Acumulação originária

do capital e direito
Original accumulation of capital and Law

Ricardo Prestes Pazello1

Resumo: O presente artigo pretende relacionar os temas da acumula-
ção originária do capital e do direito. Para tanto, haverá a caracteriza-
ção da acumulação originária, resgatando a indicação de Adam Smith,
as sugestões de Marx até sua formulação no capítulo 24 de O capital
e apresentando a extensão deste debate nas investigações sobre a
transição do feudalismo ao capitalismo. Na seqüência, pretender-se-á
delimitar os sentidos do direito na discussão sobre a acumulação ori-
ginária, inclusive aventando polêmica quanto à interpretação marxista
mais consolidada, para ao fim realizar-se um contraste com perspec-
tivas marxistas a respeito da permanência histórica da acumulação
originária, retirando daí conseqüências relevantes para a construção
de uma teoria marxista do direito na periferia do capitalismo.

1 Professor de Antropologia Jurídica na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutor em
Direito das Relações Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade
Federal do Paraná (PPGD/UFPR). Mestre em Filosofia e Teoria do Direito pelo Curso de
Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (CPGD/UFSC).
Bacharel em Direito pela UFPR. Pesquisador do Núcleo de Estudos Filosóficos (NEFIL/
UFPR) e do grupo de pesquisa Direito, Sociedade e Cultura (FDV/ES). Pesquisador e
conselheiro do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), do qual
já foi Secretário Geral (2012-2016). Integrante da coordenação do Centro de Formação
Milton Santos-Lorenzo Milani (Santos-Milani), do Centro de Formação Urbano-Rural
Irmã-Araújo (CEFURIA) e do Instituto de Filosofia da Libertação (IFiL). Presidente do
Conselho de Representantes da Associação dos Professores da Universidade Federal
do Paraná-Seção Sindical do ANDES-SN (CRAPUFPR), da qual já foi Diretor Jurídico
(2013-2015). Coordenador do projeto de extensão popular Movimento de Assessoria
Jurídica Universitária Popular - MAJUP Isabel da Silva, junto à UFPR. Colunista do blogue
assessoriajuridicapopular.blogspot.com.br

66 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n.1 | 2016 | ISSN 2447-6684.

IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais

Palavras-chave: Acumulação originária do capital; crítica marxista ao
direito; marxismo
Abstract: This article aims to relate the themes of the original accumu-
lation of capital and Law. For this, there will be a characterization of the
original accumulation, rescuing Adam Smith’s indication, Marx’s sug-
gestions until his formulation in chapter 24 of Capital and presenting
the extension of this debate in the investigations into the transition from
feudalism to capitalism. In the sequence, it will be tried to delimit the
senses of Law in the discussion about original accumulation, including
throwing a polemic on the more consolidated Marxist interpretation, in
order to finally do a contrast with Marxist perspectives regarding the
historical permanence of the original accumulation, thus reaching rele-
vant consequences for the construction of a Marxist theory of Law on
the periphery of capitalism.
Keywords: Original accumulation of capital; Marxist critique of Law;
Marxism
Para equacionar a relação possível entre acumulação originária do
capital e direito, o presente ensaio dividir-se-á em dois grandes mo-
mentos. O primeiro tem por fito assentar uma compreensão básica a
respeito do que é esta acumulação. O segundo diz respeito aos des-
dobramentos deste debate para a construção de uma perspectiva crí-
tica (marxista e latino-americana) do direito.

1. O QUE É ACUMULAÇÃO
ORIGINÁRIA DO CAPITAL?
O problema que a discussão em torno da “assim chamada” acumu-
lação originária, enfatizada por Marx em seu O capital, instaura é a um
só tempo o de confrontar a história do surgimento das relações sociais
capitalistas e o de questionar suas bases violentas, assim como o de
realizar uma abertura interpretativa para geopolíticas distintas das do
capitalismo central europeu.

Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. 67

InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais

Tomando em conta esta tríplice problemática – história, violência e
geopolítica mundial – é que vale a pena perquirir sobre o significado
de tal acumulação para, posteriormente, correlacioná-la com o direito.
A este respeito, é necessário fazer uma explicação prévia a respeito
da terminologia: a preferência pela expressão “acumulação originária”,
ao invés de “acumulação primitiva” como a maioria das edições brasi-
leiras costuma traduzir, se deve ao fato de que a locução original em
alemão utilizada por Marx – ursprüngliche Akkumulation – procura tra-
duzir a noção de previous usada por Adam Smith (PERELMAN, 2000,
p. 25), sobre o que se falará na seqüência. Neste sentido, a tradução
mais fiel da expressão alemã leva à noção de originariedade. Mas a
opção não é meramente devida à filologia e sim, igualmente, em razão
de que a violência histórica que significou o ascenso do capitalismo
está adequada de ser representada pela idéia de originariedade. Ade-
mais, à parte o risco de um historicismo passadista que a expressão
pode carregar, utilizar “original” ao invés de “primitiva” permite desviar
dos percalços etnocêntricos que, ainda mais contemporaneamente,
a noção de primitividade carrega. Já que além de violência histórica
tal acumulação representa também a abertura interpretativa para ge-
opolíticas distintas das européias, é razoável fugir de equívocos termi-
nológicos, evitando designar o passado europeu (o feudalismo) ou as
regiões extraeuropéias como primitivas.
Outra questão precedente sobre a qual vale sugerir uma reflexão é
a que decorre do fato de Marx ter intitulado o debate de uma “assim
chamada” acumulação originária (MARX, 2014, p. 785). A expressão
“assim chamada” não é só uma cunha que serve para diferenciar-se,
ironicamente, das indicações de Smith (PERELMAN, 2000, p. 26), mas
também porque se trata de discussão com um nível de complexidade
e concretude tal que não permite reducionismos histórico-culturais. Na
verdade, a “assim chamada” acumulação originária dá conta de mé-
todos de estabelecimento das relações de capital que se estendem
por séculos e dizem respeito a várias regiões do globo. Nesse senti-
do, Marx não se deteve em confeccionar uma teoria definitiva sobre o
assunto, mas limitou-se a esboçar os aspectos gerais que permitem
compreender a essência de tal fenômeno. Com base nisso é que se

68 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n.1 | 2016 | ISSN 2447-6684.

IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais

dá a inspiração do presente ensaio, no intuito de explorar dimensões
ainda inauditas dentro deste debate, dentre as quais a que diz respeito
ao fenômeno jurídico.

1.1. A INDICAÇÃO: O ETNOCENTRISMO
DE ADAM SMITH
O debate sobre a acumulação originária do capital costuma ser
remetido a uma indicação, aparentemente despretensiosa, de Adam
Smith, em seu clássico livro sobre A riqueza das nações (ver PEREL-
MAN, 2000, p. 25; DE ANGELIS, 2012). Na introdução ao livro segun-
do, dedicado a “A natureza, o acúmulo e o emprego do capital”, Smith
(1983, p. 243; 2007, p. 212) constrói uma argumentação que distingue
sociedades em que não há e em que há a divisão do trabalho. Para o
primeiro caso, que ele denomina de “estágio primitivo da sociedade”
(em inglês, “rude state of society”), não existem trocas constantes nem
acumulação. Quando a divisão do trabalho se implementa, porém, sur-
ge em sua esteira a impossibilidade da subsistência e faz-se necessá-
rio comprar produtos. Esta compra exige que haja uma “acumulação
de capital”, já que só assim o produtor dará conta de satisfazer a mul-
tiplicidade de necessidades que tem e não pode satisfazer com seu
próprio trabalho.
Para Smith (1983, p. 243), “a acumulação de capital, por sua nature-
za, deve ser anterior (previous) à divisão do trabalho” e tal acumulação
prévia, quanto maior for, mais permitirá o aprofundamento da própria
divisão do trabalho. Daí sua conclusão: “assim como a acumulação
prévia de capital é necessária para se efetuar esse grande aprimora-
mento das forças produtivas do trabalho, da mesma forma ela conduz
naturalmente a esse aprimoramento” (SMITH, 1983, p. 243).
A indicação de Smith é relativamente não rigorosa, porque naturaliza
a acumulação que antecede (e permite surgir) a divisão do trabalho.
Neste sentido naturalizador, trata-se de uma compreensão universali-
zante (e, portanto, a-histórica) da acumulação prévia ou originária. Pré-
via a quê? Para Smith, prévia à divisão do trabalho, o que leva a inferir

Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. 69

InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais

que a humanidade se reduz a estes dois modelos básicos de socieda-
des, as que têm e as que não têm a divisão do trabalho. Logo, aqui se
revela uma interpretação de “filosofia moral”, muito mais do que uma
“economia política”, já que estende a toda a humanidade, à exceção de
seu “estágio rude”, a produção do capital/estoque (stock), implicando
uma sempre existente acumulação do excedente produzido.
As poucas passagens dedicadas ao tema em A riqueza das nações,
a nosso juízo, corroboram a tese de que Smith elaborou despreten-
siosamente a noção de “acumulação prévia” ou originária. Ao mesmo
tempo, contudo, manifestam seu caráter de argumentação que é pres-
suposta, já que todas as sociedades tiveram (ou terão) de passar pela
fase de acumulação, sugerindo a disjuntiva entre povos com acumula-
ção e povos sem acumulação-ainda. Na verdade, o tom etnocêntrico
da classificação se faz sentir ainda mais se ressaltarmos o fato de que
a noção de acumulação primitiva, em Smith, sempre aparece em pa-
rágrafos introdutórios às partes de seu livro, destinando-se a explicar
como surgem os elementos que caracterizam a economia moderna,
tal qual o preço das mercadorias, o salário e o próprio capital (SMITH,
1983, p. 77 [cap. VI, livro 1º], p. 91 [cap. VIII, livro 1º] e p. 243-244 [in-
trodução, livro 2º]), sempre aduzindo à distinção entre realidades onde
não há apropriação da terra e acumulação de patrimônio e aquelas
onde isto já se deu.
De todo modo, é a partir das pistas de Smith que o debate da econo-
mia política desenvolve a formulação a respeito da acumulação origi-
nária que, certamente, terá em Marx o seu ápice, em capítulo integral-
mente dedicado ao tema no final do volume 1 de O capital. Antes de
centrarmos a atenção a este capítulo, percorramos algumas intuições
de Marx sobre a questão em textos prévios.

1.2. AS INTUIÇÕES: A HISTORICIDADE
EM KARL MARX
Desde o início de sua produção teórica, Marx se preocupou com
questões que podem ser tidas como intuições a respeito da proble-

70 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n.1 | 2016 | ISSN 2447-6684.

ou os Grundrisse. a abolição de modos mais ou menos comunitários de vida. separados da vida orgânica. mas também a necessidade de satisfazer um impulso de justiça. Sua relação orgânica com a árvore viva não é maior que a que mantém com a víbora a pele que ela mudou. o parlamento da Renânia passa a discutir a proibição da prática costumeira dos camponeses. e se verá que essa classe não só sente o impulso de satisfazer uma necessidade natural. A lenha sol- ta no chão nos serve de exemplo. Até chegar à versão final de seu O capital. por intermédio dos proprietários rurais. dentro de porções de terras que agora figuram como propriedade privada. Com o contraste entre os ramos secos e que- brados. ante tal debate. de 1842. 46) teve de “opinar sobre os chamados interesses materiais”. sintetizada no reco- lhimento de lenha caída das árvores. Apesar de se tratar de debate legislativo de 1841 (descrito por Marx em 1842). seus proprietários. O que aparece nos Debates sobre a lei referente ao furto de madeira é uma persistente contraposição de direitos. 71 . a questão já se apresenta no primeiro conjunto de textos em que Marx (2008. Marx. irá defender enfaticamente o “direito de ocupação” daquela que ele chama de “clas- se elementar”.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. em 1867. De algum modo. escritos entre 1857 e 1858. a despeito de terem sido terras comuns no passado recente. o contexto ainda é o da transição do feudalismo para o capitalismo germânico. Diante das necessidades de expansão do capital. e os troncos e as árvores Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. tais intuições se desenvolvem em textos como os dos de- bates sobre o furto de madeira. como ele mesmo viria a se referir posterior- mente. que antagoni- za pobres e madeiras. O problema de fundo que ali está instaurado é o que enseja a acumulação originá- ria. para dar dois exemplos (que não excluem outros escritos dentro deste período ou mesmo posteriores à redação do volume 1 de O capital). quer dizer. p. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais mática que se encerraria na explicação dos fundamentos da acumu- lação originária do capital.2 | n. “classe pobre”: Poderá ver-se que os costumes que são costumes de toda a classe pobre sabem pegar com instinto certeiro a parte mais indecisa da propriedade. vale dizer.

