500 500

Psicologia em
Ação no SUS:
a Interdisciplinaridade
Posta à Prova
Psychology In Action At Sus:
Interdisciplinarity Tested

Psicología En Acción En El Sus:
La Interdisciplinaridad Puesta A Prueba

Leandra Lúcia Moraes
Couto, Polyana Barbosa
Schimith & Maristela
Dalbello-Araujo

Universidade
Federal do Espírito Santo
Experiência

PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2013, 33 (2), 500-511

Leandra Lúcia Moraes Couto. en una UBS de la ciudad de Vitória (ES). This article aims to analyze the unfolding of an intervention developed in the course of a training program carried out under the project entitled “Psychology and collective health: promoting health in the community” conducted at a BHU in Vitória. contribuir para a precedido de uma disciplina obrigatória construção do conhecimento em Psicologia com carga horária de 60 horas que aborda no sentido de uma ressignificação dos os aspectos históricos e políticos do sistema conceitos de saúde física e mental. During the intervention. Interdisciplinaridade. O curso de graduação em Psicologia da virtualidades e deficiências do Sistema Único Universidade Federal do Espírito Santo de Saúde (SUS). it was possible to observe the importance of interdisciplinary work to reach the proposed objectives. diabéticas e/ou hipertensas. típicamente curativo y hospitalocentrista. Resumen: Para reorientación de la Atención Básica. construir de saúde brasileiro e discute as principais junto à comunidade atendida um espaço que Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . Health promotion. diabéticas y/o hipertensas. diabetic and hypertensive patients. The FHP is operationalized by multiprofessional teams in Basic Health Units (BHU). Utilizamos mecanismos que possibilitaram trocas de experiências. After inserting ourselves into the BHU routine and context for a certain time. O (Dalbello-Araujo. Mechanisms which promote the exchange of experiences such as thematic workshops and tours were created. Interdisciplinaridad. ES. Keywords: Psychology. Palavras-chave: Psicologia. como talleres temáticos y paseos. Interdisciplinarity. e constatamos que a Psicologia pode contribuir de forma efetiva para a promoção da saúde no contexto da ESF. mais de 80 diversas áreas de atuação do psicólogo. foi possível perceber a importância do trabalho interdisciplinar para que os objetivos propostos fossem alcançados. com o objetivo de substituir o modelo tradicional de atenção à saúde. como oficinas temáticas e passeios. En el transcurso de la intervención. 500-511 Resumo: Para reorientação da Atenção Básica. Sistema Único de Saúde. 2000). por meio dele. Abstract: With the purpose of reorganizing health attention practices on a new basis and of replacing the traditional health model. e. Palabras clave: Psicología. que é operacionalizada por meio de equipes multiprofissionais em Unidades Básicas de Saúde (UBS). Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. o Ministério da Saúde (MS) adotou a Estratégia de Saúde da Família (ESF). and concluded that Psychology can effectively contribute for the promotion of health in the context of FHP. el Ministerio de la Salud (MS) adoptó la Estrategia de la Salud de la Familia (ESF). O estágio tem projeto objetiva instrumentalizar os alunos duração de 225 horas distribuídas entre do curso de Psicologia para a atuação no o nono e o décimo período de formação. en 1998. Após um período de inserção na rotina e no contexto da unidade. whose focus was typically on healing and on hospital-centered practices. fue posible notar la importancia del trabajo interdisciplinario para que los objetivos propuestos fuesen alcanzados. tipicamente curativo e hospitalocêntrico. campo da saúde pública. con el objetivo de sustituir el modelo tradicional de atención a la salud. Brazilian National Health System. Este artigo analisa os desdobramentos da intervenção ocorrida durante o desenvolvimento do projeto de estágio Psicologia e Saúde Coletiva: Promovendo a Saúde na Comunidade. we developed a proposal for an interdisciplinary program designed for a group of obese. Promoção da saúde. entre alunos participaram do cotidiano de trabalho eles o projeto Psicologia e Saúde Coletiva: das Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Promovendo a Saúde na Comunidade Rede Municipal de Atenção Básica. Verificamos muitas conquistas e algumas dificuldades. O projeto se desenvolve (UFES) oferece estágios supervisionados em desde 2000. que es operacionalizada por medio de equipos multiprofesionales en Unidades Básicas de Salud (UBS). Después de un período de inserción en la rutina y en el contexto de la unidad. em uma UBS da cidade de Vitória (ES). Utilizamos mecanismos que posibilitaron intercambios de experiencias. 33 (2). Sistema Único de Salud. y constatamos que la Psicología puede contribuir de forma efectiva para la promoción de la salud en el contexto de la ESF. elaboramos uma proposta de trabalho interdisciplinar dirigida ao grupo de pacientes composto por pessoas obesas. Promoción de la salud. em 1998. 501 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Este artículo analiza los despliegues de la intervención ocurrida durante el desarrollo del proyecto de práctica Psicología y Salud Colectiva: Promocionando la Salud en la Comunidad. Verificamos muchas conquistas y algunas dificultades. elaboramos una propuesta de trabajo interdisciplinaria dirigida al grupo de pacientes compuesto por personas obesas. the Family Health Program (FHP) was created by the Brazilian Health Ministry in 1988. We had improvements and certain difficulties. No decorrer da intervenção.

