor da “Cura Gay”. a turma de amigos da jovem.

no item idiomas que fala. A cidade natal dela é Porto Alegre. que se declara homos- sexual. os conflitos parecem atenuados em fotos postadas com a família constantemente. mas não visitou outros es- tados. a preferência é por mostrar festas. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Facebook. 136 . Eliana – tem dezoito anos e está no segundo ano do Ensino Médio. A estudante diz sofrer discriminação social constantemente no colégio por ser “negra. O celular é a única forma de acesso à Internet e. o que gera muitos conflitos familiares. Todos podem enviar SMS e realizar chamadas para a jovem. No perfil da rede social. O pai da jovem é entregador de móveis e a mãe é aten- dente de lanchonete na rodoviária de Santa Maria. No álbum de fotos da estudante. a jovem declara ter conhecido algumas cidades do Rio Grande do Sul. Está sempre com o celular na mão e conectada todo instante. pois “eu faço mais que eles”. Nas opções curtir estão a banda preferida já citada e cerca de 30 filmes de romance. A foto do perfil do Facebook dela é um autorretrato com o ce- lular. Há meses Eliana posta frases de autoajuda e de esperança. A foto de capa é do rosto dela em preto e branco. deixando claro haver algum conflito em sua vida íntima. ela diz. Os pais de Eliana são evangélicos e não aceitam a orientação sexual da filha. Hoje ela se diz “ex-crente” e defenso- ra da causa homossexual. mas não visita a capital rio-grandense há anos. Embora os pais sejam evangélicos e contra o relacionamento afetivo da filha. No perfil do Facebook. gorda e lésbica”. Um álbum de fotos próprias foi criado. consta apenas o português e o número do celular da estudante é público. fre- quenta uma lan house na vila onde mora. amigos e colegas do curso de Enferma- gem como forma de distinção entre os colegas da escola. quando quer realizar algum trabalho da escola. bebidas alcoólicas.

A única forma de comunicação com os amigos e namorado é o celular. na grade curricular do colégio. tem medo de mais rechaços por parte de colegas. o jovem trabalha como recepcionista em um hotel da cidade. o jovem apenas menciona o português nos idiomas que fala. Flora Dutra onde aparecem fotografias tiradas com o próprio celular da estu- dante. Atual- mente. A estudante é seguida por outros 62 usuários e tem 1. mas não diz com quem. Sente-se constantemente discriminado por ser homossexual. Os pais são se- parados. na rede online. O perfil apresenta a instituição escolar que frequenta e o local do novo trabalho. únicos membros familiares que conhecem a opção sexual do jovem. Quando realiza check in. Embora tenham. Não tem a mesma mobili- dade real que a virtual. Para ajudar na renda da família. Sofre diariamente preconceito por parte da mãe. menciona locais da cidade onde mora. Ele diz estar em um rela- cionamento sério. só merecem destaque de citações duas primas e um tio. que é evangélica e não aceita sua opção sexual. Em opções “curtir” que o usuário tem. O pai é motorista de ônibus e concluiu até a quinta série no Ensino Fundamental. línguas es- trangeiras como espanhol e inglês. como lancherias e shoppings. Com relação à família. estão 33 bandas de música e uma página contra 137 . ele vive com a mãe e os avós na casa da família. Alex – tem dezoito anos e está concluindo o terceiro ano do Ensino Médio com o sonho de ser fisioterapeuta. professores e familiares.002 amigos virtuais na rede social. a mãe está desempregada e o único sustento da casa é a aposentadoria dos avós. sempre muito maquiada e com roupas sensuais como ves- tidos curtos e decotes grandes. ferra- menta disponibilizada pelo Facebook para informar aos outros usuários o lugar em que está. Alex é gay e namora um colega de aula.

empregada doméstica. como passeios e exposições. César – tem dezessete anos e cursa o primeiro ano do Ensino Médio. um de sete e outro de doze anos. A mãe do adolescente é doméstica e o pai trabalha numa mecânica no bairro onde moram. em uma reafirmação perante si e o grupo social. Ele mesmo curte as próprias fotos. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular homofobia. Os pais do estudante estão economizando dinheiro para poder comprar um computador para a família. Seu maior sonho é conseguir independência finan- ceira e mudar de cidade com o namorado. O jovem revela que não gosta de publicar fotos e assuntos pessoais na rede e que utiliza o celular para “fuçar” no perfil das gurias mais bonitas do colégio. César trabalha de atendente numa padaria no centro da cidade. Divide o quarto na casa com mais dois irmãos menores. todos referentes à escola. Os únicos gru- pos de discussão de que participa são quatro. Bruno – tem dezessete anos e está concluindo o Ensino Mé- dio. É estudante dedicado e diz não querer o mesmo caminho que os pais. O celular é a única maneira de pesquisar assuntos ligados à escola e de manter contato com amigos e o namorado. O desejo de Bruno é ser médico e defender a causa gay no Brasil. Para ajudar nas despesas da casa. Diogo – tem 15 anos e está no primeiro ano do Ensino Mé- 138 . conseguiu comprar o celular para conversar com as meninas e acessar o Facebook. As relações sociais não são tantas como as de outros amigos. longe de todos que o recriminam. Com o salário que recebe. O pai é pintor e a mãe. no turno da ma- nhã. A escola representa o símbolo da cultura e futuro para mudar de vida. Bruno se declara “gay” e afirma sofrer bullying pela família devido à não aceitação de sua homos- sexualidade. Aparecem apenas quatro eventos que ele frequentou nos últimos seis meses. o meio mais letrado disponível no contexto social do adolescente.

o jovem quer fazer um curso técnico depois que terminar o colégio. Desta maneira. foi possível detectar: 1) o elevado consu- mo de tecnologia móvel por parte do grupo juvenil. Eduardo diz sofrer muito preconceito por ser negro e ser este o motivo para não conseguir trabalho e ajudar no sustento da casa. e com ele está tentando buscar notícias da ex-namorada pelas redes sociais. 3) conflitos entre a escola e família no que se refere ao uso do celular. entrou-se na primeira plataforma de análise através da mediação da socialidade. ele vende maconha em um parque no centro da cidade. Eduardo não considera a maconha como uma droga. Pela falta de trabalho. é preciso muito estudo e dedicação. com- preendendo a família dos entrevistados. O celular de Diogo é utiliza- do para pesquisa de estudos e contato com amigos no Facebook. Atualmente está sofrendo de depressão por ter perdido um filho. para mudar de vida. Diogo é filho único e ainda está indeciso sobre qual carreira pre- tende seguir. Primeiramente. O pai é falecido e a mãe trabalha de cozinheira numa lan- chonete da cidade. Sua ex-namorada sofreu um aborto e o deixou. o jovem conseguiu ganhar um celular de presente da mãe. sem sucesso. Recentemente. e sim um calmante para aliviar tensões. é um estudante dedicado e suas notas estão sempre acima da média. O pai é pedreiro e a mãe trabalha de faxineira no asilo municipal da cidade. para ele “é melhor que re- médio”. A função maior na aquisição do celular está em achar a ex-namorada desaparecida e aumentar a rede de relacionamentos para compradores da droga. mudando de cidade. A partir da amostra. 4) discrimi- nação pela opção sexual. Eduardo – tem 18 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio. O jovem acredita que. 2) a carência de uma cultura letrada e baixo capital cultural. assim como o ambiente 139 . Flora Dutra dio.

A direção da escola deu livre circulação para a pesquisadora participar dos horários de recreação dos alunos bem como acom- panhar a entrada e saída dos mesmos. Por mo- tivos éticos. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular escolar e suas representações bem como as distinções dentro des- ta fração de classe popular. Só pode pegar o celular o pai ou o responsável. A Escola Estadual A está localizada no município de Santa Maria. o nome da escola em questão bem como dos alunos serão fictícios a fim de preservar a identidade dos envolvidos. no Rio Grande do Sul. foi possível acompanhar. Durante três trimestres. se o aluno for pego com o celular em aula é retirado imediatamente. Das 37 escolas públicas do município. os alunos do Ensino Médio da escola A. No início de cada semestre. mas a maioria devolve e nos desmoraliza (Diretor da escola A). Quanto 140 . 5. Imersão no campo O trabalho de campo iniciou com o mapeamento das escolas de Santa Maria e a possibilidade de inserção no espaço escolar para a pesquisa. Atende alunos provenientes de bair- ros vizinhos compostos por comunidades de baixa renda. apenas uma aceitou o desenvolvimento da investigação. são transmitidas aos alunos as regras sobre o uso do aparelho.3. Tem muitos pais que realmente pegam o celular e não devolvem mais para o filho. O corpo docente bem como a direção da escola viu como necessária a importância dos estudos relacionados ao uso do celular pelos alunos. pelo turno da manhã. Segundo a fala do Diretor: Não é permitido o uso do celular em sala de aula.

quando são discutidos assuntos ge- rais. envolvendo assuntos de interesse geral dos pais e alunos. sala de direção. os contatos se deram em espaços públicos como praças e shoppings. o que dificulta o acesso de alguns alunos portadores de necessidades especiais que frequen- tam a escola. tanto no pátio da escola quanto na sala cedida pela direção. O espaço externo utilizado para o recreio é amplo e favorece a circulação dos alunos. há uma quadra de esportes e uma sala fechada para aulas de dança. No primeiro trimestre (maio/junho/ julho/ 2012). destacando-se o planejamento. enciclopédias. Para a prática de Educação Física. uma biblioteca com acervo de livros didáticos. a organização e o funciona- mento da escola. a escola possui secretaria. conselho tutelar. dicionários. refeitório. é que alguns encontros pu- deram ser realizados na residência dos jovens. No segundo trimestre (mar- ço/ abril/maio 2013). com a du- ração de duas a quatro horas. almoxarifado. por exemplo. Somente no terceiro semestre (julho/ agosto/setembro 2013). literários infantis. a participação de toda a comunidade nos eventos promovidos pela escola. com laços de confiança estabelecidos en- tre a entrevistadora e o entrevistado. A escola possui algumas rampas de acesso aos locais e também muitas escadas. como. laboratório de informática equipado com 20 (vin- te) computadores e acesso à Internet. banheiros. As reuniões pedagógicas acontecem mensalmente. os primei- ros contatos foram dentro da escola A. além de materiais de leituras informativas como jornais e revis- tas. Flora Dutra ao espaço físico. 141 . nas reuniões com palestrantes como médicos. psicólogas. sala de professores. A escola possui CPM (Círculo de Pais e Mestres) e Conselho Escolar que mensalmente se reúnem nas dependên- cias da escola para prestação de contas e tratar de assuntos diver- sos. (masculinos e femininos).

quan- do o sinal tocava para voltarem às aulas. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Imersão na escola: enquanto houve conversa com os entrevis- tados de maneira informal. no Rio Grande do Sul. A mudança do espaço escolar para o espaço público não alterou o hábito de. o celular. alguns vinham pergun- tar que tipo de entrevista e/ou trabalho estava sendo realizando. em praças perto da escola dos estudantes e parques da cidade de Santa Maria. Ao conversar com os alunos durante a etnografia. no primeiro trimestre. por isso muitas das conversas foram na biblioteca e nas áreas cobertas do pátio. os jovens acessavam as redes sociais ou deixavam simplesmente músicas tocando de fundo para a conversa como forma de diver- são. alguns outros estudantes centravam a atenção no processo que estava ocorrendo. Ou seja. as entrevistas semiestrutu- radas em profundidade com os estudantes foram realizadas pelo turno da tarde para não atrapalhar o decorrer de cada aula ou provocar a ausência dos alunos da sala de aula. muitas delas também realizadas na escola em turno oposto do estudo. e. os entrevistados permanecerem com o celular. Quando emergia o objeto de estudo. durante as conversas. Imersão no espaço público: ocorreram encontros em shoppings da cidade. Os meses de maio. todos eles estavam em posse do celular. têm a característica de serem rigorosos quanto ao frio. embora o quadro já estivesse delimitado por questões de acordos já firmados com outros entrevistados. O tempo de conversa durante a estadia na escola era redu- zido pela manhã devido aos períodos de intervalos e de entrada e saída. o que não aconteceu nas entrevistas em profundidade. enquanto se tratava de assuntos sobre o aparelho. muitos queriam participar. Posteriormente. mas o ambiente público revelou uma maior liberdade em tratar de assuntos ínti- mos e familiares que até então não tinham sido abordados nas 142 . julho e julho.

na maioria das vezes. Como os bairros são de difícil acesso. 143 . estavam relacio- nados ao vestuário e a bens eletrônicos de comunicação. Em alguns momentos. a entrevistadora utilizou GPS e carro para deslocar-se até a residência dos alunos. no início da pesquisa. Nos encontros em shoppings. em outros casos. emergia a lembrança da infância e das dificuldades vi- vidas pelas condições financeiras para a aquisição de brinquedos ou até mesmo a compra de celular durante a infância foi revelada. Estes produtos. alguns conflitos fa- miliares foram presenciados. Muitos produtos expostos foram alvos de sentimento de tristeza por não terem poder aquisitivo de compra. como tablets e celulares mais modernos. Flora Dutra entrevistas na escola. cerca de dois encontros com cada estudante acabou acontecendo por convite dos próprios alunos. Durante as entrevistas no espaço doméstico. Imersão no espaço doméstico: não estavam previstas. Alguns pais chegaram a reclamar explicitamente do uso excessivo que os jovens fazem do apare- lho. os assuntos que tratavam da socialidade entre amigos foram destaque ao descreverem encon- tros e histórias que marcaram a trajetória com amigos e colegas. foi possível notar certo desconforto quanto à posição de consumidor. “deixando os estudos de lado”. nas praças. no terceiro trimestre. Nos parques. É possível destacar a baixa qualidade da infraestrutura de algumas casas. a dificuldade de saneamento básico e o calçamento das ruas que ligam ao transporte público. pôde-se compartilhar de refeições como almoço e. Mas. outros conflitos eram da or- dem da organização da casa. em algumas entrevistas esperou-se o aluno sair da aula para ser acompanhado pela entrevistadora até a casa. Em outros momentos. a janta em família. visitas no espaço doméstico dos entrevistados. como tarefas domésticas adiadas ou conflitos pela falta de privacidade.

nos traumas e na violência ocultada por uma realidade marcada pela condição econômica precária. A entrevista semiestruturada em profundidade e a observação participante foram as técnicas escolhidas para desenvolver a pes- quisa junto aos alunos. A imersão de campo dos pesquisadores é uma aventura. 5. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular A imersão do campo da pesquisa. Método Etnográfico Os primeiros estudos etnográficos sobre a máquina a vapor. foi maior na escola. o telefone e o telégrafo foram o cenário da profissionalização da etnografia e da observação participante nos modos de vida urba- nos. como foi o caso de Lévi- -Strauss e sua esposa nas expedições amazônicas relatadas em cartas a Oswald de Andrade. foi alçado e alguns obstáculos foram sendo levantados e derrubados à medida que a etnografia revelava seus resultados. quase de subsistência. consequentemente. A contração de uma doença não lhes permitiu seguir adiante com o trabalho de campo. mas os espaços públicos e os domésticos acabaram servindo de campo de obser- vação na pesquisa. pois só assim é que se pode adentrar nos preconceitos. em que inúmeros obstáculos ao trabalho do etnógrafo são erguidos e com eles as adversidades que o mundo apresenta. outro viés. 14 4 . Na busca pela profundidade nas entrevistas. Buscou-se o diálogo de maneira a identifi- car posicionamentos e ideias na visão de mundo do jovem acerca dos usos e práticas do celular. além das ciências naturais. com alguns percalços no meio do caminho.3. Assim ocorre nos dias de hoje. Com isso. onde a etnografia foi realizada.1. encontros presenciais foram realizados e laços afeti- vos construídos com os estudantes.

e todos os outros ingredientes das pessoas e do contato humano. pois. A antropologia é aquela onde necessariamente se estabelece uma ponte entre dois universos (ou sub- -universos) de significação e tal ponte ou mediação é realizada com um mínimo de aparato institucional ou de instrumentos de mediação. 3). de modo artesanal e paciente. mas também locais e regionais de uma globalização que parece unificadora. Métodos arte- sanais como o diário de campo na era da informática relativizam novas formas de viver e pensar a antropologia urbana. 4). 5). dependendo essencialmente de humores. Pensar a etnografia em pleno século XXI. é um desafio para qualquer pesquisador. 1978. p. é capaz de apontar diferenças dentro de um mesmo grupo social. através do olhar etnográfico. temperamentos. vestir a capa de etnólogo é aprender a reali- zar uma dupla tarefa que pode ser grosseiramente explicada nas seguintes fórmulas: a) transformar o exótico no familiar e /ou b) transformar o familiar no exótico (DA MATTA. (1978. 145 . p. : “o problema é. mas que. fobias. o de tirar a capa de membro de uma classe e de um grupo social específico para poder – como etnólogo – estranhar alguma regra social familiar e assim descobrir o exótico que em nós está petrificado pelos mecanismos de legitimação”. como diz Da Matta. Flora Dutra Desse modo. quando as ferra- mentas de observação e monitoramento são totalmente informa- tizadas. p. O desvendamento dos enigmas sociais incompreendidos do nosso tempo em universo de significação compreensível se dão através da antropologia. para Da Matta (1978. Hoje a diversidade em temas de pesquisas etnográficas se move para profissionais dentro do campo não apenas das ciên- cias sociais para explicar fenômenos globais. então. Vale dizer.

Mesmo que a etnografia tente explicar os fenômenos de um determinado grupo social. Para Gu- ber (2001). em várias espécies de artefatos e vários estados de consciência. p. Para a autora. método e texto. e com exati- dão. Deve-se atentar para o comportamento. os resultados de interpretação deram-se sempre “em diálogo inteligente e crítico com a realidade”. pois é através do fluxo do comportamento – ou. ela dependerá de seu relatório. Para Geertz (1989. 12). 1989. p. nestes ca- sos. a etnografia é uma abordagem prática de conhecimento e de fenômenos que podem ser capturados a todo instante se observados e pesquisados pelos agentes sociais. 5). Elas encontram-na também. O celular como nosso objeto de estudo assume um patamar de inserção social para os entrevistados – um objeto onde aportar todas as inseguranças vividas em meio ao grupo que só foi revelado pelas horas de conversa em que os estudan- tes sentiram-se livres e confiantes em descrever seus medos em relação ao mundo e ao futuro. da ação social – que as formas culturais encontram articulação. A descrição depende da adequação a uma perspectiva dos “membros” de um grupo estudo. uma boa descrição é aquela que não incorre em in- 146 . gabaritos para organização dos processos social e psicológico. não de quaisquer rela- ções intrínsecas que mantenham uma com as outras (GEERTZ. Todavia. de suas anotações e observações. Desta maneira. os “símbolos culturais são fon- tes extrínsecas de informações. p. mais precisamente. certamente. eles passam a desempenhar um papel crucial”. 124). o significado emerge do papel que desempenham no padrão de vida decorrente. a etnografia parte de um sentido tríplice: foco. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Segundo Guber (2001.

revela um estudo profundo e contínuo de um determinado grupo social. hoje. 58): compreender os significados que os atores atribuem ao objeto observado relacionado ao seu cotidiano. valores e razões do pesquisador (GUBER. há um grande distanciamento no que se refere às característi- cas do tempo de observação com base na tradição antropológica. o tempo de con- vivência com os nativos. e emergir plenamente na vida “do outro”.38)). p. Conforme Malinowski (1976). Flora Dutra terpretações etnocêntricas. o celular.1. valores e razões para a visão. substituindo os seus pontos de vista. A etnografia. reiterando a observação participante. reconhecer a importância de uma interpretação 147 . por fim. Pesquisas relacionadas ao marketing tentam inovar com métodos antropológicos e etnográficos e reduzem.3. levaram-se em consi- deração três especificações segundo Jensen e Jankowski (1993. seus hábitos. por fim. p. De acordo com Rocha e Barros (2006. “a etnografia é um método dotado de grande tradição na antropologia e cujo de- sejo é realizar a descrição dos significados que um determinado grupo atribui às suas experiências de vida”. 5. assim. 2001. estabelecer uma vivência prolon- gada e profunda com os “nativos” é compartilhar com eles suas experiências. estu- dantes e seus usos e apropriações do objeto de estudo. Para os autores. 28). Observação participante Para definir uma pesquisa qualitativa. que se descreve a seguir. no caso desta pesquisa.1. observar a visão de mundo e como ela é constituída a partir de um fenômeno deli- mitado e. p.