são separadas de seus meios de subsistência tradicionais. A este propósito. 38-39). o tema da separação entre produtor e meios de trabalho (dentre os quais a terra) se encontra presente no debate so- bre a lei de furto de madeira e vai se reapresentar de forma mais bem elaborada. objetos de várias sanções jurídico-penais. Também em sua atividade encontram os pobres o seu direito. que viria a se aperfeiçoar. A pobreza humana sente esse paren- tesco e deduz dessa sensação seu direito de propriedade. 72 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. e se deixa portanto a riqueza fisicamente orgânica ao proprietário. a natureza representa de certo modo o contraste entre a pobreza e a riqueza. Algo similar ocorre com os produtos que crescem silvestres formando um acidente puramente casual da propriedade e que por sua pouca importância não se constituem em objeto da atividade do autêntico proprietário (MARX. porém.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais de firmes raízes. que assimilam de modo orgâ- nico o ar. é um inusitado cenário onde aparece como pro- tagonista a natureza. que ficaram conhecidos como Grundris- se. cheios de seiva. . com os produtos po- der natural elementar. Do mesmo modo que as esmolas jogadas na rua.2 | n. à sociedade burguesa e seus interesses egoísticos. a classe elementar da socie- dade humana se enfrenta. nos manuscritos de Marx redigidos entre 1857 e 1858.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. O fio condu- tor da crítica. É uma representação físi- ca de pobreza e riqueza. que é. a água e a terra em proveito de sua forma própria e sua vida individual. Como fica evidente. em realidade. Na defesa de Marx se expressa uma crítica de fundo. cerca de quinze anos depois. p. Em lugar do arbítrio contingente dos privilegiados se encontra a contingên- cia dos elementos que arrancam da propriedade privada o que ela não cede por si mesma. antecipando a elaboração definitiva de O capital. e as maiorias camponesas. a luz. No ato de recolher. ordenando-os. expressos inclusive no sistema de direitos que a legitima. 2007. reivindica por outro lado a pobreza física para sua necessidade e contingência. tampouco estas esmolas da natureza perten- cem aos ricos. mais humanitária que a humana. apropriada privadamente como uma espécie de fantoche pelos proprietários ventríloquos. Nessa atividade das forças elementares vê uma força amistosa.

p. separado de toda sua objetividade. 2) Trabalho não objetivado. não instrumento de trabalho. Marx (2011. é: 1) trabalho não objetivado. por outro. 73 . referida separação é “uma categoria central (senão a categoria central) da críti- ca de Marx à economia política” por expressar o cerne da acumulação originária mas também da acumulação em geral. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais segundo a interpretação perfeitamente coerente com o que Marx es- creveu sobre o assunto feita por Massimo de Angelis (2012). posto como o não capital enquanto tal. mas como atividade. como possibilidade universal do capital. como o não valor existente e. Sobre a questão da “separação”. ou negatividade referida a si mesma. perante o capital. possibilidade que se afirma enquanto tal na ação.e. nos Grundrisse. O traba- lho como a pobreza absoluta: a pobreza não como falta. por conseguinte. a existência subjetiva do próprio trabalho. não como valor ele mesmo. Como é puramente imediata. logo. a Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.2 | n. não produto bruto: trabalho separado de todos os meios e objetos de trabalho. Portanto. O trabalho vivo existindo como abstra- ção desses momentos de sua real efetividade (igualmente não valor): esse completo desnudamento do trabalho. 229-230) diz que: A separação da propriedade do trabalho aparece como lei ne- cessária dessa troca entre capital e trabalho. ele é a existência não ob- jetivada. não objetividade. i. A rique- za universal. de nenhuma maneira se contradiz a proposição de que o trabalho é. a objetividade é. no qual ela existe de forma ob- jetiva como realidade. existência puramente subjetiva. valor de uso puramente objetivo. o trabalho é não matéria- -prima. não objetiva. mas como completa exclusão da riqueza objetiva. Enquanto tal. não valor. mas como a fonte viva do valor. Ou ainda. desprovida de toda objetividade. O trabalho. concebido positivamente. a pobreza absoluta como objeto e. existindo sem mediação. de maneira igualmente imediata. tal objetividade só pode ser uma objetividade não separada da pessoa: apenas uma obje- tividade coincidente com sua imediata corporalidade.. o próprio não ob- jetivo em forma objetiva). concebido negativamente (no entanto objetivo. O trabalho não como objeto.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Em outras palavras: não é uma obje- tividade situada fora da existência imediata do próprio indivíduo. por um lado.

A contraposição entre trabalho negativo (“pobreza absoluta”) e posi- tivo (“possibilidade universal do capital”). p. 219 e seguintes) organizara um sumário de seus manuscritos. a ri- queza. Logo. Nos Grundrisse. destacando inclusive a parte da acumulação originária (MARX. como existência antitética do capital e. p. melhor dizendo. de outro lado. Igualmente interessante é notar que Marx retoma um vocabulário tão impreciso (se tomada em conta sua obra de maturidade) quanto forte em torno da contraposição entre po- breza e riqueza. agora elas aparecem explicadas no âmbito do papel que o trabalho desempenha na sociedade do capital (pobreza do trabalho separado de seus meios de produção. conduz Marx a ressaltar que entre trabalho e capital reside uma separação fundante e irreconciliável. Marx (2011. que irá se traduzir em outras contradições como por exemplo a existente entre trabalho vivo e tra- balho objetivado. na madeira viva das árvores que estão na propriedade privada do burguês do campo). p. a questão da separação é fundamental para compreender o capitalismo. elenca duas idéias gerais: a primeira é a de que a gênese do capital 2 Em 1859. na madeira morta caída e recolhida pelos camponeses. 2006a. A edição mexicana dos Grundrisse aproveitou boa parte desta organização e dividiu em inúmeras seções o texto de Marx. para tanto. essas proposições inteiramente contra- ditórias condicionam-se mutuamente e resultam da essência do trabalho. tanto em sua dinâmica de desenvolvimento quanto – e isto é o mais importante aqui – em sua gênese histórica. ou. inclusive uma seção. em tom abertamente filosófico. riqueza do trabalho como fonte do valor na relação capitalista). no debate sobre a lei de furto de madeira. por sua vez. Nestas cerca de dez páginas. No entanto. 377-378) explora. as quais na edição brasileira não aparecem (tendo sido apenas parcial e reduzidamente admitidas como subtítulos). “as condi- ções e os pressupostos do devir. destacada por ele mesmo. pois é pressuposto pelo capital como antítese.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. há várias indicações de Marx a respeito da acu- mulação originária.2 inteiramente dedicada ao assunto. 74 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. pressupõe o capital. . da gênese do capital” e. se antes.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais possibilidade universal da riqueza como sujeito e como ativida- de. Marx (2006a. 227). pobreza e riqueza estavam referidas a elementos naturais (a pobreza.2 | n.

como corolário. a questão aí colocada diz respeito à historicidade do capital e suas características. o trabalho vivo torna-se subjetividade pura. p. 381). na gênese do capital. mas só devém”. 2011. estranho.2 | n. patriarcal. Ao mesmo tempo em que analisa a superação das “relações pré-burguesas” (MARX. o capital não parte mais de pressupostos. p. propriedade do próprio trabalhador. 2011. Assim é que se pode perceber a relação escravista (trabalho de outro) e servil (tra- balho acessório à terra). 2011. – está em dissolução e já se preparam os elementos para o trabalho assalariado efetivo”. seguida de capacidade de trabalho objeti- vado suficiente para produzir excedente. a “relação de troca livre” (MARX. portanto. a acumulação originária é temática acom- panhada de reflexão histórico-filosófica. concebe Marx uma teoria do devir capitalista (da qual a acumu- lação originária é capítulo importante e que vai se desenvolver com os posteriores estudos marxistas das assim chamadas teorias da transi- Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais implica assumir que “ele ainda não é. 386). a segunda é a de que “para devir. elemento inapelável da análise marxiana. autonomizado e. 379). o processo de produção só pode produzi-la de novo” (MARX. a passagem da primeira para a segunda condição. Daí a conclusão de Marx (2011. A não universalidade do capitalismo é corroborada pelo fato de terem existido “modos de produção anteriores” baseados em relações de produção distintas das que caracterizam o trabalho assalariado livre. Para Marx. pois bem.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. separado. portanto. só há relação de capital se trabalho vivo e trabalho objetivado compuserem uma “relação igual e livre de trocadores” que assim se apresenta “formalmente” (MARX. con- dição de necessidade para o florescimento das relações capitalistas como predominantes em determinado momento histórico e. 2011. que permite com que o sujeito ven- da a mercadoria corpórea expressa na capacidade do sobretrabalho. Ou seja. p. p. p. o antigo modo de produção – comunal. A abolição destas relações é. por conse- guinte. A questão da “separação” volta a fazer sentir-se. feudal etc. 386): “ali onde esses trabalhadores proliferam e essa relação se dissemina. implica desencontrar trabalho vivo e objetivado. “uma vez pressuposta essa separação. mas ele próprio é pressuposto”. Nos Grundrisse. 75 . Assim. 381). O trabalho vivo aparece como autônomo.

]. uma concentração que originalmente não precisa de modo al- gum ter-se efetivado no próprio modo de produção ou ter nele penetrado (MARX. De um lado. que é parte de sua determinação conceitual. uma segunda faceta: a concentração da acumulação originária é. quer dizer. como unidade existente fora deles. Além de todas estas preocupa- ções. o capital como Um ou Unidade se defronta desde o início com os trabalhadores como Muitos. por exem- plo. p. MARX. é pressuposta uma acumu- lação que constitui o capital. algo pré-capitalista. no contexto do debate sobre a acumu- lação. a con- centração está contida no conceito de capital – a concentração de muitas capacidades de trabalho vivas para uma finalidade. pois diale- tiza separação e concentração. processo de cercamento e expulsão de camponeses das propriedades fundiárias. grifou-se). mas também “está contida no conceito 76 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. p. 198). de outro lado. o qual diz respeito à mudança de ênfase da “separação” para a “concentração”: antes da acumulação pelo capital. tenderá a se concen- trar e centralizar ainda mais. que Marx se preocupa com a factualidade histórica que gira em torno dos “clearing of estates”. Todavia. E desse modo apare- ce frente ao trabalho como a concentração dos trabalhadores. 2001. a articulação teórica de Marx é bastante complexa. colocados para fora de si mesmos. 513 e 653). aliás.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. neste desenvolvimento teórico. 2001. como lembra Marx na passagem). 256. Marx opera um relevante salto teórico acerca da acumulação originária. p.. A complexidade tem. ao mesmo tempo. ver MARX. Aqui.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais ção). porque esta tem lugar por contraste com muitos capitais [. em face dos diversos capitais existentes. “originalmente não precisa de modo algum ter-se efetivado no próprio modo de produção”.. do comércio exterior (para ambos os casos. É interessante notar. 2011. mas também da escravidão (ver. é separação dos meios de produção com relação aos trabalhadores e concentração destes mesmos meios nas mãos dos proprietários burgueses. é concentração de “muitos” trabalhadores e separação destes. . 490. Sob esse aspecto.2 | n. porém. com relação à “unidade” do capital (que. quase não podemos denominá-la concentração.

2 | n.3 a questão da acumulação originária é enfren- tada em outros vários textos. Mais do que isso. um momento pré e intraburguês. preço e lucro. segundo a interpretação de Mandel (1971. aqui. e aponta para possibilidades que seriam exploradas por seus continuadores. Vale dizer. XX]). Não é o intuito do presente ensaio esgotar todas as menções. p. não só para acentuar o problema acima descrito. em que se dialetizam separação e concentração. para além dos Debates sobre a lei referente ao furto de madeira e dos Grundrisse.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. 153-171). p. no entanto vale ressaltar ainda pelo menos dois outros apontamentos prévios à elaboração de O capital. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais de capital”. mas não só. sem rodeios. de uma só vez. 77 . p. Em Salário. assim como da fase de transição para o capitalismo (sendo anterior à prevalência das relações capitalistas mas igualmente interna a elas. incluindo o volume 3 de O capital (MARX. de modo progressivo e insubstituível). por intermédio da “expropriação original”. na verdade “deveria ser chamada de ‘expropriação original’”. então. 1983. que o binômio separação-concentação diz respeito às características con- formadoras tanto do proletariado (que se separa de seus meios pro- dutivos e se concentra nas periferias do capital) quanto da burgue- sia (que se separa dos capitais não-autônomos pré-existentes e se concentra em termos de capitais autovalorizáveis). 243 e seguintes [cap. feitos por Marx. que seria lançado dois anos depois. como Rosa Luxemburgo. Tal “expro- priação original” representa “uma série de processos históricos que resultaram na decomposição da unidade original existente entre o ho- mem trabalhador e seus instrumentos de trabalho”. David Harvey ou Micha- el Löwy: “uma vez consumada a ‘separação’ entre o trabalhador e os seus instrumentos de trabalho. Marx (2006b. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. O tom didático de Marx serve. texto de polêmica produzido no contexto da I Internacional. estando fora e dentro. 111) interpreta. que “o que os economistas chamam de ‘acumulação prévia ou original’”. a acumulação originária é. A expressão dialetizada de Marx leva a perceber. esse estado de coisas há de se manter 3 Ainda quanto aos Grundrisse. a redação do texto de 1865 prenuncia a elaboração definitiva de O capital. vale destacar os apontamentos dos principais textos de Marx em que a questão da acumulação originária aparece. Como já dito.

Assim. mas também da acumulação originária permanente. é o manuscrito do Capítulo VI inédito de O capital. O que Marx quer acentuar é que se trata de um momento do desenvolvimento do capital em que ainda não está consolidada sua especificidade. p. separação e concentração. a subsunção for- mal do trabalho no capital representa capítulo importante no estudo da acumulação originária (para além de várias dialetizações que Marx concebe em torno de riqueza e pobreza. Por ora. adianta-se o temário que envolve o problema não só da acumulação capitalista como reprodução ampliada. Um último momento de interesse a ser resgatado aqui. escrito entre 1863 e 1866. 88). Enquan- to predomina a subsunção formal. prevalecem os capitais usurário e mercantil. especificamente capitalistas. ou seja. Segundo Marx (2010. p. com processos de trabalho totalmente novos. 89). até que uma nova e radical revolução no modo de produção destrua tal situação e restaure a unidade primitiva sob uma nova forma histórica”. tal como referido por Luxemburgo (1984). sob a sujeição do capitalista que o dirige. p. 2010.2 | n. a extração de mais-valia a partir de um pro- cesso produtivo próprio. Esta não especificidade é bastante aparenta- da da acumulação originária e se caracteriza pelo fato de que “não se deu uma modificação essencial na forma e maneira real do processo de trabalho” (MARX. como fator do processo produtivo. Sobre suas implicações para a problemática jurídica valerá um comentário especial mais adiante. qual seja. restando pendente o aperfeiçoamento tecnológico que permite a extração da mais-valia relativa. “o trabalho ontem independente cai. apenas a mais-valia absoluta pode ser extraída. . tal subsunção formal refere-se ao processo de trabalho que passa a estar subordinado à propriedade dos meios de produção por parte do capitalista.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais e de se reproduzir em escala sempre crescente. Aqui. a subsunção real do trabalho no capital. cabe destacar a ênfase que Marx dá à questão da “subsunção formal do trabalho no capital” (2010. sendo que o capital industrial ainda não se desenvolveu plenamente e. com ele. aquela que não depende apenas de prolongamento de tempo de trabalho. e a sua própria ocupação depende de um contrato”. 78 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Ao lado do debate sobre a expropriação original. 87 e seguintes). Inserta no período de transição para o capitalismo eu- ropeu.