o que facilita grupal que ocorreu no referido estágio. a (Brasil. 2007). habilitadas transforma o cotidiano dos profissionais. Caso não façam o que está prescrito. o Governo Federal adotou a Estratégia o Programa de Saúde da Família propõe uma de Saúde da Família (ESF). 2006a). na maneira de ações no âmbito individual e coletivo. essas da integralidade. cuidado. Os autores discutem. que saúde. Essas ações devem linha. da assistência. conforme afirmam Araújo e Rocha. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. Esse posicionamento pode acarretar Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . não de equipes multiprofissionais. que. 502 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. 1997). na principal porta de entrada do SUS. 2006a). centrado depende da mudança na forma de 2006b). A social (Brasil. Na mesma a promoção da saúde. a experiência de intervenção psicológica em um território determinado. a recuperação e usuários (Araújo & Rocha. as equipes são multiprofissionais da acessibilidade e da coordenação do e estão próximas à comunidade. a ABS caracteriza-se por um conjunto se produzir o cuidado e. 500-511 possibilite a promoção da saúde e incentivar às equipes (Brasil. e orienta-se pelos princípios da universalidade. e educadores físicos. 33 (2). enfermeiro. é o que define o perfil proteção e recuperação (Brasil. De acordo com a modificação do modelo assistencial médico- Política Nacional de Atenção Básica (Brasil. e não no indivíduo. No entanto. o qual fica inviável manter os serviços de outros profissionais podem ser incorporados saúde. Um dos objetivos dessa reorganização é substituir o modelo tradicional de atenção Como afirmam Franco e Merhy (2003). Espírito Santo. o território grau de normas regulamentadas verticalmente deve ser dividido possibilitando a sua pelo Ministério da Saúde. sem comunitários de saúde (ACS). também. por exemplo. cujo enfoque das mudança focada na estrutura e não opera práticas está na família. cobertura pelas equipes. ainda. da equidade e da participação um atendimento integral dos indivíduos. multiprofissionais não garante que haverá a mudança do modelo de saúde hegemônico Para reorientação dessa forma de atenção à atualmente. como. Além desses. como os profissionais agem entre si e com os que abrangem a proteção. sendo que. que contam com aos Municípios. em uma das Unidades e favorece a abordagem dos indivíduos de Saúde da Família circunscritas à região de de forma integral. assistentes sociais. Franco e Merhy (2003) destacam que ampliar o seu escopo. tipicamente curativo gestão da ESF funciona a partir de um alto e hospitalocêntrico. da características favorecem. e de saberes de profissionais de áreas distintas proporciona maior impacto sobre os A Estratégia de Saúde da Família diferentes fatores que interferem no processo de adoecimento da população (Araújo & A Atenção Básica à Saúde (ABS) consiste Rocha. As equipes devem acompanhar um número definido de famílias O presente artigo visa a descrever e a analisar (no máximo 4500 pessoas ou 1000 famílias). normas. visando os espaços mesmo o trabalho direcionado a práticas além dos limites físicos das UBS. farmacêuticos abordagens coletivas. 1997. mas não garantem humanização. cabe apenas seguir essas um médico da família ou generalista. da responsabilização. para desenvolver as atividades de promoção. a aproximação entre usuários e profissionais durante o ano 2010. Para tanto. do vínculo e da continuidade. pois a união de práticas Maruípe. 2007). por conseguinte. os profissionais da saúde para atuarem em psicólogos. da cidade de Vitória. em última instância. 1997). Dessa forma. de modo a alcançar os microprocessos do Tal estratégia é operacionalizada por meio trabalho em saúde. Leandra Lúcia Moraes Couto. auxiliar de enfermagem e agentes deixam de receber financiamento.