1978). A observação participante na escola permitiu a coleta de dados em situação que seria impossível em outras formas de observação. o comportamento dos alunos e a interação que estes faziam com o objeto de estudo no grupo. Em relação ao celular. a observação participante é a técnica escolhida com a etnografia para compor a pesquisa. É a partir dos registros que o etnógrafo escreve a prática cultural observada para que a estrutura dos dados esteja entrelaçada com a realidade investiga- da (GEERTZ. a escola A. Assim. no caso. O pesquisador anota suas informações no diário de cam- po. a observação partici- pante baseia-se no convívio continuado com dado grupo social que inclui dados específicos de coleta e registro do ambiente pes- quisado. a postura corporal. e também possibilita descobrir novos problemas e hipóteses de investigação. na escola A. Como parte importante da etnografia. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular sobre o tema estudado dentro de uma investigação social. buscou-se verificar. Através da observação participante. a descrição dos eventos que 148 . Dentro deste contexto. a reconstrução do ambiente investigado. Permite chegar mais perto da perspectiva dos agentes. A observação participante proporciona a experiência direta com o fenômeno estudado e possibilita recorrer aos conheci- mentos e experiências dos entrevistados como auxiliares no pro- cesso de observação. foi possível a descrição dos sujeitos. colhe depoimentos e faz entrevistas. A observação participante surgiu dentro de um contexto de- terminado pela pesquisa em analisar estudantes no espaço es- colar a partir dos usos e apropriações do celular. as normas de conduta explícitas e implícitas em relação ao aparelho foram observadas bem como o vocabulário que os jovens verbalizam sobre o uso do aparelho.

essa suposta falta apresenta uma ló- gica que adquiriu identidade própria como uma técnica para a obtenção de informações. diário de campo e celular. no público e no doméstico. foi observado no espaço escolar. que sabiam que eram amostra de uma pesquisa. ele foi observado principalmen- te nos horários de intervalo. um levantamento teórico foi necessário para saber em que medida a inserção poderia acontecer no ambiente e como esta se daria. pela organi- cidade e rapidez. A observação foi aberta e visível aos observados. fez-se neces- sária a fim de registrar as observações que estavam sendo feitas no local. durante as aulas e na recreação dos estudantes. posteriormente. em registrar especificamente as ati- vidades que compreendem a integração do grupo estudado. O distanciamento às vezes era intencional e outras vezes não. que seria a observação participante. O planejamento da observação participante contou com cinco fases distintas. a qual consiste precisamente. Flora Dutra ocorriam durante os três trimestres observados e a descrição das atividades. um tablet foi acoplado como ferramenta de re- 149 . o trabalho de campo etnográfico caracteriza-se por sua falta de sistematicidade. No entanto. a escolha pelos materiais físicos. Em comparação com os métodos de outras ciências sociais. b) Preparo de material físico e intelectual: no começo das ob- servações. descritas a seguir: a) O que observar e como observar: o celular é o objeto de estudo da pesquisa. como gravador de áudio. porque a interação ocorria conforme os alunos ques- tionavam sobre o porquê da pesquisadora encontrar-se naquele ambiente seguidamente. Posteriormente. c) Registros descritivos: os registros descritivos das observa- ções iniciaram um bloco de notas e. No espaço escolar.

nas entrevistas realizadas por esta pesquisa. A explicitação do papel da pesqui- sadora e dos propósitos da pesquisa junto aos alunos sempre foi aberta e não oculta. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular gistro. a entrevista semiestruturada em profun- didade é uma maneira de compreendermos a condição huma- na. acabou sendo mais uma forma de aproximação com os alunos curiosos com esta ferramenta de comunicação móvel. Sendo de fácil manuseio e de tamanho médio. na Psicologia. nas identidades e experiências. d) Anotações organizadas: a organicidade das anotações era revista na volta para casa da pesquisadora e organizada em banco de dados mensais que. Muitas vezes. na Psicanálise e em tantas outras áreas humanas. uma seleção pertinente ao tema de usos e apropriações do celular foi composta em tabelas pelas categorias de análises e enquadramento teóri- co-metodológico da pesquisa. cada uma separada da outra. e) Saber separar os dados relevantes do material coletado: fei- to o banco de dados das observações participantes.1. p. consequentemente. compuseram os três trimestres de observação participante e de etnografia. Entrevista semiestruturada Para Duarte (2011). a resposta para algumas 150 . recolher informações não visíveis em métodos quantitativos. Tornou-se técnica clássica na Comunicação. Desta forma. era possível levá-lo à mão. Segundo Duarte (2011. a entrevista em profundidade como técnica qualita- tiva busca. 62).2. no final. 5. “as principais qualidades dessa abordagem está na flexibili- dade de permitir ao informante definir os termos da resposta e ao entrevistador ajustar livremente as perguntas”. na Antropologia.3.

Flora Dutra

das dúvidas frente aos usos do telefone celular se revelaram em
depoimentos onde as relações familiares eram conturbadas ou
onde as discriminações sociais pelo racismo e opção sexual se
diziam explícitas.
Para o referido autor, esta técnica qualitativa que explora um
assunto a partir da busca de informações, percepções e experiên-
cias de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma es-
truturada é uma das principais qualidades dessa abordagem.
No decorrer da investigação, traçou-se a própria entrevista
semiestruturada em profundidade que nortearia a pesquisa. As
oitenta questões, subdivididas em 6 categorias, permitiram explo-
rar o objeto de estudo, incluindo dados de identificação do entre-
vistado, usos do celular, redes sociais, convergência midiática,
escola, classe social, família e consumo.
Ao aprofundar as categorias, durante as entrevistas, pôde-se
compreender a história de vida de cada jovem, suas dificuldades,
inseguranças perante o futuro e suas práticas sociais relacionadas
ao nosso objeto de estudo: o celular. A característica da entrevista
aqui nesta investigação são relatos íntimos do espaço doméstico,
a escassez financeira, que explica, entre tantas outras coisas, o
baixo acessa a bens culturais.

Modelo de tipologia em entrevista
Pesquisa Questões Entrevista Modelo Abordagem Respostas

Questão
Qualitativa Nãoestruturadas Aberta
central Em Profun- Indetermi-
didade nadas
Semiaberta Roteiro

Quantitativa Estruturadas Fechada Questionário Linear Previstas

FONTE: DUARTE, 2011.

151

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

Segundo Duarte (2011), a entrevista em profundidade tem
como objetivo saber como a realidade é percebida pelo conjunto
de entrevistados. Relaciona-se ainda ao fornecimento de elemen-
tos para compreensão de uma situação ou estrutura de um pro-
blema. A seguir, descreve-se uma breve intenção da entrevista
desta dissertação, questionando os alunos do colégio A sobre os
usos e apropriações do aparelho de celular em suas categorias:
a) Usos do celular: gostar-se-ia de saber se é possível um
adolescente hoje viver sem este artefato da modernidade, des-
crevendo seu dia a dia com o aparelho. Pede-se ainda, de forma
aberta, que o estudante descreva as coisas que gosta de fazer com
o celular na escola, com os amigos e com a família. E, ainda, qual
a relação da mídia com o aparelho, no aparecimento de cenas de
novelas, filmes ou seriados.
b) Redes Sociais: como o Facebook é a rede social mais aces-
sada pelos entrevistados, o interesse partiu da proposta em ava-
liar o cotidiano dos adolescentes pela rede online e como estes
usavam o celular para compartilhamento de fotos, frases e foto-
grafias. O que não deveria ser exposto também foi questionado,
a intimidade e escassez do vestuário foram predominantes nas
respostas. Sobre as mobilizações sociais pelas redes como o Face-
book, as opiniões foram dissonantes. A maioria descrê de mudan-
ças da classe social, e a culpa acaba recaindo, segundo eles, “no
Estado e nos políticos corruptos”.
c) Convergência Midiática: nesta subcategoria, queria-se sa-
ber sobre cantores e atores prediletos, como estes apareciam na
mídia e como os conteúdos destes eram perpassados para as re-
des através do celular. O acesso desterritorializado de uma cultura
juvenil global emerge através do objeto de estudo que os conecta:
o celular. Conteúdos de programas nacionais e internacionais são
frequentemente compartilhados nas redes via celular.

152

Flora Dutra

d) Escola: questionou-se sobre o capital cultural e se seria
desnecessário um bom emprego sem cursar uma universidade.
Solicitamos aos entrevistados que descrevessem o modo de vida
de um estudante de escola pública e de um estudante de escola
particular. Inquirimos sobre o tempo de estudo de cada um e so-
bre a dedicação aos estudos e, ainda, se o celular era um objeto
de desvio de atenção das pesquisas escolares ou em sala de aula.
e) Classe Social: como se investiga jovens da fração baixa da
classe popular, a causa de haver tantos pobres no Brasil foi atri-
buída à falta de interesse dos mesmos e sobre o desinteresse da
escola em um ensino de melhor qualidade e com condições me-
lhores de infraestrutura. Discriminações sociais apareceram nas
respostas como um obstáculo em seguir um futuro melhor. Ficou
clara a divisão de aparências de jovens ricos e pobres e como
o programa Bolsa Família atenua certas dificuldades em alguns
lares. A política apareceu nas respostas como desmotivação de
uma mudança de governo que invista mais em educação e saúde,
áreas apontadas como prioridades pelos estudantes.
f) Família: os conflitos familiares acontecem pela menor con-
vivência devido ao uso excessivo do celular. Para sete entrevista-
dos, o aparelho é a única forma de acesso à Internet. Conflitos so-
bre as tarefas domésticas, falta de dinheiro e privacidade também
foram apontados como fator de desestímulo perante o futuro. O
desemprego de alguns pais e o trabalho informal de outros geram
bastante insegurança no espaço doméstico.
g) Consumo: no último item da entrevista, que ocorreu prin-
cipalmente em espaços públicos como shoppings, as questões fo-
ram voltadas ao acesso que os jovens tinham aos bens desejados
e como estes se sentiam quando não podiam comprar o que de-
sejavam. Suas angústias e tristezas pela falta de poder aquisitivo,

153

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular

sonhos de vida a que eles davam mais importância revelaram a
materialidade dos bens luxuosos como mansões vistas em nove-
las, carros e viagens ao exterior. Sobre o consumo de literatura,
revista, livros e jornais, a maioria não tem interesse e a única
fonte de informação para estes jovens é a escola e a rede social
Facebook. São, portanto, desprovidos de outros bens culturais.

5.4. Fase interpretativa: a análise dos dados

O celular, como pode ser observado, é de uso pessoal e ra-
ramente ocorre o empréstimo de um aluno para o outro, salvo
emergências para ligações para os pais ou SMS para algum tipo
de paquera para marcar encontros. Não é o intuito desta pesquisa
fazer análise de gênero, mas pode-se lançar algumas observações
sobre a diferença do uso do aparelho celular entre meninos e
meninas. Para os meninos, a cor geralmente não é muito impor-
tante, o que realmente é necessário são as funcionalidades como
o acesso à Internet, e o tamanho também pouco importa. Para as
meninas, a cor do aparelho ou a capinha é acessório de moda e
geralmente combina com a cor do esmalte ou da roupa que estão
usando no dia.
No segundo trimestre, deu-se atenção maior aos entrevistados
que participavam das recreações no colégio e nos períodos de
entrada e saída. À medida que se aprofundou a relação entrevis-
tadora/entrevistado, detectou-se que seis jovens pertenciam ao
programa do governo federal Bolsa Família, três deles eram ho-
mossexuais e quatro sofriam preconceitos e por parte de outros
estudantes da escola. Durante os intervalos das aulas, estes es-
tudantes concentravam sua atenção no aparelho de celular, o que
permitia um afastamento do grupo maior.

154

Flora Dutra

Como o trabalho de campo teve um período longo, alguns
encontros posteriores com os entrevistados ocorreram fora da es-
cola. As entrevistas gravadas em áudio compreendem cerca de
três horas e ocorreram em mais de cinco encontros com cada
entrevistado.
O acesso à música, ao Facebook e aos registros fotográficos
são as três principais práticas dos adolescentes relacionados ao
celular no pátio da escola. Pode-se verificar também o celular
como uma extensão do corpo, pois os alunos estão a todo o mo-
mento com ele à mão. Mesmo sem estar usando alguma funcio-
nalidade, o celular é carregado como uma extensão de si. Na hora
da aula, ele é guardado no bolso da calça ou fica sobre a classe
no modo silencioso. Se ele tocar ou o aluno receber um alerta
das redes sociais, ele não tocará para os demais escutarem, pois
só presos ao corpo é que é possível sentir a vibração do aparelho
quando está recebendo notificações.

a) Música: foi possível observar a grande maioria dos jovens
com fones de ouvidos escutando música, alguns isolados e outros
compartilhando o fone com amigos. Para destacarem-se da maio-
ria, outros estudantes escutam música sem os fones, com volume
máximo. Estes chamam a atenção por onde passam, nunca ficam
no mesmo lugar e sempre circulam pelo pátio da escola. O ves-
tuário dos jovens sempre condizia com o tipo de música que era
reproduzida. O grupo dos roqueiros vestia geralmente camisetas
pretas com estampa de bandas e escutava rock; o grupo dos gau-
dérios vestia roupas típicas da cultura gaúcha e escutava milon-
gas e chamamés; já os funkeiros escutavam música sem os fones,
os meninos usavam correntes no pescoço, bonés de aba larga e
calças jeans sempre abaixo do quadril, aparecendo partes da rou-

155

No intervalo das aulas. O acesso ao Facebook é constante. são compartilhadas com os membros que aparecem na imagem. e alguns alunos admitem usar a rede online durante as aulas e até na realização de testes e provas da escola. foi possível conferir os alunos fazendo autorretratos ou. que alegam o baixo rendimento escolar pela falta de atenção ao conteúdo transmitido. b) Facebook: a segunda atividade de maior incidência verifi- cada entre os estudantes da escola A foi o acesso ao site de rela- cionamento Facebook. estavam sempre muito maquiadas. compartilhar frases e vídeos de músicas e curtir páginas de artistas preferidos. os alunos acessam a rede online para realizar atualizações de status. 5. o grupo dos estudantes evangélicos era sempre discreto em cantos no pátio da escola e escutavam louvores nos aparelhos de celular. Perspectivas das mediações: socialidade.4. ri- tualidade e tecnicidade 156 . posteriormente. Em todos os grupos o celular estava presente. c) Fotografias: quase todos os celulares pertencentes aos alu- nos vêm equipados com várias funcionalidades. entre elas a má- quina fotográfica. outras cuidavam excessivamente para não aparecer nenhuma parte do corpo.1. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular pa íntima. O acesso constante às redes sociais e o uso do celular é um problema apontado pela direção da escola e pelos professores. As meninas funkeiras vestiam roupas curtas e blusas bem decotadas. Algu- mas meninas usavam saias longas. Geralmente as fotos são para a rede social Facebook e. registrando fotografias com os colegas de sala de aula e amigos de outras turmas. não cortavam o cabelo. Durante a observação participante no pátio da escola. ainda.

o consumo cultural não se restringe “à medição dos índices de audiências” e. 50). Neste es- tudo. 157 . propõe a interpretação de práticas sociais e formas culturais de que constituem identidades. 2012. Ronsini (2012) destaca que o contexto social e cultural propõe uma articulação de uma teoria social da modernidade periférica “e sua desigualdade de classe e de teorias acerca do consumo/usos da mídia como uma metodo- logia” (RONSINI. ao lado de García Canclini. usos e apropriações de objetos que compõe uma globalização internacionalizada. Flora Dutra As perspectivas das tramas vivenciadas pelos jovens da es- cola A puderam ser identificadas durante a etnografia e a obser- vação participante a partir das práticas sociais relacionadas às mediações de Martín-Barbero (2003). verifica-se um entrelaçamento entre as mediações que quase nunca podem ser analisadas separadamente. Ao investigar empiricamente a tecnicidade. centra-se atenção para os jovens e as mediações relaciona- das ao celular pela perspectiva do consumo cultural proposto por Martín-Barbero e Canclini. p. a ritualidade e a socialidade. Para Martín-Barbero.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Avanço tecnológico de aparelhos velozes e modernos. identificação do celular em novelas e filmes. enviar mensagem para amigos e familiares. fazer festa e ingerir bebidas alcoólicas postando fotos nas redes sociais através do celular para estar visível aos de- mais como forma de distinção. camin- har com o celular à mão. conver- Socialidade sar mais com amigos pelo telefone do que estudar para provas e testes. escutar música no inter- valo das aulas. relacionar-se com amigos virtuais pelas redes sociais. celular como objeto de organização diária da vida pessoal. dormir com o aparelho. compartilhar mensagens de atores e cantores famosos na rede social Fa- cebook. almoçar com o celular. 158 . acessar o aparelho durante a aula. declarar o celular como vício. processo de transmidiação e recepção através via Tecnicidade aparelho de celular. distanciar-se da família e dos es- Tecnicidade tudos em função do uso excessivo do celular. tomar banho escutando música com o celular. enviar SMS enquando conversa com amigos.