Ademais. logo após o estudo sobre a acumulação originária. talvez fosse o caso de ser proceder a um estudo a respeito das “formações econômicas pré-capitalistas”. 79 . a mesma não representa a distinção entre povos com acumulação e sem acumulação. Se houvesse tempo e espaço para um maior aprofundamento. mas sim o processo que torna possível a ascensão do capitalismo. Na esteira de debates por ele já realizados desde A ideologia alemã (MARX. a de Marx. Antes de mais. devendo ser considerado em uma outra oportunidade. Para ele. E por que não o iniciou tratando des- ta questão? A resposta deve ser dada levando em consideração as preocupações de Marx quanto ao método de exposição. 2007) acerca dos modos de produção anteriores ao do capital. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais anterioridade e interioridade). como ficaram conhecidas as notas de Marx (2011.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Em primeiro lugar. é interessante notar que Marx encerra seu livro fa- lando da acumulação originária. no ca- pítulo 24 do volume 1 de O capital. Com isso. o que quer dizer que Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. parece bem delineado o quadro geral das aqui conside- radas intuições (por representarem as vésperas da elaboração defini- tiva de O capital) de Marx para a questão da acumulação originária. cabe conhecer a elaboração definiti- va presente em O capital. A ELABORAÇÃO: O CAPÍTULO 24 DO VOLUME 1 DE O CAPITAL Diferentemente da interpretação de Adam Smith.2 | n. 388 e seguintes) inseridas nos Grundrisse. p. o debate sobre a subsunção formal permitirá especial consideração a respeito da questão do direi- to. Este objetivo não poderá ser aqui enfrentando. Para concluir o debate proposta. então. este aprofundamen- to permitiria compreender o desenvolvimento das protoformas sociais que caracterizarão o capitalismo. ENGELS. Trata-se. não pretende ser universalista a respeito da acumulação originária.3. de explicar como surgiu o modo de produzir a vida baseado nas relações sociais do capital. sobre o que se falará posteriormente. 1. não se trata de uma proposta historicista.

nodal para qual- quer comunidade tradicional. A desterritorialização do pro- dutor rural não é conseqüência da racionalidade econômica do capital 80 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Em resumo. 787). o assassinato e todo violência que for possível de se imaginar. Este é o elemento mais sensível da explicação marxia- na. Três corolários defluem deste desvelamento. em realidade. o segredo da acumulação originária é o da separação violenta do trabalhador com relação a seus meios de produção e o surgimento do proletariado. ao camponês. já que apresenta o significado da separação entre trabalhador e meios de trabalho via o meio de subsistência básico. a partir de um método próprio. Marx inicia seu estudo sobre acumulação originária buscando des- vendar seu segredo. esta mesma separação tem fortes impactos étnicos. 2014.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais não estamos diante de uma postura teórica que avaliza (pelo menos não mais) etapismos etnocêntricos. 786) – e nãoa pré-história geral. como já acentuamos. de um momento discursivo que privilegia. vale dizer. a qual deve tomar em conta. constitui a base de todo o processo” (MARX. a mercadoria. .1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Além de tal rejeição. Trata- -se. a história que tornou possível este modo de produzir a vida.2 | n. a “pré-história do capital” (MARX. para tanto. sendo. Marx procura estudar o capitalismo em sua especificidade histórica e. a territorialidade. 2014. p. alçando-se para o mercado mundial e para a complexidade do seu significado em termos de integração planetária. expositivamente. p. para o qual dá a seguinte elaboração: “processo histórico de separação entre produtor e meio de produção”. sob qualquer ponto de vista. E ainda que Marx enfatize a dimensão da economia política. o que nos leva à segun- da conseqüência. portanto. Daí Marx elencar os principais modelos utilizados para dar seguimento à acu- mulação originária: a conquista. A separação do trabalhador com relação à terra representa uma grande violência. busca iniciar sua análise por aquilo que é particularmente concreto neste contexto. O primeiro diz respeito ao fato de que “a expropriação da terra que antes pertencia ao produ- tor rural. a subjugação. Depois de fazer todo o per- curso que o leva do particular concreto ao geral abstrato é que chega à totalidade concreta. qual seja. as possibilidades de abertura da explicação do capitalismo para além de sua dinâmica essencial.

81 . além disso. a violência em geral serve para compreender esta última mas também o papel desempenhado pelas guerras de conquistas coloniais nas Américas e demais continentes. Por último. Ou seja. Marx se debruça sobre o exemplo inglês para descrever as principais conseqüências da utilização dos métodos de acumulação originária acima citados. Assim é que o capital emancipa. ele tinha.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. “o trabalhador só pôde dispor de sua pessoa depois que deixou de estar acorrentado à gleba e de ser servo ou vassalo de outra pessoa”. p. Segundo Marx. “para converter- -se em livre vendedor de força de trabalho. da proprie- dade feudal e clânica em propriedade privada moderna. A partir do exemplo inglês. que leva sua mercadoria a qualquer lugar onde haja mercado para ela.2 | n. liberta e torna livres todos (ou quase todos) os antigos produtores diretos. realizada com inescrupuloso terrorismo. A síntese é do pró- prio Marx (2014. re- aliza a “subjugação do trabalhador” à “exploração capitalista”. no sentido irônico que Marx impõe à idéia de liberdade sob a égide do capitalismo. de emancipar-se do jugo das corporações” e isto dá vez à “libertação desses trabalhadores da servidão e da coação corporativa” (MARX. Marx demonstra como o campesinato livre da Inglaterra. o furto da propriedade comunal. p. incorporaram o solo ao capital e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado livre. criando a classe proletária. se a desterritorialização é perfeita para explicar a decadência do feudalismo europeu. a transformação usurpatória. Dadas estas condições básicas. no alvorecer do capitalismo. Assim. foram outros tantos métodos idílicos da acumulação primitiva. 786-787). podemos dizer que a acumulação originária cria o tra- balhador livre. a alienação fraudulenta dos domí- nios estatais. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais vista em seu formato pacífico. 794): o roubo dos bens da Igreja. que entre os séculos XIV e XV já não estava mais sob o jugo da servidão feudal (tendo terras próprias ou comunais ou ainda Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. mas decorrência de seus sangrentos pressupostos. ou seja. Tais métodos conquistaram o campo para a agricultura capitalista. 2014.

. 2014. gerando o que se interpreta de Marx como sendo a “subordinação formal do trabalho ao capital” (NAVES. dada a natureza dos deslocamentos populacionais) e do pauperismo. das leis policialescas criou-se leis naturais para o imaginário das maiorias populacionais. durante 150 anos. 2014. a tal ponto que Marx chegou a ca- racterizar o parlamento inglês como uma instituição que assumiu.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. tudo isto mediado por questões jurídico-políticas. Mais adiante retornaremos a estes problemas. No entanto. por intermédio de expulsão das terras próprias e usurpação de terras comunais. 2014. isto é. Isto quer dizer que o período em torno do qual girou a acumulação originária foi constituído por uma sanha político-estatal em criar “legislações sanguinárias”. ao final de mais de um século.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais tendo entrado nos primórdios do regime de assalariamento). 812). 2014. tais “leis grotescas e terroristas” (MARX. Marx torna evidente que houve não só a criação do proletariado. A acumu- lação originária se distingue pela decisiva atuação da força estatal. p. Decorre daí uma série de questões. 2014. 808) impuseram o disciplinamento para o trabalho assalariado. é transfor- mada em proletariado. p.2 | n. 791) tentaram barrar tal processo mas foram. dentre as quais Marx destaca o problema dos cercamentos. vale dizer. Por ora. Para Marx. gerando o que o au- tor chama de “identidade entre riqueza nacional e pobreza do povo” (MARX. cabe destacar que houve uma ultrapas- sagem da tendência normativa de proteger a propriedade comunal para. em que várias legislações “infrutíferas” (MARX. aqui começa a ser marcada a passagem de uma subordinação formal ao capital para uma material. p. 809). das habitações (ou falta delas. Este contexto gera uma batalha le- gislativa. engolidas pela transição em que acumulação originária se caracteriza. 2000): “a subordinação do tra- balho ao capital era apenas forma. a posição de uma permanente trades’ union dos capitalistas contra os trabalhadores” (MARX. obrigar ao trabalho assalariado. mas também da própria burguesia. Neste bojo. “por cinco séculos e com desavergonhado egoísmo. para realizarmos uma interpretação possível a respeito da relação entre acumulação originária e o direito. assunto igualmente 82 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. o próprio modo de produção não possuía ainda um caráter especificamente capitalista” (MARX. 797). p. p.

a um só tempo. à custa de seus trabalhadores assalariados e de seu landlord” (MARX. Com a usurpação de terras comu- nais. o capitalismo começa rural. beneficiando- -se de um complexo de eficientes sistemas que elevaram a acumu- lação originária a novos e mais elevados patamares. 813-814). p.2 | n. Holanda e França – é na Inglaterra que ocorre uma articulação sistêmica entre métodos massivos de acumulação originária. posteriormente urbano (sem abandonar suas precisões agrícolas). mas seu apogeu é industrial. que empregavam trabalho assalariado e pagavam a renda da terra com velhos valores. com necessária destruição da indústria doméstica rural. temporalmente longos contratos de arrendamento. (MARX. aumento dos preços dos produtos agrícolas. O capitalismo industrial. cria-se um mercado interno. O surgimento dos capita- listas se dá especialmente pela figura dos arrendatários de terra. taxação fixa da renda da terra e. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais importante dentro da acumulação originária. erigiu-se a partir de um processo acelerado. E este. p. por sua vez. cuja caracterização se dá pelo fato de que “valoriza seu capital próprio por meio do emprego de trabalhadores assalariados e paga ao landlord. 816). passando pelo me- tayer (meeiro) até se chegar ao “arrendatário propriamente dito”. em dinheiro ou in natura”. ao contrário do que ocorreu com o arren- datário. Logo. 2014. sendo que eles podem ser resumidos a qua- Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. A partir daí a grande indústria sobe à ribalta e “consuma a cisão entre a agricultura e a indústria rural”. 2014. Trocando em miúdos. expropriação e espoliação do campesinato. por conseguinte. já que a geração da indústria implica o abasteci- mento do proletariado. 2014. 83 . Marx elabora uma pequena genealogia dos arrendatários. forja-se a figura do capitalista agrícola. gerada por “re- volução nas relações de propriedade” (MARX. como renda da terra.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. aumento de seus lucros. foi gerado pela expulsão. indo des- de os bailiffs (“primeira forma do arrendatário”). Com o desenvolvimento de tal “revolução agrícola”. redução de salários. 814-815). p. Segundo Marx – após mencionar que tal momento da acumulação prévia apareceu também na Espanha. que “se enriquecia. Portugal. uma parte do mais-produto. há a conversão de meios de subsistência em mercadorias.

todos os atores que protagonizam o nascimento do capitalismo iindustrial (rentistas. “o sistema colonial amadureceu o comér- cio e a navegação como plantas num hibernáculo”. ela infunde força criadora no dinheiro impro- dutivo e o transforma. mas. “se converteu num complemento necessário do sistema de empréstimos públicos”. em capital.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais tro: o sistema colonial. 823). Iniciava-se. 824) – porque a “sobrecarga” de trabalho prevalecia ante a necessida- de de abastecer os novos mercados. o trabalhador. Além de um sistema colonial. já que a dívida tem a ver com as receitas do estado. inclusive em nível internacional. 2014. Da dívida pública se valem todos os que participam da bolsa de valores e do sistema bancário. um princípio” (MARX. Para Marx (2014. de acordo com Marx. E. p. assim. as colônias.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. p. Marx cita um longo rol de situações que envolveram o colonialismo britânico. um incidente. para isso. assim. seja nas colônias seja nas metrópoles 84 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. sem que. de que “a sobrecarga tributária não é. coletores de impostos. de um sistema de crédi- to público incubado por aquele: “a dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva”. p. sobretudo. ao tempo da acumulação originária. 824). o sistema da dívida pública. o fim da história. tenha ne- cessidade de se expor aos esforços e riscos inseparáveis da aplicação industrial e mesmo usurária” (MARX. . p. 826) – que atinge. indo da Àsia à América e acentua que “tal sistema proclamou a produção de mais- -valor como finalidade última e única da humanidade” (MARX. 2014. 2014. por via do sistema internacional de crédito. E assim se pode chegar à conclusão. ou seja. pois “como um toque de varinha mágica. Marx sublinha o papel do sistema protecionista que implicou na destruição industrial de países vizinhos aos do centro dinâmico do capital. o nascente capitalismo industrial se valeu.2 | n. financistas. pois. comerciantes e fabricantes). antes. aparece igual- mente o sistema tributário que. o tributário e o sistema protecionista. tidos por este como concorrentes. para finalizar. Ao lado dos sistemas colonial e da dívida pública. com Marx. E tudo isso regado à violência escravista.