e. ainda. uma políticas públicas do que com uma estratégia vez que se caracteriza por uma integração que se propõe à reorganização do modelo entre as disciplinas. para efetivação do trabalho em concretizado. em que instrumentos. em termos integral da clientela (Araújo & Rocha. Com relação à atuação desse Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . Para dar conta da complexidade desse A atuação do psicólogo na ESF processo. o psicólogo. 2007). por intercâmbio de vivências e de informações outro lado. métodos e equipe de ESF assim como para a identificação de um esquemas objeto comum a vários profissionais. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. 2000). da Família é frequentemente permeado pela há uma dificuldade em se efetivar o trabalho fragmentação do conhecimento humano. um mesmo objeto é investigado por diversas disciplinas. Embora conceituais podem vir a Partindo do que foi exposto. 33 (2). é necessário há uma construção de conhecimento com maior investimento na formação contínua o mais profundo entrelaçamentos das dos profissionais que compõem as equipes. nesta para que isso seja concretizado. quantitativos e qualitativos. entre os integrantes das equipes. no qual os profissionais trabalhem de forma complementar. Trabalho interdisciplinar em resolutividade dos problemas enfrentados. Na multidisciplinaridade. entre a comunicação e a interação entre os os diferentes problemas que surgem com profissionais. globalizada do processo saúde-doença. o mais grave é são importantes ferramentas para a atenção a carência de profissionais. sem que isso implique a construção Diante disso. consideramos o trabalho interdisciplinar seja difícil de ser ser integrados” que. interdisciplinar em função da formação dos para superar essa situação. Segundo Campos e Belisário (2001). é importante que se realize o derrubadas as demarcações que as separam. a interdisciplinaridade não deve “uma troca 2006a). que esta última é uma da capacitação dos profissionais. mas que deve ser perseguida. e entre estes e a comunidade. ele tem grande importância. De acordo com Domingues (2003). (Artmann. ser entendida como uma panaceia. em dos profissionais que compõem a equipe que instrumentos. mas como profunda entre uma possibilidade de contribuição para maior disciplinas. transpõe os limites das disciplinas. Dessa maneira. Em outras palavras. o que seria mais A interdisciplinaridade difere da multidisci- condizente com o tradicional centralismo das plinaridade e da transdiciplinaridade. 2001). ressaltamos que o trabalho em de métodos e de conceitos comuns a elas equipe pode favorecer a comunicação e o (Santos. 2007). seria necessária profissionais. 2001). a implantação do PSF. outros profissionais podem conceituais podem vir a ser integrados” ser incorporados às unidades. para atender a Entretanto. o trabalho das equipes de Saúde essa nova necessidade. pois nenhuma disciplina isoladamente explica Saúde da Família. assistencial. No entanto. 503 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Leandra Lúcia Moraes Couto. é necessário que se a totalidade do ser humano e suas relações construa um projeto comum de assistência sociais (Santos. (Artmann. Diante disso. fazendo com que sejam ou seja. A transdisciplinaridade. que tem como característica Conforme mencionado anteriormente. disciplinas envolvidas. que rege a Política Nacional de Atenção Básica (Brasil. métodos e esquemas mínima da ESF. é preciso trabalhar de forma interdisciplinar. que ainda é atravessada pela a busca por uma atuação baseada na visão cultura de especialismos. dentre eles. 500-511 um engessamento à ESF. conforme utopia. acompanhamento constante da formação e O autor afirma. além “uma troca profunda entre disciplinas. prevê a Portaria n° 648/2006.