6. Os avós do jovem são responsá- veis pelo sustento do lar. como aponta dados do IBGE60. Os estudantes se declaram “gays”. Família A formação clássica da família constituída por mãe. O capítulo empírico analisa como os estudantes se relacionam com as novas mídias e constroem suas identidades através do telefone celular. meta a ser cumprida por Alex. Seus próximos passos são juntar “algum dinheiro” para sair de casa. ambos moram com a mãe e Alex ainda divide a casa com os avós maternos. Outra forma atual de constituição dos lares é o apartamento ou casa compartilhada entre amigos.1. mãe e filhos já não reinam nos lares. a partir da mediação da socialidade (MARTÍN-BARBERO. pai e fi- lhos já não é maioria no Brasil.com/economia/pai-mae-filhos-ja-nao- reinam-mais-nos-lares-5898477> 159 . Núcleos com mães solteiras. casais sem filhos e até mais de uma geração vivendo na mesma casa são destaque nos índices. USOS DO CELULAR POR JOVENS DE CLASSE POPULAR 6. Socialidade: família. Disponível em <http://oglobo. Os entrevistados Alex e Bianca têm pais separados. Eliana e Bruno. escola e classe social Esta mediação refere-se às relações entre a classe popular.1. pois a mãe está desempregada. Flora Dutra 6.1. O quadro teórico de referências permite a interpretação dos dados. a escola e a família dos jovens entrevistados.globo. 60 Pai. e a família não aprova a opção sexual dos filhos. 2003).

por isso. pedreiro. Para Alex. hierarquização de valores e normas sociais. só tu e a outra pessoa. 60. Alex. O trabalho manual e de caráter 160 . 53% de- les representados pelas mulheres e 47%. vigia. 206). hoje. Desta forma. sa- coleira e montador de móveis. cinema e literatura. pôde-se capturar o perfil homogêneo dos pais tendo o Ensino Fundamental incompleto. de pensamento e ação que constitui o produto mais específico de um sistema de ensino (BOURDIEU. Com relação à família. mecânico. alimentação precária e vestuário escasso. teatro. o capital cultural transmitido pelos pais aos jovens recai sobre a visão de mundo dos valores morais e da tra- dição familiar que converge na constituição do núcleo familiar. Bruno e Eliana estariam fora do que Bourdieu propõe como inte- gração “moral” da sociedade. 1992. Tanto na escola quanto na família. A es- cola assume lugar de arena dos conflitos culturalmente postos. a mudança tem um status radical. como o uso do celular. envolve quebrar barreiras e convenções sociais: “eu acho bem legal mudar pra outra cidade sem ter nada. término dos estudos e um desconhecimento das tecnologias mó- veis e redes sociais. Para o jovem. cozinheiro. o jovem diz sofrer bullying. não sendo estes “programados” de um programa homogêneo de percepção.000 no Brasil. a decisão do casal de mudar de cidade. pintor. fazer tua vida em outra ci- dade. As posições ocupacionais dos familiares podem classificadas em doméstica. Ainda recobre sobre as famílias dos estudantes de classe popular o insuficiente acesso a bens eruditos como exposições de artes. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Lares homoafetivos somam. estilo de vida pouco refinado. o preconceito ainda existe e é forte. Tipo eu e o meu namorado vazar daqui e ir pra outro lugar fazer nossa vida a dois”. por homens. Desta forma. p.

sendo alguns de difícil acesso. relacionados à dificuldade de acesso aos bens tecnológicos. A mãe tá sempre dizendo. palavras como “força. 17 anos). Como a maioria das profissões é exercida de modo autônomo. embora todos os entrevistados digam não querer seguir o caminho e profissão dos pais. que se eu não estudar vou ficar que nem ela que parou na 5ª série. Mas eu quero ser mais que eles. 17 anos) A renda familiar gira em torno de R$770. Para os estudantes. Que se eu não estudar eu vou arrumar um serviço igual a ela de limpar coisas e lugar dos outros (Alice. sacrifício. eu não tenho vergonha de dizer que a minha mãe é faxineira. (Denise. Meu pai é guarda no hospital e eu acho mui- to legal. Tem gente que tem vergonha. almejando uma posição superior economicamente. mas muitos querem um notebook ou tablet. O celular aparece como a única ferramenta de acesso à Internet para pesquisa escolar e acesso às redes sociais.00. Flora Dutra informal é predominante enquanto que o trabalho intelectual é inexistente pelos pais dos entrevistados. a instabilidade e os conflitos gerados pelos jovens no lar são constantes. Os bairros em que os es- tudantes residem carecem de infraestrutura e saneamento básico. batalha. sendo unânime entre os jovens gastar o tempo livre no acesso à Internet e redes 161 . Práticas de esportes não foram mencionadas. a insegurança. Ela não está roubando nem nada sabe? E meu pai é funcionário público. a família é tida como suporte para o futuro repleto de esperanças e condições de vida melhor. A minha mãe é dona de casa e ela quer trabalhar de faxineira e eu apoio totalmente ela. luta pela sobrevivência” definem a trajetória laboral dos pais.00 a R$1800. Ela tá procu- rando emprego. trabalho duro. mas ela cuida de criança também.

dois em cada dez jovens fumam. seja para pesquisas escolares. mas com o celular (Diogo. crack não. 162 . As atividades de lazer dos estudantes entrevistados incluem passeios com a famí- lia na casa de parentes. Twitter e Instagram. Um dado incomum é que as meninas ingerem mais cocaína que os meninos. Alice e Eduardo afirmam ter tido experiências de coma alcoóli- co. envio de torpedos ou atualização das redes sociais. digo pra mim mesmo que vou entrar cinco minutos e acabo ficando a tarde inteira ali. Eu estou com meus pais sempre. Todos revelam que o celular. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad). acabo abandonando os estudos ali (Gustavo. consumo de cocaína e maconha: “Eu já ex- perimentei cocaína. 17 anos). desta forma. 18 anos). 17 anos). acho que é boa noite cinderela” (Eliana. Desde que eu ganhei o celular eu me afastei da mi- nha família. LSD. ingestão de LCD. ecstasy. Desde esse tempo não é mais a mesma coisa porque eu só passo na frente do celular (Denise. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular sociais como o Facebook. caminhadas e festas com amigos. Alex. desde o ano passado. Muitos conflitos no lar dos entrevistados acontecem pelo uso constante do aparelho. além de atrapalhar a con- vivência no lar. que lideram o consumo de maconha. apropriação dos espaços públicos como praças e parques. De noite mesmo. Refeições diárias e con- versas familiares são acompanhadas do celular. O uso abusi- vo de álcool e drogas está presente em alguns casos. o celular acaba aproximando quem está longe e afastando quem está perto. maconha. Eliana. atrapalha no tempo dedicado aos estudos. Às vezes estou conversando com o pai e a mãe ou estudando e vejo o alerta no celular. 15 anos). E mais uma que coloca na bebida.

brigando com al- guém! Tipo. Quando eu não to no computa- dor no colégio eu to no celular e no Facebook com as gurias. Para Lasén (2006). 17 anos). a adoção generalizada do uso móvel em espaços públicos. às vezes tem pessoas berrando ao meu lado no celular. o uso dos celulares no espaço público muda a paisagem urbana e a relação com seus habitan- tes. Eu me sinto muito incomodado. Tipo teve uma vez que eu estava no ônibus. dai uma guria falou um palavrão bem alto. Falar coisas de casa na rua não dá. né? Ninguém precisa escutar o que ela tá falando. Para a socióloga espanhola. tornando-se rotina. p 3-9). (Cláudia. tá todo mundo no ônibus. principalmente pelos jovens. muitas vezes economicamente desprovido de recursos (LASÉN. Isso é muito ruim e vulgar. 2006. 18 anos) Acho vulgar atender o telefone gritando no ônibus. 17 anos) Falar em lugar público sobre compras do mercado com o marido ou o que tem que levar pra casa eu acho meio estranho. eu acho que tem que falar normal e isso incomoda as outras pessoas. diminuindo a invisibilidade habitual do outro. acho uó! Isso não se faz. (Alice. Eu nem presto atenção no que minha mãe tá fazendo (Bianca. isso eu acho muito vulgar.(Alex. A inserção incisiva dos aparelhos móveis no espaço público vem redesenhando as características das práticas urbanas. 18 anos) Falar coisas íntimas com teu namorado em lugar aberto. tem causado mudanças significativas como a tolerância crescente para os usuários que falam alto e escutam música sem fones de ouvidos. Flora Dutra Eu dou mais atenção para o celular do que para mi- nha própria família. 17 anos) A onipresença do celular nos espaços públicos acabou desen- 163 . (Denise.

2006. Para Eduardo. 2004). como os elementos da situação de quem está chamando. 1998. pois saber acessar todas as funcionalidades e aplicativos é uma com- petência e distinção da geração jovem. “As regras são nego- ciadas e a decisão de usar o telefone ou atender uma chamada depende de vários detalhes. as relações de “interconhecimento e de inter-reconheci- mento mútuos. mexendo no Facebook. o uso do celular por adolescentes é visto com uma habili- dade distinta relacionada ao uso por adultos (LING. mexendo no celular mesmo” (18 anos). em outros termos. os adultos só se comunicam pelo celular quando é realmente importante. Contudo.” (LASÉN. mandando mensagem. 10). jovem é toda hora! Toda hora ligando. O empréstimo do aparelho aos amigos e colegas é constante pelos jovens. p. e sete jo- vens revelam ter perdido a noção do tempo mexendo no aparelho em diversos locais como casa. Assim. “já o jovem não. restaurantes e salas de aula. à vinculação a um grupo. A repro- dução das relações sociais é intensa através do telefone. A representação social de caráter ativo pelo celular nas redes online indica projeções e juízo de valor sobre determinados sig- nificados como liberdade e distanciamento da origem familiar. para troca de ligações e mensagens via SMS. como o conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns. pois está em constante manutenção e transformação 164 . ou. p. concer- tos musicais.67). o capi- tal social e simbólico dos jovens de classe popular. reconstituído através das relações sociais a partir do uso do celular. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular volvendo regras como uso proibido em salas de cinema. mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis” (BOURDIEU. não é estáti- co e imóvel. por exemplo. escola e shoppings. Além disso. Os estudantes dizem ceder o aparelho quando necessário.

18 anos) 165 . A facilidade e mobilidade de comunicação geram segurança e dependência do aparelho.2. Eu estava no Twitter e a pro- fessora pegou. operando na manutenção dos estilos de vida da classe popular. daí às vezes tu dispersa mexendo ou mandando mensagem ou olhando alguma coisa e daí o professor para a aula e chama tua atenção e daí tu fica com vergonha né! (César. Minha mãe teve que vir buscar. 17 anos) Já me tiraram o celular. Sempre tem que prestar atenção na aula né. as opiniões ainda são con- traditórias. Flora Dutra como prática social. as opiniões variam.1. Eu estava na aula de matemática. embora os entrevistados sejam unânimes em admitir a interferência que o uso do telefone provoca no aprendizado em sala de aula. estava fazendo uma prova e usando o celular. (Eliana. causando o desvio de atenção e rendimento baixo nas avaliações. sofrendo constrangimentos e apreensão do aparelho por parte dos professores. os dez entrevistados relatam ter sofrido punições pelo uso do celu- lar. Mesmo sabendo do uso proibido em sala de aula. 17 anos) Eu estava tuitando e a professora disse pra eu largar ou iria para o SOE (Secretaria de educação profissio- nal). Escola Foi possível detectar que o celular é uma necessidade de comunicação em que dialogar com parceiros. Ao serem questionados sobre a liberação ou não do celular como ferramenta de aprendizagem em sala de aula. amigos e paren- tes faz-se a todo instante e em qualquer lugar. (Denise. Sobre o uso do celular na escola. 6.

é bem mais prático que ir na biblioteca. nas entrevistas em profundidade. 17 anos). a escola está atrasada. Pesquisei um dia no celular sem a professora liberar um trabalho de filosofia sobre Aristóteles (Alex. p. 166 . serve com uma ferramenta a mais na hora de pesquisas. 17 anos). quando os professores dão um trabalho e não ex- plicam muito bem. escondida (Denise. o aparelho é um auxílio na hora de estudos. Ontem mesmo eu pesquisei na aula de Química so- bre elétrons. Pesquisei várias vezes em aula pelo celular. Sou péssima em inglês. 18 anos). 52). que. convive com intensas interconexões do mundo au- diovisual e das relações com os computadores e celulares. e uso o Google Tradutor para aula de língua estrangeira (Alice. para os jovens. 17 anos). tanto em casa quanto em sala de aula.r eu vou lá e pesquiso embaixo da classe. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Contrariando o que os políticos alegam sobre os prejuízos do celular em sala de aula ao elaborar projetos de leis que o proíbem. dai tu vai e pesquisa na internet pelo celular. Como nunca vamos para o laboratório de Informáti- ca. que em sua maioria tem o celular como a única fonte de acesso à Internet. Hoje. 2003. quando o professor fala alguma coisa que eu não entendo e não dá tempo de pergunta. para os estudantes. 18 anos). toman- do a posição de segundo lugar de alfabetização em que se abrem múltiplas escrituras que convergem no texto eletrônico (Martín- -Barbero. e uso o celular pra traduzir no Google os trabalhos que a professora dá (Eliana. verifica-se. procurei e achei (César. Às vezes. numa aula de literatura quis saber o que era funções de linguagem. O celular.

os alunos brincam com a língua e infrin- gem regras gramaticais convencionais de ortografia e acentuação. Assim. alunos e professores. 167 . É unânime os estudantes afirmarem que o uso contínuo do celular e das redes sociais atrapalha na hora de escrever uma re- dação ou redigir um trabalho escolar. Figura 5 FONTE: Organizado pela autora com postagens do celular dos entre- vistados. tanto de quem escreve e envia quanto quem recebe e lê. Flora Dutra A tentativa de inserir dispositivos móveis na educação do Bra- sil ainda é embrionária. os jovens abreviam palavras e assim constroem uma linguagem própria. A Internet e os SMS proporcionam uma liberdade de expressão linguística em que os usuários combinam novos elementos gra- maticais com regras diferentes das utilizadas na língua escrita culta. distanciando-se da língua culta. Para enviar um SMS que não ultrapasse mais de 160 caracteres. pois se esquecem de como a palavra é escrita. vis- to que a questão geracional no manuseio das novas tecnologias ainda é um problema para pais. O tamanho da tela do celular e o limite de caracteres para o envio de mensagens definem a capacidade linguística de recep- ção. principalmente em escolas públicas. outros chegam a escrever abreviado em provas e textos no colégio.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Formas de expressão facial são criadas através dos smiles. redes sociais e jogos online (Martín-Barbero. ânimo ou sentimento. a complexi- dade da adolescência. Estas formas lúdicas de representar as emoções são extremamente engenhosas e artís- ticas. e são usadas frequentemente no envio de SMS para pais e amigos para transmitir humor. reduzindo-os a consumidores de música. 168 . Para Martín-Barbero (2014. 2003. televisão. Obcecados com o mundo maléfico dos meios tecnológicos. 44) já não se escreve e não se lê como antes é porque tampouco se pode ver nem representar como antes. p. 50- 55). como ou . os educadores acabam esquecendo o universo juvenil. para citar os mais comuns. vídeos e textos. Figura 06 Fonte: Google Imagens A mudança dos novos processos de leitura que atravessam os jovens significa novas articulações entre livros.

Ela começou a me ligar e eu senti o romance. Ficamos falando só pelo celular e internet. o cuidado com a aparência e o vestuário tor- nou-se fundamental na vida destes jovens. na própria construção da identidade. classe e raça.1. Me senti mal de sair e ir na Igreja e decidi não ir mais. Eu adicionei ela pra saber o que ela queria e ela disse que sabia tudo de mim. Ela perguntava toda hora que eu tava fazendo. os jovens ainda sofrem com a desestabilidade do lar e de precon- ceitos de gênero. Alex. eu já tinha ficado com uma menina. Pensei já que ela queria meu corpo e dava risada. dos acessórios. Comecei a namorar uma menina há nove meses. Optei pelo mais fácil que era ir pras festas. por se declararem “gays”. Sai da Igreja Universal por que queria fazer festa e não podia aos 15 anos. aí olhei pro pai e pra mãe e pensei: . Por que pensava como que eu ia num lugar aonde as gurias iam sem roupa quase e eu ia toda tapada. parecia minha namorada. eu aceitei. E 169 . revelam as dificuldades de integração no espaço escolar e a exclusão por outros grupos dentro da escola. Ela disse que gostava de mim desde o começo do ano passado e eu não sabia quem ela era. Bruno e Eliana tornaram-se “po- pulares excluídos”. Ela acabou me pedindo em namoro. que eu tava sempre arrumada e maquiada. A gente começou a conversar porque ela me cutucou no face. Assim. não dava né? Ai quando chegou nos 16 e 17 desandou de vez. agora em dezembro ia fazer um ano. Alguns alunos. Coisas que não podem ser resolvidas na classe e não podem mudar são refletidas através das roupas. outros negros e a maioria pobre. Foi durando e durando. fico sem dormir por ela.e agora? Começamos a namorar. Classe social Além das dificuldades na construção linguística durante o processo educacional acarretado pelo uso constante dos celulares. Ai ela pediu meu celular.3. Flora Dutra 6. mas nunca tinha pensado em namorar com uma.

é uma vida desgraçada mesmo. e eu não sou muito acostu- mada a falar palavrão. Quando eu comecei a namorar. Mas eu faço declarações de amor e fica explícito que é pra uma menina. Meu coração acelera. Eu trabalho na lancheria e ela como babá. Mas. Diferentemente de Eliana. coordena o grupo de jovens da sede em que frequen- ta. Sei que tem como. Eu tenho três preconceitos em mim: eu sou negra. teremos nossa vida jun- tas. Tu olha aquele bando de gente branca que parece que tomaram banho de farinha. E quan- do ela contou para os pais dela. minha mão soa como se ela tivesse na minha frente. 18 anos). Eles têm certo preconceito contra muita coisa. mas meus pais não aceitam essa história. Queria que ela fosse morar comigo. A estudante confessa cuidar o que fala na escola. sou gorda e sou baixinha. Alguns me olhavam de cara feia e eu já xingava dizendo que ia tirar os dente fora. tem um comportamento retraído quando o assunto é sexualidade. Coloco “minha ma- chinho” e a inicial do nome dela. “sempre cuido um pouco por causa que eles sempre pensam diferente que a gente. Então eu ia sofrer um super bullying quan- do eu fosse pra lá. Queremos até ter um bebê e vou fazer tratamento pra engravidar dela. né? Eu cuido o que eu falo também. eu sei disso. Eles acham que é uma fase da minha vida e enlouqueceram e não querem ela lá. homos- sexualismo e gírias. 170 . Batiam todos os dias nela. Antes disso. aí mandaram uma mensagem pra mim ler um versículo da Bíblia. eu ia morar com o meu irmão em Santa Cruz. mas eu sou muito diferente do pessoal de lá. eu penso nela e ela manda mensa- gem pra mim no celular. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular dai é automático. me dou com um monte de gente (Eliana. no entanto que eu criei meu espaço lá. Não podemos postar fotos nossa no Facebook. 18 anos). Cláudia tem dezessete anos e é evangélica. e quando a gente se encontrava. eles entraram no Face dela. o fato da pessoa ser negra numa cidade de gringo. eu erguia a blusa dela e via os arranhões da cinta e da vara. exclui todos os meus parentes e amigos dos parentes do Face pra poder publicar as coisas. dai é ruim e tem bastante gente que fala” (Cláudia. Eles são muito de falar nome.

e daí eu queria namorar e tive que sair de casa com a guria. fico neutra no colégio. e foi um drama. Eu contei em fevereiro. (eles sabem?) Agora sabem. e segue para a passagem seguinte. 18 anos) Meus pais vão na Universal. Coincidente- mente. (tua família é evangélica ainda?) Sim. Sou contra. (Eliana. Flora Dutra Sobre a polêmica que envolveu o pastor Marco Feliciano e a “cura gay”. a estudante se coloca a favor. as famílias de Alex e Eliana são evangélicas e ambas recri- minam a opção sexual dos filhos: Na família eu sou mais centrado e quieto no meu canto. Não acho certo” (Cláudia. (como assim?) Mesmo sabendo que eu sou homosse- xual. Citando passagens bíblicas através de um aplicativo no celu- lar para versículos online. Eu não gosto dos gays sabe. a jovem profere Levítico 18:22: “com varão não te deitarás. Tenho poucos ami- gos gays no colégio. aí ela disse que ia sair de casa. eu contei pra eles. mas não falo. Queria ba- ter nele. a religião fala mais alto. A minha mãe me botou a boca e disse que não me aceitava. abominação é”. e se tem duas mulheres juntas a gente reconhece o que a gente merece e o que os homens não sabem dar. e que ela que tinha errado na minha criação. eu disse que dai saio eu. mas fomos embora. Uma vez eu tava com a minha namorada e um cara passou. certamente morrerão”. Levítico 20:13: “quando tam- bém um homem se deitar com outro homem como uma mulher. Eu não quis me envolver. “não apoio as campanhas contra ele. isso que tava saindo da Igreja também na frente da praça e gritou que era falta de macho. mas com uma posição de neutralidade no ambiente escolar. Não mostro o que eu sou mesmo sabendo. 18 anos). Fiquei uma semana fora. ambos fizeram abominação. (Alex. E daí eu disse pra ele que só porque ele tinha um pau no meio das pernas que possivelmente deve estar podre porque ninguém deve querer e tá aí enchendo o nosso saco. 18 anos) 171 . mas não apoio. como se fosse mulher. . Por que eu gosto dele.