existem dois marcos interpretativos sobre o tema que não podem deixar de ser mencionados: Lênin e a delimitação histórica da acumulação ori- ginária.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. mais impetuosos e inescrupulosos) desta mesma classe proprietária. o capitalismo buscará não só concentrar o capital nas mãos da burguesia. ou seja. qual seja. Encerra-se o período da acumulação originária. que tornaram possível o desenvol- vimento do capital. da expro- priação dos próprios expropriadores pela massa dos expropriados). tanto de adultos quanto de crianças.2 | n. o do conjunto de condições históricas. A partir destas duas linhagens. com a concentração do capital. pode-se dizer que Lênin destaca o caráter do campesinato em Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. com uma concepção ampliada da acu- mulação originária como inerente e contínua ao capitalismo. tudo isso resulta em uma “tendência histórica”: a expro- priação dos produtores diretos (ainda que abrindo margem para a possibilidade histórica. os debates posteriores se dividiriam na forma de interpretar a questão. 829). a respeito da acumulação originária e da tentativa de compre- endê-la em detalhes históricos. Pois bem. muito se discutiu. p. resgatadas por Marx em suas intuições e elaboração definitiva. neste contexto. Apresentados estes argumentos. 2014. entre os marxis- tas. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais – uma espécie de “escravidão disfarçada dos assalariados na Europa” (MARX. com o pro- cesso expropriatório dos trabalhadores. para Marx. Na seqüência.4. a acumulação originária pode ser compreendida em seu cerne. será razoável inquirir sobre o lugar e o papel do direito. 85 . Para além de acentuar a historicidade ou continuidade do fenôme- no. A EXTENSÃO: O DEBATE SOBRE A TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO PARA O CAPITALISMO Seguindo as indicações de Smith. e Rosa Luxemburgo. 1. se é que há. posterior mas não necessariamente. Segundo De Angelis (2012). mas também centralizá-lo nos setores mais dinâmicos (quer dizer. A partir disso. notadamente violentas.

6). Diferente- mente de Lênin. 28).1 | 2016 | ISSN 2447-6684. 1984. a luta pela independência econômica. o açambarcaemnto de terra (comprada ou arrendada). p. 1982. enquanto que Rosa Luxemburgo sublinha a existência de um mercado externo como indutor de relações do capi- talismo com regiões não-capitalistas. a proletarização da maio- ria e a sua espoliação pela minoria que detém o capital comercial e emprega operários agrícolas” (LÊNIN. Para corroborá-lo. expressa em esquemas de reprodução do capital autossuficientes. p. a polêmica de Luxemburgo é com Marx. p. sin- tetiza suas características: “a concorrência. 1984. e um pro- letariado rural ou campesinato pobre. No caso da leitura de Lênin. Marx teria desenvolvido sua interpretação a partir de uma abstração. ao que tudo indica. admitindo-se segmen- tos médios e instáveis entre estes dois pólos (LÊNIN. 115- 118). daí seu ímpeto por complexificar tal análise. do capital variável e da mais-valia às formas de produção não-capitalistas” (LUXEMBURG. Rosa Luxemburgo desenvolve seus argumentos no sentido de enfocar a existência de uma economia na- tural e uma economia camponesa como não-capitalistas. ele parece rejeitar este debate. A partir da introdução da economia de mercado em regiões não-capitalistas. Lênin não concebe o campesinato russo da passa- gem do século XIX para o XX como uma classe inserida em um modo de produzir à parte e vê nele “as contradições próprias de qualquer economia mercantil e de qualquer capitalismo”. Assim. . mesmo que se refira a ins- tituições tidas como tipicamente feudais (como a corvéia) e ao capital em seus estágios inferiores (capital usurário e comercial). o que sugeriria um aporte teórico análogo ao do debate sobre a acumulação originária. Segundo ela. Ao contrário de Lênin. ou seja. de um lado. 1982. per- cebe-se que “o processo de acumulação do capital está vinculado por meio do capital constante. Ainda que Lênin acentue a desintegração do campesinato. “sociedade composta por nada mais que capitalistas e operários” (LU- XEMBURG. contudo. a concentração da produção por uma minoria. a partir da polêmica com a corren- te teórica dos populistas. o esfacelamento camponês redundaria em uma polarização social que gera uma burguesia rural ou campesinato rural. visualizando a “necessidade de ‘terceiras pessoas’. p. de outros 86 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais desintegração no contexto russo. 113).2 | n. de outro.

No âmbito deste mesmo estudo. para uma crítica. 159). justamente por suas características. ver MIGLIOLI. p. para explorar as sugestões que uma delas propicia. p. esta extensão do debate tem pelo menos três cami- nhos de abordagem. para mencionar apenas dois dentre os mais influentes na área em que atuam. já que esboça uma consideração a respeito do direi- to: “foi a partir do século XV que se acelerou a acumulação primitiva de capital na Inglaterra. sobre as quais apenas se indicará suas linhas gerais. p. 1984. Grosso modo. 2015. Suas preocupações em tor- no da desintegração do campesinato ou da necessidade do comércio exterior para realizar as relações de produção capitalistas transcen- dem a caracterização que De Angelis fez a respeito (historicidade ou continuidade) da acumulação originária e abrem espaço para o que aqui se denominará de extensão do debate para o tema da transição. 179 e seguintes). aliás. É certo que Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Como se pode ver. possibilitam aberturas nem sempre bem resolvi- das para investigações específicas como as da acumulação originária. 2004. Dentre os últimos. pode-se destacar estudos importantes como os de Immanuel Wallerstein (1979) ou de David Landes (2003). o argen- tino-brasileiro Osvaldo Coggiola é autor que representa boa síntese para o debate. em geral pesquisas monumentais que. O primeiro caminho diz respeito aos estudos de histórica econômica do capitalismo. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais consumidores além dos agentes da produção capitalista – operários e capitalistas – para a realização da mais-valia” (LUXEMBURG. São exem- plos dessa abordagem obras de marxistas e não marxistas. Para um exemplo marxista. Lênin e Luxemburgo instauram a extensão do debate acerca da acumulação originária. nem por isso menos úteis ao conhecimento concreto dela. onde havia uma legislação que congelava o valor das terras da nobreza” (COGGIOLA.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. p. 87 . tendo inclusive dado um destaque especial ao tema da acumulação originária e envidado a interpretação de que “a acumula- ção capitalista originária esteve alicerçada na constituição de relações econômicas mundiais sobre a base da colonização europeia do mun- do” (COGGIOLA. 2015.2 | n. 19. encontra-se indicação que será relevante para a seqüência do presente ensaio. 144-145). que tratam das origens do capitalismo (ainda que sem necessariamente fazer uso da noção de acumulação originária).

destaca de Hobsbawn a existência de uma multilinear possibili- dade de desenvolvimento da propriedade. Diferencia-se do primeiro por realçar o exato momento da passagem (e não toda a história) de um modo de vida para outro. a partir do que lhe era acessível no século XIX. como no caso de Perry Anderson (2016). o problema central parece ser o de periodizar as formas históricas da propriedade da terra e das rela- ções sociais/comunitárias. estatal antiga. a antiga. porém. sublinha as propriedades comunal. “quatro vias alternativas de desenvolvimento a partir do sistema comu- nal primitivo. 34). ou do capitalismo para 88 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Há estudos bastante variados a respeito da transição. Do segundo. .2 | n. Hobsbawm (1991). configurando. Para desfazer.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. é o relativo aos de- bates sobre a transição de um sistema social. p. mas como um complexo de relações sociais que no curso de suas contradições tornam possível sua hegemonização em um sistema social posterior. Em sua exegese. incluindo a passagem da antiguidade européia ao feuda- lismo. voltado para a questão do modo de produção asiático. por exemplo. ou modo de produção. apresentando suas potencialidades e li- mites. a germâni- ca (embora Marx não a limite. cada qual representando uma forma de divisão social do trabalho já existente ou implícita nela – a oriental. bem como uma avaliação dos pressupostos antropológicos de que se valeu Marx. distingue-se por evitar fazer grandes tipologias acerca de todos os modos de produção. naturalmente. para outro. O terceiro e mais interessante caminho. a um só povo) e uma for- ma eslava” (HOBSBAWM. que segue explicitamente as indicações de Marx especialmente nos Grundrisse mas também em A ideologia alemã. em verdade. O interessante desta proposta interpretativa é que ela não se afigura como idealtípica. O segundo caminho ao qual se poderia aludir é o dos estudos so- bre os modos de produção pré-capitalistas. 1991. Neste campo. no entanto. feudal até chegar à propriamente capitalista.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais dentro da história econômica há muitos estudos aqui negligenciados. qualquer equívoco em torno de um suposto “etapismo” incubado na análise de Marx. o que aí sim implicaria etapismo. no entanto as indicações feitas são suficientes para os fitos do que se pretendia delimitar. Este plexo de preocupações apare- ce em estudo análogo de Godelier (1969).

1978). como supostamente interpretava Dobb. O debate Dobb-Sweezy assiste à entrada de vários outros interlocu- tores e expressa a polêmica a respeito de como se deu. é com Paul Sweezy que ele se dá. No tocante ao início deste debate. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais o socialismo. e que o crescimento do comércio nada teve a ver com o processo. uma parte significativa do debate passa pela problemática da propriedade e seus títulos. na verdade. 56). Dobb (2004. porém. O mais impactante. como se fará a seguir. Em sua réplica. E conclui: “para mim houve uma interação dos dois. SWEEZY. 74-75) respondeu: “Sweezy apresenta como sendo minha a opi- nião de que o declínio do feudalismo deveu-se unicamente a ação de forças internas. Nele. A partir disso é que vale a pena ensejar a discus- são a respeito do direito. 89 . debate este aliás pendente de balanço final diante do fracasso da experiência soviética (ver BETTELHEIM. “a definição de servidão. tais quais. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. no resumo de Rodney Hilton (2004.2 | n. questionando a teoria do declínio do feudalismo europeu ociden- tal de Dobb. recaia so- bre as contradições internas”. Como se verá adiante. concretamen- te. 15). a construção das bases do capitalismo. o papel da simples produção de mercadorias. gestado na zona cinzenta que marca a acumulação originária ou o período de transição. a origem das cidades. foi o debate a respeito da transição do feu- dalismo para o capitalismo. já que tanto o capital como a mais-valia são anteriores ao processo de produção capitalista propriamente dito. Parece entender que se tratou de uma questão ou de conflito interno ou de forças externas”. Dobb constrói inter- pretação de longo alcance indo das origens do capitalismo na Europa até o pós-guerras e a partir de seu texto abre-se uma série de discus- sões que tocam em temas tão relevantes como diversos. motivado pela publicação de um livro de história econômica de Maurice Dobb (1981). o conceito de ‘agente motor’”. Segundo Sweezy (2004. assim como pelos métodos que viabilizaram a subsunção formal do trabalho no capital. ainda que a ênfase. p.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. p. tal declínio se deveu à “incapacidade da classe dominante para manter o controle sobre a força de trabalho da sociedade” e não da sua “superexploração”. as vias alternativas para a emergência da produção capitalista. p.

2 | n. Esta é a essência da forma jurídica na leitura pachukaniana. há viabilidade da feitura de exame crítico. como relação social entre sujeitos de direito livres e iguais entre si que garante o intercâm- bio de mercadorias tornadas equivalentes no processo de circulação e produção do capital. uma ques- tão permanece pendente: o que é o direito antes de se tornar forma jurídica? Ou. abertamente inspirada pelo método de Marx. A percuciente análise de Marx. relativo a normas e sempre existente na história da humanidade. 141 e seguintes). que permitem distinguir o jurídico do pré-jurídico? Os próximos itens do 90 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. foi resgatada por Pachukanis que permanece como o mais relevante intérprete marxista sobre o fenômeno jurídico. no sentido de se conceber o fenômeno jurídico como algo universal. a res- peito do direito. quais são as bases da forma jurídica no processo histórico da acumulação originária do capital. p. no entanto. compreen- dendo o direito em sua especificidade. Só o volume 1 de O capital computa quase um milhar de re- ferências à questão jurídica. ainda que não especificada.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Ocorre. No interior do marxismo. Negligenciada no sentido de não de- sempenhar qualquer papel relevante para os estudos sociais. Pa- chukanis (1988). sendo relegada a uma abstrata superestrutura da qual pouco se pode falar. e nele mesmo estão lançadas as bases para uma compreensão da especificidade deste fenômeno (ver PA- ZELLO. ainda que ini- cial. do lugar do direito no contexto dos debates sobre a acumulação originário do capital. que re- trata o pleno desenvolvimento da juridicidade. O PROBLEMA DO DIREITO NA ACUMULAÇÃO ORIGINÁRIA DO CAPITAL Após esta relativamente longa recensão. naturalizada. em obra clássica do período revolucionário soviético. melhorando a indagação. a problemática jurídica costuma ser ne- gligenciada ou naturalizada. que Marx nem negligenciou nem naturalizou o direito. .InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais 2. 2014. necessária para os fins deste ensaio. No entanto. por sua vez. dissipa quaisquer universalismos e idealismos jurídicos. ou seja.

para que haja condições de se chegar a alguma conclusão atinente ao problema do direito no contexto da acumulação originária. A primeira referência que Marx faz à questão relaciona-se com os métodos da acumulação originária. em que a forma jurídica é uma criação do capital (portanto.1. estabelecidas hegemonicamente em um modo de produzir a vida. No entanto. des- vendar a história real. É o propósito de Marx. da mesma maneira pode-se pensar que a forma jurídica supõe uma formação prévia e originária. a violência”. 91 . têm correspondência histórica e lógica. p. demonstra exatamente este duplo processo. O desafio. agora. Na história real o que ocorre é “conquista. uma acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista. oportunizar algum tipo de resposta a estas questões. a subjugação. a partir de Marx e Pachukanis – continuador do método de Marx para a compreensão do fenôme- no jurídico –.2 | n. o assassínio para roubar.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Sendo assim. mesmo que incipientemente. sua decorrência) mas também uma sua necessidade (assegurando-lhe a existência). como fica a questão no âmbito da acumulação originária do capital? No capítulo 24 de O capital. A análise do direito. 2. pressupõe a origem das relações capitalistas a partir de uma acumulação “prévia à acumulação capitalista. passa a ser o de demarcar os apontamentos de Marx a res- peito do direito. 2014. neste capítulo. tão bran- Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. demandam formais sociais especí- ficas que lhe assegurem a existência ao mesmo tempo em que são suas decorrências. 785). escamoteada pela economia política. “na economia política. mas seu ponto de partida” (MARX. em suma. UMA DEMARCAÇÃO: O DIREITO ACHADO NO CAPÍTULO 24 As relações sociais capitalistas. Marx. As formas valor e direito. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais presente ensaio pretendem. sendo um equívoco não apreendê-las uma com relação à outra. por seu turno. se isto é assim para o pleno desenvolvimento do modo capitalista de produzir a vida. entrementes. como visto acima. aqui.