sem dúvida. Assim. o que pode contribuir busca por afirmação de novas práticas no para um trabalho interdisciplinar (França & campo da saúde. em consequência. Soares chama a atenção para as visitas domiciliares e orientação das equipes dificuldades existentes para a inserção do quanto para questões técnicas. ao mesmo tempo de uma região da cidade de Vitória/ES a em que se produz o cuidado ou mesmo a respeito da promoção da saúde estão ligadas educação em saúde. trabalho da Psicologia nesse contexto. entre elas. também. avaliação da demanda. 33 (2). positivos esperados. para se alcançar os resultados estudos (Bittencourt & Mateus. ainda.086 pessoas incluindo a conscientização em relação à (Bastos. 504 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. & Azoury. à prevenção de de intervenção conjunta em que cada doenças por meio de mudança de hábitos e profissional mostra sua forma peculiar de agir. “seja qual for a perspectiva vulnerabilidade social. 598). Nessas atividades. 2006). 2005. Leandra Lúcia Moraes Couto. os a segunda maior do Município de Vitória. há que se ter disposição. estabelecem-se formas à educação em saúde. Fraga. concepções sobre o processo saúde-doença que a atuação dos psicólogos revelou uma vão sendo tecidos. de ESF. Esses trabalhos demonstram que a atuação Apesar do reconhecimento da importância desse profissional pode estar voltada tanto da participação do psicólogo no contexto para atividades com grupos específicos. a prática. as concepções dos profissionais psicólogos quase sempre coletivas. Zavaris. p. A autora ressalta que. na Comunidade é importante que os órgãos formadores A USF na qual foi desenvolvido o estágio é repensem o profissional que estão formando. 500-511 profissional junto às equipes multidisciplinares. tendo a atividade como mediadora. No período em que foi teórico-metodológica adotada que sustente realizada a intervenção. aquelas ligadas Viana. divididas em trinta microáreas. Fejoli. currículos em vigor nos cursos de Psicologia. no contexto de ESF se faz muito importante. 2005) têm demonstrado que profissionais das vivacidade e adotar sem medo um novo equipes avaliam que o papel do psicólogo olhar” (Soares. estudos de A autora afirma que há falta de clareza em caso e incentivo para facilitar a comunicação relação à função ou mesmo à importância do entre a comunidade e a equipe de saúde. é necessário que haja esclarecimento do papel O trabalho do psicólogo nos serviços de do psicólogo tanto para a população quanto Atenção Primária à Saúde também deve para as equipes. Quintanilha e saúde é. 2006. realidade. Há urgência em se repensar. As autoras afirmam. atuar de forma conjunta Dalbello-Araujo (2010) demonstraram que com outros profissionais. às que envolvem a promoção da saúde. seis microáreas não Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . visando à melhoria da qualidade pode oferecer para ampliar a promoção da de vida da população. abrange uma população de 15. às propostas do SUS e. De acordo com Soares. atendimento psicólogo nas equipes multidisciplinares. Relato de experiência no estágio Psicologia e Saúde As referidas concepções muitas vezes são Coletiva: Promovendo a Saúde decorrentes do processo de formação durante a graduação. e a mudança dos paradigmas 2010) e conta com o trabalho de seis equipes que os têm norteado. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. das quais oito a partir das possibilidades de atuação do são consideradas de alto risco devido à grande psicólogo na ESF. individual. Santos. Uma das formas de propiciar estar voltado para atividades de promoção o conhecimento daquilo que a Psicologia da saúde. Soares. os de qualidade de vida a partir de grupos e de diferentes modos de pensar e as diferentes trocas de ideias. de comportamentos individuais e à promoção Assim.