Ninguém falava ou fazia nada comigo. ressignificando lógicas de dis- posição que operam em um sistema visível. Eu era excluída de tudo mes- mo e isso foi me afetando e afetando e eu acabei no hospital. como Denise. No colégio. 17 anos). quando eu era meno. aí eu sofria bullying por causa disso. No ensino fun- damental. 18 anos). na 6ª e 7ª série. eu era excluída e eu fui parar no hospital por causa disso. Sempre chorava. Porque eu sou baixinha e gordinha. é uma “fuga da realidade” que os cerca. ambas afir- mam sofrer “bullying”61 em função da obesidade. aliviando a tensão da discriminação social. e. Fiquei em depressão. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular O apego ao celular. hoje tenho síndrome do pânico (Denise. os esquemas inconscien- tes de classificação reorganizam-se sobre as condições subalter- nas de classe e gênero dos jovens. Diziam que eu não podia estudar na mesma escola que eles. os estudantes centram no telefone sua atenção. Muitas vezes. Bourdieu (2007) acredita que a escola serve à reprodução das desigualdades e que o capital social pode ser dado tanto à manu- tenção destas desigualdades quanto à ascensão de certo capital social dentro da escola. E por que eu era gorda também. no caso dos jovens discriminados. a hexis corporal. não que- riam ser meus colegas (Eliana. Eliana ainda conta com o obstáculo de estar acima do peso. Diziam que tudo que eu fa- zia de errado era porque eu era preta. E por que eu sou negra. chorava bastante e não queria mais ir pro colégio. 172 . Desta maneira. principalmente em ambientes públicos e no espaço doméstico.r tinha umas gurizinhas loiras. quando amea- çados por olhares que os desaprovam. 61 Bullying é uma palavra usada que os estudantes usam e não um conceito adotado nesta investigação. Além de viver o preconceito de gênero.

visto que os estudantes. minimizar os efeitos de uma posição de classe menos favorecida. Olha. em seu espaço social. Mas este passa a ser um capital cul- tural a ser alcançado em longo prazo. cerca de 250 mil pessoas protestaram contra o aumento da tarifa dos transportes públicos. Flora Dutra No mês de julho/2013. trabalha e trabalha e não consegue nada. 2003. gerando uma onda de indignação. O Brasil não está investindo 173 . as diferentes vozes registraram através dos celulares e divulgaram nas redes sociais o momento histórico. a minha mãe não ficou em cima de mim e deu no que deu. uma posição de jovens conec- tados. já que conta com a acumulação do capital hu- mano medido em termos de custo/benefício como em qualquer outro capital (Martín-Barbero. segundo a lógica da globalização. 10). no meu caso. Em poucos dias. O sonho de ascender a uma condição econômica e social me- lhor é consciente e desejado pelos entrevistados que não veem outra saída a não ser estudar. por isso o Brasil está desse jeito. assim. Aí chega uma certa idade que cansa de estar correndo atrás. No Brasil falta estudo. Ignoradas deliberadamente pelo governo federal. estuda e estuda. os entrevistados buscam legitimar. Em busca de autonomia simbólica. A culpa. as redes online estavam organizadas em um movimento que foi às ruas de diversas capi- tais no Brasil. segundo eles. Eu acho que os pais devem ficar mais em cima dos filhos mesmo sabendo que não vão estudar. p. A consciência das classes injustiçadas atingiu diretamente o aparelho político-partidário. tornando a repetência escolar um obstáculo. esteja concebida e organizada em função do mer- cado de trabalho. embora a educação. trabalha. tentando. em sua trajetória escolar. recai sobre a família e o Estado: A pessoa pobre estuda. não têm estímulos e suporte financeiro que lhes possibilite o acesso a bens culturais.

horários alargados. (Alex. Emprego vai ter também para aquela pessoa que não estudou. com exceção da jovem Alice. Mas tem pessoas que trabalham e conseguem ficar ricas. não sabe como é que é a vida realmente. se elas não tivessem aque- la garantia. não iam querer passar fome. Tem que estar lá sempre batalhando. A pessoa rica tem mais aquela coisa de andar de carro. a aquisição de capital cultural é o caminho e a esperança para os jovens mudarem sua posição de classe. vida com mais condições”. 15 anos) Frente às possibilidades de ascensão. trocam de carro a cada ano. Em contrapartida. indo pra um monte de centro. en- quanto o pobre é representado pelo trabalho manual que gera 1 74 . indo a pé. Não é porque tu não pode ter estudo que tu não vai tra- balhar. entendeu? Porque. Para os estudantes pertencentes ao Bolsa Família. metrô. aí elas iam trabalhar. questionados sobre como mudar de vida. pegando emprego. eu acho. mais fácil. que vê em sua agenda de contatos masculinos no celular um casamento rico como uma saída para mudar de vida – como garota de programa aposta na juventude e beleza para ascender. 18 anos) A pessoa pobre tem que ralar pau a pau pra ganhar um salário mínimo e conseguir sustentar uma famí- lia.(Diogo. Deixar os filhos passarem fome. A classe dominante é representada pelos executivos que tra- balham em escritórios com ar condicionado. os jovens respondem que é através da educação e dos estudos a única chance “de uma vida melhor. compram casas na praia e viajam para o exterior. o privilégio aos bene- fícios de uma qualidade de vida melhor estaria na mão dos ricos que “não precisam trabalhar para ter aquilo que querem”. pegando ônibus. mas a maioria é filhinho de papai. (Bianca. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular na educação e isso afeta. uma vida digna. 17 anos) Porque hoje em dia até em função do Bolsa Família tem mães que não trabalham porque tem aquela ga- rantia.

e isso que já tenho 18 anos. Fico bem mal (Bianca. como o celular. eu fico muito braba. acho que vou ficar minha vida esperando pra comprar aquilo que eu quero (Eduardo. este retorno reflexivo torna-se difícil e doloroso ao admitir a impossibilidade de ações dentro de uma estrutura social como o consumo de bens: Fico triste porque não dá pra comprar o que eu quero. É caro essas botas. Faz um mês que eu estou pedindo pra minha mãe um suspensório e ela não quer me dar. Ei. Flora Dutra esforço e mão de obra barata. RONSINI. Quando eu não posso comprar uma coisa eu fico muito. Eles se sentem mal e eu também (Eliana. 18 anos). mas é difícil viu? Tu ver o que os outros têm e o que tu queria e não pode ter. eu era o único na minha sala ainda que não tinha celular. E a minha mãe não quis me dar porque não era necessário naquele momento. bato o pé e xin- go muito. 18 anos). Desta maneira. 18 anos). trata-se de “uma identidade de ‘classe’ que não passa pela consciência de classe. é aquilo e vai” (Alex. Ainda assim. tipo um coturno. era duzentos e pouco. 17 anos). 175 . mas pelo estar junto entre iguais porque. 2013). O celular torna-se um mecanismo para ludibriar a própria identidade nas redes online. o capital social dos jovens que se amplia no telefone móvel e pelas redes sociais não ultrapassa os limites de sua classe” (DUTRA. Era pra ter comprado um celular novo há séculos. mas muito irritada. Eu tenho que ficar esperando e esperando até poder comprar. Às vezes dou meu jeitinho de comprar uma coisinha aqui e outra ali. Sempre espero. mas a minha mãe não tinha dinheiro. fazer o quê? Pra ela eu te- nho meus tênis e deu. nem meu pai. aquelas boti- nhas que tão usando agora que é meia canela. Procuro não pensar muito nisso (Alice. afinal. é uma merda isso. Esses dias eu queria comprar um tênis. 18 anos).

ficava dizendo o que tinha e o que não tinha. 17 anos) A busca pela visibilidade online e a constante atualização das redes sociais é descrita pelos entrevistados como não ter nada por fazer. enquanto que o jovem rico está em viagens ou “curtindo a vida com o dinheiro dos pais”. É bem legal. vida pessoal e familiar. pla- 176 . É por isso que as redes sociais dos mais abastados. criando. mas que muitas vezes não corresponde à realidade. e vivia dizendo que viajava pra Europa. Sobre a construção do perfil no Facebook. Tinha um carrão. os “boys”. informações falsas. Eu me faço passar por ela. os chamados fakes. Convido ele pra sair. seguido de segredos íntimos. comprar outra casa. Posso falar coisas que ninguém vai saber que sou eu. tem um carrão. a fina! (Alex. Aí eu contava um pouco da minha vida. os jovens dizem passar uma imagem própria de si. Sobre as questões que não devem ser divulgadas nas redes relativas aos amigos estão a bebida alcoólica e a embriaguez em festas. (Cláudia. sincera. Ficava dizendo que queria trocar de carro. eu acho ele bonito. não muito e ela da deles. que revelam ter criado um fake no Facebook para comunicar-se com jovens de classe alta. “é mais parado que água de poço”. 18 anos) Às vezes eu entro no Face da minha amiga pra falar com um guri que ela tava afim. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular prevalecendo desejos de ser aquilo que não é ao traçar perfis falsos. segundo eles. eram empresários e queriam que eu namorasse com eles. Ele era chato e só falava nas coisas materiais e no trabalho. Eu con- versava com um de Santa Maria e um de São Sepé. não me apresentava como eu mesmo. como no caso dos jovens Alex e Cláudia. esse tipo de gente eu não gosto. me mandava foto direto. assim. Era arquiteto e tinha uma empresa dele. mas falo como se fosse ela. Eu tenho fake. Eles falavam do cotidiano deles.

a origem familiar delimitando a posição de classe. Os outros quatro selecionados da amos- tra acreditam ser possível detectar a classe social apontando a personalização do telefone e seus gostos pessoais para identificar a classe. “os traços distintivos asso- ciados à posição correspondente no espaço dos estilos de vida não se torna uma relação inteligível a não ser pela construção do habitus como fórmula geradora que permite justificar práticas e produtos classificáveis” (BOURDIEU. ainda.162). Flora Dutra nos futuros e brigas. Em relação ao corpo. por se tratar de ser um aparelho caro no mercado. sociais e culturais que perpas- sam a trajetória social. O acesso à Internet pelo celular trata-se de uma nova postura juvenil que se tornou um sistema operatório de fácil reconheci- mento. Apontada como determinante na distinção entre jovens ricos e pobres. a classe social a que pertencem. por ora. não deve ser divulgada a renda mensal. ou. Como afirma Bourdieu (2007). fotos de biquíni. algu- mas pessoas não representam. onde irão passar as férias. pelo modelo do aparelho. Seis jovens acreditam não ser possível traçar um perfil da classe social pelo celular que a pessoa tem. nudez. pornografia. demonstrar que tem mais recurso financeiro que as demais. foram apontadas como inapropriadas para as redes. ao estabelecer relações entre a condição econômica e social. segundo os informan- tes. capaz de dar conta de uma visão de mundo. brigas. p. cacinha e sutiã. a TV e os aplicativos do celular 177 . Em relação à família. caso a pessoa tenha um iPhone. fotos com pouca roupa. Sete en- trevistados dizem que a Internet. pode. seios. classificando grupos ou atores em seu contexto social. Pode-se apreender nas falas anteriores que o celular e a conectividade são instância de mediação entre campos simbólicos. 2007. Para os jovens. a tecnologia foi o grande fator de diferenciação.

como uma ca- racterística da formação social que se dá através dele. já é possível per- ceber a tecnicidade como organizador perceptivo. Uma das hipóteses acerca da conectividade nas redes so- ciais. 2013. enquanto. a escola serve como reprodução 62 Together. Percebe-se a existência de uma rede de conexões constituídas através do telefone. para oito dos jovens. o celular ajuda a organizar a vida pessoal. sharing and Empowering? – University of Antwerp. Aqui. os processos simbólicos a partir do uso do aparelho por jovens de classe popular trazem a necessidade de entender como as tecnologias móveis condicionam a experiência e a cons- ciência destes adolescentes em suas práticas sociais na cultura do consumo. a pesquisa avança na busca por entender as rela- ções sociais e as práticas do consumo a partir deste dispositivo e seus reais significados em uma cultura hibridizada e globalizada. Por fim. DUTRA. on March. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular dos ricos são visivelmente melhores.“é uma tentativa de estar visível para os demais em função da sua inexpressividade social e política. O apego que o jovem de classe popular ma- nifesta pelo celular se relaciona também com o não reco- nhecimento de seu valor social” (RONSINI. yet apart (Popular Class Youth and Mobile Phone Use) – Academic Workshop: Youth 2. capaz de produzir e reproduzir disposições de classe. sete entrevistados dizem-se capacitados a mexer em qualquer aparelho de celular. 201362) . Desta maneira.0: Conecting. Com o capital familiar e escolar em desvantagem perante jo- vens de classes mais abastadas. verificam a todo instante as redes sociais. acessam a Internet através do celular mais de cinco horas diária. O conteúdo que mais publicam são jogos e músicas. principalmente o Facebook. Mesmo com as diferenças e distinções destacadas pelos entrevistados com relação às funcio- nalidades. 178 .

A mediação da tecnicidade compreende o celular como orga- nizador de um processo culturalmente global. afetiva pelos objetos que medeiam novas relações sociais. literatura. o novo estatuto da técnica se relaciona com os meios inovadores da comunicação. Flora Dutra da desigualdade social. Algumas situações comprovam o reconhecimento expressivo dos jovens desta pesquisa sobre a função do celular. Tecnicidade: as representações do celular na mídia Para Martín-Barbero (2003). “A práxis política.19) são mundial e facilmente reconhecidos através do celular. telenovelas. 6. a tecnicidade permeia a globali- zação em uma conexão universal no espaço das redes de informá- tica e seus aparatos tecnológicos. O consumo de celulares por jovens busca reconfirmar valores e significados comuns ao criar e manter uma identidade coletiva do grupo. etc. música. muitas vezes. como o celular. O celular como objeto de conforma- ção da identidade coletiva do grupo de jovens de classe popular configura identidade de dependência psicológica. p. O consumo de celular é mais afetivo do que econômico para os jovens de classe popular. que envolve narra- tivas midiáticas como filmes. 19).2. bem como a manu- tenção das já existentes. como a per- cepção da presença deste veículo móvel de comunicação em no- 179 . despercebidos entre os estudiosos da cultura. Para o autor. A conexão dos meios a que se refere Martín-Barbero (2003) ao citar televisão e telefone estabelece novo sentido ao objeto de es- tudo. o novo estatuto da cultura e os avatares da estética” (p. Estabelece “discursos públicos e relatos midiáticos com os formatos industriais” (2003.

quando um “pulso” é ativado. lançou. na literatura e cinema. a escritora Sherry Argov. 2006) com os seus usuários. Bianca e Eliana citaram o celular ao se lembrarem deste livro e. MILLER 2006. Na cena literária. Ovacionada por milhões de leitoras em mais de 30 países. Buscou-se identificar. Para Argov. uma espécie de efeito viral. constrói uma etiqueta para o uso dos celulares nos relacionamentos e dicas de como proceder em caso de não receber chamadas. já vendeu 350 milhões de livros em cerca de 40 países. KATZ. então. filmes e seriados. segundo elas. a mulher poderosa “sempre deixa o celular ligado para que ele possa en- contrá-la sempre que quiser. AAKHUS. seja para construir histórias ou servir de autoajuda. ao escrever Por que os homens amam as mulheres poderosas? (SEXTANTE. Característico da obra de King. todas as pessoas que atendem às chamadas são transformadas em zumbis. LING. LASÉN. 2007). pois grande parte das pesquisas está relacionada às práticas e usos deste bem (SILVA. o livro Celular (OBJETIVA. mas ela nem sempre diz onde está” (p. Conforme os relatos dos estudantes. o cenário é de terror: a trama de- senrola-se através dos celulares. HORST. 30). Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular velas. 2009). “queriam impressionar os homens”. 2010. podem-se destacar alguns best-sellers que se apropriaram do pequeno objeto de comunicação móvel. 180 . 2004. o contexto em que ele vem sendo utilizado pela mídia na construção de nar- rativas e identidades. Há uma lacuna nos estudos relacionados ao celular e sua aparição na televisão. Em 2007. no Brasil. a aparição do celular na mídia foi se destacando. e. O livro Celular é um dos únicos livros lidos pelo estudante Alex. Deixa-se aqui um apontamento para futuras pesquisas relacionadas ao celular e à mídia. Na literatura. Ste- phen King é reconhecido mundialmente: 9º autor mais traduzido no mundo.

a audiência ficou eufórica depois do concerto. Os jovens de classe popular estão decodificando seu estilo de vida em vídeos produzidos pelo celular.. é fácil aparecerem na mídia fotografias da multidão com os celulares erguidos.com/Noticias/ PopArte/0.youtube.1.com/watch?feature=player_ embedded&v=iroerRXfWfk> 181 . disponível em <http://g1.00. a Orquestra Sinfônica de Chicago Sinfonietta to- cou a premiére mundial do “Concertinho para Telefones Celu- lares63”. disponível em <https://www. agora. Antigamente. culturais e afetivas têm sido atendidas através da conec- tividade do aparelho. 6. O consumo de tecnologias móveis tem servido como fonte de inclusão e reafirmação ao per- tencimento de classe. foi um clip produzido pelos fãs da banda Seminovos. jovens de classe popular de todo Brasil que se sentem excluídos do mundo Apple.html> 64 Hit “Os seminovos – eu não tenho iPhone. Transmidiação e as redes sociais Para Lopes (2011). o hit “Os seminovos – Eu não tenho iPhone64 ”. Em 2006.AA1299867-7084. como este que foi idea- lizado pelos fãs da banda Seminovos. Neste experimentalismo que custou mais de dois milhões de dólares.2.globo. bem como a satisfação das necessidades sociais. liguem seus celula- res”. Paul Freeman. a mediação da tecnicidade se coloca em 63 Orquestra toca concerto para telefones celulares. Su- cesso no Youtube. Flora Dutra Após os grandes shows musicais. revelou que este foi um momento histórico. com quase um milhão de acessos. é a luz do fundo de tela dos aparelhos móveis que dá o toque especial aos espetáculos. em que os celulares vieram para ficar e arrematou: “senhoras e senhores. reverenciando os artistas. O diretor musical do grupo. o público erguia os isqueiros para ilu- minar o ambiente.