Esta separação. em um “duplo sentido”: o “de que nem integram diretamente os meios de produção. 2014. p. A oposição entre violência (na história real) e direito (junto ao traba- lho.”. vendedores da própria força de trabalho e. vendedores de trabalho (MARX. a expropriação original significa “liberdade” dos traba- lhadores. 786 – as aspas são de Marx). por sua vez. Ou seja. 786). e os métodos idílicos por ela assinalados são os “direito e ‘trabalho’” (MARX. trata-se da transformação de dinheiro. Em face da acumulação originária. servidão e coação corporativas feudais. p. jurídica. que faz Marx sinalizar para o fato de que o capital só se estabelece por intermédio de um segredo. compra. imperou o idílio”. pressu- põe uma expropriação original.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. prescrições. livres e desvinculados desses meios de produção” (MARX. de outro. assim. 786). tudo 92 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. a qual. fruto do trabalho): é preciso que duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias se defrontem e estabeleçam contato. Aqui. por exemplo.. mas aparece como natural (normal. que buscam valorizar a quantia de valor de que dispõem por meio da compra de força de trabalho alheia.2 | n. venda. na economia política) guarda uma relação de essência e aparên- cia. Marx traduz a acumulação originária para o con- junto de condições econômicas e jurídicas que tornam possível o desenvolvimento do capitalismo. do camponês que trabalha por sua própria conta etc. p. é vio- lenta. antes. Para Marx. bem como o de que “nem lhes pertencem os meios de produção. mercadoria. como os escravos. como no caso. contrato e liberdade – todos mencionados no excerto acima. mas estão. o evento histórico da separação entre produtor e meios de produção. uma libertação dos regu- lamentos. Eis a entrada da problemática do direito no âmbito do discurso marxiano sobre a acumulação originária. de um lado. por conseguinte. Produziu-se. 2014. implica a presença de elementos como posse.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais da. produ- tores e proprietários em fatores e atores do capital. traba- lhadores livres. . meios de produção e meios de subsis- tência. possuidores de dinheiro. descreve-se a forma fundante do direito. como já visto. veja-se bem. Esta transfor- mação. 2014. servos etc.

2014. restringindo a parcela mínima de terras dos trabalhadores rurais. ganha uma nova dimensão. O debate. de algum modo revalida a argumentação de 1842 quando discutia a lei sobre furto de madeira: “A propriedade. 793). que a passagem da servidão à expropriação convi- veu com a permanência da propriedade. senhores e camponeses. que desde Henrique VII. forma aparente do direito (e sua apa- rência se comprova pela fato da existência de legislações infrutíferas. p. aqui. torna-se aparentemente tão contraditório que Marx relata a aparição de uma série de legislações que se destinavam a combater as usurpações e destruições campônias: “as queixas po- pulares e a legislação. “tanto ao expulsar brutalmente os camponeses das terras onde viviam e sobre as quais possuíam os mesmos títulos jurídicos feudais que ele quanto ao usurpar-lhes as terras comunais” (MARX. 2014. possuíam. 791). elas já aparecem. condenou a expropriação dos pequenos arrendatários e camponeses. A menção a este direito titular se dá quando da interpreta- ção marxiana do contexto de criação do proletariado pelos senhores feudais. no contexto da acumulação originária. 93 . p. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. 790). foram igualmente infrutíferas” (MARX. Em realidade. o problema do direito. chama de “direito medieval”. 2014. Expulsão e usurpação de terras são os métodos dos senhores feudais. e durante 150 anos.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. assegurando a liberdade destes e garantindo a separação dos produtores para com seus meios de produção. É curioso notar que Marx. qual seja. Ocorre. adequadas aos princípios gerais da acumulação capitalista. garantida por lei aos camponeses empobre- cidos. porém. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais isso que a história do direito europeu. E no seio do debate sobre o pauperismo apare- ce não só a problemática da lei. em seus vários formatos.2 | n. mas também da propriedade. por certo não marxista. de uma parte dos dízimos da Igreja foi tacitamente confiscada” (MARX. mas sua ação se dá em desconformidade com os títulos jurídi- cos sobre a terra que ambos. No entanto. a de saber como aquilatar o sig- nificado do que Marx denominou de “títulos jurídicos feudais” (feudalen Rechtstitel). p. que não conseguiram efetivar seu condão deontológico justamente porque contradizem a essência das relações sociais às quais a forma jurídica está conectada). ao tratar do pauperismo. em sua contradição.

reivindicaram a moderna propriedade privada de bens. Eles aboliram o regime feudal da propriedade da terra. será preci- so notar pelo menos duas coisas: em primeiro lugar. p. quando ele assevera que “tudo isso [apropriação privada fraudulenta do patrimônio estatal] ocorreu sem a mínima observância da etiqueta legal” (MARX.2 | n. incluindo aí suas normativas positivadas e aceitas pela tradição. uma distinção entre um “direito titular de propriedade” (Titular-Eigentumsrecht) e um “direito de propriedade privada” (Privateigentumsrecht) (MARX. “indenizaram” o Estado por meio de impostos sobre os camponeses e o restante da massa do povo. 2014. Como se pode ler. Marx cria. assim como os do capital. ambos os pólos da dis- tinção representam direitos (mesmo que em um plano restritivamen- te subjetivo. isto é. são pré-existentes à pró- pria especificidade do modo de produção. outorga- ram essas leis de assentamento (laws of settlement) (MARX. 2014.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais O problema da propriedade cinge-se à seguinte ordem de idéias: a princípio. 2014. 795). A “etiqueta legal” nada mais parece ser que o regime jurídico-político prevalente no medievo. sobre os quais só possuíam títulos feudais. Afinal. do antigo regime. as quais são citadas. daí que se fará capitalismo com elementos de aparição histórica prévia como mercadoria/mer- 94 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. os componentes da forma jurídica. aliás. facultativo). . ainda que entendida em suas formatações comunais. entretanto. como sugere a maior parte das traduções) em analogia à acumulação do capital? Para que isso tenha correspondência com o desenvolvimento teórico marxiano. que em todo o continente também foi realizada sem formalidades legais. liberaram esta última de seus encargos estatais. para demarcar a passagem do regime proprietário feudal para o capitalista. No fundo. trata-se de uma dimensão jurídica. explicitamente. parece pender para o segundo movimento. por Marx: sob a restauração dos Stuarts. A oscilação entre o respeito e a inobservância das “formalidades le- gais”. a partir disso pode-se ou não cogitar de uma forma jurídica originária (ou “primitiva”. no discurso de Marx. e. 800). p. que temperam o conjunto de problemas até agora levantados. por fim. em geral monárquica. 795). os proprietários fundiários ins- tituíram legalmente uma usurpação. p.

transitoriamente. opera-se uma significativa alteração: nessa época. isto é. 796). O progresso alcançado no século XVIII está em que a própria lei se torna. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais cado.2 | n. durante 150 anos. A forma parlamentar do roubo é a das “Bills for Inclosures of Commons” (leis para o cercamento da terra comunal). o capital adquire sua especifici- dade histórica assim como o direito. A forma jurídica originária faz conviver. não tendo existência plena prévia ao modo capitalista de produzir a vida). estoque/capital. embora os grandes arrendatários também empreguem paralelamente seus pequenos e independentes métodos privados. assim como servidão e assalaria- mento. Como o próprio Marx admite. delimitado por Marx entre os séculos XV e XVI. porém. em vão. Marx chega a comentar que a propriedade comunal é “antiga instituição germânica” que permanece presente no feudalismo em ge- ral.] entre 1765 e 1780 o salário desses trabalhadores começou a cair abaixo do mínimo e a ser complementado pela assistência oficial aos pobres” Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.. em segundo lugar.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. todos os com- ponentes pré-existentes se rearticulam entre si e tal articulação faz au- ferir especificidade completamente nova a cada um de tais elementos. decretos de expropriação do povo. com as terras do povo (MARX. o veículo do roubo das terras do povo. não guardando correspondência. proprieda- de comunal e propriedade privada. A partir daí. decretos mediante os quais os proprietários fundiários presenteiam a si mesmos. a tal ponto de se os poder considerar algo integralmente novo sob o primado do regime capitalista (ou seja. 95 . como propriedade privada. 2014. dinheiro. faculdade particular. o processo se efetua por meio de atos individuais de violência. tendo sido praticamente destruída conforme se dá o processo his- tórico da acumulação originária. agora. a acumulação originária gera uma substancial modificação nas relações sociais – Marx diz que “a usur- pação da terra comunal e a conseguinte revolução da agricultura sur- tem efeitos tão agudos sobre os trabalhadores agrícolas que [.. legislação e jurisdição já existentes. a não ser em termos de analogia pró-traductibilidade histórica. valor e mais-valia da mesma maneira que forma jurídica com direito de propriedade. contra os quais a legislação lutou. p.

a contradição se dá em torno do fato de que. 2014. Portanto.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais (MARX. Tais “leis grotescas e terroristas” buscavam submeter os agora trabalhadores pobres e desocupados (até então artesãos ou campo- neses) a uma “disciplina necessária ao sistema de trabalho assalaria- do” (MARX. em que se garante o intercâmbio mercantil entre sujeitos de direito) e aparentes (seja como legislação seja como jurisprudência. Assim é que Marx abre um item no capítulo sobre a acumulação originária totalmente destinado ao estudo da “legislação sanguinária contra os expropriados desde o final do século XV” (MARX. uma classe trabalhadora que se apresenta como tal pro força da “educação. a forma jurídica. consagra-se como elo inexpug- nável do capital. eminentemente formal. por meio de outros instrumentos normati- vos. também perseguia o trabalhador agora “livre” para que cumprisse sua função laboral. esta conexão só torna possível porque uma dimensão coativa. No entanto. em conformidade com sua própria vontade. Nesse contexto. p. p. conformando um âmbito de conjecturas que pode levar a afirmar uma acumulação originária da forma jurídica. 277 e seguintes). antecipa a plenitude do capitalismo. inclusive. 2014.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. que men- 96 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. p. 2014. ainda no capítulo 24. . 808). Uma explicação se faz necessária: ao mesmo tempo em que a le- gislação do período transitório se via às voltas com o fim da proprie- dade comunal da terra. 2014.2 | n. 2014. pois bem. como se esta fosse uma exigência de “leis naturais e evidentes por si mesmas”. na alteração dos ru- mos da intenção legislativa (“a própria lei se torna. devendo vendê- -la. 805). p. agora. na contratendência do modo de produção nascente. ela. dentre outros momentos transitórios) (ver PAZELLO. não bastando poderem vender sua força de trabalho. buscava-se mitigar o fim da propriedade comunal. em seus momentos essencial (a relação jurídica propriamente dita. mas também obrigar os recém-libertos trabalhadores a ocu- parem sua função social. ao tempo da acumulação originária. agora mais coerentes com as tendências sociais de capitalização/mercadorização da vida. É o que se pode depreender da argumentação de Marx. o veículo do roubo das terras do povo”). 797) – que se reflete. p. tradição e hábito” (MARX. Forma-se. 808).