e a idade variava entre 34 e 76 Centro de Referência de Assistência Social anos. Com essa conhece por meio dos documentos e aquele finalidade. A seguir. Leandra Lúcia Moraes Couto. Em muitos para contribuir com as ações educativas momentos.9% eram comunitária. ação neste. Dentre os participantes. grupo composto por significativamente maior do que a presença obesos. priorizamos exclusivamente as questões biológicas. período no qual eram desenvolvidas atividades como palestras. isto é. aferição da pressão estenderam por nove meses. que se deu a intervenção no referido grupo. uma alguns percalços quanto à comunicação Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . diabéticos e/ou hipertensos. para se apresentava quando o prescrito não promover espaços de fala e de acolhimento atendia às reais necessidades demandadas. serviço. 505 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. tais como reuniões das equipes. o número de cadastrados no grupo era grupo de adolescentes. porém encontramos frente do grupo uma educadora física. optamos por trabalho propriamente dito se deu em utilizar oficinas temáticas como instrumento um grupo do qual participaram pessoas de intervenção. no auditório semestre. Tal prejudicava a atuação das equipes como grupo já era realizado há aproximadamente um todo. visita domiciliar. acompanhamento As atividades relativas ao estágio se do peso dos participantes. nossa intervenção foi realizada em um pelo serviço. 92. Além disso. de intervenção que alcançasse um objetivo comum: trazer mais qualidade de vida para A inserção para o desenvolvimento do a população atendida. foram desenvolvidas atividades da Unidade de Saúde. e a participação de acompanhamento do cotidiano do contínua dos usuários não era exigida. 33 (2). (CRAS) e atendimento psicológico. vamos relatar como elaborada a proposta de intervenção. Para isso. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. diabéticas e/ou elaborada conjuntamente pelos profissionais hipertensas. principalmente. visava a responder à necessidade apresentada Assim. Essa por profissionais de duas áreas diferentes: participação teve como objetivo promover Educação Física e Medicina. o trabalho com os possibilitou conhecer os seus contextos profissionais de áreas diferentes apresentou- social. a participação da grupo programático tradicional coordenado Psicologia em atividades coletivas. Cada oficina deveria ser com sobrepeso. possibilidades de atuação de um psicólogo dentro da UBS por meio do trabalho Esse período foi importante para que fosse interdisciplinar. A demanda da intervenção psicológica Nesse sentido. nossas práticas se direcionaram que se experimenta no cotidiano. para que que trouxesse uma compreensão mais ampla assim pudéssemos construir um método do processo saúde-doença. Os encontros dezembro de 2010. reunião no mulheres. o primeiro momento de no grupo configurou-se no sentido da inserção na USF permitiu a vivência da importância em acrescentar conhecimentos unidade em questão e a observação das capazes de trabalhar os aspectos subjetivos nuances existentes entre o SUS que se emergentes naquele contexto. obesas. daquilo que os participantes traziam como Além disso. No decorrer do primeiro aconteciam semanalmente. Naquele momento. foi possível notar o conflito que já desenvolvidas e. o contato com a comunidade problemática. dois anos. Assim. Buscando uma intervenção no grupo que não enfocasse um trabalho interdisciplinar. estavam à envolvidos no grupo. entre março e arterial e do índice glicêmico. 500-511 contavam com a presença de ACS. mas o diálogo entre essas disciplinas. o que médica e uma auxiliar de enfermagem. cultural e econômico e elaborar uma se como uma forma de tornar mais claras as intervenção condizente com este.