(Alice. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular um novo cenário. Tinha que ser melhor. fan pages. eu não gosto.eu queria o anjinho do Félix pra mim. Programa de televisão eu xingo o Amor e Sexo da Fernanda Lima. tratar os estudantes como receptores que buscam entretenimento e informação sobre assuntos de in- teresse próprio ou do grupo. com destaque para o Facebook. convergente. flexível. As redes sociais. o da globalização e “isso se dá não só no es- paço das redes informáticas como também na conexão com os meios – televisão e telefone – com o computador. E do Caio Castro eu comento nas comunidades dele. constituído por laços fluídos e transitórios. não acompanham o fluxo de conteúdos gerados pela audiência. Estes alternam-se entre tribos. grupos nas redes para a produção de conteúdo nas comu- nidades virtuais. interagindo com os programas de televisão ou programas online. enquanto a estudante assiste à televisão. comenta nas redes so- ciais. na maioria das vezes. Esses dias eu compartilhei bem assim: . Ela é muito sem graça. 18 anos) A evolução do processo transmidiático é visível nesta fala. conectada e ativa através do celular. móvel. no processo transmidiático. pela busca de uma socialização em rede. Acompanhar conteúdos gerados a partir da mídia hegemô- nica para as redes é tão complexo quanto analisar os conteúdos 182 . Pensar na relação dos meios é adentrar em um processo veloz em que os conglomerados da mídia. 2011. p. 2). No Facebook eu comento mais coisas do Félix e do Caio Castro. acho muito sem graça aquilo. esta. A fala da estudante Alice é o desenho do processo de trans- midiação que os jovens estão vivendo hoje. restabelecendo discursos públicos e os relatos de midiáticos” (LOPES. são palcos de percepções de uma nova prática de recepção. Pode-se. ou até mesmo.

a escola poderá se inserir nas novas figuras e campos de experiência em que se processam os intercâmbios en- tre escrituras tipográficas. tanto para as redes sociais quanto para programas de auditório ou interação com os apresentadores de talk shows. assim como entre movimentos cidadãos e comunidades virtuais” (MARTÍN-BARBERO. mas há uma articulação en- tre eles. visto que foi o único meio de ingressar na rede online de oito entrevistados. beleza e sátiras predominam. Trata-se. Figura 7 FONTE: Imagem retirada do perfil da jovem Bianca 183 . a seguir expostos: a) Protagonistas de novelas têm destaque nas redes sociais. comentários sobre a atuação. Os discursos compartilhados pelo celular. entre identidades e fluxos. p. como nas imagens retiradas das postagens do perfil do Facebook da jovem Bianca (17 anos). Destacam-se seis processos transmídiaticos pelo celular a partir dos estudantes de classe popular. audiovisuais digitais. neste estudo. Para Martín-Barbero “somente a partir da assunção da tecnicidade midiática como dimensão es- tratégica da cultura. da convergência e do processo de trans- midiação pelo celular. 44). 2014. desenvolvem narrativas próprias e distintas entre nossos entrevistados. Flora Dutra da mídia hegemônica partindo das redes como pauta ou fonte.

o lugar é no outro lado da cidade e eles vão e voltam na boa. 184 . mas mos- tra sempre o mundo de gente perfeita digamos. Por exemplo. e lá nas novelas eles têm condições. SBT e Band) são fontes para conteúdos gerados através do celular para as redes. Não mostra muito a realidade de hoje em dia. (De- nise. nada assim. e não é essa a realidade. E quem mora na favela é pobre e não tem condições. passando fome. porque nessa temporada tem uns que enfrentam uns problemas e tal. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Figura 8 FONTE: Imagem retirada do perfil da jovem Eliana b) Programas de televisão aberta (principais canais Globo. tem um que mora na favela. 17 anos) c) Campanhas de mobilização social e comentários sobre as maté- rias vinculadas em revistas. Muita gente que sabe muita coisa e falam sobre a Globo. mas digamos assim que não mostra a pessoa. Não digo perfeitas. A gente vê só um lado. tem que englobar todo o lado da questão. jornais e televisão nas redes sociais. aí pego o meu celular e falo mesmo no Facebook pra todo mundo ver. Eu gosto de Malhação. sites. digamos.

quase impossível. sou apaixonada por eles e os irlandeses. Imagina se eu vou pra Dublin. Twitter ou SMS. Eu acho que ele sim sabe cantar uma música. Demi Lovato. (Denise. Eu penso que a minha mãe não vai durar pra sempre e isso que me dá força pra eu ir pra frente. tem uns funks que não dizem sobre sexo. Por que eu acho legal as músicas dele. eu amo a Inglaterra e os muçulmanos. Só que é o meu fu- turo e eu tenho que pensar em mim e não nos outros. 17 anos). MC Dalest. (porque você gosta dos bri- tânicos?) Sei lá. Então não sei ainda. aí eu pesquiso tudo e quero fazer intercâmbio em Dublin. daí eu escuto uma música e falo porque gostei e porque eu não gostei. 18 anos) Eu posto. mas não tenho coragem. as músicas dele são bem legal. daí achei interessante e comprei o celular. Digamos funk que todo mundo não gosta. Eu quero ir. São feitos comentários e interações com os programas ao vivo através de páginas no Facebook. ou com outra pessoa. E o gnomo também é de lá. (Diogo. Como eu vou te explicar. digamos. sobre crime e tal. (Alice. Gosto deles porque eles são britânicos. Justin Beiber. (e os muçulmanos?) Por que eles usam aquelas roupas muito show. Flora Dutra d) Músicas (sertanejo e funk) como construção identitária. Eles têm um jeito diferente da gente. 15 anos) One Direction. Estilo de roupa de tudo. e) Programas que vinculam a convergência midiática. Ele fala sobre tudo que é tipo de coisa. confi- gurando a mediação da tecnicidade como organizador perceptivo do processo de globalização. A ban- da que eu mais gosto é de lá. Eu vi uma propaganda que tinha cartão de memória. da Inglaterra. que o celular entrava facilmente nas redes sociais. É muito show e eu adoro lá. uma música. (e dos irlandeses?) por causa do trevo de quatro folhas que é de lá. Sabia que 185 . É que eu não sou muito de sair. é funk. Sobre o que aconteceu com ele. Selena Gomez. Por causa da roupa e do estilo deles.

daí fui pesquisar melhor. O desenrolar do filme é entre chamadas dos persona- gens. 6. E ela tava de sutiã e biquíni e perna grossa. ajuda o pai na busca pelos bandidos. Recentemente. A única chance de liberdade é um celular que a conecta com Ryan (Jason Statham). 186 . onde já se viu uma celebridade com dinheiro tá gorda e perna grossa. através do iPhone e do GPS. utiliza o celular para con- seguir contato com a filha Kim (Maggie Grace). clipes. 18 anos). Com os processos delineados pela transmidiação com ênfase no celular constroem-se um complexo mundo ficcional susten- tando múltiplas relações entre os personagens e suas histórias de vida. o ex-agente da CIA. (Eduardo. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular tinha uma oferta numa loja do centro. O mer- chandising da Apple é explícito durante o filme. daí aca- bei comprando. de trabalho e de afeto (LOPES. em “Busca Implacável 2” (2012). Dizia as coisas técnicas e o valor também. O celular e a produção cinematográfica O filme “Celular: um grito de socorro” (2004) foi sucesso en- tre os jovens César e Bruno. 2011).2. Deu na TV e deu na rádio também. Kim. Esses dias eu postei que a Lady Gaga tava gorda por- que o pai dela tem um restaurante e ela começou a comer e comer.1. acessórios. Bryan Mills (Liam Neeson). presa em um cativeiro. ves- tuários. E dai eu xinguei ela. Mas depois ela emagreceu da água pro vinho e não comeu (Alex. vida particular dos artistas. bastidores de novelas.a perna dessa grossura. blog das emissoras de televisão. 18 anos) f) Tendências: lançamentos de filmes. E dai ela tava gorda e fez um show obesa.1. daí me lembro que me interessou. A protagonista Jessica Martin (Kim Basinger) vive uma professora.

faz Eduardo lembrar-se do uso do celular em cenas de Wagner Moura. E logo que ela desliga o telefone no filme toca lá em casa e estava eu. interpretando o perso- nagem Capitão Nascimento. 18 anos) Não sendo uma produção hollywoodiana. Figura 09 FONTE: Google Imagens 187 . Toca o telefone e avisam que ela vai morrer em sete dias. do diretor José Padilha. negros. Flora Dutra Durante a entrevista. prendendo traficantes (posição de Eduardo). pobres e sem perspectivas de futuro. foi muito tenso e eu não dormi a noite inteira”. As principais cenas em que o celular é utilizado pelo Capitão Nascimento são para acionar colegas em operações especiais do BOPE nas favelas do Rio de Janeiro contra o tráfico de drogas. ele ficava muito tempo fora de casa trabalhando. durante o trabalho. jovens. o meu primo e meu tio e eu era criança. Alex lembra o filme “O Chamado” e como o celular foi utilizado: “eles usavam muito o telefone.(Eduardo. o ator principal utiliza o celular algumas vezes para falar com a polícia e com a família. Eduardo cita uma produção nacional: Lembro no Tropa de Elite. o filme nacional Tropa de Elite.

O segundo apontamento é que a capinha do aparelho. o celular foi lembrado como um acessório de moda (LING. No apontamento seguinte sobre o filme O Diabo Veste Prada. lem- bradas pelo estudante. Bianca e Ali- ce. O celular desponta em meio às cenas como organizador perceptivo das relações de poder. 86). usado por Meryl Streep e Anne Hathaway como distinção social ao ditar tendência na revista mais impor- tante do segmento. Nota-se a reprodução ideológica do bem contra o mal. Lembrado por três jovens entrevistadas. pode-se relacionar Alice com Andy Sachs. qual a identificação de perso- nalidades tão distintas ao relacionar o uso do celular ao mesmo filme? Em primeiro lugar. Sem autoridade 188 . produção americana de 2006. 2004). Pode-se relacionar Bianca aos dois primeiros apontamentos. Considerando as características das três jovens (Alice afirma ser “garota de programa” à noite. o touch screen e as funcionalidades são uma forma simbólica de indicar algo sobre o usuário (LING. 2004. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular A leitura política de Eduardo sobre o filme Tropa de Elite é um exemplo do modo de como as ideologias conservadoras são capa- zes de perpassar aparatos tecnológicos carregados de significados conservadores. o filme O Diabo Veste Prada. dá grande destaque para o celular como ferramenta de comunicação entre personagens relacionadas com a produção de uma revista de moda. Embora o Capitão Nascimento seja considerado um herói e exemplo de honestidade. do branco contra o negro. Bianca é apaixonada por bijuterias e Cláudia é evangélica). continua sendo um policial branco prendendo um negro. p. Cláudia. na maioria das vezes sob tortura física e moral. uma jovem jornalis- ta que sonha em seguir o jornalismo opinativo.

na perpetuação das subjetividades e das capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável (BAUMAN. p. Da mesma forma que a jovem jornalista mantém ativa pelo celular sua relação de trabalho com a revista. Está constantemente disponível para liga- ções da patroa. 2007. atrapalhando a própria relação com o na- morado e os amigos. a jovem torna-se escrava do trabalho pelo celular. “o mercado de trabalho é um dos mui- tos mercados de produtos em que se inscrevem as vidas dos in- divíduos” (p. Figura 10 FONTE: Google Imagens Para Bauman (2007). 20- 21). Segundo o autor. a transformação dos con- sumidores em mercadorias marca a sociedade de consumo. 18). a estudante Alice mantém ativa também suas relações com clientes para programas 189 . Flora Dutra nenhuma dentro da revista Runway.

não se pode deixar de mencionar a relação simbólica entre Alice (a “garota de pro- grama”) e Cláudia (a “menina evangélica”) com a palavra “dia- bo”. Para ela. ressuscitando seu corpo como mercadoria vendável na Internet. das festas. Para Cláudia. o hedonismo “mentalístico”. falas e ações. em que o consumo de luxo e o prazer tornam-se práticas subjetivas. inferno. A estudante Cláudia é retraída e tímida quando o assunto trata da sexualidade. o celular é um instrumento de trabalho e seu corpo uma mercadoria sempre à venda. recalque. partilhado de novidades pelos consumidores modernos. como coloca Campbell (2001). Ela coloca-se muitas vezes no papel de “diabinha” para satisfazer clientes. controlando suas roupas. repousa no devaneio por satisfazer o prazer. Para Alice. namoro e traições está intrínseca nas relações pelo celular entre Meryl Streep e Anne Hathaway. uma forma de trans- gressão às regras religiosas organiza-se de forma inconsciente. maldosa” são constantes em seu perfil no Facebook. dor. e palavras como “safadeza. mas se torna para Cláudia um “material de sonho” em que a materialidade do produto pouco tem importância. Para os jovens pobres. em páginas de pornografia e no perfil do Facebook. é irreal em se tratando do filme. a jovem diz lembrar-se de cenas em que as personagens usam muito o ce- lular para falar do trabalho e dos desfiles de moda das coleções dos estilistas. a prostituição e o sexo estão ligados à luxúria e ao prazer. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular à noite. reanimando. O fenômeno da moda. Ainda citando o filme O Diabo Veste Prada. sua conduta pessoal deve ser formal. O espírito do consumismo moderno. a interessante conclusão de Winocur 190 . ao associar o celular com o filme. Ao citar o filme O Diabo veste Prada. das viagens. Como líder do grupo de jovens evangelistas. pois a imaginação do consumo dos vestidos.

2. mas não na mesma proporção que o material.57). a capa do iPhone foi comercializada em diversas cores e preços. p. em 2011. como é o caso do Facebook. Flora Dutra se aplica aqui. O poder dos jovens diz respeito ao controle sobre a única coisa que parece que está ao seu alcance controlar: o Eu. pois a Internet e o telefone são plataformas que parecem empoderar simbolicamente os jovens diante da falta de poder real deles nos espaços institucionais (2009. As mani- festações de como o celular aparece em cenas das novelas pelos protagonistas. 6. p. 2011. 191 . mas têm menos emprego. personagens e núcleos são diversos. cujas estatísticas de acesso não param de crescer e no qual. mas não têm acesso à instância de decisão política. p. 26. possuem mais destreza com as tecnologias. dos 40 links mais compartilhados por seus usuários. 23). expandem o consumo simbóli- co. L3) . Na teledramaturgia brasileira. todo o resto é insegurança: estudam mais. 65 Segundo fontes diversas foram 800 milhões de usuários em 2011 e um 1 bilhão em 2012. Estado de São Paulo. 2012. o uso dos celulares por persona- gens em núcleos distintos vem sendo percebido pelas audiências. Em formato de soco inglês. Salve Jorge (2013). p.1. Como mostram inúme- ros autores latino-americanos (apud Winocur. O celular e as telenovelas brasileiras A relação da telenovela com os conteúdos gerados pelo celu- lar para as redes sociais é intensa na análise empírica. E poderíamos acrescentar que esta expansão do consumo simbólico é bastante relativa. da Rede Globo. respectivamente (Parente. a capinha de celular da Delegada Helô (Giovanna Antonelli) virou moda das fashionistas de plantão. 2009.2. todos tiveram origem entre seis gran- des grupos de comunicação65. Na novela de horário nobre.

Assim podem-se destacar os diferentes contextos em que o celular aparece nas novelas brasileiras: ferramenta de socorro em situações extremas como sequestros e assassinatos. a Vera Fischer e a Claudia Raia. (como você descreve as pessoas que usam o celular na novela?) em pessoas boas e más. mas a representação do pobre com o aparelho móvel ainda é inexpressiva. 17 anos).00 e R$ 70. Ela tava deitada na cama do quarto dela falando escondida (Alex. as pessoas do “nú- cleo rico” usam celulares para fazer chamadas (Bru- no. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular variando entre R$ 25. seguidamente. elas trancam as meninas em uma casa de prostituição e tal. são pessoas finas. a traficante de mulheres. 17 anos). Nas últimas novelas da Globo. E agora como a polícia tá atrás delas. onde Morena fala que está tudo bem pra família que está no Brasil através do celular. 17 anos). na tenta- tiva de esconder a relação com o tráfico de crianças (Cláudia. pode-se observar que. ricas e bem vestidas.00. sendo que ela foi traficada na Turquia e tava sob ameaça do Russo (Bianca. comunicação 192 . Aqui. A lembran- ça do aparelho de celular nas telenovelas de horário nobre tam- bém foi presente: A atual novela Salve Jorge. De novela eu lembro da Carminha em Avenida Brasil conversando pelo celular com o Max tirando o Tufão pra corno. 18 anos). 18 anos). elas se comunicam bastante pelo celular” (Bianca. o celular vem aparecendo em filmes e novelas. a personagem de Zezé Poles- sa liga para o Brasil e fala por um tempão. Outros personagens foram destacados pelo entrevistado como: “na Salve Jorge eles usam muito celular. aí elas usam bastante o celular para se comunicar. Na novela Salve Jorge.

Eles usam bastante. não se trata apenas do fluxo de mensa- gens. o César. “mas da penetração em mundos simulados e da criação de ambientes em realidades virtuais. Amor à Vida. da criação das novas narrativas. A Paloma e o Félix usam bastante. Para Lopes (2011). atividades ilícitas. e os personagens de classe alta são mencionados como os portadores de celulares em cenas dentro de mansões e grandes empresas. 18 anos) 193 . (Denise. 2011. p. o Félix eles usam muito o celular. Da Paloma. ele usa também. negociam no marco das redes” (LOPES. videochamadas. 17 anos) Só novela das nove mesmo. Ele fica tramando aquelas coisas ruim pelo celu- lar. (Cláudia. atribuindo ao celular a marcação como objeto de status pela mídia. quase todos praticamente. Os indivíduos interagem. (Alice. distinção social. influenciam-se. Figura 8 FONTE: Google Imagens Novela só das nove que eu vejo é o Félix o que mais usa. 17 anos) Nas novelas tem essa nova agora. Tem aquele velhão que trai a mulher. Flora Dutra interna de empresas. 13). O consumo televisivo de canais aber- tos é unânime.

aí xingo no Facebook a Fernanda Lima (Alice. 17 anos) Para Lopes (2011). One Direction. 17 anos). A relação dos jovens com o celular e a mídia está relacionada a comentários sobre celebridades e programas preferidos. Faço compartilhamento direto de frases da minha banda preferida. Novas formas de ação e novos tipos de relacionamentos sociais emergem por meio do desenvolvimento dos meios de comunicação permitindo novos modos de intera- ção” (LOPES. Alex. adoro. e coloca uma nova agenda metodológi- ca para os estudos de recepção na América Latina. (Bruno. eles são tudo pra mim (Denise. 2011. espe- cialmente por meio do uso do computador e do celular. 194 . 17 anos). sempre que assiste ao programa da apresentadora Lu- ciana Gimenez. 18 anos). Amor e sexo. interage enviando SMS com perguntas para os entrevistados e sugestões de pauta. Sobre a novela já compartilhei uma foto da Avenida Brasil em que todos os atores da novela estavam as- sistindo a um episódio (Cláudia. o acesso às novas mídias digitais. p. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Cena da novela Fina Estampa em que Thereza Cris- tina liga para o suposto assassino matar a vítima. assim. compartilhado com amigos no bate-papo. uma tecnicidade cognitiva e criativa emer- ge da sociedade em rede. 2). uma nova ambiência (sensório en- volvedor) parte para uma lógica multiconectada que “traz. comentando programas de televisão em páginas do Facebook e no próprio perfil. Outros entrevistados intera- gem de forma indireta. Os processos que incentivam a transmidiação e a interatividade estão no ce- lular dos estudantes. é bem sem graça.

Flora Dutra As informações de artistas preferidos. o forte apelo que o celular tem na comunicação en- tre pares e no entretenimento – jogos. amigos ou páginas de informação são “curtidas” e acessadas pelo celular diariamente para fins de atualização. A predominância de imagens no Facebook pode indicar que eles são mais consumidores de conteúdos de outros perfis do que propriamente produtores de conteúdo próprio. As tecnologias pelas quais os jovens manifestam mais apreço são o computador. apresentaram-se vertentes variadas como com- partilhamentos de promoções de empresas para ganhos de brin- des. o celular e a televisão. poder-se-ia indagar se o entretenimento mes- mo não é o que lhes resta fazer. lembranças. retê-las perto de si para formar nosso senso de identidade. amigos e marcas. animais e pessoas desapare- cidos. assim. campanhas de casas noturnas para ingresso gratuito. os perfis mais seguidos são de celebridades. Neste sentido. a única saída para uma condição geracional que se define como instável e temporária. campanha para adoção de animais. imagens do vivido e do meramente visto. o celular serve para fixar nomes. 195 . divulgação de eventos. doação de sangue para amigos ou conhecidos. vídeos. A fim de verificar a inserção dos jovens em campanhas e mobilizações sociais pelas redes online através do celular. A definição mesma de juventude é este tempo de suspensão que hoje parece mais suspenso do que nunca pelas condições sociais mesmas. Na liquidez de nosso tempo. Para os jovens da pesquisa. música – revela o precário acesso a outros bens culturais da cultura erudita e um prejuízo nas atividades escolares.