96).1 | 2016 | ISSN 2447-6684. A transição do trabalho corporativo para o assalariado parece ser análoga à passagem do di- reito titular feudal ao direito da propriedade privada. Sendo assim. p. violentamente por sinal. p. o segredo da acumulação originária da forma jurídica reside no fato de que a subsunção formal é. vai criando as bases para a revolução social e tecnoló- gica que alterar globalmente o processo de trabalhando. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais ciona a “subordinação” formal do trabalho ao capital. E eis que se pode chegar à seguinte elucubração: se o segredo da acumulação originária do capital é a separação que se opera. 97 . Marx aqui parece resgatar seus estudos sobre subsunção formal e real do trabalho ao capital. 98). da relação entre o capital e o trabalho assalariado” (MARX. 2010. É a conclusão à qual chega Marx quando descreve.2 | n. Em verdade. ainda inadequada. para os fins do argumento aqui esboçado. momento no qual não está estabelecida a especificidade do modo capitalista de produzir a vida. mas de qualquer forma já caracterizada pela compra-e-venda. entre produtor e meios de produção. já citado. estão lançadas as condições para a criação da for- ma jurídica e estas condições dizem respeito à conformação de uma “relação entre compradores e vendedores” ainda sob o primado tecno- lógico da produção corporativa medieval. antes de tudo. Em suma. o modo especificamente capitalista de produção da vida. neste caso. que a subsunção formal gesta-se durante a acumulação originária e representa o fato de que “deixa o capitalista de ser ele próprio um operário e começa a ocupar- -se unicamente com a direção do processo de trabalho e a comercia- lização das mercadorias produzidas” (MARX. Tão inadequado quanto circunscrever tais reflexões a uma noção atemporal do jurídica seria olvidar da surpreen- dente anotação de Marx: “a propriedade privada constituída por meio Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. oficiais e aprendizes) para o assalariado (contendo capitalista e trabalhadores livres). dando azo para se perquirir sobre a relação entre direito e acumulação originária sem grandes constrangimentos. a transição do trabalho corpo- rativo (que envolve mestre. em abstrato. ou seja. no contexto da usurpação da propriedade pré-existente. 2010. assentes nos manus- critos do Capítulo VI inédito. Diz ele se tratar. de uma forma limitada. cabe apenas retomar. ensejando a subsunção real do capital. coativa e.

831). expressa-se a desintegra- 98 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. com suas condições de trabalho. de que “quando se fala de acumulação num sentido histórico deve-se fazer re- ferência à propriedade de bens e a uma transferência de propriedade. já citado acima. UMA POLÊMICA: O “IMPOSSÍVEL DIREITO” NOS DEBATES SOBRE A TRANSIÇÃO O tema da acumulação originária gerou extensões para debates paralelos. dividida em uma fase de aquisição da propriedade e em uma de realização. p. O diferencial. 2.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. a resposta segue o segundo caminho.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais do trabalho próprio. 1981. de aquisição. 182). que de algum modo inaugura este debate. Para Dobb. p. ou como uma acumulação de direitos ou títulos de patrimô- nios. já que não existia até então. na fusão do indivíduo trabalhador isolado. p. 1981.2 | n. mas formalmente livre” (MARX. No texto de Maurice Dobb. . dando espaço para um polêmica no cerne das análises marxistas sobre o direito. De tal lógica depreende-se a tese cujo teor se baseia em um duplo movimento da transição do feudalismo para o capitalis- mo. A tese de Dobb é toda centrada neste raciocínio. fundada. Por isso. Daí ter de resgatar elementos anteriores a ele. e não à quantidade de instrumentos tangíveis de produção existentes” (DOBB.2. cede lugar à propriedade privada capitalista. segue-se com o argumento da viabilidade do presente estu- do. que segue a lógica segundo a qual o modo de produção capitalista não pode surgir de si mesmo. por assim dizer. e interessante para o presente ensaio. embora não sejam por si mesmos agentes produtivos?” (DOBB. independente. 2014. ou seja. a questão se coloca nos seguintes termos: “deve a acu- mulação ser concebida como uma acumulação dos próprios meios de produção. como o da transição do feudalismo para o capitalismo. 181). que repousa na explora- ção de trabalho alheio. é que ele recorre à idéia de propriedade e os títulos jurídicos que a fundamentam. capazes de se converter em instrumentos de produção. Na primeira fase.

o sistema da dívida estatal e a política colonial). As sugestões de Dobb trazem problemas significativos para as in- terpretações correntes do marxismo a respeito do direito. portanto. p. Já na segunda fase. p. Após comentar. 1981. as instituições bancárias. inclusive a partir de crises econômicas que leva- ram a hipotecas e dívidas contínuas. panoramicamente. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais ção do feudalismo. resultando em uma vitória da forma jurídica em seu sentido moderno. edi- fícios fabris. Tratou-se. na transição do feudalismo para o capitalismo. dentre os quais o comércio exterior. Eis. vale dizer. com seu resultado. Referindo-se a um trecho do capítulo 5 (“O processo de trabalho e o processo de valorização”) de O capital. o contraste entre dois tipos de direito que concorrem no processo histórico da acumulação origi- nária do capital. E no âmbito desta obra. 1981.2 | n. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. escreve: “O que Marx diz aqui é que. 99 . Em obra bastante recente. o mais importante intérprete marxista do direito no Brasil. Contrastá- -las parece ser um bom exercício a fim de se refletir sobre a relação entre acumulação originária e direito. Márcio Bilharinho Naves. o que prevalece é a “venda dos objetos de acumulação iniciais para. 188). 185). 1981. assim. realiza um balanço do que considera seja o pensamento de Marx a respeito do fenômeno jurídico. matérias-primas e força de trabalho” (DOBB. O que o debate de Dobb ressalta é algo já passível de fixação no próprio texto de Marx. que foi se viabilizando conforme a concentração dos meios de produção ganhou escala (mesmo tendo de concorrer com os mecanismos mercantilistas que lhe tornaram possível. os textos anteriores a O capital – especialmente os da década de 1840 – Naves define a obra de crítica à economia política de Marx como o lugar privilegiado para se extrair dele um conceito de direito. adquirir (ou criar) maquinaria algodoeira. de realiza- ção. da criação das condições para a produção industrial. 186). o evento do “desapossamento real dos proprietários anteriores e a criação de uma classe substancial de destituídos” (DOBB. já apresenta uma reflexão interessante para se pensar o tema a que se propõe o pre- sente ensaio. usinas siderúrgicas. p.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. assim como à implementação de métodos de violência e uso da força ou ainda de “trapaças jurídicas” (DOBB.

A questão é relativamente polêmica. 100 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. pode-se perguntar se esta anterioridade das relações de produção capitalistas tem impactos para a compreensão do direito. 2014. p. de algum modo. corrobora a tese de Dobb. p. 44).InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais as forças produtivas existentes. Este “primado das relações de produção” (NAVES. 37). tendo mudado seu caráter de feudais para capitalistas. já que a espe- cificidade do direito consiste em ser uma relação social vinculada. .4 Naves também recorre à acumulação originária para apanhar a gê- nese da forma jurídica e conclui que a “separação do trabalhador dire- to dos meios de produção” cria “as relações de produção capitalistas” (NAVES. contu- do. mas deve ser entendida no sentido de que neste processo histórico ainda não estavam dadas as condições para que os instrumentos produtivos permitissem uma subsunção real do trabalho ao capital. para quem a acumulação originária do capital implica uma acu- mulação de patrimônio antes que uma de meios produtivos. às relações sociais do capital. as quais preexistem às forças produtivas que tipificariam posteriormente. o impacto existe. portanto. so- bretudo. Esta preexistência. 377) sobre o capital nos Grundrisse – “ele ainda não é. p. a partir de tal contexto. igualitá- 4 Cumpre explicar que aqui a analogia tem apenas fins didáticos. Para um estudo mais aprofundado sobre a questão do direito nos Grundrisse. que o direito torna-se um devir. Sem dúvida. não sofrem quaisquer transformações. implica perceber que durante a acumulação originária fez-se pre- sente uma esfera jurídica ainda não plenamente desenvolvida e que guardava conexão com formas pretéritas. É possível dizer.). ver SOARES (2011. gerando a liberdade do trabalhador (com relação ao modo de vida servil mas também a seus meios de subsistência). ao passo que as relações de produção já se alteraram”. portanto. para fazer uma analogia com as idéias de Marx (2011. A conclusão é interessante na medida em que concatena as noções de separação e relação. Sendo assim. mas só devém”. em um primeiro momento. p.2 | n. No fundo a separação é parte constitutiva das relações de produção. de maneira indiscriminada. permanecendo as mesmas de antes. 152 e seg. 2014.

é uma transição ao comu- nismo). sua tese tem a seguinte formulação: há uma “distinção entre as relações de produção e as relações (jurídicas) de propriedade” (NAVES. seu nó reside no fato de que Naves advoga a concepção de que “o sentido próprio do direito” é “a transformação do homem em algo que possa ser comercializável sem a perda simultânea de sua vontade autônoma” (NAVES. Para ele. O curioso aqui é que o marxista brasileiro passa a se valer da no- ção de propriedade para contrastar o sentido moderno da liberdade. pela figura da propriedade” (NAVES. assim. Liberdade e igualdade surgem. ensejando-se uma aposta nos fenômenos da estatitização ou nacionalização para superar as rela- ções burguesas. notadamente. Em suma. 38). 2014. fundado no estudo. des- locando a violência bruta para a periferia do domínio de classe. 2014. 2005. o que tem por corolário histórico elaborar uma crítica ao direito “que possa ao mesmo tempo afirmar o seu íntimo e Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. fazendo valer as suas determinações essenciais. idéia cujo sentido vai em direção aos fenômenos históricos do processo de disciplinamento e da aparição de uma legis- lação sanguinária. uma crítica convicta ao “juridicismo” do pensamento da esquerda quando refletiu sobre a transição socialista (que. 72). Curio- so. de outro. “ultrapassado esse momento paradoxal de disciplinamento. Para que bem se entenda o problema. p. então. assim. o trabalhador é obrigado a ser livre” (NAVES. 2014. Para Naves. fulcrada no valor de troca (e não em riquezas específicas). p. são as figuras do direito que ocupam a cena.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. dentre outros. por um lado. a partir de agora. na complexa concretude da historicidade é que “nas origens do capitalismo. 55). 2005. como noções indispensá- veis para a realização da forma jurídica. 57). e. p. 47). p. porque Naves realizou. O que ocorre. em outro momento. de Maria Turchetto (2005) sobre a transição. p. 101 . IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais ria. e a existência de direitos de propriedade com títulos feu- dais.2 | n. vem se dando uma “substituição das ca- tegorias marxistas pelas figuras do direito. em verdade. já citada acima a partir da hermenêutica do texto de Marx. porém. O problema que se coloca. é o de compreender o que sig- nifica a sinonímia que se dá entre direito e relação de propriedade. como o último recurso de proteção da propriedade” (NAVES.

de outra. e entre propriedade e medievo. p. não é a compreensão. mas sim o duplo impasse entre direito e propriedade. p. 800). seu elemento irredutível. A intelecção que aqui se perfaz é de que é insuficiente encarar o direito feudal de propriedade como apropriação de meros valores de uso. 57). p.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais exclusivo vínculo com a sociedade do capital e retirar do âmbito do direito todas as formas sociais com ele identificadas nas sociedade pré-capitalistas” (NAVES. . Contudo. por ora. p. Naves busca.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. é fenômeno típico do capitalismo e tem nas relações de propriedade uma repercussão palpável. de que “o que é o específico do direito. O que se está colocando em questão. a forma jurídica não se faz presente em seu sentido próprio. prevalece uma “carência de subjetividade jurídica nas sociedades antigas” (NAVES. para usar a descrição de Marx (2014. 2014. se o di- reito. de uma parte. 2014. defendida por Naves dentro do melhor legado marxista de estudo so- bre o direito. um “direito titular de propriedade” no período concernente ao feudalismo? Para evitar uma falsa problemática. logo. como pode existir. para o marxismo mais rigoroso e coerente com o próprio Marx. 102 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Tais formas. 62). Como o próprio Naves sugere (até porque é coerente com a proposta de Pachukanis da qual ele é assumido tributário). assenta sua tese elaborando a noção de um “impossível direito romano”. o cerne da questão que aqui se quer circunscrever não é este. 2014. é mais convincente demonstrar a não-juridicidade na Roma antiga do que no fragmentado período medieval.2 | n. 57). 76) e. não há nem sujeito de direito nem troca de equivalentes hegemonizando tais sociedades. Logo. 2014. p. 68). já que os elementos que compõem o capital são anteriores ao próprio capitalismo e podem ter níveis de conexão com referido direito. é a equivalência subjetiva como forma abstrata e universal do indivíduo autônomo quando o trabalho é subsumido realmente ao capital” (NAVES. Trocando em miúdos. é possível pensar “formas embrionárias do direito” (NAVES. p. mas sim o de girar o enfoque do problema para outro matiz. 2014. Sem dúvida. importa considerar absoluta- mente correto o entendimento de Naves segundo o qual existe uma “enganosa universalidade do fenômeno jurídico” (NAVES. A seu modo de ver. neste sentido.

qual seja. elas carregam consi- go dimensões análogos. é no mínimo pensar em direito de propriedade sem sujeito (ainda que o sujeito existente não seja o livre e igual intercambiador do mundo do capital). é que o fato de o direito não estar autonomizado de dimen- sões das quais ele modernamente se desprendeu – como a política. qual seja.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. o que se percebe é que nela se instaura um direito não a partir de um não-direito-absoluto. p. Assim. a partir da visualização da fase de acumulação do capital. distinguem-se do moderno fenômeno jurídico por sua não especificidade formal.2 | n. a subjetividade jurídica no contexto de trocas mercantis universalizadas. quando o trabalhador direto é des- possuído das condições de trabalho e adquire as condições sociais necessárias para a sua inscrição na esfera da circulação” (NAVES. em síntese. que é um tipo de direito inespecífico. Tal gestação – este é o ponto – se dá a partir do direito titular feudal. O que aqui se quer dizer. mas também do que está presente desde antes). que traduzem para tempos anteriores aos do capital como direito dimensões da vida social/comunitária. 79). E tudo isto se faz sentir justamente a partir de algo com o que se tem acordo no pensamento de Naves. E já que há de se demonstrar o “caráter exclusivamente burguês do direito em seu vínculo com o processo de subsunção real do trabalho ao capital”. de que “a forma jurídica foi gestada no interior do processo de acumulação primitiva. a “moral” e assim por diante – não desfaz suas dimensões pré-jurídicas (nos dois sentidos cabíveis. da qual é preciso tomar conhecimento sob pena de Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. 2014. mesmo estando rigorosamente acertadas todas as delimitações de Naves sobre o di- reito. Este apon- ta para uma apreensão heraclítica do fenômeno (o não ser também é). A questão do direito de propriedade é um bom exemplo. a religião. 103 . No entanto. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais no geral. de que modo interpretar a forma jurídica sob a subsunção formal senão como o carreamento dimensões de juridici- dade (em verdade. enquanto que aquele diria respeito a uma compreensão parmenídica e antidialética do não direito (o não ser não é). como assevera Naves. já que. analógico. de não-juridicidade-relativa) do período imediata- mente anterior ao capitalismo ao capitalista propriamente dito? O “impossível direito” pré-burguês configura-se em uma possibili- dade analógica. mas de um não-direito-relativo. daquilo que vem antes.