Buscamos. averiguamos a necessidade de porta-retratos. o correto. refletimos a respeito dos sentimentos que apareceram Na oficina Fotografia. figuras de relógios. que é composto 11 encontros. em seguida. solicitamos aos experiência. realizamos atividades durante a preparação dos pratos. e. Realizamos. marcando em humano. na decorrência do passar do tempo. Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . que os participantes das diversas áreas do espaço vital do refletissem acerca de como e com quem o participante e também acerca das atitudes seu tempo era passado. como oficinas Dessa maneira. Em um bem como as conquistas e os desafios que primeiro momento. assim. realizamos a oficina problemática. um café da manhã e discussão sobre o impacto da dieta na vida uma caminhada da unidade até um parque de cada um deles. Após qual os participantes confeccionaram os seus essa oficina. com o objetivo de propiciar uma suas horas as tarefas que realizavam no dia conscientização de como estava o equilíbrio a dia. com duração de compreensão dos participantes do ato aproximadamente uma hora. como maquiar e tirar fotos dos participantes. no auditório da de alimentar-se. que montassem proposta a fim de adequá-la ao que surgiu um prato com aquilo que acreditassem ser no processo. trocas de experiências. no A partir do que o grupo trouxe como encontro seguinte. foi realizado um exercício encontramos nesse percurso. foram levadas em consideração. Para isso. trabalhar o uso que os participantes faziam do tempo em seu cotidiano. corporal que propiciasse o relaxamento dos participantes. e finalizamos com uma discussão sobre essa Na oficina Como me vejo. Leandra Lúcia Moraes Couto. setembro e outubro. e pedimos que em forma de coração e em forma de corpo desenhassem um relógio. Sugerimos. Tais atividades foram como figuras de alimentos e figuras de desenvolvidas com a participação de outros bebidas. trabalhamos a oficina Porta-retrato. além de promover uma USF. então. solicitamos que Intervenção refletissem a respeito das emoções e do corpo e. 500-511 dentro da equipe. Durante a intervenção. depois. as características agosto. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. sentimentos que emergiam a respeito das selecionamos algumas fotos. Disponibilizamos busca de equilíbrio nas relações e na vida. em que utilizamos como dispositivo figuras canetinha e giz de cera. 506 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. assim. ainda. descreveremos que poderiam ser tomadas na busca por detalhadamente como se deu a intervenção mudanças possíveis e necessárias. por meio mudanças físicas que haviam surgido em delas. e. elaboramos a oficina Em Relógio do cotidiano. durante os meses de junho e julho e realizamos a intervenção nos meses de Durante a nossa intervenção. papel. Em seguida. que atribuíssem notas (de zero a Observamos o funcionamento do grupo dez) a essas duas áreas. As oficinas foram foi conduzida no sentido de estimular a realizadas semanalmente. Solicitamos aos participantes que profissionais que estavam à frente do grupo. 33 (2). Nosso corporal que os participantes tinham objetivo era o de oportunizar o relato dos deles mesmos. montassem um prato com os alimentos que Ao longo do trabalho. totalizando específicas do grupo. Para o encontro seguinte. lápis de cor. a oficina Dieta pela vida temáticas e passeios. favorecer participantes que se olhassem em um espelho um espaço de reflexão acerca da imagem e observassem a sua própria imagem. usamos materiais municipal de Vitória. Ao final da atividade. basicamente por pessoas com restrições utilizamos mecanismos que possibilitaram alimentares. foi preciso reavaliar a desejassem e. A seguir.

e várias foram avaliar as atividades se colocou como um dos as oportunidades em que o grupo acolheu entraves. Tal conduta corrobora os estudos costumeiro foco na doença e puderam de Bittencourt e Mateus (2006) e de Soares agregar outros aspectos da vida dos usuários. Uma das participantes declarou a partir do que o grupo apresentou como que não foram realizadas apenas palestras. Como exemplo disso. presença do psicólogo na ESF. ausência de um espaço para discutir os seus Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . procuramos ficar mas também atividades que promoviam uma atentas ao desenvolvimento que o grupo melhora na autoestima. e. que revelam a importância dada como preconizado pela Política Nacional de pelos profissionais da Atenção Básica à Promoção de Saúde (Brasil. 2006b). interpessoais e em que oportunizaram um processo de sociais. aparência e a valorizar mais a sua presença as oficinas que realizamos foram elaboradas no grupo. e concluíram ao grupo tenha sido verbalizado apenas por que dedicavam muito tempo ao trabalho um profissional. as atividades realizadas participação da Psicologia em atividades na Unidade de Saúde extrapolaram o coletivas. no decorrer da intervenção. A intervenção no grupo. demanda. o no qual os envolvidos na coordenação do próprio grupo pôde problematizar aspectos grupo pudessem encontrar-se para planejar e de sua vida e sugerir soluções. também surgiram obstáculos. 2006). Além disso. assim. verificamos que estar de acordo com a experiência dos algumas pessoas passaram a cuidar melhor da participantes (Afonso. interpessoais e sociais mesmo (Afonso. na oficina dava à atividade. no decorrer possibilidade para atender à demanda que foi dos encontros. e possibilitaram o conhecimento sobre si mesmo (Afonso. 500-511 A nossa opção por utilizar as oficinas como As atividades realizadas propiciaram uma estratégia metodológica se justifica por reflexão acerca dos modos de vida. o que propiciou a emergência de conteúdos significativos para repensar sua condição Conquistas e dificuldades no mundo. foi entendida como uma Além das conquistas descritas. Assim. as oficinas facilitaram a elaboração de do conhecimento sobre o mundo e sobre si questões subjetivas. as vivências. o pelas atividades. Dessa maneira. colocada. que as instrumentos que facilitam a elaboração atividades atingiram o seu objetivo no sentido de questões subjetivas. os participantes refletiram sobre Ainda que o convite para nossa atuação junto o uso que faziam do tempo. Relógio do cotidiano. 33 (2). assim como a sentimento de grupalidade entre eles. verificamos. 507 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Dessa acreditarmos que elas tenham potências maneira. em várias outras ocasiões. foi levantado como questão. 2006). por meio de relatos e terapêuticas e pedagógicas. assim como eliciam um processo de reflexão sobre amplos aspectos para além das aprendizagem que parte de reflexões sobre doenças que os trouxeram ali inicialmente. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. É importante ressaltar que a oficina deve 2006). ainda. Constatamos que. Essa incompatibilidade de horário os sentimentos vivenciados pelos demais acarretou a falta de planejamento conjunto participantes. Leandra Lúcia Moraes Couto. constatamos que alguns no que estava previsto em detrimento do que usuários não conseguiam olhar-se no espelho. facilitam. pois são de comportamentos dos participantes. dos participantes do grupo. foi O maior deles diz respeito à dificuldade possível verificar os benefícios proporcionados para efetivar um trabalho interdisciplinar. Em outra oficina. o que denota a construção do das atividades realizadas. (2005). e à família em detrimento do cuidado com os demais afirmaram a importância da eles mesmos. a partir estabelecimento de um horário em comum dos conteúdos evocados nos encontros. portanto. não ficamos presas Como me vejo. uma elaboração Assim. Além disso.