196 . olhar. o jogo. nesse caso. o celular “tem a capacidade de impor regras aos jogos entre significação e situa- ção”. não são as posses. mas o envolvimento social” (p. poderá ser a própria rotina dos jovens. Douglas e Isherwood (2004) dizem que “no universo que conhecem. Na etnografia na escola A. Esta rotina é atravessada por um processo em que as ritualidades remetem às múltiplas ações e projeções de práticas sociais através de um único aparelho. a desmotivação política e cultural e o desinteresse pelo futuro. se tiver acesso a toda informação necessária e se puderem difundir suas opiniões. 19). Desta maneira. Ritualidade: uso e distinção social pelo celular dos jovens de classe popular A mediação das ritualidades mostra formas de agir. pois. O consumo relacionado às práticas do telefone celular é diário e a todo o momento os jovens estão deslizando rapidamente os dedos em telas e teclas dos seus aparelhos a fim de regular suas relações sociais na rede online. pg. não são pobres. neste caso. identificou-se.3. As marcas dos celulares. A medida correta da pobreza. 203. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 6. pensar. como afirma Eliana. modelos e funcionalidades – car- regam o significado de modernidade e conectividade – traçam por vezes o esquecimento da posição de classe inferior perante os jovens de classe alta. escutar e ler que “regulam a interação entre os espaços e tempos de vida cotidiana e os espaços e tempos que conformam os meios” (BARBERO. o celular. no discurso dos estudantes. pois ter um celular para interagir e cir- cular nas redes sociais não é sinônimo de pobreza.35).

18 anos). O envolvimento social e político são cambiados para a afe- tividade exacerbada que os jovens têm pelo celular. etc. A relação construída pelo jovem e o celular tem como objetividade a con- servação do estilo de vida intrinsecamente ligado à mobilidade. Acho que vou passar. sexo. agora eu decidi que eu quero passar. da imagem e dos textos em que o ce- lular aparece na fala dos entrevistados. Preferem acessar a Internet pelo celular ao invés de fazer pesquisas escolares ou ter planejamento de estudo extraclasse. constantemente ligados às redes sociais e às inovações tecnológicas. etnia. Não gosto de fazer nada na escola. raça. Gosto um pouco de biologia. To vindo na aula. são muitos sonhos pra pou- ca força de vontade. Afirmam realizar as avaliações para não repetirem o ano e sen- tem-se desmotivados com o ensino público. são muitos sonhos e poucos possibilidades. 197 . Os jovens. 6. reforçam as múltiplas práticas sociais juvenis em ritualidades e maneiras de ser e de estar no mundo. Os usos do celular pelos jovens de classe po- pular na escola Os estudantes confessaram não gostar de ler e de praticar es- portes.1. ou simplesmente o reforço da identidade da cultura popular como subalterna.. Flora Dutra Eu quero ir pra área da saúde. nem de arte nem de educação física. Através da linguagem. pode-se perceber a repro- dução de ideologias opressivas de classe. Tem vezes que eu paro e penso que eu não tenho capacidade pra isso e que não sou inteligente o suficiente pra realizar os meus sonhos (Eliana.3. Nos últimos dois anos eu só rodei porque eu não vinha na aula. Não gosto nem de ler.

apontam a rigidez dos métodos de ensino como a principal diferença na qualidade de vida e do futuro profissional. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular faço as provas que tenho que fazer de recuperação e tento ficar na média (Alice. em conteúdos nas redes sociais e nas avaliações predomina mesmo sendo unânime que “escrever abreviado” é criar uma nova linguagem entre o grupo. 17 anos). a assimilação de valores. tipo eu coloco tudo assim. 18 anos). as experiências dos atores nas redes. Ao relatarem sobre as diferenças de escolas públicas ou priva- das. a abreviação das palavras nos tra- balhos escolares. professores e alu- nos. igualar-se perante os jovens de escolas particulares. Sete entrevistados não possuem computador em casa. modernidade e velocidade”. Eu escrevo como eu acho certo (Eduardo. Deveria ser certo. Eu abrevio as coisas. a desigualdade de classe e os 198 . não estou num lugar pra falar certo e tal. os cos- tumes. O fator financeiro. Assim. o “pagamento para estudar” é direcionado à dedicação e à valorização por parte dos pais. Transgredir as regras ortográficas é sinônimo de “liberdade de expressão. Para os entrevistados. Acho que todo mundo deveria escrever como acha melhor. para os jovens de classe popular. que distingue gerações. não tem ninguém me observando e falando que tá errado ou certo como no colégio que os professores ficam en- chendo o saco pra escrever tudo certinho. mas pra mim não precisa. Porque eu tô ali (no celular). Assim. o acesso ao celular conectado à Internet significa buscar a distinção social. os alunos de escolas particulares têm maior incentivo e investimento na educação. Em relação à língua culta. e eles adicionam esta desvantagem perante os estudantes de “pais ri- cos”. ou seja. ser visível “para o mundo”. Coloco “o q” (letra q) com K ali. estar circulando nas redes.

duas realidades de relativa autonomia. isso sempre acontece (César. as coisas que eu acho in- teressante. social e valor histórico no campo do simbólico. Aí eu excluo elas. expressando as diferenças de clas- se. Em segundo lugar. A cultura dominante é definida como tal pelo reconhecimento arbitrário. elas se reproduzem e se renovam. na medida em que há uma correlação entre posição de classe e cultura.  A circulação e o acesso a esses bens não podem ser explicados pela associação ou pela classe social. 17 anos). Eu me sinto bem e aliviado. As intimidades e preferências do gosto são constante- mente postadas na rede. Eu sou muito sincero e o que eu te- nho pra falar eu vou lá e falo sabe. Elas me adicionam e se tem um guri que é amigo delas vem falar comigo ou comentam elas ficam braba com eles e vem me xingar eu. E quando eu brigo com alguém também eu posto. Flora Dutra conflitos puderam ser identificados através do objeto de estudo. a escola é motivo de distinção pela sua posi- ção na estrutura de produção e a maneira como eles produzem e distribuem bens materiais e simbólicos de uma sociedade. Para explicar como são construídas as relações de poder. Para ele. Sempre tem gu- ria se encarnando em mim. onde se podem construir as distinções diárias. Bour- dieu investiga como se articula o desenvolvimento econômico e simbólico. a) experiência dos atores das redes: o compartilhamento pelo celular de fotos com frases é o grande destaque do perfil do Facebook dos entrevistados. 199 .  Portanto. Eu compartilho as coisas. a exposição do corpo em fotos produzidas especialmente para as redes sociais predomina. Tipo minhas fotos e as frases é o que eu mais faço. Ou seja. a posse ou a falta de capital cultural é adquirida principalmente na família. E tipo quando eu to vindo pra aula eu coloco lá no Face que to vindo pra aula. sempre. sempre. as rela- ções de poder são confirmadas.

desconhecidos na vida real. segundo os estudantes. Me sinto bem. Em postagens no Facebook do entrevistado. Mesmo a rede sendo de conectividade global. mas ao contingente de amigos que ele possui em sua rede social. estes. Mas tem coisas que eu posto. 18 anos). Meu último post do sábado um monte de gente curtiu e um monte de gente comentou. 2011. Foi um texto para as pessoas verem o que eu estou vivendo e o que eu vivi. Assim. para mostrar para as pessoas os momentos que eu estou passando. “todos são pobres mesmo”. As partes destacadas do corpo formam um produto em que o máximo de “curtidas” eleva a moral do expositor. Postar tudo que você vai fazer enche o saco das pes- soas no Facebook. o vivido e a própria experiência constituem um valor privilegiado” (WINO- CUR. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular É através do celular que os jovens compartilham seus gostos. medos e alegrias. escola e amigos. 8). os contatos através do celular são locais: família. p. o modo íntimo e pessoal de ser do ator não se refere mais a ele. o resguardo e o segredo são inexistentes nas redes. é possível de- tectar a controvérsia e a exibição da intimidade. Tem gente que curte e que comenta. aonde eu vou ou deixo de ir (Alex. 200 . A intimidade revelada através das redes sociais é garantida como personalidade. assim como a erotização que “com a multiplicidade e a hibridização das tex- tualidades que caracterizam a cultura contemporânea. A busca por novas experiências está em adicionar e enviar SMS para “amigos virtuais”. O desenvolvimento da vida do entrevistado em relação às suas experiências e relacionamentos amorosos não está livre do acesso ao público. O des- taque aqui é que nenhum “amigo virtual” ultrapassa a posição de classe.

e de vez em quando eu pesquiso quando precisa pra alguma coisa do colégio. tem-se um relato aproximado da rotina de todos os entrevistados: Ultimamente eu só fico no celular e fico só no Face. Converso com as pessoas e compartilho as coisas. A identidade juvenil de classe popular pode ser retratada a partir dos “rolezinhos”. Quando eu chego em casa eu acesso logo. por isso uso ele o tempo todo. 2013). caminhar e digitar mensagens e acessar o aparelho durante as aulas. 17 anos). Os indicadores da pesquisa também apontam para consumo para certos tipos de comida. escutar música no ônibus. Só uso rede social. shoppings e praças. E entro de noite sempre antes de dormir e fico mexendo sempre até a uma ou duas da manhã e respondendo as pessoas que me escreveram no bate-papo (Bruno. alimentos de baixo custo e valor nutricional. sobre a exposição da intimidade na Internet através das redes sociais. Só no celular. pode-se mais facil- mente ocultar todos os constrangimentos materiais vividos (RON- SINI. entre otimistas e pessi- mistas. como salgados. almoçar na companhia do aparelho. no meio virtual. A seguir. A juventude da periferia carre- gada de significados pode ser acompanhada e vista a olho nu em 201 . DUTRA. refrigeran- tes: “gosto de xis e cachorro-quente com bastante gordura” (Alex. Constata- -se a maneira desigual e desconhecida do acesso a outros tipos de fonte alimentícia. Tenho música no celu- lar e escuto música bastante. Flora Dutra De todo modo. é evidente que. à margem de debates. 18 anos). Eu não tenho internet em casa. só no celular. fast food. b) costumes: hábitos relacionados ao celular são frequentes e diários: acordar e verificar as redes antes do café da manhã.

tomar espaços públicos como forma de lazer e de encontro com amigos. veem a circulação e a mobilidade urbana como uma identidade coletiva. 04). Para o autor. Figura 12 Fonte: Perfil da rede social Facebook de Alex 202 . A ressignificação dos espaços públicos é a marca desses jovens. mas. galerias. praças de alimentação. atual. luta de classes. bens simbólicos transitam no mesmo ambiente. Para o antropólogo Renato Souza de Almeida (2014. Agora. os produtores de uma nova forma de sociabilidade. sim. Entre as práticas culturais dos jovens do rolezinho estão sair pelas ruas. a contradição se evidencia e a polícia é acionada. um momento histórico de afirmação da clas- se popular juvenil. sua identidade de negro e pobre. a partir das manifestações do role. p. identidades. “quando o jovem afirma. os jovens não são os consumidores nos tem- plos do consumo. online. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular shoppings. por meio do rolezinho. e tão logo o paraíso do consumo e do prazer se revela como o inferno do preconceito racial e da violência”. etc. Os jovens da classe popular ressignificaram. neste sentido. Enquanto destituídos de poder econômico. uma identidade pertencente aos jovens da classe alta. lojas de departamen- tos.

Os pais dos entrevistados. mas como não tenho compu- tador ainda fico mais no Facebook no celular mesmo. eles não revelam ser de classe popular e para isso “mentem” um estilo de 203 . a humildade. pode-se relacionar a esco- lha do jovem pelos cursos de marketing ou publicidade e propa- ganda como uma fonte ilusória daquilo que poderia ser construí- do a partir do consumo inatingível. Deveria estudar mais. a realização pessoal e profissional está intima- mente ligada às condições e posse de bens materiais. Assim. porque eu fico mais no Facebook. Desta maneira. como relataram os jovens. Flora Dutra c) assimilação de valores: as manifestações sociais são vistas com descrença pela maioria. pois “sem dinheiro não há como ser feliz”. Estudo na aula mesmo. Apenas Alex e Cláudia mantêm perfis falsos para interagir com jovens da classe alta. buscam uma educação melhor para os filhos mesmo com o recurso financeiro escasso. E a pessoa que não tem fa- culdade não vai conseguir um bom emprego. 17 anos). d) desigualdade de classe: oito jovens admitem não conhe- cer ninguém “rico”. a honestidade e a “força de vontade” para estudar e “mudar de vida”. de ler e frequentar a escola. os valores morais incluem o respeito pelo próximo. Essa reflexão é controversa em oito entrevistados que dizem não gostar de estudar. Os estudantes reconhe- cem que o uso constante do celular é fator do baixo rendimento escolar e afirmam que estudar é a única forma de ascender so- cialmente. bem como o governo do país e a política. Pro- fissões que visam ao trabalho manual não foram mencionadas como sonho profissional. Para os estudantes. Eu nem estudo. não vai conseguir crescer na vida (Denise. A felicidade.

como notebook e tablet. Mas não sei as marcas. Diferente. São bem comportados e todos mimados (Eliana. Se a identidade dos jovens de classe popular era desconhecida da grande mídia. gera conflitos na intimidade e privacidade dos jovens. Tem pessoas que não trabalham. Não conheço nenhuma. na maioria com quartos compartilhados. Montam álbuns fictícios com carros importa- dos. não vão falar como a gente em gírias e tal. ressignificando os espaços públicos e as redes sociais online. vivem em casa de madeira. As roupas de marca. mais que a gente. Quatro estudantes vivem em casa construída de madeira e alegam ser o “símbolo da pobreza” assim como o é a ausência de computador em casa. Eles vão falar diferente de nós. A falta de aqui- sição de vestuários da moda e de eletrônicos de última geração. 18 anos). hoje temos este fenômeno para quebrar barreiras e sustentar as múltiplas identidades que circulam nos shoppings através dos rolezinhos. As identidades fixas dos consumidores e da classe abastada caíram por terra com a chegada dos jovens da periferia. é um fator desestimulante para os jo- 204 . cheia do di- nheiro. “os ricos estão em casas grandes com piscina tomando suco de laranja natural pela manhã”. Pessoas ricas vivem no luxo. Só isso. A rede de amigos dos estudantes é composta por alunos da escola A e amigos do bairro onde moram e muitos deles partici- pam do mercado informal de trabalho: babá. vão agir de forma diferente. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular vida que não têm. diferente da gente. e) conflitos: o fato de a moradia dos estudantes ser relativa- mente pequena. revendedor de cos- méticos e freelancer são os mais frequentes. pela roupa. viagens internacionais e mansões com piscina. Bem ves- tido. a zona de confor- to dos ricos foi estremecida pela galera pobre do rolê. Para Eduardo.

Os estudantes Alex e Eliana. não tem nada e porque da pra ter uma base sobre o poder aquisitivo da pessoa. Louis Vuitton incrementadas com a falsificação de pedras preciosas como diamantes.2. gaudérios”. os “gays do colégio”. Por que hoje em dia as pessoas tentam mostrar o que elas não são por meios materiais (Cláudia. estereótipos como “a garota de programa”. tipo o jeito como a pessoa personaliza o celular pode identificar. que os estudantes frequentemen- te seguram o celular à mão enquanto conversam e circulam pelo pátio da escola com símbolo se status. a “negra”. O conflito maior das famílias não evangélicas é sobre o uso excessivo do aparelho de telefone e a pouca dedicação aos estudos.3. tem gente que não tem nem internet no celular. ele é o que é. Flora Dutra vens. se ela tem o celular todo rosinha. rolezeiros. so- frem conflito no núcleo familiar evangélico. por se declararem “gays”. não se preocupa em transmitir uma imagem. “a baixinha e gorda” desestruturam o lado emocional. esmeraldas e pérolas. Além disso. 6. Acho que sim. Tem pessoas que tem ce- lulares ótimos e que tu olha a família e não tem nada 205 . nesta pesquisa. Distinção social pelo celular Constata-se. se o celular é todo jogado tu vê que ele não dá muita bola pra sociedade. Ter um celular é sinônimo de pertencimento ao grupo dos “funkeiros. Sim. Dolce&Gab- bana. roqueiros. Destacam-se as meninas ao exibirem capinhas com marcas fakes de nomes famosos como Gucci. tu pode dizer que ela é mais patricinha. É também um mecanismo que conecta estilo do ves- tuário ao aparelho. 18 anos). e muitos adolescentes demonstram tristeza e acessam o celular a todo instante para fugir da realidade que os cerca.

veloz e contemporâneo. máquina fotográfica de alta resolução e ser barato. Acho que se for uma pessoa muito pobre e tiver um iPhone. por vezes. Os custos em recargas mensais variam entre R$ 10. agora qualquer pessoa pode ter o celular que quiser. 15 anos). bem acabadinhos que não tem aplicativos. ser leve e com muitas funcionalidades como possibilidade de baixar aplica- tivos. sei lá. Para ter um celular que os distingue da maioria. mas acho que dá pra saber. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular e tem outros que tem celulares caquinhos e a família tem dinheiro. Se ela tem um iPhone ela deve ter mais dinheiro que uma pessoa que tenha Android.00 reais. ter touchscreen. que não tem nada.00 a R$ 30. Então não tem como definir (Diogo. Depende muito. Acho que depende. ou seja. Geralmente quem tem um iPho- ne é de uma classe que tem mais dinheiro ou guar- dou pra comprar. Celulares de conta. bom. Bianca e Alice frequentemente não fazem recargas e. ficam sem pacotes de Internet no celular. ela pode ter roubado. visto que todos possuem contas pré-pagas. A aceitação pelos serviços pré-pagos é grande na classe popular. “é apenas para pessoas ricas”. ai você vai ver aqueles celulares que são mais antigos. 206 . o grupo de amigos ou fa- mília sempre tem os serviços da mesma companhia de telefonia móvel. O celular como bem de distinção social conecta os estudantes ao estilo de vida moderno. segundo César. o aparelho precisa ser grande. algo de difícil acesso no núcleo familiar. Dá pra ver sim (Cláudia. 18 anos). porque os planos são barateados para ligações da mesma operadora. tu meio que define que a pessoa não tem condições de comprar ou que não gosta. Nenhum dos entrevistados relatou qualquer forma de dis- tinção pelos aparelhos pré-pago e/ou pós-pago.

pode-se perceber o parce- lamento do pagamento ou a economia de meses para a compra do celular pelos pais dos jovens. Só pra mostrar que tem dinheiro mesmo sendo pobre e para se acharem. os pobres. Os ricos se contentam com qualquer celular. sendo excluídos do mundo digital e online. embora eles tenham es- colhido o modelo. algumas vezes acontecem. o sucesso da telefonia móvel em jovens de baixa renda explica-se pelos implementos dos serviços pré-pagos. A revolta é grande pela falta de recurso financeiro ao não realizarem as recargas para o aparelho ter conexão com a Internet. Sílvio Santos. As famílias não possuem TV a cabo. Para Alves (2006). Luciano Huck e Faustão ainda são os mais assisti- dos e comentados na timeline dos usuários. Flora Dutra Os pobres têm mais celulares porque querem ter um de cada operadora. Luciana Gimenez. outras não. quanto mais diferente. verifica-se que a maioria dos entrevistados não tem acesso à Internet pelo computador. digamos. Em relação à compra do aparelho. A escolha por modelos diferentes é a forma de distinção dentro da escola. eu conheço dois amigos meus que são assim. querem comprar o melhor celular para mostrar para os amigos. mas antigamente quem tinha mais dinheiro usava mais pós-pago que pré-pa- go (Bianca. moderno 207 . Os estudantes não se basearam na opinião dos pais na hora da compra. Hoje em dia está todo mundo usando o pré-pago. o que implica pouco acesso a informações qualificadas ou segmen- tadas de interesse jovem. estão sempre trocando de celular e quando lançam um modelo novo estão sem- pre comprando. alguns que eu conheço. Com estes dados. Os programas de TV aberta voltados à classe popular como os talk shows da Eliana. pois. Pedem frequentemente ajuda das redes para amigos virtuais colocarem créditos em seus aparelhos. 17 anos).