2. de fenômenos aná- logos como os do kula. já que ambas são etnocêntricas. UMA ABERTURA: ACUMULAÇÃO ORIGINÁRIA PERMANENTE. abre-se espaço para. conclusivamente. Na in- viabilidade de realizar.3. inclusive aquelas que disserem respeito ao direito. para o direito. em conformidade e em desconformidade – a uma só tempo – com suas formas embrionárias. que avalie o significado. seguindo os rastros de Marx.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. nem culuralismo nem universalismo são chaves para uma interpretação coerente. não ao menos se o campo de visão a respeito do capitalismo for alargado para dimensões geopolíticas outras que não as de seu centro. reclama aprofundamento a construção de uma antropologia jurídica marxista. Trata-se de realizar a percepção de que este debate evidencia que as características da acumulação originária nunca estiveram isoladas à gênese estritamente histórica do capitalismo. Esta não-pureza da forma jurídica revela que o igual e livre sujeito de direito é uma figura adequada para a interpretação do desenvolvi- 104 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. para citar esparsa e descontinuamente alguns exemplos. conectar o debate sobre a acumulação originária a partir de uma mirada que leve em consideração suas repercussões contemporâneas. sugere uma tematização mais ampla do que a que até aqui foi erigida. para se compreender o direito. Nem criação do nada nem retomada do sempre. do direito romano e do direito me- dieval. Quer dizer. do potlatch. a forma jurí- dica – protagonizada pelo sujeito de direito no contexto da subsunção real do trabalho ao capital – nunca se apresentou de forma pura.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais obscurantismo histórico. aqui. . tal aprofundamento.2 | n. ou seja. ainda que isto não implique descurar da es- pecificidade do direito sob o capital e nem aproveitar um entendimento universalizador do mesmo. ACUMULAÇÃO POR ESPOLIAÇÃO E FORMA JURÍDICA DEPENDENTE COMO PORTA DE ENTRADA PARA A CRÍTICA JURÍDICA MARXISTA LATINO-AMERICANA O direito achado na acumulação originária. A partir daqui.

O que aparecia. pelo capital dominante. na polí- tica colonial. quer dizer. o fato de que sobre o corpo da classe trabalhadora vige. em fins da Idade Média. isto sim.ainda que. esta tendência – e de que se trata de tendência globalizante não há como negar – conviveu com aparições sui generis do mesmo fenômeno. marcando-o singularmente (ainda que dentro do contexto europeu ocidental e dos demais centros geopolíticos do capitalismo. o meio mais importante para a transformação maciça dos meios de produção e de força de trabalho em capital. para lembrar Marx [2006b. p. “expropriação original”). na Inglaterra e no continente. ou seja. a encampação do pequeno estabelecimen- to agrícola pelo grande constitui. vale resgatar o já mencionado estudo de Rosa Lu- xemburgo sobre a acumulação do capital. E até hoje essa mesma tarefa é levada em frente em escala bem maior. o que não permite afas- tar. uma desenfreada e “sempre crescente”.2 | n. Exemplarmente. Para as outras regiões do globo. Em suas palavras: Na acumulação primitiva. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais mento do capitalismo central.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. em Marx. bem como pelo século XIX adentro. É pura ilusão esperar que o capitalismo se contente somente com os meios de produção que for capaz de obter por via comercial. Marx dê margem para uma interpretação extensiva destes fe- nômenos genéticos do capital – passa a evocar uma permanência. preço e lucro. ainda que não só. como mera gênese . notadamente o europeu ocidental. passível de encontro até os dias atuais. as relações de produção capitalistas revistam-se de outras formas. Luxemburgo concebe a gênese do capital como sua ontogênese. porém. os métodos da acumulação originária são repristinados nos momentos subseqüentes do desenvolvimento do capital. 111]. 105 . ou não po- dem oferecer ao capital os meios principais de produção que lhe interessam. nos momentos em que este lutava contra a economia natural e camponesa. no texto de Salário. A dificuldade que o capital enfrenta neste sentido reside no fato de que em grandes regiões da Terra as forças produtivas se encontram sob o con- trole de formações sociais que rejeitam o comércio. porque suas formas de propriedade e o conjunto de Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. nos primórdios históricos do capitalismo na Europa.

externamente com os pastos.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais suas estruturas sociais excluem de antemão tal possibilidade. bem como as bases materiais de sua subsistência. assim como da introdução da economia de mer- cado. por intermédio da construção de 106 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. A sempre presente investida do impe- rialismo britânico. Cada nova expansão colonial se faz acompanhar. naturalmente. realiza uma reveladora análise dos intentos do capital em destruir a economia natural. Isso explica porque o capitalismo considera de vital importância a apropriação violenta dos principais meios de pro- dução em terras coloniais.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. p. pelo comércio. ou ainda da invectiva contra a economia camponesa. 1984. exemplificando-se com o caso da China. como nos casos dos Estados Uni- dos. para o capital. um método constante da acumu- lação capitalista no processo histórico. de preferência. 32-33. A conclusão de Rosa Luxemburgo é de que “o capital não conhece outra solução senão a da violência. p. levando seu capital industrial (mormente. do método da destruição e da aniquilação sistemáticas e planejadas dessas organizações sociais não-capitalistas. grifou-se). dos meios principais de produção. mas até mesmo hoje” (LUXEMBURG. de uma guerra encarniçada dessas. 1984.2 | n. significaria. Canadá e África do Sul. até que este resultasse na alienação. o mesmo que renunciar totalmente às forças de produção desses territórios. Como as organizações sociais pri- mitivas dos nativos constituem os baluartes na defesa dessas sociedades. No caso já não se trata de acumulação primitiva. A partir de tal afirmação. . não apenas por ocasião de sua gênese. do capital contra as relações econômico-sociais dos nativos. com as quais entra em choque por for- ça da expansão por ela pretendida. Esperar pelo resultados do pro- cesso secular de desagregação dessas regiões de economia natural. o capital serviu-se. bosques e reservatórios de água. ou com os rebanhos dos povos primitivos que se dedicam ao pastoreio. as- sim como pela desapropriação violenta de seus meios de produ- ção e pelo roubo de sua força de trabalho (LUXEMBURG. 33). a partir dos exemplos da Índia e da Argélia. seja em colônias ou não. mas de um processo que prossegue in- clusive em nossos dias. Isso acontece sobretudo com o solo e com a riqueza que este contém em minerais. no século XIX.

por sua parte. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais ferrovias). 108-109) concebe sua argumentação a partir do seguinte primado: “dado que denominar ‘primitivo’ ou ‘originário’ um processo em curso parece equivocado. uma “acumulação baseada na depredação. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. para uma análise das contribuições de Rosa Luxemburgo para uma teoria crítica do direito. Como não há espa- ço. a acumulação via espoliação (ver HARVEY. a depender da tradução) de David Harvey. Este último está embasado no entrelaçamento das lógicas territoriais e de poder. 107 . O autor adiantou em um texto o que viria a constituir elemento ana- lítico relevante de sua tese maior sobre o “novo imperialismo”.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. 35 e seguintes). ou seja. e MORENO. faz uma demorada referência ao conjunto de leis. expressando-se por via da opressão via capital. KRÄTKE. o principal para o presente comentário. 5 Ilustrativamente. dar-se-á preferência por realçar uma formulação contemporânea que ganhou bastante difusão e que. 2004). A noção de “acumulação por espoliação” enfatiza. é marcante. assim como uma produção legislativa que se opunha ao modo de produzir a vida dos camponeses. Trata- -se da idéia de “acumulação por espoliação” (ou por despossessão ou ainda por desapossamento. que tinham por ob- jetivo o confisco e a expropriação das terras. p. escritos por comenta- dores de Rosa Luxemburgo. 2015. coerção con- sentida e. aqui. 2015. o paradigma a partir do qual Marx analisa a questão é o da história passada e Luxemburgo. LÖWY. a partir dos seus textos políticos. LOUREIRO. na frauda e na violência” é um fenômeno tão atual quanto a financeirização da economia ou o avanço da nanotecnologia. daqui em diante vou substituir estes termos pelo conceito de ‘acumulação por espoliação’”. p.5 É relativamente amplo o conjunto de estudos. Para ele. 2016). por sua vez. de algum modo. pauta-se pela exterioridade. o “pa- pel permanente” e a “persistência de práticas depredatórias de acumu- lação”. 2015.2 | n. que se dedicam ao tema de uma “acumu- lação primitiva permanente” (ver. especialmente para os casos indiano e argelino. ver ROMERO ESCALANTE (2016). aliás. para arrolá-los todos. baseado na propriedade comum ou coletiva da terra – Luxemburgo (1984. Harvey (2006. como exemplos. está influenciada pela proposta de Luxemburgo.

ao nível da práxis. etc. da “total transformação da natureza em mercadoria” e da “mercantilização das formas culturais”. como não poderia deixar de ser. estatal. Esta situação aparenta ser um retrato fiel do meado da dé- cada de 2010. 95). jurídicos). 109]) até mecanismos mais coevos.2 | n. como os que giram em torno dos “fun- dos especulativos”. in- viabiliza a autossuficiência da acumulação ou reprodução ampliada do capital. p. que parece ter se comprovado na realidade. coletiva. Harvey sublinha aspectos jurídico- -políticos da acumulação por espoliação. desde sua descrição dos argumentos de Marx sobre a acumulação originária (“a conversão de diversas formas de direitos de propriedade – comum. o capital. 110-111). 2006. 2006. De um lado. no Brasil. Assim. Todo este cenário conduz a um duplo movimento que. políticos. em suma. . bem como “o estado. a acumulação originária. Realocação dos excedentes por intermédio de créditos e exportações são o que de mais visível este processo produz. vide os relatos sobre o imperialismo do século XIX. dos “direitos de propriedade intelectual”. orçamentários. segun- do Rosa Luxemburgo) e faz os seus “ajustes” (fiscais. contábeis. caracteriza a espoliação 108 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. “o retorno ao domínio privado de direitos de propriedade comum ganhos através da luta de classes do passado” (HARVEY. sempre que necessário. permite com que o marxismo esteja preparado para as intervenções que são necessárias de serem feitas. já que a tese marxiana da tendencial queda da taxa de lucro dos capitalistas. historicizado. Diante das crises reiteradas. econômicos e. p. tornada permanente. com seu monopólio da violência e suas definições de legalidade” [HARVEY. 2006. resgata os métodos vio- lentos de suas origens (que se renovaram durante todo o seu devir histórico.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. – em direitos de propriedade exclusivos” e “a supressão do direi- to aos bens comuns”.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais De acordo com Harvey. p. Como não é de surpreender. o capital precisa lançar mão do artifício da acumulação por espoliação. explicar o “mistério” da longevidade do capi- talismo passa por entender seus contínuos “ajustes espaço-temporais” que são mobilizados dada a “tendência do capitalismo de produzir cri- ses de sobreacumulação” (HARVEY. mas é a interpretação feita em 2003 por um intelectual britânico estabelecido nos Estados Unidos há tempos.