algumas vezes. que a falta de 2001). que esse comunicação entre os profissionais atuantes trabalho realizado por disciplinas diferentes no grupo. Considerações finais em alguns momentos. por exemplo. também. Além disso. que dificulta a de saúde. Esse impasse revela a rigidez da como se sentiam diante da necessidade de estrutura de trabalho da ESF. Compreendemos que reflexão e a troca de informações sobre a essa dificuldade pode ser reflexo da formação população atendida. já apontada fazer uma dieta. impedem a coletivas. Diante comunicação e de planejamento conjunto. pelo saber médico. pois este favorece a para que os participantes falassem sobre abordagem de forma integral da clientela Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . podemos afirmar que. essa sobreposição Cardoso (2002). na incompreensão em relação à função ou formação dos profissionais. pois. em virtude de seus problemas por Franco e Merhy (2003). como à saúde da população. No entanto. pois. ou seja. o material que havia sido por nós confeccionado. pretendido. ainda muito marcada pela cultura de especialismos (Campos & Belisário. foi utilizado por outros profissionais de forma estritamente A experiência que acabamos de relatar mostra educativa. 508 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Constatamos. dos participantes. junto aos outros profissionais da equipe inviabilizando o diálogo e a comunicação de forma a integrar esforços. a estimular a entre os profissionais. em parte. uma vez atividades no grupo tenham transcorrido de que os participantes não se alimentavam da maneira bastante satisfatória. como de contribuição da Psicologia para atividades apontam Franco e Merhy (2003). o que. assim como de seus instrumentos existência de espaços para que os profissionais e objetivos. Ao contrário. acarretou saiam do que está previsto. inclusive. ainda há um aprisionamento ao que está prescrito. de inovarem e de adequarem a sua prática teve como objetivo promover uma ampla à realidade da vida da comunidade onde discussão sobre os reflexos da dieta na vida trabalham. forma. disso. ainda. ao modo como Outro entrave encontrado diz respeito ao a ESF é estruturada. 500-511 resultados. A autora ressalta. a comunicação se sobrepor às demais. nosso instrumento não a importância de um trabalho interdisciplinar proporcionou o espaço que pretendíamos no contexto da ESF. devido à falta de comunicação entre os profissionais. de acordo com o que afirmam pode acarretar a tentativa de uma disciplina Araújo e Rocha (2007). os psicólogos devem atuar de saberes acarreta prejuízos. dos profissionais. p. 33 (2). fatos também se devem às dificuldades de 52). Leandra Lúcia Moraes Couto. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. Acreditamos que. Entendemos que tais sobre a forma de disciplinas” (2007. segundo o que propúnhamos. efetivarmos o trabalho interdisciplinar correta. e a interação entre os profissionais são em trabalhos realizados conjuntamente importantes para a prática de atenção integral por profissionais de áreas diversas. não foi possível maneira considerada. A alta centralização e a desconhecimento acerca das possibilidades verticalização da gestão dessa estratégia. ainda que as ele foi usado de forma repreensiva. conforme mesmo à importância do trabalho da Psicologia afirma Santos. Dito de outra o mau uso destes últimos. Esses dados se assemelham aos encontrados A dificuldade em concretizar o trabalho no estudo de Soares (2005). impedindo os profissionais A oficina Dieta pela vida. comunicação que acarretou prejuízos ao trabalho se deve. também. que mostram interdisciplinar tem em suas bases. “o conhecimento está dividido no contexto da ESF.