salvo raras exceções para envios de SMS ou chamadas e empréstimos para amigos. pois os estudantes de baixa renda veem no celular uma melhoria da qualidade de vida. A exposição do aparelho na escola e diante do grupo de amigos é sempre pensada na hora da troca do aparelho. Bianca. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular e caro o aparelho. Sem a comunicação pelo celular. O aparelho não é compartilhado e é de uso individual. César e Eduardo veem na comunicação móvel uma ferramenta de trabalho “enquanto os riquinhos estão gastando o dinheiro dos pais”. O ritual para a usabilidade do aparelho como distinção refe- re-se às redes sociais e ao uso para ligações emergenciais para família e amigos. O desejo de ter sempre um aparelho mais avançado e com mais funcionalidades é compartilhado por todos os entrevistados. Quando questionados sobre o status que o celular representa- va. Isso ocorre principalmente em espa- ços públicos. não haveria trabalho para eles. maior é a distinção simbólica dentro do grupo. para estes jovens. mais um fator de distinção social que foi apontado perante os lares de classe média alta e alta. pois se constatou na pesquisa que nenhuma família era portadora da telefonia fixa. Quatro entrevistados usam o telefone no mercado informal de trabalho para comunicação com clientes e chefes. que serve para a demonstração de créditos dis- poníveis para ligações. 208 . resultando na melhor forma de comunicação devido às funcio- nalidades dos aparelhos modernos e aos sistemas operacionais velozes. os estudantes deixaram clara a posição deste bem simbólico como essencial na vida. visto que é a única fonte de Internet dis- ponível no espaço doméstico para estudo. pesquisa e acesso às redes online. Assim. o celular possibilita uma inserção maior no mercado informal e a possibilidade de um ganho extra de renda no final de cada mês. Alice.

passear. ou a capacidade econô- mica para adquirir cultura. Para o autor. tomar banho. etc. como a posse do capital cultural e de educação permite aos indivíduos participar e gostar de alternativas variáveis. No caso dos estudantes entrevistados. como as condições de vida de todos os tipos impostas de maneiras para classificar. conexão global. parentescos. Estar próximo do corpo. Flora Dutra Todos os jovens conhecem as tarifas das operadoras e vivem “no limite” de cada pacote das operadoras de telefonia. apreciar. Segundo a maioria dos entrevistados. mas também e. O celular está presente em todas as atividades cotidianas: dormir. o modelo e o design do aparelho e o plano escolhido são elementos de distinção social entre ricos e pobres enquanto uma minoria acredita que as facilidades do crédito tendem a democra- tizar os aparelhos para todas as classes. estudar. Para os vários usos dos bens culturais. A tecnologia se agrega à indumentária. comer. deslocar-se. no caso do celular. Utilizam o máximo de serviços disponíveis e a oferta de bônus tarifários é entendida como uma vantagem na hora da escolha da troca de operadora. amizades. Bourdieu não explica como a distribuição do campo cultural. acesso a outros meios de comuni- cação. nenhum deles comprou celular de segunda mão. acima de tudo. todos foram retirados das lojas. para além das funções práticas que ambos possuem. as con- dições de vida diferentes produzem habitus diferentes. O habitus constitui a origem das práticas culturais e sua eficácia é percebida. talvez tenha relação com o uso do aparelho como uma tecnologia afetiva que os conecta aos sentimentos e às emoções compartilhadas com amores. mas. Alguns comentam negativamente aqueles que manifestam 209 . O celular dos ricos evoca modernidade. a função simbólica do apa- relho é a da distinção e da comunicação. os recursos tecnológi- cos.

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular pretensões deslocadas da posição de classe ao adquirir um apa- relho que não corresponde ao seu poder aquisitivo. 210 . reclamando uma disposição adequada à reprodução da hierarquia social.

os jovens puderam acessar a Internet e fazer ligações para a mesma ope- radora a preços baixos. família e 211 . Investigar o fenômeno contemporâneo do consumo juvenil pelo aparelho de celular revela práticas culturais de uma nova tecnicidade. que tem no aparelho a única fonte de acesso à Internet. a rá- pida adoção da comunicação móvel pelos adolescentes começou a partir dos anos 2000 quando as operadoras de telefonia celular entraram em concorrência pelos melhores planos. Estas vantagens possibilitaram ao usuário de celular. os smartphones têm um tempo relativamente curto na história sobre os estudos do consu- mo. Neste cenário. que é imperceptível nas postagens feitas através do celular pelos jovens de classe popular. cerca de R$ 10. como consequência. bem como na co- municação entre escola e família. e mais facilidade nas relações nas redes sociais online. Embora a tecnologia móvel tenha penetrado na cultura jovem com incidência maior nos estudantes de baixa renda (entrevista- dos). Em 2014. através da tecnologia móvel. que estivesse grande parte do tempo conectado à Internet. O uso constante e diário do aparelho é um dos principais motivos do baixo rendimento escolar conforme afir- mam os estudantes. A posse do objeto por jovens de baixa renda elabora uma ampla relação de novos significados com a mídia. Contudo. Flora Dutra 7. Abreviações e falta de acentuação são generalizadas.00/mês. com os planos cada vez mais barateados. houve o interesse pelos estudos de consumo sobre este objeto. outra questão a ser debatida é a norma culta da língua portugue- sa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sucesso comercial da última década.

Na socialidade. mas já difun- dido entre os sete bilhões de habitantes do globo. está relacionado co- tidianamente com a propagação de gostos. Para Martín-Barbero. desejos e distinções simbólicas. Twitter e Instagram. p. possibilitam-lhes a ampliação do capital social. assim. exigido pelas novas formas de visibili- dade que tece a internet” (2014. ao longo desta pes- quisa. com parentes próximos vivendo na mesma casa e ajudando nas 212 . O celular. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular a sociedade em geral. Ainda assim. pode-se identificar que. Conforme Martín-Barbero. nas classes populares. p. 110). fun- cionalidades e estilo de vida. pois o consumo televisivo fica evidente em postagens e produção de conteúdo para as redes a partir de filmes e de personagens de telenovelas. No caso dos jovens desprovidos de capital econômico. relacionado à socialidade. Tornou-se o símbolo da convergência para a cultura popular juvenil que anseia por modelos novos de aparelhos. as constantes atualizações e contatos estabelecidos pelo celular através das mídias digitais como Facebook. veiculando. os lares são constituídos de pais e filhos. a multiculturalidade que faz romper os tradicionais referentes de identidade” (2014. verificou-se que poucos estudiosos debatem o consumo a partir desde pequeno objeto de tecnologia recente. do espaço local e de vizi- nhança. nas linguagens e nos desenhos de políticas. 111). “os meios e as redes eletrônicas estão se constituindo em mediadores da trama de imaginários que confi- gura a identidade das cidades e regiões. para os jovens entrevistados. “passa por profundas mudanças nos mapas mentais. referente à família. novas significações e relações de poder entre o mesmo grupo juvenil permeiam novas socialidades e ri- tualidades. Novas práticas sociais partem da conectividade online e da mobilidade que o celular proporciona.

interagem quando possível através de SMS ou Twitter. o capital cultural transmitido pelos pais é o valor dos estudos. Para os estudantes. seria capaz de promover a ascensão à posição de classe. para estar visível aos demais do mesmo grupo. Na escola. já que as relações sociais não ultrapassam a classe a que pertencem. Assim. por isso o acesso às redes sociais é intenso e constante. aqueles que têm pais evangélicos costumam se envolver mais em conflitos dentro do lar. a tecnicidade perpassa novas formas de sig- nificações pelo celular. não há outra saída se- não o enriquecimento e o esforço nos estudos para almejar uma Universidade Federal. No Facebook. Os estudantes que se declararam “negros. livros. revistas e seriados em que o aparelho móvel aparece em narrati- vas distintas. pela questão da opção sexual. No ambiente familiar. os estudantes assumem que o celular é o grande atrapalho no aprendizado. O consumo do celular é diário e não inclui a produção de con- teúdo social ou político. Flora Dutra despesas. Os estudantes dizem se lembrarem de filmes. um curso técnico profissionali- zante. novelas. No que diz respeito à escola. Os estudantes afirmam que o celular é sua única fonte de acesso à Internet. e incidentes de atividades ilícitas como drogas e prostituição” dizem sofrer maior preconceito que os de- mais no espaço escolar. As afetividades relacionadas ao uso do celular são visíveis dentro do espaço escolar e doméstico. ou ainda. os entrevistados revelam 213 . eles dizem comentar personagens de novelas. conforme dizem os entrevistados. gays. Para eles. pois tira a atenção durante a aula e rouba o tempo de estudo em casa. atrizes e bandas famosas. o que causa brigas e discussões. inclusive. o que. É pelo celular que os jovens de classe popular também comentam nas redes sociais programas da televisão aberta como Silvio Santos e Eliana.

Os acontecimentos experimentados cotidianamente estão for- temente associados à cultura do uso do celular. praças e ruas. músicas com letras de cunho crítico. É através da cone- xão com a Internet que o celular torna-se indispensável como for- ma de expressão para os jovens. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular usar o celular dentro da sala de aula. Novos caminhos. e os respon- dentes dizem-se angustiados sem o aparelho. com a etnografia. é através da rede social que eles afirmam marcar encontros em shoppings. Para o jovem. todo saber e conteúdo gerado para as redes online dependem da aplicação de estruturas da razão sobre aquilo que afeta os senti- dos. uma fração de um grupo social aqui analisado. O Facebook é o grande passatempo dos jovens de classe popular. escola ou novas amizades) são estabelecidas constantemente. relatam não prestarem atenção ao que é transmitido para navegarem nas redes sociais. Desta forma. surgem para compreender os processos que constroem o jovem e a sua identidade. Novas relações sociais pela Internet através do celular (seja para o trabalho. O aparelho móvel é de uso pessoal. não se pode obter uma verda- de absoluta a partir das categorias analisadas para compreender a totalidade da realidade entre os jovens e o uso do celular. O conhecimento adquirido nas redes sociais serve de repro- dução cultural dentro do grupo de convívio. ou seja. Muitas vezes. históricos e existenciais vividos pelos estudantes estão intrinsecamente ligados à posição de classe. como o 214 . Fica claro que os fatores culturais. a partir da análise da relação com o aparelho de celular. dos capitais que o estudante possui. apenas apreende-se. Afinal. enquanto o professor passa o conteúdo. como um status ele- vado. tanto pela questão da mobilidade como da afirmação perante os pais e a escola.

descartável e substituído – transmitin- do hierarquias de valores através da modernidade. maior é a probabilidade de que a classe seja um fator ignorado ou minimizado como determinante e de que o consumo seja encarado como capaz de definir classe social. na verdade. conectividade e funcionalidades do aparelho. mas reconhece que. um resultado não conscien- te das condições de classe (BOURDIEU. o celular é para os jovens um bem simbólico – desejado. compreender o processo de apropriação desta tecnologia. mesmo que sim- bolicamente não. grande parte do que é entendido como intenção do ator social é. A opção pelo método etnográfico e pela observação partici- pante se deve ao caráter sociocultural da pesquisa. amizade. companheirismo. legitimam a cultura juvenil e também são citadas como fonte de cultura. Tal abordagem não nega as escolhas intencionais dos atores. verificado em observações de campo. comunicação e distinção social. como decorrência do ajustamento ao habitus. assim. 100). que inclui a sua adoção. sendo 215 . Flora Dutra rock ou o funk. assim como está acontecendo no Brasil com o fenômeno de ascensão da clas- se popular a uma condição melhor no plano do consumo. Assim. hoje ela continua a ser importante para esta definição. o seu significado pes- soal. As práticas sociais atribuídas pelos jovens compartilham es- tilos de vida e identidades. social e cultural e a sua conversão em instrumento de com- posição de um estilo de vida. apresenta um conjunto de significados si- milares no grupo escolar e a ele é atribuído sentimentos de afeto. p. Se um dia a classe foi um aspecto crucial para a definição do nosso modo de vida tanto quanto o foi politicamente. da sua pers- pectiva de entender as práticas de uso do celular na vida cotidiana dos estudantes. Quanto maior o envolvimento com a cultura midiática. 2009. O telefone móvel. E.

e é aí que a transmidiação ocorre e/ou nas hipermediaciones. O celular passa a filtrar a realidade como ela é. criando uma espécie de aparência. há “uma ardilosa instrumentalização 216 . mas. um esboço da coisa em si. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular interpretado como uma ascensão para a classe média. ajuda os jovens a não encarar a carência de bens ma- teriais e culturais a que estão sujeitos. Desta forma. quando associado a um baixo capi- tal cultural. as relações sociais através do aparelho tornam-se fragmentadas e simbólicas. com a vantagem de esta marca seguir a tendência da desmaterialização que ocorre em todos os processos de consumo. Traz para a história recente das mediações bar- berianas a afirmação de uma nova área do conhecimento: a res- significação da tecnicidade. é possível transmitir uma imagem deslocada da difícil materialidade da vida circunscrita à classe e a outros pertencimentos objetivos. Outro aspecto importante do uso da tecnologia móvel e da Internet é a produção do Eu como uma marca que se populariza no mercado dos afetos. com base na antropologia urbana e comunicacional. além de ser própria da fase juvenil. Conceber a realidade social entre a união do celular e a in- timidade dos jovens desenha um novo caminho de estudo no campo das Ciências Sociais. Em termos menos abstratos. maior a revolta em relação ao que é visto como diferença nos modos de vida de diferentes segmentos na sociedade capitalista. se o capital econômico for muito baixo. Por outro lado. nos quais o objeto é menos importante do que a ideia que ele transmite. Para Martín-Barbero (2014). A concen- tração em processos de constituição do eu. essa revolta apenas se traduz em ressentimento e não em ação articulada e política. como define Scolari (2008). É no meio virtual que se pode mais facilmente ocultar todos os cons- trangimentos materiais vividos.

um olhar atento para os dispositivos móveis e as narrativas em programas de televisão e telenovela. como apontamentos deste estudo empírico rela- cionados ao celular. ou o altivo desprezo com que se identifica a mutação tecnocultural do mundo que habitamos com a mais fatal das decadências do Ocidente” (MARTÍN-BARBERO. que atravessam as relações da escola com a sua sociedade. Deixam-se. Flora Dutra das “novas tecnologias”. na área da comunicação e da juventude. para os estudos relacio- nados às mídias. para cobrir com ruído e brilho digital a profundidade da crise. que estes jovens são portadores de uma tecnologia sempre móvel e em constante transformação e também. 2014). 217 .

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Quantas vezes você já trocou de operadora? 5. Tem aplicativos próprios para o seu celular? Quais? 243 . Lê notícias pelo celular? Quais? 11. Quantas redes sociais você usa no celular? 9. Você acessa a internet pelo celular? 8. Flora Dutra APÊNDICE 01 – ESTUDO EXPLORATÓRIO I Programa de Pós-Graduação em Comunicação Universidade Federal de Santa Maria NOME: IDADE: LOCAL: DATA: 1. Assiste vídeo pelo celular? 12. Tem buscador no seu aparelho? 10. O que o celular representa para você? 7. Quantos aparelhos de celular você já teve? 3. Qual operadora de telefonia móvel você utiliza? ( ) VIVO ( ) OI ( ) TIM ( ) CLARO 4. Você fica angustiado sem celular? 6. Interage com programas de televisão pelo celular? 13. Qual o modelo do seu celular? 2.

Você faz check-in no celular dentro das redes sociais para localizar os outros usuários onde está? 21. Você precisa do celular para estar conectado com a socie- dade? 26. Já dormiu alguma vez com o celular na cama? 19. Por que o celular é importante na sua vida? 16. Você faz suas refeições à mesa com o celular? 18. Você usa o celular durante a aula? 22. você checa suas mensagens e e-mails pelo celular mais de uma vez por dia? 20. Já tirou fotos. Seus pais tem acesso ao seu aparelho de celular? 28. Com internet no celular. Quantas vezes utiliza o celular por dia? 15. 244 . você está conectado toda hora. Você deseja mudar de aparelho? Por quê? 23. Você ficaria sem celular? 17. Descreva o seu celular. Qual recurso gostaria de ter no seu aparelho que ainda não tem? 25. Você estabelece novas relações com o celular? Como? 27. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 14. Qual celular que você gostaria de ter? 24. produziu vídeos e depois ‘subiu’ pra inter- net através do celular? 29.

Escuta música no celular quando está no colégio? 245 . Leva o celular diariamente na escola? 2. Verifica mensagens durante a aula? 3. Flora Dutra APÊNDICE 02 – ESTUDO EXPLORATÓRIO II Programa de Pós-Graduação em Comunicação Universidade Federal de Santa Maria Dia: Endereço: Bairro: Telefone: Profissão: Nome: Idade: Série: Modelo de celular: Operadora que utiliza: Tem internet no celular? Qual? Quantos aparelhos você possui? ESCOLA 1. Já foi repreendido por usar celular em aula? 4. Considera o celular como um instrumento no aprendiza- do? 5.

O teu uso do celular gerou alguma vez algum tipo de atri- to dentro da escola? 16. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 6. O que mais gosta e o que menos gosta na escola? 13. Conhece alguma Lei que o proíba de usar o telefone em aula? O que pensa sobre isso? 10. Qual foi o acontecimento mais marcante que você viveu na escola? 15. Seus perfis são públicos ou privados? 23. Utiliza games no período de aula? 7. Tenta localizar. angústias ou sofrimentos pessoais na rede em busca de ajuda dos amigos? 246 . seus amigos? 22. Utiliza as redes sociais como diário? 24. Já filmou alguma aula? 17. Você acha que a escola deveria liberar o uso do celular? Por quê?7 12. Como os professores comentam o uso do celular pelos jovens? REDES SOCIAIS 19. Pesquisou alguma vez através do telefone conteúdo para algum trabalho escolar? 9. Como se sente quando não está conectado? 21. Já tirou alguma foto em sala de aula com o celular? 18. O que a escola representa para o futuro? 14. Conta medos. através de check-in. Quais as redes sociais que utiliza no celular? 20. Vê que são possíveis formas de estudo através do apare- lho? Como? 11. Você acha que o celular favorece ou atrapalha o aprendi- zado? 8.

Quais recursos têm disponíveis no celular? Qual utiliza mais? 247 . suas relações sociais são atra- vés do celular ou do contato pessoal? 27. De quem você aceita? Por quê? 31. Escuta música pelo celular? 43. Quantas vezes você mudou de operadora? 39. Plano do celular: ( ) pós-pago ( ) pré-pago 36. Na maior parte do tempo. Conhece pessoas somente pelas redes sociais e não pes- soalmente? É maioria ou minoria nas tuas redes sociais? CELULAR 29. Você acha relevante a publicidade da operadora na tele- visão? 41. Você já teve problemas com a operadora? Quais? 38. Recebe chamada a cobrar? 30. Quantos aparelhos de celular você já teve? 40. Seus pais costumam usar o mesmo celular? 34. Faz algum tipo de reclamação em busca de melhorias so- ciais. educacionais ou de relações humanas pelas redes? 26. Flora Dutra 25. O celular para as mulheres deveria ter um design diferen- te? Por quê? 32. Você recebe mensagens de anunciantes pelo celular? 42. O que representa a operadora que você utiliza? 37. Costuma ver clipes no celular. novelas ou outros progra- mas? 33. Como vê o ambiente off-line? 28. O que acha de dividir o celular com algum membro da família? 35.

