QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?

A necessidade de entender que existem várias mulheres e especificidades

por Djamila Ribeiro — publicado 24/03/2015 13h23, última modificação 24/03/2015 14h26

O feminismo negro começa a ganhar força a partir da segunda onda do feminismo,
entre 1960 e 1980, por conta da fundação da National Black Feminist, nos EUA, em
1973 e porque feministas negras passaram a escrever sobre o tema criando uma
literatura feminista negra. Porém, gosto de dizer que bem antes disso, mulheres negras
já desafiavam o sujeito mulher determinado pelo feminismo.

Em 1851, Sojourner Truth, ex escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso
discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das
Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz: “Aquele homem ali diz
que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas
quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares.
Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me
cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu
braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu
me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um
homem - quando tinha o que comer - e também aguentei as chicotadas! E não sou
uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando
manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma
mulher?”

Ou seja, já anunciava que a situação da mulher negra era radicalmente diferente da
situação da mulher branca. Enquanto àquela época mulheres brancas lutavam pelo
direito ao voto, ao trabalho, mulheres negras lutavam para serem consideradas
pessoas. No Brasil, o feminismo negro começa a ganhar força nos anos 80.
Segundo Núbia Moreira, “A relação das mulheres negras com o movimento feminista
se estabelece a partir do III Encontro Feminista Latino-americano ocorrido em
Bertioga em 1985, de onde emerge a organização atual de mulheres negras com
expressão coletiva com o intuito de adquirir visibilidade política no campo feminista.
A partir daí, surgem os primeiros Coletivos de Mulheres Negras, época em que
aconteceram alguns Encontros Estaduais e Nacionais de mulheres negras.

Patricia Hill Collins e Bell Hooks que produziram e produzem grandes obras e reflexões. Jurema Werneck.cartacapital. se consolida entre as mulheres negras. Em O Segundo sexo Beauvoir diz: “se a questão feminina é tão absurda é porque a arrogância masculina fez dela uma querela e quando as pessoas querelam não raciocinam bem”. só reproduz as velhas e conhecidas lógicas de opressão. a nossa compreensão é que. Audre Lorde. Luiza Bairros Cristiano Rodrigues. um discurso feminista uma vez que em décadas anteriores havia uma rejeição por parte de algumas mulheres negras em aceitar a identidade feminista”. E isso acontecia devido ao fato de não se identificarem com um movimento até então majoritariamente branco e de classe média e pela falta de empatia em perceber que mulheres negras possuem pontos de partidas diferentes. especificidades que precisam ser priorizadas. E eu atualizo para a questão das mulheres negras: se a questão das mulheres negras é tão absurda é porque a arrogância do feminismo branco fez dela uma querela e quando as pessoas querelam não raciocinam bem. em vez de reconhecerem seus privilégios e pontos de partida.com. No entanto.br/blogs/escritorio- feminista/quem-tem-medo-do-feminismo-negro-1920. Beatriz Nascimento. Há grandes estudiosas. o movimento não avança. pensadoras (es) como Sueli Caneiro. Lélia Gonzalez. Núbia Moreira. Em obras sobre feminismo no Brasil é muito comum não encontrarmos nada falando sobre feminismo negro e isso é sintomático. há outras especificidades que nos separam e afastam. a partir do encontro ocorrido em Bertioga. feminismo pra quem? É necessário de uma vez por todas entender que existem várias mulheres contidas nesse ser mulher e romper com essa tentação de universalidade que só exclui. Enquanto feministas brancas tratarem a questão racial como birra. porém. há vestígios de participação de mulheres negras no Encontro Nacional de Mulheres. Texto publicado em: http://www. Existe ainda por parte de muitas feministas brancas uma resistência muito grande em perceber que apesar do gênero nos unir.Em momentos anteriores. realizado em março de 1979.html . disputa.