principalmente. e. ações de promoção da saúde no contexto da conversa. expõe. Nesse sentido. não enfocaram a doença. ainda. caso tivesse ocorrido trabalho interdisciplinar. pois. Tal problemática é melhor planejamento e avaliação das dotada de uma complexidade que não se atividades em conjunto com os outros esgota na experiência apresentada. Assim. mas. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. 33 (2). de grupos interdisciplinares é uma iniciativa algumas dificuldades para a implementação válida. mesmo com as dificuldades dessa forma de trabalho. A oficina Fotografia foi um bom exemplo de efetivação do trabalho interdisciplinar. de USF. Houve As atividades realizadas durante a intervenção uma integração entre os membros da equipe. 509 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Leandra Lúcia Moraes Couto. concluímos o fornecimento. Nesse a isso. é possível observar que o atendimento da clientela por meio Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . o alcance do objetivo enfatizaram as potencialidades daqueles que comum de maior qualidade de vida para os frequentavam o grupo. Devido profissionais envolvidos com o grupo. também. relação à gestão do próprio trabalho. julgamos necessária a realização de sentido. O uso de oficinas participantes. esperamos contribuir para as práticas de Porém. como metodologia se mostrou eficaz. No entanto. Diante do que foi exposto. 500-511 atendida. por meio deste artigo. uma formação contínua destes. de um que o trabalho de psicólogos junto a atividades espaço para elaboração de modos de agir. aos participantes. foi prestado a importância de maior comunicação entre um atendimento à população que não se os profissionais assim como a necessidade de restringiu ao saber de uma única disciplina. de acordo com nossa avaliação. ressalta de comunicação enfrentadas. uma vez que estabelece como princípio Ao analisar a experiência descrita. promoção da saúde e. possibilitar o trabalho poderia ter se dado de forma uma reflexão sobre formas de gestão e do ainda mais satisfatória. ao contrário. de coletivas tem importância e é pertinente às pensar e de sentir por meio da comunicação. é fundamental que a gestão da ESF estudos que relacionem as formas de gestão esteja configurada de modo a incentivar as da ESF com a realização dos trabalhos atividades interdisciplinares e a permitir que interdisciplinares e com as ações de promoção os profissionais tenham maior autonomia em da saúde.

500-511 Leandra Lúcia Moraes Couto Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Fernando Ferrari. E-mail: leandrabj@hotmail.com Endereço para envio de correspondência: Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória – ES – Brasil. Av. Recebido: 11/01/2012. Centro de Ciências Humanas e Naturais. Vitória – ES – Brasil. Leandra Lúcia Moraes Couto. ES. E-mail: ninha. Vitória – ES – Brasil. 1ª Reformulação: 13/01/2013 Aprovado: 31/01/2013.bs@gmail. Polyana Barbosa Schimith & Maristela Dalbello-Araujo 2013. s/n. 510 PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO. Maristela Dalbello-Araujo Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo e docente da Universidade Federal do Espírito Santo.com Polyana Barbosa Schimith Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória. Psicologia em Ação no Sus: a Interdisciplinaridade Posta à Prova . Goiabeiras. E-mail: dalbello.com”. 33 (2). Departamento de Psicologia.araujo@gmail. CEP: 29060-900.

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