Como você adquiriu seu aparelho? 46. Deseja mudar de aparelho? Qual gostaria de ter? 48. Estado Civil dos pais: 52. O toque do seu celular é personalizado? Por quê? 45. Já gravou vídeos ou tirou fotos íntimas com o celular? FAMÍLIA 50. Todos eles têm celulares? Quem tem? 56. Nome completo do pai e profissão: 53. Número de pessoas que residem em sua casa? 55. Foi você quem escolheu o modelo do seu celular? 47. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ( ) contatos ( ) calculadora ( ) bússola ( ) cronometro ( ) gravador ( ) vídeo ( ) maquina fotográfica ( ) SMS ( ) mensagem de voz 44. Assina revista ou jornal? Qual? 248 . O que eles falam sobre o seu uso do celular? 59. Número de irmãos: 51. Marque os equipamentos que você possui em casa: ( ) DVD ( ) Celular ( ) Tablet ( ) Notebook ( ) Netbook ( ) telefone fixo ( ) internet. Quais membros contribuem para a renda da família: 60. Você acha que a família tem tempo para transmitir ensi- namento aos filhos? 57. Nome completo da mãe e profissão: 54. qual: OI ( ) Tv por assinatura ( ) Tv aberta 61. Quanto custa seu celular? 49. Qual o maior ensinamento que a tua família te passa? 58.

Quem da sua família tem perfil em redes sociais? 71. É frequente caminhar com o celular na mão? 69. A família conhece e convive em suas redes sociais? 70. Existe algum grupo formado por meninos e meninas que são viciados em tecnologia? Quais? 65. falam sobre as redes sociais? 67. Compartilham conteúdos na hora em que conversam? 68. diariamente ( ) toda hora verificam o celular ( ) são urbanos ( ) vieram ‘de fora’ (do campo ou de cidades muito peque- nas) ( ) gostam mais de ficar do que namorar 249 . Nas conversas do seu grupo. Assinale características do grupo de jovens que você per- tence: ( ) todos tem smartphones ( ) tem atitude nas redes sociais ( ) conteúdo que mais publicam: músicas e jogos ( ) acreditam na solidariedade na rede online ( ) estudam muito. Você percebe que todos os membros de grupos diferentes usam celulares? 66. Você anota o número do celular de pessoas em festas e passeios? 73. É frequente adicionar pessoas que você ‘fica’ em suas re- des sociais? 72. Como você define as patricinhas e os mauricinhos? 74. Escolha uma ou mais palavras que definam o grupo com o qual você se identifica na escola: 63. O grupo da escola é o mesmo que você convive fora da escola? 64. Flora Dutra GRUPO SOCIAL 62.

O que há de melhor em celular de rico e o que há de pior em celular de pobre? 85. Você é capaz de saber usar qualquer aparelho de celular? 86. agen- da. Você acha que é possível todas as pessoas terem um ce- lular? 90. Já discutiu com algum membro da família pelo celular? REPRESENTAÇÕES E VALORES 79. Qual o perfil do jovem que não tem celular? 88. Descreva um dia na tua vida com o aparelho de celular. Para você ser feliz. Você vê que o celular é um ‘amigo’ ou uma parte de você? 82. Qual o perfil do jovem que não gosta de celular? 89. É possível você fazer um perfil da classe social pelo celu- lar que a outra pessoa tem? Por quê? 76. 91. Já terminou relacionamentos por discussões no telefone? 78. quais os itens tecnológicos são os mais necessários: ( ) televisão ( ) celular ( ) notebook ( ) computador ( ) videogame ( ) tablet ( ) notebook 80. O celular te ajuda a organizar a vida? (despertador. Já marcou encontros com outras pessoas pelo celular? 77. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular ( ) gostam mais de namorar do que ficar 75. Qual seu maior sonho? 250 . Quais são as principais diferenças entre celulares de ricos e pobres? 84. cronômetro) 87. Os jovens pobres no Brasil têm os mesmos celulares que os jovens ricos? 83. Você se sente sozinho quando não está com o celular? 81.

Antes de dormir verifica se há mensagens no aparelho? 106. Qual seu local de lazer preferido? 102. Já pegou redes abertas sem autorização do proprietário? 99. Já filmou alguma cena escondido? HABITUS 101. Por que você acha que o celular é fundamental na sua vida? 95. não são recomendadas o uso do celular? 93. Deixa seus amigos utilizarem seu celular? Em qual situa- ção? 110. Saber usar todos os recursos do aparelho representa ser inteligente? 96. Quando você acorda usa o celular para verificar mensa- gens? 105. É comum conversar com seus pais enquanto utiliza o 251 . Não saber usar todos os recursos do celular representa falta de conhecimento? 97. Quais são os lugares que você mais acessa o celular? 94. É comum você utilizar o celular na cama? 107. É comum você utilizar o celular no ônibus ou no carro? 109. Você utiliza o celular nas suas atividades de lazer? 103. Já fotografou algo inusitado pelo celular? O que? 100. É comum você utilizar o celular no banheiro? 108. É comum ir a lugares de redes wi-fi abertas para conectar seu celular? 98. Flora Dutra 92. Seu celular tem algum apelido? 111. Qual o sentimento que você tem pelo aparelho? 112. Você acessa o celular em diversas partes de casa? 104. Em que situações. fora da escola.

O que acha das crianças que usam celulares? 128. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular celular? 113. Quantas vezes acessa o computador por semana? 120. Se fosse possível calcular. Lê livros extraescolares? Cite alguns. Seria possível a vida sem estar conectado à internet? 125. quais? 123. Vai com frequência ao cinema? 122. Quais as atividades de maior uso no computador: ( ) Facebook ( ) Orkut ( ) Twitter ( ) MSN ( ) música ( ) leitura de jornais ( ) pesquisa escolar ( ) jogos ( ) sites de entretenimento. 119. A partir de que idade você ganhou o primeiro celular? 127. Tem o hábito de ler revistas? Quantas vezes por semana? 118. Tem algum sonho de consumo relacionado ao celular? 115. Escuta rádio? 121. O que é importante para você em relação ao celular? ( ) que ele seja diferente da maioria ( ) que ele seja o mais caro ( ) que ele siga a tendência da moda ( ) que ele tenha internet ( ) que ele tenha um tamanho adequado ( ) que a cor dele seja sua preferida ( ) que ele tenha todos os recursos que desejaria 129. quantas horas por dia acessa o telefone? 114. Quais aplicativos você utiliza? 252 . Gosta de novas tecnologias? Quais? 116. Há necessidade de se ter um celular para viver no mun- do? 126. Local de acesso à internet: ( ) celular ( ) trabalho ( ) escola ( ) casa ( ) casa de amigos ( ) 124. Tem o hábito de ler jornais? Quantas vezes por semana? 117.

Quando está sozinho se sente seguro com o aparelho de celular? 142. 133. Faz atividades físicas com o aparelho? 136. É frequente fazer refeições com o aparelho? Sim. Tem papel de parede personalizado no seu celular? Qual é a imagem? 134. O que você mais aprecia em um celular? 138. fala ou digita textos enquanto caminha? 253 . Se auto fotografa pelo aparelho? 135. Você escreve da mesma forma no celular como na esco- la? Como? 141. É possível o jovem que não possui celular se sentir ex- cluído? 140. Já perdeu a noção do tempo mexendo no celular? 137. Faz compras online pelo celular? 132. Você já pagou por um aplicativo? 131. Escreve. Flora Dutra 130. Você considera ter um celular um luxo ou uma necessi- dade? Por quê? 143. Fala publicamente ao telefone? 144. O que você mais detesta em um aparelho de telefone? 139.

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Descreve seu dia com o celular. Como você definiria seu estilo de vida através: (A) das coisas que gosta de fazer – (B) do seu celular – (C) dos seus amigos – (D) da sua escola – (E) da sua família – 255 . Consegue viver sem o celular? 2. seriado ou novela que se lembra de usarem o celular. 3. 4. Cena de filme. Flora Dutra APÊNDICE 03 – ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA Programa de Pós-Graduação em Comunicação Universidade Federal de Santa Maria DATA DA ENTREVISTA: DURAÇÃO: NOME: IDADE: SÉRIE: PROFISSÃO: MODELO DO CELULAR: POSSUI INTERNET: () SIM ( ) NÃO QUANTAS PESSOAS MORAM NA SUA CASA? RENDA APROXIMADA MENSAL FAMILIAR: TEM QUARTO INDIVIDUAL NA SUA CASA? ( ) SIM ( ) NÃO NAMORA? ( ) SIM ( ) NÃO USOS DO CELULAR 1.

celebridades você já co- mentou através do Twitter? 8. Quais são seus atores prediletos? Por quê? 13. Você acha que o Facebook/Twitter de um jovem rico é diferente do seu? 18. Quais os conteúdos. Você posta conteúdos que você assiste na televisão para interagir no facebook/twitter? 19. O que você mais faz: navega no seu perfil ou no perfil dos outros? 21. Quais são seus cantores/cantoras prediletos? Por quê? 12. Você se comunica com jovens ricos pelas redes sociais? 16. Você se comunica com jovens pobres pelas redes sociais? 17. celebridades você já co- mentou no Facebook através do celular? 7. programas. Você acha que é necessário escrever corretamente portu- guês no Facebook e Twitter? Por quê? 23. Por que você fala do seu cotidiano no Facebook? Por que você gosta de colocar suas fotos no Facebook? 6. programas. O que você acha que não deve ser divulgado nas redes sociais? 9. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular REDES SOCIAIS 5. Você acha que este costume de escrever abreviado inter- fere nos seus trabalhos escolares? 256 . Quais os conteúdos. O que você acha das mobilizações sociais pelas redes? CONVERGÊNCIA MIDIÁTICA 11. Quais os programas de televisão que você mais assiste e com quem? 14. Que imagem você gosta de passar no Facebook e Twit- ter? 20. O que mudou na sua vida a partir do celular? 15. Qual é o conteúdo principal dos torpedos que você en- via? Para quem você envia? 22. Já participou de alguma campanha em favor de alguma causa pelo Facebook? 10.

Por que no Brasil tem tantos pobres? 34. Qual a diferença entre o modo de vida de um jovem de escola pública e do jovem de escola privada? 26. A sua condição econômica pode mudar? De que forma? 41. Você estuda pouco ou bastante. por quê? 27. Você acha que é possível ter um bom emprego sem cur- sar a Universidade? Como? 25. Qual seu gasto mensal por mês com o celular? 38. Você já sofreu algum tipo de discriminação social? 37. Qual a importância de você votar nas eleições? 48. Qual sua maior dificuldade nos estudos? 30. O que você acha das pessoas trabalharem muito e ga- nharem pouco e das pessoas que trabalham pouco e ganham muito? 46. O que é considerado vulgar quando uma pessoa fala ao celular? 36. O que você pensa sobre o trabalho dos seus pais? 42. Qual a imagem de um jovem pobre? 45. Flora Dutra ESCOLA 24. Com o que você quer trabalhar no futuro? 43. O que você acha do governo no país? 40. O que você achou das manifestações que ocorreram so- bre o aumento da tarifa de ônibus? 39. O celular atrapalha no tempo que você dedica aos estu- dos? 29. Você frequentou ou frequenta cursos extracurriculares? Quais? 32. Descreva o modo de vida de uma pessoa pobre e o modo de vida de uma pessoa rica. Acha que tem chance de passar no vestibular? Qual car- reira quer cursar? 28. 35. O que você acha da política? 47. O que você pensa sobre os jovens no Brasil? 31. Qual a imagem de um jovem rico? 44. Tem interesse em línguas estrangeiras? CLASSE SOCIAL 33. O que você gostaria de mudar no Brasil? 257 .

O que sua família faz com o dinheiro do Bolsa Família? FAMÍLIA 51. 71. Qual seu tipo de comida preferida? 68. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 49. Como você se define? 66. Você convive menos com seus familiares por causa do celular? 52. Já experimentou algum tipo de bebida alcoólica? 63. Como você se sente quando não pode comprar o que de- seja? 53. Você acha que o Bolsa Família ajuda na renda da sua fa- mília? 50. Os seus pais cobram um bom desempenho na escola? Como? 57. O que seus pais lhe dizem sobre a importância de estu- dar? 56. Qual o objeto que mais deseja comprar? 54. Já experimentou algum tipo de droga? CONSUMO 64. No que você gasta mais dinheiro? Por quê? 72. Quais os maiores conflitos na sua família? 60. Qual seu sonho de consumo? 69. Os seus pais sabem utilizar o celular como você? 55. Qual seu sonho de vida? 70. Como vê seu futuro daqui a 10 anos? 59. O que você dá mais importância em sua vida? 67. Ajuda nos trabalhos domésticos? O que você faz? 61. Você lê bastante? Livros ou revistas? Quais? 65. Qual ensinamento mais importante transmitido pelos seus pais? 62. Descreva como é seu dia-a-dia. Qual curso gostaria de fazer que não tenha condições financeiras? 258 . Você tem horário para estudar? 58.

Para quais lugares já viajou? Onde gostaria de viajar? 80. O que falta para você ser mais feliz na vida? 77. Qual celular gostaria de ter? 75. O que você entende por cultura? 76. Qual peça do vestuário você dá mais importância? 79. O que pretende fazer para mudar de vida? 74. Flora Dutra 73. O que você faz nos finais de semana? 78. O que faz nas horas de lazer? Quais são seus tipos de lazer? 259 .

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Flora Dutra APÊNDICE 04 – QUESTIONÁRIO ONLINE 261 .

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 262 .

Flora Dutra 263 .

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 264 .

Flora Dutra 265 .

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular 266 .

A pesquisa é desenvolvida por Flora Dutra. Agradecemos desde já sua colaboração. do curso de Pós. posteriormente. 4) Esclarecemos. mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Flora Dutra APÊNDICE 05 – TERMO DE CONSENTIMENTO LI- VRE E INFORMADO Prezada participante da pesquisa “O uso do celular pelos jovens de classe popular como fator de distinção social e de comunica- ção”. Estamos realizando uma pesquisa cuja finalidade é com- preender como se dá o consumo de celular dentro da cultura ju- venil de classe popular. Ve- neza Veloso Mayora Ronsini. destruído. Dra. que as informações reunidas serão usadas somente para os fins desta pesquisa e dos trabalhos aca- dêmicos que dela se desdobrarão. em profundidade e gra- vadas para fins de pesquisa. ainda. Este material será. As fotos públicas do perfil do face- book terão a face completamente desfocada a fim de preservar a identidade do entrevistado.graduação em Comunicação da UFSM (telefone para contato: (55) 84467911). Esclarecemos que esta pesquisa é realizada a partir dos se- guintes procedimentos metodológicos: 1) Entrevistas com jovens entre 15 e 18 anos. As informações prestadas através de sua participação voluntária nesta pesquisa fornecerão subsídios para a elaboração da dissertação de Flora Ardenghi Dutra. 2) As entrevistas serão individuais. 267 . 3) Ressaltamos que está assegurada às participantes desistir da pesquisa a qualquer momento. os entrevistados terão sua identidade preservado por razões éticas e seus nomes serão fictícios. sob orientação da Prof.

Todas as minhas dúvi- das foram respondidas e eu estou ciente de que poderei pedir por esclarecimentos a qualquer momento. ___/___/______. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Santa Maria. Eu _____________________________________________ decla- ro que fui informada dos objetivos. _______________________ _____________ Assinatura da participante da pesquisa __________________ __________________ Assinatura da acadêmica pesquisadora __________________ __________________ 268 . justificativas e procedimentos desta pesquisa de forma clara e detalhada.

Todas as minhas dúvidas foram respondidas e eu estou ciente de que poderei pedir por esclarecimentos a qualquer momento. As informações prestadas através da participação voluntária do seu filho nesta pesquisa fornecerão subsídios para a elaboração da dissertação de Flora Ardenghi Dutra. os entrevistados terão sua identidade preservado por razões éticas e seus nomes serão fictícios no trabalho final. Este material será. ainda. 3) Esclarecemos. em profundidade e gra- vadas para fins de pesquisa. destruído. do curso de Pós. que as informações reunidas serão usadas somente para os fins desta pesquisa e dos trabalhos aca- dêmicos que dela se desdobrarão. justificativas e procedi- mentos desta pesquisa de forma clara e detalhada e da partici- pação do meu filho _________________________________. Eu _____________________________________________ de- claro que fui informada dos objetivos. Flora Dutra APÊNCIDCE 06 – AUTORIZAÇÃO DOS PAIS PARA ENTREVISTA Estamos realizando uma pesquisa cuja finalidade é compreen- der como se dá o consumo de celular dentro da cultura juvenil de classe popular. A pesquisa é desenvolvida por Flora Dutra. posteriormente. Agradecemos desde já sua colaboração. mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Esclarecemos que esta pesquisa é realizada a partir dos se- guintes procedimentos metodológicos: 1) Entrevistas com jovens entre 15 e 18 anos. 2) As entrevistas serão individuais.graduação em Comunicação da UFSM (telefone para contato: (55) 84467911). _______ _____________________________ 269 .

Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular Assinatura do responsável _____________________________ _______ Assinatura da acadêmica pesquisadora __________________ __________________ 270 .

Nas conversas do morro sobre o celular os moradores declararam a importância do celular no cotidiano. como as banquinhas de celulares e galerias de arte. acessórios e concertos para o aparelho são presentes nos mercado informal no Morro do Vidigal. Embora as favelas sejam invisíveis para as agências de publi- 66 Mestranda da Universidade Federal de Santa Maria – RS. Recepção e Consumo Cultural. visitei casas e negócios in- formais. venha a integrar a videoteca e banco de imagens do Laboratório de Ensino. Membros da Comissão de Imagem da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) so- licitaram sobre a possibilidade de obter minha autorização para que o trabalho. da cabeleireira. o celular desponta como ferramenta de trabalho. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). As banquinhas de celulares. Membro do Grupo de Pesquisa: Mídia. As fotografias foram registradas entre os dias 24 e 26 de julho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro no Morro do Vidigal. 271 . Nos três dias de registro. conversei com moradores. E-mail: floradutra@ hotmail. Pesquisa e Produção em Antropologia da Imagem e do Som (LEPPAIS) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Desde a banquinha de água de coco.com. do mototaxista até o organizador da ga- leria de arte. Flora Dutra ANEXOS 01 Celular: o espectral no Morro do Vidigal Flora Dutra66 A exposição apresenta 12 fotografias em Preto & Branco. enviado para o 37º Encontro Anual da ANPOCS (CELULAR - O espectral no morro do Vidigal).

o consumo existe e muito. 65% da classe média vive em comunidades como o Morro do Vidigal. já não existem diferenças entre jovens ricos e pobres quando se trata de internet. Para Meirelles (2013). aproximadamente 38% dos internautas brasileiros recebem até um salário mínimo. Conforme o Data Popular. totalizando 12 milhões de habitantes em todo o Brasil. no Rio de Janeiro. Vê-se um avanço na conectividade. Uso e apropriação do celular por jovens de classe popular cidade. 272 .

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propagandas e notas sobre a mu- dança da telefonia fixa para a telefonia móvel no Brasil desde 1990 a partir da Revista Veja. Flora Dutra ANEXOS 02 Apresenta-se reportagens. 279 .

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Flora Dutra ANEXO 03 Propagandas referentes ao celular a partir dos anos 2000 de um acervo particular da revista Superinteressante e algumas pu- blicidades selecionadas para esta pesquisa. 289 .

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Este livro foi composto em ITC Slimbach pela Editora Multifoco e impresso em papel offset 75 g/m². .

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