1 | 2016 | ISSN 2447-6684. esta mesma acumulação originária/permanen- te/por espoliação desenvolve impactos mais sensíveis na periferia do capitalismo. o que se defende é que a senda que leva de Marx a Rosa Luxemburgo chegando a David Harvey é o caminho correto para se compreender a probemática da acumulação originária e sua permanência no tempo-espaço capitalista. entrementes. pode-se chamar. é interessante notar a não casual (ainda que não causal) coincidência entre este duplo movimento e o que foi opera- do no interior de umas das mais conseqüentes teorias marxistas de interpretação da periferia do capitalismo. na qual os sujeitos de direito. No entendimento do qual aqui se parte. Neste sentido. elabora em outro lugar (PAZELLO. 109 . já que não há condições de aprofundar aqui esta corrente teórica. Da mesma forma. o funda- mento da relação de dependência) se alastrará para todo o mundo. Daí que após perceber o du- plo movimento – de universalização e especificação (em termos de ge- opolíticas periféricas) – da acumulação por espoliação e da superex- ploração da força de trabalho. ini- ciado por Marx e consolidado pro Pachukanis. todavia. tanto se se levar em conta a formulação de David Harvey quanto a teorização de Ruy Mauro Marini. de uma forma jurídica dependente está atrelada às características do processo de subsunção do traba- Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Por outro lada. a teoria marxista da depen- dência. pode-se dizer que o debate sobre a forma jurídica. é preciso não negligenciar os impactos disso para o debate da forma jurídica.2 | n. independentemente de qual ponto de partida geopolítico se assuma. A título de mera exemplificação. precisa encontrar seu pavimento histórico. já que ali a única gordura a se queimar é a do legado de resistências contra explorações e opressões estruturais. globalizando-se também. e por analogia. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais de todo e qualquer âmbito “comum” da vida (da natureza à cultura). trata-se de visuali- zar uma forma jurídica composta por uma relação jurídica dependente. a partir dos duplos movimentos percebidos na atualidade. livres e iguais intercambiadores de mer- cadorias. 2014). Neste artigo. têm sua condição de liberdade e igualdade sombreada pelo contínuo processo de acumulação originária que os acomete. A existência. Ruy Mauro Marini (2000) iden- tificou que a superexporação da força de trabalho (para ele.

que se desdobra em uma práxis jurídica popular que tem por dever apontar para uma estratégia de sua extinção sem descuidar de que. os processos de legalização/legiti- mação dos métodos de apropriação violenta dos recursos naturais e riquezas de toda ordem (desde a terra até o futuro) dão contornos es- peciais ao fenômeno jurídico na periferia do capital. revitaliza-se a necessidade de se pensar sobre o que fazer concre- tamente com o direito. .InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais lho ao capital na periferia do capitalismo. Essa com- preensão despurifica a aparência da relação jurídica. o debate sobre os sentidos da propriedade comum ganha papel de relevo quando se pensa para além de a lógica privatista. aparece a possibilidade/neces- sidade de um uso político tático do direito. da crítica marxista ao direito. já que para além dele não há nada!). então abandone-se pura e simplesmente o campo do direito!) ou o adesismo jurídico (não há o que fazer. assim. coerente com as tendência estruturais do capital. *** 110 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. enquanto isso não acontece há de se considerar um programa de ação política insurgente que o leve em consideração. a abertura propiciada pelo debate acerca de uma acumulação originária permanente ou por espoliação faz decorrer a premência de uma renovação das teorias críticas do direito e. estando defesas duas alternativas opostas: o absenteísmo jurídico (não há que fazer. especialmente. também é verdade que a extração da mais-valia acompanha fluxos e dinâmicas concernentes a objetivos que alçam a transferências de capitais a outros terrenos. mas também a seus espécimes lo- calizados nos centros geopolíticos do modo de produção. Eis que. Se é verdade que a tendên- cia geral é seguida. bem como para além de uma dicotomia absenteísta-adesista. Dentro deste âmbito. então aposte-se integralmente nele.2 | n. por não haver saltos mági- cos. mas também de suas reveladoras (de novas tendências) especificidades geopolíticas. Ao mesmo tem- po. que em sua essência permanece explicável nos mesmos moldes desenhados por Marx e Pachukanis. No entanto. que não os meramente articulados ao detentor do capital. ainda que nela permaneça incubado o ímpeto juridicista. Para além de um justo meio.

2016. após apresentar os sentidos da acumulação originária do capital. incluindo-se neste horizon- te a desafiadora interconexão com estudos da teoria marxista da de- pendência e de suas conseqüências no debate sobre a forma jurídica no capitalismo periférico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON. Tradu- ção de Renato Prelorentzou. após sua apropriação. Perry. tanto no que concerne ao que se pode garimpar no texto do próprio Marx. 111 . como fica nítido nos debates sobre as formas de propriedades pré-capitalistas ou sobre a subsunção formal do trabalho ao capital. em estágio histórico marca- damente antecedente ao da subsunção real. como um primeiro passo. mas não se devendo perder de vista que dimensões embrionárias. O presente ensaio se apresenta. É o caso da polêmica acerca da impossibilidade de se encontrar o direito antes da maturação do capitalista – que deve ser considerado parcialmente verdadeiro. ainda pendente de amadurecimentos e con- firmações. 1978. levando-se em consideração a formulação de uma acumulação originária permanente ou por espoliação. Tradução de Teresa Coutinho. Por fim. Passagens da antiguidade ao feudalismo. no sentido de seu completo desenvolvimen- to. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais Em síntese. que leve em conta tanto a produção teórica marxista quanto a contribuição das teorias sociais latino-americanas.1 | 2016 | ISSN 2447-6684.2 | n. que redundam em uma robusta formu- lação no capítulo 24 de O capital. A transição para o socialismo. aponta-se para os necessários desdobramentos desta tematização para fins de estudo do direito. considerando a indicação inicial de Smith e as sugestões de Marx. assim como a extensão deste debate no tratamento da problemática da transição dos modos de produção. Charles. BETTELHEIM. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. já se encontravam presentes. observa-se uma abertura cabível para o temário que relaciona acumulação originária e direito. São Paulo: UNESP. não secundárias. para estabelecer um contexto de debate crítico sobre o di- reito. SWEEZY. portanto. quanto em discussões subseqüen- tes. Paul. Lisboa: Edições 70.

Tradução de Isabel Didon- net. São Paulo: Do Autor. 8 ed. 2004. Rio de Janeiro: Paz e Terra. _____. Maurice. Em: MARX. Karin Glass.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais COGGIOLA. Traducción de Claudia Composto. DOBB. Tradução de Isabel Didonnet. 5 ed. Friedrich.). Tradução de Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. 2006. Massimo. 2004. DE ANGELIS. 6 ed. Leo. p. 2015. “Marx y la acumulación primitiva: el carác- ter continuo de los ‘cercamientos’ capitalistas”.2 | n. Rio de Janeiro: Zahar. 13-64. p. Buenos Aires: CLACSO. “Uma réplica”. Tradução de João Maia. e outros. São Paulo. Karl. Maurice. A transição do feuda- lismo para o capitalismo: um debate. 1969. Socialist register 2004: o novo desafio imperial. A transição do feudalismo para o capitalismo: um debate. Formações econô- micas pré-capitalistas. 1991. KRÄTKE. LEYS. GODELIER. Em: _____. Barcelona: Ediciones Martinez Rocca. 71-83. “Introdução”. Eric. . “O ‘novo’ imperialismo: acumulação por espoliação”. Buenos Aires: Red Internacional de Estudios sobre Sociedad. Osvaldo. HARVEY. Rodney. julio-diciembre 2012. HILTON. ENGELS. Sobre el modo de prodcción asiático. Em: SCHÜTRUMPF. p.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Karl. “Modo de producción asiático y los esquemas marxistas de evolución de las sociedades”. p. n. Tradução de Isabel Loureiro. Tradução de Rodrigo Rodrigues. Rio de Janeiro: Paz e Terra. História do capitalismo: das origens até a Pri- meira Guerra Mundial. David. Em: ______. 13-67. A evolução do capitalismo. Em: PANITCH. Jörn (org. HOBSBAWM. Colin (eds. “Introdução”. Rosa Luxemburgo ou o preço da liber- dade.). 9-36. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2004. 5 ed. Naturaleza y Desarrollo. MARX. e outros. 26. O novo imperialismo. Tradução de Manuel do Rêgo Braga. 1981. “A herança econômica recalcada”. p. Em: Theomai. São Paulo: Loyola. Em: ______. Michael. 95-125. Kristina Michahelles e 112 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. _____.

p. 2 ed. LANDES. “A menos eurocêntrica de todos”. Rosa. São Paulo: Expressão Popular. A acumulação do capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo – Anticrítica. 11 ed. 1984. Tradução de Marijane Vieira Lisboa e Otto Erich Walter Maas.153-171. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais Monika Ottermann. rev. p.: ERA. 97-107. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. 2010. “La acumulación originaria y la industrialización del tercer mundo”. 269-295. São Paulo: Expressão Popular. 113 . Em: SCHÜTRUMPF. rev. Isabel. Petrópolis: Vozes. Kristina Michahelles e Monika Ottermann. D. p. Tradução de José Paulo Netto. Traduc- ción de Carlos Sevilla. 2015. Karl. 75-85. Fundação Rosa Luxemburgo. Jörn (org. Kristina Michahelles e Monika Ottermann. 2000. Dialética da dependência: uma antologia da obra de Ruy Mauro Marini. LUXEMBURG. Rio de Janeiro: Elsevier. Jörn (org. Ensayos sobre el neocapitalismo.). Michael. e ampl. “Imperialismo ocidental versus comunismo primitivo”. S. 2 ed. São Paulo: Centauro. p. Ernest. Karin Glass.F. 1 reimp. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de formação do mercado interno para a grande indústria. p. São Paulo: Abril Cultural. 2015. Tradução de Álvaro Cabral. MANDEL. rev. Em: SCHÜTRUMPF. LÖWY. Capítulo VI inédito de O capital: resultados do processo de produção imediata. São Paulo: Abril Cultural. II. David. Rosa Luxemburgo ou o preço da liber- dade. e ampl. LOUREIRO. Ruy Mauro. 1971. 2 ed. 2003. MARINI. Vladimir Ilitch. 2 ed. MARX. e ampl. Em: Em: _____. Tradução de Isabel Loureiro. 2015. LÊNIN. Buenos Aires: CLACSO. Karin Glass. Fundação Rosa Luxemburgo.2 | n. A riqueza e a pobreza das nações: por que algu- mas são tão ricas e outras são tão pobres. 1982. Tradução de Isabel Loureiro.). Fundação Rosa Luxemburgo. Em: _____. Tradução de Klaus Von Puchen. Rosa Luxemburgo ou o preço da liber- dade. México. 87-96. São Paulo: Expressão Popular.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. “Processo e tendências da globalização capita- lista”. vol.

2004. Grundrisse – Manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. 2 reimp. Los debates de la Dieta renana. e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. Em: _____.2 | n. III. México. vol. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. _____. preço e lucro. São Paulo: HUCITEC. Friedrich. 2006b. 2011. . _____. 2014.). Gerhard. 69-142. Miriam. tomo 1. Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman. Tradução de Mario Duayer.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais _____. Trabalho assalariado e capital & Salário. Jorge (orgs. 1983. p. São Paulo: Boitempo. _____. Contribuição à crítica da economia política. 2 ed. A ideologia alemã: crítica da novíssima filosofia alemã em seus representantes Feuerbach. PEREIRA FILHO. São Paulo. São Paulo: Abril Cultural. 2007. Camila. ENGELS. Traducción de Juan Luis Ver- mal y Antonia García.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. D. Nélio Schnei- der. _____. Acumulação de capital e demanda efetiva. Kothe. Barcelona: Gedisa. 114 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. Em: Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse): borrador. “Índices de Marx para sus manuscritos de 1957-1859 (1859)”. vol. 2 ed. Em: DILGER. MIGLIOLI. 13 ed. MORENO. livro I. O capital: crítica da economia política – O processo de pro- dução do capital. Tradução de Rubens Enderle.: Siglo Veintiuno. “Salário. Descolonizar o imaginário: debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento. preço e lucro”. “As roupas verdes do rei: economia verde. 219-236. Tradução de Flo- restan Fernandes. 2008. 3. Jorge. 2007. _____. O capital: crítica da economia política – O processo global da produção capitalista. _____. 2006a. São Paulo: Expressão Popular. Tradução de Mar- celo Backes. p. uma nova forma de acumulação primitiva”. São Paulo: Boitempo. 1857-1858. Traducción de Pedro Scaron. B. _____. F. Bauer e Stirner. LANG.

135-152.2 | n. Em: NAVES. D. A questão do direito em Marx. Napo- león. 2007. p. Teoria geral do direito e marxismo. Direito insurgente e movimentos popula- res: o giro descolonial do poder e a crítica marxista ao direito. “Aportes de Rosa Luxemburgo para la crítica (revolucionaria) del derecho”. PAZELLO. Edited by S. Soares. 2016.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. Em: CONDE GAXIOLA.). SMITH. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo. I. ROMERO ESCALANTE. 2000. ROMERO ESCALANTE. “Stalinismo e capitalismo”. Análise marxista e sociedade de transição. vol. 57-73. Durham. Tradução de Luiz João Baraúna. Márcio Bilharinho. 2016. 1983. Tradução de Sílvio Donizete Chagas. Ricardo Prestes. 2014.). An inquiry into the nature and causes of the wealthy of nations. São Paulo: Abril Cul- tural. Márcio Bilharinho (org. 2014. La crítica del derecho desde América Latina. Evgeny Bronislavovich. São Paulo: Aca- dêmica. São Paulo: Moderna. p. Victor. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Dobra Universitário. Campinas: IFCH/ UNICAMP. 2000. Michael. São Paulo: Outras Expressões. Victor (coords. Adam. 115 . The invention of capitalism: classical political economy and the secret history of primitive accumulation. PACHUKANIS. PERELMAN.F. _____. Curitiba: Programa de Pós-Graduação (Doutorado) em Direito da Universidade Federal do Paraná. Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. 256-293. _____. M. London: Duke University Press. _____. 1988. IPDMS – Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais Tradução de Igor Ojeda. Marx: ciência e revolução. Campinas: UNICAMP. 2005. São Paulo: MetaLibri. p.: Horizontes. NAVES. México.

1979. e outros. Traducción de Antonio Resines. SWEEZY. A transi- ção do feudalismo para o capitalismo: um debate. Recebido: 1º/05/2016 Aceito: 30/08/2016 116 Revista InSURgência | Brasília | ano 2 | v. . p. Immanuel. 2004. 2011. vol. Direito e alienação nos Grundrisse de Karl Marx.: Siglo Vein- tiuno. “As características específicas da transição ao comunismo”. Campinas: IFCH/UNICAMP. Márcio Bilharinho (org. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Análise marxista e sociedade de transição. Moisés Alves. Tradução de Isabel Didonnet.InSURgência: revista de direitos e movimentos sociais SOARES.1 | 2016 | ISSN 2447-6684. TURCHETTO. 7-56. Florianópolis: Curso de Pós-Graduação (Mestrado) em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina.2 | n. F. I. WALLERSTEIN. p. Rodney. México. “Uma crítica”. 39-69. D.). Em: NAVES. Maria. 2005. 5 ed. Em: HILTON. El moderno sistema mundial: la agricul- tura capitalista y los orígenes de la economía-mundo europea en el siglo XVI. Paul.